Psiquiatria e Política: o jaleco/a farda e o paletó de Antonio Carlos Pacheco e Silva | Gustavo Queródia Tarelow

O Texto A obra é o resultado da pesquisa de doutoramento do historiador Gustavo Queródia Tarelow, que atualmente, desenvolve estudos no setor educativo do Museu Histórico da Faculdade de Medicina da USP e também é autor da obra “Entre comas, febres e convulsões: os tratamentos de choque no Hospital do Juquery (1923- 1937)”, pela Editora UFABC, 2013.

Na obra resenhada, Tarelow se dedica a analisar a trajetória acadêmica, profissional e política de Antonio Carlos Pacheco e Silva, procurando problematizar seu legado, analisando suas subjetividades dentro do contexto histórico em que ele estava inserido. Desta maneira, o autor deixa claro que não é objetivo do livro a produção de uma biografia de análise memorialística – como fizeram outras biografias dedicadas a exaltar suas contribuições profissionais, retratando-o como um grande psiquiatra e ilustre político – mas compreender como seu posicionamento político- ideológico esteve presente em sua prática como médico, professor e dirigente de instituições hospitalares.

Pacheco e Silva foi um psiquiatra brasileiro, diretor do Hospital Psiquiátrico do Juquery, onde participou da elaboração de políticas públicas voltadas aos alienados mentais, trabalhou como professor das mais importantes instituições médicas dentro e fora do Brasil, foi palestrante, político respeitado no meio conservador, major das Forças Armadas e um importante articulador do golpe militar de 1964. Além disso, foi presidente da Federação Mundial para a Saúde Mental e um influente defensor das medidas eugênicas no Brasil, construindo sua carreira tratando de assuntos que ultrapassavam os muros de um hospital.

Afinal, como a biografia de uma figura tão controversa deveria ser escrita? Tarelow compreende que o olhar do biógrafo deve estar atento às singularidades do indivíduo estudado, pois tal pressuposto contribui para a superação de um tipo de análise que cristaliza a imagem de um determinado personagem com adjetivos como “herói”, “bom”, “mau”, “anti-herói” e, para isso, a micro e a macro-história trariam grandes contribuições para se evitar generalizações, onde vida e obra sejam postas lado a lado ao ponto de o historiador conseguir identificar as aproximações e distanciamentos entre ambas.

Para escrever esta biografia, o autor optou por uma divisão de capítulos em uma periodização organizada em três eras que, em seu conjunto, pretende superar uma narrativa meramente factual e evolutiva da vida de Pacheco e Silva. Entretanto, é possível observar que ao longo da obra, mesmo quando as contradições e mudanças de enquadramento político de Pacheco e Silva são apresentadas, muito se fala sobre suas conquistas, onde o próximo passo sempre é na direção de novas façanhas.

No primeiro capítulo, denominado “A Era Formativa: entre São Paulo, Paris e a psiquiatria”, Tarelow procurou não sintetizar os relatos pessoais de Pacheco e Silva, que descreve sua trajetória acadêmica como heroica, de muito esforço e mérito, como sendo uma verdade absoluta e fonte principal para esta biografia, mas assimilando tais documentos a uma análise detalhada do contexto histórico, político e social dos lugares em que viveu, os espaços escolares que frequentou e os valores morais que sua família praticava. Assim, tentou demonstrar que ele viveu experiências limitadas a um pequeno e privilegiado grupo social, e que tais experiências influenciaram na formação de sua personalidade.

Ao longo do capítulo, Tarelow narra como Pacheco e Silva viveu os primeiros anos de vida entre as grandes transformações da capital paulista, a vida nas fazendas de seus pais, as idas e vindas de Paris com a família, bem como a convivência desde a infância no seio da elite econômica de São Paulo, em um restrito ciclo social de cafeicultores e políticos, que lhe proporcionou acesso a uma cultura letrada em um período de altas taxas de analfabetismo no país.

Tarelow esteve atento aos detalhes da formação acadêmica de Pacheco e Silva e observou que em suas memórias ele revelou que desde a infância queria ser médico, mas curiosamente iniciou seus estudos no curso de Farmácia, na extinta Universidade Livre de São Paulo. A resposta apareceu quando descobriu que era prática comum entre os alunos matriculados nos cursos de Farmácia e Odontologia, posteriormente prestarem os exames para ingressarem no curso de Medicina, pois assim teriam mais facilidade de aprovação. Segundo Tarelow, no curso de Medicina Pacheco e Silva demonstrou mais interesse pelos estudos de anatomia e pesquisas laboratoriais, mantendo contato com psiquiatras de renome, entre eles Francisco Franco da Rocha, com quem trabalharia anos depois no Hospital do Juquery. Concluiu sua formação na Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro, pautada na tradição de medicina experimental alemã – o que segundo o autor, influenciou decisivamente toda a sua carreira profissional.

Tarelow conta que com a recém-proclamada República brasileira, os debates em torno do futuro da nação e o melhoramento racial do povo brasileiro estavam em pauta entre os intelectuais, médicos e cientistas, e Pacheco e Silva dedicava-se, neste momento, aos estudos da psiquiatria organicista, que buscava identificar na massa cerebral a causa física de um determinado comportamento considerado desviante. O autor conclui que os pressupostos da psiquiatria organicista, somados ao pensamento eugenista da época, seriam determinantes para a futura carreira profissional e política do médico, que trabalhou nas mais importantes instituições hospitalares e acadêmicas, também fora do país.

O segundo capítulo, denominado “A Era do Fulgor: dos laboratórios do Juquery ao prestígio internacional”, Tarelow descreve o período em que Pacheco e Silva esteve à frente do Hospital do Juquery e como aos poucos foi adentrando ao cenário político brasileiro. O autor salienta compreender como fulgor o momento de ascensão da carreira profissional e política de Pacheco e Silva, num período em que ele conquistou prestígio dentro e fora do Brasil.

Tarelow descreve que em 1921 Pacheco e Silva foi contratado por Franco da Rocha para assumir a cadeira de coordenador do recém-criado Laboratório de Anatomia Patológica do Hospício do Juquery, instituição hospitalar que simbolizava mais um marco do projeto de modernização nacional, tão almejado pelos republicanos, nascendo para ser um dos maiores manicômios do país e referência nos estudos psiquiátricos. Entretanto, passados mais de 20 anos de funcionamento, o estabelecimento havia se tornado um grande depósito de doentes mentais que, na maioria dos casos, não tinham perspectiva de cura e superlotavam a instituição. Segundo Tarelow, a chegada de Pacheco e Silva representou o início de um novo horizonte de pesquisas sobre as bases orgânicas das doenças mentais. Após 25 anos à frente do Hospício, Franco da Rocha é desligado de sua função e se aposenta, indicando Pacheco e Silva como seu sucessor. Com 24 anos de idade e apenas dois anos de experiência profissional, ele assume a direção da instituição, em um cargo que proporcionava poder e prestígio, mas também o tonava alvo de críticas entre seus pares.

O autor narra que neste período, Pacheco e Silva promoveu uma série de reformas administrativas e ampliações na instituição médica, buscando transformar o hospital em um espaço de produção médico-científica atrelada às mais controversas técnicas terapêuticas e pressupostos eugenistas. Com o discurso de modernização da psiquiatria paulista, técnicas conhecidas como “terapias de choque” são introduzidas pela primeira vez no Brasil. A malarioterapia, a convulsoterapia e a eletroconvulsoterapia inauguram um período de terapias controversas e experimentais no Hospital do Juquery, colocando a instituição médica no topo dos debates científicos e da difusão de preceitos eugênicos do país.

O autor aponta que, neste período, a elite intelectual e científica do país almejava que a psiquiatria fosse capaz de contribuir para o processo de normalização da sociedade, buscando a profilaxia das doenças mentais por meio da educação eugênica. Como psiquiatra eugenista Pacheco e Silva pautava suas ações políticas nas concepções de higiene mental, chegando a propor ao governo que adotasse medidas mais rigorosas sobre a entrada de imigrantes – compreendidos até então como desqualificados –, associando-os ao aumento da criminalidade, defendendo a esterilização compulsória de pessoas com deficiência física e o exame pré-nupcial. Via nas práticas eugênicas desenvolvidas nos Estados Unidos, na segunda metade do século XX, um exemplo a ser seguido pelo governo brasileiro, onde o tratamento médico profilático seria responsável pelo desenvolvimento da nação em que as raças ditas inferiores sucumbiriam as entendidas como superiores.

Com o apoio de Pacheco e Silva e de renomados nomes da medicina paulistas foi fundada a Liga Paulista de Higiene Mental e a criação de dois veículos de informação: os Arquivos de Higiene Mental e os Boletins de Higiene Mental que, entre outras coisas, promoviam a educação eugênica no meio social, alertando para os riscos do álcool, os problemas das misturas raciais e a homossexualidade, normalizando os comportamentos da sociedade paulista. Pacheco e Silva também foi deputado federal constituinte enquanto era diretor do Juquery e professor da Faculdade de Medicina da USP (Universidade de São Paulo), formando dezenas de novos psiquiatras. Em suas aulas e palestras reforçava que o problema da pobreza paulista estava relacionado com o consumo de álcool, o excesso de filhos, a desnutrição, a orfandade e a velhice, e que o enfrentamento de tais problemas só seria possível com a educação eugênica.

No terceiro capítulo, intitulado “A Era dos acirramentos: farda, golpes de Estado e os últimos dias”, Tarelow analisa as atividades políticas de Pacheco e Silva quando esteve envolvido nos golpes de 1930 e 1964, bem como sua militância anticomunista e os momentos finais de sua vida. Neste último capítulo, aponta-se para a preocupação de uma biografia que não acabe narrando uma evolução em linha reta da vida pessoal do indivíduo estudado, desconsiderando as mudanças e descontinuidades ao longo de sua história. Todavia, ao longo da obra o médico aparece como um personagem com grande capacidade de articulação e plasticidade nos mais variados momentos da história brasileira, estando presente ativamente em eventos históricos que o projetaram como um político de respeito e renome. Mesmo quando envolvido em disputas políticas, aparece como alguém capaz de se adaptar às mudanças históricas enfrentadas pelo Brasil. Sua “posição híbrida” em meio aos anseios pelo golpe militar de 1964 é apontada como uma capacidade de transitar entre as organizações civis de cunho conservador e os líderes das Forças Armadas, com um discurso que denunciava os perigos do comunismo ao mesmo tempo em que propagava as ideias capitalistas liberais.

Mesmo no ápice da repressão e tortura impostas pelo regime militar, onde divergências e rupturas entre os grupos que apoiaram o golpe surgiram, Pacheco e Silva mostrou-se um sólido apoiador da ditadura, posicionando-se favoravelmente à repressão até o fim do regime. O livro analisado, trata-se de uma grande contribuição para os estudos sobre a história das ciências, sustentando-se em uma vasta documentação sobre a vida e obra de Pacheco e Silva. A obra cumpre o que promete, ao escrever uma biografia onde fosse possível descrever Antonio Carlos Pacheco e Silva retratando-o dentro de suas singularidades, sem deixar de fora sua vasta produção intelectual e científica, bem como seu enquadramento político ideológico de base conservadora e eugenista.


Referência

TARELOW, G. Q. Psiquiatria e Política: o jaleco, a farda e o paletó de Antonio Carlos Pacheco e Silva. Rio de Janeiro: Editora Fiocruz, 2020.

Resenhista

Érica Vieira dos Santos – Mestranda em História Contemporânea pelo Programa de Pós-graduação da Universidade Federal de São Paulo. http://lattes.cnpq.br/5521213545220014


Referências desta Resenha

TARELOW, Gustavo Queródia. Psiquiatria e Política: o jaleco, a farda e o paletó de Antonio Carlos Pacheco e Silva. Rio de Janeiro: Editora Fiocruz, 2020. Resenha de: SANTOS, Érica Vieira dos. Subjetividades e controvérsias de Antonio Carlos Pacheco e Silva. Revista Hydra. São Paulo, v.5, n.10, p. 314- 320, ago. 2021. Acessar publicação original [DR]

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