O homem que amava os cachorros | Leonardo Padura

O livro de Leonardo Padura é uma daquelas obras de ficção que tem o poder de apequenar o historiador/leitor, pela sua narrativa de tirar o fôlego. Só mesmo uma obra despretensiosa quanto à História ciência poderia navegar tão livremente pelos personagens e contextos históricos. A narrativa, todavia, prende o leitor justamente pelo que traz de história e pelo respeito à história acontecimento, a história dos personagens entrelaçada no contexto em que se encontravam.

O respeito à história é garantido no que para o historiador é algo fundamental: no trato com as fontes bibliográficas e documentais, algo que consumiu do autor mais de cinco anos de trabalho, a colaboração de diversas pessoas em Cuba, no México, na Espanha, na Rússia, na França, na Dinamarca, no Canadá e na Inglaterra. Isso garantiu – conforme Padura em nota de agradecimento ao final do livro – a “fidelidade possível (…) aos episódios e à cronologia da vida de Leon Trotski” e uma “presença esmagadora da história em cada uma de suas páginas” (p.587), mesmo tratando-se de um romance.

O livro foi publicado pela primeira vez na Espanha, em 2009, e só depois em Cuba, país natal do autor e de onde parte a narrativa pelas mãos de Iván Maturell, um escritor que sobrevive no “período especial” de Cuba marcado pelo racionamento.2

A narrativa se centra em três personagens: o primeiro, Leon Trotski, nome adotado por Liev Davidovitch Bronstein (no livro o autor utiliza esses dois nomes e na tradução brasileira a grafia de Trotski surge com “i” e não “y”) após a fuga da primeira prisão na Sibéria em 1902, comandante do Exército Vermelho em 1917, revolucionário bolchevique que se destacou pelas formulações teóricas e na liderança da revolução proletária na Rússia, e que estava mais próximo da sucessão de Lenin no comando do Estado Soviético; o segundo personagem, Ramón Mercader (ou Jaime López, Jacques Mornard, e outras identidades) é o espanhol comunista que lutou na Guerra Civil Espanhola (1936-1939), período em que foi arregimentado para o serviço secreto soviético, formado na escola stalinista para eliminar Leon Trotski; o terceiro, o narrador Iván Maturell (que por motivo trivial de dividir o mesmo gosto por cachorros, se aproxima do assassino de Trotski que vivia em Cuba na década de 1970), também torna-se um outro ao final do livro (p.584), ao termos a revelação de que o narrador alter-ego de Padura é na verdade Daniel Ledesma, que teve acesso aos manuscritos de Iván, morto no desmoronamento do seu apartamento decadente (numa referência ao desmoronamento da revolução cubana?).

O livro narra as trajetórias paralelas dos três personagens: desde a deportação de Trotski e de sua esposa Nátália Sedova para o gélido Quirguistão em 1928 e em seguida a expulsão do casal do território soviético, em 1929, e o assassinato de Trotski na cidade do México em 1940; o ingresso de Mercader nas fileiras comunistas na Espanha, ao lado da mãe Caridad e da militante África, até sua condecoração como herói de guerra e morte em Moscou; e o encontro entre Mercader e Iván em uma praia de Cuba, até a morte de Iván e o deparar-se com os manuscritos por Ledesma.

Com maestria o autor conta a história do assassinato de Trotski, do planejamento pela NKVD (polícia secreta stalinista) e a execução. Mas o livro não se encerra no que tem de óbvio: o assassinato de Trotski como um dos momentos altos na tentativa de Stalin de eliminar a oposição de esquerda. A obra de Padura nos coloca diante de um debate contemporâneo sobre a história presente e o futuro da humanidade, as derrotas e vitórias na história e, especialmente, da necessidade de lutar por projetos que concebam a transformação estrutural, de não nos conformarmos.

Ao humanizar os personagens Trotski e Ramón Mercader, nos apresentando pessoas de carne e osso, em família e nos espaços da política, que tomam posicionamentos diante de realidades dadas, o livro não incorre no equívoco de outras obras do mesmo gênero que heroificam alguns, demonizam outros ou inocentam muitos pela suposta incapacidade de decidirem sobre os rumos da história individual que impacta na coletiva.

Trotski surge nas páginas de Padura como o conhecemos, um revolucionário incansável que se contrapõe à burocratização do Estado soviético, que luta até a morte pelo socialismo, que formula interpretações originais como a lei do desenvolvimento desigual e combinado, escreve obras fundamentais para entender o século XX, como a História da Revolução Russa, A Revolução traída, e militante pela construção da Quarta Internacional para o que apresenta um Programa de transição. Mas Trotski não está sozinho nesta empreitada, e neste sentido ele não é um “herói”, e o livro nos apresenta um homem de seu tempo, em família com Natália Sedova, que sente a perda dos filhos assassinados a mando de Stalin, que gosta de cachorros, sensível às artes, que titubeia diante do encanto de uma mulher como Frida Kahlo.

A subordinação de Ramón Mercader diante de duas figuras femininas – sua mãe com quem tem relação de ódio e amor, e a linda militante África por quem tem um amor incondicional – não o coloca como incapaz de tomar decisões, como alguém que seja manobrado. É um militante que, em raras vezes, até entra em conflito com a política stalinista para as seções dos partidos comunistas, como no caso da Guerra Civil na Espanha, e mesmo com a política stalinista de aproximação com Hitler. Todavia, segue convicto de que está lutando pela defesa da revolução, e é isso que faz com que obedeça as determinações de Moscou, mesmo que isso signifique a distância de sua amada, imponha o relacionamento por interesse com a militante trotskista estadunidense Sylvia Ageloff e o torne um pária assassino renegado aos porões da história.

Da mesma forma, Stalin surge nas páginas de Padura não como um “louco”, insensato ou uma aberração, resultado de uma infância perturbada. Stalin chega ao comando do primeiro estado operário após a morte de Lenin por meio de manobras, acordos políticos favorecidos pelas condições objetivas e subjetivas, e se torna ditador utilizando toda a máquina econômica, política e militar para impor sua vontade aos comandados e à sociedade soviética. Se impõe pelo terror com a deportação de milhões para os campos de trabalho forçado, os gulag, e execuções sumárias após “confissões” falsas tiradas por meio de interrogatórios sob tortura. Os processos, especialmente entre 1936 e 1938, condenaram à morte a maioria dos membros do Partido Bolchevique e seus parentes, militares do Exército Vermelho e civis.

A luta de Trotski era justamente contra este Estado autoritário que desfigurava a Revolução vitoriosa. Muitos comunistas e ou homens e mulheres da esquerda mundial fecharam os olhos e ouvidos para as suas denúncias e saíram em defesa de Stalin como se fosse a defesa do Estado operário. Proeminentes intelectuais militantes ficaram presos a essa visão e só romperam com o stalinismo quando da revelação do “grande expurgo” por Nikita Krushchev em 1956, após a morte de Stalin. Mas muitos ainda continuaram fieis ao stalinismo e só romperam na década 1980 quando das reformas capitalistas na União Soviética e após a queda do Muro de Berlin em 1989, em outro momento histórico que desenhou o desfecho da história iniciada por Stalin. Em 1989 o autor de O homem que amava os cachorros fazia sua primeira visita ao México e à casa onde Trotski vivera seus últimos dias, transformada em museu. Conforme o autor, o “romance começou talvez a ser escrito” aí, nessa visita e no contexto do fim do Estado Soviético e da Guerra Fria.

A história demonstrou, de forma dura, os acertos de Trotski e, por isso, ao cabo, o trotskismo permanece mobilizando milhares de militantes no mundo inteiro que não têm porque negar sua tradição, enquanto os poucos stalinistas que ainda existem se escondem nas entrelinhas da história e nas alianças com a direita ou em frentes populares. Mas não nos enganemos com as aparências, eles estão por aí a desconfigurar o socialismo como projeto revolucionário democrático e mundial.

Mesmo na Rússia de Putin parece haver um movimento de reconstrução da figura de Stalin como herói. Em matéria publicada em 21de dezembro de 2015 o jornal Folha de São Paulo chama atenção para a criação de museus em cidades russas que destacam o “legado” de Stalin, e a construção de bustos do “Carrasco” em praças públicas.3

Porque o stalinismo ainda é uma ameaça para a Revolução socialista e porque o capitalismo é um sistema que representa os interesses de uma ínfima minoria da humanidade, é que a teoria, o método, as táticas e estratégicas de Trotski continuam válidas e necessárias para construir uma alternativa proletária. O livro de Padura recoloca isso para o grande público a partir de um lugar privilegiado para se compreender esses dilemas: a Cuba castrista. Por isso, também, o livro trata da realidade cubana, de uma revolução desconfigurada.

Notas

2 Em seguida a obra foi traduzida para outros idiomas, até chegar à tradução brasileira pela primeira vez em 2013 e esta de 2015.

3 http://m.folha.uol.com.br/mundo/2015/12/1721009-russia-inaugura-museus-sobre-stalin-e-lida-como-legado-do-lider-sovietico.shtml  Consultado em 21/12/2015.


Resenhista

Vitor Wagner Neto de Oliveira – Doutor em História pela Universidade Estadual de Campinas, Professor de História da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul. E-mail: [email protected]


Referências desta Resenha

PADURA, Leonardo. O homem que amava os cachorros. 2ª ed. Trad. Helena Pitta. São Paulo: Boitempo, 2015. Resenha de: OLIVEIRA, Vitor Wagner Neto de. Revista Eletrônica História em Reflexão. Dourados, v.10, n. 20, p.98-101, jul./dez. 2016. Acessar publicação original [DR]

Deixe um Comentário

Você precisa fazer login para publicar um comentário.