Alteridades em tempos de (in)certeza: escutas sensíveis | Miriam hermeto, Gabriel Amato e Carolina Dellamore

Gabriel Amato e Miriam Hermeto Alteridades
Gabriel Amato e Miriam Hermeto | Imagem: UFMG

Sentados diante de um Outro, tentamos atribuir sentido a ele. Ou enquadrá-lo, nas palavras de Judith Butler (2018). No instante dessa “cena do reconhecimento”, as molduras que usamos vêm de relações de poder que extrapolam esse momento. Ao reconhecê-lo como outro, reconhecemos também a nós mesmos. Há semelhanças, mas também há diferenças.

Já nos vimos antes ou esse é o primeiro contato? É uma mulher, assim como eu? Ou talvez é um homem e ainda mais velho? Há confiança suficiente entre nós para que o que ela está para me dizer seja enunciado? Tais características constituem uma barreira ou um conector entre nós? Os pesquisadores que já estiveram em entrevistas de história oral sabem que as respostas a cada uma dessas perguntas – e a inúmeras outras – podem levar, a nós e a nossas pesquisas, para rumos diversos, muitas vezes inesperados.

Trazer reflexões e provocações sobre a alteridade, essa “companheira persistente na relação entrevistado-pesquisador em história oral” (p. 7), é uma tarefa que a coletânea Alteridades em tempos de (in)certeza: escutas sensíveis (Letra e Voz, 2019) cumpre com destreza. Com 11 textos originados do XII Encontro Regional Sudeste de História Oral, que aconteceu em Belo Horizonte, em 2017, a coletânea se propõe a refletir sobre as diferenças e suas implicações na história oral.

Seus organizadores, Miriam Hermeto, Gabriel Amato e Carolina Dellamore, membros da comissão organizadora do evento homônimo, já na introdução dizem o que ajudou a delimitar a temática: além da polarização política crescente, “uma autorreflexão crítica sobre nossos papéis como pesquisadores de ciências humanas e sociais, que apontava para a necessidade de que tais diálogos continuassem a acontecer, apesar do contexto” (p. 8). O contexto a que se referem diz respeito à profunda crise política que mostrava sua face em 2016, e que insiste em continuar. As incertezas desses tempos parecem não ter um fim anunciado e cresce a necessidade de aumentar o debate em torno da alteridade.

Pensados nesse contexto, os textos que seguem não são necessariamente (somente) teóricos – embora bem embasados – mas partem de questionamentos surgidos em situações de pesquisa nas quais a alteridade se tornou uma questão. O primeiro grupo de textos, de acordo com a divisão feita pelos organizadores na introdução da coletânea, “apesar de tratarem de temáticas díspares, todos analisam como a alteridade demarca possibilidades da entrevista de história”. No primeiro deles, A questão indígena e o direito à memória na fotografia de Claudia Andujar, Ana Maria Mauad discute sobre a trajetória e o trabalho da fotógrafa suíça que dedicou décadas ao debate da causa Yanomami, tomando “sua arte como arte utópica e seu discurso como a defesa radical do respeito à diferença do Outro” (p. 23).

Em seguida, em Memórias e narrativas: o uso da história oral para a apreensão da alteridade, Mario Brum parte da pesquisa realizada no conjunto habitacional da Cidade Alta, no Rio de Janeiro, para entender como se constroem ali as relações de alteridades. Para tanto, como indica o título, a história oral é um caminho para a apreensão de como se produz simbolicamente a atribuição de ser ou não ser favela, questão sobre a qual o autor pensa a partir do conceito de orientalismo de Edward Said.

Luciana Kind e Emilene Araujo de Souza refletem sobre “os desafios éticos no trabalho com pessoas jovens vivendo com HIV/aids, que nos compelem a reinventar, como proposta estética e política as maneiras como reapresentamos o material empírico produzido na pesquisa com narrativa” (p. 43). Por meio de uma série de discussões sobre tópicos sensíveis e escuta desenrolados no encontro pesquisador-entrevistado, as autoras propõem como saída ético-estético-política a ficção fragmentada ou, como indica o título, Calidoscópios narrativos: uma proposta de trabalho com o tópico sensível viver com HIV/aids.

O segundo grupo de textos apresenta quatro reflexões que, de acordo com os organizadores, “tem a alteridade como tema e objeto de pesquisa a um só tempo, a partir de problematizações de identidades de minorias políticas” (p. 10). Os primeiros dois abordam questões sobre vivências LGBTQIA. Em Brasileiros LGBT no Sul da Flórida: estratégias de documentação em tempos de incerteza, Valéria Magalhães parte da escassez de estudos voltados para a sexualidade na imigração. Para essa reflexão o contexto é fundamental, já que o texto parte da fala da autora no evento de 2017, mas é escrito logo após as eleições de 2018 que elegeram Jair Bolsonaro, o que levantou diversas questões e incertezas para a vida dessa minoria política. Já Luiz Morando, em “Vamos pelo menos sentar para tecer um tricô”: sociabilidade LGBTQIA em Belo Horizonte (1978-1984), analisa como um homem homossexual produz um discurso sobre si e sobre o outro em sua narrativa sobre a vivência LGBTQIA naquele tempo. “Entre as diversas formas de resistência, produzir narrativas é uma das mais antigas” (p. 72), aponta.

Os outros dois discutem a questão racial, porém por vias distintas. Amilcar Pereira, em Na luta e na raça: aspectos do processo de criação de organizações do movimento negro brasileiro em meio à ditadura civil-militar, aponta que a atuação do movimento social negro é “uma das lacunas na historiografia produzida no Brasil sobre o período da ditadura” (p. 87|). O texto pretende apresentar alguns aspectos iniciais desta atuação a partir de uma extensa pesquisa realizada entre 2003 e 2010. Já Samuel de Oliveira e Roberto Borges partem não de uma comunicação, mas da curadoria de filmes realizada durante o evento para discorrer sobre O testemunho audiovisual e imaginário da cultura negra: a mostra audiovisual do XII encontro regional sudeste de história oral e a educação antirracista no Brasil (2001-).

O terceiro grupo de textos reflete sobre o exercício e as implicações da escuta no trabalho de história oral. Juniele de Almeida escreve sobre os policiais que produzem narrativas sobre eles próprios em Debate público sobre desmilitarização: entre propostas políticas e narrativas de policiais militares do acervo “tropas em protesto – anos 1990”. Já Marta Rovai parte não de uma pesquisa específica, mas de uma extensa experiência com a história oral para tecer uma provocativa reflexão sobre a escuta das narrativas femininas. Em História oral e gênero: memórias sensíveis para um tempo mais humano, a autora propõe diversos questionamentos sobre o exercício da pesquisa com as narrativas, mas, além disso, sobre as possibilidades de “torná-las potencialmente tocantes a ponto de transformar a forma como concebemos a produção do conhecimento num compromisso com um mundo mais humano” (p. 141).

Também Rodrigo Patto Sá Motta pensa metodologicamente sobre o campo no texto Fontes orais para a pesquisa sobre as universidades durante a Ditadura. Desta vez a reflexão vem do encontro não das diferenças, mas de semelhanças, visto que o autor entrevistou sujeitos com trajetórias semelhantes à sua. O texto também questiona as expectativas anteriores às entrevistas e como elas podem ser surpreendidas.

Por último, Ricardo Santhiago escreve sobre as Lições de Ecléa. O texto fala sobre a trajetória e relevância de Ecléa Bosi, que faleceu em 2017, logo antes do evento que originou a coletânea. Além da homenagem póstuma, o esforço, segundo o autor, vem da “convicção de que seu trabalho, que estimulou tantos de nós a adotar a escuta como método, tenha algumas coisas a dizer sobre ‘escutas sensíveis’” (p. 167).

Ao terminar a leitura do livro, a sensação é da necessidade de repensar a alteridade. Diante de tantas possibilidades abertas, que enriquecem o campo da história oral e tornam a coletânea um relevante ponto de partida para futuras reflexões, parece-nos que os organizadores alcançam um desejo enunciado: “que tenhamos cada vez menos certezas epistemológicas para lidar com as incertezas do tempo presente” (p. 11).


Referência

BUTLER, Judith. Quadros de guerra: quando a vida é passível de luto? Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2018.


Resenhista

Júlia Amaral Amato Moreira – Mestranda em História pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). E-mail: [email protected].com  ORCID iD 0000-0002-9561-2688

Referências desta Resenha

HERMETO, Miriam; AMATO, Gabriel; DELLAMORE, Carolina (Org.). Alteridades em tempos de (in)certeza: escutas sensíveis. São Paulo: Letra e Voz, 2019. Resenha de: MOREIRA, Júlia Amaral Amato. Essa companheira persistente: sobre alteridades e história oral. História Oral. Rio de Janeiro, v. 25, n. 1, p. 275-278, jan./jun. 2022. Acessar publicação original [DR]

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