Práticas de Memória, Patrimônio e Ensino de História / História Hoje / 2014

Por que seguir pensando, hoje em dia, nas conexões entre práticas de memória, patrimônio e Ensino de História?

Este dossiê propõe – para o público em geral e especialmente para professores e educadores – reflexões orientadas à qualificação do debate acerca dos modos plurais de interpretar, provocar experiências e buscar modos de significação do patrimônio material e imaterial diante da desafiadora tarefa de ensinar História na contemporaneidade. Trata-se de algo que, para nós, suas organizadoras, envolve o enfrentamento de uma discussão crivada pelas práticas de memória que ensejam sentidos múltiplos aos bens culturais no Ensino de História. Partimos, para concebê-lo, de uma aposta teórica central: a de que o saber histórico escolar não se faz só a partir da operação histórica, mas exatamente no espaço limiar, estabelecido por trânsitos e passagens, entre a História e a Memória.

Em diferentes pontos do país e do mundo assiste-se hoje a disputas pela memória envolvendo os processos patrimoniais, provocadas pela especulação imobiliária, pelas seduções do turismo predatório e pela exigência de modernização como condição de garantia de um lugar no curso da história. Ao mesmo tempo, evidenciam-se “ilhas de história”, por meio das quais se intenciona garantir o direito ao passado e as condições de criação da memória histórica: os monumentos, os marcos de patrimônio, os objetos celebrativos, as cidades históricas… instaura-se uma dinâmica de vida e morte nessa realidade às voltas com os ditames da modernidade e com os compromissos com o legado histórico, com repercussões nos modos de viver, sentir, pensar e agir dos sujeitos no tempo presente.

Parece-nos urgente, em termos sociais, ampliar as discussões a respeito dos sentidos conferidos pelos sujeitos à sua experiência de transitar pelas cidades nas quais vivem, evidenciando lutas pelo patrimônio, dinâmicas de destruição e salvaguarda e a complexa relação estabelecida por crianças e jovens no trato com a memória.

Trabalhando com noção ampliada de território educativo, buscamos selecionar pesquisadores que pudessem colocar em perspectiva variados percursos formativos em ruas, praças e museus em diferentes cidades, convocando análises que articulam os processos sociais de configuração de memórias e histórias a partir do cotidiano da vida nas cidades. Cremos que somente tendo em vista a compreensão de que há muitas cidades dentro de uma cidade se torna possível provocar reflexões e práticas educativas em torno das experiências sociais e relações intersubjetivas com os monumentos públicos, colocando em perspectiva os desafios postos à promoção do Ensino de História e das práticas escolares de forma reflexiva, sensível e engajada.

Nesse contexto, as seleções culturais – o que lembrar, o que relegar ao esquecimento – sofrem alterações de perspectiva, ensejadas por debates recentes (embora candentes na longa duração) a respeito da diversidade cultural e do direito à memória sob diferentes convocações, não somente aquelas orientadas pelos sentidos de pertencimento à nação, mas sobretudo, neste momento, aquelas vinculadas à vida de populações sub-representadas, como as populações indígenas, do campo e afro-brasileiras.

Acreditamos também que este Dossiê justifica-se pela premência do debate relativo aos modos de seleção e usufruto cultural estabelecidos na contemporaneidade para promoção de relações educativas significativas, reflexivas e sensíveis no Ensino de História, proporcionando o conhecimento de projetos potentes em andamento no país e no exterior sobre as práticas de memória e suas perspectivas para compreensão dos processos patrimoniais influenciados sobretudo pelo debate relativo ao respeito à diversidade e ao direito à história. Nesse novo contexto, sujeitos e populações invisibilizados na história – crianças, idosos, moradores de pequenas cidades, transeuntes anônimos, populações do campo e afrodescendentes – protagonizam processos educativos marcados por renovadas maneiras de promoção da relação com os bens culturais, pondo em evidência outros modos de viver a partilha do mundo e do sensível, enlaçando, de modo diverso, a relação presente e passado.

Marcados pelas convocações do tempo presente, os diferentes sujeitos – suas práticas de deslocamento, suas criações e inquirições à história – convocam-nos a pluralizar os sentidos da memória à aprendizagem da cultura, pondo no centro do debate modos renovados de relação com o patrimônio e, portanto, com o mundo disposto no limiar entre o devir e o porvir.

Nutridas por esse conjunto de preocupações, buscamos agrupar pesquisadores cujas contribuições nos auxiliem a refletir sobre o Plural de Patrimônio. Com isso, consideramos o quanto tem sido necessário, nos dias de hoje, em face dos múltiplos desafios sociais enfrentados em nossa experiência urbana, pensar em saberes e práticas de patrimônio que sejam capazes de transcender a dimensão da mera prescrição e colocar na cena principal do foco educativo a relação que os sujeitos, em suas práticas cotidianas, estabelecem e podem vir a estabelecer com a Memória e o Patrimônio.

Os textos que compõem este dossiê foram agrupados por nós em três partes. Na primeira parte artigos temáticos colocaram foco sobre diferentes modos pelos quais os atravessamentos entre Memória e História comparecem no ensino de História e configuram o saber escolar. Discutem, ainda, trânsitos possíveis entre os saberes escolares e aqueles provocados pela atuação profissional em espaços educativos.

Abrindo o dossiê, Marizete Lucini nos apresenta um texto que, olhando um movimento social específico, nos convoca a pensar que a Memória apropriada por um grupo constitui seu patrimônio material e imaterial. Assim, a professora apresenta uma densa reflexão no âmbito da fenomenologia da Memória proposta por Paul Ricoeur, convocando-nos a refletir sobre a memória produzida na prática social como patrimônio de homens e mulheres integrantes do MST na luta pela terra.

Ricardo Oriá convoca-nos a refletir sobre o fato de que a praça pública pode constituir-se como território problematizador de sentidos históricos plurais, evidenciando a relação história e memória por meio dos gestos de museificação e patrimonialização, que incorporam seleções históricas, no caso específico, consideradas capazes de simbolizar a República e seu projeto de nação. O autor parte da consideração de que os panteões, nas cidades, configuram-se como museus a céu aberto, abordando em especial as potencialidades mnemônicas, educativas e políticas da praça pública. Sua reflexão deixa- -nos fios abertos para, talvez, conduzirmos nossos estudantes, em outras tantas cidades, a imaginarem outros panteões, bem como outros heróis possíveis.

Rosiane Ribeiro Bechler e Júnia Sales Pereira deslizam por diferentes sentidos atribuídos à ideia de “cidade histórica mineira” incitando-nos a refletir sobre em que medida a evocação de uma temporalidade única como substrato do que seria a dimensão do histórico provoca efeitos específicos em torno de uma ideia de patrimonialização. Explorando os achados de uma pesquisa convertida em dissertação de Mestrado defendida junto ao Programa de PósGraduação em Educação da UFMG, as autoras nos demonstram que, muitas vezes, essa temporalidade canônica, que canibaliza o tempo em um único passado, silencia outras temporalidades, outros sujeitos, outras memórias. Ao fazê-lo, consequentemente, alija múltiplas cidades do status de um conhecimento reconhecido como legítimo. Desse modo, as autoras buscam problematizar a univocidade desse sentido produzido em torno da ideia do “histórico”. Consequentemente, o reverso desse sentido nos conduz à compreensão da potência educativa da plurivocidade quando evocada a dimensão do patrimônio material das cidades, de modo associado às práticas sociais nela constituídas no curso de tempos múltiplos.

Maria Fernanda van Erven e Sonia Regina Miranda também apresentam resultados de uma pesquisa de Mestrado, esta realizada junto ao Programa de Pós-Graduação em Educação da UFJF. Explorando o tema de como as crianças compreendem e deslizam pelo espaço museal, as autoras buscam refletir sobre os modos pelos quais se estabelecem relações entre o sujeito visitante, o museu, os objetos musealizados e seu entorno espacial. Buscou-se cartografar, naquela pesquisa, os sujeitos em suas reações, processos de leitura, comportamentos e emoções despertados e disparados pelo cenário de diferentes museus. Trata-se de um trabalho que reitera a necessidade de se compreender o movimento de crianças descobrindo diferentes museus e os sentidos provocados por esses espaços a partir da evocação de múltiplos enunciados, tanto por parte dos discursos pedagógicos instituídos, quanto por parte dos processos de leitura disparados pelos sujeitos visitantes. O artigo nos convoca à compreensão de que o discurso museológico não é monovalente, na medida em que encontra vozes, pensamentos, sentimentos e reflexões de diversos sujeitos, numa relação permanentemente dialógica.

Um acontecimento singular na cidade de Londrina é o mote utilizado por Sandra Regina Ferreira Oliveira para discutir os movimentos e diálogos mobilizados entre uma professora e seus alunos diante das reações despertadas por uma loja de artigos de umbanda. Naquele lugar, tão comum em inúmeras outras cidades brasileiras, estátuas do “Pai João” e da “Mãe Maria”, dispostas há mais de 30 anos numa cidade com menos de 80 anos chamaram a atenção da professora, das crianças e, sobretudo, da pesquisadora que converteu um evento cotidiano em fator reflexivo acerca das relações entre a memória, o local, o tempo e o espaço no qual se tecem as ações das mulheres e homens comuns na feitura diária da vida.

O cotidiano das pessoas – e consequentemente a sensibilidade fundamental ensejada pela descoberta de que nossa condição humana reside em nossa condição histórica – é também o eixo de outro de nossos artigos: aquele produzido por Kênia Sousa Rios, que discutiu sua experiência como professora em uma turma de estudantes de história no interior de um Museu, deparando com o tema do amor romântico como objeto de reflexão historiográfica. A autora nos apresenta, em seu texto, reflexões sobre modos pelos quais a oralidade, a escrita e a cultura material se constituem como dispositivos mnemônicos historicamente localizados. Ao incorporar os debates sobre os usos do passado, o texto leva em consideração as atuais reflexões sobre a teoria da história, com destaque especial para o conceito de “regimes de historicidade” e “lugares de memória”. Trata-se de um estudo a respeito da produção social da memória como parte dos acordos e das tensões que, a partir de um presente determinado, estabelecem vínculos com o passado e o futuro. Assim entendida, a memória social emerge na qualidade de dispositivo que dá sentido aos modos pelos quais as temporalidades são configuradas.

A narrativa de luta, construção e manutenção de um museu comunitário, símbolo de um projeto de resistência e de produção de outras memórias possíveis, é o eixo que permeia o relato da experiência trazido no texto de Claudia Rose Ribeiro da Silva e Miriane da Costa Peregrino. O Museu da Maré, inaugurado em 8 de maio de 2006, nasceu do desejo dos moradores daquela região do Rio de Janeiro em preservar suas memórias e afirmar positivamente suas identidades e pertencimentos. Assim, o Museu é um espaço de encontro entre as diversas realidades existentes no espaço urbano do Rio de Janeiro, o que possibilita a constituição de identidades plurais, além de favorecer o fortalecimento dos vínculos comunitários entre os agentes sociais locais e destes com a cidade. As ações educativas realizadas pelo Museu perpassam os vários projetos desenvolvidos (exposição de longa duração, exposições temporárias, arquivo, reserva técnica, grupo de contadores de histórias, biblioteca infanto- -juvenil, mulheres artesãs e oficinas culturais) e visam fortalecer os vínculos comunitários entre os moradores, colaborando com o trabalho de preservação e divulgação do patrimônio cultural e afetivo das comunidades da Maré. O artigo aqui revelado teve por objetivo refletir sobre esse conjunto de ações, bem como sobre os critérios que vêm presidindo a tomada de decisões éticas, estéticas e didáticas por parte dos agentes daquele museu.

O tema do Museu comparece mais uma vez em nosso dossiê com o artigo de Elizabeth Aparecida Duque Seabra e Maria do Céu Melo, que buscaram refletir sobre a ação educativa e as dinâmicas voltadas para as escolas, tecidas no Museu de Arqueologia D. Diogo de Sousa (MDDS) situado na cidade de Braga, Portugal. Esse museu dedica o seu acervo principalmente aos achados romanos. Foram abordadas as obras plásticas de estudantes do 2º e 3º Ciclos da Educação Básica, expostos no Museu, como respostas às propostas de seu Serviço Educativo para as comemorações do Dia Internacional de Museus. Analisando os conteúdos históricos expressos pelos estudantes em seus trabalhos voltados à exploração da dinâmica entre a cidade e o Museu, as autoras buscaram entender as intenções que norteiam a ação, a produção de sentidos e os usos do patrimônio cultural.

Eunícia Fernandes desenvolve suas reflexões empáticas a partir de lembranças de escola de alunos da licenciatura em História da PUC-Rio. A autora procurou identificar o lugar da temática indígena no coletivo de conhecimentos constituídos na escola e os princípios e conceitos comuns / compartilhados no que tange ao indígena. Ao buscar identificar marcadores discursivos presentes em diversos processos de rememoração acerca do cotidiano escolar, a autora busca assinalar a importância da reflexão sobre articulações entre memória e história na formação de professores de Ensino de História.

Finalizando o primeiro bloco Luciano Magela Roza traz um tema candente na sociedade brasileira ao discutir as articulações entre a noção de dever de memória para interpretar as seleções culturais empreendidas na composição de acervos voltados para a história afro-brasileira presentes em museus virtuais. Diante do diagnóstico acerca das práticas de memória que representam o passado afro-brasileiro em museus, que aponta para o tratamento reducionista e estereotipado de tal experiência pretérita, o autor provoca-nos a pensar sobre as ênfases, os árbitros e as escolhas realizadas na composição dos acervos virtuais que possuem sua centralidade narrativa na experiência afro-brasileira.

O segundo bloco do dossiê foi composto por experiências docentes reveladas por diferentes dispositivos enunciativos, que buscaram priorizar narrativas de professores em seus movimentos, criações, invenções e construções de repertórios didáticos. Na seção “História Hoje na Sala de Aula”, Fabiana Rodrigues de Almeida propõe-nos, em um texto autoral facilmente reconhecível por diferentes professores diante da desafiadora tarefa de “tornar-se” professor cotidianamente em meio a tensões e disputas, reflexões acerca de como suas decisões didáticas foram se ancorando nos princípios teóricos e epistemológicos fundamentais que a constituíram como pesquisadora do campo do ensino de História. Sua narrativa evidencia, com grande força comunicativa, seus processos construtivos tanto no tocante à elaboração de uma proposta curricular voltada para uma rede pública de ensino quanto suas invenções e produção de repertórios no interior da sala de aula. Um texto que nos chama a pensar na profundidade das relações entre o saber da experiência e a importância da dimensão teórica presente nos processos de formação docente.

No texto seguinte desse bloco outras vozes docentes são trazidas à cena fundamental de nosso Dossiê, porém, agora mediadas pelo contexto de uma entrevista singular. Júlio Horácio Bembe e Joaquim Paka Massanga – professores de História em Angola – fazem parte de um grupo de trinta estudantes de mestrado e doutorado que entre 2012 e 2016 realizam os seus estudos de pós-graduação junto ao Programa de Pós Graduação em Educação da Universidade Federal de Minas Gerais, por meio de convênio entre a UFMG e a Universidade Onze de Novembro (UON). A entrevista realizou-se em 2013, por ocasião do Seminário Práticas Culturais Brasil-Angola, organizado pelo Laboratório de Estudos e Pesquisas em Ensino de História da UFMG, e foi conduzida pelos pesquisadores Júnia Sales Pereira (UFMG), Júlio César Virgínio da Costa (UFMG) e Luciano Magela Roza (UFVJM), tendo sido transcrita por Kelly Amaral Freitas (UEMG). Em suas vozes, diversos sinais que nos permitem, por outros vieses, depreender as relações entre Práticas de Memória, Patrimônio e aprendizagens da História em um contexto tão próximo e tão distante.

Na terceira Parte – designada como “E-Storia” – “Virtualidades e realidades em encontros latino-americanos: a web e o ensino de História para além das fronteiras nacionais” – exploramos o potencial da internet em tempos atuais para provocarmos um encontro virtual entre quatro investigadores da área de ensino de História de diferentes países da América Latina – Argentina, Chile, Colômbia e México. Pesquisadores convidados e mediados por Sonia Regina Miranda foram convocados a trazer alguns de seus olhares filtrados por suas diferentes realidades regionais. Vozes que, mantidas em sua língua original, o espanhol, nos permitem construir um mosaico que nos conduz a pensar a nós mesmos nas relações de aproximação e de contraste e, em última análise, permite-nos avançar em nossa capacidade de refletirmos acerca da potência socialmente produtiva dos saberes do “Sul”, tal como nos interpela a pensar Boaventura de Sousa Santos.

No momento em que finalizávamos este Dossiê chegou-nos a informação, amplamente divulgada nas mídias e redes sociais, de que o Museu da Maré, aqui narrado a partir da experiência de uma de suas fundadoras, encontra-se em momento delicado, sob risco de desaparecimento ou, na melhor das hipóteses, de desalojamento do espaço onde atualmente funcionam todos os projetos protagonizados por muitos sujeitos aqui trazidos pelas vozes de Claudia Rose e Miriane. Acreditamos que esta publicação ocorre em momento oportuno porque faz que as vozes dos inúmeros sujeitos aqui representados por meio de seus textos somem-se às vozes daqueles que hoje lutam em nome de uma causa que é maior que seu local e que nos provoca, em uníssono, a propor “Vida longa ao Museu da Maré

Juiz de Fora setembro de 2014.

Júnia Sales Pereira – Doutora em História, Universidade Federal de Minas Gerais; Ministério da Educação. E-mail: [email protected] gmail.com.

Sonia Regina Miranda – Doutora em Educação, professora da Universidade Federal de Juiz de Fora. E-mail: [email protected] edu.br.

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[DR]

 

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