História da saúde e das doenças: objetos fontes, e metodologias | Contraponto | 2021

Um prolífico encontro entre a história, a saúde e as doenças

O presente número da revista Contraponto, vinculada ao Programa de Pós-Graduação em História do Brasil e ao Departamento de História da Universidade Federal do Piauí- UFPI, congregou sob o dossiê intitulado História da Saúde e das Doenças: objetos, fontes e metodologias, uma diversidade de textos que apresentam a fertilidade do campo em destaque. As produções consistem em uma entrevista, trinta e três artigos e duas resenhas de livros, logo, trata-se de um contingente considerável de produções acadêmicas elaboradas por pesquisadoras e pesquisadores nacionais, inclusive piauienses, mas também estrangeiros. Além da finalidade aparentementemente explícita que os periódicos possuem de reunir produções de âmbito acadêmico, a intenção do dossiê a partir da temática ampla foi demarcar a diversidade de perspectivas de trabalho que atestam a vitalidade do campo de história da saúde e das doenças. Em decorrência disso, optou-se por realizar a proposição de um dossiê que pudesse agregar produções que ressaltassem as amplitudes temáticas, espacialidades e temporalidades por meio da apresentação de temas, perspectivas e métodos recorrentes nas produções acadêmicas.

É pertinente atentar para o fato de que as produções acadêmicas em história da saúde e das doenças adquiriram uma dimensão notável no cenário pandêmico da Covid-19 no Brasil, em que pese o superdimensionamento da maior praticidade conferida pelas atividades remotas, o que acabou contribuindo para a intensificação dos diálogos entre os pesquisadores das mais variadas regiões. A profusão dos trabalhos pode ser verificada por meio de aspectos como a realização de eventos como congressos e simpósios, lives e podcasts nas redes sociais, dossiês propostos em periódicos científicos, publicações de livros no formato impresso, mas, sobretudo, em e-book, além da intensificação de propostas de novas pesquisas em cursos de mestrado e doutorado. De fato, a pandemia adquiriu centralidade a partir das intensas alterações no cotidiano das populações, sejam aquelas restritas a localidades ruralizadas ou, ainda, às áreas urbanas cosmopolitas.1 Leia Mais

História e Literatura | Contraponto | 2020

As relações entre a História e a Literatura permaneceram durante muito tempo influenciadas pelo conceito aristotélico que preconizava o caráter universal da Poesia, em oposição ao caráter particular da História. Segundo essa concepção, a História ocupar-se-ia essencialmente do real, dando testemunho da sociedade e fazendo referência a uma trama complexa e efetiva de fatos e acontecimentos. A Literatura, por sua vez, teria a liberdade de narrar considerando não apenas a mimetização dos fatos inscritos na própria história, mas até mesmo o irrealizável, além de todo um repertório de possibilidades e virtualidades que, escapando ao mundo concreto e referenciado do historiador, poderia ganhar vida e significado no universo imaginário do poeta ou do ficcionista.

Hoje, tendo em vista sobretudo a multiplicidade de tendências historiográficas e o vigor dos estudos que têm como centro as linguagens, multiplicam-se as perspectivas do repensar e repropor as relações entre História e Literatura, em bases mais convergentes, uma vez que, a partir desses novos paradigmas, o discurso historiográfico passa a privilegiar objetos não focalizados por óticas objetivistas e estruturais que predominaram por muitas décadas do século XX, voltando-se cada vez mais para o registro da vida cotidiana, das diferentes modalidades de crenças, dos costumes, das sociabilidades literárias, das relações familiares, da infância e outras idades da vida e para as dimensões imaginárias da sociedade. Esses novos interesses favoreceram, entre os historiadores, a redescoberta do discurso literário como um registro de alternativas ou virtualidades que, embora não necessariamente desenvolvidas no processo real dos acontecimentos, tornam-se testemunhos daquele meio social, expressão legítima de sua historicidade.

Tanto a Literatura como a História vêm colocando em plano secundário abordagens que apenas punham em relevo autores e obras, destacando as ideias por essas veiculadas, em abordagens ligadas à tradição da história das ideias, ainda de padrão iluminista, que se instaurou, ganhou corpo nos últimos dois séculos e cujas “origens” podem ser localizadas no século XVIII. Em que pese a força dessas práticas escriturísticas canonizadas, os estudos historiográficos e as perspectivas do campo das linguagens passaram a incorporar, para além da vida e da obra dos autores, outras variáveis analíticas, ancoradas no social, que podem não apenas explicar a especificidade intrínseca dessas obras, mas também evidenciar articulações mais consistentes entre História e Literatura, vista na sua complexidade de registro rico, tenso e criativo, que associa apreensões de vidas contadas e de mundos inventados. Desse modo, História e Literatura partilham cada vez mais o interesse por aquilo que diz respeito à vida cotidiana, às dimensões da subjetividade humana e às aproximações entre a vida social no seu sentido mais amplo e a vida literária.

Para além da obra em si, e das biografias realistas e imaginárias de seus produtores enquanto sujeitos da criação literária, interessa cada vez mais o estudo da História, não apenas para dar ênfase às conexões vida-obra, para realçar a vida pessoal na composição de biografias intelectuais, porém igualmente para definir (ou para lançar conjecturas) articulações entre essas vidas que têm (ou poderiam ter) uma marca singular e todo o universo social mais amplo que as configura, com graus variáveis de complexidade.

Embora o historiador tenha consciência de que a literatura, enquanto produto estético, resulta de procedimentos linguísticos e retóricos específicos, sendo dotada de plurissignificações, não se pode perder de vista a noção de que tanto o criador quanto a obra estão imersos em contexto social que também confere sentidos particulares ao produto ficcional. Daí a relevância de estudos integrados entre os pesquisadores dos diferentes campos das Letras e da História, em encontros que favoreçam a expansão e a criatividade nos usos de antigos e novos suportes de escrita, divulgação e leitura de fontes capazes de tornar a compreensão da Literatura cada vez mais como registro compreendido em sua historicidade. Nessa perspectiva, não apenas conjugando esforços, mas divulgando os resultados de pesquisas, críticos literários, estudiosos das linguagens nas suas mais distintas expressões, teóricos da Literatura e historiadores podem descobrir novas formas de utilização de diferentes acervos, gerando novos diálogos, enriquecer as respectivas áreas de saber construindo ou incorporando novas modalidades de interpretação.

Realçamos esses aspectos consensuais e de aproximação também para remarcar que eles não correspondem à riqueza dessas relações. Na longa continuidade das relações entre História e Literatura, essas relações guardam especificidades próprias em que cruzamentos interdisciplinares (ou sua recusa), interlocuções conflituosas e problemáticas, distanciamentos e deslocamentos maiores ou menores entre os dois campos, convergências, divergências e afinidades têm ocorrido, propiciando e favorecendo os enriquecimentos disciplinares, seja por meio de diálogos criativos e abertos, seja pelos conflitos mais intensos e de posturas mais agressivas. A emergência e o indiscutível vigor da História Cultural ao tempo em que pôs a nu esse cenário de disputas interdisciplinares, de âmbito global, terminou por criar as bases para novas relações que se estabeleceram entre as duas áreas do conhecimento.

Enquanto as décadas de 1960 a 1990 podem ser, de um modo muito geral, reconhecíveis pelas intensas disputas, criadores de novas divisões disciplinares e de novas relações de poder no âmbito das Ciências Humanas, se constituem como um tempo de vigor do pensamento social e das dimensões estabelecidas e então reconfigurados no espaço-tempo da cultura escrita. O desejo do voltar-se para as produções intelectuais desses tempos recentes nos induz a insinuar, de forma breve, as notáveis transformações, reconfigurações, disputas e partilhas instituídas e favorecidas por obras seminais, como as de Foucault (1986 [publicado originalmente em 1969]; 2019 [1970]), Certeau (2015 [1995]; 1985 [1993]), Veyne (1983 [1976]; 1987 [1983]), Ginzburg (1987 [1976]; 1989 [1986]), Chartier (2002 [1985]; 1996 [1985]; 2002 [2002], Darnton (1987 [1982]; 1992 [1991]), White (2001; 2019 [1985]) e Williams (1989[1973]), para relembrar apenas historiadores, filósofos e críticos literários implicados nessas mudanças e influentes, não apenas na cultura historiográfica, mas na cultura brasileira. Remissão no campo das Letras e das Linguagens não poderia ignorar os impactos continuados de Saussure (2012 [1916]), as leituras de Bakhtin (1990 [1975]), Barthes (1988 [1984]), Hutcheon (1991) e do já citado Hayden White.

No Brasil, a virada historiográfica dos anos 1980 repercutiu essa ebulição no campo das Ciências Humanas de maneira seletiva, enfatizando as interlocuções com a História Social – especialmente a de matriz inglesa. A partir sobretudo dos autores franceses e de seus sugestivos estudos centrados na Linguagem (o enraizamento social dos discursos, as práticas discursivas e suas tônicas, a atenção às retóricas constitutivas das diferentes formas de expressão escrita, o discurso como representação), atentou-se para a necessidade de problematizar as velhas epistemologias. Apesar das reconhecíveis disputas disciplinares na historiografia brasileira dessa época, uma leitura das obras de maior impacto entre os historiadores sugere que estávamos longe de experimentar as batalhas discursivas e as guerras por distinção que em certos momentos pôs em campo o paradigma estabelecido dos Annales, a História Social (marxista), os teóricos da Linguística e da Teoria Literária em suas versões mais críticas ao discurso do historiador e as sugestões de elisão de fronteiras em benefício da Teoria Literária. Essa movimentação do conhecimento e a emersão de suas novas formas, ao vergastar o estabelecido, sugeriu uma leitura metafórica do campo (de disputas): os inimigos batem à porta da História, a cidade historiográfica organiza a defesa e ocorre, seguramente, renovação da disciplina e alargamento que alcança não apenas o aspecto temático como igualmente suas epistemologias. Essa interpelação avassaladora vinda tanto do campo filosófico quanto do linguístico e literário alimentou fantasmas que, em certo momento, aterrorizaram os historiadores – o retorno visto como terrificante das narrativas do político e do sujeito – vistos como um flerte com o passado (e as compreensões dele) caricaturado nas influências e continuidades do modelo Langlois/Seignobos. No Brasil desses anos não tão distantes, essa inquietação foi nomeada como “crise dos paradigmas”.

Dessa “Era dos Conflitos” passou-se à “Era das Negociações”, na qual as fronteiras da Ciência, da História e da Arte vão se tornando mais maleáveis e transponíveis, remarcando a convivência e, para alguns, a passagem mesmo de um paradigma do social ao domínio do cultural, cujas porosidades indicam talvez a força de uma maior alteração na produção/difusão dos saberes e uma compreensão mais difundida das pluralidades das práticas sociais e de seu permanente devir. Não que essas passagens sejam necessariamente validadas. Durante a década de 1990 essas aproximações, bem como o emprego recorrente da noção de discurso como representação e também como prática, tornou ainda mais complexas e interligadas as insurgências e as acomodações nos diversos campos do conhecimento. Um dos resultados desses encontros e conflitos instáveis talvez seja o recuo daquelas fórmulas milenares vindas dos tempos de Aristóteles, mostradas no início desta apresentação.

Neste Dossiê é possível ter acesso a faces das relações entre História e Literatura, que guardam sintonia com algumas das cristalizações da tradição, bem como com os novos aportes que vêm sendo introduzidos – modificando, questionando, recusando ou simplesmente reelaborando as tradições anteriores e canonizadas. Percebe-se certo recuo da intensidade das interlocuções e dos desafios que tomavam a feição de retórica de antagonistas. Mesmo que pareça sutil esse deslocamento, já aparece como consolidação de uma tendência na produção das duas áreas. Evidentemente, sugerimos uma hipótese.

Colaboradores de quase todo o Brasil foram sensíveis à chamada, propiciando ao Dossiê a consecução do objetivo proposto pelos coordenadores:

[…] reunir artigos acerca das relações entre História e Literatura, através de reflexões sobre experiências de grupos ou sujeitos históricos inseridos em diferentes espaços e períodos. A partir de perspectivas interdisciplinares, busca-se coligir estudos que problematizem as historicidades dos autores e/ou suas obras – contos, poesias, crônicas, romances, dramaturgias, etc. Nessa proposta, a literatura, para além de seu caráter social, interligado a uma complexa rede de fatores enraizados nas experiências históricas de seus produtores e receptores, bem como um testemunho sobre determinadas realidades, sujeitos, sensibilidades, valores, ideologias, representações e códigos culturais. Dessas múltiplas relações e testemunhos, surge um amplo e diversificado horizonte de pesquisa a ser explorado, no qual podem ser contempladas diferentes temáticas, tais como história das mulheres, imprensa, escravidão, manifestações culturais, política, religião, saúde, entre outras (QUEIROZ, ELGEBALY, FERREIRA, 2020).

As respostas não poderiam ter sido mais animadoras e o número de artigos recebidos para avaliação (56) mostra o interesse pela temática, a vitalidade de ambos os campos, além de uma aparente tranquilidade na convivência interdisciplinar, que apontam não só para relações relativamente pacificadas, o que não significa elidir as notáveis diferenças, como pode ser observado na visível influência norte-americana entre os estudiosos da Literatura em virtude da riqueza e diversidade assumidas pela Teoria Literária e um modo recente de adentrar na seara historiográfica, especialmente com os recursos teóricos e conceituais nomeados “metaficção” e “metaficção historiográfica”. Os estudos metaficcionais, como é sabido, tomam como referência teorias principalmente de origem anglo americana, entre os quais pontifica Hayden White. Entre os pesquisadores atuais, como Linda Hutcheon e Julia Kristeva, a pretensão de ampliar os estudos historiográficos sugere uma revisitação das narrativas construídas pelos historiadores, para nelas apor as virtualidades, os possíveis e, sobretudo, indicar os silêncios e fazer ecoar novas vozes. Evidentemente, há variações no campo e este Dossiê permite a observação de algumas. Os estudos metaficcionais afirmam outras modalidades de encontro/desencontro entre a História e a Literatura e apresentam as renovações na esfera dos Estudos Literários, bem como sinalizam para as multiplicidades de apropriação e reinvenção do passado. Com isso, a História e a Historiografia se tornam objeto da Literatura. A História (escrita) se torna fonte. Os empréstimos e trocas são cada vez mais perceptíveis e apontam para horizontes que aparecem associando os dois interesses.

Verificamos também a apropriação cada vez mais consistente da Literatura, em todos os gêneros, pelos pesquisadores da área de Educação. Identificamos igualmente o cuidado dos colaboradores com as múltiplas historicidades dos produtos, ou seja, cada vez mais uma expressiva consciência do tempo como o solo fecundo e incontornável das diferentes formas da escrita e das características de seus suportes materiais e imateriais.

Esse esforço colaborativo e essas permeabilidades de fronteiras não elidem as especificidades disciplinares e as diferenças nessas duas antigas tradições do conhecimento ocidental. O que se esvaiu, parcialmente, foi o polemismo que marcou as décadas finais do século XX no Brasil, o que pode ser bem exemplificado pelas disputas diretas ou sub-reptícias nas abordagens dessas relações em Nicolau Sevcenko (1992, 2003) e em Sidney Chalhoub (2003), historiadores muito representativos desses trânsitos disciplinares. Ao tempo em que a obra Nicolau Sevcenko é incorporadora das novas vertentes culturais [1] e interdisciplinar, flertando com o linguistic turn e inserindo a historiografia nas perspectivas ditas pós-modernas, Sidney Chalhoub professa continuada e reivindicada adesão à História Social (inglesa). Sob um substrato de diferenças, os autores compartilham a posição que foi bem expressa por Sevcenko: “Fora de qualquer dúvida; a literatura é antes de mais nada um produto artístico, destinado a agradar e a comover; mas não se pode imaginar uma árvore sem raízes, ou como pode a qualidade de seus frutos não depender das características do solo, da natureza do clima e das condições ambientais?” (SEVCENKO, 2003, p. 29).

No Brasil, especialmente no que diz respeito aos Estudos Literários, por muitas décadas tem prevalecido o cânone, tanto no sentido da continuidade de aportes teóricos fundados nas obras seminais de Antonio Candido, Luís Costa Lima e Alfredo Bosi – destacando-se a força da Escola Paulista e o domínio do conceito de formação do sistema literário –, como do ponto de vista da seleção dos autores/obras como objeto de interesse. Neste Dossiê, isso pode ser observado nas escolhas feitas – e oriundas em sua maioria dos cursos de pós-graduação em Letras – dos escritores renomados na literatura brasileira, como Machado de Assis e Aluísio Azevedo, cujas produções atravessam séculos sem mostrar sinais de esgotamento e sem redução das edições e das vendas [2]. Destaques para Machado de Assis, Aluísio Azevedo, Joaquim Manoel de Macedo, Alcântara Machado, Jorge Amado, Graciliano Ramos, José Lins do Rego e Júlia Lopes de Almeida [3]. Para o que nos interessa, queremos reforçar que o gosto pelo cânone não se expressa apenas na escolha dos autores-obras que suportam dezenas de análises, como igualmente nas interlocuções teórico-conceituais envolvendo os mais reconhecidos críticos literários brasileiros.

Para além do aspecto acima apontado, constata-se a ampliação do interesse pelas literaturas de várias origens e que são, seguramente, referências da cultura mundial, hoje. Os colaboradores trouxeram à cena literatos latino-americanos (Jorge Luís Borges), africanos (Mia Couto), europeus (Marcel Proust) e asiáticos (Xue Xinran). Nas escolhas realizadas pelos colaboradores, os destaques, considerando as clássicas periodizações da Literatura Brasileira, contemplaram o Romantismo e o Realismo, mas, sobretudo o Modernismo e a Literatura Contemporânea com suas variadas experimentações estéticas e retóricas. Entre as diversas correntes assumidas pelo Modernismo no Brasil realce para os autores nordestinos dos anos 30 e 40 do século XX, constituidores do nomeado Romance de 30, que se configura como uma das mais expressivas literaturas brasileiras do período, ao lado dos reconhecidos autores paulistas.

Também foram analisadas as literaturas de consumo regional, corroborando o esforço de levar ao proscênio outras possibilidades de expressão histórico-literárias, outrora silenciadas ou pouco conhecidas em recortes espaciais mais amplos. Nesse sentido, autores reconhecidos pela crítica especializada, porém, situados nas periferias da produção da cultura escrita nacional, ganham importância no Dossiê. Tomemos como casos exemplares Assis Brasil, Fontes Ibiapina, Ademar Vidal e Luiz Renato, através dos quais a historiografia e a crítica literária foram levadas a dar mais visibilidade a temas como a cidade, a pobreza, a modernização, os costumes, as práticas masculinas e femininas, a prostituição, as políticas urbanas, bem como a problematizar e colocar sob suspeição diferentes formas de exercício do poder.

As abordagens desenvolvidas em torno de livros, autores, editores, circulação de livros e formas de leitura sinalizam na direção do relevo conferido às expressões da censura promovida por regimes de exceção, marcadores de muitas décadas de gestão política especialmente na América Latina. Argentina e Brasil vivenciam as mesmas dificuldades e seus intelectuais se apoiam no sentido do usufruto mínimo do exercício da liberdade – experimentam uma liberdade restrita, mas possível, conforme aponta Bruno Rafael de Albuquerque Gaudêncio, ao se referir à prática literária da “autoria coletiva” e às inventividades dos autores e editores para escapar às censuras de seus respectivos países.

Pesquisadores de diferentes vinculações acadêmicas – História, Educação e Letras – nas suas muitas modalidades e nomeações (Literatura, Estudos Literários, Estudos Culturais, Estudos de Linguagens, Estudos Ortográficos, Linguística) conjugam-se neste Dossiê e apresentam suas descobertas e suas interlocuções principais, com o que podemos perceber o vasto espectro de leituras e as modalidades de apropriação, seja de teóricos reconhecidos em suas respectivas áreas de saber, seja das escolhas que guardam uma especificidade mais local. Esses panoramas de autores de referência podem ser vistos também no recurso a historiadores, teóricos da literatura e críticos brasileiros.

A surpreendente procura por este Dossiê é um indício da continuidade e quiçá do fortalecimento do interesse pelas duas áreas, da aproximação buscada entre a História e a Literatura e, de maneira tendencial, da vinda da Educação e do Direito, para a composição de novos estudos interessantes e instigadores são também os modos criativos e inumeráveis de apropriação das fontes e construção das narrativas, hibridizando autores e tendências que nos pareceriam inconciliáveis em décadas passadas.

Este Dossiê, inicialmente um projeto dos organizadores e dos editores da revista Contraponto, somente se viabilizou por ter se tornado um esforço coletivo, por ter encontrado boa recepção nos membros da comunidade acadêmica, que aceitaram o convite ao diálogo e disponibilizaram seus trabalhos ao escrutínio de um público mais amplo. Ao todo, foram mais de duzentos pesquisadores envolvidos na construção desta edição, profissionais que atuaram como autores, avaliadores, editores e secretários executivos, aos quais agradecemos o esforço e esmero empregados. Por fim, mas não menos importante, agradecemos ao professor Roger Chartier, que gentilmente aceitou o convite e disponibilizou um artigo para tradução, inédito em língua portuguesa e que, certamente, contribui para o constante repensar das relações entre História e Literatura.

Boa leitura!

Notas

  1. No Brasil, propor a cultura como tema, em épocas de governos autoritários, constituía, per se, uma insurgência e atraía um certo desprezo na própria universidade. O “literatura como omissão”, epíteto atribuído ao livro de Nicolau Sevcenko pelas esquerdas “uspianas” é sintomático da força desses preconceitos dos anos 1980 no que se refere à cultura como objeto de estudo e fornece a marca de um lugar, nos termos de Michel de Certeau (SEVCENKO, 2002; CERTEAU, 2015).
  2. Sobre a leitura, esse é um aspecto que deveria ser mais aprofundado, tendo em vista serem incompreensíveis essas continuidades sem um cuidadoso estudo de como funcionam o mercado editorial e as políticas públicas relacionadas aos livros escolares.
  3. As escolhas dos colaboradores recaíram sobre obras e autores que compõem o cânone brasileiro e que podem ser situados como atuantes desde os meados do século XIX até as décadas recentes. No caso, os autores contemporâneos podem ser representados por Carolina Maria de Jesus, Ana Miranda, Jomard Muniz de Brito e Luiz Renato.

Referências

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FOUCAULT, Michel. A arqueologia do saber. 2. ed. Rio de Janeiro: Forense-Universitária, 1986.

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WILLIAMS, Raymond. O campo e a cidade: na História e na Literatura. São Paulo: Companhia das Letras, 1989.

Teresinha Queiroz –  Doutora em História pela Universidade de São Paulo (USP). Professora do Programa de Pós-Graduação em História do Brasil da Universidade Federal do Piauí.

Maged Elgebaly –  Coordenador do curso de Letras (Língua portuguesa e suas literaturas) em Aswan University (Egito). Pós- doutorando no Instituto de Literatura Comparada Margarida Losa da Faculdade de Letras da Universidade do Porto (Portugal).

Ronyere Ferreira –  Doutorando no Programa de Pós-Graduação em História do Brasil da Universidade Federal do Piauí.

 


QUEIROZ, Teresinha; ELGEBALY, Maged; FERREIRA, Ronyere. Apresentação. Contraponto. Teresina, v. 9, n. 2, jul./dez. 2020. Acessar publicação original [DR]

Acessar dossiê [DR]

 

 

Inquisição, justiça eclesiástica, religião e religiosidades na Época Moderna / Contraponto / 2020

O presente dossiê teve como ponto de partida uma reflexão sobre a atualidade dos estudos tocantes a Inquisição e aplicação da justiça eclesiástica ao longo da Época Moderna. Na proposta que apresentamos, com o título “Inquisição, justiça eclesiástica, religião e religiosidades na Época Moderna”, procuramos também que se integrassem estudos sobre formas de religiosidade consideradas, na época, heterodoxas e trajetórias dissidentes, bem como os mecanismos utilizados para as controlar e “disciplinar”. A adesão ao dossiê foi significativa e a diversidade de artigos recebidos espelha, em nosso entender, dois aspectos que merecem ser sublinhados. Em primeiro lugar, os contributos aqui congregados são representativos de diferentes momentos do percurso de investigação, correspondendo a primeiros esforços de reflexão no início de uma pós-graduação, até trabalhos elaborados no âmbito de investigações de doutorado e de pós-doutorado. Nesse sentido, a conclusão que podemos retirar é a de que as investigações nestas temáticas estão ativas e que os próximos anos serão de continuidade e até mesmo de renovação dos contributos.

Em segundo lugar, este dossiê contou com um vasto corpo de avaliadores externos – cerca de 65 – oriundos de múltiplas universidades americanas e europeias. A versão final dos trabalhos beneficiou, assim, de um profundo diálogo entre autores, editores e avaliadores. Parece-nos que esse aspecto deva ser sublinhado no contexto global em que nos encontramos. O processo de montagem e de elaboração coincidiu com o duro golpe que a pandemia trouxe para as nossas vidas. O diálogo contínuo e enriquecedor entre todos os envolvidos neste processo, bem como a persistência para superar os condicionamentos provocados por um mundo que, subitamente, se fechou, permitiu-nos chegar até aqui. Por essa razão estamos muito gratos a todos os autores, avaliadores e ao pessoal da Revista Contraponto, que possibilitaram fechar este dossiê.

Um dos blocos centrais do conjunto de artigos aqui apresentados é, sem dúvida, a ação da Inquisição no Mundo Moderno, em diferentes vertentes e perspectivas. Os estudos sobre a temática inquisitorial têm tido, ao longo das últimas décadas, muitas contribuições e novas leituras o que se traduz num amplo manancial de trabalhos académicos editados em vários países [1]. Os agentes do tribunal, a sua atuação nas sociedades extra europeias, os alvos da ação repressiva dos inquisidores, entre outros temas, têm despertado a análise dos investigadores [2]. Os artigos aqui reunidos mostram bem a importância da Inquisição Portuguesa enquanto instituição de vigilância e de punição em Portugal e nos territórios imperiais [3].

O primeiro texto deste dossiê apresenta uma reflexão sobre a atuação inquisitorial num dos seus espaços ultramarinos, os territórios africanos nos quais não se estabeleceu um tribunal, mas onde vários agentes do Santo Ofício, ou instituições eclesiásticas que com ele se associaram, procederam a um controlo e vigilância de todo o tipo de comportamentos que podiam ser considerados como delitos que se enquadravam dentro da jurisdição inquisitorial. A autora do artigo, Sonia Siqueira, apresenta-nos neste ensaio mais uma reflexão dentro da sua vasta e importante obra historiográfica. Os muitos textos que Siqueira foi publicando ao longo da sua trajetória acadêmica contribuíram para um melhor conhecimento das formas de atuação do Santo Ofício nos espaços coloniais [4], dando uma grande atenção aos aspectos jurídicos e aos procedimentos [5] do tribunal, mas também ao seu quadro de oficiais[6].

Como já referimos, os estudos que compõem este dossiê são diversificados, como se demonstra através do elenco dos mesmos. Gabriel Cardoso Bom apresenta uma reflexão sobre o contributo da historiografia italiana para os estudos sobre Inquisição, expondo as propostas metodológicas de Paolo Prodi e de Adriano Prosperi, as quais foram significativas para os avanços da temática. Depois desta primeira reflexão historiográfico-metodológica, Alécio Nunes Fernandes transporta-nos, com um olhar renovado, para os meandros da primeira visitação ao Brasil. O autor analisa, auxiliado pela elaboração de uma tabela de categorias delitivas, as circunstâncias que podiam servir de atenuantes no momento de se decretar uma sentença. Ainda dentro da análise do enquadramento jurídico do Santo Ofício, Isabela Miranda Corby analisa, no âmbito do seu projeto de doutoramento, as denúncias por crimes de feitiçaria que se conservam nos Cadernos do Promotor e referentes à região de Minas Gerais no século XVIII.

Os seguintes artigos focam-se na diversidade de delitos que caiam sob a alçada do Santo Ofício. Marcus Vinicius Reis explora o fascinante caso de Joana de Jesus, analisando, à luz da proposta teórica dos estudos de género, o processo inquisitorial que lhe foi movido pela Inquisição de Goa. Por seu turno, Monique Marques Nogueira Lima detém-se no universo dos escravos e nos “malefícios” que lhes eram atribuídos pela sociedade envolvente e pelo Santo Ofício e seus oficiais. O delito de proposições heréticas é abordado por Isabel Andrade dos Reis Valentim, através da revisitação do conhecido caso de Pedro de Rates Henequim. Por fim, Elaine da Silva Santos apresenta o percurso de um cristão-novo dos sertões do São Francisco às prisões do Santo Ofício.

Os agentes do tribunal são também objeto de análise neste dossiê. Ana Paula Sena Gomide dedica-se a recriar a carreira do inquisidor Jorge Ferreira ao serviço do Santo Ofício de Goa. Luiz Fernando Lopes, através do estudo do rico fundo documental das habilitações do Santo Ofício, apresenta-nos uma proposta analítica e metodológica de estudo de processos de habilitação aprovados e rejeitados. As relações entre Inquisição e política são destacadas por Afrânio Jácome, através da figura do cardeal D. Nuno da Cunha de Ataíde, que chegou a ser Inquisidor-Geral. Por sua vez, Yllan de Mattos, traz-nos o detalhado estudo das intrincadas malhas que se tecem entre as administrações das estruturas diocesanas e a Inquisição [7], seguindo a trajectória de Giraldo José de Abranches na Amazônia colonial, o que permite fazer uma transição para um segundo bloco temático que compõe o nosso dossiê.

É bastante corrente a afirmação de que a historiografia que versa sobre o Império Português tenha dado pouca atenção aos estudos da Igreja [8] e, sobretudo, em nível de diocese, ao funcionamento jurídico-processual dos Auditórios Eclesiásticos (Tribunal Episcopal ou Juízo Eclesiástico), seja do ponto de vista institucional, seja no trato dos indivíduos que foram, direta ou indiretamente, atravessados por esta instituição. Tamanha afirmação se torna mais latente se a compararmos com as investigações que versam sobre Santo Ofício. Justifica-se, comumente, a dificuldade em localizar suas documentações produzidas e o acesso extremamente restrito, vinculados, ora sob a posse de arquivos privados, ora sob a posse das cúrias metropolitanas.

No entanto, apesar destas dificuldades, que, pouco a pouco, estão sendo transpostas, como bem sinalizou Jaime Gouveia [9], é notável o vertiginoso crescimento das pesquisas acerca desta temática. Uma prova disto é o projeto, em curso (2017 – 2021), Religião, administração e justiça eclesiástica no Império Português (1514- 1750) – ReligionAJE [10], coordenado pelo português José Pedro Paiva. Constituído por dezenas de historiadores africanos, americanos e europeus, numa interessante e profícua mescla entre novos e consagrados historiadores, cujo “[…] objetivo final é uma interpretação em escala global do impacto do episcopado no império”, amparados a partir das propostas metodológicas da connected history. Atrelados a este grandioso projeto, vários eventos e publicações foram e serão realizadas durante sua vigência, forjando, assim, um impacto indelével aos futuros investigadores. Ambicionados a revitalizar um campo de estudo que tem sido praticamente abandonado [11], a sua vitalidade, ainda que neste curto espaço de tempo, já pode ser sentida neste dossiê que ora apresentamos, mostrando que várias pesquisas sobre a temática se encontram em curso.

João Antônio Fonseca Lacerda Lima é quem assina o artigo: Cura das almas, da fé e de suas lavouras: A trajetória do Pe. Caetano Eleutério de Bastos nos bispados do Maranhão Grão-Pará (1694-1763). Propõe-se investigar a trajetória do Pe. Caetano Eleutério de Bastos enquanto clérigo e comissário do Santo Ofício nos bispados do Maranhão e Grão-Pará do século XVIII.

Pedrina Nunes Araújo em seu artigo, Todo sertão tem a Igreja que Deus (rei) dá: O Bispado do Maranhão e as ações eclesiásticas no Piauí do século XVIII, discute, balizada por uma documentação até então inédita, a dinâmica e o funcionamento da Igreja nos primórdios da anexação do Piauí à administração espiritual do bispado do Maranhão, tratando, por conseguinte, dos conflitos jurisdicionais com o bispado de Pernambuco – diocese que até então era responsável pela região do Piauí -, evidenciando, assim, o papel fundamental do bispo Dom Frei Manuel da Cruz na resolução das contendas e na consolidação desta região aos ímpetos maranhense. Temática essa que, ainda que tangencialmente discutida por Pollyanna Gouveia, sobretudo, em sua tese de doutoramento, permanece praticamente inexplorada.

Nas trilhas das investigações sobre o clero regular, as autoras Marcia Eliane de Souza e Mello e Rozane Barbosa Mesquisa, tratam da conflituosa relação entre as ordens regulares e o episcopado de Dom Bartolomeu do Pilar (1724 – 1733) – primeiro bispo do recém-criado bispado do Pará. A investigação que ora é apresentada, assenta-se na disputa jurisdicional acerca da realização de visitas pastorais em regiões de missões indígenas. As tensões entre as ordens regulares, capitaneadas pela Companhia de Jesus, e o mitra Dom Bartolomeu do Pilar, trazem ao relevo motivações e interpretações de diferentes matrizes dos sujeitos ávidos em alterar, ou permanecer, prerrogativas jurídicas há muito assentadas em prol de seus interesses e perceções.

No seu artigo, Patrícia Ferreira dos Santos analisa o Tribunal Eclesiástico de Mariana, do qual é especialista. A autora apresenta-nos os meios de administração, organização e funcionamento jurídico-processual desta diocese que, como as demais administrações eclesiásticas que constituíam o Império Português, estava inserida dentro da lógica do direito de padroado régio. Assim, busca-se apresentar, através do exercício cotidiano das querelas (exclusiva para eclesiásticos, pois possuíam imunidade de foro) e queixas (denúncias especificas), o espaço de ação exclusiva do Tribunal Episcopal que atuavam como dispositivos de identificação, e, por conseguinte, punição espiritual à dissensão através, geralmente, da excomunhão. Punição essa temida por todos, ou, pelo menos, por quase todos.

Por fim, Gilian Evaristo França Silva se propõe apresentar as práticas fúnebres e caritativas das irmandades religiosas inseridas na Prelazia de Cuiabá – capitania de Mato Grosso –, durante o século XVIII. A criação da administração eclesiástica de Cuiabá, assim como a prelazia de Goiás e as dioceses de Mariana e São Paulo, em meados do século XVIII, revela como essas instituições religiosas foram fundamentais para o disciplinamento social contra a dissensão e, principalmente para a expansão e delimitação de fronteiras no Império Português.

O último bloco de textos que compõem este dossiê diz respeito à temática das religiosidades e sensibilidades religiosas, em sentido lato, muitas delas consideradas como expressões heterodoxas no mundo pós-tridentino [12]. Em primeiro lugar encontramos dois artigos que se reportam a identidades religiosas fluídas. Regina Carvalho Ribeiro da Costa dedica-se ao período do Brasil holandês para apresentar o que designa por “disjuntivas judaicas”, pensando nas alianças que se podem criar num espaço multicultural, as quais superam, muitas vezes, as divergências da fé. Também o artigo de Jadson Ramos de Queiroz nos fala de uma trajetória de vida pouco linear, entre duas fés, neste caso o percurso do calvinista que chega ao território brasileiro, onde se converte ao catolicismo e acaba por ser batizado duas vezes. Transforma-se assim, num arquétipo de herege, caindo nas malhas punitivas da justiça eclesiástica e da inquisitorial.

Karina Fonseca Soares Resende apresenta um artigo de revisão historiográfica sobre um panfleto do século XVII, da autoria do pregador puritano Samuel Petto, e a imagem que nele é apresentada da figura da bruxa.

O texto seguinte, da autoria de Bruno Kawai Souto Maior de Melo, centra-se no movimento conhecido como “Jacobeia”, analisando as suas características e dinâmicas, ao longo do século XVIII, e prestando também uma atenção detalhada às trajetórias de alguns dos seus membros.

Fredson Pedro Martins aborda o problema do cruzamento do movimento de evangelização na região andina de inícios da Conquista com as concepções cosmológicas indígenas, através do estudo do conteúdo do Manuscrito de Huarochirí.

Por fim, o artigo de Daniel Sepúlveda oferece uma reflexão sobre o conceito de confessionalização, articulando com as formas de implementação da ortodoxia católica na Modernidade, bem como com os mecanismos de segregação e de racismo que se desenvolveram ao longo da Época Moderna.

Como podemos ver, trata-se de um dossiê plural, rico em investigações de arquivo e em balanços e reinterpretações historiográficas, um bom exemplo de que os investigadores continuam ativos e produzindo conhecimento, mesmo em “tempos sombrios” – para utilizar uma expressão cara a filósofa Hanna Arendt – e desafiantes.

Notas

1. Uma síntese da produção historiográfica sobre Inquisição publicada no Brasil, com uma contabilização de teses e dissertações, pode ser encontrada em: ASSIS, Angelo Adriano Faria de. “No interior do labirinto, o olho do vulcão: Revisitar os estudos inquisitoriais no Brasil e vislumbrar o futuro que tecemos”, Revista Ultramares, Alagoas, vol. 1, nº 7, p. 10-33, 2015.

2. Não é este o espaço para elencar os múltiplos contributos que têm surgido sobre a temática nos últimos anos. No tocante à Inquisição portuguesa, veja-se, por exemplo a análise de: MARCOCCI, Giuseppe. “Toward a history of Portuguese Inquisition: Trends in Modern Historiography”, Revue de l’histoire des religions, Paris, vol. 3, p. 355-393, 2010.

3. Sobre a atuação da Inquisição em contexto colonial veja-se: MARCOCCI, Giuseppe. “A fé de um império: a Inquisição no mundo português de Quinhentos”, Revista de História, São Paulo, nº 164, p. 65-100, 2011. Para compreender o funcionamento da Inquisição Portuguesa numa perspectiva diacrónica é fundamental a síntese de: MARCOCCI, Giuseppe; PAIVA, José Pedro. História da Inquisição Portuguesa, 1536-1821, Lisboa: A Esfera dos Livros, 2013. Um estudo que trouxe uma visão comparada da instituição e que marcou a historiografia posterior é o de: BETHENCOURT, Francisco. História das Inquisições: Portugal, Espanha e Itália – Séculos XV-XIX. São Paulo: Companhia das Letras, 2000.

4. Veja-se, neste particular, o estudo pioneiro que apresentava um estimulante quadro da inserção da Inquisição no Brasil Colônia: SIQUEIRA, Sonia Aparecida. A Inquisição Portuguesa e a Sociedade Colonial, São Paulo, Ática, 1978.

5. Para este conhecimento contribuiu a publicação por Sonia Siqueira dos textos dos regimentos do Santo Ofício português. Sobre isso, consultar: SIQUEIRA, Sonia Aparecida. Os Regimentos da Inquisição. In. Revista do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, Rio de Janeiro, n. º392, p. 495-1020, 1992.

6. O resultado da sua tese de doutoramento, defendida na USP em finais dos anos 60 do século XX, acabou por ser publicado apenas em 2013, materializando como um grande afresco do pensamento da autora sobre o Santo Ofício. SIQUEIRA, Sonia Aparecida. O Momento da Inquisição. João Pessoa: Editora Universitária, 2013.

7. Temática que tem sido destacada por vários autores e que tem, sem dúvida, nas obras de José Pedro Paiva um contributo de notável importância. Veja-se, por exemplo: PAIVA, José Pedro. Baluartes da fé e da disciplina. O enlace entre a Inquisição e os bispos em Portugal (1536-1750), Coimbra: Imprensa da Universidade de Coimbra, 2011.

8. Referimos as investigações de pesquisas regionais que trazem uma visão mais especifica do objeto. Tendo em vista que as extensões territoriais “[…] foram, sem dúvida, um elemento importante a exigir adaptações em relação às formas tradicionais do exercício da governação eclesiástica”. Sobre a consideração acerca dos trabalhos que trazem visões genéricas da história da Igreja na colônia. MUNIZ, Pollyanna Gouveia Mendonça. Parochos imperfeitos: Justiça Eclesiástica e desvio do clero no Maranhão Colonial. Tese. Programa de Pós-graduação em História. Rio de Janeiro: Universidade Federal Fluminense, 2011, p. 20. A respeito da citação: SOUZA, Evergton Sales. Estruturas eclesiásticas da monarquia portuguesa. A igreja diocesana. In: XAVIER, Ângela Barreto; PALOMO, Frederico; STUMPF, Roberta. Monarquias ibéricas em perspectiva comparada (Sécs. XVI-XVIII). Lisboa: ICS, 2018, p. 516.

9. “A ideia dominante é a de que a maior parte desses fundos documentais se perdeu, pouco ou nada existindo que permita reconstituir a ação dos dispositivos judiciais de parte significativa das dioceses de Portugal e de seu império ultramarino. Há de reconhecer, todavia, que a natureza privada dos arquivos onde foram depositados esses espólios, a deficiente e, na maior parte dos casos, inexistente, catalogação dos documentos, faz crer que o panorama não seja tão sombrio e que parte das fontes cujo paradeiro, até hoje, se desconhece, seja dada a conhecer no futuro”. GOUVEIA, Jaime. “O Tribunal Episcopal de Portalegre, 1780 – 1835”. Boletim do Arquivo da Universidade de Coimbra, Coimbra, vol.31, 1, p. 61-102, 2018, p. 61.

10. Projeto PTDC / HAR-HIS / 28719 / 2017. https: / / www.uc.pt / fluc / religionAJE

11. Para ficarmos com as próprias palavras postas na apresentação do projeto Religião, administração e justiça eclesiástica no Império Português (1514-1750) – ReligionAJE, em seu endereço eletrônico.

12. Veja-se as reflexões apresentadas em BETHENCOURT, Francisco. Rejeições e polémicas. In: MARQUES, João Francisco; GOUVEIA, António Camões. História Religiosa de Portugal. Lisboa: Círculo de Leitores, 2000, Vol. 2, p. 49-94.

Belém, Teresina, Lisboa, 11 de setembro de 2020.

Antonio Otaviano Vieira Junior

Ferdinand Almeida de Moura Filho

Susana Bastos Mateus


VIEIRA JUNIOR, Antonio Otaviano; MOURA FILHO, Ferdinand Almeida de; MATEUS, Susana Bastos. Apresentação. Contraponto, Teresina, v. 9, n. 1, jan / jun, 2020. Acessar publicação original [DR]

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O teatro e o popular / Contraponto / 2019

As categorias cultura popular e arte popular possuem entendimentos diversos e muitas vezes dissonantes. Ricardo Gomes Lima em Arte popular (2010) faz a seguinte pergunta: “Se o próprio termo arte desperta polêmica e discussões infindáveis sobre sua natureza, sentido e condição, imagine somar a isso a questão do popular! Afinal o que é o popular?” (LIMA, 2010, s / p). Não é apenas em relação ao que se deve circunscrever na categoria popular que existe ambiguidade e imprecisão mas também na multiplicidade de entendimentos sobre aquilo que consideramos cultura popular.

A noção de teatro popular é igualmente complexa e acaba reunindo práticas teatrais distintas entre si e de momentos históricos muito diversos. Podemos citar alguns exemplos frequentemente mencionados e que dão a ver esta diversidade. A commedia dell’arte italiana, com suas representações em espaços públicos, narrativa cômica popular sem um rígido texto escrito e tendo forte caráter improvisacional. O trabalho de dramaturgos como Ariano Suassuna, Hermilo Borba Filho e Benjamim Santos, que incorporaram temas e personagens de manifestações populares em sua escrita dramatúrgica. O mamulengo, ou Teatro de Bonecos popular do Nordeste, onde este gênero de teatro de bonecos é mais presente e é realizado por homens e mulheres de classe trabalhadora especialmente na Zona da Mata pernambucana. Dramaturgos como Augusto Boal, movimentos culturais como o CPC (Centro Popular de Cultura) da UNE (União Nacional dos Estudantes) que viram o teatro como uma forma de luta política.

Almeida Jr, José Simões e Ingrid Koudela em Léxico de pedagogia do teatro (2015) afirmam que a “a ideia de teatro popular sempre esteve em franca contraposição àquelas associadas ao teatro literário, ao teatro destinado às classes dominantes, […], à arquitetura do espaço teatral” (p. 189). Estas características podem ser encontradas nas formas teatrais mencionadas e muitas delas estão presentes nas discussões levantadas nos artigos deste dossiê “Teatro e o Popular”.

O dossiê “Teatro e o Popular” através de seus dez artigos dá a ver essa multiplicidade de formas teatrais que a ideia de teatro popular é capaz de abarcar. Para classificar como tal seus objetos em estudo, os diferentes pesquisadores estão considerando critérios como o modo de produção de um artista, grupo ou movimento, a relação com um circuito específico ou a temática encenada.

Em “Eles da Vila Vintém: relato etnográfico sobre teatro da favela” (João Gabriel Cunha) discute-se as categorias cultura, território e racismo a partir da companhia Talentos da Vila Vintém. No artigo “O teatro popular em Moçambique: representações e leituras do método do teatro do oprimido em terras africanas” (Flavio da Conceição) é apresentada historiografia do teatro popular moçambicano, o qual é relacionado com o teatro engajado e com o desenvolvimento do Teatro do Oprimido no país. No trabalho “Gênese popular do teatro nordestino” (Magela Lima) temos um comentário sobre como o Nordeste brasileiro é frequentemente visto como o lugar de origem das formas populares brasileiras. Em “O auto da Compadecida e autotelismo literário: João Grilo e a reivindicação de si” (Everaldo dos Santos Almeida) é levantada discussão sobre as ideias de linguagem, língua e discurso a partir da célebre peça de Ariano Suassuna. No artigo “Movimento Escambo: Teatro e Cultura Popular” (Marcio Silveira dos Santos) são compartilhadas experiências em encontros do Movimento Popular Escambo Livre de Rua no ano de 2013 em Janduís e Caicó, Rio Grande do Norte.

Em “O Judas em sábado de aleluia: no mínimo gesto, o valor artístico nas comédias de costumes de Martins Pena” (Marcia Geralda Almeida) é abordado o gênero comédia de costumes partindo da dramaturgia de Martins Pena, dramaturgo que teria de distanciado de padrões estéticos europeus. No trabalho “A pedra do meio do caminho: relações entre homens de letras e o teatro popular na Primeira República” (Phelippe Celestino) faz-se um contraponto entre autores como Machado de Assis, Arthur Azevedo e o teatro cômico musicado, de caráter popular. Em “O Buraco de Otília, um sucesso do teatro de revista pernambucano” (Leidson Ferraz) é apresentada a revista carnavalesca O Buraco de Otília (1958) realizada pela companhia pernambucana Companhia Portátil de Revistas Valença Filho em diálogo com reflexões sobre o teatro de revista. No artigo “A criação dramatúrgica de Oswald de Andrade: diálogo entre estética vanguardista e teatro de revista” (Nanci de Freitas) discute-se o teatro de Oswald de Andrade, buscando mencionar sua aproximação das vanguardas europeias e também seu interesse pela cultura popular brasileira. Por fim, em “Double sens: teatro de revista e as suscetibilidades sociais em Teresina nas primeiras décadas do século XX” (Ronyere Ferreira) são analisados os debates acerca do teatro de revista em Teresina nas primeiras décadas do século XX.

Também faz parte do dossiê entrevista produzida junto ao dramaturgo e historiador Ací Campelo em Teresina, capital piauiense, no dia 20 de janeiro de 2017. O foco da conversa foram montagens teatrais realizadas por dramaturgos e diretores piauienses que incorporam temáticas e personagens de manifestações populares em suas dramaturgias e encenações. Assim, com o dossiê “Teatro e o Popular” esperamos reforçar que a ideia de teatro popular pode e deve ser vista não como algo cristalizado, mas como uma categoria aberta, flexível, em permanente debate e disputa.

Rio de Janeiro (RJ), setembro de 2019.

Me. Weslley Fontenele

Organizador


FONTENELE, Weslley. Apresentação. Contraponto, Teresina, v. 8, n. 1, jan / jun, 2019. Acessar publicação original [DR]

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Migrações, fronteiras e espaços / Contraponto / 2019

O presente dossiê da revista Contraponto tem uma temática prenhe de gerúndios. Ao longo desta edição será possível localizar a fluidez do tempo de migrantes, as porosidades e deslocamentos de fronteiras e mutantes delimitações espaciais, tudo isso em sintonia com aspectos históricos e seus agentes. A máxima, tudo que é sólido desmancha no ar, cunhada por Karl Marx no século XIX, e discutida por Marshall Berman nos estertores do XX, continua fazendo sentido nos caminhos da modernidade e de suas frenéticas metamorfoses.

O frisson de um tempo acelerado que desconserta gerações está na ordem do dia em nossa era tecnológica. Os feitos burgueses do século XIX hoje parecem brincadeira de criança. As conexões entre sociedades vêm ganhando cada vez mais um caráter global, com suas distancias / fronteiras abolidas diante do tempo real das comunicações, da internet, dos meios de transporte cada vez mais velozes. O tempo histórico vem se tornando dramaticamente global e conectado. As conquistas desse início de século soam como tramas futuristas, que Felippo Tommaso Marinetti talvez tenha sonhado em seu manifesto de 1909, prenhe de uma sociedade em progresso permanente, sem distancias e / ou diferenças. Mas, ao que tudo indica, os futuristas estavam equivocados. Na contramão da esperança “moderna” do capitalismo, facilmente encontrada em propagandas de bancos e redes de tv, o mundo vive tempos cada vez menos igualitários, onde preconceitos e diferenças se exacerbam. As grandes redes sociais e aparatos tecnológicos tem fornecido eco para ideias autoritárias e violentas.

Em sintonia com o atribulado tempo presente, esta edição da Revista Contraponto trará estudos que discutem problemáticas migratórias, fronteiriças e espaciais, privilegiando seus jogos de escala, na perspectiva metodológica clássica de Jacques Revel. O dossiê será aberto com o artigo “Mulheres e migração internacional: vivências de agricultoras familiares de Itapuranga-GO”, de Flávia Sousa Oliveira, que nos oferece um estudo sobre a conformação de fluxos migratório a partir de uma pequena cidade do interior de Goiás (cerca de 24 mil habitantes), para países como Estados Unidos, França, Portugal, Japão e Inglaterra. A temática das movimentações de trabalhadores contemporâneos e suas conexões internacionais também estará presente no artigo “Ser daqui e allá – Comunidade transnacional e Redes de migrantes paraguaios em São Paulo”, de Vanessa Kely Domingues, que apresenta uma discussão sobre as possibilidade de recomposição de laços comunitários e culturais na sociedade de destino dos migrantes na grande metrópole. Seguindo linha semelhante, figurará o artigo “Para além das fronteiras físicas: apontamentos acerca da imigração haitiana para o Oeste do Paraná”, de Joselene Ieda dos Santos Lopes de Carvalho, que trará como temática a dramática saga de migrantes haitianos pelo Brasil, especialmente daqueles que se dirigiram para o oeste do Paraná, investigados através de técnicas de História Oral, cujas referências fornecem pistas sobre seus caminhos, agencias e escolhas.

Dando continuidade ao dossiê, será apresentado o artigo “Fuga do Inferno Vermelho: imigração de ‘Russos da China’ para o Rio de Janeiro (1949-1960)”, de Gabriel Dias Cavalcante Mauro, que trata da interessante trajetória de migrantes russos oriundos da China, que se deslocaram até a cidade do Rio de Janeiro. O estudo também faz uso de técnicas de História Oral, dando voz à três imigrantes que contam detalhes de suas trajetórias e “estranhamentos” culturais. O artigo seguinte tratará também da densidade de deslocamentos internacionais, presentes no estudo intitulado “Um imigrante chamado Koutakusei”, de Franco Lindemberg Paiva dos Santos, que apresenta referências de uma trajetória migratória relacionada ao panorama geral da vinda de trabalhadores japoneses ao Brasil, descrevendo uma agencia individual (de Koutakusei) sem perder de vista a dimensão macro do processo em tela. Ainda tratando da temática da migração japonesa, segue o artigo “Os meandros da imigração japonesa para a América Latina: das políticas abolicionistas ao “ideal de branqueamento” na gênese dos discursos identitários nacionais no final do séc. XIX”, de Diego Avelino de Moraes Carvalho, que amplia o debate, relacionando-o com demandas das políticas de Estado no Brasil, analisando referencias da formação da identidade nacional e seus interesses no final dos oitocentos, extensível ao período pós-abolição.

Em sequência será exposto o artigo “‘Quando eu vim do sertão…’: Luiz Gonzaga e o baião – o fazer-se de dois migrantes”, texto de Ruberval José da Silva, onde mostra a trajetória migrante do cantor e compositor Luiz Gonzaga, trajetória essa justificada pelo autor como sendo de importante contribuição na formação da carreira do cantor nordestino. Felipe Soares, no texto “‘Histórias de beira de estrada’ – memória e história da ditadura na Amazônia da década de 1970”, aprensenta o processo de colonização da Amazônia no período dos governos militares como uma estratégia de controle dos conflitos ocorridos na região. “Migração, exílio e fronteiras: a narrativa de Ruffato em Flores Artificiais”, texto, resultado da pesquisa e produção de Icaro Carvalho, apresenta a busca pela compreensão do movimento de migração como um fator de pertecimento, ou de exclusão, a partir da obra Flores Artificiais, de Ruffato. Patricia Roque Teixeira das Chagas Rosa, é autora do texto “Deslocamento e reconstrução identitária no romance Quarenta dias”, que discute descolocamento a reconstrução indentitária a partir da análise do romance Quarenta dias (2017) da escritora Maria Valéria Rezende. Selma Antonia Pszdzimirki Viechnieski apresenta o texto intitulado: “As fronteiras identitárias no primeiro centenário da colônia amola faca (Virmond)”, uma colônia de poloneses fundada em 1921, espaço que expõe características da cultura polonesa, como o catolicismo. O texto discute a cultura como móvel, em transformação, estudando a identidade étnica, e o multiculturalismo.

Teresina-PI, dezembro de 2019.

Dr. Antônio Alexandre Izídio Cardoso

Me. Márcio Douglas de Carvalho e Silva

Me. Bruno de Souza Silva

Organizadores


CARDOSO, Antônio Alexandre Izídio; SILVA, Márcio Douglas de Carvalho e; SILVA, Bruno de Souza. Apresentação. Contraponto, Teresina, v. 8, n. 2, jul / dez, 2019. Acessar publicação original [DR]

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Ensino de História / Contraponto / 2015

A proposta do dossiê Ensino de Historia da revista Contra Ponto procurou proporcionar um debate no campo da história e da história da educação, entre suas diversas interfaces por meio da publicação dos artigos aqui presentes, o objetivo foi trazer uma ampla reflexão sobre os diversos aspectos da História no âmbito da experiência do fazer docente e o campo da História e da História da Educação.

Por meio do estudo da História podemos entender que houve uma apropriação desta pelo diversos sujeitos, entre eles os educadores, como fonte de formação de uma sociedade com fins a elaborar um ideal de identidade. De igual forma o ensino de História foi sendo continuamente estruturada pelo Estado desde o século XIX com fins a forma igualmente um discurso de Nação.

Desde a criação das primeiras universidades na década de 30, esta passou a ser uma matriz necessária para o desenvolvimento do ensino de História, possibilitando novas atitudes sobre o passado e o presente da sociedade brasileira, esse caminhar da História em grande parte encontra-se permeada pelas diversas tendências que de alguma forma contribuíram para a compreensão da Historia como Ciência e ou Disciplina, no entender de Veyne (1998, p. 11).

Na atualidade a história esta aberta a outras ciências, o que nos faz afirmar que ela não se encerra na própria narrativa, ao contrario ela mantem um amplo compromisso intelectual com a sociedade, é com esse objetivo que os estudos que compõem o presente dossiê se propõem.

Este dossiê de alguma forma procurou privilegiar trabalhos que relatam aquilo que esta sendo realizado sobre o ensino de História no Brasil, os trabalhos aqui presentes propõe também um novo olhar sobre a sociedade.

Os capítulos deste dossiê incluem discussões sobre: Os conceitos meta-históricos; Os novos desafios ao ensino de história; A identidade étnica; A literatura de cordel no ensino de História; E sobre o ensino de história enquanto problema teórico. Por fim os artigos livres com uma gama de trabalhos que perpassa pelos viajantes do Piauí oitocentista; A literatura de Germinal: e a classe trabalhadora francesa; A presença do governo militar no interior do Piauí na década de 70; O choque da presença portuguesa no processo de colonização e por fim; A saga de Maria Firmina na sociedade oitocentista.

Convido a todos para apreciarem os estudos.

Boa Leitura.

Referência

VEYNE, Paul. Como se escreve a história; Foucault revoluciona a história. 4ª ed., Brasília: Editora UNB, 1998.

Johny Santana de Araújo

Editor Chefe


ARAÚJO, Johny Santana de. Apresentação. Contraponto, Teresina, v. 4, n. 1, fev., 2015. Acessar publicação original [DR]

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História e Cultura / Contraponto / 2015

Apresentamos à comunidade acadêmica dos pesquisadores da área de História e das ciências humanas de modo geral o Dossiê História e Cultura, enfocando diferentes objetos de pesquisa, os fundamentos teóricos e procedimentos metodológicos que orientam a construção do conhecimento.

Entendemos que a relação entre história e cultura é indissociável, pois enquanto a História arrisca-se a investigar a elaborar narrativas sobre os fazeres humanos ao longo do tempo, a cultura é a construção e o acúmulo de todas as experiências e vivências socialmente erigidas da espécie humana, em intima relação com a natureza. A experiência humana é dinâmica e propicia um contínuo processo de adaptação, mudanças, acomodações empreendidas, em grande medida, pela alteridade, e de transmitir nossas experiências para as gerações futuras, daí resulta o seu caráter cumulativo e transformador.

Vale ressaltar ainda que as pesquisas atuais que utilizam chaves interpretativas da História Cultural ou da História Social da Cultura já privilegiam as diversas dimensões da cultura material e imaterial, produzidas em grande medida, pela multiplicidade de manifestações, pela perspectiva interpretativa dos fatos e símbolos, pelos quais um conjunto de signos e significados pertencentes a grupos sociais se misturam e se entrelaçam na formação da cultura. Interessa, portanto aos pesquisadores da cultura, uma interpretação e vivência da mesma como processo fervilhante de experiências individuais e coletivas, que se inserem no campo simbólico e da materialidade e vão preservando, acrescentando, retirando e dando continuidade a manifestação cultural a qual fazem parte.

É desafiador para os historiadores entender a estreita relação entre as práticas culturais e as variadas formas de poder dos produtores e consumidores da cultura. Neste sentido, a cultura não é apenas “um poder, algo ao qual podem ser atribuídos casualmente os acontecimentos sociais, os comportamentos, as instituições ou os processos; ela é um contexto, algo dentro do qual eles podem ser descritos de forma inteligível, isto é, descritos com densidade” (GEERTZ, 1989, p. 20).

A concepção de cultura como construção densa também denota seu caráter amplo, complexo e circular. Em relação a essa problemática é sabido que a circularidade cultural resolve, em grande parte, a querela de separação entre cultura popular e cultura erudita, sendo que ao longo dos anos ambos compartilham de seus conceitos e práticas.

Percebemos as possibilidades de análise histórica da cultura por meio dos trabalhos publicados no presente dossiê, que não serão resumidos nesta apresentação, sob risco do reducionismo e superficialidade, portanto deixamos o desafio hermenêutico aos leitores, com profundo desejo que os textos sejam socializados, utilizados em salas de aulas, em monografias, dissertações e teses.

Boa leitura.

Francisco de Assis de Sousa Nascimento – Universidade Federal do Piauí – UFPI


NASCIMENTO, Francisco de Assis de Sousa. Apresentação. Contraponto, Teresina, v. 4, n. 2, ago., 2015. Acessar publicação original [DR]

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Estado Nacional, Identidades e Pluralidades Culturais / Contraponto / 2014

É com grande prazer que apresentamos mais uma edição da revista Contraponto como o dossiê intitulado, História e Narrativas: Estado Nacional, identidades e pluralidades culturais, nesse novo número, pretendemos mostrar trabalhos de pesquisadores e estudiosos da área de História e afins que estão discutindo questões pertinentes as múltiplas perspectivas de compreensão do Estado Nacional e do Nacionalismo tanto como teoria quanto prática.

Tais estudos são expressos por diversas manifestações culturais e sociais, no âmbito da politica, da música, do teatro, da literatura, do cinema e da ciência, para além de questões mais complexas como, multietnicidade, cidadania, identidades nacionais sua formação, além das relações entre Estados nacionais e os conflitos inerentes a sua construção.

Dessa forma, o presente dossiê se constitui não apenas num importante espaço de debates, mas também de divulgação do conhecimento acadêmico produzido sobre a temática proposta, os artigos aqui apresentados estão estimulando um diálogo amplo e interdisciplinar sobre o conceito de Nação e Nacionalismo, suas expressões, suas práticas e suas diversas manifestações, observando os atores sociais e as redes constituídas por estes no longo processo histórico do qual fazem parte.

No presente número encontram-se trabalhos que discutem questões como liberdade e trabalho; Sobre os sujeitos que contribuíram para a construção do Estado Nacional nos rincões do interior do Piauí no século XIX; A cidade e a politica de higienização no final do XIX; E finalmente sobre a macro política do Estado Imperial a partir da Corte em relação às Províncias do Norte em meados do século XIX. O número apresenta ainda artigos avulsos sobre diversos temas.

Convido a todos para mais uma viagem à História pelas paginas da revista Contraponto, ótima leitura.

Johny Santana de Araújo

Editor Chefe


ARAÚJO, Johny Santana de. Apresentação. Contraponto, Teresina, v. 3, n. 1, agosto, 2014. Acessar publicação original [DR]

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Contraponto | UFPI | 2011

Contraponto UFPI Contraponto

A Revista Contraponto (Teresina, 2011-) é uma publicação do Departamento de História e Programa de Pós Graduação em História do Brasil da Universidade Federal do Piauí. A linha editorial desta revista tem o objetivo de contemplar uma dupla demanda. Por um lado pretende-se abrir espaço para a necessária difusão da produção acadêmica desenvolvida no âmbito da História no estado do Piauí.

Nesse sentido, vale destacar que a UFPI já conta com um programa de pós-graduação consolidado na área de História do Brasil. Dezenas de dissertações de mestrado já foram elaboradas nos últimos anos e pretende abrir espaço para levar ao conhecimento de um público mais amplo essa produção acadêmica. Da mesma forma, a revista está franqueada aos demais professores e pesquisadores que atuam na Universidade Estadual do Piauí e também em outras instituições. Esta publicação especializada na área de história é um instrumento através do qual a produção acadêmica piauiense será veiculada e compartilhada com o público interessado nesse campo de estudos.

Por outro lado, a Revista Contraponto é espaço de interlocução que extrapola as fronteiras do Piauí e acolhe artigos e contribuições de pesquisadores de todo o Brasil e do exterior. Desta forma, a revista representa uma ponte entre a pesquisa acadêmica realizada na região – mas não apenas aquela que aborda temas específicos sobre o estado e o nordeste – e a produção historiográfica mais recente desenvolvida em outros estados e também em outros países.

Vale destacar que o esforço ora empreendido é especialmente revelador do interesse dos pesquisadores em História da UFPI no sentido de se inserir no campo da produção historiográfica e participar dos debates contemporâneos deste vasto campo de estudos.

Periodicidade semestral

Acesso livre

ISSN 2236 6822

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