História oral, gênero e interseccionalidade | História Oral | 2022

Interseccionalidade Patricia Hill Gênero
Interseccionalidade, livro de Patricia H. Collins e Sirma Bilge (Detalhe de capa)

O tema deste dossiê evidencia um movimento acadêmico e político na elaboração de conhecimento, voltado à escuta de vozes dissonantes em uma sociedade hegemonicamente branca, sexista e cis heteronormativa. Esse posicionamento se insere no que poderíamos denominar de “uma virada epistêmica” (Veiga, 2020), um “giro decolonial” (Ballestrin, 2013), ou ainda um “giro afetivo” (Lara; Enciso, 2013), produto e produtor de mudanças analíticas implicadas e afetadas (no sentido de afeto e de afetação) por demandas sociais e identitárias e pela entrada de “sujeitos improváveis” em uma universidade historicamente distanciada do perfil da maioria da população brasileira. As políticas públicas de ação afirmativa favoreceram o acesso de negras/os, indígenas, população LGBTQIA+, filhas e filhos da classe trabalhadora, assim como de pessoas que vivem nas mais diversas margens deste país desigual, a um espaço muitas vezes visto como um lugar inalcançável para tais populações.

Essa circulação de sujeitas/os em instituições de ensino e pesquisa, antes deles distanciadas, assim como debates intelectuais posicionados advindos dos feminismos negros e indígenas e dos chamados estudos queer, têm possibilitado e ampliado questionamentos relativos às colonialidades de saber, de ser e de gênero que orientam a ciência e atuam no apagamento ou no silenciamento de classe, gênero e raça. Como afirmou María Lugones, para que se desconstruam as relações de poder que perpassam o conhecimento científico e as próprias lutas políticas, é preciso “viajar entre mundos”, ou seja, habitar mais de um território, reconhecer os (entre)lugares de fala (Ribeiro, 2017) e compreender as diferenças subjetivas, raciais, identitárias e sociais como problemas a serem enfrentados na elaboração do conhecimento, visibilizados e postos ao debate público.

Como prática metodológica ou como projeto, a história oral tem sido um instrumento na “viagem entre mundos” (entre a universidade e as comunidades diversas que existem dentro e fora dela) e possibilitado a escuta, a mediação, o registro e o ressoar de vozes plurais que denunciam como as relações de poder atravessam os cotidianos – não entendidos como repetição e reprodução passiva das estruturas – afetando corpos e experiências repletas de vida e de alteridades. Ela tem contribuído para produzir presença de sujeitas/os muitas vezes invisibilizadas/os social e academicamente, o que expressa uma preocupação epistemológica mais democrática e sensível em não outrizá-las/os ou objetificá-las/os.

Nos textos que se seguem, a história oral se realiza como trabalho na produção de memórias e presenças voltadas às interseccionalidades de gênero, classe e raça; como uma espécie de canal aberto e uma ação que deve ser sempre colaborativa, comprometida e dialógica com pessoas e grupos que ora se identificam com os/as pesquisadores/as, ora exigem o cuidado ético com a assimetria e o aprendizado com a diferença. Nós mesmas, organizadoras, e as autoras dos diversos artigos aqui reunidos, somos representativas das mulheridades e feminilidades (Nascimento, 2021) marcadas pelas interseccionalidades que atravessam nossos corpos, nossas ações políticas e nossas pesquisas, e desejamos que elas sejam evidenciadas em busca de uma ciência que mais do que reconhecer as diferenças, repare os danos gerados pelas desigualdades entrelaçadas num mesmo processo.

Na obra Interseccionalidade (2021), Patrícia Hill Collins e Sirma Bilge argumentam em defesa de uma investigação crítica e prática que convide as pessoas plurais a dizerem quem elas são, a partir de suas experiências e dos atravessamentos de gênero, raça, territorialidade, classe e sexualidade. A pesquisa com narrativas orais é capaz de revelar algumas dessas dimensões que são manifestas por quem se diz em intensidades e performances diversas, mas estão todas ali, muitas vezes evidenciadas de forma desigual.

O dialogo necessário entre gênero e suas interseccionalidades está aqui contemplado nos textos que transitam entre histórias orais de violência de gênero, em formas de agressão física, de violência obstétrica, discriminação sexual e alijamentos de todas as formas, mas também na potência de fazer emergir sujeitas e sujeitos que fazem das suas existências um lugar e um caminho de luta e resistência. São investigações nas quais se observa o trabalho de escuta atenta a dores, à ruptura nos silenciamentos, a discriminações vivenciadas nas opressões interseccionais que povoam a vida das mulheridades, das pessoas LGBTQIA+ e/ou racializadas, das que vivem em territorialidades não centrais, mas das quais também emergem afetos, revoltas, resistências, diretas ou sutis. As narrativas dialógicas vão desenhando um mosaico de histórias ainda pouco contadas e que, de maneira persistente, já se fazem vivas na universidade como demanda por justiça, num contexto político que age de forma perversa sobre a população pobre, negra e LGBTQIA+ e no qual as mulheridades existem e resistem.

Desse modo, abrimos o dossiê com histórias orais de vida de transexuais, que têm suas trajetórias atravessadas por violências cotidianas e pela necropolítica, num país que figura nas estatísticas internacionais como um dos que mais mata mulheres (entre elas negras, trans e travestis). O artigo Histórias de vida de transexuais: afirmação identitária e sofrimento ético-político em questão suscita reflexões importantes sobre a saúde, sobretudo a saúde mental, das pessoas transexuais no Brasil. Trata-se de uma abordagem sensível, que registra as dores, os desafios e os dilemas enfrentados pelas/os entrevistadas/os, reverberando assim, memórias, medos, angústias, resistências, desejos, projetos de vida compartilhados pelas pessoas trans. Além disso, registra a complexidade dos processos identitários e a necessidade de reformulação dos serviços do sistema único de saúde para assistência e acolhimento da população trans.

Seguindo com a temática trans, somos transportadas/os geograficamente para terras amazônicas e seus atravessamentos no texto Trajetórias da mãe de santo Sofia Ronald: memórias fora do CIStema em experiências religiosas TRANSviadas na Ilha de Parintins, Amazonas. Trata-se de um mergulho denso e profundo em torno das experiências religiosas, sobretudo das religiões de matriz africana, de uma mãe de santo trans. O texto apresenta-se como uma rica encruzilhada de destinos povoada por seus afetos, pelos desafetos da rua, das instituições e do conservadorismo que permeia a vida de uma mulheridade que é dissonante da religião branca e da cisheteronormatividade hegemônica, mas que também revela dimensões de resistência e de construção de uma mulher que guarda muitas outras dentro de si.

Ampliando nosso caleidoscópio interseccional, conhecemos as trajetórias de Gilda e Adélia por meio da escrita Resistências femininas à ditadura militar: as trajetórias de Gilda e Adélia (1964-1985). As autoras nos revelam a tessitura de uma trama muito instigante sobre as resistências femininas à ditadura militar ao escolher a trajetória de mulheres desconhecidas e “comuns”, propondo uma crítica à fetichização midiática produzida em torno daquelas que participaram da luta armada e visibilizando a vida das que usaram estratégias e formas cotidianas de enfrentamento, para além da guerrilha ou de manifestações mais organizadas politicamente.

Ainda sobre a ação de mulheres contra governos autoritários, o texto El laberinto de la rememoración: una feminista trotskista para los tempranos años setenta aborda a trajetória da feminista Mirta Henault em seu confronto com o governo argentino nos anos 1970. Por meio de fontes orais já registradas no acervo do Laboratório dos Estudos de Gênero e História (LEGH), da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) e pela entrevista oral com sua filha, é possível conhecer a militância de Henault na Unión Feminista Argentina (UFA), inserida na construção de um feminismo materialista, com suas tensões e contribuições. A autora nos permite pensar sobre a construção de um feminismo latinoamericano, em meio às ditaduras.

O trabalho com história oral e interseccionalidades se evidencia com mais força no texto Educação e trabalho de mulheres negras: histórias de vida na interseccionalidade entre gênero e raça, no qual as autoras nos apresentam narrativas orais de mulheres negras em suas relações com a escolarização e o mercado de trabalho, na região do ABC Paulista. O artigo tem o mérito de construir um percurso histórico que em parte tensiona as diferentes formas de exclusão da mulher negra na sociedade brasileira.

Histórias de vida de professoras negras no sertão norte-mineiro é uma escrita que nos convida a “viajar” para as veredas desse sertão, provocando discussões em torno do feminismo negro e das intersecções que atravessam as memórias de mulheres negras. Aborda um tema importante para se pensar suas trajetórias, no que diz respeito à solidão e ao afeto, sobretudo na região analisada, em que se encontra uma recorrência do “abandono” afetivo de mulheres, sobretudo das mulheres negras e pobres; marcas essas impressas na arte de barro do Jequitinhonha: as noivinhas à espera do marido, ou na máxima “viúva de marido vivo” (Chagastelles, 2020). Ao visibilizar as histórias orais de mulheres que não foram atingidas pela conjugalidade compulsória, a autora traz uma grande contribuição à historiografia decolonial, demonstrando a ruptura com o ciclo de subalternização promovido pela colonialidade racista e sexista.

Nossa “viagem entre mundos” segue para territórios físicos e simbólicos, conhecendo memórias e histórias orais de mulheres paulistas, em busca por seus direitos no mundo da migração e do trabalho. O artigo intitulado Sujeitas de direito: mobilização de mulheres imigrantes na cidade de São Paulo entre os séculos XX e XXI problematiza questões e conceitos importantes a partir da perspectiva de mulheres em sua experiência de deslocamentos, dialogando com o conceito de interseccionalidade. A reflexão feita sobre os relatos também aponta horizontes para compreensão dos dilemas que atravessam as experiências de imigração no Brasil, com ênfase nas fronteiras políticas e do trabalho. Trata-se de uma viagem interseccional de gênero, território, classe e etnia.

Ainda nas terras paulistas, no mundo do trabalho, somos envolvidas/os pelo texto Família, trabalho e militância sindical: uma visão feminina do mundo do trabalho no ABC Paulista. O artigo nos apresenta um fala potente que rememora a participação feminina nos movimentos grevistas e na militância sindical durante a ditadura militar no Brasil, destoando de discursos e de registros historiográficos que priorizam exclusivamente os sujeitos masculinos. As lembranças da operária Luzia entrelaçam o privado, o mundo do trabalho e o político na sua vida como migrante e trabalhadora. O texto articula a história sindical, de predomínio masculino, a uma história posicionada sobre as questões de gênero. Além disso, a trajetória de uma operária e nordestina contribui para as reflexões sobre as sociabilidades e desafios da vida das famílias migrantes em São Paulo, marcadas por sonhos de uma vida melhor, que nem sempre se concretizaram, forjando além de dor, pobreza e fome, mulheres rebeldes, militantes e guerreiras.

Os últimos três textos do dossiê tratam mais explicitamente das violências de gênero, em especial aquela nomeada como doméstica, mas que deve ser entendida como não circunscrita ao privado ou à família, mas parte das estruturas racistas, classistas e sexistas. Desatando os nós: não era casa, nem lar, testemunhos de violência doméstica (Oeiras, Piauí, 1994-2012) aborda discussões sobre a casa, a maternidade, o amor romântico, o cuidado do esposo e do lar, problematizando e tensionando esses conceitos por meio da experiência narrada por Ana. O trabalho aponta que a violência doméstica é fruto das desigualdades e hierarquias sexistas e que a vinculação restrita da subjetivação feminina ao dispositivo amoroso e ao casamento pode acarretar tensões, violações de vários tipos e a anulação subjetiva. A trajetória compartilhada no artigo, pela fala de Ana, aponta caminhos possíveis no pós-casamento e na luta contra a condição congelante de vítima. A autora também propõe um diálogo envolvente com a letra de uma música na qual o corpo e a vida da mulher são tratados como seu próprio lar, o que enche de leveza e beleza esse tema que envolve tanta dor.

Na “viagem” decolonial e descolonizadora de nós mesmos, oportunizada pela história oral, chegamos ao campo, por meio da escuta sobre a trajetória de uma trabalhadora rural no Rio Grande do Sul. Nina, uma sobrevivente: a história oral como abordagem para a reflexão sobre violência de gênero em contextos rurais traz uma discussão potente que propõe o entrecruzamento de gênero, violência e memória no campo. A pesquisa visibiliza as memórias orais relativas às violências sofridas no casamento enquadrado por padrões patriarcais, que não atingem somente Nina, mas uma coletividade de mulheridades no campo e na cidade. Suas palavras evidenciam seu lamento em relação ao sofrimento na primeira relação com seu companheiro; porém não se reduzem a mostrar sua condição de vítima, pois falam também da busca constante por sua autonomia física e econômica, rompendo com o processo de subjugação e com o imaginário de que no contexto rural não há resistência feminina aos dispositivos de sujeição.

Por fim, chegamos ao universo da pandemia, por meio do texto COVID-19 e maternidade: experiências de gravidez e parto no Distrito Federal em tempos de pandemia, que buscou compreender se/como a pandemia do novo coronavírus impactou as experiências de gravidez e parto de três mulheres residentes no Distrito Federal (DF): Renata, Elisa e Isadora. Além de tratar da questão do medo e insegurança diante do vírus em relação ao qual esses corpos/territórios estariam mais fragilizados, as narrativas nos permitem pensar sobre outras formas de violência de gênero, a partir da violência obstétrica, agravada pelo racismo, aspectos apontados por uma das entrevistadas.

Embora nem todos os textos que compõem este dossiê tragam debates explícitos sobre interseccionalidades, compreendemos que sistemas de opressão, discriminação e padronização atuem em conjunto e estejam presentes, em diferentes dimensões, sobre cada narrativa aqui publicizada, também com seus atravessamentos temporais e territoriais. Cada voz ouvida, cada memória reconhecida pelo trabalho acadêmico posicionado e comprometido com a decolonialidade, faz da história oral uma poderosa ferramenta não apenas na produção de fontes historiográficas até pouco tempo ainda colocadas sob suspeita, mas de enfrentamento aos apagamentos e aos silenciamentos individuais e coletivos promovidos por um tipo de ciência que, ao anunciar-se neutra, construiu modos de subjetivação, conhecimentos e necropolíticas de caráter sexista, racista, lgbtfóbica e classista. Que este dossiê seja, também, um manifesto de(s)colonial de uma universidade que se transforma e se humaniza.

Referências

BALLESTRIN, Luciana. América Latina e o giro decolonial. Revista Brasileira de Ciência Política, Brasília, n. 11, p. 89-117, maio/ago. 2013. Disponível em: https://periodicos.unb.br/index.php/rbcp/article/view/2069. Acesso em: 12 fev. 2022.

CHAGASTELLES, Gianne Maria Montedônio. O trabalho das mulheres do Jequitinhonha: a atividade da cerâmica das viúvas de marido vivo. História Oral, Rio de Janeiro, v. 23, n. 2, p. 13-43, jul./dez. 2020.

COLLINS, Patrícia Hill; BILGE, Sirma. Interseccionalidade. São Paulo: Boitempo, 2021.

LARA, Alí; ENCISO DOMINGUEZ, Giazú. El giro afectivo. Athenea Digital, v. 13, n. 3, p. 101-19, 2013. Disponível em: https://raco.cat/index.php/Athenea/article/view/291693. Acesso em|: 12 fev. 2022.

LUGONES, María. Playfulness, “world”-travelling, and loving perception. Hypatia, v. 2, n. 2, p. 3-19, 1987. Disponível em: http://www.iheal.univ-paris3.fr/sites/www.iheal. univ-paris3.fr/files/playfulness.pdf. Acesso em: 12 fev. 2022.

NASCIMENTO, Letícia. Transfeminismo. São Paulo: Jandaíra, 2021.

RIBEIRO, Djamila. O que é lugar de fala? São Paulo: Letramento: Justificando, 2017.

VEIGA, Ana Maria. Uma virada epistêmica feminista (negra): conceitos e debates. Tempo e Argumento, Florianópolis, v. 12, n. 29, 2020. Disponível em: https://revistas.udesc.br/index.php/tempo/article/view/2175180312292020e0101. Acesso em: 12 fev. 2021.


Organizadores

Marta Gouveia de Oliveira Rovai – Professora adjunta da Universidade Federal de Alfenas (UNIFAL). Doutora em História Social pela Universidade de São Paulo (USP). E-mail: [email protected]  ORCID 0000-0003-0769-0748

Polyana Aparecida Valente – Professora da Universidade do Estado de Minas Gerais (UEMG). Doutora em Ciência e Cultura na História pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). E-mail: [email protected]  ORCID 0000-0003-1441-328X

Vânia Nara Pereira Vasconcelos – Professora titular da Universidade do Estado da Bahia (UNEB). Doutora em História pela Universidade Federal Fluminense (UFF), com período sanduíche na Universitat Rovira i Virgili (Espanha). E-mail: [email protected]  ORCID 0000-0002-8187-2614


Referências desta apresentação

ROVAI, Marta Gouveia de Oliveira; VALENTE, Polyana Aparecida; VASCONCELOS, Vânia Nara Pereira. Apresentação. História Oral. Rio de Janeiro, v. 25, n. 1, p. 7-12, jan./jun. 2022. Acessar publicação original [DR]

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