Cinema e Estudos Culturais: perspectivas em debate/ Albuquerque/2022

A atualidade do cinema e sua presença em novas formas de produção, distribuição e exibição (como o streaming, por exemplo), ampliando o espectro da representação e de temáticas de raça, gênero e sexualidades, entre outras, trazem à tona o debate sobre o consumo de imagens, as culturas visuais e midiáticas, bem como as pedagogias culturais que tais produções podem sugerir. Leia Mais

História, cinema e gênero: interseções nas telas / História Revista / 2018

Trabalhos de História-Cinema têm se avolumado no Brasil nas duas últimas décadas. Historiadores / as tomam o artefato audiovisual como fonte e objeto para analisar a representação do passado, os usos do passado, os lugares de memória, as encenações dos eventos e das trajetórias de personagens históricos nas telas.

Se, hoje, já é possível cartografar o campo de estudos nessa chave, no país, que compreende simpósios específicos e em eventos acadêmicos de abrangência nacional e internacional, além de teses e dissertações – produzidas em diferentes departamentos acadêmicos brasileiros – e outras publicações especializadas, os estudos de História-Cinema que se voltam mais detidamente para as questões de Gênero e sexualidade, que também reúnem certa produção, apesar de esparsa, têm adquirido corpo somente na última década.

A publicação deste dossiê, “História, cinema e gênero: interseções nas telas”, pela História Revista colabora para o preenchimento da lacuna historiográfica sobre a temática. Reúne artigos de pesquisadores (as) brasileiros (as) das áreas da História e da Comunicação que vem debruçando-se sobre artefatos audiovisuais, a fim de esquadrinhar suas possibilidades de análises, especialmente sobre as questões de gênero e sexualidade.

Do conjunto de textos, aqui reunidos, destaca-se a tendência de lançar luz sobre a produção cinematográfica de mulheres, de países como Estados Unidos, Cuba e Brasil. Outros dois artigos dedicam-se à análise de filmes, especificamente estadounidenses.

Os artigos sobre as cineastas e seus filmes dialogam com certa perspectiva da teoria feminista do cinema que, desde o final dos anos 1960, busca recuperar do esquecimento, quando não do ostracismo – produzidos por um campo marcadamente masculino que reproduziu (e ainda reproduz) valores retrógrados de inferiorização e exclusão das mulheres – cineastas e mostrar a relevância de suas cinematografias.

Neste dossiê, a designação autoria feminina no cinema não é aplicada diretamente, sendo que os textos apenas a tangenciam ao problematizarem a invisibilidade das mulheres em tal campo e ao analisarem suas obras fílmicas. Isso aproxima os textos da própria crítica feminista que, em diálogo com as teorias gerais sobre autoria, já alertou para a armadilha desse tipo de nomenclatura que pode remeter à ideia de naturalização do feminino, isto é, reiterar o escopo do determinismo biológico, que embasa a compreensão de que as diferenças entre homens e mulheres residem em certa essência biológica, seja genital, seja hormonal – desconsiderando, pois, que a definição de gênero resulta de construção social e, como tal, cultural e histórica, implicando, invariavelmente, relações de poder.

Faz-se necessário salientar, no entanto, que os estudos feministas também reconhecem que tal denominação reforça um aspecto político importante frente à ausência de uma expressão que dê conta de traduzir a questão que ela engendra, qual seja: o lugar assimétrico decorrente de relações desiguais de poder no campo da produção simbólico-cultural, que impingiram certa invisibilidade às mulheres cineastas e aos seus filmes.

Voltando aos textos. O artigo de Sandra Machado problematiza a História do cinema, concentrando seu olhar nos Estados Unidos e na Europa, para trazer ao público brasileiro a trajetória invisibilizada da cineasta Alice Guy-Blaché (1873-1968), que pode ser considerada, segundo a autora, uma das fundadoras “do cinema de ficção”. Ainda neste artigo é possível entrar em contato com as inovações técnicas, de estilo e com as temáticas abordadas por cineastas europeias como Leni Riefenstahl (1902-2003), Agnès Varda e Marguerite Duras (1914-1996). Em diálogo com as teorias feministas do cinema, Machado retoma as obras dessas realizadoras e de outras para observar como elas ousaram, inclusive ao estamparem nas telas o protagonismo de personagens femininas, sendo que, em alguns filmes, abriram espaço para a representação daquelas mulheres consideradas socialmente marginais, como, por exemplo, as lésbicas.

Ana Veiga, por sua vez, brinda os(as) leitores(as) com um artigo sobre a cineasta cubana negra Sara Gómez (1942-1974). Além de apresentar a diretora, a historiadora aborda como esta cineasta, inserida no denominado Novos Cinemas Latino-Americanos, mais especificamente no “Cinema Imperfeito” cubano, ligado à Revolução de 1959 e vinculado aos ideais socialistas, desenvolveu em seu filme, De cierta manera, lançado em 1974, a relação entre revolução e relações de gênero.

Outro artigo, de minha autoria, procura recuperar a trajetória da cineasta brasileira Vera de Figueiredo, que, em seu primeiro longa-metragem, de ficção, Feminino Plural (1976), não apenas rompeu com o cinema clássico, aproximando-se da tendência modernista e da experimentação, como apresenta certa leitura sobre a ditadura civil-militar em curso, estabelecendo diálogo com a historiografia do Brasil relativa ao período.

Já o artigo de Júlio Cesar Lobo volta-se para a análise fílmica de Retratos de guerra (1989) e Hemingway & Martha (2013), observando mais especificamente a representação da profissão de repórter-fotográfico de guerra exercida por personagem feminina. O texto, ao se concentrar na construção das protagonistas dos referidos filmes, suscita a discussão sobre as relações de gênero no jornalismo e em contexto de guerra, o que configura um tema atual e pouco discutido pelo público brasileiro.

Fechando o dossiê, o artigo de Miguel Sousa Neto e Aguinaldo Gomes aborda o filme Shortbus, de John Cameron Mitchell (2006). Os autores dirigem suas análises para o tema da corporeidade e, desse modo, analisam os afetos e desejos dos personagens, em meio ao contexto de globalização e de “amores líquidos” – ambientado no filme e no qual ele fora realizado.

Os (as) leitores(as) encontrarão, pois, um dossiê robusto sobre cinema e gênero, cujos artigos, mesmo quando não circunscrevem seus objetos diretamente à História, destacando aspectos próprios da disciplina, não prescindem de rigorosa contextualização sobre o período em que as / os cineastas realizaram seus filmes ou os ambientaram.

À coordenação da História Revista, aos (as) autores (as) participantes deste dossiê e aos (às) diferentes pareceristas e colaboradores (as) só me resta render sinceros agradecimentos, o que o público leitor(a), certamente, poderá reiterar.

Alcilene Cavalcante de Oliveira (UFG)

Organizadora


OLIVEIRA, Alcilene Cavalcante de. Apresentação. História Revista. Goiânia, v. 23, n. 1, jan. / abr., 2018. Acessar publicação original [DR]