Corpos em aliança e a política das ruas: notas para uma teoria performativa da assembleia / Judith Butler

Conhecida internacionalmente pelo livro Problemas de gênero: feminismo e a subversão da identidade2, publicado no início da década de 1990 e lançado no Brasil apenas em 2003, a filósofa estadunidense Judith Butler se dedica às análises sobre feminismos, gêneros, corpos e sexualidades. Sua obra, que mantém fluxo entre teoria e engajamento político, exerce significativa influência, tanto nos debates acadêmicos em diferentes áreas do conhecimento quanto nos movimentos sociais e em setores da sociedade civil. Suas teorias, em destaque sobre a performatividade dos gêneros, ensejaram um intenso debate e tensões, por deslocar certezas naturalizadas como a do sexo biológico. Na sua perspectiva, há um esforço em retirar o caráter ontológico das interpretações sobre as identidades de gênero e sobre o sexo, gerando uma dissociação entre o sexo, gênero e desejo.

Nos últimos títulos publicados pela autora, como Quadros de guerra: quando a vida é passível de luto?3 e Corpos em aliança e a política das ruas: notas para uma teoria performativa de assembleia4, há o interesse em discutir sobre formas de inserção políticas contemporâneas, violências institucionalizadas ou não e sobre a precariedade a que determinados conjunto de sujeitos são induzidos e que limitam a prática efetiva da democracia e que encontram no gênero e na experiência corporificada espaços privilegiados de acontecimento.

O livro Corpos em aliança e a política das ruas: notas para uma teoria performativa de assembleia reúne seis capítulos que possuem como eixo norteador a relação entre os corpos, suas performances em assembleias e a ocupação de espaços públicos promovida pelas manifestações que se multiplicaram em vários países do mundo, desde 2010, quando cerca de um milhão de pessoas se reuniram na Praça Tahrir no centro do Cairo, no que ficou conhecido como Primavera Árabe. Para a autora, as manifestações no Egito, além de servirem de exemplo para lutas políticas em outros países, renovaram o interesse de pesquisadores de várias partes do mundo sobre o estudo de assembleias públicas e de movimentos sociais que tomaram como fator estimulante a condição precária a que muitos corpos são submetidos, nas chamadas democracias neoliberais.

Para iniciar a reflexão, Butler apresenta algumas categorias importantes para pensar os temas desenvolvidos ao longo dos capítulos, entre elas: democracia, povo, precariedade e performance. A autora sofistica a análise dessas categorias, considerando a polifonia à qual são sujeitas. No que se refere à conceitualização de democracia, é apontada a necessidade de pensá-la, para além de uma abordagem nominalista que não considera os limites da prática democrática em contextos neoliberais que operam pela precarização da vida, limitando o direito à existência de grupos. Em outros termos, para pensar em democracia na contemporaneidade é necessário ir além de estruturas governamentais que se autoproclamam democráticas, discutindo a inserção de práticas em assembleia que reivindicam formas de existência não precárias. Verticalizando ainda mais a análise sobre esse aspecto, Butler aponta que os discursos que se apoiam no marketing e na propaganda são os definidores de quais movimentos populares podem ou não serem chamados de democráticos.

Nesse debate, emerge a segunda categoria problematizada pela autora: povo. Seu interesse é responder às seguintes questões: quem realmente é o povo? Que operações de poder discursivo e com que intencionalidades se constrói essa categoria? A resposta que a autora constrói para essas perguntas é a de que não existe “povo” sem uma fronteira discursiva, ou seja, sua definição é um ato de autodemarcação que corresponderia a uma “vontade popular”. Aplicando à análise dos movimentos contra a condição precária, como a Primavera Árabe e o Occupy the Wall Street, a autora conclui que é necessário “ler tais cenas não apenas através da versão de povo que eles enunciam, mas das relações de poder por meio das quais são representadas”5.

Por precariedade, Butler entende uma condição induzida por violência a grupos vulneráveis ou ainda a ausência de políticas protetivas. Sua análise situa em torno das economias neoliberais que cada vez mais retira direitos – previdenciários, trabalhistas, de moradia – e acesso a serviços públicos como escolas e universidades.

A última categoria basilar para entender as discussões que seguem nos seis capítulos do livro é a de performance, já discutida pela autora em outros textos, mas que, nesta obra, é pensada através do viés das coletividades e para além do gênero. Em outros termos, Butler incorpora o seu conceito de performance para entender como os corpos agem de forma coordenada em assembleias. Para a autora, podemos perceber as manifestações de massa como uma rejeição coletiva à precariedade e, mais que isso, como um exercício performativo do direito de aparecer, “uma demanda corporal por um conjunto de vidas mais vivíveis”6.

A tese sobre a qual os capítulos versam é a de que, quando os corpos se reúnem em assembleias, quer sejam em praças, ruas ou mesmo no ambiente virtual, eles estão exercitando o direito plural e performativo de aparecer e de exigir formas menos precárias de existência. Os objetivos dessas assembleias são desde oposição a governos autoritários até redução de desigualdades sociais, questões ecológicas ou de gênero. Pensar sobre elas e sobre a pluralidade que incorporam é discutir como a condição precária é representada e antagonizada nesses movimentos e como se materializam na expressão de corpos que entram em alianças.

Os capítulos deste livro “buscam antes de tudo compreender as funções expressivas e significantes das formas improvisadas de assembleias públicas, mas também questionar o que conta como público e quem pode ser considerado povo.”7 Os primeiros capítulos se concentram na discussão sobre formas de assembleia que possuem modos de pertencimento e que ocorrem em locais específicos. Já os últimos capítulos discutem movimentações que acontecem entre aqueles que não compartilham um sentido de pertencimento geográfico ou linguístico.

No capítulo 1, intitulado “Políticas de gênero e o direito de aparecer”, Butler discute as manifestações de massa, com destaque àquelas que pautam as questões de gênero, como uma rejeição coletiva à precariedade de corpos que se reúnem por meio de um exercício performativo do direito de aparecer. Nesse sentido, a autora insere a discussão sobre o reconhecimento com um dos cernes dessas manifestações públicas. Segundo ela, os sujeitos estariam lutando por reconhecimento em um campo altamente regulado e demarcado de zonas que permitem ou interditam formas corporificadas. No capítulo, a autora ainda se lança a responder questões como: por que esse campo é regulado de tal modo que determinados tipos de seres podem aparecer como sujeitos reconhecíveis e outros tantos não podem? Quais humanos contam como humanos? Quais humanos são dignos na esfera do aparecimento e quais não são? Para a autora, o reconhecimento passa pela noção de poder que segmenta e classifica os sujeitos de acordo com as normas dominantes que buscam normalizar determinadas versões de humanos em detrimentos a outras. A autora avança ainda mais: a necessidade de se questionar como as normas são instaladas é o começo para não as tomar como algo certo/ um dado.

Utilizando o gênero para pensar essa questão, Butler argumenta que as normas de gênero são transmitidas por meio de fantasias psicossomáticas como patologização e a criminalização, que buscam normalizar determinadas práticas e versões do humano em relação às outras, basta pensar que há formas de sexualidade para as quais não existe um vocabulário adequado porque as lógicas como pensamos sobre o desejo, orientação, atos sexuais e prazeres não permitem que elas se tornem inteligíveis. Nesse processo de apagamento, o que se observa é a luta em assembleia pelo direito de viver uma vida visível e reconhecível que opera por meio de rompimentos no campo do poder.

No segundo capítulo, “Corpos em aliança e a política das ruas”, é dada visibilidade para os significados das manifestações no espaço público que articulam pluralidades de corpos que compartilham a experiência da precariedade e que se exibem e lutam por direito de existir. Para a autora, a política nas ruas deve congregar uma luta mais ampla contra a precariedade, sem que sejam apagadas as especificidades e pluralidades identitárias. Para tanto, há a necessidade de uma luta mais articulada que requer uma “ética de coabitação”. A ideia não é de “se reunir por modos de igualdade que nos mergulhariam a todos em condição igualmente não vivíveis”8, mas sim de “exigir uma vida igualmente possível de ser vivida”9.

Para pensar no espaço de aparecimento, Butler recorre e questiona Hanna Arendt que pensa o espaço a partir da perspectiva da pólis, onde a ação política é sine qua non ao aparecimento do corpo no espaço público. Para Butler, o direito de ter direitos não depende de nenhuma organização política particular para sua legitimação, pois antecede qualquer instituição política. O direito, então, passa a existir quando é exercido por aqueles que estão unidos em alianças e que foram excluídos da esfera pública, que é marcada por exclusões constitutivas e por formas de negação. Isso fica claro quando:

Ocupantes reivindicam prédios na Argentina como uma maneira de exercer o direito a uma moradia habitável; quando populações reclamam para si uma praça pública que pertenceu aos militares; quando refugiados participam de revoltas coletivas por habitação, alimento e direito a asilo; quando populações se unem, sem a proteção da lei e sem permissão para se manifestar, com o objetivo de derrubar um regime legal injusto ou criminoso, ou para protestar contra medidas de austeridade que destroem a possibilidade de emprego e de educação para muitos. Ou quando aqueles cujo aparecimento público é criminoso – pessoas transgênero na Turquia ou mulheres que usam véu na França – aparecem para contestar esse estatuto criminoso e reafirmar o seu direito de aparecer10.

Em outros termos, o espaço público é tomado por aqueles que não possuem nenhum direito de se reunir nele. Indivíduos que emergem de zonas de invisibilidade para tomarem o espaço, ao mesmo tempo em que se tornam vulneráveis às formas de violência que tentam reduzi-los ao desaparecimento. Neste capítulo, a autora discute o direito de ter direitos não como uma questão natural ou metafísica, mas como uma persistência dos corpos contra as forças que buscam sua erradicação.

No terceiro capítulo chamado “A vida precária e a ética da convivência”, Butler discute os significados de aparecer na política contemporânea e as possibilidades de aproximação entre corpos identitariamente diferentes e espacialmente separados, unidos apenas pela experiência da globalização e mediados pelos fenômenos tecnológicos e comunicacionais atuais, como as redes sociais. Para Butler, “alguma coisa diferente está acontecendo quando uma parte do globo, moralmente ultrajada, se insurge contra as ações e os eventos que acontecem em outra parte do globo”11. Para a autora, trata-se de laços de solidariedade que emergem através do espaço e do tempo, ou seja, uma forma de indignação que não depende da proximidade física ou do compartilhamento de um língua. Em outros termos, as obrigações éticas são surgem apenas nos contextos de comunidades “paroquiais” que estão reunidas dentro das mesmas fronteiras, constituintes de um povo ou uma nação.

Em parte, essas experiências compartilhadas são possibilitadas pelas novas mídias que, além de espaço de mobilização, se configuram também como uma potente possibilidade de transpor a cena, simultaneamente, para vários outros lugares. De outro modo, “quando o evento viaja e consegue convocar e sustentar indignação e pressão globais, o que inclui o poder de parar mercados ou de romper relações diplomáticas, então o local terá que ser estabelecido, repetidas vezes, em um circuito que o ultrapassa a cada instante”12. Assim:

Quando a cena é transmitida, está ao mesmo tempo lá e aqui, e se não estivesse abrangendo ambas as localizações – na verdade, múltiplas localizações – não seria a cena que é. A sua localidade não é negada pelo fato de que a cena é comunicada para além de si mesma e assim constituída em mídia global; ela depende dessa mediação para acontecer como o evento que é. Isso significa que o local tem que ser reformulado para fora de si mesmo a fim de ser estabelecido como local, o que significa que é apenas por meio da mídia globalizante que o local pode ser estabelecido e que alguma coisa pode realmente acontecer ali. […] As cenas das ruas se tornam politicamente potentes apenas quando – e se – temos uma versão visual e audível da cena comunicada ao vivo ou em tempo imediato, de modo que a mídia não apenas reporta a cena, mas é parte da cena e da ação; na verdade, a mídia é a cena ou o espaço em suas dimensões visuais e audíveis estendidas e replicáveis. Quando a cena é transmitida, está ao mesmo tempo lá e aqui, e se não estivesse abrangendo ambas as localizações – na verdade, múltiplas localizações […]13

O quarto capítulo – “A vulnerabilidade corporal e a política de coligação” – estrutura-se em torno de três questões fundamentais: vulnerabilidade corporal, coligações e políticas das ruas. A vulnerabilidade é uma experiência corpórea de exposição a possíveis formas de violências como conflitos entre manifestantes, violência policial ou violência de gênero, pois “algumas vezes o objetivo de uma luta política é exatamente superar as condições indesejadas da exposição corporal. Outras vezes a exposição deliberada do corpo a uma possível violência faz parte do próprio significado de resistência política”14. Para a autora, essa vulnerabilidade torna-se menos problemática quando os coletivos criam redes de proteção. A multidão, então, assumiria a função de suporte coletivo, pois:

Quando os corpos daqueles que são considerados “dispensáveis” se reúnem em público (como acontece de tempos em tempos quando os imigrantes ilegais vão às ruas nos Estados Unidos como parte de manifestações públicas), eles estão dizendo: “Não nos recolhemos silenciosamente nas sombras da vida pública: não nos tornamos a ausência flagrante que estrutura a vida pública de vocês.” De certa maneira, a reunião coletiva dos corpos em assembleia é um exercício da vontade popular, a ocupação e a tomada de uma rua que parece pertencer a outro público, uma apropriação da pavimentação com o objetivo de agir e discursar que pressiona contra os limites da condição de ser reconhecido em sociedade. Mas as ruas e a praça não são a única maneira de as pessoas se reunirem em assembleia, e sabemos que uma rede social produz ligações de solidariedade que podem ser bastante impressionantes e efetivas no domínio virtual15.

No quinto capítulo intitulado “Nós, o povo – considerações sobre a liberdade de assembleia”, Butler discute a categorização e a reivindicação da ideia de “povo”, em meio às lutas políticas, problematizando concepções restritivas de povo, como no caso da Constituição dos Estados Unidos. Necessário pensar que a construção de “povo” é uma autodenominação que opera por meio de uma construção discursiva, integrando e excluindo grupos que estão ou não dentro dessa categoria. Ainda no capítulo, a autora discute as privatizações no contexto neoliberal, que minimiza a proteção do Estado e enseja formas de alianças nas ruas que lutam contra o precário.

No último capítulo, intitulado “É possível viver uma vida boa em uma vida ruim?”, Butler aborda, a partir da proposta analítica de Adorno, sobre as possibilidades de vida em um mundo marcado pela condição de desigualdade. Para a autora, a luta política e a performance coletiva em assembleia são ações que vão de encontro à lógica da precarização e que podem ser uma alternativa no contexto neoliberal de diminuição de direitos.

O fio que costura toda a argumentação do livro é o da necessidade de criar condições coletivas de existência e de visibilidade de corpos contra as formas de precariedade que limitam a vida de vários sujeitos. A proposta da autora é a criação de alianças políticas que incluam várias pautas e demandas no contexto das democracias neoliberais. Butler revisita alguns conceitos como de performatividade e de precariedade, já utilizados em outras obras, aplicando-os às questões contemporâneas. Nessa obra, Butler extrapola a análise teórica acerca das assembleias contemporâneas e assume uma postura política de incitação à luta por democracia e direitos sociais no contexto de precarização provocada pelo neoliberalismo.

Laura Lene Lima Brandão – Doutoranda/Universidade Federal do Piauí. Teresina/ Piauí/ Brasil. E-mail: [email protected]


BUTLER, Judith. Corpos em aliança e a política das ruas: notas para uma teoria performativa da assembleia. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2018. Resenha de: BRANDÃO, Laura Lene Lima. Pelo direito de (r)existir: os corpos nas ruas. Outros Tempos, São Luís, v.17, n.29, p.396-342, 2020. Acessar publicação original. [IF].

Cuerpos aliados y lucha política: hacia una teoría performativa de la asamblea | Judith Butler

A filósofa norte-americana Judith Butler é sem dúvida uma das mais importantes pensadoras sociais contemporâneas. A produção intelectual da autora tornou-se referência internacional e nacional no campo dos estudos de gênero, a partir de teorias e conceitos apresentados no seu primeiro livro, Gender Trouble, publicado no final de 1989 (Problemas de Gênero: Feminismo e Subversão da Identidade, publicado em português, em 2003, pela Editora Civilização Brasileira).

Nesse livro, a autora buscou analisar o caráter performativo do gênero, ressaltando que nossas ideias de masculino e feminino não são essenciais e universais e se modificam de acordo com a cultura. Butler dialoga com algumas pensadoras feministas para desestabilizar a universalidade das categorias sexo, corpo e gênero, procurando compreender os processos de assujeitamento às normas sociais que têm nos constituído historicamente. Assim, para Butler, a teoria de gênero não será apenas uma teoria sobre a produção de identidades, mas um modo de ser e de viver o desejo. Por isso, tal obra permitiu afirmar a complexidade de nossos desejos e identificações para dar visibilidade às múltiplas expressões de gênero, colocando em questão as leis naturais que determinam nosso sexo e nosso destino e a matriz heterossexual que sustenta muitas teorias sobre a diferença sexual. Leia Mais

Debates feministas. Um intercâmbio filosófico – BENHABIB et al (REF)

BENHABIB, Seyla; BUTLER, Judith; CORNELL, Drucilla; FRASER, Nancy. Debates feministas. Um intercâmbio filosófico. Trad. de Fernanda Veríssimo, São Paulo: Editora Unesp, 2018. Resenha de: SANTOS, Patrícia da Silva. Feminismo, filosofia e teoria social: mulheres em debate. Revista Estududos Feministas, Florianópolis, v.27, n.3 2019.

O discurso filosófico e teórico nas sociedades ocidentais estabeleceu-se, por muito tempo, como território predominantemente masculino. O debate acerca da boa vida e as concepções em torno de suas instituições subjacentes à filosofia e à teoria social eram, até há pouco, protagonizados por homens que se apresentavam como as vozes “neutras” e “objetivas” de nossas formulações teóricas. O que acontece quando quatro feministas se reúnem para debater suas questões em profundo diálogo com algumas das mais relevantes tendências teóricas contemporâneas – como a teoria crítica, o pós-estruturalismo e a psicanálise? É claro que não se poderia exigir dessa empreitada a homogeneidade e o consenso próprios da suposta “universalidade” com que se disfarçou a moderna racionalidade ocidental.

Debates feministas, publicado originalmente no início dos anos 1990 e só agora disponível em edição brasileira, não é somente um livro sobre teoria feminista (uma das lições implícitas é justamente a impossibilidade de se pensar tal concepção no singular). É um testemunho de que o abalo geral provocado pelo pensamento contemporâneo em concepções basilares como identidade, normas e cultura exige que sejam autorizados sujeitos de discurso até então silenciados para que a filosofia e a teoria social se dispam da falsa neutralidade e incorporem os ruídos do não-idêntico, da subversão e da diferença. Em seus debates, Seyla Benhabib, Judith Butler, Drucilla Cornell e Nancy Fraser buscam apontar o lugar dos discursos feministas nessa tarefa de reelaboração do pensamento filosófico e teórico – as quatro pensadoras já apareciam, juntamente a outras, em volume publicado no Brasil há um bom tempo (Seyla BENHABIB; Drucilla CORNELL, 1987).

Debates feministas, que conta com uma introdução de Linda Nicholson, está dividido em duas partes, intituladas “Ensaios” e “Réplicas”, respectivamente. Essa divisão espelha o caráter combativo dos argumentos das quatro grandes teóricas estadunidenses. Cada um dos ensaios iniciais é pensado de modo a espelhar embates entre feminismo e teoria social “pós-moderna” (termo, aliás, também em debate, visto que não é aceito igualmente por todas as pensadoras). Nesse sentido, vertentes originais e hodiernas da teoria crítica, assim como teses pós-estruturalistas – principalmente as concebidas por Foucault e Derrida – e a psicanálise lacaniana são escrutinados via leituras feministas. Aqueles postulados todos – elaborados por homens, vale lembrar – levantaram, cada um a seu modo, questionamentos importantes em torno das concepções de sujeito, história, cultura, dominação etc. O feminismo contemporâneo vale-se, em grande medida, de tais questionamentos para contar uma outra história, com outras formas de subjetividade e de resistência, mas não o faz de maneira consensual, conforme mencionado. O volume Debates feministas, mesmo limitado a um grupo muito restrito de feministas, espelha bem essa pluralidade.

Nesse sentido, a contribuição de Seyla Benhabib para a primeira parte do volume é enfática ao questionar a aliança entre feminismo e pós-modernidade. Para ela, a adoção feminista inquestionável de teses como a morte do sujeito, a morte da história e a morte da metafísica deixaria poucas chances para reflexões sobre autonomia, acerca de possibilidades de emancipação feminina e a respeito de critérios normativos mínimos para o combate à desigualdade de gênero. A aliança com o pós-modernismo implicaria “desistir da esperança utópica no outro integral.” (Seyla BENHABIB, 2018, p. 59)

Bem distinta é a perspectiva de Judith Butler para quem o termo pós-modernidade seria uma estratégia para desqualificar uma ampla gama de reflexões diversas e pouco contribuiria para os debates contemporâneos (Judith BUTLER, 2018). Assumindo posições foucaultianas, a pensadora defende a não necessidade de o feminismo partir de um sujeito universal. O feminismo cumpriria melhor sua função caso assumisse em definitivo a tarefa de implodir a concepção de identidades fixas de gênero, apontando as genealogias discursivas que as constituíram. A consciência do caráter performático das subjetividades de gênero inscreveria a possibilidade de ressignificação dos sujeitos e, nesse sentido, cumpriria uma função política. Vale mencionar que Problemas de gênero, com sua exigência enfática de que o sujeito do feminismo não se restrinja às mulheres, havia sido publicado pouco antes da realização desses debates (Judith BUTLER, 2003).

Em sua primeira contribuição, Nancy Fraser, por sua vez, tenta estabelecer um diálogo entre as concepções teórico-críticas que baseiam as reflexões de Benhabib e a perspectiva pós-estruturalista defendida por Butler. Para ela, haveria uma falsa antítese nesse debate e o feminismo não precisaria necessariamente escolher entre uma vertente e outra. Sua conclusão é de que as “feministas precisam de construção e desconstrução, desestabilização do significado e projeção de esperança utópica” (Nancy FRASER, 2018, p. 114). A ressignificação defendida por Butler não seria capaz, por si só, de desenvolver as “capacidades críticas” das mulheres em função de uma atuação política emancipatória, assim como a rejeição radical do pós-estruturalismo por parte de Benhabib desautorizaria a possibilidade de reconhecimento dos discursos de poder que estabelecem culturalmente as diferenças de gênero. Por isso, defende a necessidade de reunir os pontos positivos de cada uma das perspectivas.

Já Drucilla Cornell parte de um referencial teórico distinto, constituído pela psicanálise lacaniana. Para ela, as teses de Lacan, embora não tenham sido construídas em função de interesses feministas (muito pelo contrário, aliás), podem ser empregadas no sentido de contribuir para pensar a subjetividade das mulheres de maneira liberada do modelo hegemônico de sujeito – que se baseia na masculinidade. O sujeito feminino, justamente por ser caracterizado pela “falta”, encerraria possibilidades plurais: “se mulher é falta […], ela pode ‘ser’ qualquer coisa” (Drucilla CORNELL, 2018, p. 143). Essa reflexão sobre as possibilidades de subjetividade não falocêntrica também se relaciona à possibilidade de construção de um feminismo ético, baseado na relação não violenta com o outro. Cornell dialoga, além disso, com outros pensadores muito discutidos nos anos 1990, como Jacques Derrida, Ludwig Wittgenstein e John Rawls.

A segunda parte do livro, escrita por volta de três anos depois dos textos originais (que se limitavam às contribuições de Benhabib, Butler e Fraser; tendo o primeiro texto de Cornell sido também incluído nesse segundo momento), denuncia alguns problemas inerentes à empreitada proposta pelas autoras. Nessa parte do livro, as divergências entre as pensadoras são elaboradas de modo mais direto e as rusgas são expressas em formulações mais combativas. Cada uma delas responde às críticas e debate as contribuições das demais, além de reforçar suas posições. Benhabib argumenta, nesse sentido, que as denúncias feitas por Butler e Cornell de leituras incorretas de seus respectivos textos insinuam que “qualquer desacordo implica má interpretação ou compreensão falha” – hipótese que ela denomina de “autoindulgente”, pois a incompreensão pode resultar de problemas como a falta de clareza dos textos (Seyla BENHABIB, 2018, p. 166). Por outro lado, Butler classifica o trabalho do volume como “entristecedor” (Judith BUTLER, 2018, p. 190), pois o apego das pensadoras (dela inclusive) às suas posições impediu, por vezes, a compreensão do que estava em jogo nos postulados das outras. Cornell defende a articulação entre teoria crítica e as vertentes genericamente chamadas pós-modernas em perspectivas feministas e recusa veementemente a ideia de “sujeito autoidêntico”, incluindo o “sujeito autoidêntico do feminismo” (Drucilla CORNELL, 2018, p. 230). Fechando o volume, Fraser tenta, novamente, estabelecer uma espécie de diálogo entre os posicionamentos distintos das outras três autoras. Para ela, os debates feministas apresentados relacionam-se, todos, com a assim chamada “virada linguística” que caracteriza muitas posições teóricas contemporâneas. Seria necessário absorver o que cada uma das contribuições tem de melhor em função do desenvolvimento de “uma teoria feminista eclética, neopragmática” (Nancy FRASER, 2018, p. 253).

É possível perceber que os impasses mais pronunciados da segunda parte do livro desvelam uma crítica passível de ser feita ao resultado final. De fato, por vezes, a tentativa de defender as próprias posições teóricas se sobrepõe à tentativa de apresentar as possibilidades oferecidas pela crítica feminista para a luta contra a dominação masculina. Em algumas passagens, a ânsia em responder à crítica ou em desconstruir o argumento alheio é mais forte do que a de veicular a própria compreensão do pensamento feminista – esse aspecto perturba, em alguns momentos, a fluidez de leitura dos argumentos. De todo modo, quando as divergências são lidas como próprias de um tipo de reflexão que se inscreve contra tradições hegemônicas que se impuseram ao longo da história do pensamento ocidental como universais, elas são muito bem-vindas.

Outro ponto crítico é o fato de o livro não incorporar nenhuma representante do feminismo negro, embora, sintomaticamente, todas as quatro autoras mencionem a importância de situar as intersecções entre raça e gênero no debate feminista. De todo modo, a introdução deixa claro que o volume “não pretende fornecer nenhum tipo de panorama sobre a teoria feminista contemporânea”, mesmo porque ele incorpora “quatro mulheres brancas dos Estados Unidos”, provenientes de uma disciplina particular (Linda NICHOLSON, 2018, p. 10).

Por fim, é necessário um alerta para quem espera uma explanação clara e unívoca a respeito da concepção de feminismo. Tal público certamente irá se decepcionar e terá que enfrentar a aridez de debates filosóficos e teórico sociais complexos, díspares, confrontativos e plurais, nem sempre apreensíveis na primeira leitura. As interlocuções teóricas estabelecidas pelas pensadoras acabam exigindo uma formação teórica mínima prévia das leitoras e dos leitores, ainda que elas façam o esforço de apresentar sucintamente seus referenciais. De todo modo, nem sempre há sucesso em tal tentativa. O primeiro ensaio de Cornell, por exemplo, vale-se de muitas tradições teóricas distintas para construir seu argumento e o resultado é um diálogo nem sempre claramente exposto.

De qualquer forma, o livro, ainda que publicado tardiamente no Brasil, anuncia-se como leitura necessária às interessadas e aos interessados em teoria feminista. Mais do que isso: em suas muitas interlocuções teóricas, as feministas em questão acabam denunciando que, se no princípio o “verbo” filosófico permaneceu definitivamente sexualizado, a participação das mulheres é uma exigência de qualquer teoria que deseje romper com as falácias da objetividade teórica, da unidade do sujeito e da linearidade da história. Como formulou Jeanne Marie Gagnebin (2005, p. 48), “porque o sujeito não é somente um, mas múltiplo e variável, porque o tempo se espalha em redes temporais diversas, porque a história tem solavancos, acelera ou, de repente, desmorona”, há uma abertura na teoria social e na filosofia contemporâneas para “outras línguas”, das quais as mulheres aparecem em Debates feministas como uma das indispensáveis portadoras.

Referências

BENHABIB, Seyla. “Feminismo e pós-modernidade: uma aliança complicada”. In: BENHABIB, Seyla; BUTLER, Judith; CORNELL, Drucilla; FRASER, Nancy. Debates feministas. Um intercâmbio filosófico. Trad. de Fernanda Veríssimo. São Paulo: Editora Unesp, 2018, p. 35-59. [ Links ]

BENHABIB, Seyla. “Subjetividade, historiografia e política: reflexões sobre o ‘debate feminismo/pós-modernismo”. In: BENHABIB, Seyla; BUTLER, Judith; CORNELL, Drucilla; FRASER, Nancy. Debates feministas. Um intercâmbio filosófico. Trad. de Fernanda Veríssimo. São Paulo: Editora Unesp, 2018, p. 163-187. [ Links ]

BENHABIB, Seyla; BUTLER, Judith; CORNELL, Drucilla; FRASER, Nancy. Debates feministas. Um intercâmbio filosófico. Trad. de Fernanda Veríssimo. São Paulo: Editora Unesp, 2018. [ Links ]

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BUTLER, Judith. “Fundações contingentes: feminismo e a questão do ‘pós-modernismo’”. In: BENHABIB, Seyla; BUTLER, Judith; CORNELL, Drucilla; FRASER, Nancy. Debates feministas. Um intercâmbio filosófico. Trad. de Fernanda Veríssimo. São Paulo: Editora Unesp, 2018, p. 61-92. [ Links ]

BUTLER, Judith. “Por uma leitura cuidadosa”. In: BENHABIB, Seyla; BUTLER, Judith; CORNELL, Drucilla; FRASER, Nancy. Debates feministas. Um intercâmbio filosófico. Trad. de Fernanda Veríssimo. São Paulo: Editora Unesp, 2018, p. 189-213. [ Links ]

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Patrícia da Silva Santos – Professora da Faculdade de Ciências Sociais e do Programa de Pós-Graduação em Sociologia e Antropologia da Universidade Federal do Pará. É doutora em Sociologia pela Universidade de São Paulo, tendo realizado período de doutorado sanduíche na Universidade de Munique (Alemanha). Realizou pesquisa de pós-doutorado no Deutsches Literatur-Archiv Marbach (Alemanha) com bolsa do Hilde-Domin Fonds e, posteriormente, com bolsa da FAPESP, na Universidade Estadual de Campinas, onde atuou também como professora colaboradora. É autora dos livros Racionalidade moderna e Franz Kafka (IFCH/Unicamp, 2007) e Sociologia e superfície (Unifesp, 2016), além de ter publicado diferentes artigos sobre teoria social, sociologia da cultura e desigualdade de gênero. E-mail: [email protected]

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Undoing gender – BUTLER (RF)

BUTLER, Judith. Undoing gender. New York; London: Routledge, 2004. 273p. Resenha de: DORNELLES, Priscila Gomes. Revista FACED, Salvador, n.19, p.131-132, jan./jun. 2011.

Judiht Butler é estadunidense, filósofa e professora da Universidade da Califórnia/EUA, localizada em Berkeley. A autora apresenta a problematização dos movimentos teórico-políticos do feminismo como um dos focos principais das suas produções.

Para isso, assume uma posição pós-estruturalista e ligada à teoria queer para conceituar o sujeito como produto normativo generificado.

Após algumas publicações tratando de circunscrever o gênero como uma norma cultural que governa a materialização dos corpos, tais como Gender trouble: feminism and the subversion of identity (1990) e Bodies That Matter: On the Discursive Limits of “Sex” (1993), em Undoing gender, Judith Butler reúne ensaios reelaborados e versões alargadas de produções já apresentadas publicamente, as quais, agora, estão compiladas para problematizar o plano normativo do gênero a partir, segundo a autora, das experiências de tornar-se desfeito. Nesta obra, o movimento analítico sela o sujeito como produto normativo e volta-se para tratar da produção do gênero de forma articulada e implicada com a problematização da vida e das noções de humano.

Capitaneado pelas discussões de gênero e sexualidade, Undoing gender propõe certa “rasura” aos movimentos de feministas centrados na promoção do debate de gênero restrito às questões/ demandas sociais de mulheres, inclusive reforçando o dimorfismo sexual a partir de concepções que operam essencializando o que é um corpo feminino. Os ensaios deste livro estão engajados com Novas Políticas de Gênero, as quais, segundo Butler, configurariam “um caldo” epistemológico e político de discussões em torno de transgêneros, transexuais e intersex de forma (des)articulada com as teorias feministas e queer. Nesse sentido, a autora dedica os capítulos Gender regulations, doing justice to someone: sex reassignment and allegories of transsexuality e undiagnosing gender para descrever, no âmbito do discurso médico, o processo vivido por sujeitos transexuais para a realização das cirurgias de resignação de sexo, bem como as justificativas produzidas, também no âmbito científico, para as cirurgias de “adequação” de sujeitos intersex.

Butler aponta que esse universo de “(re)construção” dos corpos através das tecnologias, bem como as formas de violências e violações aos sujeitos avessos aos padrões normativos do gênero são trazidos para destacar como as normas de gênero funcionam para fazer/desfazer os sujeitos, inclusive questionando a noção de autonomia. Importa para a autora argumentar e articular, a partir de bases hegelianas, a relação entre as normas de reconhecimento e a produção diferencial do humano ao “destrinchar” analiticamente as situações apresentadas no decorrer do livro.

Além dessa base argumentativa, nos diferentes capítulos, a autora posiciona as possibilidades de movimentação do sujeito em relação à constituição normativa que o precede e o externa. Para isso, o conceito de agência circula como um lugar, distribuído de forma diferencial entre os gêneros, de fazer-se a partir da crítica – vale ressaltar que este termo é tratado ao largo de concepções de sujeito crítico possíveis, apenas, através da consciência dos jogos de poder e, consequente, construção de formas de emancipação.

Nesta obra e em outras produções, a crítica refere-se ao questionamento dos processos e dos termos que restringem a vida, com isso, ampliando o reconhecimento das formas de humano.

Ao fim e ao cabo, isto significa que o exercício individual da agência está atrelado à crítica/transformação social.

Ademais, interessa mencionar que a autora trata do conceito de humano como algo contingente. Nesse sentido, o seu questionamento é proposto considerando as bases normativas generificadas, racializadas e sexualizadas que constituem graus diferenciados de humanidade. Judith Butler provoca-nos a pensar que o que está em jogo no questionamento das normas é a definição parcial/futura do humano. Para isso, falar do lugar do irreconhecível torna-se uma possibilidade de tensionar os caminhos normativos ao alargamento.

Priscila Gomes Dornelles – E-mail:[email protected]

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