Arquitetura, Cidade e Documentação / Mnemosine Revista / 2020

Entendendo-se que documentar é registrar, organizar informações textuais e gráficas sobre objetos investigados, esse dossiê enfoca a documentação de pesquisas arquitetônicas e urbanísticas em cidades brasileiras – dialogando com as variantes da história, cultura, arquitetura e cidade.

Parte-se do princípio que os edifícios e as cidades, devem também ser considerados documentos construídos que trazem em suas essências, elementos e condicionantes que os compõem e nos seus respectivos conjuntos composicionais- caracterizam e atribuem valores aquele determinado bem.

Considerando-se então, que a documentação é o somatório de fontes primárias coletadas em arquivos privados, públicos- compostas de materiais de projetos, como plantas baixas, cortes, fachadas, perspectivas, esboços, mapas, gráficos, fotografias, textos originais- e do próprio bem material construído em si, seja uma edificação, ou lugar- a proposta desse dossiê é apresentar ao público interessado no tema, as maneiras pelas quais tais “objetos” vêm sendo trabalhados, no que diz respeito às suas políticas de preservação e conservação.

Dessa maneira, esse dossiê reúne através de dez artigos, alguns resultados de estudos de professores, pesquisadores, arquitetos, historiadores- vinculados a programas de pós-graduação, e grande parte dos autores atuando como membros do comitê nacional de documentação do Icomos Brasil.

Através dos trabalhos de investigação e de análises críticas produzidas pelos autores, resgata-se a documentação das arquiteturas de distintas linguagens, ou de cidades de diversas regiões brasileiras, com escalas que vão desde centros urbanos interioranos, até cidades polos.

Tal diversidade investigatória proporcionará ao leitor, o conhecimento de uma multiplicidade cultural rica e com identidade marcante, que analisada com olhares diversos, será aqui apresentada em forma de artigos trabalhados, tanto textualmente, quanto graficamente, pois a imagem em tais estudos possui um papel fundamental.

As imagens documentais da história da arquitetura e da cidade são informações básicas e importantes na construção desse saber, pois enriquecem e ilustram as informações textuais. Através de desenhos realizados à mão, ou utilizando-se de programas gráficos contemporâneos, como AutoCAD, sketchup, entre outros, as ferramentas digitais vêm contribuindo de forma fundamental na produção de documentos complementares ao resgate patrimonial.

E acredita-se ser de fundamental importância o diálogo entre história e imagem, gerando uma rica documentação sobre determinado objeto, seja esse uma obra, ou um lugar.

Assim, na produção dos artigos que aqui se apresenta, observou-se que o tema voltado para a documentação da modernidade arquitetônica esteve presente em quatro artigos voltados para objetos arquitetônicos protomodernos e modernos presentes nas cidades de Recife, Campina Grande, São Luis, São Paulo.

Esses quatro artigos tratam de casos isolados de profissionais com trajetórias marcantes, ou de conjuntos arquitetônicos.

Como exemplo de casos isolados, pode-se citar o artigo que tratou do resgate documental da obra do arquiteto português Delfim Amorim e sua atuação em Recife, através de um olhar específico em uma obra residencial moderna, e que infelizmente foi abruptamente demolida- a Casa Miguel Vita (1958); o caso do Teatro Municipal Severino Cabral (1962-1988), projetado pelo mestre campinense Geraldino Duda; e o artigo que enfocou a obra de Rino Levi, com o objetivo de analisar como se deu a aproximação entre artistas e arquitetos, e quais foram os resultados desse intercâmbio de atuações na arquitetura moderna brasileira, tomando como estudos de casos, o Edifício Prudência (1948) e o Teatro Cultura Artística (1950), implantados na cidade de São Paulo.

Como casos de documentação de conjuntos, foram produzidos três artigos: um voltado para a análise documental de detalhes da arquitetura Art déco em São Luís do Maranhão.

A discussão sobre a documentação de lugares e cidades transitou por regiões interioranas nordestinas como Cabaceiras, e Campina Grande, na Paraíba; e Gravatá do Ibiapina, em Pernambuco, ricas em seus conjuntos históricos e em seus acervos patrimoniais; bem como, pelos calçadões famosos da praia de Copacabana, no Rio de Janeiro.

O tema da cultura vernácula que vem sendo valorizada na discussão patrimonialista está presente em artigo que trata sobre a arquitetura popular de platibanda nordestina, no qual foram realizadas notas sobre enquadramentos discursivos e terminologias do acervo regional.

A documentação do design de superfície presente na produção de ladrilhos hidráulicos do edifício do Paço dos açorianos de Porto Alegre enriquece o dossiê, dialogando saberes da história, arquitetura e do design, trazendo à tona o uso de tecnologias digitais no resgate e na salvaguarda desse elemento construtivo considerado patrimônio material industrial.

E fechando nosso dossiê, o instigante artigo que trata sobre o medievalismo na arquitetura contemporânea como experimento arqueológico. O autor explicou que existe um ramo peculiar da arquitetura contemporânea que tenta [re]construir o passado utilizando métodos e técnicas medievais, auto- proclamadas como experimentos arqueológicos.

Através da leitura dos artigos aqui apresentados, poderão ser adquiridos conhecimentos que subsidiem estudos, trabalhos de investigação, pesquisas que conectem os distintos saberes, e que façam que as ideias circulem, alimentando a rede voltada aos estudos históricos arquitetônicos e urbanísticos, interligando culturas e cidades, através da produção e preservação documental.

Alcilia Afonso de Albuquerque e Melo – Doutora em Projetos Arquitetônicos (ETSAB / UPC / Espanha). Professora adjunta do curso de Arquitetura e Urbanismo / UFCG e Professora efetiva do PPGH / UFCG


ALBUQUERQUE E MELO, Alcilia Afonso de. Apresentação. Mnemosine Revista, Campina Grande – PB, v.11, n.2, jul / dez, 2020. Acessar publicação original [DR]

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A cidade e suas imagens / Revista Maracanan / 2020

A definição de “cidade” e “imagem” não é tarefa epistemológica simples e o cruzamento das apreensões já propostas pode levar a um labirinto tão desafiador quanto atraente. São duas coordenadas complexas, cujas relações desenham planos intrincados, exigindo uma abordagem multidisciplinar. O que define uma cidade? Seu tamanho, suas formas, suas funções, seu contingente populacional? Suas redes de cultura? O que é uma imagem e quanta informação ou material sensível cabe numa tela, num quadro, num muro?

Os coordenadores deste dossiê, pesquisando diferentes temas, se formaram a partir dessas miradas sobre a cidade e suas imagens, expressas nas suas teses de doutoramento. Amanda Danelli Costa investigou as reformas urbanas e a modernidade carioca a partir das obras, literária e fotográfica, de João do Rio e Augusto Malta. Enquanto o cronista elaborava interpretações e representações do Rio de Janeiro, disputando a narrativa moderna da cidade nos periódicos; Augusto Malta inventariava as transformações da urbes, assentado em uma tradição ilustrada, tanto do ponto de vista técnico quanto pela referência civilizadora vinculada ao urgente progresso material urbano.1

Carlos Eduardo Pinto de Pinto abordou a representação da cidade do Rio de Janeiro pelo Cinema Novo entre 1955 e 1970, abarcando o surgimento das ideias que embasariam o movimento nos anos 1960, bem como suas mutações ao longo da década. A vinculação do Cinema Novo à vivência urbana carioca define um de seus perfis e fornece elementos para a elaboração de imaginários sociais na e sobre a cidade. Capital federal até 1960, o Rio começou a década sendo transformado em Estado da Guanabara, depois de perder o posto de cabeça do país para Brasília. Ainda assim, a capitalidade foi o eixo norteador das obras analisadas, que mobilizam duas estratégias de representação: a oposição da modernidade urbana às mazelas sociais, caso de Rio, 40 graus, Cinco vezes favela e A grande cidade; ou a evocação da capitalidade em sua relação com os traços identitários da jovem classe média, como Os cafajestes, O desafio, Garota de Ipanema e Todas as mulheres do mundo. Através de agenciamentos diversos, os atores sociais abordados pela pesquisa – profissionais envolvidos nas produções dos filmes, críticos, teóricos, políticos e outros – se apropriaram das obras, pondo em disputa os imaginários urbanos e as práticas sociais.[2]

Viviane da Silva Araujo investigou como as transformações urbanas ocorridas em Buenos Aires e no Rio de Janeiro na passagem do século XIX para o XX tornaram-se temas para fotógrafos locais e estrangeiros. Analisando as duas cidades comparativamente, a tese identifica na produção fotográfica algumas das tensões próprias à experiência da modernidade urbana latino-americana, onde o desejo de adequar-se a um modelo ideal de civilização não foi capaz de produzir uma sociedade ordenada segundo os preceitos do almejado progresso material e moral, mas experimentou uma realidade imprevista, original e complexa. Realidade esta que a fotografia não só captou, mas contribuiu para criar maneiras de imaginar, ver e sentir ambas as cidades em acelerado processo de transformação naquele período.[3]

Frequentemente, e desde há muito tempo, as urbes vêm sendo tematizadas por diferentes imagens [4] – dos registros cartográficos às mídias digitais, passando pelas artes plásticas, fotografia, cinema, TV, vídeo, grafite e pichação – produzindo representações que alargaram as possibilidades de interpretação e produção de sentidos sobre as cidades, vistas em perspectiva histórica. Desse modo, as cidades em ampliação e transformação foram largamente fixadas em imagens cada vez mais várias e complexas, um processo que não ficou de fora do conjunto de interesses dos historiadores.

Observadas a partir da modernidade, cidade e imagem também ensejaram reflexões sobre a subjetividade moderna e as novas formas de estar no mundo, interpretá-lo e representá-lo. [5] A invenção da fotografia, na primeira metade do século XIX, facilmente associada à consequente mudança do padrão de visualidade, só se efetivou como um invento possível em razão de uma transformação da própria subjetividade moderna na passagem do século XVIII para o XIX. [6] As grandes cidades, que enfrentaram o frenesi da revolução urbana oitocentista, foram os palcos principais para esse novo “observador de segunda ordem”. [7] Sujeitos e cidades eram, enfim, atravessados e traduzidos pelo registro da reprodutibilidade técnica.[8]

Movimento semelhante pode ser observado nas relações entre cidades e cinema, que tem interessado, sobretudo, à historiografia norte-americana e francesa. De modo geral, os americanos focam a importância simultânea da cidade e do cinema para a conformação da modernidade, enquanto os franceses privilegiam a representação do urbano pelos filmes.[9] Entre a produção francesa, cabe destacar, além das obras homônimas La ville au cinéma, também Visions urbaines, Cités-cinés, Ville et cinéma e Un nouvel art de voir la ville et de faire du cinéma. [10] Nessas obras, a maioria formada por reunião de artigos, é flagrante o recurso à interdisciplinaridade, havendo contribuição de historiadores, cineastas, críticos, cenógrafos, antropólogos, sociólogos, linguistas, comunicólogos, arquitetos e urbanistas. Por mais que sejam variadas as abordagens, todas confluem na crença de que os filmes urbanos não oferecem um acesso direto às cidades, sendo, ao contrário, considerados reinvenções destas, ao mesmo tempo em que constituem suas realidades.

Se por um lado observamos a multiplicação de pesquisas que tomavam os registros imagéticos, especialmente depois da criação da fotografia – e, mais tarde, do cinema – como fontes para a análise das transformações urbanas, dos códigos sociais e das sociabilidades, mais recentemente se tornaram frequentes os trabalhos que vão às cidades para compreenderem como diferentes grupos produzem registros variados no próprio corpo da urbes, criando imagens (pichações, grafites, estênceis) que revelam distintas urbanidades, relações de poder e apropriação possíveis.

A fotografia e o cinema também assumem relação forte e estreita com a memória, seja de indivíduos, grupos sociais ou de cidades. [11] Suas dinâmicas de recorte de um tempo e espaço, que sobrevive para além do momento do clique e da filmagem, contribuiu vivamente para que frequentemente assumam papel de gatilho ou ponto de partida para a memória. Aquilo que aqui chamamos de dinâmica própria da fotografia e o específico fílmico também se aproximam da maneira como a memória se organiza: seja em uma foto, em um filme, ou seja, com a memória, é impossível lembrar tudo ou colocar tudo dentro do quadrado. [12] Os três implicam seleção, esquecimento e tomadas de pontos de vista. [13]

Na Europa, abordagens dessa natureza foram iniciadas nos anos 1960, pela Nova História Urbana, tendo Richard Sennett como figura mais proeminente, e pela História da Arte, com destaque para Giulio Carlo Argan.[14] Como alternativa a abordagens que equacionam o objeto “cidade” a processos de urbanização (dimensões, formas, funcionalidades), tais enfoques privilegiam as cidades como objetos singulares, atuando como centro geradores de identidades. [15] Argan, por exemplo, defende que a cidade seja um acúmulo de bens culturais (incluindo-se as imagens) e não apenas “o produto das técnicas de construção [que] também concorrem para determinar a [sua] realidade visível”. [16]

O papel da cidade como o locus a partir do qual se imagina, projeta e se representa a experiência moderna e sua realidade visível também esteve no cerne da reflexão de estudiosos latino-americanos neste mesmo período. Em 1976, o historiador argentino José Luis Romero publica sua mais importante obra, cujo subtítulo, “as cidades e as ideias”, já expõe a permanente tensão entre a cidade real e a cidade imaginada. Tal argumento é desenvolvido mais tarde por pesquisadores como Adrián Gorelik, que adverte que a modernidade urbana experimentada na América Latina foi original e complexa e, se comparada às seculares cidades europeias, a cidade latino-americana não decorre dos processos de modernização, mas antecipa a eles, como um instrumento capaz de “criar” uma sociedade moderna.[17]

No Brasil, pesquisas que relacionam cidade, modernidade e imagem ganharam força a partir dos anos 1980, convivendo com uma produção – naquele momento, mais vasta – a respeito das relações entre cidade e literatura. Eram, na sua maioria, reflexões sobre registros fotográficos realizados nas primeiras décadas do século XX nas cidades do Rio de Janeiro, São Paulo e Porto Alegre, resultados das pesquisas de mestrado e doutorado de Ana Maria Mauad, Maria Inez Turazzi, Vânia Carneiro de Carvalho e de Charles Monteiro. Desde então, multiplicaram-se os enfoques, com uma seleção variegada de urbes, tipos de imagens e recortes cronológicos.[18]

O encontro entre o urbano e o imagético por meio da análise de uma variedade de cidades, reais e imaginárias, e de imagens dos mais diferentes suportes, está presente nos 18 artigos e na entrevista que compõem a presente edição da Revista Maracanan. O número expressivo de submissões que atenderam à chamada nos alegrou, ao demonstrar a potencialidade do tema. Esperamos que a publicação deste dossiê contribua para o reconhecimento e a ampliação das abordagens e significados teórico-metodológicos a respeito das interfaces entre cidade e imagem.

A entrevista que abre o dossiê foi realizada ao longo de uma noite muito agradável na companhia (virtual) de Ana Maria Mauad. A pesquisadora e professora nos apresentou um vasto panorama a respeito das relações entre as cidades e suas imagens, centrando-se nos trabalhos sobre fotografia, tema da maioria de suas pesquisas, mas alcançando também outros suportes. O registro dessa conversa dá acesso a um vislumbre dos caminhos percorridos por uma das primeiras historiadoras, no Brasil, a se dedicar às relações entre história e imagem.

Entre os artigos que compõem o dossiê, a estereoscopia e o seu desenvolvimento no Brasil, entre 1850 e 1950, são apresentados por Maria Isabela Mendonça dos Santos a partir dos acervos de fotógrafos profissionais e amadores que produziram uma variedade de vistas de cidades brasileiras, contribuindo para a formação e divulgação de uma imagem do Brasil, exótica e civilizada, enquanto redimensionava a própria subjetividade moderna pelo olhar. A produção amadora de estereoscopias de Guilherme Antonio dos Santos por mais de cinquenta anos, resultando em um acervo particularmente extenso, é objeto de análise neste artigo que observa a produção de imagens sobre a cidade do Rio de Janeiro como artifícios da construção de uma paisagem ideal.

Em diálogo com o campo da história pública, Michel Kobelinski analisa pinturas, gravuras, fotografias e narrativas – entendidas aqui como lugares de memória – produzidas por Estanislau Schaette, Hermann Schiefelbein, Arthur Wischral e Hugo Hegenberg sobre a identidade teuto-brasileira e seus efeitos na sociedade paranaense na primeira metade do século XX. Essas obras são tomadas por seu caráter pedagógico que, além de educar sobre o passado, contribuiu para a aproximação com histórias plurais e ainda para a produção de vínculos coletivos.

O artigo de Samuel Oliveira aborda fotorreportagens que tematizam a favela publicadas na revista O Observador Econômico e Financeiro – especializada em análises econômicas e sociais e articulada ao projeto desenvolvimentista das décadas de 1940 e 1950. Em sua análise, demonstra como tais matérias reiteraram os estigmas da pobreza urbana e sua racialização por meio dos registros fotográficos das favelas cariocas e dos contrastes estabelecidos com o padrão de vida da classe média.

Em artigo que analisa a Primeira Exposição Fotográfica de Motivos Belorizontinos, ocorrida em 1953, fruto de uma parceria entre o Foto Clube de Minas Gerais e a Prefeitura de Belo Horizonte, Lucas Mendes Menezes investiga relações entre fotografia amadora e poder público. Além da análise da composição visual de fotografias reproduzidas no catálogo desta exposição, o autor explora o olhar que os fotógrafos lançaram sobre a cidade – especialmente sobre os seus elementos arquitetônicos – assim como seus condicionamentos e espaços de atuação, entendendo a fotografia no conjunto das iniciativas culturais do período e suas interseções com o poder público.

Débora Bueno, Ricardo Freitas & Vania Fortuna investigam as fotografias de César Barreto, tomando-as como elementos constitutivos da memória urbanística da cidade do Rio de Janeiro. Fotógrafo oficial da “cidade olímpica”, coube a César Barreto documentar, entre 2011 e 2013, as reformas que a cidade enfrentava para abrigar os Jogos Olímpicos de 2016. As fotografias publicadas em um portal institucional eram peças imagéticas centrais no processo de valorização da marca-cidade, a fim de torná-la mais competitiva no concorrido mercado internacional de cidades globais. Mais do que registrar o processo de revitalização da zona portuária, como quem guarda as lembranças do que fora a cidade, as fotografias de César Barreto apontavam para o futuro olímpico do Rio de Janeiro, como destino incontornável da cidade maravilhosa.

Utilizando a metodologia de leitura da imagem da cidade de Kevin Lynch, Paulo Barata identifica o acúmulo de tempos desiguais presentes no centro comercial de Campo Grande, bairro do subúrbio do Rio de Janeiro, no século XXI. O autor nos convida a observar com detalhes como esta localidade outrora rural apresenta hoje uma paisagem tipicamente urbana.

A cultura midiática da Belle Époque carioca é desnudada por Carmem Lúcia Negreiros de Figueiredo Souza, que analisa como as crônicas literárias registraram novos modos de ver e narrar a cidade no contato com os novos aparatos e imagens – produzidas pelo cinema, pela imprensa e expostas em vitrines –, afetando a constituição e a percepção dos sujeitos modernos, expressas nas transformações das sociabilidades e sensibilidades das primeiras décadas do século XX. As crônicas de João do Rio, Olavo Bilac, Benjamin Costallat e Lima Barreto são, neste artigo, exemplos da renovação representativa e da alteração na estrutura de percepção dos sujeitos modernos, revelando a tensão entre o imaginário literário e o imaginário técnico.

Wolney Vianna Malafaia aborda o Rio de Janeiro a partir da oferta de condições materiais e intelectuais para a formação do Cinema Novo brasileiro. Embora aponte alguns traços de representação da cidade em dada filmografia cinemanovista, a proposta principal do autor é pensar a cidade como catalisadora do movimento cinematográfico, ao longo dos anos 1960. Por meio do levantamento de instituições e redes de sociabilidade, o trabalho demonstra o quanto aquela, que até há pouco tinha sido capital do Brasil, seguiu exercendo funções associadas à capitalidade.

Francisco das Chagas Fernandes Santiago Júnior analisa o filme Notas para uma Oréstia Africana (Appunti per un’Orestiade Africana, Pier Paolo Pasolini, 1969), com vistas a compreender a construção visual das paisagens urbanas e naturais de alguns países africanos no documentário do diretor italiano. Para o enfrentamento do específico fílmico, o autor mobiliza a iconologia, a narratologia histórica e a abordagem filmológica, problematizando o estatuto sócio-histórico das imagens, evidenciando os mecanismos empregados na construção do filme e cruzando os resultados com os escritos sobre cinema.

Mauro Amoroso & Gustavo Romano propõem uma abordagem heurística do modo como o Jornal do Brasil (JB) e o filme Cidade de Deus (Fernando Meirelles e Kátia Lund, 2002) narraram eventos relacionados à “guerra” da Cidade de Deus, conflitos entre traficantes ocorridos na virada da década de 1970 para a de 1980. Em suas análises, os autores levam em consideração a especificidade da linguagem de cada veículo, bem como os diferentes contextos históricos, elencando os elementos constitutivos de cada modo de “ler” ou “ver” os eventos.

Fabio Allan Mendes Ramalho assume perspectiva benjaminiana ao analisar os corpos em perambulação por espaços urbanos, tomados como lugares de encontro afetivo e desejo (homo)erótico. Por meio da análise de três filmes de Marcelo Caetano – Bailão (2009), Na sua companhia (2011) e Corpo elétrico (2017) –, o autor demonstra como a linguagem cinematográfica é capaz de reelaborar, mais do que registrar, a materialidade urbana em consonância com a vivência sexual e afetiva das personagens.

Leonardo Perdigão Leite & Pedro Jorge Lo Duca Vasconcelos investigam novas práticas museais e museológicas na cidade do Rio de Janeiro – o Museu de Favela Pavão-Pavãozinho Cantagalo, a Galeria Providência e o Museu Nami – observando como essas iniciativas se baseiam em visões não ortodoxas de patrimônio, memória e museu. Tais experiências produzem alternativas aos modelos tradicionais e consagrados, apoiadas em uma museologia social, comunitária, popular, informal ou progressista, contribuindo para a construção de outros modos de expressão a partir da subjetivação (reveladas através de grafites, estênceis, murais, painéis) de grupos subalternizados, no lugar de promover a cristalização de identidades.

O grafite é tematizado por Ivânia dos Santos Neves que toma o aniversário de 400 anos de Belém como um período favorável para a reflexão sobre os discursos que forjaram a história oficial da cidade, uma história escrita pelo colonizador, como de tantas cidades latino-americanas, mas que exibe suas fraturas quando movimentos indígenas e outros enunciadores artístico-culturais conquistam espaço na dinâmica de contar a história. Ao contrapor o frontal da Basílica de Nazaré e a escultura de bronze de um indígena de um bairro nobre de Belém e os grafites de artistas locais que retomam a memória indígena em suas produções e visibilizam a pluralidade étnica da cidade, a autora mostra como o grafite visibiliza a presença indígena silenciada no patrimônio oficial.

Ana Paula Alves Ribeiro propõe uma abordagem etnográfica da peça teatral In_Trânsito, encenada pela Cia. Marginal e com direção de Isabel Penoni e Joana Levi, entre 2013 e 2014. Trata-se de uma performance site-specific, partindo da Central do Brasil e estendendo-se por paisagens urbanas fruídas ao longo do percurso ferroviário. O registro da vivência dos múltiplos estímulos propiciados pela experiência, com ênfase nos elementos visuais, permite à autora pensar o Rio de Janeiro em um biênio marcado pelas lutas urbanas manifestadas, entre outras possibilidades, no artivismo (ativismo político executado por meio de ações artísticas).

A sessão de artigos livres também traz trabalhos que abordam o tema da cidade e de suas representações. Propostos para além da análise de suportes imagéticos propriamente ditos, são estudos que igualmente colaboram para ampliar o conhecimento sobre a elaboração de imaginários urbanos e de imagens ideais das cidades em distintos espaços e momentos históricos.

Nesse bojo, o Rio de Janeiro, cidade a partir da qual a Revista Maracanan se comunica com o mundo acadêmico, teve sua gênese marcada por uma disputa de ideais de cidade, o que resultou em tensões em torno da sua dupla fundação, francesa e portuguesa. Apesar da crise que o Estado moderno impôs às individualidades e às cidades-republicanas, a projeção das utopias levadas a frente significava uma resistência do próprio ideal de cidade moderna, de modo que “a noção de utopia qualificava criticamente o desempenho dos homens na cidade projetando-a para fora do espaço real”. [19]

Assim, chegamos ao entendimento de que a cidade, além de recorrentemente aparecer como tema de interesse dos homens de letras desde as fundações das primeiras cidades latino-americanas, significava para eles o lugar primordial – e também inescapável – no qual viveriam a experiência da modernidade, de tal forma que era a partir dessa dupla referência (cidade / modernidade) que eles se constituíram como sujeitos no mundo e, por conseguinte, refletiram sobre a modernidade na cidade. [20] Nesse sentido, como já apontado acima, a experiência moderna nas cidades latino-americanas foi o trampolim para que se produzissem as condições de modernização desses espaços, de suas relações sociais e políticas, bem como de suas representações, de modo que “a modernidade se impôs como parte de uma política deliberada para conduzir à modernização, e nessa política a cidade foi o objeto privilegiado”. [21]

Fabrina Magalhães Pinto apresenta uma leitura da Laudatio de Leonardo Bruni no quattrocento, observando em particular os debates acerca dos ideais republicanos de liberdade, autogoverno e cidadania, neste que é um dos principais elogios da cidade de Florença no período. Entre os séculos XII e XV, Florença, como lócus privilegiado da ação do homem renascentista, experimentou a construção paulatina de um ideal de cidade, fosse no âmbito arquitetônico, político ou das instituições. Nesse momento se conjugaram ambições republicanas com a construção de uma imagem ideal de cidade, onde justiça, racionalidade e liberdade estariam em destaque.

Andréa Cristina de Barros Queiroz nos apresenta o panorama da construção da “República de Ipanema”, como um lugar de vanguarda no Rio de Janeiro, durante os anos 1960. A imagem de cidade maravilhosa fora atualizada por uma boemia-literária a partir das sociabilidades vividas em diferentes espaços de encontro no bairro de Ipanema, como os bares e a praia. Além disso, atribuiu-se ao bairro a condição de polo difusor de uma série de movimentos políticos, sociais e culturais que ocuparam a cena de oposição aos anos de ditadura civil-militar.

A imagem da cidade de Brasília lida como cidade utópica e ícone do desenvolvimentismo brasileiro nos anos 1950 e 1960 ainda se apresenta como a imagem hegemônica da capital federal. No entanto, Lucía Tennina revela-nos a construção de novas miradas sobre a cidade e a partir dela nos saraus das periferias. Espaços contra-hegemônicos, os saraus exploram temas e tensões que transbordam das margens dos enquadramentos apaziguados do Plano Piloto. O cartão postal, expressão da imagem desejável, é a metáfora escolhida para nos falar das pluralidades que não cabem em uma história única.

Hércules da Silva Xavier Ferreira, Luana Campos & Pedro Clerot analisam uma série de grafites e uma escultura que evocam as imagens de três jovens assassinados no Rio de Janeiro em 1998, 2005 e 2017 nas proximidades do túnel Santa Bárbara, que conformaram o que os autores definem como “polígono da violência” ou “circuito da dor”. A criação desses memoriais permite que os transeuntes, moradores ou não da cidade, vejam e sejam afetados pelo conhecimento dessas histórias, ao mesmo tempo em que ressignificam o sofrimento e conformam espaços de resiliência.

Esperamos que a leitura dos artigos deste número da Revista Maracanan contribua para a ampliação de debates e pesquisas interessadas no cruzamento das cidades e suas imagens. Fazemos votos de que o contato com esses textos seja tão instigante e prazeroso para os leitores da revista quanto foi para nós.

Notas

  1. COSTA, Amanda Danelli. Cidade, reformas urbanas e modernidade: o Rio de Janeiro em diálogo com João do Rio e Augusto Malta. 2011. Tese (Doutorado em História Social da Cultura) – Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro.
  2. PINTO, Carlos Eduardo Pinto de. Imaginar a cidade real: o Cinema Novo e a representação da modernidade urbana carioca (1955-1970). 2013. Tese (Doutorado em História) – Instituto de Ciências Humanas e Filosofia da Universidade Federal Fluminense, Niterói (RJ).
  3. ARAUJO, Viviane da Silva. Fragmentos urbanos da modernidade: a fotografia em Buenos Aires e no Rio de Janeiro na passagem do século XIX para o XX. 2013. Tese (Doutorado em História Social da Cultura) – Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro.
  4. SONTAG, Susan. Sobre a fotografia. São Paulo: Companhia das Letras, 2004.
  5. CRARY, Richard. Técnicas do observador: visão e modernidade no século XIX. Rio de Janeiro: Contraponto, 2012.
  6. FOUCAULT, Michel. As palavras e as coisas. São Paulo: Martins Fontes, 2016.
  7. GUMBRECHT, Han Ulrich. Modernização dos sentidos. São Paulo: Editora 34, 1998.
  8. BENJAMIN, Walter. A obra de arte na era de sua reprodutibilidade técnica. Porto Alegre: L&PM, 2013.
  9. CHARNEY, Leo; SCHWARTZ, Vanessa R. (orgs.). O cinema e a invenção da vida moderna. São Paulo: Cosac & Naify, 2001.
  10. JOUSSE, Thierry; PAQUOT, Thierry (dir.). La ville au cinéma: encyclopédie. Paris: Cahiers du Cinéma, 2005; BARILLET, Julie; et al. La ville au cinéma. Arras: Artois Presses Université, 2005; NINEY, François (dir.). Visions urbaines: villes d’Europe a l’ecran. Paris: Éd. Centre Pompidou, 1994; Cités-cinés. Paris: Éd. Ramsay et La Grande Halle; La Villete, 1997. [édité à l’occasion de l’exposition Cités-Cinés]; Espaces et Societes, Paris, L’Harmattan, 86 – “Ville et cinéma”, 1996.
  11. PINTO, Carlos Eduardo Pinto de. Câmera-arma: a representação das funções sociais da fotografia em Os cafajestes (Ruy Guerra, 1962). Revista Brasileira de História da Mídia, São Paulo, v. 2, n. 2, p. 151- 158, jul.-dez. 2013.
  12. PINTO, Carlos Eduardo Pinto de. Relatos fantasmas: os filmes históricos cinemanovistas e a política cultural da ditadura civil-militar nos anos 1970. REBECA – Revista Brasileira de Estudos de Cinema e Audiovisual, São Paulo, v. 2, n. 1, jan.-jun. 2013.
  13. COSTA, Amanda Danelli. Augusto Malta e a fotografia da alma dos kiosques cariocas. Acervo, Rio de Janeiro, Arquivo Nacional, v. 32, n. 2, p. 117-132, maio-ago. 2019.
  14. SENNETT, Richard. Carne e pedra: o corpo e a cidade na civilização ocidental. Rio de Janeiro: Record, 1999; ARGAN, Giulio Carlo. História da arte como história da cidade. São Paulo: Martins Fontes, 1992.
  15. SILVA, Luís Octávio da. História urbana: uma revisão da literatura epistemológica em inglês. EURE, Santiago, v. 28, n. 83, maio 2002.
  16. ARGAN, Giulio Carlo. História da arte… Op. cit., p. 75
  17. ROMERO, José Luís. América Latina: as cidades e as ideias. Rio de Janeiro: Ed. UFRJ, 2009; GORELIK, Adrián. Ciudad, modernidad, modernización. Universitas Humanística, Bogotá, Pontificia Universidad Javeriana, n. 56, jun. 2003.
  18. MAUAD, Ana Maria. Sob o signo da imagem: a produção da fotografia e o controle dos códigos de representação social, na cidade do Rio de Janeiro na primeira metade do século XX. 1990. Tese (Doutorado em História) – Universidade Federal Fluminense, Niterói (RJ); TURAZZI, Maria Inez. As artes do ofício: fotografia e memória da engenharia no século XIX. 1998. Tese (Doutorado em Arquitetura e Urbanismo) – Universidade de São Paulo, São Paulo; CARVALHO, Vânia Carneiro de. Do indivíduo ao tipo: as imagens da (des)igualdade nos álbuns fotográficos da cidade de São Paulo na década de 1950. 1995. Dissertação (Mestrado em História) – Universidade de São Paulo, São Paulo; MONTEIRO, Charles. A inscrição da modernidade no espaço urbano de Porto Alegre. 1992. Dissertação (Mestrado em História) – Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul, Porto Alegre.
  19. RODRIGUES, Antonio Edmilson Martins. América Renascentista- um ensaio: as experiências modernas no espaço da Baía de Guanabara – a dupla fundação da cidade do Rio de Janeiro: entre utopias e ideais. MORUS, Campinas (SP), UNICAMP, v. 3, p. 213-242, 2006.
  20. COSTA, Amanda Danelli. A produção de guias de viagem por intelectuais brasileiros: um ensaio. In: MARAFON, Glaucio; FACCIOLI, Marina; SÁNCHEZ, Meylin Alvarado. Patrimônio, território e turismo no Brasil, Costa Rica e Itália. Rio de Janeiro: EdUERJ, 2020.
  21. GORELIK, Adrián. Ciudad, modernidad, modernización. Op. cit., p. 13. Tradução nossa. No original: “la modernidad se impuso como parte de una política deliberada para conducir a la modernización, y en esa política la ciudad fue el objeto privilegiado”.

Referências

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Amanda Danelli Costa – Professora Adjunta do Instituto de Geografia da Universidade do Estado do Rio de Janeiro, Campus Teresópolis. Doutora e Mestre em História Social da Cultura pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro; graduada em História pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro. E-mail: [email protected] Orcid iD: https: / / orcid.org / 0000-0002-6845-4733  Lattes: http: / / lattes.cnpq.br / 1855259803755979

Carlos Eduardo Pinto de Pinto – Professor Adjunto do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas da Universidade do Estado do Rio de Janeiro, atuando na graduação e no Programa de Pós-graduação em História. Doutor em História pela Universidade Federal Fluminense; Mestre em História Social da Cultura pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro; graduado em História pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro. E-mail: [email protected] Orcid iD: https: / / orcid.org / 0000-0001-7448-2565 Lattes: http: / / lattes.cnpq.br / 2703751377441692

Viviane da Silva Araujo – Professora Adjunta do Instituto Latino-Americano de Arte, Cultura e História da Universidade Federal da Integração Latino-Americana. Doutora e Mestre em História Social da Cultura pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro; graduada em História pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro. E-mail: [email protected] Orcid iD: https: / / orcid.org / 0000-0001-7378-0210 Lattes: http: / / lattes.cnpq.br / 5388549060655237


COSTA, Amanda Danelli; PINTO, Carlos Eduardo Pinto de; ARAUJO, Viviane da Silva. Apresentação. Revista Maracanan, Rio de Janeiro, n.24, 2020. Acessar publicação original [DR]

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ArteCidade / Urbana / 2019

Em consonância com o escopo da Revista Urbana, o dossiê ArteCidade amplia suas reflexões – sobre a produção do universo urbano em perspectiva histórica – enfocando desta vez produções e manifestações artísticas que florescem no meio urbano e tensionam suas ordenações.

Se Argan viu a “história da arte como história da cidade”, procuramos ver aqui como a arte tem se relacionado com a cidade, tem transformado o significado de seus espaços, e tem sido suporte para narrativas as mais diversas. Seria a arte que produz narrativas de cidade ou a cidade que produz arte? Da arte intrinsecamente urbana à arte desterritorializada-reterritorializada na cidade, podemos nos esquivar, como em um jogo de corpo de capoeira, dos cânones da história da arte, já amplamente difundidos ou mesmo repetidos, buscando nos concentrar na ginga sempre mutante das mais diversas manifestações artísticas, possibilitadas, inspiradas, cultivadas, provocadas pela atmosfera citadina. Falamos de arte intimamente relacionada com a cidade, que se cria a partir de brechas e das condições de possibilidade de muitas existências, de outras estéticas. Seja na estática de um edifício ou no movimento de um corpo, se há manifestação de posicionamento artístico e / ou ênfase poética, ambos entendem da necessidade-arte da viração na cidade. Das artes faladas, cantadas e escritas às artes caladas pelo cinza da tinta – ou por uma nova norma de uso do espaço público –, este dossiê vem difundir trabalhos textuais, no entanto, sem abrir mão dos referenciais imagéticos, sonoros, [olfativos, táteis] que, nas tensões das múltiplas linguagens, dialogam entre si evidenciando as interações da ArteCidade. O diálogo pode se dar ainda entre diferentes cidades, ou entre diversas formas de se abordar o mundo urbano; material, virtual, imagético.

As possibilidades de diálogos e conexões são muitas e foram aqui incentivadas, assim como as dinâmicas criativas do universo da fabulação, o qual comporta todas as categorias de expressão artística. Por isso, convidamos pesquisadoras / es que se interessam pelas composições da arte urbana, considerando suas dimensões subjetivas, simbólicas e materiais. Com suas inquietações fomos percorrendo outros caminhos, desvios da norma, pontos incomuns, subterrâneos, periferias e margens estilhaçadas. Paredes, muros e becos. Ruas, multidões, grafias e sonoridades. Cidades nas margens do Rio Paraná em Rosário, Argentina, nas paredes de Cachoeira no Recôncavo Baiano, no punk de São Paulo, nas muitas periferias cantadas no rap nacional, e em outras tantas margens – margem do mar, margem do mapa, margem feita de gente – são invocadas aqui.

A Entrevista realizada por Cristina Martins Tavelin com Felipe Marcondes da Costa, inicia o dossiê e nos apresenta um sujeito errante que concebe suas obras na interseção EM OBRAS / EM RUÍNAS. Os trabalhos realizados com Dulcineia e o coletivo paulistano que publica livros cartoneros em conjunto com uma cooperativa de catadoras de papelão, incentiva Felipe a realizar ações literárias em espaços públicos para “quem não tinha o hábito ler”. A partir de suas intervenções poéticas percebemos como os trabalhos coletivos instauram desejos de ações artísticas pela cidade. Incorporando um “espírito amador”, dois caras, “um levando seu corpo e o outro levando sua câmera”, se atiram “pra rua num projeto que é também de formação de público.” Perguntando e pensando sobre as experiências de Felipe, Cristina nos leva a questionar as fronteiras entre os corpos, as artes e as cidades. No centro da cidade de São Paulo, as performances instauram outros encontros além da normalidade — “nunca ouvi tanta gente me lendo em voz alta. É lindo ver um texto acontecendo assim! Quando as pessoas começaram a me abordar e chegaram a deitar comigo ali no chão então, aí foi incrível.” A potência política extravasa da obra e envolve as pessoas para atuarem junto, configurando a potência estética da ruína.

Continuando nesse caminho, Germana Konrath e Paulo Reyes notam e analisam a aproximação até a quase indistinção entre política e estética na obra de Francis Alÿs. Em um texto-ode à espacialização da / na obra do artista, Konrath e Reyes convocam Michel de Certeau, Jacques Rancière e a dupla Deleuze e Guattari para compor o corpo conceitual que explicita o caráter subversivo de ações propostas pelo artista. Este lança à comunidade a proposta de ação e é a partir e somente com a apropriação da comunidade pelo proposto que se configura a obra. A base é o impensável. Segundo Alÿs, dizem os autores, trata-se de “um presente a ser continuado.” Desse método, nascem alguns trabalhos em que a linha reta é subvertida em espaço público, campo da ação político-estética. E o espaço público de montes e mares e mesmo de ruas é subvertido pela linha reta proposta, mas, sobretudo, pela ação que se faz dela. Konrath e Reyes focalizam nas condições de possibilidade criadas e poetisam um texto declaradamente elogioso à obra de Francis Alÿs. “Suas ações simples e seus registros sempre porosos e parciais ajudam a compor diversas narrativas abertas, que atravessam o tempo como um mito que se alastra, operando taticamente tanto no presente quanto no pensamento projetivo de futuro e na memória que inventa passados.”

A interferência do artista e seu uso no / do cotidiano fazem da sua ação uma tática de guerra. A resistência a um ideário de cidade luminosa, espetacular, é o tema do ensaio Cartografia como narrativa, onde o autor delineia a figura de dois artistas como trapeiros contemporâneos, visto que se valem dos restos da vida comum e cotidiana nas cidades para constituir a matéria prima do seu trabalho. Os artistas-trapeiros são os argentinos Guillermo Kuitca e Jorge Macchi, o autor-ensaísta é Ricardo Luis Silva. Este nos põe em contato com as obras de base cartográfica daqueles artistas em um texto que faz um passeio entre algumas das principais referências que tratam das formas de resistência à cidade moderna como modelo de vida. Outros modos de vida não só são possíveis como deixam seus rastros e restos onde quer que queiramos ver. Para ver de perto, um dos trapeiros utilizou-se de um método de desenho de roteiro turístico completamente baseado no acaso: “Macchi coloca um painel de vidro transparente sobre um mapa de Buenos Aires e o alveja com um martelo, gerando uma série de rachaduras.” As rachaduras traçam os percursos a serem visitados e propõem ao leitor da obra uma experiência da cidade de Buenos Aires fora de todos os ditames do mercado de espetáculos urbanos.

Mirando essas rachaduras da cidade, Andre Abreu da Silva nos mostra os assombros da cidade punk de São Paulo. Vasculhando o Acervo Punk preservado no Centro de Documentação e Informação Científica da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (CEDIC / PUC), o autor remonta as narrativas sobre o espaço urbano criado a partir das experiências raivosas de jovens adeptos ao movimento punk. A atenção às sensibilidades tramadas naquela prática político cultural, provoca uma leitura que valoriza suas produções. Essa postura errante, que veio se popularizar nas últimas décadas do século XX, via indústria cultural de massa, como punk rock, guarda entre suas performances a herança das / os insubmissas / os revoltadas / os que, em pequenas ações sub-reptícias, desviantes e insurgentes, ou em grandes movimentos coletivos de cólera, abalavam a ordem imposta com sua fúria ressentida. Sua movimentação errante pelos escombros e reconstruções nas grandes cidades revelam as profundas camadas de nossas história de dominação dos corpos. Por isso, concordamos com a sugestão de André de que “Numa incorporação histórica, os punks representariam uma das últimas formas de resistência aos ímpetos da modernidade avassaladora. Modelo de pretensões civilizatórias que devastara a cultura e os modos de vida dos habitantes antepassados da cidade, e que tem levado, sistematicamente, os seus poucos sobreviventes para as margens do espaço urbano.”

Nessa mesma direção, ouvindo ritmos e poesias, Roberto Camargos, investe em uma investigação sobre o campo de valores e modo de vida instaurado nas tensões das grandes cidades. Por meio das práticas culturais que envolvem o hip-hop, que transitaram com as diásporas modernas e nas tramas da sociedade globalizada, o autor, enfatizando as palavras e as batidas do RAP, nos leva a perceber uma abordagem crítica que nasce nos conflitos urbanos. Inseridos nas rimas daquele universo entendemos que: “ao aportarem justamente nos lugares em que a crise social e econômica e as transformações urbanas apresentavam contornos mais perversos, jovens marginalizados introduziram naquele contexto urbano práticas novas que, em alguma medida, mostravam sua interface com as questões que afetavam diretamente a vida da população mais pobre.” De suas experiências arrancaram representações que apontassem criticamente as mazelas sociais, mas que também valorizassem seu território de saber e as heranças de suas ancestralidades, compondo desta forma com uma narrativa em que “cidade, o espaço público, o direito à cidade e seus equipamentos públicos viraram fronts permanentes de batalhas em que as representações da periferia viraram objeto de intensa disputa”.

Seguimos os caminhos de Milene Migliano e Jessica Santana Bruno para lermos as intervenções feministas interseccionais nas paredes de Cachoeira, no Recôncavo Baiano, marcando a presença da diversidade de sujeitos na cidade. As narrativas e indagações de artistas, em sua maioria mulheres, que ocupam as atenções do meio urbano tensionando as linguagens artísticas, com lambes, graffiti, stencil e outras pinturas em muros e construções. Nesses diálogos públicos, “colocam o corpo feminino como foco principal, pondo em evidência o sagrado, a magia, a força e a potência que pulsa nestes corpos.” Além das intervenções, percebemos as produções artísticas gestadas no trânsito e nas trocas entre movimentos feministas no território brasileiro. Mulheres de São Paulo que intercambiam com amigas do Recôncavo Baiano e promovem uma narrativa interseccional na cidade.

Através das inscrições públicas, voamos do Recôncavo para as ruas do centro da cidade de Araraquara, no interior do Estado de São Paulo, onde Lucas Barbosa de Santana e Rafael Alves Orsia notam os efeitos estéticos e desdobramentos políticos dos grafites no centro histórico desta cidade média. Com os olhos atentos as mensagens gráficas nas paredes, os autores apontam para as contradições e disputas políticas no espaço urbano. Eles mostram como “o grafite além de não ser bem vindo, também é inviabilizado nessas áreas da cidade, já que apenas algumas poucas áreas estão realmente dispostas de grafite.” Entendemos no texto que nesse campo de disputas os ataques pintados nas paredes, também são frutos de negociações e acordos tácitos entre narrativas no tecido urbano. Nas ruínas dos lugares de memória e esquecimento, alguns transeuntes consideram aquele lugar um espaço de arte, nas paredes lemos: “A cidade é minha tela”. As tensões da mensagem, escondem os acordos, revelados pelos autores, entre o poder público e os agentes do aerossol com tintas.

As ressignificações das obras de arte pelo convívio [com o] público são observadas no texto escrito pelo grupo de pesquisadoras da Universidade do Estado da Bahia, Ana Clara Sousa e Silva, Beatriz Santos Alves Lopes Boaventura, Isaura Oliveira Figueiredo e Matheus Silva Nascimento, revelando as dinâmicas de interação entre cidade, arte e subjetividades. A partir de um exercício de alinhar diferentes perspectivas teóricas e contrastá-las com obras de artes dispostas na cidade de Salvador / BA, as autoras defendem “a arte para além de uma forma imposta” e percebem que a apropriação da arte na e pela cidade “não nasce no cartesianismo moderno, mas nas demandas subjetivas da contemporaneidade”. Pensando as relações tramadas no espaço urbano e nas tensões em torno das manifestações artísticas “material ou imaterial, numa área predominantemente residencial, comercial ou até mesmo numa zona de interesse artístico e cultural”, elas apresentam as “diferentes leituras da função social da arte e sua relação com o espaço”. Com esse grupo de intelectuais, revisitamos os lugares que compõem as obras: “ A Mãe Baiana” de autoria de Carybé, “As meninas do Brasil” de Eliana Kertész e o Largo de Santana ao Mariquita no Bairro do Rio Vermelho e descobrimos os múltiplos sentidos que tramam Salvador / BA.

Ainda em Salvador, Maria Emília Regina e Erica Checcucci observam como as possibilidades de expressão cultural nas Festas de Largo da capital da Bahia – através da produção das barracas de comidas e bebidas – são estrategicamente apropriadas pelas normas que visam a sua padronização. Estrategicamente, porque visam a ampla atuação do poder público na organização e controle das Festas, conduzindo a sua exploração comercial, e restringindo cada vez mais a participação dos chamados “barraqueiros” na composição do evento. Diferentes marcos regulatórios vão interferir no que é entendido pelas autoras como “sistemas dinâmicos instáveis”: as Festas de Largo de Salvador. Elas analisam especialmente os marcos ocorridos entre 1989 e 2018 e tecem uma crítica propositiva no que concerne ao engessamento padronizador provocado pela regulamentação na produção dos “artefatos culturais”, como são entendidas as barracas que se constituem no principal elemento do cenário das Festas de Largo. Assim, constroem “uma narrativa histórica das intervenções municipais (eventos) nas Festas de Largo, com vistas a entender a perda da expressão artística na construção das barracas”.

Em outra região do cone sul da América Latina, percorremos com Sabastián Godoy as ruas da cidade portuária de Rosário, na Argentina, e topamos com uma série de repertórios de ação artística ativadas naquele espaço. Voltando à década de 1980 e 1990, Godoy apresenta a formação de grupos de artivistas – ARTE&VIDA – que se engajaram em manifestações e insurgências que provocaram intensas transformações na vida urbana. Passamos a conhecer o coletivo Arte en la Kalle que ocupava, com murgas e performances carnavalescas, as marchas do dia 24 de Março – evento fúnebre que se preocupa em lembrar a Ditadura Militar. Lemos o ressoar dos grupos de murga argentina e suas provocações sonoras como os Los Bichicome y Caídos del Puente. Deparamos com as criações circense e as ocupações da cultura punk no Galpón Okupa. E, por fim, a articulação entre três grupos com outros participantes, tais como os organismos e militantes de agrupação “Hijos e Hijas por la Identidad y la Justicia contra el Olvido y el Silencio (HIJOS)”, vizinhos de bairro e advogados cujo objetivo era “poder alertar y ofrecer herramientas de defensa a los menores de edad, las principales víctimas del incremento de la violencia policial. El colectivo de artistas ideó una suerte de “campaña publicitaria”. Os desvios subjetivos narrados pelo autor, lembram os traços de desordenação das produções juvenis intermináveis nas metrópoles comunicacionais, anotadas por Massimo Canevacci em “Culturas Extremas: Mutações juvenis nos corpos das metrópoles” (2018). Por outra via de interpretação, Godoy reconstitui as desordens das revoltas ressentidas a partir das espacialidades tramadas entre, o que ele chama de: a performática, a contecimentação e a paisagem do eventual. Essa composição se materializam, seguindo suas observações, como uma série de possibilidades tramadas entre os corpos, as representações, os imaginários, as subjetividades, os objetos e as relações espaciais que transitam e transformam as dinâmicas no espaço.

A proposta lançada na chamada do dossiê foi ganhando corpo à medida que recebíamos as provocações de autoras / es de diferentes experiências de ArteCidades. As escolhas para integrar o material final demandou tempo, dedicação e a contribuição de nossas / os colaboradoras / es. Após construirmos o diálogo entre os artigos e suas / seus respectivas / os autoras / es, convidamos o artista João Costa para desafiarmos as linguagens convencionais das revistas acadêmicas e produzirmos, estimulados pelas provocações que surgiram no dossiê, um outro material gráfico que pudesse circular e divulgar por outros meios essa arte coletiva. Por isso, além da versão online disponível no site da Revista Urbana, temos uma versão impressa inspirada no formato de FANZINE – uma pequena revista produzida de forma livre e alternativa, criada (na década de 1970) nos meios urbanos por pessoas que não dispunham de recursos técnicos e financeiros para divulgarem suas artes, mas que, seguindo a filosofia do “faça você mesmo”, difundida nos meios underground, criaram táticas para disseminarem seus pensamentos. Partindo dessas ideias, assumimos uma forma que dialogasse com o conteúdo e que tornasse possível a circulação desse material para além das redes da internet. Assim, brindamos nossas / os leitoras / es com uma versão que pode ser baixada e impressa para o formato de FANZINE. Nosso desejo é que possamos usar essas ARTES para ocupar nossas CIDADES, como também usar as CIDADES para compor nossas ARTES.

Este percurso entre diferentes ArteCidades pretende-se apenas o começo ou o pedaço de um amplo território experienciado por essas pessoas que buscam arte na cidade, ou a cidade na arte. Que continuemos percorrendo, mesmo que imageticamente, as nossas ArteCidades, nos colocando disponíveis às suas interpelações estéticas, éticas, poéticas, políticas.

Parte desta edição da Revista Urbana foi feita no contexto da pandemia do coronavírus [2020], agravado pelo descaso do poder público federal e por seu aguçado desejo de morte. Por isso, dedicamos essa ação coletiva às vidas humanas que anseiam por arte e por condições de vida urbana. Que o pós-pandemia seja contaminado de sensibilidade às diversas formas de expressão da vida na ArteCidade.

João Augusto Neves – Universidade Estadual de Campinas. E-mail: [email protected]

Maria Isabel Costa Menezes da Rocha – Universidade Estadual de Campinas. E-mail: [email protected]


NEVES, João Augusto; ROCHA, Maria Isabel Costa Menezes da. Editorial. Urbana. Campinas, v.11, n.3, set / dez, 2019. Acessar publicação original [DR]

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Cidade do século XVIII / Urbana / 2018

Nas histórias da arte, da arquitetura e da cidade, toda denominação que se caracterize por uma identificação temporal ou estilística corre o risco de ser generalista e superficial. Assim, há algumas décadas, temos consciência dos proveitos mas também dos limites de algumas classificações como: a “cidade medieval”, a “cidade ideal”, a “cidade barroca”, a “cidade iluminista” etc., tanto pelo que resta excluído do nome quanto pelo que pode vir a residir dentro dele, quase sempre arbitrariamente. Acrescente-se, ainda, que uma denominação geralmente não oferece uma identidade semântica homogênea ou unívoca, uma concordância absoluta de entendimento para aqueles que se interessam por ela – essa cidade reificada por um epíteto ou pelo número de um século que, a bem da verdade e do rigor, só tem começo e fim nos calendários.

Advertência epistemológica necessária. Nada mais complexo e irredutível que a cidade, em que tantas são suas ciências, suas geografias, seus contextos, seus olhares. Assim, este Dossiê sobre a cidade do século XVIII buscou se esquivar daqueles lugares metodológicos tradicionais, conquanto tenham sido fundamentais para a historiografia há mais de um século. Em vez de se encerrar no nome, ilusoriamente satisfeito pela comodidade positiva de uma classificação, procuramos nos abrir para uma diversidade representativa de abordagens, abrigadas sob um arco temporal notoriamente organizacional; sobretudo em se tratando do século XVIII, um período marcado por transformações em todos os âmbitos mais relevantes da civilização: ciência, política, religião, filosofia, estética, artes, tecnologia etc., transformações essas que não começaram nem terminaram dentro de suas fronteiras temporais. Ademais, as dinâmicas constitutivas da cidade compreendem processos de longa duração, principalmente antes da modernização industrial; o que implica, muitas das vezes, ter que reconhecer e que considerar modelos, práticas e conceitos vigentes muito antes de seu tempo estrito ou que dele se tornaram contemporâneos por sua eficácia e sua adequação.

Desta feita, um dossiê sobre a cidade do século XVIII não se fez apenas oportuno, quanto também desafiador. Poucos períodos da história apresentam cidades e pensamentos sobre a arte de edificá-las tão diversos quanto o período em tela. Isto nos conduziu a uma premissa: mostrar a diversidade desse conjunto de empresas e histórias setecentistas, congregando pesquisas recentes e reflexões que nos permitissem almejar não o esgotamento de sua representação, mas a evidência de sua rica e imensa complexidade.

Nas últimas décadas, a história da cidade no século XVIII recebeu uma contribuição bastante significativa. Várias foram as circunstâncias desse crescimento, especialmente em nosso ambiente científico: o crescimento e a consolidação da pós-graduação em áreas de arquitetura e urbanismo, história, geografia etc., a realização frequente dos Seminários sobre história da cidade e do urbanismo (SHCU) desde 1990, as pesquisas sobre a arte e a cidade dita “barroca” nos anos de 1980 e 1990, impulsionadas pela Revista Barroco e também pela tradição das pesquisas do IPHAN sobre a arquitetura e as cidades coloniais, a comemoração das navegações e expansões portuguesas (SCDP), em que se empreenderam várias pesquisas e publicações individuais e coletivas, uma conexão maior e mais efetiva entre pesquisadores do Brasil, da Europa e também de outros países americanos, uma maior acessibilidade a arquivos e documentos históricos, tratados, atas, termos, ordens régias, mapas e desenhos, aqui e alhures.

Favorecidas por essas circunstâncias, muitas pesquisas recentes dialogaram com estudos anteriores sobre a urbanização setecentista luso-brasileira, como aqueles de Murillo Marx, Nestor Goulart Reis Filho, Sylvio de Vasconcellos, Paulo Santos e outros. Durante o século XX, passamos de um diagnóstico inicial de “desleixo”, “espontaneidade”, “irregularidade” e “desordem”, assim como se encontravam nas teorias de Sérgio Buarque de Holanda, Robert Smith e seguidores, para uma compreensão que não apenas reviu e apontou críticas a esses diagnósticos, como também soube reconhecer virtudes várias de conveniência, adequação, decoro, formosura, comodidade, ordem e regularidade correspondentes ao tempo mesmo daquelas cidades. E conseguimos, afinal, superar uma compreensão histórica que dependia de uma visão moderna de desenho e “planejamento urbano” assentes quase que exclusivamente em traçados geométricos estritamente retilíneos.

Assim, chegamos ao século XXI podendo confirmar virtudes de uma escola portuguesa (ou já luso-brasileira) de urbanismo que primava antes por “princípios”, nas palavras de Eduardo Horta Correia, do que por regras e modelos fixos distanciados das circunstâncias efetivas de ocupação e assentamento; uma escola povoadora de construção e participação coletivas, dinamizada por procedimentos e preceitos que eram levados a cabo por uma rica e diversa coleção de “agentes povoadores: desde letrados que haviam frequentado as aulas de arquitetura e engenharia militar na metrópole e na colônia, passando por oficiais da administração pública como governadores, vereadores, juízes, arruadores do conselho, ouvidores etc., até os mestres e artífices que compartilhavam saberes e práticas consolidados em costumes construtivos seculares – todos eles dedicados, entre outras providências públicas, ao aumento e à conservação de povoações.

Há algum tempo, a Revista Urbana vem organizando uma série de dossiês temáticos destinados a contemplar a complexidade de pensamentos, práticas, problemas, projetos e princípios que nortearam a compreensão e a construção das cidades. Um empreendimento admirável, facilitado pelo acesso eletrônico com o qual se disponibiliza a revista, que vem dando frutos importantes para a ciência do urbanismo em nossos ambientes de discussão.

Este novo dossiê traz textos diversos e muito interessantes para a compreensão das cidades no século XVIII. Há aqueles que se dedicaram a objetos urbanos muito precisos, como a povoação de Cabo Verde, no artigo de Carolina de Almeida e Renata Baesso, ou aos projetos de reforma e aumento da cidade de Madri, no texto de Concepción Aparicio; houve quem reavivasse a discussão com objetos tradicionais: historiadores, como no texto de Sabrina Melo sobre Robert Smith, ou conjuntos urbanos de fato, como no artigo de Simona Costa sobre as vilas de Minas Gerais; ou apontasse renovações metodológicas a partir de fontes primárias como as das décimas urbanas e dos censos, como na pesquisa coletiva de Beatriz Bueno, Nádia de Moura, Esdras Arraes e Diogo Borsoi, cotejando-as em várias povoações. Rodrigo Baeta recuperou a discussão sobre a cidade hispano-americana e Sérgio Fagerlande contemplou a vida urbana em torno às casas de ópera na cidade do Rio de Janeiro.

Como era nosso intuito, desde a chamada de trabalhos, o dossiê que o leitor tem agora à sua disposição é uma amostragem rica e representativa do inelutável processo de compreensão da urbanização setecentista, um dos meios possíveis de se habitar a história e também aquelas cidades. Oxalá seja o primeiro de muitos. Boa leitura!

Rodrigo Almeida Bastos – Universidade Federal de Santa Catarina. E-mail: [email protected]


BASTOS, Rodrigo Almeida. Editorial. Urbana. Campinas, v.10, n.1, jan / abr, 2018. Acessar publicação original [DR]

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A trajetória da cidade na história / Dimensões / 2018

A invenção da cidade encontra-se em tempos imemoriais, mas a sua trajetória pelos tempos históricos deixou evidências que muito tem a nos contar sobre os espaços urbanos e a vida em seus domínios, na longa duração. Elas estão presentes nos vestígios arqueológicos, nas representações artísticas, nas obras literárias, na fotografia, nos estudos, planos e projetos, nos documentos oficiais, entre tantas outras formas de registro sobre os quais debruçam-se pensadores de múltiplas áreas do conhecimento, com seus métodos e procedimentos específicos, na tentativa de desvendar o fenômeno urbano. Esses elementos formam as utensilagens que irão contribuir para a análise historiográfica das cidades.

Polissêmica, a cidade possibilita diversas formas de leitura. Para interpretá-la podemos observá-la por diferentes ângulos, ora privilegiando aspectos físicos e morfológicos, ora os aspectos da paisagem e da evolução urbana, ou ainda da sua rede de infraestrutura, materiais e técnicas de construção. Também podemos fazê-lo pelo viés das estruturas e relações sociais, dos processos identitários ou das sociabilidades urbanas; por meio dos movimentos sociais, ou pelo viés da política, da economia, da cultura, entre tantos outros aspectos possíveis. Leia Mais

Cidade e Memória / Urbana / 2017

Andar pela cidade, perceber o traçado de suas ruas, estudar os estilos arquitetônicos de seus prédios ou o seu centro histórico nos abre a possibilidade de ver e viver a cidade em perspectivas plurais, mas que deixam ainda obscuras tantas outras possibilidades de leitura do espaço citadino. Neste número a Urbana abre espaço para discussões que nascem da preocupação em entender a cidade como um espaço que ganha contornos e formas ao sabor das memórias que a constituem. A cidade torna-se plástica, moldável, maleável às falas de seus tantos habitantes, visitantes, urbanistas, cronistas, enfim, de todos aqueles que com ela vivem ou viveram algum tipo de relação – seja de identificação ou de estranhamento.

Pensar essas narrativas ditas e escritas em diversos momentos da vida dos habitantes da cidade consiste em um desafio instigante ao pesquisador do urbano. A todo instante nos deparamos com a defesa de alguns historiadores de que a nossa narrativa deve ser marcada pela objetividade e pelo caráter de cientificidade que lhe é inerente. Parece-me bastante propositivo pensar na construção da história a partir dessa mescla entre os “desejos” do historiador e seu compromisso com aquilo que suas fontes o permitem dizer. Reconhecer a impossibilidade de atingir uma verdade “absoluta” é reconhecer a pluralidade inerente à própria história, mesmo sem perder de vista que essa pluralidade dependerá dos vestígios, dos indícios que elegemos como significativos para tal pesquisa.

A saber, como nos ensina Bloch, a história carece de uma dose imensa de escolha pessoal, e essas escolhas são fruto do lugar em que se encontra o historiador. Lidar com a impossibilidade da construção de uma narrativa objetiva e total já era uma preocupação apontada por Lucien Febvre ao afirmar que “não adianta, você nunca poderá ver tudo, haverá sempre fontes que lhe escapam” (apud DUBY, 1989, p. 37). Por isso, usando a metáfora criada por Duby, o passado se apresenta como um “tecido amarrotado, coçado, rasgado”; ao historiador jamais será possível reconstitui-lo em sua totalidade, ou sequer conhecer a extensão daquilo que está perdido. As lacunas, assim como a subjetividade, são partes inerentes ao nosso ofício. Ao historiador fica o desafio de lidar com os limites, com aquilo que o lugar de produção da história lhe permite ou lhe proíbe dizer, uma vez que

a história se define inteira por uma relação da linguagem com o corpo (social) e, portanto, também pela sua relação com os limites que o corpo impõe, seja à maneira do lugar particular de onde se fala, seja à maneira do objeto outro (passado, morto) do qual se fala (CERTEAU, 2008, p. 77).

Somente quando consideramos a importância do lugar social [1] no processo de construção da história é que perceberemos sua própria historicidade. O nãolugar impede a história de ser história e o historiador de construir o seu corpus documental. O historiador – que tem o tempo como material de análise ou como objeto específico – trabalha

de acordo com os seus métodos, os objetos físicos (papéis, pedras, imagens, sons, etc.) que distinguem, no continuum do percebido, a organização de uma sociedade e o sistema de pertinências próprias de uma ‘ciência’. Trabalha sobre um material para transforma-lo em história. (CERTEAU, 2008, p. 79)

A produção da narrativa histórica acaba voltando-se a uma postura de respeito aos interlocutores com os quais lidamos na pesquisa. Devemos ter com eles uma postura de respeito, postura expressa na necessidade de inserir cada um deles no seu lugar de autor, levando em consideração o seu arcabouço conceitual – que informa e institui as suas interpretações acerca do mundo. Estaríamos, assim, diante de “um quadro vivo resultante da recusa em bani-los de antemão ou de cristalizá-los como paradigmas; uma atitude respeitosa em relação às posições assumidas, ainda quando delas discordamos.” (BRESCIANI, 2009, p. 183) Assim, essa postura respeitosa deve ser estendida tanto aos autores com que dialogamos quanto, e talvez sobretudo, aos nossos colaboradores – que se dispuseram a narrar suas experiências, ou às narrativas memorialísticas e tudo o que constitui a(s) memória(s) citadina(s).

Compartilhando da ideia apresentada por Jeanne Marie Gagnebin no prefácio ao volume I das “Obras Escolhidas de Walter Benjamin – Magia e Técnica, Arte e Política”, em que afirma que, para Benjamin, “a reconstrução da experiência deveria ser acompanhada de uma nova forma de narratividade” (GAGNEBIN, 1994, p. 09) este número da Revista Urbana apresenta-se como espaço para discussões sobre a relação existente entre experiência, narratividade e memória como possibilidade de entendimento das trajetórias trilhadas pelos diferentes indivíduos que compõem uma coletividade e a forma como se apropriam das imagens que parecem caracterizar essa mesma coletividade a partir de duas questões principais: a relação entre a memória e a história; e o entendimento do espaço citadino a partir das memórias que o constituem.

Pensar a relação entre memória e história é deparar-se com uma complexidade de entendimentos e de procedimentos que norteiam o trabalho do historiador para quem, assim como Proust, pensa que

a vida é vagabunda, nossa memória é sedentária, ou seja, à descontinuidade das experiências ao longo do tempo, a memória, igualmente descontínua, revela a possibilidade de algo único. A memória, portanto, constrói o real, muito mais do que o resgata (SEIXAS, 2001, p. 39).

É, portanto, entender a memória como presentificação do passado, (re)elaboração, (re)construção de uma experiência vivida. A memória não traz de volta a experiência vivida, mas constrói uma elaboração, uma digressão sobre essa mesma experiência. O falar, o narrar – embora impossibilitado pela vida moderna, como afirma Benjamin – constrói uma unicidade e uma lógica cadencial para os acontecimentos que não existia no momento em que a experiência se deu. Esse “algo único” de que nos fala Jacy Seixas (2001), é essa possibilidade que a memória tem de permitir uma organização de fatos descontínuos, uma ordenação mesma da vida em torno de expectativas e de questões presentes – é o dar forma à memória pessoal, mencionado por Monique Augras.

O rememorar é, então, entendido como um ato político e intencional de formulação de uma imagem sobre o passado e sobre a experiência vivida, seja ela entendida na individualidade ou mesmo na coletividade. Um ato que não prescinde da marca do seu narrador, do seu enunciador. A narrativa traz em si “impressas as marcas do narrador como os vestígios das mãos do oleiro no vaso da argila.” (BENJAMIN, 1989, p. 107) Essa impressão remete, inclusive, a uma noção de tempo que varia de acordo com a situação vivenciada. Para Bergson, a mesma durée pode ser vivenciada de formas distintas – pode parecer interminável se vazia de significado, ou ainda, parecer um momento fugaz se plena de intensidade psicológica. (BENJAMIN, 1989)

Aqueles que são incitados a lembrar dão à sua memória contornos próprios dessa vivência, uma vez que “lembrar não é reviver, mas re-fazer. É reflexão, compreensão do agora a partir do outrora; é sentimento, reaparição do feito e do ido, não sua mera repetição”. (BOSI, 1994, p. 20) Pensar na estreita relação entre passado e presente quando se fala de memória é pensar também em como se constitui a sua dimensão temporal. Passado e presente estabelecem uma relação de reciprocidade na medida em que constituem partes integrantes do processo do rememorar. Aquilo que Bergson chama de presentificação da durée seria o processo de apropriação mesmo das lembranças e transformação dessa experiência em memória voluntária. Benjamin chega a afirmar que esse processo de presentificação seria uma forma, também, de amortização do choque das experiências vividas pela uniformização dessas experiências em uma narrativa coerente, mas que “não pode contudo evitar que nela persistam a existência de fragmentos desiguais e privilegiados.” (BENJAMIN, 1989, p. 136) Por mais coesão que se tente dar a rememoração de um fato esse processo implicará sempre em imperfeições, em lacunas que são inerentes a qualquer tipo de narratividade.

Este caráter lacunar e imperfeito da memória é, para Todorov, inerente a ela. Não há oposição entre memória e esquecimento – eles são partes de um mesmo processo.

O uso da memória como instrumento de elaboração do conhecimento histórico pressupõe mais do que conceder ao outro (ao colaborador) o direito à lembrança; é mais do que isso, Todorov lança o desafio de conceder ao nosso interlocutor o direito ao esquecimento. O processo de elaboração de uma imagem de si no presente, implica que “para comenzar a hablar, hay que poner o pasado entre parêntesis” (TODOROV, 2000, p. 27), ou seja, repensar ações, vivências, decisões e dar a elas os contornos que o momento presente lhe exige, ou lhe permite fazer. Até mesmo considerar a impossibilidade de fazê-lo, o direito de manter no esquecimento fatos imagens que não queremos mais relacionar à nossa vida, à nossa imagem. Essa complexa dinâmica, própria da memória, se amplia quando, ao ser instigado a lembrar o indivíduo se vê diante de um processo que vai conceder ao outro (geralmente um desconhecido) as interpretações sobre sua própria experiência. Abrir mão do lugar de construtor de si não é processo fácil, portanto, implica ao depoente a construção de uma imagem bem consolidada de si e que não deixe muita margem à interpretações “errôneas” sobre ele ou sua atuação num determinado momento do passado.

Bastante profícua é a ideia dessa complexidade [2] de que fala Todorov e que nos instiga a pensar os meandros da relação que se constrói entre a memória e a história. A história se coloca fora dos grupos que viveram aqueles acontecimentos e cria ligações artificiais entre eles. Há uma multiplicidade de tempos tantos quantos são os grupos que compõem a sociedade. Mas nenhuma dessas consciências coletivas de tempo se impõe a todos os outros grupos. Ou seja, não há como falar em uma memória universal, como pretende a história, pois, como afirma Benjamin ao discutir Proust

um acontecimento vivido é finito, ou pelo menos encerrado na esfera do vivido, ao passo que o acontecimento lembrado é sem limites, porque é apenas uma chave para tudo o que veio antes e depois.” (BENJAMIN, 1994, p. 37)

O trabalho com a memória e com a história oral implica considerar, além das subjetividades, as inúmeras temporalidades que as compõem: da experiência vivida, da experiência rememorada, do presente em que rememora, e do presente do historiador quando se dedica a estudar essa rememoração.

Ao colaborador cabe a construção e a tessitura da narrativa da forma que achar mais adequada para os contornos que quer dar à sua memória. Diferentemente dos historiadores, o colaborador não tem uma preocupação em entender ou mesmo explicar os fatos que narra ou as conexões que estabelece entre eles – essa é uma característica marcante da narrativa para Benjamin. (1989, p. 203) A riqueza da oralidade, para o historiador, está em identificar esses contornos e a importância deles para a elaboração da narrativa do colaborador. Assim, os meus interlocutores ao falarem de Brasília e da relação que estabelecem com essa cidade me concedem não apenas o conteúdo mesmo de sua narrativa memorialística, mas os silêncios e as inquietudes que vivenciam no exercício de lembrar.

Assim, pensar a cidade a partir da fala de seus moradores, das memórias de seus edificadores, gestores, enfim, daqueles que a constituem, implica refletir sobre essas várias temporalidades e subjetividades que estão envolvidas no processo de historiar. A experiência de hoje lembrar sobre um fato passado, ocorrerá mediante o estímulo de questões colocadas pelo historiador / entrevistador, de fotografias apresentadas ou mesmo de um passeio pelas ruas da cidade, no entanto, essa será uma memória perpassada pelos limites que o historiador acaba colocando para o seu colaborador [3] no momento da entrevista / pesquisa.

Entendida como um espaço plural e complexo a cidade ganha contornos a partir dos diferentes discursos que incidem sobre ela – de urbanistas, de jornalistas, de cronistas, de memorialistas e de habitantes que acabam atribuindo significados à cidade e aos usos que são feitos dela a partir de seu lugar de atuação. Neste número a Revista Urbana apresenta as discussões e perspectivas traçadas por diferentes estudiosos sobre o espaço citadino e as relações com seus habitantes.

Notas

1. Lugar social entendido a partir da proposta de Michel de Certeau quando afirma que este é caracterizado pelo lugar social, político, econômico, institucional, ideológico, etc. ocupado pelo historiador no momento de elaboração de seu texto. (CERTEAU, 2008).

2. Ver também: RICOEUR (2007); SEIXAS (2001); NORA (1993); LE GOFF (2003); BERGSON (1999); HALBWACHS (1990); BOSI (1994).

3. Pesquisadores do NEHO / USP utilizam a nomenclatura de colaborador para referirem-se aos entrevistados, por entenderem que estes não apenas narram as suas experiências individuais, mas contribuem para a elaboração e consolidação de um saber que depende da forma como eles trabalham essa memória.

Referências

BENJAMIN, Walter. “Sobre alguns temas em Baudelaire”. In: Obras escolhidas III – Charles Baudelaire um lírico no auge do capitalismo. São Paulo: Brasiliense, 1989, pp. 103-150.

BENJAMIN, Walter. Obras escolhidas I – Magia e técnica, arte e política: ensaios sobre literatura e história da cultura. 7 ed. São Paulo: Brasiliense, 1994.

BOSI, Ecléa. Memória e Sociedade: lembrança de velhos. 3 ed. São Paulo, Companhia das Letras, 1994.

BRESCIANI, Maria Stella Martins. Um possível diálogo entre (e com) os intérpretes do Brasil. In: SOIHET, Rachel (org.). Mitos, projetos e práticas políticas: memória e historiografia. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2009, pp. 161-184.

CERTEAU, Michel de. A Operação Historiográfica. In: A Escrita da História. 2 ed. Rio de Janeiro, Forense Universitária, 2008, pp. 65-122.

DUBY, Georges; LARDREAU, Guy. Diálogos sobre a nova história. Lisboa: Publicações Dom Quixote, 1989.

GAGNEBIN, Jeanne Marie. “Prefácio: Walter Benjamin ou a história aberta”. In: BENJAMIN, Walter. Obras escolhidas I – Magia e técnica, arte e política: ensaios sobre literatura e história da cultura. 7 ed. São Paulo: Brasiliense, 1994, pp. 7-20.

SEIXAS, Jacy Alves de. “Percursos de memórias em terras de história: problemáticas autais”. In: BRESCIANI, M. S. M. & NAXARA, M. (orgs.) Memória e (res)sentimento: indagações sobre uma questão sensível. Campinas: Editora da Unicamp, 2001.

TODOROV, Tzvetán. Los abusos de la memoria. Buenos Aires: Paidós, 2000.

Viviane Gomes de Ceballos – Universidade Federal de Campina Grande. E-mail: [email protected]


CEBALLOS, Viviane Gomes de. Editorial. Urbana. Campinas, v.9, n.3, set / dez, 2017. Acessar publicação original [DR]

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História e Cidade / Cadernos de História / 2017

É com intensa satisfação que publicamos o Dossiê História e Cidades, a mais recente edição da revista Cadernos de História.

A aproximação da História com outros campos disciplinares, sobretudo com as Ciências Sociais, contribuiu para ampliar os olhares sobre a cidade. Nesse propósito, apresentamos nesse dossiê, artigos que dialogam com várias áreas cujas pesquisas muito contribuem para alargar as maneiras de se pensar o urbano.

Convidados para apresentar nosso editorial, a sociológica Luciana Teixeira de Andrade. A pesquisadora traz importantes contribuições em destacar o atual estágio dos estudos urbanos no meio acadêmico, suas múltiplas conexões interdisciplinares e diversificados campos de possibilidades que permitem amplos e sofisticados debates acerca da leitura sobre as cidades.

Os dois primeiros artigos que abrem esse dossiê, “Uma problemática da Arqueologia e da História: a cidade e seus territórios” e “O papel da ambiência histórica nos processos de tombamento dos sítios urbanos”, escritos, respectivamente por Arno Alvarez Kern e pelos coautores Cíntia Camila Viegas e Rubenilson Brazão Teixeira, entrecruzam os estudos sobre as cidades com a perspectiva arqueológica e patrimonial. A primeira pesquisa apresenta a arqueologia como um campo de possibilidades em considerar os vestígios obtidos por suas escavações como fontes históricas complementares para a interpretação do fenômeno urbano. Já no segundo artigo, os pesquisadores, ao utilizarem o conceito de ambiência histórica e ao analisarem as trajetórias percorridas sobre a noção de patrimônio, discutem os valores materiais e simbólicos atribuídos ao processo de tombamento de sítios urbanos. Cíntia Viegas e Rubenilson bem ilustram essa abordagem teórica através de um estudo de caso do patrimônio urbano potiguar.

O próximo artigo, de autoria da historiadora Maria Alice da Silva Tavares, apresenta o medievo português priorizando analiticamente o modo de vida urbano. Intitulada “Vivências quotidianas na rua: costumes e foros da Idade Média portuguesa”, a pesquisadora utiliza-se de fontes documentais municipais para fornecer dados para se entender a criminalidade urbana, os tratos higienistas e as atividades econômicas de ruas do século XIII, a partir de determinadas regiões lusitanas selecionadas pela autora.

Em seguida, a pesquisa de Gustavo Leandro Gouvea Lopes também se orienta pela análise higienista, porém, voltada ao cenário urbano mineiro de finais do século XIX e início do século XX. Em seu artigo “Vida e morte sujam a urbe moralizada: latidos, mugidos, higienismo e os jornais diamantinenses”, o autor analisa as narrativas da imprensa local, especialmente os jornais impressos, no sentido de identificar discurso civilizatório e moralizador favorável à ação da municipalidade no recolhimento de animais soltos pelas ruas da cidade mineira de Diamantina. De metodologia similar, ao priorizar a leitura de jornais e periódicos, a historiadora Sônia Maria de Meneses Silva, no artigo “A pena e o bacamarte: imprensa e narrativa criminal – um olhar sobre a cidade no século XIX”, também analisa as práticas e discursos higienistas reproduzidos pelas narrativas jornalísticas em relação ao controle da violência e à ordenação dos espaços urbanos da cidade de Fortaleza a partir da segunda metade do século XIX. Ainda tendo o século XIX como recorte temporal, porém estendendo-se ao primeiro quartel do século XX, o artigo “Comerciantes e artesãos toscanos nas ruas de São Paulo (1875-1914)”, do historiador Antonio de Ruggiero, trata da temática da imigração italiana, particularmente da região da Toscana, na cidade de São Paulo. A pesquisa aborda os vínculos engendrados por essa comunidade através do trabalho artesanal e pelas redes de sociabilidade construídas entre imigrantes e país receptor.

O artigo seguinte desse dossiê transpõe-se ao cenário latino-americano das primeiras quatro décadas do século XX. O trabalho “Antes del espacio publico: una historia de los espacios verdes y libres de la ciudad de Rosário (1900-1940)”, de autoria dos pesquisadores argentinos Diego Roldán e Sebastián Godoy, analisa as intervenções urbanísticas, higienistas e paisagísticas realizadas pelo poder público nos parques urbanos da cidade argentina de Rosário, província de Santa Fé, tendo em vista as narrativas construídas e sentidos atribuídos ao espaço público contemporâneo. Logo depois, Alexandre Cotovio Martins, em seu artigo “Fatores ‘genéticos’ da política de habitação operária da Companhia União Fabril em Portugal: uma breve análise” apresenta a realidade urbana lusitana, especialmente sua capital Lisboa, a partir da instalação da indústria têxtil Companhia União Fabril no ano de 1907. A pesquisa analisa as políticas habitacionais empreendidas por este empregador ao operariado e como tais iniciativas afetaram a forma de se pensar o espaço público naquele entorno industrial.

Dando sequência às publicações desse dossiê, o artigo “A cidade do Rio de Janeiro e a construção do Aeroporto Santos Dumont (1933-1938)” retoma os estudos urbanos sobre a realidade nacional. Sua autora, Claúdia Musa Fay, apresenta a conexão entre as construções dos primeiros aeroportos e a história urbana. A historiadora destaca como a criação do Aeroporto Santos Dumont modificou a paisagem estética, provocou significativas alterações urbanística e renovou as formas de representar o espaço público da cidade do Rio de Janeiro a partir da década de 1930. Já a pesquisa de Maria Cristina de Castro Pereira –, intitulada “Mapeando o Pouso Frio: dinâmicas de um bairro na cidade de Toledo / PR” – apresenta o processo de ocupação, ocorrido a partir da década de 1940, por diversificados sujeitos provenientes no norte do Paraná, São Paulo, Minas Gerais e Paraguai, do bairro denominado Pouso Frio, situado na cidade paranaense de Toledo. A autora destaca a omissão da história oficial reproduzida pelo município acerca da apropriação desse bairro por trabalhadores vindos de diversas regiões do país na busca por condições de moradia e por acesso à cidade.

A seguir, apresentamos o artigo “Um futuro alternativo para São Paulo: Anhaia Mello e a tese da limitação do crescimento da metrópole”, elaborado por Bruno de Macedo Zorek. Nesta pesquisa é abordada a conjuntura de modernização urbana experimentada pela cidade de São Paulo no decorrer da década de 1950, tendo em vista seu emergente processo de metropolização. O autor analisa, especialmente, documentos produzidos pelo urbanista Luís de Anhaia Mello acerca de suas perspectivas de pensar a nova configuração e o futuro da cidade paulistana.

Os próximos artigos abordam a temática do patrimônio e suas articulações ao urbano. Felipe Araujo Xavier, na pesquisa “O zé-pereira em Rio Novo: uma emancipação cultural centenária no interior de Minas Gerais (1906-2006)”, analisa as relações constituídas entre as práticas pré-carnavalescas representadas pelo bloco zépereira e os bailes de carnaval realizados pelos clubes sociais no município mineiro de Rio Novo em amplo recorte temporal. Nesse artigo, o autor utiliza-se de diversificadas fontes para interligar a memória e sua relação com o espaço urbano daquela localidade. Já o artigo “O Espelho da História: práticas patrimonialistas e transformações na paisagem urbana de Viçosa (1980-2010)”, dos pesquisadores Leonardo Civale e Walkíria Maria Freitas Martins, discute as relações acirradas e conflituosas que envolvem o patrimônio. Os coautores analisam como as ações patrimoniais reconfiguraram a paisagem urbana da cidade mineira de Viçosa, ao final do século XX e início do século XXI, no sentido de preservar e revitalizar antigas áreas industriais degradadas.

Finalizando a sequência de publicações desse dossiê, apresentamos duas comunicações voltadas à realidade lusitana: “O olhar estrangeiro na Lisboa de oitocentos” e “Shilb (Silves) no período islâmico – a Bagdad do ocidente”, respectivamente escritas por Maria João Castro e Natália Lopes Nunes. Na primeira comunicação, sua autora Maria João Castro utiliza-se do discurso literário no propósito de cartografar a cidade de Lisboa a partir do olhar memorialístico de seus visitantes europeus do século XIX. Já na segunda comunicação, Natália Lopes Nunes, ao coordenar um projeto em andamento, investiga a herança árabe e islâmica em Portugal, especialmente, na cidade de Silves, de antigo domínio muçulmano.

Assim, através dos colaboradores deste dossiê temático, podemos perceber a íntima relação entre História e Cidades. Os objetos abordados permeiam um vasto campo de possibilidades em se pensar a urbe, percorrendo a memória, o poder, as narrativas jornalísticas, a arqueologia, o patrimônio, as ocupações sociais, as manifestações e o planejamento urbano. Desse modo, Cadernos de História ratifica ser um amplo espaço de discussão acadêmica que contribui com o diálogo transdisciplinar ao reunir neste número instigantes pesquisas sobre História e Cidades. Agradecemos mais uma vez a equipe do Setor de Revisão da PUC Minas, especialmente, a professora Daniella Lopes, e aos estagiários Roberto Barcelos, Aline de Oliveira, Julia Magalhães e Thatiane Marques.

Agradecemos também a professora Jacyra Parreiras, chefe do Departamento de História da PUC Minas, e ao diretor da Editora PUC Minas, professor Paulo Agostinho Nogueira Baptista. Agradecemos ainda aos membros do Conselho Editorial dos Cadernos de História, notadamente, aos professores Rafael Pacheco Mourão, Virgínia Valadares e Maria Flor de Maio Benfica. Ressaltamos que todas essas pessoas foram importantíssimas para tornar possível mais uma publicação.

Desejamos a todos uma boa leitura!

Marcelo de Araújo Rehfeld Cedro – Doutor em Ciências Sociais pela Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais (PUC Minas). Professor do Departamento de História da PUC Minas. Editor Gerente dos Cadernos de História.


CEDRO, Marcelo de Araújo Rehfeld. Apresentação. Cadernos de História. Belo Horizonte, v.18, n.28, 2017. Acessar publicação original [DR]

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Cidade e cultura visual / Urbana / 2017

A Revista Urbana apresenta, em sua trajetória, uma especial atenção aos documentos visuais. Nos artigos reunidos pela revista, não é raro o uso de fotografias, cartografias, desenhos e outros suportes visuais, num diálogo muito profícuo e latente com as reflexões diretamente ligadas à cultura urbana. A própria transformação e o desenvolvimento dos debates acadêmicos expressos ao longo de seus volumes têm trajetória inerente a um diálogo com esses documentos, destacando uma ligação que acompanha a própria constituição dos saberes urbanos. Não por menos, logo em seu segundo volume, a Revista Urbana foi organizada em torno do tema ‘Cidade, Imagem, História e Interdisciplinaridade’, marcando, desde o seu início, a necessidade de se pensar a história urbana a partir de documentos visuais.

O volume publicado há uma década se insere num contexto muito específico dos estudos urbanos, mas também de um momento próprio da disciplina da história – em seu sentido alargado. Naquele momento, passava-se a incorporar os estudos visuais como um de seus problemas de investigação. Josianne Francia Cerasoli, no editorial do volume publicado em 2007, destacou que aquela publicação era fruto de reflexões que se deram em dois Simpósios Temáticos da ANPUH, sendo um deles proveniente do GT “Cultura Visual, Imagem e História”. Essa não é uma informação menor, visto que aquele GT nascera no ano de 2003. Foi, portanto, no início dos anos 2000, que os historiadores se puseram a pensar mais cuidadosamente as fontes visuais, propondo novos caminhos e sentidos para a história urbana. Não por menos, o grupo formado naquele GT se consolidou e relevantes pesquisas se estruturaram em torno de seus núcleos de pesquisas.

Vale destacar que esse interesse dos historiadores pelas imagens – com especial atenção à fotografia – vinha tomando corpo a partir de meados dos anos 1980, no Brasil, com notável desenvolvimento a partir dos anos 1990. Trabalhos de expressiva amplitude e cuidado metodológico foram publicados nesse período, onde se pode destacar o volume 6 da revista Acervo do Arquivo Nacional e o volume 5 do Boletim do Centro de Memória da Unicamp, ambos publicados em 1993; o número 27 da Revista do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, em 1998 ou o volume 32 dos Anais do Museu Histórico Nacional; além de outras publicações como Retratos quase inocentes, de autoria de Carlos Eugênio de Moura e publicado em 1983, ou a publicação organizada por Annateresa Fabris, Fotografia: usos e funções no século XIX, publicado em 1991. Os documentos fotográficos – nesse caso – passavam a ser tratados não apenas como iconografia para a história, mas eles mesmos – documentos – passavam a ocupar o lugar central de reflexão dos historiadores.

No que se refere aos debates da cidade, da arquitetura e do patrimônio, o uso de documentos visuais também passou a ser recorrente nos trabalhos acadêmicos. Através desse interesse dos historiadores, colocou-se em debate momentos específicos da trajetória das cidades, especialmente no caso dos grandes centros urbanos que tiveram seus aspectos radicalmente transformados pelo processo de urbanização do século XX. Nesse sentido, o trabalho Fotografia e Cidade, das historiadoras Vânia Carneiro e Solange Lima, logo se estabeleceu como uma importante referência para qualquer pesquisador dedicado ao tema. O debate em torno dos mapas, proposto por Beatriz Bueno em Desenho e desígnio, também marca esse momento da produção acadêmica, interessada em pensar a formação das cidades brasileiras a partir dos documentos visuais.

Essa renovação em torno dos suportes documentais seguiu o momento decisivo pelo qual a historiografia brasileira da arquitetura e do urbanismo passou a partir a partir dos anos 1980. Já amplamente destacada e enfrentada em publicações organizadas pelo Dr. Abílio Guerra (2010) e pelo Dr. José Tavares Correia de Lira, através dos números 11 e 12 da revista Desígnio (2011), a revisão historiográfica da arquitetura e do urbanismo é, em grande parte, devedora dessa renovação em torno das fontes, documentos e arquivos. Desse modo, foi possível que novos objetos de investigação e novos problemas pudessem contribuir com uma transformação plural. Num movimento correspondente, Ana Claudia Veiga de Castro e a Joana Mello de Carvalho e Silva organizaram recentemente um número temático dos Anais do Museu Paulista sobre o estatuto das fontes e dos acervos nas pesquisas de história da arquitetura e da cidade, ampliando o debate especialmente no que se refere aos diferentes suportes documentais. Os arquivos e coleções passaram também a ocupar um lugar importante dentro desse movimento de renovação da historiografia.

Não por menos, identifica-se uma nova guinada nos trabalhos dos historiadores, colocando novas perguntas e novos problemas para se pensar os documentos visuais. Já no final do século XX, é possível identificar uma série de trabalhos icônicos que contribuíram de maneira singular para se pensar e produzir história com documentos visuais. De forma pioneira, Michael Baxandall constituiu uma importante contribuição sobre o Renascimento italiano, articulando de forma inovadora imagem e texto. A produção do real através de instrumentos científicos e a constituição de seus suportes visuais, numa relação imbricada com a sociedade, aparece caracterizada de forma cuidadosa no trabalho da pesquisadora Svetlana Alpers. Assinalava-se, assim, o que se denominou por Cultura Visual, um campo de saber interdisciplinar constituído “através das relações de interlocução e produção de sentidos com a história da arte, literatura, filosofia, estudos cinematográficos e de cultura de massa, sociologia, antropologia e arquitetura” (SCHIAVINATTO; COSTA, 2016). No Brasil, esse debate é recente e teve início nos trabalhos Fontes visuais, cultura visual, história visual, de Ulpiano Bezerra de Meneses; e em O desafio de fazer história com imagens, de Paulo Knauss.

A renovação historiográfica associada à cultura visual coloca, portanto, no centro de seu debate não apenas o estatuto das fontes – sua natureza – nas suas diferentes tipologias, mas também as interrelações e o lugar ocupado por elas na relação com seus temas e objetos diretamente relacionais. Isso quer dizer que pensar com imagens não significa uma associação direta com uma questão real ou objeto descrito ou ilustrado pelo documento. O documento, em si, é artefato – tem matéria – e, portanto, tem uma natureza específica que é inerente a uma dada cultura. Desse modo, é possível compreender que o documento visual funciona como elemento intrínseco e indissociável de uma dada cultura, fazendo com que certas especificidades sejam fundamentalmente importantes para a compreensão de seu lugar e relevância. A imagem que carrega uma fotografia, um filme, um livro, um mapa ou desenho é, portanto, apenas um dos elementos fundamentais para a leitura do documento. Este possui também um suporte que carrega uma imagem, valorado diferentemente em acordo com sua natureza; assim como um lugar e uma importância numa dinâmica cultural, que envolve os agentes diretamente ligados a sua produção, circulação e consumo; como também o modo como essa imagem foi produzida, sua linguagem e seus signos e instrumentos diretamente relacionados.

Foi a partir dessas avaliações que os artigos aqui reunidos foram ordenados. Primeiramente, privilegiou-se as tipologias documentais, favorecendo a futura leitura de pesquisadores interessados em determinados documentos. Assim, este número da Revista Urbana pretende servir como apoio a futuras investigações que se dediquem não apenas a um dos temas aqui tratados, mas à natureza do documento enfrentado. Para tanto, a organização deste número apresenta artigos que tratam de livros de arquitetura, produções cinematográficas, telas históricas e fotografias, como que fornecendo subsídios para que se possa acompanhar mais claramente a renovação historiográfica em curso. Paralelamente, é possível notar que os primeiros artigos se enquadram mais cuidadosamente no que se entende hoje por Cultura Visual e, neste aspecto, vale uma pequena descrição.

Em “A imagem da Cabana Primitiva no Renascimento”, Francisco Dias de Andrade apresenta um texto de grande importância para o entendimento de como a imagem da cabana primitiva foi se equacionando a partir da redescoberta do tratado De Architectura de Vitrúvio. Cuidadosamente debatido a partir de fontes, o autor demonstra como essa imagem, hoje consagrada através do trabalho de Joseph Rykwert, é fruto de disputas e tensões culturais. De maneira semelhante, Herta Franco, em seu “Cinema, Estigmatização Territorial e História Urbana”, e Flaviano Isolan, em seu “Metropolis, Trem Azul e Zumbis”, demonstram brilhantemente como a produção cinematográfica não apenas contribuem para a consolidação de significados sobre o próprio território, como no caso de Franco, mas também podem intervir no próprio campo historiográfico, mudando conceitos e sentidos sobre movimentos, como apresentado por Isolan. O cinema não é, portanto, apenas uma representação, mas ocupam uma posição ativa na formação de sentidos sobre um determinado território.

Seguindo uma reflexão cuidadosa em torno da cultura visual, Carlos Oliveira apresenta uma bela contribuição sobre o papel que a circulação de imagens teve para os debates patrimoniais. Apresentando algumas das telas produzidas por Émile Rouède, Oliveria deixa claro que os debates patrimoniais e preservacionistas, gerados pela mudança da capital de Minas Gerais no final do século XIX, guardam associações diretas com a produção visual daquele momento. De maneira semelhante, Bruno de Andrea Roma apresenta uma importante reflexão sobre o papel ocupado pela fotografia na consolidação dos debates ligados à preservação de bens culturais. Em ambos os casos, Oliveira e Roma contribuem para reforçar a importância do estatuto das fontes na relação com os debates patrimoniais, sendo que, nesse último caso, a fotografia ocupa o centro da reflexão para os debates contemporâneos ligados à preservação no Brasil.

Vera Lucia Vieria Lima e Renata de Almeida, em “Arquitetura das colônias de imigração alemã”, assim como Laura Cury, em “A imagem do Parque do Ibirapuera”, se não investem especificamente sobre os debates da cultura visual, apresentam bons contributos para se pensar a imagem na organização de uma memória. Seja sobre a cultura arquitetônica alemã ou mesmo na modernidade expressa através da arquitetura do Parque do Ibirapuera, ambos os artigos representam a natureza intrínseca dos documentos fotográficos.

A Revista Urbana apresenta, desse modo, uma mobilização renovada em torno dos debates visuais. Com este número, espera-se que os debates ligados à cultura visual possam avançar nas universidades brasileiras, renovando as perspectivas possíveis de produção intelectual ligada aos estudos urbanos.

Referências

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Eduardo Augusto Costa – Pós-doutor em história pela Unicamp (2018). Foi vencedor do XI Prêmio Funarte Marc Ferrez de Fotografia (2010). Atualmente é Pesquisador Colaborador da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da USP. E-mail: [email protected]


COSTA, Eduardo Augusto. Editorial. Urbana. Campinas, v.9, n.2, maio / ago, 2017. Acessar publicação original [DR]

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A cidade e a arquitetura sacra / Cordis – Revista Eletrônica de História Social da Cidade / 2016

A Revista Eletrônica “Cordis” do Núcleo de Estudos de História Social da Cidade da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo pública este mês seu número 17. Esta é uma “Edição Especial” da revista Cordis por ser tratar de uma temática debatida no “I SIMPÓSIO NEHSC – Cidade e Arquitetura em Diálogo: A Arquitetura Sacra”, por docentes-pesquisadores atuantes em Instituições de Ensino Superior e Núcleos de Pesquisa do país, com experiência em pesquisa e participação em eventos no Brasil e no Exterior.

Nossos autores são formados em diferentes cursos de graduação e pós-graduação, no país e no exterior, especialistas nas áreas de Ciências Humanas e / ou Sociais, atuantes em suas áreas de especialidade: Arquitetura, Artes, História, Instituição, Política e Teologia, irão colaborar bastante para o debate / conhecimento sobre a temática desta edição que é “A Cidade e a Arquitetura Sacra” em suas múltiplas faces, percorrendo caminhos que passam pela religiosidade popular, pela arte, pela política e pelas teorias e metodologias da arquitetura.

As abordagens teóricas, os métodos e as fontes são bastante amplas e colaboram para problematizar nossa proposta temática, e que são também pertinentes aos objetos de estudos dos pesquisadores aqui reunidos com suas reflexões consistentes e instigantes. Este número especial da Revista Eletrônica Cordis possui 8 (oito) artigos temáticos abordando “A Cidade e a Arquitetura Sacra”.

Aproveito a oportunidade para agradecer a participação de nossos colegas autores e autoras que se empenharam para que tivéssemos um evento digno do NEHSC da PUC-SP, núcleo de pesquisa que completará em 2017 longevos 25 (vinte e cinco) anos de atuação nas áreas de pesquisa e formação, produzindo novos pesquisadores para a área de História Social, com destaque para o estudo das Cidades, e por terem escrito seus textos para esta publicação que dedicarei a nossa querida amiga e mestra incansável, idealizadora e uma das fundadoras do NEHSC da PUC-SP, a Profa. Dra. Yvone Dias Avelino.

São Paulo, Dezembro de 2016.

Edgar da Silva Gomes – Professor Doutor. Membro do NEHSC PUC-SP

Organizador deste número da Revista Cordis


GOMES, Edgar da Silva. Apresentação. Cordis – Revista Eletrônica de História Social da Cidade, São Paulo, n. 17, jul. / dez., 2016. Acessar publicação original [DR]

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Cidade e Natureza / Urbana / 2016

Compreender a relação entre as cidades e a natureza foi tarefa imprescindível para quem se dedicou a pensar as questões urbanas. Quase sempre isso ocorreu em razão de necessidades práticas e imediatas, como garantir seu abastecimento de água, comida e energia; a dispersão das águas servidas e de outros resíduos; a defesa contra inimigos próximos ou distantes para se construir vias de comunicação ou mesmo para impulsionar o desenvolvimento econômico. Mesmo em casos extremos, quando se procurou descolar a cidade de seu lugar de nascimento, essa relação estava presente, ainda que pela negação. Os que foram mais além das necessidades imediatas, deram atenção ainda maior ao modo como as relações humanas e o mundo natural interagiam no espaço urbano, e, nunca deixaram de ver as cidades como um caminho possível para a concretização da utopia de uma sociedade livre, plena de vida, alegria, inteligência e justiça.

A cada época, a natureza e as cidades foram redescobertas por novas sensações e emoções, foram apropriadas de diferentes formas para novos usos, foram constantemente reinterpretadas por inúmeros discursos e por novos saberes. A descoberta das possibilidades de divertimento na natureza, por exemplo, esteve associada com um peso cada vez maior que a cultura conquistou sobre as sensações imediatas, o que tornaria possível a reivindicação de uma natureza idealizada para o usufruto dos moradores urbanos em seus momentos de ócio.

Note-se que em nosso tempo essa relação ficou ainda mais complexa, pois, desde fins do século XX, a humanidade se encontra diante de uma grave crise ambiental. Dessa forma, pensar a relação da cidade com o mundo natural se tornou ainda mais complexo, pois é preciso considerar fatores como as mudanças climáticas, por exemplo. Não é exagero afirmar que a superação da crise ambiental contemporânea passa pelas cidades, lugar aonde vive a maior parte da população mundial, pois, ao processarem quantidades formidáveis de trabalho, recursos naturais, energia e gerarem todo tipo de resíduos, causam forte impacto nos sistemas naturais que suportam a vida do planeta, o que atinge os seres humanos nas cidades ou fora delas.

Foi pensando nessa multiplicidade de reflexões, resultantes das relações históricas entre os processos de urbanização, o meio ambiente e as diferentes representações de natureza consolidadas por nossas sociedades, que organizamos o Seminário Cidade e Natureza, realizado em 22 de maio de 2015 na Universidade Estadual de Campinas. O evento reuniu professores e estudantes de pós-graduação de diversas áreas do conhecimento que se dedicam ao estudo das inter-relações entre os seres humanos e a natureza a partir de uma perspectiva histórica e que atuam junto ao Grupo de Trabalho em História Ambiental, da Associação Nacional de História – Seção São Paulo (ANPUH-SP). O presente Dossiê Cidade e Natureza foi organizado como forma de registro dos trabalhos apresentados no Seminário Cidade e Natureza e como continuidade das ações do Grupo de Trabalho em História Ambiental no sentido de aproximar pesquisadores e suas respectivas produções, favorecendo, assim, a promoção contínua de interações acadêmicas, diálogos interdisciplinares, trocas de experiências e divulgação científica.

Janes Jorge – Universidade Federal de São Paulo. E-mail: [email protected]

Carmen Lúcia Soares – Universidade Estadual de Campinas soares. E-mail: [email protected]

André Dalben – Universidade Estadual de Londrina. E-mail: [email protected]


JORGE, Janes; SOARES, Carmen Lúcia; DALBEN, André. Editorial. Urbana. Campinas, v.8, n.2, maio / ago, 2016. Acessar publicação original [DR]

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Intelectuais e cidade / Intellèctus / 2015

A Revista Intellectus vem sendo publicada ininterruptamente há quatorze anos, desde o seu primeiro número, em maio de 2002, fruto de um denodado trabalho realizado pela Professora Maria Emilia Prado, Titular de História do Brasil da Universidade do Estado do Rio de Janeiro. Contando com a colaboração de historiadores e pesquisadores das mais diversas áreas de Ciências Humanas da América Latina, Portugal e Espanha, a Intellectus vem, desde então, apresentando uma clara vocação para a discussão acerca dos intelectuais, sobretudo no que tange a sua atuação política, projetos e ideias. Poderíamos dizer que essa proposta está no DNA da revista e, como tal, vem se afigurando como a sua característica mais marcante nesses 14 anos de presença na vida acadêmica brasileira.

Em acréscimo a essa vocação, o dossiê temático que ora apresentamos vem adicionar o tema das cidades àquele dos intelectuais e, assim, enriquecê-lo, posto que insere um agente que atua de maneira pró-ativa na composição dos formuladores de ideias, objeto maior de análise da revista. Assim, temos aqui a cidade não somente como cenário, como palco de atuações sociais e construção de ideias e conceitos por um grupo de indivíduos ilustrados, mas antes como sujeito que porta uma historicidade toda idiossincrática, e que atua na própria composição de uma coletividade e de suas ideias. Leia Mais

Cidade e Habitação na América Latina / Urbana / 2014

Este Dossiê Cidade e Habitação na América Latina está organizado a partir dos trabalhos apresentados (em Conferências e Sessões Temáticas) no III Congresso Internacional de História Urbana ocorrido em Brasília no mês de novembro de 2013 e organizado pelo Grupo de Pesquisa em História do Urbanismo e da Cidade (GPHUC-UnB / CNPq) e pelo Centro Interdisciplinar de Estudos da Cidade do IFCH-UNICAMP. A “origem” do Congresso foi a organização da coletânea “Ciudad y Vivienda en America Latina – 1930 / 1960”, coordenada por Carlos Sambricio (ETSAM / Universidad Politecnica de Madrid), publicada em 2012 pela Editora Lampreave (SAMBRICIO, 2012). A realização do livro envolveu pesquisadores de Universidades do Brasil, Cuba, Argentina, Chile, Venezuela, Colômbia e México, que elaboraram estudos sobre as cidades capitais e sobre habitação social nos seus respectivos países.

O III Congresso Internacional de História Urbana – “Cidade e Habitação na América Latina” centrou-se nas investigações históricas acerca de ações empreendidas pelos Estados Nacionais dos Países Latino-americanos no campo das problemáticas habitacionais de interesse social e de intervenção urbana-planos urbanísticos no contexto da importante urbanização e industrialização vivenciada no continente entre as décadas de 1930 e 1960. Entre os objetivos que orientaram o congresso e, consequentemente, este dossiê, vale mencionar a atualização dos debates sobre resultados de investigações, no campo dos estudos urbanos, da temática proposta para o evento: Cidade e Habitação na América Latina, 1930-1960”; a discussão, a partir de pesquisas em diferentes nacionalidades, acerca das relações entre projetos políticos, política urbana e habitação no período. Além disso, ao aprofundar o debate acadêmico sobre diferenças e aproximações entre as políticas urbanas nos países do continente americano, por meio de uma perspectiva comparada, o evento e este dossiê buscam viabilizar a continuidade e o aprofundamento das interlocuções acerca da história urbana estabelecidas, entre outros espaços, em dois congressos anteriores, organizados em 2004 e 2009.

O livro (Ciudad y Vivienda en America Latina) e o III Congresso Internacional de História Urbana apresentavam ainda uma especificidade importante: os estudos, os pesquisadores envolvidos e a estrutura proposta para realizar o evento privilegiaram investigações históricas feitas nos países da América Latina. Com a publicação do Dossiê pela URBANA, os trabalhos aprovados para o Congresso e os textos das Conferências de pesquisadores brasileiros convidados para o evento em Brasília complementam o escopo dos estudos que foram inicialmente publicados no livro em 2012, ampliando assim o acesso a pesquisas que dialogam com o tema geral, tanto no Brasil como em outros países do continente americano.

Outro aspecto relevante da proposta original do livro e que reverberou no Congresso e no Dossiê agora publicado foi o recorte temporal 1930-1960, em continuidade aos Congressos anteriores, dedicados às décadas iniciais do século XX, além de abranger debates e projetos polêmicos e significativos para a redefinição do lugar político e cultural das Américas nas relações entre as nações no período. O III Congresso buscou promover uma oportunidade de interlocução entre pesquisadores voltados à investigação de processos sociais, políticos, econômicos e culturais de singular relevância para o continente americano, particularmente para os países de colonização espanhola e o Brasil – aspecto ampliado por este Dossiê, que se abre para uma temporalidade mais larga, ampliando as relações para décadas anteriores e posteriores ao recorte 1930-1960.

Cidade e Habitação na América Latina

Ao tomar-se o próprio Brasil como exemplo para se pensar a temática no período, entre as décadas de 1930 e 1960, é possível reconhecer a proeminência do debate proposto pelo livro, norteador das sessões e conferências do III Congresso Internacional de História Urbana. Numerosos estudos têm investigado os desdobramentos de mudanças profundas e polêmicas circunscritas ao logo desses trinta anos entre 1930-1960, que em certa medida transformaram estruturalmente os processos de desenvolvimento do país, sobretudo pela relevância da reestruturação produtiva marcadamente industrial conduzida pelas duas expressivas forças políticas brasileiras, organizadas em torno de dois governos nacionais: o primeiro liderado por Getúlio Vargas (1930-1945), portanto, integralmente inserido entre o contexto de rupturas da ordem política institucional de 1930 e 1937, o segundo representado por Juscelino Kubitschek (1956-1960). Este segundo, já no âmbito da redemocratização instaurada com o final do Estado Novo e elaboração da Constituição de 1946, conhecida como Constituição Municipalista, especialmente pela sua orientação liberal, e que culminou com a inauguração de Brasília. Deve-se ressaltar ainda, considerando-se os intensos e reiterados debates em torno das expressões modernas na arquitetura, a importância que adquiriu nesse período a redefinição do lugar específico da arquitetura e do urbanismo produzidos no continente americano entre as demais expressões, ou seja, a discussão em pauta no período acerca das possibilidades de uma contribuição cultural e política singulares nas Américas. Ao lado do impulso dito “desenvolvimentista”, tal debate de fundo cultural não deixou de intervir fortemente no contexto dos debates políticos no continente, desdobrando-se em repercussões que permanecem na pauta dos estudos sobre o período por seu papel crucial – estudos do campo da História, das Ciências Sociais, da Arquitetura e Urbanismo etc.

Uma aproximação de caráter econômico, nesse caso, permite considerar que o desenvolvimento brasileiro passou por uma mudança estrutural e estruturante da base econômica profundamente agrária vigente ao longo do período imperial e da chamada primeira república (ainda que a mudança não tenha implicado na eliminação completa de formas de organizações então vigentes). Tal abordagem pode ser sintetizada, em termos abrangentes, a partir de duas tendências importantes. Antes da década de 1930 e desde o movimento republicano de 1889 [1] , pode ser caracterizada principalmente por uma “política econômica externa, de tipo liberal” (IANNI, 1971: 28) agroexportadora e baseada na produção do café [2] ; depois de 1930, é possível identificar o delineamento de uma tendência fundamentalmente industrial, mediante orientação conjuntural do planejamento econômico pela implementação de políticas direcionadas em certa medida à substituição da importação de produtos, e estruturalmente pela lógica da dependência (re)estabelecida já no final da década de 1960 em relação ao capitalismo central.

Contudo, se por um lado a industrialização, sobretudo a chamada indústria de base, pode ser considerada orientadora da política nacional de desenvolvimento desde 1930, de certa forma, até como política de Estado e não apenas da política de governo, por outro lado não pode ser analisada desvinculadamente das concepções e princípios macroeconômicos e políticos que fundamentaram os projetos e em especial os projetos de governo até 1960. Os projetos políticos construídos em torno do governo de Getúlio Vargas orientaram suas ações na “defesa de novas soluções para os problemas da sociedade nacional” (IANNI, 1971: 69). Para Octavio Ianni, essas novas soluções devem ser consideradas de tipo nacionalista, caracterizadas pela redefinição das relações do Brasil com o capitalismo mundial, nacionalizando as decisões sobre a política econômica.

Em relação às forças mobilizadas em torno do projeto governamental do presidente Juscelino Kubitschek, na década de 1950, as orientações assumidas no planejamento governamental, estruturadas no Plano de Metas, expuseram princípios distintos ao chamado nacionalismo varguista em relação ao mesmo capitalismo mundial. Segundo Fernando Rezende, ao reforçar a complementaridade dos setores que compunham o parque produtivo brasileiro, o Plano de Metas completa o ciclo de industrialização iniciado na década de 1930, promovendo a diversificação da indústria brasileira. Entretanto, afirma o autor, “ao apoiar essa nova etapa de industrialização no estreitamento das relações do capital privado nacional com o internacional, ele alterou o padrão de dependência externa, revertendo a posição nacionalista da Era Vargas” (REZENDE, 2011: 179).

É também nesse contexto de esforços para o desenvolvimento brasileiro orientado pela ação planejada do Estado –diante de opostos em seus princípios, concepções e ideologias – que o processo de concepção, construção e inauguração de Brasília, como capital do Brasil, teve papel relevante para o país. Vista nesse sentido, a inauguração da nova capital brasileira extrapola inclusive sua inserção nacional e internacional no debate intelectual e profissional no campo específico da arquitetura e urbanismo. Essa realização perpassa o próprio debate sobre o planejamento governamental brasileiro e as decisões relativas ao desenvolvimento nacional, no mesmo momento em que os outros países latino-americanos também o fazem a partir das suas experiências particulares. No caso de Brasília como fator estrutural, sua construção justificava os “investimentos no setor de transportes (rodoviários), pois as ligações do país com Brasília, assim se supunha, provocariam a integração e o desenvolvimento da hinterland” (LAFER, 2003: 35).

Ainda conforme Celso Lafer, do ponto de vista político-econômico, a opção por Brasília e sua inclusão no Plano de Metas foi resultante do conceito de ponto de germinação concebido por equipe criada pelo governo Juscelino para elaboração de programas de desenvolvimento econômico. O conceito estava pautado “no pressuposto de que a oferta de infraestrutura provocaria atividades produtivas” (LAFER, 2003). Por outro lado, o próprio Lafer entende todos os cinco setores do Plano de Metas, mas especialmente alimentação, energia e transportes – estes dois, bases estruturais para a consolidação do processo de industrialização da economia desde 1930 – como associados a outro conceito, o de ponto de estrangulamento, mapeados na existência de áreas de demanda insatisfeita de infraestrutura, consequência do desequilíbrio do desenvolvimento econômico brasileiro (LAFER, 2003).

Enquanto decisão política apoiada na orientação técnica do planejamento governamental, Brasília consubstanciou-se na complementaridade e articulação dos dois conceitos, o de estrangulamento e o de germinação, associando a necessidade de eliminação dessa demanda insatisfeita com a necessidade de oferta de infraestrutura para a expansão da economia e do desenvolvimento nacional. Nessa perspectiva, uma decisão política com duas temporalidades: a primeira relacionada à elaboração do projeto urbanístico – expressa no próprio concurso público vencido por Lucio Costa –, a segunda relacionada à construção da cidade propriamente dita, esta sim fundamental para a consolidação dos dois conceitos e seus objetivos.

Outro aspecto que envolve a decisão política por Brasília, também fundamental nesta segunda temporalidade – a construção da capital – é a consolidação do setor de transportes como base estrutural do desenvolvimento (e elemento de integração) brasileiro desde o século XIX, ainda no âmbito da economia agroexportadora. Na década de 1950, no contexto da implementação desta decisão política, esse setor já orientava a industrialização brasileira nucleada em São Paulo, particularmente pela indústria automobilística, matriz da lógica rodoviarista do desenvolvimento intramunicipal, interregional e nacional (COUTINHO, 2003: 37-57).

Por outro lado, ao considerar-se também outras leituras políticas possíveis para o período, atentas também às dimensões simbólicas não menos importantes nos debates acerca do desenvolvimento e dos projetos em pauta ao longo das décadas de 1930 a 1960, é possível ainda compreender essas transformações – efetivadas ou desejadas – como participantes ativas da construção de novos modos de compreensão do país e do continente. Brasília poderia ser vista, assim, não apenas como partícipe de um plano de desenvolvimento e um “plano de metas”, mas de um plano não material e projetivo, com funções simbólicas e mesmo identitárias importantes e de forte repercussão.

É possível perceber a redefinição do papel histórico da cidade para o país, não apenas no momento de decisão política definitiva sobre a nova capital, mas também ao longo dessas décadas, por exemplo, no segundo governo Getúlio Vargas, com a criação em 1953 da Comissão de Localização da Nova Capital. Acompanhando a pergunta de Laurent Vidal, que permite uma indagação também simbólica e profundamente política desse projeto, que função poderia ter uma cidade antes (e além) de sua existência física? Ou ainda: “A que corresponde essa imperiosa necessidade social de projetar ou fundar, mesmo no papel ou em palavras, as cidades?” (VIDAL, 2009: 11).

A consideração dessa dimensão simbólica, não apenas para o caso de Brasília ou do Brasil, mas do Continente todo e também a Europa pode abrir espaço ainda para o entendimento de mobilizações tradicionalmente compreendidas como críticas, como as vanguardas, em suas ligações mais ou menos explícitas com projetos políticos direcionados à modernização, afastados da crítica às instituições. No lugar dos posicionamentos de vanguarda clássicos, de negatividade e questionamento, abre-se possibilidades de investigação a respeito de vanguardas que propuseram a construção de uma nova ordem, de uma tradição ou “linguagem comum” (pensando o campo da arquitetura e mesmo do urbanismo no continente americano).3

Ao mesmo tempo, o debate em torno de aspectos arquitetônicos e urbanísticos na Europa naquele momento não estava, todavia, unicamente centrado nas proposições e orientações teóricas de Le Corbusier, como se fossem os únicos encaminhamentos possíveis ou desejáveis. Entre 1918 e 1934, a arquitetura vigente na Europa experimentava uma dupla preocupação ao propor um novo modelo de habitação social e ao questionar a estrutura urbana herdada do passado. O tema da habitação social provocou o debate sobre os programas de necessidades (definindo-se o conceito de existensminimum), assim como, desde a intenção de diminuir custos, abandonar os sistemas construtivos tradicionais e assumindo os critérios tayloristas para propor primeiro a estandardização e logo depois a industrialização da habitação.

Estabelecer um novo modelo urbano pressupôs refletir sobre as características do bloco edificado, analisando como sua agregação configurava a cidade moderna, o que levou a teorizar tanto sobre os espaços livres, políticas de transportes, novos equipamentos, critérios de intervenção nas áreas históricas das cidades, características dos planos municipais e planos regionais. O singular dos debates ocorridos no período entre 1918 e 1934 é que eles conseguiram persuadir os distintos governos (Alemanha de Weimar, Holanda, Áustria, França, URSS, Inglaterra, Itália e Espanha) sobre a necessidade de assumir aquelas questões como questões de Estado: uma pesquisa sobre as políticas habitacionais desses países e sobre os planos urbanísticos verificará não somente como as bases dos mesmos respondiam àquele debate, mas também como os técnicos que elaboraram os projetos o fizeram a partir de premissas formuladas por uma mais que vigente vanguarda arquitetônica.

É possível notar hoje certo consenso entre as opiniões de historiadores da arquitetura e urbanismo nesse sentido: de que os temas identificados não foram monolíticos, portanto, uma opção desinformada pretender generalizar as preocupações apresentadas pelos profissionais como se fossem todas concernentes ao “movimento moderno”. Não houve um racionalismo, mas vários, de sentido e características bem distintas, e os partidários dessas diferentes linhas de atuação enfrentaram-se no campo das ideias, o que resulta errôneo às pesquisas identificar as propostas defendidas por Le Corbusier nos Congresss Internacionais de Arquitetura Moderna, os CIAMs, com aquelas desenvolvidas em Berlin por Bruno Taut ou Martin Wagner, ou em Frankfurt por Ernest May (SAMBRICIO, 2012: 25).

São conhecidas as críticas à ortodoxia de Le Corbusier, formuladas tanto pelos que reclamaram uma Nova Objetividade como por críticos como Karel Teige, enfrentando os famosos “cinco pontos”, que entendiam como reflexo formal de um novo academicismo. Certo é que a crise econômica de 1929 transformou o panorama europeu: se até aquele momento as políticas de habitação haviam sido competência das municipalidades, sindicatos e empresas, as escalas de intervenção mudaram sensivelmente, a partir dessa crise e desde o momento em que se assumiu a política keynesiana baseada em grandes projetos de infraestrutura capazes de reativar a economia (planos municipais ou regionais, políticas de abastecimento de água, planos rodoviários ou de novas redes ferroviárias, etc.).

Isso porque, se em 1929 Ernst May organizou para o II CIAM a exposição sobre a chamada habitação mínima, em 1933, no IV CIAM, a escala é discutida em outros parâmetros. Ao mesmo tempo, se compararam os planos de crescimento urbano, proclamando os conceitos de “habitação, trabalho, lazer e transportes” como pautas, cujo resultado dos debates será a publicação, em 1942, da Carta de Atenas, na qual, depois de reivindicar o conceito funcional da arquitetura moderna e do urbanismo, manifestava-se que os problemas que enfrentariam as cidades deveriam ser solucionados mediante a segregação funcional estrita e a distribuição da população em blocos altos de apartamentos separados por amplos espaços.

A reconstrução, depois da guerra de 1939-1945, acabou por modificar a situação anterior: se os debates entre os profissionais se mantiveram, depois da guerra cada país assumiu uma política própria, descartando ou ignorando as proposições dos quem apenas poucos anos antes foram “oráculos”. De algum modo se encerrava um ciclo. Contudo, ao mesmo tempo em que a continuidade do que foi discutido nos anos de 1930 sofreria uma interrupção na Europa, ela continuaria a apresentar desdobramentos na América Latina.

Ao se abordar essas transformações sob pontos de vista da Europa, é possível notar como a natureza egocêntrica da cultura arquitetônica europeia ignorou por muito tempo o que ocorria na América Latina, pois apresentava-se convencida de sua superioridade cultural. No entanto, não apenas eram poucas as escolas de arquitetura abertas nos países da América Latina, ainda que as elites nacionais latino-americanas solicitassem insistentemente “soluções europeias” e regimes tidos como populistas, muitas vezes presididos por militares ou lideranças políticas desenvolvessem políticas abertamente repressoras.

Para uma Europa que apenas saía de totalitarismos, mostrava-se inverossímil crer que esses governos poderiam implementar tanto políticas habitacionais como planos urbanísticos para modificar suas cidades coloniais. Como consequência, inclusive da parte dos setores especializados, optou-se por ignorar as políticas, cobrando ao máximo a qualidade de certas obras arquitetônicas. Em certos casos, pode-se dizer que não interessavam as políticas fiscais nem a criação dos sistemas de financiamento que possibilitaram o acesso à habitação: interessava apenas a obra de determinados arquitetos. De certo modo, o Brasil foi identificado com a obra de Lucio Costa e Oscar Niemeyer, a Venezuela com a de Villanueva, o México com as edificações de Pani, Cuba com o papel desempenhado por Martinez Inclán e a Argentina com o trabalho de Bonet Castellana.

Uma primeira perspectiva analítica entendeu serem os governos populistas nacionais responsáveis por desenvolver políticas de habitação e políticas urbanas, ainda que, no caso brasileiro, por exemplo, as ações urbanísticas desenvolvidas no contexto municipal tivessem uma relação mais direta e institucionalizada com o Governo Federal a partir de 1964 / 1965, quando da criação do Banco Nacional de Habitação (BNH) e do Serviço Federal de Habitação e Urbanismo (SERFHAU). No contexto latino-americano hispânico, com a intenção de oferecer satisfação aos seus seguidores, realizaram um trabalho singular, tanto fomentando a construção de habitações para a classe média então em formação, como assumindo e desenvolvendo as denominadas “unidades de vizinhança”, amplos bairros com serviços, equipamentos e infraestrutura que determinaram o crescimento urbano das cidades.

O desenvolvimento dessas políticas implicou na criação dos institutos de financiamento capazes de estabelecer políticas fiscais, como a criação de bancos que possibilitassem a concessão de empréstimos para a aquisição das habitações; o que em determinados casos viabilizou a criação de institutos de ordenação do solo urbano, gabinetes de projetos e propostas de intervenção urbana. Dito de outra forma, as proposições efetivamente implementadas entre 1930 e 1960 não devem ser entendidas unicamente como resultado dos trabalhos dos bons arquitetos, mas enquadrando-as no que foram políticas de Estado.

Por fim, e como indagação para outras investigações e publicações, apresentamos a seguinte problematização: apesar da existência de políticas desenvolvidas na Argentina, Chile, Brasil, Cuba, Venezuela, Colômbia, México e em outros países do continente americano, é possível afirmar que não houve homogeneidade entre elas. Isso porque foram muitas vezes mutuamente estranhos e distintos nesses países os modos de conduzir a construção de habitação para classe média – a preocupação com as unidades habitacionais ou a definição dos processos de verticalização – e a transformação da cidade ocorreu de maneira similar. A percepção dessas aproximações e diferenças aponta de modo claro a vigente necessidade de promover pesquisas e encontros entre pesquisadores para que se possam analisar características específicas comparativamente, ou seja, que os aspectos circunscritos a cada nacionalidade sejam colocados em debate conjuntamente. O Dossiê “Cidade e Habitação na América Latina” pretende, nesse sentido, contribuir com a divulgação de estudos sobre os problemas urbanos na América Latina que de alguma forma permitam construir e percorrer caminhos cujas “portas de entrada”, muitas delas, estão ainda por abrir. Tais caminhos não podem prescindir de uma articulação interinstitucional “interna” à América Latina, inclusive como um projeto político e histórico, o que exige olharmo-nos diretamente, sem passar pelo Sena ou pela Tâmisa. De outra forma, continuaremos construindo a história urbana da América Latina a partir da Europa? E mais, como pensar a história urbana da América Latina como uma história urbana ibero-americana, ainda que isso possa significar uma (possível) contradição, já que Portugal e Espanha estão também na Europa?

O Dossiê e sua organização

A organização da edição n. 8 não mudou em relação ao projeto editorial da Revista URBANA. Apesar de manter-se organizado basicamente em duas partes principais, dossiê e artigos, pelo projeto editorial da revista a sessão artigos teria temática independente, desvinculada da sessão dossiê. Especialmente no caso da edição n. 8, Cidade e Habitação na América Latina, todos os textos seguirão a mesma temática, pois foram elaborados inicialmente para o III Congresso Internacional de História Urbana, realizado em Brasília no mês de novembro de 2013.

A única diferença entre ambas as sessões está na inclusão dos artigos resultantes das conferências realizadas por pesquisadores brasileiros convidados na sessão dossiê, reservando-se à sessão artigos os trabalhos dos pesquisadores – brasileiros e estrangeiros – aprovados para apresentação no Congresso.

Os Editores da URBANA agradecem aos autores, que desde o III Congresso Internacional de História Urbana, e agora com a publicação do Dossiê Cidade e Habitação na América Latina, contribuíram com o debate sobre a história urbana da América Latina. Agradecemos também aos pesquisadores que participaram da produção do livro “Ciudad y Vivienda em America Latina, 1930-1960”, pois está ai a origem desse importante tripé “livro-Congresso-Revista”, inclusive pela participação de todas as representações nacionais no Congresso. Desejamos uma boa leitura.

Notas

1 O ano de 1889 aqui adotado é apenas para caracterizar o corte temporal pela configuração institucional do Estado Republicano e Federativo no Brasil. Não significa desconsiderar as complexidades e importância de períodos anteriores da história do desenvolvimento nacional, por exemplo, desde a consolidação do Brasil Imperial ao longo do século XIX, tanto que algumas referências a esse período serão realizadas no decorrer do texto.

2 É necessário considerar o papel da implementação da infraestrutura territorial (ferrovias, Porto de Santos, armazéns, instituições, a própria modernização das cidades, etc.) no Estado de São Paulo para o desenvolvimento da economia cafeeira, como importante delineadora da concentração espacial da produção industrial no Brasil. Embora não seja o único elemento, podemos dizer que a economia cafeeira paulista foi fundamental na criação dos “fatores territoriais de produção” da industrialização substancialmente implementada a partir de 1930, concentrando-a na região Sudeste, especialmente no eixo Rio de Janeiro-São Paulo

Referências

COUTINHO, Luciano. O desafio urbano-regional na construção de um projeto de nação. In: GONÇALVES, Maria Flora; BRANDÃO, Carlos A; GALVÃO, Antônio C. (org.). Regiões e Cidades, Cidades e Regiões: O desafio urbano-regional. São Paulo- SP: EdUNESP / ANPUR, 2003. pp: 37-57.

GORELIK, Adrian. Das vanguardas a Brasília: cultura urbana e arquitetura na América Latina. Belo Horizonte, MG: Editora UFMG, 2005.

IANNI, Octávio. Estado e Planejamento Econômico no Brasil. São Paulo: Civilização Brasileira, 1971.

LAFER, Celso. O Planeamento no Brasil: observações sobre o Plano de Metas (1956-1961). In: MINDLIN, Betty (org.). Planejamento no Brasil. São Paulo: Perspectiva, 2003 REZENDE, Fernando. Planejamento no Brasil: auge, declínio e caminhos. In: CARDOSO JR., José Celso (org.). A reinvenção do Planejamento Governamental no Brasil. Brasília: Ipea, 2011

SAMBRICIO, Carlos (org.). Ciudad y Vivienda en América Latina: 1930-1960. Madrid: Lampreave, 2012

VIDAL, Laurent. De Nova Lisboa a Brasília: a invenção de uma capital (séculos XIX-XX). Trad. Florence Marie Dravet. Brasília: UnB, 2009.

Josianne Cerasoli

Rodrigo de Faria

Carlos Sambricio


FARIA, Rodrigo de; CERASOLI, Josianne; SAMBRICIO, Carlos. Editorial. Urbana. Campinas, v.6, n.1, jan. / jun., 2014. Acessar publicação original [DR]

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Urbanistas e urbanismo: a cidade como objeto de intervenção / Urbana / 2013

Urbanistas e Urbanismo no Brasil

O interesse no estudo dos profissionais passa fundamentalmente pela possibilidade de compreensão dos processos de circulação das ideias urbanísticas e sobre os problemas e desafios urbanos de um modo geral. Foram (e são) essas ideias que estruturaram (estruturam) os debates sobre melhoramentos urbanos e planos urbanísticos, planos diretores, planos regionais, o desenvolvimento social-urbano a construção-institucionalização do urbanismo no Brasil, especialmente a institucionalização do campo disciplinar do urbanismo como prática profissional de atuação nas administrações municipais para soluções dos “problemas urbanos”: neste caso especialmente pela atuação de engenheiros e urbanistas. Ao mesmo tempo, essas mesmas ideias têm papel importante, mesmo fora do campo dos especialistas, ao instruir paulatinamente as formas de apreensão e entendimento do urbano.

A institucionalização do urbanismo no âmbito das administrações municipais compreende uma conjuntura profissional e institucional em construção desde o século XIX, com as primeiras Comissões de Melhoramentos, como a do Rio de Janeiro na década de 1870; as Diretorias de Engenharia e Obras Públicas, onde uma primeira geração de engenheiros-urbanistas desenvolveu suas atividades; as Seções de Cadastro e Urbanismo, como a organizada durante a atuação do engenheiro Victor da Silva Freire em São Paulo na década de 1920; as Comissões de Planos da Cidade, já no contexto histórico do Estado Novo; ou ainda as experiências autorais individuais, tais como de Nestor de Figueiredo e seu Plano para João Pessoa.

Nessa primeira conjuntura histórica de atuação profissional no campo do urbanismo, os profissionais atuaram fundamentalmente na infraestruturação e modernização urbana, geralmente com intervenções em canalização de rios, implantação de sistemas ferroviários, de sistemas de abastecimento de água e canalização de esgoto, iluminação pública, ajardinamento de áreas livres, entre outras. Todavia, não desconsideravam os processos mais amplos, prevendo e orientando a expansão urbana, como foi o caso do Plano do Novo Arrabalde em Vitória elaborado pelo engenheiro Francisco Saturnino de Brito, publicado em 1896 .

É neste primeiro movimento de atuação profissional que o processo de construção-circulação das ideias urbanistas sobre a intervenção nas cidades adquiriu uma dimensão internacional, sobretudo nas décadas de 1910 e 1920. Nesse momento, o diálogo aberto com profissionais de outras nacionalidades é fundamental para o aprofundamento do campo conceitual e do vocabulário erudito de intervenção nas cidades (TOPALOV e DEPAULE, 2001, p. 17-38) brasileiras, principalmente os diálogos que ocorreram nos debates sobre a contratação de Alfred Agache para a elaboração do “Plano de Remodelação, Embelezamento e Extensão do Rio de Janeiro”, publicado em 1930, simultaneamente à apresentação de croquis por Le Corbusier propondo para Capital Federal uma grande estrutura urbana que articulava a paisagem natural do Rio de Janeiro (PEREIRA, 1996, p.396-376; DE FARIA, 2007).

A articulação com profissionais de diferentes nacionalidades ocorre também em outro sentido, a partir do próprio Brasil, pela interlocução profissional empreendida pelos profissionais brasileiros. Dois exemplos que não são os únicos e nem mesmo as únicas formas de articulação são ilustrativos dessa articulação: o diálogo empreendido por Victor da Silva Freire com estudos e profissionais europeus ao menos em dois importantes artigos, “Melhoramentos de São Paulo” e “Cidade Salubre” (de 1911 e 1914, respectivamente), discutindo os problemas da capital paulista em diálogo, por exemplo, com os estudos realizados por Camillo Site ainda no século XIX; e a formação como urbanista de Atílio Correia Lima na França, que no posterior retorno ao Brasil passa a atuar profissionalmente tanto no ensino na ENBA (convidado por Lucio Costa), como na atividade de projeto urbanístico (plano inicial de Goiânia).

No âmbito da institucionalização e prática urbanística nas administrações municipais brasileiras, é necessário referir-se aos Departamentos de Urbanismo no contexto da redemocratização legitimada pela Constituição Municipalista de 1946, especialmente, mas não os únicos, o Departamento de Urbanismo da Prefeitura do Rio de Janeiro organizado e dirigido inicialmente pelo engenheiro José de Oliveira Reis, e o Departamento de Urbanismo de São Paulo criado em 1947 no bojo dos debates profissionais entre os engenheiros Prestes Maia e Luiz de Anhaia Mello (FELDMAN, 2005).

Está nesse movimento pela criação contínua das instituições de urbanismo, pós1940 e ao longo das décadas de 1950 e 1960, um debate sobre o planeamento municipal, não mais limitando à atuação profissional e a própria compreensão sobre urbanismo e planejamento urbano, restrito às áreas urbanas dos municípios. Da mesma forma, estimula-se o debate profissional e institucional sobre dimensão regional do desenvolvimento, pelo que deveria considerar em termos de processos de cooperação intermunicipal para a elaboração de planos regionais, ou ainda, a cooperação interestadual, como no caso da Comissão Interestadual da Bacia Paraná- Uruguai, CIBPU (FELDMAN, 2008). E aqui outro importante momento de interlocução profissional internacional com as visitas de Pe. Lebret ao Brasil e a criação da Sociedade para Análise Gráfica e Mecanográfica Aplicada aos Complexos Sociais (SAGMACS, envolvida nos trabalhos da CIBPU) no ambiente intelectual do Movimento Economia e Humanismo (ANGELO, 2010), e suas vinculações com profissionais brasileiros, entre eles Antônio Bezerra Baltar em Recife e Antônio Delorenzo Neto em São Paulo.

Na década de 1960, especificamente na transição entre a redemocratização pós-1946 e o Golpe Militar de 1964, o processo de institucionalização do urbanismo na administração pública brasileira foi incorporado no governo federal com a criação do Serviço Federal de Habitação e Urbanismo (SERFHAU), juntamente com a criação da instituição financeira para gerir os recursos federais no âmbito das políticas urbanas, o Banco Nacional de Habitação. No caso do SERFHAU, destaca-se, sobretudo a atuação de Harry James Cole (LUCCHESE, 2009) após processo de reformulação do órgão em 1966, tendo desse processo participado e nesse contexto defendendo e divulgando a necessidade do planejamento urbano e dos planos locais integrados.

Desde a atuação nos municípios brasileiros passando pelo governo federal, muitos foram os profissionais urbanistas que durante os congressos e nas revistas especializadas apontavam a necessidade de criação de um órgão federal de urbanismo, tal como consta em artigos apresentados no I Congresso Brasileiro de Urbanismo em 1941, especialmente a proposta de criação do Departamento Nacional de Urbanismo (MARTINS, 1941, p. 128-131) feita pelo engenheiro Mario de Souza Martins, incluída como recomendação nas conclusões da Seção I – História e Divulgação, presidida por Atilio Correia Lima no I Congresso Brasileiro de Urbanismo, em 1941.

Processo histórico que passa pela criação da Comissão Nacional de Políticas Urbanas e Regiões Metropolitanas no âmbito do II PND na década de 1970, com a atuação de Jorge Franciscone e Maria Adélia de Souza, aponta a clara articulação multidisciplinar de atuação nos temas urbanos e urbanísticos, ele formado Arquiteto, ela Geógrafa, e que não pode desconsiderar o debate urbanístico ocorrido no Brasil em função do concurso para Brasília no final da década de 1950. Este debate foi claramente marcado pela interlocução dos profissionais brasileiros com as discussões realizadas no âmbito dos Congressos Internacionais de Arquitetura Moderna, os CIAM.

Nesse contexto histórico largo está a importância dos estudos sobre a atuação profissional de urbanistas e pensadores da “questão urbana” no Brasil – profissionais atuantes no Brasil nos séculos XIX e XX e permanecem como referências intelectuais de primeira grandeza para o contínuo processo de compreensão-intervenção nas cidades brasileiras.

Os artigos publicados neste dossiê vêm a público em dois números consecutivos da Revista Urbana (6 e 7) e tiveram origem em intensos debates realizados em torno dessas questões durante o seminário Trajetórias: urbanistas e urbanismo no Brasil, realizado em Brasília, em abril de 2013, organizado pelo Grupo de Pesquisa em História do Urbanismo e da Cidade –UnB / CNPq, pela Faculdade de Arquitetura e Urbanismo e Programa de Pós-Graduação em Arquitetura e Urbanismo – UnB, pelo Centro Interdisciplinar de Estudos da Cidade – Unicamp e pela Rede Urbanismo no Brasil – USP / CNPq.

Referências

TOPALOV, C.; DEPAULE (2001). A cidade através de suas palavras. In: BRESCIANI, Maria S. Martins (org.). Palavras da Cidade. Porto Alegre: EDUFRGS.

PEREIRA, Margareth da Silva (1996). Pensando a metrópole moderna: os planos de Agache e Le Corbusier para o Rio de Janeiro. RIBEIRO, Luis C. de Q; PECHMAN, Robert (org.). Cidade, povo e nação – gênese do urbanismo moderno. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira.

DE FARIA, Rodrigo Santos (2007). José de Oliveira Reis, urbanista em construção: uma trajetória profissional no processo de institucionalização do urbanismo no Brasil (1926-1965 / 1966) / Tese de Doutorado em História. Universidade Estadual de Campinas.

FELDMAN, Sarah (2005). Planejamento e Zoneamento. São Paulo: 1947- 1972. São Paulo: EDUSP / FAPESP.

FELDMAN, Sarah (2008). 1950. A década de crença no planejamento regional no Brasil. Anais do XI ENANPUR.

ANGELO, Michelly Ramos de (2010). Les développeurs Louis-Joseph Lebret e a SAGMACS na formação de um grupo de ação para o planejamento urbano no Brasil. Tese de Doutorado. Escola de Engenharia de São Carlos (EESC-USP).

LUCCHESE, Maria Cecília (2009). Em defesa do planejamento urbano ressonâncias britânicas e a trajetória de Harry James Cole. Tese de Doutorado. Escola de Engenharia de São Carlos (EESC-USP).

MARTINS, Mario de Souza (1941). Da Criação do Departamento Nacional de Urbanismo. Revista Municipal de Engenharia, PDF.

Rodrigo de Faria – Professor Doutor (UnB)

Josianne Cerasoli – Professora Doutora (Unicamp)

Editores Responsáveis pelo número


FARIA, Rodrigo de; CERASOLI, Josianne. Editorial. Urbana. Campinas, v.5, n.1, jan / jun, 2013. Acessar publicação original [DR]

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Cidade, memória e identidade | Revista Latino-Americana de História | 2013

Cidade, memória e identidade: uma jornada pela História Cultural

No ano em que completou 15 anos de existência, o Grupo de Trabalho História Cultural (GTHC-RS), vinculado à Associação Nacional de História – Seção Rio Grande do Sul (ANPUH-RS), realizou a sua 11.ª edição da Jornada de História Cultural, nas dependências do Museu Júlio de Castilhos, no centro de Porto Alegre. A escolha do local teve um caráter um tanto simbólico, muito significativo, visto que foi justamente neste mesmo local que se realizou a primeira edição do evento em 1997. O sucesso da Jornada em 2013 foi atestado pela existência de pouco mais de uma centena de inscrições, entre ouvintes e comunicadores, experiência que indica a seus organizadores a necessidade de projeção de um evento ainda maior na sua próxima edição, o que certamente demandará a acolhida de um espaço maior. Mas para além da quantidade, também foi notório para aqueles que acompanharam a Jornada a qualidade e maturidade dos trabalhos. Não estamos nos referindo somente à conferência e às apresentações da mesa-redonda, mas às comunicações em geral, que congregaram profissionais de diferentes campos do conhecimento e que proporcionaram verdadeiras aulas reflexivas em dois dias de aprofundamento pelos campos da história cultural. Leia Mais

História e Cidade / Outros Tempos / 2012

O curso de História da Universidade Estadual do Maranhão tem o prazer de apresentar a estudantes, pesquisadores, historiadores e demais interessados o volume 09, número 13 da Revista Outros Tempos: pesquisa em foco, contendo artigos desenvolvidos a partir de variadas temáticas e abordagens históricas, notadamente, nos domínios da Teoria da História, História Política, História Social e História Cultural, além de um dossiê dedicado à História e Cidade.

A organização deste número traduz não só a consolidação de uma longa trajetória de trabalho desenvolvido pelo Curso História, mas, sobretudo, a força da renovação da historiografia brasileira. Os artigos aqui reunidos potencializam o debate historiográfico realizado por pesquisadores de diferentes programas de pós-graduações. Na primeira sessão da Revista, o diálogo se estabelece a partir das abordagens de Gilberto Cézar de Noronha sobre a importância da historicização das formas de representação do espaço. José Inaldo Chaves Júnior, com base nos atuais aportes teórico-metodológicos enfoca o processo politico-administrativo vivido pela capitania da Paraíba no início do século XVIII a partir das noções de redes, vínculos e tensões estabelecidas na América portuguesa. Valdinea de Jesus Sacramento se apropria dos instrumentais histórico-antropológicos para analisar as práticas repressivas empregadas pelos segmentos senhoriais e autoridades sul-baianas na destruição de quilombos oriundos no norte da Comarca de Ilhéus, durante as primeiras décadas do século XIX. Francisco Chagas Atanásio apresenta um exercício relacional entre História, literatura e memória para discutir as elabor-ações e percepções das experiências do coronelismo no Brasil. Com Isabel de Souza Lima Barreto, o debate se conecta com outras paragens, especificamente, Angola na década de 1970, para refletir acerca dos desafios enfrentados pelos migrantes angolanos no processo de adaptação ao Brasil.

Com uma proposta de debates aberta quanto às percepções espaciotemporais, o dossiê deste número ao mesmo tempo em que presta uma homenagem aos 400 anos da cidade de São Luís propõe ao leitor uma ampla e diversificada reflexão acerca da relação entre História e Cidade. Partindo da premissa de que o espaço urbano é o ambiente onde a pluralidade das experiências dos sujeitos históricos se encontra, confronta e / ou conforma, cada autor “construiu aqui sua cidade”. Cidades de ontem e de hoje muitas vezes desconhecidas, esquecidas e / ou ocultas dos leitores com personagens, instituições e atividades inexploradas, mas que por meio das problematizações eleitas conforme os pressupostos teórico-metodológicos de cada autor se reencontram e se confrontam com seu passado.

Carlos Gregório dos Santos Gianelli nos apresenta elementos conceituais que considera fundamentais para o entendimento da lógica urbana tais como: cultura, cultura popular, cultura de massa e indústria cultural. Jesus Marmanillo Pereira reflete sobre uma cidade estigmatizada e periférica. Daniel Rincon Caires revela os dramas de uma cidade histórica. José Maria Vieira de Andrade encontra em um agente literário motivos para enfocar as transformações de “sua cidade”. Magno Santos perspectiva uma cidade com base na dimensão da sociabilidade festiva religiosa para confrontar a noção de tradição e modernidade. Na mesma linha, Manuela Areias Costa reconfigura a cidade colonial de Mariana para compreender os limites das apropriações e transformações de elementos da modernização no município. Vanessa Meloni Massara encerra o dossiê, centrando-se na cidade de São Paulo para tratar da importância das infraestruturas para a qualidade de vida das cidades.

Cidades ressuscitadas pelo criterioso trabalho imaginativo de pesquisadores amantes do rigor científico.

Este volume presenteia o leitor com duas resenhas de obras que instigam pela temática e pela originalidade das abordagens. Por fim, a Revista Outros Tempos, além de contar sempre com o apoio do seu Conselho Editorial faz questão de agradecer publicamente aos pareceristas que gentilmente se dispuseram a colaborar com este número.

Helidacy Maria Muniz Corrêa

Coordenadora Editorial


CORRÊA, Helidacy Maria Muniz. Apresentação. Outros Tempos, Maranhão, v. 9, n. 13, 2012. Acessar publicação original [DR]

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A cidade como objeto de reflexão interdisciplinar (II) / Albuquerque: Revista de História / 2011

Mesmo enfrentando as dificuldades inerentes à publicação de um periódico acadêmico e superando o descrédito de alguns que não acreditam que os cursos de história da UFMS podem ter uma vitrine de pesquisas, não somente de seus docentes mas também dos pesquisadores de outras instituições, a Revista Albuquerque chega ao seu terceiro ano. Assim, consolida-se cada vez mais este projeto editorial e também mostra a relevância das atividades desenvolvidas pela Base de Pesquisas Históricas e Culturais das Bacias dos Rios Aquidauana e Miranda / BPRAM / DHI / CPAQ / UFMS.

Neste número estão incluídos na seção “Artigos” dois textos inovadores, frutos de pesquisas dos professores Bruno Torquato Silva, Luciene Lemos de Campos e Luciano Rodrigues. O artigo “Acerca dos problemas enfrentados pela burocracia do Exército na introdução do sorteio militar no Estado de Mato Grosso (1916-1945)”, insere-se no terreno da chamada Nova História Militar e contempla um problema central enfrentado pelo Exército Brasileiro, em Mato Grosso, no tocante à reposição de seus quadros efetivos. Ao mesmo tempo aponta fontes que possibilitem discussões sobre as implicações estratégicas da presença militar na região, sobretudo no concernente à defesa das fronteiras ocidentais, à manutenção da coesão nacional e da ordem social.

A seção é encerrada com “Migrantes e migrações: entre a história e a literatura”, texto no qual, a partir da interface da História com a Literatura, os autores discutem o fenômeno da migração, enfatizando os significados contidos nos fluxos populacionais, bem como o papel que os migrantes exerceram e exercem na formação sócio-cultural de diversas etnias.

A Revista Albuquerque, neste número, também dá continuidade na seção “Dossiê” ao assunto “A cidade como objeto de reflexão interdisciplinar”, iniciado no número anterior. Assim, os textos selecionados para este dossiê, produzidos por especialistas vinculados a variadas áreas do conhecimento, as problemáticas da cidade são delineadas como questões significativas, nas quais emergem temáticas variadas que vão desde representações urbanas sobre a modernidade, até a presença de um léxico urbano para nomear e dar significados aos lugares e às gentes.

Finalmente, na seção “Caderno Especial” está inserido um precioso documento, raro e inédito, do frei Mariano de Bagnaia, que vivenciou um momento difícil em sua passagem pela fronteira sul de Mato Grosso, quando foi prisioneiro dos paraguaios durante a Guerra com o Paraguai. Este documento faz parte do acervo histórico do arquivo do Instituto Histórico e Geográfico de Mato Grosso do Sul e foi gentilmente cedido para a sua reprodução nesta revista. São importantes informações sobre as consequências da guerra que retratam os danos financeiros e materiais das igrejas de Corumbá, Miranda, Nioaque, Albuquerque e da Missão Bom Conselho.

Com certeza, a Revista Albuquerque, mais uma vez, contribui como um veículo apropriado à divulgação da produção científica na área da história, para uma profícua reflexão sobre temas históricos e culturais.


Editores. Apresentação. Albuquerque: revista de história, Mato Grosso do Sul, v.3, n.5, 2011. Acessar publicação original [DR]

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Coisas de Cidade: diálogos culturais e interdisciplinares / Caminhos da História / 2011

SILVA, Marcia Pereira da; MARTINS JUNIOR, Carlos. Apresentação. Caminhos da História, Montes Claros, v.16, n.2, 2011. Acesso apenas pelo link original [DR]

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A cidade como objeto de reflexão interdisciplinar (I) / Albuquerque: Revista de História / 2010

Com o lançamento do quarto número, a Revista Albuquerque completa seu segundo ano de existência. Possibilitando aos pesquisadores a divulgação dos resultados de suas pesquisas, propiciando aos estudantes e professores o amplo acesso a informações e à produção acadêmica mais recente, acreditamos que nesse período desempenhamos um papel fundamental, não só para o processo de socialização do conhecimento, mas também para o desenvolvimento científico da área de história, das humanidades e de áreas afins, em Mato Grosso do Sul e no restante do país. Por isso, o número que ora vem a público assume um significado especial, pois representa o momento de consolidação deste periódico, que reafirma seu compromisso de publicar textos de qualidade e relevância científica.

Neste quarto número da Revista Albuquerque, a seção “Artigos” se abre com três textos de suma importância para a compreensão do processo de ocupação colonial dos territórios situados ao longo do rio Paraguai, a rigor uma extensa área de fronteiras indefinidas até praticamente o século XIX, da qual fazem parte os estados de Mato Grosso e Mato Grosso do Sul.

Partindo da constatação de que o controle daquele território fazia parte dos projetos expansionistas portugueses e espanhóis, no texto intitulado “Mato Grosso e Concepción, uma experiência de fronteira no período colonial (século XVIII)”, Ney Iared Reynaldo debruça-se sobre as estratégias adotadas pelas monarquias ibéricas para ocupar e salvaguardar suas áreas de domínio na região platina, então povoada por diferentes populações indígenas.

Em “Curumaí: uma povoação no caminho de Xerez”, Paulo Cezar Vargas Freire coloca em evidência a povoação de Curumiaí, um pueblo colonial espanhol formado por indígenas guaranis e fundado por religiosos franciscanos na década de 1580, cuja localização ainda é desconhecida. Partindo da proposição de que as escolhas dos locais de moradia, nesta parte da América do Sul, estão imbricadas com os traçados dos caminhos pré-coloniais, que durante os séculos XVI e XVII foram utilizados nos deslocamentos com igual ou maior constância que as vias fluviais, o autor objetiva, de um lado, contribuir para a localização do sítio da povoação de Curumiaí e, de outro, analisar a importância de considerar os caminhos pré-coloniais como um dos elementos para compreender a sucessão de deslocamentos das aldeias, dos pueblos ou das villas numa região em que as transmigrações das populações coloniais foram acentuadas.

A temática de Xerez é retomada por Sandra Nara da Silva Novais e Aguinaldo Rodrigues Gomes em “Campos de Xerez: palco de lutas e conflitos pela exploração da mão-de-obra indígena”, texto no qual os autores propõem apresentar os fatores históricos que inviabilizaram a perpetuação do projeto assuncenho- -castelhano no atual território sul-mato-grossense, abrangendo especificamente a região que na toponímia colonial foi denominada “Campos de Xerez”.

Seguindo a trajetória iniciada com a publicação de seu segundo número, o presente volume da Revista Albuquerque traz o Dossiê “A cidade como objeto de reflexão interdisciplinar”. Dado o volume de artigos apresentados, os editores resolveram dividí-los em duas partes, uma no presente volume e a segunda no volume seguinte. Reconhecendo as cidades como elementos constitutivos da trama cultural e histórica, podendo, portanto, ser observadas como espaços que condicionam múltiplas experiências pessoais e coletivas, tecidos de memórias do passado e de impressões recolhidas ao longo das diversas experiências urbanas, nos textos selecionados para este dossiê, produzidos por especialistas vinculados a variadas áreas do conhecimento, as problemáticas da cidade são delineadas como questões significativas, nas quais emergem temáticas variadas que vão desde representações urbanas sobre a modernidade, até a presença de um léxico urbano para nomear e dar significados aos lugares e às gentes.

Por fim, a seção “Caderno Especial” apresenta dois documentos importantes como contribuição para a compreensão histórica da fronteira oeste. O primeiro, “A retomada de Corumbá vista pelos paraguayos”, é um extrato do Album Graphico de la Republica del Paraguay, de Arsenio Lopez Decoud, e que traz uma visão diferente deste fato importante da Guerra com o Paraguai. O outro, “Repressão ao contrabando no Apa. Instruções. 1917”, demonstrou a preocupação das autoridades alfandegárias em legislar o combate aos descaminhos característicos da região fronteiriça.

Assim, a Revista Albuquerque segue superando os obstáculos comuns de um veículo de divulgação de produção histórica, matendo a sua regularidade e a qualidade de seus artigos.


Editores. Apresentação. Albuquerque: revista de história, Mato Grosso do Sul, v.2, n.4, 2010. Acessar publicação original [DR]

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Gênero, cidade e cotidiano / Dimensões / 2009

Este número de Dimensões – Revista de História da Ufes é uma edição singular e, portanto, especial. À grande importância desse momento em que mais um número da revista vem a público, soma-se a realização de uma nova edição do evento acadêmico bienal promovido pelo Programa de Pós-Graduação em História Social das Relações Políticas, da Universidade Federal do Espírito Santo, o II Simpósio Internacional de História, em parceria com a Université de Paris-Est, cuja temática será Cidade, Cotidiano e Poder, razão pela qual o presente dossiê se intitula Gênero, cidade e cotidiano.

Trata-se de uma edição que é dedicada exclusivamente a um tema predefinido e que reúne em um mesmo conjunto de textos perspectivas de diferentes autores, estudiosos de temáticas que dizem respeito às relações de gênero e ao cotidiano da vida feminina nas cidades. O objetivo básico dessa edição é dar aos leitores uma visão geral de seu conteúdo, que de regra compreende estudos que envolvem as relações urbanas.

Fruto da dedicação e trabalho da equipe de organizadores e editores, que não poupou esforços (e tempo) para a sua elaboração, desde a concepção, passando pela chamada de trabalhos, a seleção e edição, Dimensões ganha, nesta edição, o dossiê Gênero, cidade e cotidiano, que concretiza um projeto elaborado há muito tempo pelo Programa de Pós-Graduação: o de uma publicação especial reunindo pesquisadores vinculados a instituições acadêmicas, governamentais ou não governamentais, que investigam aspectos históricos, culturais, econômicos e políticos da temática “gênero”. Leia Mais