O Mito da Beleza: como as imagens de beleza são usadas contra as mulheres | Naomi Wolf

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Naomi Wolf | Getty Imagens

O mito da beleza como as imagens mito da belezaDias e semanas de quarentena se passam, para umas/uns mais rápido, para outras(os) como torturantes dias sem fim, iguais, grises. Certezas de nossa sociedade – local de trabalho, compromissos presenciais, eventos acadêmicos, necessidades de consumo – caem por terra, diante de um vírus do qual sabemos pouco e que revirou nosso cotidiano, nos fez desmarcar viagens, recriar rotinas de trabalho. Pedimos/nos pedem para nos cuidar, parar e como lema máximo: ficar em casa!1 – para umas/uns uma missão impossível, para outras(os) a percepção de estarem aprisionadas(os), para outras(os) uma possibilidade de manter-se protegidas(os). As ações corriqueiras e o que chamávamos de cotidiano já não existe, por mais que tantas(os) ainda tentem simular uma realidade ou negar os efeitos da Covid-19 em nossas vidas.

Tantas percepções destas desigualdades de nosso sistema-mundo capitalista, ocidental, misógino e racista2 caberiam aqui, mas falaremos de uma problemática cujas análises se aprofundaram pela leitura do livro resenhado: o controle sob o corpo feminino. Como há anos não me ocorria, volto a minha ‘estante virtual’ – com mais livros do que conseguirei ler nos próximos anos – não procurando o que preciso agora, mas com a sensação de que posso ler algo que não precisa ser útil para um novo projeto, para um novo artigo – já viram que não deu certo, maldito capitalismo acadêmico! –. Na lista de livros para ler, havia um que iniciei a leitura no ano passado, O Mito da Beleza: como as imagens de beleza são usadas contra as mulheres, a obra de Naomi Wolf escrita no contexto de outrora, era lido agora sob o prisma da pandemia que estamos vivenciando. Leia Mais

Calibã e a bruxa: mulheres, corpo e acumulação primitiva | Silvia Federici

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Silvia Federici | Foto: DeliriumNerd

FEDERICI S Mulheres e caca as BruxaA obra Calibã e a Bruxa inventaria os aspectos mais relevantes do projeto de pesquisa iniciado em meados dos anos de 1970 por Silvia Federici. Trata-se de um empreendimento teórico, interessado nas mudanças ocorridas na vida das mulheres a partir do processo de transição do feudalismo para o capitalismo.

Silvia Federici nasceu na cidade de Parma em 1942, vivendo na Itália até migrar para os Estados Unidos em 1967 onde estudou filosofia na Universidade de Buffalo. Ativista feminista e professora, participou em 1972 da fundação do Coletivo Feminista Internacional, grupo responsável pela campanha mundial em defesa do salário para o trabalho doméstico. Na década de 1980 trabalhou por vários anos como professora na Universidade de Port Harcourt na Nigéria. Tornou-se docente em Filosofia Política e Estudos Internacionais no New College da Universidade de Hofstra de Nova York, na qual foi consagrada como professora emérita. Leia Mais

Calibã e a bruxa: mulheres, corpo e acumulação primitiva | Silvia Federici

A obra Calibã e a Bruxa inventaria os aspectos mais relevantes do projeto de pesquisa iniciado em meados dos anos de 1970 por Silvia Federici. Trata-se de um empreendimento teórico, interessado nas mudanças ocorridas na vida das mulheres a partir do processo de transição do feudalismo para o capitalismo.

Silvia Federici nasceu na cidade de Parma em 1942, vivendo na Itália até migrar para os Estados Unidos em 1967 onde estudou filosofia na Universidade de Buffalo. Ativista feminista e professora, participou em 1972 da fundação do Coletivo Feminista Internacional, grupo responsável pela campanha mundial em defesa do salário para o trabalho doméstico. Na década de 1980 trabalhou por vários anos como professora na Universidade de Port Harcourt na Nigéria. Tornou-se docente em Filosofia Política e Estudos Internacionais no New College da Universidade de Hofstra de Nova York, na qual foi consagrada como professora emérita. Leia Mais

Correio Para Mulheres | Clarice Lispector

O histórico meramente tradicionalista em vista das mulheres da elite brasileira entre as décadas de 1950 e 1960 era descrito por Clarice Lispector em colunas de aconselhamento feminino para os jornais Comício, Correio da Manhã e Diário da Noite. Desta maneira, a autora produziu colunas que eram direcionadas exclusivamente para as mulheres sob a perspectiva de três pseudônimos diferentes: Tereza Quadros, na coluna “Entre Mulheres”, pelo jornal Comício, em 1952; Helen Palmer, na coluna “Feira de Utilidades”, pelo jornal Correio da Manhã, em 1959; e Ilka Soares, na coluna “Nossa Conversa”, pelo jornal Diário da Noite, em 1960. No decorrer destas colunas, Lispector apresentava dicas, diálogos, inquietações e questionamentos antes muito proveitosos para as mulheres e que representavam perfeitamente as experiências femininas pertencentes à classe média alta da sociedade burguesa daquela época, nunca deixando para trás o seu estilo literário inconfundível e o senso de humor ácido clariciano. Leia Mais

A carta da Condessa: família, mulheres e educação no Brasil do século XIX | Samuel Albuquerque

Certas obras voltadas para o campo histórico comumente utilizam fontes epistolares como suporte para a pesquisa de biografias e trajetórias de vida de determinadas personagens. Avançando sobre esta proposta, o livro A carta da Condessa, escrito por Samuel Albuquerque1, amplia as perspectivas de análise histórica da fonte epistolar, uma vez que ela permite conhecer melhor os agentes históricos que se correspondem, mas também contribui na compreensão da conjuntura e do cotidiano na qual a carta e seus autores estavam inseridos.

Tomando esse caminho, o autor consegue compor um livro rico em detalhes por envolver a atuação de mulheres como preceptoras no Brasil durante o século XIX, e sensível aos olhares do leitor que é levado ao deleite do cotidiano feminino Oitocentista, bem como seus desafios, (des)afetos e deslocamentos pelo Atlântico. Leia Mais

Oração, penitência e trabalho: o Recolhimento de Santa Maria Madalena e São Gonçalo de Braga (1720-1834) | Maria Marta Lobo de Araújo

Recolhimento Santa Matalena Braga Trabalho
Recolhimento de Santa Maria Madalena, Braga | Foto: aspa35anos.blogspot.com

ARAUJO M Oracao Penitencia TrabalhoProfessora associada do Departamento de História da Universidade do Minho, há muitos anos Maria Marta Lobo de Araújo vem se dedicando ao estudo de diferentes tipos de instituições religiosas existentes na região noroeste de Portugal, durante a Época Moderna. As pesquisas da autora se inserem no âmbito de recentes tendências historiográficas que renovaram a História Social: o estudo das práticas e das crenças religiosas dos fiéis, o estudo da assistência à pobreza e à orfandade, o estudo da reclusão das mulheres e dos valores que a norteavam, entre outros temas de importância. O material empírico principal utilizado no livro é constituído pelo fundo do Recolhimento de Santa Maria Madalena, depositado no Arquivo Distrital de Braga. Paralelamente, outros fundos documentais pertencentes ao mesmo Arquivo foram também utilizados na pesquisa.

A obra abrange desde o período de fundação e entrada das primeiras recolhidas até 1834, quando o Recolhimento se revestiu de outras finalidades, em sintonia com os decretos liberais da época, que afetaram diretamente a existência de ordens religiosas masculinas e femininas em Portugal. O diálogo com a historiografia é profícuo, destacando-se os trabalhos dedicados a conventos e a recolhimentos femininos no Minho, mas sem descuidar da historiografia relativa aos referidos estabelecimentos que foi produzida em outras partes da Europa e nos antigos domínios portugueses. No esforço aqui empreendido para apresentar a obra aos leitores interessados, serão exploradas conexões com a literatura produzida a respeito do tema, particularmente aquela que tomou a América Portuguesa como pano de fundo. Leia Mais

Visionary Women. How Rachel Carson, Jane Jacobs, Jane Goodall, and Alice Waters Changed Our World | Andrea Barnet

Visionary Women: How Rachel Carson, Jane Jacobs, Jane Goodall, and Alice Waters Changed Our World, de Andrea Barnet, reúne biografias de quatro mulheres que, quase simultaneamente, revolucionaram o mundo com as suas ideias. Em 1962, Rachel Carson (1907-1964) deu início ao movimento ambientalista ao alertar, no livro Silent Spring, para as graves consequências ambientais e sanitárias do uso indiscriminado de DDT. Em 1961, Jane Jacobs (1916-2006) inaugurou, com o seu livro The Death and Life of Great American Cities, a crítica ao urbanismo modernista ao apontar a deterioração da vida social nas cidades norte-americanas nas quais esse modelo de planejamento urbano fora implantado – especialmente em Nova Iorque. Em 1962, Jane Goodall (1934–) provocou uma redefinição científica de humanidade ao observar e registrar chimpanzés utilizando ferramentas, comportamento até então atribuído apenas aos seres humanos. Em 1965, Alice Waters (1944-) descobriu, na França, os prazeres das refeições feitas com ingredientes frescos, produzidos localmente. Isso inspirou o projeto do seu restaurante, Chez Panisse – marco na culinária sustentável –, inaugurado em 1971, Berkeley, Califórnia. Leia Mais

Escutas sensíveis, vozes potentes: diálogos com mulheres que nos transformam | Marta Gouveia de Oliveira Rovai

Lançado em 2021, pela Editora Cancioneiro, o livro Escutas sensíveis, vozes potentes: diálogo com mulheres que nos transformam, organizado pela historiadora e professora da Universidade Federa de Alfenas (Unifal), Marta Gouveia de Oliveira Rovai, se propõe a apresentar o diálogo entre saberes de inúmeras e diversas histórias de mulheres através do encontro entre a história acadêmica e a história fora dos muros da universidade. A obra conta com vinte e duas mulheres que compartilharam sua história de vida com trinta e oito pesquisadore (a)s que fazem uso da história oral e dos debates sobre memórias, gêneros e identidades, em um processo de escuta dialógica sobre as demandas inclusivas do tempo presente.

A obra de Rovai (2021) traz uma importante contribuição sobre a importância da ação dos pesquisadores quanto ao ato de ouvir e a reflexão sobre uma ética da escuta, envolvendo o respeito às narradoras, às suas memórias e expectativas, por meio de uma postura que envolve olhos, ouvidos e alma. A autora evidencia que o livro não fala de mulheres subalternas, mas subalternizadas, e que as escritas registradas na obra só foram possíveis devido ao processo dialógico, em que as mulheres desejaram ver suas histórias compartilhadas por ouvintes que ampliaram suas vozes. Leia Mais

Mulheres e caça às bruxas: da Idade Média aos dias atuais | Silvia Federici

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Silvia Federici | Foto: DeliriumNerd

FEDERICI S Mulheres e caca as Mulheres e caça às bruxas: da Idade Média aos dias atuaisAo falar de caça às bruxas imagina-se fogueiras queimando acerca de centenas de anos atrás em um povoado bem distante, com pessoas ao redor do fogo assistindo a incineração de uma ou mais mulheres acusadas de bruxaria por serem aliadas ao diabo. São cenas que parecem estar bem longínquas do século 21, e ainda relacionadas somente ao combate contra o mundo sobrenatural. No entanto, através do livro “Mulheres e Caça às Bruxas: da Idade Média aos Dias Atuais” a autora Silvia Federici apresenta a interligação da caça às bruxas à eliminação das mulheres do sistema capitalista e as consequências disso para as suas vidas. O livro de título original “Witches, witch-hunting, and women” é a obra mais recente da autora, lançado no Brasil em 2019 pela editora Boitempo, estando dividido em duas partes no mesmo volume: Revisitando a acumulação primitiva do capital e a caça às bruxas na Europa; Novas formas de acumulação de capital e a caça às bruxas em nossa época. Silvia Federici é escritora, professora e intelectual militante de tradição feminista marxista autônoma, nascida na Itália em 1942, mudou-se para os Estados Unidos no fim da década de 1960, onde foi cofundadora do Coletivo Internacional Feminista e contribuiu para a Campanha por um salário para o trabalho doméstico. Em 1965 concluiu a graduação em filosofia. Atualmente é professora emérita na universidade de Hofstra, em Nova York. Suas outras obras são: Calibã e a Bruxa (Elefante, 2017) e O Ponto Zero da Revolução (Elefante, 2019), além de artigos sobre feminismo, colonialismo e globalização.

Para Silvia Federici os motivos que levaram ao surgimento da caça às bruxas ocorrida no fim do século XIV indo até meados do século XVIII, tendo maior intensidade entre os séculos XVI e XVII, foram multicausais, ou seja, não se pode dizer que os processos de cercamentos intensificados no século XV na Inglaterra, o surgimento da medicina ou questões religiosas foram os únicos culpados pela perseguição contra às mulheres. No entanto, a autora atribui todas as causas “subjacentes ao desenvolvimento das relações capitalistas”, assim na primeira parte do seu livro ela examina os acontecimentos do passado para o leitor visualizar a caça às bruxas sendo uma ação do Estado atrelado a igreja no combate à presença ativa das mulheres no mundo capitalista, sendo este o grande contribuinte ao aumento da violência contra elas durante os séculos subsequentes a seu surgimento.

Embora a caça às bruxas não tenha ocorrido somente na Inglaterra, mas em vários outros países da Europa, incluindo a França, Espanha, Itália e Alemanha, Federici usa os cercamentos da Inglaterra para explicar este acontecimento, pois segundo ela “estes demostram mais claramente como a comercialização da terra e o crescimento das relações monetárias afetou, de forma diferente, mulheres e homens.” (FEDERICI, 2019, p.48). Quando os proprietários de terras e outros membros abastados da sociedade privatizaram suas terras colocando fim aos direitos consuetudinários deixaram a população de agricultores desamparados dos seus meios de sobrevivência, entre eles estavam as mulheres. Justamente em áreas onde ocorreram os cercamentos houveram os mais sangrentos processos de bruxaria da Inglaterra. Bem como as áreas em que estavam havendo uma reformulação das relações econômicas e sociais em decorrência da prata trazida das colônias na América do Sul, causando o aumento no preço dos grãos e demais produtos agrícolas, desta forma intensificava-se cada vez mais as desigualdades.

As maiores atingidas por essas mudanças foram as mulheres mais velhas que viviam sozinhas, sem filhos ou maridos, ficando-as desamparadas ao fim dos seus direitos consuetudinários. A situação delas tornou-se mais degradante após a Reforma, sendo proibida a caridade, de modo a não poderem sobreviver nem mesmo de esmolas. Passaram então a serem consideradas um estorvo à sociedade produtiva e acumulativa de bens, não podendo oferecer força de trabalho e muito menos gerar futuros trabalhadores, e ainda representando a maioria na população europeia. De acordo com os estudos do professor Emérito de História e Estudos Religiosos da Universidade de Virginia, H.C Erick Midelfort, no século XVI houveram acentuadas mudanças demográficas na Europa, produzindo o número cada vez maior de mulheres sozinhas. A Reforma trousse o fechamento de inúmeros conventos deixando 20% de delas sem nunca terem casado e 10% a 20% de viúvas. Outro fator contribuinte para serem a maioria se deu por sobreviveram mais comparadas aos homens durante o período da peste, se dando a maior parte de suas mortes somente em decorrência do parto. Diante deste cenário haviam várias mulheres desamparadas pela figura masculina do pai, filho ou marido. Assim tornavam-se sujeitos marginalizados, rendendo a “feminização da pobreza”. Parte-se daí a caracterização da bruxa existente até os dias de hoje, sendo mulheres velhas, pobres, sujas, rabugentas e sozinhas, a elas ainda eram acometidos crimes fáceis de serem executados pela sua falta de força física, como os incêndios de plantações e mortes de animais.

Para Silva Federici estas mulheres não eram vítimas, mas pessoas divergentes às ordens estabelecidas, eram contrárias ao sistema, e resistentes às condições injustas que lhes eram impostas. Mesmo sendo proibida a caridade continuavam a pedir dinheiro e alimentos, sempre encaradas a modos inconvenientes, reagiam falando palavras ofensivas contra aqueles que lhes negavam ajuda, entretanto “atitudes como essas poderiam ser ressentimentos nascidos da raiva pela injustiça sofrida, uma forma de rejeitar a marginalização.” (FEDERICI, 2019, p.52)

Não bastava ser velha para receber a acusação de bruxaria. A autora explica que muitas das acusadas haviam tido condutas consideradas erradas, quando jovens foram mulheres promíscuas, libertinas, mães solteiras, curandeiras e parteiras possuidoras de popularidade. Para Federici estas mulheres não eram acusadas de bruxaria por seus feitiços e remédios medicinais realmente surtirem efeito, mas poque elas faziam parte do lado contrário ao novo poder. Além de serem pobres também compunham o corpo de revoltosos contra os cercamentos, a propriedade privada, a repressão sexual e ao controle de nascimentos imposto pelo Estado. Quando puniam às “bruxas” acabavam punindo os compactuantes dos mesmos pensamentos. Por estes motivos historiadores e historiadoras também desconsideram à elas somente a definição de vítimas, preferindo enxergá-las como resistentes, “A bruxa foi a comunista e a terrorista de sua época, quando foi necessário um mecanismo ‘civilizador’ para produzir uma nova “subjetividade’ e uma nova divisão sexual do trabalho em que a disciplina capitalista da mão de obra viria a se apoiar.” (FEDERICI, 2019, p.72)

Colocadas às margens da sociedade, sem fonte de renda ou o amparo da figura masculina algumas mulheres recorriam a prostituição para poderem se manter. Entretanto, essa atitude foi interpretada a existência de um pacto diabólico, pois considerava-se haver a facilidade de arrancarem dinheiro dos homens, muitos deles chegavam a dizer terem sido vítimas de seus encantamentos. Mesmo quando não se envolvia a prostituição, mas relações sem o casamento, a sexualidade feminina era vista intimamente atrelada ao diabo. Apesar desta ser uma questão religiosa, no século XVI e XVII quando a caça à as bruxas foi mais intensa, os julgamentos eram conduzidos por magistrados leigos pagos pelos governos municipais, e não por membros da igreja. Segundo a autora, relacionar a figura da mulher rebelde ao sobrenatural foi de suma importância para executar toda a violência contra as mulheres durante o período da caça às bruxas, afinal quando se queimava a “bruxa” na fogueira a população interpretava aquilo não sendo um ato contra ser humano político possuidor de posicionamento social, mas sim contra o sobrenatural que continuava a ser tão temido e repulsivo, diz mais: “Nunca, ao longo da história, as mulheres foram submetidas a tão grande agressão, organizada internacionalmente, aprovada pelas leis, abençoada pelas religiões.” (FEDERICI, 2019, p.70)

Ainda em sua primeira parte do livro Silvia Federici continua a explicar o que verdadeiramente o sistema capitalista significou para o mundo feminino. Para ela assim como a colonização da América e o extermínio dos povos indígenas no “novo mundo”, a caça às bruxas também foi um “acontecimento que preparou o caminho para o surgimento do mundo capitalista moderno.” (FEDERICI, 2019, pg.40). Ao mesmo modo dos negros e indígenas as mulheres acusadas de bruxaria sofreram drasticamente com o novo sistema econômico, levando a avaliar se realmente houve um desenvolvimento, ou somente o acumulo de riqueza nas mãos de alguns. Desta forma, africanos escravizados e indígenas da América eram “parentes próximos” das bruxas europeias, todos “tiveram suas terras comuns confiscadas, vivenciaram a fome produzida pela mudança para agricultura comercial e viram suas resistências serem perseguidas como sinal de um pacto diabólico.” (FEDERICI, 2019, p.41).

O desenvolvimento do capitalismo gerou o desenvolvimento de conflitos sociais e transformações radicais desde os modos de produção à questões particulares dos indivíduos, como a reprodução e comportamentos adequados para cada gênero, “o capitalismo foi uma contrarrevolução não apenas sufocando com sangue as novas demandas por liberdade, mas virando o mundo de cabeça para baixo com a criação de um sistema de produção que exigia uma concepção diferente de trabalho, riqueza e valor que fosse útil às formas mais intensas de exploração.” (FEDERICI, 2019, p.64) Esse novo sistema forjou um novo indivíduo impondo a disciplina dos corpos, estabelecendo a batalha contra aquele que pudesse interromper a geração de mão de obra, ou seja, contra aquelas conhecedoras de ervas abortivas. Em seguimento as novas estruturas houve o rompimento aos antigos costumes produtivos, ocorrendo o fim das terras comunais e a ação da caridade, por esta prática acreditava permitir a entrada do sujeito ao céu. O mundo mágico que resistiu até mesmo a cristianização durante a Idade Média foi duramente atacado, pois representava o poder não condizente a nova realidade, devendo então ser exorcizado, era “a racionalização do mundo natural – precondição de uma disciplina de trabalho mais organizada e da revolução científica- passava pela destruição da “bruxa”. (FEDERICI, 2019, p.65 a 66)

O capitalismo invadiu a vida das mulheres criminalizando a sua liberdade sexual, “a nascente classe capitalista precisou desprezar a sexualidade e o prazer feminino.” (FEDERICI, 2019, p.67). Seus corpos teriam duas funções, serem o instrumento para a reprodução da força de trabalho e a satisfação das necessidades dos homens, às não obedientes a isso foram perseguidas, humilhadas, julgadas e mortas. Para haver o estabelecimento do capitalismo na Europa, enquadrado a um sistema patriarcal, antes precisava haver a degradação do corpo feminino, surgindo então a nova feminilidade. Esta significava ser dócil, submissa, subserviente, reclusa ao trabalho doméstico – tido como improdutivo- e assexual, ou seja, a nova feminilidade significava ser destituída da liberdade.

A autora dedica o último capítulo da primeira parte, intitulado de “Sobre o significado de ‘gossip’, para abordar sobre a rivalidade gerada entre as mulheres. Em português a palavra significa fofoca, porém não teve sempre esse significado, o termo depreciativo foi aplicado para destruir a sociabilidade feminina que “prevaleceu durante a Idade Média”. Antes gossip era destinado à denominação das madrinhas ou acompanhantes no parto, nomeando a parceria existente entre às mulheres. A partir do século XVI a situação delas foi tão deteriorada que até mesmo essas relações foram atacadas. As conversas de mulheres eram tidas como fúteis e irrelevantes, acreditavam haver a união somente para conspirarem contra os homens ou falarem da vida alheia, enquanto deixavam de lado as suas atividades domésticas e cuidados aos seus maridos. A partir desse mesmo século o número de mulheres acusadas de bruxaria aumentou consideravelmente, muitas eram agredidas por seus companheiros por quaisquer sinais de enfrentamento, eles poderiam lhes aplicar castigos físicos fazendo o uso das “scold bridle” ou “ducking stool”. Elas também foram levadas aos tribunais e multadas pelo simples fato de falarem demais, recebendo o termo de rabugentas, esperava-se e exigia-se delas o silêncio e obediência. Tendo ainda seus poderes e amizades enfraquecidos não somente por as ridicularizarem chamando-as de fofoqueiras e desocupadas, mas por fazerem mulheres sob tortura denunciarem umas às outras, sendo suas próprias mães, irmãs filhas e amigas.

Encerrando a primeira parte a autora traz um dos motivos pelos quais as mulheres tornaram-se os principais alvos da caça às bruxas, visto que os homens também eram mortos por associações, entretanto compunham um número bem pequeno. Este motivo não se deu unicamente por representarem a maioria da população, e sim em virtude de serem as “tecelãs de memórias”, principalmente as mais velhas, pois lembravam dos seus direitos consuetudinários, das tradições, e mais ainda, das liberdades que lhes foram tomadas, por meio de suas conversas transmitiam isso umas às outras, incitando mais mulheres a se revoltarem contra as injustiças impostas. Tendo em vista estes motivos, Federici considera a rotulação por fofoca de toda essa troca de conhecimentos e comunicação entre mulheres como forma de continuar a degradá-las, perpetuando os estereótipos e misoginia criados pelos inquisidores, demonólogos, alguns magistrados e maridos.

Na segunda parte do livro, “Novas formas de acumulação de capital e a caça às bruxas em nossa época”, Silvia Federici começa citando o Primeiro Tribunal Internacional de Crimes contra às Mulheres, realizado em Bruxelas em março de 1976, onde mulheres de quarenta países se reuniram para debater sobre as violências realizadas contra os corpos femininos, citando as esterilizações compulsórias, estupros, agressões físicas, prisões em hospitais psiquiátricos e o feminicídio. A autora demonstra que a violência desmedida cometida contra às mulheres não acabou mesmo com o fim da caça às bruxas ou da colonização, apenas foram adotados novos métodos e perpetuados alguns já existentes, pois elas continuam tendo seus corpos invadidos. Federici aborda alguns acontecimentos para dar exemplos da continuidade desta violência. Nos anos de 1920 a 1930 a promiscuidade feminina foi associada a doença mental, em 1950 havia a realização da lobotomia em mulheres com depressão causando um retardo mental, mesmo assim não era visto como prejudicial por não interferir no desenvolvimento de atividades domésticas, em 1960 mulheres pobres ou que exerciam a sua sexualidade livremente sofreram esterilizações compulsórias. Para Federici a violência contra às mulheres continua sendo algo institucionalizada, pois de certa forma é liberada pelo Estado ao permitir as Forças Policiais a cometerem atrocidades contra elas em países da América Latina e África, havendo o envolvimento até mesmo do Banco Mundial através do seu financiamento às atividades mineradoras.

Se em alguns países as violências contra às mulheres somente possuem traços análogos àquelas cometidas durante a perseguição às bruxas, na Índia e em países da África a partir de 1990 a caça às bruxas voltou a acontecer seguindo até os dias atuais. Ocorrendo principalmente em regiões afetadas pelas negociações comerciais e privatizações de terras, nestes lugares a população tornou-se bipolarizada, em vista tanto das questões econômicas, e também pelo aumento da aids e ampliação da pobreza, problemas estes acometidos às “bruxas”. Os homens também são mortos devidos as acusações de bruxaria por serem considerados cumplices caso às defenda, mas as mulheres são a grande maioria. Até mesmo as crianças sofrem acusações, sendo mortas ou abandonadas nos “campos de bruxas”, somente em Gana chegou a haver cerca de 3 mil mulheres exiladas nesses locais. Estas, do mesmo modo das antigas europeias, são mulheres mais velhas que se recusam a venderem as suas terras, para seus parentes são o empecilho e usurpadoras. As idosas são a maioria a oferecem resistências ao fim das terras comunais e suas vendas ao Banco Mundial, este por sua vez considera a “terra como patrimônio morto” até ser submetida a atividades comerciais. Em decorrência a isso a autora coloca novamente a culpa sob o capitalismo, ele sempre “incita a violência contra às mulheres”.

Do mesmo modo da antiga Europa, as populações africanas são influenciadas por questões religiosas, onde seitas evangelizadoras pentecostais e sionistas fazem pregações sobre a presença de satã entre as comunidades, sendo estes os motivos das mortes e doenças. O mais impactante é a contribuição da mídia para a perseguição, por meio das programações da rádio e televisão relatam o comportamento das bruxas e os meios para identificá-las. Existem até mesmo profissionais para fazerem a perseguição, são os chamados “caçadores de bruxas”, além de se orgulharem do título em muitos dos casos são ignorados pela polícia. Eles chegam nas comunidades a procura de suas “presas” as levando até o público, as agridem brutalmente e depois ateiam fogo nelas ainda vivas. Através de dados estatísticos de 1912 Federici afirma ter ocorrido cerca de 100 assassinatos no Quênia, enquanto de 1991 a 2001 foram aproximadamente 23 mil mortes em toda a África. Em um dado mais atual, no Distrito de Gonja, região de Gana, a senhora Akua Denteh de 90 anos foi espancada até a morte em novembro de 2020. Os números são tão alarmantes que foi declarado o dia 10 de agosto como Dia Mundial Contra a Caça às Bruxas.[2]

Embora a atual caça às bruxas na África seja ocasionada por motivos semelhantes ao passado, ainda assim possui rupturas no cenário, sendo uma delas a diferença da participação exigida pelas mulheres na sociedade. Se antes elas eram confinadas ao trabalho doméstico para a geração de mão de obra e satisfação do marido, atualmente exige-se cada vez mais essas presenças no mundo do trabalho para a geração de lucros, e se antes a existência dos filhos era obrigatória, e evitá-los era causa de morte, agora a gravidez passa a ser considerada um empecilho devendo então ser evitada, por isso as esterilizações compulsórias. Por meio disto a autora apresenta que “a integração das mulheres na economia global é um processo violento” (FEDERICI, 2019, p.99) e até mesmo exaustivo, pois ainda se exige e determina-se às mulheres trabalhem fora de casa, porém continuando a desempenharem as atividades domésticas e a existirem de forma realizada e completa a partir da companhia de um homem.

No fim da segunda parte do livro Silvia Federici explica que a caça às bruxas na África não deve ser relacionada a regressão no tempo, afinal os grupos étnicos africanos não possuíam conhecimentos da prática da bruxaria antes da era colonial. Assim a caça às bruxas “representa  uma reação à crise social produzida pela restruturação neoliberal das políticas econômicas da África”. (FEDERICI, 2019, p.115), onde os Estados Unidos, Canadá e União Europeia fazem a destruição das políticas locais, atacando as terras comunais, e executando a recolonização do continente. Isso comprova porque justo as mulheres mais velhas que se recusam a venderem suas terras, e ainda tidas como um escoadouro de riquezas” são as mais atacadas, e os financiadores da caçada são homens mais jovens, em muito dos casos parentes das vítimas, eles consideram essas idosas “indivíduos inúteis, que monopolizam de forma egoísta os recursos que a juventude poderia usar.” (FEDERICI, 2019, p.129).

Finalizando a segunda parte a autora cita ações que poderiam pôr fim a essa violência cometida contra às mulheres africanas. Para ela as feministas deveriam contribuir através de investigações e análises das condições sociais produtoras da caça às bruxas, assim saberiam combate-la, podendo também expor às sociedades os motivos pelos quais as doenças existem em demasiada intensidade, estando relacionadas ao colapso do sistema de saúde e não em detrimento a relações com o satã. Um ponto fundamental é envolver a política nessas violências, afinal a caça às bruxas é uma violação contra os direitos humanos ocasionadas por questões econômicas, porém camufladas em meio a crenças religiosas. Outra ação eficaz, segundo Federici, seriam mulheres dos países africanos se organizarem da mesma forma das indianas quando em 1990 houve o aumento do número de entre maridos que assassinavam suas esposas para poderem se casar novamente e receber outro dote. Elas foram as ruas juntamente em companhia de professores e professoras fazendo protestos pacíficos e manifestações na frente da casa dos assassinos. Essas táticas podem ser realizadas contra os caçadores de bruxas, onde na hora de executarem suas vítimas primeiro as ridicularizam chamando-as de “vaginas estéreis” satisfazendo-os graças aos prestígios recebidos. Ao concluir o seu livro Silvia Federici afirma a existência da caça às bruxas, independentemente do tempo e espaço ao qual ocorreu, como a opressão dos revoltosos contra as novas formas de poder e controle. Assim entende-se a caça às bruxas sendo um mecanismo de controle e educação de comportamento dos corpos, estando em linha de frente os corpos femininos.

Por meio da leitura do livro compreende-se a caça às bruxas sendo uma ação do Estado amparado pela igreja ao combate a todas as práticas divergentes do novo poder instaurado, ou seja, o sistema capitalista, ao invés de ser a luta contra o sobrenatural. Entende-se ainda a caça às bruxas como um crime altamente misógino que destituiu às mulheres de suas vivências, as condicionando a espaços subalternos da sociedade, fazendo delas os principais alvos, isto também é apresentado nos estudos de Jeffrey B. Russo e Brooks Alexander, historiadores e autores do livro “A história da bruxaria” reeditado em 2019, eles informam que de meados do século XIV ao século XVIII cerca de 110 mil pessoas foram torturadas sob a acusação de bruxaria, 40 a 60 mil foram mortas, as mulheres representavam cerca de 85%. Enquanto hoje na África o número de mortes por acusações de bruxaria supera aqueles da Europa. A leitura faz visualizar as mulheres reais existentes por trás da figura da bruxa, estas foram oprimidas, humilhadas, violadas, degradadas, deturpadas e por fim queimadas até restarem delas somente as cinzas. Ainda nos dias atuais, aquelas que insistem em oferecer resistências ao sistema excludente continuam sendo mortas, não é por acaso estar presente na última página do livro a imagem de Marielle [3] contendo o seguinte questionamento: “Quem mandou matar Marielle Franco?”. Ler “Mulheres e caça às bruxas: da Idade Média aos dias atuais” é importante para revisitar a história e descobrir o nome bruxa sendo um termo taxativo dado justamente às mulheres as quais não se submetiam à submissão, estudar a caça às bruxas e expandir os conhecimentos adquiridos é escancarar o machismo encoberto que fez as mulheres serem vistas ao longo dos anos como histéricas, quando na verdade sempre foram históricas.[4]

3 Marielle Francisco da Silva, foi eleita Vereadora do Rio de Janeiro pelo partido PSOL, era uma mulher negra, feminista e gay. Compunha o grupo das minorias e as representava. Foi assassinada no dia 14 de março de 2018 juntamente com seu motorista Anderson Pedro Gomes quando carro em que estavam foi atingido por 13 tiros. O livro mulheres e caça às bruxas foi publicado no Brasil no dia 14 de setembro de 2019, mesmo dia em que se faria um ano e meio do assassinato. Em 14 de março de 2021 farão três anos das mortes, e até hoje a pergunta não obteve resposta. “Quem mandou matar Marielle?”

Notas

2. MULLER, Charlote. SANDERSON, Seta. Caça às bruxas: Um problema que persiste no século 21. DW Made for Minds, 2020. Disponível em: < https://www.dw.com/pt-br/ca%C3%A7a-%C3%A0s-bruxas-um-problema-que-persiste-no-s%C3%A9culo-21/a-54520254>. Acesso em: 06 de mar. de 2021.

4. Frase presente em cartazes de manifestações da luta das mulheres.

3. Marielle Francisco da  Silva,  foi  eleita  Vereadora  do  Rio  de  Janeiro  pelo  partido  PSOL,  era  uma  mulher  negra, feminista  e  gay.  Compunha  o  grupo  das  minorias  e  as  representava.  Foi  assassinada  no  dia  14  de  março  de  2018 juntamente  com seu motorista Anderson Pedro Gomes quando carro em que estavam foi atingido por 13  tiros.  O livro mulheres e caça às bruxas foi publicado no Brasil no dia 14 de setembro de 2019, mesmo dia em que se faria um ano e meio do assassinato. Em 14 de março de 2021 farão três anos das mortes, e até hoje a pergunta não obteve resposta. “Quem mandou matar Marielle?”

Karolaine da Silva Oliveira – Licencianda em História pela Universidade Federal do Acre (UFAC), 8° período. Bolsista do Programa Institucional de Bolsas de Iniciação Científica (PIBIC) no projeto “Representações dos povos indígenas do Acre nas plataformas digitais brasileiras”, voluntária no Programa de Residência Pedagógica na área de Licenciatura em História, e integrante do grupo de pesquisa “O Processo de Construção do Docente em História: possibilidades e desafios da formação inicial e da formação continuada do fazer-se historiador em sala de aula”, na linha de pesquisa “Estágio Supervisionado do Ensino de História”.  E-mail: [email protected]


FEDERICI, Silvia. Mulheres e caça às bruxas: da Idade Média aos dias atuais. São Paulo: Boitempo, 2019. 158 p. Resenha de: OLIVEIRA, Karolaine. Caça às bruxas: a contribuição do capitalismo para o aumento da violência contra as mulheres. Das Amazônias. Rio Branco, v.4, n.1, p.215-223, 2021. Acessar publicação original [IF].

Aquirianas: mulheres da floresta na história do Acre | Carlos Alberto Alves de Souza

SOUZA Carlos Alberto Alves de Aquirianas: mulheres da floresta na história do Acre

SOUZA Aquirianas Aquirianas: mulheres da floresta na história do AcreO livro de Carlos Alberto Alves de Souza, denominado Aquirianas: mulheres da floresta na história do Acre, editorado pelo Instituto de Pesquisa, Ensino e de Estudos da Cultura Amazônicas – ENVIRA, 2010, aborda uma proposta audaciosa – dentro das várias possíveis – de uma escrita da História das Mulheres na Amazônia. O autor é Carlos Alberto Alves de Souza, formado em História pela Universidade Federal do Acre, com Doutorado em História pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, sendo o primeiro Professor Titular da área de História do Centro de Filosofia e Ciências Humanas da Ufac, foi presidente da Associação Brasileira de História Oral de 2004 a 2006, além de fazer parte da Academia Acreana de Letras, possui obras sobre a História do Acre que se inspiram na História Social Inglesa – notadamente em Thompson e Hobsbawm – e por um diálogo interdisciplinar com os espaços e geografias amazônidas.

O livro busca trazer ao palco cultural as mulheres que, por muito tempo, foram injustiçadas e excluídas de uma sociedade da qual sempre fizeram parte. A obra divide-se em cinco partes. Na primeira parte, o autor mostra como se dá ocupação dos espaços nos seringais, que eram unidade produtoras de extrativismo vegetal assentado no látex da Hevea brasilienses, fazendo inferências sobre a criação destes latifúndios durante aquilo que se caracterizou como a primeira fase de exploração das terras acreanas pelos brasileiros. Na segunda fase da obra, vemos a saga das mulheres seringueiras do Acre, como participante do processo de constituição do modo de vida no seringal, atendendo ao chamado de Scheibe (1998), que afirma:

Colocar as mulheres no centro da análise de um trabalho sobre o Acre tem ainda um sentido militante tanto na historiografia da região, que costuma ignorar quase por completo a experiência social das mulheres, como do ponto de vista da sociedade atual, cuja a postura violenta e opressora com as mulheres tem sido denunciada com veemência por diversas entidades. (SOUZA, 2010 apud SCHEIBE, 1998.)

Ainda na fase em comento da obra, o autor traz a figura feminina dos tempos áureos da exploração da borracha, assentando seu foco nas nordestinas, chamadas de “as invisíveis”, soldadas da borracha3 que migraram para o solo acreano na Segunda Guerra Mundial. Apesar da vinda massiva de homens para a Amazônia, mulheres também fizeram parte desta leva de trabalhadores do Látex na região. Também este mesmo capítulo dialoga sobre as mulheres seringueiras nas reservas extrativista – territórios de conservação, de uso sustentável utilizada por populações extrativistas tradicionais cuja subsistência baseia-se no extrativismo, agricultura de subsistência e criação de animais de pequeno porte e tem como objetivos básicos proteger os meios de vida e a cultura destas populações e assegurar o uso sustentável dos recursos naturais da unidade e nas beiras dos rios – e fechando esta parte–, e somos convidados a entrar no mundo das parteiras e da medicina popular tradicional nos seringais.

3 “Soldados da Borracha” foram brasileiros que atuaram na Segunda Guerra Mundial. Eles foram recrutados pelo governo brasileiro, que, aproveitando-se dos problemas enfrentados pelos nordestinos, recrutaram milhares para irem para região amazônica trabalhar na extração do látex, que seria exportado para os Estados Unidos para dar apoio ao governo e aos aliados da guerra”.

Na terceira parte, Souza nos coloca diante de uma face cruel do seringal: o roubo de mulheres por homens dos seringais e aventureiros, apresentando incesto e violências praticadas de várias formas contra elas. Enquanto na quarta parte do texto, o autor traz a lutas das mulheres em defesa de sua terra através dos sindicatos e empates, com ênfase em Valdiza – integrante e fundadora do Sindicato de Trabalhadores Rurais de Brasiléia. Por fim, na última parte da obra, o autor traz a luz da história, a contribuição e resistências das mulheres agricultoras, colonas e indígenas.

Souza, no início de sua obra, pautado em uma definição dada pelo Instituto de Pesquisa, Ensino e de Estudos das Culturas Amazônicas ENVIRA, explica o significado de aquirianas:

O termo aquirianas é uma homenagem às mulheres acreanas e ao Rio Acre, denominado antes Aquiri. Se a historiografia oficial se deu ao luxo de chamar o grande rio de Amazonas, em homenagem às mulheres indígenas (adjetivadas de “as amazonas”) que lutavam ao lado de seus homens contra os conquistadores europeus que, a partir do século 15, invadiram a Amazônia, também podemos chamar nossas mulheres da floresta de aquirianas como uma justa homenagem. (SOUZA, 2010, p.03).

Nos recorda o autor que falar de seringal significa adentrar em um universo amplo, um modo de vida atemporal que sobrevive ainda, mesmo com o avanço das cidades e da tecnologia. Apesar da borracha – para aqueles que ainda extraem – não ser o único meio de sobrevivência dos seringueiros, pois muitos recorrem a outros meios para extrair da natureza o seu sustento e manter o mercado consumidor, continuam morando em suas “colocações de seringa”, bem deixado por seus avós e pais. Nos seringais, homens e mulheres dividem o mesmo espaço na coletividade, assumindo, tanto os afazeres de casa quanto o do plantio. Segundo Souza:

Os modos de vidas criados e recriados nos seringais não permitiriam a segregação de homens e mulheres em determinados espaços (na cidade são os espaços do público e do privado). Todos os espaços foram atingidos pelas experiências sociais de homens e de mulheres. Daí, numa colocação de seringa, a presença da mulher é materializada em todo e qualquer espaço, porque, em uma colocação de seringa, a vida acontece.” (SOUZA, 2010, p.25).

As mulheres se “moldaram” enquanto mulheres com as práticas cotidianas, constituíram múltiplas formas de resistência, sabendo gerir sua casa e ao mesmo tempo supriu as fraquezas mais invisíveis do homem seringueiro, graças a sua astucia e sensibilidade. Mesmo não estando na linha de frente da Revolução Acriana – não diretamente –, elas souberam ter pulso forte, contribuíram muito para manter os homens firmes contra os bolivianos, como descreve o autor,

As mulheres não estavam na linha de frente dos combates, mas estavam em suas colocações de seringa, sem seus pais, sem seus maridos, sem seus filhos, substituindo os homens nos trabalhos de uma colocação de seringa. Não deixaram parar a produção. Elas passaram a produzir mais borracha, pois, agora, além do trabalho normal no corte de seringa, tinham de realizar o trabalho dos homens que estavam na guerra. Boa parte da alimentação consumida pelos soldados acreanos foi produzido pelas mulheres nos seringais.” (SOUZA, 2010, p. 29).

A relação direta com a natureza, fez com que as mulheres seringueiras adquirissem o conhecimento das ervas, desenvolvendo assim uma medicina popular, uma forma de amparar entes contra as doenças, já que assistência médica era algo inexiste. O autor traz o relato de Maria Almeida de Melo, seringueira – quando entrevistada em 1993, era residente do seringal Porongaba, região acreana de Brasiléia –, praticante da medicina popular, realizava partos e remédios “caseiros”, ganhando grande prestígio em sua localidade. O autor expressa:

O trabalho de medicina de Maria Almeida de Melo fez com que ela se tornasse conhecedora de uma série de “remédios” caseiros, utilizados para curar várias doenças comuns nos seringais. No parto, agia com o que estava ao seu alcance para garantir uma “operação” com um mínimo de higiene, garantindo o nascimento da criança e a sobrevivência da mãe: lavava as mãos com álcool ou com cachaça, desinfetava a tesoura a ser utilizada, fazia uso de um cordão limpo para amarrar o umbigo do recém-nascido e, em seguida, passava levemente azeite doce na região para não ser infeccionada. Quando a gestante demorava a parir, mesmo sentindo muitas dores, Maria preparava seu chá. (SOUZA, 2010, p.119).

A vinda da mulher para os seringais acreanos se deu a partir de diferentes motivações: ao acompanharem os seus parentes, algumas vieram sozinhas trazidas por comerciantes de borracha ou à procura de seus esposos que estavam no Acre. Já nos seringais, mostravam ser tão capazes quanto os homens para o corte da seringa e aquelas que sabiam ler, foram solidárias, alfabetizando os que jamais entraram na escola. As aquirianas foram para a linha de frente junto com seus maridos enfrentar as motosserras dos fazendeiros e armas dos policiais no “empates” (movimentos constituídos a partir dos “adjutórios”, em que diferentes seringueiros, caboclos e posseiros se reuniam, a fim de dar auxílio mútuo para afazeres nas áreas de mata, mas que, nos anos de 1970, passou a congregar pessoas, a fim de obstar a derrubada da floresta pelos novos donos das terras, em função da desarticulação do extrativismo vegetal subsidiado pelo governo), enfrentando a “corja de subordinados” durante aquela década que tentava expulsá-los das áreas territoriais em que tinham posse, para que ali os grandes fazendeiros transformassem os seringais em pastos para o gado.

O “costume” de roubo de mulheres é descrito por Souza (2010) como uma prática cultural, recriada nos seringais amazônicos, hábito difundido pelos migrantes nordestinos. Podendo ocorrer de duas formas: com o consentimento da mulher, que se apaixona por um rapaz e não tem o consentimento da família, vendo assim, a “fuga” como única alternativa de viver o seu amor proibido. Ocorre também o roubo de mulheres sem o seu consentimento – circunstâncias em que muitas eram levadas pelos patrões, donos dos seringais para servirem de objetos sexuais. A respeito do “ladrão de mulheres”, o autor descreve,

Em muitos casos, o sedutor se comporta para ganhar a confiança da família. Sob seu controle, todos os horários dos moradores da casa. Quando dormem, chega a grande oportunidade de roubar mulheres. Em muitos casos, relações de intimidades familiares são constituídas com o sedutor namorado da menina. (SOUZA. 2010, p.134).

No que se refere aos incestos praticados nos seringais, Souza diz “os agentes sedutores são sempre os homens que agem na certeza da impunidade dos seringais, longe da polícia e da Justiça”. A partir dos relatos descritos no livro, percebe-se a mulher sempre categorizada como a “culpada” pelo incesto, sendo ela a desonra da família, demonstrando o caráter machista e patriarcal dos núcleos familiares e sociais nestes espaços.

São vários os casos em que o homem utiliza de sua força, status patriarcal para abusar sexualmente das moças e rapazes da sua família. A impunidades para esses crimes se dava pelo não alcance do Poder Público aos eventos passados dentro dos seringais ou pela omissão da família por medo de sofrerem na mão do abusador.

Em a mulheres agricultoras e indígenas, a figura feminina no seringal, muitas das vezes com seu marido, desempenhava a função de extrair a borracha, além de realizar os trabalhos agrícolas. Hoje, devido à crise do mercado da borracha, elas desempenham com mais fervor o plantio de alimentos e criação de animais para a sua sobrevivência. Acresce o autor que desde o Acre território, as mulheres já desempenhavam o trabalho de cultivo nas colônias agrícolas, desenvolvida durante toda a formação dos seringais, como forma dos seringueiros equilibrarem a sua produção de bem alimentícios, a fim de não dependerem fortemente dos barracões dos patrões do seringal, com tal atitude, muitos foram perseguidos, vindo a ter fim – aos olhos da legalidade – a partir da década de 1940, quando o governo brasileiro impôs aos seringalistas que assinassem um “Contrato de Extração do Látex” com os seringueiros, permitindo o plantio do roçado ( SOUZA, 2010, p. 197-198). Somente com a chegada de migrantes “paulistas” (expressão que não deve ser confundida com o adjetivo pátrio, mas, enquanto designação criada no imaginário dos acreanos para identificar os migrantes que chegaram em busca de terras ao Acre durante o Regime Militar), a partir da década de 1970 foi que teve início a forma de categoria de mulheres exclusivamente agricultoras.

Ao falar da mulher indígena, o autor destaca o pioneirismo de trabalhadoras da floresta, onde mesmo antes da chegada dos seringueiros, essas mulheres já realizavam a agricultura, ensinavam suas tradições aos mais jovens. Com a chegada dos não índios – tanto do lado brasileiro, quanto do lado peruano (caucheiros) – em busca das árvores seringueiras, o cotidiano dos indígenas muda completamente. Nesse processo pela expansão de terras para a coleta da borracha, serão organizadas várias “correrias”, expedições sistematizadas objetivando a destruição dos nativos. Muitos indígenas serão mortos, populações inteiras dizimadas buscando proteger o seu território dos invasores. Nos diz o autor que as mulheres e crianças sobreviventes eram tidos como prêmios, obrigados a conviver com o “homem branco”4, seringueiros. As indígenas que conseguiam fugir de seus algozes procuravam refúgio na floresta. Aquelas mal-sucedidas nesse intento ou amedrontadas em demasia para realizar fuga, eram incorporadas ao corte de seringa, denominados “caboclas seringueiras”. [1]

Nota

1 Este trabalho é uma homenagem póstuma ao meu querido amigo professor Carlos Alberto Alves de Souza, no qual tenho grande admiração.

Jardel Silva França – Mestrando em Letras: Linguagem e Identidade (Ufac). Especialista em Educação Especial Inclusiva pela Faculdade de Educação Superior Euclides da Cunha (Inec). Licenciado em História pela Universidade Federal do Acre – Ufac (2019). Aperfeiçoado Uniafro em Políticas de Promoção de Igualdade Racial na Escola (2016). Membro do corpo editorial da Revista Em Favor de Igualdade Racial e Revista Das Amazônias / Revista Discente de História da Ufac. Filiado à Associação Brasileira de Pesquisadores Negros e Negras (ABPN). Membro do Grupo de Pesquisa Núcleo de Estudos Afro-Brasileiros e Indígenas (Neabi) da Universidade Federal do Acre. E-mail: [email protected]

SOUZA, Carlos Alberto Alves de. Aquirianas: mulheres da floresta na história do Acre. Rio Branco: Instituto de Pesquisa, Ensino e de Estudos das Culturas Amazônicas, 2010. Resenha de: FRANÇA, Jardel Silva. Aquiranas: o protagonismo feminino na floresta acriana. Das Amazônias. Rio Branco, v.4, n.1, p.210-214, 2021. Acessar publicação original [IF].

 

A miscarriage of justice: women’s reproductive lives and the law in early twentieth-century Brazil | Cassia Roth (R)

Filosofia e Historia da Biologia 4 reproductive lives
Cassia Roth | Foto: UCLA |

SCOTT The common wind 8 reproductive livesDe autoria da professora doutora Cassia Roth, vinculada à Universidade da Georgia, nos Estados Unidos, a obra A miscarriage of justice: women’s reproductive lives and the law in early twentieth-century Brazil, publicada em 2020, aborda a tutela reprodutiva de mulheres pelo Estado, na primeira metade do século XX, na então capital federal, Rio de Janeiro. Ao longo de sete capítulos, Roth contribui para os estudos da história da saúde reprodutiva no Brasil e, a partir de uma produção multifacetada, oferece um diálogo interdisciplinar entre medicina, justiça, polícia e sociedade na prescrição de um modelo do exercício maternal.

Sustentada por uma análise criteriosa dos Códigos Penais e Civil, a obra inicia o argumento de que, durante a Primeira República e o período Vargas, a cidadania feminina só poderia ser exercida pela maternidade. A utilidade da mulher das classes pobres e urbanas seria a de reproduzir a mão de obra para o futuro da pátria. O funcionamento desse modelo se pautava em médicos, formados no bojo de instituições organizadas, que concediam explicações técnicas para o reforço do papel maternal, e juristas, que por meio das leis afirmavam a criminalização de práticas de controle de fertilidade e deram base para ações policiais atentas aos usos da sexualidade. Leia Mais

Mulheres, raça e classe | Angela Davis

Angela Davis é umas das mais importantes feministas contemporâneas. Sua potente história de luta política encarnou uma geração de reivindicações por humanidade, igualdade e liberdade não só para o povo negro, mas para todas as parcelas oprimidas da sociedade. O sentido de suas reflexões aliaram, como ninguém, teoria e prática, em uma leitura da história, da sociedade e da política, que estiveram e ainda estão fundamentalmente conectadas com um novo devir, uma transformação profunda da realidade e, portanto, seu pensamento entra no rol das teorias críticas, do pensamento produzido desde a subalternidade e de profundo valor para um outro mundo possível.

Em 2016, a obra “Mulheres, raça e classe”, escrita por Davis em 1981, ganhou uma edição brasileira, lançada pela Editora Boitempo. Ainda que nesse espaço de trinta e cinco anos, feministas brasileiras se esforçaram para se apropriar dessa e de outras obras de Davis, organizando estudos e traduções livres, o lançamento da obra no Brasil, nesse momento, tem um significado importante. De fato, o reencontro das brasileiras e brasileiros com Davis é requerido, mais do que nunca, em um momento que, de um lado, exige novas reflexões e apropriações críticas para enfrentamento do recrudescimento das forças conservadoras e seu sentido privatista, racista e patriarcal e, de outro lado, acompanha um processo importante de fortalecimento da luta feminista e, especialmente, da revalorização e mobilização das leituras e práticas das mulheres negras para o feminismo. Leia Mais

Mulheres e Caça às Bruxas: da Idade Média aos dias atuais / Silvia Federici

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Silvia Federici / Foto: DeliriumNerd /

FEDERICI S Mulheres e caca as Mulheres e Caça às BruxasQuando ouvimos falar de Silvia Federici, quase sempre lembramos de Calibã e a Bruxa: mulheres, corpo e acumulação primitiva, publicado pela primeira vez em 2004. No Brasil, foi traduzido pelo Coletivo Sycorax e publicado em 2017 pela editora Elefante. Esse livro, que teve uma ótima recepção, nos apresentou ideias ainda pouco difundidas por aqui. O impacto de Calibã e a Bruxa para o pensamento feminista foi tão grande que levou Federici a receber diversas solicitações para produzir um livro em que revisitasse algumas questões abordadas nele, mas com uma linguagem capaz de atingir um público mais amplo. Tais solicitações, somadas ao desejo da autora de continuar pesquisando aspectos da caça às bruxas, resultou em Mulheres e Caça às bruxas, lançado em 2018 e publicado no Brasil pela editora Boitempo em 2019.

Mulheres e Caça às bruxas é composto por sete capítulos, divididos em duas partes. Os capítulos são, em sua maioria, edições revistas de artigos e ensaios publicados anteriormente.

Na primeira parte, Federici dialoga mais especificamente com Calibã e a Bruxa, colocando a caça às bruxas dos séculos XVI e XVII na Europa no rol dos processos sociais que prepararam terreno para o surgimento do capitalismo, junto com o comércio escravista e o extermínio dos povos indígenas. Na segunda parte, Federici esboça novas investigações, trazendo para a conversa sociedades contemporâneas e “novas formas de acumulação de capital e caça às bruxas”.

Para a autora, as transformações sofridas pela Europa resultaram em um aumento vertiginoso de práticas misóginas e patriarcais, cujas consequências mais perversas foram a tortura e a morte na fogueira de milhares de mulheres acusadas de bruxaria. Federici tenta explicar como as mulheres passaram a ser vistas como ameaça à nova ordem que se impunha, passando a ser controladas, vigiadas e punidas. Ela aponta os cercamentos das terras a partir do final do século XV, como fundamentais para a compreensão deste processo e afirma que estes, somados ao crescimento das relações monetárias, resultaram em pauperização e exclusão social da população, sendo as mulheres as mais atingidas. Isso ocorre por múltiplos motivos.

As mulheres, que até então viviam em terras comunais, exercendo suas atividades coletivamente e gozando dos direitos consuetudinários, viram a privatização das terras desmantelar os laços comunais e toda uma rede de saberes compartilhados por elas, bem como a maneira como se relacionavam com a terra, a natureza e seus corpos, que nesse processo passam a servir à produção e reprodução da mão de obra. Para garantir a força de trabalho que serviria ao sistema capitalista, as mulheres foram confinadas no trabalho doméstico não remunerado, bem distante do trabalho coletivo praticado anteriormente.

Dessa forma, a autora relaciona a caça às bruxas à necessidade do controle da reprodução e, consequentemente, dos corpos das mulheres. Nesse sentido, é interessante notar que as mulheres mais velhas eram vistas como as mais perigosas e foram as mais perseguidas e mortas em países como a Inglaterra. As idosas, especialmente as sem família, foram as maiores vítimas da miséria e da exclusão social, sendo muito comum que se rebelassem contra essa situação praguejando, furtando, etc. Além disso, as mais velhas eram as grandes portadoras dos saberes sobre a comunidade e a natureza, saberes estes que poderiam “corromper” as mais jovens, ensinando-as sobre controle de natalidade, ervas abortivas e outros conhecimentos proibidos que iam contra as perspectivas das novas normas que pretendiam disciplinar os corpos para o trabalho.

Era preciso arruinar esses conhecimentos “mágicos” e garantir o total controle do Estado e da Igreja sob o comportamento sexual e reprodutivo das mulheres. Isso pressupunha interferir na maneira como elas se relacionavam entre si, estimulando as suspeitas e denúncias. Federici aprofunda o tema ao analisar as mudanças na Inglaterra entre os século XIV e XVIII, do termo “gossip” – equivalente à “fofoca” no português. A palavra, que na Idade Média remetia à amizade e solidariedade entre mulheres, lentamente adquire o significado pejorativo que conhecemos hoje, de conversa fútil, vazia e maledicente. Essa nova conotação é parte simbólica do processo de degradação, desvalorização e demonização das mulheres e dos saberes compartilhados entre elas, sendo a caça às bruxas o ponto alto dessa degradação.

A caça às bruxas é comumente considerada como “coisa do passado”, algo que entrou para o imaginário, sendo abordada em filmes, séries, romances, etc. muitas vezes de maneira folclorizada e estereotipada. No entanto, Federici argumenta que as novas formas de acumulação do capital – envolvendo desapropriação das terras, destruição de laços comunitários, intensificação da exploração e controle dos corpos das mulheres, etc. – vem resultando em uma nova onda de violências, principalmente nos países mais pobres, como da América Latina e África. Essa violência, na verdade, nunca teria cessado e, sim, se normalizado e adquirido outros formatos, como a violência doméstica, por exemplo, tão banalizada ainda hoje.

Entretanto, apesar do crescimento de organizações e lutas feministas no sentido de prevenir essa violência, o que assistimos nas últimas décadas, segundo a autora, ultrapassa a norma. Para ela, o aumento em todo o mundo de agressões, torturas, estupros e assassinatos de mulheres, atingem níveis de brutalidade que só vemos em tempos de guerra. É sobre essa escalada de violências que Federici fala na segunda parte de Mulheres e caça às Bruxas. Ela relaciona essa situação devastadora às novas formas de acumulação de capital e à “globalização”, que nada mais seria do que um “processo político de recolonização” (p. 94) que não pode ser alcançado sem o ataque sistemático às mulheres e seus direitos reprodutivos, especialmente mulheres negras, indígenas, racializadas e migrantes.

Uma das maiores expressões desse recrudescimento da violência contra as mulheres é a “nova” caça às bruxas que ganhou terreno a partir dos anos 80 em algumas regiões do mundo, como na Índia e em alguns países africanos. Federici finaliza seu livro discutindo esse fenômeno, principalmente na África, colocando-o no âmbito do enfraquecimento das economias locais africanas e à desvalorização da posição social das mulheres. Ela relaciona a caça às bruxas atuais com outros elementos de violência contra as mulheres na Índia, México, etc., analisando-os como efeitos da integração forçada das populações, notadamente das mulheres, na economia global, mas também da propensão dos homens de descarregarem nelas, especialmente em suas companheiras, as frustrações econômicas impostas pelo capitalismo, além da crescente presença de igrejas neopentecostais evangelizadoras em algumas regiões.

Por fim, Silvia Federici fala sobre o importante papel do ativismo feminista em relação à crescente violência contra as mulheres no mundo e, mais especificamente à caça às bruxas na África. Ela comenta o silêncio dos movimentos feministas sobre essa situação, que acredita representar um perigo para todas as mulheres, e propõe alternativas de luta. Essa luta, para ela, deve envolver críticas severas e ações contra as agências que criaram as condições para que tais fenômenos se tornassem possíveis, incluindo os governos africanos, o Banco Mundial, o Fundo Monetário Internacional e até as Nações Unidas que, segundo ela “apoiam os direitos das mulheres da boca para fora” (p. 111). A defesa das mulheres, para Federici, são incompatíveis com o apoio e difusão de políticas neoliberais e os feminismos precisam cobrar das instituições que promovem tais políticas e silenciam diante de tamanha violência.

A caça às bruxas não é apenas uma realidade que ficou para trás. Em pleno século XXI, mulheres continuam sendo perseguidas, controladas, violentadas e mortas. Silvia Federici nos ajuda a compreender os processos históricos que geram essas violências ontem e hoje e, assim, barrar seus avanços. Para isso, é preciso manter viva a memória daquelas que perderam a vida e fortalecer as lutas das mulheres pelo fim dessas violências e do sistema que as concebe e reproduz.

Erika Bastos Arantes – Historiadora, mãe e feminista. Professora do departamento de história da UFF de Campos dos Goytacazes, onde coordena o grupo de estudos Gênero, Raça e Classe.


FEDERICI, Silvia. Mulheres e Caça às Bruxas: da Idade Média aos dias atuais. Tradução Heci Regina Cadian. São Paulo: Boitempo, 2019. Resenha de: ARANTES, Erika Bastos. Caça às Bruxas ontem e hoje. Humanas – Pesquisadoras em Rede. 06 jul. 2020. Acessar publicação original [IF].

Mulheres e caça às bruxas: da Idade Média aos dias atuais | Silvia Federici

Silvia Federici nasceu em Parma, Itália, em 1942 e vem ganhando cada vez mais leitores e leitoras no Brasil. Em seus trabalhos discute sobre mulheres, gênero, trabalho e como a reprodução – e o trabalho doméstico/reprodutivo – são as chaves para compreender a desvalorização das mulheres na sociedade capitalista.

No livro “Mulheres e caça às bruxas”, lançado no Brasil em 2019, Federici faz uma retomada da discussão desenvolvida no livro “O Calibã e a Bruxa” de 2004, traduzido para o português pelo Coletivo Sycorax e publicado pela Editora Elefante em 2017. Naquele momento, Federici (2017) se preocupava em demonstrar como o processo de acumulação primitiva do capital foi alcançado também a partir da caça às bruxas da era moderna, num amplo e profundo processo de perseguição e disciplinarização dos corpos femininos, da sociabilidade e da reprodução, a incidir sobre a divisão sexual e na desvalorização (e não remuneração) do trabalho doméstico e reprodutivo. A proposta dela era alçar a caça às bruxas ao hall de elementos expostos por Marx sobre a acumulação primitiva, tais como a expropriação agrária dos cercamentos ingleses, o colonialismo, a pirataria e a usura (MARX, 1985). Apesar da centralidade nas relações sociais e no trabalho, não há um consenso se Federici efetivamente avança com as teses de Marx , porém, n’O Calibã, o acúmulo de fontes e experiências daquele processo extensamente analisado revelam, no mínimo, que o capital não teria tamanha força social sem a diminuição proporcional do poder horizontal e comunitário das mulheres. Leia Mais

Sceller et gouverner: Pratiques et représentations du pouvoir des comtesses de Flandre et de Hainaut (XIIIe-XVe Siècles) – JARDOT (APHG)

JARDOT, Lucie. Sceller et gouverner: Pratiques et représentations du pouvoir des comtesses de Flandre et de Hainaut (XIIIe-XVe Siècles). Resenha de: PROVOU, Anne-Frédérique. Association des Professeurs d’Histoire et de Géographie (APHG) 5 mai. 2020. Disponível em:.<https://www.aphg.fr/Sceller-et-gouverner-pratiques-et-representations-du-pouvoir-des-comtesses-de>Consultado em 11 jan. 2021.

L’objectif de cette riche étude, à la croisée entre histoire des pouvoirs, des genres et des représentations, est de saisir à travers leurs sceaux le pouvoir et le discours des princesses de Flandre et de Hainaut entre le XIIIe et le XVe siècle, soit en tout vingt-et-une princesses, de Marguerite de Constantinople à Marie de Bourgogne (1244-1482). Lucie Jardot a entrepris ce lourd travail, révélant les aspirations et les ambitions de ces femmes, leurs objectifs politiques et le « discours par l’image » (p. 287) qu’elles déployèrent sur leurs sceaux, l’enjeu étant de comprendre comment ces femmes se représentaient elles-mêmes et voyaient leur propre pouvoir, mais aussi qu’elle fut leur pouvoir réel, l’analyse sigillaire venant ici se coupler à une analyse diplomatique pointue, celle des actes et des chartes produits par ces femmes et auxquelles leurs sceaux furent apposés. Il s’agissait aussi de comprendre en quoi l’insertion de ces femmes dans une parentèle, dans une Maison, fut constitutive de leur identité et de leur pouvoir, une identité fluctuante et « plastique » (p. 285) comme le démontre Lucie Jardot, les princesses devenant successivement fille, épouse, mère et veuve et acquérant de facto un pouvoir et un rôle politique différents.

Une telle étude s’inscrit dans plusieurs décennies déjà de travaux sur l’histoire des genres et des femmes, le monde anglo-américain ayant inauguré la recherche en ce domaine, suivi plus tard par les historiens français [2]. Les questions sont multiples : les femmes eurent-elles un pouvoir au Moyen Âge et peut-on parler de pouvoir au féminin au Bas Moyen Âge ? Ces questions, Lucie Jardot entend y répondre en étudiant le cas précis des principautés hainuyère et flamande, où des héritières puissantes et ambitieuses comme Marguerite de Constantinople ou Jacqueline de Bavière revendiquèrent leur pouvoir, ainsi que leur droit à hériter et à gouverner, deux notions profondément liées au Moyen Âge. Un tel sujet s’inscrit donc dans le sillage des recherches sur le queenship et sur l’histoire des femmes de pouvoir, mais aussi du pouvoir des femmes, qui exprimèrent leurs revendications politiques et leur autorité à travers leurs sceaux, objets de métal chargés « d’identifier leur détenteur et de le distinguer », d’être « le support de leur personnalité juridique » (p. 25-26), ainsi que le support d’une mémoire lignagère, le pouvoir de ces femmes ne pouvant être distingué de la Maison (et même des Maisons) auxquelles elles appartenaient. En cela, l’étude proposée ici est également une étude sur l’aristocratie et la noblesse médiévale.

Si l’auteure de ce livre n’est certes pas la première à étudier le pouvoir féminin, elle est l’une des premières à l’étudier à travers les sceaux et les actes que produisirent ces femmes. Si l’histoire des femmes et des genres connaît un renouveau certain depuis une vingtaine d’années en histoire médiévale, la sigillographie elle – et plus largement l’étude des représentations iconographiques – en sont restés les parents pauvres, peu d’études mettant en parallèle ces deux champs de recherche [3]. Ce livre entend remettre à l’honneur un domaine d’étude délaissé, qui a largement souffert de son statut de « science auxiliaire », en étudiant pas moins de 62 types de sceaux et 750 empreintes différentes. Lucie Jardot insiste d’ailleurs sur la nécessité de confronter ces sceaux avec les chartes et les actes auxquels ils furent accolés, si l’on ne veut pas les couper de leur contexte historique et de leurs objectifs politiques réels. Ces sceaux et ces empreintes, dont l’auteure répertoria minutieusement la forme, la couleur et tant d’autres éléments essentiels pour comprendre les codes et les normes qui présidaient à leur création, – ce qui nous révèlent bien des choses sur les pratiques de chancellerie, en pleine évolution au Bas Moyen Âge –, furent comparés également avec leurs homologues masculins, soit les sceaux des pères et époux des princesses hainuyères et flamandes. Les sceaux féminins ne sont compréhensibles en effet que si on les étudie à travers les différents groupes dans lesquels s’insérait l’individu féminin au Moyen Âge : la famille, la « Maison » à laquelle appartenait la princesse, mais aussi le lignage de son époux, le genre féminin enfin, par opposition au genre masculin. Ces comparaisons mettent en avant des normes sigillaires qui s’appliquèrent autant aux hommes qu’aux femmes, de même que des normes plus masculines, dont certaines princesses surent user avec intelligence pour renforcer leur position et leur pouvoir politique et parler d’égal à égal avec les hommes de leur entourage. Ce fut le cas entre autres de Marie de Bourgogne, héritière de la Grande Principauté de Bourgogne qui adopta sur son premier Grand Sceau (1477) un type équestre qui était passé de mode pour les femmes depuis le XIIIe siècle et qui n’était plus guère utilisé que par les hommes. Un tel choix en faisait l’égale de son époux, Maximilien de Habsbourg, petit prince autrichien, mais aussi et surtout du roi de France Louis XI, désireux de s’emparer du large héritage de sa filleule ; il lui permettait aussi de s’affirmer comme la digne héritière des ducs de Bourgogne, en reprenant les pratiques de chancellerie et les pratiques sigillaires de ses ancêtres masculins, s’opposant là encore aux ambitions du roi de France. Les princesses hainuyères et flamandes usèrent ainsi des types et des normes sigillaires pour s’inscrire dans un groupe, tout en se réappropriant ces normes, ainsi que les emblèmes de leurs ancêtres féminins et masculins, pour affirmer un message politique propre et s’inscrire dans une lignée qui n’était pas toujours celle de l’époux, mais parfois aussi celle du père (chapitres IV et VI).

L’auteure insiste d’ailleurs sur la nécessité de ne pas distinguer trop frontalement les pratiques gouvernementales masculines et féminines, afin de cesser d’envisager le pouvoir féminin comme une « anomalie », erreur dont ont déjà trop souffert les travaux des chercheurs. Le pouvoir de ces princesses n’était certes pas la solution rêvée pour des lignées qui préféraient trouver, pour assurer leur survie, un héritier masculin, mais leur capacité à hériter et leur insertion dans une lignée assuraient à ces femmes un droit à gouverner qui restait une solution parfaitement concevable et envisageable au Moyen Âge, dans le cas où aucune autre voie n’était possible. C’était en somme, dans un monde patriarcal, une solution de dernier recours, mais une solution tout de même, d’autant plus que les mères pouvaient être amenées à jouer le rôle de médiatrices entre le père décédé et le fils, trop jeune encore pour gouverner, constat qui amène Lucie Jardot à souligner le « caractère temporaire » de ces « règnes féminins » (p. 285). Les princesses de Hainaut et de Flandre ne gouvernèrent pas uniquement donc dans l’ombre de leur époux et sous leur tutelle, l’auteure insistant sur le pouvoir effectif de ces femmes qui, en ce qu’elles surent « manipuler un certain nombre de signes » en inventant des sceaux, des gisants et d’autres outils iconographiques censés les représenter elles et leur pouvoir, ont assurément gouverné. Si les femmes d’ailleurs sont aptes à gouverner au Moyen Âge, c’est parce qu’elles sont avant tout des héritières et les princesses surent mettre en avant ce statut dans leurs sceaux, réemployant des normes sigillaires mais sachant aussi les détourner à leur avantage pour transmettre un message politique précis, comme le fit Marie de Bourgogne en 1477. Pensons aussi à Jacqueline de Bavière qui, pour revendiquer des principautés menacées par son cousin Philippe le Bon, prit soin de faire figurer sur plusieurs de ses sceaux des symboles rappelant la puissance de la lignée dont elle était issue, la famille des Wittelsbach (chapitre VI). Le caractère et la personnalité de ces femmes, ainsi que le contexte politique et dynastique dans lequel elles s’inscrivirent, permettent d’expliquer des comportements sigillaires et diplomatiques originaux, révélateurs de leurs ambitions et de leur pouvoir réel.

Quelles sont les conclusions donc de cet ouvrage ? Sans gâter le plaisir du futur lecteur, retraçons-en les grandes lignes : le passage du sceau en navette (aussi appelé sceau en pied) au sceau armorial est très révélateur selon Lucie Jardot de l’évolution du pouvoir des princesses hainuyères et flamandes, mais aussi de l’évolution de leur statut (statut d’héritière, de femme mariée, de mère ou encore de veuve). Ce passage se fit dans le courant du XIVe siècle, le décor architectural, caractéristique des sceaux en navette, se muant en un support héraldique, un constat valable pour les princesses françaises en général, mais particulièrement parlant dans le cas des princesses flamandes. Pensons notamment à Marguerite de Flandre, épouse de Louis de Male et fille de Philippe V de France : le choix des sceaux armoriaux n’était pas anodin, puisqu’ils permettaient de mettre en avant les terres et héritages des princesses flamandes, à une époque où leurs possessions ne cessèrent d’augmenter – Marguerite de Flandre acquit notamment en 1461 le comté d’Artois et le comté de Bourgogne, ainsi que la seigneurie de Salins –. Les princesses ont ainsi mis en avant, à travers cette nouvelle mode sigillaire, leur statut d’héritières, au détriment de leurs autres statuts. Les sceaux donnaient à voir l’alliance par le mariage entre deux familles, facteur de pacification, en même temps que les terres que l’union permettait de regrouper, ce qui est tout à fait révélateur dans un monde où posséder des terres, c’est être puissant. Pour Lucie Jardot, le passage au sceau armorial traduit ainsi « une essentialisation de la place des femmes considérées […] comme des vecteurs de paix », des femmes qui devaient garantir, en se mariant, la survie d’une lignée, que ce soit sur le plan dynastique ou mémoriel, les sceaux mettant en avant la memoria de la Maison et le rôle essentiel des femmes dans ce domaine.

Lucie Jardot insiste aussi, on l’a vu, sur le fait que le pouvoir féminin ne constituait pas une anomalie au Moyen Âge : désireuse de l’envisager sous un jour plus positif, l’auteure rappelle que ces femmes ont bien été des femmes de pouvoir, leurs sceaux et leurs actes le démontrant, même si ce fut souvent dans un cadre et pour un temps limité. Il ne faut pas en effet se méprendre : si certaines princesses à la personnalité forte surent s’affirmer, profitant d’un contexte politique et dynastique favorable, la plupart des princesses hainuyères et flamandes n’exercent un pouvoir que par procuration de leur époux, profitant comme dans le cas de la Grande Principauté de Bourgogne de l’immensité d’un territoire difficile à administrer pour un seul homme, le duc requérant ainsi l’aide de son épouse pour le seconder (chapitre VI). Au XVe siècle, la position des princesses hainuyères et flamandes sur l’échiquier politique devint plus complexe encore : il semble de moins en moins évident de leur confier le pouvoir, les mœurs politiques ayant changé et entrainant une forte masculinisation du pouvoir, dont témoigne l’élaboration à la même époque de la loi salique. Les sceaux, dans ce contexte particulier, ont pu se révéler une arme précieuse dont Jacqueline de Bavière et Marie de Bourgogne surent user, même si elle ne leur permit pas de remporter la bataille finale. Le caractère de plus en plus « affirmatif » des sceaux féminins laisse d’ailleurs deviner une perte de pouvoir des princesses hainuyères et flamandes. Paradoxalement donc, Jacqueline de Bavière et Marie de Bourgogne sont à la fois le témoignage de l’ambition politique que pouvaient avoir ces femmes, autant que le témoignage de leur faiblesse nouvelle, sur un échiquier politique dont les règles étaient en train de changer.

L’étude présentée ici reste encore à achever selon Lucie Jardot, l’ensemble des objets représentatifs du pouvoir féminin en Hainaut et en Flandre n’ayant pu être étudiés dans ce seul livre. Il resterait encore notamment à analyser les représentations produites par le mécénat artistique et littéraire de ces femmes, des œuvres révélatrices elles aussi de leur pouvoir, symbolique et réel.

Un lien vers le podcast Passion médiévistes

Notes

[2] Nous revenons ici sur les travaux français, même si cette liste n’a pas pour objectif d’être exhaustive. Georges Duby et Régine Le Jan figurent parmi les premiers à s’être penchés sur le sujet en France : voir G. DUBY, Mâle Moyen Âge. De l’amour et autres essais, Paris, Flammarion, 1988 et R. LE JAN, « L’épouse du comte du IXe au XIe siècle : transformation d’un modèle et idéologie du pouvoir », dans Femmes, pouvoir et société dans le Haut Moyen Âge, S. Lebecq, R. Le Jan, A. Dierkens et J. M. Sansterre (dir.), Paris, Picard, 2001, p. 65-74. Depuis ces premiers travaux, plusieurs chercheurs ont insisté sur le fait qu’on ne pouvait plus concevoir le pouvoir au Moyen Âge sans étudier celui des femmes. Voir plus particulièrement A. NAYT-DUBOIS et E. SANTINELLI (dir.), Femmes de pouvoir et pouvoir des femmes dans l’Occident médiéval et moderne, Valenciennes, Presses Universitaires de Valenciennes, 2009 et E. BOUSMAR, J. DUMONT et A. MARCHANDISSE (dir.), Femmes de pouvoir, femmes politiques durant les derniers siècles du Moyen Âge et au cours de la première Renaissance, Bruxelles, De Boeck, 2012. Nous renvoyons à l’introduction de l’ouvrage de Lucie Jardot, p. 19-23, pour un développement historiographique plus complet sur ce sujet.

[3] Brigitte Bedos-Rezak et Jean-Luc Chassel ont étudié la sigillographie féminine, mais leurs entreprises restent isolées. Voir à ce sujet B. BEDOS-REZAK, « Women, seals and power in medieval France (1150-1350) », dans Women and Power in the Middle Ages, M. Erler et M. Kovaleski (dir.), Athènes-Londres, University of Georgia Press, 1988, p. 61-82 et J. L. CHASSEL, « Le nom et les armes : la matrilinéarité dans la parenté aristocratique du second Moyen Âge », Droit et cultures, n° 64, 2012.
Disponible en ligne : https://journals.openedition.org/dr…

Anne-Frédérique Provou – Etudiante en master d’histoire du Moyen Age, Université de Lille.

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Mulheres, direito à cidade e estigmas de gênero. A segregação urbana da prostituição em Campinas | Diana Helene

O livro Mulheres, direito à cidade e estigmas de gênero: a segregação urbana da prostituição em Campinas, de Diana Helene Ramos (1), é o primeiro livro escrito por uma arquiteta e urbanista brasileira discutindo a relação entre prostituição e cidade. Publicado em 2019 pela editora Annablume, esse livro é resultado de tese de doutorado da autora em Planejamento Urbano e Regional, desenvolvida no Ippur UFRJ, pela qual recebeu o Prêmio Capes de Tese 2016 da área de Planejamento Regional/Demografia (2). O livro está dividido em três partes, com um total de seis capítulos que, em linhas gerais, discutem a presença das prostitutas na cidade de Campinas e sua participação enquanto agente na produção do espaço urbano, seu cotidiano e os deslocamentos ocorridos no contexto urbano e laboral dessas trabalhadoras. Leia Mais

A tecelã: uma jornada iniciática rumo a individuação feminina

INTRODUÇÃO

Esta é uma resenha do livro: “A tecelã: uma jornada iniciática rumo a individuação feminina”, de Barbara Black Koltuv, que faz uma análise psicológica junguiana de casos clínicos da atualidade, comparando à dinâmica psicológica dos mitos da antiguidade, relatos bíblicos e sonhos, em mulheres. Para a autora, a obra demonstra um sentimento de mistério, força e alegria que as mulheres encontram em sua jornada rumo à individuação; segundo Koltuv, uma jornada que não tem fim e que está sempre sendo reiniciada em um trabalho paciente e contínuo, como o de uma tecelã.

Barbara Black Koltuv é doutora em Psicologia Clínica pela Universidade Columbia (EUA) desde 1962. Recebeu seu diploma em Psicanálise no Programa de Pós-doutorado da Universidade de Nova York (EUA) em 1969 e, em 1980, o de analista junguiana, pelo Instituto C. G. Jung de Nova York. Estudou hebraico bíblico por várias décadas e ministrou cursos na Fundação C. G. Jung sobre psicologia feminina, Lilith, relacionamentos, criatividade e espiritualidade. Em 2003, foi uma das fundadoras da Associação Psicanalítica Junguiana, onde continua atuando como supervisora e analista sênior. Em seu quase meio século de prática, a Dra. Barbara Koltuv aprendeu que a cura e a saúde física e mental são resultado de uma profunda conexão espiritual com o Ser interior. Ela também é autora de O Livro de Lilith, que faz parte da coleção Biblioteca Psicologia e Mito da Editora Cultrix. Leia Mais

Educational memory of Chinese Female Intellectuals in Early Twentieth Century – JIANG (SEH)

JIANG Lijing Chinese Female
Lijing Jiang /

JIANG L Educational memory of Chinese Female Intellectuals Chinese Female JIANG, L. Educational memory of Chinese Female Intellectuals in Early Twentieth Century. Singapore: Springer, 2018. Resenha de: GUO, Mengna. Social and Education History, v.9, n.2, p.224-226, feb., 2020.

Educational Memory of Chinese Female Intellectuals in Early Twentieth Century describes the campus life, teacher-student interaction, academic career, and ideological change of the first generation of female intellectuals trained in higher education in China as the Chinese society changed in the early 20th century.

Using the research methods of life history, oral history, and history of mentalities, the author reveals the special experiences and ideological journeys of Chinese female intellectuals by the literature works of three firstgeneration Chinese female intellectuals and other people’s interpretations and commentary on their works. It also analyzes the relationship between many factors such as society, academia and education, especially higher education, and female intellectuals.

Chapter 1 is the introduction of the whole book. It explains the emergence of Chinese intellectuals, in particular, Chinese female intellectuals. The author also illustrates two essential factors that promote the transformation of traditional Chinese intellectuals into contemporary intellectuals, and states research methods.

Chapter 2 Flexible Borderline: Beijing Female Normal School in 1917 describes the architectural structure design of Beijing Female Normal School and the relationship between its design and traditional Chinese culture. After that, the author introduces the educational life of the students of Special Training Major of Chinese Literature and Language in Beijing Female Higher Normal College and compares the traditions of female education in feudal China with the educational situation of Peking University that only recruit male. The process and obstacles of Beijing Female Normal School transformed to Beijing Female Higher Normal University are also mentioned, as well as the role played by key men during this process. All of the above indicate the variability of the external environment and the reconstruction of social order in China, providing possibilities for social and educational changes.

Chapter 3 Diversified Traditions: Early Education Life of Female Individuals describes the early life and educational experience of three firstgeneration female intellectuals in China– Cheng Junying, Feng Shulan and Lu Yin. Their early experience reveals their reasons for giving up traditional female identities and lifestyles, as well as their motivation to study. It is a very unique growth experience and life story different from the male intellectual.

In the 19th century, there were three schools of thought in the mainstream of Chinese literature academia in the 1990—Tongcheng Style, Wenxuan Style, Jiangxi Style inherited from Song Dynasty. In chapter 4 Education Situation Plagued by Academic Conflicts: Beijing Female Higher Normal College During May Fourth Movement, since Hu Shi proposed literary reform, the concept of orthodox literature ideas began to be criticized at the end of 1916, and two Chinese literature masters coming to the Special Training Major of Chinese Literature and Language of Beijing Female Normal School in August 1918 proposed to “carry on extinct studies and support marginal studies”. But this cannot stop the rejection of the new trend of thought. The reform of Chen Zhongfan and the emerging of intellectuals such as Hu Shi and Li Dazhao not only contributed to the establishment of a modern academic education system, but also provided indispensable conditions for the generation of Chinese female intellectuals.

In Beijing Female Higher Normal College, the three female intellectuals underwent the impact of traditional Chinese learning and new culture, revolutionists and reformists. Their obedience and stubborn abidance to traditions and authority were replaced by independent choice-making rights.

Chapter 5 Seeking for and Recognizing the New Identity: Female Individual’s Transmutation and Rebirth deeply describes the transformation of three females, Cheng Junying, Feng Yuanjun (Feng Shulan), and Lu Yin, in Beijing Female Higher Normal College and their academic interaction with the teacher. Meanwhile, the three female intellectuals also gradually found their true vocation and the “irreplaceable” inner aspiration and interest through constant attempts and exploration under the intricacies of influences.

Although the three Chinese female intellectuals’ early experiences and specific careers are different, they all “had the responsible sense of ‘mission in life’ inherited from Chinese traditional culture or inspired by the society behind their personal interest and pursue”. Chapter 6 Scholars and Academia: Female Individuals’ Long Journeys for Gentry introduces the educational life, academic life and family life of the three female intellectuals after they left the campus. In this period, they have encountered harsh life and challenges, but the spirit which transcends personal interest and considers culture inheritance as personal responsibility has driven them to move forward.

This book shows the changes in thoughts and interests experienced by three Chinese female intellectuals with the changes of the broad social context. At the same time, it also tries to show the special role played by higher education in promoting academic transformation and establishing a modern academic education system.

Mengna Guo – Universidad de Barcelona. E-mail: [email protected]

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Mulheres inovadoras no Ensino (São Paulo, séculos XIX e XX) | Diana Gonçalves Vidal e Paula Perin Vicentini

A composição predominantemente feminina da profissão docente é uma característica facilmente perceptível, sobretudo da educação básica. Segundo o Censo do Professor (2007), cerca de 82% do professorado brasileiro é composto por mulheres. Essa média se mantém no Estado de São Paulo (MINISTÉRIO DA EDUCAÇÃO, 2007). Esses mesmos números foram retomados em matéria do site UOL (HARNIK, 2011), que apresentou as diferentes percentagens dessa característica de acordo com os segmentos de ensino. Destacou-se, nessa investida, a disparidade entre o número de professoras nos anos iniciais do ensino fundamental (82%) e no ensino médio (64%).

Em que pese a produção acadêmica sobre a História e a Sociologia da profissão docente e o seu recorrente foco nas condições de seu desenvolvimento profissional, proletarização2 e profissionalização3 (XAVIER, 2014, p. 830), são de longa data as colocações acerca da ocupação feminina da docência. É nesse esteio que Cláudia Vianna, ao tematizar “O sexo e o gênero da docência” (2001, p. 81-103), assinala para os contornos históricos desse processo. A autora liga a ocupação da carreira pública do magistério por mulheres à expansão do ensino primário público de modo que, já em inícios do século XX, as mesmas são maioria do contingente profissional. A despeito da efetiva publicação de estudos sobre o tema, a autora destaca que a incorporação do conceito de gênero aos estudos sobre a feminização do magistério no Brasil é relativamente recente (Ibidem, p. 87). A mesma destaca sua pouca tematização até meados dos anos 80 e, especificamente no campo de estudos educacionais, a demora na passagem do “feminino ao gênero”, movimento esse já percebido nos estudos sobre o trabalho na década de 90 (Ibidem, p. 88). Leia Mais

50 anos de feminismo – BLAY; AVELAR (REF)

BLAY Eva Foto Cecília Bastos 2018 USP Imagens jornal usp br Feminismo
Eva Alterman Blay. Foto: Cecília Bastos/2018/USP Imagens. jornal.usp.br

BLAY e AVELAR 50 anos de feminismo FeminismoBLAY, Eva Alterman; AVELAR, Lúcia. 50 anos de feminismo: Argentina, Brasil e Chile: a construção das mulheres como atores políticos e democráticos. São Paulo: EUSP, Fapesp, 2017. Resenha de: ALEIXO, Mariah Torres. Argentina, Brasil, Chile entre feminismos e os direitos das mulheres. Revista de Estudos Feministas, Florianópolis, v.28 n.2 2020.

Em abril de 2017, a socióloga Eva Alterman Blay e a politóloga Lúcia Avelar publicaram1 a obra 50 anos de Feminismo: Argentina, Brasil, Chile: a construção das Mulheres como Atores Políticos e Democráticos. O livro é uma coletânea de artigos que transitam entre sociologia, ciência política, antropologia, demografia, comunicação e os ativismos feministas.

Embora o contexto político sul-americano recente indique retrocessos no que concerne às conquistas de direitos das mulheres, a publicação – ao fazer a genealogia e a problematização de mobilizações, conquistas e desafios feministas na Argentina, no Brasil e no Chile – mostra que há feminismo consolidado nesses países, induzindo pensar no caráter provisório de alguns recuos atuais. Nesse sentido, os feminismos, especialmente nesses países, não seguem um traçado evolutivo unilinear em direção ao progresso, mas seu percurso é espiralado, permeado de conquistas, derrotas e transformações.

Resultado da pesquisa “50 anos de Feminismo (1965-2015): Avanços e Desafios: Argentina, Brasil, Chile”, coordenada pelas organizadoras do volume e realizada no âmbito do Departamento de Sociologia da Universidade de São Paulo (USP), a escolha dos três países foi devido a algumas semelhanças fundamentais entre eles: (1) possuem movimentos feministas vigorosamente articulados, (2) enfrentaram ditaduras militares na segunda metade do século XX, e (3) em tempos recentes elegeram mulheres para o principal cargo do poder executivo.

O livro está dividido em três seções: “Parte 1: 50 anos de feminismo: uma trajetória histórica”; “Parte 2: Velhos e novos desafios dos feminismos” e “Parte 3: Breves cronologias dos movimentos feministas”, na qual são descritas as cronologias dos feminismos argentino, brasileiro e chileno.

O texto que abre a primeira parte é de autoria de José Eustáquio Diniz Alves, Suzana Marta Cavenaghi, Angelita Alves de Carvalho e Maira Covre Sussai Soares. Intitulado “Meio século de feminismo e o empoderamento das mulheres no contexto das transformações sociodemográficas do Brasil”, as autoras argumentam que as transições urbana e demográfica brasileiras influenciaram e foram influenciadas pelo feminismo, causando o que afirmam ser “uma revolução silenciosa” (José ALVES; Suzana CAVENAGHI; Angelita CARVALHO; Maira SOARES, 2017, p. 17), mas incompleta, porque a igualdade de gênero ainda não foi totalmente atingida no país. Essas transições urbana e demográfica não melhoraram as condições de vida das mulheres, como o fato de terem maior possibilidade de estudarem, de participarem da População Economicamente Ativa (PEA) e de terem assistência à saúde. Porém, ainda há, no país, pouca divisão das tarefas domésticas e de cuidados, baixa representação das mulheres na política e altos índices de mortes femininas violentas.

Na sequência, há o capítulo das pesquisadoras e ativistas argentinas Dora Barrancos e Nélida Archenti – “Feminismos e direitos das mulheres na Argentina: história e situação atual” – em que traçam uma breve trajetória e delineiam características gerais do feminismo no país, passando pelo início das mobilizações pelo sufrágio do começo do século XX até 1947, quando foi conquistado tal direito, passando pela segunda onda, temporalmente situado em meio à ditadura militar argentina. O fim da ditadura, em 1983, possibilitou a ampliação da organização das mulheres, especialmente em torno da luta contra a violência doméstica e pela maior participação política. Atualmente, elas identificam a prevalência do que denominaram “feminismo relacional” (Dora BARRANCOS; Nélida ARCHENTI, 2017, p. 62), que leva em consideração também dimensões de classe e etnia, e postulam que há a difusão de ideias relativas à igualdade de gênero no país, sem polêmica e confronto entre feministas “institucionais” e “autônomas”.

Em “Como as mulheres se construíram como agentes políticas e democráticas: o caso brasileiro”, Eva Alterman Blay explica as divergências entre marxismo e feminismo nos partidos de esquerda no país, num determinado período histórico. Expõe as articulações das mulheres durante a ditadura militar em prol do fim da violência contra as mulheres e, também, pela democratização. Afirma que, atualmente, há plena relação entre feminismo e política no Brasil, embora ainda seja necessário avançar em muitas frentes, além de combater retrocessos conservadores. Por sua vez, a antropóloga e militante feminista Eliana Largo Vera, em “50 anos de feminismo no Chile texto e contexto”, também faz uma espécie de percurso feminista no país até os dias atuais. Semelhante à Argentina e ao Brasil, no Chile o movimento feminista se articulou fortemente durante a ditadura militar e o fim do período trouxe divergências entre as “feministas autônomas” e as “institucionais” (Eliana LARGO VERA, 2017, p. 113). Na análise que elabora sobre a atualidade, a autora aponta para a diversificação dos feminismos chilenos, juntamente à defesa dos direitos humanos das mulheres.

A “Parte 2: Velhos e novos desafios dos feminismos” inicia com o capítulo “Relações sociais de gênero nas cooperativas de reciclagem”, da socióloga Paula Yone Stroh, no qual discute sobre a categoria laboral catadores de materiais recicláveis – que, segundo explica, desponta no início dos anos 2000, com a criação do Movimento Nacional de Catadores de Materiais Recicláveis (MNCR). No bojo do movimento começam a surgir as mulheres catadoras como uma nova identidade política. Conforme analisa, essas mulheres não se colocam como explicitamente feministas, mas suas reivindicações renderam a realização de dois encontros nacionais, que anunciam a realização do I Congresso Nacional das Catadoras, em médio prazo, segundo a autora, mas ainda sem data prevista para ser realizado; e de parcerias institucionais.

Em “Coalizões queer: aborto, feminismo e dissidências sexuais de 1990 a 2005 em Buenos Aires”, a jornalista e ativista Mabel Bellucci narra a luta pela legalização do aborto no país desde seu início, na década de 1980, até o lançamento da Campanha Nacional pelo Direito ao Aborto Legal, Seguro e Gratuito, em 2005. Atualmente, essa demanda envolve o direito de escolha das mulheres sobre a maternidade, mas também questionamentos sobre as formas de reprodução humana e à heterossexualidade obrigatória. Por sua vez, o texto da militante e socióloga Sandra Palestro Contreras, “Feminismos no Chile: traços de ontem e de hoje”, faz um apanhado da rota feminista no país, desde a conquista ao direito à educação e ao voto em fins do século XIX até meados do século XX, passando pelo governo de Salvador Allende, atravessando o pós-ditadura e as diferentes estratégias feministas de atuação até chegar nos desafios atuais, em cujo momento as diferenças entre as mulheres se impõem como questão sobre a qual se deve refletir e agir.

A obra continua com o texto da socióloga Flávia Rios, “A cidadania imaginada pelas mulheres afro-brasileiras: da ditadura militar à democracia”, no qual explica que é no contexto ditatorial que críticas às representações dominantes sobre homens e mulheres negras – que os e as colocavam em posições de subalternidade – ganham força, impulsionadas pelo ativismo político da população negra nos feminismos e nas lutas antirracistas. A polêmica sobre quais seriam as pautas gerais e as reivindicações específicas, própria daquele período, não favorecia a discussão das dimensões de gênero, classe e raça, que atravessava e ainda atravessa as vivências de mulheres em sua heterogeneidade. Porém, com a redemocratização, as mulheres negras passaram a se organizar em coletivos menos institucionalizados, com o apoio das estruturas dos movimentos negro e feminista. Nesse contexto, foram criadas importantes organizações não governamentais (ONGs) de mulheres negras e que atuam até hoje, de maneira que, atualmente, é notável a participação das mulheres negras no feminismo de Estado, sobretudo com os conceitos de interseccionalidade e transversalidade.

Em “Como as mulheres se representam na política? Os casos de Argentina e Brasil”, das politólogas Lúcia Avelar e Patrícia Rangel, há a comparação entre os dois países quanto à representação política feminina parlamentar e extraparlamentar. Ambos obtiveram ampliação dos direitos das mulheres, porém, conseguidas de maneiras diferentes. No caso brasileiro, a representação e a participação extraparlamentar, na forma de advocacy, é o que tem garantido as mudanças institucionais que asseguraram os direitos das mulheres. Já na Argentina, os direitos das mulheres são avalizados pelo parlamento, sendo a representação e a participação extraparlamentar pequena, se comparada ao Brasil. Assim, as brasileiras, que acabam sendo responsáveis pela garantia dos direitos das mulheres em função do déficit de representação no parlamento, são as mais institucionalizadas, enquanto que o feminismo argentino possui caráter menos formal e socialmente mais difundido.

No último texto da seção, “A questão do aborto e as eleições de 2010”, a comunicóloga e cientista social Fátima Pacheco Jordão e a cientista social Paula Cabrini mostram, por meio da análise de dados quantitativos sobre as eleições presidenciais de 2010 no Brasil, que a posição pública dos candidatos à presidência sobre o aborto não foi determinante para a escolha dos/as eleitores/as, ao contrário do que se poderia supor, considerando o tom daquela campanha eleitoral. A partir desse dado, as autoras argumentam que as feministas brasileiras perderam importante timing para dialogar amplamente sobre pauta tão cara às mulheres. Elas sugerem que, ao invés de priorizar o apoio à candidata Dilma Rousseff, parte do movimento feminista que abdicou da reivindicação pelo direito ao aborto naquele momento, poderia ter aproveitado o cenário favorável e, assim, ter suscitado publicamente a questão.

Por fim, a terceira parte do livro traz a descrição das cronologias dos feminismos argentino, brasileiro e chileno, possibilitando a sistematização de diversas informações dos textos das seções anteriores. Na sequência, há uma o currículo detalhado dos/as autores/as da obra, corroborando seu caráter interdisciplinar e colocando em evidência, também, a interlocução dos/as autores/as com diversos ativismos feministas.

Num olhar pouco atento, é possível criticar o livro organizado por Blay e Avelar, por sugerir que o feminismo seja lido como sinônimo de direitos das mulheres. Nesse sentido, é conhecida a formulação de Judith Butler (2003) de que o feminismo, ao se organizar em torno do sujeito político mulher, acabou por excluir aquelas e aqueles que não se encaixam na definição de mulher hegemônica, isto é, as mulheres de cor, as trans, entre outras. A autora propõe que a organização política feminista seja feita por afinidade de pautas e não exclusivamente por meio da identidade, mas reconhece que é desse modo que o poder funciona e que não se pode abdicar totalmente dele.

O volume mostra a emergência dos feminismos nesses países, ainda como questão de mulheres e, também, a forma com que esses feminismos lidaram com a necessária transformação de suas práticas, pensamentos e com a realização de alianças com setores sociais diversos. Se ainda se fala em direitos da mulher, no singular, nos três países, é porque muitos ainda não foram garantidos e porque a política tradicional – aquela que formula leis e políticas públicas – ainda impõe uma identidade una e pretensamente estável para conferir direitos. Cabe às pesquisadoras, aos pesquisadores e ativistas a tarefa de pensar e agir para que todas as dimensões da cidadania possam ser garantidas, e é nesse sentido que a leitura da obra se impõe e contribui para o debate.

Referências

ALVES, José Eustáquio Diniz; CAVENAGHI, Suzana Marta; CARVALHO, Angelita Alves de; SOARES, Maira Covre Sussai. “Meio Século de feminismo e o empoderamento das mulheres no contexto das transformações sociodemográficas do Brasil”. In: BLAY, Eva Alterman ; AVELAR, Lúcia (Orgs.). 50 anos de feminismo: Argentina, Brasil e Chile: a construção das mulheres como atores políticos e democráticos. São Paulo: EDUSP, 2017. p. 15-54. [ Links ]

BARRANCOS, Dora; ARCHENTI, Nélida. “Feminismos e direitos das mulheres na Argentina: história e situação atual.” In: BLAY, Eva Alterman ; AVELAR, Lúcia (Orgs.). 50 anos de feminismo: Argentina, Brasil e Chile: a construção das mulheres como atores políticos e democráticos. São Paulo: EDUSP, 2017. p. 55-64. [ Links ]

BUTLER, Judith. Problemas de Gênero. Feminismo e subversão da identidade. Trad. de Renato Aguiar. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2003. [ Links ]

LARGO VERA, Eliana. “50 anos de feminismo no Chile: texto e contexto.” In: BLAY, Eva Alterman; AVELAR, Lúcia (Orgs.). 50 anos de feminismo: Argentina, Brasil e Chile: a construção das mulheres como atores políticos e democráticos. São Paulo: EDUSP, 2017. p. 99-135 [ Links ]

1 Além de serem as organizadoras do livro, Eva Alterman Blay é autora do capítulo “Como as mulheres se construíram como agentes políticas e democráticas: o caso brasileiro” e Lúcia Avelar é autora, juntamente com Patrícia Rangel, do capítulo “Como as mulheres se representam na política? Os casos de Argentina e Brasil”, sobre os quais tratarei mais adiante.

Como citar esse artigo de acordo com as normas da revista: ALEIXO, Mariah Torres. “Argentina, Brasil, Chile entre feminismos e os direitos das mulheres”. Revista Estudos Feministas, Florianópolis, v. 28, n. 2, e60428, 2020.

Financiamento: O presente trabalho foi realizado com apoio da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior – Brasil (CAPES) – Código de Financiamento 001

Mariah Torres Aleixo ([email protected]) – É doutoranda em Antropologia Social pelo Programa de Pós-Graduação em Antropologia Social da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (PPGAS/UFRGS) e tem mestrado em Direitos Humanos pelo Programa de Pós-Graduação em Direito da Universidade Federal do Pará (PPGD/UFPA).

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