Argentina, 40 anos (1976-2016) / História – Questões & Debates / 2016

Os saberes historiográficos produzidos sobre as ditaduras latino-americanas, e, especialmente, sobre a ditadura civil-militar argentina (1976-1983), revelam continuamente a vitalidade desse objeto de estudo para a compreensão mais abrangente do recente contexto social, político e intelectual de nossas culturas. Nas últimas duas décadas, com a gradativa abertura dos “arquivos da repressão” em alguns países, associada à mobilização de organizações da sociedade civil no marco de uma política ostensiva de direitos humanos pautada pela consigna “justiça e reparação”, foi propiciada, relativamente, a (re)descoberta de registros e evidências mais nítidos da dimensão alcançada e dos métodos empregados por sistemas repressivos historicamente constituídos e com alto grau de capilaridade e permanência no imaginário social.

Os dispositivos de controle, censura, e repressão generalizada levados a cabo pelos sistemas autoritários regionais, mas, igualmente, o papel ambíguo dos movimentos e partidos de esquerda, a pauperização de vastos segmentos das sociedades, as atitudes sociais de repulsa, resistência, consenso / consentimento, ou indiferença a esses regimes foram inscritos como temáticas centrais na agenda dos historiadores identificados com o problema. Dentro desse horizonte, o Dossiê “Argentina: 40 anos (1976-2016)” publicado pela Revista História: Questões & Debates volume 64, n. 2 (2016),[1] almeja explorar o potencial analítico da história política do cone sul de nosso continente, ao sugerir como especificidade reflexões que envolvem uma série de enfoques sobre a natureza da ditatura civil-militar argentina.

Mais que destacar uma efeméride, o Dossiê busca contribuir para o debate ético acerca de um período da história argentina possível de ser cotejado a outras situações autoritárias no tocante a parentescos fenomenológicos, distanciamentos práticos e quanto à orientação de sentidos que tal processo intercambiou com experiências contemporâneas a ele.

Embora tenha na violência política e no terrorismo de Estado seus elementos constitutivos, a ditadura imposta à margem da lei em 1976 não é um excepcionalismo na vida do país no que se refere ao desenvolvimento de formas autoritárias de organização social. Ainda na década de 1980, o sociólogo Alain Rouquié falava em “tutela militar” e “golpe de Estado permanente” como as práticas políticas assumidas pelos militares desde 1930 na construção de um projeto de poder altamente profissional, e que não alienava as elites civis do processo de governabilidade. Com mais ênfase na ditadura de Juan Carlos Onganía (1966-1970), os militares passaram a ser vistos como “parceiros legítimos” dessas elites, e a angariar um papel político central, porque sua crescente autonomia em relação aos poderes civis associava-se à relevância que atribuíam às intervenções depuradoras e realizadas em série. Assim, imaginaram-se os gendarmes da nação, os guardiães de uma determinada ordem social ao mesmo tempo excludente e seletiva, mas também alicerçada no expressivo apoio de parcelas da opinião pública.

Por sua vez, a configuração de memórias no período que marca o eclipse das ditaduras do cone sul é extremamente díspar. No caso argentino, observou-se na aurora democrática a adoção de medidas que visaram o esclarecimento dos crimes de Estado e a punição dos líderes das juntas militares. Além do papel desempenhado pelo sistema judiciário, pela CONADEP (Comisión Nacional para Desaparición de Personas), e pelos diversos organismos de direitos humanos; nesse movimento pelo cumprimento da justiça esteve presente um ator de primeira ordem: o conjunto de vítimas sobreviventes dos centros clandestinos de detenção que assentiu em participar como testemunha nos ajuizamentos aos chefes militares. Tais medidas, entretanto, não prescindiram de acirradas disputas políticas e de recuos, como bem comprovam os episódios de anistias e indultos proferidos desde os governos civis de Raúl Alfonsín e Carlos Menem, somente revistos e declarados inconstitucionais pela Suprema Corte da Nação em junho de 2005.

Ao mesmo tempo, um dos imperativos programáticos da era Kirchner ancorou-se na elaboração de uma “política de memória”, apropriando-se claramente das experiências e demandas de parte da sociedade civil argentina que, desde meados da década de 1990 sinalizava para o não apagamento do passado e por uma rediscussão sobre as responsabilidades pelos crimes. A despeito de suas limitações e interesses, mas também de sabotagens originadas em setores sociais refratários ou nostálgicos do autoritarismo, essas políticas foram concebidas como políticas de Estado, com notórios deslizamentos em forma de projetos para os campos da pedagogia, da museologia, da estética, da arquivística, e, claro está, da história. Assim, não há como dissociar a historiografia mais recente sobre a ditadura argentina, de uma “batalha pela memória histórica” que encampa vários níveis de intervenção, assim como não há dúvidas que esses embates passaram a repercutir nos modos de os historiadores refletirem e escreverem sobre a época, e ensejaram uma renovação nas indagações e nos problemas de pesquisa.

Em um inspirado ensaio crítico publicado no ano de 2015, a historiadora Marina Franco [2] havia destacado que a pesquisa profissional na Argentina não se encontrou diante da tarefa de romper um silêncio social e político pós-ditatorial. Ao contrário, ela situou-se diante de um terreno próprio para se pensar e se pesquisar sobre o tema da ditadura, tendo em vista que o processo de transição para a democracia não se apoiou em uma política de ocultamento sobre os crimes do passado, tampouco em um olhar complacente sobre o ocorrido; ou, ainda, diríamos nós, em conciliações cínicas operadas desde o vértice da sociedade política.

Foi precoce, na Argentina, a iniciativa das Ciências Sociais – impulsionadas pela profusão de testemunhos públicos e políticas oficiais – em atribuir visibilidade às facetas fundamentais do terrorismo de Estado. No entanto, a mesma autora recorda que esse aspecto não representou, necessariamente, em consolidação de linhas de pesquisa, ou em sistematização de estudos sobre as características, conteúdos e alcances da ação repressiva nos seus distintos âmbitos. Nesse sentido, o que é efetivamente pleiteado em termos de investigação histórica sobre a ditadura argentina vincula-se a perspectivas que possam circunscrever agendas empíricas e teóricas em que sejam considerados: novos atores vítimas da violência, novos atores executores da violência, ampliação dos espaços (como a ênfase nas práticas regionalizadas da repressão), novos objetos e processos, e novas periodizações.

Assim, queremos acreditar que os artigos publicados neste Dossiê tendam a subscrever algumas das exigências elencadas acima, e permitam ao leitor a ampla reflexão e um conhecimento mais acurado sobre o período, mormente agora, quando nos deparamos com a ressignificação de fantasmagorias autoritárias e com a valorização de mitos políticos do passado.

Abrimos o Dossiê com um artigo que não trata explicitamente da ditadura argentina, mas desenvolve uma instigante discussão sobre os múltiplos efeitos e sentidos das políticas de esquecimento em sociedades que vivenciaram traumas políticos. “Políticas del olvido”, texto de autoria de Daniel Lvovich, da Universidad Nacional de General Sarmiento, é uma proposta adensada de conferência do historiador pronunciada no encerramento do Fórum “Violência de Estado, Justiça e Reparação: Relatos da Comissão Estadual da Verdade”, realizado em Curitiba no mês de junho de 2015, e organizado pela Linha de Pesquisa Intersubjetividade e Pluralidade do PPGHIS (Programa de Pós-Graduação em História da UFPR). Lvovich reflete sobre a tensão entre lembrar e esquecer como modelos indeterminados de pensar a relação passado / presente, porque memória e esquecimento não resultam em elementos opostos, mas em produtos simultâneos dos mesmos processos de seleção, hierarquização e transmissão de aspectos, valores, imagens, mitos localizados no passado. Enquanto o esquecimento coletivo aparece quando um grupo humano não consegue, voluntária ou passivamente, por rechaço, indiferença ou em razão de uma catástrofe, transmitir à posteridade o que aprendeu do passado, o dever de memória é, com efeito, a obrigação de o sobrevivente dar testemunho de uma experiência traumática, de falar por aqueles que desapareceram, e de os grupos relegados fazerem presente sua voz e suas demandas na esfera pública.

Em seguida, Emilio Crenzel, professor e pesquisador da Universidad de Buenos Aires, no artigo “Entre la historia y la memoria. A 40 años del golpe de Estado en la Argentina” nos proporciona uma auspiciosa aula de história das memórias construídas sobre os quarenta anos do golpe de Estado na Argentina. Primeiro, sem descuidar da dimensão processual, enfoca alguns dos conflitos chaves que desencadearam o golpe e suas consequências mais imediatas para a sociedade, destacando-se aí, o terrorismo de Estado e os embates iniciais da sociedade civil quanto aos posicionamentos adotados sobre as graves violações aos direitos humanos como a tortura e os desaparecimentos. Num segundo momento, Crenzel sugere uma criativa tipologia de batalhas pela memória desde a década de 1990 até 2012: o “eclipse da memória” (1990-1994) tem como marcas o impacto moral e político ocasionado entre os organismos de direitos humanos em razão dos indultos de Carlos Menem, o que aprofunda a sensação de frustração e a certeza de uma era de impunidades; e uma relativa desmobilização da sociedade tendo em conta que esse presente é lido, na perspectiva de Crenzel, como a imagem espectral de um passado sem direitos. A “explosão da memória” (1995-2003) é o contexto no qual uma situação bem específica narrada pelo autor revitaliza a memória do passado de violência e a faz adquirir um estatus independente do discurso punitivo ou da busca pela verdade. As inciativas em constituir pontes para a transmissão intergeracional assumem diversas formas, mas o fundamental é que um cenário pleno de significados de rememoração é preparado e gestionado pela sociedade à parte de qualquer ação efetiva de um Estado que se fragmentava diante de crises sociais insolúveis. Por fim, Crenzel designa como “estatalização da memória” (2003-2012), o período em que o Estado argentino toma para si a responsabilidade em produzir conteúdos sobre o passado. A derrogação das leis de impunidade permite reabrir os processos, e um novo Prólogo do emblemático Informe Nunca Más transforma em discurso estatal um sentido do passado forjado desde o vigésimo aniversário do golpe, quando os organismos de direitos humanos associaram os crimes da ditadura com a imposição do modelo econômico neoliberal.

Em “Represión clandestina y discursos públicos: los informes oficiales sobre la ‘lucha antisubversiva’ en los años iniciales de la dictadura argentina”, a pesquisadora e professora Gabriela Águila, da Universidad Nacional de Rosário, analisa detidamente um discurso público da Junta Militar de 1977 e constrói uma teia de significados em torno à estrutura repressiva da ditadura: o informe “La subversión en Argentina” foi uma narrativa que procurou sistematizar definições e conceitos sobre a alegada luta ou guerra antisubversiva. Gabriela, atenta estudiosa e com vasta pesquisa sobre as formas de atuação do sistema repressivo em suas modalidades regionalizadas e autônomas, investiga os modos de reconhecimento elaborados pela hierarquia militar a respeito do exercício da repressão nos seus anos iniciais. Um dos principais argumentos da autora, é que tais manifestações não devem ser vistas como “contradiscursos” ou meras reações às denúncias e pressões internacionais, mas estão inscritas em um contexto amplo, que combinou respostas políticas do governo aos “ataques” provenientes do exterior, estratégias especificamente militares e mecanismos de legitimação social e política. Um deles, foi plasmar no vocabulário político a terminologia “luta contra a subversão”, por onde os militares tanto definiam o perfil do inimigo, quanto procuravam mobilizar a sociedade na direção de atitudes de denúncia e apoio contra a “subversão”. Uma das chaves para entender a extensão do exercício repressivo esteve caracterizada desde o início pela descentralização operativa e pela organização de tal processo mediante escalas territoriais com perfis e notas distintas, segundo as áreas de risco e com graus de autonomia das forças de segurança bastante amplos.

O próximo artigo traz a contribuição de uma das pesquisadoras que pode ser considerada pioneira na sistematização de estudos sobre o exílio argentino no marco da última ditadura. Silvina Jensen, professora e pesquisadora na Universidad Nacional del Sur, em Bahía Blanca, além de autora de dezenas de livros e artigos sobre o tema exilar, organizou diversas coletâneas nas quais reuniu investigadores especialistas na massiva diáspora política latinoamericana da década de 1970. Silvina apresenta em “Exilio y legalidad. Agenda para una Historia de las luchas jurídico-normativas de los exiliados argentinos durante la última dictadura militar” uma reflexão sobre um lugar pouco explorado acerca do exílio: os modos em que a ação coletiva dos desterrados argentinos questionou as dimensões jurídico-normativas do terrorismo de Estado. Sua proposta consistiu em revisitar os inúmeros arquivos onde se depositam as denúncias exilares para compreender como é representada a política repressiva do Estado não em suas modalidades mais abjetas como o desaparecimento de pessoas e o funcionamento dos centros clandestinos de detenção, mas sua indagação é como reconhecer a forma de os desterrados lidarem com as paradoxais relações entre terrorismo de Estado e legalidade. Nessa perspectiva, a discussão é desenvolvida a partir de três eixos: 1) por quais racionalidades a luta empreendida pelos exilados respondeu às facetas repressivo-legais da ditadura; 2) na denúncia da legalidade autoritária, qual o território ocupado pelas diferentes formas institucionalizadas de exílio; 3) os modos adotados pelos exilados na sua apelação ao direito (nacional e internacional), para obtenção da verdade sobre o destino dos desaparecidos, conseguir a liberdade dos detidos sem causa nem processo, e para responsabilizar penalmente os responsáveis pelas violações aos direitos humanos.

O último artigo do Dossiê é de autoria de Marcos Gonçalves (UFPR), no qual o autor dialoga com um ex-militante da Organização Política Montoneros que, depois de breve refúgio no Brasil e do exílio na Suécia entre meados das décadas de 1970 e 1980, rememora algumas experiências políticas e pessoais de sua trajetória. O texto procura referências na tensão da passagem do tempo e como ela repercute na diversidade de transmissão das informações memorizadas.

Este volume da Revista História: Questões & Debates conta ainda com três artigos de temáticas diversificadas: “Considerações Histórico-Arqueológicas como Elementos para uma Reavaliação de Max Weber”, de Andréa Bernardes de Tassis Ribeiro, onde a autora, apoiada em recentes pesquisas dialoga com a sociologia weberiana que trata dos costumes tradicionais relacionados aos rituais de segregação. Na sequência, Máira de Souza Nunes, em “As demolições de Paris: a modernidade em ‘Rocambole’ (1857-1870)”, parte da leitura do romance de folhetim Rocambole, e analisa as transformações da cidade de Paris durante o II Império de Napoleão III, investigando as representações do processo civilizador oitocentista, da experiência burguesa, e as relações entre a cidade e o enredo da obra. Por fim, no artigo “O alimento como categoria histórica: saberes e práticas alimentares na região do Vale do Rio Pardo (RS / Brasil)”, Everton Luiz Simon e Éder da Silva Silveira, desenvolvem um exercício de caracterização de alguns costumes alimentares da Região do Vale do Rio do Pardo, Rio Grande do Sul. Os autores buscam perceber a influência ou a presença de características dos modelos alimentares “romano” e “bárbaro” em hábitos de descendentes de alemães e italianos nessa região.

Desejamos uma boa leitura!

Notas

1. A Revista está realizando um ajuste necessário em seus volume e número adequando-se às normatizações vigentes. Assim, a referência ao volume 64 e ao n. 2 correspondem respectivamente à informação do ano da Revista, e à quantidade de fascículos publicados no mesmo período.

2. FRANCO, Marina. Do terrorismo de Estado à violência estatal: Problemas históricos e historiográficos no caso argentino. In: MOTTA, Rodrigo Patto Sá. (Org.). Ditaduras Militares: Brasil, Argentina, Chile e Uruguai. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2015, p. 61-81

Marcos Gonçalves – Organizador.


GONÇALVES, Marcos. Apresentação. História – Questões & Debates. Curitiba, v.64, n.2, jul./dez., 2016. Acessar publicação original [DR]

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Argentina hoje / Boletim do Tempo Presente / 2012

Apresentação

O Laboratório de Estudos do Tempo Presente da Universidade do Brasil / UFRJ publica o primeiro número da Revista Eletrônica do Tempo Presente / UFRJ. Este primeiro número, por sua vez em abertura de uma nova série, terá o caráter de número especial ao compor um dossiê sobre a Argentina contemporânea, agora denominado “Argentina, hoje”. Escolhemos como motivo para tal dossiê especial a Argentina, não apenas pelo seu peso como a mais destacada parceira histórica do Brasil na América do Sul – e aí devemos sublinhar dimensões políticas, comerciais e estratégicas – como pelo destaque contido na própria importância enquanto país influente na comunidade internacional e membro constante do grupo das vinte mais relevantes economias globais, o G20. Não deixamos de notar, ainda, a relevância argentina para as instituições, a política, a cultura e a constituição da unidade sul-americana.

Neste mesmo sentido, notamos o protagonismo argentino nas relações internacionais, com a retomada do desenvolvimento econômico, cujo ponto de destaque se demonstrou nas nacionalizações destacadas do governo Cristina Kirchner (2007-) em 2008, com o resgate das Aerolíneas Argentinas, e em março de 2012, a suspensão do contrato de concessão dos jazimentos petrolíferos nas mãos da Repsol YPF, culminando na expropriação da majoritariedade das ações desta mesma empresa em Abril. Ao mesmo tempo e no mesmo sentido da retomada do discurso e ação sobre a soberania nacional como demanda, a crise das Malvinas ressurge no seu trigésimo aniversário como forma de tensão diplomática, em função da presença acusada de jazimentos de petróleo e gás. As Américas se manifestaram de apoio na Cumbre de las Americas de 2012, em Cartagena de las Indias, Colômbia.

Este número conta com especialistas brasileiros e argentinos sobre o tema. Entre os especialistas argentinos, está o prof. Hector Saint-Pierre (Professor Titular em Segurança Internacional e Resolução de Conflitos da Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho, UNESP), e diretamente da Argentina, dando prosseguimento a uma tradição de cooperação entre o TEMPO / UFRJ e Universidad Nacional de La Plata / Instituto de Relaciones Internacionales, estão os artigos de Laura Bogado Bordazar & Laura Maira Bono, professoras do instituto argentino, bem como Julia Esposito. Dois pesquisadores brasileiros, Maria Paula Nascimento Araújo, Professora Associada de História Contemporânea, e Iuri Cavlak, Professor Adjunto da Universidade Federal do Amapá, estão presentes neste número especial.

Procuramos ainda construir um diálogo intenso sobre a questão das Malvinas através de uma entrevista, sob a forma de mesa redonda, com estes mesmos especialistas mais o Norberto Osvaldo Ferreras, argentino, Professor Associado da Universidade Federal Fluminense, sobre o significado atual da crise das Malvinas. Este dossiê, além dessa reforçada contribuição com artigos de nível doutoral e entrevistas, apresenta resenhas fílmica e literária sobre obras de destaque notadas internacionalmente, e ainda a contribuição discente em formação do exercício de perfilagem biográfica e de alguns dos mais relevantes documentos impreteríveis para a análise histórico-política das relações internacionais do país com o mundo.

Por fim, é necessário mencionar o apoio da Financiadora de Estudos e Projetos (FINEP) e do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) através do projeto “Caminhos da Integração Sul-Americana”, sem os quais os últimos avanços e intentos em pesquisa não seriam possíveis. Nessa direção, os trabalhos aqui apresentados são parte integrante e constitutiva dos resultados deste projeto.

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História econômica argentina / Estudos Ibero-Americanos / 2008

Industria y empresas en la Argentina, siglo XX

La historiografía sobre el sector industrial en la Argentina tiene ya una larga tradición aunque no es abundante. Destacan algunas obras generales que han pretendido presentar una visión de largo plazo del desarrollo manufacturero local; los trabajos de Adolfo Dorfman, Aldo Ferrer, Jorge Katz y Bernardo Kosacoff, y Jorge Schvarzer representan hitos de indudable valor, independientemente de sus enfoques de análisis no necesariamente convergentes.[1]

Con todo, resulta notoria la falta de interés por la problemática industrial a partir de mediados de los años setenta y hasta prácticamente el cambio de siglo. Ello fue consecuencia, en parte, de la crisis de los paradigmas estructurales y del cuestionamiento de su valor explicativo, y, en parte del mismo proceso de desindustrialización que se manifestaba en la Argentina y otros países latinoamericanos. La escasa institucionalización académica de esa área de estudios ha sido quizás también uno de los factores que impidieron un mayor desarrollo.

En la última década una serie de investigaciones históricas ha logrado reinsertar la discusión sobre las características que asumió el sector manufacturero principalmente durante el período denominado “industrialización por sustitución de importaciones” (ISI), entre 1930 y 1976. Esta renovación historiográfica ha permitido focalizar en períodos específicos y contribuir desde nuevos relevamientos empíricos a matizar y, en algunos casos, a rebatir parte de las consideraciones más generales que sobre el sector habían brindado las interpretaciones estructurales o de largo plazo. En efecto, novedosos estudios sobre la industria e instrumentos de la política industrial durante el peronismo llamaron la atención sobre lo escaso que era el conocimiento sobre uno de los momentos más emblemáticos de la política argentina, identificado con la “era de las manufacturas”.[2] Otros períodos, en particular la maduración de la ISI hacia los años sesenta y primeros setenta, han sido menos “revisados”, no obstante allí también despuntan algunas indagaciones promisorias. Por ejemplo, recientemente se han abordado los mecanismos que la intervención estatal tuvo para promover grandes emprendimientos industriales que se ubicarían en la cúpula de la elite empresaria local, si bien esta era una línea de investigación ya presente en los años ochenta y noventa.[3]

Más descuidado ha resultado el estudio del sector manufacturero para el período previo al surgimiento de políticas industriales en la década de 1940, precisamente sobre la etapa en la que cierta renovación de los años setenta había indagado más. No obstante, nuevas líneas de investigación pueden encontrarse en los últimos años, referidas a problemáticas novedosas como el consumo, el mercado de capitales o vinculadas a temáticas ya antiguas como la inversión extranjera en el sector.[4]

Pese a estos avances, la carencia de análisis sectoriales es significativa en la literatura especializada argentina. Prácticamente no hay estudios de largo plazo sobre ramas o actividades específicas que permitan una revisión desde esa perspectiva de las problemáticas más generales de la industria. Significativamente, la renovación más importante del campo de la historia de la industria en la Argentina ha provenido desde la historiografía de empresas. En efecto, la efervescencia de esta disciplina en los últimos años ha permitido un notable enriquecimiento de los enfoques y de los saberes heredados respecto al sector industrial. Dado que la historia de empresas se focalizó principalmente en compañías y conglomerados manufactureros, el análisis micro permitió incluir temas relacionados a las estrategias empresariales en torno a la incorporación de tecnología, la necesidad de integración, el desarrollo de una red de proveedores o la capacitación de mano de obra, independientemente de los mecanismos específicos de gestión.[5] La perspectiva también insufló nuevos aires para la revisión de las políticas estatales respecto al sector, de la importancia de los entornos macroeconómicos y de las relaciones intrasectoriales.[6]

Este dossier se propone contribuir al estudio del sector manufacturero argentino desde las dos perspectivas mencionadas. Por una lado presentamos algunos estudios sectoriales que prestan atención a su vez a la dinámicas empresariales; y por otro un conjunto de estudios que focalizan en las trayectorias de empresas industriales pero que no descuidan su inserción dentro del conjunto de la rama o actividad empresarial; ambas dimensiones de análisis se entrelazan con las políticas industriales desarrolladas. La selección de estos estudios no es caprichosa; ellos cubren, un espacio temporal amplio, el transcurso del siglo XX, y variadas experiencias del sector manufacturero (algunas actividades “vegetativas”, características de los primeros años de industrialización, y otras “dinámicas”, propias de la maduración del sector) con el propósito de aportar a una visión más estilizada de la trayectoria del conjunto.

Los primeros tres trabajos recorren actividades tradicionales de la industria argentina en las primera mitad del siglo XX. Las artes gráficas, la industria textil y la producción tabacalera constituyen sectores de larga trayectoria y pueden considerarse “pioneros” en el avance de la sustitución de importaciones, aún durante la vigencia del modelo de extraversión económica que predominó hasta los años treinta.

El artículo de Silvia Badoza analiza el proceso de integración de la Compañía General de Fósforos, una de las más grandes empresas locales en las primeras décadas del siglo XX. Esta empresa avanzó en su proceso de integración hacia la actividad gráfica inicialmente con el propósito de garantizar la provisión de insumos a su producción principal. La autora presenta un estudio de la rama industrial de artes gráficas primero para focalizarse luego en las estrategias empresariales que tendieron a una integración vertical y a la diversificación productiva. El análisis de los ciclos de inversiones permite identificar una fuerte apuesta productiva con el propósito de adquirir un lugar preponderante en el mercado gráfico, una estrategia que resultó exitosa y abrió toda una nueva línea de oportunidades de negocios.

Claudio Belini nos presenta un estudio del sector textil para un período clave en la historia de la industria argentina que comprende la década de 1920 y los primeros años de la Gran Depresión. Discutiendo algunas de las hipótesis más tradicionales sobre el sector, el autor sostiene que antes de los años treinta se observaron progresos en la sustitución de importaciones. Esos avances fueron notorios tanto en la industria lanera como en la fabricación de tejidos de seda artificial, que logró abastecer niveles significativos de la demanda interna. El análisis de la evolución de la rama se completa con un estudio de los principales instrumentos de política económica que afectaron el desempeño de esa industria, en particular del régimen de tarifas aduanero.

El estudio de Noemí Girbal-Blacha aborda también un sector de consumo masivo y tradicional de la industria argentina, pero significativamente muy poco investigado. La autora entrelaza el análisis del sector con las políticas estatales de protección y las características del mercado; allí destacaban unas pocas grandes empresas y una gran cantidad de productores de materia prima, cuyas demandas frente a los poderes públicos no eran necesariamente coincidentes. El análisis de la industria tabacalera en la Argentina, antes y después de la crisis de los años treinta, permite además incorporar la dimensión regional, descuidada en la literatura especializada, salvo las honrosas excepciones de la producción azucarera o vitivinícola.

Los cuatro trabajos siguientes avanzan temporalmente sobre la última mitad del siglo XX, y recorren actividades industriales vinculadas a lo que se ha denominado la “segunda fase” del proceso ISI. En estos trabajos las políticas públicas de promoción, que han desbordado ya sobradamente la aplicación de pautas arancelarias, adquieren especial relevancia para entender el desempeño productivo de sectores manufactureros enteros y de algunas empresas en particular. Algunos sectores productivos más complejos como la siderurgia, automotriz, química y petroquímica son analizadas aquí combinando la perspectiva de la rama con los estudios de empresas y de las políticas estatales.

El estudio de Marcelo Rougier focaliza en el desempeño productivo de SIAT una empresa del grupo Di Tella creada para fabricar tubos de acero durante los años peronistas. El autor analiza cómo las demandas del sector público en el área de infraestructura estimularon la instalación de la planta y condicionaron luego las estrategias empresariales. El desempeño productivo y el proceso de diversificación que ensaya la firma a partir de los años cincuenta constituyen un resultado de ese vínculo estrecho con el estado que, a su vez, permitió un significativo avance de la sustitución de importaciones en rubros básicos y más intensivos en capital. Adicionalmente, el trabajo presenta información que permite avanzar hacia una mayor comprensión de las políticas industriales durante el peronismo.

Valeria Ianni aborda la instalación y desarrollo de las empresas transnacionales que protagonizaron la fuerte expansión de la rama automotriz en Argentina a comienzo de los años sesenta. La autora destaca el desarrollo de tramas productivas y los eslabonamientos multiplicadores sobre otros sectores industriales de esa implantación, así como una modernización del proceso productivo y de gestión que esas empresas provocaron sobre la estructura industrial local. No obstante, también señala los límites de la experiencia que, en palabras de Ianni, reprodujo el desarrollo desigual en lugar de lograr homogeneizar las condiciones de producción. Un proceso que en definitiva estaba condicionado fuertemente por las estrategias de las empresas transnacionales y dejaba escaso margen de acción a las políticas de promoción locales.

El artículo de Juan Odisio explora un caso específico de promoción industrial en el segundo lustro de los años setenta, cuando el estado, a través de distintos mecanismos, pretendió impulsar algunos grandes proyectos en la producción de insumos básicos, a la vez que favorecer la desconcentración regional. El trabajo estudia en particular la conformación del complejo industrial de Petroquímica Bahía Blanca y desentraña el entramado específico que permitió, luego de numerosos avatares, la consolidación de ese polo industrial en el sur de la Provincia de Buenos Aires. Odisio destaca, asimismo, los problemas que tuvo el estado en el desarrollo industrial, tanto en su faz empresarial como en la de promotor del surgimiento y consolidación de empresas privadas.

Finalmente, el trabajo de Graciela Pampin también recala en un caso particular de promoción industrial y regional, aunque mucho menos exitoso que el anterior. Se trata de la empresa Alpat SA, destinada a producir soda solvay, un insumo clave para vastos sectores industriales. El proyecto fue promovido por el estado a fines de los años sesenta y encarado por empresarios privados con fuerte asistencia crediticia pública. Sin embargo, jaqueada por los cambiantes marcos institucionales y legales, la empresa no entró en producción hasta entrado el siglo XXI. El caso ilustra no sólo la falta de coherencia del sector público a la hora de impulsar un proyecto industrial, si no también el nocivo comportamiento empresarial en esas condiciones.

Si bien la fragmentación y la heterogeneidad predominan aun en los estudios industriales y empresariales en la Argentina, el resultado de estas investigaciones que se presentan en conjunto es sin duda alentador. No sólo porque se trata de estudios novedosos en sectores y espacios temporales poco explorados, sino porque sus aportes permiten rediscutir varias de las hipótesis más tradicionales heredades de la literatura especializada. La incipiente renovación de la historia industrial, que se evidencia también en la profusa utilización de fuentes primarias y secundarias prácticamente ausente en los estudios generales, alienta a esperar prontamente nuevas síntesis superadoras en este campo historiográfico.

Notas

1. Dorfman, Adolfo. Historia de la industria argentina. Buenos Aires: Solar, 1970; Ferrer, Aldo. El devenir de una ilusión. Buenos Aires: Sudamericana, 1989; Katz, Jorge y Kosacoff, Bernardo. El proceso de industrialización en la Argentina. Buenos Aires: CEAL, 1989; Schvarzer, Jorge. La industria que supimos conseguir. Buenos Aires: Planeta, 1996.

2. Véase por ejemplo Rougier, Marcelo. La política crediticia del Banco Industrial durante el peronismo. Buenos Aires: CEEED, 2001; Girbal-Blacha, Noemí. Mitos, paradojas y realidades en la Argentina peronista (1946-1955). Bernal: UnQui, 2004; y Belini, Claudio. La industria durante el primer peronismo (1946-1955). Tesis de doctorado, Buenos Aires: UBA, 2004.

3. Por ejemplo, Rougier, Marcelo. Industria, finanzas e instituciones. La experiencia del Banco Nacional de Desarrollo. Bernal: UnQui, 2004; y Castellani, Ana. La ampliación del complejo económico estatal-privado y su incidencia sobre el perfil de la cúpula empresaria. Argentina 1966-1975. H-industri@, año 2, n. 2, primer semestre, Buenos Aires, 2008.

4. Véase, entre otros, Rocchi, Fernando. Consumir es un placer: la industria y la expansión de la demanda a la vuelta del siglo pasado. Desarrollo Económico, n. 148, enero-marzo de 1998; y Pineda, Yovanna. Sources of Finance and Reputation. Merchants Finance Groups in Argentine Industrialization, 1890-1930. Latin American Research Review, n. 2, 2006.

5. Véanse principalmente Kosacoff, Bernardo, y otros. Globalizar desde Latinoamérica. El caso Arcor. Bogotá: Mc Graw Hill, 2001; Gilbert, Jorge. Empresario y empresa en la Argentina Moderna. El Grupo Tornquist, 1873-1930. DT n. 27, Buenos Aires: UDESA; Castro, Claudio. Política industria y empresa. El fracaso de Propulsora como polo siderúrgico integrado, 1958-1976. Anuario del CEH “Profesor Carlos Segreti”, n. 5, Córdoba, 2005; Rougier, Marcelo y Schvarzer, Jorge. Las grandes empresas no mueren de pie. El (o)caso de SIAM. Buenos Aires: Norma, 2006.

6. Véanse como ejemplo los trabajos incluidos en Rougier, Marcelo (dir.). Políticas de promoción y estrategias empresariales en la Argentina. Buenos Aires: Ediciones Cooperativas, 2007.

Marcelo Rougier.


ROUGIER, Marcelo. Presentación. Estudos Ibero-Americanos. Porto Alegre, v.34, n.2, dez., 2008. Acessar publicação original [DR]

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