FRANCO, Marcos; ROGÉRIO, Hélcio. Sant’anna da Feira: Terra de Lucas. [Sn.] 2012. Resenha de: SÁ, Antônio Fernando de Araújo. HQ de Lucas da Feira. Ponta de Lança, São Cristóvão, v. 6, n.11, p. 99-103, out. 2012/abr. 2013.

A novíssima geração de HQ no Brasil tem articulado vitalidade criativa com resistência cultural, optando por desenvolver temas relativos à história social e cultural brasileira. Os polos de produção existentes em diferentes regiões do país, no mais das vezes, não conseguem atingir o grande público nas bancas de revistas. Nos anos 1990, visualizamos iniciativas promissoras de graphics novels brasileiras, que, infelizmente, tiveram vida efêmera por conta do monopólio da produção e distribuição dos quadrinhos norte-americanos no Brasil. Esse é um problema estrutural dos quadrinhos brasileiros e permanece como questão insolúvel. O público em geral não tem acesso à novíssima geração dos quadrinhos, causando certo descompasso entre autor e público, à exceção dos festivais e feiras realizados para aficionados e colecionadores. Paradoxalmente, a luta pela afirmação cultural dos quadrinhos brasileiros traz consigo uma liberdade editorial que proporciona uma pluralidade de estilos, para além do mercado.

Na última década uma promissora geração de quadrinistas dos sertões baianos tem atuado à margem do mercado editorial, produzindo aventuras de rebeldes sertanejos, que desafiaram, em diferentes momentos, a sociedade brasileira, com histórias bem urdidas e uma produção gráfico-editorial de qualidade.

Em Paulo Afonso, Haroldo Magno e Edvan Bezerra realizaram dois álbuns sobre Lampião, Sertão Vermelho. No primeiro, adotaram uma perspectiva cronológica e factual para registrar um conjunto de histórias sobre a atuação de Lampião no sertão baiano1. Já no segundo versos de cordel de Gonçalo Ferreira da Silva e Manoel D’Almeida Filho são incorporados à narrativa sequencial, demonstrando um amálgama de inter-relações culturais entre a cultura popular e a erudita na construção da história. A colaboração dos desenhistas Júlio Shimamoto e Eugênio Colonnese aprimoraram as imagens e o roteiro estabeleceu um detalhamento maior dos diálogos do que no álbum anterior2.

Marcos Franco e Hélcio Rogério registram em quadrinhos Lucas de Feira, personagem controverso da história de Feira de Santana/Bahia. Naturais da cidade, os temas locais balizam suas premiadas histórias em quadrinhos. No 27° Prêmio Ângelo Agostini, em 2010, receberam os prêmios de Melhor Roteirista, Melhor Lançamento Independente (Marcos Franco) e de Melhor Desenhista (Hélgio Rogério), com o álbum Lucas da Vila de Sant’Anna da Feira.

O recém-lançado Sant’Anna da Feira: Terra de Lucas (2012) revela o apuro técnico dos desenhos nos detalhes dos cenários das diferentes cidades em que a história se ambienta e da indumentária dos personagens que compõem o álbum. A opção pelo preto e branco das cenas expressa qualidade e invenção com amplas potencialidades intertextuais com a xilogravura nordestina.

A narrativa sequencial expõe detalhada pesquisa histórica, construindo o foco narrativo a partir da captura do temível escravo rebelde, ante a efusiva festa da população da Vila de Sant’Anna da Feira. Entre a prisão e a sentença da pena capital a ele imputada, o enredo traz a memória da sua vida tempestuosa, com evidente simpatia pela sua luta pela liberdade.

Esse álbum pode ser inserido nos confrontos da memória de Lucas da Feira em Feira de Santana (BA), que remonta ao ABC de Lucas de Feira, fundamental na fixação dessa memória de resistência e rebeldia escrava na cultura baiana. Entre seus divulgadores podemos mencionar a obra de Jorge Amado. Inclusive, a história em quadrinhos é encerrada com uma citação de Capitães de Areia (1937), referente aos destemidos heróis negros da Bahia. A função memorial dos ABCs na cultura popular nordestina é notória e o ABC de Lucas da Feira relevante, na medida em que, na maioria das vezes, o negro é visto de forma negativa e pejorativa na literatura de cordel3.

Na cidade também encontramos retratado o corpo negro rebelado de Lucas da Feira nas xilogravuras de Lênio Braga, em 1967, no mural da Estação Rodoviária, trazendo alusões à simbologia da cosmologia africana e do contexto histórico da ditadura militar, como símbolo de resistência na cidade.4.

Em 2008, a Universidade Estadual de Feira de Santana, por meio do Departamento de Educação e Colegiado de História, realizou o I Ciclo de Debates – Ensino de História e Memória sobre as potencialidades de se discutir o ensino de História a partir da memória de Lucas da Feira. Na oportunidade, Solange Costa Guerra, vice-presidente da Associação de Moradores da Pedra do Descanso, defendeu a instalação de um busto de Lucas da Feira no bairro. Esse debate sobre a criação de monumentos que tragam a heroicidade da história do escravo rebelde simboliza a tentativa de afirmação identitária dos grupos subalternos em sua busca ao direito à memória5.

Presença marcante no imaginário social da cidade de Feira de Santana, Lucas da Feira foi representado nesses registros memoriais como símbolo da resistência à violência do sistema escravista. Essa leitura é compartilhada nos quadrinhos de Marcos Franco e Hélgio Rogério, expondo preocupação historicista, quase cronológica e factual, no tratamento de cenários e personagens. Essa busca da autenticidade do discurso se faz presente na tônica regionalista do roteiro com a utilização de um mosaico de palavras do linguajar da época, que requereu um glossário na parte final do álbum para palavras e expressões pouco usuais.

Entretanto, os traços da tradição oral africana, que se mesclam na narrativa sequencial, trazem elementos que estabelecem um circuito entre África/Brasil. Dois exemplos, como é o caso de Ossonhe, orixá que protege os animais da mata e se aproxima da Caipora, da mitologia indígena. Também a aparição de Legbá, divindade dos fon do Benin equivalente a Exu dos iorubás, para Lucas da Feira quando de sua prisão, é reveladora da conexão entre formas de ser, resistir e sobreviver de africanos escravizados no Brasil, inclusive com o questionamento, ao longo de toda a história em quadrinhos, da ideia de alma da catequese da religião cristã.

Desse modo, essa opção de mesclar fidelidade histórica com a tradição oral africana serve para matizar a orientação historicista de busca da verdade do passado encontrada em abordagens que, por vezes, esquecem que a arte possibilita outras visagens sobre temas históricos, pois revelam outras memórias silenciadas ou esquecidas. Assim, a obra de arte pode revelar sonhos e anseios de um mundo mais justo e humano, destruídos pelo desenvolvimento histórico, estabelecendo conexões com outros personagens históricos também silenciados.

Como no caso das representações de Lampião em quadrinhos, na narrativa há uma associação de Lucas da Feira como filho do “maligno” (p. 23), do diabo, no sentido de que a rebeldia contra as injustiças sociais é vinculada a uma conotação demoníaca. Outra aproximação com Lampião é que na narrativa o escravo rebelado também é chamado de “capitão” e torna-se o temido bandoleiro da boca dos sertões baianos por cerca de 20 anos, quase que um precursor do cangaceiro mais famoso do Brasil.

Aqui Lucas da Feira, como também Lampião, é representado como um símbolo contraditório associado a múltiplas representações que vão do bandido sanguinário ao bandido social, do justiceiro ao mau-caráter sem escrúpulos.

Essa ambiguidade pode ser vista na postura moralista do personagem diante de Mané Pinga-Fogo, que se aproveitava sexualmente das escravas e sofre dura reprimenda por parte de Lucas da Feira (p. 67-75). Entretanto, noutro momento da narrativa (p. 106), após o assassinato de um pai de família ele é conivente com o sequestro de suas filhas por parte do seu bando, com claras intenções sexuais. Chama a atenção é que o algoz no momento do seu enforcamento é o mesmo irmão das meninas, que lava sua sede de vingança pelos crimes perpetrados por Lucas e seu bando.

Patrocinado pelo Fundo de Cultura da Secretaria da Cultura do Estado da Bahia, esse álbum de quadrinhos articula fidelidade e imaginação, o que possibilita interessante discussão sobre mediações entre oralidade, escritura e iconografia na construção da memória sobre Lucas da Feira. Ao mesmo tempo em que evidencia a existência de uma produção quadrinística de qualidade fora do eixo Rio-São Paulo, também reafirma a atualidade da luta em defesa da distribuição de HQs, em todo o território nacional, que abordem temas nacionais e regionais de modo a que o grande público conheça a diversidade histórica e cultural do nosso país.

Notas

1 MAGNO, Haroldo e BEZERRA, Edvan. Sertão Vermelho: Lampião em Quadrinhos. Paulo Afonso/BA: Editora Fonte Viva, 2004.

2 MAGNO, Haroldo e BEZERRA, Edvan. Sertão Vermelho 2: Lampião em Quadrinhos. Paulo Afonso/BA: Editora Fonte Viva, 2005.

3 SANTOS, Olga de Jesus & VIANNA, Marilena. O negro na literatura de cordel. Rio de Janeiro: Fundação Casa de Rui Barbosa, 1989.

4 ANTONACCI, Maria Antonieta. ÁFRICA/BRASIL: corpos, tempos e histórias silenciadas. Tempo e Argumento: Revista do Programa de Pós-Graduação em História. Florianópolis, v. 1, n. 1, p. 46 – 67, jan./jun. 2009.

5 ASCOM/UEFS. Estudos sobre Lucas da Feira abrem novas perspectivas para a História. 27 de agosto de 2008. Consultado em 06/01/2013 no endereço eletrônico http://www.uefs.br/portal/noticias/2008/lucas-da-feira-abrenovas-perspectivas-para-a

Antônio Fernando de Araújo Sá – Professor Doutor. Departamento de História Universidade Federal de Sergipe.

Acessar publicação original

[DR]

Deixe um Comentário

Você precisa fazer login para publicar um comentário.