Fronteiras, Migrações e Identidades nos mundos pré-modernos / Fronteiras – Revista Catarinense de História / 2020

A Ciência da História está interessada em compreender como as sociedades, nas mais distintas temporalidades, produziram para si e para os outros, diferentes formas de orientação e sentido no tempo, tanto para ações individuais quanto para as coletivas. Trabalhando com os indícios documentais e diversas historiografias disponíveis, o historiador consegue propor análises e reflexões que objetivam compreender, entre tantas possibilidades, os mecanismos de identificação, regulamentação social, processos conflituosos ou diplomáticos entre diferentes grupos sociais ou sociedades distintas. Em tempos de interações e conexões entre o local e o global, as ciências humanas tem se dedicado cada vez mais aos estudos das fronteiras, processos migratórios e identidades, de modo a discutir como estes fenômenos relacionam-se com a produção de orientação e sentido no tempo.

O dossiê Fronteiras, Migrações e Identidades nos mundos pré-modernos, proposto pelos professores Dominique Vieira Coelho dos Santos (FURB / Blumenau) e Renato Viana Boy (UFFS / Chapecó), abre espaço para questões dessa natureza, contemplando reflexões interdisciplinares que debatam as complexas relações entre fronteiras, migrações e identidades nos mundos pré-modernos. Reunimos aqui um grupo de seis artigos de pesquisadores e pesquisadoras que se dedicam ao estudo de temáticas situadas cronologicamente antes do período que chamamos de Modernidade, além de uma entrevista com o professor de História da África da Universidade Federal do Paraná, Otávio Luiz Vieira Pinto.

Dois artigos escolheram abordar a temática das sociedades pré-modernas enfatizando Roma Antiga. O primeiro deles, As trocas de correspondências entre Tibério César e a aristocracia senatorial durante seu afastamento para Capri (26 – 37 d.C.): uma análise dos crimes de traição nos Anais de Tácito, escrito por Rafael da Costa Campos, teve como objetivo expor a importância das trocas de correspondências como fundamental ferramenta política e administrativa do Principado. A análise ficou concentrada no período em que Tibério César se afastou de Roma e residiu na ilha de Capri (26 – 37 d.C.). O afastamento do princeps foi um marco de inflexão política em seu governo, e as trocas de correspondências apresentadas por Tácito em seus Anais expõem o seu impacto sob a aristocracia mediante a intensificação dos casos de acusações e condenações pelo crime de traição (maiestas). O segundo artigo, intitulado Uma República degradada: breve estudo da guerra de Jugurta de Caio Salústio Crispo, de Alice Maria de Souza, por sua vez, analisa a obra Guerra de Jugurta, de Caio Salústio Crispo, escrita durante o Segundo Triunvirato. Considerando os elementos exteriores ao texto em si – tais como contexto, objetivos do autor e gênero – interpreta o referido documento não somente como produto de apropriações do passado, mas, também como produtor de novas representações, servindo como veículo de transmissão e ressignificação da memória. Vemos, então, uma problemática envolvendo História e Memória. É o que faz Erick Carvalho de Mello, mas, agora, abordando a temática do celtismo e da celticidade. Sua reflexão, proposta no artigo O Mito e a cultura de memória Celtas: Uma convergência de imaginários, parte do campo da Memória Social, não da Ciência da História, mas, em um constante diálogo interdisciplinar, aborda o papel das diferentes apropriações do que se entende por “cultura celta” na formação das identidades nacionais de grupos como irlandeses, escoceses e bretões franceses. O autor procurou identificar como o mito do celtismo é construído na História recente e como a partir deste mito uma cultura de memória é formada e nos possibilita ter uma compreensão mais aprofundada sobre os conflitos históricos que esses grupos enfrentam hoje, sem deixar de dialogar com a forma como a temática tem sido tratada quando o foco são as populações prémodernas, se decidirmos denominá-las de “celtas” ou não.

O artigo Multiculturalidade e a Christiana Civilitas na Britannia de Guildas (s. VI), escrito a quatro mãos por Helena Schütz Leite e Renan Frighetto, se propõe a discutir sobre as transformações observadas no século VI na Britannia do século VI não sob o prisma da decadência e destruição do mundo romano no Ocidente europeu, visão muito presente na tradição historiográfica sobre o período. Diferente disso, os autores propõem, através do estudo da obra De Excidio Britanniae, de Gildas, perceber a pluralidade cultural que é possível observar ali, e a busca por uma identificação que aproximasse dos diferentes reinos da Britannia na Antiguidade Tardia.

Outro artigo que também lida com a questão das identidades e historiografia é A fronteira entre cristãos e muçulmanos: uma terra de ninguém?, escrito por Márcio Felipe Almeida. Entretanto, o ponto central das análises do autor está no espaço de fronteira disputado por populações cristãs e islâmicas no século XIII. Vale ressaltar que a fronteira, neste caso, não é uma linha divisória entre dois territórios, como se pode pensar à primeira vista. Diferente disso, neste artigo, Márcio Almeida discute a fronteira como sendo, ela mesma, um território pretendido pelos dois grupos em questão.

O último artigo deste dossiê é aquele que avança mais próximo do fim do período chamado de pré-moderno, intitulado A Colonização Oriental e os Processos de Reformulação Rural em Brandemburgo (séculos XII–XIV). Neste artigo, Álvaro Mendes Ferreira se dedicou a analisar o processo de transformações no espaço rural do Europa oriental, ocorridas no período assinalado, em virtude do processo de consolidação do regime senhorial. Tendo os processos na Marca de Brandemburgo como estudo de caso, o autor busca compreender como os vilórios eslavos se enquadravam neste cenário de transformações.

Por fim, apresentamos ainda uma entrevista com o professor Dr. Otávio Luiz Vieira Pinto, que tem dedicado suas pesquisas ao mundo persa e às trocas culturais entre os grupos da costa Suaíli, na África, e os grupos árabes e iranianos do Oriente Médio, entre os séculos VI e XI. Atualmente, Otávio Vieira Pinto é professor de História da África da Universidade Federal do Paraná, pesquisador do Middle Persian Studies (MPS) e do NEMED (Núcleo de Estudos Mediterrânicos), além de colaborador do projeto internacional Networks and Neighbours.

Além dos textos que compõem o dossiê, este número traz também dois artigos e duas resenhas. O artigo de Darlan Damasceno e Gilmar Arruda, intitulado Religiosidade e Natureza: imigrantes ucranianos e a transformação do meio ambiente (Paraná 1890-1915), aborda como a religiosidade dos imigrantes ucranianos atuou no processo de ressignificação e transformação do meio ambiente entre os anos 1890 e 1915, na região centro-sul do Estado do Paraná. As fontes utilizadas pelos autores, indicam que a religiosidade dos imigrantes foi fundamental no processo de (re)construção da realidade social nas colônias, e para moldar o modo de vida dos indivíduos através de esquemas de percepção inscritos em suas ações.

No texto de Cássila Cavaler Pessoa de Mello, De estrangeiro a cidadão: o processo de naturalização instaurado em 1832 e seus limites, a autora discute o processo de naturalização instaurado no Império do Brasil a partir da Lei de 23 de outubro de 1823. Aponta os motivos que estimularam os estrangeiros a buscarem o título de cidadão brasileiro e expõe os trâmites e as dificuldades enfrentadas por aqueles que optavam por se tornar cidadãos. O texto explora tanto a perspectiva estatal, quanto a dos indivíduos neste percurso.

Na seção resenha, temos dois instigantes textos. Um novo estudo sobre a vida de Marx, uma resenha de Daniel de Souza Lemos, trata da obra Karl Marx: uma biografia dialética, publicada no Brasil em 2019, de autoria de Angelo Segrillo, professor de História Contemporânea e coordenador do Laboratório de Estudos da Ásia do Departamento de História, na USP. O texto de Isabel Schapuis Wendling, intitulado Modelando Condutas: uma resenha da obra sobre os poderes nas escolas católicas masculinas no Brasil, resenha a obra Modelando Condutas: educação católica em escolas masculinas de Roseli Boschilia, publicada pelo museu Paranaense em 2018.

Este dossiê e os demais artigos que compõem o número 35 da Fronteiras: Revista Catarinense de História estão fundamentados na proposta de uma história plural, que dispõe de espaço às múltiplas possibilidades de análises históricas de populações, personagens e acontecimentos em tempos recuados, definidos aqui como pré-modernos até a atualidade mais recente, focos dos textos que se enquadram fora do nosso dossiê. Afinal, se a História é a Ciência dos seres humanos no tempo e quem faz História é como o ogro da lenda, que, ao farejar carne humana, vê ali sua caça, para lembrarmos uma célebre reflexão do medievalista francês March Bloch, não é possível nos contentarmos com qualquer narrativa supostamente historiográfica que deixe de contemplar estas outras dinâmicas espaço-temporais tão importantes para compreendermos nossa própria historicidade.

Desejamos uma proveitosa leitura!

Dominique Vieira Coelho dos Santos (FURB)

Renato Viana Boy (UFFS)

Organizadores do Dossiê

Samira Peruchi Moretto (UFFS) Editora


SANTOS, Dominique Vieira Coelho dos; BOY, Renato Viana; MORETTO, Samira Peruchi. Apresentação. Fronteiras: Revista catarinense de História. Florianópolis, n.35, 2020. Acessar publicação original [DR]

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Sociedade, Cultura, Trabalho: Diálogos sobre fronteiras no Mundo Rural (II) / Vozes Pretérito & Devir / 2020

[Sociedade, Cultura, Trabalho: Diálogos sobre fronteiras no Mundo Rural (PARTE – II) ]. Vozes Pretérito & Devir. Teresina, v.11, n.2, 2020. Acessar dossiê [DR]

Fronteiras, sertões e território / Projeto História / 2020

O número 69 da Projeto História: Revista do Programa de Estudos Pós-Graduados em História, da PUC / SP, traz a público o dossiê “Fronteiras, sertões e território”. Em linha com nosso projeto editorial, interessa-nos abrir espaço para multiplicidade teórica, temática e regional.

Esse número buscou jogar luz para a produção historiográfica acerca do Brasil de dentro, mas também de regiões afastadas dos centros de poder de outros países da América do Sul. Esse número pretende abrir espaço para os estudiosos das zonas interioranas, dos sertões profundos, das fronteiras em seus vários sentidos. Sertão, aqui, não significa apenas o semiárido nordestino, mas sobretudo o interior, variado e múltiplo, áreas culturais, históricas e geográficas cuja historicidade nem sempre tem o devido espaço na historiografia brasileira.

A ampliação dos programas de pós-graduação durante os governos Lula (2002-2010) e Dilma (2010-2016) foi notável, ampliando a produção historiográfica, inclusive em universidades localizadas no interior do país. Apesar da interrupção da expansão e, pior dos ataques a universidade, é preciso reconhecer que uma considerável produção intelectual. Mas é preciso difundir esse conhecimento, nascido, quase sempre o financiamento público.

Pensar as fronteiras, os sertões, os interiores, os territórios sempre em disputas a partir da história reconhece a inevitável interdisciplinaridade, aberto às conexões geográficas, artísticas (da pintura à literatura), geopolíticas (e cartográficas), sociológicas e simbólicas que a temática impõe, temática de nenhum modo presa a recortes temporais fechados.

Não é por outra razão, portanto, que abrimos o dossiê com o artigo Leituras da apropriação territorial europeia na sedimentação de identidades no Brasil, de Jorge Luiz Barcellos da Silva. Nele, o autor buscou identificar de que maneira as diferentes leituras das territorialidades se constituíram em ferramentas auxiliares na sedimentação de identidades no Brasil. Partindo da análise de pinturas de Ekhout e mapas com distintas representações da América portuguesa, Barcellos da Silva demonstra como essas representações do território e de seus habitantes instrumentalizaram a sistematização do processo da posse europeia em diferentes partes do mundo. No caso específico do Brasil, o autor argumenta que foram os fundamentos topológicos que enquadraram os discursos e práticas dando sentido às apropriações territoriais e ao estabelecimento de fronteiras, conferindo novos contornos ao entendimento do que seria o Brasil.

Logo em seguida apresentamos o texto de Gabriel Passetti, intitulado “La cuestión de limites”: intelectuais, diplomatas e a disputa pelas fronteiras entre Argentina e Chile (séculos XIX a XXI). A sensibilidade para temas latino-americanos é um firme compromisso da Projeto História, que não hesitou em nunhum momento em aceitar a proposta. No artigo, o autor coloca em foco as discussões acerca da linha internacional de fronteiras a partir de uma perspectiva comparada e conectada, dando protagonismo às conexões entre intelectuais, diplomatas, políticos e militares. O artigo apresenta o modo como a produção dos intelectuais sobre a questão dos limites entre Argentina e Chile foi levado à esfera pública, culminando na mobilização e construção de rivalidades e tensões internacionais que quase acabou levando os países à guerra em três ocasiões.

O terceiro artigo do dossiê, intitulado Visões sobre o humano: a fronteira-sertão do Brasil meridional (1889-1905), é assinado por Bruno Pereira de Lima Aranha. Neste trabalho, de notável qualidade, o autor se propõe a analisar os relatos das expedições brasileiras destinadas à fronteira com a Argentina entre 1889 e 1905, na atual província de Misiones (Argentina) e regiões sudoeste do Paraná e oeste de Santa Catarina, bem como o Rio Grande do Sul (Brasil). O objetivo é alargar a ideia de fronteira, tradicionalmente pensada a partir de um marco delimitador, inserindo-a em uma concepção baseada na experiência de fronteira móvel, caracterizada por uma borderland, idealizada por viajantes como um sertão a ser ocupado formalmente pelo Estado. O autor destaca as percepções acerca dss populações sertanejas desses espaços, caracterizada por diversas nuances, especialmente pela transnacionalidade do espaço, cuja demarcação, de fato, sequer havia ocorrido.

Na sequência apresentamos o artigo Reflexões sobre uma zona de fronteira no século XVII: a província do Guairá e Sertão dos Carijós, de Dora Shellard Corrêa. Neste trabalho a autora discute as relações de poder e o conhecimento que os europeus detinham sobre fronteiras dos impérios ibéricos localizadas na porção Sul do continente americano. Trata-se de um espaço indígena, localizado no atual estado do Paraná, mas que, na segunda metade do século XVI e primeiras décadas do XVII, configurava parte da província espanhola do Guairá, também conhecida como Sertão dos Carijós pelos portugueses. Seu objetivo é discutir esse movimento das fronteiras europeias na América durante o mercantilismo, destacando que a realidade do conceito de fronteira é muito mais complexa do que a que vem sendo descrita, sobretudo se levarmos em conta uma dinâmica espacial indígena à qual os portugueses e demais europeus que ocuparam a região tiveram que se adaptar.

O quinto artigo deste dossiê intitula-se A ferrovia e a ocupação do sertão paulista: a Companhia Paulista e sua linha tronco oeste, pesquisa de Cristina de Campos e Luciana Massami Inoue. As autoras analisam o papel das ferrovias na estruturação do território paulista durante o século XIX, destacando dois momentos: o primeiro, que seguia o ritmo do avanço do café pelo interior; e o segundo, quando as companhias ferroviárias passaram a antecipar as plantações. É neste segundo momento que o foco das autoras irá se concentrar, em especial no que diz respeito à linha tronco oeste da Companhia Paulista, que teriam constituído uma espécie de modelo de ocupação de sertão, de acordo com o que foi observado nas áreas por onde se constituíram as principais companhias ferroviárias paulistas.

O artigo intitulado A escola “Pluvífera” e as secas no Nordeste do Brasil: o caso do “Gargalheiras” (1877-1959), assinado por Yuri Simonini, Ângela Lúcia Ferreira e Adriano Wagner da Silva, trata da duradoura ressonância que as discussões e críticas feitas pelo Instituto Politécnico sobre as secas de 1877 no Nordeste tiveram no debate sobre a influência climática a partir da construção de grandes reservatórios. Recorrendo aos métodos e a contribuição historiográfica da História Ambiental, os autores utilizaram os relatórios governamentais a fim de detalhar as teorias surgidas no Oitocentos que acabaram por legitimar propostas e edificações de barragens levantadas no século seguinte como foi o caso de Gargalheiras, em Acari, no Rio Grande do Norte.

Em seguida publicamos O Nordeste brasileiro e o Noroeste argentino: o sertão cearense e o chaco seco santiagueño em meio às secas da década de 1930, assinado por Leda Agnes Simões de Melo. Nele a autora se dedica a uma análise comparada das coberturas jornalísticas da forte seca que atingiu o estado do Ceará, no Nordeste brasileiro, e a província de Santiago del Estero, no Noroeste argentino, durante a década de 1930. Os periódicos analisados pela autora foram o Correio da Manhã, do Rio de Janeiro, e El Mundo, de Buenos Aires. Seu principal objetivo é investigar como as construções discursivas da cobertura jornalística de ambos periódicos estavam ligadas ao padrão de sociedade moderna desses territórios no decorrer dos séculos.

O oitavo artigo deste dossiê, escrito por de Juciene Batista Felix Andrade, intitula-se Os sertões em debate: fronteiras, secas e instituições. Nele a autora problematiza o tema das “secas” no Nordeste a partir de uma perspectiva historiográfica, propondo uma breve incursão nos reportórios de memória estabelecidos nos mais distintos suportes documentais. O destaque conferido pela autora à essa diversidade documental e narrativa acerca das “secas” serve para deslocar o olhar dos historiadores dos sertões de um repertório já muito empregado e consagrado, mais ligados à literatura e ao folclore, para outras temáticas, o trabalho, a economia, as técnicas, os corpos, etc. A pesquisa se vale de importante documentação, como os relatórios técnicos, plantas baixas, ofícios, telegramas, jornais, etc. A diversificação da problemática e das fontes contribuem para alargamentos e enriquecimento do que poderíamos chamar de história social dos sertões.

Em seguida apresentamos o artigo “Doutores” do Sertão: Discursos do III Congresso Médico do Brasil Central (1951), de Éder Mendes de Paula. Neste trabalho, o autor analisa os discursos proferidos durante o III Congresso do Brasil Central e V do Triângulo Mineiro, a fim de compreender as relações entre região e nação. Ao perceber a oposição de sentidos que os médicos atribuíam aos conceitos de saúde e doença nos estados do Brasil central em relação aos do litoral, o autor propõe uma reflexão acerca da construção das concepções de saúde e doença. A pesquisa também trata da própria identidade dos médicos, a partir de uma perspectiva sertaneja segundo as abordagens dos próprios participantes do evento em Goiânia no ano de 1951.

O artigo seguinte, escrito em formato ensaístico, intitula-se Memória, escrita de si e identidade nos sertões: ensaio sobre a busca por novas alteridades nas fronteiras, por Evandro Santos. Neste trabalho o autor parte da problematização acerca da dimensão social da produção do conhecimento científico para refletir acerca das possibilidades e limites da escrita da história desde os sertões. No que diz respeito à temática mais específica deste dossiê, o artigo investiga o impacto exclusivamente exterior sobre regiões fronteiriças, como os sertões, apresentando um estudo de caso do sertão do Rio Grande do Norte como resultado de uma pesquisa mais ampla sobre os sertões nordestinos.

O fechamento deste dossiê se dá com o artigo O Brasil sertanejo: a construção do espaço nacional em O sertanejo (1875) de José de Alencar, escrito por Artur Vitor de Araújo Santana e Natanael Duarte de Azevedo. Neste trabalho os autores partem da literatura de José de Alencar, em particular o romance O sertanejo. O objetivo é analisar a construção de um espaço nacional no qual o interior do Brasil é visto como uma paisagem autêntica e o vaqueiro é o principal personagem na formação social do país. Para tanto, Santana e Azevedo recorrem a uma análise mais internalista do romance, buscando caracterizar a geografia física sertaneja e relacioná-la aos debates e concepções da época sobre a nação. O estudo não deixa de abordar a recepção da obra de Alencar nos periódicos do Rio de Janeiro.

Na seção dedicada aos artigos livres, a Projeto História publica O Menino do Gouveia: a história real que inspirou o primeiro conto homoerótico brasileiro de 1914, de Valmir Costa. No artigo, o autor reconstitui o lançamento do primeiro conto homoerótico do Brasil, “O Menino do Gouveia”, lançado em 1914, pela revista erótica O Rio Nu (1898-1916). Pautada em distintos periódicos cariocas da época, a pesquisa revela que o conto é inspirado em fatos reais e que o nome Gouveia acabou por se transformar em gíria e mesmo lenda urbana no Rio de Janeiro das primeiras décadas do século XX. O trabalho de reconstituição das condições de publicação e circulação do conto revela, dentre outros aspectos, os espaços e as opções sócios sexuais para a experiência da homossexualidade masculina na virada do século XIX para o XX.

Já o segundo artigo livre, chamado a A guinada pragmática da linguagem e “a invenção do cotidiano”, de Gerson Luís Trombetta e Fabrício Antônio Antunes Soares, nos apresenta as características gerais da “guinada pragmática da linguagem”, especialmente na filosofia de Ludwig Wittgenstein. Mais que isso, os autores também apontam como as teses centrais dessa “guinada da linguagem” influenciaram a obra de Michel de Certeau, acerca da narrativa historiográfica, postulando que a maneira como se dá o diálogo teórico entre Certeau e Wittgenstein abre perspectivas para a narrativa historiográfica que extrapolam as limitações empiristas.

A Projeto História, interessada em valorizar a produção de jovens pesquisadores, mantém há muitos anos a seção Notícias de Pesquisas, espaço que tem o objetivo de valorizar a produção de pesquisas em andamento. Este volume traz a pesquisa de mestrado de Bruna Carolina de Oliveira Rodrigues, intitulada O embaixador de Hollywood e o cinema brasileiro (1953 – 2000). Nela a autora reconstitui a trajetória de Harry Stone, um lobista dos interesses do cinema estadunidense no Brasil, durante o período em que este viveu no país.

Por fim, o volume 69 da revista se encerra com duas resenhas. A primeira, da pesquisadora Thays Fregolent de Almeida, mais ligada ao dossiê, Fronteiras, sertões e território, trata da obra coletiva Rondon: inventários do Brasil (1900-1930), organizada pelas professoras Lorelai Kury e Magali Romero Sá, em 2017. Já a segunda resenha, em linha com o projeto editorial da revista, comprometido com a pluralidade, abre espaço para a história da escravidão durante o período imperial no Brasil. Em Estado imperial, ordens religiosas, senhores e escravos em um contexto de crise, William de Souza Martins debate a tese de doutorado de Sandra Rita Molina, publicada em livro pela Paco Editorial em 2016.

É parte do esforço editorial da Projeto História: Revista do Programa de Estudos Pós-graduados em História da PUC / SP criar espaços para que pesquisadores de outras universidades, de diferentes regiões do Brasil, e mesmo outros países, possam contribuir com suas pesquisas.

Esperamos que os leitores apreciem criticamente os trabalhos selecionados, e que eles possam ter recepção fértil, gerar novas pesquisas e outras inquietações.

Alberto Luiz Schneider

José Rogério Beier


SCHNEIDER, Alberto Luiz; BEIER, José Rogério. Apresentação. Projeto História, São Paulo, v.69, 2020. Acessar publicação original [DR]

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Sociedade, Cultura, Trabalho: Diálogos sobre fronteiras no Mundo Rural (PARTE I) / Vozes Pretérito & Devir / 2020

No dia 12 de fevereiro de 2020, enquanto estávamos às vésperas da publicação deste Dossiê, intitulado Sociedade Cultura e Trabalho: diálogos sobre fronteiras no Mundo Rural, completou quinze anos do assassinato da Ir. Dorothy Stang, em Anapu, na Prelazia do Xingu, no Pará, em 12 fevereiro de 2005, morta com seis tiros em uma emboscada por contrariar interesses de grupos poderosos empenhados na devastação da floresta amazônica e expulsão das populações tradicionais. Dorothy, natural de Dayton, Estado de Ohio, Estados Unidos, no dia 07 de junho de 1931, teve sua trajetória pastoral e social associada aos direitos ambientais e às causas dos trabalhadores rurais nos confins da Amazônia. Trabalhadores rurais migrantes, especialmente do Nordeste, em condições de trabalho escravo, povos tradicionais e indígenas, enfrentam um contexto de exploração e poder do latifúndio na Amazônia. Dados do IBGE (2006) apontam o Brasil como um dos países que possuem estruturas fundiárias mais concentradas no mundo, a maioria sob o controle hegemônico do agronegócio nacional. Por sua vez, os conflitos no campo e luta pela terra avançam e se perpetuam pelos confins do Brasil com aumento do número de mortes, expulsões, torturas e ameaças, compilados e divulgados anualmente pela Comissão Pastoral da Terra – CPT. O assassinato da Ir. Dorothy endossa o cenário de violência e assassinatos de lideranças rurais.

A concentração fundiária que impende o acesso à terra por milhares de trabalhadores rurais como o avanço da grande fronteira livre, mantém famílias de trabalhadores e trabalhadoras rurais aprisionadas à condições históricas de exploração na terra e vulneráveis à migração para o trabalho forçado / escravo, prática contínua transmitida a gerações sucessivas. Nesse sentido, tomamos para o debates sobre o Mundo Rural a percepção de suas fronteiras fluídas, para além da sua compreensão política uma fronteira de muitas e diferentes coisas, como enumera José de Sousa Martins: “fronteira de civilização (demarcada pela barbárie que nela se oculta), fronteira espacial, fronteira de culturas e visões de mundo, sobretudo, fronteiras do humano” (2014, p.11).

Diante desse quadro, e atentos que a problemática entorno da terra, trabalhadores e fronteiras deve ser pensada desde diferentes ângulos, sociológicos, antropológicos, culturais, econômicos e históricos, provocamos a realização de um Colóquio com posterior produção de Dossiê homônimo, no sentido de elaborar reflexões sobre a questão, repensar os modos de vida e trabalho no Mundo Rural como também estimular o desenvolvimento de ações voltadas para esse campo. Este dossiê é resultado do esforço dos pesquisadores das áreas de História, Ciências Sociais e Pedagogia, reunidos em torno das atividades do Núcleo de Documentação e Estudos em História, Sociedade e Trabalho – NEHST da Universidade Estadual do Piauí – UESPI.

Os artigos selecionados para o Dossiê e Seção de Artigos Livres, foram apresentados em comunicações orais do Colóquio no qual foram reunidos pesquisadores de diferentes áreas de conhecimento provenientes de diferentes IES, da região Nordeste do país. Os autores / as entrecruzam diferentes formas de lidar com a pesquisa, desvelam fronteiras fluidas entre as disciplinas e apresentam possibilidades de análise das vidas de sujeitos históricos específicos: migrantes, trabalhadores, rurais e urbanos, escravizados e indígenas em contextos e temporalidades diversos.

No artigo intitulado Entre bons patrões e trabalhadores obedientes? Terra, trabalho e resistências em Miguel Alves / Piauí. (1950-1990), Marcelo Aleff de Oliveira Vieira e Eurípedes Antônio Funes, analisam as relações sociais estabelecidas entre trabalhadores rurais e proprietários de fazendas de Miguel Alves. Teresina, município situado na região Meio Norte piauiense, cenário de múltiplas disputas e tensões no campo.

Em A seca de 1888 / 1889 e seus efeitos na província do Piauí representada no periódico A Imprensa, Marcus Pierre de Carvalho Baptista, Francisco de Assis de Sousa Nascimento e Elisabeth Mary de Carvalho Baptista, a partir de pesquisa bibliográfica e documental hemerográfica, por meio do periódico A Imprensa, evidenciam elementos impostos no contexto da seca à população da província: morte do gado, das plantações, aumento de preço de alimentos e, notadamente, a migração de pessoas de províncias próximas, acarretando outros problemas.

Helane Karoline Tavares Gomes em Etnicidade e mobilização indígena: estratégias de reivindicação e demarcação das áreas indígenas no Estado do Piauí (2000-2018), analisa as estratégias utilizadas no processo de reivindicação ao acesso à terra pelos povos indígenas do Piauí entre 2000 a 2018. O estudo sobre as mobilizações sociais indígenas associadas à construção das etnicidades e reconhecimento da história desses sujeitos inaugura uma nova página da história indígena do Estado.

Em Migrações Ceará- Piauí (1940-1970): Elucidando algumas razões para migrar à luz de narrativas orais, Lia Monielli Feitosa Costa apresenta estudo acerca dos movimentos migratórios do Ceará para o Piauí, no período de 1940-1970, tendo como veículo de ideias e aportes teóricos o testemunho oral de trabalhadores campesinos. Segundo a autora, o deslocamento de trabalhadores cearenses pode ser entendido através do estudo da formação das tendências dos fluxos migratórios, cujas redes de sociabilidade foram delineadas com lastro na década de 1930, período no qual projetos pessoais e coletivos sofreram influência a partir de experiências de migração em direção ao Piauí, que persistiram ao longo das décadas seguintes.

No artigo, A seca de 1979 através do cotidiano dos trabalhadores de Bocaína, Picos- PI (1979-1996) as autoras, Cristiana Costa da Rocha e Milena de Araújo Leite analisam a partir da documentação relacionada ao projeto de construção da Barragem de Bocaína e das narrativas orais, situações que evidenciem as relações de trabalho estabelecidas no contexto dessa obra considerando os conflitos, salários, carga horária, condições de trabalho, e os equipamentos utilizados por esses trabalhadores.

Em A Repartição Especial de Terras Públicas na Província do Piauí (1858-1860): política, burocracia e mediação de conflitos, Cássio de Sousa Borges apresenta a atuação da Repartição Especial de Terras Públicas na Província do Piauí, entre os anos de 1858 e 1860. Mobilizada sua criação pelo Decreto Imperial nº 1318 de 30 de janeiro 1854, que regulamentou a execução da Lei de Terras de 1850, a criação desta repartição pública, com sede em Teresina, foi a primeira experiência de gestão fundiária das terras do Piauí após o fim do sistema colonial de sesmarias.

Em “Era liberto e hoje privativamente é captivo”: Ação de liberdade na cidade de Teresina em 1860, Talyta Marjorie Lira Sousa Nepomuceno estuda as demandas judiciais acerca dos processos de liberdade, demonstrando a relação conflitante entre os senhores e escravizados e a interferência do Estado no processo de negociação. A autora toma como fontes para o estudo os registros das cartas de alforria nos Livros de Notas e Ofícios do Cartório de 1º Ofício de Notas da cidade de Teresina; os relatórios de Presidente de Província; e uma ação de liberdade registrada na Secretária de Segurança Pública da Província do Piauí em 1860.

Em O Vínculo com a Terra e as Diferentes Categorias de Trabalhadores Rurais Livres no Piauí Oitocentista, Ivana Campelo Cabral, dialoga sobre sociedade rural no Piauí oitocentista marcada pela presença de sujeitos diferenciados em decorrência das funções que desempenhavam e a posição jurídico-social que ocupavam. Assim, a autora apresenta e caracteriza cada uma das categorias, expondo suas semelhanças, diferenciações e as atividades desenvolvidas por cada uma destas.

No artigo intitulado Pensamento ecológico de Gilberto Freyre na obra nordeste sob o olhar da história ambiental, Daniela Fontenele Rocha e Francisco Gleison da Costa Monteiro analisam como Gilberto Freyre na obra Nordeste, publicada em 1937 pela editora José Olympio discute temáticas semelhantes à História ambiental, e suas contribuições para estruturação desse campo de saber constituído na década de 1970. Para tanto, os autores levaram em consideração a análise do contexto de produção da obra e do conhecimento que proporcionou a escrita do autor. Tais proposições os induziram a buscar indícios para mapear a formação de Freyre e as articulações travadas, com autores e correntes, no âmbito de suas influências na produção textual e a ensaiar o pensar ecológico como ponto nodal de sua composição textual.

Alcebíades Costa Filho, Francisco Rairan dos Santos Vilanova e Salania Maria Barbosa Melo, no artigo intitulado O cultivo de alimentos em áreas do leste do Maranhão: Um olhar para o município de Matões, refletem sobre a cultura de gêneros alimentícios que se instalou nos municípios do leste maranhense no século XVIII, correlacionada com a pecuária, atividade econômica considerada pela historiografia como de fundamental importância na ocupação do território.

No artigo (Re)Configurações das Imagens do Sertão no Cinema Brasileiro, José Luís de Oliveira e Silva no sentido de pensar a construção imagética do sertão no cinema brasileiro, propõe uma reflexão mais ampla sobre a relação entre o fazer historiográfico e os usos de narrativas ficcionais, não para hierarquizar ou opor uma à outra, mas como forma de perceber os modos como a ficção extrapola os aspectos da temporalidade vivida, habilitando-se a materializar, de forma imaginativa, os possíveis não realizados da história.

Em O movimento dos trabalhadores sem teto e a luta pelo direito à cidade em Recife, Igor de Meneses Silva, Jennyfer Annemberg Burlamaqui das Neve e Jully Gardemberg Burlamaqui das Neves abordam luta do Movimento dos Trabalhadores Sem Teto (MTST) em Recife, tendo como objetivo analisar as dificuldades encontradas e as ações estratégicas que podem ser adotadas pelo movimento na luta pelo reconhecimento do direito à moradia digna na capital de Pernambuco.

Em Reforma Trabalhista, precarização do trabalho e imperativos do capital, André Conceição de Sousa e Patrícia Soares de Andrade analisam alguns pontos da Reforma Trabalhista (Lei 13.467 / 17) no que diz respeito a flexibilização do trabalho. Segundo os autores a reforma trabalhista ampliou as possibilidades de flexibilização do trabalho, seja através da terceirização, trabalho em regime parcial ou mesmo intermitente, buscando atender a interesses de instituições internacionais e nacionais, respondendo também aos imperativos da acumulação de capital.

Yasminn Escórcio Meneses da Silva e Marcelo de Sousa Neto no artigo intitulado Sob o Signo das Águas e do Esquecimento: trabalho feminino e modernização dos espaços sob olhar das lavadeiras de roupas (Teresina, década de 1970) utilizam a História Oral para compreender a atividade das lavadeiras de roupas na cidade de Teresina na década de 1970, para tanto consideram o constante aumento de mulheres nas margens dos rios na execução da tarefa, como parte dos resultados da intensa migração que se tornou frequente nos anos que sucederam o chamado período do “milagre econômico” dos governos militares, ampliando o número de pessoas sem renda e sem perspectivas nas capitais brasileiras em busca de melhoria de vida.

Na Seção Especial do Dossiê, Maurício Fernandes faz uma abordagem filosófica no artigo intitulado Tecnologia e Ruralidade: Considerações a partir da Tese da Colonização de Jürgen Habermas. O autor discute a problemática do avanço tecnológico no campo tendo como recorte norteador a teoria comunicativa de Jürgen Habermas, e dentro desta, mais precisamente, a tese da colonização. Nesse sentido, analisa o conceito de colonização utilizado por Habermas, que fornece elementos enriquecedores para uma compreensão do atual quadro de desenvolvimento do campo, bem como, uma compreensão dos problemas que envolvem os usos da tecnologia no âmbito do campo.

A edição está dividida em duas partes, além do Dossiê na seção de Artigos Livres os autores analisam fenômenos históricos, sociais, políticos e culturais da história e cultura regional, a partir de múltiplos objetos; ainda assim, aponta perspectivas que se desenrolam no tempo presente e tal é a complexidade que as envolvem que nos contentamos em ser Ciência e não fazer exercícios de natureza profética.

Antonio Alexandre Isídio Cardoso – UFMA

Cristiana Costa da Rocha – UESPI

José da Cruz Bispo de Miranda – UESPI

Robson Carlos da Silva – UESPI

Salania Maria Barbosa Melo – UESPI / UEMA

Teresina, maio de 2020


CARDOSO, Antonio Alexandre Isídio; ROCHA, Cristiana Costa da; MIRANDA, José da Cruz Bispo de; SILVA, Robson Carlos da; MELO, Salania Maria Barbosa. Apresentação. Vozes Pretérito & Devir. Teresina, v.11, n.1, 2020. Acessar publicação original [DR]

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Fronteiras Amazônicas / Revista Brasileira de História / 2019

A Amazônia e as fronteiras da História

Em audiência ocorrida no Senado brasileiro, no mês de junho de 1976, o paisagista e expoente do naturalismo Burle Marx denunciava que a Amazônia havia sido vítima do maior incêndio da história do planeta. Os satélites da Nasa tinham então registrado uma queimada florestal de 25 mil km2 no sudeste da região. A área atingida situava-se na intersecção de várias fazendas de gado. O fato foi amplamente comentado na imprensa internacional. Aquecia-se o debate em torno das estratégias desenvolvimentistas para se superar o chamado atraso regional (Acker, 2014, p. 22-23). No último quartel do século XX, a Amazônia tornou-se um capítulo importante da contestação da noção de progresso. Nela, o rápido avanço de novas frentes de exploração capitalista (protagonizado por grandes projetos agrominerais e por agências governamentais) era representado pelas classes dirigentes brasileiras como a aceleração do tempo histórico tendo em vista a antecipação do desenvolvimento. O otimismo em relação à alavancagem dos índices de bem-estar da população regional por meio de grandes projetos entrou em crise sobretudo nos anos 1980. Ao lado da denúncia dos negativos impactos sociais causados pela expansão das frentes de exploração, ganhava força a tese de que era necessária e urgente a criação de formas de produção econômica que não destruíssem a natureza e os modos de vida tradicionais.

Enfocar as fronteiras amazônicas nos permite colocar em discussão balizas de grandes narrativas históricas. De um lado, noções como progresso e atraso têm aí se desdobrado em formação de latifúndios, degradação ambiental e trabalho escravo ou degradante, num flagrante contraste entre promessa e realização. Por outro lado, a história nacional pretensamente monocultural encontra na sua diversidade sócio-histórica uma via de deslegitimação. Como já apontara Certeau (2008, p. 89), os fenômenos de fronteira nos possibilitam colocar em xeque modelos totalizantes, pois o contato com o diferente abala a pretensão de universalidade daquilo que, na verdade, é apenas uma parte. Dentro mesmo do espaço amazônico tem ocorrido, nas últimas décadas, a institucionalização de territórios (terras indígenas e quilombolas, reservas extrativistas, unidades de conservação ambiental…) visando à preservação da natureza e dos chamados povos tradicionais. Trata-se do desdobramento de uma longa história de lutas que foram conformando fronteiras intrarregionais ainda hoje contestadas, ameaçadas e corajosamente defendidas (Wanderley, 2018). Amazônias indígena, quilombola, ribeirinha e urbana, entre outras, compõem um mosaico que nega noções generalizantes como inferno verde, espaço vazio, região-problema… Noções que mais ocultam do que elucidam.

Ao possibilitar a problematização de abordagens totalizantes a história das fronteiras faz avançar as fronteiras da História. Trata-se de um campo temático fronteiriço, de caráter interdisciplinar, pois se constrói num permanente diálogo com a Antropologia, a Sociologia e a Geografia. Desde o final do século XIX avolumou-se a massa de publicações de militares, diplomatas e geógrafos que viam no estudo dos limites um importante instrumento de fixação da imagem do Brasil-República como nação. Raja Gabaglia, Everardo Backheuser e Jorge Latour, para ficar em poucos exemplos de destaque, mediante a apropriação de postulados de teóricos como Friedrich Ratzel e Camille Vallaux, criaram influente tradição intelectual centrada no imperativo da vivificação das zonas limítrofes do território nacional. A partir de um diálogo com a obra de Frederick Turner, Leo Waibel e Pierre Monbeig inauguraram, na década de 1940, duradoura e prolífica corrente interpretativa, cuja compreensão de fronteira conduzia à noção de frente pioneira (Sprandel, 2005, p. 153-203).

Os estudos publicados no Dossiê “Fronteiras amazônicas” da Revista Brasileira de História se inscrevem num movimento de renovação das formas de se entender e abordar as experiências fronteiriças. Nos últimos anos, pesquisadores das Ciências Humanas e Sociais passaram a elucidar múltiplas práticas de fronteirização, visíveis ou não, em distintas escalas e com uma infinidade de propósitos (Grimson, 2003Boccara, 2007Oliveira, 2016Benedetti, 2018). Os novos estudos nos lembram que os espaços não são desde sempre recortados, delimitados, enfim, diferenciados. O processo de constituição de fronteiras deve ser compreendido à luz de contextos e sujeitos históricos específicos. Conquistas, conflitos, negociações, alianças e outros meios têm ensejado, na Amazônia, assim como em outras partes do Brasil e do mundo, sobreposições territoriais, ou fronteiras dentro da fronteira. Além disso, os sujeitos que aí vivem estabelecem relações e constituem redes que por vezes nos obrigam a relativizar a definição de fronteira como margem e a compreender constructos geográficos policêntricos, assim como polissêmicos.

Ganham destaque nas páginas deste Dossiê os discursos sobre a fronteira. Científicos, literários, diplomáticos, cartográficos e outros, ao longo do tempo, tais discursos depositaram camadas de significados que foram se sedimentando e gerando formas de imaginação espacial. Esses regimes de representação orientaram intervenções estatais no mundo da vida e ainda hoje são usados como justificativa de ações autoritárias, colonialistas e, portanto, não abertas ao diálogo com os sujeitos que vivem na e da fronteira, sobretudo com os dominados ou subalternizados. A relação entre saber e poder é destacada nos quatro primeiros artigos. Rômulo de Paula Andrade nos apresenta uma Amazônia rasgada pela política de rodovialização da década de 1960. A floresta abre então seus arcanos, revelando novo ecossistema viral e, deste modo, ensejando o avanço da fronteira do saber acerca das doenças tropicais. Francisco Bento da Silva e Gerson Rodrigues de Albuquerque abordam a retórica colonialista estruturante do relato de Paul Walle, publicado em 1910. Os autores apontam que esse viajante francês, atento à competição comercial entre os países colonizadores europeus pelos mercados da periferia global, produziu uma narrativa que, ao mesmo tempo, hierarquiza povos e exalta o potencial econômico do bioma amazônico. O artigo de Márcia Regina Capelari Naxara aborda escritos literários do início do século XX cujas páginas desvelam lugares sombrios: florestas tropicais que escondem seus segredos e riquezas do olhar cobiçoso e curioso do ádvena. No contexto de franco avanço imperialista das potências econômicas sobre o Sul global, as narrativas de Joseph Conrad e Alberto Rangel representam como trágico o fim das incursões “civilizatórias” nos vales do Congo e do Amazonas. O texto de Carlo Maurizio Romani analisa o litígio anglo-brasileiro pela posse da área fronteiriça do Pirara (situada entre o que hoje são o estado de Roraima e a Guiana). O autor argumenta que a superioridade dos investimentos científicos ingleses foi algo decisivo no arbitramento internacional, que culminou em decisão desfavorável ao Brasil.

Os três artigos seguintes analisam as convergências, incongruências e divergências entre agentes estatais (portugueses, espanhóis e franceses), povos indígenas, negros que fugiam da escravidão e missionários que atuaram na Amazônia, durante os dois primeiros séculos de sua colonização. Abordando o processo de demarcação de limites realizado a partir do Tratado de Santo Ildefonso (1777), Adilson Junior Ishihara Brito aponta para a importância econômica e geopolítica dos rios nas disputas das Coroas de Portugal e Espanha por territórios americanos. Numa atmosfera de desconfianças, as autoridades portuguesas usaram de estratégias variadas para não perder o controle de vias fluviais, tais como: mapeamento científico, descimentos de indígenas e improvisação de povoamentos. O artigo de Rafael Ale Rocha destaca que a constituição da fronteira não se dá apenas por meio de tratados (como o de Utrecht), pois ela decorre, amiúde, da desobediência, da rebeldia e da mobilização de sujeitos, como indígenas, negros e desertores. O autor também elucida como, no Cabo Norte da primeira metade do século XVIII, os aruãs usaram a situação de fronteira em proveito próprio. As fugas, o estabelecimento de alianças e o trato do comércio são sendas por onde podemos entrever o protagonismo de povos indígenas que então viviam na região da foz do rio Amazonas. Por fim, Roberta Lobão Carvalho enfoca o desencaixe e as divergências entre as expectativas da Coroa portuguesa e os interesses de grande parte da elite do Grão-Pará nas primeiras décadas do século XVIII. A pesquisadora igualmente põe em relevo os atritos entre membros do governo local e jesuítas, ocorridos por causa da espinhosa questão do controle do trabalho indígena.

O amplo e variado espectro de questões abordadas neste Dossiê evidencia a complexidade da história das fronteiras amazônicas e o trabalho competente de historiadores, de diferentes gerações, no sentido de compreendê-la. Resta desejar a todos uma mui proveitosa leitura.

Referências

ACKER, Antoine. “O maior incêndio do planeta”: como a Volkswagen e o regime militar brasileiro acidentalmente ajudaram a formar a Amazônia em uma arena política global. Revista Brasileira de História, São Paulo: Anpuh, v. 34, n. 68, p. 1333, 2014. [ Links ]

BOCCARA, Guillaume. Poder colonial e etnicidade no Chile: territorialização e reestruturação entre os Mapuche da época colonial. Tempo, Niterói: UFF, v. 12, n. 23, p. 56-72, 2007. [ Links ]

BENEDETTI, Alejandro. Claves para pensar las fronteras desde una perspectiva geográfica. Geousp – Espaço e Tempo, São Paulo: USP / Depto. de Geografia, v. 22, n. 2, p. 309-328, 2018. [ Links ]

CERTEAU, Michel. A escrita da História. 2. ed. Rio de Janeiro: Forense, 2008. [ Links ]

GRIMSON, Alejandro. La nación en sus limites: contrabandistas y exilados en la frontera Argentina-Brasil. Barcelona: Gedisa, 2003. [ Links ]

OLIVEIRA, João Pacheco de. O nascimento do Brasil e outros ensaios: “pacificação”, regime tutelar e formação de alteridades. Rio de Janeiro: Contra Capa, 2016. [ Links ]

SPRANDEL, Marcia Anita. Breve genealogia sobre os estudos de fronteiras e limites no Brasil. In: OLIVEIRA, Roberto C. de; BAINES, Stephen G. (org.). Nacionalidade e etnicidade em fronteiras. Brasília: Ed. UnB, 2005. p. 153-203. [ Links ]

WANDERLEY, Luiz Jardim de M. Repensando a noção de fronteira no contexto da reestruturação espacial da Amazônia no século XXI. Terra Livre, São Paulo: AGB, ano 31, v. 1, n. 46, p. 13-48, 2018. [ Links ]

Sidney Lobato – Universidade Federal do Amapá (Unifap), Departamento de Filosofia e Ciências Humanas (DFCH), Macapá, AP, Brasil. E-mail: [email protected] http: / / orcid.org / 0000-0002-2357-3667


LOBATO, Sidney. Apresentação. Revista Brasileira de História, São Paulo, v.39, n.82, set / dez, 2019. Acessar publicação original [DR]

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Sociedades em fronteiras: abordagens e perspectivas / Fronteiras – Revista de História / 2019

As pesquisas no que tange às fronteiras têm se ampliado de forma significativa na última década, basta uma rápida pesquisa no Catálogo de teses e dissertações da Capes para comprovar isso. O que, entretanto, é a representação de apenas um repositório possível de pesquisa e que reflete, de alguma forma, as pesquisas em curso nos Programas de Pós-Graduação no Brasil.

A ampliação dos estudos sobre fronteiras pode ser identificado como resultado de três fatores, entre outros possíveis, que tenham impactado nessa temática, quais sejam: a ampliação e interiorização dos Programas de Pós-Graduação no Brasil, o que tem estimulado estudos em / sobre regiões fronteiriças de forma muito mais acentuada; as mudanças que envolvem as Tecnologias Digitais de Comunicação e Informação – TDIC, que tem possibilitado o acesso a documentos escritos, o contato entre pesquisadores da área e uma aproximação maior de pessoas e comunidades a serem investigadas; e, por fim, certamente um dos mais importantes, que é o contexto da constante ebulição das disputas no espaço fronteiriço, e que tem chamado a atenção e se mantido sob os holofotes da mídia internacional por inúmeros fatores que marcam o início do século XXI.

Portanto, a partir desse cenário decidimos organizar o dossiê intitulado “Sociedades em Fronteiras: abordagens e perspectivas”, por entendermos ser este o palco de intensos debates e que refletem de forma múltipla diferentes áreas de investigação, envolvidos sob a égide, ao menos parcial, da interdisciplinaridade. Para além disso, as atividades realizadas em parceria pelos organizadores envolvendo sociedades em fronteiras, tanto na concretização de pesquisas conjuntas, quanto no compartilhamento de bancas de avaliação e eventos científicos foi outro ponto de convergência da proposta do dossiê.

A proposta foi apresentada ao periódico “Fronteiras: Revista de História” do Programa de Pós-Graduação em História da Universidade Federal da Grande Dourados (PPGH / UFGD), que como observamos congrega um maior número de leitores com interesse pela área, por estar indexado em mais de uma dezena de áreas, por se apresentar como um periódico que materializa a interdisciplinaridade em suas publicações, mas também, por ter ao longo de mais de duas décadas se dedicado a disseminar importantes pesquisas científicas e debates historiográficos que envolvem o eixo direcionador deste dossiê. Portanto, ao visitar a página da Fronteiras, em suas diferentes edições encontraremos a similitude em relação a problemática em discussão que foi proposta por nós, ou seja, o debate aparece em todos os momentos no periódico, nos levando a reflexões profundas sobre esse tema, objeto e lócus de pesquisa, e que modestamente procuramos nos inserir, com mais esse dossiê.

Se é consenso que as definições conceituais mais tradicionais sobre as fronteiras foram superadas, com especial atenção aquelas em que definem fronteira de forma rígida, estática, com uma restrição ao domínio político, militar e administrativo que permaneceram como referência por certo tempo. As dinâmicas em torno do debate sobre fronteiras foram repensadas juntamente com as mudanças e possibilidades de leituras teóricas que avançaram na segunda metade do século XX e impulsionaram as discussões em torno de possibilidades, como por exemplo, as fronteiras da linguagem e seu papel nas sociedades contemporâneas, ou então, possibilidades de pensar as fronteiras sob o ponto de vista da cultura e suas implicações na organização social, assim como do cotidiano, da formação humana, das fronteiras discursivas, artísticas…

Em Nation and Narration, Homi Bhabha destaca que o discurso nacional que envolve a sociedade está entrelaçado por um conjunto de interpretações e símbolos, que são reforçados tanto no momento performático, quanto no momento pedagógico, e que de alguma forma podem ser pensadas para sociedades em fronteiras.

Portanto, para Bhabha no momento pedagógico os membros da nação são o alvo e objeto do discurso nacional construído a partir dos relatos históricos, dos feitos bélicos ou das glórias no esporte, das narrativas da mídia e do enaltecimento das supostas virtudes de um determinado povo. Já o momento performático, os membros da nação passam de objeto a sujeito do discurso nacional, ou seja, os cidadãos se envolvem no discurso nacional e, a partir dele, abraçam uma identidade, como por exemplo, brasileiros, paraguaios, argentinos, bolivianos, venezuelanos, etc… Momento em que os membros da nação de fato se sentem como portadores e guardiões dos atributos nacionais, fortalecendo a comunidade nacional imaginada.

As narrativas e perspectivas sobre as fronteiras estão em movimento, flexibilidade que revela a complexidade de análise a que os estudos estão sujeitos. O que, neste caso, evidentemente, é reflexo das sociedades em fronteiras, que não podem ser entendidas como estruturas sociais estáticas, mas como configurações – concepção de Norbert Elias na A sociedade de Corte e na A Sociedade dos Indivíduos – em desenvolvimento a longo prazo de modo que as ações individuais são inscritas dentro de redes de relações interdependentes. Em sociedades de fronteiras a complexificação da questão fica ainda maior, porque se cruzam as formalidades comportamentais, as regras e costumes e que, em muitos casos, se impõem em pequenos gestos. Portanto, o que atrai nas sociedades de fronteiras não são apenas as formações sociais estabelecidas, mas, sobretudo a procura pelos desequilíbrios.

Dito isso, convidamos os leitores a realizar uma desafiadora incursão pelos seis artigos que compõem o dossiê.

Primeiramente, o texto “Entre fronteiras e limbos, a interdisciplinaridade, o conhecimento tradicional e a micro-história” de José Carlos dos Santos e Márcia Regina Ristow, procura, sob uma perspectiva interdisciplinar, prosperar no campo disciplinar para questões pouco observadas, seguindo na complexidade dos conhecimentos tradicionais e avançando sobre fronteiras, a partir de uma redução de escala, favorecendo, portanto, um clima de transposição de áreas disciplinares de pesquisa.

Já por outro lado, o texto de Aldenor da Silva Ferreira e Alfredo Kingo Oyama Homma em “A colonização britânica e o declínio da produção de juta indiana: singularidades e possibilidades para a Amazônia”, procuram, a partir da pesquisa realizada em Calcutá / Índia, compreender as especificidades da produção têxtil no subcontinente indiano no período colonial como elemento de fundamento para entender outra realidade, qual seja, o declínio da produção têxtil de juta na Amazônia e sua possível reativação nas nossas fronteiras.

Em outra perspectiva, no texto “Narrativas sobre a ação do Estado na história da colonização de Campo Mourão (1900-1950)”, Astor Weber e Jorge Pagliarini Junior centralizam a discussão em torno da ação do Estado no processo de colonização e como ela é representada na produção historiográfica em quatro momentos temporais e em contextos distintos.

No quarto artigo do dossiê, intitulado “Cultura escolar, fronteiras simbólicas: um estudo sobre a presença da comunidade paraguaia no cenário educacional sulmatogrossense”, de autoria de Adriana Aparecida Pinto e Jackson James Debona, trata de uma pesquisa realizada na comunidade escolar da periferia da cidade de Dourados, Mato Grosso do Sul, sobre os índices de crianças que descendem em primeira ou segunda geração de famílias que imigraram do Paraguai entre as décadas de 1960 a 1980, vislumbrando possibilidades de ações pedagógico voltados a história, apresentando a simbiose dos movimentos entre os dois países, para além das fronteiras mais próximas.

Nelson Figueira Sobrinho e Denise Rosana da Silva Moraes no texto “‘1.300 quilômetros abertos ao tráfico’: a fronteira Brasil-Paraguai sob a ótica de Veja adotada no Caderno Especial ‘Crime’” analisam a partir de textos e elementos gráficos, como fotografias e infográficos o enfoque dado pela Revista Veja sobre a fronteira Brasil- Paraguai.

Já, no último texto que contempla esse dossiê, Sónia Cristina Cardoso dos Santos Silva discute “O percurso histórico do estabelecimento das fronteiras em Angola”, a partir de três contextos socio-históricos diferentes: o período pré-colonial; colonial e pósindependência. Essa questão foi analisada a partir de duas dimensões: abordagem teóricoconceitual sobre fronteiras; e a influência da Conferência Internacional de Berlim (1884- 1885) na definição do traçado fronteiriço africano.

Os textos que compõem o presente dossiê permitem uma reflexão sobre as diferentes configurações das sociedades em fronteiras, a partir da coexistência da diferença sob novos olhares que envolvem as relações de poder, as identidades e o papel do Estado. Em todos os textos deste dossiê está presente o fio condutor que envolve a proposta e que dá consistência ao debate. Por outro lado, os Artigos Livres que abaixo apresentamos não se evadem da discussão acerca da problemática do dossiê das sociedades em fronteiras, essa separação, se assim podemos chamar, se fez respeitando a submissão dos artigos ao Periódico que é realizada pelos autores, que optaram por submeter seus escritos à sessão de Artigos Livres.

Então, democraticamente apresentamos aos leitores a sessão de Artigos Livres que como de costume trouxeram nesse momento leituras importantes, que se somam às problemáticas da produção científica muito próximas do Dossiê. Nesse sentido, expomos o texto de autoria de Hélder Samuel dos Santos Lima e Daniela Cristiane Ota, intitulado “Rádio Independente de Aquidauana: da fundação à transição para FM”, em que contextualizam o processo histórico de implantação e evolução tecnológica da Rádio Independente (AM 1020 KHz), situada no município de Aquidauana (MS).

Noutro texto, intitulado “O encontro entre história e memória: a materialização na forma de um memorial”, de Samuel Cabanha, o autor aborda um aspecto histórico imerso no presente explorando um monumento como representação material que refaz a memória. Para isso, propõe-se a análise do monumento erigido no município de Santa Helena (PR), em memória à marcha de Luiz Carlos Prestes, observando a disputa pela preservação da memória da articulação entre a representação do monumento e a tentativa de ritualização em torno do lugar.

Por último, apresentamos a resenha produzida por Rosivania de Jesus Costa, que teve como alvo o livro de autoria de Mariana Schlickmann, com o título “A introdução dos estudos africanos no Brasil (1959 – 1987)”, publicado pela Editora CRV de Curitiba em 2016.

Posto isto, esperamos que o presente dossiê, assim como toda esta edição possa despertar e ampliar no leitor o interesse pelo tema e movimentar novas discussões num diálogo aprofundado.

Desejamos uma boa leitura a todos / as!

Fábio André Hahn (PPGHP / Unespar)

José Carlos dos Santos (PPGSCF / Unioeste)

Leandro Baller (PPGSCF / Unioeste e PPGH / UFGD)

Organizadores


HAHN, Fábio André; SANTOS, José Carlos dos; BALLER, Leandro. Apresentação. Fronteiras: Revista de História. Dourados, v. 21, n. 37, Jan. / jun., 2019. Acessar publicação original [DR]

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Nas fronteiras da História: diálogos e alianças interdisciplinares na pesquisa histórica / Aedos / 2009

Em sua quinta edição, a Revista Aedos tem o orgulho de apresentar o dossiê “Nas fronteiras da História: diálogos e alianças interdisciplinares na pesquisa histórica”. Trata-se de três artigos, que abordam as possibilidades oferecidas ao conhecimento histórico pelos contatos com diferentes áreas, em especial, da Literatura, Antropologia e Arqueologia. Renata Dal Sasso Freitas, em seu artigo “José de Alencar e o Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro: apontamentos sobre a concepção do romance As minas de Prata (1862-1865) e a cultura histórica brasileira nos oitocentos”, apresenta uma abordagem que analisa a relação interdisciplinar entre a História e a Literatura, na segunda metade do século XIX. Com uma proposta no mesmo sentido, o artigo “História e Antropologia: possíveis diálogos”, de Marcos Felipe Vicente, aborda as aproximações da História com as Ciências Sociais, em especial com a Antropologia, através das considerações de alguns intelectuais destes dois campos, focando a análise em suas propostas para a aproximação entre as duas disciplinas. O terceiro artigo, de Carolina Kesser Barcellos Dias, intitulado “Colonização grega e contato cultural na Magna Grécia: o testemunho dos vasos lucânicos”, aborda os registros materiais cerâmicos de uma região colonizada pelos gregos, a Lucânia. Através deste estudo apresenta traços dos movimentos de resistência da população local aos padrões helênicos que estavam sendo introduzidos. Um interessante artigo sobre as formas de re-elaboração e interpretação dos padrões culturais na produção artística, marcando também as permanências da cultura dos artistas nativos.

A seção artigos diversos conta com três colaborações. O artigo “Bizâncio, Pérsia e Ásia Central, pólos de difusão do nestorianismo” analisa o surgimento e expansão da corrente nestoriana, além da sua recepção entre diversos povos do Oriente. É destacada também a importância das trocas comerciais como meio dessa difusão. Fabrício Gomes Alves, em seu artigo “Entre a Cultura Histórica e a Cultura Historiográfica: implicações, problemas e desafios para a historiografia”, tem como foco a noção de cultura histórica, analisando a emergência da categoria, suas características e sua aplicabilidade. Por fim, o artigo de Vicente Neves da Silva Ribeiro, “Populismo radical e processo bolivariano: o conceito de populismo de Ernesto Laclau e as análises da Venezuela contemporânea” retoma a discussão acerca do conceito de populismo, pensando a sua aplicação no caso da Venezuela contemporânea. Para a próxima edição são aguardados comentários críticos sobre o artigo de Vicente Ribeiro, com o objetivo de estimular o debate acadêmico, visando uma discussão franca sobre as contribuições trazidas por este artigo.

Na seção Mesa Redonda desta edição, apresentamos o debate travado em torno do texto de Keila Auxiliadora Carvalho, doutoranda da Universidade Federal Fluminense, “Tempo de Lembrar: as memórias dos portadores de lepra sobre o isolamento compulsório”. O artigo toma como objeto a construção da memória e identidade de ex-internos do leprosário “Colônia Santa Isabel”, localizado em Minas Gerais, sendo que sua metodologia insere-se no campo de estudos da História Oral. Participaram como comentadores a Prof. Dra. Beatriz Teixeira Weber, do Departamento de História da UFSM, a Prof. Dra. Nikelen Acosta Witter, do Departamento de História da UNIFRA, e Juliane Conceição Primon Serres, doutora em História pela Unisinos. Por fim, Keila apresenta sua resposta aos apontamentos produzidos pelos especialistas convidados.

Na seção resenhas, apresentamos as sínteses construídas por Rodrigo Bragio Bonaldo, Gabriel Requia Gabbardo e Fábio Bastos Rufino. Bonaldo apresenta um trabalho inédito em português de Hans Ulrich Gumbrecht, “Production of Presence: what meaning cannot convey”, no qual o pesquisador alemão explora a historicidade das formas de produção de sentido. Gabbardo apresenta a obra “The Fall of Rome and the end of civilization”, na qual Bryan Ward-Perkins traz novas contribuições para a discussão sobre a Antiguidade Tardia e o fim do Império Romano através de suas pesquisas arqueológicas. Rufino, resenhando o livro organizado por Maria Teresa Toríbio Lemos, “América Latina: identidades em construção – das sociedades tradicionais à globalização”, justifica a pertinência da obra, na medida em que excursa sobre os seus principais temas e ressalta a conjunção de seu carácter controvertido com um tratamento heterodoxo, aberto a novas contribuições.

Finalizando nossa edição, apresentamos a entrevista com o historiador alemão radicado nos EUA, professor da Stanford Universit, Hans Ulrich Gumbrecht. Em uma conversa agradável, iniciada com temas esportivos, Juliano Antoniolli e Vitor Batalhone conversaram com Gumbrecht sobre questões acerca das ideias de verdade e de referência, e sobre as possibilidades de se aprender com a história.

Por fim, nos alegra sobremaneira continuar o excelente trabalho iniciado pelos colegas da gestão anterior, que souberam, através de muito trabalho, comprometimento e diálogo, construir uma revista séria e comprometida. Através desta edição, damos continuidade ao trabalho iniciado, consolidando esta revista como um espaço de diálogo e de divulgação do conhecimento histórico.

Boa Leitura a todos!

Conselho Editorial

Gestão 2009-2010


Conselho Editorial. Editorial. Aedos, Porto Alegre, v.2, n.5, julho-dezembro, 2009. Acessar publicação original [DR]

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Migrações, fronteiras e espaços / Contraponto / 2019

O presente dossiê da revista Contraponto tem uma temática prenhe de gerúndios. Ao longo desta edição será possível localizar a fluidez do tempo de migrantes, as porosidades e deslocamentos de fronteiras e mutantes delimitações espaciais, tudo isso em sintonia com aspectos históricos e seus agentes. A máxima, tudo que é sólido desmancha no ar, cunhada por Karl Marx no século XIX, e discutida por Marshall Berman nos estertores do XX, continua fazendo sentido nos caminhos da modernidade e de suas frenéticas metamorfoses.

O frisson de um tempo acelerado que desconserta gerações está na ordem do dia em nossa era tecnológica. Os feitos burgueses do século XIX hoje parecem brincadeira de criança. As conexões entre sociedades vêm ganhando cada vez mais um caráter global, com suas distancias / fronteiras abolidas diante do tempo real das comunicações, da internet, dos meios de transporte cada vez mais velozes. O tempo histórico vem se tornando dramaticamente global e conectado. As conquistas desse início de século soam como tramas futuristas, que Felippo Tommaso Marinetti talvez tenha sonhado em seu manifesto de 1909, prenhe de uma sociedade em progresso permanente, sem distancias e / ou diferenças. Mas, ao que tudo indica, os futuristas estavam equivocados. Na contramão da esperança “moderna” do capitalismo, facilmente encontrada em propagandas de bancos e redes de tv, o mundo vive tempos cada vez menos igualitários, onde preconceitos e diferenças se exacerbam. As grandes redes sociais e aparatos tecnológicos tem fornecido eco para ideias autoritárias e violentas.

Em sintonia com o atribulado tempo presente, esta edição da Revista Contraponto trará estudos que discutem problemáticas migratórias, fronteiriças e espaciais, privilegiando seus jogos de escala, na perspectiva metodológica clássica de Jacques Revel. O dossiê será aberto com o artigo “Mulheres e migração internacional: vivências de agricultoras familiares de Itapuranga-GO”, de Flávia Sousa Oliveira, que nos oferece um estudo sobre a conformação de fluxos migratório a partir de uma pequena cidade do interior de Goiás (cerca de 24 mil habitantes), para países como Estados Unidos, França, Portugal, Japão e Inglaterra. A temática das movimentações de trabalhadores contemporâneos e suas conexões internacionais também estará presente no artigo “Ser daqui e allá – Comunidade transnacional e Redes de migrantes paraguaios em São Paulo”, de Vanessa Kely Domingues, que apresenta uma discussão sobre as possibilidade de recomposição de laços comunitários e culturais na sociedade de destino dos migrantes na grande metrópole. Seguindo linha semelhante, figurará o artigo “Para além das fronteiras físicas: apontamentos acerca da imigração haitiana para o Oeste do Paraná”, de Joselene Ieda dos Santos Lopes de Carvalho, que trará como temática a dramática saga de migrantes haitianos pelo Brasil, especialmente daqueles que se dirigiram para o oeste do Paraná, investigados através de técnicas de História Oral, cujas referências fornecem pistas sobre seus caminhos, agencias e escolhas.

Dando continuidade ao dossiê, será apresentado o artigo “Fuga do Inferno Vermelho: imigração de ‘Russos da China’ para o Rio de Janeiro (1949-1960)”, de Gabriel Dias Cavalcante Mauro, que trata da interessante trajetória de migrantes russos oriundos da China, que se deslocaram até a cidade do Rio de Janeiro. O estudo também faz uso de técnicas de História Oral, dando voz à três imigrantes que contam detalhes de suas trajetórias e “estranhamentos” culturais. O artigo seguinte tratará também da densidade de deslocamentos internacionais, presentes no estudo intitulado “Um imigrante chamado Koutakusei”, de Franco Lindemberg Paiva dos Santos, que apresenta referências de uma trajetória migratória relacionada ao panorama geral da vinda de trabalhadores japoneses ao Brasil, descrevendo uma agencia individual (de Koutakusei) sem perder de vista a dimensão macro do processo em tela. Ainda tratando da temática da migração japonesa, segue o artigo “Os meandros da imigração japonesa para a América Latina: das políticas abolicionistas ao “ideal de branqueamento” na gênese dos discursos identitários nacionais no final do séc. XIX”, de Diego Avelino de Moraes Carvalho, que amplia o debate, relacionando-o com demandas das políticas de Estado no Brasil, analisando referencias da formação da identidade nacional e seus interesses no final dos oitocentos, extensível ao período pós-abolição.

Em sequência será exposto o artigo “‘Quando eu vim do sertão…’: Luiz Gonzaga e o baião – o fazer-se de dois migrantes”, texto de Ruberval José da Silva, onde mostra a trajetória migrante do cantor e compositor Luiz Gonzaga, trajetória essa justificada pelo autor como sendo de importante contribuição na formação da carreira do cantor nordestino. Felipe Soares, no texto “‘Histórias de beira de estrada’ – memória e história da ditadura na Amazônia da década de 1970”, aprensenta o processo de colonização da Amazônia no período dos governos militares como uma estratégia de controle dos conflitos ocorridos na região. “Migração, exílio e fronteiras: a narrativa de Ruffato em Flores Artificiais”, texto, resultado da pesquisa e produção de Icaro Carvalho, apresenta a busca pela compreensão do movimento de migração como um fator de pertecimento, ou de exclusão, a partir da obra Flores Artificiais, de Ruffato. Patricia Roque Teixeira das Chagas Rosa, é autora do texto “Deslocamento e reconstrução identitária no romance Quarenta dias”, que discute descolocamento a reconstrução indentitária a partir da análise do romance Quarenta dias (2017) da escritora Maria Valéria Rezende. Selma Antonia Pszdzimirki Viechnieski apresenta o texto intitulado: “As fronteiras identitárias no primeiro centenário da colônia amola faca (Virmond)”, uma colônia de poloneses fundada em 1921, espaço que expõe características da cultura polonesa, como o catolicismo. O texto discute a cultura como móvel, em transformação, estudando a identidade étnica, e o multiculturalismo.

Teresina-PI, dezembro de 2019.

Dr. Antônio Alexandre Izídio Cardoso

Me. Márcio Douglas de Carvalho e Silva

Me. Bruno de Souza Silva

Organizadores


CARDOSO, Antônio Alexandre Izídio; SILVA, Márcio Douglas de Carvalho e; SILVA, Bruno de Souza. Apresentação. Contraponto, Teresina, v. 8, n. 2, jul / dez, 2019. Acessar publicação original [DR]

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Fronteiras, trabalho e etnicidade / Canoa do Tempo / 2019

A revista Canoa do Tempo traz a público o dossiê Fronteiras, Trabalho e Etnicidade, com artigos que denotam a complexidade da discussão sobre a ideia de fronteira. Para além do entendimento sumário da categoria, usualmente articulada como linha divisória, há o indicativo do peso dos mundos do trabalho no estabelecimento de suas problemáticas. A Amazônia aparece como espacialidade privilegiada para a articulação de estudos desta natureza, ambientados entre o imaginário da opulência e as agruras de formas coercitivas da lida cotidiana. Ao longo do tempo, a floresta foi atravessada por diversos tipos de deslocamentos de fronteiras, cujos desdobramentos socioeconômicos e demográficos deixaram marcas indeléveis no tecido social de suas cidades, aldeias e rios.

Não por acaso, a floresta por tempos pensada no terreno do fantástico perdeu força discursiva sob a sombra do colonialismo interno, quase sempre jungido a interesses capitalistas internacionais. O ethos das mulheres guerreiras que (re)batizou o vale ao gosto do imaginário europeu, teve seus sentidos transformados com as sucessivas devassas e esquadrinhamentos do espaço em busca de riquezas. As fronteiras do paraíso terreal tiveram de ser redimensionadas, restando apenas o invólucro da mensagem edênica, que traduziu a Amazônia como terreno inabitado, disponível e à margem da História.

O artigo que abre a dossiê, assinado por Maria Clara Carneiro Sampaio, aponta referências sobre interesses estrangeiros na reciclagem das referidas imagens paradisíacas voltadas ao território amazônico nos oitocentos. A autora analisa os escritos do militar norteamericano Matthew Fontaine Maury, que redigiu um folheto largamente publicado em periódicos, pregando a viabilidade do deslocamento dos empreendimentos escravistas do Sul dos Estados Unidos em direção ao Brasil. Nesse contexto, a floresta era enxergada como fronteira para o avanço e sobrevivência da escravidão nas Américas, área que supostamente possuía clima e natureza “adequadas” para a população negra oriunda das grandes lavouras algodoeiras que marcavam as paisagens sulistas de Maury nos idos dos anos 1850. O projeto reabilitava a visão paradisíaca colonial, classificando a Amazônia como área prenhe de possibilidades, rica, mas mal aproveitada economicamente. O éden intocado ganhava novas camadas de sentido, visto como paraíso do trabalho compulsório e da escravidão.

O cerne da relação entre ideários edênicos, deslocamento de fronteiras e escravidão, continua no texto de Jéssyka Samya Ladislau Pereira Costa, que apresenta notas de pesquisa sobre a presença negra e indígena nos mundos do trabalho dos rios Purus e Madeira entre 1850 e 1889. O artigo aponta reflexões sobre a historicidade dos Altos Rios à época da sedimentação da Província do Amazonas, marcada por suas paisagens ameríndias, natureza opulenta e diversas zonas de contato. O cruzamento entre populações indígenas e negras é problematizado pela autora, que discute o alcance da sociedade escravocrata e as agencias das populações que enfrentavam interesses senhoriais na floresta. Os rios Purus e Madeira aparecem como recortes espaciais principais, destacados como importantes cursos fluviais na interiorização dos interesses econômicos da província, à época capitaneados pelo extrativismo da borracha.

O tema da escravidão também aparece no artigo de Paulo Roberto Staudt Moreira, que articula reflexões sobre os significados da liberdade e da escravidão na fronteira meridional do Império brasileiro no século XIX. Através de fontes judiciárias, o autor põe em causa a polissemia do conceito de fronteira, incluindo os limites e aproximações entre experiências da liberdade e do cativeiro. O recorte espacial do texto de Moreira enfatiza a Vila de Canguçu, localizada na província de São Pedro do Rio Grande do Sul nas proximidades de nações platinas circunvizinhas. O autor conduz os leitores em terreno atravessado por conflitos que marcaram a época Imperial no Sul do Brasil, área estratégica e de significativa importância econômica conectada aos fluxos da pecuária e agricultura.

Dando continuidade ao debate sobre as polissemias da categoria fronteira, apresentar-se-á o artigo de Fernando Roque Fernandes, que discute territorialidades coloniais do “delta amazônico” no século XVII. O autor problematiza a circulação de agentes coloniais na região da foz do Amazonas, evidenciando o papel desses personagens na conformação de fronteiras e disputas que caracterizaram territorialidades seiscentistas. Conectado ao contexto em tela, Fernandes dispõe aos leitores e leitoras um interessante panorama conceitual sobre as ideias de lugar, espaço e território, considerando suas complexas implicações étnicas e identitárias. O artigo destaca ainda a densidade geopolítica da época, ligada ao estabelecimento do Estado do Maranhão e as movimentações do aparato colonial para o controle do território amazônico.

A tônica dos deslocamentos associada com questões transfronteiriças aparece também no artigo assinado por Eduardo Gomes da Silva Filho e Júlia Maria Corrêa, que destacam outras facetas do debate, explorando a densidade de fluxos migratórios contemporâneos. Os autores colocam em causa a mobilidade humana e os mundos do trabalho entremeados entre as cidades de Bonfim, no estado de Roraima, e Lethem, na República Cooperativista da Guiana. Com base em dados e outras fontes obtidas em trabalho de campo, Silva Filho e Corrêa discorrem sobre questões relacionadas as atividades laborais, redes de comércio e serviços que vem conectando as duas cidades. A discussão sobre o panorama relacional entre Lethem e Bonfim pode servir de janela comparativa para outras realidades urbanas e transfronteiriças na Amazônia.

Após as reflexões sobre Brasil e Guiana, o dossiê encaminhará a debate para outras rugosidades da ideia de fronteira. Será apresentado um interessante artigo sobre um relato de viagem de autoria de George Kennan, que publicou em 1870 a obra Tent life in Siberia. Fechando a presente edição da Canoa do Tempo, convidamos à leitura do texto de Nykollas Gabryel Oroczko Nunes, que aborda a expedição telegráfica narrada por Kennan, ocorrida no nordeste da Rússia e carregada com os usuais recursos narrativos ligados à valorização de ideários da masculinidade, aventura e do enfrentamento da natureza selvagem. O artigo destaca as tensões discursivas da obra, estabelecidas entre desafios de alteridade, visualizados nos intercursos das ideias de civilização e barbárie numa área considerada distante e inóspita.

A diversidade de abordagens e aparatos teóricos aqui propostos demonstram a as possibilidades dos temas que abalizam o dossiê. Em tempos monocromáticos, refletir sobre a complexidade do conceito de fronteira vai na contramão de pensamentos que simplificam a realidade. Com isso, objetivamos fomentar ainda mais discussões que levem em conta o caráter movediço e múltiplo das experiências humanas no espaço e no tempo.

Boa leitura!

Antônio Alexandre Isidio Cardoso – Professor Doutor (UFMA).

Eurípedes Antônio Funes – Professor Doutor (UFC).

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A história das mulheres e suas fronteiras / Revista Eletrônica História em Reflexão / 2018

As produções teóricas relativas à História das Mulheres e os estudos de gênero, encontra-se ligada ao movimento de renovação da própria história que, distanciando-se da história tradicional de cunho positivista que se impôs no século XIX, se voltava a preocupar por traçar um caminho interessado muito mais pelos coletivos que pelos individuais, pela evolução da sociedade que pelas instituições, pelos costumes que pelos acontecimentos, pelas coletividades excluídas do que pelos grandes personagens. As mulheres nunca estiveram ausentes da história, embora a historiografia oficial as tenha esquecido. No decorrer da história há uma relação entre gênero e poder que precisa ser estudada, revelada, reescrita, pois a história tradicional, moderna, colonial-patriarcal e universalizante criou o mito do sexo frágil, da impotência feminina e da sua dependência existencial do masculino.

A historiografia moderna, colonial e hetero-patriarcal transformou-se em relato que esqueceu as mulheres, como se, por serem destinadas à obscuridade da reprodução, inenarrável, elas estivessem fora do tempo, fora do acontecimento. Mas elas não estão sozinhas neste silêncio-profundo. Elas estão acompanhadas de todos aqueles que foram marginalizados pela história como os negros, os índios, os velhos, os homossexuais, as crianças, etc. Portanto, escrever a história das mulheres é libertar a história. Libertar a história das amarras das metanarrativas modernas, colonial e falocêntricas presentes não apenas nos livros didáticos, mas nas práticas docentes de que ministra o currículo de história em sala de aula.

Se historicamente o feminino é entendido como subalterno e analisado fora da história, porque sua presença não é registrada, libertar a história é falar de homens e mulheres numa relação igualitária. Falar de mulheres não é somente relatar os fatos em que esteve presente, mas reconhecer o processo histórico de exclusão de sujeitos. Desconstruir a história da história feminina para reconstruí-la em bases mais reais e igualitárias, é um dos desafios permanentes hoje da história.

Pensar e refletir sobre a História das Mulheres e os estudos de gênero nos leva a inventar-se, descobrir-se, tornar-se. Deslizar-se por entre as possibilidades que este devir-mulher na história pode proporcionar, através de linhas flexíveis, invisíveis e maleáveis, buscar a desterritorialização; como um cigano que não possui moradia fixa, sua ânsia é conhecer lugares, pessoas, possibilidades, um nômade em constante movimento, que se desdenha não mais nas estradas ou trilhas, mas busca para si os lugares não trilhados na invenção de novos caminhos, de novas existências.

Tal existência está ligada a um processo de pura luta com as palavras, com as fontes, com os discursos, com os corpos, com o poder. É nessa luta à luz do dia com a palavra e com o não dito que tentamos construir a / as história / as das mulheres. Essa luta é uma empreitada difícil e perigosa, principalmente no Brasil atual, onde falar sobre a as questões de gênero tornou-se uma prática marginal, mal-dita, mal-vista. Ao escrever sobre a vida de mulheres brasileiras, não se escreve com palavras e, sim, com fluxos, devires, intensidades, silêncios e re-existencias.

Pensar a História das mulheres nos instiga a uma atitude crítica, de suspeita em relação aos instrumentos linguísticos e conceituais que utilizamos em nosso trabalho como historiadores(as). A ideia é que, dessa forma, sejamos visitantes do passado com um olhar mais sereno, menos violento, porém, mais críticos e menos proclives a reproduzir os sistemas ideológicos que sustentaram – e ainda continuam sustentando – as desigualdades de gênero, que violentam e dizimam milhares de mulheres no Brasil afora.

Esse dossiê que temos em mãos revela que história colonial, hetero-patriarcal e universalista necessita urgentemente de um trabalho arqueológico / genealógico para podermos entender seu poder normativo e enunciativo, para assim desconstruí-lo. A história das mulheres através de seus fluxos, devires e intensidades é marcada pela potência do ser e do fazer. Pensar o impensado é o maior desafio de quem quer fazer a história das mulheres. Como nos diz Gilles Deleuze, (2005) “viajar para a ilha deserta e, com seus signos malditos da escrita, roubar a paz dos idiotas que vivem na terra”.

Abraçar a história das mulheres e os estudos de gênero é mostrar os ecos de uma história silenciosa e em particular as formas em que elas são objeto de discriminação por sua própria condição humana como mulher. Ao falarmos sobre a História das Mulheres levamos nosso pensamento para fora das margens costumeiras da linguagem historiográfica, fora do espaço epistêmico da história patriarcal colonial, produzindo assim uma escrita lateral, intersticial, ex-cêntrica, que provoca o surgimento de texto, con-texto e sujeitos novos.

É nesse pensar nômade — um pensar associado ao movimento fugidio, que escorrega, desvia e desliza – que esse número da revista História em Reflexão nos convida, à vulnerabilidade de largar o corpo e o pensamento, de deixar o pensamento alargar-se, transpondo inúmeras fronteiras, para que se possa pensar e criar de modo diferente em relação à forma como se pensa a história.

Boa leitura.

Losandro Antonio Tedeschi – Doutor UFGD – BRASIL

Angeles Castãno Madronal – Doutora U. Sevilla – Espanha ORG.


TEDESCHI, Losandro Antonio; MADROÑAL, Ángeles Castaño. Apresentação. Revista Eletrônica História em Reflexão. Dourados, v. 12, n. 23, jan. / jun., 2018. Acessar publicação original [DR]

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Região e Fronteiras / História – Debates e Tendências / 2018

A noção de fronteira apresenta um conteúdo polissêmico, pois seu significado varia de acordo com o campo em que este conteúdo é produzido e em consequência das mais diferentes linhas teórico-metodológicas adotadas pelos estudiosos. Para os historiadores, normalmente as fronteiras são entendidas no seu sentido tradicional de fronteiras políticas, bem como no sentido de locus do encontro de culturas diferentes.

No atual cenário socioeconômico decorrente da globalização, as fronteiras revelam um mundo poroso e complexo, marcado por relações que se alimentam de um conjunto de fatores para além do econômico-financeiro. Multiplicam-se fluxos de população; as regiões tornam-se mais móveis; e as fronteiras, mais deslizantes, mais multiculturais e interligadas, evidenciando as diferenças raciais, culturais, religiosas, econômicas e históricas. Leia Mais

Fronteiras, Culturas e Deslocamentos Populacionais / Aedos / 2018

“O objeto da história é, por natureza, o homem.

Digamos melhor: os homens. Mais que o singular,

favorável à abstração, o plural, que é o modo

gramatical da relatividade”.

Marc Bloch (2001, p. 54)

Marc Bloch, na epigrafe acima, discorre sobre o objeto da história pautado a partir da presença dos homens no tempo, ou seja, a pesquisa histórica eles são próprios sujeitos sociais. Decerto, “o tempo da história, ao contrário, é o próprio plasma em que se engastam os fenômenos e como lugar de sua inteligibilidade” (BLOCH, 2001, p. 55). Nesse sentido, os fenômenos são acionados através da própria realidade concreta.

No livro Apologia a História, Bloch enfatiza que “a história não é uma relojoaria ou uma marcenaria. É um esforço para conhecer melhor: por conseguinte, uma coisa em movimento” (BLOCH, 2001, p. 46). Nesse esforço de compreensão, hodiernamente, faz-se necessário estabelecer novos diálogos e / ou conexões a fim de ter em mãos novos modelos explicativos.

Seguindo essa linha de pensamento, Certeau (2011, p. 47) frisou que “toda pesquisa historiográfica se articula com um lugar de produção socioeconômico, político e cultural”. O lugar social, portanto, é para o pesquisador campo fértil e é ao mesmo tempo espaço de luta em torno do que será pesquisado. O autor advoga que para isso, “tudo começa com o gesto de separar, de reunir, de transformar em ‘documentos’ certos objetos distribuídos de outra maneira […] na realidade, ela consiste em produzir tais documentos”.

Nesse caso, os estudos sobre os deslocamentos populacionais, na contemporaneidade, têm se mostrado um campo profícuo nas Ciências Humanas e Sociais. Estudos que trazem a tona novas abordagens e novas perspectivas teórico-metodológicas, tais como: fronteiras, migração (internacional e nacional), refugiados, inserção sociocultural dos migrantes no lugar de destino, relações e tensões societárias (familiares, gênero, xenofobia, empregabilidade, educação, saúde), bem como a atuação do Estado e entidades não governamentais frente a este complexo e multifacetado fenômeno presente no contexto das migrações.

Vale destacar que, os Estados-nações são criações globais, relativamente recentes (HOBSBAWN, 1990), os quais há discrepâncias entre os “nacionais” e os “estrangeiros”. Discrepâncias que são criadas culturalmente e sedimentadas nas leis, com seleção da entrada destes nas fronteiras. A migração de pessoas ultrapassando fronteiras nacionais desses Estados é fenômeno global e multifacetado. Por conseguinte, pensam-se as migrações internacionais, por exemplo, a partir do fluxo de pessoas no globo já que essa condição é regida e limitada por legislações locais dos países soberanos.

No século XVIII o filósofo iluminista Kant propôs, na obra “A Paz Perpétua” uma sociedade universal de paz, com respeito unívoco pelos direitos humanos em um mundo com hospitalidade universal e sem exércitos, pois estes fazem “implicar um uso dos homens como simples máquinas e instrumentos na mão de outrem (do Estado)” (2008, p. 6). Entretanto, não há um direito global de migrar. Entretanto, o artigo 13 da Declaração Universal dos Direitos Humanos prevê que “todo ser humano tem o direito de deixar qualquer país, inclusive o próprio, e a este regressar” (ONU, 2009), mas não há força vinculante dessa norma internacional nos países, sendo norma meramente programática (ACCIOLY, SILVA, CASELLA, 2012, p. 497; PORTELA, 2010, p. 647).

Posto isso, o dossiê Fronteiras, Culturas e Deslocamentos Populacionais, trazido nesse número, conta com seis artigos, os quais trazem como panorama a questão do deslocamento populacional como fio conduto sobre o fenômeno migratório (inter)nacional.

O primeiro artigo é “Identidades, transnacionalidade e violência: o caso dos brasileiros no Japão”. Nele o fenômeno da imigração brasileira para o Japão é apresentado como um tipo de expulsão que é característica do capitalismo neoliberal. Destaca-se que o ponto de partida do artigo é discussão de dois acontecimentos – o discurso do deputado federal Jair Bolsonaro proferido em abril de 2017, onde o político ataca minorias étnicas e apresenta brasileiros de origem japonesa como “uma minoria exemplar”; e o assassinato da enfermeira japonesa Rika Okada, ocorrido no Japão, março de 2014, no qual a nipo-brasileira Kate Yuri Oishi foi apontada como culpada após entregar-se para as autoridades. Nesse caso, o segundo acontecimento, apesar de extremo, não representa uma exceção no sentido de que os brasileiros de origem japonesa, por vezes vistos como “exemplares” no Brasil, encontram-se em geral bastante marginalizados no contexto social japonês.

Já o segundo, “A História em espiral: compreendendo a receptividade brasileira à imigração haitiana a partir de suas determinações”, discute o mito que descreve o Brasil como um país acolhedor e receptivo à imigração, para tal, toma-se como campo analítico a imigração haitiana, no qual a autora busca demonstrar que essa ideia de pais acolhedor omite questões como os preconceitos e a xenofobia que dificultam a inserção do migrante no lugar de destino.

O terceiro texto, “Migração Venezuelana ao Brasil: discurso político e xenofobia no contexto atual” apresenta o estado de Roraima como principal rota para de entrada dos migrantes venezuelanos. A partir dessa realidade as autoras analisam as narrativas que permeia a Ação Civil Originária 3121, na qual o governo de Roraima solicita que o Supremo Tribunal Federal (STF) determine que a União assuma efetivamente o controle policial e sanitário na entrada do Brasil, inclusive com o fechamento temporário da fronteira. Além disso, procuram demonstrar como o recurso a essa retórica discriminatória atende a interesses políticos e de grupos específicos, agravando ainda mais a vulnerabilidade dos migrantes e dificultando sobremaneira sua integração.

O texto “Do imigrante ao nacional regenerado: a busca pelo trabalhador perfeito” traz o contexto imigratório para a cidade de São Paulo, no último quartel do século XIX, sendo que a maior parte desses migrantes vieram da Europa. Essa realidade, na concepção do autor, alimentou a mentalidade da elite brasileira em relação ao um novo regime de trabalho já que os imigrantes iriam contribuir com a economia paulista. Consequentemente, os imigrantes carregavam consigo a tarefa de “regenerar” a população brasileira, sobretudo a de ascendência africana, vista como uma população degenerada e inferior. Desta feita, o autor problematiza a importância da ação da escola no início do século XX a fim de regenerar o indivíduo.

Em “Da partida à saudade: as representações de migrantes do Nordeste na obra de Luiz Gonzaga”, é discutido o fenômeno da migração de trabalhadores nordestinos, entre as décadas de 1950 a 1970, para as cidades de São Paulo e do Rio de Janeiro através da obra musical do compositor e intérprete Luiz Gonzaga. Nesse caso a música é utilizada pelo autor para discutir a diversidade dos tipos de migrantes representados na obra do “Rei do Baião”.

Já o último artigo a compor o dossiê “Arranchar-se do outro lado do Atlântico: açorianos na freguesia de Taquari (sul da América portuguesa, 1750-1800)” demonstra os aspectos da migração de casais açorianos para o que hoje definido como Rio Grande do Sul a partir da freguesia de Taquari. Para isso, a autora investiga as condições de acesso à terra, bem como sua ocupação deste a chegada até as últimas décadas do século XVIII.

Francisco Marcos Mendes Nogueira – Doutorando em História pela UFRGS. Mestre em Sociedade e Fronteiras pela UFRR. Historiador (B / L) pela UFRR.

Alan Robson Alexandrino Ramos – Doutorando em Ciências Ambientais pela UFRR. Mestre em Sociedade e Fronteiras pela UFRR. Especialista em Segurança Pública e Cidadania pela UFRR. Bacharel em Direito pela UFC e em Filosofia pela Universidade Sul de Santa Catarina. Delegado de Polícia Federal lotado em Roraima.


NOGUEIRA, Francisco Marcos Mendes; RAMOS, Alan Robson Alexandrino. Apresentação. Aedos, Porto Alegre, v. 10, n. 22, Ago, 2018. Acessar publicação original [DR]

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Fronteiras e Migrações / História e Diversidade / 2017

O Dossiê Fronteiras e Migrações reúne abordagens a partir de resultados de pesquisas que discutem essas temáticas, em especial, a relação entre concepções sobre fronteira e o fenômeno das migrações. A migração como fenômeno humano é um debate recorrente na História, sobretudo, se considerarmos os deslocamentos como estratégias de sobrevivência, de realizações e aspirações diversas e outras perspectivas de vida. Essas discussões se tornam emergentes quando dirigimos nossa atenção para situações pontuadas por crises financeiras, em maior ou menor grau, estado de guerra com várias conotações político-ideológicas ou étnicas, catástrofes e perseguições de diferentes naturezas e todas as formas de refúgios e exílios. Com a mesma densidade a temática “fronteiras” tem um formato caleidoscópico e, portanto, permite discussões abrangentes que, do ponto de vista epistemológico, abarca todos os campos do conhecimento em várias temporalidades.

As discussões e concepções sobre fronteira estão dispostas em um campo polissêmico de situações que abrange conceitos, vivências e experiências dos que habitam e dos que estudam os diversos espaços fronteiriços em várias dimensões. Tomando por base a escrita do historiador Arno Alvarez Kern (2016, p. 11) “o conceito de fronteira é utilizado a partir de uma escolha deliberada e racional, buscando respostas para os questionários científicos que estabelecemos sobre as situações limites, nos territórios onde sociedades e culturas diferentes se encontram e se confrontam”. Das vivências dos territórios (trans) fronteiriços ressaltam o caldo de culturas, as formas de sobrevivência, o pertencimento ao lugar e a constituição de múltiplas identidades.

Como acontecimento demarcador da existência humana e, em especial na atualidade, os fluxos migratórios são complexos e alguns deles se assemelham à calamidades demarcadas por dramas familiares, condições econômico-sociais adversas alocadas nos desdobramentos de uma economia global pontuada por uma distribuição desigual de rendimentos e de riquezas. Esse quadro produz cada vez mais restrições de acesso aos bens indispensáveis às vivências humanas como, por exemplo, a falta de oportunidades de trabalho ou mesmo o subemprego e a sub-vivência. Os conflitos armados, a depuração étnica, a violação de direitos universais, perseguições e a ineficiência de governos e / ou a falta de políticas públicas capazes de acolher as populações mais vulneráveis também são razões para que contingentes populacionais se desloquem de um lugar para outro e para outros mais.

Nessa perspectiva, o mencionado dossiê apresenta seis textos. Em “Imigrantes e migradores: a fronteira em movimento” a historiadora Márcia Solange Volkmer analisa a densidade populacional na fronteira Brasil / Argentina a partir de correntes migratórias oriundas das províncias da Confederação Argentina e da Europa, além dos imigrantes brasileiros. As formas em que se estabelecem as relações transfronteiriças no espaço platino também são tratadas pela autora. Com o texto “Deslocamentos de ontem e de hoje na fronteira Brasil-Guiana: quem são os novos personagens (e as causas) da história atual?”, a antropóloga Mariana Cunha Pereira discute os deslocamentos contínuos e temporários que instituem vivências na fronteira do Brasil com a Guiana, tendo como fundamento os processos de colonização dos espaços fronteiriços desde o século XIX. O trabalho explora os sentidos das relações interétnicas situando-os nos panoramas socioeconômico e cultural para dar visibilidade às complexas questões de nacionalidade de ambos os lados da fronteira.

Em seguida, com o texto “Movilidad pendular transfronteriza de trabajadoras paraguayas entre Ciudad del Este (Paraguay) y Foz do Iguaçu (Brasil)”, os autores Arnaldo González Aguilera e Pedro M. Staevie recorrem às fontes orais para abordar a costumeira travessia dos territórios fronteiriços entre Brasil e Paraguai – Ponte da Amizade –, privilegiando as atividades laborais femininas e as estratégias de sobrevivência familiar. No quarto texto intitulado “Deslocamentos humanos: brasileiros e bolivianos no painel da globalização e da imigração transfronteiriça” a historiadora Maria do Socorro S. Araújo traz uma discussão sobre os arranjos econômicos globais, ou seja, o processo de globalização e as contradições / desigualdades derivadas do mesmo, incluindo a divisão internacional do trabalho. Nesse contexto, a autora situa e aborda os deslocamentos humanos na fronteira oeste Brasil-Bolívia destacando o fluxo de bolivianos que buscam a sobrevivência em territórios brasileiros. Da mesma forma, o texto apresenta a imigração do tipo pendular que habitualmente acontece no mesmo espaço transfronteiriço, onde brasileiros e bolivianos constroem um cotidiano para além das nacionalidades.

O texto do professor e historiador Carlos Edinei de Oliveira destaca os processos de colonização recente em Mato Grosso, na segunda metade do século XX, nos municípios de Tangará da Serra, Campo Novo dos Parecis e Sapezal, territórios tradicionalmente ocupado por diferentes povos indígenas. Esses espaços são ocupados por populações oriundas de diferentes lugares do Brasil, provenientes dos fluxos migratórios que compuseram a nova fronteira agrícola do centro oeste. O autor rastreia o movimento de colonização que iniciou na Era Vargas, passando pela política desenvolvimentista do governo Kubitschek e se efetivando durante e pós-ditadura civilmilitar brasileira. Como fontes documentais, as abordagens se remetem às mensagens dos governadores de Mato Grosso, às propagandas imobiliárias publicadas em jornais e revistas e panfletos de prefeituras municipais.

Nessa perspectiva de discussões, por último, apresentamos o texto intitulado “Reflexões acerca da História de Sinop / MT: imigração e fronteira agrícola”, do professor e historiador Edison Antonio de Souza. Nesse trabalho, o autor faz uma leitura sobre a constituição da cidade enquanto espaço urbano decorrente da expansão da fronteira agrícola no Estado, durante a década de 1970, viabilizada como projeto originário de colonização. As abordagens versam sobre as condições políticas e econômicas com as quais as “cidades novas” se estabelecem no estado de Mato Grosso, destacando a relação direta com a economia do agronegócio.

Além do Dossiê, este número apresenta seis Textos Extras de autores de diferentes regiões e instituições brasileiras, contemplando estudos e debates acerca de questões como: revolução francesa, surdez e ensino de história, leprosários na Era Vargas, relatos orais de pracinhas e ensino de história, escravismo no sul do Brasil e pena de morte no Brasil Imperial.

O primeiro texto de autoria de Bruno Mesquita Falcetti com o título “A revolução francesa: panorama histórico e os efeitos que moldaram a sociedade contemporânea”, apresenta uma análise a respeito das consequências da Revolução Francesa para a sociedade contemporânea, tendo como referência de análise as seguintes questões: processo histórico de construção; aspectos sociais, relações de poder e estrutura dos Estados europeus na década de 1780; narrativa histórica; fatores que levam Napoleão Bonaparte a tornar-se o principal ator no pós-revolução e nas guerras e nova república, assim como os efeitos e influências da revolução francesa no ambiente internacional do século XIX.

O segundo texto, de autoria de Ernesto Padovani Netto, aborda uma questão crucial e pouco discutida na área da História. Com o título “À margem da historiografia e sem acesso às aulas de História: cultura e identidade surda na luta pelas conquistas de direitos”, o artigo apresenta um debate sobre a comunidade surda como um grupo de sujeitos históricos, vinculados por uma noção de identidade, mas não inclusos na historiografia e “excluídos” das aulas de história, em virtude da condição de surdos.

Já o terceiro artigo, de autoria de Ivan Ducatti e Terezinha Martins dos Santos Souza, apresenta um estudo acerca do tratamento dispensado aos leprosos no Brasil de Vargas. Com o título “A prisão em nome da saúde: o isolamento compulsório em leprosários no Brasil de Vargas”, os autores analisam o isolamento compulsório de portadores de hanseníase no Brasil a partir da década de 1930, destacando-a como um período marcado por fortes questões totalitárias, como o nazifascismo, influenciando o pensamento brasileiro e legitimando ações governamentais.

O quarto artigo“O relato vivo como evidência para a aprendizagem de história, a partir de experiências com Pracinhas”, de Jucilmara Luiza Loos Vieira, apresenta o resultado de um estudo desenvolvido com alunos do terceiro ano do ensino médio, sobre os pracinhas na segunda guerra mundial. Por meio de relatos orais de pracinhas, o estudo evidenciou a importância dos relatos para a formação da consciência histórica na relação entre passado, presente e futuro.

Por sua vez, o quinto artigo intitulado “O negro na sociedade escravista do Alegrete oitocentista: trajetórias e lutas pela liberdade”, de autoria de Márcio Jesus Ferreira Sônego, apresenta um estudo sobre as relações estabelecidas entre senhores e escravos em Alegrete no século XIX, com o objetivo de compreender as lutas empreendidas pelos escravizados em busca da liberdade. Por último, o sexto artigo de autoria de Oseas Batista Figueira Junior, com o título “Crime e castigo: pena de morte e a manutenção da ordem no Império Brasileiro (1830-1876)”, apresenta um estudo sobre como a elite imperial atuou para enfrentar e conter as agitações populares que ocorreram no Brasil do séc. XIX, examinando as formas de controle social criadas e a eficácia de tais instrumentos de controle.

Desejamos à todos bons momentos de leitura e aprendizado!

Cáceres / MT, dezembro de 2017

Maria do Socorro de Sousa Araújo (UNEMAT)

Osvaldo Mariotto Cerezer (Editor)


ARAÚJO, Maria do Socorro de Sousa; CEREZER, Osvaldo Mariotto. Apresentação. História e Diversidade. Cáceres, v.9, n.1, 2017. Acessar publicação original [DR]

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Fronteiras em perspectivas / História e Diversidade / 2016

O dossier Fronteiras em perspetivas é o resultado da reunião de vários pesquisadores que se dedicam ao estudo de sua(s) fronteira(s). São apresentados aqui diferentes possibilidades interpretativas acerca de como os diversos grupos sociais (indígenas, portugueses e espanhóis) estabelecidos ao longo das fronteiras norte, oeste e sul se encontraram e se confrontaram durante o período colonial. Neste sentido, reunimos aqui quatroze trabalhos que nos possibilitam compreender como este encontro / desencontro pode criar, resignificar e reelaborar as diversas espacialidades ao longo fronteira luso-espanhola.

Apesar de ser pouco comum nos dicionários de termos históricos, o conceito de fronteira, segundo o historiador e arqueólogo Arno Alvarez Kern em seu artigo Fronteira / fronteiras: conceito polissêmico, realidades complexas, tem sido primordial para pesquisas históricas sobre os grupos sociais situados nos limites extremos de territórios contíguos. Segundo o autor, a utilização deste conceito nos permite ilustrar as trocas culturais, as mútuas influências linguísticas e o lento amadurecimento de sínteses que terminam gerando novas identidades nestes espaços fronteiriços. Já a historiadora Sílvia Helena Zanirato em seu artigo Fronteiras: definições conceituais e possibilidades investigativas, além de apontar algumas possibilidades interpretativas para o conceito de fronteira, salienta ainda, a necessidade de se realizar pesquisas na perspectiva interdisciplinar e do tempo presente na fronteira Brasil Bolívia. Para a historiadora, tal ação tornaria a região de Cáceres e a Universidade do Estado de Mato Grosso (UNEMAT), lugares extremamente profícuos para os estudos acerca desse campo de conhecimento.

Ao investigar as dinâmicas étnicas utilizadas pelos indígenas Cristãos e Infiéis nos espaços de fronteira, Chiquitania e Pantanal: conflitos, reciprocidade e mobilidade social (século XVIII), a historiadora Ariane Aparecida Carvalho de Arruda, buscar compreender os fenômenos de interação e intercâmbios pacíficos e bélicos entre os distintos agentes sociais, a partir das ações e respostas dos indígenas diante das relações assimétricas com os europeus, ao longo do século XVIII. Essas vinculações entre os espaços, segundo a autora, proporcionaram a mobilidade entre os atores sociais, que utilizavam não somente o confronto e a resistência, mas a negociação e a reciprocidade para atuarem na expansão europeia.

Na pesquisa Uma fronteira letrada: As reações escritas dos guaranis ao tratado de limites (1752-1761), o historiador Eduardo S. Neumann salienta que, ao analisar os episódios do conflito deflagrado nas reduções orientais, em meados do século XVIII, – a partir do impacto das práticas da escrita na organização social das reduções – é possivel compreender o modo como os guaranis missioneiros pautaram suas ações e atitudes em uma fronteira letrada. Segundo o autor, a comunicação in scriptis mantinha as principais lideranças informadas a respeito dos acontecimentos recentes, e ao mesmo tempo, cumpria a função de veicular uma versão indígena diante dos rumores que circulavam na região implicada no Tratado de Madri.

Em “Diré también alguna cosa de las que no he visto, a fin de que se sepa las que han existido”: as populações indígenas em “Viajes por la America Meridional”, de Felix de Azara (1809), as historiadoras Eliane Cristina Deckmann Fleck e Elisa Fauth da Motta examinaram as descrições e avaliações que o engenheiro militar espanhol, Felix de Azara, fez sobre certas práticas indígenas, inserindo-as em seu contexto de produção – fortemente marcado pelo pensamento ilustrado e pela reorientação da política imperial espanhola –, e analisando-as à luz da produção historiográfica e antropológica sobre as populações indígenas da América platina

No artigo Um certo capitão-mor: Poder local e redes familiares na expansão da fronteira Sul da América portuguesa (1721-1735), o historiador Fábio Kühn percorre alguns aspectos da trajetória do polêmico capitão-mor de Laguna, Francisco de Brito Peixoto. Segundo autor, esta análise possíbilitou dimensionar a importância das redes familiares, fundamentais nas estratégias sucessórias empregadas por esse membro da elite paulista que migrou para o Sul, ajudando a expandir as fronteiras do Império português na América meridional durante a primeira metade do século XVIII.

Discutindo a ação política empreendida pela Companhia de Jesus, mas especificamente pelos jesuítas, para converter índios “selvagens” em “autênticos homens” e depois em cristãos, temos a pesquisa A Companhia de Jesus nas fronteiras da América Espanhola da historiadora Ione Aparecida Martins Castilho Pereira. Segundo a autora, só a redução faria com que estes indígenas deixassem a vida pagã e levassem uma “vida política e humana”, facilitando assim, a catequização e a defesa das missões das incursões, internas e externas, praticadas tanto por espanhóis encomendeiros como portugueses. Afinal, reduzir as diversas etnias indígenas a um novo espaço urbano significou para estes jesuítas intervir profundamente no modo de ser dos indígenas, criando assim, estruturas urbanas que pudessem manter o indígena consciente da presença divina na missão e, ao mesmo tempo, que contribuísse para o sustento e manutenção de toda a população indígena reduzida neste espaço.

Analisando o conceito de civilização que deveria ser aplicado aos índios da América portuguesa e às práticas sociais indígenas, temos a pesquisa da historiadora Loiva Canova intitulada Índios e Civilização na Capitania de Mato Grosso sob a perspectiva do Directório. Segundo a autora, o Directório além representar o resultado da política Iluminista destinada aos índios, cujas resoluções eram inicialmente dada aos índios do Grão-Pará e Maranhão, foi capaz de interferir na vida de muitos índigenas que viviam nas terras da capitania de Mato Grosso. Na pesquisa Tierra adentro: fronteira e contato interétnico na pampa de Buenos Aires (século XVIII), a historiadora Maria Cristina Bohn Martins busca compreender, a partir de um conjunto de missões erigidas na pampa argentina em meados do XVIII, o quanto a fronteira austral e suas populações foram um desafio e um “ponto limite” para as práticas coloniais em franca expansão neste século.

Já a pesquisa da antropóloga Mercedes Avellaneda sobre La esclavitud indígena em los siglos XVI, XVII y XVIII en relación a la región del Paraguay y de Chiquitos en el Oriente Boliviano, procura demonstrar como o processo de escravidão indígena nestas regiões se desenvolveu por mais de dois séculos. E para compreender o impacto que estas transformações causaram na configurtação espacial dos grupos indígenas, a autora realiza uma reflexão do avanço e retrocesso das frentes de conquista, tanto espanhola quanto portuguesa, afim de dimensionar sua verdadeira importância nos processos de formação da fronteira.

Otávio Ribeiro Chaves apresenta o artigo O Secretíssimo Plano de Comércio e de Segurança organizado pela Monarquia portuguesa em 1770. Afirma o autor, com base no estudo das secretíssimas instruções enviadas em 1772 para os governadores das capitanias do Grão-Pará, São José do Rio Negro e de Mato Grosso, que, foi possível perceber os interreses geopolíticos portugueses para as regiões que faziam fronteiras com os domínios espanhóis na América do Sul. Um dos principais pontos de sua narrativa direciona-se a organização e execução do contrabando com os antigos territórios missioneiros jesuíticos de Orinoco, Quito e Peru. Busca-se perceber esta prática principalmente num espaço compreendido pela capitania de Mato Grosso e as antigas missões jesuíticas de Mojos e Chiquitos no período de 1770-1777. Não deixando, porém, de estabelecer a leitura dos acontecimentos que ocorriam em outras capitanias fronteiriças com os domínios hispânicos. De um extremo do território da América portuguesa, na fronteira oeste, deslocamos a nossa leitura para a Colônia do Sacramento, situado no extremo sul da América do Sul.

Realizando um estudo crítico sobre a construção do espaço urbano e a conquista territorial de Capitania de Mato Grosso através da comparação entre as cidades de Vila Bela da Santíssima Trindade (1752) e Vila Real do Bom Jesus do Cuiabá (1727), temos a pesquisa do historiador Romyr Conde Garcia intitulada Espaço do povo e espaço do rei na terra da conquista: Vila bela, Cuiabá e os seus distintos espaços. Encerrando este dossie, temos a pesquisa da historiadora e arqueóloga Tatiana de Lima Pedrosa Santos intitulada Entre rios: Fronteiras, populações e cultura material no norte. Em sua produção, a autora buscou construir um enfoque teórico para se pensar a fronteira amazônica numa perspectiva que leve em consideração seu passado, identificando assim, as contribuições e os limites do conceito de fronteira.

Além do dossiê, este número publica cinco artigos extras. O primeiro artigo intitulado Quilombos: uma estratégia de resistencia e enfrentamento dos escravos africanos diate da dominação européia, de Janaina de Fátima Zdebskyi, aborda o Quilombo como estratégia de resistência dos escravos e escravas no Brasil, relacionando a temática com a sala de aula e a situação das comunidades quilombolas na atualidade.

O segundo texto, de autoria de Luciana de Freitas Gonçalves, denominado Religiões de matrizes africanas nas Histórias em Quadrinhos: uma ferramenta pedagógica no ensino de História da África e cultura afro-brasileira, apresenta um debate acerca da utilização das histórias em quadrinhos no ensino de História, com foco na análise de produções com histórias que visam mostrar a África do ponto de vista dos africanos e afrodescendentes, analisando as diferentes representações, propondo-as como instrumentos de reflexão durante as aulas de História.

O terceirto artigo Homens de ferro, mulheres de pedra: fugas e formações de quilombos na fronteira entre as coroas portuguesa e espanhola (século XVIII-1809), Bruno Pinheiro Rodrigues realiza um estudo sobre as fugas perpetradas por cativos no oeste da América portuguesa e a formação de quilombos, entre o século XVIII ao ano de 1809, utilizando-se de documentação produzida na América portuguesa e espanhola sobre fugas, travessias de fronteiras, estratégias quilombolas e tentativa de levante urbano.

O quarto texto, O Artigo 26A e seus desdobramentos no currículo da Educação Básica de Mato Grosso, de autoria de João Bosco da Silva, apresenta um estudo sobre os impactos do Artigo 26A da Lei de Diretrizes de Base da Educação Nacional, fruto das lutas dos movimentos sociais negros pela reparação das formas equivocadas de demonstrar a participação negra na formação da cultura nacional, no dia a dia escolar no Estado de Mato Grosso.

O último artigo, de Maureci Moreira de Almeida e Paulo Alberto dos Santos Vieira, denominado Narrativas sobre o negro na telenovela brasileira: entre o mito da democracia racial e a ideologia do branqueamento, apresenta uma análise sobre concepções racistas relacionando-as com o debate acerca de como as telenovelas brasileiras fazem operar e difundir o mito da democracia racial e a ideologia do branqueamento.

Ao final desta obra, queremos agradecer a todos os autores pelas ótimas contribuições. Desejamos boas leituras!

Cáceres, julho de 2016.

Ione Aparecida Martins Castilho Pereira

Arno Alvarez Kern (PUCRS)

Otávio Ribeiro Chaves (UNEMAT)

Osvaldo Mariotto Cerezer (Editor


PEREIRA, Ione Aparecida Martins Castilho; KERN, Arno Alvarez; CHAVES, Otávio Ribeiro; CEREZER, Osvaldo Mariotto. Apresentação. História e Diversidade. Cáceres, v.8, n.1, 2016. Acessar publicação original [DR]

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“Identidades e fronteiras no Mediterrâneo antigo e medieval” / Tempos históricos / 2016

Compreender o universo mediterrânico como um ambiente de intensas e múltiplas trocas ao longo dos tempos torna-se um elemento fundamental para a construção de uma perspectiva histórica plural e dinâmica, especialmente quando analisamos o processo de formação e desenvolvimento das sociedades do Ocidente europeu. Diversos estudos no atual cenário acadêmico, nos mais variados temas, têm colocado em debate as diferentes formas de relação entre as culturas, ora de aproximação, ora de afastamento, sempre considerando nas análises os fluxos que acompanham os ritmos e circunstâncias particulares de cada contexto. No que diz respeito às áreas de História Antiga, Antiguidade Tardia e Medieval, o trabalho com dois conceitos têm especialmente contribuído para importantes discussões nesse ambiente: identidade e fronteira. Conceitos estreitamente relacionados, a identidade, construção individual ou coletiva de representação fundamentada em diversos elementos (a exemplo dos culturais, políticos, religiosos), envolve também a delimitação de fronteiras, restritas ou flexíveis, do ponto de vista territorial.

O dossiê que apresentamos aqui, “Identidades e Fronteiras no Mediterrâneo Antigo e Medieval”, vem no sentido de promover espaço para trabalhos com essa orientação de investigação, demonstrando a importância dos estudos acadêmicos brasileiros na discussão. Na abertura contamos com o artigo de Thiago Stadler, “Plínio, o Velho: leitor dos latinos”. Trabalhando com a questão da identidade erudita, buscando as principais características do conceito, Stadler analisa a obra ‘História Natural’, de Plínio, o Velho, autor romano do século I d.C. Seguindo as leituras de Varrão, Sêneca, Tito Lívio e Cícero, Plínio teria estabelecido, caracteriza Stadler, as mais diversas orientações e necessidades em relação ao homem erudito, dentre as quais destacamos: o domínio da gramática e de conhecimentos precisos e relevantes, o exercício da política, e a preocupação em relação aos seus atos.

Logo na sequência temos o artigo escrito por Alex Aparecido da Costa, “A integração imperial romana sob Trajano na concepção de Plínio, o Jovem”. Analisando o ‘Panegírico de Trajano’, composição de Plínio, o Jovem, importante personagem político do século I e inícios do II d.C., Costa sinaliza uma proposta de construção de um modelo ideal, virtuoso, de governante romano. Modelo que é projetado em Trajano, considerado o grande responsável pela grandeza e integração do Império Romano.

Em seu trabalho “De Eostre a Easter: ressignificação de um culto pagão na Inglaterra medieval?”, Nathany Andrea W. Belmaia analisa a possível ressignificação de um culto pagão, Eostre, pela Páscoa cristã, problematizando a afirmação de Beda, o Venerável, em ‘De Tempora Ratione’, do século VIII. Desenvolvendo um estudo de rastreamento etimológico e considerando as trocas culturais existentes, Belmaia sinaliza a iniciativa à época, desencadeada pelo Papa Gregório I, de incentivo à apropriação dos templos pagãos e de reelaboração das festividades religiosas locais. A identidade cristã surge, portanto, em construção.

Em seu trabalho “Ocidente e Oriente na Idade Média: o modelo sapiencial de justiça do rei Afonso X de Castela (séc. XIII)”, Elaine Cristina Senko analisa ‘Las Siete Partidas’, documento síntese do pensamento normativo e das estratégias políticas de Afonso X, monarca de Leão e Castela, no século XIII. Ao observar o constante resgate à memória do rei Salomão durante a obra, visto como exemplo de governante sábio e justo, idealizado em suas características, Senko considera a importância das tradições culturais e políticas do Oriente agindo e interferindo no Ocidente, dinamizando o contexto intelectual ibérico.

Na sequência, Renata Cristina de Sousa Nascimento apresenta o texto “A Cristianização do espaço: o protagonismo da Vera Cruz em Marmelar”. Considerando o relevante valor espiritual, mas especialmente observando os seus possíveis usos políticos, Nascimento analisa a importância da relíquia cristã “Cruz do Marmelar”, um fragmento do Santo Lenho, dentro das particularidades do contexto português do século XIV. A autora avalia a relação da relíquia com o movimento demográfico e de expansão das fronteiras na região, considerando principalmente o contexto da vitória cristã na Batalha do Salado, em 1340.

Fechando o dossiê, Fátima Regina Fernandes apresenta “Relações de poder na fronteira portuguesa no contexto das guerras luso-castelhanas (1367-83)”. Contempla neste estudo o tema das fronteiras e identidades no contexto das guerras luso-castelhanas, ocorridas na segunda metade do século XIV, observando com especial atenção o governo do rei Fernando I, de Portugal. Tendo por alicerce metodológico a prosopografia e utilizando-se das Chancelarias régias e das Crônicas régias de Fernão Lopes como fontes, Fernandes denota em sua pesquisa a complexidade das relações sociais e políticas envolvendo a ocupação e a defesa das terras fronteiriças, com destaque especial ao conceito de naturalidade no desenvolvimento da análise.

Aos autores que contribuíram para a composição do presente dossiê, aos membros do Núcleo de Estudos Mediterrânicos da Universidade Federal do Paraná, ao editor da Revista Tempos Históricos, Moisés Antiqueira, recebam o nosso profundo agradecimento.

Com votos de boa leitura!

Renan Frighetto – Professor associado da Universidade Federal do Paraná, professor permanente do Programa de Pós-Graduação em História da UFPR e professor colaborador da Universidade Federal do Rio de Janeiro. Possui graduação em História pela Universidade Gama Filho (1984), mestrado em História Antiga e Medieval pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (1990) e doutorado em História Antiga pela Universidad de Salamanca (1996). Bolsista em Produtividade e Pesquisa ID do CNPq.

André Luiz Leme – Professor Adjunto A – História Antiga e Medieval – no Colegiado de História da Universidade Estadual do Oeste do Paraná (UNIOESTE). Editor da Revista Diálogos Mediterrânicos. Possui Graduação (2008), Mestrado (2011) e Doutorado (2015) em História pela Universidade Federal do Paraná. Membro do Grupo de Pesquisa Estudos em História Intelectual (CNPq / UNIOESTE). Membro docente do Núcleo de Estudos Mediterrânicos (CNPq / UFPR).


FRIGHETTO, Renan; LEME, André Luiz. Introdução. Tempos Históricos, Paraná, v.20, n.2, 2016. Acessar publicação original [DR]

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Territórios e Fronteiras do Ensino de História – II / Fronteiras – Revista de História / 2016

Seria uma atitude ingênua esperar que as classes dominantes desenvolvessem uma forma de educação que proporcionasse às classes dominadas perceber as injustiças sociais de maneira crítica. Paulo Freire Para Paulo Freire, em nome de uma a educação como forma de libertação. A Fronteiras – Revista de História tem o satisfação de apresentar a segunda parte do dossiê sobre Territórios e Fronteiras no Ensino de História. O presente dossiê é um chamado a reflexão sobre os territórios do ensino de História na contemporaneidade, agregando estudiosos de diferentes regiões do país e instituições de ensino.

A ideia do dossiê parte da articulação entre os conceitos de territórios e fronteiras e das diversas interfaces que a área de ensino de história tem desenvolvido como campo de pesquisa e análise, seja na história do ensino de história, na análise de livros didáticos, na reflexão sobre os currículos, na relação entre ensino de história, historiografia e teoria da história, no estudo da cultura escolar e sua incidência sobre o ensino de história, no aprofundamento do debate acerca da aprendizagem histórica.

A riqueza da proposta está na amplitude, e ao mesmo tempo especificidade, que os conceitos de territórios e fronteiras (e seus derivados) adquiriram ao longo de sua caminhada histórica na modernidade. No entanto, nosso interesse não é o de encapsular os conceitos, mas entendê-los em sua relação orgânica com a área de ensino de história. Interessa-nos sua polissemia, o que significa perceber os diferentes espaços constitutivos do campo do Ensino de História no Brasil.

Partimos da premissa de que os conceitos são mutantes e híbridos e que as possibilidades de sua delimitação e restrição significam sua subsequente essencialização, seu engessamento decorrente de um suposto horizonte técnico capaz de captá-los em seu estado de pureza. Não é o nosso objetivo neste dossiê. O foco é justamente a hibridização, o amálgama, a possibilidade de articulação do pensar teoricamente a partir de conceitos, temas, abordagens e problemas que só ganham significado quando “interconectados”, quando imersos numa rede argumentativa, quando instrumento em funcionamento, ferramenta em obra. Em reflexão crítica, não há nada que se sustente em si, e por sua natureza, os conceitos e as ideais só existem em função da vida social, da experiência cultural, da sua dimensão para os sujeitos, pela mundanidade que os contextualiza e permite a eles uma existência representativa.

Deste modo, o ensino de história, suas temáticas, objetos e clivagens teóricas são campos férteis nos quais os conceitos de territórios e fronteiras podem evidenciar suas potencialidades analíticas e suas forças teóricas como instrumentos de produção de conhecimento. Trata-se de uma proposta que permite também ampliar o leque de debates dentro da área de “Ensino de História”, ampliando suas referências analíticas, teóricas e conceituais. Não é apenas falar dos territórios e fronteiras, mas sim adentrá-los, torná-los conhecidos e desejados / questionados.

Esse convite feito aos nossos colegas de área e as suas respostas nos indicam um caleidoscópio de questionamentos e problemas com ricas e instigantes possibilidades de análises, reflexões e pesquisas. Antes de ser uma defesa do campo do Ensino de História, esse dossiê é um manifesto a favor da democracia e da liberdade de pensamento e expressão. É o nosso “Cavalo de Tróia” contra projetos antidemocráticos como o “Escola Sem Partido” e toda a gama de discursos de intolerância e preconceito ainda persistente na sociedade brasileira. É o nosso engajamento em prol da escola / universidade pública, gratuita, democrática e plural. Enfim, é um desejo pulsante e urgente de existir, resistir e sonhar ….

Abrindo esse dossiê, o artigo Os concursos para docentes do ensino superior na área de História, de Raquel Alvarenga Sena Venera, discorre sobre as práticas discursivas privilegiadas nos concursos para docentes do Ensino Superior, adjunto e ou assistente, na área de Ensino de História, tomando por referência a análise do discurso e a História do Tempo Presente. Em Ensino de História, Estágio Supervisionado e pesquisa histórica em Educação: lugares de convergência, Adriana Aparecida Pinto apresenta os resultados de uma das ações realizadas no Laboratório de Ensino de História – LABhis -, da Universidade Federal da Grande Dourados (UFGD). Nesse sentido, promove a articulação entre o ofício do historiador e a pesquisa em educação na perspectiva histórica, de modo a atender ao levantamento, sistematização e organização de documentação em apoio à consolidação da escola como lugar de memória, vinculando espaços desta natureza ao ensino e aprendizagem de História.

No artigo A formação de professores para o ensino de História: impasses em perspectiva, Wilma de Nazaré Baía Coelho e Nicelma Josenilda Brito Soares trazem reflexões sobre os impasses que permeiam a área da educação, a partir da inspeção aos processos formativos para o Ensino de História, sob a perspectiva da legislação, da produção acadêmica e da formação de professores. A análise é subsidiada pelas formulações teóricas que se ocupam da formação de professores, em âmbito mais geral, e do ensino de História.

No ensaio Ensinar história e cultura afro-brasileira: possibilidades e alternativas de Práticas Pedagógicas, de autoria de Júlio Ricardo Quevedo Santos e Aristeu Castilhos da Rocha, sinaliza-se algumas possibilidades e alternativas para o profissional em História – trabalhador em Educação – atuar frente a esta nova realidade da comunidade escolar, num contexto de debates e reformas curriculares no Brasil. Nesse sentido, os autores dialogam com as questões presentes nas Diretrizes Curriculares Nacionais da Educação Básica, de 2013, na Resolução n. 02 / 2015 do MEC / CNE, que trata da formação de profissionais para o Ensino de História, entre outras, da Base Nacional Comum Curricular (BNCC) em processo de elaboração, desdobramentos da LDB n. 9394 / 96, acompanhadas de disputas pelo direito à Educação para as Relações Étnico-Raciais (ERER) que tem por objetivo a cidadania e a promoção à igualdade étnico-racial.

Márcia Elisa Teté Ramos, em O mau professor de História segundo os “Guias politicamente incorretos de história”, aborda as noções sobre o que seria o mau professor de História dos “Guias Politicamente Incorretos de História…”. Esses Guias partem do princípio generalista de que os professores da disciplina das escolas ou das universidades públicas ensinam uma História ideológica, por isso deturpada, porque “de esquerda”. Para substituir esta História supostamente deturpada, os Guias propõem revelar a “verdade histórica”, desconstruindo heróis e vilões, assim como determinados momentos históricos. Nos meandros desse tipo de abordagem, a autora procura entender como essa obra se apropria do passado para legitimar determinado discurso contra a escola democrática e plural.

No artigo História de mudanças, mudanças da história: educação popular e representações sociais de estudantes do Projeto de Educação de Jovens e Adultos (P.E.J.A) – UNESP / Assis, Ronaldo Cardoso Alves e Stefânia Rosa Santos trazem uma análise acerca das Representações Sociais de alunos do Projeto de Educação de Jovens e Adultos (P.E.J.A.), vinculado à Universidade Estadual Paulista (UNESP), Campus de Assis. Os principais objetivos da pesquisa foram identificar as representações construídas em torno dos estudos na vida adulta, especificamente a partir do ingresso no P.E.J.A., compreender a importância do projeto, e por fim, analisar a influência do trabalho de alfabetização e letramento na vida destes educandos.

Em História dos africanos e afrodescendentes nos livros didáticos, guias e programas nacionais, Luís César Castrillon Mendes, Mairon Escorsi Valério e Renilson Rosa Ribeiro analisam um importante veículo que se encontra ligado as articulações entre política de Estado (por exemplo, Programa Nacional do Livro Didático – PNLD), currículos e escolas: o livro didático de história. Nesse sentido, os autores procuram entender o livro didático enquanto um complexo objeto cultural, vinculado às políticas públicas e a sua adaptabilidade às novas exigências contemporâneas, com destaque para a implementação das Leis n. 10.639 / 03 e n. 11.645 / 08, que instituem o ensino da história e da cultura africana, afro-brasileira e indígena na educação básica.

No artigo A cultura histórica como possibilidade investigativa da educação patrimonial nas aulas de História, Marcelo Fronza promove uma visão abrangente sobre como a cultura histórica de uma sociedade é constituída por meio da sua memória histórica. Tal prática é efetivada por meio de concepções ligadas ao patrimônio histórico, à experiência com a história local e aos museus e seus objetos como possibilidades de construção aulas de história que favoreçam o desenvolvimento da consciência histórica dos sujeitos que vivenciam a cultura escolar. É no encontro dessas questões que o pesquisador propõe suas reflexões e apontamentos sobre a educação patrimonial.

Dilton Candido dos Santos Maynard, em Expandindo as fronteiras do ensino: os conteúdos multimídias nas coleções de História do PNLD 2014, estuda o material aprovado pelo Edital PNLD 2014 para compor o acervo de conteúdos multimídias incorporados às coleções de livros presentes no Guia do Livro Didático 2014. Dentro desta perspectiva, analisa os limites e potencialidades dos objetos educacionais digitais (OEDs) nas três coleções mais adquiridas pelo Ministério da Educação (MEC) e o esforço pioneiro para introduzir, nas escolas públicas brasileiras, suportes digitais na área de História.

Em Livros didáticos e ensino de História: A Comissão Nacional do Livro Didático, do Estado Novo ao período democrático (1938-1961), Halferd Carlos Ribeiro Júnior apresenta e discute o processo de avaliação dos livros didáticos no Brasil, em especial dos manuais escolares de História, em que teve fundamentação em uma legislação aprovada em 1938 e alterada em dezembro de 1945, desse modo, uma legislação e proposta de avaliação elaborada na época do Estado Novo, que permaneceu, ainda que modificada, no período democrático.

O artigo Viajantes de Clio: intelectuais, intercâmbios e formação, de Alexandra Lima da Silva, objetiva investigar os sentidos das viagens realizadas por intelectuais que se dedicaram à escrita de livros didáticos de História é o horizonte do presente trabalho. Nesse sentido, analisa a relevância das viagens na circulação de livros e ideias referentes ao ensino de História do Brasil, sobretudo entre finais do século XIX até metade do século XX.

No ensaio A arte da memória de povos em diáspora: história e pedagogia em “condições de enunciação”, Maria Antonieta Antonacci, a partir de uma perspectiva interdisciplinar, intertextual, intercultural, em diálogos comunitários, repensa abordagens na produção / transmissão de conhecimentos históricos, reorganização curricular, práticas de ensino / aprendizagem a partir do potencial de opções pedagógicas descoloniais contidas nas Leis n. 10.639 / 2003 e n. 11.645 / 208, para a educação básica.

As reflexões contidas no artigo Saberes históricos na Educaçao Infantil: alguns apontamentos e necessidades, de Cristiane Aparecida Zambolin Teodoro e Camila José Galindo, são resultantes de uma pesquisa que se desenvolveu no âmbito do Grupo de Investigação sobre o Ensino e as Necessidades Formativas de Profissionais da Educação – CNPq / UFMT, a qual buscou identificar a representação de necessidades que professoras da Educação Infantil têm acerca da construção de saberes históricos junto as crianças. O tema em questão foi escolhido em razão da emergência de conhecimentos sobre a perspectiva do ensino e de práticas pedagógicas relacionadas a construção de saberes históricos junto as crianças bem como de precisar necessidades formativas a partir da voz dos sujeitos.

Adilton Luís Martins, em Educação e Antiguidade no século XVIII francês, convida-nos a pensar a articulação entre o mundo antigo e o contemporâneo. Para o autor, o ensino sobre história e letras clássicas no século XVIII francês oferecia três dimensões para as elites, a primeira representava um estética humanista para moldar o caráter dos estudantes; a segunda era uma prática de retórica que constituía forma de pensar e de convencimento; a terceira dimensão associava a própria a elite com um vocabulário cultural de distinção. É por meio desse universo dos “usos do passado” que o seu artigo irá permitir o diálogo com o ensino de História.

Em Propostas para o ensino de História: a construção de um saber escolar, Kátia Maria Abud discute o ensino de História na perspectiva da elaboração dos documentos curriculares produzidos no Brasil, na segunda metade do século passado. Para tanto se detém nos Guias Curriculares para o Ensino de Primeiro Grau e nos Parâmetros Curriculares Nacionais (PCN) e procura desvendar as confluências entre os dois documentos.

No artigo Aprender com objetos no Museu da Republica: propostas de leitura das dobras do tempo, Carina Martins e Marta Robalinho abordam as possibilidades e os usos pedagógicos do objeto no ensino de História, com especial atenção para o Museu da República, na cidade do Rio de Janeiro. Assim sendo, a proposição de paradigmas educativos a partir da leitura do objeto é posto como um exercício interpretativo válido e necessária na prática de ensino.

Itamar Freitas e Margarida Maria Dias de Oliveira, no texto Família como sujeito na historiografia didática sobre o contemporâneo e o tempo presente, tratam do sentido de família, representado textual e iconograficamente nos livros didáticos de História destinados ao Ensino Fundamental no Brasil. Dentro dessa questão, dissertam sobre a família como sujeito histórico e a presença da família na historiografia didática para adolescentes no contexto contemporâneo.

Fechando o dossiê, Osvaldo Rodrigues Junior e Tania Braga Garcia, no ensaio Diálogos com os professores: contribuições dos manuais de didática da História para as práticas de ensino, apresentam resultados de análise de manuais de Didática da História produzidos no Brasil entre 1997 e 2013, explicitando características da estrutura e forma de sete obras que correspondem à definição de manuais didáticos como obras que têm a finalidade de orientar professores em suas práticas de ensino.

Na seção de artigos livres temos a contribuições de seis estudos: Bruno Pinheiro Rodrigues, no texto O trânsito de cativos do oeste da América portuguesa para espanhola: fugas, sequestros e a busca de liberdade (século XVIII), tem como proposta a análise de documentos que registram o movimento de cativos na fronteira entre as duas coroas ibéricas no século XVIII, a saber, a portuguesa e espanhola. Para tanto, discorre sobre as rotas, fluxo de fugas, casos de “trânsito forçado”, bem como fugas individuais ou coletivas.

Andréia Vicência Vitor Alves, Alessandra Domingos de Souza e Marianne Pereira de Souza, no artigo Ações do Estado de Mato Grosso do Sul para a gestão da educação: básica: da promulgação da Constituição Federal (de 1988 à 1998), buscam apreender as ações do Estado de Mato Grosso do Sul para a gestão da educação básica, com o intuito de explicitar o curso da gestão da educação na política educacional desse estado no período de 1988 à 1998.

Valdir Aragão do Nascimento, em O periodismo e a construção da identidade nacional paraguaia no decurso e no pós-guerra da Tríplice Aliança (1864-1870), por meio dos meios de comunicação da época, apresenta alguns dos fatos histórico-culturais mais importantes ocorridos durante e depois da Grande Guerra; fatos estes que ensejaram a constituição de uma identidade nacional paraguaia tributária dos episódios bélicos havidos durante o conflito.

Lorena Zomer, no artigo intitulado A escrita de Guido Alcalá e a literatura latino-americana nos anos 1970, analisa a relação do estilo de escrita latino-americana que estava se desenvolvendo com a literatura do jornalista e escritor paraguaio Guido Rodriguez Alcalá, ao mesmo tempo em que trabalha ideias sobre dois contos, chamados La session de la OEA e Memorias de una sindicalista.

Tatiane Monteiro Ré, Marcos Clair Bovo e Fábio André Hahn, no ensaio A praça como objeto de estudo de uma pequena cidade, abordam os usos e as funções desempenhadas pela praça em uma pequena cidade, questão ainda pouco investigada. Nesse sentido, adotam a metodologia proposta por Milton Santos, partindo de suas categorias de análise de estrutura, processo, forma e função.

Beatriz dos Santos Oliveira Feitosa e Luciene Aparecida Castravechi, em O progresso da Amazônia a preço de vidas: repressão militar no Araguaia matogrossense (1970), tomando por base os conceitos de “modernidade” e “progresso”, relacionam a produção dos discursos num contexto desenvolvimentista, que tomava conta do Brasil durante a vigência dos Governos Militares, e a constituição dos novos espaços de ocupação, resultantes dos projetos de modernização pensados e financiados pelo Estado – tendo a Amazônia mato-grossense como cenário.

Esse número da Revista fecha com duas resenhas: a primeira de autoria de Amauri Junior da Silva Santos, do livro Didáticas da história – Entre filósofos e historiadores (1690-1907), de Itamar Freitas e publicado em 2010 pela Editora da UFRN; e a segunda de Regina Weber, da obra Especialistas na Migração: Luteranos na Amazônia (1967-1997), de Rogério Sávio Link e publicado pela Editora Karywa, em 2015.

No mais, desejamos a [email protected] uma excelente leitura!

Adriana Aparecida Pinto (UFGD)

Mairon Escorsi Valério (UFFS)

Renilson Rosa Ribeiro (UFMT)


PINTO, Adriana Aparecida; VALÉRIO, Mairon Escorsi; RIBEIRO, Renilson Rosa. Apresentação. Fronteiras: Revista de História. Dourados, v. 18, n. 31, Jan. / jun., 2016. Acessar publicação original

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História, Fronteiras e Identidades / Monções / 2016

A Revista Monções apresenta, neste número, o dossiê História, fronteiras e identidade. A proposta do conjunto de textos que trazemos aos/as leitores/as parte de uma perspectiva conceitual abrangente no que se refere as experiências de grupos e pessoas em espaços e/ou situações fronteiriças. Em outras palavras, compreende-se fronteira enquanto um termo polissêmico, embora tenha forte ligação com as noções de território, territorialidade e formação da nação, o conceito também abarcar uma enorme gama de possibilidades interpretativas, sobretudo quando se relacionada com culturas, identidades e sociabilidades. Assim, aborda-se a Fronteira como conceito e metáfora, compreendendo-a como algo sempre móvel e que propicia reflexões sobre diferentes percepções de mundo.

O artigo que abre o dossiê é Fronteiras (inter) disciplinares: o ensino de história no contexto das Universidades Novas, de Francismary Alves da Silva. Em sua análise, a autora traça um panorama acerca da constituição das ciências enquanto disciplinas. Ao tratar da especificamente da história, escreve que, no século XIX, “(…) a história se profissionalizou, adotou um método próprio, específico, afastou-se das especulações filosóficas, da estética literária, dos desígnios religiosos, tornou-se uma ciência.” Em outras palavras, os saberes, entre eles a história, constituíram paradigmas teórico-metodológicos próprios.

A análise avança no sentido de apontar, já no século XX, o movimento em prol da interdisciplinaridade, que, mais recentemente, chegou à Universidade brasileira, tanto no que concerne à produção acadêmica, enquanto como conceito; como também aplicado a constituição de licenciaturas e bacharelados interdisciplinares. Sob esta conjuntura, o texto aponta e problematiza questões inerentes à esta nova realidade, particularmente no diz respeito à formação em história. Desse modo, ao tomar a fronteira entre a formação disciplinar e interdisciplinar como objeto de análise, a autora coloca perguntas pertinentes, tais como: os profissionais formados em história (…) poderão atuar com a complexidade e domínio o pensamento histórico requer? O texto traz outros questionamentos igualmente importantes sobre o tema, que valem a pena para entender o cenário atual, vivenciado no interior de algumas Universidades.

Na sequência, o artigo Francisco Adolfo de Varnhagen (1816- 1878): a escrita na “’fronteira” entre história, memória e narrativa no brasil oitocentista, escrito por Marcela Irian Machado Marinho e Renilson Rosa Ribeiro apresenta outra das múltiplas formas que a conceituação de fronteira pode apresentar. O texto analisa a obra de Varnhagen buscando desvendar os compromissos da escrita do Visconde de Porto Seguro com o ideal de nação presente no Segundo Reinado. Caracterizado como “um historiador que se situa na fronteira entre a erudição com a história, a memória e a narrativa”, o artigo revela nuances da tessitura da escrita de Varnhagen, no contexto da criação e consolidação do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro – IHGB, e permite ao leitor compreender alguns dos elementos constitutivos da identidade histórica do Brasil, forjada naquele espaço de sociabilidades e de fomento do saber, sob a pena daquele que foi considerado um de seus mais importantes escritores.

No artigo intitulado A diferença entre “nós” e os “outros”: fronteiras e territórios na história do município de Nova Porteirinha/MG, Regina Célia Lima Caleiro e Rhaenny Maísa Freitas abordam a forma como as noções de fronteira e território estão presentes na constituição do município de Nova Porteirinha, Minas Gerais. Além da fronteira física, o texto percorre questões relacionadas à fronteira cultural e identitária, discutindo como o “nós”, relativo à sociedade nova porteirinhense, se forja em distinção ao “outro”, correspondente ao município de Janaúba, que está próximo geograficamente, e Porteirinha, cidade a qual estava vinculada originalmente.

Ao adotar a História Oral como pressuposto metodológico para analisar as entrevistas concedidas pelos moradores do local, as autoras conseguem captar, de forma sensível, a construção identitária do local, formada no bojo do processo de (re)territorialização decorrente da construção da Barragem Bico da Pedra, no Rio Gorutuba e na implantação de um projeto de irrigação destinado a tornar Nova Porterinha espaço de produção de gênero alimentícios de alta qualidade.

Luciano Pereira da Silva e Rogério Othon Teixeira Alves apresentam uma instigante análise sobre a Estrada de Ferro Montes Claros: o projeto de modernidade que não se efetivou. No texto, os autores observam que, a despeito de das características políticas e sociais e de sua condição geográfica de cidade interiorana, Monte Claros não escapou ao desejo de modernização que marcou a sociedade brasileira na passagem do século XIX para o XX. A concretização de tal desejo, segundo eles, se traduziu no projeto de construção da Estada de Ferro Montes Claros que, quando concluída, poderia “tirar a cidade de certo isolamento e atraso”. Por meio da análise de obras memorialísticas e publicações em jornais da época, os autores percorrem todo o processo de planejamento da ferrovia, do início de sua construção e apontam possibilidades interpretativas para sua interrupção. A analisa denota noções, intenções e valores presentes não só em Montes Claros, mas na sociedade brasileira como um todo, no sentido de observar como a inserção no sistema capitalista, simbolizada pela construção de uma ferrovia, alimentava o imaginário em torno de uma certa ideia de desenvolvimento, progresso e civilização caras àquele período.

O artigo de Carlos Alexandre Barros Trubiliano e Kamoni São Paulo, intitulado Apontamentos sobre dinâmicas de fronteiras e a ocupação recente de Rondônia (1970 -1990), se debruça sobre a noção de fronteira geográfica e analisa o processo de ocupação recente de Rondônia. Tomando como referência a obra de Frederick Jackson Turner que estuda o avanço para Oeste nos Estados Unidos, bem como as noções de frente de expansão e frente pioneira, formuladas por José de Souza Martins, o estudo aponta questões relacionadas ao processo de expansão capitalista em direção ao Norte do Brasil, a partir de década de 1970, em particular para a realidade experienciada em Rondônia. O texto destaca o volume de migrantes atraídos para a região e as consequências da política fundiária desenvolvida pelos governos militares que gerou, entre outras, um número significativo de conflito agrários na região.

Rondônia é novamente tema de análise no texto de Eliane Teodoro Gomes e Gilmara Yoshihara Franco, denominado A conquista da última fronteira: a imprensa periódica e as narrativas sobre a ocupação de Rondônia (1960-1980). Nele, as autoras tomam a imprensa periódica, notadamente a revista Veja e o jornal Tribuna Popular, para analisar os sentidos da chegada dos migrantes no território rondoniense, bem como se apresentavam o ideário e os anseios de progresso e desenvolvimento que caracterizavam a Ditadura Civil- Militar e os sonhos daqueles que deixaram seus lugares de origem, em outras regiões do Brasil, e apostaram na conquista de um pedaço de terra no novo Oeste brasileiro.

Percorrendo outros caminhos que o conceito de fronteira permite estabelecer, o trabalho de Márcia Pereira da Silva, intitulado Os “males da mente”: o tratamento das doenças mentais entre o espiritismo e a psiquiatria na primeira metade do século XX no Brasil, mergulha universo dos discursos da medicina convencional e espírita acerca da loucura buscando compreender “as experiências na fronteira entre o que recomendava a psiquiatria e o que defendia os preceitos espíritas”, para o tratamento daquilo que denomina de “males da mente”. Ao analisar fontes e referências bibliográficas que abordam o tema, o texto permite ao leitor observar que, para além da fronteira estabelecida por tratamentos pautados em eletrochoques, lobotomia e isolamento, desenvolveu-se, por intermédio do Espiritismo, outras formas compreender, diagnosticar, enfrentar e tratar aquilo que a medicina ocidental chama de loucura.

Por fim, o artigo de Rita de Cássia Biason, Ética pública e o bom governo: uma tênue fronteira, toma obras clássicas de Platão, Aristóteles, Maquiavel e Hobbes para analisar suas respectivas concepções acerca da formação de bons governos e seu funcionamento a partir de uma ética própria ao Estado. A intenção da autora centra-se sobre o tema da ética na esfera pública. Por intermédio de seu estudo é possível observar como a ética, enquanto conceito, tem concepções distintas no tempo e no espaço e como alguns filósofos a interpretam, com vista a determinar aquilo que entendem como “bom governo” e atuação adequada dos homens que ocupam cargos públicos.

Esperamos que todos e todas apreciem a leitura.

Gilmara Yoshihara Franco

Márcia Pereira da Silva


FRANCO, Gilmara Yoshihara; SILVA, Márcia Pereira da. Apresentação. Monções. Coxim, v.3, n.5, 2016. Acessar publicação original [DR]

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Territórios e Fronteiras do Ensino de História – I / Fronteiras – Revista de História / 2015

A Fronteiras – Revista de História tem o prazer de apresentar a primeira parte do dossiê sobre Territórios e Fronteiras do Ensino de História. O presente dossiê é um convite a reflexão sobre os territórios do ensino de História no mundo contemporâneo, agregando estudiosos de diferentes parte do país e instituições de ensino.

Currículos, formação de professores, livros didáticos, patrimônio cultural, direitos humanos, diversidade étnico-racial são temas que marcam as reflexões acerca dos lugares do ensino da história entre diferentes territorialidades e limites (sempre em expansão e híbridos).

Em razão da diversidade que constitui o campo e das demandas recebidas para a publicação, a partir da chamada pública lançada em meados de 2015, a temática será contemplada no próximo número da revista, o que evidencia a relevância do tema do Ensino de História para a formação e prática dos historiadores e professores.

Abrindo esse número, o artigo Ensino de História numa perspectiva dos direitos humanos: métodos e abordagens possíveis no ambiente escolar, de Douglas Orestes Franzen, discorre sobre a relação entre escola e direitos humanos a partir do ensino de História, um assunto muito atual para o debate sobre currículos. Nesse sentido, a disciplina de História tem muito a colaborar e, principalmente, a problematizar, pois que a noção de direitos humanos está inserida numa conjectura de problematizações e contextos que ressaltam uma noção de cidadania e consciência histórica.

Em O livro didático de História e questão da identidade nacional brasileira ao longo do período republicano: a fronteira entre rupturas e continuidade, Gilmara Yoshihara Franco e Carlos Alexandre Barros Trubiliano elegem a produção didática em História para abordar as tramas da identidade nacional brasileira e investigam como esta ferramenta pedagógica pode ser observada como espaço de disputas por representação entre os diversos grupos que compõem a sociedade brasileira.

No artigo Currículo, material didático e avaliação: um estranho triângulo no ensino de História do Estado de São Paulo, Vitória Azevedo Fonseca, a partir da comparação dos materiais oficiais que orientam a atuação dos professores de História na Rede Estadual de Ensino do Estado de São Paulo (Currículo de São Paulo, São Paulo Faz Escola e Matriz de Referência do SARESP), apresenta análise do uso do termo “habilidades” e as propostas para sua aplicação prática indicando as suas inconsistências e impossibilidades no contexto do ensino de História.

No ensaio Memória e patrimônio na aula de História: o uso do monumento histórico-cultural na aprendizagem histórica, Jaqueline Zarbato e Caio Vinicius dos Santos analisam os usos do patrimônio cultural na história ensinada, a partir de atividade realizada na prática de ensino de história, cujo objetivo era refletir sobre a representação cultural de determinado monumento histórico em consonância com a observação, participação e preservação, bem como com a interpretação por parte dos sujeitos que estudam história.

Osvaldo Mariotto Cerezer e Selva Guimarães, em Formação de professores de História e ensino de história afro-brasileira e indígena, apresentam um estudo sobre a implementação das Leis n. 10.639 / 03 e n. 11.645 / 08 e as respectivas Diretrizes curriculares nos cursos de Licenciatura em História de três universidades públicas do Estado de Mato Grosso, destacando os impactos na formação inicial de professores e no ensino da história e cultura afro-brasileira e indígena em escolas da educação básica.

O artigo A Educação de Jovens e Adultos no Brasil: reflexões no plano legislativo e as contribuições do ensino de História para a formação da consciência histórica dos alunos, de autoria de Wilian Bonete Junior, faz uma abordagem, em perspectiva histórica, acerca das concepções conferidas no Brasil à Educação de Jovens e Adultos (EJA) no contexto da Resolução CNE / CEB 01 / 2000 e do Parecer 11 / 2000 e estabelece um diálogo com as questões da consciência histórica.

A partir da temática concernente a formação de professores no Brasil contemporâneo, Ana Paula Squinelo discute a configuração das Licenciaturas em História e suas possíveis implicações na formação docente, situando a implantação do Programa Institucional de Bolsa de Iniciação à Docência (PIBID) como política governamental dentro desse princípio. O artigo A formação de professores no âmbito do subprojeto Pibid / História / UFMT / CPAQ: trajetórias, vivencias e expectativas apresenta também as experiências compartilhadas com um grupo de pibidianos que ingressaram no subprojeto da área de História da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS), campus de Aquidauana.

Do Cafezinho à Feijoada: Práticas pedagógicas para promoção da Igualdade Racial na Escola Edna May Cardoso – Santa Maria / RS é uma reflexão sobre o resultado de pesquisas bibliográficas, documentais e orais desenvolvidas durante os anos de 2012 e 2013. Nesse artigo, Gilvan Silveira Moraes e Júlio Ricardo Quevedo Santos buscam analisar, discutir e retomar o processo de implementação da Lei n. 10.639 / 3 e da criação da “Semana da Consciência Negra” em uma escola na cidade de Santa Maria / RS, a partir das práticas pedagógicas que as educadoras e os educadores presentes na instituição se utilizaram para a consolidação e aplicação da referida lei.

No artigo Ensino de História regional em Mato Grosso do Sul: limites e possibilidades no uso do livro didático para o Ensino Fundamental, Jackson James Debona analisa livros didáticos que entraram no Mato Grosso do Sul no período do Programa Nacional do Livro Didático (PNLD), em 2011, para o ensino de História, no esforço de compreender questões relacionadas à inserção dos aspectos regionais no âmbito dos conteúdos a serem ministrados nos anos finais do Ensino Fundamental.

Fechando o dossiê, temos o artigo O lugar de formação de professores de História: breves notas sobre Eunápolis, campus XVIII da UNEB, de autoria de Célia Santana Silva. Nesse ensaio, a autora apresenta e analisa a formação docente em História estabelecendo relações entre o contexto nacional e o Curso de Licenciatura em História da Universidade do Estado da Bahia (UNEB), especificamente no campus XVIII em Eunápolis. Para tanto, faz uso das leituras e análises do projeto de reconhecimento do Curso, das diretrizes curriculares nacionais e de bibliografia de referência.

Na seção de artigos livros temos a contribuições de três estudos: Thomas Höjemo, no texto A leveza de andar, o desenvolvimento de políticas urbanas voltadas para os pedestres em Copenhague, Dinamarca (1960-2015), aborda a transformação do centro da cidade de Copenhague, na Dinamarca, ocorrida com a implantação gradual de calçadões entre os anos 1960 até os dias atuais; Ricardo Oliveira da Silva, em A historiografia alemã no século XIX, apresenta o desenvolvimento da reflexão epistemológica sobre o conhecimento histórico na historiografia alemã do século XIX, destacando que não houve uma abordagem monolítica em termos teóricos e metodológicos por parte dos historiadores alemães no momento em que se pensava a constituição da História como área do conhecimento; Natália Araújo de Oliveira, no artigo “Conquistando o Oeste”: Amazônia Legal brasileira e o caso de Nova Xavantina / MT, discute as políticas de colonização empreendidas para a região mato-grossense da Amazônia Legal brasileira, debatendo o ideário de integração nacional que perpassou essas e apresentando os atores desse processo na cidade de Nova Xavantina.

Esse número da Revista fecha com a resenha, de autoria de Valdeci Silva Cunha, da coletânea Ángel Rama: um transculturador do futuro, organizada por Joana Rodrigues e Flávio Aguiar e publicada em 2013 pela Editora da UFMT.

No mais, desejamos a [email protected] uma excelente leitura!

Adriana Aparecida Pinto (UFGD)

Mairon Escorsi Valério (UFFS)

Renilson Rosa Ribeiro (UFMT)

Organizadores do dossiê.


PINTO, Adriana Aparecida; VALÉRIO, Mairon Escorsi; RIBEIRO, Renilson Rosa. Apresentação. Fronteiras: Revista de História. Dourados, v. 17, n. 30, Jul. / dez., 2015. Acessar publicação original [DR]

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Olhares sobre o Medievo: fronteiras e problemas / Faces da História / 2015

 

O Dossiê dedicado aos estudos vinculados a Idade Média parece-nos que veio em boa hora, no sentido de firmar posição deste recorte espaço-temporal tanto no que se refere à relevância sobre os debates da medievalidade no campo da historiografia, como por valorizar a importância de se “fazer” e “ensinar” História Medieval no Brasil.

As assertivas acima apresentavam menor importância no cenário do país no momento em que o dossiê foi proposto, há quase um ano atrás. É certo que a história é encantadoramente dinâmica e está incondicionalmente ligada ao tempo presente. Assim sendo, nosso dossiê coloca-se em circulação hoje, em plena discussão sobre as alterações relacionadas ao ensino de história propostas em um projeto ligado ao Ministério da Educação (MEC), no qual se cria uma Base Nacional Curricular em que a Antiguidade e o Medievo são convidadas a se afastar das nossas salas de aula.

Desta maneira, postulamos que este dossiê se configura, não apenas como uma simples coletânea de textos, mas também como um grito de alerta quanto à importância da reflexão histórica sobre esse período. O roteiro de leituras que os artigos aqui publicados fornecem ao leitor, mostra a dinâmica destes estudos no que se refere a sua relação com problemas da sociedade contemporânea e o quanto esse exercício de alteridade pode contribuir para nossa formação social, cultural e política, posicionandose, portanto, de lado oposto a esta possível ingerência Estatal.

Partindo desta premissa, acreditamos que o dossiê “Olhares sobre o Medievo: fronteiras e problemas” tem por escopo apresentar ao leitor um amplo painel da História Medieval. Deste modo, a variedade de temáticas apresentadas pelos diferentes autores, possibilitam aos estudantes, pesquisadores, professores e demais leitores interessados, uma reflexão crítica, não apenas do processo histórico em questão ou de suas infinitas possibilidades de abordagem, mas também sobre a relevância de se manter tal campo da História no currículo escolar.

O artigo que abre o dossiê “O rei e a lei”, de autoria de Olga Pisnitchenko, faz uma análise acerca das relações entre realeza e direito medieval na Baixa Idade Média Ibérica. A partir de algumas reflexões em torno das obras jurídicas de Alfonso X, a autora realiza uma análise sobre a representação real a partir de três obras legislativas de Alfonso X: Fuero Real, Especulo e Siete Partidas. Em tais fontes podemos ver que o rei, apesar de ser apresentado tanto como o juiz e o legislador supremo, ao ser idealizado como persona publica, deve atuar sempre colocando em primeiro plano o bem do reino, e não sua vontade pessoal.

O segundo texto, de autoria de Rodrigo Prates de Andrade, intitulado “Repensar as muitas Idades Médias: os Estudos Medievais e a Historiografia Nacional”, voltase para a “eterna” questão do porque se estudar Idade Média no Brasil. O objetivo deste texto é problematizar um discurso corrente nas esferas acadêmicas nacionais e internacionais que atribui a Idade Média uma fase embrionária ou intermediária do processo histórico.

O terceiro artigo, “Aqui jaz Arthur: literatura arturiana no medievo e seu reflorescimento na Idade Contemporânea”, de Caio Fernando Flores Coelho, propõe analisar obras literárias chaves que criaram múltiplas versões da lenda arturiana durante a Idade Média, bem como, a retomada deste mote na Idade Contemporânea induzida, no século XIX, pelo Romantismo.

O quarto trabalho, de Vinicius Cesar Dreger de Araujo, que tem como título “Limites saxonicarum – Fronteiras militares na Inglaterra Anglo-saxônica e na Saxônia continental, séculos IX e X”, disserta sobre o conceito de fronteira como categoria para análise da Idade Média. O autor procura debater, dentro de uma perspectiva comparativa, as fronteiras militares estabelecidas entre os Anglo-saxões e Escandinavos na Inglaterra e as constituídas pelos Saxônios e Bávaros, contrapunha-se a Eslavos e Magiares entre os séculos IX e X.

O quinto texto, “Definindo Alteridade: um estudo sobre as noções de Raça e Etnia nas Siete Partidas e na Primera Crónica General de España de Afonso X”, de Carolina Ferreira de Figueiredo, propõe problematizar as noções sobre raça e etnia no período medieval. Para tal, a autora elegeu duas fontes documentais produzidas no tempo do governo de Afonso X, uma de cunho jurídico, a Siete Partidas, e outra de estilo cronístico, a Primera Crónica Generalde España. A escolha desses documentos e deste monarca se justifica pela intensa (e nem sempre pacífica) convivência entre cristãos, mouros e judeus no período estudado.

Como sexta produção do dossiê, temos o artigo “Entre a arte e a ciência: as visões sobre a cartografia medieval”, de Thiago José Borges. Neste trabalho, o autor disserta sobre as percepções e proposições que, em díspares contextos historiográficos, permearam o entendimento, a descrição e a sistematização dos testemunhos legados pela produção cartográfica medieval.

Finalizando nosso dossiê, apresentamos a entrevista com um dos mais importantes medievalistas brasileiros, o professor Hilário Franco Junior, que enriquece o debate em torno da produção científica sobre a relação entre medievo e a contemporaneidade, ao abordar por meio de um diálogo profícuo, temas ligados ao ofício de historiador, assim como questões voltadas diretamente ao panorama político e cultural brasileiro.

Ligia Cristina Carvalho

Pâmela Torres Michelette

Raquel de Fátima Parmegiani

João Paulo Charrone


CARVALHO, Ligia Cristina; MICHELETTE, Pâmela Torres; PARMEGIANI, Raquel de Fátima; CHARRONE, João Paulo. Apresentação. Faces da História, Assis, v.2, n.2, jul / dez, 2015. Acessar publicação original [DR]

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Territórios e Fronteiras do Ensino de História (I) / Fronteiras: Revista de História / 2015

A Fronteiras: Revista de História tem o prazer de apresentar a primeira parte do dossiê sobre Territórios e Fronteiras do Ensino de História. O presente dossiê é um convite a reflexão sobre os territórios do ensino de História no mundo contemporâneo, agregando estudiosos de diferentes parte do país e instituições de ensino.

Currículos, formação de professores, livros didáticos, patrimônio cultural, direitos humanos, diversidade étnico-racial são temas que marcam as reflexões acerca dos lugares do ensino da história entre diferentes territorialidades e limites (sempre em expansão e híbridos).

Em razão da diversidade que constitui o campo e das demandas recebidas para a publicação, a partir da chamada pública lançada em meados de 2015, a temática será contemplada no próximo número da revista, o que evidencia a relevância do tema do Ensino de História para a formação e prática dos historiadores e professores.

Abrindo esse número, o artigo Ensino de História numa perspectiva dos direitos humanos: métodos e abordagens possíveis no ambiente escolar, de Douglas Orestes Franzen, discorre sobre a relação entre escola e direitos humanos a partir do ensino de História, um assunto muito atual para o debate sobre currículos. Nesse sentido, a disciplina de História tem muito a colaborar e, principalmente, a problematizar, pois que a noção de direitos humanos está inserida numa conjectura de problematizações e contextos que ressaltam uma noção de cidadania e consciência histórica.

Em O livro didático de História e questão da identidade nacional brasileira ao longo do período republicano: a fronteira entre rupturas e continuidade, Gilmara Yoshihara Franco e Carlos Alexandre Barros Trubiliano elegem a produção didática em História para abordar as tramas da identidade nacional brasileira e investigam como esta ferramenta pedagógica pode ser observada como espaço de disputas por representação entre os diversos grupos que compõem a sociedade brasileira.

No artigo Currículo, material didático e avaliação: um estranho triângulo no ensino de História do Estado de São Paulo, Vitória Azevedo Fonseca, a partir da comparação dos materiais oficiais que orientam a atuação dos professores de História na Rede Estadual de Ensino do Estado de São Paulo (Currículo de São Paulo, São Paulo Faz Escola e Matriz de Referência do SARESP), apresenta análise do uso do termo “habilidades” e as propostas para sua aplicação prática indicando as suas inconsistências e impossibilidades no contexto do ensino de História.

No ensaio Memória e patrimônio na aula de História: o uso do monumento histórico-cultural na aprendizagem histórica, Jaqueline Zarbato e Caio Vinicius dos Santos analisam os usos do patrimônio cultural na história ensinada, a partir de atividade realizada na prática de ensino de história, cujo objetivo era refletir sobre a representação cultural de determinado monumento histórico em consonância com a observação, participação e preservação, bem como com a interpretação por parte dos sujeitos que estudam história.

Osvaldo Mariotto Cerezer e Selva Guimarães, em Formação de professores de História e ensino de história afro-brasileira e indígena, apresentam um estudo sobre a implementação das Leis n. 10.639/03 e n. 11.645/08 e as respectivas Diretrizes curriculares nos cursos de Licenciatura em História de três universidades públicas do Estado de Mato Grosso, destacando os impactos na formação inicial de professores e no ensino da história e cultura afro-brasileira e indígena em escolas da educação básica.

O artigo A Educação de Jovens e Adultos no Brasil: reflexões no plano legislativo e as contribuições do ensino de História para a formação da consciência histórica dos alunos, de autoria de Wilian Bonete Junior, faz uma abordagem, em perspectiva histórica, acerca das concepções conferidas no Brasil à Educação de Jovens e Adultos (EJA) no contexto da Resolução CNE/CEB 01/2000 e do Parecer 11/2000 e estabelece um diálogo com as questões da consciência histórica.

A partir da temática concernente a formação de professores no Brasil contemporâneo, Ana Paula Squinelo discute a configuração das Licenciaturas em História e suas possíveis implicações na formação docente, situando a implantação do Programa Institucional de Bolsa de Iniciação à Docência (PIBID) como política governamental dentro desse princípio. O artigo A formação de professores no âmbito do subprojeto Pibid/História/UFMT/CPAQ: trajetórias, vivencias e expectativas apresenta também as experiências compartilhadas com um grupo de pibidianos que ingressaram no subprojeto da área de História da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS), campus de Aquidauana.

Do Cafezinho à Feijoada: Práticas pedagógicas para promoção da Igualdade Racial na Escola Edna May Cardoso – Santa Maria/RS é uma reflexão sobre o resultado de pesquisas bibliográficas, documentais e orais desenvolvidas durante os anos de 2012 e 2013. Nesse artigo, Gilvan Silveira Moraes e Júlio Ricardo Quevedo Santos buscam analisar, discutir e retomar o processo de implementação da Lei n. 10.639/3 e da criação da “Semana da Consciência Negra” em uma escola na cidade de Santa Maria/RS, a partir das práticas pedagógicas que as educadoras e os educadores presentes na instituição se utilizaram para a consolidação e aplicação da referida lei.

No artigo Ensino de História regional em Mato Grosso do Sul: limites e possibilidades no uso do livro didático para o Ensino Fundamental, Jackson James Debona analisa livros didáticos que entraram no Mato Grosso do Sul no período do Programa Nacional do Livro Didático (PNLD), em 2011, para o ensino de História, no esforço de compreender questões relacionadas à inserção dos aspectos regionais no âmbito dos conteúdos a serem ministrados nos anos finais do Ensino Fundamental.

Fechando o dossiê, temos o artigo O lugar de formação de professores de História: breves notas sobre Eunápolis, campus XVIII da UNEB, de autoria de Célia Santana Silva. Nesse ensaio, a autora apresenta e analisa a formação docente em História estabelecendo relações entre o contexto nacional e o Curso de Licenciatura em História da Universidade do Estado da Bahia (UNEB), especificamente no campus XVIII em Eunápolis. Para tanto, faz uso das leituras e análises do projeto de reconhecimento do Curso, das diretrizes curriculares nacionais e de bibliografia de referência.

Na seção de artigos livros temos a contribuições de três estudos: Thomas Höjemo, no texto A leveza de andar, o desenvolvimento de políticas urbanas voltadas para os pedestres em Copenhague, Dinamarca (1960-2015), aborda a transformação do centro da cidade de Copenhague, na Dinamarca, ocorrida com a implantação gradual de calçadões entre os anos 1960 até os dias atuais; Ricardo Oliveira da Silva, em A historiografia alemã no século XIX, apresenta o desenvolvimento da reflexão epistemológica sobre o conhecimento histórico na historiografia alemã do século XIX, destacando que não houve uma abordagem monolítica em termos teóricos e metodológicos por parte dos historiadores alemães no momento em que se pensava a constituição da História como área do conhecimento; Natália Araújo de Oliveira, no artigo “Conquistando o Oeste”: Amazônia Legal brasileira e o caso de Nova Xavantina/MT, discute as políticas de colonização empreendidas para a região mato-grossense da Amazônia Legal brasileira, debatendo o ideário de integração nacional que perpassou essas e apresentando os atores desse processo na cidade de Nova Xavantina.

Esse número da Revista fecha com a resenha, de autoria de Valdeci Silva Cunha, da coletânea Ángel Rama: um transculturador do futuro, organizada por Joana Rodrigues e Flávio Aguiar e publicada em 2013 pela Editora da UFMT.

No mais, desejamos a [email protected] uma excelente leitura!

Adriana Aparecida Pinto (UFGD)

Mairon Escorsi Valério (UFFS)

 Renilson Rosa Ribeiro (UFMT)

Organizadores do dossiê. 


PINTO, Adriana Aparecida; VALÉRIO, Mairon Escorsi; RIBEIRO, Renilson Rosa. Apresentação. Fronteiras: Revista de História, Dourados-MS, v. 17, n. 30, Jul /Dez, 2015. Acessar publicação original [DR]

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