História Indígena, historiografia e indigenismo: contribuições, desafios e perspectivas / Fronteiras – Revista de História / 2016

Com grande satisfação apresentamos o dossiê temático História Indígena, historiografia e indigenismo: contribuições, desafios e perspectivas. A ideia de publicar este dossiê surgiu durante o XXVIII Simpósio Nacional de História no qual, seguindo uma tradição da área, vários trabalhos sobre História Indígena foram apresentados, em especial, no simpósio temático coordenado por Jorge Eremites de Oliveira e Thiago Leandro Vieira Cavalcante. Em Florianópolis, foi lançada a proposta de publicação deste dossiê, que, todavia, foi recepcionada por diversos autores e autoras, inclusive do exterior, que não estavam participando do evento, fato que demonstra a abrangência e a consolidação da área de História Indígena e da Fronteiras – Revista de História nos últimos anos. Todos os artigos publicados representam qualitativamente uma boa amostra da produção brasileira, bem como internacional sobre História Indígena.

É importante registrar que este é o segundo dossiê sobre a temática indígena publicado pela Fronteiras. O primeiro saiu no segundo semestre de 1998 com o título Sociedades Indígenas. Naquele momento, a emergência dessa área de estudos viria a culminar no auxílio da criação do curso de Mestrado em História com a linha de pesquisa em História Indígena do então campus de Dourados da UFMS. Hoje, mais de uma década depois, a Fronteiras volta a dar destaque ao tema, demonstrando, sobretudo, o amadurecimento e a diversificação da área no Brasil e na América Latina e sua consolidação na, hoje, UFGD.

O artigo História(s) na Amazônia: nos “termos” dos povos indígenas de Jane Felipe Beltrão e Rhuan Carlos dos Santos Lopes traz uma importante discussão sobre a história dos povos que vivem na região amazônica dos rios Tapajós e Arapiuns. Tal história é apresentada a partir do diálogo com narradores indígenas e demonstra que aqueles que insistem em dizem que os indígenas são povos sem história estão absolutamente errados.

Em Indigènes (2006) en aulas étnicamente homogéneas. Un estudio del etnocentrismo en la enseñanza de la historia mediante diario de aula, Manuel Pousa Castelo analisa as possibilidades de uso do filme Days of Glory para a introdução da temática pós-colonial no ensino secundário. O resultado da análise demonstra o desconhecimento do pós-colonial e do colonialismo em si, sobretudo, desde a perspectiva do colonizado.

Los wixaritari a través de la antropología, la historia y la literatura: la construcción y popularización de un estereotipo de María de la Concepción Sánchez Domínguez-Guilarte apresenta uma revisão da literatura que criou a imagem dos Wixaritari, povo indígena do México, diretamente relacionada ao consumo do hikuri, um pequeno cactos com propriedades psicotrópicas. Ao mesmo tempo em que demonstra que estes indígenas passaram por um processo de estereotipação, a autora valoriza os usos tradicionais que eles fazem da planta.

Éder da Silva Novak e Lúcio Tadeu Mota, no texto A política indigenista e os territórios indígenas no Paraná (1900-1950), analisam a política indigenista na primeira metade do século XX, sobretudo, no estado do Paraná. Enfatizam ainda o protagonismo indígena na luta pela defesa de suas terras.

Em Imaginário e Representações sobre os povos Guarani falantes do Rio de La Plata e da Cordillera Chiriguana no século XVI, Protásio Paulo Langer analisa as representações sobre os Guarani falantes pelas frentes de conquista rioplatense e andina. As fontes do século XVI discorrem sobre costumes, modos de ser e atributos morais desses povos.

O artigo Os povos indígenas e as fronteiras do extremo norte, de Maria Luiza Fernandes, apresenta uma relevante discussão sobre a percepção do indígena por parte da Coroa portuguesa durante o processo de demarcação das fronteiras na região norte do Brasil, especificamente no atual estado de Roraima. O texto traz à baila as discussões sobre a presença indígena nas regiões de fronteira, ora vistas como fundamentais e ora como problemáticas.

O artigo A mobilização pelos direitos indígenas na Constituição de 1988: articulações do Conselho Indigenista Missionário e da União das Nações Indígenas através do jornal Porantim (1985-1988) de Edgar Ávila Gandra e Felipe Nunes Nobre analisa as reivindicações indígenas durante a Assembleia Constituinte. Os autores utilizaram como fonte principal uma publicação do Conselho Indigenista Missionário, órgão que prestou apoio decisivo às demandas indígenas que foram acolhidas pela Constituição brasileira de 1988.

Em A questão legal da administração particular de indígenas (Curitiba e Campos de Viamão, século XVIII), Isadora Talita Lunardi Diehl trata das disposições legais que tentaram pautar a administração indígena durante o período do Brasil colonial. Observa ainda a forma com que a Coroa tratou a temática e introduziu as determinações régias nas regiões sulinas de Curitiba e de Campos de Viamão no século XVIII.

Jóina Freitas Borges, Ludiane das Chagas Vilela e Tailine Rodrigues em História e arqueologia na construção da interculturalidade: Construindo saberes plurais com os Tremembés de Almofala – CE, apresentam uma proposta de história descolonizante, uma história que não seja apenas sobre indígenas, mas que leve em conta também as apropriações de pesquisa feitas pelos próprios indígenas, como é o caso dos Tremebés de Almofala que passaram por uma singular experiência durante um cursos de magistério superior indígena.

Em “Não tem fee nem ley nem piedade”: um esboço etno-histórico sobre os Paiaku e outros povos Tarairiú nos sertões do Norte, Marcos Felipe Vicente apresenta uma reflexão sobre povos Paiaku, especialmente sobre os elementos socioculturais e políticos. Os Paiaku compunham, juntos com outros grupos, a família linguística Tarairiú entre os séculos XVI e XVII.

Silêncios da Memória: o apagamento do protagonismo indígena em Goiás, de Patrícia Emanuelle Nascimento, apresenta um conjunto de representações constantes na documentação oficial de Goiás nos séculos XVIII e XIX. A autora demonstra que tais representações são responsáveis pelo apagamento do protagonismo indígena nessa região do Brasil.

Fechando o dossiê, temos o artigo Luxúria e selvageria na invenção do Brasil: Enquadramentos coloniais sobre as sexualidades indígenas, de Estevão Rafael Fernandes. O autor trabalha com representações coloniais (século XVI) sobre a sexualidade dos indígenas. A visão europeia sobre a sexualidade indígena é também relacionada a outras representações de selvageria imbricadas nos projeto colonial.

Além do dossiê, esta edição da Fronteiras conta com quatro artigos de temas livres. A política pública brasileira como um direito humano das populações negras e indígenas: algumas dificuldades de bases estruturantes para a sua realização de Nilda da Silva Pereira; Getúlio Vargas e o Caudilhismo de Rafael Augustus Sêga; O ofício de escrever e ensinar história: a propósito de “lições de História da Pátria”, de Américo Brasiliense de autoria de Rubens Arantes Correa; e, “Admita que vc não tem útero”: violências de candomblecistas a mulheres transexuais e travestis do Candomblé no Facebook de Eduardo Meinberg de Albuquerque Maranhão.

Por fim trazemos duas resenhas. Uma do livro Colonialismo, território e territorialidade: a luta pela terra dos Guarani e Kaiowa em Mato Grosso do Sul de Thiago Leandro Vieira Cavalcante, resenhado por José Augusto Santos Moraes e outra da obra A alma do MST? A prática da mística e a luta pela terra. Dourados de autoria de Fabiano Coelho e resenhada por Nelson de Lima Júnior. Desejamos uma ótima leitura.

Jorge Eremites de Oliveira (UFPel)

Marcos Borges (UFPel)

Thiago Leandro Vieira Cavalcante (UFGD)

(Organizadores do dossiê)


OLIVEIRA, Jorge Eremites de; BORGES, Marcos; CAVALCANTE, Thiago Leandro Vieira. Apresentação. Fronteiras: Revista de História. Dourados, v. 18, n. 32, Jul. / dez., 2016. Acessar publicação original [DR]

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