Antologia do pensamento crítico contemporâneo | Antologias do Pensamento Social Latino-Americano e Caribenho

Apesar dos avanços recentes boa parte da sociedade brasileira desconhece ou ignora a América Latina. Apesar da (suposta) especificidade brasileira, tal desconhecimento se relaciona ao distanciamento histórico de nosso país em relação à região, alicerçado em diversas causas (políticas, econômicas, culturais, geopolíticas, …), determinado pelo que Francisco de Oliveira chamou de “Fronteiras Invisíveis” que sempre foram mais sutis, profundas e eficazes que as fronteiras oficiais1.

Da mesma forma ao longo dos últimos dois séculos surgiram importantes pensadores que buscaram a produção e o desenvolvimento próprio (latino-americano) e adquiriram relevância mundial (Mariátegui, Dussel, Quijano, entre outros). Apesar disto, tal pensamento continua, apesar de raríssimas exceções, desconhecido ou ignorado pelo pensamento social e a academia brasileira. Leia Mais

Um sertão chamado Brasil – LIMA (HCS-M)

LIMA, Nísia Trindade. Um sertão chamado Brasil. São Paulo: Hucitec, 2013. 304p. Resenha de: BOTELHO, André. Um sertão chamado Brasil e o pensamento social: travessias, passagens, veredas. História Ciência Saúde – Manguinhos, Rio de Janeiro, v. 22 n.4 Rio de Janeiro Oct./Dec. 2015.

Um sertão chamado Brasil, de Nísia Trindade Lima, chega à segunda edição. Não só o reconhecimento e a recepção obtidos desde sua publicação original o justificavam, mas também o que ainda nos tem a dizer. O livro abriu caminhos próprios na pesquisa das interpretações da formação da sociedade brasileira ao articular problemáticas como o imaginário espacial da sociedade, a construção do Estado-nação e as interpretações do Brasil. Concorreu ainda para a visibilidade não apenas de temas, como de fontes e interpretações até então pouco consideradas. Sua contribuição é fértil também do ponto de vista teórico-metodológico, juntando-se aos trabalhos que têm modelado o pensamento social brasileiro como área de pesquisa.

Publicado originalmente em 1999, para essa segunda edição, de 2013, ao lado do texto original revisto, a autora escreveu também um novo prefácio intitulado “O avesso do moderno”. Trata-se de peça reflexiva que confere dinâmica à trajetória que o livro ao mesmo tempo esconde e traz à tona. Assim, parte importante da efetiva recepção que as questões ali formalizadas conheceram é ponderada com muita propriedade. Questões perseguidas ao longo de uma trajetória consistente de pesquisa são revistas criticamente e ajudam a situar o livro num campo problemático mais amplo. Do mesmo modo, o leitor é valorizado com a incorporação de trabalhos posteriores da autora que são, ao mesmo tempo, um desdobramento e um diálogo – às vezes crítico – com suas inquietações intelectuais mais antigas. São também “veredas” de Um sertão chamado Brasil, para mobilizar a metáfora roseana, tão cara à sensibilidade sociológica de Nísia Trindade Lima.

Tanto na sociedade brasileira, ao longo de sua formação desde a colônia, quanto em nossa densa tradição intelectual, artística e científica, “sertão” costuma ser espaço geográfico, ora pensado como limites, ora como possibilidades quase infinitas. Mas não apenas, pois nele e a partir dele também se projetam metáforas, expectativas econômicas, programas estéticos e projetos políticos. Sertão é espaço social. Sertão é identidade social e, como tal, sempre implica relações. É um tipo de código simbólico que põe personagens, eventos e processos “em relação”. Nem sempre distante, às vezes o sertão é percebido surpreendentemente próximo, e frequentemente volta à tona de modo tragicamente violento. Como ocorreu, para dar apenas um exemplo, justamente quando Um sertão chamado Brasil ia ganhando forma final, com o Massacre do Eldorado dos Carajás, em 1996, acontecimento que pôs novamente a reforma agrária na ordem do dia, bandeira esmaecida desde os debates na Constituição de 1988, não faltando mesmo quem afirmasse, antes do massacre, que a questão agrária não tinha mais alcance político. O “sertão” ressurgia, porém, com toda a força para o conjunto da sociedade em meio ao avanço da “modernidade” representada pelo agronegócio. Os contextos históricos dos livros são da maior importância, e, às vezes, eles mantêm relações tão significativas entre si, que suas fronteiras parecem borradas. Nesta resenha, porém, vou limitar-me a situar o livro apenas em seu contexto intelectual. Meu argumento é que Um sertão chamado Brasil tanto se beneficiou dos desenvolvimentos contemporâneos da área de pesquisa chamada de “pensamento social brasileiro” quanto, simultaneamente, contribuiu para a sua modelagem cognitiva – ainda que sua autora venha dando contribuições decisivas, também em outras frentes, à institucionalização da área de ensino e pesquisa.

Um sertão chamado Brasil foi formulado como tese de doutoramento em sociologia, defendida em 1997 no antigo Instituto Universitário de Pesquisas do Rio de Janeiro (Iuperj), tendo recebido o seu prêmio de melhor tese de sociologia naquele ano. Deixando contingências institucionais de lado, chama a atenção o impressionante número de teses de doutorado defendidas no Iuperj na área de pensamento social brasileiro naquele ano (e nos seguintes). Menciono apenas, a título de ilustração, a tese de doutorado em ciência política do mesmo ano de 1997 pelas muitas afinidades que guarda com o livro em questão: Lembranças do Brasil: teoria política, história e ficção em Grande sertão: veredas, de Heloisa Maria Murgel Starling, igualmente premiada pelo Iuperj e publicada em livro e bem merecedora de uma nova edição por sua alta qualidade e alcance teórico.

Em pesquisa anterior (Botelho, 2012), investiguei as teses de doutorado do Iuperj defendias entre 1987 e 2006 como produtos típicos de uma experiência no campo da pós-graduação em ciências sociais no Brasil. Embora não seja a única frente de construção desse processo de institucionalização, e constitua uma exigência do sistema nacional de pós-graduação como política pública da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior, procurei mostrar como a produção das teses de doutorado permitiu a expansão do papel intelectual do Iuperj nas ciências sociais brasileiras. Teses de doutorado constituem certamente uma modalidade especial de trabalho intelectual, entre outros fatores, porque são concebidas e desenvolvidas não apenas por seus autores, mas por eles em diálogo constante com os seus orientadores, professores e colegas, tendo em vista as linhas de pesquisa da instituição em que se inserem e também as disciplinas de formação nela ministradas e outros espaços e diálogos.

Segundo minhas contas, no período de 1989 a 1999 – em que se situa Um sertão chamado Brasil – foram defendidas nove teses de doutorado em sociologia e cinco em ciência política na área de pensamento brasileiro; sendo esta a terceira área de maior concentração de teses de doutorado do Iuperj no período de 1987 a 2006, com 19 teses contra as 22 da área de teoria e teóricos da política e da sociologia, que detém a maior concentração temática. Como se pode ver, aquele instituto foi uma importante matriz de titulação de doutores na área, sendo que, no caso da sociologia, pensamento brasileiro teve a maior concentração entre 1989 e 2006, com dez teses defendidas, entre elas Um sertão chamado Brasil.

Substantivamente, como também pude discutir naquela oportunidade anterior, a área temática do pensamento brasileiro no Iuperj no período pesquisado apresenta-se mais definida no sentido de uma sociologia das ideias, interessada na discussão não apenas da sua constituição social, como no marco mais tradicional da sociologia do conhecimento, mas apontando para o papel social das ideias na constituição da sociedade. Daí a clara disposição de diálogo que, em geral, apresentam não apenas com a história das ideias, mas diretamente com a teoria social, ao menos com as suas vertentes sensíveis à orientação semântica da vida social e ao momento hermenêutico, por assim dizer, de todo trabalho sociológico. Consideradas em conjunto, as teses da sociologia do Iuperj sobre pensamento brasileiro recolocam, no plano substantivo, a questão do papel ao mesmo tempo cognitivo e normativo desempenhado pelas chamadas “interpretações do Brasil” na via própria de instalação da modernidade cultural, social e política no país.

Esse contexto, ao mesmo tempo institucional e intelectual, certamente favoreceu a formulação de Um sertão chamado Brasil, e pode ser tomado como ponto de partida para compreender sua circunstância comum e também sua feição própria, especialmente no que diz respeito ao interesse em problematizar as visões disjuntivas sobre as relações entre tradicional e moderno na construção nacional brasileira. Alguns desenvolvimentos mais amplos da própria área de pesquisa – contemporâneos à formulação da tese e publicação da primeira edição do livro – são importantes de ser assinalados. A área de pesquisa pensamento social vem atingindo, justamente desde a década de 1990, reconhecidamente, amplas condições de consolidação no âmbito das ciências sociais praticadas no Brasil. É isso que indica recente simpósio com especialistas sobre diferentes questões, que vão desde a atualidade da área de pesquisa do pensamento social, seus objetos, problemáticas e abordagens teórico-metodológicas, às suas conexões com outros campos disciplinares, passando pelas obras mais relevantes da área, sua inserção disciplinar na graduação e pós-graduação e suas possibilidades futuras (Schwarcz, Botelho, 2011). Simpósio que em grande medida corrobora balanços que vêm sendo realizados sobre a sua produção em livros (Miceli, 1999Oliveira, 1999Bastos, 2002Villas Bôas, 2007Bastos, Botelho, 2010), e como área de concentração temática no interior de instituições de pesquisa e ensino (Bastos, 2003,Botelho, 2012).Também indicativas de sua consolidação são as crescentes iniciativas de divulgação científica das interpretações do Brasil, objeto por excelência da área de pesquisa, uma vez que o diálogo com o público não especializado costuma ser um dos sinais mais significativos da maturidade de um domínio de conhecimento, como, por exemplo, nas coletâneas Um enigma chamado Brasil (Botelho, Schwarcz, 2009) eAgenda brasileira (Botelho, Schwarcz, 2011).

Na mesma direção deve-se observar ainda a vitalidade do pensamento social nos grupos de trabalhos (GTs) de associações científicas, como Associação Nacional de Pesquisa e Pós-graduação em Ciências Sociais, cujo GT Pensamento Social no Brasil se vem reunindo continuamente desde 1981, e do qual Nísia Trindade Lima já foi coordenadora. Em seu o 38º encontro anual, ocorrido em outubro de 2014, funcionaram exatamente cinco GTs cujos objetos são altamente intercambiáveis, como sugerem suas ementas. Isso para não falar dos GTs de pensamento social ou político no âmbito da Sociedade Brasileira de Sociologia e da Associação Brasileira de Ciência Política, além de congêneres na Associação Nacional de His-tória, como o GT Nacional de História Cultural.

É justamente esse crescimento que tem levado a iniciativas de cooperação inovadoras, como a da Biblioteca Virtual do Pensamento Social (BVPS), a propósito coordenada por Nísia Trindade Lima. A BVPS é uma iniciativa de cooperação entre pesquisadores e instituições acadêmicas com o objetivo de fortalecer e divulgar essa área de pesquisa, buscando maximizar o intercâmbio de informações, experiências e conhecimentos entre pesquisadores de modo a promover e sustentar redes de pesquisas. A BVPS busca, assim, ser um instrumento dinâmico cuja atuação se delineia em três campos básicos inter-relacionados: (١) produção de conhecimento; (2) memória da ciência e das tradições intelectuais; (3) subsídios didático-pedagógicos e de divulgação científica. Dados levantados no âmbito da BVPS indicam claramente um crescimento exponencial da área. Dou apenas dois exemplos a partir da pesquisa realizada na Plataforma Lattes do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico. Primeiro, o número de pesquisadores. Aplicando como filtro da busca apenas currículos de pesquisadores que tenham indicado “pensamento social” como palavra-chave de pelo menos três publicações, chegamos ao resultado de 938 investigadores. Em segundo lugar, a evolução do recorte temático “pensamento social” na produção constante nessa plataforma pode ser resumida do seguinte modo: duas produções em 1974; 13 em 1986; 81 em 1997. A partir daí, o crescimento é exponencial: em 2000, já são 209; em 2010, o número chega a mais do dobro, são 423; em 2013, são 337; em 2014 foram 167.

Esse processo de expansão, porém, vem sendo acompanhado não apenas pelo crescimento quantitativo e pela percepção da importância crescente da área por seus praticantes (mesmo que também as suas definições constituam um claro campo de disputas), como ainda pela diversificação dos seus objetos, metodologias empregadas e teorias propostas. Hoje, as pesquisas desenvolvidas na área compreendem tanto os temas clássicos da formação da sociedade brasileira, em suas várias dimensões, como, por exemplo, modernização, modernidade e mudança social; construção e transformação do Estado-nação; cultura política e cidadania; quanto diferentes modalidades de produtores e de produção cultural em sentido amplo (literatura de ficção, artes plásticas, fotografia, cinema, teatro) e a própria “cultura” como sistema de valores e formas de linguagem – além da análise da rica tradição ensaística brasileira, ainda hoje centro das atenções na área.

Um sertão chamado Brasil possibilita esse conjunto mais amplo de pesquisas da área de pensamento social, que vem ajudando a modelar e ao qual se liga de várias formas. O mesmo se poderia dizer em relação ao conjunto de pesquisas na área de história das ciências e da saúde desenvolvidos com excelência na Casa de Oswaldo Cruz/Fiocruz sobre as representações da vida social formuladas em discursos e teorias científicas. Por falta de espaço, não posso situar o livro de Nísia Trindade Lima nessa direção, mas penso poder apontar algo fundamental: ele vem contribuindo também para a interação criativa entre agendas de pesquisa próprias, a da história das ciências e da saúde e a do pensamento social, o que tem despertado a atenção para novos problemas e questões em ambas as áreas disciplinares e, muito particularmente, vem contribuindo para o alargamento cognitivo da própria noção de pensamento social entre nós, nos termos aqui delineados.

Disse anteriormente que entre os principais desenvolvimentos cognitivos da área de pensamento social estão a revisão de temas clássicos da formação da sociedade brasileira, de um lado, e a valorização de diferentes modalidades de produtores e de produção cultural, de outro. Ora, sem deixar de contribuir em ambas as frentes,Um sertão chamado Brasil opera significativa rearticulação entre elas. Muito resumidamente, pode-se dizer que, partindo da discussão das teses sobre a dualidade litoral/interior e suas representações ambíguas no pensamento brasileiro, Nísia Trindade Lima mostra como o tema indica tanto a percepção daintelligentsia sobre as vias de modernidade abertas à sociedade brasileira como a sua própria inserção nela. Assim, esses aspectos são tratados sistematicamente como partes cruciais de dois processos centrais inter-relacionados a partir daquela dualidade central. Num plano, ao processo denation-building com suas dimensões de integração territorial e de diferentes estratos sociais. Num outro, ao processo de relacionamento da sociologia acadêmica com as interpretações do Brasil mais antigas e persistentes. No que diz respeito particularmente a esse ponto, ao mostrar que a dualidade litoral/sertão representa uma matriz constitutiva da imaginação social sobre o país em diferentes momentos, linguagens e níveis, e ao definir sua escolha por uma abordagem atenta aos temas da tradição intelectual brasileira, Nísia Trindade Lima consegue surpreender as continuidades eletivas entre eles, e, assim, questionar convincentemente a tese de uma ruptura linear das ciências sociais institucionalizadas com a tradição ensaística, e outras linguagens, assumida por várias vertentes da história das ciências sociais.

Está muito bem situada, nesse sentido, no novo prefácio escrito pela autora, parte importante da recepção que as questões formalizadas no livro conheceram desde sua publi-cação original, especialmente em diferentes pesquisas acadêmicas que se vêm debruçando, nas veredas abertas pelo livro, sobre os temas das representações espaciais de identidades, do papel da terra em diferentes modalidades de imaginação social, do mundo rústico, da violência e da política, das relações entre nação e região ou campo e cidade, entre outras. Meus próprios trabalhos sobre o tema do agrário na configuração da sociologia política brasileira (Botelho, 2007) e de meus orientandos sobre violência pessoalizada e mundo rústico (Carvalho, 2010Veiga Júnior, 2010), por exemplo, são devedores de Um sertão chamado Brasil. Penso que um dos desdobramentos mais interessantes em aberto nessa agenda de pesquisa, seguindo a compreensão mais geral de que um desafio premente posto à área de pensamento social brasileiro é a comparação transnacional, seria, então, pensar “sertão” em relação a outras categorias que também organizam delicada e densamente as representações de outras sociedades, como, por exemplo, a de “deserto” na Argentina (Torre, 2011). Como “sertão” no Brasil, “deserto” também parece constituir simultânea – e paradoxalmente nas visões mais positivistas – objeto e sujeito de conquistas em nome da civilização, do moderno. Afinal, nem sempre o “sertão” (ou “deserto”) parece poder ser apenas conquistado, como aparecia habitualmente nas narrativas do século XIX e início do XX, mas muitas vezes é ele quem conquista. Em linguagem sociológica, “sertão” (ou “deserto”) tanto é “agenciado” por atores e instituições sociais quanto às vezes é ele quem os agencia.

A atualidade de Um sertão chamado Brasil não se esgota, porém, na recepção que vem tendo ou nos desdobramentos analíticos e de pesquisa que favorece, mas, ainda, naquilo que, ao mesmo tempo, realiza tão bem e permanece como um desafio aos pesquisadores da sociedade brasileira: uma abordagem atenta à historicidade própria da nossa sociedade que não descura dos seus dilemas mais gerais e dos seus sentidos heurísticos para a sociologia histórica. O livro recoloca em questão, de modo heurístico a meu ver, o problema da historicidade da vida social em uma análise fina que busca esclarecer as conexões de sentido engendradas no processo histórico-social entre categorias e relações sociais nas interpretações do Brasil. Mas porque não reifica a visão mais historicista de que as ideias se encerrariam em seu contexto próprio, pode mostrar que as interpretações do sertão e do Brasil constituem antes espaço de comunicação reflexiva entre diferentes momentos, linguagens, atores e níveis da vida social. Mais ainda, são interpretações sempre reatualizadas do moderno vivenciado, sentido, pensado e politizado a partir do sertão. E visto desde aqui, do sertão, não exatamente como seu antípoda, como bem aquilata a autora, antes propriamente seu avesso, o moderno não comporta mesmo travessias disjuntivas, mas passagens, veredas. Ressoa aqui, quem sabe, as lições de Riobaldo, que lembra que o sertão “é dentro da gente” e também “do tamanho do mundo”.

Referências

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André Botelho – Professor, Departamento de Sociologia; Programa de Pós-graduação em Sociologia e Antropologia/Universidade Federal do Rio de Janeiro. [email protected]

Pensamento Social no Brasil, por Giralda Seyferth: notas de aula – BAHIA et al (T-RAA)

BAHIA, Joana; MENASCHE, Renata; ZANINI, Maria Catarina Chitolina (Org.). Pensamento Social no Brasil, por Giralda Seyferth: notas de aula. Porto Alegre: Letra&Vida, 2015. 256 p. Disponível em: http://www.antropologiaufpel.com.br/Pensamento_social_no_Brasil.pdf . Acesso em: 30 jun. 2015.  Resenha de: WOORTMANN, Ellen F. Notas de aula sobre pensamento social no Brasil: uma homenagem a Giralda Seyferth. Tessituras, Pelotas, v. 3, n. 1, p. 345-348, jan./jun. 2015.

O curso Pensamento Social no Brasil foi proferido pela Professora Giralda Seyferth2 em outubro de 2012, sob a promoção do Programa de Pós-Graduação em Antropologia da Universidade Federal de Pelotas (PPGAnt/UFPel). Tendo contado com a participação de cerca de 30 estudantes e professores, a atividade teve duração de uma semana.

De modo a propiciar a socialização de seu conteúdo, mas também como merecida homenagem à Giralda, como é por todos conhecida, o curso foi gravado, degravado e editado, para que se tornasse publicação amplamente acessível3.

Constitui estimulante fonte de pesquisa para alunos, professores e pesquisadores sobre o tema. Além disso, apresenta-se como excelente inspiração a ser seguida enquanto procedimento didático. O livre acesso ao conteúdo das aulas/texto retoma prática que possibilitou amplo acesso ao pensamento de autores que se tornariam clássicos no campo das humanidades e que, em tempos de internet, coloca-se, de certo modo, como iniciativa didaticamente inovadora.

Teoricamente, resulta de uma proposta de diálogo entre a Antropologia e a História ou, em outros termos, uma proposta de análise da sociedade brasileira à luz de um contexto histórico dinâmico.

Especificamente, as aulas e o texto foram elaborados tomando-se como eixo central o conteúdo de obras de um grupo de autores clássicos significativos (Joaquim Nabuco, Gilberto Freyre, Nina Rodrigues, Emilio Willems, Florestan Fernandes, Oracy Nogueira, entre outros), que atuaram no Brasil entre o final do século XIX e a segunda metade do século XX. A análise desses autores é construída a partir do recorte do conteúdo e centrada em algumas categorias seminais, tais como a de sociedade brasileira – mais do que a nação ou o estado, no sentido de nation building–, escravidão, raça e racismo, imigração, “brasilidade”, assimilação.

A rigor, muitas dessas categorias de análise são forjadas e ganham força no contexto de períodos-chave e fatos históricos marcantes, como, por exemplo, a abolição da escravatura, a imigração japonesa, a ditadura Vargas ou a II Guerra Mundial. Como expressão de crises reveladoras, a análise dessas categorias expõe, desde um lado, as raízes teóricas e etnográficas, via de regra europeias ou americanas, dos autores e, de outro, a diversidade de seus lugares de fala. Desse modo, por exemplo, as ideias de Joaquim Nabuco são, sem dúvida, expressão do descendente de uma linhagem de grandes políticos e diplomatas nordestinos, assim como as de Gilberto Freyre, também filho de tradicional família nordestina.

O ideário desses autores e de outros pertencentes à elite contrasta com outros analisados em aula, dentre os quais se destacam Florestan Fernandes, originário de camada popular paulistana, depois professor da USP, com posterior expressiva ascensão acadêmica e sócio-política, ou mesmo o professor imigrante Emilio Willems, fugido da crise do pós-I Guerra Mundial da Alemanha, aluno e seguidor das ideias de Max Weber, Simmel e Dilthey. Ainda, Willems contrasta dos demais – “de dentro”, brasileiros – por apresentar, em suas obras, um lugar de fala “de fora”.

Concluindo, deve-se destacar o fato de que, paralelamente a uma análise rigorosa e aprofundada dos vários autores, no decorrer das aulas/texto Giralda estabelece, ainda, diálogo com outros autores situados em contextos análogos, procedimento que torna estimulante a dinâmica de sua exposição/leitura.

Notas

2 Giralda Seyferth é graduada em História pela Universidade Federal de Santa Catarina (1965). Após período de trabalho de pesquisa em Arqueologia, cursou o mestrado em Antropologia Social pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (1973), tendo sido orientada pelo Professor Luiz de Castro Faria na dissertação A colonização alemã no Vale do Itajaí: um estudo de desenvolvimento econômico (SEYFERTH, 1974). Em 1976, doutorou-se em Ciências Humanas (Antropologia Social) pela Universidade de São Paulo, tendo sido orientada pela Professora Ruth Cardoso na tese Nacionalismo e identidade étnica: a ideologia germanista e o grupo étnico teuto-brasileiro numa comunidade do Vale do Itajaí (SEYFERTH, 1982). Professora associada do Departamento de Antropologia do Museu Nacional, Universidade Federal do Rio de Janeiro, Giralda Seyferth possui experiência docente, de orientação e de pesquisa na área de Antropologia, atuando principalmente nos temas de colonização, imigração, nacionalismo e racismo. Entre outros trabalhos, é autora dos livros acima citados, da obra Imigração e cultura no Brasil (SEYFERTH, 1990) e de inúmeros artigos.

3 A obra Pensamento Social no Brasil, por Giralda Seyferth: notas de aula (2015) foi organizada pelas professoras Renata Menasche, Joana Bahia e Maria Catarina Chitolina Zanini, respectivamente pertencentes aos Programas de Pós-Graduação em Antropologia da Universidade Federal de Pelotas (PPGAnt/UFPel), História Social da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (PPGHS/UERJ) e Ciências Sociais da Universidade Federal de Santa Maria (PPCS/UFSM). O acesso gratuito ao livro, na íntegra, está sendo disponibilizado através dos sites desses Programas.

Referências

BAHIA, Joana; MENASCHE, Renata; ZANINI, Maria Catarina Chitolina (Org.). Pensamento Social no Brasil, por Giralda Seyferth: notas de aula. Porto Alegre: Letra&Vida, 2015. Disponível em:   http://www.antropologiaufpel.com.br/Pensamento_social_no_Brasil.pdf . Acesso em: 30 jun. 2015.

SEYFERTH, Giralda. A colonização alemã no Vale do Itajaí: um estudo de desenvolvimento econômico. Porto Alegre: Ed. Movimento, 1974.

______. Nacionalismo e identidade étnica: a ideologia germanista e o grupo étnico teuto-brasileiro numa comunidade do Vale do Itajaí. Florianópolis: FCC, 1982.

______. Imigração e cultura no Brasil. Brasília: EdUnB, 1990.

Ellen F. Woortmann – Doutora em Antropologia pela Universidade de Brasília, coordenadora do Grupo de Pesquisa do CNPq “Memória e Patrimônio Alimentar: tradição e modernidade”. E-mail: [email protected] .

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Diálogos brasileiros: uma análise da obra de Roger Bastide | Fernanda Arêas Peixoto

Je leur donnai le feu,la flamme et tous les artsdont une flamme est l’aliment.André Gide (1925)

Os estudos do pensamento social no Brasil têm um lugar já consolidado na formação das ciências sociais no país. Com a institucionalização dos centros de pesquisa e pós-graduação, a partir da década de 1960, cristalizaram-se grupos polarizados nos principais centros universitários. O livro Diálogos brasileiros, da antropóloga e professora da Unesp/Araraquara Fernanda Arêas Peixoto, trata de uma trajetória intrinsecamente relacionada à formação da vertente paulista, notadamente no Departamento de Ciências Sociais da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da Universidade de São Paulo (USP), com a análise da fase brasileira do sociólogo e ensaísta francês Roger Bastide (1898-1974).

Mesmo para quem não se interessa especificamente sobre os temas particulares focalizados por este autor, a leitura de sua obra é relevante sobretudo no que se refere à reflexão sobre as relações entre teoria, metodologia e prática social, consubstanciadas em sua obra Antropologia aplicada, publicada na França e no Brasil em 1971, 17 anos depois que ele passou a ocupar o cargo de professor e pesquisador em prestigiadas universidades francesas, como a École Pratique des Hautes Études, a Sorbonne e o Institut de Hautes Études de L’Amérique Latine (Queiroz, 1978, p. 223). As constantes referências nessa obra às suas interlocuções brasileiras são uma demonstração da relevância de sua estada no Brasil para redefinir seu referencial teórico e constituir um lugar de indagação sobre a verdade e sobre a importância da experimentação para a análise em ciências sociais. Na sua fase brasileira, em contato direto com os professores, pesquisadores, produtores de cultura e outros interlocutores, ele colocou em prática o que chamou seu papel de “questionador” à procura dos caminhos para “entender a resposta dos fatos” (Bastide, 1971, p. 193), deixando como legado não uma receita metodológica única, mas investidas dentro da prática sociológica e antropológica que ainda hoje servem como parâmetro para a pesquisa inter e intradisciplinar. Leia Mais