História Urbana Global | Esboços | 2021 (D)

A atual pandemia, causada pelo vírus da COVID-19 que se espalhou rapidamente pelo mundo, infectando mais de oitenta e duas milhões de pessoas e causando quase duas milhões de mortes em 2020, ilustrou de forma dramática a nossa realidade globalizada. Essa doença nova e altamente contagiosa manifestou-se primeiramente na cidade de Wuhan, na China. Dali disseminou-se por todos os cantos habitados do planeta ao ser transmitida de uma pessoa a outra, acompanhando viajantes que de Wuhan se dirigiram a regiões da Ásia, da Europa, das Américas, da África e da Oceania. O vírus, junto com seus hospedeiros, se moveu ao longo das mesmas rotas que conectam econômica, política, e culturalmente os diferentes continentes do globo.

Mas os surtos piores da doença ocorreram em cidades. A presença de aeroportos, portos, e outras centrais de transporte público, a concentração demográfica e a intensidade de atividades coletivas que caracterizam centros urbanos favoreceram o alto índice de contágio da doença em cidades diversas como Nova York, São Paulo, Madri, Londres e tantas outras. Os esforços feitos por governos municipais, regionais e nacionais para controlar a epidemia produziram imagens de cidades vazias, espaços públicos abandonados, e de uma quietude tão contrária à esperada natureza do espaço urbano, que paramos todos para olhar, admirados, o nosso mundo transformado pelo vírus. A nossa relação com o global se manifestou de forma tragicamente tangível em 2020. E durante um breve momento, as fotografias de espaços urbanos iconoclásticos, subitamente desprovidos de suas multidões e furor típicos, capturaram bem nossa sensação de isolamento e perda coletiva (KIMMELMAN, 2020).

O espectro da cidade transformada pela pandemia remonta à forte conexão que existe entre o urbano e o global. Se hoje o lugar que a cidade ocupa em complexas redes de movimentação e transmissão nos causa certa ansiedade, em outros tempos, quer passados ou recentes, foi exatamente essa função ou propriedade das cidades que moldou suas trajetórias históricas e fez delas lugares célebres. Se hoje vemos governantes, agentes de saúde pública e cidadãos esforçando-se para limitar ou regular melhor a passagem de pessoas, produtos e micro-organismos pelos espaços urbanos, esforços normalmente feitos no sentido oposto, de intensificar essas atividades, ajudaram a produzir o mundo globalmente interconectado no qual vivemos hoje.

A cidade na era da COVID também revela a profundeza das desigualdades e a assimetria de poder entre populações, sociedades e estados que o mundo moderno globalizado produziu. Ao começo da pandemia, houve aqueles que disseram que a nova doença seria o grande equalizador, uma vez que o vírus não diferencia os que infecta de acordo com raça, etnia, situação socioeconômica, gênero etc. Mas assim que a epidemia se tornou pandemia e começou a se espalhar e a matar suas vítimas em cidades mundo afora, essa visão do vírus igualitário precisou ser revisada. Populações urbanas pobres, majoritariamente formadas de minorias raciais e étnicas, se viram mais vulneráveis à contaminação, quer por causa da precariedade de suas condições de vida, quer pela necessidade de continuar trabalhando em funções que as expuseram à doença, quer pela falta de acesso a um sistema público de assistência à saúde (MARASCIULO, 2020). A complexidade do tecido urbano, irregular, segregado e desigual em sua composição social, econômica, política e cultural, se tornou explicitamente evidente. A pandemia revelou também desigualdades num nível transnacional. Um vírus de alcance global, que encorajou cooperação entre comunidades científicas e líderes culturais e políticos de vários países, produziu, no entanto, reações locais diversas, revelando as forças e fraquezas de sistemas políticos, sistemas de saúde, e sistemas de crença em diferentes nações e suas comunidades urbanas (WENG; NI; HO, 2020). A pandemia nos tem oferecido assim um exemplo de como, ao focarmos a cidade, conseguimos visualizar diversidade na forma como eventos e processos globais afetam indivíduos, grupos, localidades, e comunidades, criando muitas vezes hierarquias e realidades discriminadas.

Da mesma forma que podemos observar as complexas redes urbanas que animam trocas globais para entender a origem e progressão da pandemia da COVID-19, podemos também entender processos históricos globais diversos a partir do estudo de cidades. As cidades atuais agiram e agem como pontos de convergência e difusão do vírus. No passado tanto distante como recente, elas similarmente atuaram como pontos de articulação entre localidades, regiões, nações, continentes e oceanos. Enquanto aguardamos a produção em massa e distribuição mundial da vacina contra o COVID-19 – o que certamente se organizará em e a partir de cidades – vale contemplar o papel que as cidades ocupam em processos históricos globais. É essa a proposta do dossiê História Urbana Global.

Os nove artigos coletados aqui examinam a trajetória de cidades ao longo do século XX. Questões comuns à área de pesquisa da história urbana – políticas de urbanização, a administração e uso de espaços urbanos, acesso a moradias, e o consumo de arte e entretenimento – são abordadas numa perspectiva atenta ao fluxo global de ideias, práticas e produtos. Por outro lado, processos globais variados, desde a emergência do comércio internacional de marchands da arte até o impacto da economia da soja – perpassando ainda por políticas transnacionais de habitação, desenvolvimento econômico, e produção de petróleo – são examinados e ancorados em estudos de casos de cidades específicas. Conjuntamente, os trabalhos selecionados revelam a cidade ora como produto de forças globalizantes, ora como agentes e promotores de tendências globalizadoras. Sobretudo, eles distinguem a cidade como importante lente de análise do global. Populações, dinâmicas e espaços urbanos refratam e ampliam, assim como às vezes obscurecem ou ignoram, eventos e desenvolvimentos externos, revelando as múltiplas e complexas formas com que contexto, experiências, ideias, e ações tanto globais quanto locais interagem historicamente.

O interesse pela interseção histórica e historiográfica entre o global e o urbano tem crescido rapidamente desde a virada do século XXI. Essa tendência surgiu em parte em resposta a trabalhos produzidos no final do século XX por estudiosos da cidade. Sociólogos e geógrafos em particular nos chamaram a atenção para o fenômeno que eles cunharam de cidade global (SASSEN, 2013; CASTELLS, 1996; FRIEDMANN, 2002; BRENNER, 2004). Segundo eles, a cidade global, enquanto objeto de estudo, permite situar investigações sobre a globalidade de fenômenos e eventos da sociedade contemporânea em localidades específicas, ancorando-os em espaços físicos e atores sociais distintos para assim evitar narrativas abstratas e generalizadoras e facilitar uma análise crítica de suas causas e impacto. Essa literatura deu, portanto, continuidade ao importante trabalho intelectual de geógrafos como David Harvey (1973, 2003). Harvey investigou a cidade enquanto produto do capitalismo moderno e promoveu um engajamento crítico de urbanistas com a realidade urbana com o intuito de impedir a reprodução das desigualdades e assimetrias de poder que este criou. Esse debate acabou inspirando historiadores a questionar se a cidade global, essa entidade que se definiu a partir do diálogo entre espaço urbano local e das forças capitalistas e liberais globais recentes, não tinha suas origens ou seus homólogos em épocas anteriores (SAUNIER; EWEN, 2008; CLARK, 2013).

A emergência da História Urbana Global enquanto campo de investigação também deve muito aos esforços da história global que surgiu na segunda metade do século XX. Num momento político bastante influenciado pela virada teórica anti- e pós-colonial, historiadores buscaram examinar o passado de sociedades humanas numa perspectiva mais abrangente, que excedesse os limites da história nacional ou colonial. A história global enquanto abordagem desafiou narrativas históricas dominantes que tendiam a excluir ou silenciar experiências humanas e processos que não condiziam com o projeto civilizatório europeu ou seus agentes históricos (CONRAD, 2016; SANTOS JÚNIOR; SOCHACZEWSKI, 2018).

Ao oferecer a possibilidade de conceber outros recortes geográficos e temáticos, quer fosse o enfoque em regiões mundiais, quer oceanos ou redes comerciais em vez de nações ou impérios, quer fosse ainda o enfoque em estudo de gênero, raça, ou etnias, histórias globais permitiram a “provincialização da Europa”, como propôs Dipesh Chakrabarty (2000). Essa perspectiva elucidou a centralidade de regiões e populações não europeias às origens, dinâmicas, e impacto de eventos e desenvolvimentos históricos que marcaram o passado de sociedades humanas de forma ampla e abrangente. A cidade e o urbano se tornaram um outro possível recorte geográfico e temático para a abordagem global. O passado de redes urbanas que se estendeu pelo globo elucida, afinal de contas, complexas conexões e intercâmbios transnacionais que alimentaram sistemas econômicos, políticos e culturais em diferentes épocas históricas (KENNY; MADGIN, 2015). Práticas e políticas urbanísticas, assim como populações e espaços urbanos, fomentaram a troca e difusão de ideias e atitudes numa escala transnacional e mundial (KWAK; SANDOVAL-STRAUSZ, 2018). No trabalho de historiadores do urbano global, a cidade surge, portanto, como o sítio onde o efeito de transações econômicas, movimentos migratórios, ideologias políticas, e o investimento e busca de capital financeiro se traduzem da escala global à experiência local e onde realidades locais informam a natureza de trocas, fluxos, e práticas globais.

A promissora combinação do global e do urbano cria um novo campo de pesquisa temática, metodologia e abordagem historiográfica que traz, contudo, sua parcela de desafios. Tradicionalmente, a história urbana caracteriza-se por estudos densos, focados em localidades específicas e solidamente sustentados por pesquisas em arquivos urbanos. A história global, por sua vez, tende a traçar sínteses sobre processos históricos homólogos, passíveis de serem comparados em localidades distintas, ou evidentes ao longo de redes ou fluxos que conectam lugares, comunidades, atores históricos diversos. A tarefa de combinar a densidade analítica da história urbana com a abordagem ampla da história global pode parecer inviável. Um único historiador poderá se ver diante de imensos obstáculos: pesquisa em diferentes idiomas, tradições arquivísticas e historiográficas distintas, a dificuldade de acessar recursos de pesquisa e financiamento necessários. É nesse sentido que proponentes da História Urbana Global têm formado projetos colaborativos e redes de pesquisa internacionais, apoiando-se em suas diferentes áreas de conhecimento e compartilhando seu trabalho para promover um melhor entendimento da cidade enquanto possível objeto de estudo do global. Vale notar em particular os esforços do Global Urban History Project (GUHP), uma organização de historiadores dedicada à investigação de cidades enquanto criações e criadoras de fenômenos históricos de escala global (www.globalurbanhistory.org). Colaborações como o GUHP têm organizado conferências e facilitado publicações que reúnem historiadores de diferentes partes do mundo, trabalhando em tópicos e localidades diversas, para cultivarem juntos o potencial explicativo do urbano, a fim de entender o global e vice-versa.

Com esse dossiê, a Esboços: histórias em contextos globais se torna também uma plataforma colaborativa para a promoção desse diálogo produtivo entre a história urbana e global. Os textos aqui incluídos refletem a rica diversidade temática e metodológica possível dentro desse diálogo. Os episódios e casos explorados nesse volume revelam cidades que servem de nódulos coordenando e comandando forças históricas globais, espaços urbanos de fluxo de pessoas e produtos, e sítios de trocas, negociações e conflitos. Os artigos também ilustram possíveis usos de abordagens da história global no estudo do urbano: a abordagem comparativa, a introdução de diferentes modelos de difusão não centrados no eixo Europa−Estados Unidos, a inserção do local em contextos transnacionais e globais, e o papel do local no processo de mediação de forças e tendências globais. Em sua história geral do mundo moderno, Fernand Braudel se referiu a cidades como “transformadores elétricos”, intensificando ou moderando correntes externas, acelerando e orientando ritmos de vida coletiva e individual, e “incessantemente incitando” e realidade diária de sociedades humanas (BRAUDEL, 1973, p. 382). A metáfora de Braudel é traduzida em exemplos e exposições históricas tangíveis e reveladoras pelos autores do dossiê.

Em seu artigo “De la ciudad a la metrópole. Un enfoque desde México sobre um pasado global”, Carlos Riojas e Alejandro Arjona (2021) examinam o processo de metropolização que desde o início do século XX manifesta-se em centros urbanos mundiais. Produto da evolução demográfica que caracterizou o século passado – o acentuado crescimento da populacional em grandes cidades e a progressiva redução da população rural – este desenvolvimento urbano global não respeitou perspectivas eurocêntricas do conhecimento. A emergência da metrópole deu-se em diversos espaços sociais, políticos e econômicos que englobam países asiáticos, africanos e latino-americanos. O processo de metropolização, como mostram os autores, trouxe consigo inúmeros desafios que, por sua vez, reorientaram o nosso modo de pensar a cidade. Dentre estes, incluem-se o crescimento desordenado que agrava problemas habitacionais; desafios de logística de abastecimento; diferenças sociais; o aumento de contingentes populacionais vivendo à miséria; a precarização do transporte público; e problemas de saúde pública coletiva, como a atual crise global de COVID-19. Ao questionarem se a atual complexidade dessas metrópoles cria a necessidade de pensarmos uma forma alternativa de organizar atividades e trocas humanas, Riojas e Arjonas nos remetem ao trabalho da geógrafa Jennifer Robinson (2002). Em seu importante artigo “Global and World Cities: a view from off the map”, Robinson argumenta que o futuro das questões e soluções urbanas não mais se encontra nos modelos urbanísticos europeus. Riojas e Arjonas ilustram bem a necessidade de direcionarmos o nosso olhar a cidades como a Cidade do México.

Os problemas habitacionais derivados do crescimento urbano informam a discussão que Samuel Oliveira e Gabriela Gomes desenvolvem em seu artigo, onde eles comparam as políticas habitacionais das ditaduras brasileira e argentina na segunda metade do século XX. Ambos os governos elaboraram grandiosos projetos habitacionais para minimizar o impacto das habitações irregulares nos grandes centros urbanos, as favelas, no Brasil, e as villas misérias, na Argentina. Os programas imaginavam ser possível higienizar os centros urbanos levando essas populações para bairros mais afastados com a construção de moradias populares em bairros planejados.

Em sua análise, Oliveira e Gomes prestam a devida atenção às diferenças em formas de investimento que sustentaram os dois projetos. Mas eles também enfatizam o conservadorismo comum a políticas habitacionais moldadas pelo contexto político global da Guerra Fria, quando o enfoque em habitações populares era confundido com a suposta agenda comunista de governos populistas. O resultado foi o beneficiamento dos setores médios urbanos, os quais puderam acessar formas de financiamento da casa própria em números significativamente maiores do que membros dos setores populares, os alvos iniciais desses programas. Fica evidente, portanto, que as políticas habitacionais das ditaduras brasileira e argentina colaboraram para o aumento da segregação – racial e socioeconômica – do espaço urbano, reforçando a tese já apontada por Carl Nightingale (2012) sobre o papel segregacionista do setor imobiliário.

A segregação também pode ser vista na longa duração, como nos mostra Nancy Kwak (2021) em seu excelente estudo sobre a informalidade urbana a partir do caso da cidade de Los Angeles. Em seu artigo, a autora explora aspectos cruciais das políticas habitacionais na capital californiana a partir de três períodos históricos. No período colonial, são destacadas as disputas pela posse e domínio territorial entre indígenas, mexicanos e os primeiros colonizadores norte-americanos, onde questões raciais importavam mais para determinar os direitos sobre às terras do que a própria lei. Essas tendências permaneceriam como regra ao longo do século XIX e primeiras décadas do século seguinte. Somente após a Segunda Guerra Mundial as políticas governamentais iriam prestar mais atenção para a presença da informalidade em determinadas regiões, como Chaves Ravine, espaço onde centenas de famílias residiam há décadas. Independentemente dos direitos de posse da terra, a legislação contra favelas (slums) foi acionada para intervir e remover essas populações de onde viria a ser construído o estádio de baseball dos Dodgers. O terceiro período analisado é o atual crescimento dos moradores de ruas no centro de Los Angeles, especialmente na área conhecida como Skid Row, que abriga milhares de pessoas morando em estruturas completamente improvisadas que desvalorizam uma região central da cidade. As atuais políticas governamentais parecem reproduzir as práticas segregacionistas de longa duração, a partir de princípios raciais e econômicos de exclusão que reforçam estigmas sociais. E o exemplo de Los Angeles nos lembra que a informalidade urbana, produto da forma com que populações locais se adaptam às forças excludentes do capitalismo e práticas imobiliárias globais, não é um fenômeno restrito ao suposto sul global.

O artigo de Katharina Schembs (2021) também propõe um questionamento da diferenciação entre o norte e o sul globais em estudos sobre o processo de urbanização. A partir de uma análise minuciosa de dezenas de revistas de arquitetura publicadas na América Latina entre as décadas de 1960 e 1970, Schembs analisa como o movimento desenvolvimentista latino-americano criou uma visão específica e dominante de cidade, distinta das compreensões francesas e norte-americanas de planejamento urbano que dominaram as décadas precedentes. A euforia desenvolvimentista, baseada apenas nos investimentos estatais, logo cedeu espaço para interpretações baseadas na teoria da dependência que explicavam o crescimento das desigualdades nos grandes centros urbanos ao inclui-las como elementos periféricos do sistema capitalista internacional. As noções típicas de cidades do “Terceiro Mundo” passaram a predominar nas publicações de revistas latino-americanas, o que não deixou de criar oportunidades para circular casos de projetos de desenvolvimento urbano originais na região, inclusive com práticas de cooperação Sul-Sul. No entanto, com a ascensão de governos autoritários na região a partir da década de 1960, essas práticas foram logo substituídas pelos princípios neoliberais que marcariam as políticas de planejamento urbano subsequentes.

O trabalho de Daniele Herbele Viegas (2021) dá continuidade, de certa forma, ao texto de Schembs com o estudo de caso sobre a transnacionalidade de políticas de planejamento e desenvolvimento das regiões metropolitana de Porto Alegre e do Vale do Rio dos Sinos. Viegas discute as influências tecnopolíticas em projetos envolvendo o Brasil e a República Federal da Alemanha (RFA) nos anos 1970. Partindo de um exame detalhado de relatórios empresariais, documentos estatais, entrevistas e uma variedade de referências bibliográficas, a autora explora as assimetrias nas circulações de tecnocratas e engenheiros de diferentes expertises. Esses profissionais ofereceram análises detalhadas de intervenções urbanas e ambientais para melhorar o desenvolvimento industrial, higienizar bairros e garantir a complementariedade entre espaços rurais e urbano. Viegas insere sua análise da estrutura de cooperação entre os dois países, e da negociação do significado e do valor da expertise alemã, em uma dinâmica de áreas de influências derivadas da Guerra Fria. Sua contextualização desses projetos revela elementos conceituais tributários de uma visão eurocêntrica que enxerga esses espaços urbanos de maneiras desiguais. Noções como “transferência de conhecimento”, desenvolvimento no “Terceiro Mundo” ou promoção de “Cidades Secundárias” são algumas dessas ideias e conceitos que pressupõem relações hierárquicas entre os espaços urbanos dos chamados norte e sul globais.

Enquanto Viegas adota uma abordagem transnacional para examinar a circulação e aplicação de concepções e práticas urbanísticas, Bruno Biasetto (2021) emprega uma perspectiva comparativa para estudar o fenômeno de boom towns ligadas à economia do petróleo. Nesse estudo de cidades outrora periféricas que assistiram um intenso crescimento populacional com o estabelecimento de complexas estruturas de extração petrolífera em suas regiões, Biasetto examina a relação entre pressões econômicas globais, interesses privados e políticas públicas no desenvolvimento de espaços urbanos. Durante a crise do petróleo nos anos 1970, cidades pequenas da província de Alberta e dos estados de São Paulo e Rio de Janeiro tornaram-se peças centrais nas companhias estatais de petróleo dos dois países. No entanto, este desenvolvimento trouxe consigo diversos problemas sociais, habitacionais e, sobretudo, ambientais. Por mais que o Canadá tivesse órgãos públicos de controle e uma rigorosa legislação, as técnicas de extração e os problemas de longo prazo dos dejetos causaram diversos impactos ambientais, como poluição e chuva ácida. No caso brasileiro, a falta de transparência ditatorial somada à falta de controle regulador e a uma legislação omissa levaram a diversos casos de vazamentos de petróleo e a uma intensa poluição do ar, colocando diversas espécies do bioma em risco. A comparação entre Brasil e Canadá oferece um interessante paralelo de atuação governamental, independentemente da inclinação política deles. Se de um lado está um país desenvolvido com uma política liberal, do outro encontra-se um país em vias de desenvolvimento em meio a uma ditadura militar. Ambos, porém, não hesitaram em encontrar meios de sobreviver à crise petrolífera mundial a partir de uma ótica nacionalista, sem se preocuparem com os diversos impactos sociais, turísticos e ambientais nas regiões.

A cidade no século XX se tornou assim projeto, âncora, e palco para a realização das ambições de estados neoliberais e indústrias globais. Mas ali também se manifestaram as ambições de consumidores, artistas, e trabalhadores tanto urbanos quanto rurais. O papel do urbano no fluxo global de produtos culturais, práticas de lazer e debates políticos fez com que indivíduos e grupos que buscavam assegurar o seu lugar e direitos na sociedade contemporânea recorressem ao espaço urbano para reivindicá-los. Em seu artigo, Letícia Falabella Leme (2021) examina a centralidade de núcleos urbanos no processo de circulação de pessoas e produtos que favoreceu o mercado global da arte nas primeiras décadas do século XX. Focando uma época de ascensão dos fluxos de produção e consumo de obras de artes, a autora analisa a popularização da pintora francesa e expoente da tradição cubista Marie Laurentin nos grandes centros urbanos da França, da Alemanha, dos Estados Unidos e do Brasil. Destacada por sua inserção na vanguarda cubista, ao lado de nomes como Picasso, Braques e Gleizes, como também por uma persistente caracterização feminina da sua produção, Laurentin valeu-se de uma intrincada rede de críticos de arte e mercadores de diferentes nacionalidades, que favoreceram o reconhecimento de suas obras e a inserção das mesmas no mercado internacional de arte. Foi a partir dessa estratégia que suas obras figuraram entre importantes exposições em museus e galerias de cidades cosmopolitas que se afirmavam como grandes consumidoras de arte, tais como Paris, Berlim, Nova York, São Paulo e Rio de Janeiro.

Igualmente importante é pensar as cidades consumidoras de arte de formas integradas – para utilizar o conceito de Sebastian Conrad (2016) – explorando a sincronia de fenômenos globais em diferentes espacialidades. Em “Músicos e Orquestras do Primeiro Cinema em Greve”, Michel Mesalira (2021) discute movimentos grevistas no Rio de Janeiro, São Paulo e Chicago que se manifestaram concomitantemente nas primeiras décadas do século XX. Ele mostra que esses eventos sincrônicos precisam ser situados no contexto global do surgimento e da popularização do cinema, quando músicos e orquestras se tornaram peças essenciais a essa experiência urbana de lazer e entretenimento, mas foram excluídos dos lucros e do prestígio que a indústria criara. As estratégias de resistência, os recorrentes conflitos com empresários e proprietários dos cinematógrafos e as organizações sindicais dos músicos são algumas questões exploradas por Mesalira para ressaltar as semelhanças e diferenças no desenrolar de eventos em cada cidade. No entanto, o que chama atenção são os indícios de que essas práticas, conflitos, e negociações não se restringiram apenas às cidades analisadas, mas ocorreram também em outros lugares no mesmo período, configurando um potencial objeto de estudo da História Urbana Global.

O uso do espaço urbano para reivindicações trabalhistas e de direitos econômicos por grupos adversamente afetados por tendências e forças globais é também tema do artigo de Maira Eveline Schmitz (2021), “Fotografia e espaço público visual”. Schmitz desenvolve sua análise a partir de uma discussão de fotografias publicadas em jornais do Rio Grande do Sul que retratam manifestações de agricultores da soja contra políticas tarifárias do governo brasileiro que, em 1980, visaram desincentivar a exportação da safra local para garantir a oferta nacional do produto. Ao verem sua participação no comércio global da soja restringida e sua margem de lucro negada, trabalhadores rurais ocuparam espaços públicos em cidades como Santa Rosa para demandarem o fim dessa política que classificaram de confisco. A transformação da cidade em espaço de protesto, como mostra Schmitz, se concretizou mais plenamente com a circulação de fotografias registrando esses eventos. As imagens de espaços urbanos invadidos por manifestantes rurais, de ruas ocupadas por máquinas e passeatas, ordenaram a sequência de eventos e deram significado político ao ato de protesto. Imagens de agricultores e trabalhadores rurais tomando a cidade com o intuito de desafiar o estado, reconfigurou ainda narrativas sobre a relação entre populações rurais e urbanas e estruturas de poder. As fotografias analisadas por Schmitz criaram um espaço e acontecimento visual público onde a ligação entre o macro e o micro, o global e o local se manifesta e se resolve. Assim como as imagens fotográficas de cidades esvaziadas pelo isolamento social imposto pela pandemia atual do COVID-19, essas imagens de espaços urbanos ocupados em protesto refletem a confluência de fatores e agentes históricos diversos que em e a partir de cidades animaram, incessantemente, sociedades humanas passadas e presentes.

O diálogo entre a História Urbana e a História Global, na configuração desse campo da História Urbana Global está, ainda, no seu início. Mas alguns temas, métodos de pesquisa e análise, e teorias já vêm se estabelecendo, reforçados pelo seu potencial de elucidar o passado humano e produzir narrativas mais inclusivas e completas. Estes seriam o enfoque na cidade como lente analítica refratora de forças históricas transnacionais e globais; a preocupação em descolonizar a história e desafiar a diferenciação entre norte e sul global; a atenção aos vetores multidirecionais e a variações nas escalas de análises, do global ao local e vice-versa; e a colaboração entre pesquisadores para assegurar um melhor acesso a recursos linguísticos, arquivísticos e acervos historiográficos (DANTAS, 2018). Oferecemos esse dossiê, portanto, como recurso para os pesquisadores interessados em aprofundar esse diálogo, cada vez mais necessário, de “pensar as cidades como objetos que são formados e, ao mesmo tempo, formadores de fenômenos históricos globais em larga escala” (GUHP, 2021).

Referências

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Mariana L. R. Dantas: Doutora. Associate professor, Ohio University, College of Arts and Sciences, History Department, Athens, OH, Estados Unidos.

João Júlio Gomes dos Santos Júnior: Doutor. Professor adjunto, Universidade Estadual do Ceará, Centro de Humanidades, Curso de História, Fortaleza, CE, Brasil.

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DANTAS, Mariana L. R.; SANTOS JÚNIOR, João Júlio Gomes; NIGHTINGALE, Carl H. A história urbana global: um chamado ao diálogo. Esboços. Florianópolis, v.29, n.47, jan. / abr. 2021. Acessar publicação original [IF]

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Histórias conectadas da Idade Média / Esboços / 2020

Histórias conectadas da idade média: abordagens globais antes de 1600

As últimas décadas do século XX foram marcadas por mudanças estruturais rápidas no cenário mundial. Seja pelas transformações geopolíticas provocadas com a descolonização da África e da Ásia (1960-1970) ou pelo fim da Guerra fria (1990), seja pelo avanço da globalização e da expansão do desenvolvimento tecnológico, uma demanda por histórias transnacionais emergiu enquanto fruto de um mundo cada vez mais interdependente. A partir da consolidação de associações econômicas, políticas e culturais, os limites impostos por visões de mundo nacionalistas e abordagens acadêmicas eurocêntricas trouxeram à tona provocações importantes sobre a necessidade de novas maneiras de interpretar e explicar as experiências históricas a partir do viés global.

Novas abordagens historiográficas surgiram dessa seara, que apesar de ter na década de 1990 o momento de constituição formal do campo, com institucionalização efetiva de associações (World History Association) e periódicos, encontrou o germe de sua essência na ousadia de enfoques historiográficos anteriores (BLOCH, 1930; BRAUDEL, 1949; MCNEILL, 1963). A chamada Global History aparece em diversas ramificações, as quais, ao se construírem enquanto abordagem historiográfica, colocam à prova os melhores meios para sua realização. Como afirmou Diego Olstein (2015), apesar das sobreposições historiográficas, essas múltiplas tendências à história global compartilham características comuns e estão todas dedicadas a pensar a história por meio do que se identifica como os 4 “Ces”: a conexão, a comparação, a conceituação e a contextualização.

Da história global à transnacional, as histórias conectadas estão dispostas a estabelecer abordagens sobre os cruzamentos históricos a partir da longa duração, da longa distância, da análise em múltipla escala e da transdisciplinaridade. É, justamente, nessa perspectiva que os debates em torno das conexões históricas pré-modernas se tornam necessários. Como já demonstrou Sanjay Subrahmanyam (2017), há tradições antigas e medievais de escrita da história que analisaram outras sociedades, privilegiando o estudo das interações em múltiplos espaços e tempos, bem como em diversas escalas. Temos muito a aprender com essas narrativas, sobretudo, o modo de olhar o outro abstraído do horizonte de expectativas de conceituações modernas, como aquelas sentenciadas pelos ideais oitocentistas de “povo” e “nação”.

Além disso, diante de um momento histórico que encara com pessimismo o legado eurocêntrico do Ocidente, estudos que abordam a perspectiva das Histórias conectadas da Idade Média encontram espaço auspicioso para seu desenvolvimento por algumas razões. A primeira delas está em qualificar essa temporalidade, tradicionalmente atribuída à Europa ocidental, a partir do estudo de comunidades conectadas em escala suprarregional e supracontinental, incluindo abordagens em perspectiva eurasiana e africana. Essas novas abordagens buscam demonstrar a prosperidade de análises sobre a movimentação de pessoas, a circulação de ideias e materiais, bem como as intersecções de procedimentos de governança e regulação no enfrentamento de conflitos sociais e intempéries naturais comuns às diversas comunidades anteriores às grandes navegações atlânticas.

A periodização da Idade Média surge como uma categoria temporal exclusivamente europeia, de origem seiscentista, cimentada em referenciais de linearidade e progressão evolutiva da história que explicavam a consolidação atlântica das monarquias cristãs europeias (BOVO, 2017). Como afirmaram Katheleen Davis e Michael Puett (2015, p. 1), trata-se de “um processo que, em grande medida, possibilitou a ideia da Europa como uma entidade unificada e, ao mesmo tempo, teve o efeito de excluir a Europa Oriental e áreas não europeias da progressão antiguidade-modernidade”. Nesse sentido, as abordagens globais da Idade Média poderiam recair inconvenientemente na “narrativa egocêntrica do tempo histórico europeu”, reafirmando-o.

Davis e Puett ainda alertam para um risco maior de tornar a periodização tripartite e/ou quadripartite da história europeia hegemônica, ignorando sua origem e os usos interpostos a ela. Na historiografia ocidental contemporânea, a ideia de uma Idade Média dominada pela superstição, pela irracionalidade e por uma estrutura social estática tornou-se base para interpretação de sujeitos e espaços colonizados pelos territórios europeus. As colônias atlânticas e as africanas ganharam adjetivos “medievais” que justificaram a atuação dos europeus em seus territórios chamados “bárbaros e selvagens”. Dessa maneira, essas características temporalizadas atribuídas à Idade Média tornaram-se mecanismos de identificação e colonização de espaços e sujeitos na chamada modernidade, ajudando até hoje a Europa e outras potências políticas à subscrever as histórias dos seus nacionalismos e do seu pretendido domínio global.

Com o fortalecimento dos discursos ultranacionalistas atuais, o “ser” medieval ainda é um recurso de identificação usado para dar apoio aos processos de extração de riquezas e destruição de ecossistemas socioambientais (GEARY, 2005). Portanto, um aspecto negativo de buscar uma Idade Média global seria o de corroborar com essa lógica narrativa. Justamente, no anseio de se distanciar dessa narrativa imperial europeia, os medievalistas, que há muito reconhecem o problema da petrificação das periodizações, vêm propondo análises que não só redefiniram o esquema de organização da história medieval, como apresentaram, pela abordagem das conexões de povos, o complexo dinamismo das sociedades anteriores aos anos 1600 (LIEBERMAN, 2003; BOUCHERON; DELALANDE, 2015).

Os críticos da história global não estão errados ao sugerir que ela corre o risco de se tornar uma nova máscara para a história imperial, visto a tradição epistemológica ocidental apoiar-se em chaves de leitura binárias e dicotômicas, tais como: racional- -supersticioso, centro-periferia, progresso-atraso, entre outras. De acordo com Richard Drayton e David Motadel (2018, p. 14), “o legado da maneira como o mundo foi integrado depois de 1600, por e em resposta ao poder imperial e cultural europeu, é um eurocentrismo cognitivo incorporado em nossos métodos”.

Nesse sentido, gostaríamos de enfatizar que três elementos devem ser destacados na busca por se fazer histórias conectadas da Idade Média: primeiramente, quaisquer novos empreendimentos compartilhados exigirão um esforço contínuo para superar a barreira das tradições epistemológicas cartesianas. O desafio para os historiadores é encontrar novos tipos de padrões, métodos, julgamentos de valor e, mais importante, conceitos na experiência histórica e na autoconsciência histórica desses continentes integrados. Em vez de confiar exclusivamente em estruturas interpretativas emprestadas de estudiosos de outros períodos históricos, sentimos que a tarefa premente é analisar como as conexões eurasianas e africanas foram experimentadas na Idade Média, buscando histórias medievais conectadas que façam sentido em seus próprios termos.

Atentos a isso, o presente dossiê reúne um conjunto de artigos que possuem como objeto de reflexão a abordagem das histórias conectadas. Nessa direção, o artigo “Perspectivas da história econômica global da Baixa Idade Média”, de Felipe Mendes Erra (2020) tem por objetivo apresentar um modelo teórico capaz de fornecer uma abordagem global da Baixa Idade Média. Através da análise de caso das companhias florentinas de 1310-1340, ele busca respostas ao emaranhado de conexões econômicas de longo alcance geográfico presente num mundo essencialmente fragmentado como o da Baixa Idade Média mediterrânica.

O autor apresenta ainda uma análise historiográfica muito pertinente sobre limites e desafios de modelos teóricos presentes na história econômica, sobretudo por se preocupar em manter distante a perspectiva da história global que procura identificar, em um único elemento da vida socioeconômica, o fio condutor da investigação. Ele avança significativamente no desenvolvimento de uma abordagem própria, inspirada pela historiografia de Fernand Braudel e Immanuel Wallerstein. Ao questionar a maneira adequada de fazer história global da Idade Média, Felipe Mendes Erra busca fugir das armadilhas representadas tanto pelas teorias do sistema-mundo de Frank e Gills (1996) como pela corrente teórica da globalização. Sua reflexão conduz o medievalista para dentro da história global, destacando a necessidade de produzir uma teoria econômica capaz de explicar a formação de conexões comerciais e a interação de mercados em um universo economicamente fragmentado, como era o das urbes italianas.

Valorizar a abordagem em múltiplas escalas é outro elemento a ser destacado por aqueles que buscam fazer história conectada de temporalidades recuadas (BOVO; DEGAN, 2017). Trabalhos recentes sobre a metodologia de histórias comparativas e conectadas apontam para uma abordagem na qual é preciso prestar muita atenção às peculiaridades e conexões analisadas, sejam religiosas, políticas, econômicas, intelectuais (SANTOS JÚNIOR; SOCHACZEWSKI, 2017) e também intertextuais dos testemunhos materiais e documentais. Uma vez que as conexões e as diferenças existentes pareçam suficientemente claras, as comparações transculturais em pequena escala de fenômenos relacionados ou similares oferecem o caminho mais promissor, antes que qualquer visão abrangente possa ser explorada.

O caminho das comparações e conexões transculturais entre diferentes testemunhos textuais e seus usos é demonstrado em outros dois artigos do dossiê. Vicente Dobroruka, no artigo “Ibn Fadlan and a by-passed remark on an imaginary geographical topos: some observations on the decreasing factual credibility regarding the Caucasus area of the silk road”, ao estabelecer conexões entre o imaginário e a tradição textual de viajantes árabes e persas na “Rota da Seda”, evidencia como o viajante Ibn Fadlan e outros partilharam uma herança comum de referenciais geográficos, míticos e, sobretudo, religiosos (DOBRORUKA, 2020). Essa comparação transcultural pode ser mais bem assinalada na investigação da herança comum compartilhada por esses testemunhos, que parece interconectada inclusive na caracterização dos seus inimigos, como os chamados bárbaros Gogue/Magogue.

A presença desses sincretismos religiosos mítico-apocalípticos descreve um processo de duração muito longa, que envolveu toda a Eurásia entre os séculos X-XIII. Nesse sentido, o relato que Ibn Fadlan deixou é bem diferente do que foi chamado de “história universal” entre os autores da Antiguidade ou bizantinos – ele pode ser visto como parte de uma extensa tradição narrativa, concebendo um contexto global de regiões, climas e povos bastante variados.

O artigo “A coleção de Tours de Atas do Concílio de Éfeso (431): um testemunho carolíngio de ressignificação doutrinária e circulação de textos no Mediterrâneo Tardo Antigo”, de Robson Murilo Grando Della Torre, também se apresenta como um exemplo bem-sucedido da abordagem conectada da Idade Média. A longa e difusa circulação do manuscrito de Tours da coleção de Atas do Concílio de Éfeso (431) é uma síntese de experiências históricas distintas, que numa longa duração (séculos V ao VIII), marcados pela multiplicidade de leituras sobre esse passado da polêmica cristológica, restaura a conectividade entre diferentes espaços do Mediterrâneo Tardo Antigo e Alto Medieval (DELLA TORRE, 2020).

A transmissão mediterrânica dessa coleção de atas demonstra a materialidade da produção de memórias e de concepções da ortodoxia cristã que diferentes grupos projetaram sobre o passado polêmico de Cirilo de Alexandria e Nestório de Constantinopla (412-431), com vistas a defender posicionamentos doutrinários de seu presente. Assim, é preciso recuar até o século V e se deslocar até a Ásia Menor e o Egito para compreender os eventos e posições doutrinárias evocados pelo conteúdo textual da coleção de Tours. Ao mesmo tempo, não se deve esquecer a realidade histórica da Gália carolíngia, onde foram mobilizadas as apropriações e ressignificações desse material.

Para finalizar, como último elemento dessa busca por histórias conectadas da Idade Média, é preciso ainda considerar que a construção de tais abordagens não envolve apenas questões de apuro metodológico. Aqui aparece um ponto importante, talvez o que exija mais cautela, visto que, ao se trabalhar com histórias conectadas da Idade Média, demandas de identidade ainda estão ativas política e ideologicamente. É importante deixar claro que o próprio conceito de “Ocidente”, usado aqui na abertura do texto, descreve não apenas uma área geográfica que corresponde vagamente à Europa (ocidental) e ao mundo atlântico, mas uma comunidade de sentidos que subscreve certos valores, uma tradição ideologicamente comprometida com ideais civilizatórios, que quer abranger o tempo histórico de Platão à OTAN.

A narrativa-mestra de uma “ascensão do Ocidente”, seja ela política, intelectual, religiosa ou econômica, tem seu berço na modernidade. Ela considera os meios de se fazer história e as produções derivadas desse ofício com fins ideologicamente comprometidos. Estarmos cientes desses usos, e torná-los visíveis para o público é a tarefa primordial para quem busca produzir histórias conectadas de temporalidades recuadas.

Referências

BLOCH, Marc. Comparaison. Bulletin du Centre Internacional de Synthèse, Paris, n. 9, p. 17-35, 1930.

BOUCHERON, Patrick; DELALANDE, Nicolas. Por uma história-mundo. Belo Horizonte: Autêntica, 2015.

BOVO, Cláudia Regina. El tempo em cuestión: ubicar la Edad Media em la actualidad. Revista Chilena de Estudios Medievales, Santiago, n. 11, p. 134-155, enero/junio 2017. Disponível em: http://revistas.ugm.cl/index.php/rcem/article/ view/120. Acesso em: 15 nov. 2019.

BOVO, Cláudia Regina; DEGAN, Alex. As temporalidades recuadas e sua contribuição para a aprendizagem histórica: o espaço como fonte para a história antiga e medieval. Revista História Hoje, São Paulo, v. 6, n. 12, p. 55-76, 2017.

BRAUDEL, Fernand. La Méditerranée et le monde méditerranéen à l’époque de Philippe II. Paris: A. Colin, 1949.

DAVIS, Kathleen; PUETT, Michael. Periodization and “The Medieval Globe”: A Conversation. The Medieval Globe, v. 2, n. 1, p. 1-14, 2015. Disponível em: https:// scholarworks.wmich.edu/tmg/vol2/iss1/3. Acesso em: 21 nov. 2019.

DELLA TORRE, Robson Murilo Grando. A coleção de Tours de Atas do Concílio de Éfeso (431): um testemunho carolíngio de ressignificação doutrinária e circulação de textos no mediterrâneo Tardo Antigo. Esboços, Florianópolis, v. 27, n. 44, p. 59-77, jan./abr. 2020.

DOBRORUKA, Vicente. Ibn Fadlan and a by-passed remark on an imaginary geographical topos: some observations on the decreasing factual credibility regarding the Caucasus area of the silk road. Esboços, Florianópolis, v. 27, n. 44, p. 38-58, jan./abr. 2020.

[DR]AYTON, Richard; MOTADEL, David. Discussion: the futures of global history. Journal of global History, v. 13, p. 1-21, 2018. Disponível em: https://www.cambridge.org/core/services/aop-cambridge-core/content/ view/36C53116D551E0B47E42865EC8DE0C41/S1740022817000262a.pdf/ discussion_the_futures_of_global_history.pdf. Acesso em: 30 nov. 2019.

ERRA, Felipe Mendes. Perspectivas da história econômica global da baixa Idade Média. Esboços, Florianópolis, v. 27, n. 44, p. 17-37, jan./abr. 2020.

FRANK, Andre Gunder; GILLS, Barry K. (ed.). The World System. London: Routledge, 1996.

GEARY, Patrick. O mito das nações: a invenção do nacionalismo. São Paulo: Conrad livros, 2005.

LIEBERMAN, Victor. Strange Parallels: Southeast Asia in Global Context, c. 800- 1830. Cambridge: Cambridge University Press, 2003. 2 v.

MCNEILL, William Hardy. The Rise of the West: a History of the Human Community, with a Retrospective Essay. Chicago: University of Chicago Press, 1963.

OLSTEIN, Diego. Thinking History Globally. Londres: Palgrave Macmillan, 2015.

SANTOS JÚNIOR, João Júlio Gomes dos; SOCHACZEWSKI, Monique. História global: um empreendimento intelectual em curso. Tempo, Niterói, v. 23, n. 3, p. 483- 502, dez. 2017.

SUBRAHMANYAM, Sanjay. Em busca das origens da história global: aula inaugural proferida no Collège de France em 28 de novembro de 2013. Estudos históricos, Rio Janeiro, v. 30, n. 60, p. 219-240, 2017.

Cláudia Regina Bovo – Organizadora do dossiê “Histórias conectadas da Idade Média”. Doutora. Professora Adjunta, Universidade Federal do Triângulo Mineiro, Instituto de Educação, Letras, Artes, Ciências Humanas e Sociais, Departamento de História, Uberaba, MG, Brasil  https://orcid.org/0000-0002-4201-713X  E-mail: [email protected]

Adrien Bayard – Doutor. Maître de Conférence, Université d’Artois, Centre de Recherche et d’Études – Histoire et Sociétés, Arras, France https://orcid.org/0000-0002-0886-0799  E-mail: [email protected]

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História digital e global: novos horizontes para a investigação histórica / Esboços / 2020

Nunca fomos tão úteis

Desde o início deste ano, 2020, agravando-se nas últimas semanas, vivemos uma situação única e inesperada. A emergência do novo coronavírus, primeiro na China e, depois, ao redor do mundo, escancarou que nossa existência é marcada por ritmos que produzem sincronias e dessincronias em escala global, seja pela uniformização das experiências frente ao cotidiano de quarentena, no qual o digital se torna quase o único meio de comunicação e existência, seja por silenciamentos, mortes e apagamentos de agentes sociais menos favorecidos e marginalizados. Ferramentas e aplicativos de home office, opções de entretenimento, boa parte do contato familiar e, mais importante ainda para milhares de historiadores e historiadoras ao redor do mundo que tiveram a sorte de não perder seus empregos devido à suspensão das aulas, o ensino também se tornou online, conjurando o fantasma – simultaneamente receio e possibilidade – do ensino à distância para nosso cotidiano. Essa é uma experiência, em suma, que atravessaremos ao mesmo tempo sozinhos e conectados.

Em matéria recente publicada no El País, o filósofo sul-coreano Byung-Chul Han (2020), sugere a ideia do vírus não como promotor de novidades, mas como uma espécie de catalizador de todas as mudanças que já vinham acontecendo globalmente na dinâmica do capitalismo tardio. A automação acelerada pela inteligência artificial e a “uberização” vinham produzindo alterações profundas no sentido da precarização e, quem sabe, o fim de grande parte dos trabalhos formais. Também podemos falar em transformações profundas na dinâmica política das sociedades gerada pelas novas formas de militância nas e através das redes sociais, que têm nas chamadas fake news, no adensamento do discurso do ódio e na manipulação eleitoral via algorítmica as suas facetas mais visíveis. A perda de legitimidade da democracia e das formas políticas consolidadas no ocidente desde a revolução francesa está também relacionada com o descrédito na ciência e no conhecimento verificável empiricamente. Também podemos falar em mudanças nas formas de sociabilidade, nas relações amorosas, dentre tantas outras esferas.

Estas linhas de força, na visão de Byung-Chul Han (2020), tendem apenas a se agravar durante a quarentena. O exemplo das aulas à distância neste caso é bastante elucidativo. Será mesmo que os professores, as salas e os alunos voltarão à certa “normalidade” após o surto pandêmico? Serão eles, após a pandemia, os mesmos professores, as mesmas salas de aula e os mesmos alunos? Não seria forçado supor que provavelmente menos espaços voltarão a ser físicos; teremos então menos salas de aula reais e mais salas virtuais num eventual retorno. O mesmo se pode dizer das relações sociais e amorosas, do supermercado, do trabalho presencialmente orientado, no geral. Mesmo que haja uma volta a certo estado de “normalidade”, estes hábitos produzidos em simbiose por homens e máquinas algorítmicas deixarão marcas profundas em nossa estrutura psíquica, moldando formas de atenção, desejos, culpas, impulsos, sentimentos e ressentimentos. “O vírus isola e individualiza”, pontua o filósofo sul-coreano, em debate franco com o otimismo de Slavoj Žižek que nutre a esperança de uma revisão profunda no capitalismo, ou até em uma “revolução”, diante da pandemia.

Assim, mesmo concebido num momento em que a realidade pandêmica habitava apenas as distopias mais audazes da ficção científica contemporânea, os temas trazidos à tona por este dossiê procuram dar conta, de forma inovadora, da transformação em curso, atentando particularmente para as interações entre a História Global e as Humanidades Digitais. Lidos no conjunto, os trabalhos trazem reflexões que nos ajudam a compreender melhor o que pode fazer a história frente a essas transformações, de maneira que, com o passar dos meses, desde a chamada para os trabalhos, as submissões, o processo de avaliação por pares e o cuidadoso trabalho editorial, essa empreitada tomou uma relevância ainda maior.

RUMO A UM NOVO INVENTÁRIO DE APRENDIZAGENS E PRÁTICAS

A reverberação da virada digital e da aceleração das transformações, na sociedade e no mundo da pesquisa, perpassa vários textos neste volume da Esboços. Esses desdobramentos e suas consequências para o ofício do historiador são justamente o tema abordado pelo artigo de Alexandre Fortes e Leandro Guimaraes Marques Alvim (2020). Os autores apresentam uma série de elementos que, com o desenvolvimento tecnológico, interferem no modo fazemos história. Fortes e Alvim dão destaque para a popularização de metodologias advindas do campo da Inteligência Artificial e as possibilidades que trazem para a oficina da história, desafiada pela profusão de dados digitais. O texto se estrutura com argumentos de longa tradição da teoria e a metodologia da história e os problemas relacionados à crítica das fontes. Em diálogo com debates que precedem mesmo o surgimento e a popularização da Internet, como as noções de evidências diretas e indiretas em Marc Bloch ou o paradigma indiciário de Carlo Ginzburg, os autores iluminam a relação entre a “classificação racional de informações”, inerente ao trabalho dos historiadores, e o “processamento de linguagem natural (ou social)” que os cientistas da computação desenvolvem desde meados do século passado. A última seção do texto traz uma apresentação mais detalhada de técnicas como a Identificação de Autoria; a Modelagem de Tópicos e Extração da Informação em projeto de história digital.

A utilização de técnicas como estas, também ditas de “leitura distanciada”, tem se popularizado com o aumento do volume e da velocidade com que os dados digitais chegam ao desktop dos historiadores. Bruno Grigoletti Laitano (2020) versa sobre essa velocidade em um texto de ritmo igualmente ligeiro, com reflexões de profunda relevância para a epistemologia da história. No tom de uma conversa amistosa, Laitano traz reflexões oriundas de suas experiências e leituras em um momento de formação que se dá propriamente neste período de transição da cultura alfabética/ impressa para a cultura digital. O autor coteja suas impressões de jovem historiador ao que intelectuais da “velha guarda”, como Anthony Grafton e Emmanuel Ladurie, vêm considerando sobre o mundo digital, numa perspectiva crítica do digital. A sensação de “assintonia” muitas vezes sentida entre a disciplina e o digital por aquela geração de historiadores é problematizada através do conceito de “atualismo”, que o autor busca em Valdei Lopes de Araujo e Mateus Henrique de Faria Pereira.

A prosa de Laitano segue neste rumo, discutindo as disrupções tecnológicas e as fricções entre o digital e a disciplina histórica com ponderações importantes sobre a presença dos historiadores em iniciativas na Internet e seu significado social em um período em que, para variar, as humanidades estão em crise. O tema é discutido mais a fundo por Miguel Barboza Castro (2020), que vai abordar os usos do passado sensível em projetos que ganham vida no ambiente digital, como o “Brasil Nunca Mais Digital” e o “eva.stories”. Castro evoca as discussões da história pública, resgatando essa ligação íntima entre o digital e o público. O autor reflete sobre a intervenção pública dos historiadores a respeito da memória de eventos traumáticos, como a Ditadura Civil-Militar no Brasil e o Holocausto, pensando o ambiente digital como terreno para reflexão, mas também espaço para um “exercício de empatia”. O texto nos convida a pensar sobre a expressividade da mídia digital na representação do passado, e projetarmos como, no futuro, contaremos as histórias de hoje, tão mediadas por este digital.

Diante da escalada dos negacionismos que vivemos hoje, o texto de Castro é uma janela para respirarmos e pensarmos, juntos e em público, como nós historiadores podemos atuar na era digital para garantir o respeito à memória, a busca pela verdade e a justiça social. Nessa mesma direção, o texto de Vagner Silva Ramos Filho (2020) nos convida a olhar para a memória do cangaço brasileiro. O tema do passado sensível e de como vivemos o boom de memória nesses tempos digitais é ulteriormente explorado por Ramos Filho, em uma balada virtual pela memória do cangaço que se detém, mais demoradamente, sobre um elemento específico: a fotografia. O autor discute papel da fotografia como meio de agenciamento da memória pública e como as imagens do cangaço em arquivos públicos, pessoais e digitais são uma expressão disso. Ao refletir sobre a fotografia no ambiente digital, Ramos Filho aponta para a necessidade de observarmos as especificidades desse meio, chamando atenção para a “diferenciação pouco considerada entre a foto, a foto da foto, ou até a foto da foto digitalizada”.

Sempre tratando da especificidade do ambiente digital, e de apresentar o passado neste cenário, Pedro Toniazzo Terres e Lucas Tubino Piantá (2020) discutem a Wikipédia enquanto um caso exemplar de como o conhecimento vem sendo tratado no século XXI. Os autores dão especial atenção para as histórias digitais que ganham vida em uma das maiores plataformas coletivas globais de todos os tempos. Preocupados com o modo como o conteúdo de história se coloca no ambiente multilinguístico da plataforma, Terres e Piantá analisam uma seleção de artigos em suas versões anglófona e lusófona, fazendo um escrutínio das disputas e interesses que concorrem a uma audiência potencialmente global. A análise toma os verbetes como objetos de estudo da historiografia e expõe as batalhas simbólicas que se estabelecem na construção da enciclopédia.

Outro objeto que nos remete aos públicos globais são os museus digitais, tão comentados como destinos virtuais durante o período de isolamento e lockdown experimentado em todo o mundo em face à pandemia do Covid-19. O texto de Alexandros Teneketzis (2020) vai tratar de como a História da Arte tem explorado os recursos digitais, como as tecnologias semânticas, realidade aumentada computação onipresente em museografia, desde o armazenamento, gerenciamento das obras de arte até a apresentação ao público. O autor constrói um estudo de caso, observando como instituições culturais gregas, mais especificamente, têm feito usos dessas tecnologias. O estudo chama atenção para como o componente digital pode atuar como um condicionador da experiência museográfica, na produção e consumo das exposições, como quando determinados conteúdos são deslocados dos corredores dos museus para outros espaços, como a casa de um visitante, ou uma sala de aula.

Na esteira sugerida por Teneketzis, sobre o potencial do digital para a abordagem da cultura, do patrimônio e da educação, outro texto que nos leva a refletir detidamente sobre o digital e suas interfaces com o ensino é o de Renato Pinheiro da Costa e Leonardo Zenha Cordeiro (2020). Discutindo a formação de professores no contexto amazônico, os autores nos apontam que “nem tudo são flores” nesse campo. É preciso mitigar, desnaturalizar e contextualizar a tecnologia. O texto problematiza vários aspectos da integração das tecnologias digitais à formação de professores e as expectativas em torno do digital. Em que pesem as muitas vantagens do advento digital para a educação, Costa e Cordeiro pontuam desigualdades históricas em termos de desenvolvimento e integração na Amazônia (mas não só) que permanecem e se apresentam como entraves para o acesso universal e de qualidade a equipamentos, conexão à rede, mas também, formação. Além desta debilidade em termos de infraestrutura, outra questão que se coloca, igualmente dependente de investimentos e políticas públicas, é justamente a carência de ofertas de formação.

Por fim, o tema dessa dicotomia do acesso e da suposta democratização que a Internet supõe, é também explorado, por outro viés, no texto de Valérie Schafer (2020). A autora discute a contradição entre as reflexões de historiadores da Internet sobre essa tecnologia, considerada aprioristicamente global e capaz de cruzar fronteiras, com abordagens que, por enfocar mais casos de estudos nacionais e locais, contribuem para uma perspectiva histórica mais “glocal” do que global. O paradoxo, segundo Schafer, se dá pela necessidade de identificar as trajetórias diferentes da tecnologia em distintos contextos nacionais, sociais, políticos e econômicos. Para a historiadora, essa tendência pode ser uma resposta para uma história da Internet que por muito tempo foi predominantemente marcada pelo enfoque nos Estados Unidos e que, talvez, pela inclusão de outros contextos possa, finalmente, ganhar novos tons, que permitam historicizar a Internet de uma forma plural, além do Vale do Silício.

No seu conjunto, os textos apresentados aqui trazem alguns temas que os atravessam, demonstrando preocupações e problemas mais amplos na relação entre a historiografia e as tecnologias digitais. O primeiro é o conjunto de habilidades que historiadoras e historiadores têm de aprender para navegar esta nova situação, como demonstrado por Fortes e Alvim (2020). Entretanto, o tema se relaciona a outra questão, explicitada na contribuição Laitano (2020), como vimos acima, qual seja, os impactos do “digital” para a figuração do que é ser historiador na atualidade. Durante muito tempo, estivemos acostumados a pensar na história como um métier, um processo que, apesar de metodologicamente controlado, é subjetivo. As tecnologias digitais trazem outro ritmo de pesquisa e divulgação, mais acelerado, mas também levantam questões que antes não ocupavam os historiadores, como o caráter privado das ferramentas utilizadas e das fontes que servirão para a pesquisa histórica futura. As tecnologias digitais são adições bem-vindas à oficina historiográfica, mas não deixam de desafiar sua própria constituição.

Pode-se acrescentar, também, que o impacto das novas tecnologias ressalta o lugar problemático do “digital” no conjunto da historiografia. Seriam essas novas ferramentas e métodos exclusividades do historiador digital? Ou são habilidades que podem ser facultadas a todos os profissionais da historiografia? Aqui, o que está em jogo não é apenas se a história digital é uma subdisciplina da historiografia ou se toda história, como já foi dito, se tornará história digital, mas qual o lugar da especialização quando o digital é uma condição que ultrapassa a fronteira entre os saberes e os transforma. Além disso, deve-se considerar qual o papel do conhecimento especializado quando se prevê que os historiadores trabalharão em redes colaborativas formadas pelos mais diversos profissionais, como programadores e cientistas da computação, designers e webdesigners, arquivistas e analistas de sistemas, comunicadores e influenciadores digitais, para não mencionar especialistas em políticas públicas e administradores nos setores público e privado.

Junto a isso, os limites do “histórico”, como evidenciado em diversas contribuições nesta edição parecem cada vez mais difíceis de serem contidos na disciplina histórica. Nos casos estudados pelos autores – a difusão do conhecimento histórico na Wikipédia e a circulação online das imagens referentes ao cangaço e à morte de seu mais famoso representante, Lampião –, a memória cultural é necessariamente multiplataforma, ao mesmo tempo que é domínio de outros agentes que não os historiadores de formação. Isso também é perceptível na contribuição de Alexandros Tenektzis (2020), que enfoca especificamente o impacto das mídias digitais para a história da arte.

Outra questão ainda não respondida, mas esboçada no conjunto dos textos, em especial é se podemos considerar que as tecnologias digitais contribuem para a formação de um meio historiográfico global. Essa questão deve considerar ao mesmo tempo a influência das novas tecnologias, as quais facilitam o contato entre pesquisadores em diversos lugares do mundo, e a manutenção ou agravamento das desigualdades de acesso que dificultam essa mesma comunicação. As histórias futuras da internet e as histórias futuras escritas com auxílio da internet, como as diversas abordagens da história digital, necessitarão explicitar os laços mais amplos que o digital como objeto e como método tem com uma história que é cada vez mais global. Ainda que o desenvolvimento da computação e da internet tenham sido feitos em contextos nacionais, seus desdobramentos são ocasião privilegiada para compreender que o global não é, como já argumentou Sebastian Conrad (2016), apenas a soma de histórias locais, mas um encaixe complexo no qual os elementos se influenciam reciprocamente. Esta mirada estrutural para o global tem um de seus pontos de ancoragem no digital, lançando-lhe um olhar sobre o passado – afinal, a digitalização de fontes em arquivos nacionais diversos não é uma das principais facilidades concedidas pela digitalização para os historiadores? –, mas também impondo desafios para o futuro: como garantir que essa vitalidade e aproximação continuem, especialmente no contexto de forte ataque às humanidades e fechamento da internet em plataformas proprietárias, trazendo dúvidas sobre a conservação dos registros que atualmente produzimos com tamanha abundância. Em outras palavras, em que medida o digital nos aproxima efetivamente ou nos hierarquiza num meio acadêmico globalmente competitivo?

HISTORICIZAR IMPORTA

Muitas perguntas permanecem abertas e, a história, enquanto disciplina, talvez seja a que mais tomou para si o desafio de pensar as transformações nas sociedades e, para isso, projeta grande importância no estatuto da evidência, do documento histórico. As mudanças que observamos nos gestos e ferramentas dos sujeitos envolvidos na escrita da história também estão sendo historicizadas e nos ajudarão, pelo menos, a começar a responder as perguntas que se multiplicam nesses tempos incertos. A produção técnica e tecnológica, aliás, sempre teve um papel fundamental nesse sentido gerador de evidências, pois tem uma condição inexorável de marcador temporal, testemunha de uma passagem do que deixou de ser para o que então é. Os historiadores sempre estiveram atentos, portanto, à passagem e transformações das mídias, seja na disseminação do impresso, na prevalência da imagem impressa reinventada na técnica fotográfica, do registro sonoro gravado ou do seu transcurso no espaço por ondas eletromagnéticas.

O desenvolvimento e surgimento de novas tecnologias da memória, porém, não afeta apenas a produção dos registros das atividades humanas. Essas mudanças interferem também, e de forma profunda, no modo como se dá o consumo destes registros, inclusive por nós historiadores. Do mesmo modo, a história que produzimos e sua recepção encontram outras expressões. A história pública, que também interpela a leitura deste dossiê e ganha outras formas no ambiente digital, é um exemplo disso. Continuamos a escrever para os nossos pares, de certo, mas, paulatinamente, os vários públicos e formas de representar o passado e disseminar o conhecimento histórico nos convidam a fazer história com essas diferentes recepções, sujeitos e ferramentas em mente. A condição técnica tem, historicamente, um papel central nisso, como deu provas a revolução desencadeada pela prensa de tipos móveis de Johannes Gutenberg. A particularidade do momento que vivemos hoje, porém, é o imediatismo e o potencial global que a rede mundial dos computadores traz consigo, tornando esta perturbação mais explícita e mais rapidamente compartilhada e debatida na nossa comunidade de práticas.

Os textos aqui reunidos podem ser considerados um snapshot das práticas, das inquietações e dos objetos que emergem dessas transformações e incertezas, numa perspectiva global. Os trabalhos discutidos neste dossiê provam de que a digitalização veio para ficar e condicionam nosso fazer. Num contexto cada vez mais frenético de produção de registros por meio dessas mídias aqui citadas, e de tantas outras, os historiadores e os arquivistas se consolidaram como profissão frente ao ato de escolher o que deve ser guardado e porquê, depois que as coisas perdem o sentido para as quais foram originalmente concebidas. Os vestígios devem ser guardados porque contam histórias.

Essas questões se tornam mais relevantes durante a atual pandemia, quando percebemos em nossa vivência diária o impacto de um mundo em transformação, ao mesmo tempo, como já dito aqui, mais global e mais digital. Embora seja ainda incerto que memória será construída do atual momento, assim como as histórias que serão escritas sobre ele, resta a certeza que, quando voltamos às ruas, aos arquivos e às salas de aula, as contribuições publicadas aqui e as reflexões propostas sobre o atual estado da prática historiográfica feito por seus autores serão parte do repertório que os historiadores terão para construir sua prática futura.

No meio de uma sensível crise das humanidades, parece haver uma demasiada hesitação dos seus próprios sujeitos para afirmar que ainda somos úteis ao mundo. Talvez a resposta mais contundente nos apareça ao olharmos para frente, e não para trás, já que a história segue sendo a ciência do tempo, do mundo em transformação. Olhando por esse ângulo, à luz dos textos aqui apresentados e do esforço dos organizadores e comissão editorial, podemos afirmar: nunca fomos tão úteis.

Referências

CASTRO, Miguel Barboza. Usos do passado sensível no ambiente digital: o “Brasil: Nunca Mais Digital” e o projeto “eva.stories”. Esboços, Florianópolis, v. 27, n. 45, p. 249-263, maio/ago. 2020.

CONRAD, Sebastian. What Is Global History? Princeton: Princeton University Press, 2016.

CORDEIRO, Leonardo Zenha; COSTA, Renato Pinheiro da. Problematizações das tecnologias digitais na formação de professor de história no contexto amazônico. Esboços, Florianópolis, v. 27, n. 45, p. 228-248, maio/ago. 2020.

FORTES, Alexandre; ALVIM, Leandro Guimarães Marques. Evidências, códigos e classificações: o ofício do historiador e o mundo digital. Esboços, Florianópolis, v. 27, n. 44, p. 207-227, maio/ago. 2020.

HAN, Byung-Chul. O coronavírus de hoje e o mundo de amanhã, segundo o filósofo Byung Chul-Han. El País Brasil, 22 de março de 2020. Disponível em: https:// brasil.elpais.com/ideas/2020-03-22/o-coronavirus-de-hoje-e-o-mundo-de-amanhasegundo-o-filosofo-byung-chul-han.html. Acessado em: 29 abr. 2020.

LAITANO, Bruno Grigoletti. (Con)figurações do historiador em um tempo marcado pela disrupção tecnológica. Esboços, Florianópolis, v. 27, n. 45, p. 170-186, maio/ago. 2020.

RAMOS FILHO, Vagner Silva. Imagens de um passado sensível: formas de memória do cangaço em arquivos públicos, pessoais e digitais. Esboços, Florianópolis, v. 27, n. 45, p. 306-328, maio/ago. 2020.

SCHAFER, Valérie. Global Technologies, Glocal Approach: A False Paradox. Esboços, Florianópolis, v. 27, n. 45, p. 286-305, maio/ago. 2020.

TENEKETZIS, Alexandros. Exploring the Emerging Digital Scene in Art History and Museum Practice. Esboços, Florianópolis, v. 27, n. 45, p. 187-206, maio/ago. 2020.

TERRES, Pedro Toniazzo; PIANTÁ Lucas Tubino. Wikipédia: públicos globais, histórias digitais. Esboços, Florianópolis, v. 27, n. 45, p. 264-285, maio/ago. 2020.

Anita Lucchesi – Mestre. Doutoranda, University of Luxembourg, Luxembourg Centre for Contemporary and Digital History, Esch-sur-alzette, Luxembourg. Organizadora do dossiê História digital e global: novos horizontes para a investigação histórica https://orcid.org/0000-0002-8523-111X   E-mail: [email protected]

Pedro Telles da Silveira – Doutor. Pesquisador autônomo, Porto Alegre, RS, Brasil. Organizador do dossiê História digital e global: novos horizontes para a investigação histórica  https://orcid.org/0000-0001-7576-5241  E-mail: [email protected]

Thiago Lima Nicodemo – Doutor. Professor adjunto, Universidade Estadual de Campinas, Instituto de Filosofia e Ciências Humanas, Departamento de História, Campinas, SP, Brasil. Organizador do dossiê História digital e global: novos horizontes para a investigação histórica  https://orcid.org/0000-0002-1588-0683  E-mail: [email protected]

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Virada global: tensões, limites e perspectivas / Esboços / 2019

A juventude, abertura e multiplicidade da história global são topoi recorrentes nas apresentações do campo, assim como as ressalvas diante do risco de que se trate apenas de mais uma moda acadêmica. No entanto, a multiplicação dos livros e artigos introdutórios à história global (SACHSENMAIER, 2011; OLSTEIN, 2014; KUNTZ FICKER, 2014; CROSSLEY, 2015; POTTER; SAHA, 2015; MARQUESE; PIMENTA, 2015; CONRAD, 2016; BELICH; DARWIN; FRENZ; WICKHAM, 2016; GARCIA; SOUSA, 2017; SANTOS JÚNIOR; SOCHACZEWSKI, 2017; DRAYTON; MOTADEL, 2018), com suas particulares seleções de autores precursores e modelares, aponta para a consolidação da área em um contexto onde a crítica ao chamado “globalismo” também ganha cada vez mais adeptos, espaço e voz no Brasil e no mundo (BORGER, 2018; VILELA, 2019). Mas afinal, o que é a história global? Seria a boa abordagem histórico-global aquela herdeira de Fernand Braudel (1967) ou a tributária de William McNeill (1991)? Ela se definiria pelas macro ou pelas microanálises? Sua ênfase recairia sobre a comparação, a conexão, o cruzamento ou a integração? Seu objeto seria o globo, a globalização ou as globalizações? Há uma história global ou várias?

Diversas abordagens e modos de se fazer história global convivem e/ou competem pela hegemonia. Assim, ao lado de uma renovada world history, que procura reconfigurar as narrativas da história do mundo todo (CHRISTIAN, 2014; DUNN; MITCHELL; WARD, 2016; KARRAS; MITCHELL; BENTLEY, 2017), os estudos inspirados nas teorias dos sistemas-mundo (WALLERSTEIN; ROJAS; LEMERT, 2015; KORZENIEWICZ, 2017) e do desenvolvimento desigual e combinado (ANIEVAS; MATIN, 2016; ANIEVAS; NIŞANCIOĞLU, 2015) buscam organizar analiticamente as relações entre diferentes estruturas e macrorregiões, a big history, que se propõe integrar a história em contextos espaço-temporais de escala cósmica (CHRISTIAN, 2011; SIMON; BEHMAND; BURKE, 2015), convive com a micro-história global, que demonstra a presença de processos globais em unidades de análise restritas a locais ou mesmo trajetórias individuais (ANDRADE, 2010; SACHSENMAIER, 2018), e com a história conectada, que explora os fluxos e circuitos a partir dos quais dinâmicas são construídas e efetivadas (GRUZINSKI, 2017; SUBRAHMANYAM, 2017), enquanto a história comparada supera as unidades estanques na direção de comparações integradas (POMERANZ, 2000); histórias totalizantes de séculos inteiros (CONRAD; OSTERHAMMEL; IRIYE, 2018; OSTERHAMMEL, 2014) ou de oceanos (ARMITAGE; BASHFORD; SIVASUNDARAM, 2017) convivem com histórias globais do trabalho (HOFMEESTER; LINDEN, 2018) ou da família (MAYNES; WALTNER, 2012). Ao mesmo tempo, os estudos pós-coloniais questionam epistemológica e concretamente a centralidade e/ou o provincianismo da Europa na produção de narrativas e interpretações de alcance planetário (CHAKRABARTY, 2000). As “histórias globais” são múltiplas, seja do ponto de vista dos objetos (a globalização contemporânea, as globalizações ou processos semi- ou subglobais, as redes de integração e a produção de fronteiras, as dialéticas entre o local/global etc), dos diálogos interdisciplinares (com a economia, a antropologia, a sociologia histórica etc) e de suas modalidades (dos diversos métodos comparativos à construção de narrativas singulares ou plurais). Cada abordagem combina-se de modos específicos com outras de acordo com as agendas, trajetórias intelectuais e acadêmicas dos pesquisadores. Categorias compartilhadas, tais como as de “conexão”, “fluxos”, “circuitos”, “integração” e “fronteiras” são reconfiguradas em função de seus múltiplos usos em esquemas interpretativos distintos. O contexto cada vez mais multivocal, marcado pela construção de redes de pesquisa que ultrapassam as fronteiras dos centros globais, em particular com a incorporação de vozes de historiadores do sul global, amplia a tensão acerca do sentido e da pertinência das “histórias globais” na prática historiográfica contemporânea. Trata-se, pois, de uma arena aberta, em disputa e em construção.

Se a consolidação da história global como campo e/ou abordagem, em sua multiplicidade, indica que não se trata apenas de mais uma moda historiográfica entre tantas, surge a questão dos impactos – reais ou potenciais – de seus debates específicos nos demais campos historiográficos, sejam eles definidos por períodos, objetos, fontes ou abordagens. Para seus proponentes mais otimistas, a incorporação de historiadores de diferentes especializações à história global começa a se constituir como uma “virada global” (BALACHANDRAN, 2017; DRAYTON; MOTADEL, 2018; ROMÁN, 2017). Diante disso, pode-se questionar: os debates do campo da história global têm relevância do ponto de vista dos territórios historiográficos tradicionais? A discussão sobre as conexões históricas e os processos de integração e produção de fronteiras ajuda a repensar os objetos consolidados ou, ainda, ajuda a construir novos objetos nos campos tradicionais?

As respostas a essas questões são tão variadas quanto os praticantes da história global. Mais do que realizar um levantamento das múltiplas formulações do que é ou do que deveria ser o campo, é possível analisar o fenômeno de sua consolidação considerando sua juventude: os “historiadores globais” e algumas comunidades em geral se formaram em espaços consolidados da historiografia e encontram na história global uma possibilidade de renovação dos debates e das abordagens habituais. Nesse sentido, a história global é, ao mesmo tempo, um campo no qual se encontram historiadores oriundos de diferentes contextos acadêmicos e portadores de diferentes agendas intelectuais; e uma abordagem com a qual os historiadores repensam suas agendas e contextos de formação. A proposta deste dossiê é discutir a integração da história global com áreas tradicionais, sejam elas definidas em termos de objeto, abordagem ou escopo. As estratégias dos autores do dossiê foram variadas, demonstrando os múltiplos caminhos pelos quais o problema pode ser explorado. Vejamos com mais detalhe.

Rafael de Bivar Marquese, em seu artigo “A história global da escravidão atlântica: balanço e perspectivas”, elabora uma extensa discussão historiográfica das transformações do campo da história da escravidão, em particular nos contextos caribenho, norte-americano e brasileiro, para demonstrar que o diálogo com a história global, longe de se apresentar como uma novidade radical, se dá nos termos da retomada de tradições internas já existentes que ganham força por meio do contato com os debates contemporâneos. Assim, “a história global da escravidão atlântica: balanço e perspectivas” é pensada a partir da recuperação das abordagens comparadas e integradas desenvolvidas em meados do século XX, superando tanto o nacionalismo metodológico que “peculiarizava” as instituições escravistas a cada país, quanto a recusa às análises estruturais em favor de um – segundo o autor – excessivo peso dado à subjetividade dos atores sociais. Favorecendo a leitura da história global como uma abordagem, Marquese sugere a incorporação de diferentes tradições teóricas (a perspectiva do sistema-mundo, a história comparada, o materialismo histórico- -dialético) para a construção de uma história integrada da escravidão como fenômeno total, umbilicalmente ligado ao capitalismo histórico.

Carlos Riojas, em seu artigo “Luces y sombras sobre América Latina en una historia global”, discute os lugares reais e potenciais da América Latina tanto nos principais periódicos quanto em determinadas macronarrativas da história mundial e global. A partir da análise bibliométrica dos números do Journal of World History e do Journal of Global History nos últimos anos, o autor aponta para a periferização da América Latina como tema dos artigos em vista da hegemonia da Europa e da Ásia. Tal periferização é contraposta à grande quantidade de temas e períodos nos quais a América Latina exerce um papel central em processos de escopo global, tanto no plano material quanto na produção e circulação de saberes tais como: a conquista, colonização e crise das narrativas bíblicas nos séculos XVI e XVII, a reorganização do sistema interestatal na economia mundial e nas concepções da natureza nos séculos XVIII e XIX, o impulso na perspectiva terceiro-mundista e a elaboração da teoria da dependência no século XX etc. Como hipótese, o autor sugere que a periferização se mantém em função de uma transição de “encapsulamentos”: das fronteiras das áreas de estudo, base do tão criticado nacionalismo metodológico, a história global passaria ao anglocentrismo linguístico, cuja agenda de poder e saber manteria o caráter periférico da América Latina. O autor conclui o artigo apontando as possibilidades e os caminhos para a construção de histórias que articulem a história latino-americana a fenômenos globais e vice-versa.

Um exemplo de encapsulamento, agora na perspectiva francesa, é oferecido por João Júlio Gomes dos Santos Júnior em seu artigo “A história política na hora da virada transnacional: novas possibilidades de pesquisa”. A estratégia adotada pelo autor foi a de avaliar até que ponto um dos principais nomes da nova história política, Jean-François Sirinelli, dialoga – ou deixa de dialogar – com a história global. Sirinelli, na recuperação do autor, aponta, em artigo de 2011, para o autocentramento da nova história política francesa das últimas décadas: após a reabilitação da história política por meio da multiplicação dos objetos e abordagens, o campo teria se isolado dos desenvolvimentos das demais ciências humanas e limitado excessivamente seu escopo às fronteiras do Estado nação. Com isso, apontava Sirinelli, perdia-se a perspectiva transnacional ou mundial, fundamental para a compreensão dos fenômenos políticos, em particular no contexto do século XXI. No entanto, como aponta João Júlio dos Santos Júnior, Sirinelli apresenta como solução teórica um retorno ao “jogo de escalas” de Jacques Revel: ignorando os múltiplos desenvolvimentos da história mundial, em particular o de sua matriz norte- -americana, e da história global, Sirinelli receitaria o “novo” autocentramento como remédio para o “antigo” autocentramento.

Em síntese, os três artigos do dossiê apresentam a multiplicidade de arranjos construídos pela incorporação da história global nos campos tradicionais e dos campos tradicionais na história global. A história da escravidão atlântica se enriquece no diálogo com a história global, apropriada a partir de estruturas autóctones; a história global periferiza a história da América Latina não mais pelo isolamento metodológico, mas pelo anglocentrismo linguístico e suas agendas; a história política, de matriz francesa, se emparelha com a história global pelo recurso a tradições locais, evitando um entrecruzamento talvez mais transformador. Diferentes campos, variadas combinações. Esperamos, com este dossiê, estimular a reflexão dos pesquisadores e pesquisadoras a respeito dos modos como a história global é apropriada, reforçando seu caráter aberto e essencialmente agonístico.

Referências

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Fábio Augusto Morales –  Universidade Federal de Santa Catarina. E-mail: [email protected]  https://orcid.org/0000-0002-9942-5011

Mateus Henrique de Faria Pereira –  Universidade Federal de Ouro Preto. E-mail: [email protected]  https://orcid.org/0000-0001-7489-7365

Organizadores

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Toda história é história conectada? / Esboços / 2019

História global, histórias conectadas: debates contemporâneos

Acrescente bibliografia do campo da História Global elegeu como um de seus principais alvos o que foi definido como “internalismo metodológico”. Tal postura se basearia, segundo as críticas dos historiadores globais, na supervalorização dos fatores internos à unidade de análise escolhida para a explicação e a interpretação dos processos históricos (GRUZINSKY, 2001; CONRAD, 2016, p. 108; MARQUESE, 2019). As unidades de análise variam do Estado-nação, base do recorrente “nacionalismo metodológico”, a comunidade étnica, civilização, império ou região, entre outras (CONRAD, 2016, p. 79; GUARINELLO, 2003).

Em contraponto, críticos da história global argumentam que a ênfase nas conexões e nos processos de integração acabam por criar histórias sem fronteiras, reiterando ideologias que apontam para a criação de uma “aldeia global”, integrada e harmônica, em que ideias, pessoas e bens circulariam em redes cambiantes de fluxos multiformes – ideologia particularmente artificial quando observada do hemisfério sul (BLAUT, 1993). A defesa das unidades de análise tradicionais e de seus fatores internos – o Estado-nação acima de todos – seria uma resistência à ideologia globalista subjacente à história global, condenada desde a concepção.

As respostas dos historiadores globais são variadas, mas, no geral, apontam para a incorporação das fronteiras como parte fundamental dos processos de integração (GUARINELLO, 2010). Longe de eliminarem as fronteiras em favor dos fluxos, os processos de integração e conexão também promoveriam a reconfiguração das fronteiras (CONRAD, 2016, p. 67). Assim, a ênfase nas conexões reposiciona o problema das unidades de análise em outros termos – Estados-nação, impérios ou comunidades étnicas definem seus contornos e limites em contextos mais amplos de contatos e interseções de fronteiras variadas (SUBRAHMANYAN, 1997). Não mais pressupostas, as fronteiras deixam de ser fundamento da historicidade para se tornar também componentes da problemática, discutidas em função de processos concretos que as ultrapassam, sendo ao mesmo tempo seus vetores.

Assim, a revista Esboços apresenta o dossiê Toda história é história conectada?, composto por cinco artigos, com escopos temporais e espaciais variados, que abordam, sob diferentes pontos de vista, a questão das conexões e das fronteiras, bem como da própria definição da história global.

José Ernesto Knust, em “Os Pláucios, a emancipação da plebe e a expansão romana: conectando as histórias interna e externa da República Romana”, realiza uma crítica radical da divisão que estruturou a historiografia sobre o período republicano em Roma: a “história interna”, dominada pelas guerras entre ordens (patrícios e plebeus), e a “história externa”, dominada pelas guerras de conquista da Itália e do Mediterrâneo. Essa divisão, arbitrária, define como fronteira da análise uma Roma raramente definida (uma cidade?, um estado?, a comunidade cívica?) e produz alguns enigmas insolúveis fora de uma história conectada. Um deles é a ascensão meteórica de uma família plebeia, os Pláucios, à mais alta magistratura romana, o consulado, sem antes ter ocupado qualquer magistratura menor.

Com base no caso dessa família, Knust demonstra que, enigmática quando se toma a história interna de Roma como fronteira, sua ascensão é compreensível quando se incorpora a história das comunidades vizinhas de Roma, onde a família já estava inserida em redes de elites. A ascensão dentro do estado romano, por sua vez, é fundamental para a compreensão de guerras no centro da Itália, que resultarão na criação de um império formado por um arranjo complexo de alianças particulares.

A história global oferece, segundo Knust, o impulso para a superação de fronteiras historiográficas insuficientes na direção da dimensão mediterrânica da circulação horizontal das elites, da reconfiguração de suas fronteiras intraelites e externas contra as comunidades camponesas (2019).

Em “Connecting worlds, connecting narratives: global history, periodisation and the year 751 CE”, Otávio Luiz Vieira Pinto realiza um exercício de história conectada reduzindo o escopo temporal ao ano de 751, ao passo que amplia o escopo espacial à Eurásia. Discute três processos históricos que têm nesse ano um marco fundamental: o conflito entre o Califado Abássida e o Império Chinês sob a dinastia Tang; a ascensão da família carolíngia no reino franco; a guerra iconoclasta e a ascensão ao trono bizantino de um imperador de origem centro-asiática.

O autor demonstra a conexão entre esses processos tomando o Império Bizantino como ponto de ligação – a decisão bizantina de se concentrar no oriente abássida em ascensão reforça a separação com a Europa ocidental, abrindo o terreno para a separação das igrejas e a construção de um império cristão europeu, o carolíngio. Assim, o ano 751 seria um marco não para a história de uma ou outra região, mas para a história da Eurásia, pois significou o fim da Antiguidade eurasiática com a instauração da divisão em três superpotências – Império Carolíngio no ocidente, Califado Abássida no centro, China Tang no oriente –, com consequências duradouras para o período medieval. As conexões, portanto, passaram pela formulação de novas fronteiras entre macrorregiões (PINTO, 2019).

O artigo “Más allá de una simple biografía: ‘el caso Cerruti’, una historia conectada y multinivel enlazada por un ‘historiador electricista’”, escrito por Luciana Fazio, é um exército de micro-história conectada, que toma como caso a “questão Cerruti”, a qual começa com a prisão de um imigrante italiano na Colômbia oitocentista e resulta numa crise diplomática de grandes proporções entre Itália e Colômbia. Para tanto, a autora articula processos históricos de natureza e escalas diversas: das estratégias comerciais, matrimoniais e políticas de um migrante italiano na Colômbia até a formação do Estado nacional colombiano; do terror da população de uma cidade portuária prestes a ser bombardeada até a afirmação do imperialismo italiano, do hispano-americanismo espanhol e da doutrina Monroe norte-americana.

Fazio analisa a história da migração, do imperialismo, da formação de um sistema comercial, financeiro e diplomático internacional, bem como da criação do Estado nacional e do nacionalismo, como macroprocessos, à luz do local/particular, superando separações arbitrárias de historiografias internalistas. A autora conclui, no entanto, que a história global pode ser empregada somente quando há globalização e suspensão das fronteiras – para ela, algo que se deu após os anos 1970 –, que são úteis na medida em que oferecem uma caixa de ferramentas boa para pensar processos históricos integrados, entre os quais se destaca a história conectada (FAZIO, 2019).

O quarto artigo do dossiê, “Contribuições preliminares da história universal de H.G. Wells: elementos de história socioevolucionista e da world history contemporânea”, escrito por Fábio Iachtechen, discute as escolhas científicas e as implicações geopolíticas do escritor britânico H.G. Wells na redação de sua História Universal, cuja primeira edição aparece em 1919. Contra histórias centradas na Europa e nos Estados-nacionais, Wells buscou nas ciências naturais a unidade fundamental da história, que seria a base para a construção de uma Liga das Nações que superasse os traumas da Primeira Grande Guerra.

Em Wells, não se trata de relatos conectados, já que as histórias das várias civilizações e “raças” são tratadas separadamente. No entanto, a discussão científico- -evolucionista que orienta a obra fundamenta uma “história unificada” do gênero humano, que parte de uma mesma raiz (IACHTECHEN, 2019).

O último artigo do dossiê é “Bandung, 1955: ponto de encontro global”, escrito pelas historiadoras Raissa Brescia dos Reis e Taciana Almeida Garrido Resende, que discute a produção e a interação das produções narrativas – em documentos, relatórios e revistas – acerca da unidade e das fronteiras dos países do Terceiro Mundo. Em função dos sujeitos e dos contextos discursivos, diferentes fronteiras eram engajadas na definição das prioridades da ação terceiro-mundista. Tratava-se de uma aliança de países não alinhados, que excluiria os alinhados a cada potência da Guerra Fria? Qual era o maior inimigo: o colonialismo europeu ou o em geral, incluído o comunista? A luta anticolonial se sobrepunha às disputas entre os países terceiro-mundistas? O Terceiro Mundo se centrava na Ásia ou na África? A luta anticolonial deveria ser feita por estados ou por movimentos sociais?

A conexão de diferentes pautas governamentais e ideias sobre geopolítica e relações sociais, em vez de suspender fronteiras, tornou-as mais complexas, mergulhada em tramas narrativas de sujeitos que disputavam posições dentro da nova comunidade (REIS; GARRIDO, 2019).

O dossiê, portanto, apresenta múltiplas respostas ao desafio colocado pelo paradigma da história conectada, identificada ou não com a história global. Historiadoras e historiadores especialistas em períodos diferentes, e com trajetórias formativas diversas, apontam para a multiplicidade pela qual as conexões são produzidas e produzem fronteiras tanto no nível dos objetos quanto no enquadramento historiográfico das pesquisas. Sem encerrar a questão, o dossiê apresenta mais elementos para o debate sobre os limites e as possibilidades da história global como conectada.

Referências

BLAUT, James M. The Colonizer’s Model of the World: Geographical Diffusionism and Eurocentric History. London: The Guildord Press, 1993.

CONRAD, Sebastian. What is Global History? Princeton: Princeton University Press, 2016.

FAZIO, Luciana. Más allá de una simple biografía: “el caso Cerruti”, una historia conectada y multinivel enlazada por un “historiador electricista”. Esboços, Florianópolis, v. 26, n. 42, p. 270-289, maio/ago. 2019.

GRUZINSKI, Serge. Os mundos misturados da monarquia católica e outras connected histories. Topoi, Rio de Janeiro, p. 175-195, mar. 2001.

GUARINELLO, Norberto Luiz. Ordem, integração e fronteiras no Império Romano: um ensaio. Mare Nostrum, São Paulo, v.1, p. 113-127, 2010.

GUARINELLO, Norberto Luiz. Uma morfologia da história: as formas da história antiga. Politeia: História e Sociedade, Vitória da Conquista, v. 3, n. 1, p. 41-61, 2003.

IACHTECHEN, Fábio Luciano. Contribuições preliminares da História universal de H.G. Wells: elementos de história socioevolucionista e da world history contemporânea. Esboços, Florianópolis, v. 26, n. 42, p. 290-308, maio/ago. 2019.

KNUST, José Ernesto Moura. Os Pláucios, a emancipação da plebe e a expansão romana: conectando as histórias interna e externa da República Romana. Esboços, Florianópolis, v. 26, n. 42, p. 234-254, maio/ago. 2019.

MARQUESE, Rafael de Bivar. A História Global da escravidão atlântica: balanço e perspectiva. Esboços, Florianópolis, v. 26, n. 41, p. 14-41, 2019.

PINTO, Otávio Luiz Vieira. Connecting worlds, connecting narratives: global history, periodisation and the year 751 CE. Esboços, Florianópolis, v. 26, n. 42, p. 255-269, maio/ago. 2019.

REIS, Raissa Brescia dos; RESENDE, Taciana Almeida Garrido. Bandung, 1955: ponto de encontro global. Esboços, Florianópolis, v. 26, n. 42, p. 309-332, maio/ ago. 2019.

SACHSENMAIER, Dominic. Global History, Pluralism, and the Question of Traditions. New Global Studies, v. 3, n. 3, p. 1-9, 2009.

SUBRAHMANYAM, Sanjay. Connected Histories: Notes Towards a Reconfiguration of Early Modern Eurasia. Modern Asian Studies, Cambridge, v. 31, n. 1, p. 735-762, 1997.

Alex Degan – Doutor. Professor adjunto, Universidade Federal de Santa Catarina, Centro de Filosofia e Ciências Humanas, Departamento de História, Florianópolis, SC, Brasil. Organizador do dossiê Toda História é História Conectada? https://orcid.org/0000-0001-7359-0265  E-mail: [email protected]

Lindener Pareto Junior – Doutor. Professor titular, Pontifícia Universidade Católica de Campinas, Centro de Ciências Humanas e Sociais Aplicadas, Faculdade de História, Campinas, SP, Brasil. Pós-doutorando, Universidade Estadual de Campinas, Instituto de Filosofia e Ciências Humanas, Departamento de História, Campinas, SP, Brasil. https://orcid.org/0000-0003-1441-4979  E-mail: [email protected]

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Many Cold Wars: Reconceptualizing the Post-WWII World / Esboços / 2016

A little more than a quarter of century has passed since the Cold War ended. As the frenzy associated with it now appears odd, if not surreal, the nature of inquiry cannot be the same. It’s time to change our ways of thinking about the Cold War. To this end, we are co-editing a special issue of The Esboços, one of the leading historical magazines in Brazil on “Many Cold Wars: Reconceptualizing the Post-WWII World.” The key questions we are examining in this edition are as follows: How did local situations contribute to the shaping and maintenance of the Cold War? In what ways did local people utilize, or even take advantage of, Cold War narratives? How can we re-conceptualize the Cold War? How have studies of the Cold War developed in the last two decades, and what possible directions can we explore further? In short, what we are trying to do is to question the standard narrative of the Cold War, shedding light on diverse social conflicts, culture wars, and historical struggles at home that have often been obscured under the Cold War mantle. In doing so, we hope to draw attention to many “Cold Wars,” seen from many different places and diverse points of view, and fought for various purposes in many parts of the world. Ultimately we hope to foster discussions that will question the standard Cold War narrative that prioritizes the US-USSR conflict as the most important current in the history of the second half of the twentieth century.

In this special edition, scholars from different parts of the globe analyze diverse aspects of the Cold War. Some articles look into localized or regional conflicts enhanced by the global conflict played out by the two superpowers. Others examine various aspects of the global Cold War, exploring its historical meanings and functions in societies to understand this conflict that lasted for more than four decades.

From Australia, we have three contributions. First, in “The Indonesian Coup and Mass Killings, 1965-1967: A Reconceptualization of the Influence of the Cold War,” Angela Keys and Drew Cottle investigate how Indonesian local situations contributed to the occurrence of two vital and connected Cold War events, the Indonesian coup and massacre. The authors demonstrate how an Indonesian Army General, Suharto, was able to manipulates Cold War narratives to prompt anti-communist fervour, which triggered the massacre of more than half a million supposed “communists.” The authors show that domestic factors were vital to the development of these events, which can be understood as a kind of localized Cold War.

Second, in “Seeing ‘Reds’ in Colombia: Reconsidering the ‘Bogotazo’, 1948,” James Trapani investigates an event known as the Colombian Bogotazo—a series of massive riots that followed the assassination of Liberal leader Jorge Eliécer Gaitán in 1948, which brought Colombia to the verge of civil war. The author points out that the Soviet Union had scant influence on the region prior to the Cuban Revolution, and that the U.S. State Department recognized that the Colombian Bogotazo was not related to the global Cold War. The event involved its own social struggles and local backgrounds, and did not pose any legitimate threat to the region, nor to the United States. Nevertheless, U.S. Secretary of State George Marshall, according to the author, seized the opportunity as a pretext to intervene in Latin American affairs as part of the global Cold War. Trapani contends that similar cases can be seen in other parts of the region, characterizing a pattern of Latin American ‘Cold War’ that resulted in devastating national and regional consequences.

Third, Mitchell Yates and Drew Cottle’s “Conceptualizing Localized Cold Wars in Southern Africa” investigates what its authors call “little Cold Wars” in southern Africa between 1961 to 1989, during which ‘brushfire’ conflicts erupted in the Portuguese colonial territories of Angola and Mozambique, as well as in Rhodesia (and later Zimbabwe), South-West Africa (now Namibia), and the Republic of South Africa. This article intends to reconceptualize the history of the Cold War in southern Africa by demonstrating that, although intrinsically linked, these conflicts constituted not one homogenous conflict but several “little Cold Wars,” and that localized conditions, such as the consequences of colonization and decolonization, as well as racial and ethnic tensions, were the driving forces for conflict, not solely the global East-West ideological confrontation.

From the Ukraine, Viktoria A. Sukovata’s “Soviet Spy Cinema of the Early Cold War in the Context of Soviet Cultural Politics” examines Soviet cultural consciousness during the Cold War, which was echoed in the genre of spy cinema and literature. The article points out that the spy movie was one of the most representative genres of the Cold War period, and shows that this genre emerged and evolved because spy films were expressions of basic cultural notions of the epoch, public fears, and media clichés. In the article, the author closely investigates how images of spies and secret agents transformed Soviet cinema. Sukovata contends that Soviet cinema during the Cold War focused not on nuclear fears, but on the genre of the spy and military detectives because they were more representative of the perceptions of Soviet society of the clash between Soviet and the Western societies. Finally, she argues that Soviet spies and detectives were a metaphorical representation of Soviet intellectuals’ opinions concerning the nature of Soviet authorities.

From Argentina, Fabio Nigra contributes “The Victory Was Also Ideological: The Cold War of Reagan and Hollywood,” which examines the early 1980s, when the conflict with the Soviet Union took on a new impetus following Ronald Reagan’s triumph in the presidential election. The author shows how the new president sought to defeat the enemy by pushing on all fronts, even in the cultural sphere, and how Hollywood, particularly the major studios, collaborated with what was called the “Second Cold War” through producing popular films such as Rambo, Rocky, and Terminator, among many others, which created a new consensus. According to the author, these Hollywood films constructed the image of the abnormally muscular superman, who only with his own efforts could triumph in a situation where the world was against him. The author finds a parallel between this image of a solitary man struggling against the world and the fight of Reagan against the pessimistic atmosphere in his country, showing the power of Hollywood in fighting the Vietnam Syndrome.

From Brazil, Flavio A. Combat contributes “The Centrality of William Appleman Williams’ Thinking in the Historiographical Debate on the Cold War,” discussing the importance of the founder of the Wisconsin School, William Appleman Williams. To Combat, Williams was the first American historian to offer a new interpretation in the late 1950s on the origins and consequences of the Cold War. The author explains the ways in which Williams challenged orthodoxy views through proposing a new interpretation of American society and its interests. The article aims at closely analyzing Williams’ viewpoint, with a particular focus on The Tragedy of American Diplomacy (1959), a masterpiece that summarized his interpretation of U.S. expansionism and its centrality in shaping U.S. foreign policy since the late nineteenth century. In particular, Combat looks into Williams’ “frontier thesis,” the foundation of expansionist U.S. foreign policy, contending that the “tragedy” of U.S. diplomacy in the twentieth century took place precisely as a result of the introjection of the “frontier thesis” in U.S. foreign policy.

Finally, also from Brazil, Sidnei J. Munhoz, contributes “Imperialism and anti-Imperialism, Communism and Anti-Communism during the Cold War,” which explores various regional and local conflicts during the Cold War. In particular, the article examines the ways in which the rise of dozens of new nation-states as a result of anticolonial struggles influenced international relations, impacting the superpowers’ global order projects. The author pays significant attention to regional wars, revolutions, and military coups d’état in the so-called Third World, and argues that, within each bloc, there were many rivalries and disputes among small partners in their search for the consolidation of regional hegemonies, as well as frictions inside of these societies. The article concludes that a cautious examination shows the limits of analysis based only on the bipolar perspective, arguing instead that there was less homogeneity inside of each bloc, where small actors acted in pursuing their own objectives.

As editors of this special issue, we—Sidnei J. Munhoz and Masuda Hajimu—hope that these articles will stimulate scholarly discussions about the Cold War, encourage new perspectives and approaches, and further expand the field to better understand what the Cold War really was.

Sidnei J. Munhoz – Universidade Estadual de Maringá-UEM. PhD in Economic History from the Universidade de São Paulo (1997). Associate Professor at the Universidade Estadual de Maringá and the Postgraduate Program in History (PPH-UEM, Maringá, Paraná, Brazil). Email: [email protected]

Masuda Hajimu – National University of Singapore-NUS. Ph.D. from Cornell University in 2012. Assistant Professor in the Department of History at the National University of Singapore, Singapore. Email: [email protected]

Organizers

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África: histórias em perspectiva / Esboços / 2018

A revista Esboços apresenta aos seus leitores o dossiê “África: histórias em perspectiva”. Com o intuito de promover o diálogo entre pesquisadores brasileiros e africanos, o presente número especial privilegiou a produção acadêmica de colegas africanos. Acreditamos que a internacionalização do conhecimento deve ocorrer também no sentido Sul-Sul. Geralmente, os colegas africanos que têm seus artigos publicados em periódicos científicos no Brasil são professores e/ou pesquisadores em universidades europeias ou norte-americanas. Raramente chegam à publicação em revistas de história e de ciências sociais do Brasil artigos de pesquisadores que atuam profissionalmente nas universidades, nas bibliotecas, nos arquivos ou nos museus de países africanos como a Gâmbia, o Togo ou os Camarões. Nesse sentido, o conjunto de textos reunidos nesse dossiê é resultado de um esforço acadêmico e político de aproximar as histórias de ambas as margens do Atlântico.

O artigo que abre o dossiê intitula-se Percepções africanas do Brasil: o espectro do passado, de autoria do professor Adjai Paulin Oloukpona-Yinnon (Université de Lomé). O autor trata do último romance do escritor Kangni Alem e faz uma abordagem crítica do recurso às memórias da diáspora africana pela literatura pós-colonial. Com o título Cartas, indagações e estudos sobre a África centro-ocidental e os Ijebus, Aderivaldo Ramos de Santana, doutorando na Université de Paris-Sorbonne, segue as pistas dos informantes africanos na produção “científica” francesa na primeira metade do século XIX. Fazendo pesquisa de arquivo na Gâmbia: localizando e avaliando fontes é o terceiro artigo do dossiê e aborda várias fontes dos arquivos em Banjul. Curador do arquivo e do museu nacional da Gâmbia, Hassoum Ceesay nos convida a conhecer e a explorar a rica documentação que guarda os arquivos do seu país. O quarto artigo é da lavra do jovem historiador Koffi Nutefé Tsigbe, da Universidade de Lomé e tem por título A imprensa satírica em torno dos assassinatos políticos no Togo em 1992. A partir de dois jornais (La parole e Kpakpa désenchanté), o autor indaga sobre a escrita da história sobre acontecimentos de um passado recente a partir de fontes pouco usuais na oficina dos historiadores africanos. O artigo seguinte, Futebol no Togo durante o período colonial, é de autoria de Komlan Kouzan (Université de Kara). Desde os primeiros chutes no esférico até a sua popularização às vésperas da independência do Togo, o historiador da universidade mais setentrional daquele país discute o futebol como um processo de assimilação. Adeline Derrigol (Université de Rennes 2), por sua vez, apresenta uma síntese da aproximação da Guiné Equatorial da comunidade organização dos países de língua oficial portuguesa –PALOP, bem como as origens e os impactos do Congresso hispânico e africano internacional da cultura de 1984, sob o título Guiné Equatorial: um elo entre África, Península Ibérica e América Latina. O artigo intitulado Organizações camponesas e desenvolvimento socioeconômico na zona florestal do sul dos Camarões, 1992 a 2015, de Christophe Signie (Université deYaoundé I), encerra o dossiê. Trata o autor de uma experiência de organização de agricultores em zona florestal cuja história recente interpela as autoridades sobre a viabilidade da ruralidade no sul daquele país.

A maioria dos trabalhos apresentados no presente dossiê resulta de pesquisa feita com parcos recursos e em condições adversas. Mas a internacionalização dos resultados de pesquisa não deve ser sinonímia de elitização do conhecimento científico.

Por último, cabe justificar a nossa escolha em publicar os artigos sem revisão do idioma e sem tradução dos mesmos. A revisão dos textos em inglês e em francês poderia correr o risco de normatizar os mesmos por regras mais em voga no hemisfério norte. Preferimos manter os textos com os seus “sotaques” africanos. Os organizadores do presente dossiê esperam que o mesmo possa contribuir para ampliar o já profícuo diálogo afro-brasileiro no meio acadêmico.

Boa leitura!

Cibele Barbosa – Fundação Joaquim Nabuco. E-mail: [email protected]

Sílvio Marcus de Souza Correa – Universidade Federal de Santa Catarina. E-mail: [email protected]

Organizadores

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História das Religiões e religiosidades / Esboços / 2017

 

Foi, com imensa alegria, que recebi o convite para organizar o dossiê para a Esboços – Revista do Programa de Pós-Graduação em História da Universidade Federal de Santa Catarina – com a temática: história das religiões e das religiosidades.

O estudo da história das religiões e das religiosidades no Brasil é, sem dúvida, atualmente, um campo consolidado. Os historiadores brasileiros preocupados com o fenômeno religioso já estão inseridos em instituições de ensino e pesquisa, grupos de pesquisa ou trabalho e associações. Há, ainda, a realização de encontros regionais, nacionais e internacionais para debater a temática. As chamadas constantes para dossiês em periódicos científicos das ciências humanas, as quantidades – cada vez mais significativas – de iniciações científicas, monografias, dissertações e teses sobre a temática, e a presença de linhas de pesquisa em programas de pós-graduações, são indicativos dos espaços assumidos por esta vertente dentro da Historiografia1.

Entender a história das religiões e das religiosidades como um campo consolidado, faz-se necessário ressaltar, não significa entendê-lo como homogêneo ou livre de disputas e embates, mas ao contrário. Os vieses interpretativos do fenômeno religioso, assim como os demais objetos históricos, são variados e estão longe de oferecerem respostas ou soluções definitivas. Creio que os artigos que compõem este dossiê confirmam essas afirmações, seja quanto a qualidade de suas pesquisas e pesquisadores, seja quanto a variedade de objetos, documentos e abordagens.

O artigo que abre o dossiê intitula-se RELIGIÃO E RELIGIOSIDADE EM TRANSFORMAÇÕES – DILEMAS METODOLÓGICOS e é de autoria de Renata Siuda-Ambroziak (Universidade de Varsóvia). Nele, a autora tenta provar que as tradicionais ferramentas de pesquisa já não são suficientes para investigar os fenômenos religiosos contemporâneos, independentemente da forma como são definidos no mundo pós-moderno, no qual tem muitos concorrentes, perdendo sua credibilidade em termos de ser a religião a única fonte do sentido e da moralidade.

O segundo artigo, escrito por Emerson José Sena da Silveira (UFJF), intitulado RELIGIÃO, RELIGIÕES E CONCEITOS SOCIOLÓGICOS: Notas críticas sobre a hermenêutica normativa da religião, pretende analisar as mútuas influências entre o campo religioso e a sociedade a partir de algumas dinâmicas empíricas, tecendo críticas aos usos semânticos de algumas categorias e empreendendo também, esboços de releitura de algumas análises sociológicas clássicas do religioso.

ASSOCIAÇÕES LEIGAS CATÓLICAS: novos espaços, práticas religiosas e perspectivas no séc. XX, de autoria de Edilece Souza Couto (UFBA), trata das primeiras décadas do século XX, na Bahia, e suas tentativas de modernização urbana e civilização dos costumes. Atenta a demolição da Igreja da Sé, que, apesar de previstas, só ocorreram na gestão do interventor federal Juracy Magalhães (1931-1937).

O quarto artigo, RELIGIOSIDADE E DEVOÇÃO: Caminhos para pensar a cidade, de Cairo Mohamad Ibrahim Katrib (UFU) e Luciane Ribeiro Dias Gonçalves (UFU), analisa a festa em louvor a Nossa Senhora do Rosário, na cidade de Catalão, localizada na região sudeste do estado de Goiás, como espaço para a materialização de muitas vozes que contam e recontam muitas histórias, dentre elas a da religiosidade e da devoção a uma santa católica.

O quinto artigo é de Vanda Fortuna Serafim (UEM), E SE DEUS EXISTISSE E MORASSE NA BÉLGICA? RISO, HUMOR E RELEITURAS DAS NARRATIVAS BÍBLICAS. Por meio do filme O Novíssimo Testamento (2014) dirigido e produzido pelo belga Jaco van Dormael ela busca perceber como as releituras das narrativas bíblicas do Cristianismo realizadas sugerem o riso e o humor na atualidade.

Lourival Andrade Junior (UFRN), por sua vez, em AS UMBANDAS NO CORDEL busca entender, a partir do universo destes cordelistas, como as Umbandas são entendidas por estes poetas e como este gênero literário contribuiu para a construção de suas imagens, sobretudo de suas entidades espirituais e dos Orixás.

No artigo PROTESTANTES NO BRASIL: ENTRE A OMISSÃO E O ENGAJAMENTO POLÍTICO, Elizete da Silva (UEFS) analisa a presença Protestante no Brasil, bem como a constituição de um setor Protestante Ecumênico no País, que se desenvolveu na segunda metade do século XX, vinculado ao Conselho Mundial de Igrejas e com uma proposta inovadora de diálogo respeitoso com as demais religiões.

Fabio Lanza (UEL) e Luiz Ernesto Guimarães (SEED-PR), no artigo RELIGIÃO, POLÍTICA E MEMÓRIA: ESTUDO DA TEOLOGIA DA LIBERTAÇÃO NO PROTESTANTISMO HISTÓRICO EM LONDRINAPR NA ÉPOCA DA DITADURA MILITAR (1964-1985), analisam a presença da Teologia da Libertação entre setores do protestantismo histórico em Londrina-PR no período da ditadura militar, ocorrida no Brasil entre 1964 a 1985.

Por fim, Fernanda Santos (Universidade Federal do Amapá – Campus Santana), em O COLÉGIO JESUÍTA NO CONTEXTO DO SÉCULO XVI: FORMAÇÃO DE UM NOVO HOMEM, estuda, a partir do século XVI, como os colégios religiosos iniciam a sua tentativa de formar mestres e discípulos dentro do ideário religioso preconizado e dentro de uma lógica contrarreformista.

Desejo a todos uma boa leitura!

Notas

1 Vide: SERAFIM, Vanda Fortuna. Instituições religiosas, vivências do religioso: possibilidades de abordagens historiográficas das religiões e das religiosidades. In: Maria Bernardete Flores Ramos; Ana Alice Brancher (orgs.). Historiografia: 35 anos. Florianópolis: Letras/Contemporânea, 2011. P. 142-159.

Vanda Serafim –  Universidade Estadual de Maringá, Brasil. E-mail: [email protected]  Organizadora

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Os Estados Unidos na Era Trump / Esboços / 2017

Desde a emergência do fenômeno da Pax Americana no final da Segunda Guerra Mundial, os Estados Unidos se mantém como a nação hegemônica do sistema internacional. Esta liderança se sustenta em uma série de mecanismos políticos, estratégicos, econômicos, sociais e culturais que a partir de 1945 influenciam a dinâmica das relações estatais e transnacionais. Seja para gerir a estabilidade, ou para gerar a instabilidade, os norte-americanos influenciam decisivamente os rumos da política global, mas se encontram cada vez mais imersos em suas contradições e fragmentações domésticas. Neste contexto, o objetivo desse Dossiê “Estados Unidos” pela Revista Esboços é apresentar uma análise histórica e contemporânea de alguns componentes internos e externos que caracterizam esta hegemonia, em constante processo de construção e desconstrução nos séculos XX e XXI.

Abrindo o Dossiê, o artigo “A presença do petróleo nos Estados Unidos: o hidrocarboneto na história de uma grande potência”, de José Alexandre Altahyde Hage, Doutor em Ciência Política pela UNICAMP e Professor de Relações Internacionais da Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP), apresenta um panorama sobre a questão energética nos Estados Unidos, traçando sua evolução desde os primórdios da exploração de petróleo internamente e seu peso como elemento de projeção global. Porém, energia e petróleo não se consistem nos únicos elementos desta projeção.

No texto seguinte “Do Estado empreendedor ao mito da não-intervenção: a inovação como instituição nos Estados Unidos”, o Professor da Universidade Federal da Grande Dourados (UFGD) e Doutor em Relações Internacionais pela UNESP, Hermes Moreira Jr. aborda um tema central da liderança hegemônica e sua sustentação: a inovação como base do progresso e fortalecimento nacional, desmistificando, e comprovando, o peso do Estado neste campo, e a forte interdependência entre o setor público e privado neste país.

Por sua vez, no que se refere aos elementos de poder mais subjetivos, Matheus de Carvalho Hernandez em “Os Estados Unidos e as negociações sobre a criação do posto de Alto Comissário para Direitos Humanos” aborda um tema controverso nos Estados Unidos: os direitos humanos. Com isso, o autor, Doutor em Ciência Política pela UNICAMP, Professor da Universidade Federal da Grande Dourados (UFGD), avalia, a participação da hegemonia em mecanismos de proteção e promoção dos direitos humanos, e as contribuições positivas e negativas dos Estados Unidos, para o debate sobre a governança multilateral neste campo.

Ainda no que se refere a direitos humanos, mas indo além deste recorte, com foco na relação bilateral Estados Unidos-Cuba, Alfredo Juan Guevara Martinez Mestre em Relações Internacionais pela PUC-MG, doutorando pelo Programa de Pós-Graduação em Relações Internacionais San Tiago Dantas (UNESP, UNICAMP e PUC-SP) e pesquisador do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia em Estudos sobre Estados Unidos (INCT-INEU) e do Instituto de Estudos Econômicos e Internacionais da UNESP (IEEI-UNESP) e Visiting Scholar na University of South Florida, no Institute for the Study of Latin America and the Caribbean (ISLAC) analisa esta interação estatal e suas particularidades: o antes e depois da Revolução Cubana, o contexto da Guerra Fria e o fim da bipolaridade, a questão cubana como tema de política doméstica e o papel dos grupos de interesse, as transformações do século XXI de Obama a Trump são algumas das temáticas abordadas.

Visando contextualizar estas transformações do ponto de vista interno a partir de 1989, Cristina Soreanu Pecequilo, Doutora em Ciência Política pela Universidade de São Paulo (USP), Professora de Relações Internacionais da Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP), dos Programas de PósGraduação San Tiago Dantas UNESP/UNICAMP/PUC-SP, Economia Política Internacional UFRJ e Ciências Sociais UNESP, Pesquisadora do CNPq e do NERINT/UFRGS, delineia os fenômenos políticos domésticos que caracterizam os Estados Unidos no pós-Guerra Fria. O choque entre democratas e republicanos, as disputas inter e intrapartidárias, o peso dos atentados terroristas de 11/09/2001 e as transformações sociais, econômicas do país são contextualizadas para demonstrar a crescente polarização do país.

Esta polarização, a política doméstica, e seus impactos nas relações internacionais, o peso da religião e da Guerra Global Contra o Terror na sociedade estadunidense e seu sistema partidário são o objeto da reflexão em “God wants me to be President: o Papel do Cinturão Bíblico na Política Contra o Terror Durante os Governos de George W. Bush”, de Filipe Almeida do Prado Mendonça & Gabriel de Almeida Ribeiro, respectivamente Professor Adjunto do Instituto de Economia e Relações Internacionais da Universidade Federal de Uberlândia e Mestrando do Programa de Pós-Graduação em Relações Internacionais da Universidade Federal de Uberlândia.

De um ponto de vista mais específico, Carlos Gustavo Poggio Teixeira & José Felipe Calandrelli Professor do curso de Relações Internacionais da PUC-SP e do Programa de Pós-Graduação em Relações Internacionais San Tiago Dantas (PUC-SP/UNESP/UNICAMP), coordenador do Núcleo de Estudos sobre a Política Externa dos Estados Unidos (NEPEU e Graduando em Relações Internacionais pela PUC-SP, pesquisador do Núcleo de Estudos sobre a Política Externa dos Estados Unidos (NEPEU) avaliam a trajetória do neoconservadorismo e a sensível avaliação do que Donald J. Trump representa neste espectro político em “Donald Trump e o Neoconservadorismo”.

Adiante, as contradições Trump e o fenômeno eleitoral a ele associado são também avaliados por Fernanda Magnotta & Victor Grinberg, em “Trump: Mídia, Opinião Pública e a Espiral do Silêncio” indicando a importância do papel da mídia no pleito de 2016. Os autores são respectivamente Mestre e Doutoranda pelo PPGRI San Tiago Dantas (UNESP/UNICAMP/PUC-SP), coordenadora do curso de Relações Internacionais da FAAP e pesquisadora do Núcleo de Estudos e Análises Internacionais (NEAI) e do Núcleo de Estudos sobre a Política Externa dos Estados Unidos (NEPEU) e Especialista em Mídia, Política e Sociedade pela Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo (FESP-SP), certificado em estudos de Marketing Digital e professor de Relações Internacionais e Ciências Econômicas da FAAP.

Fechando o dossiê, Corival Alves do Carmo Professor do Departamento de Relações Internacionais da Universidade Federal de Sergipe e Mestre em Economia pela Unicamp, debate um dos tópicos mais latentes, contraditórios e eficientes da agenda de campanha presidencial em “Donald Trump: a resposta norte-americana aos efeitos desestabilizadores da globalização do capital: as críticas à globalização e os impactos econômicos que esta agenda poderá ter para o elemento econômico da hegemonia do país.

A partir deste conjunto de artigos espera-se oferecer uma importante contribuição aos estudos sobre Estados Unidos, nação muito comentada, mas pouco conhecida ainda em suas especificidades. Com isso, a revista Esboços abre novas perspectivas de debate, reforçando seu papel acadêmico na promoção do diálogo interdisciplinar na história, na sociologia, na ciência política e nas relações internacionais.

Cristina Soreanu Pecequilo.

Organizadora

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Quando Clio encontra as ‘sexualidades disparadas’ / Esboços / 2016

Diante do atual cenário nacional, marcado pelo aumento dos casos de violência contra gays, lésbicas, travestis e transexuais (no momento em que escrevemos o jovem Diego Vieira Machado, estudante da UFRJ, foi encontrado morto no campus daquela universidade, vítima de homofobia) e pelo recrudescimento de políticas importantes para a comunidade LGBT, por exemplo, a aprovação do PLC 122, projeto de lei que criminaliza a homofobia (relegado ao esquecimento no governo de Michel Temer), é imperativo refletirmos sobre as “sexualidades disparatadas” (o termo é tomado de empréstimo de Michel Foucault1 ) e sua visibilidade na disciplina histórica.

O presente dossiê parte desse encontro urgente e esperado entre Clio e as “sexualidades disparatadas”. Se durante décadas, a historiografia invisibilizou essas experiências que, ao longo da história assumiram diferentes denominações e significados, como veremos nos textos a seguir, nos últimos anos, os olhares de Clio voltaram-se para os clamores dos “disparatados”, revelando que as demandas do presente orientam os usos do passado e contribuem para a reescrita da história.2

Assim, o dossiê tem início com o artigo Lesbianismos, cartografia de uma interrogação, no qual Tânia Navarro Swain problematiza os sentidos da “identidade lesbiana”. De acordo a historiadora, num mundo em que o binário heterossexual é a norma, o “lesbianismo pode ser pensado como a recusa do contrato sexual instituído pela heteronormatividade”. A opção teórica da autora pelo termo lesbianismo – os movimentos sociais e as pesquisas acadêmicas recentes têm utilizado a categoria lesbianidade como crítica ao caráter patologizador associado à expressão lesbianismo – é explicada como recusa às “injunções masculinas sobre as mulheres e às relações que mantém entre si”. De acordo com Swain utilizar o termo modificando-lhe a conotação usual, permite sua subversão.

O segundo texto, Gênero e sexualidades desbaratadas em dois concílios alto-medievais: um primeiro ensaio de leitura histórica comparada (Braga II e Toleto IV), de Marcelo Pereira Lima busca compreender aspectos do debate sobre as normas acerca da sexualidade no período medieval. Partindo de uma discussão teórica e propondo uma História Institucional do Gênero, o autor lança olhares e levanta questões sobre dois concílios da Igreja Católica e as temáticas das relações conjugais e sexualidades de clérigos nos referidos concílios.

Em seguida, Mário Martins Viana Júnior mostra que, apesar dos estudos sobre as sexualidades não-hegemônicas terem como recorte temporal privilegiado o século XX, é possível escrever uma história de tais experiências nos séculos anteriores. Em Masculinidades plurais na América Portuguesa (Séculos XVI, XVII e XVIII), o historiador analisa a lei (Ordenações régias) como “plataforma delineadora dos gêneros”, explicitando as tensões entre o “masculino ideal”, o “ideal de masculinidade” e as experiências dos sujeitos. Por meio de Diogo Botelha, Governador Geral das “partes do Brasil”, Viana Júnior problematiza as relações que o governador mantinha em seus “aposentos oficiais” e que não estiveram restritas as trocas de missivas oficiais, apertos de mãos ou conselhos deliberativos.

Em Artes de Acontecer: viados e travestis na Cidade do Rio de Janeiro, do Século XIX a 1980, Rita de Cassia Colaço Rodrigues estabelece um diálogo entre o “método indiciário” com a perspectiva da “história vista de baixo” para analisar a presença de sodomitas, bagaxas, travestis, transformistas e homossexuais masculinos na cidade do Rio de Janeiro, do século XIX à década de 1980. Os espaços de sociabilidade e sexo, conquistados pelos sujeitos subalternizados, configuraram-se práticas de resistência e redes de solidariedade, “capazes de melhor responder à desigual correlação de forças presente na sociedade ampliada, refratária à sua forma de desejo, estilo pessoal e de gênero”, define a autora.

A historiadora Renata Rodrigues Brandão em seu artigo Revolução sexual e sexualidades “ex-cêntricas”: análises das práticas discursivas sobre “identidades sexuais” em revistas brasileiras (1969-1979) aborda a construção das “identidades sexuais” nas revistas Ele Ela, Nova, Playboy e Homem: a revista do playboy. Por meio dessas publicações a autora discute as noções de feminino e masculino em plena ditadura civil-militar brasileira.

O mesmo contexto histórico é analisado por Fábio Henrique Lopes, porém, para refletir sobre experiências que forjaram e possibilitaram a constituição da travestilidade e das subjetividades travestis no período. Em Travestilidades e ditadura civil-militar brasileira: apontamentos de uma pesquisa, Lopes cruza categorias como travestilidade, violências, repressão e censura deixando explícitas dimensões das experiências trans (travesti e transexual) ainda presentes na contemporaneidade.

As experiências trans são temas ainda de análise dos artigos que finalizam o dossiê. Em “O fenômeno Roberta Close” e as “sexualidades periféricas” no centro da cena público-midiática. Fortaleza, Ceará (1980), Elias Ferreira Veras, coloca em debate as discussões sobre homossexualidade, travestilidade e transexualidade surgidas na imprensa da capital cearense em decorrência do “fenômeno Roberta Close”. Mais do que revelar o corpo nu da jovem transexual, o historiador aponta que a repercussão midiática em torno da modelo também contribuiu para colocar em cena as “sexualidades periféricas”.

O texto “Trans-historizar” o espaço público dentro e fora da academia: desafios para a historiografia e para o feminismo?, de autoria de Ana Maria Veiga e Morgani Guzzo mostra que, apesar da permanência social de visões estereotipadas que reforçam preconceitos e violências, os homossexuais e as pessoas trans ocupam na atualidade outros espaços, como às universidades, os cargos públicos e as representações de conselhos e associações. As historiadoras analisam a conquista desses novos lugares na primeira década do século XXI como acontecimento que possibilita o empoderamento dos sujeitos em “situação de margem”.

O historiador Eduardo Meinberg de Albuquerque Maranhão finaliza o dossiê com o texto Quando Clio encontra Hermafrodito e Tirésias, mas Narciso está no caminho: reflexões a partir de história oral em ministérios de “cura” de travestis. No artigo, em que expõem as tensões entre “pesquisadorxnativx”, Maranhão conjuga etnografia e história oral com pessoas transgêneras, ex-transgêneras e em “outras situações não-cisgêneras” para refletir sobre a apropriação que esses sujeitos fazem dos discursos religiosos, principalmente, das igrejas inclusivas e de missões de “cura e libertação”.

Os textos reunidos no presente dossiê são indícios de uma produção historiográfica recente e ousada, marcada pelo uso criativo de fontes tradicionais (mais do que a ausência de fontes, os silêncios da história acerca das “sexualidades disparatadas” pode ser explicado como um silêncio político3 ); pelo privilégio do século XX como recorte temporal (em parte, por este testemunhar a politização da patologização das “identidades sexuais”); pelo registro da pluralização das experiências disparatadas (o termo homossexualidade e a sigla LGBT representam um recorte histórico recente nesse cenário sexual e político).

Desse modo, os artigos são convites a pensar outras histórias, que a despeito das transformações epistemológicas empreendidas pelos dois principais paradigmas históricos do século XX – Annales e Marxismo – permanecem não escritas; a romper com o “regime heterossexual” – para evocar Monique Wittig4 – que ainda marca a disciplina histórica no século XXI; a escrever histórias que também sejam ontologias críticas do presente, do que somos e do que podemos nos tornar a ser.

Finalizamos esta apresentação, agradecendo às professoras Joana Maria Pedro e Cristina Scheibe Wolff, da Universidade Federal de Santa Catarina – UFSC, por acreditarem nesse projeto; aos professores Alexandre Busko Valim e Márcio Roberto Voigt editores da Esboços, assim como aos demais integrantes da Revista, pela acolhida e apoio; à Kelly Cristine Cordeiro, pela arte da capa; e, finalmente, aos autores e às autoras, por compartilharem conosco seus olhares sobre Clio e as “sexualidades disparatadas” possibilitando-nos outras histórias.

Que esse trabalho coletivo desperte leituras prazerosas e inspiradoras!

Natal, Assú/RN, Julho de 2016.

Notas

1 FOUCAULT, Michel. História da sexualidade: a vontade de saber. Rio de Janeiro, Graal, 2009.

2 VERAS, Elias Ferreira; PEDRO, Joana Maria. Os silêncios de Clio: escrita da história e (in)visibilidade das homossexualidades no Brasil. Revista Tempo e Argumento, Florianópolis, v. 6, n.13, p. 90 ‐ 109, set./dez. 2014.

3 NAVARRO-SWAIN, Tânia. História, construção e limites da memória social. In: Margareth RAGO, Margareth; FUNARI, Pedro Paulo. (Org.). Subjetividades antigas e modernas. São Paulo, Annablume, v. p. 26-45, 2008.

4 WITTIG, Monique, El Pensamiento heterosexual y otros ensayos, Madrid, Egales, 2006.

Durval Muniz de Albuquerque Júnior – Universidade Federal do Rio Grande do Norte – UFRN. Organizador. Doutor em História pela Universidade de Campinas (UNICAMP) e atualmente professor permanente da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN/Natal) e do Programa de Pós-Graduação em História da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE). Tem experiência na área de História, com ênfase em Teoria e Filosofia da História, atuando principalmente nos seguintes temas: gênero, nordeste, masculinidade, identidade, cultura, biografia histórica e produção de subjetividade. E-mail: [email protected]

Elias Ferreira Veras – Universidade Estadual do Rio Grande do Norte – UERN. Organizador, Doutor em História Cultural pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) e professor da Universidade do Estado do Rio Grande do Norte (UERN/Assú); Pesquisador dos seguintes grupos de estudos-pesquisa: Laboratório de Estudos de Gênero e História (LEGH- -UFSC), Grupo de Pesquisas e Estudos em História e Gênero (GPEHG-UFC) e do Grupo de Estudos Independentes Michel Foucault (GEIMF). E-mail: [email protected]

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Trabalhadores / Esboços / 2015

Repensar el estudio de la clase obrera

“Sólo al tratar de comprender el pasado racionalmente

podemos transformarlo de una masa informe en una plataforma,

o derivar energía del mismo como un Anteo gigantesco

del contacto con su madre Tierra. La máxima que sólo un

involucramiento activo con el pasado puede desarrollar uma

correcta sensación por el pasado es verdad, como lo es a la

inversa, que sólo una familiaridad con el pasado puede darnos

un sentido correcto del presente. No podemos actuar sobre las

cosas que han pasado, pero ellas continúan actuando sobre

nosotros, el pasado y el presente se combinan para hacer el futuro”. [1]

V.G. Kiernan

Este dossier presenta un conjunto de artículos sobre trabajadores en América Latina y en Portugal. En ellos se trata de repensar una serie de problemas en torno a los estudios sobre trabajadores a partir de premisas comunes. En todos los casos el eje que los articula es el problema en torno a clase, género, cultura, politización y por ende conciencia social. Los diversos autores operan con una definición de “clase obrera” derivada, sobre todo, de los marxistas británicos. De ahí que consideren parte de la clase obrera a trabajadores agrícolas, empleados de call centers, comunidades de trabajadores, así como a obreros industriales. Asimismo, los autores consideran los estudios puntales como una ventana que sugiere, y muchas veces cuestiona, nuestras hipótesis historiográficas.

Los enfoques “desde abajo” aportados por los artículos de Mastrángelo, Raimundo y Pisani articulan clase con género para ir delineando las características de esa cultura obrera: Mastrángelo examina como un conflicto específico (la huelga de 1936 en Rio Cuarto, Argentina) revela esa cultura que abarca no sólo a los huelguistas sino también a sus compañeras destacando que las estructuras de sentimiento que la conforman abarcaban al colectivo social. Raimundo, por su parte, contribuye a este proceso comparando dos casos regionales: el de los trabajadores de la ciudad de La Plata con el más conocido y emblemático de los trabajadores de la ciudad de Córdoba. El resultado es más que interesante ya que sugiere que los procesos de politización obrera, que dieron surgimiento al fenómeno denominado “clasismo” en la década de 1970, encuentran sus raíces en patrones culturales comunes. A su vez, Alejandra Pisani utiliza la historia oral para rastrear las pautas culturales de una obrera en Tucumán. La historia de vida que se presenta demuestra que el proceso de politización es un emergente de una tradición obrera contestataria que, en este caso, se articula con una perspectiva de género para dar surgimiento a una conciencia de clase determinada.

Tan interesantes como los anteriores son los artículos de Igor Goicovic, José Benclowicz y João Carlos Louçao. Goicovic estudia la articulación entre los trabajadores agrícolas de una zona en Chile con organizaciones políticas de izquierda. Por su parte Benclowicz demuestra que las organizaciones de desempleados en Argentina, lejos de ser fenómenos radicalmente nuevos, se inscriben en la cultura de los gremios combativos, presentando una continuidad obrera más allá de la realidad de empleo. También Louçao al estudiar a los empleados de call centers en Portugal encuentra una fuerte lucha en torno a la hegemonía de las pautas culturales de estos “nuevos” trabajadores que “transforman el conflicto de clases en un juego de sombras”.

Los estudios anteriores, reunidos en este dossier, son representativos de un fenómeno mucho más amplio que está aconteciendo en los estudios sobre trabajadores. Estos revisten una particular importancia para los procesos históricos de sociedades como las del así llamado Tercer Mundo puesto que, en ese contexto, el movimiento obrero tuvo –y tiene aún hoy– un peso significativo en la estructura económica y social. Como bien señaló Kim Moody [2] hace ya muchos años: “Si bien en los países industrializados la cantidad de obreros como porcentaje de población descendió a partir de 1980, no es así en cuanto a números absolutos. Al mismo tiempo la cantidad de obreros en el Tercer Mundo aumentó considerablemente a partir de la industrialización acelerada de países como México, Brasil, China, India, Tailandia, Corea del Sur, Taiwán, Singapur, Indonesia, Vietnam.“ Esto conlleva a entender que la actividad desplegada por los trabajadores condicionó el desarrollo del capitalismo, aunque no como la clase obrera deseara. De hecho observamos, en el transcurso de su historia, una profunda interrelación entre acción colectiva, poder social, efectividad y conciencia política. Sobre el particular Ellen Meiksins Wood sostiene “…que los conflictos de clase han históricamente estructurado fuerzas políticas sin que necesariamente produzcan organizaciones políticas.” [3] Así, comprender la historia social de los últimos ciento cincuenta años prescindiendo de los trabajadores implica una deformación del proceso histórico nacional. En este sentido, es indudable que las transformaciones realizadas fueron producto de la articulación entre el accionar y el nivel de lucha de la clase obrera y el de otros sectores sociales.

A pesar de esto, un aspecto notable de las últimas décadas del siglo XX, es que la cantidad de estudios históricos que sobre los trabajadores ha sido relativamente escasa, sobre todo si la comparamos con otros temas dentro del contexto latinoamericano: como por ejemplo la historia colonial o la que hace énfasis en el período de la construcción de los estados nacionales. Más aún, se han estudiado golpes de Estado, ciudadanía, democracia, construcción de la nación, y otros temas con la casi total ausencia de los trabajadores. Recién en la primera década del siglo XXI es que ha crecido la cantidad de estudios históricos sobre trabajadores, protagonizados sobre todo por una nueva generación de estudiosos que han realizado nuevas preguntas y han desarrollado nuevas perspectivas en búsqueda de respuestas.

En gran medida, en América Latina, la modificación de esta actitud ha tenido que ver con el reconocimiento recibido por la obra de Daniel James publicada en 1988. [4] Si bien, varios historiadores se habían dedicado a la historia de los trabajadores y publicado en forma previa, muchos más lo han hecho a partir de ese momento. La característica principal de estos últimos es que son jóvenes, de manera que muchas de las investigaciones tienen que ver con tesis doctorales y primeras investigaciones.Esto es importante, puesto que no sólo muestra posibilidades de gran desarrollo, sino que esta historiografía concentra una serie de interrogantes, perspectivas y aproximaciones que pueden redituar en el futuro en importantes replanteos históricos. La virtud principal de estos estudios es hacerse una serie de preguntas profundas, cuyas respuestas (logradas o no) requieren obligadamente de la interacción con otras ciencias sociales desarrollando el potencial de aproximaciones innovadoras desde perspectivas interdisciplinarias.

Las preocupaciones que trasuntan las investigaciones recientes están entroncadas con el surgimiento y consolidación de una nueva historia social en el ámbito occidental desde la posguerra. A esto contribuyó –en forma decisiva– la renovación de la historiografía y la teoría social marxistas, desarrollada, sobre todo, en Gran Bretaña. En los escritos de esta nueva historiografía obrera se advierte la influencia de las concepciones de Edward P. Thompson, especialmente en lo que hace a su valorización del concepto de “experiencia” y a sus definiciones de clase y conciencia de clase. Este enfoque además se ha nutrido con el concepto de “estructura de sentimiento” de Raymond Williams. También se abasteció con las investigaciones sobre las situaciones políticas y discursivas en que aparecen y retroceden determinados “lenguajes de clase” de Gareth Stedman Jones y los estudios sobre “cultura popular” de Stuart Hall. [5]

Los planteos y sugerencias de la historiografía anglo-sajona han incidido en los estudios recientes sobre la clase obrera. La historiografía previa a 1980 contribuyó significativamente al conocimiento de la estructura de la clase obrera, de las formas de organización y lucha, y de lo que puede denominarse como el mundo político y sindical. Al mismo tiempo tendió a soslayar la experiencia viva y compleja de los trabajadores; su realidad cotidiana en los ámbitos de producción o vivienda; sus prácticas de lucha y de autoorganización. Por lo general se limitaron a indagar sólo sobre los trabajadores agremiados y en el análisis estructural de la sociedad. Asimismo, eludieron, o abordaron en forma superficial, el problema de la conciencia de clase. No es casual que se recurriera allí de una forma muy limitada y pobre a una metodología como lo es la historia oral que tanto puede aportar en la reconstrucción de las prácticas, creencias, sentimientos y proyectos pasados, individuales y colectivos, de los trabajadores. No pocos autores crearon y utilizaron fuentes orales en el tratamiento del movimiento obrero. Sin embargo, cuando lo hicieron fue en torno a la trayectoria de dirigentes sindicales, empresarios, militares o funcionarios; rara vez, centrados sobre activistas o trabajadores de base.

Es en este contexto, marcado por los alcances y límites de la bibliografía, donde debemos insertar el aporte de la nueva historiografía obrera sobre el período en cuestión, en la que la obra de Daniel James es su expresión más profunda debido al corte que ésta representó. Como hemos visto, estaban faltando investigaciones que pusieran como objeto de estudio las experiencias y creencias de los trabajadores, rescatando todos los matices de su práctica social. Se carecía de una literatura específica que abordara como preocupación principal la relación entre la lucha de clases y la experiencia obrera. Se había logrado avanzar en la indagación de los factores económicos y políticos que determinaron la situación del proletariado. Pero este análisis estructural debía ser complementado con otros aspectos vinculados a la cotidianidad de la clase obrera: su respuesta a la ofensiva patronal-estatal y las transformaciones ocurridas en el plano de su conciencia social y de su cultura política, lo cual conduce a reconsiderar la relación entre ésta y los diversos movimientos políticos.

La obra del investigador británico presentó un nuevo enfoque en la historiografía obrera; ella se articuló en torno al objetivo de reconstruir las prácticas, las percepciones y los discursos de los trabajadores, los cuales permitieron recrear a estos como un sujeto histórico colectivo. Es indudable, entonces, que la relevancia de la obra de James está fundada en algo más que en su aporte al conocimiento de un período puntual; este texto operó como legitimizador de toda una nueva y variada producción historiográfica y ha ampliado las posibilidades para la constitución de una nueva tradición interpretativa. De hecho, el libro terminó de instalar el debate acerca de cómo encarar el estudio sobre este sujeto social. Es por eso que su publicación fue señalada como un punto de inflexión en el desarrollo de esta temática. Esta nueva mirada permitió superponer, complementar y quebrar otros enfoques que analizaron a la clase obrera y al movimiento sindical en cada país. James había prestado cierta atención a las relaciones de fuerzas que intervinieron en el desenvolvimiento de la clase trabajadora. Los sujetos sociales, la lucha entablada entre ellos, y no las determinaciones estructurales o ideológicas, fueron los aspectos históricos por él privilegiados. Todo esto reclamó un aparato heurístico alternativo al utilizado tradicionalmente por los historiadores académicos, que se basara no sólo en documentación y archivos oficiales, sino también en fuentes escritas y orales recabadas entre activistas y trabajadores de base. La búsqueda, construcción y utilización de estos testimonios no oficiales, importante desde el punto de vista cualitativo, implicó la consolidación de esta práctica historiográfica innovadora.

James se basó en las categorías teóricas y analíticas de E.P. Thompson. El intento por establecer un balance de la obra y del itinerario historiográfico, teórico y político de Thompson tiene numerosos antecedentes; entre ellos, se destacan los diversos trabajos de Harvey J. Kaye, Meiksins Wood, William H. Sewell Jr., Pedro Benítez Martín y Markus Rediker (todos de disímil profundidad y calidad). A estos deben agregarse los escritos de otros grandes representantes de la intelectualidad marxista inglesa que evaluaron o debatieron la perspectiva metodológica, teórica e histórica del autor de La formación de la clase obrera en Inglaterra, como Perry Anderson, Eric Hobsbawm y Raphael Samuel. [6]

Los supuestos con los que Thompson construyó su contexto teórico son ya clásicos y han sido antes enunciados por autores como Hobsbawm, Anderson y él mismo. Lo que aquí nos interesa es que para éste último, la disciplina histórica sintetizaba pasado y futuro a través del compromiso con el presente, haciendo del sujeto histórico el centro de una indagación que emerge como fruto de ese marxismo ecléctico, más político que teórico, más romántico que racionalista. Lo más rescatable y útil para el historiador de la clase obrera es que Thompson intentó recuperar del olvido el problema de la subjetividad pretendiendo arrancar del marxismo la exuberante maleza del predeterminismo con un espíritu antidogmático ajeno a supuestos teóricos definidos a priori y que reclamó la necesidad de una lectura crítica hasta del propio Marx. Esto lo llevó a un desarrollo teórico que lo colocaba, por momentos, en los límites del propio materialismo histórico.

Dos de los conceptos centrales de la historiografía thompsoniana, los de “clase” y “lucha de clases”, le dieron una identidad propia a sus planteamientos y lo colocaron en el centro de fuertes polémicas teóricas. Frente a los que definían a las clases simplemente como efectos de relaciones económicoestructurales, Thompson recordaba el papel que la cultura, las formas de vida tradicionales y la propia conciencia ejercen en la definición de clase. De ahí es que le dé un peso a este último elemento, cuando sostenía: “una clase no puede existir sin algún tipo de conciencia de sí”. Aquí rescatamos una observación que ya formulara Perry Anderson: el progresivo “culturalismo” que lleva implícita una concepción que cree que la formación de clases es independiente de determinantes objetivos. Thompson nunca aceptó esta acusación y negó que de su obra pudiera surgir la idea que “clase puede definirse simplemente como una formulación cultural”.

Thompson es mucho menos importante por las respuestas que ofreció que por el hecho de que nos obligó a repensar la historia obrera desde una perspectiva innovadora que implicó nuevas hipótesis y también el recurrir a la construcción de nuevas fuentes documentales. En cuanto a la Historia, nos obligó a repensar el concepto heredado del siglo XIX y fue capaz de proponernos, desde su posición comunista y radical, nuevas vías de análisis en, al menos, cuatro direcciones: 1) en el análisis de la lucha de clases; 2) en su concepción de la ‘Historia desde abajo’; 3) en la recuperación de la tradición radical; 4) en la denuncia de todo proceso histórico supuestamente guiado y orientado hacia un progreso ininterrumpido. Inclusive, planteó algo que es particularmente relevante: imaginó a su lector medio como fuera del mundo académico por lo que su historia tuvo ecos insospechados y gozó de una gran relevancia para el activismo de izquierda inglés.

La conceptualización y la obra de Thompson, sin embargo, tuvo múltiples lecturas y ellas mismas presentaron tensiones, contradicciones y problemas irresueltos. Si bien nunca dejó de sostener que las relaciones de producción tienen un papel definitorio en la vida social y que la experiencia de clase está ampliamente determinada por esas relaciones, también es cierto que llegó a plantear, en función de romper con las tendencias ultradeterministas (como la de Althusser) que la clase obrera es una formación tanto cultural como económica, siendo imposible dar alguna prioridad teórica a un aspecto sobre otro. En esta última concepción se apoyaron no pocos historiadores que plantearon nuevos condicionantes y problemas (características de la “vida cotidiana”, cultura, elementos discursivos y simbólicos, uso del tiempo libre, identidades étnicas, de comunidad, de género y otros), desjerarquizando su importancia. Plantearon que la identidad de los trabajadores podía aparecer como descentrada del mundo laboral y podía ser reconsiderada a partir de las condiciones de la vida material que asimilan a los asalariados a otros grupos y sectores. De esta forma, extendieron con tanto empeño las fronteras del estudio de los trabajadores por fuera del universo productivo que acabaron por disolver la categoría de clase obrera en otras, tal como la de “sectores populares urbanos”.

En algunos trabajos que reivindican la perspectiva teórica plasmada por Thompson, se establece un nexo de causalidad entre las innovaciones que suponen el estudio de la clase obrera a través de su concepto de experiencia y el “fracaso del paradigma leninista” en las interpretaciones del movimiento obrero. [7] En verdad, gran parte de los esfuerzos de Thompson se dirigieron a estudiar cómo una clase, a través de la autoidentificación de sus miembros en lucha contra otra clase, se conforma en un sujeto colectivo real. Hay más vínculos entre la concepción de Thompson y el “paradigma leninista”, que entre el primero y el que intenta disolver a la clase en fragmentos condicionados por disímiles situaciones de la “vida cotidiana” o de la cultura. Los dos primeros son intentos de dar cuenta de cómo se construye una clase como fenómeno unitario, el último es un enfoque que apunta a su disolución.

Definir el término “clase” es de por si complejo y ha sido tema de numerosos debates. Para los autores de este Dossier la existencia de las clases sociales es algo real, tangible y vivenciable, más allá de las diferencias culturales o históricas de una nación a otra. La existencia del capitalismo como tal define la existencia de una clase obrera. En este sentido, la clase se define por su relación con los medios de producción. Pero esta relación no es estática, sino dinámica. Un obrero no deja de ser tal automáticamente cuando abandona la fábrica, como bien demuestra Benclowicz. Por el contrario, como señala Pisani, mantiene criterios culturales, solidaridades, aspiraciones y relaciones sociales que tienen que ver con su historia pasada. Lo mismo podemos decir de su familia; si bien los hijos pueden no trabajar sí se encuentran dentro de la clase obrera. Lo concreto es que la definición de clase no es un problema individual, sino colectivo definido por experiencias comunes gestadas a través de las relaciones sociales de producción, por lo tanto la unidad mínima analítica es la familia. [8] Al ser dinámica la relación, implica que los límites en la que los grupos de seres humanos dejan de pertenecer a una clase para convertirse en otra sean difusos, pero no por eso menos existentes.

Parte del problema es la riqueza del fenómeno social que se trata de aprehender y el cómo delimitar el sujeto. Por ejemplo, en las investigaciones de este Dossier, la clase obrera incluye no sólo a los obreros industriales, sino también a los de la construcción, la minería, a los rurales, así como a los desempleados, todos cuyas relaciones sociales de producción son similares. Pero no nos limitamos sólo al proletariado, el estudio también abarca a los trabajadores asalariados no obreros, como por ejemplo a sus familias y a los empleados de los de los call centers. Esto lo consideramos así por tres razones básicas. Primero, porque en el comportamiento social, si bien el proletariado es aislable, en general no actúa y se organiza en forma aislada. Si bien hay varios casos de gremios que agrupan sólo a empleados, muchos de los gremios “de servicios” incluyen sectores de obreros industriales. Asimismo, varios sindicatos “industriales” también organizan a los empleados en esa rama de la industria. Casi todos los gremios estatales abarcan ambos sectores.

Pero además de esta razón existen dos más que están interrelacionadas. La primera es que el capitalismo en sí es un fenómeno histórico dinámico cuyas transformaciones constantes también modifican las estructuras sociales. Aunque las relaciones sociales de producción y lo que producen, son diferentes, empleados y proletarios se encuentran cotidianamente sujetos a los criterios de producción capitalista. En este sentido, a partir de 1945, lentamente grandes sectores de empleados se han “proletarizado” y desarrollado pautas sociales y organizativas acordes. El taylorismo, la productividad, la racionalización y los equipos “a la japonesa” se aplican hoy en día en fábricas y en oficinas generando condiciones que tienden a unir empleados y obreros en experiencia. La segunda razón, es que uno de los resultados más importantes del desarrollo del capitalismo en los últimos años ha sido que la diferenciación entre la vida de un empleado y la de un obrero se ha convertido en cada vez menor. El empleado no sólo ha perdido cosas intangibles, pero reales, como prestigio social sino que se ha visto obligado a compartir pautas de sectores proletarios: vecindarios, ámbitos de sociabilización, estilo de vestimentas, entre otras características, a un nivel mayor que en las décadas pasadas. Todo lo anterior no significa que se han borrado las diferencias sociales entre ambos sectores sociales. Estas siguen existiendo y las impone la realidad laboral de cada uno. Y esta no es una distinción banal o meramente analítica, es una distinción vivencial que hacen los propios obreros y empleados. Por todo esto, si bien diferenciamos entre proletarios y trabajadores asalariados, nuestras investigaciones deben tomar a ambos en cuenta y relacionarlos tal como ocurre en la vida real.

De esta manera nos encontramos ante un problema similar con el que se enfrentó hace más de medio siglo Richard Hoggart: “Las personas que recuerdo aún conservan la sensación de pertenecer a un grupo propio […] Sienten que son ‘clase obrera’ en gustos y costumbres, en que ‘pertenecen a ella’. Esta distinción no resulta muy exacta, pero es importante […] No es fácil distinguir a los trabajadores del resto por la cantidad de dinero que ganan, ya que hay una enorme variación de jornales entre la clase obrera. […] Tratar de aislar a la clase obrera, grosso modo, no implica que no exista gran número de diferencias, matices y distinciones de clase dentro del mismo grupo. […] Es posible, por tanto, generalizar, sin que esto implique que toda la clase obrera coincide en actitudes o creencias respecto al matrimonio o la religión; por otra parte, no hay manera de analizar una cultura sino a través de las constantes de la uniformidad”.[9] Nuestras dificultades teóricas y metodológicas, las insuficiencias de las herramientas para el análisis, no justifican el descartar el concepto de “clase” como una categoría poderosa para el investigador, más allá de sus problemas y complejidades para aprehender un fenómeno social dinámico, cambiante y también complejo. De hecho, hasta el día de hoy es la herramienta teórica que mejor lo describe. En este sentido, los investigadores de este Dossier no comparten los criterios de los que diluyen la cuestión de clase como a aquellos que la convierten en un fetiche.

Por último, debemos aclarar que, a pesar del pensamiento positivista, cada fenómeno histórico no sólo se presta a distintas lecturas sino que puede tener múltiples resultados. La actividad del ser humano no sólo es compleja sino que tiende a plantear soluciones a problemas concretos. Lejos de visiones teleológicas, tratamos de rastrear un proceso histórico rico y contradictorio en búsqueda de las claves no sólo de su desarrollo sino de los desarrollos futuros. Por lo tanto la clase –como protagonista y como objeto/sujeto de estudio– está integrada por el obrero que trabaja y el que se encuentra desocupado y sus familias. La historia social de la clase incluye estudiar a sus hombres y mujeres (nunca hay que perder de vista que también hay obreras mujeres), la familia, la comunidad, la cultura, su ideología, sus identidades políticas. De ahí la importancia de estudiar la cultura, las identidades, redes relacionales, la solidaridad de clase y cómo se manifiesta ésta. En este sentido, se trata de demostrar que en la actividad de los obreros no actúa sólo lo económico sino que están motivados por ideas y valores desarrollados a partir de la totalidad de la experiencia.

Si bien los estudios históricos del período están en un interesante desarrollo que hace complejo definir con precisión tendencias y trayectorias, sí han surgido toda una serie de problemáticas que constituyen líneas de investigación a profundizar. Por ejemplo, temas tales como la conciencia de los trabajadores; su posible autonomía de clase; la articulación entre cultura, conciencia y política; el control obrero de la producción y el surgimiento de formas alternativas de organización. Al mismo tiempo han surgido planteos riquísimos e importantes, como por ejemplo qué constituye la lucha de clases. Así han surgido una serie de interrogantes cuyas respuestas son por demás complejas y que van dando lugar a esquemas analíticos e interpretaciones; todos a ser debatidos. Por ejemplo, ¿siempre lucha la clase obrera? Depende de qué se quiere decir con “lucha”. Si se entienden por esto batallas campales, puño en alto, con contenido implícitamente revolucionario es evidente que no. Pero si por lucha se entiende toda aquella actividad (económica, social, cultural y política) que al definir la cohesión de una clase la contrapone a otra(s), entonces sí. Es en esta conflictividad obrero-patronal que se forja una experiencia cotidiana dialéctica que hace al movimiento de la historia de los trabajadores. Similares apreciaciones se pueden problematizar sobre el tema de la conciencia. ¿Siempre son conscientes los trabajadores? Una vez más: depende de como se enfoque el tema. Si la conciencia es vista como un progreso lineal positivista hacia un ideario predeterminado, entonces no. Pero tampoco se la puede ver como algo estancado, si no más bien como algo en permanente movimiento, con altibajos, latencia y explosiones, y en referencia permanente a otras clases sociales. Todo esto implica que la historia obrera –observada en movimiento– debe lograr una cuidadosa, y difícil, articulación entre las relaciones de producción y la cultura.

Notas

1. KIERNAN, V.G., “Notes on Marxism in 1968”; en Ralph Miliband y John Saville, eds. The Socialist Register 1968 (Londres, 1968), p. 182. La cita original es: “It is only by trying to comprehend the past rationally that we can transform it from a shapeless mass into a platform, or draw energy from it like the giant Antaeus from contact with his mother Earth. The maxim that only active involvement in the present can develop the right sense of touch for the past is a true one, but so is the converse, that only familiarity with the past can impart the right touch for the present. We cannot act on things gone by, but they continue to act on us, and past and present combine to make the future”.

2. MOODY, Kim Workers In A Lean World.Unions In The International Economy. London: Verso Books, 1997. Pg. 186

3. WOOD, Ellen Meiksins. The retreat from class. A new ‘true’ socialism. Londres: Verso, 1986, p.97.

4. JAMES, Daniel. Resistance and Integration. Peronism and the Argentine Working Class, 1946-1976. London: Cambridge University Press, 1988.

5. Una visión de la historiografía marxista inglesa en Harvey J. Kaye. Los historiadores marxistas británicos. Un análisis introductorio. Zaragoza: Universidad, Prensas Universitarias, 1989. También véase: THOMPSON, Edward P.: La formación de la clase obrera en Inglaterra. Barcelona: Crítica, 1984; Raymond Williams. Marxismo y Literatura. Barcelona: Península, 1980; Gareth Stedman Jones. Lenguajes de clase. Estudios sobre la historia de la clase obrera inglesa (1832-1982). Madrid: Siglo XXI, 1989; Stuart Hall: “Notas sobre la deconstrucción de ‘lo popular’”; en Raphael Samuel (ed.). Historia Popular y Teoría Socialista. Barcelona: Crítica, 1984.

6. PALMER, Bryan. E.P. Thompson. Objections and Oppositions London: Verso Books,1994.

7. CANGIANO, María Cecilia, “Pensando a los trabajadores: la historiografía obrera contemporánea. Argentina entre el dogmatismo y la innovación”; Boletín del Instituto de Historia Argentina y Americana “Dr. Emilio Ravignani” No. 8, (Buenos Aires: Facultad de Filosofía y Letras, UBA, 3ra serie, 2do semestre de 1993). Mirta Zaida Lobato y Juan Suriano. “Trabajadores y movimiento obrero: entre la crisis de los paradigmas y la profesionalización del historiador”; Entrepasados, Revista de Historia, Año III, Nº 4-5, fines de 1993. Según Cangiano, la aparición del libro de James, Resistencia e integración. La clase obrera y el peronismo, 1945-1976 (sic), no puede explicarse sin “el fracaso y la derrota del proyecto revolucionario marxista leninista de los años setenta” en Latinoamérica (pág.118). Sin embargo, la autora no expone ninguna prueba para avalar esta hipótesis explicativa sobre la génesis y el contexto en el que surge la obra de James. Suriano-Lobato encuentran retrospectivamente un aval a su planteo de la imposibilidad de compaginar el análisis de la lucha de clases con el tradicional “paradigma leninista”: es una cita de Federico Engels de 1895, referida a las dificultades en torno a las esperanzas revolucionarias y los resultados concretos.

8. SWEEZY, Véase Paul. “La clase dirigente norteamericana”, en Paul Sweezy. Capitalismo e imperialismo norteamericano. Buenos Aires: Merayo Editor, 1973. Este artículo fue publicado originalmente por Monthly Review en mayo y junio de 1951. Allí expresa: “La unidad fundamental de integración de una clase es la familia y no el individuo. La prueba de ello es sencillamente que cada uno nace dentro de una determinada clase, la clase a la cual pertenece su familia. […] El nouveau riche nunca es plenamente aceptado en su flamante ubicación social y el hombre que pierde su posición nunca llega a aceptar totalmente la variante. Son solo las familias las que en cada caso, y con el correr del tiempo, realizan el ajuste.”

9. HOGGART, Richard. La cultura obrera en la sociedad de masas. México: Grijalbo, 1990, pp. 30-33

Pablo Pozzi – (UBA). Organizador.

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Brasil na Segunda Guerra Mundial / Esboços / 2015

Por uma história social dos brasileiros na Segunda Guerra Mundial

Um dos temas de maior crescimento na historiografia brasileira contemporânea é aquele relativo ao envolvimento do país na Segunda Guerra Mundial. Esse envolvimento assumiu diversas formas, que foram estudadas ao longo de setenta anos de esforços historiográficos de pesquisadores civis e militares, brasileiros e estrangeiros. O desenvolvimento dessa historiografia, porém, não foi linear, e por décadas ficou relegado a um plano secundário. Somente nos últimos trinta anos é que esse campo de estudos ganhou vitalidade, com maior quantidade de pesquisas originais e melhor qualidade das abordagens.

No aniversário de setenta anos do final desse conflito, a Revista Esboços abriu o dossiê “O Brasil e a Segunda Guerra Mundial”, que contou com a participação de oito pesquisadores, oriundos de diversas instituições do Brasil e dos Estados Unidos, para a abordagem de temas variados, que expressam a vitalidade dos estudos mais recentes sobre essa temática. Os artigos contidos neste dossiê apresentam algumas das facetas mais promissoras dos estudos do tema: neles, estão presentes desde abordagens originais sobre tópicos com sólida tradição de pesquisa, como é o caso das relações internacionais constituídas no ambiente anterior à guerra, durante o conflito e seus desenvolvimentos posteriores, até os resultados de pesquisa sobre temas pouco estudados, como os influxos da política internacional no cotidiano brasileiro durante o conflito, o relacionamento diplomático entre o Brasil e o “inimigo” alemão antes do início das hostilidades, as negociações entre militares estadunidenses e brasileiros no provimento da alimentação na frente de combate, as relações raciais nas unidades expedicionárias e, por fim mas não menos importante, as diversas formas de constituição de memórias históricas sobre a participação do Brasil no conflito, através de estudos sobre o impacto da presença brasileira na Itália e da filmografia ficcional e documentária a respeito da participação na maior guerra da história da humanidade. O Dossiê é encerrado com um balanço da produção bibliográfica sobre a participação brasileira na Segunda Guerra Mundial, debatendo o desenvolvimento da historiografia do tema, desde os anos imediatos do pósguerra até os dias de hoje, bem como suas tendências atuais e os desafios para pesquisa e publicação do tema.

Entre as modalidades de participação na guerra, os estudos da política externa brasileira e das negociações diplomáticas e militares com representantes civis e militares dos Estados Unidos, Alemanha, Inglaterra, Itália, bem como o contraponto necessário das aspirações geopolíticas dos vizinhos sul-americanos, especialmente a Argentina, constituíram um dos campos de estudo mais abordados por historiadores, cientistas políticos, jornalistas, diplomatas e militares. Neste sentido, o artigo “The Rise and Fall of the Brazilian-American Military Alliance, 1942-1977”, do brasilianista Frank D. McCann – autor de clássicos como A Aliança Brasil-Estados Unidos, 1937-1945, A Nação Armada e Soldados da Pátria1 – aborda as relações entre brasileiros e estadunidenses em um contexto de duração mais longa, situando a aliança militar e política efetuada durante a guerra como um processo crucial e definidor daquelas relações, mas sujeito a significativas mudanças ao longo de quatro décadas, que culminaram com crises e tensões no ocaso do regime estabelecido com o golpe militar-civil de 1964. Com efeito, as alianças de interesses estadunidenses e brasileiros que criaram as condições para a deposição de João Goulart e a instauração de um governo de cunho autoritário estiveram, no desenvolvimento do regime militar, muito distantes de serem harmônicas e/ou de dependência, como o senso comum costuma supor. Pelo contrário, as diferentes projeções de poder regional e hemisférico, bem como as divergências sobre decisões de política internacional colocaram, frequentemente, Brasil e Estados Unidos em campos diferentes, senão opostos. O estudo de McCann problematiza esse longo processo de constituição, consolidação e crise da aliança forjada durante a Segunda Guerra Mundial.

Se com os Estados Unidos as relações foram desenvolvidas sobre a égide da aliança, no caso das ligações diplomáticas e comerciais entre Brasil e Alemanha as relações evoluíram inversamente: de parceria comercial privilegiada para a ruptura. O estudo “As relações diplomáticas entre Brasil e Alemanha em 1939 no alvorecer da II Guerra Mundial”, de Andrea Helena Petry Rahmeier, desenvolve reflexões, a partir do estudo da documentação diplomática alemã, sobre um dos momentos cruciais dessas relações, que foi o período em que, a despeito de não haver embaixadores brasileiros e alemães em serviço oficial durante parte do ano de 1939, houve comércio entre os dois países e tratativas de compra de armas e equipamentos alemães para o Brasil. Nesse sentido, o bloqueio naval britânico do comércio com a Alemanha foi mais decisivo para reduzir as relações entre Brasil e Alemanha do que as pressões diplomáticas internacionais ou as divergências entre alemães e brasileiros em relação à repressão das atividades de células do Partido Nazista no sul do Brasil.

Com a eclosão da guerra na Europa, a partir de setembro de 1939, a posição de neutralidade brasileira sofreu cada vez mais pressões, por parte dos Aliados, especialmente dos Estados Unidos. O comércio de produtos estratégicos e a cessão de bases aéreas e navais brasileiras para uso de transporte de tropas, armamentos e suprimentos dos Estados Unidos, deixaram cada vez mais evidente o direcionamento da política externa do país para a causa Aliada. Esse rompimento progressivo da neutralidade brasileira redundou na decisão de ataque de submarinos do Eixo a embarcações do país e de outras nações que transportassem matérias-primas ou produtos industrializados para o esforço de guerra Aliado.

Foi nesse momento em que a busca por informações que pudessem redundar em sabotagem ou mesmo ações de guerra produziu um combate tenaz de espionagem e contraespionagem em várias localidades do Brasil. O estudo de Alexandre Fortes, “A espionagem aliada no Brasil durante a Segunda Guerra Mundial: cotidiano e política em Belém na visão da inteligência militar norte-americana”, lastreado na documentação original de agentes da inteligência militar estadunidense em Belém, Pará, entre maio e novembro de 1942, desenvolveu uma notável reflexão sobre vários aspectos das atividades de órgãos de informação estadunidenses no Brasil, que estavam à parte das relações oficiais entre dois países. O autor analisa as ações desses serviços de informações, as disputas internas entre agências de inteligência, as relações pouco operacionais entre órgãos de inteligência e pessoal militar estadunidense. Para esses agentes, tudo servia para traçar um levantamento dos perigos a serem enfrentados e sabotagens a serem evitadas: os informes pautados em meios pouco ortodoxos, como conversas de bares, zonas de meretrício, comércio atacadista e de varejo, militares e civis boquirrotos, etc. Além dessas questões, o artigo oferece uma viva descrição do ânimo da população da capital paraense e sua mobilização para a guerra, o que desencadeou até motins populares contra qualquer coisa que representasse o Eixo. A escolha desse inimigo comum, porém, produziu efeitos colaterais, como graves violações dos direitos dos identificados, correta ou incorretamente, como “súditos do Eixo”, que serviram, muitas vezes, como bodes expiatórios da indignação popular em relação a uma guerra distante.

Essa guerra tão distante foi combatida efetivamente por uma força expedicionária enviada para o Teatro de Operações da Itália como coroamento maior da aliança entre Brasil e Estados Unidos para a guerra, processo esse abordado por Dennison de Oliveira em um de seus aspectos mais originais: a alimentação dos soldados da Força Expedicionária Brasileira (doravante, FEB). Não se trata de um problema de menor importância. Em todas as guerras da história a logística constituiu parte fundamental da vitória e derrotas militares. Fazer chegar até o soldado os meios para combater com eficiência – armas, munição, equipamento, suprimentos, etc. – é decisivo numa guerra. No caso da Segunda Guerra Mundial, uma guerra vencida e perdida não apenas nos campos de batalha, mas nas linhas de produção das frentes internas, nas linhas de comunicação e suprimentos, e na qual os diversos organismos de apoio na retaguarda ocuparam mais homens do que as forças efetivamente combatentes, esse tipo de estudo é essencial2. E no caso da FEB, o artigo “O combatente melhor alimentado da Europa”: a alimentação da Força Expedicionária Brasileira e a aliança Brasil-EUA durante a Segunda Guerra Mundial” contribui decisivamente para o entendimento desse aspecto da estrutura de combate usada pelos brasileiros. Além do mais, baseado em fontes documentais tanto dos Estados Unidos quanto do Brasil, esse estudo permite a compreensão de facetas inéditas das tensões e acomodações das relações militares entre brasileiros e estadunidenses durante a Campanha da Itália, entre os expedicionários e a população das localidades em que a FEB atuou e até mesmo as transferências e trocas culturais dos dois padrões alimentares, ou três, se incluirmos a cultura alimentar italiana.

A guerra não é, portanto, somente um embate bélico, mas também cultural. E quando duas culturas de passado escravocrata e presente mal resolvido de relações raciais se encontravam como aliadas, contra outra cultura que se concebia como representante de uma raça superior, há um paroxismo de contradições. O artigo de Uri Rosenheck, “Olive Drab in Black and White: The Brazilian Expeditionary Force, the US Army and Racial National Identity”, investiga a fundo as diversas contradições existentes entre as relações raciais praticadas pelas forças armadas estadunidenses na Itália, principalmente a 92ª Divisão de Exército – totalmente segregada e composta por praças e oficiais subalternos e negros e comandada por oficiais brancos – e a única tropa tida como não racialmente segregada da Segunda Guerra Mundial, a FEB. O contraste de tratamento entre as duas unidades vizinhas proporcionava aos brasileiros uma autoimagem positiva, o que alimentou o mito de que viviam, no país e na Campanha da Itália, em uma realidade social isenta de racismos3 . Na abordagem das relações raciais dentro da FEB, além de ter discutir relatos de ocorrências racistas em memórias escritas por veteranos expedicionários, Rosenheck incluiu um elemento original: as dezenas de histórias em quadrinhos das décadas de 1960 e 1970, que possuem a FEB como tema principal. Destinadas a um público jovem e com tiragens cinco a dez vezes maiores que qualquer livro sobre a FEB, essas histórias em quadrinhos mostram, aos olhos do pesquisador, como uma memória da FEB foi constituída de modo a valorizar a suposta ausência de racismo na tropa brasileira, e ao mesmo tempo efetuar um processo de “branqueamento” da imagem expedicionária.

Os embates sobre a construção das memórias a respeito da participação dos brasileiros na guerra têm sido abordados por vários historiadores nas duas últimas décadas, e neste dossiê a contribuição de Adriane Piovezan, “Lembrar e esquecer: registro de visitantes do Monumento Votivo Militar Brasileiro de Pistoia” é original e oportuna, não apenas porque aborda a construção de um “lugar de memória”, mas também porque procura entender os distintos significados proporcionados pelos visitantes do conjunto monumental votivo situado no antigo Cemitério Militar de Pistóia, na Itália. Analisando os comentários escritos no livro de assinaturas do monumento, Piovezan mostra os diversos significados que o sacrifício dos combatentes representa para os pósteros, como gratidão, orgulho nacional, patriotismo, por um lado, e críticas ao esquecimento dos expedicionários ou mesmo manifestações de desconhecimento do contexto do monumento e de seus homenageados, por outro. Há também uma nítida divisão entre os escritos emitidos por visitantes civis e por militares. Esses últimos ressaltam qualidades como a bravura, os preceitos do Exército, o orgulho pelos heróis e até pelo pertencimento pesssoal à instituição militar.

A tensão permanente entre os diversos significados da guerra combatida pelos brasileiros está presente na filmografia analisada por Cassio dos Santos Tomaim, em seu artigo “Por que filmar a nossa guerra? A Segunda Guerra Mundial no cinema brasileiro: panorama histórico de 1940 a 2015”. O autor efetuou um extensivo levantamento de filmes documentais, de ficção, cinejornais e de propaganda, incorporando na relação de filmes não apenas os longas-metragens, mas também os filmes de média e curta metragem, chegando ao total de 260 filmes, entre 1940 e 2015. Ressaltou que o período em que o Brasil estava na guerra foi o mais prolífico, com 169 filmes produzidos somente entre 1942 e 1945, o que coincidiu com o esforço de guerra do país. Os anos seguintes são caracterizados pelo desinteresse do cinema brasileiro pela Segunda Guerra, com poucas obras. A partir das décadas de 1960/1970 algumas obras cinematográficas retomam a temática, que inclui alguns documentários e filmes de ficção. Um ponto notável é que os filmes de ficção sobre a participação na guerra não se limitam às ações bélicas, mas abordam outros temas, como o retorno dos combatentes, a caça aos nazistas no pós-guerra, as relações entre Nazismo e Integralismo, a saga de famílias judaicas refugiadas do nazismo no Brasil, o cotidiano das bases estadunidenses no nordeste brasileiro, a “americanização” dos costumes, etc.

Há, porém, iniciativas polêmicas, como o documentário “Radio Auriverde”, que investiu contra o que foi entendido como uma memória institucional das forças armadas. Independentemente do juízo de valor que se tenha sobre “Radio Auriverde”, trata-se de um filme que estimulou outros documentaristas e cineastas a proporem respostas às inquietações despertadas pelo documentário em questão. Um dos veios mais fecundos foi o dos “documentários de memória”, baseados nos depoimentos dos veteranos de guerra e de protagonistas dos processos históricos por eles vivenciados. Outro conjunto de filmes, documentários e de ficção, abordado por Tomaim, é o de processos históricos pouco conhecidos, como a perseguição às comunidades de “súditos do Eixo” nas cidades brasileiras, o impacto dos torpedeamentos dos navios mercantes, a epopéia trágica dos “soldados da borracha” na Amazônia e a história dos grupos de nipo-brasileiros que não aceitavam a derrota do Japão. Por fim, alguns filmes de ficção, com tratamento técnico e dramatúrgico mais elaborado, têm sido produzidos nos últimos anos, como é o caso de Estrada 47. No entanto, apesar da qualidade cinematográfica, há polêmicas despertadas pelo roteiro que, colocaria em campos opostos aqueles que desejariam um tratamento mais “respeitoso” aos expedicionários, por um lado, e aqueles que entendem que as ações dos brasileiros na Campanha da Itália devem ser vistas com uma perspectiva crua e realista. Em suma, todas as polêmicas a respeito dos significados da participação brasileira na guerra mostram que esse é um tema longe de ser esgotado.

O dossiê é encerrado com o artigo “Considerações historiográficas sobre a participação brasileira na Segunda Guerra Mundial: balanço da produção bibliográfica e suas tendências”, de Francisco César Alves Ferraz, que consiste no levantamento e análise da produção bibliográfica sobre a participação brasileira no conflito, desde o imedato pós-guerra até os dias de hoje. Para tanto, foi efetuado levantamento de várias modalidades bibliográficas, como artigos de periódicos científicos e de divulgação científica, periódicos profissionais militares, livros autorais, coletâneas, capítulos de livros, trabalhos de conclusão acadêmicos (teses de doutorado e livre-docência, dissertações de mestrado, monografias selecionadas) e trabalhos completos publicados em anais de eventos científicos. Foram arrolados na pesquisa 1092 títulos, o que contraria uma crença comum de que a participação brasileira na guerra nunca gerou muito interesse da historiografia universitária ou do mercado editorial. Pelo contrário, esse volume grande de títulos e, principalmente, o fato do aumento da produção e sua variedade concentrar-se nas últimas três décadas – mais da metade de toda produção bibliográfica foi publicada nos últimos 26 anos, e quase um terço de toda a bibliografia nos últimos dez anos – mostram que trata-se de um dos temas que tem atraído mais interesse dos pesquisadores atualmente.

Esses títulos foram analisados estatisticamente, por blocos temáticos, por período de publicação e por natureza profissional militar ou “civil” das publicações. Foram verificadas as tendências históricas das publicações, registrando-se a concentração de alguns temas em períodos determinados, o “esquecimento” do tema em certos momentos e, nos últimos trinta anos, o notável crescimento do interesse na produção e edição de obras variadas sobre a participação brasileira no conflito, bem como a variedade também crescente dos temas estudados e das abordagens adotadas. Além dessa análise, o artigo discute alguns problemas práticos da pesquisa e da política editorial dessa área de estudo.

Concluindo, pode-se verificar, nessa pequena amostragem de iniciativas historiográficas sobre o tema, que é o presente dossiê, que a participação brasileira na Segunda Guerra Mundial produziu e tem produzido um conjunto cada vez mais consistente de trabalhos, com temáticas e abordagens variadas, aproximando o que antes era terreno restrito a uma história militar de interesse institucional, de uma história rica, multifacetada e de interesse de toda a sociedade. Em outras palavras, cada vez mais próximo de uma história social da participação dos brasileiros na Segunda Guerra Mundial.

Notas

1 McCANN, Frank. The Brazilian-American Alliance, 1937-1945. Princeton Princeton University Press, 1973 (tradução brasileira: Aliança Brasil-Estados Unidos, 1937-1945. Rio de Janeiro: Biblioteca do Exército Editora, 1995); McCANN, Frank D. A Nação Armada. Ensaios sobre a história do Exército Brasileiro. Recife: Guararapes, 1982; McCANN, Frank D. Soldiers of the Pátria: a history of the Brazilian Army, 1889-1937. Stanford: Stanford University Press, 2004 (tradução brasileira: Soldados da Pátria: História do Exército Brasileiro, 1889-1937. São Paulo: Companhia das Letras, 2007).

2 John McMANUS calcula que, na Segunda Guerra Mundial, apenas 25% dos soldados de uma divisão de Exército estadunidense estavam entre os que efetivamente “lutavam, sangravam e morriam” na guerra. Pelo menos 50% do efetivo das unidades desempenhava funções logísticas não-combatentes. Cf. The Deadly Brotherhood: the American combat soldier in World War II. New York: Ballantine Books, 1998, p.04.

3 Essa questão já havia sido abordada anteriormente em OLIVEIRA, Dennison; MAXIMIANO, Cesar Campiani. Raça e forças armadas: o caso da Campanha da Itália (1944/45). Estudos de História. São Paulo, v. 8, n.1, p. 13-53, 2001.

Francisco César Alves Ferraz – Universidade Estadual de Londrina. Organizador.

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Acervos de pesquisa / Esboços / 2014

Acervos de pesquisa fazem parte da rotina de trabalho dos profissionais e estudantes das Ciências Humanas, historiadores, arquivistas, educadores. Pensar como esses territórios de pesquisa são explorados, mas também como são organizados e têm seu acesso disponibilizado ao público, ou ainda como imbricam-se às práticas de investigação feitas sobre seus documentos, parece ser uma tarefa bastante simples. No entanto, a própria concepção de acervo de pesquisa vem passando por transformações ao longo das últimas décadas, principalmente diante das possibilidades e dos desafios lançados pelo domínio da tecnologia de informação, que ganha centralidade na relação entre investigadores, seus objetos e o próprio chão de pesquisa – aqui representado pelos arquivos que comportam esses acervos. Locais misteriosos, máquinas domáveis, observatório social cuja ambiência deve ser desfrutada pela sensibilidade do pesquisador, segundo a análise de Arlette Farge.

Entendendo este debate como imprescindível para se pensar a prática historiográfica e suas relações interdisciplinares, a Esboços – revista do Programa de Pós-Graduação em História da UFSC – oferece ao seu público leitor o dossiê “Acervos de Pesquisa”, que faz dialogar autores e autoras de diversas áreas, entre elas História, Educação, Antropologia e Comunicação. Seus textos transitam entre pesquisas, conceitualizações e práticas de constituição e preservação de acervos, também elaboram sua contribuição no processo de construção do conhecimento científico e ainda discutem as vantagens e os desafios tanto da salvaguarda do material quanto das possibilidades e meios de sua divulgação aos pesquisadores e ao público mais amplo.

A proposta temática deste dossiê surgiu das inquietações de suas organizadoras diante das demandas atuais de se pensar os contornos da pesquisa histórica nos últimos anos e a necessidade de se guardar um tempo/espaço de autorreflexão sobre o fazer historiográfico e seus entrelaçamentos. O ritmo vertiginoso das descobertas e inovações tecnológicas nos remetem à ideia de uma aceleração no próprio tempo da pesquisa, que resulta dinamizado com a informatização de boa parte dos acervos de pesquisa, com esforços para lançar também nossas práticas à contemporaneidade dessas inovações que, por um lado, podem otimizar o tempo, mas que não nos deixam perder de vista os cuidados relativos à atenção sobre o material coletado ou produzido, seus meios de armazenamento e disposição para consulta. A perenidade da documentação histórica passa a ser questionada quando sua preservação torna-se dependente de tecnologias informáticas, digitais e seus repositórios, que cada vez mais se tornam virtuais. A coexistência de modalidades diferentes de suportes nos acervos, sua acessibilidade e as transformações que isso acarreta aos métodos de pesquisa nos convidam ao debate e à leitura daquilo que os profissionais/ pesquisadores têm a dizer sobre o tema.

Para oferecer um ponto de partida, sugerimos a leitura dos artigos que se seguem em três eixos distintos e interrelacionados, muito embora os textos não estejam dispostos separadamente na sequência do dossiê, que privilegia a fluência, a compreensão e o diálogo entre os artigos.

O primeiro grupo é composto por artigos que apresentam trabalhos de organização de acervos, historicizando suas composições e apontando os motivos teóricos e metodológicos que balizam a sua organização e apresentação pública.

Nele, encontram-se trabalhos como o de Katya Mitsuko Zuquim Braghini, Raquel Quirino Pinãs e Ricardo Tomasiello Pedro sobre a coleção de instrumentos científicos, objetos didáticos, do Colégio Marista Arquidiocesano de São Paulo, instituição tida como a mais antiga do ensino secundário da cidade. Por meio de dois movimentos narrativos, demonstram como se deu historicamente a constituição de tal coleção, evidenciando as práticas didáticas dos professores no museu escolar e, posteriormente, nos laboratórios científicos; indicam ainda os primeiros movimentos de organização e manutenção da coleção, pensando na ação de inventariação e catalogação das peças, além das dificuldades encontradas para a salvaguarda desse patrimônio, ao mesmo tempo científico e escolar.

Outro texto que dialoga com a organização e manutenção de acervos é o de Lorena Almeida Gill e Beatriz Ana Loner, que historicizam a formação do Núcleo de Documentação Histórica da Universidade Federal de Pelotas – RS, onde estão depositados os acervos da Delegacia Regional do Trabalho, os processos da Justiça do Trabalho da 4ª região, os documentos da Laneira Brasileira S.A, e entrevistas do Laboratório de História Oral (LaHO) daquela universidade. As autoras evidenciam algumas dificuldades de ordem teórica e metodológica para a construção de pesquisas voltadas ao mundo do trabalho. Trata-se da apresentação de documentos guardados por órgãos oficias ou instituições privadas que expressam a visão de quem detém o poder diante da organização do próprio trabalho. Por outro lado, a montagem das pesquisas frente aos documentos esbarra na inoperância de uma correta política arquivística de descarte, assim como na inadequação dos espaços de armazenamento e pesquisa.

O terceiro artigo que dialoga com esse eixo é o de Ana Carla Sabino Fernandes, que trabalha com a ideia de “memória arquívistica” como resultado de uma obsessão pelo arquivo, local cujo estoque material guarda aquilo de que não conseguimos nos lembrar. O arquivo torna-se, para a autora, uma organização política da memória, constituído por lutas de representações, vontade de indivíduos, interesses coletivos, prescrições legais, normativas. Em foco está o Arquivo Público do Estado do Ceará, historicizado a partir da atuação de seu diretor Eusébio Néri de Souza entre os anos 1932 e 1942; destaca-se a forma particularizada de organização do acervo empreendida por ele. A relação entre o principal responsável pelo arquivo e a organização por ele estipulada, não nos deixa esquecer que o resultado de uma pesquisa historiográfica tem a ver com a dominação dos vestígios do poder que estão incrustadas na memória que o próprio acervo guarda.

O eixo seguinte trata da apresentação de resultados de pesquisas ou de projetos em desenvolvimento e sua articulação com arquivos.

Cláudia Beatriz Heynemann registra como a exploração de produtos naturais no Brasil durante o século XVIII, realizada de forma extensiva e objetiva, foi fruto de uma política racionalizada, dentro de um programa ilustrado ibérico. Descobre o processo de construção de uma identidade comum, chamada “luso-tropical”, que perpassa as experiências de viajantes – cientistas, pesquisadores de gabinetes, técnicos, comerciantes, administradores locais, membros de instituições de pesquisa entre Brasil e Portugal -, no conhecimento do mundo natural, na relação entre pessoas e mercadorias. A documentação usada circunscreve a História Natural, com destaque para os documentos da Secretaria de Estado do Brasil, da Provedoria da Fazenda, da Marinha e Domínios Ultramarinos, localizados no Arquivo Nacional.

Outra pesquisa que envolve acervos em relação ao desenvolvimento de projetos é tema do artigo de Marcus Aurelio Taborda de Oliveira, Luísa Cecília Belotti Oscar e Caroline Maria Ferreira Drummond. O artigo trabalha parcialmente o projeto intitulado A educação dos sentidos na história: o tempo livre como possibilidade de formação (entre os anos finais do séc. XIX e os anos iniciais do séc. XXI), desenvolvido na Universidade Federal de Minas Gerais. Trata-se do mapeamento, identificação e catalogação de fontes, destacando os trabalhos feitos no Arquivo Público Mineiro, na Hemeroteca e no Setor de Obras Raras da Biblioteca Pública Luiz de Bessa, e ainda na Biblioteca da Assembleia Legislativa de Minas Gerais. O artigo apresenta o investimento teórico feito em torno de conceitos-chaves ligados ao projeto e ao desenvolvimento de pesquisas científicas do grupo, tais como “sensibilidades”, “sentidos”, “formação”, “educação social”, “tempo livre”, “trabalho”, “labor”, ao mesmo tempo em que aponta para uma organização direcionada e raciocinada das fontes disponíveis na localidade para possíveis e futuras investigações.

Também integra este grupo o texto de Andrea Andújar, da Universidad de Buenos Aires (UBA). A pesquisadora se debruça sobre a história social, marcadamente de tradição marxista e britânica, e os estudos de gênero. Em seu artigo, Andújar percorre um indício oferecido por um militante do Partido Comunista da Argentina (PCA) nos anos 1930, quando este cita Ana Decheff, uma mulher que, de maneira inesperada, dinamiza os questionamentos sobre as relações de gênero na formação da classe operária argentina, mais especificamente na comunidade petrolífera de Comodoro Rivadávia – região da Patagônia. Paulatinamente, a autora nos desvela parte de sua trajetória de pesquisa, que teve bases importantes na história oral, e também suas experiências no confrontamento dos diversos arquivos, fundos e documentos por ela investigados durante a perseguição desse “nome de mulher”. Entre os principais estão o Arquivo Histórico Provincial de Rawson, o Museu Histórico Policial, o Museu Histórico Municipal de Comodoro Rivadávia, o Museu da Yacimientos Petrolíferos Fiscales (YPF) e a Hemeroteca da Universidade Nacional da Patagônia.

O terceiro e último eixo proposto pelo dossiê traz discussões conceituais, pedagógicas e metodológicas sobre a importância e a constituição dos acervos de pesquisa.

Abrindo este conjunto de trabalhos, temos o artigo de Eduardo Victorio Morettin, da Escola de Comunicações e Artes da USP, cujas pesquisas relacionam as áreas da História e do Cinema. Este autor traça um panorama didático em torno dos cuidados que envolvem a pesquisa histórica de imagens em movimento, apontando alguns caminhos e precisões metodológicas promovidas durante a investigação histórica do cinema. O artigo se volta às ponderações em torno da acessibilidade dada pela web, levando em conta sua historicidade; aos cuidados metodológicos, considerando a especificidade do uso de filmes para a pesquisa; ao entendimento da análise fílmica pela observação de um quadro geral mais amplo, histórico, político, cultural, social; à percepção de que acervos fílmicos pensam em preservação, à medida que difundem o passado do cinema. Trata-se, portanto, de uma reflexão em torno de aspectos metodológicos e patrimoniais.

Ana Maria Veiga, da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), propõe uma reflexão sobre “acervos acadêmicos de pesquisa”, como coleções de documentos acumulados e produzidos por grupos e núcleos de pesquisa dentro das universidades ao longo do desenvolvimento de suas próprias investigações. Tais acervos são pouco estudados, tanto como possibilidades de pesquisa histórica, quanto como objeto da arquivística, pensando em seus critérios de guarda, organização e disponibilização de fontes. Sua composição apresenta diferentes documentações, com suportes variados, que podem ser: transferidas de outros arquivos, produzidas pelos grupos, adquiridas por compra ou doação. Portanto, o esforço do artigo se concentra tanto nas discussões teóricas, sobre a relação dos historiadores com os arquivos e o significado destes como instituições, quanto metodológicas, isto é, considerando os elementos técnicos, formais, para a organização de tais documentos e sua respectiva apresentação à comunidade, seja ela acadêmica ou não, o que resulta em um debate político em torno da função social e pública de tais acervos.

Na sequência, o artigo de Andréa Ferreira Delgado e Beatriz Gallotti Mamigonian apresenta a constituição e o funcionamento do Programa Santa Afro Catarina, pensado como ação de ensino, pesquisa e extensão, e que acontece como projeto pedagógico no curso de História da UFSC, por meio do trabalho de três núcleos de pesquisa: Núcleo de Conteúdos Específicos, Núcleo dos Conteúdos Pedagógicos e Núcleo da Prática Profissional. O projeto trata da composição de um acervo sobre a presença de africanos e afrodescendentes na Ilha de Santa Catarina e tem como objetivo estimular a produção do conhecimento histórico, a partir de uma “educação patrimonial”. Busca, por um lado, a valorização e a difusão do patrimônio cultural relacionado à história e à memória dos africanos e afrodescendentes no âmbito de uma história local e, por outro, o questionamento crítico a uma historiografia que materializa as práticas culturais açorianas como únicas vivências constituidoras da identidade histórica na mencionada Ilha.

Por fim, Mário Martins Viana Júnior e Antonio Gilberto Ramos Nogueira, ambos atuando na Universidade Federal do Ceará (UFC), constatam os desafios atuais para a ampliação de um fazer historiográfico criativo, diante da precarização dos arquivos de seu estado e de uma deficiência que percebem na formação de pesquisadores no âmbito da graduação em História. A preocupação do artigo recai, portanto, na formação desses sujeitos e nos apresenta projetos bem sucedidos, organizados com o objetivo de oferecer conhecimento teórico-metodológico em três níveis: o descritivo-organizativo de acervos; o descritivo de documentações voltadas principalmente à escravidão na província do Ceará; o produtivo-organizativo, que se utiliza da metodologia da história oral para a constituição de acervos de memória e a preservação do patrimônio cultural. Registram, com esse trabalho, a ideia de que tais ações favorecem o desenvolvimento de uma “consciência histórica”, que possibilita a autonomia – elemento fundamental durante a construção do objeto de pesquisa.

Com a indicação de algumas chaves de compreensão, sugeridas acima, esperamos que os leitores e leitoras aproveitem o diálogo proposto pelo dossiê, e as reflexões levantadas a partir dele, para pensar o lugar dos acervos de pesquisa em seus próprios trabalhos, tendo em conta as maneiras como podemos situá-los conceitual e metodologicamente. Boa leitura.

Ana Maria Veiga Katya

Mitsuko Zuquim Braghini

Organizadoras


KATYA, Ana Maria Veiga; BRAGHINI, Mitsuko Zuquim. Apresentação. Esboços – Revista do Programa de Pós-Graduação em História da UFSC. Florianópolis, v.21, n.31, p.1-10, ago. 2014. Acessar publicação original [DR].

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História das Relações Internacionais / Esboços / 2014

História e relações internacionais: dois campos em aproximação

As trajetórias da História e das Relações Internacionais parecem ter elementos muito distintos e até antagônicos, como os campos teóricos, o tratamento dado aos atores, a preocupação com os ambientes macro e micro e as funções desempenhadas pelo Estado, pelas empresas, pelo mundo do entretenimento e pelos movimentos sociais. No entanto, essas oposições e distanciamentos deveriam ser menores, em especial quando se trata de um país como o Brasil, cuja inserção no sistema internacional não é a de uma grande potência, sua posição no quadro da divisão internacional do trabalho ainda é assimétrica e a influência desempenhada pelos atores externos é bastante representativa.

A lógica das World Politics engendrada em Washington, Londres, Moscou ou Paris pode sim seguir uma lógica mais interessada em temas como segurança, estratégia militar, organismos internacionais, hard power e o processo decisório em termos de macroeconomia. Afinal de contas, não há como desconsiderar que os chamados países centrais tem interesses globais ou pelo menos muito amplos, e, que, apesar dos insistentes discursos da “globalização” dos mercados, o grande capital ainda se identifica muito mais claramente com alguns atores estatais do que com outros.

Nesse sentido, a função da História das Relações Internacionais pode ter clivagens diferentes. Se para muitos dos conservadores analistas realistas ou liberais que pautaram os interesses das grandes potências como Henry Kissinger, Paul Kennedy, Francis Fukuyama ou Samuel Huntington, a História serve como uma grande ilustração do caminho percorrido pelas grandes potências e entra em estrita consonância com as teorias das Relações Internacionais e seus postulados que muitas vezes são bastante rígidos, em países como o Brasil a História das Relações Internacionais pode ser um instrumento inverso, qual seja, importante reflexão crítica acerca da construção do sistema internacional; questionamento da ordem global defendida pelo “establisment” e uma relevante percepção e análise dos atores corporativos do capital internacional. A História das Relações Internacionais “vista de baixo” poderia e deveria ser muito mais um instrumento contra hegemônico do que a tácita aceitação de uma realidade dada e definida.

Dessa forma, a História das Relações Internacionais pode contribuir, por exemplo, para avaliar as incoerências entre discurso e prática dos atores centrais, para ajudar a desvendar acontecimentos ou processos pouco conhecidos da História Internacional e para inovar e criar alternativas para a transformação do sistema internacional. Ademais, pode ser pensada para descortinar os mecanismos comumente utilizados na disseminação de políticas culturais e educacionais alinhadas com os interesses daqueles atores e criar estratégias para se não confrontar, ao menos amenizar os seus efeitos. Ou será acaso o sistema marcado por imutáveis leis como defendem alguns dos teóricos mais tradicionais?

Outro aspecto marcante das duas áreas de conhecimento diz respeito aos tempos de construção das mesmas. Enquanto a História é vista e reconhecida como disciplina tradicional, de múltiplas épocas, povos e temas, e permeada por um longo e complexo debate teórico e historiográfico, o campo das Relações Internacionais é de desenvolvimento bem recente. As Teorias das Relações Internacionais e os estudos sobre Organizações Internacionais, por exemplo, são quase todas preocupações do século XX em diante.

Obviamente isso não significa que os objetos de estudo das Relações Internacionais não estivessem presentes em tempos muito distantes, como o clássico tema da Guerra e da Paz, tão antigo quanto as memórias e registros dos povos da antiguidade. No entanto, é quase consensual na área que só há um campo de estudos claramente identificado como de Relações Internacionais no século XX.

Isso decorre basicamente da reconfiguração hegemônica do sistema internacional na primeira metade do século XX, permeada pelo que Eric Hobsbawm chamou de a “a era da guerra total” e todas as suas nefastas consequências; da construção de um sistema internacional global  de aproximadamente 200 estados de tipo westhphaliano, por algumas e depois incontáveis organizações e instituições internacionais e pela fase mais complexa e integrada do capitalismo global, em especial a partir da financeirização do sistema no transcorrer do século XX.

Dessa forma, após o desfecho da turbulenta transição hegemônica decorrente da terceira “guerra de 30 anos” entre 1914 e 1945, não havia como negar que haviam nascidos novos temas de estudo e que seria necessária uma disciplina específica atenta a esse contexto. Durante a Guerra Fria, a prepotência teórica de alguns autores realistas das Relações Internacionais chegou a conjecturar que a Política Internacional seria um campo de estudo completamente autônomo, descolado e acima dos demais, e que seria possível estabelecer leis e postulados que valeriam para todos os tempos. Esse tempo passou e a nova transição que vivemos após o final de Guerra Fria parece mostrar mais incertezas do que propriamente a assertividade das leis anteriormente invocadas. Portanto, mais do que nunca as Relações Internacionais e a História precisam se aproximar.

Outra diferença nítida entre História e Relações Internacionais diz respeito às origens dos campos de conhecimento. A História, como referido anteriormente passou por inúmeras batalhas no campo teórico e historiográfico. Desde o século XIX, os debates se intensificaram e a trajetória da disciplina se confunde com as incontáveis perspectivas teóricas. Desde as convicções otimistas e normativas dos positivistas no século XIX, passando pela complexa e ácida crítica da perspectiva marxista, pelas ondas da Escola de Annales e chegando até as negações dos pós-modernos que, em alguns casos, relegaram à disciplina aos campos da ficção e do discurso, a História passou e passa por todas as transformações possíveis de uma disciplina densamente influenciada pelas grandes correntes teóricas desde o Iluminismo até o pós-modernismo e carrega consigo as contradições inerentes e normais a qualquer campo de conhecimento cada vez mais diverso e marcado por incertezas do que pela convicção original de uma ciência concreta e estabelecida.

Curiosamente, essa “batalha” pela História fez muito bem à disciplina e apesar das evidentes e contundentes divergências entre os historiadores, a História tornou-se um campo repleto de contradições mas ao mesmo tempo com uma densidade, profundidade e permeabilidade que são invejáveis a qualquer disciplina que aspira a maturidade.

De outra parte as Relações Internacionais com sua origem recente possuem um campo teórico e metodológico diferente. O núcleo original herdado da Ciência Política, em especial a de corte anglo-saxão, trouxe às Relações Internacionais um rapidíssimo crescimento, uma incrível capacidade analítica e uma objetividade que foi proporcional à sua inserção no campo das ciências sociais e humanas. Em contrapartida, o núcleo central dos debates teóricos permaneceu polarizado entre duas teorias de origem tradicional e conservadoras.

Tanto o realismo em suas múltiplas vertentes, assim como o revisitado e antigo liberalismo ampliado e encorpado pelas teses institucionalistas são sem dúvida duas teorias que remetem a uma percepção conservadora e mantenedora do “status quo”. Tal estado da arte em Relações internacionais não é incoerente com a origem das teorias, qual seja, a primeira uma clara defensora do poder, das grandes potências e da separação entre ética e ação nas Relações internacionais e a outra, apesar de ser sua antípoda nos EUA e países centrais, é uma percepção excessivamente otimista das instituições democráticas representativas tradicionais de corte liberal, das organizações internacionais dominadas de maneira geral pelas grandes potências e de uma visão positiva e imaculada da economia capitalista. Ou seja, se a primeira é um elogio do poder e de sua utilização pelas grandes potências, a segunda defende o indivíduo, a política partidária tradicional e o capitalismo globalizado.

A proposta desse dossiê parte justamente da constatação que o diálogo entre História e Relações Internacionais é não só necessário, como uma possibilidade de abordagem que pode e deve aproximar áreas que podem contribuir muito para uma melhor compreensão histórica do ambiente internacional. E essa abordagem faz essa aproximação de um ponto de vista contra hegemônico, aproveitando o que de melhor e mais transformador as duas disciplinas fornecem.

Há outros elementos que precisam ser tocados ao se pretender elaborar um trabalho que visa aproximar História e Relações Internacionais. O primeiro é a forma e a função da História em alguns dos trabalhos mais tradicionais de Relações Internacionais. Apesar da evidente e reconhecida importância da mesma no campo da Relações Internacionais e do constante elogio que se faz da História, há que se considerar que para os autores de corte mais conservador, a História tem alguns traços que ainda se aproximam das proposições teóricas e metodológicas que lembram alguns dos historiadores de formação positivista. Seria importante citar e exemplificar pelo menos três tipos de abordagens nesse sentido.

Em primeiro lugar, em obras como essas, a História tem uma função muito mais ilustrativa do que de fato processual. Ou seja, para alguns dos analistas realistas e liberais mais representativos os acontecimentos históricos confirmam e reafirmam os postulados teóricos já construídos e amplamente considerados. A ideia realista parcialmente aceita e compartilhada pelos liberais de que o sistema internacional é anárquico é frequentemente repleta de exemplos históricos. Desde a paz de Westphália no século XVII, passando pelo Concerto de Viena no século XIX e chegando à Guerra Fria, a História é vista “de cima” e como processo de confirmação do postulado central, ou seja, nunca houve um sistema internacional que pudesse ser regido incondicionalmente por um Estado e ou organização. Mesmo as superpotências da Guerra Fria e os EUA após essa, não dispõem de meios militares, econômicos e políticos para controlar integralmente o sistema. A anarquia é inerente a ele, já que nenhum governo realmente global se afigura como algo possível nem provável. Os três períodos citados são usados, portanto, para reafirmar um postulado que parece inexoravelmente comprovado. A lei objetiva da política internacional precederia e definiria os processos da História.

Um segundo aspecto a ser apontado é o da percepção de que as Relações Internacionais são fundamentalmente o ambiente apenas de grandes atores, ou como diriam os analistas de Direito Internacional, os chamados “sujeitos” de Direito internacional, que teriam as condições e prerrogativas de conduzirem, regrarem e normatizarem o sistema internacional. Esses sujeitos seriam apenas os Estados e algumas Organizações Internacionais. Outros atores como empresas privadas, ONGs, movimentos sociais, sindicatos, etc seriam apenas atores marginalmente importantes quando conseguem interferir em algum tema ou cenário específico. De maneira geral, o argumento é que mesmo se admitindo a complexidade dos cenários e a atuação cada vez mais interconexa de múltiplos atores, são os Estados e algumas das grandes OIs que definem e pautam a Política Internacional.

Nesse sentido novamente a História das Relações Internacionais entendida sob um prisma mais conservador simplesmente ocorre em um tabuleiro que não pode ser frequentado por outros atores menores. Apesar das pressões, dos conflitos e dos inúmeros exemplos históricos de atores diversos com atuação internacionalizada, os analistas mais conservadores insistem que naquilo que é essencial (guerras, construção da pauta política internacional e definição dos grandes temas da economia global) são os Estados e algumas OIs que concentram o processo decisório. Mesmo os exemplos históricos de movimentos como os contrários à globalização e suas ações são apenas demonstrações de uma luta que apenas marginalmente atinge os definidores da ordem. Seu poder, mesmo com alguns “arranhões” permanece intacto.

Por fim, outro aspecto que ilustra algumas percepções da História em Relações Internacionais em um sentido mais tradicional é que a História é muito mais importante pelas permanências do que pelas mudanças. Novamente há ampla correlação entre Teorias e História das Relações internacionais. A insistente e até irritante percepção liberal, continuamente renovada e travestida que busca justificar o sistema capitalista como construtor de prosperidade, propugnador do progresso e mais recentemente promotor de uma globalização benevolente desafia os historiadores que ao sul do equador não conseguem elementos concretos para sustentar tal postulado.

Há nessa percepção um condicionante há muito criticado pela História que é o da linearidade que conduz a um fim em direção ao progresso. Há também obviamente, um aspecto ideológico e político bastante sintomático. A versão da História que assim percebe o sistema capitalista procura explicar a divisão internacional do trabalho como processo das aptidões e capacidades criativas dos Estados mais poderosos, vendo nisso mérito e progresso e explica o atraso, pobreza e subdesenvolvimento como incapacidade de implementar um modelo que historicamente produziu bons resultados nas grandes potências e em alguns outros países do centro do sistema.

Obviamente essas três caracterizações remetem aos defensores mais ciosos da política e da economia globais como um modelo civilizatório ocidental, liberal e capitalista. A proposta aqui pretendida é justamente a oposta. Uma História das Relações Internacionais que já é feita em muitas universidades do mundo inteiro e no Brasil, e que possui uma clara conotação contra hegemônica.

Os textos presentes nessa coletânea compartilham de uma proposta diferente. Ao contrário de uma História “ilustrativa” e referenciada às teorias, busca o inverso; demonstrar que a imensa produção teórica e historiográfica pode sim se contrapor e pelo menos desafiar.

Nesse sentido a chamada História Social foi uma das mais fecundas e importantes do século XX. Constructo de uma crítica mordaz ao capitalismo e atenta a todos os atores sem distinção de tabuleiro, procurou mostrar que se de fato há anarquia no sistema ela representa apenas um aspecto da Política Internacional. De que adianta apenas constatar a ausência de um governo global se de fato, o mais importante é explicar como o sistema foi construído e qual a importância das hegemonias e da divisão internacional do trabalho entre os países. A anarquia do sistema é uma observação vertical. Pouco explica das lutas intestinas em cada cenário, tampouco esclarece as possibilidades de transformação do sistema.

Outro elemento que pode e deve aproximar a História das Relações Internacionais e produzir nova síntese é sua eloquente e detalhada análise das fontes não tradicionais, muitas vezes deixadas de lado pelos analistas mais conservadores das RIs. Estudar cinema, música literatura, movimentos sociais, sindicatos, associações e comunidades étnicas permite perceber que o mundo das High Politics pode ser sim tocado e desafiado pelos de baixo. Mais que isso, permite construir alternativas contra hegemônicas que contradizem a ideia tão propalada entre os defensores do establismenth de que a mudança no sistema internacional é muito difícil ou quase impossível.

Por fim, a História Social entendida como área de densa e coerente produção realizou já uma ampla e detalhada crítica do capitalismo globalizado. A aproximação desses estudos com os das Relações Internacionais pode ao menos produzir um ruído forte e realizar novas perguntas e produzir respostas mais satisfatórias sobre as dinâmicas do capitalismo globalizado. Ao invés de percebê-lo apenas como uma faceta do poder internacional, cabe detalhar os estudos acerca dos processos de formação dos conglomerados industriais no mundo, estudar as indústrias do entretenimento como aspecto mais claro do “soft power”, ampliar os estudos acerca dos atores não estatais e verificar em que cenários e contextos os mesmos produziram ou produzem de fato mudança; avaliar e aclarar os mecanismos do processo decisório que unem Estado e capital, o que certamente irá contrapor melhor a tese da separação clássica entre essas esferas nas teorias tradicionais de RI.

Enfim, a produção desse Dossiê pela primeira vez na Esboços – Revista do Programa de Pós-Graduação em História da UFSC, mas com a presença de renomados e conceituados autores brasileiros e estrangeiros procura ampliar o estudo e aproximação dos dois campos e fazer dessa História das Relações Internacionais uma leitura que possa conectar melhor duas áreas tão relevantes mas que em muitos aspectos se desconhecem.

O Brasil e a História das Relações Internacionais é o trabalho que abre este dossiê. Nele, Paulo Fagundes Visentini aponta como na historiografia brasileira e mundial, a História Diplomática vem dando lugar à História das Relações Internacionais. Para o autor ambas tem caminhado paralelamente, com periodizações próprias e dissociadas, sem dialogar apropriadamente. Assim, o artigo procura associar ambas periodizações, posicionando o Brasil dentro da História das Relações Internacionais mundiais, desde a fase colonial ao século XXI. Tal posicionamento, permite ao autor discutir com propriedade a cooperação nos campos diplomático, científico, militar e econômico com os grandes países em desenvolvimento como Rússia, China, Índia e África do Sul; uma condição indispensável para o país tornar-se um dos pólos de poder num sistema mundial multipolar e um membro permanente do CS da ONU.

Francisco Carlos Teixeira da Silva, em uma perspectiva próxima a de Visentini, aponta que o campo da História das Relações Internacionais possui, entre nós um tremendo déficit de abordagem no tocante à História da Segunda Guerra Mundial e das suas consequências. No artigo 70 Anos depois: O Holocausto e a sua atualidade nas Relações Internacionais, Silva explora com exímia habilidade a emergência de veementes debates sobre a natureza do Holocausto ao final do século XX. A existência e a multiplicidade do Holocausto na história do tempo presente, aponta o autor, é uma questão em curso de pesquisa, de aplicação do Direito Internacional e de procedimento ético em plena construção. Em sua perspectiva não se trata, portanto, de processo fechado, definindo um, dois ou três fenômenos genocidários contemporâneos.

Maria Fernanda Rollo em seu artigo Diplomacia Europeia: desígnios e meios da integração europeia de Portugal (1945-1986), explora o processo da integração europeia de Portugal do pós-Segunda Guerra Mundial até se concretizar formalmente por meio da assinatura do Tratado de Adesão às Comunidades Europeias, em Junho de 1985. Para Rollo, após a Segunda Guerra Mundial o regime português se viu obrigado a uma aproximação com a Europa e aos EUA, sobretudo no contexto da participação de Portugal no Plano Marshall. A autora demostra como embora forçado e a contragosto, este momento acabaria por revelar-se o início de um processo de internacionalização e de envolvimento nos movimentos de cooperação europeia.

Em uma perspectiva próxima a dos trabalhos anteriores, Cristina Soreanu Pecequilo indica como ao longo da história da diplomacia brasileira, as relações bilaterais Brasil-Estados Unidos evoluíram de forma sólida, mas não isenta de controvérsias. Em seu artigo Do alinhamento e autonomia ao engajamento e contenção: o repensar das Relações Bilaterais Brasil-Estados Unidos, a autora assevera que a oposição alinhamento vs. autonomia expressa estas contradições muitas vezes reduzindo as alternativas de política externa do Brasil a uma visão de cooperação ou conflito com os estadunidenses. Pecequilo procura ir além desta perspectiva considerando a pauta estratégica dos Estados Unidos e procurando compreender suas interações com as potências regionais. Seu artigo, portanto, apresenta uma análise mais realista e pragmática destas relações, tendo como ponto de partida o olhar estadunidense sobre o Brasil em termos de engajamento e contenção, demonstrando a importância de que o país se posicione de forma autônoma no sistema internacional.

Com base em farta literatura especializada, Fábio Bertonha examina a aplicação da noção de imaginário coletivo a respeito de Guerras Mundiais, e como tal conceito pode ser trabalhado com relação ao Império Austro Húngaro. No artigo O Império Austro-Húngaro: o ator desconhecido da Primeira Guerra Mundial, Bertonha indica que se o Império Austro-Húngaro foi um participante importante no mundo pré-1914, suas responsabilidades na eclosão do conflito que destruiu esse mundo não devem ser esquecidas.

Na História das Relações Internacionais existem grandes polêmicas quanto à datação de determinadas fases bem como quanto ao significado que se pode atribuir a termos como Guerra Fria e alguns conflitos de menor ou maior escala. No artigo Détente e détentes na época da Guerra Fria, (Décadas De 1960 e 1970) Sidnei J. Munhoz e José Henrique Rollo demonstram como em diversas ocasiões a conduta estratégica de elites nacionais pautada por macrodispositivos semiológicos hegemônicos, foi capaz de estabelecer pautas amplas de ação e interferir decididamente no curso dos processos históricos. Assim, partindo de tais perspectivas os autores exploraram as distintas dimensões e dialogam com interpretações ancoradas em diferentes matizes analíticas desse processo.

A importância da região conhecida por Oriente Médio para a sedimentação da perspectiva estadocêntrica ocidental das Relações Internacionais é tema estudado por Renatho Costa no artigo A construção ocidental do Oriente Médio como instrumentalização das Relações Internacionais. Nele, o autor discute o processo que levou o Império Otomano à fragmentação e sua posterior divisão em Estados sob a égide das potências europeias que instituíram o sistema de Mandatos na região. Ainda, questiona como as relações de poder foram construídas no Oriente Médio no intuito de subsidiarem o modelo westphaliano e reinante nas Relações Internacionais. Por fim, Costa aborda qual o efeito da criação do Estado de Israel e de novos atores não-estatais (organizações islamistas) para a (des)estabilização da região e potencialização dos conflitos geopolíticos.

Rogério Santos da Costa, no artigo As Organizações Internacionais na história das relações internacionais: entre a governança global e as estratégias dos estados nacionais, procuras discutir a dinâmica das Organizações Internacionais (OIs) na história das relações internacionais, abordando suas limitações e possibilidades em contribuir como mecanismo de ação coletiva dos Estados nacionais, buscando uma aproximação com os debates acerca da relação das OIs ora com uma “Governança Global”, ora com a estratégia dos Estados nacionais. O trabalho contém três seções, além das considerações iniciais e finais, abarcando o período pré e pós-criação da Liga das Nações, um outro durante a Guerra Fria, e, por fim, a última parte dedicada ao momento pós-Guerra Fria até a primeira década do novo milênio. Para Costa, se, por um lado, é possível assumir a dificuldade de as OIs efetivarem seus objetivos diante das estratégias dos Estados nacionais, por outro, é inegável a sua contribuição em algumas áreas específicas do sistema internacional, que podem indicar o embrião de possibilidades para certa “Governança Global”.

Por fim, a relação entre Portugal e Espanha na década de 1930 é o tema abordado por Ruben Serem no artigo Portugal e a Guerra Civil de Espanha (1936-1939): uma introdução. Segundo Serem, a Guerra da Espanha apresentou-se como uma oportunidade única para a radicalização do Estado Novo português. Concomitantemente, um dos objetivos do governo português era substituir a jovem democracia espanhola, implantada em 1931, por um governo ideologicamente compatível com o Estado Novo. A vitória da autodenominada fação Nacionalista (uma nomenclatura que pressupunha que a República Espanhola era antipatriota), caudilhada pelo General Francisco Franco Bahamonde, foi fator determinante para a consolidação das ditaduras salazarista e franquista, que viriam a sobreviver ao colapso do fascismo europeu no pós-Segunda Guerra Mundial e perdurar até 1974, em Portugal, e 1975, na Espanha.

Boa leitura!

Márcio Roberto Voigt – (PPGH UFSC).

Alexandre Busko Valim (PPGH UFSC).

Organizadores

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[DR]

Desastres Ambientais / Esboços / 2013

Este volume da Revista Esboços traz um dossiê voltado à história e sua preocupação com desastres, além de uma sessão de artigos livres e de resenhas.

Desastres tem despertado cada vez mais a atenção dos estudos de história, principalmente a partir das perspectivas apresentadas pelo campo da história ambiental, em meio ao trato de eventos desastrosos nos mundos da tecnologia, das cidades ou dos espaços rurais.

Ursula Lehmkuhl [1], no esforço de compilar os aspectos que diferenciam estudos de história ambiental e de história dos desastres de outras formas do fazer historiográfico pontua que as principais características dessas pesquisas são a rejeição da tradicional perspectiva de que a experiência humana é isenta do mundo natural e de que as consequências ecológicas da ação humana no passado não podem ser ignoradas.

Trabalhar do ponto de vista da história, com desastres significa, assim, considerar a historicidade de suas definições, os enunciados que os delimitam, e que estão dispostos num gradiente que engloba em uma ponta tudo o que há de escorregadio e evasivo e, na outra ponta, as forçadas reduções conceituais que os objetivam para que sejam postas em práticas as operações de reação a eles.

Pensar desastres em história pode significar pensar desastres históricos, desastres na história, histórias do desastre, histórias nos desastres, desastres antes dos desastres. Se as histórias que tratam de desastres carregam, em si, as ansiedades humanas sobre as consequências das escolhas realizadas no passado em termos de padrões de produção de alimentos, de energia, de ocupação, de crescimento populacional, elas seriam diretamente histórias de desastres?

As opiniões divergem: para alguns autores como Marc Elie, se o trabalho com desastres na história não está ligado à leitura das rupturas realmente ocasionadas por eventos desastrosos, então a pesquisa não está ligada diretamente a eles. [2] Para Christof Mauch, os instrumentos metodológicos utilizados por historiadores e historiadoras ao tratar de desastres permitem incorporar não apenas a dimensão do acontecimento desses eventos, como também refletir o escopo das interações humanas com a natureza, a tecnologia, incluindo ramificações políticas e institucionais, as percepções socialmente produzidas sobre esses eventos, as ansiedades que variam historicamente, bem como os danos e riscos econômicos, socioculturais, políticos e ecológicos advindos de desastres. Nesse sentido, os desastres podem ser abordados tanto a partir de seu imediatismo, ou seja, da sua incidência repentina, bem como de seus efeitos em longa duração. [3]

Apesar das diferentes abordagens, o ponto de partida dos estudos recentes de história acerca de desastres é o de delimitá-los como um misto complexo de perigos naturais e ações humanas.

O presente volume ocupa-se do que há de mais recente na pesquisa sobre desastres em história, com artigos de pesquisadores e pesquisadoras nacionais e internacionais. Ao partir da complexidade dos desastres, buscou-se reunir contribuições que abordam eventos extremos sob óticas diversas.

Ao abrir o Dossiê, em Enchentes inesperadas? Vulnerabilidade e políticas públicas em Rio do Sul – SC, Brasil, os autores Marcos Aurélio Espíndola e Eunice Nodari analisam as principais enchentes ocorridas no município de Rio do Sul, no Vale do Rio Itajaí-Açu, no estado de Santa Catarina. As enchentes de Rio do Sul, conforme os autores, tem sido deixadas em segundo plano quando o tema é desastre, uma vez que a atenção tem recaído, principalmente, sobre cidades do Médio e do Baixo Vale do Itajaí, e não na microrregião na qual o rio Itajaí-Açu se forma. Espíndola e Nodari discutem a ocupação populacional da região como uma das grandes responsáveis pela recorrência das inundações urbanas.

Lise Fernanda Sedrez e Marina Miraglia discutem a destruição do balneário turístico argentino Vila Epecuén, Buenos Aires, devido à inundação causada pelas águas do lago de mesmo nome, em 1985. Sedrez e Miraglia discutem esse evento a partir de uma história ambiental que considera desastres como processos históricos socioambientais, no estabelecimento de um diálogo entre a história ambiental e a teoria social do risco.

A natureza do risco: paisagem e risco na análise dos desastres socioambientais, artigo de Alfredo Ricardo Silva Lopes, discute o uso conceitual do risco quando da interpretação da ideia de paisagem e seu emprego, pela história ambiental, na construção de estudos dos desastres socioambientais. O autor observa que a percepção de risco de novos desastres transforma a compreensão sobre o ambiente que os indivíduos possuem e, nesse sentido, a transformação das paisagens referendam o forte elemento antrópico na definição de desastre.

Em Chuvas de granizo e desastre nos pomares de maçã catarinenses: produzindo uma agricultura de risco, Jó Klanovicz lê a história da expansão da pomicultura no interior de Santa Catarina como uma monocultura moderna intimamente relacionada às consequências que as precipitações de granizo tem causado às ideias e práticas da agricultura convencional de larga escala.

Já Anna Leah Tabios, no artigo Que desastre? As implicações legais e práticas da Lei de Sigilo do Japão na gestão e segurança de desastre, discute a natureza pública e a importância do papel da informação e dos relatos da imprensa nos momentos seguintes aos desastres, com atenção especial à discussão sobre o desastre nuclear de Fukushima.

Na sessão de Artigos Livres, Adalmir Leonidio analisa o processo de formação da paisagem rural de Piracicaba, São Paulo, desde o século XIX, com atenção especial sobre a dinâmica agrária e a dinâmica de padrões paisagísticos em meio à produção açucareira, no artigo Piracicaba no século XIX: uma paisagem em mudança.

Em Considerações comparadas sobre a forma circular do tempo mítico e suas relações com o rito, José D’Assunção Barros discute o contraste entre as concepções antigas e míticas sobre a forma do tempo em seus padrões circulares e o padrão temporal linear da perspectiva cristã, destinando parte do artigo à leitura da relação entre mito e rito desde a introdução de uma forma binária de tempo circular estabelecido por modelos míticos de decadência da humanidade.

Rosana Silva de Moura, em Breve estudo de uma perspectiva de educação medieval, analisa a filosofia da educação medieval a partir das contribuições de Santo Agostinho e Tomás de Aquino.

Este número traz duas resenhas. A primeira delas é escrita André Vasques Vital, tratando do livro Thinking with Water, uma coletânea organizada por Cecilia Chen, Janine MacLeod e Astrida Neimanis e publicada em 2013. Enquanto que a obra De defensivos agrícolas a agrotóxicos: desafios para a regulamentação dos agroquímicos no Brasil, publicada por Maria Leonor Paes Cavalcanti Ferreira, é resenhada por Juliana Brocca Presa.

Notas

1. LEHMKUHL, Ursula. Historicizing Nature: Time and Space in German and American Environmental History. In: LEHMKUHL, Ursula; WELLENREUTHER, Hermann. Historians and Nature: Comparative Approaches to Environmental History. New York: Berg, 2007. p. 17-44.

2. ELIE, Marc. A belated and tragic ecological revolution: nature, disasters, and green activists in the Soviet Union and the Post-Soviet States, 1960s-2010s. The Soviet and Post-Soviet Review, v. 40, n. 2, p. 157-165.

3. MAUCH, Christof. Introduction. In: MAUCH, Christof; PFISTER, Christian (Eds.). Natural disasters, cultural responses: case studies toward a global environmental history. New York: Lexington Books, 2009. p. 1-17

Eunice Sueli Nodari

Jó Klanovicz

Marcos Aurélio Espíndola

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História, Religiões Mediúnicas e Afro-Brasileiras / Esboços / 2010

O Dossiê escolhido para este número da Revista Esboços traz como tema de discussão “História, Religiões Mediúnicas e Afro-Brasileiras”. Com isso nossa publicação continua contemplando a pluralidade temática, a diversidade teórico-metodológica e o diálogo interdisciplinar, tão salutares à prática historiográfica.

O tema das religiosidades e, mais precisamente, das religiões mediúnicas e afrobrasileiras é familiar às pesquisas desenvolvidas no Programa de Pós-Graduação em História, nos trabalhos de Graduação do nosso Departamento, bem como no Laboratório de Religiosidade e Cultura da UFSC. A “Esboços”, com esse Dossiê, contempla não somente uma realidade de pesquisa própria ao lugar institucional que a abriga, mas também um interesse acadêmico mais amplo, atestado pela crescente presença desta temática nas teses de doutoramento e dissertações de mestrado, o que demonstra uma abertura da academia a realidades culturais extremamente relevantes ao pensarmos nosso país e nosso povo.

Colaboram neste Dossiê: Durval Muniz de Albuquerque Jr, Artur Cesar Isaia, Raquel Marta da Silva, Cristiana Tramonte, Emerson Giumbelli, Roberto Motta, Luis Nicolau Parés, Reginaldo Prandi e José Jorge de Morais Zacharias.

No primeiro artigo, Durval de Albuquerque Jr estuda o olhar do pensador potiguar Câmara Cascudo sobre a cultura africana e suas peculiaridades ao abordar a presença negra na formação histórico-cultural brasileira. Após temos uma reflexão a respeito do discurso médico-psiquiátrico sobre o transe mediúnico, enfocando a produção de Xavier de Oliveira, psiquiatra ligado à Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro na primeira metade do século XX, o que é feito por mim. Abordando o espiritismo, Raquel Marta da Silva enfoca a importância que o “Pacto Áureo” (tentativa nacional de unificação doutrinária espírita) teve no movimento espírita mineiro da primeira metade do século XX. A religiosidade afro-brasileira em Florianópolis aparece no artigo de Cristiana Tramonte, que mostra as relações entre as mesmas e um universo cultural bastante difuso, no qual aparecem as práticas de curas e as benzeduras. A presença da África na produção dos primeiros intelectuais da umbanda é analisada por Emerson Giumbelli, que evidencia a importância negra, malgrado as aparências de desvalorização africana por aqueles intelectuais. As reflexões de Roberto Motta contemplam a abertura das religiões afro-brasileiras a outras realidades culturais, notadamente as reflexões de cientistas sociais, em dias mais recentes, o que, em sua opinião, pode ocidentalizar e intelectualizar aquelas religiões. Luis Nicolau Parés aborda em seu artigo a presença consolidada de práticas religiosas jejes e nagôs, já nos anos 1860 em Salvador, bem como o processo de hegemonia nagô no final do século XIX, como resultado de disputas entre crioulos afro-brasileiros. Reginaldo Prandi apresenta uma reflexão sobre uma entidade das mais importantes nas religiões afro-brasileiras: a Pombagira. Esta entidade é apresentada aqui a partir de uma de suas numerosas lendas, como indício da fuga ao dualismo ético judaico-cristão pela religiosidade afro-brasileira. Já José Jorge de Morais Zacharias, aborda a relação entre os indivíduos e os Orixás tomando como base a teoria de Jung e comparando-a com a cultura africana, na qual se pode ver, igualmente, um sistema de explicação das diferenças individuais.

Uma boa leitura para todos (as) e, desde já, os nossos agradecimentos por sua atenção e divulgação desse trabalho coletivo.

Artur Cesar Isaia – Organizador do Dossiê. Professor do Departamento de História da UFSC. E-mail: [email protected]

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