Este dossiê foi organizado a fim de estimular reflexões sobre história e historiografia das Américas, campo que, talvez pelas dificuldades que apresenta, não encontra no Brasil o mesmo desenvolvimento verificado em outras áreas de estudo. As dificuldades a que nos referimos podem ser observadas em vários aspectos, mas saltam à vista, sem dúvida, quando se nota a enorme amplitude circunscrita pelo conjunto denominado “Américas”. Do Canadá à Patagônia, da Nova Inglaterra a Santiago, os processos históricos e os estudos historiográficos se multiplicam a cada momento. De fato, são poucos os trabalhos que se propõem a realizar uma história colonial do continente em sua integridade. Mesmo textos clássicos como os de John H. Elliott, Empires of the Atlantic World (2006), e David Brading, Th e First America (1991), por exemplo, optaram por não abordar sistematicamente a América portuguesa.

Ademais, e aqui reside outra dificuldade, sempre há a tentação de se analisar a época moderna nas Américas por meio de perspectivas nacionalistas. Não raro encontramos pesquisas cuja área de interesse é definida por palavras-chave eloquentes, a exemplo de “História colonial do México” ou “História da Argentina colonial”, o que é compreensível. É realmente mais cômodo dizer a um leigo, ou ao colega interessado em sua pesquisa, que você estuda o “Chile colonial” do que explicar que se trata de uma análise dos súditos castelhanos na cidade de Santiago e de suas relações com os nativos da região em meados do século XVII. Porém, eficazes como recurso didático para contextualizar o objeto de estudo, tais expressões não podem obscurecer a reflexão a respeito do tempo e do refinamento necessário aos historiadores para evitar anacronismos e o viés teleológico. No limite, o recorte nacionalista pouco contribui para a elucidação de processos históricos, que podem ser mais bem compreendidos à luz de conexões que não se conformam aos marcos dos estados-nação, mas, ao contrário, colocam em tela espaços mais amplos.

Como o leitor poderá acompanhar nas páginas seguintes, alguns dos trabalhos que compõem este dossiê enfrentaram o desafio de propor reflexões para escalas de análise bastante ampliadas, pensando, inclusive, em termos de uma história atlântica ou de conexões atlânticas para compreensão da história americana. Tal é o caso dos dois artigos que abrem este número de História Unisinos. Abismos de la memoria: escritura y descubrimientos oceánicos. Una aproximación metodológica, artigo de Carlos Alberto González Sánchez, propõe ao leitor uma reflexão metodológica sobre os escritos elaborados durante os descobrimentos. Tais fontes, amplamente conhecidas pelos historiadores, permitem ao autor ir além dos “usos tangenciais” que dela se tem feito e indagar acerca da cultura escrita e de práticas culturais e intelectuais constituídas com a expansão ibérica.

O aporte metodológico do primeiro artigo é complementado pela proposta conceitual do segundo. A tradução para o português de Th ree Concepts of Atlantic History, de David Armitage, traz ao público brasileiro um texto repleto tanto de boas perguntas quanto de respostas instigantes. “Podem os historiadores ter esperanças de serem capazes de dizer qualquer coisa substancial sobre uma história que, em sua forma mais expansiva, conecta quatro continentes ao longo de cinco séculos?”. Para buscar respostas a essa e a outras questões, Armitage propõe três abordagens espacial e temporalmente diferenciadas – História Circum-Atlântica, História Trans-Atlântica e História Cis-Atlântica – que, sem ser excludentes, podem propiciar as condições para a escrita de uma história tridimensional do mundo Atlântico.

Da mesma maneira que pensar a historiografia sobre as Américas implica considerar os problemas de escala, os historiadores também devem ter em conta as diversas “camadas” interpretativas que se construíram ao longo de cinco séculos. Há que se considerar que a escrita da História das Américas assumiu formas diversas, acompanhando mudanças heurísticas e paradigmáticas advindas de debates teóricos, epistemológicos e historiográficos que sacudiram, com impactos ora moderados ora radicais, a própria ciência e suas certezas. Na formação desse maciço de interpretações, tanto a escolha das fontes como a opção por determinado aparato conceitual no momento de atribuir sentidos aos fatos são reveladores dos diferentes lugares ocupados pelos historiadores.

Talvez um exemplo notável seja o aparecimento, nos anos 1950, de uma corrente historiográfica na América Latina que, ao recontar os episódios da conquista e colonização, pretendia dar voz aos vencidos, aos indígenas. As discussões sobre o lugar dos latino-americanos na conjuntura política da época; os debates mais amplos em torno da descolonização no pós-guerra; os refinamentos da história social; as críticas às visões de mundo eurocêntricas: de um modo ou de outro, esse conjunto contribuía para a mudança de visada proposta por historiadores como Miguel León Portilla (2007) e Nathan Wachtel (1977). Pois é justamente com esse projeto historiográfico de dar à luz “o reverso da história” que dialoga o artigo de Eduardo Natalino dos Santos, As conquistas de México-Tenochtitlan e da Nova Espanha. Guerras e alianças entre castelhanos, mexicas e tlaxcaltecas.

Partindo dos pressupostos da “história dos vencidos”, apropriadas mais tarde (a partir de finais da década de 1970) pelos intérpretes da mestiçagem e do hibridismo coloniais, Eduardo N. dos Santos retoma o tema clássico da conquista do México valendo-se de outros documentos e de sentidos diferentes. Ao ampliar o rol de fontes e fundamentar sua análise em escritos nahuas, tais como o Lienzo de Tlaxcala, o Lienzo de Cuauhquechollan e o Códice Vaticano A, Santos sustenta que as guerras e alianças ocorridas entre castelhanos e cidades mesoamericanas nos anos da conquista serviram de gatilho para as ações políticas e militares posteriores, que colocaram espanhóis e indígenas lado a lado durante a expansão castelhano-nahua pela Nova Espanha. Ao defender tal argumento, o artigo recoloca o debate sobre a interpretação que considerou “vencidos” a todos os ameríndios, de modo indistinto. E ainda, de maneira igualmente importante, estimula uma reflexão sobre o equívoco de analisarmos os processos históricos iniciados em 1492 com base em uma divisão essencialista entre índios e brancos.

A exemplo dos códices acima referidos, ao longo do período colonial produziram-se registros de várias naturezas sobre as experiências vividas no Novo Mundo: o contato com os indígenas, a montagem dos mecanismos administrativos, as experiências de catequese, as revoltas e rebeliões, o cotidiano, dissensões e acordos, as guerras etc. Os autores desses relatos foram, em muitos casos, religiosos, funcionários da burocracia, indígenas educados em colégios, soldados, e toda sorte de pessoas alfabetizadas em um mundo profundamente iletrado. As crônicas, histórias, descripciones, sumários, relações, memórias etc. constituem um corpus documental privilegiado, tanto por aquilo que elas informam como pelo modo como o fazem.

Essa dupla dimensão analítica, isto é, envolvendo conteúdo e forma, é ressaltada em “Ciegos o enganados”: narrativas sobre a conquista espiritual do Norte da Nova Espanha (séculos XVII e XVIII), artigo assinado por Luiz Estevam de Oliveira Fernandes e Luis Guilherme Kalil. Nesse texto, os autores partem de relatos elaborados por missionários franciscanos e jesuítas a fi m de compreender as representações construídas pelos religiosos sobre os ameríndios das regiões ao norte do vice-reino da Nova Espanha. Ao evitar a armadilha de apontar o que é realmente indígena e o que é de fato europeu naquelas fontes, o artigo reflete sobre as estratégias retóricas e modelos narrativos empregados pelos cronistas, sublinhando dois eixos analíticos, já implícitos em seu próprio título, observados em relação a um par antitético: ação demoníaca / providência divina em contraposição a agência humana / livre-arbítrio. Com isso, os autores movem-se entre os relatos deixados pelos missionários e os lugares (sociais, institucionais, temporais) por eles ocupados, em uma dinâmica cuja compreensão pode ampliar o entendimento que temos sobre a chamada conquista espiritual do norte da Nova Espanha e acerca de algumas características dos grupos ameríndios daquela região.

Enquanto os missionários analisados por Luiz Estevam e Luis Guilherme narravam seus sucessos e vicissitudes entre o bem e o mal na América, podiam-se observar algumas mudanças na percepção da “historiografia” europeia sobre o Novo Mundo, no século XVIII, especialmente no que se referia aos relatos coloniais, que foram alvos de fortes críticas. Escrever uma nova História da América tornou-se o eixo central da renovação cultural promovida pelos Bourbon, mas também houve mudanças na visão lançada desde a Europa do Norte, o que gerou respostas americanas. Estamos nos referindo ao que se convencionou denominar “Polêmica do Novo Mundo”. Em linhas gerais, podemos afirmar que se passou a privilegiar, como fontes primárias, os dados produzidos pela burocracia da administração das colônias, as chamadas “fontes públicas” em detrimento do conjunto de escritos elaborados por diferentes agentes.

O artigo de Alexandre Camera Varella, A queda do homem civil: os antigos mexicanos e peruanos na “History of America” de William Robertson, analisa o livro produzido em 1777 pelo historiador escocês, justamente no seio desta “querela de América”. A obra de Robertson teve forte repercussão na época em que foi escrita, tendo sido avidamente procurada pelo público leitor e disputada pelos editores que competiam por seus escritos. Sua produção deu-se em conexão com uma série de escritos que renovavam os estudos sobre a história do Novo Mundo. Desta forma, Varella conduz em seu artigo uma discussão das análises de Robertson acerca do estado de coesão social das populações indígenas do Novo Mundo, bem como de suas apreciações sobre os obstáculos enfrentados por mexicanos e peruanos para alcançarem uma vida civil em plenitude.

Ainda no que se refere a fontes do século XVIII, o dossiê traz o artigo de Márcia Eliane Souza e Mello, que se ocupa da análise de um conjunto documental bastante frequentado pelos historiadores do século XX: os processos inquisitoriais. A autora de Inquisição na Amazônia colonial: reflexões metodológicas discute questões relativas ao tratamento analítico de fontes inquisitoriais, apresentando uma experiência de pesquisa quantitativa sobre a atuação do Tribunal do Santo Ofício no Estado do Maranhão e Grão-Pará. Márcia Mello reconhece entre alguns trabalhos atuais acerca da Inquisição uma tendência em seguir os parâmetros analíticos da produção clássica sobre o tema, não contemplando, na medida desejada, os contextos e realidades coloniais, isto é, as especificidades locais dos casos analisados. Para a autora, é importante não tratar as fontes inquisitoriais como “conjuntos isolados”, mas sim, na medida do possível, cruzar dados e “criar novas visões a partir do objeto e dos problemas que o historiador formula para sua pesquisa”, postura que potencializaria o “estudo de variados temas que têm como pano de fundo as relações sociais, como a escravidão, as práticas religiosas, os intercâmbios culturais e as redes de poder, etc.”.

O artigo de Guillermo Wilde, Adaptaciones y apropiaciones en una cultura textual de frontera: impresos misionales del Paraguay Jesuítico, por sua vez nos apresenta a análise de um conjunto de impressos nas missões guaranis do Paraguai, os quais ele indica que vêm a ser apenas uma parcela do importante do universo textual missionário que se encontra disperso em bibliotecas e arquivos de diversas partes do mundo. Incitado pelos estudos que têm, nos últimos anos, aprofundado e renovado a “história dos livros”, Wilde retoma algumas interpretações e propõe fecundas linhas de investigação deste corpus. O autor indaga, assim, sobre as características dos impressos missionais, suas circunstâncias de produção, as informações que eles nos oferecem e sobre a operação que os transforma em fontes documentais para o estudo da cultura missional, entre outros aspectos.

Ao propor uma tipologia preliminar que distingue três orientações entre tais impressos, o autor avalia que ela deve ser considerada como “um ponto de partida” para o estudo dos usos sociais dos impressos missionários, o qual se relaciona com os quadros de uma história cultural mais ampla. Neste sentido, é preciso ter em conta a inserção de tais textos junto a outros suportes da memória missional (como as imagens ou a música), e a relação entre os textos (ou a escrita) e a oralidade. Mas, também, a relação entre conjuntos missionais de diferentes áreas (Peru e Paraguai, por exemplo), a qual era facilitada pela circulação de jesuítas. Finalmente, Guillermo Wilde destaca a importância de considerarmos a circulação intercontinental de impressos e a formação de bibliotecas missionais, evidenciando a riqueza do tema para romper com as anacrônicas divisões entre espaços de análise, que indicamos mais acima.

Iniciamos a apresentação deste dossiê apontando a escassez de estudos que procurem desafiar uma historiografia que convencionalmente aceitou, como categoria analítica, a divisão entre os impérios luso e hispânico, ou ainda, as fronteiras nacionais que emergiram dos processos de independência nas Américas do século XIX. Assim como o trabalho de Wilde, também o texto de Tiago Gil, Elites locais e changadores no mercado atlântico de couros (Rio Grande e Soriano, 1780-1810), desvela uma importante contribuição para pensarmos em outras possibilidades analíticas. Neste último caso, trata-se de um estudo que propõe a análise do desenvolvimento e manutenção de redes que envolviam o comércio de couros, tabaco, aguardente e escravos alinhavando pontos entre Buenos Aires, Rio de Janeiro, Lisboa e Madri. Mais ainda, afinado com as orientações recentes da história social, o artigo discute as estratégias sociais de criação dessas redes envolvendo toda uma gama de sujeitos, entre os quais estavam negociantes e as elites locais, mas também peões, escravos, marinheiros, e os chamados changadores, sobre os quais o autor se interessa particularmente.

A revista traz ainda uma entrevista com a historiadora Patrícia Seed, bastante conhecida do público brasileiro por sua obra Cerimônias de posse na conquista europeia do Novo Mundo (Seed, 2000) produzida em 1995 e publicada no Brasil em 2000. Especialista em história da cartografia e da navegação, Seed dedicou-se, em boa parte da sua carreira, ao estudo do início da era moderna e da colonização europeia do Novo Mundo, especialmente em relação às culturas ibéricas. Ao longo da entrevista, Seed discorreu, entre outras coisas, sobre seus temas de investigação e sobre as opções teórico-metodológicas que orientam suas pesquisas. Avaliou, também, a repercussão alcançada por sua obra mais conhecida às vésperas do vigésimo ano de sua publicação.

O dossiê História das Américas: fontes e historiografia oportuniza, pois, aos interessados um conjunto de trabalhos que aceitaram o desafio de produzir uma reflexão sobre as diversas maneiras de se escrever história nas Américas, os intercâmbios eruditos e os tipos de crítica documental (além do próprio estatuto do que é considerado documento). Mas, também, sobre a publicação, circulação e as formas de leitura do texto historiográfico, desde os tempos coloniais até a produção mais recente sobre o continente. Juntamente com os editores e autores do presente número da revista História Unisinos, a quem agradecemos pelas valiosas contribuições, esperamos (e desejamos) que este dossiê possa ser um aporte ao campo dos que se dedicam à história americana, e que ele estimule outras publicações de mesma natureza.

Referências

BRADING, D.A. 1991. The first America. The Spanish Monarchy, Creoles Patriots and the Liberal State, 1492-1867. Cambridge, Cambridge University Press, 761 p.

ELLIOT, J. 2006. Empires of the Atlantic World. Britain and Spain in America, 1492-1830. New Haven, Yale University Press, 560 p.

LEÓN PORTILLA, M. 2007 [1959]. Visión de los vencidos. Relatos indígenas de la conquista. México, UNAM, 312 p.

SEED, P. 2000. Cerimônias de posse na conquista europeia do Novo Mundo (1492-1640). São Paulo, Unesp, 279 p.

WACHTEL, N. 1977 [1971]. La vision des vaincus. Les indiens du Pérou devant la Conquête espagnole (1530-1570). Paris, Gallimard, 395 p.

Anderson Roberti dos Reis – Universidade Federal de Mato Grosso

Maria Cristina Bohn Martins – Universidade do Vale do Rio dos Sinos


REIS, Anderson Roberti dos; MARTINS, Maria Cristina Bohn. Apresentação. História Unisinos, São Leopoldo, v.18, n.2., maio / agosto, 2014. Acessar publicação original [DR]

Acessar dossiê

Deixe um Comentário

Você precisa fazer login para publicar um comentário.