RUST, Leandro Duarte. Bispos guerreiros: violência e fé antes das cruzadas. Petrópolis: Vozes, 2018. Resenha de: COSTA, Ives Leocelso Silva. A disputa pelo sagrado. Ponta de Lança, São Cristóvão, v. 13, n.24, p.130-134, jan./jun., 2019.

Leandro Duarte Rust é um medievalista em ascensão no Brasil. Professor da Universidade Federal do Mato Grosso (UFMT) é dono de uma crescente bibliografia, iniciada com a publicação de Colunas de São Pedro: a política papal na idade média central (Annablume, 2011), seguida por A reforma papal (1050-1150): trajetórias e críticas de uma história (EdUFMT, 2013) e Mitos papais: política e imaginação na história (Vozes, 2015). Basta olhar para os títulos de suas obras para compreender porque Rust vem se consagrando como um historiador do papado.

Entretanto, seu quarto livro, Bispos guerreiros: violência e fé antes das cruzadas, recém-publicado pela editora Vozes, vai além. Seguindo a história de Cádalo, entronizado como o “antipapa” Honório II, o autor realiza uma profunda análise sobre as relações entre a violência e o sagrado na Península Itálica nos séculos X e XI.

Dividida em oito capítulos, mais prólogo e epílogo, a obra chama a atenção por sua forma narrativa, que toma de empréstimo elementos literários, possivelmente numa tentativa de tornar a leitura mais acessível para o grande público.

Cada capítulo começa mais ou menos da mesma forma: asssim como em uma peça, é estabelecido o cenário, os atores e então desenrola-se um breve ato, com Cádalo como protagonista. Logo em seguida, recua-se no tempo para explicar como aquela situação se configurou. Cádalo, desta forma, não é o elemento central do livro, mas o fio condutor de uma narrativa que busca revelar o mundo em que ele viveu. Um mundo em disputa, no qual imperadores, bispos e aristocratas combatiam – literalmente – para impor seu discurso como legítimo.

Apesar do recurso à dramaticidade, o caráter “científico” de Bispos guerreiros é inquestionável. Leandro Rust apresenta não só um grande rigor teórico, mas um vasto domínio intelectual. São dezenas as fontes documentais utilizadas pelo autor – crônicas, epístolas, relatórios conciliares e sinodais, inventários, entre outras – meticulosamente analisadas, com atenção especial para o significado contextual dos termos, tais como violentia e pax, no que se percebe a influência da História dos Conceitos de Kosellek, bem como da leitura a contrapelo de Walter Benjamin. Além disso, há uma profunda discussão historiográfica, já perceptível no prólogo, no qual é examinada forma como os historiadores abordam os bispos guerreiros:

Como era possível que sacerdotes do cristianismo, da religião considerada de essência pacifista, encontrassem sentido nessa fusão entre fé e beligerância? De modo geral, eis o que os historiadores concluem: não passavam de exceções, desvios. Eles não eram verdadeiramente clérigos, mas lobos aristocráticos em pele de eclesiástico (RUST, 2018, p. 14).

Nas quatro páginas seguintes, Rust dialoga com autores como Armstrong, Elias, Clark, Burkhardt, Arnold, Duby, Erdnmann, Riley-Smith, Tyermann, Flori e Friend, entre vários outros, para estabelecer que a contradição percebida entre a prática da fé e o uso das armas é fruto da percepção contemporânea. Segundo o autor:

A história está repleta de casos em que a espiritualidade e a beligerância fundiam-se em uma experiência coletiva dotada de lógica duradoura e autêntica. A época apontada como marco do processo de racionalização e separação entre a fé a força também foi a mesma época em que gerações de bispos guerreiros viveram. A realidade também lhes pertenceu (RUST, 2018, p. 18).

Bispos guerreiros é, desta forma, um estudo do que não se quer ver, da constância e coerência, num contexto histórico específico, de um fenômeno tido como excepcional. É história das religiões, uma vez que o sagrado ocupa grande parte de sua atenção.

Para religiosos como Leão de Vercelli, Poppo de Aquileia e Ariberto de Milão, violentia era afrontar a propriedade eclesiástica, porta-voz celestial na terra, enquanto a paz era percebida como ordem: conformidade à hierarquia e à autoridade sacra. Rust (2018) argumenta, portanto, que o uso das armas pelos prelados era uma também uma ação espiritual, pois visava a manutenção da paz e a reparação da injustiça. Esta união entre guerra e sacralidade encontra seu ápice no carroccio, confeccionado pelo arcebispo de Milão na luta contra o imperador:

Era um altar para os tempos de guerra. Através dele o Salvador cruzava o umbral da igreja e acompanhava os citadinos. Assim, a batalha não seria travada “em nome de Cristo”, mas com o próprio Cristo. A guerra dos milaneses ganhava o significado de ato sacrificial. Perante aquele altar, o combate era imitação da Paixão; e os combatentes, irmãos em uma comunhão verdadeira e plena (RUST, 2018, p. 142).

Estabelece-se, deste modo, a natureza sacramental da guerra e a legitimidade espiritual do uso da força. Mesmo os eclesiásticos ditos reformadores do século XI, que combatiam veementemente a simonia e o casamento clerical, abraçavam este pensamento.

Contudo, se Bispos guerreiros é história das religiões, também é história política, pois o mundo que lhes deu origem foi moldado por uma instituição que enreda toda a trama: o império. É a chegada de Oto I de Além d’Alpes que põe a história em movimento e foi a forma de exercício de poder perpretrada por ele, a dominação saxônica, que permitiu o surgimento de “homens novos” como Cádalo, órfãos de tempo, para usar a expressão do autor, que ascenderam na hierarquia social (RUST, 2018).

A dominação saxônica consistia na criação de laços de amizade e fidelidade entre o rei e a aristocracia, esta recebendo terras e poder, mas derivando sua autoridade da doação feita por aquele. Surgiam assim nobres poderosos, mas em última instância dependentes do rei. Oto I implantou esse sistema ao conquistar a coroa do Regnum Italicum, mas neste território substituiu os senhores temporais por senhores eclesiásticos, afastando assim as tradicionais famílias itálicas. Este sistema se perpetuou ao longo dos séculos X e XI, mesmo com a mudança de dinastia imperial. Os bispos eram, portanto, grandes proprietários de terra, detentores de poderes temporais e representantes do imperador. Que usassem a espada era no mínimo esperado (RUST, 2018).

Rust, contudo, não diferencia entre os aspectos políticos e religiosos na atuação dos bispos guerreiros. Para ele, estes agentes não percebiam contradição entre estes dois elementos. O material se alimentava do espiritual e vice-versa. O prelado que saqueava uma cidade não o fazia enquanto senhor para depois envergar suas vestes sacerdotais e contemplar a outra metade de sua vida. Sua experiência era unificada, fosse na missa, fosse na batalha.

Os temas do livro, o elo entre sacralidade e violência, religião e poder, são caros à contemporaneidade. Fiel à história-problema, Rust volta-se para o passado medieval para dialogar com os anseios do presente, especialmente no contexto do pós-11 de setembro e do crescimento dos fundamentalismos no Ocidente e no Oriente. A obra – que teve como ponto de partida um pós-Doutorado realizado na Catholic University of America, em Washington D.C. – dialoga o que há de mais atual na historiografia anglo-saxônica, italiana e alemã, demonstrando mais uma vez a capacidade da produção historiográfica brasileira de ser interlocutora dos debates realizados nos grandes centros produtores de conhecimento do Ocidente.

Bispos guerreiros é uma obra enganadoramente curta, com cerca de 290 páginas. Seu conteúdo é incrivelmente denso, com um rol imenso de dramatis personae e um grande refinamento conceitual. O flerte com a linguagem literária traz um resultado ambíguo: a ideia é interessante, mas a execução é irregular – ora adiciona colorido à aridez do relato, ora se torna uma distração. A edição da Vozes apresenta um bom trabalho gráfico, com uma bela capa que sem dúvida chamará a atenção do público leigo, mas ficou faltando um índice remissivo, que facilitaria a pesquisa de temas específicos dentro de um livro tão rico.

O maior mérito da obra é apresentar uma visão alternativa, ou mesmo complementar, à relação entre violência e sacralidade. Contudo, algumas das afirmações mais generalizantes podem ser questionadas. A utilização do carroccio instaura, de fato, a guerra como sacramento na Cristandade? Posteriormente a Milão, diversas outras cidades o adotaram e foi utilizado até o século XIV. Porém, permaneceu um fenômeno itálico. Há que se supor que prelados na Inglaterra, França e Península Ibérica o desconheceram. De outro modo, houveram críticos contínuos ao uso da violência por eclesiásticos.

É imprescindível, aliás, reconhecer o âmbito geográfico do livro, uma vez que Bispos guerreiros se detêm essencialmente no centro-norte da Península Itálica. Um dos maiores triunfos da obra, por outro lado, é destrinchar as complexas relações políticas entre cidades, indivíduos, reinos e bispados, com a sempre presente sombra do império a influenciar os acontecimentos, acrescentando, desta forma, nuances à divisão sócio-política tradicional – de herança marxista – entre senhores e camponeses.

Leandro Rust nos apresenta um mundo em disputa, onde a autoridade se constrói por meio de discursos validados pela vitória no campo de batalha. Ao final de sua saga, Cádalo é nomeado papa pelo jovem imperador Henrique IV. Ao mesmo tempo, outro papa é eleito em Roma pelo Colégio de Cardeais. Quem tem a legitimidade sobre o sagrado? Batalhas são travadas, sangue é derramado e chega-se a um impasse. Cádalo morre isolado, mas crendo-se papa (RUST, 2018).

A obra faz um excelente trabalho em demonstrar a imprevisibilidade da História. Transcorridos os acontecimentos, os interesses dominantes dão sentido ao passado, aparando as arestas e construindo uma narrativa que não só expressa o que aconteceu, mas busca convencer de que não poderia ter sido de outro modo. A própria escrita da História está inserida nas relações de poder: um ato de revisão historiográfica é, portanto, também um ato político. Cádalo seria condenado pela posteridade, assim como seus contemporâneos que envergaram o báculo e a espada ao mesmo tempo. Bispos guerreiros é bem-sucedido em nos contar o outro lado da sua história.

Ives Leocelso Silva Costa – Mestrando do Programa de Pós-Graduação em História (PROHIS-UFS). Integrante do Dominium: Estudos sobre Sociedades Senhoriais (CNPq-UFS). Bolsista CAPES/DS. E-mail: [email protected]

Acessar publicação original

[DR]

 

Deixe um Comentário

Você precisa fazer login para publicar um comentário.