História & Teatro | ArtCultura | 2005

Muitas vezes o melhor drama está no espectador e não no palco.

Machado de Assis

A revista ArtCultura apresenta, neste número, um dossiê sobre História & Teatro, uma tradução, cinco artigos e duas resenhas. Como organizadora do dossiê, gostaria de destacar que a reflexão sobre teatro não implica tão-somente uma abordagem da escritura teatral. Para além desta, temos o autor, os atores, os críticos e o público. A epígrafe citada — retirada do conto “A chinela turca”, escrito em 1875 — recupera exatamente essa idéia. Afinal, os diferentes canais de leitura e de recepção estão sintonizados, cada vez mais, com a arte dramática.

Os quatro primeiros artigos avançam do século XVI à primeira metade do século XX. Eles põem em destaque gêneros teatrais não só distintos como aparentados. Orna Messer Levin acompanha a presença do entremez no eixo Brasil–Portugal e sua disseminação como gênero editorial, resultado do crescimento da atividade tipográfica e da leitura de folhetos impressos. Ezio Bittencourt discute o teatro ligeiro musicado nos palcos do Rio Grande do Sul, no século XIX, a partir das companhias artísticas internacionais e nacionais que freqüentaram os teatros sulinos bem como dos autores e das obras encenadas. Tomando por base algumas peças, Antonio Herculano Lopes também focaliza o teatro musical ligeiro, no caso do Rio de Janeiro das décadas de 1910 e 1920, e, ao tratar dessa manifestação tão desprezada pela crítica e pela historiografia teatral, dá ênfase sobretudo aos processos culturais e às relações raciais. Já Vera Collaço aborda o universo das personagens cômicas que ganharam sustentação ao serem encenadas por um grupo de operários de Santa Catarina durante os anos 1930, trazendo à tona suas sensibilidades e seu imaginário.

Os textos seguintes englobam uma discussão que reúne dois temas: o da recepção e o da militância e/ou do engajamento social. Luiz Humberto Martins Arantes incursiona pela questão da recepção teatral, tendo como alvo Jorge Andrade e sua dramaturgia, nos anos de 1950 e 1960. Para tanto, coloca no centro da análise a relação autor/obra e leitor/expectador. Maria Sílvia Betti — embasada no crítico Fredric Jameson — discorre sobre a atualidade do método de pensamento e de trabalho de Bertolt Brecht. Alia a esta premissa a proposta de uma rediscussão da atualidade do trabalho e do pensamento crítico de Oduvaldo Vianna Filho. Kátia Rodrigues Paranhos examina dois grupos de teatro operário no ABC paulista, salientando a importância da militância no pós-1964, o processo de criação coletiva, a aproximação entre operários, intelectuais e artistas de esquerda e a sua atuação na periferia urbana. Victor Hugo Adler Pereira fecha o debate ao relacionar os movimentos cênicos ocorridos entre 1964 e 1968, de resistência ou protesto contra o regime militar, e os que vêm crescendo desde os anos de 1990, que exprimem uma denúncia da exclusão social sem que ela implique uma contestação da lógica do capital.

Na seção Tradução, Elizabeth Wilson procura capturar o sentido da presença da mulher na esfera pública no século XIX, na Inglaterra e na França. Ela aponta para o deslocamento da identidade do flâneur do masculino para o feminino ao chamar a atenção para a história da feminização dos modos da flânerie, essa elemento-chave na literatura crítica da modernidade e da urbanização.

A seção Artigos é aberta por Mônica Pimenta Velloso, que passa em revista a constituição das falas da cidade do Rio de Janeiro, ao promover o cruzamento polissêmico de sons, imagens e grafias, na busca da compreensão da pluralidade de sentidos que marcam o processo de conflitos e negociações em torno da identidade cultural carioca no início do século XX. Luiza Mara Braga Martins se atém a esse mesmo território e nos transporta para os anos 1930, colocando no centro da análise o imaginário social que o samba pôs em movimento. Suas referências básicas são os músicos Lamartine Babo, Noel Rosa e Assis Valente, vistos como criadores da imagem de um Brasil folião que procedem à desconstrução de certos símbolos nacionais. Em seguida, saltando várias décadas, José Roberto Zan nos conduz aos anos 1970 para iluminar o pano de fundo e a boca da cena em que surge, ainda no Rio de Janeiro, “cidade do samba”, a Banda Black Rio, um ícone do “samba-funk” e do “soul brasileiro”, em tempos de “milagre econômico” e de redefinição global das estratégicas do marketing fonográfico.

Na seqüência, temos ainda dois artigos que enveredam pelos mundos da produção artística. Artur Freitas levanta o tema da validade e do alcance da noção de autonomia social da arte. Entrecruza tal discussão com a formação inicial do moderno campo da arte no Brasil e, depois, com a sua crescente institucionalização no atual cenário neoliberal. Por outro lado, a partir de uma série de documentos escritos, orais e visuais, Maria de Fátima Morethy Couto e Lígia Luciene Rodrigues analisam a importância da obra de Siron Franco e sua série Césio, incluindo o exame iconográfico de algumas obras desse conjunto.

A edição se completa com duas resenhas assinadas por Luciene Lehmkuhl e Rosângela Miranda Cherem que enfocam, respectivamente, livros escritos por José Emilio Burucúa e Raúl Antelo.

Boa leitura.


Organizadora

Kátia Rodrigues Paranhos – Editora.


Referências desta apresentação

PARANHOS, Kátia Rodrigues. Apresentação. ArtCultura. Uberlândia, v.7, n. 11, jul./dez. 2005. Acessar publicação original [DR]

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