Travessias: Cantos, recantos e modas da nossa gente / Cadernos de História / 2020

Em 2020, Minas completou 300 anos de uma história dinâmica, resiliente e em constante transformação. Olhar para a produção acadêmica com a temática regional e refletir sobre a riqueza de temas e seus produtos nos faz respirar Minas e se inspirar. É assim, com alegria, que apresentamos o Dossiê Travessias: Cantos, recantos e modas da nossa gente com intuito de divulgar e promover ainda mais a pesquisa que se faz sobre Minas Gerais.

Escolhemos abrir esse Dossiê trazendo a discussão sobre os intelectuais e o poder. O artigo Poder e política nas Minas Gerais, de Ana Tereza Landolfi Toledo, discute as relações de poder em Minas no contexto da transferência da Corte Portuguesa para o Brasil, a partir da análise de D. Manoel de Portugal e Castro, que assumiu o governo da capitania de Minas a partir do ano de 1814. Toledo analisa a atuação política de Portugal e Castro na tentativa de mitigar as tensões das elites locais com a Coroa Portuguesa. Com um texto instigante, somos levados a conhecer esse importante ator político e administrador e suas ideias ilustradas, e como essas ideias impactam na construção de uma relação de poder na capitania que acabou impulsionando a abertura de fábricas, a exploração da extração de ferro e a abertura de novos caminhos e estradas para escoar a produção mineira.

Continuando o debate dos intelectuais na capitania, Márcio Pereira vai apresentar o naturalista Joaquim Veloso de Miranda, que, entre 1780 e 1805, também a serviço do Estado português, pesquisou a botânica, a mineralogia e os metais da capitania de Minas Gerais, buscando a identificação de potencialidades de exploração e atendimento das demandas da Coroa portuguesa. Miranda e seus auxiliares, além do conhecimento inestimável sobre a flora, promoveram as ciências na capitania a ponto de influenciarem na decisão régia de implantação de um horto botânico em Vila. Ao longo do artigo conhecemos o trabalho de Veloso de Miranda e seus auxiliares, destacando as ideias, mas também o ofício do naturalista numa contribuição importante ao lançar luz sobre o trabalho e seus saberes no final do século XVIII.

Em Sob o sol das estradas, Mariana Brescia Cruz, Fernanda Mendes Santos e Silvia Maria Amâncio Rachi Vartuli, nos levam para uma temática que é relativamente popular ao se remeter à tradição mineira, mas que paradoxalmente ainda é pouco trabalhada nas produções acadêmicas: O tropeirismo. O interesse metropolitano pela capitania estava nas riquezas, como o ouro, e também no seu potencial econômico, que exigia o escoamento da produção para os portos litorâneos. Os tropeiros eram agentes necessários para a configuração de uma rede de transportes que envolvia a mineração, principal produto até o século XVIII, e também eram responsáveis pela circulação de mercadorias tão necessárias à manutenção da capitania, como a manutenção da Corte no Rio de Janeiro. As autoras desvelam, a partir dos registros, esse ofício, seu desenvolvimento, seus desafios, as relações que se estabeleceram nessas idas e vindas dos tropeiros e sua permanência ao longo de gerações.

Avançando e caminhando pela História do imaginário, Rudney Avelino Castro Silva discute o segredo como persistência frente às perseguições inquisitoriais de judeus em Imaginário religioso e persistência: estudo dos ritos mortuários judeus à luz da Inquisição portuguesa nas minas setecentistas. O autor retoma a documentação de réus do Tribunal do Santo Ofício em Lisboa e analisa os ritos mortuários identificados para discutir o papel do segredo como instrumento de perpetuação de uma tradição religiosa e identitária, que conscientes ou não, guardaram sentidos e rituais judaicos entre os moradores de Sabará-MG. Tanto o segredo como sua expressão opositora, a traição, na perspectiva simmeliana, vão sustentar as análises do Tribunal da Inquisição na promoção de silenciamentos essenciais para a própria sobrevivência dos judeus nas Minas setecentistas.

Abrindo espaço para discutir um pouco os arranjos familiares, a infância e as mulheres, apresenta-se o texto Aspectos da história da infância nas Minas Gerais (Séculos XVIII-XIX). Nesse artigo, Denise Aparecida Sousa Duarte e Weslley Fernandes Rodrigues, com base em fontes documentais diversas (registros de óbitos de inocentes, devassas, relatos de viajantes, testamentos), desvelam a criança na capitania como um ator social. A criança foi geralmente analisada na perspectiva dos adultos, sem muito foco e sem definição clara na sociedade. No Brasil isso se refletiu em descaso e em silenciamentos. O desafio apontado pelos autores é interpretar as pouquíssimas referências da criança na documentação, e destaco nesse caminho a importante contribuição no apontamento das relações afetivas que são ressaltadas nessas interpretações, com a análise dos testamentos dos filhos bastardos e órfãos e os ex-votos (pintados em tabuletas como cumprimento de uma promessa já realizada) que se fizeram presentes nas Minas entre os séculos XVIII e XIX.

Dando sequência às relações familiares e de afeto nas Minas, o artigo O concubinato na América portuguesa: resistência feminina, afetividades, famílias e mestiçagens na comarca de Sabará no século XVIII, de Igor Bruno Cavalcante dos Santos, analisa o concubinato na comarca de Sabará no século XVIII. O trabalho mergulha nas análises sobre a mestiçagem com destaque às mulheres (tanto as negras como as mestiças), por vezes pouco visíveis na historiografia. O autor vai apontar as ambivalências do sistema colonial na revelação das relações afetivas mistas (legítimas ou ilegítimas sob a ótica religiosa), que envolveram escravas concubinas e os filhos frutos desses relacionamentos presentes e identificados na documentação. Dá voz para a complexidade das relações no Brasil colonial e indica vislumbres de um Brasil silenciado que carrega uma diversidade de estratégias e arranjos familiares, envolvendo afetos e disputas na sucessão e abre uma janela importante para novas pesquisas sobre gênero e família no Brasil.

Com foco na questão do gênero no século XIX, Séfora Semíramis Sutil se debruça sobre os modelos de feminilidade e seus paradoxos entre as classes menos abastadas a partir da análise da documentação em Das virtudes ou infortúnios femininos: os ideais de conduta no Brasil oitocentista. O modelo de mulher construído no Brasil do XIX deveria ser honrada, virtuosa, submissa, assim, os manuais de civilidade que circularam no Brasil, os periódicos e também os modelos femininos construídos nas obras literárias carregavam essa representação e educavam as mulheres determinando condutas social, religiosa, sexual e familiar que eram adequadas à feminilidade. Entretanto, a autora vai nos apresentar à Luiza Maria da Conceição, moradora da vila da Formiga em Minas Gerais, acusada do assassinato de seu esposo, indicando as distâncias possíveis entre a conduta ideal e desejável para as mulheres e as práticas cotidianas que variavam de acordo com o lugar social.

Chegando aos dias atuais, o trabalho Mulher comparsa: o testemunho midiático como delito de gênero, de Leticia Silva Azevedo e Lúcia Lamounier Sena, analisa os recursos discursivos nas páginas policiais a partir dos Cadernos Cidades dos jornais OTEMPO e o Super Notícia, no período entre 2006 / 2016. Ao analisar as notícias sobre mulheres que atuam no tráfico de drogas, as autoras identificaram que há silenciamento do relatado que é operado pelo mediador (o jornal, o jornalista) e da construção do papel e da História dessa mulher, associada como comparsa do crime. Apreende-se uma importante construção midiática sobre gênero e seus desdobramentos que não só vale a leitura, como nos leva a refletir sobre as permanências das representações da mulher na sociedade e de sua moral colocada sempre em julgamento por meio do discurso, que varia, no caso de crime de tráfico, no tratamento de homens e de mulheres. Prevalece, como afirmam as autoras, um sujeito “gendrado” carregado de simbologias sobre o feminino e suas categorias (maternidade, espaço doméstico, amor / paixão, cumplicidade feminina e vitimização).

A SOLIDÃO DOS MINEIROS: mineiridade, patrimônio cultural e os processos de hierarquização de pessoas e lugares em Minas Gerais ao longo do século XX vai nos levar para as questões acerca da memória e o conjunto de representações identitárias e patrimoniais sobre Minas Gerais. Dialogando com sua experiência de pesquisa Patrimonial, Carolina Paulino Alcantara destaca os olhares distintos e os silenciamentos promovidos a partir de critérios de seleção e exclusão de grupos e elementos culturais. O título remete à solidão, evocando as ausências e invisibilidades de pessoas e grupos em diferentes momentos da História de nosso estado. Registros dos costumes, das tradições e outros princípios norteadores das representações de Minas tenderam a privilegiar a região centro sul e, nessa toada, a autora discute e desvela as disputas pela memória na formação da identidade mineira a partir dos projetos, ações e concepções dos dirigentes e gestores públicos do estado mineiro.

A extensão territorial e a diversidade do Estado mineiro vai nos levar ao O poder e suas representações no interior das comunidades agregas do Vale do Mucuri, Minas Gerais (1850-1950), num trabalho interessante, Marcio Achtschin Santos, nos revela a relação do trabalho na atividade agro pastoril, na região do Vale do Mucuri a partir da agregação, que corresponde à forma de ocupação da terra por meio de cessão a homens livres. Implantada desde o período colonial, a agregação vai aumentando no nordeste mineiro com o enfraquecimento da escravidão ao longo do século XIX. A proposta do autor é, a partir das entrevistas, identificar a relação territorial e de poder que se estabelece. O autor pergunta de que modo é construído o imaginário para o reconhecimento e permanência das relações de poder e, dando ênfase à cultura e aos ritos da tradição das comunidades agregas, vai identificando os sentidos e estratégias na relação marginal com os grupos dominantes. Na escuta dos entrevistados, vai dando foco às estratégias comunitárias, às especificidades regionais e às transformações ao longo do tempo.

Por fim, mas nunca menos importante, Rogéria Alves e Karla Cerqueira vão apresentar e discutir a organização e as ações implementadas entre 2015 e 2018 na Educação Escolar Quilombola pela Secretaria de Estado de Educação de Minas Gerais. A Educação Escolar Quilombola em Minas Gerais: Identidade e Resistência trata da importante compreensão da Resolução Nº4 / 2010 das Diretrizes Curriculares Nacionais Gerais para Educação Básica e seu artigo 41, que institui a Educação Escolar Quilombola como uma modalidade especial e determina sua existência em áreas quilombolas com pedagogia própria que respeite a cultura dos seus moradores. As autoras discutem os avanços dessa discussão no país em direção à uma proposta de educação inclusiva e plural (de todos, indo além da própria visão de que quilombola são herdeiros dos negros escravizados) e fornecem um panorama da aplicação da Educação Escolar Quilombola nas políticas públicas de educação e particularmente nas ações implementadas pela SEEMG, apontando seus avanços e seus desafios.

Excelente leitura!

Júlia Calvo – Editora da Revista Cadernos de História.

CALVO, Júlia. Apresentação. Cadernos de História. Belo Horizonte, v.21, n.34, 2020. Acessar publicação original [DR]

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História e Historiadores / Cadernos de História / 2018

É com intensa satisfação que publicamos o Dossiê História e Historiadores, a mais recente edição da revista Cadernos de História.

Amplas temáticas e abordagens são recorrentes objetos de análise no âmbito da atividade historiográfica e estão em contínuo debate no meio acadêmico. No entanto, já há algum tempo, o estudo sobre os historiadores vem despertando cada vez mais atenção e ocupando maiores espaços no campo de interesse dos pesquisadores, sobretudo na vertente das histórias intelectual, política, social e cultural. Neste dossiê optamos em destacar o papel ativo desempenhado pelos historiadores na produção do saber histórico, na seleção e no tratamento das fontes e na realização dos procedimentos metodológicos que bem fundamentaram as interpretações historiográficas sobre seu objeto de pesquisa.

Nessa perspectiva, convidamos para apresentar nosso editorial a dupla de historiadores Sérgio da Mata e Sabrina Magalhães Rocha. Os pesquisadores traçam um dinâmico percurso do que denominam „história dos historiadores‟ a partir das transformações sofridas pelas meta-narrativas em novas abordagens micro e pluridisciplinares. Desde então, os autores convidam nossos leitores a um instigante raciocínio acerca da produção do conhecimento histórico na contemporaneidade.

Os dois artigos que abrem esse dossiê, “A África antiga sob a ótica dos clássicos gregos e o viés africanista” e “O mundo ibérico e as origens das relações com a África negra”, escritos, respectivamente, por Maria Regina Cândido e Luciano Borges Muniz, pontuam algumas visões historiográficas envolvendo a história africana. A primeira pesquisa, além de destacar a legislação federal que instituiu de forma obrigatório os estudos africanos no Brasil, apresenta a relação entre o afrocentrismo e o eurocentrismo tendo como recorte temporal a África pré-moderna, sobretudo espelhando-se nas imagens construídas por „historiadores‟ do mundo clássico. Já a pesquisa de Luciano Muniz amplia a vertente historiográfica, tradicionalmente concentrada na visão econômica, ao relacionar expansão marítima do século XV com a África subsaariana. Para o autor, outras abordagens transdisciplinares também marcaram a aproximação entre o mundo ibérico e o continente africano.

O próximo artigo, de autoria do pesquisador Luiz Francisco Albuquerque de Miranda, também se inclina em estudar a historiografia da expansão marítima ibérica do século XVI, porém, com o olhar da Ilustração do século XVIII, ao dar especial atenção à obra do abade francês Guillaume-Thomas Raynal. Com o título “História das duas Índias e os colonizadores da América”, o autor analisa como a histórica filosófica do século XVIII representou os colonos ibéricos que chegaram à América a partir do século XVI.

Em seguida, o artigo de Aruanã Antônio dos Passos, intitulado “Do Império à República: escrita poética e biografia em Tobias Barreto (1869-1889)”, apresenta interfaces da história com a literatura. Nesta pesquisa, o autor analisa a vida intelectual do emblemático escritor Tobias Barreto, conjugada à sua vida privada e ao contexto histórico do último quartel do século XIX. O próximo artigo, de autoria do pesquisador Alexandre Almeida Marcussi, cujo título é “O anticolonialismo como tragédia: os jacobinos negros entre a História e a política”, apresenta a obra do historiador antilhano de Trinidad e Tobago, Cyril Lionel Robert James, publicada no final da década de 1930. Marcussi destaca que o texto do ensaísta caribenho integrou o movimento panafricanista do século XX ao estimular o ativismo político negro daquele continente, em razão de oferecer uma das possibilidades historiográficas do violento processo de independência da colônia francesa de São Domingos e, consequentemente, a formação do Haiti em 1804, dando início à configuração dos Estados latino-americanos do oitocentos.

O próximo artigo que integra esse dossiê é de autoria do historiador Rafael Nascimento Gomes e se denomina “Seignobos x Simiand: a querela do método histórico com a ciência social no início do século XX”. Como o título sugere, trata-se de um embate intelectual travado entre o historiador Charles Seignobos e o sociólogo e economista François Simiand. Para o pesquisador, tais discussões embasadas no método histórico e na ciência social foram fundamentais na institucionalização e na profissionalização dessas disciplinas no campo acadêmico francês. Na sequência, apresentamos o trabalho de Eduardo José Santos Borges e Augusto Fagundes da Silva dos Santos, intitulado “Considerações sobre um campo disciplinar: os principais modelos explicativos da economia colonial”. Os coautores lançam mão da bibliografia referencial acerca da dinâmica socioeconômica do período colonial brasileiro e realizam breve comparação historiográfica sobre essa temática. Nomes como Caio Prado Jr., Celso Furtado, Fernando Novais, Jacob Gorender, Ciro Flamarion Cardoso, João Fragoso e Manolo Florentino, são confrontados para confirmar o que já é amplamente reproduzido no meio acadêmico desde meados dos anos 1980: uma historiografia renovada ao considerar o contexto colonial como parte dinâmica e ativa de uma complexa rede econômica, política e social integrante do império português.

Parafraseando o historiador Lucian Lebvre ao afirmar que a „História é filha de seu tempo‟, o próximo artigo desse dossiê, de autoria de Lucas Pereira de Oliveira, realça que, atualmente, o entendimento da História não se orienta por dogmatismos e inquestionáveis verdades. Pelo contrário, acentua o debate ao reconhecer as várias interpretações, posicionamentos, metodologias, escolhas e experiências do historiador incorporado ao seu tempo histórico e social. Assim, “E. P. Thompson entre fragmentos, embates e tensões: reflexões teórico-metodológicas do seu posicionamento frente aos escritos de Anderson, Nairn e Kolakowski”, como bem sugere esse título, debate sobre várias questões historiográficas a partir do ponto de vista desses intelectuais marxistas.

Na sequência, o historiador José Costa D‟Assunção Barros, no artigo “Os historiadores e o tempo: a contribuição dos Annales”, discute, dentre outras abordagens, o conceito de „longa duração‟, a partir da perspectiva da Escola dos Annales, utilizandose, sobretudo, das concepções de Marc Bloch, Fernando Braudel e Michel Vovelle acerca do tempo histórico. Já o artigo de André Fabiano Voigt –, intitulado “Jacques Rancière e a História: uma introdução” –, dialoga com a historiografia francesa no tocante às contribuições multidisciplinares do intelectual Jacques Rancière ao aproximar história, filosofia e literatura. No propósito de analisar a historiografia do sistema econômico mundial, apresentamos o artigo do pesquisador Carlos Leonardo Kelmer Mathias, “A Longa Duração, A Grande Divergência e A Grande Convergência: sumários apontamentos acerca da influência de Fernand Braudel na compreensão do atual sistema econômico mundial”. Neste trabalho, como bem informado no título, o autor dialoga com a perspectiva braudeliana para pontuar aspectos consideráveis que delinearam o caminho tomado pelo cenário capitalista a partir do mundo moderno. E por fim, o artigo “Para uma historiografia do operariado de Alagoas”, de Ivo dos Santos Farias encerra essa sequência, ao apresentar um percurso historiográfico acerca do movimento operário alagoano dialogando com a produção acadêmica de três gerações de estudiosos.

Realizada por este editor em parceria com o pesquisador Euclides de Freitas Couto, a próxima seção do dossiê apresenta a entrevista com a historiadora Lucília de Almeida Neves Delgado acerca de sua trajetória acadêmica e suas perspectivas historiográficas. Em seguida, destacamos o duplo trabalho de Pedro Spínola Pereira Caldas ao apresentar a comunicação “A filosofia da história universal de Friedrich Schiller: uma introdução”, e a respectiva tradução do texto deste mesmo intelectual “O que significa e com que finalidade se estuda História Universal?”

Finalizamos a publicação desta edição com duas resenhas. A primeira, realizada por Matheus Landau de Carvalho, do livro “A eternidade pelos astros”, escrito na prisão por Louis-Auguste Blanqui, ativista francês e participante da Comuna de Paris em 1871. A edição brasileira foi publicada em 2016, cuja tradução foi realizada por Luciana Persice. A outra resenha que integra este dossiê é apresentada por Alex Rogério Silva, do livro organizado por Ângela Vaz Leão, intitulado “Cantigas autobiográficas de Afonso X, o sábio”. Trata-se de uma antologia traduzida e analisada de 34 poemas medievais referentes ao culto mariano.

Assim, através dos colaboradores deste dossiê temático, podemos destacar que a produção historiográfica e sua relação com os historiadores integram um vasto campo de possibilidades permeadas por conjunturas, espacialidades e tendências.

Desse modo, Cadernos de História ratifica ser um amplo espaço de discussão acadêmica que contribui com o diálogo transdisciplinar ao reunir neste número instigantes pesquisas sobre História e Historiadores.

Agradecemos mais uma vez a equipe do Setor de Revisão da PUC Minas, especialmente, a professora Daniella Lopes e aos estagiários Gabriel Gama e Francine Brandhuber. Agradecemos também a professora Jacyra Parreiras, chefe do Departamento de História da PUC Minas, e ao diretor da Editora PUC Minas, professor Paulo Agostinho Nogueira Baptista. Agradecemos ainda aos membros do Conselho Editorial dos Cadernos de História e, especialmente ao ex-editor adjunto Rafael Pacheco Mourão que, recentemente se desligou da revista e muito colaborou com seus serviços Apresentação prestados ao longo desses anos para que este periódico acadêmico obtivesse o amplo reconhecimento institucional. Ressaltamos que todas essas pessoas foram importantíssimas para tornar possível mais uma publicação dos Cadernos de História.

Desejamos a todos uma boa leitura!

Marcelo de Araújo Rehfeld Cedro – Doutor em Ciências Sociais pela Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais (PUC Minas). Professor do Departamento de História da PUC Minas. Editor Gerente dos Cadernos de História.


CEDRO, Marcelo de Araújo Rehfeld. Apresentação. Cadernos de História. Belo Horizonte, v.19, n.30, 2018. Acessar publicação original [DR]

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História e Cidade / Cadernos de História / 2017

É com intensa satisfação que publicamos o Dossiê História e Cidades, a mais recente edição da revista Cadernos de História.

A aproximação da História com outros campos disciplinares, sobretudo com as Ciências Sociais, contribuiu para ampliar os olhares sobre a cidade. Nesse propósito, apresentamos nesse dossiê, artigos que dialogam com várias áreas cujas pesquisas muito contribuem para alargar as maneiras de se pensar o urbano.

Convidados para apresentar nosso editorial, a sociológica Luciana Teixeira de Andrade. A pesquisadora traz importantes contribuições em destacar o atual estágio dos estudos urbanos no meio acadêmico, suas múltiplas conexões interdisciplinares e diversificados campos de possibilidades que permitem amplos e sofisticados debates acerca da leitura sobre as cidades.

Os dois primeiros artigos que abrem esse dossiê, “Uma problemática da Arqueologia e da História: a cidade e seus territórios” e “O papel da ambiência histórica nos processos de tombamento dos sítios urbanos”, escritos, respectivamente por Arno Alvarez Kern e pelos coautores Cíntia Camila Viegas e Rubenilson Brazão Teixeira, entrecruzam os estudos sobre as cidades com a perspectiva arqueológica e patrimonial. A primeira pesquisa apresenta a arqueologia como um campo de possibilidades em considerar os vestígios obtidos por suas escavações como fontes históricas complementares para a interpretação do fenômeno urbano. Já no segundo artigo, os pesquisadores, ao utilizarem o conceito de ambiência histórica e ao analisarem as trajetórias percorridas sobre a noção de patrimônio, discutem os valores materiais e simbólicos atribuídos ao processo de tombamento de sítios urbanos. Cíntia Viegas e Rubenilson bem ilustram essa abordagem teórica através de um estudo de caso do patrimônio urbano potiguar.

O próximo artigo, de autoria da historiadora Maria Alice da Silva Tavares, apresenta o medievo português priorizando analiticamente o modo de vida urbano. Intitulada “Vivências quotidianas na rua: costumes e foros da Idade Média portuguesa”, a pesquisadora utiliza-se de fontes documentais municipais para fornecer dados para se entender a criminalidade urbana, os tratos higienistas e as atividades econômicas de ruas do século XIII, a partir de determinadas regiões lusitanas selecionadas pela autora.

Em seguida, a pesquisa de Gustavo Leandro Gouvea Lopes também se orienta pela análise higienista, porém, voltada ao cenário urbano mineiro de finais do século XIX e início do século XX. Em seu artigo “Vida e morte sujam a urbe moralizada: latidos, mugidos, higienismo e os jornais diamantinenses”, o autor analisa as narrativas da imprensa local, especialmente os jornais impressos, no sentido de identificar discurso civilizatório e moralizador favorável à ação da municipalidade no recolhimento de animais soltos pelas ruas da cidade mineira de Diamantina. De metodologia similar, ao priorizar a leitura de jornais e periódicos, a historiadora Sônia Maria de Meneses Silva, no artigo “A pena e o bacamarte: imprensa e narrativa criminal – um olhar sobre a cidade no século XIX”, também analisa as práticas e discursos higienistas reproduzidos pelas narrativas jornalísticas em relação ao controle da violência e à ordenação dos espaços urbanos da cidade de Fortaleza a partir da segunda metade do século XIX. Ainda tendo o século XIX como recorte temporal, porém estendendo-se ao primeiro quartel do século XX, o artigo “Comerciantes e artesãos toscanos nas ruas de São Paulo (1875-1914)”, do historiador Antonio de Ruggiero, trata da temática da imigração italiana, particularmente da região da Toscana, na cidade de São Paulo. A pesquisa aborda os vínculos engendrados por essa comunidade através do trabalho artesanal e pelas redes de sociabilidade construídas entre imigrantes e país receptor.

O artigo seguinte desse dossiê transpõe-se ao cenário latino-americano das primeiras quatro décadas do século XX. O trabalho “Antes del espacio publico: una historia de los espacios verdes y libres de la ciudad de Rosário (1900-1940)”, de autoria dos pesquisadores argentinos Diego Roldán e Sebastián Godoy, analisa as intervenções urbanísticas, higienistas e paisagísticas realizadas pelo poder público nos parques urbanos da cidade argentina de Rosário, província de Santa Fé, tendo em vista as narrativas construídas e sentidos atribuídos ao espaço público contemporâneo. Logo depois, Alexandre Cotovio Martins, em seu artigo “Fatores ‘genéticos’ da política de habitação operária da Companhia União Fabril em Portugal: uma breve análise” apresenta a realidade urbana lusitana, especialmente sua capital Lisboa, a partir da instalação da indústria têxtil Companhia União Fabril no ano de 1907. A pesquisa analisa as políticas habitacionais empreendidas por este empregador ao operariado e como tais iniciativas afetaram a forma de se pensar o espaço público naquele entorno industrial.

Dando sequência às publicações desse dossiê, o artigo “A cidade do Rio de Janeiro e a construção do Aeroporto Santos Dumont (1933-1938)” retoma os estudos urbanos sobre a realidade nacional. Sua autora, Claúdia Musa Fay, apresenta a conexão entre as construções dos primeiros aeroportos e a história urbana. A historiadora destaca como a criação do Aeroporto Santos Dumont modificou a paisagem estética, provocou significativas alterações urbanística e renovou as formas de representar o espaço público da cidade do Rio de Janeiro a partir da década de 1930. Já a pesquisa de Maria Cristina de Castro Pereira –, intitulada “Mapeando o Pouso Frio: dinâmicas de um bairro na cidade de Toledo / PR” – apresenta o processo de ocupação, ocorrido a partir da década de 1940, por diversificados sujeitos provenientes no norte do Paraná, São Paulo, Minas Gerais e Paraguai, do bairro denominado Pouso Frio, situado na cidade paranaense de Toledo. A autora destaca a omissão da história oficial reproduzida pelo município acerca da apropriação desse bairro por trabalhadores vindos de diversas regiões do país na busca por condições de moradia e por acesso à cidade.

A seguir, apresentamos o artigo “Um futuro alternativo para São Paulo: Anhaia Mello e a tese da limitação do crescimento da metrópole”, elaborado por Bruno de Macedo Zorek. Nesta pesquisa é abordada a conjuntura de modernização urbana experimentada pela cidade de São Paulo no decorrer da década de 1950, tendo em vista seu emergente processo de metropolização. O autor analisa, especialmente, documentos produzidos pelo urbanista Luís de Anhaia Mello acerca de suas perspectivas de pensar a nova configuração e o futuro da cidade paulistana.

Os próximos artigos abordam a temática do patrimônio e suas articulações ao urbano. Felipe Araujo Xavier, na pesquisa “O zé-pereira em Rio Novo: uma emancipação cultural centenária no interior de Minas Gerais (1906-2006)”, analisa as relações constituídas entre as práticas pré-carnavalescas representadas pelo bloco zépereira e os bailes de carnaval realizados pelos clubes sociais no município mineiro de Rio Novo em amplo recorte temporal. Nesse artigo, o autor utiliza-se de diversificadas fontes para interligar a memória e sua relação com o espaço urbano daquela localidade. Já o artigo “O Espelho da História: práticas patrimonialistas e transformações na paisagem urbana de Viçosa (1980-2010)”, dos pesquisadores Leonardo Civale e Walkíria Maria Freitas Martins, discute as relações acirradas e conflituosas que envolvem o patrimônio. Os coautores analisam como as ações patrimoniais reconfiguraram a paisagem urbana da cidade mineira de Viçosa, ao final do século XX e início do século XXI, no sentido de preservar e revitalizar antigas áreas industriais degradadas.

Finalizando a sequência de publicações desse dossiê, apresentamos duas comunicações voltadas à realidade lusitana: “O olhar estrangeiro na Lisboa de oitocentos” e “Shilb (Silves) no período islâmico – a Bagdad do ocidente”, respectivamente escritas por Maria João Castro e Natália Lopes Nunes. Na primeira comunicação, sua autora Maria João Castro utiliza-se do discurso literário no propósito de cartografar a cidade de Lisboa a partir do olhar memorialístico de seus visitantes europeus do século XIX. Já na segunda comunicação, Natália Lopes Nunes, ao coordenar um projeto em andamento, investiga a herança árabe e islâmica em Portugal, especialmente, na cidade de Silves, de antigo domínio muçulmano.

Assim, através dos colaboradores deste dossiê temático, podemos perceber a íntima relação entre História e Cidades. Os objetos abordados permeiam um vasto campo de possibilidades em se pensar a urbe, percorrendo a memória, o poder, as narrativas jornalísticas, a arqueologia, o patrimônio, as ocupações sociais, as manifestações e o planejamento urbano. Desse modo, Cadernos de História ratifica ser um amplo espaço de discussão acadêmica que contribui com o diálogo transdisciplinar ao reunir neste número instigantes pesquisas sobre História e Cidades. Agradecemos mais uma vez a equipe do Setor de Revisão da PUC Minas, especialmente, a professora Daniella Lopes, e aos estagiários Roberto Barcelos, Aline de Oliveira, Julia Magalhães e Thatiane Marques.

Agradecemos também a professora Jacyra Parreiras, chefe do Departamento de História da PUC Minas, e ao diretor da Editora PUC Minas, professor Paulo Agostinho Nogueira Baptista. Agradecemos ainda aos membros do Conselho Editorial dos Cadernos de História, notadamente, aos professores Rafael Pacheco Mourão, Virgínia Valadares e Maria Flor de Maio Benfica. Ressaltamos que todas essas pessoas foram importantíssimas para tornar possível mais uma publicação.

Desejamos a todos uma boa leitura!

Marcelo de Araújo Rehfeld Cedro – Doutor em Ciências Sociais pela Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais (PUC Minas). Professor do Departamento de História da PUC Minas. Editor Gerente dos Cadernos de História.


CEDRO, Marcelo de Araújo Rehfeld. Apresentação. Cadernos de História. Belo Horizonte, v.18, n.28, 2017. Acessar publicação original [DR]

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História e Etnicidade / Cadernos de História / 2016

A revista Cadernos de História chega a mais uma edição temática com a publicação do Dossiê História e Etnicidade. Os artigos reunidos neste número por nossos pesquisadores colaboradores apresentam instigantes trabalhos alinhados às discussões sobre tema intensamente recorrente no atual meio acadêmico.

No editorial deste dossiê, convidamos o pesquisador italiano Massimo Canevacci para apresentar suas recentes investigações envolvendo as conexões entre história, antropologia e etnografia. Em seu trabalho, “Composições etnográficas”, Canevacci discorre sobre as transformações culturais no processo de globalização e sua relação com as realidades locais, a partir de novos mecanismos de produção comunicacional entre os grupos étnicos. Nessa ótica, o pesquisador destaca que a era digital alterou e conectou os métodos de como as comunidades locais se relacionam com o contexto global no que concerne aos mecanismos de autorrepresentação de subjetividades e na construção de suas histórias. Assim, importantes termos e expressões como “hetero-representação”, “meta-fetichismo” e “facticidade” são apresentados e definidos pelo autor para o entendimento da etnicidade, compreendida pelos vínculos de pertencimento, no cenário contemporâneo a partir de “quem representa” e “quem é representado”, complexa relação na qual ele denomina de “divisão comunicacional do trabalho”.

Nos dois primeiros artigos desse dossiê, destacam-se o percurso de determinadas comunidades africanas na constituição de um sincretismo cultural brasileiro, percebidas pela interação afroindígena amazônica e também pelo candomblé baiano. No primeiro caso, é o título de Agenor Sarraf Pacheco, “Diásporas africanas e contatos afroindígenas na Amazônia marajoara”, cujo propósito é realçar as intersecções tecidas por índios e negros desde o período colonial na região da ilha de Marajó, no Estado do Pará. O autor apresenta vários questionamentos que o instigaram a pesquisar os traços étnicos das populações marajoaras, sobretudo, seus afrodescendentes. Nessa ótica, Pacheco estima que a chegada dos primeiros africanos aos campos e florestas marajoaras ocorreu por volta de 1644, trazidos pelos portugueses para servirem como mão de obra escrava na exploração de drogas do sertão, cultivo da cana de açúcar e da mandioca. Os latifúndios e aldeamentos jesuíticos que ali se estabeleceram contavam com negros e indígenas na execução do trabalho compulsório que, consequentemente, resultaram em resistências, fugas e práticas de solidariedade na constituição de mocambos e quilombos na região.

Já o artigo do pesquisador português João Ferreira Dias, “Candomblé é a África: esquecimento e utopia no candomblé jeje-nagô”, também destaca a interação brasileira com a diáspora africana, todavia, na conjuntura baiana da virada do século XIX para o século XX. O autor aponta que a narrativa do candomblé não se constitui pela linearidade ou por um ideal de continuidade resultante da recriação simples de costumes africanos transportados para o Brasil. Assim, a partir de povos iorubás e ewe-fon, transformados em escravos no período colonial, o autor destaca os rearranjos rituais desses grupos étnicos, muitas vezes representantes de reinos rivais africanos, e como engendraram uma nova realidade religiosa compartilhando com o catolicismo popular suas memórias, similitudes culturais e esquecimentos.

Nos três artigos seguintes, apresentamos pesquisas que dialogam com a temática indígena e quilombola no nordeste e no centro-oeste brasileiros. No artigo “Não somos selvagens: cultura política dos índios no Ceará (1799-1822)”, João Paulo Peixoto Costa investiga que as comunidades indígenas cearenses – à época da transição entre colônia e império –, no propósito de receber benefícios e garantias, estrategicamente buscavam se identificar enquanto súditas da Coroa Portuguesa. Segundo o autor, a intenção dos grupos étnicos indígenas em planejar resistências e reações estava longe de ser desarticulada e puramente violenta. Já a pesquisadora Maria Jorge dos Santos Leite colabora aqui com sua pesquisa intitulada “Quilombolas e indígenas: intercruzamentos, identidades e conflitos no sertão de Pernambuco”, cujo objetivo é analisar o processo de construção identitária da comunidade quilombola de Conceição das Crioulas, no sertão do Estado pernambucano, identificando as interações étnicas e as interconexões culturais de seus habitantes com a aldeia indígena Atikum. Para arrematar a temática indígena e quilombola nessa série de artigos, Luciana de Oliveira, Tonico Benites e Rui de Oliveira Neto, em pesquisa conjunta intitulada “Sacrifício e quase-acontecimento: apontamentos sobre a visibilidade da luta pela terra dos povos indígenas Guarani e Kaiowa”, apresentam o histórico de opressão e confinamento desses grupos étnicos estabelecidos na região sul-mato-grossense e como se rearticularam na contemporaneidade para expor suas recorrentes demandas, sobretudo, no que concerne ao direito aos seus territórios frente ao agronegócio. Os pesquisadores afirmam que, embora provocando intensas disputas e controvérsias, as comunidades indígenas Guarani e Kaiowa alcançaram visibilidade ao se utilizarem das mídias sociais na reprodução de narrativas, lutas e demandas referentes à preservação ambiental, demarcação de terras e autodeterminação étnica, embasadas em princípios garantidos pela carta constitucional e pelo Estatuto dos Povos Indígenas. Os pesquisadores lançam mão de atualizados dados quantitativos para demonstrar o descaso pelo direito indígena por parte do poder público, ilustrado aqui por números alarmantes e assustadores de suicídio e alcoolismo, além de violentas disputas históricas pela terra travadas com os fazendeiros do agronegócio na região do estado de Mato Grosso do Sul.

Neste número também é discutida a relação conceitual entre musealização e patrimonialização. É o que faz Janaina Cardoso de Mello no artigo “Entre a farroupilha e a redenção: negros percursos museológicos na terra do chimarrão”. A autora utiliza-se de um amplo debate acadêmico acerca das novas definições, orientações e práticas museológicas no campo patrimonial para analisar o Museu do Percurso de Porto Alegre que – entre os anos 2008 e 2011 –, foi idealizado e iniciou seus projetos em curso. Janaina Mello pontua que tal investida sintoniza-se com a atual noção de museu de território (ou museu a céu aberto ou museu de percurso) no sentido de ressignificar trajetórias e territorialidades percorridas ou apropriadas, no caso em questão, por comunidades étnicas negras africanas presentes desde a época colonial em Porto Alegre (RS). A autora afirma que a presença negra no sul do Brasil é comumente negligenciada pela historiografia regional ao se priorizar a figura do gaúcho e seus estereótipos que evidenciam o branqueamento de costumes e lugares de memória naquela parte do país.

Em seguida, os pesquisadores José Jorge Siqueira e Ignacio José Godinho, nos respectivos artigos “Modelos de desenvolvimento, economia política e a questão do negro no Brasil” e “Ações afirmativas e o horizonte normativo da democracia racial” discutem o descaso e a imobilidade do Estado brasileiro frente às políticas públicas em relação à população afrodescendente. Os autores utilizam-se de amplo suporte bibliográfico e percorrem a trajetória dos modelos econômicos nacionais – do capitalismo agroexportador ao desenvolvimentismo – e destacam como o branqueamento e o descaso com a educação e com a população ex-escrava e suas gerações posteriores foi encoberto pela internalização da suposta democracia racial, agravando os abismos de desigualdade socioeconômica no país.

O artigo “Sírios, libaneses e judeus – paradoxo entre o grupo e a nação: participação e restrição em Belo Horizonte nos anos 1930 e 1940”, produzido por Júlia Calvo e Pedro Henrique da Silva Carvalho, analisa a presença dos grupos estrangeiros que imigraram para a capital mineira e como se organizaram em associações, estilos de vida e laços de sociabilidade, além das práticas econômicas que passaram a desempenhar no comércio da cidade. Os coautores destacam que tais grupos estrangeiros se organizaram em comunidades étnicas integradas por fortes vínculos de pertencimento e solidariedade, representadas pela União Síria e União Israelita de Belo Horizonte. Os pesquisadores discutem a discriminação sofrida por esses grupos étnicos institucionalizados, através de ações repressoras do Estado brasileiro durante as décadas de 1930 e 1940.

A perspectiva étnica na conjuntura africana também é debatida neste dossiê. Danilo Ferreira da Fonseca analisa no artigo “Etnicidade de hutus e tutsis no Manifesto Hutu de 1957”, a realidade de Ruanda – país situado na região centro-oriental do continente africano –, que mergulhou em intensos conflitos internos após o processo de emancipação política frente ao domínio belga, repercutido principalmente pelo famoso genocídio ocorrido em 1994. O autor destaca o processo de pertencimento, de interação e de conflito acerca da etnicidade dessas duas comunidades ruandesas na segunda metade da década de 1950 na articulação de diferentes projetos de independência pensados para o país.

E, por fim, integra a sequência de publicações desse dossiê, a conferência de Jocélio Teles dos Santos, “Da cultura exótica à ótica das culturas”. Nesta comunicação, o pesquisador analisa o conceito de cultura a partir de suporte teórico embasado por textos de Montaigne, Voltaire e Rousseau, e destaca como tal temática da diferenciação cultural foi produzida pela imprensa, pelos viajantes e pela literatura no Brasil oitocentista.

Vale informar aos leitores e colaboradores que esse primeiro número de 2016 traz um novo projeto gráfico da revista Cadernos de História. Nesse sentido, visando atender melhor a todos os critérios de qualidade para periódicos acadêmicos, estamos nos adaptando às diretrizes colocadas pela CAPES / QUALIS, bem como passamos a utilizar as orientações da NBR 6021 / 2015 da Associação Brasileira de Normas Técnicas – ABNT, seguindo assim a recomendação da Scielo. Agradecemos mais uma vez a equipe do Setor de Revisão da PUC Minas, especialmente, aos professores Gilberto Xavier e Daniella Lopes, e aos estagiários Laila Xavier e Roberto Barcelos. Agradecemos também ao chefe do Departamento de História da PUC Minas, professor Edison Gomes, e ao diretor da Editora PUC Minas, professor Paulo Agostinho Nogueira Baptista. Agradecemos ainda aos membros do Conselho Editorial dos Cadernos de História, especialmente, aos professores Virgínia Maria Trindade Valadares e Rafael Pacheco Mourão. Ressaltamos que todas essas pessoas foram importantíssimas para tornar possível essa publicação.

Portanto, através dos artigos aqui publicados, os Cadernos de História ratificam ser um amplo espaço de discussão acadêmica que contribui com o diálogo transdisciplinar ao reunir nesse número instigantes pesquisas sobre História e Etnicidade. Desejamos a todos uma boa leitura!

Marcelo de Araújo Rehfeld Cedro – Doutor em Ciências Sociais pela Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais (PUC Minas). Professor do Departamento de História da PUC Minas. Editor Gerente dos Cadernos de História.


CEDRO, Marcelo de Araújo Rehfeld. Apresentação. Cadernos de História. Belo Horizonte, v.17, n.26, 2016. Acessar publicação original [DR]

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História e ativismo / Cadernos de História / 2015

Os movimentos de rua no Brasil foram cruciais para a definição do Dossiê Ativismo e História, em especial, os movimentos de junho de 2013. Cumprindo a função de provocar abordagens sob os mais peculiares olhares, foi possível selecionar textos de mérito acadêmico sobre variados objetos (minorias, elites, trabalhadores e marginalizados), perspectivas (ideológicas, Estado e sociedade) e períodos (séculos XVII, XX e XXI). Os artigos analisam manifestações políticas de ampla militância e de múltiplas demandas no Brasil e em Portugal: são experiências de conflitos coletivos entre marginalizados e elites, nações e rebeldes, trabalhadores e proprietários, colonizadores e escravos, ou são estratégias de alianças políticas ou lutas pelo poder. O elemento coletivo está presente em todos os casos analisados pelos autores, mesmo que manifestado em vivências particulares, as ações e estratégias foram motivadas pela política, na defesa de posições econômicas, territoriais, sociais e culturais.

Abre o Dossiê o artigo escrito por Adalberto Paz, Além do equador, entre “hordas de selvagens”: frentes de ocupação, trabalho e redes de contatos no extremo norte amazônico oitocentista. O texto trata do contestado franco-brasileiro no final do século XIX no Amapá. Nesse contexto, o autor analisa a trajetória de duas personalidades emblemáticas: Francisco Xavier da Veiga Cabral e Trajano Cypriano Bentes. O segundo artigo busca compreender as correspondências entre o Integralismo Lusitano, liderado por Antônio Sardinha, o Nacional Sindicalismo de Rolão Preto e a ditadura de Salazar. Com o título Integralismo Lusitano e Nacional Sindicalismo: movimentos de extrema-direita e contato com ditaduras em Portugal (1913-1932), o texto de Felipe Azevedo Cazapetta analisa os jogos de poder e de interesse entre os movimentos de extrema-direita e os regimes de ditadura em diferentes momentos da história de Portugal. O artigo seguinte trata das relações de poder entre militares, elite local e comunistas no 4º Batalhão de Sapadores de Aquidauana em Mato Grosso do Sul, no interior do Brasil. Este é o objeto de estudo de Vitor Wagner Neto de Oliveira, no artigo Articulações comunistas em Mato Grosso (1935).

Os dois artigos subsequentes analisam experiências recentes da história do Brasil, reflexos das mudanças políticas e sociais ocorridas no país e exemplos do dinamismo dos movimentos sociais. Entre a história e o luto: o ativismo de familiares de vítimas da ditadura militar no Brasil e O Movimento Lésbico em Fortaleza – LAMCE: trajetória e ações de luta, escritos, respectivamente, por Mayara Paiva de Souza e Cláudia Freitas de Oliveira, ambos tratam do início do século XXI e refletem aspectos importantes da história do tempo presente. Mayara Souza aborda a luta pela memória travada por mães em busca de seus filhos mortos no Regime Militar de 1964. Cláudia Oliveira trata em seu artigo sobre as bases, articulações e ações políticas do movimento ativista surgido em Fortaleza, em abril de 2004, denominado LAMCE, Liberdade do Amor entre Mulheres no Ceará.

A temática “trabalho” fecha o Dossiê Ativismo e História, presente em quatro artigos dessa edição. Essa série inicia-se com o texto Revolta indígena no Engenho de Santana na Capitania de Ilhéus: o Atlântico Açucareiro e o trabalho indígena (1602), de Maria Hilda Baqueiro Paraíso. A autora destaca o elemento coletivo nos casos das rebeliões de indígenas escravizados no Engenho de Santana na Bahia durante o século XVI, isso sob o prisma da resistência política, marcada por “relações étnicas conturbadas, prenhes de negociação e de confrontos simbólicos e físicos”. O artigo seguinte, Uma perspectiva teórica para a interação entre sujeito e estrutura nos estudos sobre o movimento operário, de Cézar Augusto Bubolz Queirós, busca abordar teoricamente as relações no mundo do trabalho. O penúltimo artigo, intitulado “Informar” para “formar” – reflexões sobre a imprensa e militância no mundo do trabalho brasileiro, na Primeira República, analisa os jornais militantes do movimento operário nas primeiras décadas do século XX no Brasil. Nesse sentido, Isabel Aparecida Bilhão estuda o caso da imprensa de Porto Alegre e procura mostrar o processo de naturalização através da repetição do discurso. O artigo Instituições para a acção colectiva numa perspectiva histórica: mutualismo nos subúrbios industriais lisboetas (1890-1930) conclui o Dossiê. Nesse estudo, a autora Joana Dias Pereira salienta a receptividade e grandiosidade da associação de socorro mútuo português, considerando o legado corporativo das associações mutualistas como modelo de transição do capitalismo pré-industrial para o industrial.

A partir dos pressupostos da interação ensino e pesquisa, da interdisciplinaridade e da socialização do conhecimento, esperamos que este número possa representar uma contribuição relevante para a comunidade acadêmica.

Agradecemos mais uma vez as professoras Daniella Lopes e Priscila Campello e sua equipe do Setor de Revisão, ao trabalho gráfico de Leandro Abreu, e aos funcionários do Centro de Memória e de Pesquisa Histórica da PUC Minas que tornaram possível essa publicação.

Mário Cléber Martins Lanna Júnior – Professor Doutor

Marcelo de Araújo Rehfeld Cedro – Professor Doutor


LANNA JÚNIOR, Mário Cléber Martins; CEDRO, Marcelo de Araújo Rehfeld. Editorial. Cadernos de História. Belo Horizonte, v.16, n.24, 2015. Acessar publicação original [DR]

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20 anos dos Cadernos de História: periódicos, pesquisa histórica e divulgação científica / Cadernos de História / 2015

É com grande contentamento e intensa euforia que publicamos a edição comemorativa dos 20 anos dos Cadernos de História. Revista científica fundada no ano de 1995, atualmente vinculada ao Departamento de História e ao Centro de Memória e Pesquisa Histórica da PUC Minas, que por sua qualidade vem atraindo um número expressivo e crescente de submissões, acessos, usuários e leitores cadastrados.

Para marcar esta data especial, em alusão a trajetória da revista, apresentamos a nota histórica Cadernos de História PUC Minas: vinte anos de um projeto em construção. Elaborada pela professora Heloisa Guaracy Machado, idealizadora e abnegada colaboradora dos Cadernos de História, em parceria com o Editor Adjunto Rafael Pacheco Mourão, responsável pelo processo técnico, pela editoração e por outras etapas até a publicação final da revista. Os historiadores apresentam relevantes informações, direcionamentos seguidos, decisões tomadas e dados estatísticos, ao percorrer objetivamente as fases da revista, mas sem perder a perspectiva memorialística, retomar certas situações e prestar deferência a outras pessoas cuja contribuição foi fundamental para a continuidade dos trabalhos deste periódico. Fato é que o tempo em que Heloisa Guaracy Machado esteve à frente como Editora Gerente se confunde com a própria história dos Cadernos de História. O mesmo se aplica ao Editor Rafael Pacheco Mourão, que além de suas atividades no Centro de Memória, dedica-se com afinco no campo editorial dos Cadernos de História e presta consultoria para outros periódicos da instituição.

Em seguida, trazemos uma seção específica reunindo artigos voltados ao papel desempenhado pelos periódicos científicos no campo acadêmico. No primeiro artigo, de Miguel Ángel Márdero Arellano e Maria de Fátima Duarte Tavares, intitulado Preservação do patrimônio científico das humanidades: a emergência da Rede Cariniana, os autores apresentam as transformações e as novas demandas sofridas pelas revistas científicas nas últimas décadas ao adaptarem suas publicações às plataformas digitais. Os pesquisadores elencam as ferramentas estratégicas utilizadas no processo de editoração eletrônica no país diante do propósito de assegurar credibilidade aos periódicos científicos e o respectivo reconhecimento na comunidade acadêmica. Diante disso, os autores abordam especificamente a Rede Brasileira de Serviços de Preservação Digital – CARINIANA, iniciativa oficial vinculada ao instituto de pesquisa do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação, cujo objetivo é a produção e socialização de sistemas de informação e, portanto, a preservação de periódicos eletrônicos em curso no Brasil.

Os artigos seguintes, O Guayba: o papel do jornalismo literário na formação dos jovens sul-grandenses em Porto Alegre (1856-1858) e Como ler uma revista ilustrada? Proposta metodológica para o estudo dos periódicos ilustrados publicados no Brasil oitocentista, dos respectivos autores, Carla Renata Antunes de Souza Gomes e Guilherme Elias de Figueiredo, alinham-se as interpretações sob o bojo da história cultural em suas práticas e representações ao analisar discursivamente periódicos e revistas publicadas no Brasil oitocentista. O texto de Carla Renata Antunes de Souza Gomes investiga o compartilhamento de ideias e aspirações de grupos letrados da capital da província do Rio Grande do Sul através da leitura do O Guayba, periódico literário que circulou durante a segunda metade do século XIX na cidade de Porto Alegre. Já o artigo de Guilherme Elias Figueiredo tem o propósito de ampliar metodologicamente os horizontes interpretativos sobre as ilustrações que integram as publicações impressas, favorecendo o diálogo entre o texto e as imagens contidas nas revistas ilustradas.

O artigo Na trilha do Monde Diplomatique: intelectuais, imprensa e perspectiva crítica, de autoria de Juliana Sayuri Ogassawara, também se alinha às publicações desta primeira seção dedicada aos estudos sobre as possibilidades de leitura, de metodologia e de procedimentos técnicos voltados aos impressos periódicos. Em sua pesquisa, a pesquisadora cerca-se de amplas fontes coletadas em língua francesa com o objetivo de analisar o suplemento periódico diplomático francês Le Monde, notabilizado por priorizar a temática das relações internacionais. Fundamentada pela história política, intelectual e do tempo presente, Juliana Sayuri Ogassawara analisa as categorias discursivas do periódico a partir da trajetória e do direcionamento de sua linha editorial em distintas conjunturas históricas do jornal.

A primeira seção é finalizada com o artigo de Adriana Angelita da Conceição, Entre o ofício e a amizade: o discurso epistolar do vice-rei 2º marquês do Lavradio no século XVIII. Neste trabalho não são os periódicos o ponto central de sua pesquisa, mas sim as correspondências remetidas pela monarquia portuguesa, em especial pelo vice-rei do Estado do Brasil, D. Luís de Almeida. A autora segue a trajetória metodológica nos trabalhos aqui apresentados ao analisar as categorias discursivas presentes nas cartas epistolares, considerando-as importantes ferramentas do governo, ao possibilitar que ordens e demais demandas administrativas pudessem ser atendidas em âmbito local e além-mar.

A presente edição conta também com a nota de pesquisa A preservação de acervos históricos no Estado de Minas Gerais: Projeto Memorial da Imprensa de Uberaba – criação da hemeroteca digital do Triângulo Mineiro e Alto Paranaíba, dos pesquisadores Vilma Moreira Santos, Thiago Veloso Vitral e Alessandra Palhares. Nesse sentido, destaca-se a importante iniciativa em reunir, organizar, catalogar e preservar o patrimônio documental, ação louvável que certamente irá contribuir para futuras pesquisas.

Em seguida, com a finalidade de contemplar o propósito abrangente e plural da revista, segue-se a seção destinada a temática livre. Os autores Norberto Tiago Gonçalves Ferraz e Fernanda Fioravante Kelmer Mathias lançam múltiplos olhares sobre o século XVIII em valiosas pesquisas arquivísticas. O primeiro, no artigo Os legados pios perpétuos confraternais na cidade de Braga no século XVIII, pesquisa nesta localidade portuguesa setecentista as doações para celebração de missas e outros serviços post mortem encomendados pelo testador para o bem de sua alma e de seus familiares. Esses legados pios estiveram vinculados às confrarias bracarenses que se encarregaram da manutenção, reprodução e contemplação aos titulares de direito e suas respectivas gerações. Já Fernanda Fioravante Kelmer Mathias, em seu artigo Estudo comparativo das receitas das câmaras de Vila Rica e Vila de São João del-Rei, 1719-1750, estuda a realidade setecentista do ambiente das Minas Gerais. A pesquisadora analisa sistematicamente os orçamentos de dois importantes núcleos urbanos mineradores do período colonial através das receitas arrecadatórias de suas câmaras municipais.

Os artigos seguintes também pesquisam o ambiente das Minas Gerais, porém, destacam o contexto histórico oitocentista em distintas temporalidades e realidades. João Lucas Rodrigues, autor de O parentesco escravo nas terras da família Maia: sul de Minas, 1811 a 1860, analisa a construção das relações familiares e das alianças de compadrio em tradicional família daquela localidade. Em outro artigo intitulado Identidade, modernidade e escrita eclesiástica em tempos de Reforma Ultramontana, Tiago Pires fundamenta-se no estudo de categorias discursivas e identitárias para analisar as narrativas de fé na escrita eclesiástica da Diocese de Mariana no período de 1855 a 1902. Complementando os estudos sobre o século XIX, publicamos o trabalho de José Alberto dos Santos Marques, Emigração portuguesa para o Brasil nos fins do século XIX, que lança mão de rico acervo documental do Fundo do Governo Civil de Lisboa para analisar as motivações e os vínculos estabelecidos no processo de imigração portuguesa em terras brasileiras.

Integram ainda a edição artigos que destacam o Brasil contemporâneo. O trabalho de Lara Vanessa de Castro Ferreira, intitulado Políticas anti-migratórias e ativismo “retirante”: tessituras entre trabalho e migração nas obras públicas em tempos de secas no Ceará (década de 1950), pontua que os retirantes nordestinos atuaram como protagonistas em frentes de trabalho das obras estruturais promovidas pelo poder público de combate a seca naquela região do país. Já o texto Norte de Goiás: terra de esperança, conflitos e frustrações, de autoria de Carlos Alberto Vieira Borba, apresenta os conflitos agrários resultantes do descompasso entre demanda e acesso a terra no norte goiano durante os anos 1950-60, tendo em vista a ocupação territorial estimulada pela campanha do governo federal “Marcha para o Oeste” a partir da década de 1940. Finaliza esta seção o artigo de Reginaldo Cerqueira Sousa, Práticas de esporte, educação física e educação moral e cívica na Ditadura Militar: uma higiene moral do corpo. O pesquisador retoma a temática do período do governo militar no país a partir do estudo das bases de apoio ao regime ditatorial, destacando-se a reestruturação do ensino como estratégia governista direcionada a juventude para a constituição do ideário nacionalista baseado nas práticas esportivas e na educação moral e cívica.

Encerrando o número, temos a tradução Modernolatria, realizada por Júlio Bernardo Machinski. Trata-se da tradução do capítulo central do livro Modernolatria et Simultaneità: recherches sur deux tendences dans l’avant-garde littéraire en Italie et en France à la veille de la première guerre mondial, do historiador sueco Pär Bergman. Tradução inédita do pioneiro estudo clássico sobre as tendências do movimento futurista no início do século XX, originalmente publicado em 1962. A nosso ver essa tradução será de grande valia para os historiadores das artes, dos movimentos culturais e das ideias estéticas.

Agradecemos ainda as pessoas que tornaram possível essa publicação: a equipe do Setor de Revisão, especialmente, Daniella Lopes, Priscila Campello e Laila Xavier; a equipe do Setor de Periódicos da Biblioteca Pe. Alberto Antoniazzi, sobretudo, Alda Verônica Goes e Roziane Michielini; o excelente trabalho gráfico de Leandro Abreu; o suporte cotidiano dos funcionários e estagiários do Centro de Memória e de Pesquisa Histórica da PUC Minas; e por fim, o apoio do Chefe do Departamento de História da PUC Minas, Edison Gomes, e dos professores do Colegiado do Curso de História, Jacyra Antunes, Cristiano Garotti e Julia Calvo.

Por conta desta edição comemorativa, ultrapassamos a extensão usual dos editoriais dos Cadernos de História. Entendemos que o volume 16, número 25, apesar de constituir uma edição comemorativa, conseguiu, por um lado, evitar o excesso memorialista sem deixar de prestar homenagens aos editores e colaboradores da revista, comissões editoriais e equipes técnicas, e por outro, manter a proposta da revista em apresentar instigantes discussões promovidas pelos pesquisadores que aqui enviaram suas contribuições para esta publicação. Parabéns Cadernos de História!

Marcelo de Araújo Rehfeld Cedro – Professor doutor. Editor Gerente dos Cadernos de História da PUC Minas.


CEDRO, Marcelo de Araújo Rehfeld. Editorial. Cadernos de História. Belo Horizonte, v.16, n.25, 2015. Acessar publicação original [DR]

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50 anos do golpe civil-militar no Brasil / Cadernos de História / 2014

É com enorme satisfação que publicamos esta edição temática de Cadernos de História com a apresentação do Dossiê 50 anos do golpe civil-militar no Brasil. Os artigos que compõem este número da revista alinham-se às intensas discussões retomadas no meio acadêmico – e também fora dele – do autoritário e sombrio período da história brasileira. Por conta dessa efeméride, diversificadas releituras daquela conjuntura foram realizadas e registradas em inúmeras publicações, conferências, palestras, seminários, produções e exibições cinematográficas, depoimentos memorialísticos e documentos revelados. O presente dossiê é parte desse movimento de direito e dever da memória coletiva, a contribuição dos Cadernos de História para a reflexão crítica sobre a história brasileira recente.

O comício proferido pelo presidente João Goulart, realizado no dia 13 de março de 1964, foi um fato marcante nos desdobramentos do cenário de crise política e de tensão social anterior ao golpe civil-militar. Ao priorizar a realidade carioca daquela conjuntura, o artigo “O Comício da Central: o Rio de Janeiro de Jango”, de Demian Bezerra de Melo, apresenta os bastidores do evento, suas iniciativas de realização, as lideranças e os movimentos organizadores, os dias antecedentes, as repercussões da imprensa local e as reações do poder público estadual diante da surpreendente aglomeração de aproximadamente 200 mil pessoas no entorno da Central do Brasil. Esse episódio alarmou ainda mais os setores conservadores da sociedade brasileira provocando contraofensivas que integraram o conjunto de ações para a deflagração do golpe civil-militar.

Os respectivos artigos de Rodrigo José da Costa e Paulo Giovanni Antonino Nunes, “Do comício que não houve à marcha da vitória” e “Golpe civil-militar e repressão no imediato pós-golpe”, analisam as forças políticas e sociais atuantes naquele período, a repressão do poder público aos movimentos opositores e as repercussões da deposição de Jango percebidas nos Estados de Alagoas, Paraíba e Minas Gerais.

A repressão do regime militar é ilustrada no artigo de Carla Reis Longhi, “Vigilância e visibilidade – estratégias da ditadura civil-militar”, no qual a historiadora realiza ampla pesquisa no acervo do Departamento Estadual de Ordem Política e Social (DEOPS) do Estado de São Paulo. Prontuários, atestados, encaminhamentos, solicitações de busca e matérias jornalísticas eram alguns dos documentos que compunham o material arquivado pela instituição no propósito de coletar informações sobre supostos suspeitos e transgressores ao governo militar. Nesta perspectiva, alinha-se o artigo “Os intelectuais da Escola Superior de Guerra e a vitória do ocidente”, escrito por Luiz Claudio Duarte, em que o autor investiga as narrativas reproduzidas pela intelectualidade civil e militar envolvida com a Escola Superior de Guerra, instituição brasileira coadunada aos pressupostos da Doutrina de Segurança Nacional e ao ideário internacional da Guerra Fria.

O artigo “Vida em abundância, saúde para todos”, de Marilane Machado, analisa a ação de instituições leigas de orientação religiosa, as Pastorais Católicas, que exerceram importante papel de resistência. Em oposição aos setores conservadores do alto clero, a Pastoral da Saúde denunciava as desigualdades socioeconômicas intensificadas pelo regime militar, configurando-se em movimentos sociais alinhados à Teoria da Libertação latino-americana. Marilane Machado analisa a realidade catarinense dos anos 1980, através do envolvimento da Pastoral Católica com o Centro de Estudos em Saúde de Florianópolis, no sentido de pleitear junto ao poder público local a ampliação do direito à saúde aos menos favorecidos socialmente.

Integram ainda o Dossiê, os artigos “50 anos do Golpe Militar / 35 anos da Lei de Anistia” e “Brasil: 1964-2014, uma comemoração possível”, de autoria das pesquisadoras Heloísa Amélia Greco e Maria Aparecida de Aquino. Ambos discutem acerca da transição política pactuada no Brasil, ao destacarem que a Lei da Anistia, promulgada em 1979, representou a construção do esquecimento no país em relação às arbitrariedades praticadas durante o regime militar, tanto por parte das lideranças do regime quanto pelos grupos guerrilheiros opositores. Neste sentido, Greco e Aquino dialogam com a memória e sugerem releituras críticas acerca dessa legislação, com o propósito de revelar e condenar atos praticados pelos torturadores.

Nessa ótica, entendemos que os Cadernos de História contribui para a comunidade acadêmica e para as propostas de pesquisa e de ensino ao integrar as oportunas releituras deste passado recente da história nacional, apresentando discussões instigantes e abrangentes sobre a temática do golpe civil-militar.

Mário Cléber Martins Lanna Júnior – Professor Doutor. Editor Gerente dos Cadernos de História da PUC Minas.


LANNA JÚNIOR, Mário Cléber Martins. Editorial. Cadernos de História. Belo Horizonte, v.15, n.22, 2014. Acessar publicação original [DR]

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História e Memória / Cadernos de História / 2013

O Brasil não tem memória (?).

Trata-se de uma afirmação recorrente, já cristalizada no imaginário nacional. Não obstante, observa-se que essa realidade vem sendo modificada nas últimas décadas, com a crescente valorização da memória institucional, através da criação progressiva dos centros de memória em todo o país. Em Belo Horizonte esse quadro resultou na inauguração da Rede dos Centros de Memória de Minas Gerais – REMIG, que reúne, em caráter informal, várias instituições voltadas para o propósito de trocar experiências nessa área. Assim, um dos artigos do presente número dos Cadernos de História da PUC Minas, dedicado ao tema da memória e da história, descreve a sua criação e funcionamento, sob o título “Cooperação e preservação: a história da Rede Memória das Instituições de Minas Gerais – REMIG”. Assinam o texto duas de suas idealizadoras, Isabella Carvalho de Menezes e Ana Maria Matta Machado Diniz, coordenadoras, respectivamente, do Centro de Memória da Fundação Arcelor Mittal Brasil e do Centro de Memória da Justiça do Trabalho em Minas Gerais (TRT), além do Professor Daniel Botelho Rabelo, também do TRT.

Outro indicativo dessa valorização é o expressivo acervo de contribuições, de significativa qualidade e substância, encaminhadas para publicação: artigos, comunicações e depoimentos. A multiplicidade dos trabalhos, das abordagens, dos órgãos envolvidos – públicos e privados – e dos especialistas – juízes, professores, profissionais da ciência da informação, entre outros – são exemplares dessa auspiciosa tendência. Alguns dos textos foram elaborados a partir das discussões travadas durante o II Seminário Memória e Informação nas Instituições, em 2009, no âmbito das comemorações dos vinte anos do Centro de Memória e História da PUC Minas, em parceria com o Departamento de História e a REMIG.

Os artigos iniciais, dentre os sete incluídos, abordam o gerenciamento da documentação aplicado aos órgãos públicos. O primeiro, “Gestão de documentos arquivísticos eletrônicos: o caminho percorrido pela administração pública brasileira”, examina a implementação do sistema na Câmara dos Deputados. O segundo, “Gestão documental e resgate da memória na Justiça do Trabalho: preservação documental é direito do cidadão e dever do Estado”, aponta para a necessidade de investimentos em políticas de gestão e preservação documental nas instituições públicas brasileiras, à luz da experiência desenvolvida no órgão.

Os demais (excluindo o artigo já mencionado sobre a REMIG), abordam casos específicos no tratamento da memória e da educação patrimonial: a implantação do “Centro Inhotim de Memória e Patrimônio – CIMP”; os instrumentos da organização de um acervo pessoal, “A Biblioteca do Mestre: Coleção Arduíno Bolivar”; o relato de uma experiência pedagógica, “Programa de erradicação do trabalho infantil: projeto socioeducativo ‘Educar nos Museus’ na cidade de Vespasiano-MG”; e, finalmente, o exame de um documento fotográfico como lugar de memória, “Exposição de si”.

Na modalidade seguinte, temos duas comunicações sobre a memória institucional envolvendo dois patrimônios expressivos da cidade, a CEMIG e o Minas Tênis Clube – respectivamente, “Pensar pra frente, fazer pro mundo!” e “Programa de Requalificação do Centro de Memória Brenno Renato: desafios e perspectivas”.

Por último, mas não menos importante, encontram-se cinco depoimentos. Um deles analisa também a “Educação patrimonial – uma abordagem empírica, didática e criativa”, relativamente ao Instituto Estadual do Patrimônio Histórico e Artístico de Minas Gerais – IEPHA / MG. O outro, “Centros de Memória Institucionais: métodos, procedimentos, ferramentas e tecnologia”, versa sobre questões de ordem prática, voltadas para os afazeres administrativos e o atendimento aos usuários dos Centros de Memória. Os três restantes articulam a experiência acadêmica com a memória institucional da PUC Minas: “Memória Preservada: a trajetória do DCE PUC Minas através de documentos”; “No meio do Caminho tinha um Centro de Memória”; e “Iniciação cientifica no CMPH e as escolhas profissionais”.

Esperamos que este número possa representar uma contribuição relevante dos Cadernos para a comunidade acadêmica, segundo os pressupostos da interação ensino, pesquisa e extensão, da interdisciplinaridade e da socialização do conhecimento.

Heloisa Guaracy Machado – Professora Doutora. Editora-gerente dos Cadernos de História da PUC Minas.


MACHADO, Heloisa Guaracy. Editorial. Cadernos de História. Belo Horizonte, v.14, n.20, 2013. Acessar publicação original [DR]

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Ensino de História / Cadernos de História / 2011

Ampliar os espaços para divulgação sobre o ensino de História em publicações vinculadas ao campo da História representa importante conquista para a historiografia e para os historiadores interessados na associação ensino e pesquisa. Assim, o dossiê “Ensino de História”, no presente número dos Cadernos de História PUC Minas, contribui para o aprofundamento dos debates sobre ensino de História em diferentes níveis. A diversidade de temas e de aportes teórico-metodológicos encontrados nos oito textos incluídos neste dossiê refletem algumas tendências atuais das pesquisas sobre o ensino de História, evidenciando a profícua relação entre os interesses dos pesquisadores e as demandas que emergem da prática social, com especial atenção para o contexto escolar e a prática pedagógica.

Uma dessas importantes demandas, referente aos estudos de história e cultura africana e afro-brasileira – tornados conteúdos obrigatórios da Educação Básica pela atual legislação educacional brasileira, sobretudo as Leis 10.639/03 e 11.645/08 – é tema de dois artigos. Em “A Lei 10.639/03 e o movimento negro: aspectos da luta pela ‘reavaliação do papel do negro na história do Brasil’”, Amilcar Araújo Pereira mostra evidências de como a questão da educação e do reconhecimento do protagonismo negro na história do Brasil fez parte da pauta de reivindicações das organizações negras no século XX. Para ele, a publicização desse fato, além de favorecer a compreensão do processo que resulta na promulgação da Lei 10.639/03, pode contribuir para sua efetiva implementação por aqueles que seriam os “agentes da lei”: as escolas e seus professores. No artigo “Ensino de História e a Lei 10.639/03: diálogos entre campos de conhecimento, diretrizes curriculares e os desafios da prática”, Lorene dos Santos se propõe a elucidar aspectos da interface entre a produção acadêmica, a referida Lei, suas Diretrizes Curriculares correlatas e o ensino de história, procurando situar a complexa variedade de temas, questões, conceitos e polêmicas que têm permeado as diferentes instâncias de produção, tornando o processo de recepção à Lei 10.639/03 extremamente desafiador, exigindo especial atenção aos processos de formação docente.

Também exigindo novos esforços de pesquisa no campo do ensino de História é a relação de professores e estudantes com as chamadas “Tecnologias de informação e comunicação” – TIC. O artigo “Colaboração em ambientes de comunicação assíncrona: uma estratégia para o desenvolvimento profissional de professores de História”, de Andreia Assis, analisa o processo de formação e consolidação de um grupo colaborativo, de professores de história de uma escola da rede pública, mediado por estas tecnologias. A autora reúne evidências de como o desenvolvimento profissional desses professores pode ser potencializado por meio dessa estratégia. Abordando tema similar, o trabalho de Frederico Assis Cardoso e Marina Amorim, “A História a um clique: as tecnologias da informação e da comunicação, os documentos em suporte não-convencionais e o ensino de história”, analisa certos impactos das TIC em diferentes esferas da vida social, incluindo as escolas e seus professores, e destacando a contribuição que podem ter no desenvolvimento das aprendizagens escolares em História.

Em sintonia com novas tendências da pesquisa historiográfica, as investigações sobre o ensino de História têm se pautado, ainda, pela ampliação dos diálogos interdisciplinares. No artigo de Luiza Teixeira, vemos incluída a vertente sociocultural articulada à teoria da enunciação de Bakhtin, dando suporte à análise das interações discursivas em uma aula de História e procurando evidenciar como o discurso e a interação em sala de aula são peça chave para a compreensão do processo ensino-aprendizagem entre uma professora e os alunos. Já no estudo de Marco Antônio Silva acerca da relação entre ensino de História e as práticas de leitura e letramento, o autor chama atenção para uma nova realidade escolar, que tem exigido fortes investimentos no ensino da leitura e escrita ao longo de toda a escolaridade, o que impacta diretamente o trabalho dos professores de História nos anos finais do Ensino Fundamental, convocados a assumir responsabilidades com essa prática.

O ensino de História nos anos iniciais do Ensino Fundamental é o tema abordado por Araci Coelho Rodrigues, que analisa os usos e apropriações do livro didático de história pelas professoras. Por meio de diálogos entre os campos do Ensino de História e da Sociologia da Educação, utilizando-se da categoria analítica “saberes e práticas docentes”, a autora busca traçar um perfil pessoal e profissional das professoras investigadas. No artigo “Saberes escolares, arte e narrativas nas escritas dos vestibulandos”, Silvia Rachi apresenta análises sobre as narrativas construídas por vestibulandos a partir de duas representações iconográficas da figura de Tiradentes, apresentadas no vestibular da UFMG, buscando compreender como o processo de educação escolar participa da construção de uma “memória histórica oficial”.

Ao apontar para a complexidade das questões sobre o ensino de história, este dossiê reafirma o compromisso da História e dos historiadores com a História que se produz e se faz circular em diferentes espaços da vida social, incluindo as escolas de educação básica.

Lorene dos Santos – Doutora Professora do Programa de Pós-Graduação em Educação da PUC Minas.


SANTOS, Lorene dos. Editorial. Cadernos de História, Belo Horizonte, v.12, n.17, 2011. Acessar publicação original [DR]

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Idade Média / Cadernos de História / 2010

EDITORIAL

Os Cadernos de História PUC Minas, cumprindo o seu objetivo de promover o diálogo ininterrupto entre os variados campos das Ciências Humanas e Sociais, além de contribuir para a divulgação da produção científica, apresenta à comunidade acadêmica o Dossiê Idade Média. Composto de seis artigos inseridos em um recorte cronológico correspondente ao Medievo Central (séculos XI a XIII) e à Baixa Idade Média (XIV e XV), apresenta certa diversidade temática que pode ser reunida em dois conjuntos geohistóricos denominados, à maneira dos hispânicos, de “além-Pireneus” e “aquém-Pireneus”.

No primeiro conjunto e, encabeçando os trabalhos, está o artigo “Catolicismo e catarismo, um choque entre mitologias”, do renomado medievalista Hilário Franco Júnior. Tendo como pano de fundo o aspecto religioso, extrapola as perspectivas mais usuais, teológica, ideológica e social, sobre o catarismo, para analisá-lo no viés inovador do entrelaçamento mítico-litúrgico-ideológico da religião cristã, dando sequência às suas publicações mais recentes sobre o tema.

Situado no mesmo campo espaciotemporal está o quarto artigo, “Sistemas rituais do processo matrimonial no medievo europeu ou sistemas generificados de controle social”, de Rejane Barreto Jardim. Sua análise discute a possibilidade dos ritos de noivado, casamento e do charivari constituírem-se em formas de controle social da
sexualidade, num complexo sistema de relações de Gênero, os quais, no seu conjunto, correspondem às manifestações das diferentes camadas sociais.

Os demais artigos deslocam-se para o território de aquém-Pireneus – conforme a nomenclatura aqui adotada –, ou seja, para o âmbito particular da Península Ibérica e sua singularidade histórica, examinando questões ligadas, principalmente, a outro importante tópico medieval: a guerra.

Assim, o segundo artigo, “Assimilação do grupo moçárabe após a conquista de Toledo no século XI: questões a discutir”, de Renata Rodrigues Vereza, busca a articulação entre os aspectos sociais, políticos e religiosos no Reino de Leão e Castela, através da análise da condição dos moçárabes sob os dominadores islâmicos. Nesse
sentido, traz à tona nuances da comunidade cristã do centro-sul e suas especificidades decorrentes da presença cultural árabe, se comparadas às populações dos reinos do norte ibérico, com uma organização integralmente identificada com a antiga tradição cristã e visigoda.

Tendo o mesmo reino como cenário, o sexto artigo, “Reconquista cristã. Guerra e religiosidade no cancioneiro mariano afonsino”, de Heloisa Guaracy Machado, aborda o fenômeno bélico subsumido aos imperativos da religião cristã. A análise tem como ponto de partida a cantiga n. 169, que integra a literatura piedosa do rei Afonso X, o Sábio, na representação dos aspectos da Reconquista, colocados sob a ótica da história da salvação.
Já o terceiro artigo, “Uma escrita do passado centrada nas guerras”, de Susani Silveira Lemos França, examina as imagens da guerra, no Reino de Portugal, construídas pelos cronistas locais, sobretudo os atributos políticos e sociais do fenômeno tal como aparecem nas histórias da época.

Por último, mas não menos importante, o aspecto social é privilegiado no artigo cinco, “Tu fust’la Verga, el tu fijo la flor: Gonzalo de Berceo e a infância medieval”, de Augusto de Carvalho Mendes, que examina a visão sobre a infância a partir de fontes literárias no âmbito castelhano. Somando-se às contribuições trazidas pelos demais
trabalhos, o texto em questão projeta nova luz à história da família, em franco crescimento como objeto de estudo, ao problematizar uma concepção cristalizada sobre a suposta desvalorização da criança, na época, consolidada pela conhecida tese de Philippe Ariès sobre o tema.

Heloisa Guaracy Machado – Professora Doutora. Editora-gerente dos Cadernos de História PUC Minas


MACHADO, Heloisa Guaracy. Editorial. Cadernos de História. Belo Horizonte, v.11, n.14, 2010. Acessar publicação original [DR]

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América Latina / Cadernos de História / 2008

Os Cadernos de História estão inseridos em um projeto político-pedagógico do Departamento de História da PUC Minas, que concebe os campos do ensino, da pesquisa e da extensão como um elo indissociável na cadeia de produção, distribuição e socialização do conhecimento. Sua proposta é servir de veículo na divulgação do conhecimento científico, relativo às temáticas históricas e afins ‒ como a Antropologia, a Filosofia, Pedagogia, a Sociologia e a Literatura ‒, de acordo com as tendências teórico-metodológicas atuais. Isso pressupõe um horizonte interdisciplinar, que busca somar diferentes perspectivas em uma visão de conjunto da realidade e alimentar a reflexão permanente sobre os desafios apresentados pelas sociedades contemporâneas.

Depois da experiência de quase quinze anos das publicações impressas, os Cadernos de História apresentam sua nova versão eletrônica que, além de cumprir com uma exigência dos órgãos nacionais de fomento à pesquisa, viabilizam a publicação dos textos científicos, ao reduzir, em grande medida, os custos operacionais inerentes ao processo de editoração, mantendo ainda o padrão de excelência exigido.

Tendo esses pressupostos em vista, o presente número reúne trabalhos de diversas procedências e conteúdos. Os três primeiros artigos, reunidos no Dossiê América Latina, consistem em desdobramentos de palestras realizadas na PUC Minas, durante Seminário sobre o tema. Dois deles abordam questões bastante comentadas, o populismo e a teologia da libertação, dando-lhes, no entanto, uma roupagem original e bastante esclarecedora. O terceiro examina um assunto menos ventilado, mas de forma não menos esclarecedora, relativo à valorização e o resgate da cultura andina.

Os demais artigos versam sobre matérias distintas, na perspectiva da História cultural: o quarto, sobre uma das suas maiores expressões, o cinema, através da tradição americana dos Looney Toones e o quinto, traz uma das problematizações mais atuais no campo da historiografia, examinando as relações entre cultura e natureza, nas representações literárias do semiárido brasileiro. O sexto artigo sistematiza um conjunto de estudos e reflexões empreendidos pela equipe do Cefor PUC Minas, na construção de propostas e ações no âmbito da formação continuada de professores da Educação Básica. Fechando o número, está a nota de pesquisa relativa ao trabalho conjunto de professores do Departamento de História sobre a digitalização e disponibilização dos acervos paroquiais da rota da Estrada Real.

Espera-se, desse modo, atender à expectativa dos leitores e, ao mesmo tempo, aprimorar cada vez mais este espaço de reflexão. Nesse sentido, são muito importantes as contribuições dos nossos pares, seja através de sugestões, seja através dos seus artigos, a serem encaminhados à Revista.

Finalizo com os agradecimentos àqueles cujo empenho possibilitou essa publicação, confirmando a minha fé no trabalho em equipe: ao Professor Paulo Agostinho, pela liderança natural no processo de criação do formato eletrônico; ao Professor Edison Gomes, o trabalho contínuo de revisão, na qualidade de Editor da Revista; ao Técnico de Laboratório do Centro de Memória de Pesquisa Histórica, Leandro Pereira de Abreu, pelo apoio técnico; ao estagiário Rafael Pacheco Mourão, pela implantação do novo formato e a diagramação da revista; ao Colegiado do Departamento de História, pelo acolhimento e a parceria de sempre.

Heloisa Guaracy Machado –  Editora gerente dos Cadernos de História.


MACHADO, Heloisa Guaracy. Editorial. Cadernos de História, Belo Horizonte, v.10, n.13, 2008. Acessar publicação original [DR]

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América Latina / Cadernos de História / 2008

Os Cadernos de História estão inseridos em um projeto político-pedagógico do Departamento de História da PUC Minas, que concebe os campos do ensino, da pesquisa e da extensão como um elo indissociável na cadeia de produção, distribuição e socialização do conhecimento. Sua proposta é servir de veículo na divulgação do conhecimento científico, relativo às temáticas históricas e afins ‒ como a Antropologia, a Filosofia, Pedagogia, a Sociologia e a Literatura ‒, de acordo com as tendências teórico-metodológicas atuais. Isso pressupõe um horizonte interdisciplinar, que busca somar diferentes perspectivas em uma visão de conjunto da realidade e alimentar a reflexão permanente sobre os desafios apresentados pelas sociedades contemporâneas.

Depois da experiência de quase quinze anos das publicações impressas, os Cadernos de História apresentam sua nova versão eletrônica que, além de cumprir com uma exigência dos órgãos nacionais de fomento à pesquisa, viabilizam a publicação dos textos científicos, ao reduzir, em grande medida, os custos operacionais inerentes ao processo de editoração, mantendo ainda o padrão de excelência exigido.

Tendo esses pressupostos em vista, o presente número reúne trabalhos de diversas procedências e conteúdos. Os três primeiros artigos, reunidos no Dossiê América Latina, consistem em desdobramentos de palestras realizadas na PUC Minas, durante Seminário sobre o tema. Dois deles abordam questões bastante comentadas, o populismo e a teologia da libertação, dando-lhes, no entanto, uma roupagem original e bastante esclarecedora. O terceiro examina um assunto menos ventilado, mas de forma não menos esclarecedora, relativo à valorização e o resgate da cultura andina.

Os demais artigos versam sobre matérias distintas, na perspectiva da História cultural: o quarto, sobre uma das suas maiores expressões, o cinema, através da tradição americana dos Looney Toones e o quinto, traz uma das problematizações mais atuais no campo da historiografia, examinando as relações entre cultura e natureza, nas representações literárias do semiárido brasileiro. O sexto artigo sistematiza um conjunto de estudos e reflexões empreendidos pela equipe do Cefor PUC Minas, na construção de propostas e ações no âmbito da formação continuada de professores da Educação Básica. Fechando o número, está a nota de pesquisa relativa ao trabalho conjunto de professores do Departamento de História sobre a digitalização e disponibilização dos acervos paroquiais da rota da Estrada Real.

Espera-se, desse modo, atender à expectativa dos leitores e, ao mesmo tempo, aprimorar cada vez mais este espaço de reflexão. Nesse sentido, são muito importantes as contribuições dos nossos pares, seja através de sugestões, seja através dos seus artigos, a serem encaminhados à Revista.

Finalizo com os agradecimentos àqueles cujo empenho possibilitou essa publicação, confirmando a minha fé no trabalho em equipe: ao Professor Paulo Agostinho, pela liderança natural no processo de criação do formato eletrônico; ao Professor Edison Gomes, o trabalho contínuo de revisão, na qualidade de Editor da Revista; ao Técnico de Laboratório do Centro de Memória de Pesquisa Histórica, Leandro Pereira de Abreu, pelo apoio técnico; ao estagiário Rafael Pacheco Mourão, pela implantação do novo formato e a diagramação da revista; ao Colegiado do Departamento de História, pelo acolhimento e a parceria de sempre.

Heloisa Guaracy Machado – Editora gerente dos Cadernos de História.


MACHADO, Heloisa Guaracy. Editorial. Cadernos de História. Belo Horizonte, v.10, n.13, 2008. Acessar publicação original [DR]

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Escravidão no Brasil / Cadernos de História / 2006

Os Cadernos de História, apoiados na inter-relação necessária entre ensino, pesquisa e extensão, e de acordo com os pressupostos teóricos e metodológicos atuais, abrem-se à perspectiva interdisciplinar, com o intuito de fomentar a reflexão crítica sobre as temáticas históricas e afins, na sua conexão com a realidade social vigente. Esse aspecto foi viabilizado pela composição relativamente eclética do seu Conselho Consultivo, integrado por profissionais abalizados, oriundos de diferentes áreas das chamadas ciências humanas – a história, a sociologia, a antropologia e a literatura.

Esse esforço admite, por outro lado, variações do ponto de vista operacional, alternando a publicação de artigos distintos no seu conteúdo – como no número anterior – com edições de cunho temático, a exemplo deste número, obedecendo à dinâmica de captação das contribuições especializadas, como também da realização de eventos em áreas de interesse, cujo registro torna-se indispensável.

Assim, seguindo-se à conferência a respeito do relevante Projeto Resgate, o artigo inicial focaliza certos desdobramentos da vinda de trabalhadores portugueses (que a Profa. Marta, escrevendo em Portugal, chama, naturalmente, de “emigração”) durante o século XVIII, no âmbito das injunções de caráter socioeconômico que colocaram lado a lado escravidão moderna e imigração européia no mesmo contexto histórico. Os outros ensaios sobre a história do Brasil compõem o Dossiê sobre a escravidão abrangendo a Colônia e o Império. Alguns deles foram apresentados, em versão preliminar, no II Seminário de História Quantitativa e Serial, promovido pela Anpuh / MG e realizado, em 2001, na PUC Minas Coração Eucarístico, sob a coordenação do Prof. Dr. Tarcísio Rodrigues Botelho, do Departamento de História. Nas edições subseqüentes, pretendemos imprimir um perfil mais diversificado, contando, como de regra, com a colaboração da comunidade acadêmica interna e externa à PUC Minas.

Heloisa Guaracy Machado – Editora executiva dos Cadernos de História


MACHADO, Heloisa Guaracy. Editorial. Cadernos de História. Belo Horizonte, v.8, n.9, 2006. Acessar publicação original [DR]

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História | PUC-MG | 1997

Cadernos de Historia PUC MG 2 História

Cadernos de História (Belo Horizonte, 1995-) é uma publicação semestral do Departamento de História da PUC Minas e do Centro de Memória e de Pesquisa Histórica da PUC Minas. Inseridos em um projeto político-pedagógico que percebe como indissociáveis os campos do ensino, da pesquisa e da extensão, seu viés interdisciplinar tem como finalidade promover a reflexão crítica sobre as temáticas históricas e afins.

São aceitos trabalhos de mestres e doutores em português e espanhol, na forma de artigos, comunicações, conferências, ensaios bibliográficos, entrevistas, notas de pesquisa, resenhas, resumos de dissertações ou teses e traduções. Os textos, a serem submetidos à apreciação do Conselho Consultivo e de avaliadores ad hoc.

Periodicidade Semestral.

Acesso livre.

ISSN 2237-8871

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