Explosão feminista: arte/cultura/política e universidade | Heloisa Buarque de Hollanda

Sou uma feminista da terceira onda. Minha militância foi feita na academia, a partir de um desejo enorme de mudar a universidade, de descolonizar a universidade, de usar, ainda que de forma marginal, o enorme capital que a universidade tem.

O coro de vozes em ressonância tem, em si, uma enorme força expressiva.

Talvez somente agora, a partir de modos de fala e uso de vozes individuais em rede, o feminismo tenha conseguido encontrar um modelo de comunicação efetivamente contagioso.

Percebo que hoje, para uma feminista branca, é antes de mais nada importante promover um tipo de escuta na qual, sem abrir mão de seu próprio “lugar de fala”, sejam possíveis formas inovadoras de empatia e de troca que gerem novas perspectivas de reflexão e ação. A formulação de Hannah Arendt, quando afirma que “sem diálogo não há política”, volta agora como uma referência forte no meu posicionamento diante do que estou chamando aqui de feminismos da diferença.

As epígrafes que inauguram esta resenha predizem o ritmo da leitura e a ressonância das reflexões produzidas pela professora doutora e feminista Heloisa Buarque de Hollanda em seu mais novo livro Explosão feminista: arte, cultura, política e universidade, lançado em novembro de 2018.

Contagiada e empolgada pelos movimentos de mulheres e pelos feminismos que tomaram as ruas do Brasil entre os anos de 2013 e de 2015, Heloisa Buarque escreveu um “livro-explosão”. A obra é um estrondo de vozes, de experiências e de subjetividades de mulheres e de feministas. Suas páginas, linhas e letras são espaços em que se encontram tecnologia, arte, cultura, política e universidade convergindo para novas perspectivas de gênero, de sexualidade, de reflexão e de ação no campo da luta por igualdade e por cidadania.

Em seu interior, a escrita de tantas feministas promovendo uma narrativa compartilhada forma um coro de vozes em ressonância. Os vários feminismos articulados nos múltiplos e sonoros capítulos montam uma espécie de “corpo-político”, uma ferramenta fundamental na materialidade do boom feminista de 2015 e de 2016.

O espírito revolucionário presente entre as mulheres que falam neste livro − e que se denominam feministas − opera por mudanças nas estruturas que regem a sociedade. No livro, “o coro de vozes em ressonância” percorre culturas femininas, artesanias de gênero, corporeidades, performances, tecnologias e intervenções produzidas por mulheres muito interessadas em visibilizar as suas experiências e as suas diferenças.

É do “vozerio, das marchas, dos protestos, das campanhas na rede e das meninas na rua”, aglomerando-se em praças, “gritando diante da ameaça de retrocesso que representava a aprovação do projeto de lei n. 5.069/2013, [aquele] que dificultava o acesso de vítimas de estupro ao aborto legal” (Hollanda, 2018, p. 11), que nos fala Heloisa Buarque em seu Explosão feminista.

Recomenda-se a sua leitura para todas(os) aquelas(es) que desejam uma cultura filógina1 e de apreço pelo que se compreende por “feminino”, conforme apontou Margareth Rago (2001) em “Feminizar é preciso”. Explosão feminista é um “livro solidário, um corpo que se estende como ponte para suas companheiras” (Hollanda, 2018, p. 17). É um “livro ressonante” que traz a lume uma explosão de vozes e o entrecruzamento de afinidades em lemas como “mexeu com uma, mexeu com todas”. É um livro essencial para a transformação social pleiteada pelos feminismos − desde seus primórdios, no século XIX −, por meio das feministas do século XX – como a própria autora – e pelas da “nova geração política”, do século XXI.

Antecedendo seu percurso pelos feminismos em explosão Brasil afora, Heloisa Buarque se explicou “como feminista, ou seja, de que lugar [falava] [e] como [se] encontrou com as feministas de hoje” (Hollanda, 2018, p. 13). Nesse exercício de lembrança e de escrita de si, ela se reconheceu como uma “feminista de terceira onda”, uma acadêmica e teórica-ativista muito interessada na transformação da universidade, da sociedade e de sua cultura através do feminismo.

Só depois de concluir esse exercício autoetnográfico, a pesquisadora se juntou a tantas outras mulheres em uma espécie de livro-performance/ experimento, ou, mais bem caracterizado por ela, como um “livro-ocupação”, feito com a nova geração de feministas.

Explosão feminista foi feito a muitas mãos e por diferentes vozes, por isso é explosivo, musical, barulhento e transformador. É um livro que resulta das expectativas da pesquisadora em narrar a “potência coletiva e horizontal” (Hollanda, 2018, p. 12) das vozes feministas na contemporaneidade em contato com as de outras temporalidades. Ao tecer essa relação entre diferentes gerações de feministas, Heloisa Buarque conectou a potência do feminismo contemporâneo com o de sua geração. Na verdade, esse exercício foi efetivado por muitas das mulheres colaboradoras na obra, ou que publicaram seus testemunhos e falaram de suas trajetórias.

É a partir de suas experiências como professora, pesquisadora e feminista – um feminismo construído no tempo e atravessado por diferentes concepções de gênero – que Heloisa Buarque propôs ver e ouvir os novos feminismos como nunca se fizera antes. Ela se posicionou horizontalmente para ouvir as demandas das feministas negras, indígenas, asiáticas, transexuais, lésbicas, radicais, protestantes e a memória das veteranas.

Esse exercício de escuta proporcionou um modelo de escrita original. Entre encontros e desencontros, diferenças e semelhanças, predominou por todo o livro uma conjunção de vozes que se fundiram e juntas fizeram/fazem reverberar a sua sonoridade: o feminismo em explosão. No processo de construção da obra, Heloisa Buarque conectou as ondas e as diferenças entre os feminismos, de modo que fossem reveladas relações entre uns e outros. Isso provavelmente proporcionou a ela narrar sua própria história e a de tantas outras feministas que também se interessaram em fazer propagar as ondas de lutas extremamente legítimas.

É expectativa da autora que seu livro fale ao passo em que também faz política, marcada pelas demandas das mulheres, pela transformação nas relações de gênero, pelo combate ao machismo, ao sexismo, ao racismo, à misoginia e à homofobia. O “livro-explosão/ocupação” é um ponto de intersecção para diferenças e para vozes. Ele é “fator de aproximação e criação de laços” (Hollanda, 2018, p. 37).

Nas várias parcerias de escrita tecidas no livro, a metáfora – muito – sonora de “explosão” deu forma à multiplicidade de vozes que se conectaram por conta de interesses em comum, pela luta em defesa da cidadania e pela vida das mulheres. Tantas vozes feministas depois de “explodirem” em vozerios e “palavras fortes” se reagruparam em uma grande rede de solidariedades virtual e/ou real. Essa rede operou para converter diferenças em afinidades.

A metáfora do “microfone humano” funcionou como ação narrativa e performativa, uma estratégia útil para a reunião de múltiplas e polifônicas vozes em um movimento-ocupação, em ações horizontais e profundamente contagiosas. Por todas as páginas do livro percebeu-se que o fator tecnologia e suas relações com diferentes signos da cultura foram decisivos para a criação de formas atualizadas de mobilização política.

A tecnologia nesse livro não é mera facilitação da vida doméstica, cotidiana e comunicativa. A tecnologia é a ferramenta para a revolução, para a explosão, para a mobilização nas redes sociais e para se permear o universo social com as questões feministas. Daí o peso de campanhas na internet trazendo por lema frases como “desculpem o transtorno, estamos mudando o país” e as hashtags #AgoraÉQueSãoElas ou #NãoMereçoSerEstuprada.

É por acreditar na efetividade de frases e de hashtags como as mencionadas que a pesquisadora escreveu esse livro e tem mobilizado o capital contido na universidade para promover debates em torno das questões de gênero, do feminismo e da sexualidade no âmbito das relações acadêmicas e intelectuais. Não é à toa que criou, em parceria com outras mulheres, o Fórum de Mulheres da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) denominado Phodonas − uma relação com o termo PhD, título semelhante ao de doutor em outros países. Também é por essa razão que a autora tem investido em publicações tematizando as epistemologias feministas e o pensamento feminista brasileiro.

Heloisa Buarque de Hollanda deseja discutir a misoginia e o machismo latente nos espaços acadêmicos. Ela quer instrumentalizar as mulheres para lutar contra violências diretamente relacionadas a sua presença na universidade – uma provável reação/resistência masculina/machista ao exercício intelectual de mulheres. Docente universitária, a pesquisadora tem trabalhado para generificar o espaço acadêmico, tornando-o mais feminino e transformando antigas e cristalizadas concepções de gênero aí persistentes.

Professora emérita de Teoria Crítica da Cultura da Escola de Comunicação da UFRJ e coordenadora do Programa Avançado de Cultura Contemporânea, vinculado ao Programa de Pós-Graduação em Ciência da Literatura na mesma universidade, Heloisa Buarque de Hollanda tem uma trajetória acadêmica e de luta marcada pela defesa da ampliação da cidadania, por justiça social e de gênero.

Graduada em letras clássicas pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-Rio), mestra e doutora em letras pela UFRJ, com pós-doutorado em sociologia pela Columbia University, sua trajetória acadêmica se entrecruza com os mais variados movimentos sociais que explodiram Brasil afora ao longo da segunda metade do século XX e pelo século XXI.

Em plenos anos 1960, pari passu à sua formação acadêmica, Heloisa Buarque se viu envolvida com os movimentos sociais contrários à ditadura militar brasileira. Em seu percurso pelos longos anos de autoritarismo no país (1964-1985), testemunhou a opressão de classe, de raça e de gênero imposta às diferentes pessoas e grupos (militantes de esquerda, da juventude, do feminismo e LGBTs) que também lutaram pela ampliação do conceito de cidadania.

Em um passeio por sua vasta obra intelectual, identifica-se um grande interesse pela poesia marginal dos anos 1960 e 1970, pelos movimentos culturais de oposição à ditadura militar, pelo entrecruzamento da cultura, da tecnologia e da política, por movimentos da “quebrada”, pelo feminismo e relações de gênero, pela descolonização do pensamento no interior da universidade e pelo trabalho literário de mulheres, a exemplo do de Rachel de Queiroz – a primeira mulher e escritora a ocupar uma cadeira na Academia Brasileira de Letras.

Foi no ritmo do slogan “o pessoal é político”, termo cunhado pela feminista Carol Hanisch em 1969, que Heloisa Buarque se formou como professora, pesquisadora e militante em diferentes frentes contrárias à ditadura militar brasileira. Todavia, foi somente em 1982, no ritmo dos debates em torno das epistemologias feministas, dos estudos pós-coloniais, das questões de raça, gênero, orientação sexual e interseções que se “descobriu feminista”.

Nesse contexto, Heloisa Buarque vivia nos Estados Unidos e se viu tomada de assalto pela explosão de um feminismo que articulava fortes relações “com instituições políticas e organizações não governamentais” na expectativa de, por esse canal institucional, “pressionar a criação e a aprovação de políticas públicas que favorecessem as mulheres” (Hollanda, 2018, p. 15). Ao percorrer sua história de vida, ela explicou as razões que a mantiveram distante do movimento feminista dos anos 1960 até a década de 1980:

Como muitas mulheres da década de 1960 que participaram dos movimentos estudantis, da UNE, dos CPCs e da cultura de oposição à ditadura, militei em várias frentes, mas, inicialmente, não me identifiquei diretamente com as lutas feministas, que surgiam na Europa e nos Estados Unidos levantando a bandeira “o pessoal é político” e defendendo o direito ao corpo, ao aborto, à liberdade sexual e ao fim das desigualdades no trabalho e no contexto familiar. No Brasil, a coisa foi diferente. A maioria dessas bandeiras confrontavam, diretamente, vários dogmas da Igreja, uma das principais instituições progressistas na época. Assim mesmo, as iniciativas feministas conseguiam se articular com a Igreja ou com o Partido Comunista que, da mesma forma, era um parceiro importante na luta contra o regime militar, mas se tornava um complicador para o movimento de mulheres. A Igreja, por sua recusa ao aborto e à liberdade sexual, e o Partido Comunista, pela insistência numa luta mais ampla na qual não cabiam as demandas singularizadas das feministas. (Hollanda, 2018, p. 13-14)

Enunciando a experiência de gênero de seu tempo, a autora não escondeu sua falta de identidade com o feminismo importado da Europa e dos Estados Unidos naqueles anos muito marcados pelo terror de Estado. Suas memórias e seus testemunhos aproximam-se muito do que argumentou Rachel Soihet (2013) em torno das várias conotações do feminismo e do quanto isso dependia de “uma série de variáveis, como tempo, lugar, classe social, etnia” (p. 191).

Entre os anos de 1960 até 1980, Heloisa Buarque e tantas outras mulheres envolvidas em movimentos sociais falavam de contextos políticos diferenciados entre si. Seus “lugares de fala” partiam da posição subalterna do Brasil e da América Latina em relação ao mundo globalizado e de suas posições de classe, de raça, de etnia, de gênero, de região e de orientação sexual.

As dificuldades em assumir-se feminista entre os anos 60 e 70 foram mencionadas pela professora no instante da explosão do feminismo contemporâneo. Tomada de assalto pelas passeatas, campanhas virtuais, músicas e vídeos, a autora admitiu que, no tempo em que vivemos, “ninguém menor de dezoito anos precisava disfarçar seu feminismo, como era a tônica das simpatizantes do movimento [em seu] tempo” (Hollanda, 2018, p. 11). Essa mesma dificuldade de identificação apareceu nos testemunhos e memórias de Sueli Carneiro, Schuma Schumaher e Branca Moreira Alves. O feminismo dos anos 1960 era tomado por movimento polêmico e tinha fortes marcações de classe e raça que impediam o reconhecimento e a identificação de novas adeptas.

Pontua-se que, mesmo destacando um lugar marcado pela experiência colonial, o feminismo dos anos 1960 até 1990 por vezes silenciou as lutas das mulheres negras, indígenas e de tantas outras. Essas só tomaram maior visibilidade por intermédio da representativa política de Lélia Gonzalez, Luiza Bairros e Sônia Guajajara. Heloisa Buarque e suas colaboradoras merecem enorme respeito por permitirem ao leitor dessa grande explosão narrativa e feminizada enxergar os conflitos que atravessaram a luta das mulheres ao longo dos anos. Tal exercício denotou grande integridade intelectual e deixou ver como o feminismo, ao longo dos anos, se converteu em um campo em disputa, atravessado por tantos marcadores sociais da diferença quanto possível. Todavia, mais que visibilizar conflitos, o livro foi capaz de mostrar a capacidade dos feminismos modernos de se transformar, de criar redes de solidariedades muito potentes e de propor transformações sociais interseccionais.

No tempo presente, os feminismos branco, negro, indígena, lésbico, transexual e outros “feminismos da diferença” têm usufruído de grande representatividade nas figuras de Maria Bogado, Giovana Xavier, Djamila Ribeiro, Sandra Benites (Ará Reté), Helena Vieira, Érica Sarmet, entre outras mulheres. E mesmo que as “políticas de silenciamento” tenham impedido diferentes personagens de falar ao longo da história, essas feministas, em suas contribuições para a obra em questão, insistiram no destaque da luta das mulheres no tempo, independentemente de suas posições e diferenças sociais. Elas não invalidaram a produção branca sobre o feminismo, mas propuseram uma busca por afinidades e por solidariedades. Nessa Explosão feminista, Heloisa Buarque de Hollanda e tantas outras mulheres exercitaram uma escrita em conflito e muito valiosa para a transformação social que pleiteiam. Algo muito próximo daquilo que apontou Djamila Ribeiro quando lembrou, em seu testemunho, que não se podem negar tantas questões e que a presente efervescência do feminismo é algo positivo e transformador.


Nota

1 Margareth Rago utiliza o significado trazido pelo dicionário Larousse Cultural da Língua Portuguesa, que entende filoginia como oriunda do grego philos, amigo + gyne, mulher – amor às mulheres, e antônimo de misoginia, aversão às mulheres. Nesse texto, propõe refletir sobre o lugar do feminino na sociedade e observar as reações “ante a ideia de que as mulheres passem a pensarem-se com autonomia, como podendo figurar por conta própria na história, recusando-se a girar, como auxiliares ou sombras, em torno dos homens” (p. 59).


Referências

HOLLANDA, Heloisa Buarque de. Explosão feminista: arte, cultura, política e universidade. São Paulo: Companhia das Letras, 2018.

SOIHET, Rachel. Feminismo e antifeminismo: mulheres e suas lutas pela conquista da cidadania plena. Rio de Janeiro: 7Letras, 2013.

RAGO, Margareth. Feminizar é preciso. São Paulo em Perspectiva, São Paulo, v. 15, n. 3, p. 58-66, 2001.

RIBEIRO, Djamila. Lugar de fala. São Paulo: Sueli Carneiro; Pólen, 2019.


Resenhista

Paulo Brito do Prado – Doutor em História Social pela Universidade Federal Fluminense (UFF). E-mail: [email protected]


Referências desta Resenha

HOLLANDA, Heloisa Buarque de. Explosão feminista: arte, cultura, política e universidade. São Paulo: Companhia das Letras, 2018. Resenha de: PRADO, Paulo Brito do. A enorme força expressiva da explosão feminista. Acervo. Rio de Janeiro, v. 33, n. 2, p. 230-237, maio/ago. 2020. Acessar publicação original [DR/JF]

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