Racismo y sexualidad en la Cuba colonia. Intersecciones | Verena Stolcke

Verena Stolke 2 sexualidad en la cuba colonia
Verena Stolke | Canal Santiago Morcillo

Racismo e sexualidade em Cuba sexualidad en la cuba coloniaPeço licença para contar uma anedota. Penso que ela ajudará a compreender a importância do recentemente publicado Racismo y sexualidade em la Cuba colonial. Intersecciones. Também, auxilia a contextualizar as contribuições do livro, seja para os estudos de gênero e sexualidade, seja para os estudos de raça, seja para a história da antropologia. O ano era 2011. Eu havia ingressado no Mestrado em Antropologia Social na Unicamp. Em uma das disciplinas obrigatórias o professor responsável, Omar Ribeiro Thomaz, nos apresentou uma série de obras por ele denominadas de “heterodoxas”. Eram trabalhos que incorporavam a dinâmica social, os conflitos, a transformação sociopolítica e traçavam novos caminhos, métodos e técnicas do fazer antropológico. Em síntese, eram investigações de temas antropológicos considerados clássicos, mas realizados por perspectivas analíticas pouco usuais. Marriage, Class and Colour in Nineteenth Century Cuba. A study of Racial Attitudes of Sexual Values in a Slave Society, de Verena Stolcke, publicado originalmente em 1974 e reeditado em castelhano em 2017, era um destes livros.

Como bem salienta a autora (César; Lassali; Stolcke, 2017), é interessante notar que o título da versão em castelhano é mais apropriado que em inglês. Isso porque afirma ela, dimensiona não apenas a intersecção dos temas abordados, como destaca os elementos centrais que organizavam a sociedade cubana na época colonial. Na disciplina, não lemos o livro todo, fruto de sua pesquisa de doutoramento em Oxford orientada por Pierre Rivière, mas as discussões foram importantes para compreender os motivos pelos quais a “heterodoxia” de Verena nos fornecia uma instigante e inovadora maneira de fazer e praticar pesquisa antropológica. O trabalho de campo por ela realizado se centrou em Arquivos Coloniais de Cuba e Espanha. É verdade, porém, que este não fora desde sempre o objetivo da investigação. Stolcke conta que tinha como objetivo estudar as mudanças na família depois da Revolução de 1959. Chegou a ficar alguns meses em Sierra Maestra – juntamente com sua filha e com seu marido que investigava os efeitos da reforma agrária implementada por Fidel Castro – realizando a pesquisa. Entretanto, politicamente havia um contexto delicado e a presença de europeus passou a não ser bem quista. Leia Mais

Jinga de Angola: a rainha Guerreira da África | Linda M. Heywood

Cercada por mitos e controvérsias, a história da Rainha Jinga já inspirou livros, canções, filmes e movimentos sociais. No Brasil, trabalhos como de Selma Pantoja (2000) e de Mariana Bracks Fonseca (2018) ilustram a importância da rainha Jinga no contexto africano as representações dela ao longo do tempo. Atualmente, o livro “Jinga de Angola: a rainha guerreira da África”, escrito por Linda M. Heywood, é o mais recente e um dos mais completos estudos sobre a história da rainha africana que enfrentou disputas internas e externas para reconstruir o reino do Ndongo entre os séculos XVI e XVII.

A autora tem uma carreira consagrada ao estudo das sociedades na África Centro Ocidental (grosso modo atual Angola), tendo publicado monografias e organizado livros sobre o tema. Seus trabalhos versam sobre assuntos relacionados à política, cultura, poder e diáspora no contexto africano. Entre nós, a produção de Heywood é tímida, resumindo-se ao livro de organização “Diáspora Negra no Brasil” (2008), da editora Contexto, versão do livro Central Africans and Cultural Transformations in American Diaspora, mas composta apenas com artigos relacionados ao Brasil. Leia Mais

Concebendo a liberdade: mulheres de cor, gênero e abolição da escravidão nas cidades de Havana e Rio de Janeiro | Camillia Cowling

A edição brasileira do livro “Concebendo a Liberdade: mulheres de cor, gênero e abolição da escravidão nas cidades de Havana e Rio de Janeiro” da historiadora inglesa Camillia Cowling, professora de história da América Latina da Universidade de Warwick, foi lançada em 2018 pela editora da Universidade Estadual de Campinas, São Paulo. O livro é uma tradução do original intitulado Conceiving Freedom: Women of Color, Gender, and the Abolition of Slavery in Havana and Rio de Janeiro, lançado em 2013 pela University of North Carolina Press e, desde 2010, partes da obra já vinham sendo divulgadas em publicações internacionais pela autora.

Cowling trouxe para o centro desta narrativa as histórias de vida (ou pelo menos parte das histórias) de duas mulheres libertas: Ramona Oliva e Josepha Gonçalves de Moraes. Elas transcorrem por toda a obra, desde a introdução, quando a autora nos transporta para os respectivos dias em que estas mulheres, a primeira em Havana, a segunda no Rio de Janeiro, entraram com pedido de custódia de seus filhos nas instâncias judiciais máximas de cada uma destas cidades: Ramona no Gobierno General em Havana em busca de libertar seus quatro filhos María Fabiana, Agustina, Luis e María de las Nieves, e Josepha no tribunal local de primeira instância e depois no Tribunal de Relação no Rio de Janeiro, um tribunal de apelação, em busca de liberta sua filha Maria. Ramona teve que enfrentar “um dia escaldante do verão caribenho de 1883” e Josepha, diferentemente da cubana, “provavelmente sentiu arrepios de frio […] enquanto caminhava pelas ruas da cidade [do Rio de Janeiro]”, em agosto de 1884, quando é inverno na cidade. (COWLING, 2018, p. 23) Leia Mais

História das mulheres e gênero em suas diversas abordagens | História em Revista | 2021

As pesquisas voltadas para os mais diversos âmbitos relacionados à História das mulheres e aos Estudos de Gênero têm se ampliado desde meados do século passado, e, no tempo presente, consolidam esses campos de estudos como importantes áreas de produções acadêmicas. Trabalhos realizados, tanto nas esferas da graduação quanto da pós-graduação, refletem a dinâmica das investigações realizadas e, significativamente, têm contribuído para o fortalecimento dessas temáticas sensíveis. Tendo em vista suas diversas abordagens, permeadas por diferentes fontes, bibliografias, discussões teóricas e metodológicas, essas pesquisas são capazes de conduzir estudiosas e estudiosos desses assuntos a uma gama de novos conhecimentos históricos e epistemológicos.

As autoras e os autores que colaboram com seus artigos para a composição do dossiê, abordam discussões a respeito de sexualidades, construções culturais, preconceitos, desigualdades de gênero, violências, entre outros elementos, de forma que, com seus diferentes diálogos, problematizam os temas, oferecendo reflexões atualizadas e enriquecedoras. Leia Mais

História & outras eróticas | Marcos Antonio de Menezes, Martha S. Santos e Robson Pereira da Silva

Historia e outras eroticas3 História & outras eróticas
Orestes perseguido por las Furias, de William-Adolphe Bouguereau (1862) | Domínio público |

SANTOS M Historia e outras eroticas 2 História & outras eróticasNinguém vai poder, querer nos dizer como amar
Um novo tempo há de vencer
Pra que a gente possa florescer
E, baby, amar, amar, sem temer
Eles não vão vencer
– Johnny Hooker

Apesar dos constates ataques que a educação e a ciência têm sofrido no Brasil, principalmente nos últimos anos, por conta da gestão genocida empreendida por Jair Bolsonaro bem como por todos os outros ignóbeis que se somam a ele, ainda assim é possível notar uma resistência por parte daqueles que não aceitam abaixar a guarda e continuam firmes na produção de um conhecimento que busca reflexões contínuas da sociedade atual e da pluralidade de indivíduos nela inseridos.

Desse desejo de resistir é que nasceu História e outras eróticas (2020), organizado por Martha S. Santos, Marcos Antonio de Menezes e Robson Pereira da Silva. A obra mostra a que veio logo em suas primeiras páginas, ao dar as boas-vindas aos leitores com uma citação do sociólogo inglês Anthony Giddens que, dentre outros assuntos, investiga as transformações contemporâneas e seus reflexos nas relações amorosas e eróticas, e também com um trecho do single God Control (2019), de Madonna, que em sua música faz um manifesto contra o porte de armas nos Estados Unidos e relembra no clipe da canção o massacre [2] ocorrido em uma boate LGBT, no mesmo país.

A coletânea de textos que se seguem é inaugurada por Tamsin Spargo, que no primeiro capítulo do livro tece considerações abarcando sexo, gênero e sexualidade, partindo principalmente dessas temáticas para promover reflexões que vão desde o tratamento misógino que observou em ambientes de trabalho dos quais fez parte até a maneira como a pornografia colabora para as representações sexualizadas de corpos hiperbólicos. Em seu texto, Spargo dialoga em grande medida com o filósofo Michel Foucault, umas das maiores referências no que diz respeito as temáticas de sexualidade e educação, bem como a relação destes com o poder. Ademais, a autora ainda relembra a publicação de seu ensaio Foucault e a teoria queer (1999), onde ela explora o modo como o pensamento do filósofo teria refletido na construção e entendimento da referida teoria.

Na sequência, Luisa Consuelo Soler Lizarazo reflete sobre as fronteiras sexuais que ainda perduram paralelamente a diversidade de gênero, sobretudo àquelas observadas em sociedades transculturais, ao mesmo tempo em que problematiza a ordem moral que continuamente busca impor um modelo de família funcional apenas à sistemas patriarcais e capitalistas. A autora faz um levantamento de como as questões relacionadas ao assunto foram observadas ao longo dos séculos e evidencia a importância do direito de se exercer a possibilidade de escolha de cada sujeito.

Ao longo do tempo tem-se observando a História e a ficção protagonizando discussões acaloradas que resultaram em mudanças e reestruturações no fazer historiográfico. Seguindo nessa linha de raciocínio, Peterson José de Oliveira constrói seu texto a partir da relação dos historiadores com a verdade e a ficção e traz para o leitor a novela, um gênero um tanto quanto subestimado e ainda pouco estudado. Para suas análises, Oliveira concentra seu trabalho principalmente a partir do uso da montagem e da polifonia, duas formas narrativas essenciais para a construção de O mezz da gripe (1998) de Valêncio Xavier que, por meio maneira de sua narrativa, mescla ficção e realidade e, por conseguinte, reflete sobre os efeitos de verdade presentes na novela.

No capítulo seguinte a autora Lúcia R. V. Romano promove reflexões importantes a respeito das intersecções entre as artes cênicas e o feminismo, elucidando a importância da história para a construção de um diálogo entre os dois campos e pontuando a colaboração cada vez mais notável da historiografia para os estudos feministas. Em seu texto, Romano deixa claro que muitas são as questões atuais envolvendo a história, o teatro e o pensamento feminista e abre espaço para se pensar o artivismo feminista, com ênfase no Madeirite Rosa, um coletivo teatral paulistano.

Outra linguagem artística colocada em pauta ao longo da obra História e outras eróticas (2020) é o cinema, abordado no texto de Grace Campos Costa e Lays da Cruz Capelozi, que trazem para os leitores um debate precioso sobre a representação feminina a partir da filmografia de Catherine Breillat. Em um texto bastante didático e rico em imagens, as autoras apresentam uma discussão que vai de encontro a um tabu ainda muito atual: o prazer feminino. Como objeto de estudo é analisado o filme Romance X (1999) e ao longo do texto, além de conhecer um pouco mais sobre o cinema de Breillat também é possível compreender a forma como ela se posiciona antagonicamente aos estereótipos que ainda são observados no que diz respeito ao desejo feminino em representações cinematográficas.

No capítulo seguinte, Ana Lorym Soares faz um interessante paralelo entre a realidade a qual temos vivido e a distopia, lançando seu olhar para o romance O conto da Aia (1939), de Margaret Atwood. A autora explica que em outras obras de distopia o que se observa é um padrão onde os personagens principais são, na grande maioria das vezes, homens, de modo que no romance estudado, Margaret Atwood inova ao trazer uma mulher como personagem central da obra, fugindo dos padrões observado neste gênero da literatura. Desse modo, além de importantes reflexões a respeito da escrita feminina de Atwood, direito das mulheres e seus corpos enquanto campo de poder, Ana Lorym Soares ainda deixa evidente a importância de um olhar atento a realidade, a fim de que as distopias permaneçam no campo de conhecimento da ficção.

Também no campo da literatura, Marcos Antonio de Menezes, constrói seu texto a partir de romances e poesias, sendo que nas páginas que se seguem os leitores serão levados a refletir sobre a(s) representações do(s) feminino(s) na obra de Charles Baudelaire, levando em consideração questões postas em pauta pelo movimento feminista atualmente. Indo contra a grande maioria das produções literárias do século XIX, tecidas a partir da ótica masculina e burguesa, os leitores poderão conhecer um pouco mais sobre a estética, a recepção e as temáticas abordadas nos enredos de grandes obras, como As flores do mal (1857), de Baudeleire e Madamy Bovary (1856), de Gustave Flaubert.

No capítulo seguinte, Robson Pereira da Silva, apresenta-nos ao subversivo Hélio Oiticia, um dos artistas mais completos e importantes da arte brasileira. No texto é apresentada e discutida a antiarte e a arte de subversão de Oiticica nos anos de 1960 e 1970, onde através da performance o mesmo combatia todo e qualquer autoritarismo institucionalizado. O texto é essencial para compreender as configurações do corpo como objeto inventivo bem como do uso da contraviolência de Hélio Oiticica, que se valia da arte para combater a repressão vivida no contexto da ditadura militar no Brasil. O trabalho de ativistas/artivistas negros queer no estado da Bahia é preconizado por meio do texto de Tanya Saunders, que a partir do seu estudo relacionado a discussões de gênero, raça e sexualidade debate de que maneira se tem observado a construção crescente do “não humano”. No capítulo, o retrocesso vivido atualmente no Brasil é colocado em xeque e debatido através da ótica da colonialidade, do afrofuturismo e da necropolítica, que de maneira cada vez mais pungente e perigosa busca ditar quem têm ou não importância em sociedade.

No capítulo seguinte, Martha S. Santos toca com coragem em uma ferida ainda aberta, especialmente, ao problematizar a importância da compreensão da instituição da escravidão no Brasil a fim de que se entenda de uma vez por todas os reflexos desta para a criação e manutenção de privilégios desfrutados por determinadas classes sociais em nosso país. Em seu texto, a autora busca fazer um rápido balanço historiográfico dos estudos ligados a escravidão nas últimas quatro décadas no Brasil além de apresentar seus estudos, concentrados no interior do Ceará, e dialogar intrinsicamente com os estudos de gênero ao refletir sobre a maneira pela qual mulheres e crianças aparecem inseridas no processo da escravidão.

Com um olhar voltado também para a escravidão, Murilo Borges da Silva dialoga com o texto anterior ao abordar os relatos de viajantes no estado de Goiás, bem como as contribuições destes para a produção de corpos femininos negros e representações do feminino muitas vezes equivocadas.

Em seu texto, Silva trabalha com os relatos de Saint-Hilaire (1975) e Johann Emanuel Pohl (1976) para verificar como as mulheres negras aparecem nestes relatos, através dos quais nota-se que há uma tentativa de silenciamento por parte dos viajantes em questão, que não raras vezes, faziam de seus escritos um lugar seletivo, tornando visível determinados fatos e invisíveis outros, da maneira como lhes era favorável e de acordo com aquilo que consideravam necessário.

Logo em seguida os leitores são postos frente a questões direcionadas principalmente aqueles que se dedicam a produção de conhecimento, pois Fábio Henrique Lopes lança um problema grave que diz respeito a maneira como muitas vezes utilizam-se de pessoas transsexuais e de outras identidades de gênero apenas como objetos de estudo. Partindo dessa colocação, o autor torna possível um olhar mais atento ao lugar de fala que cabe a nós, pesquisadores. Aqui, fica claro que é necessário que haja um repensar do fazer historiográfico e epistemológico de modo a não ferir o outro e deixa a todos uma breve, mas, importante advertência: “incluir, excluindo é fácil […]” (LOPES, 2020, p. 276).

O próximo capítulo é um nó na garganta, daqueles que a cada palavra lida cresce um pouco mais, pois logo de cara, Miguel Rodrigues de Sousa Neto e Diego Aparecido Cafola lançam alguns fatos que não podem serem ignorados: a heterossexualidade e a cisgeneridade compulsória tem acarretado na invisibilização e precarização da existência da população LGBTQI+ e, consequentemente, na sua eliminação física. Os autores afirmam que o conhecimento produzido na academia não tem ultrapassado seus muros e que os reflexos dos discursos construídos em cima de conservadorismos podem ser notados cada vez mais através da violência com que a população LGBTQI+ tem sido alvo constante. Em um texto tocante, os autores colocam em xeque a noção atual de humanidade e questionam o processo de exclusão de grupos marcados pela diferença, ou melhor, que as maiorias silenciadas têm sofrido.

No texto que se segue as problemáticas levantadas dialogam com estas do texto anterior, porém, são levadas para o espaço escolar ao demonstrar como a escola tem atuando como agente da normatividade. Neste capítulo, Aguinaldo Rodrigues Gomes problematiza a hierarquização e o silenciamento de corpos dissidentes por meio do discurso falacioso da “ideologia de gênero” difundida, inclusive, como uma das principais bandeiras levantadas e defendidas durante a eleição de Jair Bolsonaro. O autor reitera os ataques aos quais a educação tem sofrido no campo dos estudos de gênero e da educação sexual, além de expor o cerceamento de professores, aos quais os conservadores e reacionários tentam colocar em uma redoma cujas grades é a ignorância e o preconceito.

Por fim, o último capítulo traz aos leitores uma “greve selvagem” que resultou na derrota do capitalismo em uma luta protagonizada por estudantes e trabalhadores. Em seu texto, João Alberto da Costa Pinto aborda a Revolução do Maio de 1968, a mais importante revolução anticapitalista do século XX. Sua análise parte da trajetória política e teórica de Raoul Vaneigem e se expande para outros militantes que fizeram parte do movimento que ficou conhecido como Internacional Situacionista (IS). De forma clara, Pinto explana o que levou dez milhões de trabalhadores e estudantes a frearem o capitalismo na França de forma totalmente espontânea e auto-organizada.

Dessa feita, levando em consideração o cenário hostil em que a produção de conhecimento científico se encontra em discrédito, como política de governo, bem como os ataques que as populações negras, índigenas, de mulheres e LGBTQI+, sobretudo àqueles sujeitos e sujeitas marcadas pela pobreza e precariedade da vida e do mundo do trabalho tem sofrido cotidianamente com as políticas de morte e indiferença, conclui-se que a coletânea de textos reunida em História e outras eróticas (2020) além de sinônimo de resistência é também um contributo a produção intelectual que se preocupa em pensar, refletir e problematizar os campos de estudo da política, raça, femininos e performatividades de gênero. Nas páginas desta obra, os leitores irão encontrar questionamentos relevantes acerca de temas atuais e necessários, fazendo com que a obra se configure como um alento a defesa dos direitos humanos, revestido de esperança, força e coragem para continuar na luta por igualdade.

Nota

2. O massacre na boate “Pulse” aconteceu em Orlando, no dia 12 de junho de 2016. Na data, Omar Mateen abriu fogo dentro do local e assassinou quarenta e nove pessoas e deixou cinquenta e três gravemente feridas.

LOPES, Fábio Henrique. Efeitos de uma experimentação político-Historiográfica com travestis da primeira geração. Rio de janeiro. In: MENEZES, Marcos Antonio de; SANTOS, Martha S.; SILVA, Robson Pereira da (org.). História & outras eróticas. Curitiba: Appris, 2020.

MENEZES, Marcos Antonio de; SANTOS, Martha S.; SILVA, Robson Pereira da (org.). História & outras eróticas. Curitiba: Appris, 2020.

Natália Peres Carvalho – Graduada em História pela Universidade Federal de Goiás e mestranda no Programa de Pós-Graduação em História (PPGH) da Universidade Federal de Goiás. Currículo Lattes: http://lattes.cnpq.br/9841094387536865. E-mail: [email protected]


MENEZES, Marcos Antonio de; SANTOS, Martha S.; SILVA, Robson Pereira da (org.). História & outras eróticas. Curitiba: Appris, 2020. Resenha de: CARVALHO, Natália Peres. História & outras eróticas (2020) – Uma obra urgente e necessária. Albuquerque. Campo Grande, v.13, n.25, p.184-188, jan./jun. 2021. Acessar publicação original [IF].

História & Outras Eróticas | Martha S. SAntos e Marcos Antonio Menezes

O que pode um corpo sem juízo? Quando saber que um corpo abjeto se torna um corpo objeto e vice-versa? Não somos definidos pela natureza assim que nascemos Mas pela cultura que criamos e somos criados

Sexualidade e gênero são campos abertos

De nossas personalidades e preenchemos

Conforme absorvemos elementos do mundo ao redor

Nos tornamos mulheres – ou homens,

Não nascemos nada

Talvez nem humanos nascemos

Sob a cultura, a ação do tempo, do espaço, história

Geografia, psicologia, antropologia, nos tornamos algo

Homens, mulheres, transgêneros, cisgêneros, heterossexuais

Homossexuais, bissexuais, e o que mais quisermos

Pudermos ou nos dispusermos a ser

O que pode o seu corpo?

Jup do Bairro.

História & Outras Eróticas, organizado por Martha S. Santos, Marcos Antonio Menezes e Robson Pereira da Silva, é fruto de um esforço científico coletivo que extrapola a materialidade dos textos que compõe a obra. O troca-troca cultural entre arte e agenda política (MEIHY, 2020, p. 13) que nos chega, tem origem na realização do VI Congresso Internacional de História da Universidade Federal de Goiás, Regional Jataí. Desta feita, os louros pela excelência são creditados aos/às autores/as e estendem-se aos discentes e docentes do Curso de Licenciatura em História da referida universidade, bem como, à Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes) pelo investimento na produção científica brasileira. Leia Mais

Michael Young, Social Science & The British Left, 1945-1970 / Lise Butler

BUTLER Lise 1 Michael Young

Design sem nome 1 Michael YoungAll historical actors ultimately defy our neat labels. Practically speaking however, some are more defiant than others. One such figure is the dynamo ‘social entrepreneur’, Michael Young. (1) It has become a cliché to rattle off the dizzying array of institutions, projects and ideas with which Young was involved in his long and energetic career. But then, it is difficult to resist a list as eye-catching as: the Labour Party’s 1945 manifesto; the foundational sociology text Family and Kinship in East London (1957); the concept of ‘meritocracy’; the Consumer Association and Which? Magazine; and the Open University. While Young’s professional life is tricky to pin down, its diversity–and his archive at Churchill College, Cambridge–offers a promising avenue through which to approach post-war Britain. In this rich, textured, and revelatory book, the historian Lise Butler has seized this opportunity with both hands.

The achievements of Butler’s Michael, Young, Social Science & the British Left are twofold. First, she explores the work and ideas of Young himself. Butler (p. 15) illuminates Young’s influential critique of actually existing social democracy and his own ‘explicitly political’ agenda: the centrality of community and family to social life; smallness over bigness; active citizenship; consumer advocacy; opposition to producer monopolies; and the prioritisation of happiness over narrow materialism. Her account deepens our understanding of Young’s motivations–in particular, the importance of family and women to his thought and activism after 1952.

However, Butler also achieves a second, more ambitious goal. By using Young as a ‘unique vantage point’ (p. 230), she traces the growing importance of the social sciences for both the intellectual thought-worlds of the Cold War West and the lively debates of post-war social democracy. Her account scrutinises the ‘networks’ connecting academics, advocates and political actors within different institutional settings and explicitly bridges intellectual and political history (p. 12). It ‘moves between lecture rooms in Oxford and Cambridge and policy circles in Westminster, and between London’s urban working-class neighbourhoods and its middle-class suburbs’ (p. 19). It also reconstructs ‘Cold War intellectual networks’ spanning North America and Western Europe (p. 210). In short, this book ranges far beyond Young and his well-known collaborators like Peter Willmott. Its cast of characters includes: the libertarian socialists G.D.H. and Margaret Cole; the child psychologist Joel Bowlby; the anthropologist Raymond Firth; the sociologist Talcott Parsons; the social researcher Peter Townsend; and Labour politicians from Tony Crosland to Edith Summerskill.

On this basis, Butler convincingly demonstrates the importance of social science for British left-wing politics and policymaking between the 1940s and the 1970s. Her argument dovetails with a wave of revelatory scholarship on social science and its dynamic relationship with the politics of identity over the last decade. (2) Historians like Jon Lawrence, Selina Todd, and Florence Sutcliffe-Braithwaite have critically examined surviving social-scientific fieldnotes and used these to reframe questions of class, community, gender and race in British society. Yet, Butler focuses more on the social scientists themselves. In many ways, as she argues, her account is the chronological sequel to Jose Harris’s influential work on the influence of idealist philosophy on the emerging Victorian and Edwardian welfare state. (3) The resultant prominence of themes such as community, altruism and active citizenship did not wither after the Second World War. They were instead absorbed and reformulated by a self-consciously humanitarian social scientific agenda. ‘It might even be said … that the social scientist laid claim to the intellectual terrain previously occupied by the moral philosopher’ (pp. 6-7). Her deeply researched account thus illuminates how ‘British social science was closely integrated with progressive politics, shaping the core assumptions, values, and responses that policy makers on the left took to social change’ (p. 222). Indeed, she suggests that there is more than a grain of truth in Raymond Aron’s famous characterisation of post-war British sociology as ‘an attempt to make intellectual sense of the political problems of the Labour Party’ (p. 2).

The distinctive approach Butler takes is immediately apparent in the first chapter, which pivots around the ‘Conference on the Psychological and Sociological Problems of Modern Socialism’ held in Oxford, 1945. Here, Michael Young takes a backstage role, while other actors stride into the spotlight. Held in the wake of Labour’s famous landslide, the conference sought to bolster the prospects for New Jerusalem through mobilising psychology and sociology. Listeners and contributors, including G.D.H. Cole, Leonard Woolf, R.H. Tawney, T.H. Marshall, and Karl Mannheim, agreed that social sciences could provide the intellectual resources to renew liberal and socialist commitments. However, Butler reconstructs a debate between a pessimistic contribution from the Labour economist Evan Durbin, and other more optimistic and voluntarist viewpoints. By exploring the inheritances of Edwardian and interwar progressive thought – and its fascination with social psychology and disturbing interest in eugenics – Butler explains Durbin’s ‘pessimistic, eugenicist, and psychoanalytically informed view of national character’ (p. 43). This led Durbin to defeatist conclusions about the inherent wickedness of most of the population. However, Durbin’s views were ‘stridently rejected’ (p. 43). To show this, Butler explores the key contributions, including Joel Bowlby’s adaptation of his famous attachment theory into an argument that citizenship could be fostered through active democratic participation, Margaret Cole’s celebration of pluralism and guild syndicalism and A.D. Lindsay’s liberal Anglican argument for small groups and voluntary associations. Butler characterises the result as a ‘marriage of group-focused psychology and sociology with elements of guild socialist and pluralist political thought’ (p. 22). Finally, she argues that this synthesis would strongly influence one thirty-year old observer and participant in the conference, Michael Young.

Young takes centre stage himself in chapter two. Butler discusses his formative and ‘astonishingly close’ (pp. 51-2) relationship with the philanthropists Leonard and Dorothy Elmhirst. It seems likely that this relationship helped Young land his first significant job at the think tank Political and Economic Planning (PEP), which the Elmhirsts helped fund. PEP embroiled Young in left-of-centre policy debate and provided him a route into the Labour Party Research Department. Butler then explores Young’s increasing involvement in ‘Active Democracy’ projects of the later 1940s, which aimed to foster active citizenship and highlight the ‘human factor’ in local government, healthcare, and the industrial workplace. She traces the influence of the industrial psychologist Elton Mayo on this agenda and situates it alongside similar research by Ruth Glass and with work published in the Pilot Papers, the pet project of Mass Observation founder, Charles Madge. A common theme was a ‘critique of the ways in which state institutions could make people feel disconnected, unmotivated and powerless’, and an optimistic view of the potential for active citizenship (p. 68). These currents pushed Young into increasing dissatisfaction with the statist and technocratic overtones of Labour’s 1945 agenda, despite his continuing employment by the party. Young’s disillusionment culminated in his off-message pamphlet Small Man, Big World: A Discussion of Socialist Democracy (1948), which decried ‘Bigness’ as the ‘Enemy of Humanity’, identified ‘Smallness’ as essential for democracy in modern society, and championed broad-based social sciences over narrow economics. All these would prove to be enduring themes.

The third chapter is pivotal for understanding Butler’s reading of Young’s work. It highlights Young’s unpublished paper for the Labour Party, For Richer, For Poorer (1952), as a turning point in Young’s politics and thought. The pamphlet argued that women and children were particularly vulnerable to the negative aspects of modern industrial and suburban society, and that the family should be placed at the centre of Labour’s agenda. This contention arose from several places, Partly, it grew out of the lessons Young drew from his six-month sabbatical touring the world (funded by Labour and by the Elmhirsts) and his decision to study for a doctorate in sociology under Richard Titmuss, whose own work on family and population is explored. However, in keeping with her theme, Butler also draws attention to how Young’s ideas synthesised older Edwardian preoccupations with cutting-edge social scientific research agendas. For the former, Young drew on what a ‘pre-second-wave feminism’ (a term perhaps open to challenge), and thus echoed an ‘established feminist project to empower and compensate women as mothers’ (pp. 97, 229). Butler notes the overlaps with the coterminous campaign for family allowances and that one of its partisans, Labour MP Edith Summerskill, admired Young’s pamphlet. Yet, Young also drew on new strands of psychological research, in particular Labour MP Stephen Taylor’s work on the ‘neurosis’ of the suburban housewife.

Importantly, this synthesis put the ‘dependent position of women at the heart of an analysis of working-class life’ and ‘contained the intellectual seeds of a broader project’ (p. 85). The pamphlet was, therefore, a ‘key moment’ (p. 100) in Young’s career. There are intriguing biographical hints as to why Young was so fascinated this agenda, including his unstable family upbringing. Probably wisely, Butler does not pursue this point. Instead, she valuably stresses the importance of this theme for Young’s future work. She suggests that it is no coincidence that Family and Kinship was originally going to be called Mothers and Daughters (p. 140), and that Young’s later creation, the Institute of Community Studies (ICS), ‘might, in fact, have better been called the Institute of Family Studies (p. 123). There are many criticisms to be made of Young’s rather essentialist view of women (see below), but it should be stressed just how unusual his perspective was in left-wing policy circles. Indeed, Butler elsewhere quotes a revealing Active Democracy pamphlet from 1949, which imagines a representative ‘citizen’ comparing their first experience of a hospital to when ‘he first went to boarding school or into the services’ (pp. 59-60). This neatly illustrates just how much post-war intellectual discussion of citizenship assumed that the ‘citizen’ was an upper-class male. Nor was the Labour Party, with its focus on the industrial male worker, more likely to place women and the family at the centre of its politics – hence, Summerskill aside, the seemingly widespread disinterest in Young’s pamphlet inside the party. Young’s increasing focus on working-class women was disruptive to the politics of the post-war left.

Once she establishes her interpretive lens, Butler applies it to Young’s famous work in the 1950s. In chapter four, she explores the ICS, and its critique of post-war urban planning and the welfare state. She argues that Family and Kinship (and its celebration of Bethnal Green’s extended family networks over the suburban nuclear family) arose from a ‘deliberate intellectual and political project to emphasize the continuing relevance of the extended family in industrial society’. It was also expressly intended as a political intervention on urban planning, offering an alternative ‘model of socialist citizenship, solidarity and community’ to that of Labour Party and to any ‘model of socialism … organized around the interests and political culture of male industrial labour’ (p. 106). To add further context, Butler discusses Young’s 1951 trip to India and report on mutualist land reforms. She also traces the influence on the ICS of Bowlby’s child psychology, the functionalist psychology of Parsons and Edward Shils, and Firth’s anthropological scholarship on matrilineal societies. In keeping with her focus on social science, and not just Young, Butler also explores the work of fellow ICS researcher Peter Townsend (who was impressed by For Richer, For Poorer), and his own critiques of the welfare state. Like Young, Townsend’s resultant work on pensions and relative poverty heavily emphasised the family.

Chapter four then offers a fascinating reading of Young’s famous satire the The Rise of Meritocracy (1957). Though often separated from his other work, Butler uses her argument to highlight the importance of women for Young. It is revealing, Butler suggests, that in Young’s dystopian future, it is women who lead the 2034 Technician’s Revolution against the oppressive meritocracy. This choice, whether conscious or not, reflects Young’s wider project to build a politics around feminine care rather than masculine work. ‘[B]ecause women often stood outside of the formal professional structures of the dystopian meritocracy … they had become the social group best equipped to resist it’ (p. 152). She also, however, points to some slippage between the clueless narrator’s views and those of Young himself, as both shared a somewhat essentialist view of the role in women – and here Butler introduces Juliet Mitchell’s famous critique of Peter Townsend in ‘Women: The Longest Revolution’ (1966). Nonetheless, Butler sees Young’s research preoccupations as reflecting an ‘anxious conviction’ that Labour was ‘blind to human motivation, and overly committed to a politics of production which saw people as workers first’, and that ‘the family had been overlooked by the left and should be reclaimed as a progressive force’ (p. 155).

Butler makes a similar case in chapter five, which centres on the Consumers’ Association and Young’s exploration of consumer politics in The Chipped White Cups of Dover (1960). Young himself saw consumer advocacy as separate from his other work, but Butler explicitly disagrees with him (p. 159). His interest in consumption, she suggests comes from his prior interest in women, in the family, and in identities and solidarities formed outside the workplace. For Young, ‘consumer politics were articulated and justified in terms of the family’s return to the centre of British economic life’ (p. 169). Butler sustains this argument by drawing on Young’s lectures at Cambridge on social development. In these lectures, Young advanced a stadial sociological schema, in which the family began as a central economic unit in an agricultural society, declined in economic importance during the industrial era, and returned to the centre of economic life in modern times – only this time, as a site of consumption, not production. The chapter also draws a useful contrast between Townsend and the other ICS researchers. While Townsend famously rediscovered poverty, Young became interested in the politics of affluence. Hence, from the late 1950s, the ICS’s normative preference for the working-class extended family over the ‘affluent’ nuclear family weakened significantly and it began to offer more positive readings of the latter.

Chapter six returns to Butler’s central focus: the connections between post-war social science and centre-left politics. Despite Young’s critique of the Labour Party, he continued to influence key figures within it–notably the revisionist thinker Tony Crosland, who similarly distrusted nationalisation and producer-oriented politics. Therefore, after Wilson took power in 1964, Crosland offered Young the founding chair of the Social Science Research Council (SSRC). Butler represents Young’s tenure at the SSRC as the culmination of his enduring project to champion the insights of synthetic, interdisciplinary social science (over economics or abstract political thought) for policymaking. Young struggled with some of the administrative requirements of the job – as Butler observes, his ‘energetic career’ attests to the fact that he was ‘a lot better at setting up exciting new ventures than administering mundane but necessary ones’ (p. 196). She generously focuses on the former by exploring the ‘Next Thirty Years’ project, which reflected Young’s growing belief that ‘the social sciences could help policy makers forecast and plan for the future needs of society’ (p. 198). Butler situates this within an ‘increasing global fascination with the future’ (p. 199) and highlights similar initiatives sponsored by the Ford Foundation or the RAND Corporation in the United States. She then traces how the later 1960s severely disrupted this agenda. Intensifying racial conflict, anti-war protests and contentious industrial disputes all challenged the often naively optimistic assumptions of futurological thinking. The Next Thirty Years project accordingly ran aground. Nevertheless, by examining the networks surrounding both this project and Young himself, Butler traces some origins of the journal New Society (f. 1962), its influential ‘Non-Plan’, and the related ‘Open Group’, which involved not only Young and Willmott, but also figures like Peter Hall and Samuel Brittan, who would become deeply significant in 1970s debates.

It seems churlish to ask more of such an interesting book. It may have been illuminating to consider in more depth the international and global contexts of post-war social science. Butler does note transnational connections, like Young’s fellowship at Stanford, funded by the Ford Foundation (where he rubbed shoulders with everybody from Clifford Geertz to Daniel Bell). But the looming presence of communism and its influence on debates about socialism in Western Europe was surprisingly under-explored. It seems likely that the drive for a pluralist, tolerant and participatory socialism, which respects rather than tramples over existing social networks, was at least partly a response to the Soviet and Maoist spectres. The intriguing influence of the Indian village on both Young and the Elmhirsts is, similarly, given comparatively little attention, and could perhaps have been situated within a rapidly expanding historiography of modern Britain that foregrounds imperial and postcolonial legacies. Finally, especially in a book about social science, some engagement with the extensive social scientific literature on ‘networks’ (such as ‘policy learning’ or ‘social network analysis’) may have further illuminated how Butler used that concept.

In her conclusion, Butler returns to her central arguments: the importance of the family for post-war sociology and the close interconnections between social science and social democratic politics. As Butler notes, her account resonates with live debates today. There has been a significant revival in communitarian politics since Ed Miliband’s leadership of the Labour Party (2010-15), encapsulated in the ‘Blue Labour’ movement, while over the last year a new tranche of books on ‘meritocracy’ have hit the bookshelves. Influential here is the ongoing work of David Goodhartwho famously contrasted the ‘somewheres’ with the ‘anywheres’and, as with much of this literature, Goodhart often engages directly with Young’s ideas. (4) Butler shies away from drawing simplistic ‘lessons’ from her history, but she does comment on this debate. Her account shows that Young’s empirical findings were profoundly shaped, and frankly distorted, by political commitments–something especially obvious in the blindness of works like Family and Kinship to the issues of migration, ‘race’, and multiculturalism. This leads her to warn against any left-wing politics built on an idealized ‘traditional working-class community’. But she also draws more positive messages too, highlighting Young’s insistence that ‘relationships matter’ as a nugget of insight into our present moment (p. 229). In that sense, though she approaches the topic from the top down rather than bottom up, Butler’s argument echoes Jon Lawrence’s recent account of ‘community’ in modern Britain.(5)

Although her endpoint is in 1970, Butler also hints at subsequent developments. Unsurprisingly given their interconnection, both Young’s brand of social science and revisionist social democracy were profoundly challenged by the rise of the New Right, the Bennite left, and post-1968 liberation politics. The political conflicts are well known, but the intellectual challenges were just as profound: the advance of Marxism and new forms of feminism in universities and polytechnics and monetarist or new classical theory and increasingly complex econometrics in think tanks and economics departments, jarred against the thought-worlds of Young and his peers. In hindsight, the SSRC’s foundation in 1964 looks something like their high-water mark. Indeed, the defunding of the SSRC and its rechristening as the Economic and Social Research council in 1981, and Young’s joining of the schismatic Social Democratic Party in the same year, take on an ‘end of an era’ resonance. There are, however, other conclusions one could add. It is noteworthy that the 1990s witnessed a revival in communitarian political thought, centre-left sociology, and social scientific advocacy (think Anthony Giddens, Bowling Alone, Demos, and Geoff Mulgan). Young himself contributed to this rejuvenation. Perhaps revealingly, this new wave arrived just as the centre-left revived politically too, as shown most obviously in Labour’s 1997 landslide. New Labour’s fascination with New Keynesian economics, technocratic metrics, and ‘equality of opportunity’ significantly qualifies this point. Nevertheless, the existence of one type of social democracy does not preclude the presence of another – after all, Young’s post-war agenda bumped shoulders with a rival centre-left politics, centred on macroeconomics, corporatism, and ‘industrial modernisation’. There may be some mileage in comparing the fortunes of pluralist, communitarian social science and the revisionist centre-left in the broader sweep of modern Britain, up to the present day.

That would, however, be another project entirely. Butler’s account provides, through the technicolour prism of Michael Young, a rich perspective on both social scientific and left-wing policy debates in post-war Britain. The result is a fascinating, deeply researched and revelatory book.

Notes

  1. Asa Briggs, Michael Young: Social Entrepreneur (Basingstoke, 2001).Back to (1)
  2. This was given impetus by Mike Savage, Identities and Social Change in Britain Since 1940: The Politics of Method (Oxford, 2010).Back to (2)
  3. Jose Harris, ‘Political Thought and the Welfare State 1870-1940: An Intellectual Framework for British Social Policy’, Past & Present 135:1 (1992), 116-141.Back to (3)
  4. David Goodhart, The Road to Somewhere (London, 2017); David Goodhart, Head Hand Heart: The Struggle for Dignity and Status in the 21st Century (London, 2020).Back to (4)
  5. Jon Lawrence, Me, Me, Me? The Search for Community in Post-War England (Oxford, 2020).Back to (5)
Colm Murphy – Institute of Historical Research.

BUTLER, Lise. Michael Young. Social Science & The British Left, 1945-70. Oxford: Oxford University Press, 2020. Resenha de: MURPHY, Colm. Reviews in History. Londres, 05 mar. 2021. Acessar publicação original [IF].

Lésbicas e Professoras. O Gênero na Docência | Patrícia Daniela Maciel

Um livro traz reflexão e novas compreensões sobre uma temática. Diante da necessidade de dar voz e visibilidade para a questão da lesbianidade na escola, Patricia Maciel escreveu o livro intitulado como “Lésbicas e Professoras. O Gênero na Docência” por ora resenhado.

A 1ª edição foi lançada em Curitiba, no ano de 2017 pela editora Appris. Suas 197 páginas destacam as questões que fogem a norma com o intuito de compreender as relações dos sistemas discursivos hegemônicos dentro da escola. O interesse da autora é romper com sistemas de controle e de assujeitamento dos corpos diante das questões que envolvem a sexualidade, assim, têm como ponto de análise as falas do ser docente lésbico e como rompem com o discurso heteronormativo em sua vida pessoal e profissional, e como confrontam e avaliam essas experiências em torno dos padrões de gênero ao longo da sua carreira profissional.

A forma de subjetivação e de enfrentamento dos padrões patriarcais na atuação profissional das lésbicas é o foco central do livro. Nesse aspecto, os cinco capítulos discorrem sobre atitudes de resistência contra os processos de subordinação heteronormativos e para embasamento, é utilizado Tereza de Lauretis, Judith Butler, Monique Wittig e Margareth Rago visando refletir sobre a representação social do corpo feminino lésbico no ambiente escolar e sua multiplicidade de atuação contra a heteronormatividade.

Para delimitar o objeto da pesquisa, a autora realizou a busca por docentes que se encaixavam no perfil da temática via email por um período de duas semanas. Nove docentes demonstram interesse em participar, contudo, a investigação ocorreu somente com sete que aceitaram realizar as entrevistas. Assim, o ponto inicial do livro visa a autocompreensão subjetiva das docentes lésbicas em torno da relação da escola e gênero. Para isso, destaca a multiplicidade de definições acerca da diversidade e o autorreconhecimento da sexualidade que foi encontrado, entendendo que, ser docente e lésbica não homogeneíza a visão das entrevistadas. Ao conceituar os resultados concomitante as ideias de Jorge Larossa, a autora do texto ora resenhado, discorre que a prática de conhecimento é uma condição de ascese para a experiência de existência.

Como resultado, é destacado três grupos de análise: O primeiro, as docentes podiam falar de si como lésbicas nas escolas. O segundo tem como foco a evidencia das lutas e os enfrentamentos contra os processos de condutas patriarcais no ambiente escolar e a valorização de suas experiências como lésbicas. Por fim, o último grupo de análise destaca como docentes reconstroem a feminilidade fora do padrão heteronormativo no ambiente escolar.

Para reconhecer a heterogeneidade das entrevistadas, a pesquisadora destaca no primeiro capítulo o perfil de cada através da autodescrição. O segundo capítulo descreve o efeito dos discursos de gênero na construção docente. Vale ressaltar que a autora ao se basear nos estudos de Michel Foucault, Judith Butler, Tereza de Lauretis, Linda Nickolson, Paul Beatriz Preciado e Guacira Lopes Louro, os conceitos de sexo/gênero utilizados ultrapassam os conceitos binários e tem como ideia central o dispositivo da sexualidade para descrever os discursos, enfatizando assim, as singularidades dos relatos e experiências sobre gênero de cada docente lésbica.

Tendo como referência as ideias de Foucault, o livro destaca o entendimento sobre o sexo como um poder que ganha legitimidade pela linguagem e práticas e leva o indivíduo a pensar de acordo com determinados domínios do saber. Entender o sexo/gênero como uma tecnologia discursiva que controla o campo das significações sociais e que produzem no sujeito algumas significações é destacado no decorrer da obra a ideia que, a partir das tecnologias dos discursos, se forma uma ideia do “eu” que se conhece e se controla através da sexualidade.

Cabe salientar que a autora respaldada em Louro (2008), descreve a forma que as professoras falam de si mesmas como uma forma de atravessar limites e fazer seu próprio obstáculo para penetrá-los, superá-los e transpô-los e assim, pensar fora da lógica imposta e viverem a sexualidade. Nesse aspecto, incita uma reflexão sobre a instabilidade profissional e pessoal causada pela escola por utilizar a heterossexualidade compulsória como normalizador das condutas sociais do ambiente escolar que reprime as professoras lésbicas para exercerem sua profissão.

Outra singularidade observada é sobre o significado que a escola atribui ao gênero e a forma que influi na relação das professoras com seus alunos. O tom e o sentido que as entrevistadas dão às suas trajetórias como professoras interferem no seu reconhecimento como lésbica. Mesmo que as entrevistadas não falem de forma explicita na escola sobre sua sexualidade elas garantem através do enfrentamento das normas sexistas, a defesa dos alunos gays e das alunas lésbicas, mas isto não garante que a escola fale de forma aberta sobre gênero.

Através dos relatos das professoras é notório que a hegemonia patriarcal no ambiente escolar ainda vigora de forma impositiva e normalizadora. Fugir à regra hegemônica é resistência, desafiar as regras de controle dos corpos é dar voz aos sujeitos em formação que são inferiorizados e marginalizados pelas estruturas sexistas dominantes tão enraizadas e que podem acarretar em danos irreversíveis na vida dos estudantes LGBTQIA+.

Nesse sentido, o cap. 3 descreve sobre os efeitos das experiências de si e do ser docente dentro da perspectiva da multiplicidade do discurso de gênero que dá forma ao sujeito. É destacado que as professoras pesquisadas ressignificam a docência e produzem uma ética de si para ser usada no campo educativo, assim, a forma que conduzem suas experiências como mulheres e a forma que vivem a sua sexualidade são vista como um ascese, uma episteme para pensar a partir da singularização e no modo como elas se relacionam com o mundo e com os seus alunos. Através dessas experiências elas tentaram introduzir novos espaços e novos modos de mudanças na cultura e na sociedade.

O penúltimo capítulo descreve sobre a produção dos femininos na escola mediante os discursos performativos e como as entrevistadas se auto afirmam individualmente como mulheres, professoras e lésbicas. A reflexão baseia-se nas relações de poder em torno dos discursos entre o ideal de mulher e os discursos flexibilizadores das suas escolhas.

Ao descrever como são produzidos os femininos e corrobar com os estudos de Hall (2000), o livro mostra que as identidades não são iguais, nem mesmo em meio a uma cultura histórica do povo. Assim, ao mostrar como se produz os femininos nas falas das professoras, a autora destacou os processos políticos universais que visam construir os discursos com o intuito de criar as desigualdades. Dessa forma, é observado nas entrevistas como funcionam os discursos de gênero e como estes constroem a si por meio da diferença. As falas das docentes demonstram que muitas vezes as estruturas de poder não dão às professoras lésbicas um essencialismo identitário aceitável, pois estas estruturas estão sempre em alerta em relação ao gênero da mulher e o que é visto como aceitável em relação à prática da feminilidade no mundo heteronormativo, mas mesmo diante de tantos obstáculos, elas assumiram uma forma de desconstruir os discursos binários baseados na lesbianidade.

Cabe salientar que apesar das professoras problematizarem sobre gênero na escola a partir das suas experiências como seres engendrados, algumas apresentaram receio e insegurança no tratamento dos alunos na escola. Um exemplo é o discurso da professora Ana que relata a mudança no seu jeito de tratar os alunos da educação infantil dos alunos dos anos iniciais e fundamental por receio de ser mal interpretada, ou seja, ela deixa que o padrão heteronormativo influencie na sua relação interpessoal onde a homossexualidade não é aceita, pois a escola nega tais relações como um de seus rígidos referentes culturais. “Em relação a isso, posso afirmar que: 1) os alunos têm dificuldades para significar as estéticas, os comportamentos e as posturas das professoras pesquisadas; 2) a escola não lhes proporciona condições para que eles possam pensar em outros tipos de feminilidades” (p. 178).

No último capítulo a autora termina suas considerações sobre a pesquisa destacando o redimensionamento da sua experiência como pesquisadora que as narrativas das docentes lhe oportunizaram. Ao relembrar como as professoras são envoltas diariamente por relações de poder através do dispositivo de gênero e como elas precisam interpretar, negar, afirmar e transformar esses discursos em sua vida para continuar sua vida pessoal por serem corpos sociais, é o ponto de destaque do livro e que norteia toda a reflexão do livro.

Ao realizar a leitura, percebi que caminhar para um processo de normalização do gênero nas escolas é uma busca que ainda necessita de longos caminhos, principalmente nas escolas públicas onde os sujeitos são invisibilizados e envoltos por questões políticas e de controle tradicional dos corpos. Mas a potência dos discursos das professoras tem dado voz para a desconstrução dos padrões sexistas que envolve o ambiente de atuação profissional.

Através da utilização de seus corpos como impulso para subverter a ordem binária instituída no ambiente escolar, as docentes lésbicas veem em seu trabalho uma forma de reestruturar as percepções sociais, mesmo sendo muitas vezes oprimidas pela heteronormatividade. Desta forma é notória a emergência no apoio e multiplicação das lutas contra determinismos falocêntricos para um maior reconhecimento dos sujeitos LGBTQIA+, bem como a necessidade de pesquisas que envolvam a temática da lesbianidade no ambiente escolar, pois desta forma, conseguiremos voz e um novo olhar para debates sobre gênero e sexualidade que ainda é invisibilizados e vista como um tabu científico no meio social, mas principalmente, nas escolas.

Mayana Morbeck Coelho –  Pedagoga. Mestranda no Programa de Pós-Graduação em Relações Étnicas e Contemporaneidade – PPFREC/UESB/Jequié. https://orcid.org/0000-0003-2720-5930 Email: [email protected] Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia (UESB)


MACIEL, Patricia Daniela. Lésbicas e Professoras. O Gênero na Docência. Ed. Appris. 2018, p. 197. Resenha de: COELHO, Mayana Morbeck. Subvertendo padrões de gênero na docência. Abatirá. Eunápolis, v.1, n.2, p.150-154, jul./dez., 2020. Acessar publicação original [IF]

Corpos em Aliança: Diálogos Interdisciplinares sobre gênero, raça e sexualidade | Ana Claudia Martins e Elias Ferreira Veras

Nas últimas décadas, temos testemunhados constantes transformações sociais, históricas, políticas e culturais, que abalaram as estruturas cishetonormativas dos antigos padrões de gênero, raça e sexualidade. As lutas feministas, as conquistas LGBTQIA+, os movimentos trabalhistas e a descolonização dos países africanos, por exemplo, que perpassaram o século passado, desdobrando-se até os dias atuais, culminam em novas formas contemporâneas de fazer política e ciência.

A obra Corpos em Aliança: Diálogos Interdisciplinares sobre gênero, raça e sexualidade, organizada por Elias Ferreira Veras e Ana Claudia Aymoré Martins, professor/a da Universidade Federal de Alagoas (UFAL), aparece nesse contexto teórico-metodológico-político de transformações, sendo oriundo dos debates realizados durante o II Colóquio diálogos interdisciplinares sobre gênero, raça e sexualidade: corpos em aliança, organizado pelo Grupo de Estudos e Pesquisas em História, Gênero e Sexualidade (GEPHGS/CNPq), do Curso de História da UFAL – com apoio do CNPq -, em Maceió (AL), no mês de maio de 2019. Leia Mais

Queer in the Tropics: Gender and Sexuality in the Global South | Pedro Paulo Gomes Pereira

Queer in the Tropics: Gender and Sexuality in the Global South, de Pedro Paulo Gomes Pereira, é apresentado pelo autor como um livro-experiência. São vidas e teorias que tecem trajetórias e(m) afetos. Pedro Paulo vai incorporando seus encontros com experiências-outras, e aqui o uso do gerúndio se faz necessário, posto que o movimento e o devir são constituintes de um caminhar que segue abalando as teorias que viajaram aos trópicos, ao Sul Global. O livro constrói uma análise que, a partir da teoria queer, convida à interpelação da configuração sexo/gênero como parte do projeto colonial.

Ensaio passos entre mundos e teorias, daqui do interior, com um olhar caipira de quem desconfia de muita coisa: o encontro com o livro me afetou de modo a querer contar umas histórias com Pedro Paulo. Mas, no meio do caminho tinha uma pedra1. Não bastasse Richard Miskolci ter escrito a apresentação, Judith Butler escrevera o prefácio do livro. Para que eu adentraria nessa prosa? Leia Mais

Encontros e desencontros de lá e de cá do Atlântico: mulheres Africanas e Afro-brasileiras em perspectiva de gênero / Patrícia G. Gomes e Claudio A. Furtado

GOMES Patricia Godinho Mulheres africanas
Patrícia Godinho Gomes / Foto: Elaine Schmitt – UFSC Notícias /

GOMES P e FURTADO C Encontros e desencontros de la e de ca do Atlantico Mulheres africanasEm um breve ensaio na introdução é apresentada a ideia de modernidade, acentuada no desenvolvimento do capitalismo e na industrialização. Esta faz com que transformações socioculturais e de categorias como as de gênero e raça derivem de fundamentos sociais euro-peus, influenciando em desigualdades e estratificações sociais. Destaca-se uma cronologia dos estudos e temas publicados sobre mulheres e relações de gênero, representando seus impasses, como a predominância de textos escritos por homens e a partir de seus olhares, mas também o crescimento significativo da produção literária sobre mulheres africanas e a partir de suas perspectivas. Quanto ao Brasil, mostra-se dados em relação ao período da escravidão e o peso da visão machista e eurocêntrica sobre eles, como o ideal do colonizador sobre o colonizado. Por isso, a importância de uma literatura produzida sobre as lutas das mulheres negras no Bra-sil, fazendo com que conceitos de raça e gênero sejam considerados intrínsecos, “insepará-veis”.

No primeiro capítulo, “De emancipadas a invisíveis: as mulheres guineenses na produ-ção intelectual do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas”, a autora Patrícia Godinho Go-mes apresenta um breve excursus teórico de Houtondji e Oyèwùmi e a questão dos estudos sobre mulheres e gênero, no qual destaca a origem da produção deste conhecimento e seus principais destinatários. No processo de independência de Guiné-Bissau, em 1973, a partici-pação das mulheres constituiu-se em um elemento-chave para seu desenvolvimento do pro-cesso, tanto externo como interno. Porém, a importância das mesmas é inviabilizada nos dis-cursos, como discutido no diálogo apresentado entre dois intelectuais guineenses- Carlos Lo-pes e Diana Lima Handem, que debatem temas como patriarcado, subalternização e relações de gênero e mercado de trabalho. É abordada a ausência de mulheres na produção intelectual do INEP, juntamente com a de temas sobre as mesmas, dando destaque às atitudes de alguns órgãos como A União Democrática das Mulheres Guineenses (Udemu) em relação a isto. Leia Mais

¿Reconocimiento o redistribución? Un debate entre marxismo y feminismo | Judith Butler e Nancy Fraser

Introducción

La presente reseña tiene como objetivo problematizar el debate Fraser-Butler, no a través del análisis de los dos postulados principales, sino a través de la crítica de los mismos y de las posibilidades que en ellos se encierran. Este ejercicio lo que pretende problematizar es la relación entre genitalia-sexo-género, con el capitalismo y la disolución de las certezas ontológicas con la pérdida de vigencia de lo denominado como moderno.

Tanto el debate Fraser-Butler, surgido en la New Left Review en el año 2000 y convertido en libro en 2017, como el debate filosófico en torno a la modernidad, aparecido en las primeras décadas del siglo XX, no son nuevos. Sin embargo, las problemáticas que abordan siguen estando vigentes, sobre todo, ahora, que los feminismos autodenominados radicales están en plena ofensiva reaccionaria poniendo en riesgo las vidas de las personas trans y lanzándose a una aventura colonizadora sobre aquellos cuerpos que consideran abyectos. Esto hace necesario señalar cómo determinadas articulaciones feministas pueden constituirse como represivas, donde una interpretación falaz de la relación entre género y sexo puede llegar a funcionar como vehículos de la dominación. Esto permitiría a grupos feministas enrocarse en el biologicismo y el etnocentrismo para instrumentalizar la lucha por la liberación y convertirla en su monopolio. De este modo, garantizarían, a través de la defensa de una feminidad cis y blanca, la invisibilización, persecución y represión de los colectivos más desfavorecidos. Es esta labor represiva de determinadas articulaciones feministas con vocación universalista y eurocéntrica, que se amparan en interpretaciones falaces de la realidad, la que constituye el objetivo de crítica de esta reseña. El texto de Fraser nos serán muy útiles para comprender este tipo de posiciones reaccionarias, sin que esto suponga que acusemos a Fraser en el presente por las afirmaciones teóricas mantenidas hace veinte años. Leia Mais

Mulheres, direito à cidade e estigmas de gênero. A segregação urbana da prostituição em Campinas | Diana Helene

O livro Mulheres, direito à cidade e estigmas de gênero: a segregação urbana da prostituição em Campinas, de Diana Helene Ramos (1), é o primeiro livro escrito por uma arquiteta e urbanista brasileira discutindo a relação entre prostituição e cidade. Publicado em 2019 pela editora Annablume, esse livro é resultado de tese de doutorado da autora em Planejamento Urbano e Regional, desenvolvida no Ippur UFRJ, pela qual recebeu o Prêmio Capes de Tese 2016 da área de Planejamento Regional/Demografia (2). O livro está dividido em três partes, com um total de seis capítulos que, em linhas gerais, discutem a presença das prostitutas na cidade de Campinas e sua participação enquanto agente na produção do espaço urbano, seu cotidiano e os deslocamentos ocorridos no contexto urbano e laboral dessas trabalhadoras. Leia Mais

Teoria do romance III: o romance como gênero literário – BAKHTIN (B-RED)

BAKHTIN, M. Teoria do romance III: o romance como gênero literário. Tradução, posfácio e notas Paulo Bezerra; organização da edição russa de Serguei Botcharov e Vadim Kójinov. São Paulo: Editora 34, 2019. 144p. Resenha de: MELO JÚNIOR, Orison Marden Bandeira de. Bakhtiniana, Revista de Estudos do Discurso, v.15 n.2, São Paulo, Apr./June 2020.

Como já é notório a todos os leitores que acompanham as publicações de textos do Círculo pela Editora 34, a sequência dos textos Teoria do romance ITeoria do romance II e, agora, Teoria do romance III tem, como base, o tomo 3 da coletânea Obras reunidas em sete tomos [Sobránie sotchiniênii v siémi tomakh] de Mikhail Bakhtin, organizada por Vadim Valeriánovitch Kójinov (1930-2001) e Serguei Geórguievitch Botcharóv (1929), que, segundo Grillo (2009), são os detentores dos espólios bibliográficos de Bakhtin. Ainda segundo Grillo (2009), após a morte de Kójinov, ficou Botcharóv o responsável pela coordenação do projeto, dando, dessa forma, conforme a Nota à edição brasileira encontrada na Teoria do romance I (BAKHTIN, 2015), o consentimento para que Paulo Bezerra e a editora o dividissem em três volumes.

Com a finalização da publicação da Teoria do romance com esse terceiro volume, é possível ter uma visão privilegiada em relação ao conjunto dos textos que compõem o Tomo 3. Desse modo, é mais fácil perceber, agora, que o número de ensaios que os três volumes apresentam não corresponde totalmente aos ensaios encontrados na coletânea Questões de literatura e de estética: a teoria do romance (doravante, QLE) (BAKHTIN, 2002). QLE se inicia com o ensaio O problema do conteúdo, do material e da forma na criação literária. No entanto, esse ensaio não está publicado na trilogia. Segundo Bezerra (2015), ele foi suprimido da Teoria do romance pelos organizadores russos por ser um texto mais genérico sobre a teoria da literatura, com foco na contraposição aos formalistas russos. Grillo (2009) informa que ele aparece no Tomo 1 das Obras reunidas em sete tomos, juntamente com os textos Arte e responsabilidade, Para uma filosofia do ato e O autor e o herói na atividade estética.

O segundo ensaio O discurso no romance é publicado pela Editora 34 no primeiro volume da trilogia: Teoria do romance I: A estilística (BAKHTIN, 2015). Formas de tempo e de cronotopo no romance (ensaios da poética histórica), terceiro ensaio da QLE, é publicado em Teoria do romance II: as formas do tempo e do cronotopo (BAKHTIN, 2018). É interessante notar que, na tradução de Paulo Bezerra, o ensaio passa por uma pequena modificação no seu título: As formas do tempo e do cronotopo no romance: um ensaio de poética histórica. Vale destacar que ambas as obras (Teoria do romance I e Teoria do romance II) foram resenhadas logo após a sua publicação e suas resenhas foram publicadas na revista Bakhtiniana. A resenha de Adriana P. P. Silva do primeiro volume foi publicada no primeiro número de 2016 (SILVA, 2016) e a resenha de Maria Elizabeth S. Queijo do segundo volume, no segundo número de 2019 (QUEIJO, 2019).

A coletânea QLE finaliza com três curtos ensaios: Da pré-história do discurso romanesco, Epos e o romance (sobre a metodologia do estudo do romance) e Rabelais e Gógol (arte do discurso e cultura cômica popular). Desses três, dois deles aparecem no volume Teoria do romance III: o romance como gênero literário (BAKHTIN, 2019), a saber: Da pré-história do discurso romanesco e Epos e o romance (sobre a metodologia do estudo do romance), mas com modificações em seus títulos. O texto Rabelais e Gógol aparece no Tomo 4 das Obras reunidas que, segundo Grillo (2009), é dedicado aos textos de Bakhtin sobre Rabelais, o que inclui, obviamente, a obra sobre François Rabelais e a cultura popular na Idade Média e no Renascimento, publicada pela editora Hucitec no Brasil sob o título A cultura popular na idade média e no renascimento: o contexto de François Rabelais (BAKHTIN, 2010).

Em relação aos ensaios que compõem o terceiro volume da Teoria do romance, em um primeiro momento o leitor consegue identificar apenas um, Sobre a pré-história do discurso romanesco, cujo título se assemelha ao anterior. No entanto, pode causar alguma estranheza o título do segundo ensaio que, inclusive, aparece como subtítulo do volume: O romance como gênero literário. Bezerra (2019), no seu posfácio intitulado O fechamento de um grande ciclo teórico, conta que esse era o título original do texto, publicado de forma fragmentada sob o título Epos e o romance. Esse mesmo título é encontrado nas versões em inglês, espanhol, francês e italiano: Epic and novel: toward a methodology for the study of the novel (BAKHTIN, 1981); Épica y novela: (acerca de la metodología del análisis novelístico) (BAJTÍN, 1989); Récit épique et roman: (méthodologie de l’analyse du roman) (BAKHTINE, 1978); Epos e romanzo: sulla metodologia dello studio del romanzo (BACHTIN, 2001). Bezerra (2019) explica que o título do ensaio foi restaurado pelos organizadores das Obras reunidas com o objetivo de corresponder, de forma integral, ao projeto de Bakhtin de versar sobre “o romance como gênero literário específico”, mostrando, dessa forma, “os encontros e os desencontros dos dois gêneros” (p. 120), ou seja, da epopeia e do romance. Essa estranheza, no entanto, é facilmente dissipada pela compreensão do seu sentido, restando aos leitores e estudiosos do romance à luz bakhtiniana se adequar aos novos termos e títulos, sabendo que são resultados de estudos e pesquisas de scholars especialistas nas obras do Círculo. Ademais, o leitor da tradução de Paulo Bezerra deve se sentir privilegiado por essa informação, trazida no terceiro volume da Teoria do romance, tendo em vista que em nenhuma versão da obra no inglês, espanhol, francês e italiano essa explicação é dada ao leitor.

Antes de adentrar nas considerações mais específicas sobre o terceiro volume da teoria do romance, novamente devido a essa visão privilegiada da totalidade dos textos que compõem a Teoria do romance de Bakhtin, é necessário observar a macroestrutura dos três volumes. Como já foi ressaltado por Silva (2016) e Queijo (2019), essas obras trazem um enriquecimento aos estudos do romance não somente por serem textos cuja tradução “se aproxima da voz de seu autor” (SILVA, 2016, p.269), mas por todos os paratextos encontrados nelas, o que inclui o posfácio do tradutor que, segundo Queijo (2019, p.155) “emoldura o texto que as [páginas do posfácio] precedem”. Brait (2019) afirma que compreender uma obra como enunciado concreto, conforme o Círculo, implica entender que todos os textos dessa obra fazem parte do seu todo arquitetônico, o que inclui os paratextos, ou seja, “textos que se avizinham do texto principal, caso do título, subtítulos, dedicatórias, epígrafes, prefácio, posfácio, etc. e que […] abrem caminho para o leitor adentrar os meandros do texto principal” (p.251). Na Teoria do romance I, além do prefácio por Paulo Bezerra, o tradutor também apresenta um glossário de alguns conceitos-chave. Além desses paratextos, ainda há uma nota à edição brasileira, um nota de informação sobre Bakhtin e outra sobre Bezerra. No segundo volume, é adicionado, ao texto principal, alguns rascunhos que Bakhtin fez para o último capítulo que ele adicionou posteriormente. Esse rascunho foi intitulado de Folhas esparsas. Além desse rascunho, há o posfácio de Bezerra, que ele intitula de Uma teoria antropológica da literatura, além das notas recorrentes nos três volumes (nota dos editores, nota sobre Bakhtin e nota sobre o tradutor). O terceiro volume segue o formato do segundo, com um posfácio por Paulo Bezerra e as três notas. O posfácio de Bezerra é intitulado O fechamento de um grande ciclo teórico, que dá, como se percebe, o tom de completude a esse grande enunciado Teoria do romance. É interessante notar que apenas o primeiro volume traz um glossário, com notas explicativas do tradutor. Isso possivelmente se deve ao fato de que o tradutor assumiu novos termos para aqueles que já estavam consolidados na academia. Um exemplo é o termo “heterodiscurso”, que veio substituir “o já consagrado termo plurilinguismo nos trabalhos dos pesquisadores brasileiros que se debruçam sobre o pensamento bakhtiniano” (SILVA, 2016, p. 268).

Em relação ao conteúdo de Teoria do romance III (BAKHTIN, 2019), não me aterei ao resumo de cada ensaio, já que eles já têm sido apresentados por vários estudiosos das obras de Bakhtin sobre o romance, em específico, e sobre a literatura, em geral. Um exemplo disso é o capítulo de Maria Inês B. Campos (2009) na coletânea Bakhtin: dialogismo e polifonia (BRAIT, 2009), que apresenta todos os ensaios da coletânea Questões de literatura e de estética (BAKHTIN, 2002). Para a apresentação do ensaio Dá pré-história do discurso romanesco/Sobre a pré-história do discurso romanesco, escreveu o texto intitulado O importante papel do riso e do plurilinguismo (CAMPOS, 2009, p.137-139) e para a do ensaio Epos e o romance (sobre a metodologia do estudo do romance)/O romance como gênero literário, escreveu Sobre a metodologia do estudo do romance (CAMPOS, 2009, p.139-142). Diante disso, é necessário explicar ao leitor que os ensaios foram enriquecidos substancialmente não só pelo fato, já apontado, de eles terem sido restaurados quanto aos títulos originais, mas também por incorporarem as próprias correções de Bakhtin, restituírem trechos anteriormente cortados e preservarem as anotações que Bakhtin fez nas margens dos textos datilografados. Segundo a Nota à edição brasileira (2019), além dessas notas do próprio Bakhtin, o leitor encontrará esses trechos restaurados (indicados por asterisco) e as notas do tradutor.

Essas inserções e modificações no texto podem ser vistas, em primeiro lugar, pelas escolhas tradutórias de Bezerra que, em alguns momentos, diferem das escolhas dos tradutores de QLEBezerra (2015, p.10) explica que “[t]raduzir Bakhtin, além de ser um desafio extremamente difícil, é também arriscado”. Para ele, isso se dá pelo fato de que o tradutor está diante de “conceitos que abrangem todo um sistema de reflexões embasado em algo que talvez se possa chamar de filosofia estética” (BEZERRA, 2015, p.10). Nesse sentido, é possível destacar dois exemplos de diferenças tradutórias entre Bezerra e os tradutores de QLE. Em primeiro lugar, pensando nas categorias bakhtinianas, Bezerra ilumina muitos trechos dos ensaios com a utilização de termos teoricamente mais específicos. Como exemplo, encontramos a seguinte oração no ensaio Dá pré-história do discurso romanesco: “Pode-se notar cinco tipos de abordagens para o discurso romanesco” (BAKHTIN, 2002, p.364); na tradução de Bezerra, em Sobre a pré-história do discurso romanesco, lê-se: “observam-se cinco tipos de enfoque estilístico do discurso romanesco” (BAKHTIN, 2019, p.13). Observa-se que Bezerra utiliza termos específicos (“enfoque estilístico”) em vez de termos mais genéricos (“abordagem”). Em segundo lugar, é pertinente destacar a escolha tradutória de Bezerra diante de termos multissêmicos da língua russa, como a palavra slovo. Segundo Grillo e Américo (2017, p.364), o termo “tem um significado amplo, que compreende desde a unidade lexical até a ‘a linguagem verbal em uso’ ou o enunciado e o discurso”. Diante disso, o tradutor necessita fazer escolhas, levando em consideração as possibilidades tradutórias e o contexto teórico do termo no texto de partida. Por exemplo, no ensaio A palavra na vida e a palavra na poesia de Volóchinov (2019), Grillo e Américo explicam, na Nota do Tradutor 1, que a tradução de slovo como “palavra” se deu pelo fato de o ensaio estabelecer um diálogo mais direto com o manifesto dos futuristas russos intitulado Slóvo kak takovóie [A palavra como tal]. No entanto, esclarecem que a tradução como “discurso” seria favorecida pelo fato de que “a linguagem é considerada na relação com o seu meio social, com o criador e o contemplador, com a sua esfera de circulação etc.” (2019, p.109). Nessa esteira, ainda no primeiro ensaio de Teoria do romance III, verifica-se que a escolha de Bezerra também difere da escolha dos tradutores de QLE (BAKHTIN, 2002). Em Dá pré-história do discurso romanesco, lê-se: “Entretanto, nas condições do romance, a palavra tem uma existência inteiramente particular […]” (BAKHTIN, 2002, p.364). Já em Sobre a pré-história do discurso romanesco, percebe-se que Bezerra escolhe o termo “discurso”: “Entretanto, nas condições do romance o discurso vive uma vida totalmente específica […]” (BAKHTIN, 2029, p.14).

Além dessas diferenças tradutórias, é necessário que o leitor esteja ciente para o fato de que os ensaios que formam Teoria do romance III possuem trechos novos. Como já mencionado anteriormente, essa nova versão dos ensaios recupera trechos anteriormente cortados. Um exemplo disso é o primeiro parágrafo do ensaio O romance como gênero literário (BAKHTIN, 2019, p.65). Esse parágrafo traz uma explicação necessária da razão pela qual o autor teve de dedicar um espaço do ensaio que trata da teoria do gênero romanesco para uma discussão sobre a filosofia dos gêneros. Esse parágrafo não existe na tradução de 2002. De fato, o primeiro parágrafo da tradução de 2002 se inicia com a oração: “O estudo do romance enquanto gênero caracteriza-se por dificuldades particulares” (BAKHTIN, 2002, p.397). Esse é o segundo parágrafo da tradução de 2019, que se inicia com a oração: “A teoria do romance enquanto gênero distingue-se por dificuldades peculiares […]” (BAKHTIN, 2019, p.65).

Com essas breves notas, já é possível perceber a singularidade da nova tradução ao português brasileiro desses ensaios. Como mencionado anteriormente, além de uma tradução teoricamente mais específica e das incorporações textuais feitas, Teoria do romance III ainda recebe um ensaio de Paulo Bezerra em que não só explica a origem dos ensaios de Bakhtin, ou seja, as “duas conferências proferidas por Bakhtin nas reuniões do grupo de teoria da literatura organizado pelo professor Leonid Timofêiev no Instituto de Literatura Mundial Maskim Górki de Moscou” (BEZERRA, 2019, p.113), como também tece detalhes sobre os dois ensaios separadamente. Dessa forma, destaca, em Sobre a pré-histórica do discurso romanesco, o riso e a paródia, e o objetivo central do ensaio, e demonstra como O romance como gênero literário “[…] quebrou os paradigmas tradicionais nos estudos e enfoques da história e da teoria do romance” (BEZERRA, 2019, p.122).

Teoria do romance III, portanto, é uma obra de excelência, que deve ser lida por todos aqueles que estudam o romance pelas lentes bakhtinianas. Esse convite não é feito somente para aqueles que ainda não tiveram a oportunidade de ler os ensaios, mas também para aqueles que já os leram, discutiram, estudaram em QLE, pois poderão perceber o enriquecimento ao texto proporcionado por Paulo Bezerra, que, mais uma vez, utilizando-se dos seus conhecimentos linguísticos, literários, tradutórios e teóricos (em especial, da teoria dialógica), traz ao leitor um texto que é mais completo em si mesmo – com a inserção de todas as notas de Bakhtin suprimidas anteriormente e as notas e observações tão ricas do tradutor -, completando a Teoria do romance proposta por Bakhtin.

Referências

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Orison Marden Bandeira de Melo Júnior – Universidade Federal do Rio Grande do Norte – UFRN, Departamento de Línguas e Literaturas Estrangeiras Modernas, Natal, Rio Grande do Norte, Brasil; [email protected].

Corpos em aliança e a política das ruas: notas para uma teoria performativa da assembleia / Judith Butler

Conhecida internacionalmente pelo livro Problemas de gênero: feminismo e a subversão da identidade2, publicado no início da década de 1990 e lançado no Brasil apenas em 2003, a filósofa estadunidense Judith Butler se dedica às análises sobre feminismos, gêneros, corpos e sexualidades. Sua obra, que mantém fluxo entre teoria e engajamento político, exerce significativa influência, tanto nos debates acadêmicos em diferentes áreas do conhecimento quanto nos movimentos sociais e em setores da sociedade civil. Suas teorias, em destaque sobre a performatividade dos gêneros, ensejaram um intenso debate e tensões, por deslocar certezas naturalizadas como a do sexo biológico. Na sua perspectiva, há um esforço em retirar o caráter ontológico das interpretações sobre as identidades de gênero e sobre o sexo, gerando uma dissociação entre o sexo, gênero e desejo.

Nos últimos títulos publicados pela autora, como Quadros de guerra: quando a vida é passível de luto?3 e Corpos em aliança e a política das ruas: notas para uma teoria performativa de assembleia4, há o interesse em discutir sobre formas de inserção políticas contemporâneas, violências institucionalizadas ou não e sobre a precariedade a que determinados conjunto de sujeitos são induzidos e que limitam a prática efetiva da democracia e que encontram no gênero e na experiência corporificada espaços privilegiados de acontecimento.

O livro Corpos em aliança e a política das ruas: notas para uma teoria performativa de assembleia reúne seis capítulos que possuem como eixo norteador a relação entre os corpos, suas performances em assembleias e a ocupação de espaços públicos promovida pelas manifestações que se multiplicaram em vários países do mundo, desde 2010, quando cerca de um milhão de pessoas se reuniram na Praça Tahrir no centro do Cairo, no que ficou conhecido como Primavera Árabe. Para a autora, as manifestações no Egito, além de servirem de exemplo para lutas políticas em outros países, renovaram o interesse de pesquisadores de várias partes do mundo sobre o estudo de assembleias públicas e de movimentos sociais que tomaram como fator estimulante a condição precária a que muitos corpos são submetidos, nas chamadas democracias neoliberais.

Para iniciar a reflexão, Butler apresenta algumas categorias importantes para pensar os temas desenvolvidos ao longo dos capítulos, entre elas: democracia, povo, precariedade e performance. A autora sofistica a análise dessas categorias, considerando a polifonia à qual são sujeitas. No que se refere à conceitualização de democracia, é apontada a necessidade de pensá-la, para além de uma abordagem nominalista que não considera os limites da prática democrática em contextos neoliberais que operam pela precarização da vida, limitando o direito à existência de grupos. Em outros termos, para pensar em democracia na contemporaneidade é necessário ir além de estruturas governamentais que se autoproclamam democráticas, discutindo a inserção de práticas em assembleia que reivindicam formas de existência não precárias. Verticalizando ainda mais a análise sobre esse aspecto, Butler aponta que os discursos que se apoiam no marketing e na propaganda são os definidores de quais movimentos populares podem ou não serem chamados de democráticos.

Nesse debate, emerge a segunda categoria problematizada pela autora: povo. Seu interesse é responder às seguintes questões: quem realmente é o povo? Que operações de poder discursivo e com que intencionalidades se constrói essa categoria? A resposta que a autora constrói para essas perguntas é a de que não existe “povo” sem uma fronteira discursiva, ou seja, sua definição é um ato de autodemarcação que corresponderia a uma “vontade popular”. Aplicando à análise dos movimentos contra a condição precária, como a Primavera Árabe e o Occupy the Wall Street, a autora conclui que é necessário “ler tais cenas não apenas através da versão de povo que eles enunciam, mas das relações de poder por meio das quais são representadas”5.

Por precariedade, Butler entende uma condição induzida por violência a grupos vulneráveis ou ainda a ausência de políticas protetivas. Sua análise situa em torno das economias neoliberais que cada vez mais retira direitos – previdenciários, trabalhistas, de moradia – e acesso a serviços públicos como escolas e universidades.

A última categoria basilar para entender as discussões que seguem nos seis capítulos do livro é a de performance, já discutida pela autora em outros textos, mas que, nesta obra, é pensada através do viés das coletividades e para além do gênero. Em outros termos, Butler incorpora o seu conceito de performance para entender como os corpos agem de forma coordenada em assembleias. Para a autora, podemos perceber as manifestações de massa como uma rejeição coletiva à precariedade e, mais que isso, como um exercício performativo do direito de aparecer, “uma demanda corporal por um conjunto de vidas mais vivíveis”6.

A tese sobre a qual os capítulos versam é a de que, quando os corpos se reúnem em assembleias, quer sejam em praças, ruas ou mesmo no ambiente virtual, eles estão exercitando o direito plural e performativo de aparecer e de exigir formas menos precárias de existência. Os objetivos dessas assembleias são desde oposição a governos autoritários até redução de desigualdades sociais, questões ecológicas ou de gênero. Pensar sobre elas e sobre a pluralidade que incorporam é discutir como a condição precária é representada e antagonizada nesses movimentos e como se materializam na expressão de corpos que entram em alianças.

Os capítulos deste livro “buscam antes de tudo compreender as funções expressivas e significantes das formas improvisadas de assembleias públicas, mas também questionar o que conta como público e quem pode ser considerado povo.”7 Os primeiros capítulos se concentram na discussão sobre formas de assembleia que possuem modos de pertencimento e que ocorrem em locais específicos. Já os últimos capítulos discutem movimentações que acontecem entre aqueles que não compartilham um sentido de pertencimento geográfico ou linguístico.

No capítulo 1, intitulado “Políticas de gênero e o direito de aparecer”, Butler discute as manifestações de massa, com destaque àquelas que pautam as questões de gênero, como uma rejeição coletiva à precariedade de corpos que se reúnem por meio de um exercício performativo do direito de aparecer. Nesse sentido, a autora insere a discussão sobre o reconhecimento com um dos cernes dessas manifestações públicas. Segundo ela, os sujeitos estariam lutando por reconhecimento em um campo altamente regulado e demarcado de zonas que permitem ou interditam formas corporificadas. No capítulo, a autora ainda se lança a responder questões como: por que esse campo é regulado de tal modo que determinados tipos de seres podem aparecer como sujeitos reconhecíveis e outros tantos não podem? Quais humanos contam como humanos? Quais humanos são dignos na esfera do aparecimento e quais não são? Para a autora, o reconhecimento passa pela noção de poder que segmenta e classifica os sujeitos de acordo com as normas dominantes que buscam normalizar determinadas versões de humanos em detrimentos a outras. A autora avança ainda mais: a necessidade de se questionar como as normas são instaladas é o começo para não as tomar como algo certo/ um dado.

Utilizando o gênero para pensar essa questão, Butler argumenta que as normas de gênero são transmitidas por meio de fantasias psicossomáticas como patologização e a criminalização, que buscam normalizar determinadas práticas e versões do humano em relação às outras, basta pensar que há formas de sexualidade para as quais não existe um vocabulário adequado porque as lógicas como pensamos sobre o desejo, orientação, atos sexuais e prazeres não permitem que elas se tornem inteligíveis. Nesse processo de apagamento, o que se observa é a luta em assembleia pelo direito de viver uma vida visível e reconhecível que opera por meio de rompimentos no campo do poder.

No segundo capítulo, “Corpos em aliança e a política das ruas”, é dada visibilidade para os significados das manifestações no espaço público que articulam pluralidades de corpos que compartilham a experiência da precariedade e que se exibem e lutam por direito de existir. Para a autora, a política nas ruas deve congregar uma luta mais ampla contra a precariedade, sem que sejam apagadas as especificidades e pluralidades identitárias. Para tanto, há a necessidade de uma luta mais articulada que requer uma “ética de coabitação”. A ideia não é de “se reunir por modos de igualdade que nos mergulhariam a todos em condição igualmente não vivíveis”8, mas sim de “exigir uma vida igualmente possível de ser vivida”9.

Para pensar no espaço de aparecimento, Butler recorre e questiona Hanna Arendt que pensa o espaço a partir da perspectiva da pólis, onde a ação política é sine qua non ao aparecimento do corpo no espaço público. Para Butler, o direito de ter direitos não depende de nenhuma organização política particular para sua legitimação, pois antecede qualquer instituição política. O direito, então, passa a existir quando é exercido por aqueles que estão unidos em alianças e que foram excluídos da esfera pública, que é marcada por exclusões constitutivas e por formas de negação. Isso fica claro quando:

Ocupantes reivindicam prédios na Argentina como uma maneira de exercer o direito a uma moradia habitável; quando populações reclamam para si uma praça pública que pertenceu aos militares; quando refugiados participam de revoltas coletivas por habitação, alimento e direito a asilo; quando populações se unem, sem a proteção da lei e sem permissão para se manifestar, com o objetivo de derrubar um regime legal injusto ou criminoso, ou para protestar contra medidas de austeridade que destroem a possibilidade de emprego e de educação para muitos. Ou quando aqueles cujo aparecimento público é criminoso – pessoas transgênero na Turquia ou mulheres que usam véu na França – aparecem para contestar esse estatuto criminoso e reafirmar o seu direito de aparecer10.

Em outros termos, o espaço público é tomado por aqueles que não possuem nenhum direito de se reunir nele. Indivíduos que emergem de zonas de invisibilidade para tomarem o espaço, ao mesmo tempo em que se tornam vulneráveis às formas de violência que tentam reduzi-los ao desaparecimento. Neste capítulo, a autora discute o direito de ter direitos não como uma questão natural ou metafísica, mas como uma persistência dos corpos contra as forças que buscam sua erradicação.

No terceiro capítulo chamado “A vida precária e a ética da convivência”, Butler discute os significados de aparecer na política contemporânea e as possibilidades de aproximação entre corpos identitariamente diferentes e espacialmente separados, unidos apenas pela experiência da globalização e mediados pelos fenômenos tecnológicos e comunicacionais atuais, como as redes sociais. Para Butler, “alguma coisa diferente está acontecendo quando uma parte do globo, moralmente ultrajada, se insurge contra as ações e os eventos que acontecem em outra parte do globo”11. Para a autora, trata-se de laços de solidariedade que emergem através do espaço e do tempo, ou seja, uma forma de indignação que não depende da proximidade física ou do compartilhamento de um língua. Em outros termos, as obrigações éticas são surgem apenas nos contextos de comunidades “paroquiais” que estão reunidas dentro das mesmas fronteiras, constituintes de um povo ou uma nação.

Em parte, essas experiências compartilhadas são possibilitadas pelas novas mídias que, além de espaço de mobilização, se configuram também como uma potente possibilidade de transpor a cena, simultaneamente, para vários outros lugares. De outro modo, “quando o evento viaja e consegue convocar e sustentar indignação e pressão globais, o que inclui o poder de parar mercados ou de romper relações diplomáticas, então o local terá que ser estabelecido, repetidas vezes, em um circuito que o ultrapassa a cada instante”12. Assim:

Quando a cena é transmitida, está ao mesmo tempo lá e aqui, e se não estivesse abrangendo ambas as localizações – na verdade, múltiplas localizações – não seria a cena que é. A sua localidade não é negada pelo fato de que a cena é comunicada para além de si mesma e assim constituída em mídia global; ela depende dessa mediação para acontecer como o evento que é. Isso significa que o local tem que ser reformulado para fora de si mesmo a fim de ser estabelecido como local, o que significa que é apenas por meio da mídia globalizante que o local pode ser estabelecido e que alguma coisa pode realmente acontecer ali. […] As cenas das ruas se tornam politicamente potentes apenas quando – e se – temos uma versão visual e audível da cena comunicada ao vivo ou em tempo imediato, de modo que a mídia não apenas reporta a cena, mas é parte da cena e da ação; na verdade, a mídia é a cena ou o espaço em suas dimensões visuais e audíveis estendidas e replicáveis. Quando a cena é transmitida, está ao mesmo tempo lá e aqui, e se não estivesse abrangendo ambas as localizações – na verdade, múltiplas localizações […]13

O quarto capítulo – “A vulnerabilidade corporal e a política de coligação” – estrutura-se em torno de três questões fundamentais: vulnerabilidade corporal, coligações e políticas das ruas. A vulnerabilidade é uma experiência corpórea de exposição a possíveis formas de violências como conflitos entre manifestantes, violência policial ou violência de gênero, pois “algumas vezes o objetivo de uma luta política é exatamente superar as condições indesejadas da exposição corporal. Outras vezes a exposição deliberada do corpo a uma possível violência faz parte do próprio significado de resistência política”14. Para a autora, essa vulnerabilidade torna-se menos problemática quando os coletivos criam redes de proteção. A multidão, então, assumiria a função de suporte coletivo, pois:

Quando os corpos daqueles que são considerados “dispensáveis” se reúnem em público (como acontece de tempos em tempos quando os imigrantes ilegais vão às ruas nos Estados Unidos como parte de manifestações públicas), eles estão dizendo: “Não nos recolhemos silenciosamente nas sombras da vida pública: não nos tornamos a ausência flagrante que estrutura a vida pública de vocês.” De certa maneira, a reunião coletiva dos corpos em assembleia é um exercício da vontade popular, a ocupação e a tomada de uma rua que parece pertencer a outro público, uma apropriação da pavimentação com o objetivo de agir e discursar que pressiona contra os limites da condição de ser reconhecido em sociedade. Mas as ruas e a praça não são a única maneira de as pessoas se reunirem em assembleia, e sabemos que uma rede social produz ligações de solidariedade que podem ser bastante impressionantes e efetivas no domínio virtual15.

No quinto capítulo intitulado “Nós, o povo – considerações sobre a liberdade de assembleia”, Butler discute a categorização e a reivindicação da ideia de “povo”, em meio às lutas políticas, problematizando concepções restritivas de povo, como no caso da Constituição dos Estados Unidos. Necessário pensar que a construção de “povo” é uma autodenominação que opera por meio de uma construção discursiva, integrando e excluindo grupos que estão ou não dentro dessa categoria. Ainda no capítulo, a autora discute as privatizações no contexto neoliberal, que minimiza a proteção do Estado e enseja formas de alianças nas ruas que lutam contra o precário.

No último capítulo, intitulado “É possível viver uma vida boa em uma vida ruim?”, Butler aborda, a partir da proposta analítica de Adorno, sobre as possibilidades de vida em um mundo marcado pela condição de desigualdade. Para a autora, a luta política e a performance coletiva em assembleia são ações que vão de encontro à lógica da precarização e que podem ser uma alternativa no contexto neoliberal de diminuição de direitos.

O fio que costura toda a argumentação do livro é o da necessidade de criar condições coletivas de existência e de visibilidade de corpos contra as formas de precariedade que limitam a vida de vários sujeitos. A proposta da autora é a criação de alianças políticas que incluam várias pautas e demandas no contexto das democracias neoliberais. Butler revisita alguns conceitos como de performatividade e de precariedade, já utilizados em outras obras, aplicando-os às questões contemporâneas. Nessa obra, Butler extrapola a análise teórica acerca das assembleias contemporâneas e assume uma postura política de incitação à luta por democracia e direitos sociais no contexto de precarização provocada pelo neoliberalismo.

Laura Lene Lima Brandão – Doutoranda/Universidade Federal do Piauí. Teresina/ Piauí/ Brasil. E-mail: [email protected]


BUTLER, Judith. Corpos em aliança e a política das ruas: notas para uma teoria performativa da assembleia. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2018. Resenha de: BRANDÃO, Laura Lene Lima. Pelo direito de (r)existir: os corpos nas ruas. Outros Tempos, São Luís, v.17, n.29, p.396-342, 2020. Acessar publicação original. [IF].

Vira-vira, Violeta – LACERDA (REF)

LACERDA, Socorro. Vira-vira, Violeta. Petrolina, PE: Edição da Autora, 2017. Resenha de: DINIZ, Rozeane Porto; KARLO-GOMES, Geam. Representações de gênero em Vira-Vira, Violeta. Revista de Estudos Feministas, Florianópolis, v.28 n.2 2020.

Socorro Lacerda, professora, feminista e filha do Rio São Francisco – autodescrição da autora -, lançou, em 2017, o seu segundo livro: Vira-Vira, Violeta. Trata-se de uma obra de literatura infantojuvenil com discussões sobre diversas representações de gênero, apresentando, de forma estratégica, personagens que estão no cerne dessa problematização. É surpreendente o quanto o livro é acessível, podendo ser lido por pessoas de qualquer idade, pois, mesmo numa linguagem coerente com o público infantojuvenil, traz configurações de personagens históricas muito significativas para o contexto de luta por igualdade de gênero.

O livro de Socorro aborda as relações de gênero a partir da protagonização de uma luta das mulheres, representadas na narrativa pelas personagens nomeadas como Violetas, em prol da igualdade de direitos em relação aos homens, configurados no livro como Cravos. Violetas e Cravos são nomes e personagens simbólicos usados pela autora para protagonizar a luta e a resistência entre homens e mulheres.

A narrativa é mesmo muito simbólica. O dicionário de símbolos de Jean Chevalier e Alain Gheerbrant (2017) aponta o significado da cor violeta como temperança, “de lucidez, de ação refletida, de equilíbrio entre terra e o céu, os sentidos e o espírito, a paixão e a inteligência, o amor e a sabedoria” (Jean CHEVALIER; Alain GHEERBRANT, 2017, p. 960). Essas características reforçam a razão, a firmeza e coragem da personagem Violeta Borboleta e todas as Violetas da região em prol do movimento “violetas unidas jamais serão vencidas” (Socorro LACERDA, 2017, p. 35). Já os cravos brancos não apresentam característica de pureza e inocência; pelo contrário, a cidade dos cravos brancos é representada pelo prefeito carrancudo, Cravo Olavo.

Numa relação íntima com a natureza, a personificação das flores instaura uma dimensão do ecofeminismo logo nas primeiras páginas da obra: “Violeta Loreta puxava os raios de sol para raiar o dia”, enquanto “Violeta Dandara capoeirava para o vento” e “Violeta Julieta despertava o galo para que a manhã começasse bem linda com seu canto”, já “Violeta Risoleta encomendava chuva às nuvens” e Violeta Chiquinha “esperava os pássaros […] com o som do seu piano de teclado de pedrinhas” (LACERDA, 2017, p. 17-18).

Ora, o ecofeminismo é uma vertente da ecocrítica que teve início com a atuação de Françoise D’Eaubonne nos anos de 1970, na França, e se popularizou a partir da década de 1980. E no tocante a esse contexto, a obra de Socorro Lacerda vem nos ensinar que, assim como a Terra e o Feminino são duas realidades inter-relacionadas, pois é da Terra que nascem os seres e é ela que, tal como Ésquilo registra em Coéforas, “os nutre, e deles recebe, depois, o germe fecundo” (ÉSQUILO, 2004 apud Mircea ELIADE, 2010, p. 117), a luta pelos direitos das mulheres não pode ser separada da luta pela regeneração do ecossistema. Com efeito, a autora vem nos alertar que a visão ecológica da realidade possui relação íntima com uma ecologia humana desprovida de qualquer forma de dualismo. Dessa forma, não há espaço para contrastes: matriarcado, patriarcado, dominante, dominado… Pois a obra nos guia a mensagem de que a cidade é das Violetas e dos Cravos. Em outras palavras, a defesa pelos direitos iguais entre homens e mulheres é a principal temática dessa trama.

Nesse sentido, as relações de gênero se enredam no livro a partir do momento em que as Violetas decidem lutar em prol de liberdade e igualdade em relação aos Cravos. As Violetas eram proibidas de exercer inúmeras atividades: andar de bicicleta, votar e até mesmo falar nas reuniões realizadas com os Cravos. Os Cravos, por sua vez, naturalizavam a situação e se recusavam a escutar as reclamações das Violetas por temerem perder sua autoridade, pregando o “deixacomoestá” (LACERDA, 2017, p. 10). Ou seja, não aceitavam qualquer transformação que pudesse afetar seu lugar de poder. O discurso dos Cravos configura aquilo que Sócrates Nolasco (2001, p. 78) atribuí ao “homem de verdade”, que se comporta de forma agressiva, determinada e sempre tentando intimidar pelo domínio do espaço de fala e de ação.

Todavia, esse discurso não se sustenta, pois as Violetas desnaturalizam os papéis de gênero que lhes são atribuídos. Isso nos lembra as diversas discussões sobre a construção de papéis de gênero de forma naturalizada, ao perceber, assim como Monique Wittig (2009, p. 238) ao retomar Simone Beauvoir, que “ninguém nasce mulher”.

Nesse sentido, a autora traz a reação das Violetas à afirmação dos Cravos, representados pelo prefeito, Cravo Olavo, de que nada deveria mudar. Porém, a reação das Violetas é engajada, trazendo uma bandeira de luta chamada “#Violetastambémpodem” (LACERDA, 2017, p. 15). Com isso, o livro traz à tona o engajamento de mulheres em prol da resistência e desconstrução de papéis que atribuía às Violetas: o espaço de recatadas e do lar.

Poderíamos citar inúmeras historiadoras, literatas, entre outras que problematizaram essa atribuição de submissão das mulheres, mas lembramos de Mary del Priore (2006, p. 218), quando afirma que social e historicamente: “a mulher tinha de ser naturalmente frágil, […], submissa etc. As que revelassem atributos opostos seriam consideradas seres antinaturais”. Nesse sentido, Vira-Vira, Violeta suscita discussões teóricas de gênero que podem ser problematizadas nos mais diversos espaços possibilitando que a obra seja discutida com crianças e adolescentes. Também pode ser lida e debatida pelo público adulto, desde que o objetivo seja discutir as relações de gênero, desconstruindo estereótipos e demonstrando a necessária igualdade de direitos entre os gêneros.

Assim, o livro aciona diversos/as autores/as, teorias e personagens engajados/as nas discussões pela igualdade de gênero e, de forma enriquecedora, exemplifica, por meio de personagens, histórias de diversas lutas e símbolos de resistência. Por exemplo, a personagem que desejava ser astronauta se aproxima das restrições impostas às mulheres em países do Oriente Médio; Violeta Chiquinha pode ser uma genuína representação da primeira maestrina brasileira, entre outras personagens históricas. Ou seja, a composição das personagens não surge ao acaso, mas histórica e estrategicamente foram selecionadas para compor uma narrativa ancorada em fatos da realidade.

Vira-Vira, Violeta tem importância significativa no campo da literatura infantojuvenil. Pode contribuir para discutir relações de gênero com crianças e adultos, mas se destaca, sobretudo, por acender a discussão de (des)igualdade entre meninos e meninas, tendo em vista que são poucas as obras que possibilitam, por sua composição narrativa, uma discussão fluída e compreensível a qualquer público leitor.

Além de todas as estratégias na composição da narrativa, vale a pena observar que, tanto a campanha dos Cravos quanto a das Violetas estão ancorados em movimentos e/ou palavras de ordem de homens e mulheres. O primeiro, em torno da manutenção da ordem do pai; o segundo, das mulheres, na reafirmação de sua liberdade e da reivindicação de seus direitos. Isso está exemplificado no “deixacomoestá” (LACERDA, 2017, p. 10) e “#Violetastambémpodem” (LACERDA, 2017, p. 15), retomando estratégias de lutas, especialmente das mulheres que acabam elegendo alguma frase e/ou palavra de ordem que se torna bandeira de luta e se populariza nos meios de comunicação, geralmente protagonizados por grupos de engajamento político. Além disso, lutar por voto, pelo direito à fala, por espaço no mercado de trabalho e nas artes, entre outros, configuram, de forma pontual, as principais lutas e reivindicações feministas ao longo da história.

É interessante também destacar o cenário em aquarela elaborado pela ilustradora Karla Gonçalves e construído para materializar uma narrativa na qual, talvez, Violetas “borram” as fronteiras de gênero, destoando limites e divisões, registrando a marca do feminino como símbolo de uma participação social ativa.

Por mais que o cenário e a narrativa produzam encantamento, o livro surpreende quando percebemos que as Violetas ganham vida. Talvez o livro produza estranhamento quando os Cravos, com pouca resistência, acabam cedendo à luta das Violetas, já que, historicamente, os homens resistiram e ainda relutam em alguns espaços em reconhecer e/ou aceitar a igualdade de direitos entre homens e mulheres. Mas talvez essa seja a grande metáfora da obra de Socorro Lacerda: é preciso pincelar os cravos de um “vermelho-beterraba-cozida” (LACERDA, 2017, p. 30), pois no tocante à discussão de gênero, não cabe dualismo, e sim, diálogo, reciprocidade, altruísmo.

Referências

CHEVALIER, Jean; GHEERBRANT, Alain. Dicionário de símbolos. Trad. de Vera da Costa e Silva. Rio de Janeiro: José Olympio, 2017. [ Links ]

ELIADE, Mircea. O sagrado e o profano: a essência das religiões. Trad. de Rogério Fernandes. São Paulo: Editora WMF Martins Fontes, 2010. [ Links ]

LACERDA, Socorro. Vira-vira, Violeta. Petrolina, PE: Edição da Autora, 2017. [ Links ]

NOLASCO, Sócrates. De Tarzan a Homer Simpson: banalização e violência masculina em sociedades contemporâneas ocidentais. Rio de Janeiro, Rocco, 2001. [ Links ]

PRIORE, Mary Del. História do amor no Brasil. São Paulo: Contexto, 2006. [ Links ]

WITTIG, Monique. “Ninguém nasce mulher”. In: CASTILHOS, Clarisse; PESSAH, Marian (Orgs.) Em rebeldia da bloga ao livro. Porto Alegre: Coleção Libertaria, 2009. p. 237-248. [ Links ]

1Como citar esse artigo de acordo com as normas da revista: DINIZ, Rozeane Porto; KARLO-GOMES, Geam. “Representações de gênero em Vira-Vira, Violeta”. Revista Estudos Feministas, Florianópolis, v. 28, n. 2, e67748, 2020

Rozeane Porto Diniz ([email protected]) – É pós-doutoranda em História pela UFRPE. Doutora e Mestra em Literatura e Interculturalidade pela UEPB. Mestra em História pela UFPB. Participa do Núcleo de Investigações e Intervenções em Tecnologias Sociais/NINETS, do Grupo de Pesquisa: Estudos de Gênero e de sexualidades, ambos da Universidade Estadual da Paraíba e do Laboratório de Estudos e Intervenções em Patrimônio Cultural e Memória Social/LEPAM da UFRPE.

Geam Karlo-Gomes ([email protected]) – É doutor e mestre pelo Programa de Pós-Graduação em Literatura e Interculturalidade (UEPB). Professor do Programa de Pós-Graduação em Formação de Professores e Práticas Interdisciplinares – PPGFPPI – Universidade de Pernambuco. Líder do ITESI – Grupo de Pesquisa Itinerários Interdisciplinares em Estudos sobre o Imaginário. Entre outros trabalhos, é autor de O Diário de leituras na escola e na universidade: estudos do gênero e práxis pedagógica, pela Mercado de Letras

Contribuição de autoria: Rozeane Porto Diniz – redação e revisão do texto quanto representação e historicidade da obra para a discussão sobre as relações de gênero, configurando a resistência das mulheres frente à naturalização dos papéis sociais e a desconstrução dos estereótipos. Geam Karlo-Gomes – redação e revisão do texto quanto à hermenêutica dos aspectos imagéticos e simbólicos da obra resenhada e análise do ecofeminismo.

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Aquí se baila el tango: una etnografía de las milongas porteñas – CAROZZI (REF)

CAROZZI, María Julia. Aquí se baila el tango: una etnografía de las milongas porteñas. Buenos Aires: Siglo Veintiuno Editores, 2015. Resenha de CASTELAO-HUERTA, Isaura. Prácticas generizadas del tango milonguero. Revista Estudos Feministas, Florianópolis, v.28 n.2 2020.

A través de un lenguaje fluido y fácil de seguir, María Julia Carozzi nos introduce al mundo del tango milonguero en donde las distintas prácticas espaciales y corporales hacen el género. Para lograrlo, Carozzi realiza un doble ejercicio: traza un recorrido histórico sobre el tango y desarrolla una etnografía con una inmersión profunda debido a que su trabajo de campo incluyó, además de clases de tango como alumna y posteriormente como profesora, acudir a milongas y a todo tiempo de eventos donde se baila tango casi todos los días de la semana (María Julia CAROZZI, 2015, p. 30).

María Julia Carozzi es doctora en Antropología por la Universidad de California, Los Ángeles. Actualmente es investigadora independiente del Consejo Nacional de Investigaciones Científicas y Técnicas (CONICET) de Argentina. Asimismo, coordina el Núcleo de Estudios Antropológicos sobre Danza, Movimiento y Sociedad en el Instituto de Altos Estudios Sociales de la Universidad Nacional de San Martín. Ha investigado sobre educación y relaciones inter-étnicas, sobre la religión Umbanda, el movimiento new age, la religiosidad popular y el culto a Gardel y el tango bailado.

Aquí se baila el tango… está compuesto por seis capítulos. Si bien el primero se basa completamente en una investigación de archivo, el resto del libro fue construido gracias a sus observaciones, notas de diario de campo, conversaciones e inclusive foros en Internet y páginas de Facebook. La inmersión hecha por Carozzi al mundo del tango milonguero le permitió elaborar descripciones y conjeturas muy ricas respecto a cómo son las relaciones sociales que se establecen al interior de esta práctica, develando, desde mi perspectiva, cómo se hace el género dentro del tango, entendiendo hacer el género como aquellas prácticas que llevan a esencializar cómo socialmente se ha establecido que debe ser una persona dependiendo su sexo (Marisa BELAUSTEGUIGOITIA, 2011).

En el primer capítulo, “La ruta del tango. Lecturas móviles”, Carozzi expone la movilidad de las interpretaciones hechas respecto al tango a través del tiempo. Hacia 1900, se le consideraba como un baile popular, criollo, asociado con la raza negra. A inicios de 1910, se le empieza a describir como un “ritmo canallescamente sensual” (CAROZZI, 2015, p. 49); se destaca que se le sitúa en el prostíbulo, se enfatizan las pasiones exacerbadas y el erotismo, e inicia a construirse la idea de la dominación del hombre y la sumisión de la mujer, presente en remembranzas como “los guapos del hampa que asestan cuchilladas a las mujeres que los desdeñan” (CAROZZI, 2015, p. 48). La autora retoma los textos de ciencias sociales que se han enfocado en asegurar que la exportación del tango a Europa, específicamente a París, codificó, blanqueó, refinó o adecentó los rasgos sexuales del baile, con lo que el proceso de limpieza llevó al tango de un origen marginal, a los salones de clases altas en Buenos Aires.

En “Saber ‘caminar’ el tango. Consonancias y disonancias móviles”, la autora destaca que, tras el fin de la dictadura – a mediados de los ochenta del siglo XX -, las milongas volvieron a repoblarse, lo que suscitó distintos cambios en las prácticas (y en el hacer el género). Bailar con los milongueros más experimentados, es decir, los más añosos, se convirtió en una meta para las mujeres “más jóvenes y hermosas” (CAROZZI, 2015, p. 94), lo que devino en una barrera para las mujeres mayores de 40 años, debido a que los varones elegían compañeras de baile tan jóvenes como fuera posible. Carozzi destaca que las milongas ortodoxas eran consideradas un ritual, en las que es posible apreciar una reproducción de los roles de género hegemónicos donde es el hombre quien toma la iniciativa de iniciar el baile: “los varones invitaban a bailar a alguna de las mujeres que los miraban, mediante un movimiento de cabeza denominado ‘cabeceo’” (CAROZZI, 2015, p. 123).

En el capítulo tres, “La revolución didáctica y la redefinición de los estilos de baile. Pedagogías móviles”, Carozzi señala que las taxonomías del tango han sido múltiples. Hasta 1950, quienes bailaban tango lo aprendieron asistiendo desde pequeños a milongas y viendo a sus mayores bailar. La autora subraya que hubo una declinación del baile entre 1960 y 1980. Tras la dictadura, entre 1983 y 1990, se iniciaron talleres que posibilitaron aprender el baile en centros culturales y en barrios. Para su enseñanza colectiva, se desarrolló un lenguaje con un vocabulario técnico y anatómico que buscaba velar las connotaciones eróticas del baile, lo que la autora considera respondía a las expectativas pedagógicas de las clases medias educadas.

A partir del capítulo cuatro, “Aflojarse y dejarse llevar. Saberes y no saberes móviles”, Carozzi expone, desde mi punto de vista, más claramente cómo se hace género a partir del tango. En el imaginario de quienes bailaban tango, prevalecía la idea de que para que una mujer bailara bien, sólo necesitaba “aflojarse y dejarse llevar” (CAROZZI, 2015, p. 177), ya que era el hombre quien poseía la “supercompetencia performática” (CAROZZI, 2015, p. 178) para hacer bailar a cualquier mujer. Así, durante las clases, nunca se enseñaba a las mujeres cómo responder a los movimientos del varón, por lo que aprendían imitando a las ayudantes, dando la vuelta a las instrucciones que recibían los hombres, o a partir de ensayo-error. La autora enfatiza que la atención era dirigida, discursiva y cinéticamente, al “saber marcar” del varón, “y nunca al conocimiento que las mujeres debían adquirir para decodificar ‘la marca’, que, de esa manera, quedaba definida como propiedad masculina” (CAROZZI, 2015, p. 182).

El responder a los movimientos del hombre adecuada e inmediatamente, calificaba a las mujeres como “livianas” (CAROZZI, 2015, p. 185), nunca como buenas bailarinas; en contraparte, se catalogaba como “pesadas” (CAROZZI, 2015, p. 185) a aquellas que no seguían o que ponían trabas a la libertad del varón para bailar a su ritmo. Con ello, se pensaba en las mujeres como seres inanimados u objetos que debían ser movidos por los hombres. Al naturalizar que era el movimiento del varón lo que permitía el baile, se desvalorizaba que la realización efectiva por parte de las mujeres era consecuencia de la adquisición de la habilidad, con lo que su aprendizaje no era apreciado.

Carozzi, además de atribuir esta reducción de las mujeres a que se ignoró a las antiguas milongueras, considera que “ejecutando el rol del varón y enseñándolo, las profesoras contribuían a construir el ‘ser mujer’ como una condición que podía ejercerse o abandonarse” (CAROZZI, 2015, p. 191). No obstante, al ejecutar el rol del varón, las profesoras desestabilizaban las identificaciones del género al bailar, por lo que se abría la posibilidad de abandonar el propio género. Este aprender y enseñar la parte del varón era considerada por muchos como una supuesta pérdida de feminidad, ya que se precisa del desconocimiento para “dejarse llevar” (CAROZZI, 2015, p. 184), por lo que una mujer que sabía bailar se convertía en “camionero” (CAROZZI, 2015, p. 192): conducía al poseer el único saber reconocido. La autora sostiene que esta independencia del género en las clases de baile pocas veces se reflejaba en las milongas, aunque cuando las mujeres llevaban, desestabilizaban la relación entre el género y el rol. Asimismo, las mujeres transgredían la dominación masculina al “parar” (CAROZZI, 2015, p. 194): detener el ritmo e introducir sus propios movimientos.

Aún así, en el tango bailado en Buenos Aires a mediados de la década de 2000, las mujeres – y los varones que bailaban de mujer – no respondían al movimiento del varón, lo seguíanLos varones – y las mujeres que bailaban de varón – no comunicaban a la mujer el movimiento que esperaban de ellas, las llevaban. Este vocabulario definía la relación como de subordinación del movimiento de las mujeres al de los varones (CAROZZI, 2015, p. 198-199, el énfasis es mío). Con ello, persiste la idea del varón como el poderoso creador, origen y generador independiente del baile de la mujer.

En “Irse. Heterosexualidades móviles”, Carozzi retoma los orígenes del baile como práctica vinculada con el erotismo y la sexualidad. Así, recuerda que entre 1940 y 1950 las madres acompañaban a sus hijas a las milongas para evitar los roces sexuales – lo que era considerado como una insolencia por parte de los milongueros, sobre quienes pesaba el estereotipo de mujeriegos y poco trabajadores. Así, se establece una doble moral sexual: los hombres tienen movilidad – “en cada milonga una mina” (CAROZZI, 2015, p. 216) – y pueden experimentar, en tanto las mujeres permanecen inmóviles y se espera decencia de ellas, por lo que hay un control de la sexualidad de las mujeres a partir del baile. Con el re-poblamiento de las milongas de Buenos Aires (1980-1990), se establecieron nuevas pautas de organización de la heterosexualidad, en donde se excluyó cualquier signo erótico más allá de los que el baile suponía, por lo que cuando había una mutua seducción entre quienes bailan, se recurría a la sutileza de los gestos. Con esta velación, se establecieron “conexiones” (CAROZZI, 2015, p. 221) excepcionales que devinieron en “historias ocultas” (CAROZZI, 2015, p. 221): relaciones eróticas que la mayoría de las veces permanecieron en la clandestinidad, lo que permitía involucrarse en varias relaciones al mismo tiempo. Gracias a sus informantes, la autora establece que una “historia” (CAROZZI, 2015, p. 221) era finalizada por un hombre cuando la mujer se ponía “pesada” (CAROZZI, 2015, p. 238) por haberse enamorado, lo que para ellos se reflejaba en la declaración de sentimientos, los intentos de influir en el grado de perceptibilidad pública o en la determinación del momento y la periodicidad de los encuentros. Así, muchas mujeres limitaban externar sentimientos por temor a que la relación terminara, en tanto los hombres evitaban decir ciertas palabras para que ellas no se engancharan. Los milongueros varones defendían la “liviandad” (CAROZZI, 2015, p. 253) al considerar que la pesadez del enamoramiento interfería con la libertad de establecer relaciones sexuales con tantas mujeres como quisieran gracias al desapego afectivo.

Finalmente, en “Al ritmo del azar. Alegorías móviles”, Carozzi presenta las diferencias entre el tango para el turismo y el tango de consumo interno. El primero, contenía demostraciones abiertas de pasión, en donde el capital emocional era acumulado, codificado y consumido en forma de cultura exótica; en contraste, el segundo mantenía las emociones y los afectos invisibles y sutiles.

Ahora bien, la apuesta principal de Carozzi al presentar este estudio es visibilizar cómo en Buenos Aires había una cultura del tango que, si bien tuvo un declive entre 1960 y 1980, se nutría de distintas prácticas y tenía múltiples manifestaciones. No obstante, la etnografía de Carozzi aporta mucha información empírica acerca de cómo se hace el género en el tango. Presentar la desvalorización que se hace del aprendizaje de las mujeres, las transgresiones al género que se realizan al bailar la parte del sexo contrario, el vínculo que sus informantes establecen entre enamoramiento-mujeres y circulación sexual-hombres, son muestra de ello. Sin embargo, me pregunto por qué Carozzi no hizo ninguna referencia teórica al respecto, ni trató de ir más allá de las descripciones respecto a dichas situaciones. Desde mi perspectiva, el texto se hubiera enriquecido con una profundización interpretativa mayor respecto a cómo a partir del baile del tango se configuran las relaciones sociales de género. En este punto, me pregunto si sería posible señalar que el género hace al tango, y el tango hace al género, es decir, se co-construyen mutuamente.

A pesar de lo anterior, Aquí se baila el tango: una etnografía de las milongas porteñas es una clara muestra de cómo es posible, a partir del trabajo etnográfico, visibilizar componentes que integran una realidad social que parecería normal y cotidiana: la atención prestada a los movimientos del cuerpo, a los gestos, a la espacialidad, a los códigos de vestimenta, le permiten a Carozzi presentarnos un panorama de las prácticas generizadas del tango milonguero en Buenos Aires.

Referencias

BELAUSTEGUIGOITIA, Marisa. “‘Hacer y deshacer’ el género: Reconceptualización, politización y deconstrucción de la categoría de género”. Discurso, teoría y análisis, n. 31, p. 111-134. 2011. [ Links ]

CAROZZI, María Julia. Aquí se baila el tango: Una etnografía de las milongas porteñas. Buenos Aires: Siglo Veintiuno Editores, 2015. [ Links ]

Como citar esse artigo de acordo com as normas da revista: CASTELAO-HUERTA, Isaura. “Prácticas generizadas del tango milonguero”. Revista Estudos Feministas, Florianópolis, v. 28, n. 2, e67346, 2020.

Isaura Castelao-Huerta ([email protected]) – Es candidata a doctora en Ciencias Humanas y Sociales por la Universidad Nacional de Colombia, sede Bogotá, en donde hace parte del Grupo Interdisciplinario de Estudios de Género. Licenciada en Ciencias de la Comunicación por la Universidad Nacional Autónoma de México (2008) y maestra en Estudios de Género por El Colegio de México (2012). Su pesquisa en curso se interesa en las prácticas de adaptación y resistencia de profesoras universitarias ante las políticas neoliberales.

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Concebendo a liberdade / Camillia Cowling

O livro de Camillia Cowling publicado nos Estados Unidos, em 2013, e recentemente traduzido para o português já se constitui uma leitura obrigatória para historiadoras, historiadores e demais pessoas interessadas em conhecer aspectos da luta de pessoas escravizadas na Diáspora. Em Concebendo a liberdade a autora apresentou uma pesquisa comparativa entre Havana (Cuba) e Rio de Janeiro (Brasil) na qual “mulheres de cor” apareciam na linha de frente da luta por liberdade legal para elas próprias e suas crianças nas décadas de 1870 e 1880.

Ao prefaciar a obra Sidney Chalhoub foi muito feliz ao lembrar a acolhida que o livro de Rebeca Scott a Emancipação Escrava em Cuba teve no Brasil, ainda na década de 1980, evidenciando o interesse do público brasileiro em saber mais sobre este processo em Cuba, colônia Espanhola que assim como o Brasil e Porto Rico foi um dos últimos redutos da escravidão nas Américas.

Mais de três décadas desde a tradução do livro de Scott, a pesquisa de Cowling chegou ao Brasil em um momento que embora já possamos contar com vários estudos de referência para o conhecimento a respeito da escravidão e da liberdade muitos lacunas ainda estão por serem preenchidas, a exemplo, das especificidades da experiência das mulheres – escravizadas, libertas e “livres cor”.

Felizmente, o alerta das feministas negras, especialmente a partir da década de 1980 de que as mulheres negras tinham um jeito específico de estar no mundo ganhou novo impulso nos últimos anos, notadamente, devido ao processo que resultou na Primeira Marcha Nacional de Mulheres Negras, ocorrida no Brasil, em 2015, cujos desdobramentos já podem ser percebidos na sociedade brasileira e tem inspirado pesquisadoras e pesquisadores no desafio de reconstituir esse passado.

Inserida no campo da história social e utilizando uma escala de tempo pequena para descortinar a agência feminina negra, Cowling esteve atenta também para questões mais amplas do período investigado como às conexões atlânticas entre Cuba e Brasil no contexto da “segunda escravidão”. Isso permite que a leitora e o leitor possam notar que embora tivessem optado por um processo de abolição gradual da escravidão ambos vivenciaram processos paralelos e distintos um do outro.

A obra foi dividida em três partes e subdividido em 8 capítulos. Neste texto destaco alguns aspectos, dentre vários outros, que chamaram minha atenção de maneira especial. Primeiramente, saliento que Cowling conseguiu remontar o itinerário de duas libertas tornado visíveis as marcas deixadas por elas tanto em Havana como no Rio de Janeiro, de modo que personagens tradicionalmente invisibilizadas pela documentação e, até mesmo, pela historiografia tiveram seu ponto de vista descortinado nas páginas de seu livro.

Os fragmentos da experiência de Romana Oliva e Josepha Gonçalves de Moraes remontados pela autora é a demonstração de um esforço investigativo de fôlego e bem sucedido. As questões levantadas e o exercício de imaginação histórica da pesquisadora tornaram possíveis que a partir do ponto de vista dessas mulheres possamos saber como pensavam várias outras de seu tempo e compreender os sentidos de suas escolhas, bem como daquelas feitas por seus familiares, escrivães, curadores e integrantes do movimento abolicionista.

A liberta Romana que comprara a própria liberdade um ano antes de migrar para Havana, em 1883, encaminhou uma petição dirigida ao governo-geral de Cuba reivindicando a liberdade de suas 4 crianças, María Fabiana, Agustina, Luis e María de las Nieves que estavam em poder de seu ex-senhor, Manuel Oliva. Quase um ano depois, foi a vez da liberta Josepha dar início a uma ação de liberdade na cidade do Rio de Janeiro com o objetivo de retirar sua filha, Maria, ingênua, com apenas 10 anos, do domínio de seus ex-senhores José Gonçalves de Pinho e sua esposa, Maria Amélia da Silva Pinho.

Assim como outras tantas pessoas, Romana e Josepha eram migrantes que a despeito das dificuldades das cidades, usaram a seu favor as possibilidades que as mesmas ofereciam na busca pela liberdade, além disso, como ressaltou a autora as chances de uma pessoa escravizada conseguir a liberdade morando nas áreas urbanas eram maiores do que aquelas que moravam nas áreas rurais.

De acordo com Cowling as duas libertas se apegaram as brechas da lei e fizeram omesmo tipo de alegação para contestar a legitimidade do domínio senhorial. EnquantoRomana declarou que sua filha era vítima de negligência e abuso sexual, Josepha alegou que suas crianças não estavam recebendo educação. Foi com base nessas denúncias que os senhores foram acusados de maus tratos, o que implicava na perda do domínio sobre as mencionadas crianças, conforme a legislação de Cuba e do Brasil respectivamente determinava.

No livro de Cowling, a leitora e o leitor interessado no tema pode verificar que as perguntas feitas a documentos como petições, ações judiciais, correspondências, jornais, obras literárias, imagens e legislação explicitam que as mulheres escravizadas, libertas e “livres de cor” sempre estiveram no centro da luta por liberdade legal. Isso porque as noções de gênero foram determinantes para o modo como elas vivenciaram a escravidão e consequentemente influenciaram em suas escolhas na luta pela conquista da manumissão. Além disso, especialmente nas décadas de 1870 e 1880, elas que sempre estiveram na linha de frente das disputas judiciais foram colocadas ainda mais no centro do processo da abolição gradual da escravidão.

As Romanas e as Josephas foram muitas nas duas cidades portuárias investigadas pela autora e com o objetivo de conseguir a própria liberdade e de suas crianças, elas se apegaram a argumentos legais tomando como base a legislação, como a Lei Moret de 1870 e a Lei do Patronato de 1880, em Cuba; e a Lei do Ventre Livre de 1871, no Brasil, mas também se apegaram a argumentos extralegais baseados em valores culturais como o“sagrado” direito a maternidade, apelando para piedade e a caridade das autoridadespara os quais levaram suas demandas de liberdade para serem julgadas.

Para Cowling, sobretudo, a retórica da maternidade era tão forte que era utilizada tanto por mulheres ao reivindicarem a liberdade de suas filhas e filhos como nos casos em que eram os filhos que buscavam libertar suas mães, e mesmo, nos casos em que os pais apareceram junto com as mães tentando libertar suas crianças, a opção era por colocar a maternidade no centro.

Não poderia deixar de trazer para este texto aquele que a meu ver é um dos pontos mais fortes da obra. Trata-se da opção da autora de enfrentar o tema da violência sexual contra “mulheres de cor”, aspecto da vida de muitas dessas personagens, ainda pouco explorado pela historiografia brasileira, seja devido ao sub-registro dessa violência na documentação disponível que era escrita em sua maioria por homens da elite e autoridades muitos dos quais também proprietários de cativas, seja devido à própria tradição de priorizar outros aspectos da experiência das pessoas.

Para a autora a tradição de violar o corpo de “mulheres de cor” era naturalizada entre os senhores e os homens da lei tanto que os primeiros não viam qualquer impedimento à prática de estuprá-las. Por isso mesmo, a falta de proteção extrapolava a condição de cativas e nem mesmo a liberdade legal era garantia de proteção ou reparação contra aqueles que as forçassem a ter relações sexuais com eles ou com outros (muitas escravizadas eram forçadas a prostituição por suas proprietárias e proprietários).

No entanto, se por um lado, ao se depararem com denúncias de violência sexual as autoridades geralmente posicionavam-se a favor dos agressores, inclusive responsabilizando as próprias “mulheres de cor”, prática que tinha a ver com a imagem que esses homens de maneira geral faziam desse grupo social considerado por eles como lascívias e corruptoras das famílias da elite. Por outro, ao procurar à justiça para denunciar a violência sexual elas explicitavam sua própria compreensão sobre si mesmas. Ao fazer isso Romana e várias outras estavam dizendo que acreditavam ter conquistado para si e para suas filhas o direito de poder dizer não para um homem com quem não quisessem fazer sexo.

Cheguei ao epílogo da obra convencida por Cowling de que embora Romana e Josepha tenham vivido em lugares diferentes e nem se quer se conhecessem, caso tivessem tido a oportunidade de se encontrar naqueles anos cruciais de suas vidas, elas teriam muito que conversar. Inevitavelmente suspeito ainda que várias mulheres negras do século XXI que tiverem acesso as minúcias do itinerário das personagens trazidas no trabalho terão a sensação de que também poderiam participar da conversa.

Por fim, acredito que as questões levantadas ao longo da obra sob vários aspectos servirão de inspiração para historiadoras e historiadores empenhados na reconstituição tanto quanto possível da vida de mulheres escravizadas, libertas e “livres de cor”, bem como de seus familiares e das pessoas com as quais elas se aliaram na construção de outros tantos processos coletivos de luta por liberdade legal.

Karine Teixeira Damasceno – Pós-Doutoranda do Programa de Pós-Graduação em História Social da Cultura (PUC-Rio), Bolsista da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES).


COWLING, Camillia. Concebendo a liberdade: mulheres de cor, gênero e a abolição da escravidão nas cidades de Havana e Rio de Janeiro. Tradução: Patrícia Ramos Geremias e Clemente Penna. Campinas: UNICAMP, 2018. 440p.. Resenha de: DAMASCENO Karine Teixeira. “Mulheres de cor” no centro da luta por liberdade legal em Havana e no Rio de Janeiro. Canoa do Tempo, Manaus, v.11, n.2, p.294-297, out./dez., 2019. Acessar publicação original.

Gênero e consumo no espaço doméstico: representações na mídia durante o século XX na Argentina e no Brasil | Inés Pérez Marinês Ribeiro dos Santos

Gênero e consumo no espaço doméstico: representações na mídia durante o século XX na Argentina e no Brasil é o título do livro organizado por Inés Pérez e Marinês Ribeiro dos Santos a partir de artigos apresentados no 10º Seminário Internacional Fazendo Gênero (2013). A publicação tem como objetivo analisar, por meio dos artefatos, práticas e difusão do consumo, a construção de noções de feminilidades e masculinidades que incidem sobre a divisão sexuada do trabalho, a organização, a concepção e a ocupação do espaço habitado.

Temas afins foram pesquisados pelas organizadoras em suas teses de doutorado a partir dos campos da história da família e do design e da perspectiva de gênero. Enquanto Pérez (2012) analisou as transformações nas estruturas familiares na Argentina dos anos 1940 e 1970 em relação às dinâmicas de gênero e ao processo de industrialização da vida doméstica, Santos (2015) investigou as relações entre as transformações de gênero no Brasil dos anos 1960 e 1970 e a assimilação da linguagem pop no design de produtos. No desenvolvimento das pesquisas foi ficando clara a centralidade do consumo para a compreensão da modernidade, uma vez que a estruturação de um mercado diversificado de artefatos produzidos em massa foi acompanhada por discursos que contribuíram para a estratificação das vendas e a desigualdade de aquisição por gênero, classe e raça, incidindo nos ambientes urbano e doméstico, este último alvo privilegiado da produção industrial no período. Leia Mais

Gênero e Desigualdades: os limites da democracia no Brasil | Flávia Biroli

Como garantir a maior participação política (nas diferentes esferas) das minorias? De que maneira é possível superar as dificuldades enfrentadas pelas mulheres (como limitação temporal, causada pelo acúmulo de responsabilidades do trabalho doméstico, cuidado e maternidade) para um maior envolvimento político? Que direitos ainda são negados às mulheres e às pessoas LGBTQI+ pela democracia 1 brasileira? Como os feminismos têm contribuído para uma sociedade mais igualitária no que tange aos direitos e à participação política? Quais foram os avanços, os limites e as desigualdades ao longo das últimas décadas no Brasil? Essas e muitas outras questões foram respondidas por Flávia Biroli no livro Gênero e Desigualdades: os limites da democracia no Brasil, publicado no ano de 2018, no qual enfatiza, como anunciado no título, as limitações, as desigualdades e as relações de gênero presentes na democracia brasileira, a partir de uma análise que entrelaça local/global e as diferentes teorias feministas.

Flávia Milena Biroli Tokarski é formada em Comunicação Social pela Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita (UNESP), e possui mestrado e doutorado em História pela Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP). Ao longo de seus anos de pesquisadora e professora no Instituto de Ciência Política da Universidade de Brasília (UnB), tem se dedicado às temáticas da democracia, política, estudos de gênero e teoria feminista, sobretudo, com enfoque nas áreas de mídia e política. Suas principais publicações, além do livro resenhado aqui, são: Caleidoscópio convexo: mulheres, política e mídia (2011, publicado com Luis Felipe Miguel), Autonomia e desigualdades de gênero: contribuições do feminismo para a crítica democrática (2013), Família: novos conceitos (2014) e Feminismo e Política (2014, também com Luis Felipe Miguel). Leia Mais