Sociedades em fronteiras: abordagens e perspectivas / Fronteiras – Revista de História / 2019

As pesquisas no que tange às fronteiras têm se ampliado de forma significativa na última década, basta uma rápida pesquisa no Catálogo de teses e dissertações da Capes para comprovar isso. O que, entretanto, é a representação de apenas um repositório possível de pesquisa e que reflete, de alguma forma, as pesquisas em curso nos Programas de Pós-Graduação no Brasil.

A ampliação dos estudos sobre fronteiras pode ser identificado como resultado de três fatores, entre outros possíveis, que tenham impactado nessa temática, quais sejam: a ampliação e interiorização dos Programas de Pós-Graduação no Brasil, o que tem estimulado estudos em / sobre regiões fronteiriças de forma muito mais acentuada; as mudanças que envolvem as Tecnologias Digitais de Comunicação e Informação – TDIC, que tem possibilitado o acesso a documentos escritos, o contato entre pesquisadores da área e uma aproximação maior de pessoas e comunidades a serem investigadas; e, por fim, certamente um dos mais importantes, que é o contexto da constante ebulição das disputas no espaço fronteiriço, e que tem chamado a atenção e se mantido sob os holofotes da mídia internacional por inúmeros fatores que marcam o início do século XXI.

Portanto, a partir desse cenário decidimos organizar o dossiê intitulado “Sociedades em Fronteiras: abordagens e perspectivas”, por entendermos ser este o palco de intensos debates e que refletem de forma múltipla diferentes áreas de investigação, envolvidos sob a égide, ao menos parcial, da interdisciplinaridade. Para além disso, as atividades realizadas em parceria pelos organizadores envolvendo sociedades em fronteiras, tanto na concretização de pesquisas conjuntas, quanto no compartilhamento de bancas de avaliação e eventos científicos foi outro ponto de convergência da proposta do dossiê.

A proposta foi apresentada ao periódico “Fronteiras: Revista de História” do Programa de Pós-Graduação em História da Universidade Federal da Grande Dourados (PPGH / UFGD), que como observamos congrega um maior número de leitores com interesse pela área, por estar indexado em mais de uma dezena de áreas, por se apresentar como um periódico que materializa a interdisciplinaridade em suas publicações, mas também, por ter ao longo de mais de duas décadas se dedicado a disseminar importantes pesquisas científicas e debates historiográficos que envolvem o eixo direcionador deste dossiê. Portanto, ao visitar a página da Fronteiras, em suas diferentes edições encontraremos a similitude em relação a problemática em discussão que foi proposta por nós, ou seja, o debate aparece em todos os momentos no periódico, nos levando a reflexões profundas sobre esse tema, objeto e lócus de pesquisa, e que modestamente procuramos nos inserir, com mais esse dossiê.

Se é consenso que as definições conceituais mais tradicionais sobre as fronteiras foram superadas, com especial atenção aquelas em que definem fronteira de forma rígida, estática, com uma restrição ao domínio político, militar e administrativo que permaneceram como referência por certo tempo. As dinâmicas em torno do debate sobre fronteiras foram repensadas juntamente com as mudanças e possibilidades de leituras teóricas que avançaram na segunda metade do século XX e impulsionaram as discussões em torno de possibilidades, como por exemplo, as fronteiras da linguagem e seu papel nas sociedades contemporâneas, ou então, possibilidades de pensar as fronteiras sob o ponto de vista da cultura e suas implicações na organização social, assim como do cotidiano, da formação humana, das fronteiras discursivas, artísticas…

Em Nation and Narration, Homi Bhabha destaca que o discurso nacional que envolve a sociedade está entrelaçado por um conjunto de interpretações e símbolos, que são reforçados tanto no momento performático, quanto no momento pedagógico, e que de alguma forma podem ser pensadas para sociedades em fronteiras.

Portanto, para Bhabha no momento pedagógico os membros da nação são o alvo e objeto do discurso nacional construído a partir dos relatos históricos, dos feitos bélicos ou das glórias no esporte, das narrativas da mídia e do enaltecimento das supostas virtudes de um determinado povo. Já o momento performático, os membros da nação passam de objeto a sujeito do discurso nacional, ou seja, os cidadãos se envolvem no discurso nacional e, a partir dele, abraçam uma identidade, como por exemplo, brasileiros, paraguaios, argentinos, bolivianos, venezuelanos, etc… Momento em que os membros da nação de fato se sentem como portadores e guardiões dos atributos nacionais, fortalecendo a comunidade nacional imaginada.

As narrativas e perspectivas sobre as fronteiras estão em movimento, flexibilidade que revela a complexidade de análise a que os estudos estão sujeitos. O que, neste caso, evidentemente, é reflexo das sociedades em fronteiras, que não podem ser entendidas como estruturas sociais estáticas, mas como configurações – concepção de Norbert Elias na A sociedade de Corte e na A Sociedade dos Indivíduos – em desenvolvimento a longo prazo de modo que as ações individuais são inscritas dentro de redes de relações interdependentes. Em sociedades de fronteiras a complexificação da questão fica ainda maior, porque se cruzam as formalidades comportamentais, as regras e costumes e que, em muitos casos, se impõem em pequenos gestos. Portanto, o que atrai nas sociedades de fronteiras não são apenas as formações sociais estabelecidas, mas, sobretudo a procura pelos desequilíbrios.

Dito isso, convidamos os leitores a realizar uma desafiadora incursão pelos seis artigos que compõem o dossiê.

Primeiramente, o texto “Entre fronteiras e limbos, a interdisciplinaridade, o conhecimento tradicional e a micro-história” de José Carlos dos Santos e Márcia Regina Ristow, procura, sob uma perspectiva interdisciplinar, prosperar no campo disciplinar para questões pouco observadas, seguindo na complexidade dos conhecimentos tradicionais e avançando sobre fronteiras, a partir de uma redução de escala, favorecendo, portanto, um clima de transposição de áreas disciplinares de pesquisa.

Já por outro lado, o texto de Aldenor da Silva Ferreira e Alfredo Kingo Oyama Homma em “A colonização britânica e o declínio da produção de juta indiana: singularidades e possibilidades para a Amazônia”, procuram, a partir da pesquisa realizada em Calcutá / Índia, compreender as especificidades da produção têxtil no subcontinente indiano no período colonial como elemento de fundamento para entender outra realidade, qual seja, o declínio da produção têxtil de juta na Amazônia e sua possível reativação nas nossas fronteiras.

Em outra perspectiva, no texto “Narrativas sobre a ação do Estado na história da colonização de Campo Mourão (1900-1950)”, Astor Weber e Jorge Pagliarini Junior centralizam a discussão em torno da ação do Estado no processo de colonização e como ela é representada na produção historiográfica em quatro momentos temporais e em contextos distintos.

No quarto artigo do dossiê, intitulado “Cultura escolar, fronteiras simbólicas: um estudo sobre a presença da comunidade paraguaia no cenário educacional sulmatogrossense”, de autoria de Adriana Aparecida Pinto e Jackson James Debona, trata de uma pesquisa realizada na comunidade escolar da periferia da cidade de Dourados, Mato Grosso do Sul, sobre os índices de crianças que descendem em primeira ou segunda geração de famílias que imigraram do Paraguai entre as décadas de 1960 a 1980, vislumbrando possibilidades de ações pedagógico voltados a história, apresentando a simbiose dos movimentos entre os dois países, para além das fronteiras mais próximas.

Nelson Figueira Sobrinho e Denise Rosana da Silva Moraes no texto “‘1.300 quilômetros abertos ao tráfico’: a fronteira Brasil-Paraguai sob a ótica de Veja adotada no Caderno Especial ‘Crime’” analisam a partir de textos e elementos gráficos, como fotografias e infográficos o enfoque dado pela Revista Veja sobre a fronteira Brasil- Paraguai.

Já, no último texto que contempla esse dossiê, Sónia Cristina Cardoso dos Santos Silva discute “O percurso histórico do estabelecimento das fronteiras em Angola”, a partir de três contextos socio-históricos diferentes: o período pré-colonial; colonial e pósindependência. Essa questão foi analisada a partir de duas dimensões: abordagem teóricoconceitual sobre fronteiras; e a influência da Conferência Internacional de Berlim (1884- 1885) na definição do traçado fronteiriço africano.

Os textos que compõem o presente dossiê permitem uma reflexão sobre as diferentes configurações das sociedades em fronteiras, a partir da coexistência da diferença sob novos olhares que envolvem as relações de poder, as identidades e o papel do Estado. Em todos os textos deste dossiê está presente o fio condutor que envolve a proposta e que dá consistência ao debate. Por outro lado, os Artigos Livres que abaixo apresentamos não se evadem da discussão acerca da problemática do dossiê das sociedades em fronteiras, essa separação, se assim podemos chamar, se fez respeitando a submissão dos artigos ao Periódico que é realizada pelos autores, que optaram por submeter seus escritos à sessão de Artigos Livres.

Então, democraticamente apresentamos aos leitores a sessão de Artigos Livres que como de costume trouxeram nesse momento leituras importantes, que se somam às problemáticas da produção científica muito próximas do Dossiê. Nesse sentido, expomos o texto de autoria de Hélder Samuel dos Santos Lima e Daniela Cristiane Ota, intitulado “Rádio Independente de Aquidauana: da fundação à transição para FM”, em que contextualizam o processo histórico de implantação e evolução tecnológica da Rádio Independente (AM 1020 KHz), situada no município de Aquidauana (MS).

Noutro texto, intitulado “O encontro entre história e memória: a materialização na forma de um memorial”, de Samuel Cabanha, o autor aborda um aspecto histórico imerso no presente explorando um monumento como representação material que refaz a memória. Para isso, propõe-se a análise do monumento erigido no município de Santa Helena (PR), em memória à marcha de Luiz Carlos Prestes, observando a disputa pela preservação da memória da articulação entre a representação do monumento e a tentativa de ritualização em torno do lugar.

Por último, apresentamos a resenha produzida por Rosivania de Jesus Costa, que teve como alvo o livro de autoria de Mariana Schlickmann, com o título “A introdução dos estudos africanos no Brasil (1959 – 1987)”, publicado pela Editora CRV de Curitiba em 2016.

Posto isto, esperamos que o presente dossiê, assim como toda esta edição possa despertar e ampliar no leitor o interesse pelo tema e movimentar novas discussões num diálogo aprofundado.

Desejamos uma boa leitura a todos / as!

Fábio André Hahn (PPGHP / Unespar)

José Carlos dos Santos (PPGSCF / Unioeste)

Leandro Baller (PPGSCF / Unioeste e PPGH / UFGD)

Organizadores


HAHN, Fábio André; SANTOS, José Carlos dos; BALLER, Leandro. Apresentação. Fronteiras: Revista de História. Dourados, v. 21, n. 37, Jan. / jun., 2019. Acessar publicação original [DR]

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História Cultural / Revista Eletrônica História em Reflexão / 2008

A terceira edição da Revista Eletrônica História em Reflexão, traz num primeiro momento o Dossiê sobre História Cultural. A ampla gama de estudos que cercam a historiografia que relega suas pesquisas à história cultural se destaca nas universidades brasileiras. Grande parte dos programas de pós-graduação em História possuem disciplinas destinadas à pesquisa em práticas culturais, cultura e história cultural, bem como há uma grande difusão da temática em eventos acadêmicos. Um dos grandes méritos da linha de pesquisa é por envolver as mais diversas áreas de pesquisa, fornecendo assim estudos interdisciplinares, o que enriquece ainda mais as discussões teórico-metodológicas acerca dos temas.

Os trabalhos aqui apresentados contribuem em grande parte para mostrar essa diversidade de estudos em torno da Cultura, levando em consideração as diversas lacunas existentes nessa historiografia que há pouco tempo tem se voltado para novos objetos, novos problemas e novas abordagens – como bem destacaram Jacques Le Goff e Pierre Nora. Também mostram as mudanças historiográficas ocorridas no Brasil nas últimas décadas, quando se tem a possibilidade de encontrar um campo fértil para a injeção de novidades, como muito bem denota Peter Burke em “Variedades de História Cultural”, e que possam ser externalizados para a comunidade acadêmica e para o público em geral, por meio desse veículo de difusão de idéias.

Num segundo momento e de mesma importância, trazemos artigos com temas livres e que tratam das complexidades historiográficas que permeiam a disciplina. Sem demoras passamos há apresentar os trabalhos publicados nessa edição de História em Reflexão.

Antonio Marcos Myskiw, estuda o cenário cultural e intelectual de Curitiba / PR, entre os anos 1870 e 1920, com ênfase na produção literária de alguns intelectuais paranaenses; na importância das casas tipográficas, das oficinas de redação dos jornais e de seus respectivos editores para a construção de hábitos de leituras na população curitibana; nos leitores e nas práticas da leitura, em seu artigo intitulado “Curitiba, ‘República das letras’ (1870 / 1920)”.

No texto “Ipes e Ibad: A crise política da década de 60 e o advento do Golpe Civil-Militar de 1964”, Carlos Fellippe de Oliveira busca verificar as diferentes fases do Instituto de Pesquisas e Estudos Sociais e do Instituto Brasileiro de Ação Democrática, entre os anos de 1959 e 1966. Busca ainda compreender o arcabouço ideológico que formou tais institutos. A crise política, culminando na total paralisia do poder de decisões do parlamento brasileiro, propiciaria a implantação de um Estado burocrático-autoritário. Investigando de que forma o IPES e o IBAD se instalaram no governo pós-64, assumindo a formulação de diretrizes básicas para a nova administração.

Francisco de Assis, em “Comunicação vertical na Igreja de Pedro: uma história crítica do jornal da Diocese de Taubaté” pontua dois objetivos distintos para seu artigo. O primeiro recupera a trajetória do jornal O Lábaro, publicado pela Diocese de Taubaté desde 1910; o segundo mostra, por meio da leitura crítica de sua história, como os líderes da Igreja Católica utilizaram tal mecanismo, ao longo de quase 100 anos, para disseminar suas idéias.

Marcelo Souza Oliveira mostra como a elite baiana no inicio do século XIX, passou por um período de dificuldades econômicas e sociais em decorrência do declínio das atividades agrícolas de exportação. Levando muitos membros da elite letrada a escrever textos sobre os saudosos tempos de opulência e abastança dos agricultores do Recôncavo. A escritora Anna Ribeiro (1843-1930), era membro desse grupo. O objetivo do texto é fazer uma releitura do mundo em que Anna Ribeiro viveu e do grupo com o qual se identificou. Visa ainda oferecer fundamentos para a interpretação da literatura produzida por Anna Ribeiro, no artigo denominado “Uma Senhora de Engenho no mundo das letras: História, memória e identidade cultural em Anna Ribeiro de Góes Bittencourt (1843-1930)”.

Em “Estorvo: uma crônica interrompida”, Marcelo Pessoa realiza um breve estudo da obra Estorvo, de Chico Buarque, tentando estabelecer uma relação desse texto com o gênero literário crônica. Realiza ainda uma abordagem da representação literária da subjetividade sócio-cultural e histórica do Brasil contemporâneo. Marcos Leandro Mondardo mostra como os caboclos tiveram uma importância muito grande, enquanto indivíduos que ocuparam diversas regiões do Brasil. No Sudoeste paranaense, os caboclos tiveram participação no processo de (re)ocupação. Busca no artigo discutir elementos da territorialidade cabocla no Sudoeste do Paraná, e demonstrar os processos que se desenrolaram através da migração direcionada de gaúchos e catarinenses para a referida região. No seu artigo intitulado “Os Caboclos no Sudoeste do Paraná: de uma “Sociedade Autárquica” a um grupo social excluído”.

No texto “Santidade, jejum e anorexia na História” notaremos que na atualidade a anorexia é classificada como um transtorno alimentar caracterizado por limitação da ingestão de alimentos, devido à obsessão de magreza e o medo mórbido de ganhar peso. Mesmo não sendo conhecida por este nome, é possível detectar a presença desta doença no Ocidente a partir do século XII. O jejum religioso, prática comum naquela época, configurava-se como uma forma de aproximação com Deus, sendo recorrente entre as pessoas consideradas santas. A autora Maria Valdiza Rogério Soares tem como objetivo analisar a prática da restrição alimentar como atributo da santidade, traçando uma relação entre aquela e a anorexia na história.

No texto intitulado “O êxodo do hebreus segundo historiadores e arqueólogos: ênfase na perspectiva minimalista a partir da obra de Finkelstein e Silberman”, Josué Berlesi procura analisar as interpretações de historiadores e arqueólogos a cerca do evento bíblico do êxodo hebraico. O autor propõe-se a sua abordagem que privilegie a analise teórica minimalista.

Em seu artigo “Revisitando A Retirada da Laguna: um debate entre a Memória, História e Turismo” os autores Carlos Alexandre Barros Trubiliano e Carlos Martins Júnior buscam a partir da ciência histórica, discutir as revisões da obra A Retirada de Laguna, que vêm sendo realizadas com o objetivo de seu aproveitamento turístico. Além disso os autores sinalizam alguns elementos que podem ajudar a garantir o sucesso de uma trilha turística cultural baseada nos eventos descritos por essa obra.

Paulo Raphael Feldhues em “Modernidade, Cultura e Poder: Aspectos da cidade do Recife durante o Estado Novo” exibe como o golpe de 1937 levou Agamenon Magalhães à interventoria do estado de Pernambuco. A política cultural empregada por Agamenon permitiu que a modernidade consagrasse seus moldes autoritários. O objetivo do autor é analisar a relação entre as práticas cotidianas e a importância dada à visão do outro na sociedade recifense estadonovista, a partir das representações simbólicas contidas em propagandas privadas e eventos sociais do período.

No Artigo “Cultura popular no imaginário brasileiro e latino-americano: caminhos possíveis de reflexão teórica”, Sérgio Campos Gonçalves com um olhar direcionado àqueles que se iniciam nas pesquisas sobre representações do popular no imaginário brasileiro e latino-americano, estabelece o objetivo de apresentar um pequeno guia panorâmico e bibliográfico das discussões teóricas acerca das aplicações do conceito de cultura popular. No artigo “História da Idéias – em torno de um domínio historiográfico” José D’Assunção Barros faz uma análise panorâmica desta modalidade historiográfica, principalmente de suas relações dialógicas com a História Cultural e a História Política.

Em conjunto as autoras Fabíola Andrade Pereira e Vivian Galdino de Andrade procuram mostrar como na contemporaneidade a educação popular tem ganhado destaque, sobretudo no que se refere a suas perspectivas, enquanto prática pedagógica e uma teoria da educação cuja concepção tem sido uma das mais belas contribuições ao pensamento pedagógico universal. Sua fundamentação tem contribuído positivamente na construção de novas formas de fazer política, de pensar e fazer democracia. Neste aspecto, surgem emaranhados de questões que evocam a necessidade de pensá-la como uma busca, um produto histórico, nos levando a lançar algumas idéias para renovar antigas discussões, por meio do texto denominado “(Re) pensando a educação popular e suas perspectivas diante da construção da escola cidadã” a análise busca compreender o campo da educação popular sob a perspectiva de uma educação emancipatória.

Inaugurando uma nova seção na Revista trouxemos a polêmica acerca do cinema nacional em que Ricardo Corrêa Peixoto denomina de “Tropa de Elite: Realidade ou Narcisismo às Avessas?” O presente texto tem como força motriz, o firme desejo de promover a confrontação entre as concepções moralistas e inflexíveis, em relação ao trato dos usuários de drogas apresentados no filme, cuja truculência e implacabilidade inviabiliza o diálogo e, por conseguinte, um melhor entendimento dessas “anomalias” que não são meramente questões urbanas, sociais, culturais, mas transitam nas dimensões existenciais da humanidade em todo globo e em todos os tempos.

A Professora Doutora Marieta de Moraes Ferreira nos brinda com uma entrevista dando um panorama geral da História Oral na atualidade. Entre outros elementos elenca uma série de questões relacionadas à historiografia nacional e internacional, como a história do presente, breves reflexões sobre a historiografia contemporânea, algumas questões metodológicas e assim por diante, apresentando-as na íntegra.

Por último trouxemos as seguintes resenhas: do livro organizado por Gilson Porto Jr, intitulado “História do tempo presente”, resenhado por Gabriele Daiana Thiecker; a resenha feita por Nataniél Dal Moro, do livro “O jogo das diferenças: o multiculturalismo e seus contextos”, dos autores Luiz Alberto Oliveira Gonçalves e Petronilha Beatriz Gonçalves e Silva e por fim a resenha do livro de, Matthew Restall “Sete Mitos da Conquista Espanhola” elaborada por Maurício Tadeu Andrade.

Boas leituras!

Leandro Baller

Thiago Leandro Vieira Cavalcante

(Editores)

Dourados – Verão de 2008.


BALLER, Leandro; CAVALCANTE, Thiago Leandro Vieira. Apresentação. Revista Eletrônica História em Reflexão. Dourados, v. 2, n. 3, jan. / jul., 2008. Acessar publicação original [DR]

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História Indígena / Revista Eletrônica História em Reflexão / 2007

Com grande satisfação trazemos à comunidade o segundo número da Revista Eletrônica História em Reflexão (REHR). Com esse número completamos um ano de gratificantes trabalhos. Nosso primeiro número superou as expectativas de aceitação, atingindo aproximadamente três mil e quinhentos acessos. Para o número ora publicado recebemos mais de duas dezenas de trabalhos, dos quais publicamos dezessete. Tamanho interesse demonstra a qualidade do primeiro número e a versatilidade da Internet como meio de divulgação da produção científica. Essa qualidade foi alcançada através do profissionalismo e da prestativa colaboração da equipe de conselheiros, designer, técnicos e editores, além é claro no alto nível dos autores.

O número atual traz um dossiê especial sobre História Indígena, temática interdisciplinar que cada dia mais interessa aos historiadores. Como área emergente dentro do clã historiográfico ocupa posição de destaque na Universidade Federal da Grande Dourados. Seu Programa de Pós-graduação em História conta, desde seu inicio em 1999, com uma linha de pesquisa que recebe o mesmo título desse dossiê.

Observa-se também que diversos centros de pesquisa voltados a essa temática estão se consolidando por várias regiões do Brasil. Isso tem feito com que a produção científica nessa área, que se caracteriza fundamentalmente pelo diálogo com outras ciências humanas, cresça cada vez mais. Prova desse crescimento é a maciça presença desses pesquisadores no recentemente realizado XXIV Simpósio Nacional de História, que contou com dois simpósios totalmente direcionados a essa área. Juntos eles tiveram cerca de setenta trabalhos apresentados, sem considerar outros simpósios, como os que discutiam missões religiosas, em que a maioria dos trabalhos tinha ao menos relação com a história indígena. Esse expressivo número demonstra aos céticos e algozes da proposta interdisciplinar da História Indígena que ela vem cada vez mais se consolidando e atingindo altos níveis de qualidade.

Como nossa proposta é democrática na publicação e divulgação do conhecimento, apresentamos ainda neste número outros trabalhos de relevância e importância que abrangem outras temáticas dentro da historiografia. Assim concluímos mais esta etapa com o intuito de lhes proporcionar boas referências por meio desse veículo de publicação.

Sem prolongamentos passamos a apresentar os trabalhos do Dossiê que de modo geral seguem a linha da interdisciplinaridade atualmente adotada em discussões desse tipo. Jorge Eremites de Oliveira em parceria com Levi Marques Pereira no artigo “Duas no pé e uma na bunda”: da participação Terena na guerra entre o Paraguai e a Tríplice Aliança à luta pela ampliação dos limites da Terra Indígena Buriti, discutem a participação dos Terena na guerra entre o Paraguai e a Tríplice Aliança, suas conseqüências na desterritorialização e reterritorialização do grupo, bem como suas significações no contexto do processo de ampliação dos limites da terra indígena Buriti em MS. O trabalho é fruto de uma perícia realizada por solicitação da Justiça Federal.

O texto de Nauk Maria de Jesus “A guerra justa contra os Payaguá (1ª metade do século XVIII)”, tem como objetivo apresentar a participação da câmara municipal da Vila Real do Senhor Bom Jesus do Cuiabá na guerra contra os índios Payaguá, na primeira metade do século XVIII. Na análise são utilizados, principalmente, os documentos pertencentes ao acervo do Arquivo Histórico Ultramarino.

No artigo “Uniedas: o cotidiano de uma igreja protestante entre os índios Terena”, Graziele Acçolini aborda o histórico e as atividades cotidianas que ocorrem na igreja Uniedas presente na aldeia Bananal, Posto Indígena Taunay / Ipegue, município de Aquidauana – MS. Bem como, as influências que acarretam na vida de seus adeptos. Mostra a forma como é vivenciada a religião protestante entre os Terena, tendo em vista que essa convivência pode nos fornecer pistas relevantes sobre a manutenção da identidade étnica e a reconstrução constante da visão de mundo própria desse povo indígena.

A autora Vanderlise Machado Barão trabalha os aspectos artísticos e cosmológicos na cultura material dos Guarani, como uma forma de expressão de seus mitos e filosofias. Faz alusão ao pensamento desses povos sobre o mundo que os cerca, e sua relação com o que chamamos de arte, que pode ser uma manifestação de aspectos cosmológicos e até psicológicos para expressar-se diante do coletivo. Há também as manifestações artísticas comercializadas e que possuem aspectos diferenciados para os grupos, distanciando-se do mundo cosmológico, mas ainda assim fazendo parte da cultura material, em seu texto intitulado “O mito e o espaço nas representações artístico-culturais dos Mbyá Guarani.”

O artigo de Sonia Maria Couto Pereira “Considerações sobre a fonte iconográfica na escrita da história indígena” cruza os saberes da Etnoistória e Antropologia, abordando o debate a partir de fontes iconográficas produzidas pelo pintor-viajante Hercules Florence, durante a expedição Langsdorff (1825-1829) que percorreu por via fluvial o interior do Brasil colônia. As fontes favorecem a compreensão do modus vivendi de povos em situação de contato e suas dinâmicas próprias no âmbito das representações gráficas e seus códigos culturais. A autora mostra quando o uso das imagens foi além do suporte para o verbal e o debate sobre a interpretação do historiador na descrição iconográfica se ampliou e conferiu novos desafios para a compreensão do outro na trajetória histórica.

Carlos Alberto dos Santos Dutra em “O território Ofaié pelos caminhos da história” instiga o leitor a rever a história da ocupação do território sul-mato-grossense, lança um novo olhar e novas perguntas sobre a tradicionalidade de diversas áreas indígenas que demonstram ter sido bem mais que simples áreas de migração de grupos isolados. O autor entende que muitas delas configuraram-se em autênticos territórios de ocupação tradicional de povos cuja presença foi falseada no curso da história, cuja construção em bases memorialistas contribuiu para o desaparecimento do elemento Ofaié desses territórios.

O artigo, “Índios no nordeste: história e memórias da Guerra do Paraguai” de autoria de Edson Silva inova pela superação das tradicionais ênfases no conflito bélico. As atuais abordagens procuram compreender as diversas fases do conflito, bem como os diferentes grupos sociais nelas envolvidos. O que nos diz os registros documentais sobre isso? Qual a memória oral dos povos indígenas sobre o recrutamento? Qual a memória da Guerra? E sobre o retorno e seus significados para a afirmação dos povos indígenas na Região? São questões discutidas nesse texto.

O professor Dr. Marco Antonio Barbosa nos contempla com sua Conferência intitulada “Os povos indígenas e as organizações internacionais: Instituto do Indigenato no direito brasileiro e autodeterminação dos povos indígenas”. Barbosa trata do tema a partir de sua experiência prática de advogado de povos indígenas do Brasil, desde o ano de 1981. Expõe a temática dos povos indígenas na luta por seus direitos dentro dos Estados e pelo reconhecimento internacional. Tem como objetivo contribuir para que aqueles que tratam com questões indígenas adotem uma visão mais comparatista, porque a existência das sociedades indígenas, contemporâneas das denominadas sociedades modernas necessitam uma visão pluralista do direito e das sociedades.

O artigo de Carlos Xavier de Azevedo Netto denominado “Informação e Memória – as relações na pesquisa”mostra que a relação entre informação e memória tem sido temática de pesquisas em diversos grupos e disciplinas no país. O autor faz suas reflexões na realidade observada no nordeste brasileiro e opta por discutir a relação entre informação e memória sob o prisma da questão do patrimônio cultural, quer de natureza material, quer imaterial, de modo sincrônico ou diacrônico. Parte dos pressupostos da Ciência da Informação, Arqueologia, História, Antropologia e das Teorias da representação e Semiótica. Essas abordagens estão centradas na questão da produção, tratamento, organização e disseminação da informação patrimonial com vistas a consolidar processos de criação e solidificação da cidadania.

O texto intitulado “as Representações do Mito do Minhocão: uma análise das narrativas orais pantaneiras”, de autoria de Daiana Bragueto Martins é um estudo teóricoliterário do mito do Minhocão presente na voz do pantaneiro. A autora enfatiza as variações das narrativas orais, ‘ela’ busca compreender os fatores que levam os narradores pantaneiros a atualizarem o mito. Por meio de análises consistentes de duas narrativas orais de um mesmo narrador que narra suas experiências vividas com o Minhocão em momentos diferentes de sua vida, permite compreender como esse processo de atualização da narrativa oral ocorre na cultura oral pantaneira, encontra uma variação de gênero das narrativas orais sobre o Minhocão, classificado como mito ou como lenda.

O trabalho de Marcelo Rodrigues Jardim intitulado “Representações ecológicas em narrativas orais: a voz pantaneira” tem por principal objetivo compreender qual seria a relação entre narrativas orais sobre o mito do mãozão, veiculadas por narradores pantaneiros, com a presença de regras morais, subentendidas ou não, daquela comunidade narrativa. O mãozão, conforme é apresentado pela comunidade narrativa pantaneira, tem por principal característica a defesa de sua morada: a mata. Assim, aqueles que a invadem sem pedir a devida licença, ou a depredam, são castigados física e psiquicamente. O narrador traz para as narrativas, no momento do diálogo, representações dos anseios coletivos e individuais.

Rubens Leonardo Panegassi em seu texto O cristianismo na América portuguesa e seu papel mediador na utilização do mundo natural: o caso da cauinagem discute os aparetos simbólicos em sua relação com a diversidade cultural americana e suas utilizações culturais, especialmente do ritual “cauinagem”.

O texto denominado “Festa em Homenagem a D. Pedro II em Minas: cultura, representações e identidades”de autoria de João Ricardo Ferreira Pires apresenta e analisa a festa que foi feita em homenagem a D. Pedro II em Minas Gerais em 1881 quando de sua viagem a essa província, apontando nela algumas idéias que se referem ao fim do governo imperial e às representações culturais construídas a partir da crise do imaginário monárquico brasileiro. O autor divide o artigo em duas partes, primeiramente inicia discutindo o conceito de festa apresentando duas vertentes dentro da historiografia e ao fim analisa os conceitos de representação e imaginário aplicados aos estudos de festa.

Marco Alexandre de Aguiar autor do artigo intitulado “Algumas questões político-partidárias e o perfil do eleitorado de Botucatu-SP na década de 50 e início dos anos 60”, mostra que o Brasil está atravessando um processo político de consolidação da democracia. O autor levanta discussões e reflexões sobre a trajetória da democracia brasileira, podendo trazer luz sobre problemas e questões que persistem. Situado cronologicamente, na década de 50 e início dos anos 60, o texto analisa a situação política de Botucatu, cidade do interior paulista. Observa assuntos como fidelidade partidária, perfil do eleitorado botucatuense, estabelece uma relação entre questões locais, estaduais e nacionais em torno do comportamento político.

O autor Fabiano Coelho em seu artigo “Camponeses e Abastecimento Interno na Colônia: algumas reflexões” problematiza algumas questões que envolvem os camponeses e o abastecimento interno na América Portuguesa. Segundo ‘ele’ em meio ao contexto colonial existiam os trabalhadores rurais livres que, por muito tempo, tiveram suas faces escondidas pela historiografia tradicional brasileira. Estes camponeses, entretanto, desempenharam um papel relevante na questão do abastecimento interno da Colônia, principalmente com a produção de gêneros alimentícios. Ficando às margens das grandes propriedades, estes camponeses provedores de alimentos poderiam ser considerados como a retaguarda das atividades latifundiárias.

Ainda nesta edição apresentamos o texto de autoria de Francisco Silva Noelli, resenhando o livro intitulado“Arqueologia”, de autoria do renomado arqueólogo Pedro Paulo Funari. Contamos também com a resenha do livro de Irina Podgornydenominado“El Argentino Despertar de las Faunas y de las Gentes Prehistóricas: Coleccionistas, estudiosos, museos y universidad en la creación del patrimonio paleontológico y arqueológico nacional (1875-1913).” Resenha elaborada por Lúcio Menezes Ferreira.

Da forma acima apresentada, o segundo número da Revista Eletrônica História em Reflexão (REHR), vem a público com uma variedade de abordagens em torno da historiografia, com um número considerável de análises metodológicas, interdisciplinaridade acentuada, objetos inovadores, temas relevantes, e propostas que dão a esse meio de divulgação do conhecimento a tônica de sua qualidade editorial conjunta. A discussão em torno da História é um constante desafio, seus problemas fazem desse periódico um veículo que busca dar oportunidade aos seus colaboradores, sem jamais perder de vista a qualidade dos textos e propostas postos sob nossa responsabilidade.

É com essa dinâmica que com grande satisfação e sempre buscando a melhoria, que a Universidade Federal da Grande Dourados, por meio de seus órgãos, em especial aqui ao Programa de Pós-graduação e aos discentes de Pós-graduação em História – Mestrado – colocam a disposição da comunidade acadêmica a segunda edição da Revista Eletrônica História em Reflexão (REHR). A todas e a todos, nossos votos de muito obrigado e excelentes leituras.

Leandro Baller

Thiago Leandro Vieira Cavalcante

Editores


BALLER, Leandro; CAVALCANTE, Thiago Leandro Vieira. Apresentação. Revista Eletrônica História em Reflexão. Dourados, v.1, n.2, jul. / dez., 2007. Acessar publicação original [DR]

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