História e Filosofia: elos e confrontos entre genealogia e hermenêutica na historiografia

Em seu segundo número, a revista Faces da História apresenta o dossiê História e Filosofia: elos e confrontos entre genealogia e hermenêutica.

As interfaces entre história e filosofia sempre se deram de forma mista: por vezes com importantes e produtivas interações; em outros momentos, todavia, uma surdez mútua ou mesmo rejeições caracterizaram esse difícil convívio.

Na historiografia contemporânea, dois importantes filósofos contribuem para a emergência de novas formas de diálogo entre os profissionais de ambas as disciplinas: Michel Foucault e Paul Ricoeur. A genealogia foucaultiana e a hermenêutica ricoeuriana constituem hoje importantes referenciais aos historiadores que se dedicam a uma reflexão crítica dos fundamentos históricos, epistemológicos, políticos e éticos que envolvem a produção e a recepção de um texto historiográfico.

Os trabalhos desenvolvidos por Michel Foucault buscaram, na esteira da genealogia nietzscheana, descrever as relações históricas entre saber e poder. Sua relação com os historiadores inicia-se desde a publicação de seu primeiro livro, História da Loucura na idade clássica, que, um ano após sua publicação, em 1962, recebeu uma resenha junto ao periódico então intitulado Annales. Économies, Sociétés, Civilisations, assinada por Robert Mandrou e Fernand Braudel. Esta relação se intensificou, principalmente, após a década de 1970, com a chamada terceira geração dos Annales. Se, por um lado, historiadores como Jacques Le Goff e Paul Veyne procuraram exaltar os textos de Foucault como um novo modo de pensar e escrever a história, por outro, historiadores como François Dosse e Carlo Ginzburg, por exemplo, não pouparam críticas às suas arqueologias e genealogias, sublinhando que elas possuíam caráter profuso e estetizante.

Ainda que a filosofia foucaultiana não tenha estabelecido bases teórico-metodológicas a serem seguidas, é inegável a presença desse pensamento permeando as discussões recentes tanto em torno do estatuto do saber historiográfico quanto contribuindo com problemas à prática de produção do conhecimento histórico; um uso como caixa de ferramentas, tal como o próprio Foucault propunha a leitura de seus trabalhos.

Quanto a Paul Ricoeur, após a publicação de Tempo e Narrativa (1983- 1985) e, principalmente, após A memória, a história, o esquecimento (2000), sua filosofia tornou-se mais conhecida entre os historiadores, ainda que a apropriação desta pela história seja bastante variável. Autores como Roger Chartier, François Hartog e Antoine Prost referem-se à filosofia ricoeuriana para debater questões ligadas às conexões e divergências entre memória e história, ao papel da narração em história, e para defender o discurso histórico enquanto produção que almeja a verdade, em oposição aos referentes ficcionais. Contudo, essa apropriação se dá ainda de forma parcial, cheia de reticências. Já outros historiadores como François Dosse, Patrick Garcia e Christian Delacroix concedem um espaço bem maior para a filosofia ricoeuriana: o pluralismo interpretativo, o círculo mimético e a hermenêutica histórica tornam-se referenciais em nível fundamental para a produção do conhecimento histórico com estes autores. As apropriações, críticas e dissociações entre a filosofia de Ricoeur e os historiadores são múltiplas e desiguais.

Genealogia e hermenêutica, portanto, tornam-se duas efêmeras rubricas. Elas cumprem o esforço de construir uma direção, ainda que provisória, a um conjunto de relações diversificadas entre a filosofia e a história. Relações estas que não se fiam somente nas figuras de Foucault e Ricouer.

Poderíamos, diacronicamente, nos remeter também aos diálogos e críticas de Friedrich Nietzsche a Friedrich Schleiermacher, aos debates suscitados por Wilhelm Dilthey, à crítica documental da escola metódica, à sociologia de Max Weber, às leituras desiguais da obra de Martin Heidegger por Hans-Georg Gadamer e pelos próprios Michel Foucault e Paul Ricoeur, a filosofia de Gilles Deleuze; enfim, as ressonâncias entre genealogia, hermenêutica, História e Filosofia são inúmeras e fundamentais para a historiografia contemporânea.

Os quatro artigos reunidos neste dossiê, assim, demonstram o quão múltiplas são as temáticas e as abordagens possíveis.

De início, temos a contribuição de Fabrício Pinto Monteiro que, a partir das memórias de alguns autores / militantes do chamado anarquismo pós-estruturalista, procura pensar as interfaces entre propostas políticas e formas de escrita da história. Para isso, perpassa pelas narrativas de diversos autores – cuja orientação política se alinha a essa renovação da política ácrata emergente na segunda metade do século XX -, e destaca a importância que os pensamentos de Max Stirner, Friedrich Nietzsche e Michel Foucault tiveram na constituição dos trabalhos desses intelectuais.

As relações entre a intelectualidade e a sociedade são o principal eixo da reflexão desenvolvida por Diogo Quirim. O autor propõe discutir o papel do intelectual a partir de uma perspectiva que não o aparte de sua imersão na sociedade e no tempo. O texto perfaz um duplo movimento: em primeiro lugar, o autor se debruça sobre o mito da caverna, de Platão, e sugere, como alternativa a esta imagem, a noção de kairós – oportunidade, ocasião ou circunstância particular -, de Isócrates, que propõe uma filosofia que não precisaria afastar- se da multidão para ter sua legitimidade; em seguida, esse debate é atualizado em função das diferentes formas pelas quais Carlo Ginzburg e Dominick LaCapra compreendem a historiografia.

Lucas Almeida Pereira, em seu texto O ser e a história: Uma análise da ontologia histórica em A memória, a história, o esquecimento de Paul Ricoeur, trata de um tema essencial para a historiografia contemporânea: a ontologia histórica de Ricoeur. Os debates epistemológicos dos historiadores há muito contornam as questões ontológicas, seja em função do distanciamento que se estabeleceu entre história e filosofia ao longo do século passado, seja para evitar os conflitos relacionados às teorias da história. O autor aborda com bastante clareza os temas da memória, narrativa, ontologia e representância na filosofia de Ricoeur e apresenta as possibilidades abertas por esses debates aos historiadores de ofício.

O artigo intitulado O Conceito Dialético de Interpretação na Filosofia Hermenêutica de Paul Ricoeur, de Filipe Caldas O. Passos, organiza-se em torno da filosofia de Ricoeur e da forma como ela abre espaço para vários níveis de análise, diferenciando-se por isso tanto da tradição hermenêutica quanto da tradição crítica. Demonstra tal objetivo a partir de certo elo que Ricoeur estabelece entre epistemologia e ontologia, tendo como foco o conceito de interpretação e os níveis dialéticos relativos a essa operação.

Além desses quatro artigos, João Rodolfo Munhoz Ohara nos apresenta sua tradução ao texto Tudo está estremecido: por que a filosofia da história floresce em tempos de crise?, de Hermann Paul – professor de Teoria da História da Universidade de Leiden, Holanda.

Por fim, o dossiê encerra-se com a entrevista do professor Dr. José Carlos Reis. Professor da Universidade Federal de Minas Gerias e com uma vasta contribuição bibliográfica às áreas de Teoria e Filosofia da História e História da Historiografia, Reis aborda o tema com o conhecimento de quem se dedica já há um bom à área. As questões abordadas são tratadas de forma franca e com a clareza que uma entrevista deve comportar. Sem dúvida uma contribuição impar para os estudantes e pesquisadores da área de Teoria e Filosofia da História.

Boa leitura!

Assis, 20 de dezembro de 2014

Hélio Rebello Cardoso Júnior

Rodrigo Bianchini Cracco

Tiago Viotto da Silva

Editores


CARDOSO JÚNIOR, Hélio Rebello; CRACCO, Rodrigo Bianchini; SILVA, Tiago Viotto da. Apresentação. Faces da História, Assis, v.1, n.2, jul / dez, 2014. Acessar publicação original [DR]

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