Percursos históricos: ciência, tecnologia e meio ambiente / Dimensões / 2018

Este dossiê especial da Revista Dimensões conduz o leitor, a partir da ciência histórica, a direcionar sua atenção para uma visão interligada de temas sempre atuais: ciência, tecnologia e meio ambiente. Com artigos que abarcam o início desses temas no mundo da história, a partir do século XVIII, as discussões propostas objetivam revelar as transformações nas sociedades, entrelaçadas com os impactos provocados pela ciência e tecnologia nos diversos meio ambientes, seja no cotidiano urbano ou rural.

Os constantes avanços na ciência e na tecnologia ao longo dos anos trazem novos desafios e oportunidades na construção da historiografia que se dedica a esses temas. A necessidade de compreender a fase atual do desenvolvimento global, provocada por esses avanços, traz consigo uma certa urgência: o impacto crescente no meio ambiente de todas as sociedades e suas muitas ramificações. Não falamos aqui apenas dos impactos sociais, econômicos e culturais, mas também do processo de politização da ciência ambiental, que carece de uma análise mais aprofundada.

A problemática tecnológica na obra do intelectual português Antônio José Saraiva é discutida no primeiro artigo do dossiê do Prof. Tiago Rego Ramalho, da Universidade Nova de Lisboa. A partir das reflexões do intelectual sobre os conceitos de cultura, história e progresso, a modernidade tecnológica é questionada. O autor faz uma reflexão sobre a construção desses conceitos e suas mutações.

Discutindo a relação entre saber e poder, e ciência e administração imperial, no final do século XVIII e início do XIX, no Império português, a Profa. Patrícia Merlo, da Universidade Federal do Espírito Santo, propõe uma intrigante discussão. A partir das Memórias Econômicas da Academia Real das Sciencias de Lisboa para o Adiantamento da Agricultura, das Artes, e da Indústria em Portugal, e suas Conquistas (1789-1815), o artigo defende que a produção científica veiculada pelas Memórias incorporou o entendimento dos conhecimentos produzidos como alicerces para processos modernizadores de Portugal e do Ultramar. Essa análise estabelece uma conexão entre as demandas do Império e as produções dos acadêmicos.

Dois artigos se inserem na esfera das ciências da saúde. No primeiro, o pesquisador Daniel Dutra, da Universidade Federal do Rio de Janeiro, explicita os entrelaçamentos entre dinâmicas ecológicas, produção de conhecimento e configuração de Estados, a partir da análise do colonialismo francês, nas Antilhas, elencando como objeto a febre amarela enquanto problema colonial. Foca sua discussão no controle do movimento de populações nas diferenças de relevo das ilhas, como medida colonial mais importante para enfrentar o problema da febre amarela. A seguir, o Prof. Éder Mendes de Paula, da Faculdade Evangélica de Goianésia, analisa como o ideal de modernidade foi aplicado no estado de Goiás, utilizando-se da relação entre os discursos médico-psiquiátrico e o político. A discussão se desenrola na busca pela lógica nas conexões entre saúde, política e poder.

O pesquisador Luiz Cambraia da Silva, da Universidade Estadual Paulista, nos transporta para o ambiente da historiografia da ciência, analisando diferentes possibilidades, teórico-metodológicas, para o historiador interessado em empreender uma pesquisa na área da História da Historiografia da Ciência. Reflete sobre possíveis caminhos metodológicos para o pesquisador, sugerindo que o trabalho no campo da História da Historiografia da Ciência não apenas proporciona experiências de historicização, mas também lança novas possibilidades de compreensão quanto ao desenvolvimento historiográfico da ciência.

Encerrando o dossiê, o Prof. Felipe Cruz, da Tulane University, entrelaça os temas da ciência, tecnologia e meio ambiente, numa perspectiva histórica, trazendo uma análise diferenciada sobre a história de como os homens tem mapeado e conceituado geograficamente o espaço, e seus eventuais efeitos sobre o meio ambiente. Focando a história do mapeamento, da aeronáutica e dos voos ao espaço, o artigo explora como a ciência e a tecnologia tem sido empregada pelo governo brasileiro na conquista das fronteiras, especialmente da Amazônia. Analisa, finalmente, como as imagens de satélites são usadas para reforçar as leis ambientais, e as mudanças provocadas por essa sistemática.

Esses estudos contribuem no preenchimento de uma lacuna historiográfica no estudo desses temas, assim como nos ajudam a entender a história global da ciência, da tecnologia e do meio ambiente, relacionadas com as transformações sociais. Também nos dão suporte no entendimento de como o desenvolvimento tecnológico e científico afetam a cultura, a política e as sociedades.

Professor Doutor Jadir Peçanha Rostoldo

Organizador


ROSTOLDO, Jadir Peçanha. Apresentação. Dimensões. Vitória, n.41, 2018. Acessar publicação original [DR]

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