Artefatos culturais expressando a temporalidade não contemplada pelo livro nem pelo jornal, as revistas revelaram-se dinâmicos laboratórios e privilegiados observatórios de ideias em que certos grupos sociais tomaram a palavra pública. Muitas delas constituíram-se em verdadeiras comunidades de pensamento e abriram canais inéditos de comunicação registrando a vida cotidiana, os debates em ebulição ao mesmo tempo em que divulgavam imaginários e práticas sociais.

No presente dossiê, discutiremos a circulação de culturas e mediadores como difusores de modelos, ideias, valores, percepções e sensibilidades sociais a partir das revistas modernistas. O contexto de discussão é o da modernidade e do modernismo, compreendido pelo século XIX até meados da década de 1960. É nesta conjuntura que intelectuais e artistas efetuaram de forma sistemática um balanço crítico das tradições visando a implementação de novos projetos estéticos e sociais.

Estudos sobre revistas, tratadas na sua materialidade ou como polo agregador de intelectuais e ideias, vêm ganhando crescente importância no campo da história da imprensa. Não se dissocia o entendimento do objeto revista e a revista como fonte da pesquisa histórica. Um e outro se explicam a partir desta relação dialógica. Em determinados contextos históricos, essa iluminação recíproca tornou-se particularmente notória, como ocorreu ao longo da instauração da cultura da modernidade.

Sob a perspectiva das abordagens que consideram tais suportes importantes para o estudo da circulação nacional e transnacional de ideias e modelos editoriais, temos artigos como os de Diana Cooper-Richet que abre o dossiê com um estudo sobre o que chamou révolution révuiste (revolução revisteira), no âmago da qual situa a emergência das revistas modernistas durante o século XIX. A autora evoca as matrizes inglesas das revistas literárias francesas, que são usadas e francamente reivindicadas como símbolo de prestígio. Traz nomes como os de Galignani, um angloitaliano radicado em Paris, que em 1807 publica nesta cidade The Monthly Repertory of English Literature dando início a um ciclo de aller-retour que se fechará em fins do mesmo século quando é uma revista francesa, a Revue des Deux Mondes, que serve de inspiração aos ingleses.

Sob a mesma ótica, a presença de um espaço midiático francófono em São Paulo e Rio de Janeiro da virada do século XIX para o XX é objeto de Valéria Guimarães. Concentrando sua análise na esfera da circulação e publicação de periódicos em língua francesa, trabalha catálogos e registros de livreiros e bibliotecários e a partir destas fontes constrói uma complexa cartografia das relações cruzadas França / Brasil que incidiriam na formação da comunidade de leitores. A diversidade de títulos do periodismo francês no Brasil, em amplo diálogo com a produção nacional, produziria distintos imaginários da modernidade e do modernismo.

É também no quadro dessas discussões, mas com o recorte no século XX do pós-primeira Guerra Mundial, que Monica Pimenta Velloso analisa a circulação de algumas publicações da cultura modernista francófona no cenário internacional, tomando como referência a revista belga Lumière (1919 / 1923), publicada em Anvers, dirigida por Roger Avermaete e que contou com a participação do brasileiro Sérgio Milliet, então radicado na Bélgica. Após o conflito, acentuou-se a necessidade de redefinir o lugar do país no contexto internacional das ideias e as revistas literárias foram vitais nesta função. Milliet foi importante mediador na divulgação do modernismo brasileiro para estrangeiros e vice-versa. Constituída em meio a uma densa rede de intelectuais de diversas origens, Lumière deu visibilidade e legitimidade a realidades desconhecidas ou ignoradas pelo cânone ocidental.

No que tange às abordagens voltadas ao conteúdo, Tania Regina de Luca destaca como o inquérito sobre os rumos da literatura brasileira levado a cabo no primeiro semestre de 1940 pela Revista do Brasil (1938-1943) é fonte de análise das especificidades do movimento modernista, circunscrito às condições particulares do Estado Novo. Quando questionados sobre os efeitos da cultura estrangeira no campo artístico nacional, os entrevistados fornecem pistas instigantes sobre as disputas de auto-representação dos grupos surgidos no seio do modernismo brasileiro.

Marcelo Robson Téo, por sua vez, explora este movimento artístico tanto pelo diálogo com as vanguardas europeias quanto pela via do nacionalismo, da música e do complexo sensorial fatores que exerceram papéis específicos no processo de invenção, tradução ou reelaboração estético-cultural. O autor analisa algumas das propostas de atualização estética da “inteligência nacional” nos escritos de Mário de Andrade a partir da leitura de revistas modernistas como a L’Esprit Nouveau. O intuito é compreender como, através da crítica, procurou vincular o país ao cenário da modernidade, tendo o universo sensorial como motivo e a arte como instrumento de renovação e divulgação.

Pedro Duarte de Andrade busca demonstrar que a publicação de revistas pelos movimentos de vanguarda na época moderna não foi apenas uma circunstância eventual, mas se devia à busca de circulação veloz de ideias em uma nova linguagem com autoconsciência histórica. Para isso, se vale dos referenciais analíticos do romantismo alemão no fim do século XVIII e do modernismo brasileiro no começo do século XX, por meio dos quais se pode concluir que o suporte material das revistas foi ao encontro do experimentalismo estético e da vontade polêmica dos posicionamentos da vanguarda cultural.

Ao rever alguns cânones da historiografia modernista, Aldrin Moura de Figueiredo explora o período que se estende de 1900 a 1929 e coloca em destaque a Revista Belém Nova. Defende a constituição de um modernismo amazônico e problematiza a dupla relação com as vanguardas nacionais / internacionais. Contatos com a Europa também se processavam de forma autônoma ao movimento paulista de 1922. Novas rotas de diálogo com referências alógenas incorporaram Madrid, Barcelona e Paris nesse ciclo de trocas culturais e possibilitaram conjugar ultraísmo e futurismo. O autor ressalta as especificidades de uma estética que incluía traços do repertório indígena e conferia sentidos transgressores locais à vocábulos das tradições universais.

O viés de um modernismo transgressor também é discutido por Avelino Romero por meio da revista La canción Moderna de Buenos Aires (1928). Identifica na publicação valores do que chamou de “cultura tanguera”, dotada de uma visão crítico satírica da cultura oficial, preferindo repertórios populares marginais e suburbanos. Capaz de elaborar criativamente traços do vanguardismo e práticas da comercialização musical, a revista marca-se pela circulação intensa das ideias. O autor defende a presença de uma vertente política na cultura do tango expressa através de um anarquismo lírico que se posiciona frente ao projeto modernizador.

Ao analisar uma série de cartas enviadas de diversas cidades europeias para a conhecida revista norte-americana Partisan Review, entre 1938 e meados da década de 1950, Matheus Cardoso Silva traz à tona um moderno epistolário. Ele insere o magazine no internacionalismo político da esquerda nova-iorquina de então, rumo ao internacionalismo literário, e trabalha com a emergência de um cenário que mescla guerra, modernismo e marxismo como parte do processo de busca de uma nova identidade para o magazine.

Joëlle Rouchou, por meio da revista Diretrizes, analisa a importância e o papel dos editorialistas na produção do discurso da imprensa. Lançada em maio de 1938, pelo intelectual conservador Azevedo Amaral, sete meses depois, esse mesmo periódico, então sob a direção Samuel Wainer, tomou uma linha progressista, nacionalista e de oposição a Vargas até o fim de sua publicação em 1944 o que redimensionou sua participação no meio editorial e intelectual brasileiro. Em meio a um cenário internacional e nacional conturbado, em que as bases do autoritarismo emergiram em toda sua força em um movimento de alcance mundial que ultrapassou fronteiras, a Diretrizes de Wainer constituiu-se em espaço de resistência ao totalitarismo em geral e ao Estado Novo em particular, além de ter sido importante plataforma de divulgação da cultura e dos ideais progressistas.

Para fechar o dossiê, um periódico singular, A Casa (1923-1940), revista voltada à difusão dos conceitos da arquitetura moderna, é analisado por Marize Malta que estabelece uma análise crítica da visualidade e conteúdo desse periódico, procurando inquirir o modo como as ideias de modernidade foram apresentadas e negociadas, tendo o “lar” e seus ambientes como lugares privilegiados de discussão. Discursos visuais e textuais eram ofertados ao leitor como construtores de sentido na condução de um olhar para o mundo dos objetos e da decoração. A autora opõe o universo da interioridade e do indivíduo, caracterizado pelo “lar”, à dimensão exógena à casa e mais ampla do internacionalismo característico das tendências modernistas, relação dada, assim, em suas dimensões simbólicas as mais cotidianas e prosaicas.

A diversidade das contribuições aqui apresentadas joga luz na história do periodismo e dos movimentos intelectuais dos últimos dois séculos. O tema é oportuno em momento em que os meios de comunicação ganham a centralidade do debate público. Nada mais adequado que se debruçar sobre questões que podem melhor esclarecer como foi possível formar, por meio das revistas modernistas, um pensamento sociocultural que está na base do projeto de nação no século XX, com desdobramentos no século XXI ainda não definidos e, por isso mesmo, suscetíveis de debate.

Boa leitura!

Os organizadores.

Monica Pimenta Velloso – Doutora em História Social pela Universidade de São Paulo (USP). Pesquisadora da Fundação Casa de Rui Barbosa (FCRB). Bolsista de Produtividade (CNPq). E-mail: [email protected]

Valéria Guimarães – Doutora em História Social pela Universidade de São Paulo (USP). Professora do Departamento e do Programa de Pós-graduação em História da Universidade Estadual Paulista (UNESP / Franca). Coordena os projetos “Imprensa Francesa Publicada no Brasil (1854-1924)” (Auxílio Regular / FAPESP) e “TRANSFOPRESS Brasil – Grupo de Estudos da Imprensa em língua estrangeira no Brasil” (Edital Universal / CNPq). E-mail: [email protected]

Aldrin Moura de Figueiredo – Doutor em História pela Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP). Professor da Faculdade de História e do Programa de Pós-Graduação em História Social da Amazônia da Universidade Federal do Pará (UFPA). Bolsista de Produtividade (CNPq). E-mail: [email protected]


VELLOSO, Monica Pimenta; GUIMARÃES, Valéria; FIGUEIREDO, Aldrin Moura de. Apresentação. Territórios & Fronteiras, Cuiabá, v.9, n.2, jul / dez, 2016. Acessar publicação original [DR]

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