História e saberes médicos | SÆCULUM – Revista de História | 2014

Narrativas possíveis. Representações elaboradas por homens e mulheres, por sujeitos diversos sobre o saber médico e religioso, acerca de questões como saúde, doença, eugenia e higiene. Nesta perspectiva, esta edição da Sæculum apresenta o dossiê “História e Saberes Médicos”, que traz um conjunto de significativos debates históricos e historiográficos sobre corpo enfermo, corpo saudável, corpo médico, práticas religiosas da população e suas relações com discursos de cura.

No primeiro artigo, “Saúde e salvação: questões de fundo e três cosmovisões religiosas acerca da cura”, Marcelo Lopes revisitou uma temática bastante cara aos pesquisadores e demais estudiosos que se dedicam a investigar a História das Religiões a partir do viés da cura religiosa, recortando a concepção curativa na religião da Mesopotâmia, do antigo Egito e do extremo Oriente.

Os internatos ganharam visibilidade no artigo de Joaquim Tavares da Conceição, intitulado “O olhar da Medicina sobre os internatos (1840-1927)”. Nele o autor analisa, através das teses médicas defendidas na Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro entre 1840 e 1927, como o modelo institucional do internato é abordado e como são discutidos assuntos como as condições higiênicas do local e do espaço do colégio-internato, condições de matrícula, asseio pessoal e do ambiente, alimentação, vestimentas, prevenção de doenças, vícios, educação (física, moral e intelectual), castigos físicos, fases da vida, entre outros.

O fanatismo religioso e o curandeirismo deram a tônica do artigo apresentado por Daniel Luciano Gevehr, sob o título “Fanatismo religioso e curandeirismo na Colônia Alemã de São Leopoldo: a (im)posição das ideias daqueles que (re) escrevem a (sua) História (1868-1874)”, em que discute o processo que envolveu a produção e difusão dos primeiros registros historiográficos a respeito dos líderes do movimento Mucker em São Leopoldo, Jacobina e João Jorge Maurer. Para tanto, o autor se valeu dos escritos produzidos por três autores: o intelectual Karl Von Koseritz, o militar Francisco de Santiago Dantas e o jesuíta Ambrósio Schupp.

A Paraíba do século XIX foi alvo das análises de Nayana Rodrigues Cordeiro Mariano em “A Parahyba do Norte e a Exposição Internacional de Higiene e Educação em Londres (1884)”, onde é problematizado como as normas de natureza médica estiveram presentes na fabricação de uma dada concepção de educação escolar. Assim, ações como limpar a escola, varrer a sala todos os dias, manter as janelas abertas, fazer o ar circular, lavar o rosto e as mãos, fazer revistas de asseio nos alunos, ser vacinado e provar não ter moléstia contagiosa, construir edificações amplas, arejadas, ensolaradas, calmas e higiênicas, abastecidas de materiais, utensílios e água, edificações separadas da privacidade do lar dos professores faziam parte de um cotidiano praticado por alunos e professores paraibanos.

A fim de pensar as relações entre saber médico e saber antropológico na Bahia do final do século XIX, Vanda Fortuna Serafim busca, em “As crenças e culturas afro-brasileiras como objeto do saber médico em Nina Rodrigues (Bahia – século XIX)”, compreender o pensamento médico de Raimundo Nina Rodrigues, tomando como fonte histórica a obra Os africanos no Brasil, de 1932. A autora atenta-se, especificamente, para a forma como o intelectual baiano se apropriou do conceito de sobrevivência de E. B. Tylor para tecer uma análise da realidade sociocultural do Brasil, investigando três formas de sua manifestação: as festas populares, as crenças religiosas e o crime.

Em “Parteiras mineiras oitocentistas: entre a institucionalização e as práticas costumeiras”, artigo de autoria de Vera Lúcia Caixeta, Michel de Certeau inspira a narrativa que versa sobre o mundo das parteiras mineiras oitocentistas. Ao compreender a História como um discurso construído sobre o passado, fruto do trabalho de historiadores inseridos no seu tempo e dentro das suas condições de produção, Vera apresenta-nos uma importante análise acerca do ofício de “partejar” nas Minas Gerais do século XIX, problematizando como e quando surgiram no Brasil os discursos desclassificatórios sobre o ofício das parteiras.

Azemar Santos Soares Jr. e Ramon L. Cavalcanti Arruda dão visibilidade aos discursos médico-higienistas na Paraíba das primeiras décadas do século XX em “Sobre a necessidade de cuidar da perfeita educação”: Flávio Maroja e sua política médico-pedagógica”. Inspirados pela História Cultural, os autores discutem a contribuição médico-sanitária e política de Maroja para a Paraíba, bem como reforçam a importância da produção historiográfica no campo da História da Saúde e das Doenças, área que vem se consolidando sobremaneira hoje no nosso país. Assim, libertos da malha asfixiante do exclusivismo proposto pelo campo político-institucional, os autores dão um enfoque cultural a partir da atuação sanitária, suas reivindicações e denúncias, o saber colocado em circulação e os projetos médico-pedagógicos defendidos durante sua vida.

O Gabinete de Biologia Criminal e o Serviço de Atendimento aos Psicopatas em Sergipe: aproximações entre a história da educação e a medicina” é o artigo escrito por Kátia Regina Lopes Costa, Alessandro Araújo Mendes e Anamaria Gonçalves Bueno de Freitas, no qual apresentam algumas discussões sobre os “anormais”, o papel ocupado pela disciplina nos discursos educacionais do período, a inauguração dos Laboratórios Experimentais no Rio de Janeiro e em São Paulo e a relação com o movimento da Escola Nova. Além disso, estudam a inauguração do Gabinete de Biologia em Sergipe e o Serviço de Atendimento aos Psicopatas, analisando algumas fontes documentais que apresentam e representam o menor “anormal”.

A bucalidade, por sua vez, é discutida no artigo escrito por Iranilson Buriti de Oliveira. Em “Pedagogias da boca: educação, saúde e produção de corpos saudáveis (Brasil e Colômbia, 1918-1946)”, o autor estuda as aproximações e a circulação de ideias educativas em torno da saúde bucal no Brasil e na Colômbia no período compreendido entre 1918 e 1946, colocando em suspeição os discursos do período supracitado, emitidos por médicos, cirurgiões dentistas, educadores e autoridades públicas que escreviam na História vários enunciados sobre as identidades dos sujeitos.

Em “Suicídio e Medicina: o suicídio visto pelo saber médico durante a década de 1920”, Pedro Frederico Falk relata as nuances das teses médicas da época dedicadas especificamente ao campo do suicídio e eutanásia. Para tanto, toma como base uma pesquisa qualitativa e leituras dos campos da História Social, da História da Medicina e da História Cultural.

Severino Cabral Filho, em “O medo da morte e os seus escritos: Campina Grande, décadas de 1930 e 1940”, investiga em que medida o medo da morte se refletiu nas representações dadas a ver nos escritos de jornalistas e médicos paraibanos, particularmente os da cidade de Campina Grande, Paraíba, durante as décadas de 1930 e 1940. O autor busca, ainda, compreender como esse medo manifesto impactou na gestão pública no tocante à implementação de obras sanitárias estruturantes para a cidade.

As “Terapias biológicas e a prática da lobotomia nos hospitais psiquiátricos de Pernambuco na primeira metade do século XX” ganham discursividade nos escritos de Carlos Cunha Miranda, que discute as terapias convulsoterápicas e a utilização da leucotomia e da lobotomia nos hospitais psiquiátricos de Pernambuco durante a primeira metade do século XX.

Em “Diálogos entre Mário Magalhães e Josué de Castro: a questão ‘Saúde e Desenvolvimento’ nos anos 1950 e 1960”, de Isabelle Maria M. de Araújo e Heloísa Maria M. de Morais, se dá destaque às concepções teóricas sobre a questão “saúde e desenvolvimento” no pensamento sanitário de Mário Magalhães e Josué de Castro. Para tal, as autoras desenvolvem uma revisão crítica da literatura sobre a produção textual dos intelectuais, enfocando os livros Geografia da Fome e A estratégia do desenvolvimento, de Josué de Castro, e o livro A trindade desvelada: economia, saúde e população de Mário Magalhães.

Enfim, encerrando o dossiê, Wagner Emmanoel Santos discute, em “A medicina no interior das fábricas têxteis sergipanas (1940-1960)”, como atuavam os profissionais da saúde no interior das unidades fabris de Sergipe durante as décadas de 1940 a 1960. Assim, o autor estrutura sua narrativa a partir do conceito de poder disciplinar proposto por Michel Foucault, que afirmava que existia um controle constante dentro das fábricas e em outras instituições. As fontes utilizadas foram periódicos, revista e processos trabalhistas.

Na seção de artigos livres, esta edição traz cinco textos que demonstram bem a diversidade de campos, temas, subjetividades e possibilidades de pesquisa que vem sendo exercitadas entre os pesquisadores que veem na Sæculum um veículo acadêmico importante para a divulgação de seus trabalhos.

O primeiro deles, “Memória e relato histórico nos ‘Commentarii de Bello Gallico’ de Júlio César”, de Edilane Vitório Cardoso faz uma análise historiográfica sobre o discurso histórico e a escrita da História na Antiguidade, tendo como objeto a obra clássica do general e depois ditador romano Júlio César.

Em “Ibn Khaldun e a história como ciência social: além das dinâmicas políticas e econômicas, uma perspectiva interdisciplinar”, Giovanni Patriarca pretende propiciar uma visão geral e comparativa do pensamento econômico e sociológico de Ibn Khaldun, intelectual islâmico nascido no norte da África no século XIV, apresentando-o como um precursor das modernas ciências políticas e sociais.

César Augusto Bubolz Queirós, com seu artigo intitulado “Rivalidades e antagonismos: as relações entre grevistas e fura-greves nos movimentos paredistas em Porto Alegre (1917-1919)”, nos traz de volta ao século XX e aos conflitos trabalhistas no Brasil da Primeira República, tendo como fonte a imprensa operária e de notícias da capital rio-grandense naquele período.

Avançando um pouco mais no século XX, Paulo Giovani Antonino Nunes, com “Ataque ao parlamento: as cassações de mandatos durante a ditadura militar no estado da Paraíba (1964-1969)”, mostra as peculiaridades da ação repressiva dos  governos militares aos parlamentares na Paraíba, tendo como fontes os inquéritos policiais militares, a imprensa da época e os trabalhos recentes da Comissão da Verdade e Preservação da Memória do Estado da Paraíba.

Por fim, encerrando esta edição, Kyara Maria Almeida Vieira, em “Cassandra Rios: entre a vida que continua pulsando e a morte anunciada”, apresenta uma análise sensível sobre os últimos dias e a escrita da escritora brasileira, incluindo sua visão sobre a doença que a fustigava e a morte que se anunciava.

Portanto, convidamos o leitor para ler e dar a ler essas narrativas, que apresentam e representam os mais vários temas ligados aos fazeres históricos. São modos de ver de diferentes regiões, temporalidades e sensibilidades que habitam as múltiplas searas de Clio. Boa leitura.


Organizador

Iranilson Buriti de Oliveira – UFCG.


Referências desta apresentação

Comissão Editorial. Editorial. SÆCULUM – Revista de História. João Pessoa, n. 31, p.7-10, jul./ dez. 2014. Acessar publicação original [DR]

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