O cânone ocidental | Harold Bloom
Resenhistas
Élio Chaves Flores
Iris Helena Guedes de Vasconcelos
Referências desta Resenha
BLOOM, Harold. O cânone ocidental. São Paulo: Objetiva, 1995. Resenha de: FLORES, Élio Chaves; VASCONCELOS, Iris Helena Guedes de. Eras anglófilas, séculos verbalizados. SÆCULUM – Revista de História. João Pessoa, n. 2, p. 239-250, jul./dez. 1996.
Ciência e sociedade na terra dos bandeirantes: a trajetória do Instituto Pasteur de São Paulo no período de 1903 a 1916 | Luiz Antônio Teixeira
A história das ciências no Brasil, apesar do desenvolvimento significativo dos últimos anos, é uma área incipiente. Em especial, muitas das instituições científicas brasileiras estão ainda à espera de pesquisadores que se dediquem ao estudo de sua trajetória.
É com grande satisfação que vemos editado o livro de Luiz Antônio Teixeira, Ciência e sociedade na terra dos bandeirantes: a trajetória do Instituto Pasteur de São Paulo no período de 1903 a 1916, resultado de sua pesquisa para o mestrado realizada no Instituto de Medicina Social da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ). Leia Mais
O ponto onde estamos — Viagens e viajantes na história da expansão e da conquista – MICELI (VH)
MICELI, Paulo. O ponto onde estamos — Viagens e viajantes na história da expansão e da conquista. São Paulo: Scritta, 1994. Resenha de: VIDAL, Diana Gonçalves. As viagens são os viajantes. Varia História, Belo Horizonte, v.12, n.15, p. 203-204, mar., 1996.
Fascinante. Talvez o adjetivo que melhor qualifique o livro de Paulo Miceli. O ponto onde estamos — Viagens e viajantes na histeria da expansão e da conquista, adaptação de tese de doutorado, recentemente publicado pela Scritta. Livro de História e de histórias. Agrada aos que buscam o rigor do trabalho cientifico e aos que apenas desejam o deleite da leitura.
Nele, as viagens trágico-marítimas ganham vida. Deixam de ser “riscos coloridos que percorrem milhares de léguas, unindo os portos de saída aos de chegada”, como figuram nos mapas, na critica do autor, para assumir outra materialidade, a dos relatos de bordo. 0 cotidiano das embarcações nos é narrado numa linguagem fluida e convidativa. Embalados pela narrativa, ora nos deliciamos com os lazeres de bordo: encenação de peças teatrais escritas por padres, procissões religiosas e festas tradicionais — como a da coroação do imperador —; ora nos aturdinos com os reveses das viagens, ondas gigantescas governadas por “uma grande folia de vultos negros, que não podiam ser senão diabos”, epidemias e fome.
Na busca as razoes dos naufrágios, nos deparamos com explicações curiosas. Às vezes, a inepcia do piloto: o privilégio de dirigir a embarcação poderia ser atribuído a “homem desacostumado nesta carreira”, desde que o comprasse. Às vezes, o descuido na construção dos navios: madeiras verdes, furos de verruma não preenchidos por carpinteiros, falta de proporção nas medidas. Às vezes, o despreparo dos homens do mar: marinheiros de última hora — sapateiros, agricultores que não conheciam o linguajar de bordo, nem sabiam nadar. Às vezes, a ação das “peçonhas do diabo”, designação dada pelos padres as prostitutas que embarcadas, distraiam os homens de seus afazeres, deixando-os a merca da tuna do mar (sic). Às vezes, a cobiça: excesso de carga, má distribuição do peso.
Este relato de viagem(s) nos permite, ainda, conhecer a alimentação, a hierarquia social, os conflitos, as disputas, a medicina, as doenças, o proibido e o permitido a bordo dos navios nos séculos XV e XVI. Através dos escritos dos cronistas da época somos lançados neste universo, que para Miceli, ao contrário da sabedoria popular, não é um mundo à parte. Os termos portugueses, muitas vezes desconhecidos, destas crônicas nos são esclarecidos em notas.
O livro se divide em seis capítulos, em cada um deles o autor procura situar aspectos da história da expansão e da conquista portuguesa. Uma breve discussão histórica posiciona Miceli em relação ao seu objeto e a arte de narrar. O segundo capitulo leva-nos a um passeio pela Lisboa quinhentista: fome, doenças, guerras e catástrofes naturais. O capítulo III debruça-se sobre a arquitetura naval. Percorremos as várias etapas da feitura de um navio: projeto, modelo, produto final. Descobrimos carpinteiros e calafates como um poderoso grupo profissional. Percebemos mãos femininas auxiliando a construção de naus — desfazendo cabos de cordas de linho, velhos, e tornando a fiar em estopa de calafetar. Em Singradura, conhecemos a “gente do mar” e alguns de seus relatos de experiencias. Um convite a participar do cotidiano das viagens: festas, teatros, dietas e doenças, nos é realizado no quinto capitulo. Finalmente, em Passageiros do Acaso, o autor interroga-se sobre as raízes dos naufrágios. Falhas na construção, reparo e manutenção das embarcações, além de cobiça, são algumas das causas apontadas.
As notas no final de cada capitulo revelam um intenso trabalho de pesquisa em bibliotecas e arquivos portugueses. Mas indicam, também, o desejo do autor de interferir o menos possível na fluidez do texto, deixando o leitor a vontade para escolher entre entregar-se ao prazer de uma viagem descomprometida ou ao rigor da leitura acadêmica.
Do ponto onde estamos, dirigimos nosso olhar ao passado, tentando captá-lo, conhecê-lo, talvez, aprisioná-lo. Fica o alerta do autor, citando Fernando Pessoa: “As viagens são os viajantes. 0 que vemos não é o que vemos, senão o que somos”.
Diana Gonçalves Vidal – Doutora em História da Educação.
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O teatro dos vícios – ARAUJO (VH)
ARAUJO, Emanuel. O teatro dos vícios. Rio de Janeiro: Jose Olympio, 1993. Resenha de: MAGALHÃES, Beatriz Ricardina de. Varia História, Belo Horizonte, v.12, n.15, p. 200-202, mar., 1996.
Resenha discutida durante o seminário Estudos Bibliográficos: Subsidio para a História Social da Comarca do Rio das Velhas – 1994 – de 03 a 07 de Janeiro. Grupo “Século XVIII mineiro”- Centro de Estudos Mineiros – Fafich – UFMG.
“Todavia os donos do poder fortaleceram-se com o tempo, os burocratas públicos ficaram ainda mais burocratas, o judiciário permaneceu venal e o povo, esse, perpetuou-se sob eternos males a ele impostos e mazelas por ele próprio criadas”. (P27).
Segundo se lê na seção “Ideias”(FSP, 24/12/93, p.3), 0 teatro do vícios está classificado entre os oito melhores livros de História publicados em 1993.Outra referência da mídia a dar destaque a essa obra é a resenha de Luís Felipe de Alencastro (FSP, 06/06/93), que lhe faz uma justa apreciação.
Ao meu trabalho, em particular, a obra vem enriquecer não só com elementos referentes a grande parte do território nos três primeiros séculos da história do Brasil, mas também com a divulgação de uma variada bibliografia sobre o assunto, pouco difundida, e, portanto, pouco consultada. Embora ARAUJO use como fonte “o universo documental publicado” (p.14), deixando de lado as fontes primarias. Demonstra permanente recorrência aos processos inquisitoriais, as Ordenações Filipinas e as Atas das Câmaras, entre outros documentos. Contudo, exagera na citação de relator de viajantes estrangeiros —sobretudo ingleses —que percorreram o País, particularmente no século XIX.
De início, o autor expõe seus objetivos: ao convocar os mortos “a falarem”, pretende comprovar a imutabilidade da estrutura do poder, apesar das mudanças dos regimes políticos, analisando a forma como o Estado controla a população:”…levou-se a extremos o sentimento do rei como bom pastor que vela por todo o rebanho, dissimulando habilmente sempre, o que encobre tal noção: o rebanho…” (p. 23). Essa passagem lembra, com muita propriedade, um texto recente de Renato Janine Ribeiro, em que comenta a má fé da última fala do ex-Presidente Collor, ao destacar “dois temas: o dos órfãos do poder e o do repudio as paixões e interesses políticos”, confirmando sua demagogia. “Falar… em ‘Órfãos do poder’ e pretender assim que fosse ele o pai que redimiria esses desvalidos, é a prova cabal do caráter autoritário de um projeto que negava a própria cidadania, que reduzia os brasileiros a tutelados. ” 0 articulista termina seu texto lembrando que o apelo as ultrapassadas formas de populismo —”a referência ao pai e a sua privação…” não passa de “uma parodia pobre de nosso passado da qual esperamos ter visto agora o último ato” (FSP,27/12/93). Nesse caso, estariam os prognósticos de Araújo sendo confirmados.
Na obra em questão, o autor incita o brasileiro a recuperar sua identidade, a repensar historicamente o seu próprio caráter —a buscar, no comportamento dos colonizados, a tecitura da sociedade brasileira e seus antigos mitos. Para isso, privilegia, como “exame prioritário e norteador, (a análise) do comportamento desviante em amplo sentido”(p.26).
Os quatro capítulos do livro são bastante sugestivos. No primeiro, fica logo delimitado o cenário, o local onde os atores cumprem seus papeis: a vila, a cidade. Tudo indica que os primeiros povoados foram improvisados em sítios inadequados, com muitas ladeiras e tragados irregulares, compondo-se de casas mal alinhadas e ruas estreitas, escuras e mal cheirosas. Desde os primeiros momentos, o autor insiste em considerar a pobreza das ralas populações das vilas, em 1585, 1610 e 1630, comparando-a a uma população rural predominante, citando, particularmente, a região Nordeste.
Se o mundo rural prevalece, nos dois primeiros séculos, a partir do sec. XVIII, com o desenvolvimento da economia mineira, algumas transformações profundas começam a se fazer notar nas vilas coloniais, que se formam rapidamente. Nesse momenta, as Câmaras atuam de maneira efetiva1. Quanto as edificações particulares, parece que o autor fez uma leitura rápida da tese de Sylvio de Vasconcelos2. Na verdade, as dificuldades com relação ao urbanismo brasileiro dizem mais respeito a herança portuguesa do que a desordem e/ou provisoriedade da ocupação, a pobreza, a falta de higiene e a indolência do brasileiro. Ainda no mesmo capitulo, ele trata da alimentação e da moradia.
É no segundo capitulo —A sociedade da aparência —que ARAUJO começa a delinear os tragos psicológicos predominantes do brasileiro: preguiçoso, presunçoso, amante dos prazeres, etc. Nessa conceituação, prevalece sempre a opinião de estrangeiros visitantes do século XIX. Até que ponto se pode endossar a fata de autores originários de culturas tão diferentes e de países como a Inglaterra, que criou e massacrou, durante séculos, uma massa enorme de pequenos camponeses, despojando-os da terra, transformando-os num exército de mendigos “hospedes” das work houses ou de miseráveis que vão povoar Londres nos séculos XVII e XVIII, tornando-se permanente ameaça social GUTTON 3 esclarece que, na verdade, nas sociedades europeias da época, a presença de pobres era inevitável. Contudo, mesmo na Europa, o estudo desse estrato da população e extremamente difícil: os registros a respeito são precários: seus elementos vem, sobretudo, de algumas instituições assistenciais particulares ou públicas. Assim, que tipo de individuo viria para o Brasil Colônia.
Continuando, ARAUJO informa que, no Brasil, nessa época, o trabalho se torna indicador de condições subalternas, desonrosas, portanto. Os ofícios mecânicos eram desempenhados por mestiços, negros ou brancos pobres. Explica-se esse desprestigio do trabalho, e a consequente preguiça do brasileiro, pela permanência do sistema escravista.
Entretanto, para curtir a preguiça, urgia comprar escravos. De onde vinha o capital necessário Um escravo media, em Minas Gerais, em meados do sec. XVIII, custava de 100.000,000 (cem mil reis) a 120.000,000 (cento e vinte mil reis), o que correspondia, em média, ao preço de três casas urbanas, no mesmo período. Curioso e que L.S. Vilhena, um “modesto professor de Grego” (p.87) possuía oito escravos. E dele a lapidar frase que caracteriza o Brasil como a “moradia da pobreza, o berço da preguiça e o teatro dos vícios”.
0 ócio, de acordo com alguns depoimentos referidos, era prerrogativa dos citadinos burocratas, profissionais liberais, estalajadeiros, padeiros, taverneiros, açougueiros, barbeiros, costureiras e outros. Essa é uma imagem que necessita verificado mais acurada, por meio de análise de outras fontes que não as opinativas e/ou circunstanciais.
Por outro lado, ser aceito e reconhecido pela sociedade era uma condição fundamental para o colono. Portanto, a aparência física contava muito. Um traje de boa qualidade, ataviado com detalhes em ouro e prata e altos penteados ou perucas enfeitadas, para aparecer em público, contrastavam com a simplicidade das vestes caseiras e, em especial, com a sobriedade da decoração interior das casas. Parece, no entanto, que eram hábitos apenas transplantados de Portugal. Tudo indica que a rua apresentava muitos atrativos, como procissões, cavalhadas, touradas, carnaval, danças, teatro. Quanto a essa questão (p.145), chocam-se as opiniões de dois viajantes, Lindley e Maria Graham, a respeito do teatro de Salvador. 0 que torna bem Clara a precariedade dos depoimentos opinativos.
No terceiro capítulo — A Colônia pecadora— ARAUJO empenha-se em detalhar a conduta desviante do brasileiro, privilegiando sua vida privada, em que os comportamentos da mulher e do padre se tornam paradigmáticos.
Como se pode deduzir, trata-se de uma obra que merece uma leitura cuidadosa. 0 autor transita bem pela moderna historiografia brasileira. Sua tentativa de incentivar a fala dos mortos deve prosseguir.
No entanto, ficam, ainda, algumas questões: Como a crítica recebeu a obra Como são trabalhados, nela, as categorias pobreza, mendicância, vadiagem e prostituição As dicotomias público X privado e colono X colonizado são bem definidas ao longo do texto E outras mais…
Notas
1.MAGALHAES, Beatriz Ricardina. Estrutura e funcionamento do Senado e da Câmara em Vila Rica (1740- 1750). In: Anais da Xl Reunião da Sociedade Brasileira de Pesquisa Histórica (SBPH), são Paulo, 1991.p..133-136. Esse texto foi elaborado para fazer entender a dinâmica da administração municipal de Vila Rica.
2.VASCONCELOS, Sylvio. Vila Rica, São Paulo.: Editora Perspectiva,1977.
3.GUTTON, Jean Pierre. La societe et les pauvres en Europe (XVI-XVII).Paris: PUF,1974.
Beatriz Ricardina de Magalhães.
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Arqueologia Histórica Urbana en Santa Fe la Vieja: el Final del Principio – ZARANKIN (VH)
ZARANKIN, Andres. Arqueologia Histórica Urbana en Santa Fe la Vieja: el Final del Principio. Columbia: The University of South Carolina Press, 1995 (“Historical Archaeology in Latin America”, vol.10). Resenha de: FUNARI, Pedro Paulo A. Varia História, Belo Horizonte, v.12, n.15, p. 199, mar., 1996.
Santa Fe foi fundada em 15 de novembro de 1573, a primeira cidade planejada do Rio da Prata, tendo sido transladada para local menos sujeito a inundações em 1660. Esta cidade foi abandonada e apenas nos últimos anos pesquisas arqueológicas puderam trazer a luz os restos materiais da antiga cidade colonial. O livro de Andres Zarankin procura dar conta desses trabalhos e reinterpretar a História da cidade a partir da cultura material.
A cidade compunha-se de proprietários espanhóis (vecinos) e outros habitantes, tendo chegado a atingir 500 almas, população substancial para a época. A composição étnica da cidade incluía espanhóis, indígenas e africanos e o estudo do material cerâmico permitiu ao autor diferenciar os seguinte tipos: cerâmico importada não hispânica; cerâmica importada hispânica; cerâmica local hispânica e cerâmica local de tradição indígena. O autor estudou a distribuição espacial, no interior da cidade, dos diferentes tipos cerâmicos, e pode notar que a cerâmica local tinha difusão homogênea, enquanto a cerâmica decorada, ao contrario, parece estar em relação com uma particular distribuição de certos grupos sociais na cidade (pp.92-94).
A presença de indígenas na cidade espanhola, em especial de índias concubinas ou esposas, explicaria, naturalmente, a ubiquidade da cerâmica aborígene (p.94). A Arqueologia de Santa Fe apresenta, portanto, um quadro semelhante aquele que foi encontrado nas prospecções na Serra da Barriga, capital do quilombo dos Palmares, sitio contemporâneo, onde a presença de cerâmica indígena parece indicar a importância da mescla cultural nesses primeiros assentamentos coloniais (cf. P.P.A. Funari, The Archaeology of Palmares and its Contribution to the Understanding of the History of African-American Culture, Historical Archaeology in LatinAmerica, 7, 1994, pp.1-41). A Arqueologia Histórica permite, assim, repensar diversas questões relativas a etnicidade dos assentamentos coloniais e apenas a multiplicação de estudos monográficos como este permitirá melhor avaliar a significação de elementos da cultura material indígena em assentamentos coloniais.
Pedro Paulo A. Funari – Departamento de História, IFCH, UNICAMP.
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Homens de Grossa Aventura: acumulação e hierarquia na praça mercantil do Rio de Janeiro (1790-1830) – FRAGOSO (VH)
FRAGOSO, Joao Luís Ribeiro. Homens de Grossa Aventura: acumulação e hierarquia na praça mercantil do Rio de Janeiro (1790-1830). Rio de Janeiro: Arquivo Nacional, 1992. Resenha de: MENESES, José Newton Coelho. Varia História, Belo Horizonte, v.12, n.15, p. 193-198, mar., 1996.
Se tentássemos resumir em poucas palavras uma obra de tal porte, diríamos que ela se propõe a fazer uma investigação reflexiva sobre os mecanismos de reprodução da economia colonial, em torno da praga do Rio de Janeiro, na virada do século XVIII e primeiras décadas do século XIX, evidenciando que essa economia não se restringe as estruturas do escravismo e do mercado internacional. A esses elementos estruturais somam-se a existência de um mercado interno, a ocorrência de acumulações endógenas e a presença de um setor mercantil residente. A somatória de todos esses elementos, configuraria uma formação social que controlaria, em boa parte, seus pr6prios mecanismos de reprodução.
O presente livro e composto pelos quatro primeiros capítulos da tese de doutoramento do autor1 que, ao que parece, foram pouco alterados para essa publicação, uma vez que se apresenta sob forma rigorosamente acadêmica, o que, infelizmente, pode limitar sua leitura a grupos de interessados. Esses leitores, no entanto, certamente não se arrependerão de poder refletir, sob uma orientação clara e lúcida, acerca da estrutura econômica do sudeste colonial, no período proposto. O caráter acadêmico está caracterizado na obra, sobretudo quando se mantêm a descrição dos métodos e técnicas de pesquisa utilizados, onde o autor explicita as Pontes de diversas naturezas trabalhadas (fiscais e cartoriais), bem como o tratamento dado a elas e os cruzamentos dos seus dados. Além disso, o número excessivo de Tabelas e Curvas (são 79, no total) e a descrição dos dados de cada uma delas, não nos deixa dúvidas acerca do rigorismo citado, e evidenciam a necessidade de uma edição futura, cuidadosamente preparada para uma major parcela de leitores.
Logo de início, Joao Luís Fragoso nos apresenta seu objeto e hipóteses de trabalho, contrapostos a uma análise dos debates que buscaram criar os modelos explicativos clássicos da economia colonial. E discute tais modelos de forma crítica, mas evidenciando a necessidade de conhece-los e de apreender alguns de seus conceitos. 1 Não esquece de mencionar as diversas pesquisas de base que, nas décadas de 70 e 80, buscam as evidencias de um mercado interno colonial e as atividades que giram em torno dele, e define, por fim, a necessidade de se testar novos moldes explicativos, que é o que ele se propõe a fazer. A busca desses novos modelos se enraízam em bases que o autor já pesquisara em trabalho anterior e que lhe apresentaram a formação de uma economia agro-exportadora cafeeira no Vale do Paraíba fluminense, em meio a uma conjuntura econômica internacional desfavorável (depressão europeia de 1815-1850), o que vai de encontro as análises clássicas da economia colonial. Estas veem para o período, uma impossibilidade de acumulação end6gena e, para o autor, somente uma ampla acumulação previamente existente, explicaria aquela nova formação agro-exportadora em período recessivo internacional e da economia escravista açucareira e do algodão. Da mesma forma, ao contrário do que pensava Celso Furtado, a economia cafeeira do Vale do Paraíba não contaria com abundante escravaria vinda de Minas Gerais (em economia decadente), pois Minas, nessa época era a principal compradora de escravos que desembarcavam no Porto do Rio de Janeiro, bem como apresentava um crescimento demográfico significativo. Aos negociantes da praga do Rio de Janeiro e de Minas Gerais, caberiam uma acumulação, que teria começado nas Últimas décadas do século XVIII, não s6 ligada à exportação, mas também ao abastecimento interno. A elasticidade dessa economia, ultrapassaria as vicissitudes da agro-exportação e, assim, surge, para o autor, a necessidade de se cunhar um novo pressuposto que considere a economia colonial como uma formação econômico-social.
O autor busca “apreender as formas de acumulação presentes na economia colonial do Sudeste, no século XIX”, 2 através das seguintes hipóteses: (1) o escravismo colonial (da plantation), em sua reprodução, gera formas de produção não-capitalistas, ligadas a seu abastecimento, entre as quais, a produção camponesa, o trabalho livre não-assalariado e a produção escravista de alimentos; (2) nessa formação econômico-social do sudeste colonial, o escravismo tem papel hegem6nico; (3) o processo de produção escravista do Sudeste introduz ou redimensiona três categorias na economia colonial que são, a acumulação endógena, o mercado interno onde ela se realiza e o capital mercantil residente que e um elemento gestado e, ao mesmo tempo mediador do processo de reprodução dessa economia. Este mercado interno tem natureza não-capitalista e, parte do trabalho não remunerado colonial assumiria forma de acumulação mercantil, originando uma distinção na hierarquia social sob a forma de dois grupos: uma aristocracia escravista territorial, hegemônica, e comerciantes de grosso trato que seriam os negociantes envolvidos, simultaneamente, no tráfico internacional de escravos, no abastecimento interno e nas finanças coloniais. Apesar do titulo do livro, e mais do que sobre esses homens que o autor vai falar. Ele não descuida de tratar do risco para esse sistema que seriam esses homens de grosso trato, mas, por outro lado, como eles tratam de reproduzi-lo com base na busca do poder hierárquico e na recorrência ao investimento em terras e escravos. Este, talvez seja um dos pontos nevrálgicos de que trata o autor: a recriação de sistemas agrários escravistas em áreas de fronteira que vão manter a sociedade colonial.
As proposições do autor, na medida em que vão de encontro as análises dos modelos explicativos clássicos que tentam demonstrar a incapacidade estrutural da Colônia em gerar acumulação interna, poderiam levar a uma crença na invalidade dos mesmos. Não e o que acontece, uma vez que o próprio autor resgata e apreende o que há de proximidades entre eles e passa a refletir sobre as bases daquelas argumentações. Através dessa raiz, propõe uma nova abordagem acerca do comercio metrópole-colônia: mercado de concorrência e não de monopólios, 1 ou mesmo, quando elege o Rio de Janeiro como o locus privilegiado para a verificação dos mesmos. A busca de respostas a uma pergunta, no entanto, aponta os limites dos modelos explicativos: como se abastecia a plantation ?
A partir da evid6ncia dos limites dos modelos explicativos clássicos da economia escravista colonial, Fragoso, seguindo o pressuposto de caracterizar a economia colonial como uma formação econômico-social, exemplifica, com as áreas do Rio de Janeiro, Minas Gerais, São Paulo e Rio Grande do Sul, o “mosaico de formas nao-capitalistas de produção”, de uma economia colonial “para além da plantation escravista-exportadora”, mostrando formas diferenciadas de organização do trabalho escravo, formas especificas de trabalho livre (camponesa e peonagem) e, sobretudo, uma escravidão alocada em outros setores econômicos.
Em relação ao que descreve sobre Minas Gerais e o comercio de abastecimento desenvolvido na Capitania e, mais tarde, Província, o autor afirma que teria havido uma mudança de direção desse comercio, da mineração para a agro-exportação para território fluminense. Nesse ponto, me parece, o autor negligencia o crescimento demográfico da região mineira, crescimento, aliás, que ele evidencia em vários momentos. A meu ver, mais que uma mudança de direção, ocorre uma ampliação desse mercado, já que este crescimento proporcionaria um aumento da demanda estável de alimentos em território mineiro. Este fator e pouco tratado na obra. No entanto, outras observações são instigantes coma a comparação dos dados de crescimento demográfico, porcentagem de população escrava e participação da pecuária na economia mineira. A partir dessa analise conclui, por exemplo, que a agricultura mineira era tão mercantilizada que permitia adquirir cativos; que a pecuária não era somente produto do trabalho escravo e que o acesso à terra, em Minas, era estável, o que permitia um trabalho camponês/familiar com o auxílio do braço escravo.
Ao tratar, especificamente, do mercado colonial e das acumulações endógenas, Fragoso volta a apontar limites nos modelos explicativos clássicos por apresentarem uma situação paradoxal: a economia colonial, mesmo sendo um modo de produção, não possuiria suas próprias flutuações. Reitera algumas concordâncias com os citados modelos mas propõe novos pressupostos que mudam o angulo de visão do problema. São eles: (1) existência de uma formação econômica e social no espago colonial (escravismo associado a outras formas de produção não-escravistas); (2) ação de uma elite mercantil, originaria de acumulações endógenas e responsável pela reprodução da agro-exportação; (3) o fato de que a economia colonial, mais do que a plantation escravista, é a base de uma sociedade que se pretende reproduzir e, portanto, a inversão do sobretrabalho não mais depende apenas de injunções externas, mas das necessidades de reprodução dessa estrutura social, ditadas, principalmente, pelo mercado interno e pelas acumulações dele originadas. Mais uma vez, o exemplo e Minas Gerais que, sendo a principal região importadora de escravos, tem sua economia baseada na produção para o mercado interno e não para o internacional, o que prova a existência de acumulação endógena. Da mesma forma, o próprio tráfico internacional de cativos era controlado, desde o século XVIII, por comerciantes residentes no Brasil. Esse fato e os dados do tráfico interno “(…)colocam de cabeça para baixo os modelos clássicos da economia colonial’1 e demonstram que “(..) o custeio da empresa agroexportadora era feito, em grande medida, por uma elite mercantil colonial autônoma.” 1
Fragoso caracteriza bem: a plantation não tinha caráter autárquico e, mais que isso, gerava um mercado interno que, por sua vez redefine a natureza da economia e da sociedade coloniais e possibilita, juntamente com outras formas de produção, a ocorrência de acumulação endógena. 0 crescimento demográfico, por outro lado, provoca uma demanda (inelástica) de alimentos produzidos para três segmentos: plantation, setores urbanos e segmentos mercantis voltados para o mercado interno.
A caracterização deste mercado colonial é o objeto sobre o qual o autor vai se dedicar a reflexão, com dados numerosos e suficientes para permitir a conclusão de que ele é um mercado de fortes variações conjunturais que “reforçam o caráter especulativo de seu empresario”2 permitindo acumulações endógenas e uma hierarquia econômica altamente diferenciada, com graus de concentração de riquezas diferentes, de sua base ao seu topo, proporcionando a formação de uma elite mercantil hegemônica, com práticas especulativas que, no entanto, não a impediria de ter uma considerável estabilidade e, mesmo, de exercer práticas monopolistas. Estas seriam as características de um pequeno grupo de abastados empresários da praga mercantil do Rio de Janeiro que, no fundo, demonstrariam o caráter desigual da hierarquia econômico-social dessa praga e a natureza não capitalista do mercado colonial. A direção desse comercio praticado pelos “coloniais” se diversifica geograficamente e especificamente (do tráfico de escravos ao abastecimento de alimentos), mas com sua base no abastecimento interno. A ausência de fortes instituições financeiras, apesar da criação do Banco do Brasil, em 1808, tornaria o ápice desta pirâmide comercial dependente de um capital usurário fornecedor de empréstimos ao mercado e exercido pelos grandes negociantes de cada setor que se tornavam, também, grandes financistas de um mercado cativo.
Este capital mercantil seria o “elemento unificador” do mosaico de formas econômicas da Colônia, papel este que caberia “ao capital mercantil da praga do Rio de Janeiro, personificado em sua comunidade de comerciantes de grosso trato.”3 Praga essa marcada por uma hierarquia econômica que pouco se distingue da presente em sociedades pré-industriais da Europa dos séculos XV e XVI.4 Essa elite comercial carioca, de caráter múltiplo em sua atuação (abastecimento de alimentos, exportação, importação e tráfico de escravos), teria a possibilidade de substituir a aristocracia fundiária no topo da pirâmide econômica, pelas facilidades de apropriar-se do excedente do escravismo exportador e do de outras formas de produção, presentes na formação econômica e social da Colônia.
Como vimos, todas as análises de Fragoso acerca da economia colonial, a consideram como dependente não somente de fatores externos, mas, também de flutuações e especulações internas exercidas por uma pirâmide empresarial de base pequeno proprietária e topo financista usuraria, bem como de um mercado interno diversificado e dinâmico. 0 pressuposto que permite ao autor fazê-las é o de que o ritmo do mercado colonial só pode ser entendido, se considerarmos a Colônia como uma sociedade com suas pr6prias estruturas econômicas e sociais. E mais que isso, uma sociedade com necessidades e mecanismos de reprodução próprios.
A obra de Joao Luís Ribeiro Fragoso, tem vários méritos como a riqueza de dados e a limpidez das análises. No entanto o que mais se destaca é a sua lucida capacidade de justificar as proposições e pressupostos que dão base a sua reflexão.
Notas
1 Comerciantes, Fazendeiros e Formas de Acumulação em uma Economia Escravista-Colonial: Rio de Janeiro, 1799-1888, apresentada a Pós-graduação em História da Universidade Federal Fluminense, em dezembro de 1990. 0 presente trabalho recebeu o Prêmio Arquivo Nacional de Pesquisa, de 1991.
2 Trata-se aqui dos modelos explicativos de Caio Prado Júnior, Celso Furtado, Fernando A. Novais, Ciro F. Cardoso, Jacob Gorender, António Barros de Castro, Joao Manuel Cardoso de Mello e Jose Jobson Arruda, dentre outros.
2 FRAGOSO, J. L. R., Homens de Grossa Aventura: acumulação a hierarquia na praga mercantil do Rio de Janeiro (1790-1830), Arquivo Nacional, Rio de Janeiro, 1992. p. 27
1 Usando, aqui, conceito de Jose Raimundo Correia de Almeida. Op. cit., pp. 70-72.
1 Op. cit., p. 147.
1 Op. cit., p. 133.
2 Op. cit., p. 153.
3 Op. cit., p. 212.
4 0 autor a compara a Florença de 1427 e a Lyon de 1543. Op. cit. pp. 257-258.
José Newton Coelho Meneses – Mestrando em História – FAFICH/UFMG.
[DR]
Center for Archaeological Investigations, Ocasional Papers n.10 – PREUCEL (RA)
PREUCEL, Robert W. (Ed). Center for Archaeological Investigations, Ocasional Papers n.10, Southern Ilinois University at Carbondale, Carbondale. 1991. 324p. Resenha de: barrero, Cristiana. Revista de Arqueologia, v. 9, 1996.
Cristiana Barrero – Doutoranda da Universidade de Pittsburg, Estados Unidos.
[IF]História de Goiás em documentos I. Colônia | Luis Palacín, Ledonias Franco Garcia e Janaína Amado
Resenhista
Dulce Amarante Oliveira Santos
Referências desta Resenha
PALACÍN, Luis; GARCIA, Ledonias Franco; AMADO, Janaína. História de Goiás em documentos I. Colônia. Goiânia: Editora da UFG, 1995. Documentos Goiano, 29. Resenha de: SANTOS, Dulce Amarante Oliveira. História Revista. Goiânia, v.1, n.1, p.145-146, jan./jun.1996. Acesso apenas pelo link original [DR]
A heresia dos índios: catolicismo e rebeldia no Brasil colonial | Ronaldo Vainfas
VAINFAS, Ronaldo. A heresia dos índios: catolicismo e rebeldia no Brasil colonial. São Paulo: Companhia das Letras, 1995. Resenha de: BUENO, Clod0aldo. Anos 90, Porto Alegre, v.4, n.5, p.207-211, 1996.
José Rivair Macedo – Departamento de História – UFRGS Acesso apenas pelo link original
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Relações internacionais e desenvolvimento: o nacionalismo e a política externa independente (1951-1964) – VIZENTINI (AN)
VIZENTINI, Paulo G. F. Relações internacionais e desenvolvimento: o nacionalismo e a política externa independente (1951-1964). Petrópolis: Vozes, 1995. 325p. Resenha de: BUENO, Clodoaldo. Anos 90, Porto Alegre, v.4, n.5, p.212-215, 1996.
Clodoaldo Bueno – UNESP.
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O sertão prometido: o massacre de Canudos no Nordeste Brasileiro – LEVINE (AN)
LEVINE, Robert M. O sertão prometido: o massacre de Canudos no Nordeste Brasileiro. São Paulo: Editora da USP, 1995. 392p. Resenha de: MACEDO, José Rivair. Anos 90, Porto Alegre, v.4, n.6, p.193-198, 1996.
José Rivair Macedo – Departamento de História – UFRGS Acesso apenas pelo link original
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Essay on decoration compositon – MAROIS et al (CA)
MAROIS, Roger; SCATAMACCHIA, Maria Cristina Mineiro; SERRANO, Eliana Durán. Essay on decoration compositon. México: Panamerican Institute of Geography and History, 1994. 78p. Resenha de: FUNARI, Pedro Paulo A. Clio Arqueológica, Recife, v.11, p.205-205, 1996.
Pedro Paulo A. Funari – Departamento de História, Instituto de Filosofia e Ciências Humanas da Unicamp.
Acesso apenas pelo link original
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O povoamento da América visto do Brasil: uma perspectiva crítica – PROUS (CA)
PROUS, André. O povoamento da América visto do Brasil: uma perspectiva crítica. Dossiê Surgimento do Homem na América. Revista USP, São Paulo, mai./out. p.8-21, 1996. Resenha de: GUIDON, Niéde. Clio Arqueológica, Recife, v.p.229-234.
Niéde Guidon – Docteur d’Etat, Paris I Sorbonne Maïtre de Conférences, Ecole de Hutes Etudes, Sciences Sociales, Paris.
Acesso apenas pelo link original
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The Prehistory of the Mind: A search for the origins of art, religion and science – MITHEN (RA)
MITHEN, Steven. The Prehistory of the Mind: A search for the origins of art, religion and science. London: Thames and Hudson, 1996. 288p. JONES, S. The Archeology of Ethnicity: Constructing identities in the post and present. London: Routledge, 1997. 180p. Resenha de: NEVES, Eduardo Góes. Revista de Arqueologia, v.9, 1996.
Eduardo Goés Neves – Pesquisador do Museu de Arqueologia e Etnologia da Universidade de São Paulo.
[IF]Antiguidade Clássica: a história e a cultura a partir dos documentos – FUNARI (HE)
FUNARI, Pedro Paulo Abreu. Antiguidade Clássica: a história e a cultura a partir dos documentos. Campinas: Edunicamp, 1995. 150p. Resenha de: CAINELLI, Marlene Rosa. História & Ensino, Londrina, n. 2: 139-140, 1996.
O Prof. Pedro Paulo Abreu Funari enuncia que o livro Antiguidade clássica; a história e a cultura a partir dos documentos é indicado para alunos de graduação e também para professores de 1 ° e 2° graus, assim como o público em geral.
No 1° capítulo Funari analisa a utilização de documentos por historiadores, desde os documentos tradicionais até o uso da “narrativa para compreensão do discurso histórico”. A especificidade do estudo da antigüidade clássica, a diversidade dos documentos e uma discussão sobre periodização são temas abordados pelo autor no segundo capítulo.
O autor apresenta documentos textuais, materiais, epigráficos e arqueológicos, utilizando-se de diversas abordagens: “textos filosóficos, poesias, documentos oficiais, leis.” Vários documentos são traduzidos pelo autor, portanto inéditos em língua portuguesa.Os documentos aparecem no texto divididos em temáticas: memória, práticas, sentimentos, reflexões, expressões, poderes, espaços e experimentos. É importante destacar que as divisões temáticas utilizadas pelo autor são originais fugindo a forma tradicional de apresentação usadas na maioria dos livros didáticos, paradidáticos e coleção de documentos existentes no mercado.
Os documentos são comentados pelo autor que elucida uma série de relações desconhecidas pelo leitor, facilitando assim o entendimento do texto, que sem as explicações do autor, ficaria prejudicado. Além dos comentários Pedro Paulo Abreu Funari preocupa-se em indicar atividades para o trabalho com os documentos, dividindo as tarefas em atividades encaminhadas e propostas.
Nas atividades propostas o autor sugere de maneira exaustiva que o leitor reflita sobre diversos temas e também remeta-se para outras bibliografias que auxiliem o entendimento dos documentos.
É certo que Antigüidade clássica… é indicado para alunos de graduação, porém para professores de 10 e 2° graus, o texto mostra-se dificil. O ensino de história antiga nas escolas, talvez seja o mais sofrivel no que tange aos conteúdos trabalhados. As dificuldades apresentadas pelos professores impede-os, por exemplo, de seguir sugestões de atividades sugeridas pelo autor como a atividade proposta na pág. 36: “elencar as principais coleções bilingües (originais grego ou latino e tradução para o idioma moderno) e observar o papel do aparato critico nestas séries.”
Como em outros livros didáticos ou paradidáticos indicados para professores de 10 e 2° graus, o autor elabora questões e as responde, talvez com medo que o leitor não consiga responde-Ias de acordo com as suas expectativas.
Um problema apresentado pelo texto que dificulta a leitura e o possível uso do livro por professores de 10 e graus é que os documentos aparecem no texto divididos por temas sem uma ordem cronológica que facilite a procura por determinado documento para uso em sala de aula, de acordo com o periodo estudado.
O livro tem a qualidade de apresentar para o leitor uma série de documentos inéditos, interessantes e instigantes, mas demonstra o quanto é necessário entender do periodo, das discussões bibliográficas para compreender o texto, demonstra também o que todos sabemos, o documento preCisa de um leitor atento e instruído, não é dado a ele o poder da fala.
Marlene Rosa Cainelli – Professora do Departamento de História -Universidade Estadual de Londrina -Londrina-PR.
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As invenções da História. Ensaios sobre a representação do passado – BANN (RBH)
BANN, Stephen. As invenções da História. Ensaios sobre a representação do passado. Tradução de Flávia Villas-Boas. São Paulo: Editora da Unesp, 1994. 292p. Resenha de: SCHAPOCHNIK, Nelson. Revista Brasileira de História, São Paulo, v.16, n.31/32, p.367-369, 1996.
Nelson Shapochnik – Universidade Estadual Paulista – Franca.
Acesso ao texto integral apenas pelo link original
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O Brasil e a questão judaica – Imigração, diplomacia e preconceito – LESSER (RBH)
LESSER, Jeffrey. O Brasil e a questão judaica – Imigração, diplomacia e preconceito. Tradução de Marisa Sanematsu. Rio de Janeiro: Editora Imago, 1995. P.372. Resenha de: IOKOI, Zilda Márcia Gricoli. Revista Brasileira de História, São Paulo, v.16, n.31/32, p.364-366, 1996.
Zilda Márcia Gricoli Iokoi – Universidade de São Paulo.
[IF]Do amor e outros demônios – MARQUEZ (RBH)
MARQUEZ, Gabriel Garcia. Do amor e outros demônios. Tradução de Moacir Werneck de Castro. Rio de Janeiro: Editora Record, 1994. 221p. Resenha de EUGÊNIO, Marcos Francisco Napolitano. Revista Brasileira de História, São Paulo, v.16, n.31/32, p.370-374, 1996.
Marcos Francisco Napolitano Eugênio – Universidade Federal do Paraná.
[IF]Canudos – O povo da terra – VILLA (RBH)
VILLA, Marco Antonio. Canudos – O povo da terra. São Paulo: Editora Ática, 1995. 155p. Resenha de SILVA, José Maria de Oliveira. Revista Brasileira de História, São Paulo, v.16, n.31/32, p.375-376, 1996.
José Maria de Oliveira – Universidade Federal de Sergipe.
Acesso ao texto integral apenas pelo link original
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Didática da História – Patrimônio e História local – MANIQUE; PROENÇA
MANIQUE, Antonio Pedro; PROENÇA, Maria Cândida. Didática da História – Patrimônio e História local. Lisboa: Texto Editora, 1994. 104p. Resenha de: FONSECA, Selva Guimarães. Revista Brasileira de História, São Paulo, v.16, n.31/32, p.377-379, 1996.
Selva Guimarães Fonseca – Universidade Federal de Uberlândia.
[IF]Le retour des ancêtres. Les Indiens Urus de Bolivie/ XXe XVe siècle
Algum dia se fará um balanço da influência do historiador francês Nathan Wachtel sobre nossa visão da história da América. Seu primeiro livro, La vision des vaincus, de 1971, embora ainda não traduzido no Brasil, tem sido lido no original e especialmente na edição espanhola Los vencidos.1 Há marcas visíveis desta leitura em manuais de história da América que incorporaram, com maior ou menor profundidade, a proposta de uma ‘História dos vencidos’. Já o artigo ‘A aculturação’, publicado em Faire de 1’Histoire,2 circula mais freqüentemente entre professores e estudantes de história da América nas universidades brasileiras. Nele, Nathan Wachtel prolongava as reflexões de um de seus mestres, Alphonse Dupront, adotando o conceito e a problemática da aculturação para ultrapassar o eurocentrismo na história da América.
Vinte anos depois, Nathan Wachtel reaparece com esta obra monumental. Seu primeiro livro propunha uma história pelo avesso, revirando ao contrário a capa eurocêntrica da história. Agora, apresenta-nos ura novo desafio igualmente surpreendente: História regressiva, tal como o fez Marc Bloch pela primeira vez em 1931 em Les caracteres originaux de Vhistoire rurale française (que só foi publicado em 1955).
Trata-se de, partindo daquilo do passado que ainda vive no presente, buscar reconstituir o processo do devir, com suas repetições, suas latências, lacunas e inovações, mas sem cair na tentação da descoberta das ‘origens’. Fazer história regressiva, neste caso, significa começar pela abordagem etnográfica de uma pequena aldeia no altiplano boliviano, a quatro mil metros de altitude, onde vivem cerca de mil indígenas chipayas. Nathan Wachtel está em contato intermitente com Chipaya e outros vilarejos urus desde 1973. Membro da Escola de Altos Estudos, filiado ao Instituto Francês de Estudos Andinos, ao Instituto de Estudos Avançados de Princeton e ao Centro de Pesquisas sobre o México, América Central e os Andes (Cermaca), apropriou-se da riquíssima experiência de autores como Claude Lévi-Strauss, Alfred Métraux, Ruggiero Romano, John Murra, Tom Zuidema, Enrique Tandeter, Gilles Rivière, Teresa Gisbert, Jan Szeminski, Maria Rostworowski, Frank Salomon, Carmen Bernand, Thierry Saignes, Steve Stern, Alberto Flores Galindo e outros especialistas com quem convive.
Na primeira parte do livro, ‘Múmias viventes’, Nathan Wachtel projeta ao longo de seis densos capítulos um aguçado olhar antropológico sobre a organização social dos chipayas, procurando a lógica invisível que a rege e que está escrita no seu próprio território, no sistema de parentesco, na língua, no calendário, nos deuses e demônios, nos ritos, na memória e nos sonhos de seus membros. Jogos de espelhos que ora se multiplicam, ora se distorcem, a visão chipaya do mundo é quadripartida, isto é, duplamente dualista, e nisto não se diferencia da cultura aymara que a envolve por todos os lados e a penetra em várias formas. Os aymaras os chamam com desprezo Chullpa-puchu (restos dos primeiros homens), e Alfred Métraux foi levado a pensar que os chipayas seriam, efetivamente, algo como um povo fossilizado perpetuando traços arcaicos da organização social. Mas Nathan Wachtel, atento às diferenças de língua e de vestuário, leva a sério uma distinção essencial: os chipayas e outros grupos urus insistem em caracterizar-se como homens dágua, por oposição a todos os outros homens secos.
Tempo a contrapelo’ na qual todas as informações recolhidas e sistematizadas conforme os procedimentos da antropologia estrutural são submetidas ao teste de um paciente e erudito trabalho de pesquisa nos arquivos da Bolívia, Peru, Argentina e Espanha. Se o historiador lê com alguma dificuldade a primeira parte, cada um dos sete novos capítulos é uma caixa de surpresas. Página por página, os horizontes se alargam. Os urus, ‘homens d’água’, vão se revelando como um importante bolsão de pescadores-coletores instalados ao longo do eixo aquático que liga ainda hoje os lagos Titicaca, Poopó e Coipasa, numa extensão de cerca de oitocentos quilômetros entre as duas grandes linhas de cordilheiras. Numa de suas incursões mais apaixonantes ao fundo do poço escuro do passado uru, Nathan Wachtel encontra alguns indícios que apontam para o horizonte cultural de Tiahuanaco, um império desaparecido séculos antes da hegemonia aymara, e depois inca, na região.
Os urus ou homens d’água eram cerca de oitenta mil indivíduos, quase 25% da população indígena do altiplano, à época da conquista Nada permite crer na existência de uma identidade uru àquela altura: na verdade, desde a noite dos tempos estavam em ação processos de aculturação entre as populações andinas, dentre os quais o mais conhecido foi a política de colonização adotada pelos incas (mitimas). A heterogeneidade dos urus tem sua principal razão de ser na diversidade de situações produzidas em seus contatos com os homens secos, isto é, com grupos sedentários dedicados à agricultura e ao pastoreio. Existe, portanto, uma longuíssima história de ‘evaporação’ (que em geral é sinônimo de aymarização) de homens d’ágiia, toda pontilhada de resistências, recuos e reestruturações.
Nathan Wachtel reconstitui, recorrendo a fontes de todos os tipos, as grandes conjunturas da história uru a partir da montagem dos dispositivos coloniais na região. Forçados a se sedentarizar e constituir aldeias, submetidos à encomienda, os vencidos dos vencidos, uma vez que seus senhores imediatos eram os caciques aymaras. Na memória uru, estes foram tempos de escravidão e de morte: além do trabalho mais humilde e pior remunerado, sofreram as vagas de epidemias que dizimavam a maioria das populações andinas.
A sorte dos urus oscilou conforme algumas variáveis: épocas de abundância ou de escassez de mão-de-obra nativa, ritmo da produção de prata e mercúrio nas minas, diferença entre os preços na Europa e na América, campanhas de evangelização e de extirpação de idolatrias, ressecamento dos lagos, aquisição de novas técnicas etc.
A grande indagação do livro é a identidade dos chipayas, esse vilarejo uru criado pelo vice-rei Toledo na década de 1570, que o autor visitou pela primeira vez em 1973 e que, nove anos depois, quase não reconheceu. A rapidez das mudanças provocadas pela introdução de novas seitas religiosas na aldeia, quebrando uma estrutura secular que pareceria, aos menos atentos, imemorial, é apenas mais uma grande ruptura. Caso um chipaya adulto de 1600 retornasse à sua terra em 1660, encontraria praticamente a mesma dominação aymara sobre o seu povo, e estranharia apenas a sua cristianização superficial. Voltando novamente em 1720, nosso chipaya ressuscitado desconheceria os nomes de família de seus descendentes, o seu novo sistema de parentesco, o seu sistema sincrético de crenças, e surpreender-se-ia com uma crescente tendência à emancipação da servidão. Sessenta anos mais tarde, em 1780, à época das grandes revoltas de Túpac Amaru e de Túpac Catari e da generalização da condição indígena, nosso fantasma chipaya teria ainda maior surpresa diante da consolidação dos direitos territoriais da aldeia, do funcionamento regular do sistema de cargos articulando a circulação dos bens, da afirmação segura de uma identidade uru.
No início do século XX, uma revolução agrícola, resultante da aplicação exclusiva da lógica indígena à solução do problema do ressecamento progressivo do lago Coipasa, elevou o padrão de vida e estabilizou o sistema social dos chipayas que Nathan Wachtel iria encontrar em 1973. Já em 1982, os deuses estavam proscritos, as festas suprimidas, rivalidades religiosas cindiam perigosamente as quatro metades da aldeia. Porém, numa última noite, Wachtel é convidado para uma cerimônia clandestina de culto aos ancestrais: sinal de que a identidade uru permanece viva em um segmento da comunidade chipaya e de que o futuro permanece em aberto.
A complexidade e profundidade da obra a fazem duplamente importante como antropologia e como historiografia. Esperamos que esta breve resenha estimule a curiosidade por um livro que descortina horizontes até há pouco insondáveis na história da América. História a contrapelo feita com um rigor metodológico e uma erudição pouco comparáveis, Le retour des ancêtres é tão comovente em sua procura de abertura para a enigmática alteridade de um pequeno povo indígena desprezado até pelos outros índios, que muitos leitores acompanharão Nathan Wachtel até as lágrimas em determinadas passagens que só puderam ser escritas como fina literatura — crônica da busca de um tempo perdido que permanece vivo à espera de quem o queira saber ler.
Jaime de Almeida – Universidade de Brasília. Departamento de História.
WACHTEL Nathan. Le retour des ancêtres. Les Indiens Urus de Bolivie, XX* XVf siècle. Essai dfhistoire régressive. Paris: Gallimard, 1990. 690 pp. Resenha de: ALMEIDA, Jaime de. Textos de História, Brasília, v.4, n.1, p.154-158, 1996. Acessar publicação original. [IF]
Enseñanza y aprendizaje de la historia – PLUCKROSE (RTDCS)
PLUCKROSE Henry. Enseñanza y aprendizaje de la historia. Madrid: Ministerio de Educación y Ciencia, Colección: Pedagogía, Ediciones Morata, 1993. 223p. Resenha de: PRESAS, María Isabel. Revista de Teoría y Didáctica de las Ciencias Sociales, v.1, n.1, p.37, ene.,1996.
En esta obra el autor hace un planteamiento de cómo debería enfocarse la enseñanza y el aprendizaje de la historia en alumnos de primaria. Expone Pluckrose que la historia realiza una aportación polifacética al curriculum escolar, como es: el conocimiento (fechas, datos, acontecimientos), la apreciación (de los conceptos específicos, mediadores del entendimiento de los valores cruciales de la sociedad), y las destrezas (capacidades de indagar y analizar el modo en que un historiador examina e interpreta el material).
Igualmente, establece una serie de metas que buscan proporcionar un contexto sobre el cual evaluar métodos, estrategias y recursos propuestos, así mismo, servir de marco a objetivos que contribuyan al desarrollo de conocimientos, actitudes y valores. De tal manera centra su análisis en los elementos, que según su juicio, deben ser considerados en la planificación del curriculum de historia.
Por último, Pluckrose recomienda a los educadores de esta disciplina que procedan con cuidado en la selección de textos, “debemos, dice, esforzarnos por evitar el uso de material que encamine a los alumnos hacia un fin predeterminado …”. Y concluye, que la enseñanza de la historia no tiene razón de ser si sólo promovemos la existencia de un conocimiento heredado y aceptado, un conjunto de hechos no discutibles que es necesario memorizar.
María Isabel Presas
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Manual de Historia de Cartagena – (PR)
Manual de Historia de Cartagena. Murcia, 1996. 415p. Resenha de: NAVARRO, David Munuera. Panta Rei – Revista de Ciencia Y Didáctica de la Historia, Murcia, n.2, p.175-176, 1996.
David Munuera Navarro
[IF]Los manuscritos del Mar Muerto. Balance de hallazgos y de cuarenta años de estudio – PIÑERO; FERNÁNDEZ-GALIANO (PR)
PIÑERO, Antonio; FERNÁNDEZ-GALIANO, Dimas (Eds.). Los manuscritos del Mar Muerto. Balance de hallazgos y de cuarenta años de estudio. Córdoba, 1994. 226p. Resenha de: GÓMEZ, José Antonio Molina. Panta Rei – Revista de Ciencia Y Didáctica de la Historia, Murcia, n.2, p.158-159, 1996.
José Antonio Molina Gómez
[IF]La otra “ida de Alfonso XII – De La CIERVA (PR)
De LA CIERVA, Ricardo. La otra “ida de Alfonso XII. Toledo: Editorial Féniz,1994.482p. Resenha de: RODRÍGUEZ, Julio D. Muñoz. Panta Rei – Revista de Ciencia Y Didáctica de la Historia, Murcia, n.2, p.157, 1996.
Julio D. Muñoz Rodríguez
[IF]Patrimonio histórico-artístico del Noroeste murciano. Materiales parauna guía turística. Instituto de Fomento Región de Murcia – A V V A (PR)
A, V.V. A. Patrimonio histórico-artístico del Noroeste murciano. Materiales parauna guía turística. Instituto de Fomento Región de Murcia. Universidad de Murcia, 1994, 242p. Resenha de: COVES, Eva M. Martí. Panta Rei – Revista de Ciencia Y Didáctica de la Historia, Murcia, n.2, p.154-156, 1996.
Eva M. Martí Coves
[IF]Tiro y las colonias fenicias de Occidente – AUBET (PR)
AUBET, María Eugenia. Tiro y las colonias fenicias de Occidente. Edición ampliada. Barcelona: Crítica/Arqueología, 1994. 371p. Resenha de: RODRIGUEZ, Jorge A. Eiroa. Panta Rei – Revista de Ciencia Y Didáctica de la Historia, Murcia, n.2, p.149-151, 1996.
Jorge A. Eiroa Rodríguez
[IF]El tiempo en la Historia – WHITROW (PR)
WHITROW, G. J. El tiempo en la Historia. Barcelon: Ed. Crítica/Historia y Teoría, 1990. 261p. Resenha de: MARTÍNEZ, Antonia Maria Legidos. Panta Rei – Revista de Ciencia Y Didáctica de la Historia, Murcia, n.2, p.147-149, 1996.
Antonia María Legidos Martínez
[IF]Platon, les mots el les mythes – BRISSON (PR)
BRISSON, L. Platon, les mots el les mythes. París: Maspero, 1982, 238p. Resenha de: AMORÓS, Pedro. Panta Rei – Revista de Ciencia Y Didáctica de la Historia, Murcia, n.2, p.145-147, 1996.
Pedro Amorós
P U JIW A ,4IORÓSAcessar publicação original
[IF]Memória, cidade, cultura | Cléia Schiavo Weyrauch
WEYRAUCH, Cléia Schiavo; ZETTEL, Jaime. Organização e introdução. Memória, cidade, cultura. Resenha de: WEYRAUCH, Cléia Schiavo. CLIO – Revista de pesquisa histórica. Recife, v.16, n.1, p.159-165, jan./dez. 1996.
Engenheiros do tempo e as visões de Agamenon: História e Memória
Engenheiros do tempo e as visões de Agamenon: História e Memória. Resenha de: VANDERLEI, Kalina. CLIO – Revista de pesquisa histórica. Recife, v.16, n.1, p. 167-173, jan./dez. 1996.
Antiguidade Clássica. A história e a cultura a partir dos documentos | Pedro Paulo A. Funari
FUNARI, Pedro Paulo A. Antiguidade Clássica. A história e a cultura a partir dos documentos. Campinas: Editora da UNICAMP, 1995. Resenha de: MARTIN, Gabriela. CLIO – Revista de pesquisa histórica. Recife, v.16, n.1, p. 175-176, jan./dez. 1996.
A medicalização da raça: médicos, educadores e discurso eugênico | Vera Regina Beltrão Marques || Higiene mental e eugenia: o projeto de “regeneração nacional” da Liga Brasileira de Higiene Mental (1920-30) | José Roberto Franco Reis
Quando Foucault organiza seu quadro conceituai, ele tem em mente uma dimensão analítica do objeto a ser estudado. O que lhe interessa é saber de que maneira engendraram-se os dispositivos e as disciplinas. Para atingir este objetivo, ele recorre sistematicamente à arqueologia — dos saberes, dos poderes, dos prazeres —, buscando identificar, nos discursos, as táticas e estratégias desenvolvidas ao longo de diferentes processos históricos.
Como método historiográfico, Foucault utiliza-se dos discursos produzidos durante o período estudado, privilegiando os discursos científicos e tomando-os como o principal lugar de articulação dos dispositivos e das disciplinas. Leia Mais
Cicatriz do universal | Sander Gilman
Freud, em Moisés e o monoteísmo, comparou o ego a um tecido cicatrizado. Essa metáfora médica, proposta em um momento já relativamente sólido da psicanálise como saber independente da medicina, não deixou de ser notada por Sander Gilman em sua ‘leitura judaica’ da obra do fundador da psicanálise.
Para Gilman, a cicatriz evoca muito fortemente a judaicidade de Freud — vivida por este de modo intenso e real, tanto corporal quanto simbolicamente, ao longo dos 16 anos em que o câncer o afligiu. Pois elas — cicatriz e judaicidade — estão associadas, no saber médico de então, à sífilis e ao câncer, remetendo-nos a uma longa série de pesquisas e debates sobre a propensão ou imunidade dos judeus a essas doenças, o que, por sua vez, remete às várias abordagens “racialistas” da especificidade judaica, e especialmente, porém num plano mais geral, às categorias subjacentes, como loucura, doença, alteridade. Cicatriz, ainda, remete à marca judaica por excelência, a marca física da (ou representada pela) circuncisão: marca ambígua, tão carnal quanto simbólica, que não cessa de demandar (e receber) interpretação. Leia Mais
O último dos moicanos | James Fenimore Cooper
Resenhista
Alômia Abrantes
Referências desta Resenha
COOPER, James Fenimore. O último dos moicanos. Rio de Janeiro: Ediouro, s.d. Resenha de: ABRANTES, Alômia. O último dos moicanos: uma aventura no estudo da América. SÆCULUM – Revista de História. João Pessoa, n. 1, p. 145-150, jul./dez. 1995.
Carne, moral e pecado no século XVI. O Ocidente e a repressão aos “delitos” por cúpula “ilícita” | Ruston Lemos de Barros
Resenhista
José Ernesto Pimentel Filho
Referências desta Resenha
BARROS, Ruston Lemos de. Carne, moral e pecado no século XVI. O Ocidente e a repressão aos “delitos” por cúpula “ilícita”. São Paulo: USP, 1993. Resenha de: PIMENTEL FILHO, José Ernesto. A sexualidade, a Igreja e o Santo Ofício no Brasil. SÆCULUM – Revista de História. João Pessoa, n. 1, p. 139-143, jul./dez. 1995.
Acesso apenas pelo link original [DR]
Epidemiologia e emancipação | José Ricardo de C. M. Ayres
O trabalho de José Ricardo Ayres, Epidemiologia e emancipação, faz parte de um amplo movimento histórico com potencialidades emancipatórias, movimento este que é mais do que suficientemente bem caracterizado pelo próprio autor, da aurora da modernidade até os tempos contemporâneos. Será enquanto parte de um pequeno movimento histórico, aspecto particular daquele outro mais amplo, e que se constitui no contexto mais imediato da gênese do texto, que procurarei abordá-lo. Farei isso examinando como o trabalho de José Ricardo Ayres se situa, prosseguindo-a e superando-a, na pequena tradição de ‘escola’ da qual ambos fazemos parte.
Uma ‘escola’ de pensamento, investigação e prática educacional não se sustenta, como tantas ‘igrejas’ acadêmicas, na devoção a um referencial téorico-metodológico, nem na obsessão por um qualquer desenho de pesquisa, nem na restrição a um particular objeto de interesse, nem tampouco ao que é evidente em qualquer delas: um certo jargão e uma certa forma tendencial de encadeamento lógico entre as proposições isoladas de um discurso e sua estrutura mais geral. Será sempre um certo número, menor ou maior, de construções conceituais, organizadas ao redor e por dentro de certos valores históricos que dará, ao conjunto dos trabalhos que interagem a partir da adesão operativa àqueles valores e conceitos, o caráter de ‘escola’, aquela quase inefável marca registrada que permite ao observador treinado a identificação da origem e do pertencimento de um trabalho isolado qualquer que lhe caia em mãos. Menos do que um paradigma, portanto: mais do que uma vocação institucional, por outro lado. Leia Mais
As ciências da Aids e a Aids das ciências: o discurso médico e a construção da Aids | Kenneth Rochel de Camargo Júnior
“Ceci n’est pas un écrit epistemologique”, alerta o autor (p. 17): como o cachimbo de Magritte, não pode deixar de sê-lo. Desde que Latour popularizou a aventura de abrir as “caixas-pretas” da ciência, a epistemologia tornou-se uma das fronteiras do trabalho de pesquisa social; viramos epistemólogos enquanto antropólogos e sociólogos da ciência. Emprestando imagens da medicina, esquartejamos e estripamos, como na anatomia, e chegamos a um perturbador avesso dos artefatos da produção científica, colocando em dúvida a confiança que depositamos no produto final (como tudo pode ser feito com tanta arbitrariedade?); desenvolvemos técnicas de acompanhar o funcionamento do sistema, como na fisiologia, e chegamos a outro perturbador cenário, onde por trás do nobre trabalho da pesquisa científica pululam os vis interesses dos grandes financiamentos ou dos mesquinhos orgulhos pessoais. Ultrapassado o limite tradicional da sociologia da ciência que separa “externalistas” e “internalistas”, viramos voyeurs da abertura das “caixas-pretas” que antes se mantinham invisivelmente na paisagem.
Nestas condições, entender as dimensões sociais da produção científica não é enumerar e estratificar as categorias sociais envolvidas no processo, ou a acessibilidade dos seus resultados, mas olhar para o processo mesmo que gera os enunciados científicos e os consagra. Nem o trabalho se restringe a averiguar a consistência lógica, veracidade, verificabilidade dos enunciados, mas também a entender como são socialmente produzidos, que significados se lhes associam, que funções desempenham, que marcas sociais e culturais trazem implícitas. Por isso a análise social da ciência é e não é um trabalho de epistemologia. Leia Mais
Missionaries of sciences: the Rockfeller Foundation and Latin America | Marcos Cueto
O livro organizado por Marcos Cueto é fruto de um seminário no Rockefeller Archive Center, em Nova York, em novembro de 1991, tendo como tema a ciência e a filantropia na América Latina. Os autores analisam os diferentes, e sucessivos, planos de intervenção da Fundação Rockefeller nesta parte do continente: saúde pública, ensino médico, capacitação técnica, financiamento de laboratórios de pesquisa e modernização da agricultura. Todos têm uma preocupação em comum: mostrar como o “lado receptor” percebeu as ações da fundação, e que motivações o fizeram acatar ou combater estas ações.
A principal virtude dos ensaios — que combinam história social e história das ciências — reside na preocupação de captar a interação dos dirigentes e funcionários da instituição com os atores e as realidades locais. Conseguem, assim, revelar a passagem das idéias à prática, das intenções aos resultados, a transfiguração de programas de ação por efeito de negociações e conflitos opondo, de um lado, os agentes incumbidos de implementá-los, e, de outro, as forças de inércia e reação exercidas pelas realidades que pretendiam transformar. Leia Mais
País jovem com cabelos branco: a saúde do idoso no Brasil | Renato Veras
É parte do senso comum a idéia de que a estrutura etária da população brasileira situa-nos como um ‘país jovem’. Ao contrário desta suposição ingênua, contudo, a queda da mortalidade infantil e a progressiva diminuição da fecundidade em nosso meio já nos garantem uma considerável população de idosos, que, projetada para 2025, nos colocará àquela altura como o sexto país do mundo em número de idosos. Este aparente paradoxo é uma questão central do livro de Renato Veras, indicada já na escolha mesmo de seu título. Assim como com outros indicadores sócio-demográficos, pouco a pouco a estrutura etária da população brasileira aproxima-se do perfil dos países centrais (ainda que vários indicadores, como por exemplo a mortalidade infantil, continuem mostrando a gravidade da questão social do Brasil) sem que se produzam alterações correspondentes na qualidade de vida da população, colocando-nos frente aos problemas gerados por um contingente crescente de idosos sem que haja adequada provisão de fundos sociais para fazer frente às suas demandas.
Os impactos desta transição nas políticas públicas já se fazem sentir, com a virtual inviabilização da seguridade social pela situação de ‘cobertor curto’ criada pelo sistema de financiamento em bases correntes da previdência pública associado à iníqua distribuição de renda que se agrava cada vez mais. Não equacionamos a desnutrição e as verminoses e nos vimos frente ao crescimento das doenças cardiovasculares e das neoplasias; da mesma forma, não logramos dar conta das necessidades de crianças e adolescentes e já não temos, com os recursos ora disponíveis, como enfrentar adequadamente o desafio de uma população em processo de envelhecimento. Ainda temos tempo — não muito — para equacionar as demandas que certamente surgirão e/ou se ampliarão a partir deste novo quadro populacional. Leia Mais
Guerra e Paz: casa-grande & senzala e a obra de Gilberto Freyre nos anos 30 | Ricardo Benzaquem Araújo || O Brasil visto de fora | Thomas Skidmore
Há quase um século as imagens sobre a suposta singularidade das relações raciais no Brasil têm como um de seus principais marcos constitutivos a experiência norte-americana. Processos distintos de implantação do sistema escravocrata e de sua posterior extinção, maior ou menor grau de miscigenação e seus efeitos sociais, sociedade multirracial versus sociedade birracial, mecanismos legais ou informais de discriminação racial foram alguns dos parâmetros utilizados para definir as diferenças entre as duas sociedades.
Apesar do denominado mito da democracia racial ter sido elaborado no século XIX, seu refinamento, sem dúvida, contou com a colaboração imprescindível de cientistas sociais tanto brasileiros quanto norte-americanos, especialmente nas décadas de 1930 e 1940. Gilberto Freyre e Donald Pierson são exemplos representativos desse momento. Leia Mais
A vitória da Razão (?) – ANTONACCI (AN)
ANTONACCI, Maria Antonieta M. A vitória da Razão (?). São Paulo: Marco Zero; CNPq, 1993. Resenha de: FENELON, Déa Ribeiro. Anos 90, Porto Alegre, v.3, n.3, p.155-158, 1995.
Déa Ribeiro Fenelon – Professora do Programa de Pós-Graduação em História da PUC-SP.
[IF]O Estado Monárquico. França 1460-1610 – LE ROY LADURIE (RBH)
LE ROY LADURIE, Emmanuel. O Estado Monárquico. França 1460-1610. São Paulo: Companhia das Letras, 1994. 355p. Resenha de: FLORENZANO, Modesto. Revista Brasileira de História, São Paulo, v.15, n.29, p.221-231, 1995.
Modesto Florenzano – Professor da Universidade de São Paulo.
Acesso ao texto integral apenas pelo link original
[IF]
Reminiscências – FREITAS (RBH)
FREITAS, Sônia Maria de. Reminiscências. [São Paulo]: Editora Maltese, 1994. Resenha de: ALAMBERT FILHO, Francisco. Revista Brasileira de História, São Paulo, v.15, n.30, p.171-173, 1995.
Francisco Alambert Filho – Universidade Federal Fluminense. Núcleo do Rio de Janeiro.
Acesso ao texto integral apenas pelo link original
[IF]
Domes du XIV Siècle / Georges Duby
No início do nosso século, Henri Berr chamava a atenção para o fato de que a história não poderia ser somente um exercício de erudição. Dava-se início, então, a um profícuo debate em torno da Revue de Syuthèse, reunindo sociólogos, economistas, geógrafos, historiadores e psicólogos. Participante deste seleto grupo, Lucien Febvre foi aí influenciado de forma decisiva pelo próprio Berr e pelo economista Simiand.
Em 1929, juntamente com Marc Bloch ele criou os Annales, que se transformaram ao longo dos anos numa das vertentes mais importantes da historiografia contemporânea.
Do período em que a economia dominava sob a batuta de Braudel, aos estudos que a destronaram marcados pela influência de Lévi-Strauss e Foucault, a historiografia francesa deu amplas demonstrações do seu vigor. Mas não parou aí. Com o mesmo vigor que se estudou ou se estuda as mentalidades e a cultura, que se aponta para as dimensões do imaginário e do simbólico, insiste-se na importância da narrativa e no regresso — em outras bases que não as do positivismo novecentista — da biografia e da história política.
Talvez nenhum historiador na França espelhe tão bem a trajetória percorrida pela historiografia francesa nesta segunda metade do nosso século, como Georges Duby. De la société aux Xí et Xlf siècles dons la région mâconnaise (1953) a Dames du XIT siècle (1995), os mais de dez títulos que compõem sua obra sugerem o percurso do historiador que atualiza sempre, de forma surpreendente, objeto e método.
Este seu último livro lançado no início deste ano, primeiro de uma série de três nos quais pretende a partir do uso de diferentes fontes se ocupar do lugar que a sociedade medieval destinava às mulheres, Duby mais uma vez nos oferece uma combinação perfeita de erudição e criatividade.
A pesquisa feita sobre Heloísa, Eleonora, Isolda e as outras damas não resulta em absoluto em estudo biográfico nos moldes tradicionais. Reforçando o tom narrativo já anunciado anteriormente em outras obras, como Guilherme, o marechal, Duby serve-se habilmente da vida dessas damas para penetrar nas estruturas mentais da sociedade feudal e realizar um delicioso estudo dos costumes que indicam, por sua vez, o sistema de valores imposto na época às mulheres. É do sexo, da relação entre os sexos, ou mesmo da ‘guerra’ entre homens e mulheres, do código criado pela Igreja para normatizar e enquadrar essa relação que trata o livro.
A idéia de que o sexo era a fonte do pecado encontrava- se impregnada no fundo das consciências, tornando o desejo carnal naturalmente temido. Situada neste sistema de valores, a mulher era percebida como uma criatura ‘essencialmente má’ por ter introduzido no mundo o pecado. Presa fácil, porque frágil, o demônio dela se serviria para desencadear o mal e a desordem social. A tentação representada no corpo da mulher e o casamento são o eixo comum em torno do qual giram as vidas dessas damas: mulheres da aristocracia, destinadas já na adolescência ao casamento, escandalizam a sua época por desafiarem o sétimo sacramento instituído pela Igreja no século XII. Toda uma lenda as envolve, mas Duby, partindo de fontes escritas diversificadas — cartas, sermões, literatura —, estabelece uma comparação entre o nosso olhar e o dos seus contemporâneos. Existe, adverte ele, uma grande diferença entre a Isolda de Wagner, ou do filme de Cocteau, e a Isolda do século XII. Enquanto demonstra que no casamento a Igreja não buscava somente o controle social, mas também o político, porque passava a intervir no casamento dos reis, Duby não perde de vista os demais aspectos da reforma eclesiástica que normatizam a sociedade.
Se Eleonora é pretexto para demonstrar a intervenção da Igreja na política, o estudo do culto de Maria Madalena exemplifica que a reabilitação da mulher é possível pela submissão ao homem. Ao estabelecer obviamente a concepção do casamento para a aristocracia condenando o incesto e a poligamia, a Igreja organiza também a si mesma, impondo ao clero a continência. Mas não só. A problemática das relações do trabalho intelectual com as coisas mundanas, sobretudo o sexo, é também abordada por Duby na minuciosa e erudita pesquisa que realiza nas cartas trocadas entre Heloísa e Abelardo.
Enquanto escreve, Duby introduz o leitor nos procedimentos de sua pesquisa. Já no início chama a atenção para a dificuldade de escrever sobre as mulheres devido à especificidade dos testemunhos existentes que fazem com que, segundo sua palavras, o historiador avance, ‘penosamente’, sobre um ‘terreno difícil’. Consciente da suas limitações, esclarece que aquilo que pretende mostrar não é o ‘realmente vivido’, visto que este é inacessível. A sociedade, para ele, possui suas defesas e só exibe de si mesma aquilo que julga bom exibir. A preocupação em regulamentar a relação entre os sexos aparece abundantemente nos testemunhos de toda natureza, mas é na literatura para divertir que Duby vai pinçar a negação do sistema de valores que subordinava a mulher ao homem. Em Tristão e Isolda ele vê a representação das fantasias da gente da corte, mas lembra que a bela Isolda, adúltera, é estéril, e que, como no século XII a mulher só encontra sua plenitude na maternidade, a punição evitaria, assim, o nascimento de bastardos. No romance de Chrétien de Troyes, onde ostensivamente os personagens Fênix e Cligès são a antítese de Tristão e Isolda, Duby nos reserva uma surpresa: Chrétien de Troyes valoriza e exalta o valor do casamento, tendo o amor como prelúdio; há, portanto, uma mudança na representação da relação entre os sexos e reconhece que, embora tenha combatido duramente a hipótese de uma promoção da mulher na época feudal — Heloísa e Eleonora são mulheres frágeis —, as figuras femininas de Chrétien de Troyes que conduzem a trama do romance indicam ao historiador uma nova direção na relação entre os sexos.
Composto em 1176, o romance pressupõe uma modificação dos costumes da alta aristocracia em um momento em que no norte da França a economia mercantil decola, as guerra perdem a sua intensidade, modificando a política matrimonial das linhagens e tornando o casamento o grande vencedor.
Independentemente da sua natureza — cartas, sermões, literatura —, Duby lembra que a composição do texto obedecia a regras predeterminadas (não se escreve uma carta no século XII, como nos nossos dias) e insiste que tais narrativas constituem de forma análoga à hagiografia um exemplo a ser lido em alta voz, reforçando, assim, o papel da oralidade na sociedade medieval. Enquanto a força de alguns textos garantiu a sua transmissão e mesmo a perpetuidade, outros caíram no esquecimento, como o relato da vida de Juette, uma jovem visionária que viveu em 1172 em Huy (atual Bélgica). Juette exerceu forte influência sobre as mulheres, levando-as a resistir ao desejo carnal e, conseqüentemente, ao homem e ao casamento. A multiplicação nesta região das comunidades de reclusão preocupou a sociedade. O exemplo de Juette não era bom. A visionária foi esquecida.
Maria Eurydice de Barros Ribeiro – Universidade de Brasília. Departamento de História.
DUBY, Georges. Domes du XIV Siècle. Heloíse, Aliénor, Iseut et quelques autres. Paris: Gallimard, 1995. Resenha de: RIBEIRO, Maria Eurydice de Barros. Textos de História, Brasília, v.3, n.1, p.150-153, 1995. Acessar publicação original. [IF]
Tratado de Pintura / Leonardo Da Vinci
DA VINCI, Leonardo. Tratado de Pintura. Resenha de: BARONE, Juliana. O Tratado da Pintura de Leonardo da Vinci e suas principais edições em acervos brasileiros. Revista de História da Arte e Arqueologia, Campinas, n.2, p.358-362, 1995/1996.
Juliana Barone – Universidade Estadual de Campinas, Brasil.
[IF]Las ánforas fenício-púnicas del Mediterráneo Central y Occidental – TORRES (RHAA)
TORRES, Joan Ramon. Las ánforas fenício-púnicas del Mediterráneo Central y Occidental. Barcelona: Publicacions de la Universitat de Barcelona, col. Instrumenta, n.2, 1995. 661p. Resenha de: KORMIKIARI, Maria Cristina Nicolau. Revista de História da Arte e Arqueologia, Campinas, n.2, p.373-377, 1995/1996.
Maria Cristina Nicolau Komikiari – Universidade de São Paulo, Brasil.
Acesso somente pelo link original
[IF]
L’ultimo Caravaggio: dalla Maddalena a mezza figura ai due San Giovanni (1606-1610) – PACELLI (RHAA)
PACELLI, Vincenzo. L’ultimo Caravaggio: dalla Maddalena a mezza figura ai due San Giovanni (1606-1610). Todi: Ediart, 1994. Introdução de Maurizio Calvesi. Resenha de CABRERA, Galia Daniela. Revista de História da Arte e Arqueologia, Campinas, n.2, p.371-372, 1995/1996.
Galia Daniela Cabrera – Universidade Estadual de Campinas, Brasil.
Acesso somente pelo link original
[IF]
Los Enigmas de Tarteso – ALVAR; BLÁZQUEZ (PR)
ALVAR, J.; BLÁZQUEZ, J. M. (Eds.). Los Enigmas de Tarteso. Madrid: 303p. Ediciones Cátedra. Historia/Serie Menor. 1993. 303p. Resenha de: VIVANCOS, Alejandro Egea. Panta Rei – Revista de Ciencia Y Didáctica de la Historia, Murcia, n.1, p.108-111, 1995.
Alejandro Egea Vivancos
Acesso somente pelo link original
[IF]
Villa de Fortuna. Carta Puebla – GOMARIZ (PR)
GOMARIZ, María Cano. Villa de Fortuna. Carta Puebla. Excmo. Ayuntamiento de Fortuna, Murcia, 1994. Resenha de: GÓMEZ, José Antonio Molina. Panta Rei – Revista de Ciencia Y Didáctica de la Historia, Murcia, n.1, p.108, 1995.
José Antonio Molina Gómez
[IF]
Los misterios paganos y el misterio cristiano – LOISY (PR)
LOISY, Alfred. Los misterios paganos y el misterio cristiano. Barcelona: Ediciones Paidós Orientalia,1967. 252p. (Reimpresión em España 1990). Resenha de: PEREA, Catalina Ibernón. Panta Rei – Revista de Ciencia Y Didáctica de la Historia, Murcia, n.1, p.105-106, 1995.
Catalina Ibernón Perea
[IF]La Ciudad de Carthago Nova: Las Emisiones Romanas – FORCADA (PR)
FORCADA, María del Mar Llorens. La Ciudad de Carthago Nova: Las Emisiones Romanas. Universidad de Murcia, 1994. 408p. Resenha de: LÓPEZ, Julio A. Martínez. Panta Rei – Revista de Ciencia Y Didáctica de la Historia, Murcia, n.1, p.105-106, 1995.
Julio A. Martínez López
[IF]El Imperio romano. Economía, sociedad y cultura – GARNSCY; SALLER (PR)
GARNSCY, P.; SALLER, R. El Imperio romano. Economía, sociedad y cultura. Barcelona: Ed. Crítica, 1991. Resenha de: ROS, María Soledad Crespo. Panta Rei – Revista de Ciencia Y Didáctica de la Historia, Murcia, n.1, p.103-104, 1995.
María Soledad Crespo Ros
[IF]Marcus Aurelius. A biography – BIRLEY (PR)
BIRLEY, Anthony. Marcus Aurelius. A biography. London: 1966, 230p. (Edición revisadade 1993). Resenha de: MANCEBO, Sacramento Cantero. Panta Rei – Revista de Ciencia Y Didáctica de la Historia, Murcia, n.1, p.102-103, 1995.
Sacramento Cantero Mancebo
[IF]Mentalidad y tradiciénen la Serranía de Yeste y de Nerpio – MONTÉS; ASENCIO (PR)
MONTÉS, Juan Franciso Jordán; ASENCIO, Aurora de la Peña. Mentalidad y tradiciénen la Serranía de Yeste y de Nerpio. Albacete: Institulo de Estudios Albacetensesde la Excma. Diputación deAlbaccte. Serie l-Estudios-N, 67, 1992. 362p. Resenha de: Panta Rei – Revista de Ciencia Y Didáctica de la Historia, Murcia, n.1, p.100-101, 1995.
José Antonio Molina Gómez
[IF]Interpretación en Arqueología. Corrientes actuales – HODDER (PR)
HODDER, L. Interpretación en Arqueología. Corrientes actuales. Edición ampliaday puesta al día. Barcelona: Ed. Crítica, 1994. 233p. Resenha de: CARRILLO, Juan Gallardo. Panta Rei. Revista Digital de Ciencia y Didáctica de la Historia, Murcia, n.1, p.99-100, 1995.
Juan Gallardo Carrillo
[IF]Filosofia, história e sociologia das ciências: abordagens contemporâneas | Vera Portocarrero
O conjunto de textos que compõem Filosofia, história e sociologia das ciências constitui, na verdade, uma ‘abordagem contemporânea’ da ciência em sua história. Trata-se de uma coletânea de trabalhos altamente informativos e formativos nos campos da história, da filosofia, da epistemologia e da sociologia da ciência. Os autores interrogam as relações das ciências, das técnicas e das sociedades não de um ponto de vista estritamente ‘positivista’ ou ‘dogmático’, mas de um ponto de vista histórico-crítico. Porque, para eles, a ciência pensa, com um pensamento que engaja a vida. Tais interrogações, por vezes apaixonantes e controversas, abrindo para várias opções, compõem uma verdadeira e oportuna história das ciências escrita de modo coerente e vivo, revestindo-se de uma importância que torna sua leitura preciosa não somente para o especialista, mas para todo aquele que pretende se iniciar na pesquisa e se interrogar sobre a natureza da ciência, seus desafios e seus problemas fundamentais. Ademais, trata-se de uma história que não separa aquilo que a realidade da história unifica: o saber e as culturas.
Temos aí uma história crítico-sociológica tentando, entre outras opções bem-sucedidas, questionar os velhos dogmatismos e a problemática cientificista, e procurando mostrar que, longe de poder fundar a sociedade, a ciência constitui um produto das sociedades, que ela não pertence, como os heróis civilizadores dos mitos, a uma ordem transcendente, escapando às vicissitudes do tempo e do espaço; porque ela é obra dos homens, elaborada por uma cultura e por sociedades particulares: é histórica e geograficamente situada, mas também social, histórica, filosófica, econômica e eticamente condicionada. É portadora das marcas do contexto no qual se constrói e se desenvolve, assumindo esta ‘relatividade’ que a impede de propor ‘conhecimentos absolutos’. Leia Mais
O espetáculo das raças: cientistas, instituições e questão racial no Brasil, 1870-1930 | Lília Mouritz Schwarcz
Raça pertence àquela classe de conceitos que muitos gostariam que fosse definitivamente abandonado devido a sua generalidade, mas que, não com pouca freqüência, retoma ao centro das discussões. Sua longevidade impressiona: questões ligadas a raça eram centrais em debates acadêmicos do século XIX (e mesmo bem antes). Os debates persistem em uma época em que a ênfase volta-se para o seqüenciamento do genoma humano, um projeto que catalisa os interesses da biologia moderna.
Obviamente, o tópico ‘raça’ não se esgota no domínio das ciências biológicas, possivelmente daí derivando sua persistência e dos significados a ele associados através dos tempos. Não é nosso objetivo aqui aprofundar certas questões, mas é preciso mencionar que raça, em sua vertente biológica, social ou mais freqüentemente no intercruzamento de ambas, tem reiteradamente influenciado ideologias de perseguição e exclusão de segmentos sociais específicos em todo o mundo. Leia Mais
O médico e seu trabalho: limites da liberdade | Lilia Blima Schraiber
O debate sobre a medicina no Brasil tem estado quase sempre fundamentado na razão técnica que, baseando a ética profissional, se desdobra, com iguais doses de normatividade, tanto nos projetos neoliberais quanto nos mais diversos projetos estatizantes. Variando a ênfase, ora posta nas condições de trabalho dos médicos, ora nas condições para o consumo efetivo pelos pacientes, sempre se supõe que o objeto da discussão, o ato médico, consista em aplicações tecnológicas impessoais das ciências médicas, por referência às quais a historicidade, a sociedade e a individualidade só apareçam sob a forma de condicionantes externos, menos ou mais indesejáveis. Portanto, para além da ética profissional, os projetos políticos e ideológicos supõem sempre a instrumentalidade neutra da técnica como fundamento, pretendendo em todos os casos legitimar-se como decorrência imperativa de sua verdade absoluta.
O estudo de Lilia Blima Schraiber tem, entre outras qualidades, o mérito de contribuir para a possível mudança desse estado de coisas, ao se situar distante tanto de qualquer aversão ou compromisso apriorísticos por referência ao ideário liberal, quanto de toda fobia ou simpatia de princípio e sem reservas por um suposto igualitarismo e uma pretensa racionalidade que seriam inerentes às ações estatais. Leia Mais
A Torre Kubitschek: trajetória de um projeto em 30 anos de Brasil – PIMENTEL (VH)
PIMENTEL, Thais Velloso Cougo. A Torre Kubitschek: trajetória de um projeto em 30 anos de Brasil. Belo Horizonte: Imprensa Oficial, 1993. Resenha de: LANNA, Ana Lúcia Duarte. Varia História, Belo Horizonte, v.10, n.13, p. 176-177, jun., 1994.
O presente livro foi, onginalmente, apresentado como dissertação de Mestrado em H1stóría Social na UNICAMP, e ganhou o XII Prêmio Diogo de Vasconcelos (da Secretaria de Estado da Cultura de Minas Gerais), o que possibilitou a sua publicação. Partindo da história de um conjunto habitacional, o Conjunto Juscelino Kubitschek (CJK), Situado no centro da capital mineira, a autora buscou compreender o “processo que transformou o ‘tempo das Ilusões’ em tempo da desconfiança e os sentimentos que se movem em torno desses prédios, na cidade que os abriga e nas pessoas que os hab1tam”. (pág 20)
Idealizado por Juscelino Kubitschek, quando governador do Estado, e projetado por Niemeyer, o conjunto habitacional foi estudado pela autora, que acompanhou através dele a trajetória de 30 anos de Brasil. O trabalho, organizado em 4 capítulos, revela o CJK como “síntese de uma realidade contraditória, entre a idéia, nascida num momento fecundo da história do país e de seu povo, e a sua própria história enquanto obra, experiência real vivida por pessoas de outro tempo” (pág 138)
No primeiro capítulo, a análise reca1 sobre a arquitetura enquanto representação da civilização, símbolo de poder, ícone da modernização e do progresso. Os monumentos arquitetônicos, a partir do século XIX, devem ser compreendidos enquanto expressão do poder triunfante da burguesia. A arquitetura moderna, inserida neste processo, é vista como parte das vanguardas do século XX. Sua proposta associa técnica, velocidade e uma inovadora relação entre moradia individual e coletiva que a obriga a pensar sobre o espaço urbano. Projeta para o futuro e defende a liberdade de criação e experimentação de novas idéias, independente do sentido político de sua aplicação.
A obra de Niemeyer, visto como arquiteto do poder, será, de acordo com a autora, capaz de cumprir esta função simbólica de representar um certo 1deal de progresso que, projetando o futuro, questiona ao mesmo tempo a tradição. Belo Horizonte, enquanto uma cidade que deveria ser ao mesmo tempo moderna e tradicional, reúne uma quantidade significativa de obras de Niemeyer, aí edificadas sob o patrocínio do Estado, o que segundo a autora “espelha a forma como os grupos socia1s dominantes comandaram as reformas urbanas e administrativas necessárias à confirmação de sua hegemonia”. (pág. 39)
No segundo capítulo, Thais Pimentel realiza um apanhado da ideologia naclonal-desenvolvlmentista. Destaca conteúdo simbólico dos anos 50 corno “anos dourados”, o papel do ISEB, o crescimento das cidades e a Crescente atuação do Estado criador de uma Ideologia que prega a prosperidade, a 0rdem e a soberania. A pratica autoritária do Estado no comando da economia e sociedade brasileira pode ser percebida na forma como se dec1d1u a construção do CJK. Tanto o conjunto residencial quanto Brasília têm a forma material do desenvolvimentlsrno e podem ser vistos como símbolo e síntese desta época, imagem e semelhança do projeto de dominação da fração burguesa dominante, para quem a busca da harmonia social ora tão cara. O CJK é apresentado como um “balão de ensaio” revelando a tragédia e a glória dos anos 50.
No capítulo 3, o leitor poderá acompanhar a história da construção do CJK. Os empresários envolvidos, a participação e atuação do Estado e dos condôminos, em geral da classe média. A decisão de real1zar o CJK e as críticas e resistências ao projeto são apresentadas como indicadoras da prát1ca populista de poder onde o consenso é obtido a posteriori. As dificuldades enfrentadas na realização do empreendimento, a descrença e desmoralização que passaram a envolver o projeto ocasionadas sobretudo pelos sucessivos atrasos e elevação dos custos são então abordados. O Estado promotor do desenvolvimento bancaria o proJeto até 1964.
Mas esta trajetória tortuosa, a demora da execução e as características mesmas da cap1tal mineira vão fazer deste um lugar de suspeição. A sua proposta Inovadora de um morar colet1vo, voltada para o futuro, quando consolidada, encontra um país que rejeita o coletivismo. A aglomeração de pessoas v1sta como perigosa, em especial nos anos 70 quando os apartamentos ficaram prontos, reforça o medo que o local provoca Trabalhando com dicotomias como o interior do prédio – organizado e limpo, face a um exterior – Sujo e com Impressão de uma confusão permanente, ou moradores satisfeitos frente a uma população assustada e apreensiva, a autora vai mostrando o v1ver no CJK e o v1ver em uma cidade em expansão. Analisa ainda as transformações que o projeto trazia sobre o morar e como elas foram sendo alteradas ao longo dos anos e usos que os prédios tiveram As fachadas de v1dro fazem deste um panóptico ao avesso onde a cidade controla o interior.
A leitura do livro é int1gante pois a partir da análise de um monumento a autora consegue traçar a história de um país. O texto é de leitura fluente e agradável e interliga análises macro e micro, revelando na concretude como a cidade, através do granito e concreto, expressa os valores soc1a1s dominantes. Mostra ainda como a atuação de múltiplos atores interfere, altera e red1rec1ona os monumentos construídos em ruínas virtuais. A Torre Kubitschek é cicatriz v1sível na modernidade.
Ana Lúcia Duarte Lanna – Professora da FAU-USP e doutora em História Social pela USP.
[DR]
Ao Sul do Corpo: condição feminina, maternidades e mentalidades no Brasil Colônia – DEL PRIORI (VH)
DEL PRIORE, Mary. Ao Sul do Corpo: condição feminina, maternidades e mentalidades no Brasil Colônia. Rio de Janeiro: José Olympio Editora, 1993. Resenha de: DANTAS, Mariana Libãnio de Rezende. Varia História, Belo Horizonte, v.10, n.13, p. 172-175, jun., 1994.
“Este estudo apenas tentou abrir uma janela para a história social da mulher. Nele, procurei desvendar os mais salientes papéis da mulher na colônia, para descobrir que sentido elas lhe davam. Ou ainda, avaliar como os tais papéis funcionavam para endossar a ordem social proposta pelas instâncias de poder, ou, no plano oposto, para promover mudanças nesse sistema. além de incentivar rupturas e resistências. ” [ Del Priore, 1993]
Como a própria autora especifica nesse trecho retirado da conclusão de seu livro, esta obra vai procurar delinear o modo como a mulher se inseria na realidade social do Brasil colônia, quais papéis ela assumia, qual era a sua função social – função esta ditada pelos discursos normativos presentes e conjugados neste dado momento histórico – e quais eram seus comportamentos, !alas e gestos que nos permitem entrever o seu posicionamento em relação a esta sua existência ( sua aceitação ou sua recusa e a maneira como os demonstrava ).
Ao se propor este objetivo a autora vai mostrar estar em ressonância com a tendência atual de uma historiografia ‘francesa (ou poderíamos estender isto a uma historiografia mundial?) que vem tratando da mulher. Como bem nos mostra Bernard LePetit na introdução que escreveu para uma série de quatro artigos que visam criticar a obra Histolre des Femmes en Occidenl – organizada por Geroges Ouby e Michelle Perrot – publicada em um dos últimos exemplares da Revista dos Annales, não cabe mais se limitar a tratar a mulher na história como parte abstrata de um contexto mais geral, ajustando a sua história a uma já configurada história econômica, política ou social essencialmente masculino. O que ele vai propor, e os demais autores vão reforçar, é que os historiadores que se detiverem sobre esta questão devem buscar tratá-la estabelecendo como foco central a mulher – o que implica não somente elegê-la como objeto estudo mas buscá-la como sujeito de sua própria história e procurar entendê-la e ao mundo que a cerca a partir da interação de ambos.
Tendo em vista esta “proposta” de trabalho podemos identificar ao longo da leitura do texto a apreensão, por parte da autora, de três papéis específicos estabelecidos para a mulher nesse período estudado por ela, que abrange os séculos XVI, XVII, XVIII e XIX: o papel de esposa, o papel de mãe e finalmente, e em estreita relação com a concretização desses dois. o papel de transmissora e fixadora dos ideais e de uma moral católico-cristãos. Assim, partindo de dois discursos fundamentais, que a autora considera como tendo sido os dois musculosos instrumentos de ação acionados para O processo de adestramento pelo qual passaram as mulheres coloniais, o discurso sobre padr6es ideais de comportamento, difundido por moralistas, pregadores e confessores e fruto, em grande parte, das decis6es tomadas pela Igreja durante a reforma católica e de um projeto civilizatório que inundava a Europa renascentista; e o discurso normativo médico que, procurando discorrer sobre o funcionamento do corpo feminino, acaba por endossar e difundir uma concepção deste como destinado à procriação, a autora vai resgatando a maneira pela qual esta imagem da mulher vai sendo construída e firmada, não somente na mentalidade daquela sociedade como, também, na visão que a própria mulher tinha de si mesma.
Mas, se por um lado temos o que se mostra como sendo o idealizado pela época, por outro temos o que era praticado na época. Mary Del Priore nos apresenta, portanto, um mundo dicotômico, polarizado, onde o que propunha (ou impunha) o discurso masculino (religiosos, civilizador ou médico) tinha como opositor a realidade social desse mundo colonial, fruto de uma grande miscigenação de culturas, crenças e comportamentos. testemunha de necessidades que muitas vezes não condiziam com o que procurava estabelecer tais discursos e aliado de práticas e costumes que fugiam a estes ditames. E dentro dessa realidade “a-ser-normatizada” surgia a própria atitude dessas mulheres: que se apresentava como uma resposta mais coerente às imposições dessa realidade do que seria aquela desejada, pregada ou recomendada pelos seus adestradores. O texto da autora vai se basear, portanto, nessa polaridade e, ao mesmo tempo em que procura mostrar a concretização da mulher ideal ela nos mostra o forjamento da imagem da mulher condenada, aquela que se nega a ser esposa, que exerce a maternidade de uma maneira distoante da desejada pela Igreja e pelo Estado e que é incapaz de transmitir uma tradição católico-cristã por ser ela própria urna transgressora desta tradição, em suma, ela procura mostrar como essa mesma sociedade, que procura estabelecer os moldes da mulher ideal, vai forjar a imagem da “puta” para, através desta polarização radical, poder impor mais eficientemente seu projeta de adestramento da mulher.
Enfim, procurando entender e captar essa mulher presente no Brasil colônia, Mary Del Priore envereda pela literatura narmatizadora de quatro séculos buscando nas escritos teológicos, moralizantes e médicos da Europa, como também alguns produzidos no Brasil, o olhar masculino sobre a mulher e as intenções masculinas com relação a este sexo implícitas nesse “olhar”. E numa tentativa de resgatar essa ”mulher” ela vai percorrer o que a passado nos largou de indícios sobre ela: os testamentos, os autos de divórcio, as receitas de “remédios”, as crenças e tradições femininas. os relatos de viajantes e demais testemunhas que tiveram algum convívio com ela.
Através desse seu rastreamento ela nos deixa um retrato que, apesar de pouco nítido, nos permite perceber uma mulher que aceitou ser uma esposa obediente e submissa. que se rendeu à sua função de mãe e, para tanto, sofreu imensamente as dores do pano, sentiu um enorme medo e uma grande insegurança, que viveu permanentemente entre a vida e a morte (seja a sua seja a de seus filhos), que teve que negar sua própria identidade em prol de seus rebentos, de seu marido, do recato e da boa conduta moral, que abriu mão da sua sexualidade e do prazer e que finalmente acabou se adequando ao que a Igreja e a sociedade exigiam dela. Mas se observarmos bem esse mesmo retrato vamos perceber que essa mesma mulher era dada a agir, de vez em quando, de uma maneira nada “recomendável”, que era protagonista de “histórias de ‘amor-demasiada”‘, que se permitia viver amancebada ou concubinada, que criava suas filhas para venderem seus corpos como ela o fazia, que era detentora e transmissora de um saber considerado como feitiçaria ou bruxaria, que se recusava a ser mãe e abortava, abandonava ou matava seus filhos e, enfim, que apesar de todos os esforços masculinos para a controlarem e adestrarem, era muitas vezes “senhora absoluta” de suas casa e de seu corpo.
É essa mulher que a autora procura apreender e é através dessa mulher que ela procura delinear a trajetória histórica que marcou a vida da mulher desde a fundação da col6nia até a sociedade oitocentista – quando o papel social da mulher se apresenta melhor delimitado e esta se mostra melhor adequada a ele e mais nitidamente situada na sociedade brasileira – e é através dela, ainda, que ela procura entender a origem de uma certa imagem de mãe e de mulher que se mostra presente no imaginário de milhões de brasileiros ainda nos nossos dias. Mas será que, no final das contas, este seu trabalho responde a questão que ela se propôs, ou seja, responde a pergunta “Quem somos nós”? A autora vai, indubitavelmente, “abrir uma janela para a história social da mulher” na medida em que instaura um questionamento a cerca da origem desta mulher brasileira, esposa e mãe, mas será que na tentativa de dar conta destas questões ela não cai numa generalização e numa abstração ao tentar resgatar uma imagem de mulher – acabando, inclusive, por endossar a inevitabilidade a configuração feminina? Assim, ao trabalhar com o discurso dominante e buscar o modo como este interage com a mulher ela vai delineando uma imagem, u um retrato, desta mulher que vai ser sustentada por exemplos ilustra1ivo., deixando sempre a impressão de que a autora pode estar certa ou ela pode simplesmente, ter “topado” com os exemplos “certos” !
Mas, independentemente de qualquer critica que possamos formular a esta obra · fica a certeza de sua indiscutível importância pois ao procurar desvendar a origem e formação desse estereótipo Mary Dei Priore nos fornece o conheci menta necessário ao entendimento de certos fatores que até os nossos dias vêm marcando negativamente o destino da mulher brasileira. Nos remetendo ao nosso passado a autora nos permite entender melhor os elementos que compusseram e continuam compondo a nossa condição de mulher ~· assim. nos permite compreender como somos, na verdade, uma construção fruto de ideais de uma época passada, e, assim, ela acaba nos entregando a possibilidade de nos “reconstruirmos”.
Mariana Libãnio de Rezende Dantas – Bolsista de iniciação científica do CNPq. Aluna do curso de História da UFMG.
[DR]Utopia Possível | Tarso Genro
Resenhista
Delamar José Volpato Dutra – UFSC.
Referências desta Resenha
GENRO, Tarso. Utopia Possível. Porto Alegre: Artes e Ofícios, 1994.Resenha de: DUTRA, Delamar José Volpato. História em Revista. Pelotas, v.2, p.255-259, 1996. Acesso apenas pelo link original [DR]
The Romanization of Britain, an Essai in Archaeological Interpretation – MILLETT; Vindolanda – BIRLEY; The Roman Documents form Vindolanda – BIRLEY (RHAA)
MILLETT, Martin. The Romanization of Britain, an Essai in Archaeological Interpretation. Cambridge: Cambridge University Press, 1992. 255p. BIRLEY, Eric. Vindolanda, Reports on the auxiliaries, the wriing tablets, inscriptions, brands and graffiti. Volume II. The Early Wooden Forts. [Sn.]: Roman Ary Museum Publications, 1993. 126p. BIRLEY, Robin. The Roman Documents form Vindolanda. Newcastle upon Tyne: Roman Army Museum Publications, 1990. 34p. Resenha de: FUNARI, Pedro Paulo A. Estudos recentes sobre a Arqueologia da Bretanha Romana. Revista de História da Arte e Arqueologia, Campinas, n.1, p.249-252, 1994.
Acesso somente pelo link original
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A utopia do poderoso império. Portugal e Brasil: bastidores da política, 1798-1822 – LYRA (RBH)[
LYRA, Maria de Lourdes Viana. A utopia do poderoso império. Portugal e Brasil: bastidores da política, 1798-1822. Prefácio de Izabel Andrade Marson. Rio de Janeiro: Sette Letras, 1994. 256p. Resenha de: OLIVEIRA, Cecília Helena de Salles. Revista Brasileira de História, São Paulo, v.14, n.28, p.2268-270, 1994.
Cecília Helena de Salles Oliveira – Universidade de São Paulo.
Acesso ao texto integral apenas pelo link original
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Geschichte sehen / Jörn Rüsen
Ver a história é o título de uma obra coletiva, organizada por Jõrn Rüsen, Wolfgang Ernst e Heinrich Theodor Grütter (Geschichte sehen. Beitràge zur Àsthetik historischer Museen. Pfaffenweiler: Centaurus, 1988, 171+XXV pp.), que debate as questões referentes à apresentação de conteúdos históricos em museus e sua função social-pedagógica. A representação mental da memória e da consciência históricas é analisada desde a perspectiva do ideário presente nas mentalidades e nas organizações sociais que se pensam e expõem, mediante critérios de escolha de temas, objetos, textos e espaços.
Encenar a história como um espetáculo, como um espelho, torna-se um problema teórico e metodológico que ultrapassa o âmbito do gosto, da afetividade, da emoção. A conjuntura da construção da identidade e da especificidade dos grupos sociais mediante a elaboração da consciência histórica toma, na decisão de fazer museus e de preservar indícios [como no conservacionismo arqueológico], uma dimensão que mescla critérios político-administrativos e posições teórico- metodológicas. O mesmo vale para as exposições temporárias, da qual é exemplo a organizada em Munique, de 22 de outubro de 1993 a 27 de março de 1994, sobre München – Hauptstadt der Bewegung (Munique —A capital do movimento), cujo catálogo (485 pp.) não é uma mera descrição de peças expostas e logradouros da cidade, mas um livro de reflexão sobre a realidade social e econômica da Alemanha e sobre a consciência alemã na primeira metade do século XX, que levou (ou tornou possível que se levasse) ao surgimento do nazismo e à consagração da capital da Baviera como a capital do “movimento”. Numa e noutra obra reflete-se de modo esclarecedor sobre as três dimensões da cultura histórica: a política, a científica e a estética, ou seja: o poder, a verdade e a beleza, indispensáveis à qualificação social de histórias que tencionam ter efeito sobre a realidade concreta dos homens.
Ver a história exprimiria, assim, a sintonia suposta (e esperada) entre o mostrado (ou escrito) e o observador (ou leitor), na medida em que as três dimensões encontrariam, na exposição e na compreensão, inteligência comum.
A preocupação com a enunciação e a exposição do pensamento histórico enquanto formador e formulador de identidade social é uma constante na segunda metade do século XX. Os historiadores de língua inglesa e alemã sempre manifestaram interesse especial pelas questões teóricas e metodológicas.
Desde os anos 1960 vem sendo intensa a dedicação a essas questões, em particular ao desenvolvimento da história social e das idéias. A renovação também da história política a que os Anna/es e seus descendentes decerto não são estranhos — reforçou essa tendência. A constituição da história como ciência social e a garantia de sua cientificidade foram objeto de textos que marcaram de forma indelével a prática da ciência histórica no espaço de língua alemã (e mesmo inglesa), como Geschichte ais Sozialwissenschaft, editada pelo historiador social alemão Hans-Ulrich Wehler, em 1973. O crescimento da reflexão teórica sobre os fundamentos da história acelerou-se nos anos 1970 com a formação de amplo grupo de trabalho reunindo filósofos, historiadores, sociólogos, literatos, antropólogos, politólogos e outros (não apenas alemães, mas também ingleses e americanos). Do trabalho desses especialistas resultou uma série de seis volumes de excepcional qualidade, sob o título geral de Theorie der Geschichte, publicado pela dtv wissenschaft, de Munique, entre 1974 e 1990, com os seguintes temas: “Objetividade e partidarismo na ciência histórica”, “Processos históricos”, “Teoria e narrativa na história”, “Formas da historiografia”, “Método histórico” e “Todo e parte”. A tônica desses trabalhos está na pluralidade de abordagens e na interdisciplinaridade, em torno do eixo sistematizador da história social. Jõrn Rüsen, um dos principais formuladores da teoria contemporânea da história, publicou — entre 1983 e 1989 — a mais completa síntese em teoria e metodologia da ciência histórica, sob o título geral de Elementos de uma teoria da história e em três partes: Fundamentos da ciência histórica, Reconstrução do passado: os princípios da pesquisa histórica e Fíistória viva: formas e funções do saber histórico (Gõttingen: Vandenhoek & Ruprecht).
Rüsen concentra-se no caráter racional e seletivo, valorativo e orientador que a elaboração do conhecimento histórico, sob o rigor do método e da pesquisa empírica controlada, possui.
O principal foro de repercussão e valorização das opções teóricas e metodológicas da ciência histórica vem sendo, desde 1962, a revista History and Theory (Wesleyan University, Middletown, Conn., EUA), que tem hoje, entre seus editores, I. Berlin, R. Koselleck, J. Rüsen, A. Danto, J. Passmore, P. Veyne, W. Dray, H. White e J. Topolski. A contribuição da revista para a libertação da ciência histórica de sua fase empirista, descritiva, foi decisiva. Inúmeros equívocos clássicos, como o da confusão entre estilo narrativo e desqualificação da história como ficção pararomanesca, puderam ser desmascarados e superados nas páginas de Hayden White, por exemplo.
Conexo com a questão teórica e com a perspectiva social- pedagógica da exposição do juízo histórico descritivo e explicativo, há um importante aspecto adicional que se destacou, nos últimos quinze anos. Também ele tem a ver com o produto historiográfico constituído e com seu efeito social na comunidade. Trata-se do caráter didático-pedagógico do saber histórico. Com o Manual da didática da história (Handbuch der Geschichtsdidaktik. Düsseldorf: Schwann, 1a edição: 1979; 3a edição: 1985), organizado por K. Bergmann, A. Kuhn, J. Rüsen e G. Schneider, busca-se ultrapassar a freqüente torre de marfim em que a história se encastela, para dar à historiografia uma dimensão a que não pode ficar alheia: a de co-autora da identidade e do processo de constituição dos grupos sociais. Assim, o Manual abre com a apresentação da história como meio ambiente mental dos homens em sociedade, passa por sua consolidação como ciência de rigor, debate longamente o papel e a função da história no ensino escolar e na preparação de seus docentes e conclui pela análise da presença da história no espaço público fora das trincheiras formais das escolas e das universidades. Esse tipo de reflexão potencializa o papel social do conhecimento histórico na perspectiva de sua relevância para a definição mesma do agente racional humano no contexto de seu mundo (de seu espaço de vida, de pensamento, de ação): pensar-se a si próprio e a seu mundo, historicamente, é constituir-se e a ele. A realidade (re)construída pelo saber histórico revela, assim, o caráter antropológico do mundo pensado, descrito e explicado. Sentir a história dessa forma, tomar-lhe o pulso, é — para um número crescente de historiadores — uma tarefa que vai além da pesquisa e da elaboração de uma monografia.
A queda do muro de Berlim e a súbita necessidade de (re)encontrar-se o sentido e a direção dos alemães em sua vertiginosa história contemporânea ofereceram ocasião para um sem-número de estudos e publicações. Muitos relevam análise política e das relações internacionais. Um, contudo, da registra o quanto essa circunstância da vida da Alemanha fez recrudescer o interesse pela história, já que o passado e o presente da sociedade alemã e de seu contexto social, político e econômico são tão carregados de episódios complexos e de repercussão mundial. Interesse an der Geschichte (Interesse pela história. Org. por Frank Niess. Frankfurt—Nova York: Campus, 1989, 144 pp.) acolhe posições de historiadores alemães de renome, que se dedicam a esmiuçar a complicada relação, para os alemães, entre consciência, explicação histórica e responsabilidade social coletiva. A “catástrofe alemã” do nazismo e da ruptura social subseqüente à “organização” da guerra fria, cuja fronteira cortava a Alemanha em duas, constituíra-se em um ponto nevrálgico da consciência histórica que, após inúmeras polêmicas, desembocou na maior delas, em 1986. Esta ficou conhecida como o Historikerstreit (a polêmica dos historiadores), cujo teor foi a superação de um tipo de ser alemão e de fazer-lhe a história que rompesse com o período 1933-1945. A “catástrofe alemã” (W.Schulze), o “aprendizado da história” (K.-E. Jeismann), a história como “objeto de exposição” (G. Korff), a mulher na história e a história das mulheres (G. Bock), o esclarecimento [no sentido do fluminismo] e a instituição do sentido (H.-U. Wehler), a continuidade e a ruptura da identidade (J. Rüsen) e outros temas candentes fizeram da história, para o dia-a-dia dos alemães, algo de interesse prático e imediato, conquanto ainda não ao ponto de tornar os livros de história tão lidos “popularmente” (não confundir com vulgarização ou pseudohistória) como na França. O componente histórico, como elo de coesão e estruturação da consciência de si, aparece, assim, como o interesse mesmo de sua constituição racional, individual e social: “Uma ciência histórica orientada por idéias da Aufklárung, formuladas em sintoma com a atualidade, pode contribuir para enunciar um saber orientador racional, fundado historicamente” (H.-U. Wehler).
Ficam referidas aqui, pois, algumas leituras que trazem contribuição renovadora e inovadora para o campo da ciência histórica e de seus desdobramentos, para bem além do espaço lingüístico alemão. Há certa dificuldade, para nosso público, em ponderá-las, justamente por se tratar de livros publicados em alemão, língua de uso pouco freqüente entre os historiadores no Brasil. Alguma coisa das contribuições desses autores tem versão inglesa (traduções integrais e, no mais das vezes, artigos publicados na History and Theory), o que pode ajudar no acesso aos textos.
Nota
1. A produção historiográfica contemporânea é tributária da revolução metodológica original e originária da escola dos Annales; como aqui não se dá notícia específica dela, remete- se, para um balanço sucinto e sob as categorias derivadas da investigação da superação do Antigo Regime, a Peter Burke: A Escola dos Annales 1929-1989. A Revolução Francesa da historiografia. São Paulo, Editora UNESP, 1991 (orig. francês: 1990).
Estevão C. de Rezende Martins – Universidade de Brasília.
RÜSEN, Jörn; WOLFGANG, Ernst; GRÜTTER, Heinrich Theodor (Org.). Geschichte sehen. Beitràge zur Àsthetik historischer Museen. Pfaffenweiler: Centaurus, 1988, 171p. Resenha de: MARTINS, Estevão C. de Rezende. Ver, sentir, fazer a história. Textos de História, Brasília, v.2, n.4, p.175-180, 1994. Acessar publicação original. [IF]
La decouverte de l’Amèrique? Les regards sur Vautre à travers les manuels scolaires du monde / Pierre Ragon
Situada em local onde havia uma antiga livraria brasileira de oposição à ditadura, em Paris, a editora/livraria L’harmattan encontra-se entre as quinze primeiras editoras francesas. Criada em 1974, voltada sobretudo para as ciências humanas, L’harmattan concede ao denominado “Terceiro mundo” um espaço privilegiado, que começou pelas publicações que tratavam da África e do Brasil. Atualmente, ela cobre toda a América Latina e oferece ao público cerca de seiscentos títulos novos por ano. A maior parte dessas publicações permanece, no entanto, ignorada pelo público brasileiro. Nesse sentido, é interessante salientar dois trabalhos publicados por ocasião das comemorações do V Centenário do descobrimento da América.
O primeiro é La decouverte de l’Amèrique? Les regards sur Vautre à travers les manuels scolaires du monde (1922). O organizador é Javier Pérez Siller, sociólogo e historiador mexicano, professor da Universidade Nacional do México, que tomou como ponto de partida o fato de ser o descobrimento da América um dos poucos acontecimentos históricos considerado como patrimônio universal. Em todos os países do mundo, as crianças aprendem que em 1492 Cristóvão Colombo descobriu a América. Com isto, Javier Pérez Siller lançou um desafio a um grupo de pesquisadores das mais diversas nacionalidades: demonstrar como o descobrimento da América foi representado nos manuais escolares. Foram pesquisados 150 manuais escolares em uso em setenta países.
O grande mérito e originalidade desse livro de agradável leitura encontra-se na sua proposta. Javier Pérez Siller reuniu pesquisadores da Alemanha, França, Grécia, Portugal, Venezuela, Colômbia, Camarões e Marrocos, dentre outros países.
O trabalho permite, assim, uma leitura comparativa a respeito dos descobrimentos, nos manuais escolares, das diversas partes do mundo, rompendo com a visão europeocentrista.
A inspiração do organizador não é difícil de adivinhar. Muitos certamente lembrar-se-ão, imediatamente, de Marc Ferro em Comment on raconte l ‘histoire aus enfants a travers le monde entier ( Paris, Payot, 1986) e em L ‘histoire sous surveillance (Calmann-Levy, 1985). Muito antes das comemorações do V Centenário do descobrimento da América, Ferro já denunciava as conseqüências de uma visão teleológica e europeocêntrica da história. Prefaciando a obra organizada por Péres Siller, Ferro adverte que “não se trata de um catálogo”, mas de uma confrontação entre as diferentes visões da história, a partir de um observatório particular”. A leitura do livro reafirma as observações de Marc Ferro.
A descoberta da América, como acontecimento que se representa, submete-se a um jogo complexo que envolve aspectos nacionais, internacionais, culturais e étnicos. Lamentavelmente, embora trabalhos como este questionem a história europeocentrista, os manuais escolares continuam perpetuando uma história centrada nos valores europeus ocidentais. Resta ao menos refletir entre a distância que no Brasil separa a produção acadêmica da produção do manual escolar.
O segundo livro, Les itidiens de la découverte. Evangélisation, mariage et sexualité (1992) é de autoria de Pierre Ragon, jovem historiador interessado em história religiosa da América Latina na época moderna e professor da Universidade de Paris X — Nanterre. Pierre Ragon segue bem de perto, nesse trabalho que trata do México pós-conquista, a trilha aberta já há alguns anos pela historiografia francesa, que aproxima a história da antropologia. O autor propôs-se a analisar o encontro de duas culturas, concedendo a evangelização o papel de transposição dos valores europeus — moral e concepções de vida — para a sociedade ameríndia completamente desconhecida.
Na abordagem dessa transposição, o autor elegeu o estudo da introdução do casamento cristão entre os índios. Ragon não restringiu o seu trabalho a um estudo de história religiosa. Com a análise do casamento, penetrou na sociedade indígena, desvendando os laços mais elementares ali existentes.
No contexto da colonização espanhola deteve-se no exame da complexa passagem de uma sociedade “paga” à cristandade, destacando com perspicácia como, aos poucos, o casamento e a sexualidade foram se tornando prioritários para os evangelizadores, uma vez que pelo casamento cristão era possível normalizar a vida dos indígenas, segundo uma fé que eles passavam a adotar. O autor insiste ainda na “abertura de espírito” de grande parte dos religiosos que aceitaram muitas das instituições indígenas, viabilizando assim a implantação das novas normas de vida. Integrando a reflexão teológica aos costumes desses povos desconhecidos, buscavam no pensamento de São Tomás de Aquino (definição do casamento e concepção da lei natural) a defesa da validade das uniões indígenas.
De forma interessante, num estilo elegante, Ragon mostra como os religiosos foram além da reflexão intelectual, lançando-se na prática a uma tarefa pedagógica que inicialmente procurou o apoio das elites indígenas, intervindo nos conflitos pelo poder, contando com o apoio feminino, enfrentando resistências e, finalmente, modificando e impondo com o casamento cristão uma reestruturação do sistema de alianças políticas, anteriormente fundadas na poligamia.
As fontes utilizadas pelo autor revelam a seriedade e a profundidade do trabalho, que não se contentou com análises superficiais. Foram pesquisados tratados de teologia, processos da Inquisição, exposições, questionários, catecismos, manuais de confissão e a correspondência dos missionários. A obra possui quatro capítulos, nos quais Ragon discorre sobre a definição dos casamentos indígenas, os teólogos do Novo Mundo e a escolástica medieval, as novas regras de comportamento e, finalmente, a evolução das relações matrimoniais e o impossível controle das condutas. O livro é ainda enriquecido por um léxico, anexos, esquemas, gráficos e fotografias.
A retomada das teses clássicas da filosofia tomista pelos missionários do século XVI e a amplitude da cristianização na América diminuem certamente as fronteiras temporais que separam a Idade Média dos tempos modernos. Javier Guerra, no prefácio ao livro de Ragon, afirma que ‘”nosso conhecimento desses fenômenos no México pode esclarecer, por analogia, os processos de aculturação que se produziram antes, na Europa, quando da cristianização dos germanos, dos eslavos e dos escandinavos”.
Maria Eurydice de Barros Ribeiro – Universidade de Brasília.
SILLER, Javier Pérez. (Org). La decouverte de l’Amèrique? Les regards sur Vautre à travers les manuels scolaires du monde. 1922; RAGON, Pierre. Les indiens de la découverte. Evangélisation, mariage et sexualité. 1992. Resenha de: RIBEIRO, Eurydice de Barros. V Centenário do descobrimento da América. Textos de História, Brasília, v.2, n.4, p.182-184, 1994. Acessar publicação original. [IF]
Ao Sul do Corpo. Condição feminina, maternidades e mentalidade no Brasil Colônia / Mary Del Priori
A obra Ao Sul do Corpo. Condição feminina, matemidades e mentalidades no Brasil Colônia, de autoria da historiadora Mary DEL PRIORI, publicada por J o s é Olympio e EdUnB, em 1993, cobre uma enorme lacuna existente para o estudo da condição feminina na Colônia, povoada sobretudo por “mestiças” e marcada pelo entrecruzamento de etnias diversas, caracterizadas pela alteridade: brancas, negras e índias. Além de demonstrar grande trânsito com a bibliografia internacional, a autora realizou excelente pesquisa de documentos, muitos deles certamente inéditos: fontes manuscritas e impressas (Arquivo Nacional e do Estado de São Paulo e da Cúria Metropolitana de S ã o Paulo; Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro e de Lisboa; Arquivo Nacional da Torre do Tombo).
DEL PRIORI referencia sua reflexão no processo civilizatório europeu de normatização da mulher que atinge toda a cristandade ocidental, sobretudo a partir do Concilio de Trento (1545-1563), e que é elemento central do movimento de reorganização das funções do corpo, dos gestos e dos hábitos, traduzidos em condutas individuais, as quais deveriam refletir a pressão organizadora moderna dos jovens Estados burocráticos sobre toda a sociedade. Ou seja, tratava-se da privatização do eu e, simultaneamente, da apropriação privada dos meios de produção. Esta nascente ética sexual assentada no adestramento, sobretudo da mulher, fez-se, nos trópicos, a serviço do processo de colonização.
Tratava-se de organizar as gentes e o povoamento da Colônia marcada nos três primeiros séculos pelos fluxos e refluxos humanos, isto é, por uma convulsiva mobilidade, especialmente dos homens. Em lugar de condutas individuais (noção de privacidade do eu), identifica-se, no p e r í o d o , uma enorme disponibilidade sexual contaminada pela exploração sexual do escravismo, por um amolengamento moral e, como diria Caio Prado Jr. em Formação do Brasil Contemporâneo, por “falta de nexo moral” e “irregularidade de costumes”. Predomínio de ligações consensuais, chamadas de “tratos ilícitos”, de filhos gerados em amasiamento de brancos com í n d i a s e em concubinato (trazido pelos portugueses e amplamente divulgado nas classes subalternas) e de famílias matrifocais: a mãe integradora de seu fogo doméstico, ou seja, mantenedora, gestora e guardiã dos seus e de outros filhos ilegítimos.
A reflexão sobre o processo de normatização e adestramento da mulher na Colônia é feita, sobretudo, a partir da análise dos discursos e práticas da Igreja e dos médicos. A ação moralizante da Igreja após o século XVI, que teve como alvo o combate às sexualidades alternativas, o concubinato, as religiosidades desviantes e a valorização do casamento e da austeridade familiar, vai se erigir na Colônia por razões do Estado: necessidade de povoamento das capitanias, de segurança e de controle social. As mães, em sua função social e psicoafetiva, transformam-se no período em estudo, num projeto do Estado e principalmente a Igreja encarregarse- á de disciplinar as mulheres da Colônia, fazendo-as partícipes da cristianização das índias. Os filhos nascidos fora do casamento comprometiam a ordem do Estado Metropolitano, pois implicavam no incremento de “bastardos” e “mestiços”, colocados pelo p r ó p r i o sistema nas fímbrias da marginalidade social As mães, chefes da maioria das casas e das famílias – mantenedoras de seus fogos domésticos -, foram eleitas como responsáveis pela interiorização dos valores tridentinos. O casamento insolúvel, a estabilidade conjugai, a valorização da família legítima – espécie de fermento da cristandade -, apresentadas como recompensa e reconforto frente à generalizada situação de abandono por parte dos homens-maridos-companheiros- pais.
O modelo europeu é trasladado à Colônia, pois aqui, no “trópico dos pecados”, morava por excelência, o Diabo. Daí a maior necessidade de ordenação e de normatização. O alvo preferido foram as mães solteiras pois estas não conheciam as benesses do casamento.
A maternidade passa a ser a remissão das mulheres e o preço da segurança do casamento o “portar-se como casada”. A identidade da mulher que se constituía de uma gama de múltiplas funções (mãe de filhos ilegítimos, companheira de um bígamo, manceba de um padre, etc.), deveria passar a introjetarse apenas nas relações conjugais.
A Igreja contou, para a implantação de tal projeto, com a fabricação generalizada da culpa (Pastoral de culpabilização dos fiéis), do medo (Pedagogia do medo), da vitimidade e da intensificação da polaridade mãe-santinha X puta. Esta última tornou-se o bode e x p i a t ó r i o do projeto de normatização, enquadrável enquanto tal toda a mulher que não se “portasse como casada” e como “mãe-santinha”: ambigüidade dos papéis de lascívia e pobreza que confundiam a vida sexual irregular com prostitutas, identificadas ainda no século XIX pela Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro com “cancro”, “chaga”, “úlcera” e “gangrena”.
As não casadas e o aborto associados à luxúria, ao de mônio, ao inferno. O parto sem dor como parto sem pecado: maior devoção, melhor parto. O filho imperfeito, resultado da prática do sexo em dias proibidos ou com animais, ou então resultado da “imaginação feminina”. Os filhos gerados fora do casamento, comparados à “imperfeição da cristandade” e “aleijados da natureza”.
Destacam-se a eloqüência dos sermões difundindo a idéia de mulher como naturalmente sereia, diaba e perigosa e impondo a devoção a Nossa Senhora com vistas a comportamentos ascéticos, castos, pudibundos e severos, a l ém do culto à virgindade e o confessionário como instrumento potente de controle de intenções.
Por sua vez, o discurso normativo médico sobre o funcionamento do corpo feminino apoiava o discurso da Igreja na medida em que indicava como função natural da mulher, a procriação. Fora desta, restava-lhe o lugar da exclusão: a melancolia ou a luxúria. Ao estatuto biológico da mulher, o discurso médico procurava associar outro, moral e metafísico: esta tem um temperamento comumente melancólico, é um ser débil, frágil, de natureza imbecil e enfermiça.
O critério do útero como regulador da saúde física e mental da mulher irradiava-se da Europa do Antigo Regime, difundindo a mentalidade de que a mulher era física e mentalmente inferior ao homem. A concepção e a gravidez como rem é d i o para todos os “achaques femininos”. A medicina comprazia-se, ainda no século XVIII, em enxergar nos males físicos, sinais de transgressão sexual. Assim, histeria guardou o nome grego de ú t e r o (hyster) e um corpo h i s t é r i c o era denotativo de desordem moral.
A menstruação era associada à magia, transformações e veneno, atualizando as proposições de Santa Hildegarda de que aquela era um castigo decorrente do pecado original. Este sangue envenenado tinha o poder de estragar o leite, vinho, colheitas e metais: pelo excesso de secreções e odores a mulher devia se isolar em seu cotidiano.
Se menstruada a mulher era ameaçadora e grávida vulnerável, conclui-se pela urgência de novas matemidades. A autora localiza, inclusive, anotações médicas indicando o mal-estar dos homens diante das feiticeiras, capazes de adoecê-los, mas também de curá-los com seu sangue poderoso.
Só a partir de 1750 os médicos vão substituir o temor pelo cuidado. Apenas no final do século XVIII identificam-se modestos avanços da medicina no sentido de identificar outras razões para enfermidades femininas que não o clima ou a vida pecaminosa – os terríveis males da “madre”.
A importância da lactação passa a ser percebida tanto por doutores, quanto pela Igreja como um dever moral, desde o século XVI. A partir daí instaura-se o combate às amas-deleite: cada vez mais o aleitamento torna-se um dever e parte fundamental do processo de sacralização do papel da mãe.
Assim, no século XVIII localiza-se uma nova representação da Nossa Senhora do Bom Parto: uma mulher feliz com filhos nos braços e não mais grávida.
Por sua vez, se a puta era o bode expiatório do projeto de normatização, a partir do século XIX será o bode expiatório também do processo de higienização da sociedade. Tratava-se de higienizar a noção de sexualidade: exaltação da sexualidade conjugai, na medida em que o prazer em excesso e a ausência de finalidade reprodutora passam a ser condenados pela medicina como doença física e moral.
Fundamental no processo, localizar o papel do marido: cabeça da mulher, que cuida para que ela cumpra os encargos da profissão cristã. Para evitar as tentações ela devia ser obrigada a obedecê-lo por preceito divino, nem cabelo cortar sem sua autorização. As mulheres deveriam ser fiéis, submissas, recolhidas e sobretudo fecundas. O marido passava a ser o único elo de ligação com o mundo. Assim, aquele torna-se uma espécie de porta-voz das demandas de adestramento propostas pela Igreja, a l ém de ser motivo para um sutil processo de culpabilização, pois em torno dele se mostraria uma estratégia de gratidão escravizante. Os maridos deveriam ser dominadores, voluntariosos, insensíveis e egoístas no exercício da vontade patriarcal.
Assim, pode-se pensar que o processo de adestramento, ao colocar os maridos, os filhos e os pais ocupando determinadas posições em relação às mulheres, disciplina o próprio gênero masculino, construindo, conseqüentemente, uma nova identidade masculina. Por sua vez, ainda que a autora destaque o projeto matrimônio-maternidade enquanto concebido como espaço normatizador, n ã o aponta a sua contra face que é a ligação com a paternidade, matrimônio-paternidade. O silêncio das fontes sobre a paternidade é denunciador da própria incerteza e da dificuldade de naturalização da mesma. Isto se deve, em boa medida, pela sinonimização que é feita da categoria de g ê n e r o ora por sexo, ora por mulher. Neste sentido, o conceito é desvirtualizado, pois não se remete à dimensão relacionai, fundante do mesmo.
Outro aspecto a considerar é a questão da misoginia. Na verdade a autora atribui às mentalidades populares a missão “…de guardiã da misoginia” (pg.334). No entanto, no conjunto mesmo do texto, percebe-se que a misoginia é transversal a todos os segmentos sociais. Todos os saberes que as bruxas tinham sobre o corpo feminino causavam pânico, e foram responsáveis pela instauração da Caça às Bruxas. Obviamente a condenação das mesmas deveu-se à Igreja e à nobreza e n ão às classes populares. Ao contrário, estas recorriam, nas suas necessidades fundamentais, às feiticeiras, simultaneamente chamadas de fadas, quando seus conhecimentos e práticas davam resultados.
Assim, a misoginia n ã o pode ser atribuída fundamentalmente às mentalidades populares, conforme exprime a autora. Ao contrário, apesar de se referir inúmeras vezes ao Diabo, parece n ã o considerar que a T o l i t i z a ç ã o do Diabo” deu-se na Europa, simultaneamente, como mecanismo de resistência dos oprimidos e como mecanismo de dominação por parte da Igreja e das elites, processo de lutas que eclodirá na Caça às Bruxas, sobretudo nos séculos XVI e XVII. Assim, a proximidade da q u e s t ã o referida à misoginia, bem como do p r ó p r i o processo de normatização da mulher, com a questão das feitiçarias, do Diabo e da Caça às Bruxas é evidente. Porém disto a autora n ã o se ocupou.
Enquanto historiadora, poderia ter realizado uma excelente análise, ainda que para melhor referenciar-se, do próprio movimento desencadeado na Europa no p e r í o d o estudado: o Racionalismo, colocando todos os homens e mulheres como iguais e que seguirá convivendo com a misogina ancestral.
A mulher continuará pecadora, lasciva, demoníaca, etc, embora igual ao homem perante Deus e perante a Lei. O projeto de normatização e adestramento, objeto de estudo da pesquisadora, é o exemplo mais bem acabado desta ambigüidade.
Esta lacuna é de certa forma compreensível, quando a autora não se permite falar pela maioria: n ã o explicita os segmentos sociais a que se remete. Isso faz supor que fale por todos, mas é a partir do lugar das elites que sua fala é construída.
Pode-se exemplificar através da atribuição que Del Priori indi ca (p.37) às mães no que tocava à responsabilidade pelo ensino das primeiras letras aos filhos. N ã o se pode esquecer que a maioria da população, no p e r í o do considerado pelo estudo, era analfabeta.
Neste sentido, observa-se ainda que a autora, embora expresse conhecimento exaustivo da literatura francesa, e uma lógica narrativa enunciativa foucaultiana, não cita este autor (Foucault), em sua bibliografia, e ao mesmo tempo, n ã o consegue realizar, à semelhança do mesmo, o estudo processual da construção e da expansão nos diferentes segmentos sociais do projeto que trata de se tornar hegemônico.
A virtude mais frutífera da obra para a historiografia da mulher é a comprovação de “… que existiam, sim, fontes para a história da mulher no p e r í o do colonial…” (p.15). Essa comprovação implicou num volumoso trabalho de busca e organização de novas fontes, bem como uma originalidade expressiva no tratamento das fontes j á conhecidas.
Também descreve com agudez a rede de solidariedades e de micro poderes e saberes que as mulheres desenvolvem e se envolvem durante o p e r í o do colonial, mas não consegue perceber as tensões geradoras de resistências neste processo.
Desta forma, Del Priori reforça o pensamento tradicional, ainda dominante, do feminino e das mulheres incorporadas historicamente como objetos e não como sujeitos.
É lamentável, portanto, que o olhar que localiza e investiga as mulheres continue a ser o olhar que vê e fala pelas mulheres dando luz às suas passividades, n ã o visibilizando nem buscando (pg.335) suas opções, práticas, gritos e projetos.
Nesta direção, exemplificando, podemos lembrar que a pesquisadora não assume a promiscuidade e as relações não legítimas como projetos possíveis de resistência por parte de uma grande maioria de mulheres. Simultaneamente, não consegue explicitar como estas assumem o matrimonio-maternidade como projeto próprio, sendo que, segundo ainda a própria autora, o destino das mulheres-mães casadas era quase trágico (pg. 63).
A “irregularidade de costumes”, o fluxo contínuo, sobretudo de homens, as mulheres mantenedoras de seus fagos domésticos, mães de filhos de muitos pais, nunca deixou de ser uma constante, principalmente entre os pobres aqui e em outras colônias. Na atualidade, na América Latina, h á 25 milhões de lares chefiados por mulheres.
O fato do projeto normatizador ter se tornado hegemônico para as elites e as classes médias brasileiras com linhagens e/ou patrimônios a salvaguardarem não nos permite pensar que estes milhões de mulheres chefes de família foram “deixadas para trás” e a elas atribuir unilateralmente a solidão, a humilhação, o abandono e a violência (noções que transversalizam todo o texto).
E o olhar católico que parece não permitir o olhar e a análise críticos do dado destacado pela investigadora (pg. 51 e repetido na pg. 175), de que em Minas Gerais no século XIX ainda havia um predomínio de famílias matrifocais – cerca de 45% do total, sendo que 83% destas nunca haviam se casado.
A promiscuidade e o casamento não sacramentado podem ter sido e continuar a ser um projeto para muitas mulheres. Por que não? Por que olhá-las apenas a partir da vitimidade? Neste sentido, o olhar da autora coincide com o olhar do projeto normatizador da Igreja-Estado, apoiados pela j u r i s p r u d ê n c i a e pelo discurso médico. E que é, por excelência, o olhar masculino racional-universalizante. E um dos inú meros avanços possibilitados pela perspectiva de g ê n e r o é a construção de outros olhares e de outros lugares de fala, que rompam com aquele, ainda hegemônico no pensamento ocidental moderno.
Deis Siqueira – Doutora em Sociologia e professora na UnB, Lourdes Bandeira – Doutora em Sociologia e professora na UnB e Silvia Yannoulas – Mestre em Sociologia.
DEL PRIORI, Mary. Ao Sul do Corpo. Condição feminina, maternidades e mentalidade* no Brasil Colônia. Brasília, Rio de Janeiro: Editora da UnB, José Olímpio, 1993. Resenha de: SIQUEIRA, Deis; BANDEIRA, Lourdes; YANNOULAS, Silvia. Textos de História, Brasília, v.2, n.3, p.148-157, 1994. Acessar publicação original. [IF]
Way of Death. Merchant Capitalism and the Angolan Slave Trade / Joseph C. Miller
Algum dia, seria oportuno avaliar o impacto das efemérides sobre a produção historiográfica. Poder-se-ia relacionar a comemoração dos trezentos anos da Revolução Puritana e o estabelecimento de um novo padrão na historiografia marxista inglesa? O ano de 1976 impôs o tema da festa, talvez em função do segundo centenário da Revolução Americana, talvez pelo anúncio da intenção do rei da Espanha de comemorar com grande gala o V Centenário da América, ou visando desde então as comemorações, então algo longínquo, de 1989 1.
Já no Brasil, o centenário da abolição oficial da escravatura propiciou uma relação bastante extensa de obras publicadas pelas editoras nacionais, que logo passaram a acompanhar, um pouco mais timidamente, a explosão editorial francesa do segundo centenário da Grande Revolução. Hoje, estamos comemorando o V centenário de um encontro de, pelo menos, três mundos. Os historiadores, o mercado editorial, a festa convertida em comemoração…Haveria, sim, muito a perguntar.
Way ofDeath, publicado nos Estados Unidos em 1988, merece uma edição brasileira, independentemente da sazonalidade do mercado editorial. Resenhá-lo aqui é contribuir com outros artigos que inserem a África no V Centenário.O livro se desdobra em cinco partes: começa pela África (Parte 1.
África: nascimento e mortes, 5 capítulos, 166 pp.); discute a estrutura e a dinâmica do tráfico negreiro (Parte 2. Traficantes: em trânsito, 6 capítulos, 269 pp.); examina a participação brasileira no tráfico angolano (Parte 3. Brasil: a última parada, 3 capítulos, 86pp.); passa em revista os interesses portugueses envolvidos com o tráfico e com o controle do território angolano (Parte 4. Portugal: mercadores da morte, 4 capítulos, 118pp.); e conclui propondo a abordagem do sistema econômico mundial da época mercantilista, a partir da experiência africana de contato com a morte (Capítulo 19. “A economia da mortalidade”,35pp.).
O texto é de fácil leitura, discorrendo com clareza sobre temas complexos como demografia, sistemas africanos de parentesco, ecologia, economia política, etc. Mantendo um contato profundo, embora não-formalista, com os especialistas de cada área de conhecimento, Joseph Miller explora os arquivos portugueses, angolanos e brasileiros. O autor tem larga experiência neste campo, que lhe permite aproximar-nos do que poderia ser o ponto de vista do escravo na historiografia do tráfico negreiro. Com grande sensibilidade na reconstituição da experiência vivida pelos escravos, Joseph Miller passa à distância de uma abordagem maniqueísta e incorpora a dinâmica das sociedades africanas de Angola à História. Seu grande mérito é o de buscar um meio de ultrapassar o molde etnocêntrico dos discursos universais, ao propor uma antropologização da Economia Política.
No cenário historiográfíco brasileiro, está fortemente instalada – especialmente desde a publicação de O escravismo colonial, de Jacob Gorender (1978) – uma inclinação compreensivelmente oposta. Num movimento pendular, de crítica a uma certa teleologia de inspiração eurocêntrica implícita em obras que vinham até então definindo o padrão da melhor historiografia brasileira, tomou-se importante contestar o modo de pensar o período colonial brasileiro como capítulo de uma História Universal da Acumulação Capitalista. Assim, passouse freqüentemente a pensar tal período, prolongado até 1888, nos termos do livro de um Modo de Produção Inteiramente Novo, e se explicitou todo um programa de estudos voltados para a descoberta e experimentação das leis de uma Economia Política da escravidão colonial. E importante ressaltar que esta proposta teórica considera também, sobretudo nas obras do historiador Ciro Flamarion Cardoso, o peso das determinações externas, a dinâmica da articulação entre diferentes modos de produção em escala continental e mundial.
Por sua vez, claramente situado naquela tradição intelectual associada às teses de Fernand Braudel e Emmanuel Wallerstein, Way ofDeathalarga os horizontes trazendo à cena a historicidade da África Central, as estratégias de troca e acumulação adotadas pelos grupos dominantes das sociedades africanas, a importância decisiva das milícias luso-africanas comandadas pelos capitães-mores na conquista de territórios e no controle das rotas terrestres do tráfico angolano, as alternativas possíveis de negociação envolvendo as formações políticas africanas, os luso-africanos, as autoridades coloniais, os grupos concorrentes no tráfico oceânico (portugueses, pernambucanos, baianos, cariocas, franceses, ingleses, holandeses …).
Estreitando o diálogo entre a História e a Antropologia, Joseph Miller retoma o tema da economia-mundo numa perspectiva sicrônica, propondo uma Etno-Economia Política em que a categoria riqueza se aplique ao processo de acumulação europeu e africano: riqueza em dinheiro, riqueza em gente.
Incorporando à compreensão do período a importância da manipulação dos sistemas de parentesco e dependência pessoal na constituição das unidades políticas centro-africanas, o autor faz mais que acrescentar um novo Continente à nossa visão histórica do mundo, pois abre nossos olhos para a percepção da onipresença da morte. Assim, visto a partir da experiência vivida por milhões de africanos – tal como daquela de milhões de ameríndios, correlação que o livro não considerou – , o processo de unificação da História deixa de ser visto apenas como processo de acumulação capitalista ou de expansão da civilização européia, e aparece também como tragédia: o horror. Particularmente conturbadora é a descoberta da manipulação do fator “tempo” nos negócios negreiros: a deliberada lentidão dos compradores forçando a baixa dos preços pedidos pelos vendedores, enquanto os cativos amontoados nos entrepostos costeiros angolanos vomitam, defecam, agonizam e morrem.
Na conclusão, à pág. 683, Joseph Miller encara de frente a questão levantada por Stuart Schwartz na Cambridge History of Latin America: como caracterizar o Brasil ColonialPUm modo de produção escravista colonial autônomo, ou uma seção dependente de um modo de produção capitalista mundial? A resposta depende, pelo menos em parte, da escala escolhida pelo pesquisador. Pois bem, Way ofDeath focaliza o tráfico negreiro organizado pelo capitalismo mercantil, o que implica a adoção de uma escala pouco apropriada para o estudo das condições estruturais da colônia portuguesa na América. Por outro lado, na mesma passagem, o autor expõe suas reticências frente à tese holística do sistema mundial, concebida por Wallerstein, e considera com simpatia os argumentos “localistas” apresentados por Sidney Mintz.
A obra focaliza o tráfico negreiro angolano entre 1730 e 1830, destacando estruturas e processos que envolvem diretamente aspectos essencciais da história econômica-social de Portugal, Brasil e Angola. O tratamento privilegiado de Angola se explica pela decisão do autor, que examinou apenas o tráfico terrestre africano e o grande tráfico oceânico, deixando de acampar as rotas terrestres e costeiras do tráfico na América, nas ilhas atlânticas, etc.
As fontes consultadas são as dos grandes arquivos portugueses, freqüentados há cerca de vinte anos por Joseph Miller, e aquelas do Arquivo Nacional, Biblioteca Nacional e Instituto Histórico e Geográfico no Rio de Janeiro, além do Arquivo Histórico de Angola, em Luanda.
A bibliografia consultada é vastíssima e permite ao autor manifestar-se a propósito das grandes questões teóricas da historiografia relativa à escravidão e ao mercantilismo. Seria oportuno, quando de uma edição brasileira, acrescentar uma discussão mais direta com a corrente histeriográfica brasileira identificada com a tese do Modo de Produção Escravagista Colonial e com certos autores contemporâneos muito citados pela referida corrente, como Wittold Kula e Perry Anderson.
Enfim, Way ofDeathé um convite para se repensar um dos problemas cruciais de nossa historiografia: respeito à historicidade das diferentes regiões que integram o sistema econômico mundial do século XVIII, e re-elaboração da própia noção de sistema econômico mundial, assentando-o numa definição etno-histórica de capital, enfatizando o papel decisivo das instituições de crédito em todas as etapas da trajetória histórica do Capitalismo. Porém, mais que tudo, ler Joseph Miller é ouvir as vozes de um silêncio aterrador: é como fitar os olhos de algum flagelado etíope hoje na televisão, à hora do jantar, e ver a morte.
Nota
1 V., editados em 1976, OZOUF, Mona. Lafêterévolutionnaire -1789- 1799. Gallimard; BERCE, Yves. Fête et revolte Hachette; VOVELLE, Michel. Les métamorphoses de la fête en Provance de 1750 à 1820; Aubier-Flamarion; os n s 1 e 2 do vol III da revista Cultures da UNESCO (Festival and Carnival: the major traditions, e Festivais and Cultures) ; os dossiê da revista Autrement n°7, novembro (La Fête, cette hantise…).
Jaime Almeida – Doutor em História e professor da UnB.
MILLER, Joseph C. Way of Death. Merchant Capitalism and the Angolan Slave Trade. 1730-1830. Madison. The University of Wisconsin Press. 1988. Resenha de: ALMEIDA, Jaime. Textos de História, Brasília, v.2, n.3, p.157-162, 1994. Meio de Vida – Caminho da Morte. Acessar publicação original. [IF].
O Marquês de Paraná: inícios de uma carreira política num momento crítico da história da nacionalidade | Aldo Janotti
JANOTTI, Aldo. O Marquês de Paraná: inícios de uma carreira política num momento crítico da história da nacionalidade. Belo Horizonte: Itatiaia; São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo, 1990. Coleção reconquista do Brasil. 2.série, v.159. Resenha de: BARBOSA, Bartira Ferraz. CLIO – Revista de pesquisa histórica. Recife, v.15, n.1, p.225-227, jan./dez. 1994.
Rebeldes, reformistas y revolucionarios. Una historia oral de la izquierda chilena en la epoca de la Unidad Popular | José del Pozo
El mundo científico, sofocado dentro del marco de tradicional ascetismo positivista, busca nuevos caminos con el fin de enriquecer su conocimiento. Se hace necesario expandir la mirada histórica más allá del dato documental escrito. Se ha comenzado a interrogar desde los márgenes de la historiografía tradicional, con el objetivo de cubrir una información indiferenciada, tomada desde los propios actores sociales. Se aprecia un desplazamiento del enfoque desde los grandes hitos a la «pequeña historia» que recoge el inconsciente colectivo. Cambian los temas y las metodologías. Un rescate de la memoria y de la subjetividad del sujeto como actor histórico, nos permite abrir espacios para sistematizar conductas e inercias sociales en períodos pletóricos de eventualidad. Aparece la historia oral concentrándose en las experiencias directas de la vida de los individuos, participando en un esfuerzo conjunto con el recopilador. Naciendo como una técnica disponible para una amplia gama de disciplinas, no se define como propia de ninguna en particular y quienes la practican muestran la misma diversidad y hasta irregularidad en cuanto a su valoración como un método histórico relevante.
En Chile se expandió con fuerza durante el régimen militar y actualmente se proyecta en dos tipos de producciones. El primero intenta rescatar testimonios, vivencias, reflexiones y dolores de quienes sufrieron en diversos grados la represión, el exilio o la marginación. El segundo corresponde a conjuntos de testimonios seleccionados y ordenados que, en estricto rigor, no constituyen investigaciones históricas aun cuando comúnmente aparecen bajo el rótulo de historias populares, de poblaciones, de jóvenes, de mujeres trabajadoras, que son resultado del esfuerzo de aprendices y, por ende, las más de las veces, adolecen de profundidad explicativa, por cuanto la técnica de la entrevista por sí sola no da cuenta de los necesarios marcos teóricos, modelos de análisis y apoyo complementario en fuentes escritas que conforman aspectos importantes del método histórico. Leia Mais
Cultura Popular na Antiguidade Clássica-grafites, arte, erotismo, sensualidade e amor, poesia e cultura – FUNARI (VH)
FUNARI, Pedro Paulo. Cultura Popular na Antiguidade Clássica-grafites, arte, erotismo, sensualidade e amor, poesia e cultura. São Paulo: Contexto, 1989. Resenha de: DUARTE, Regina Horta. Varia História, Belo Horizonte, v.9, n.12, p. 154-155, dez., 1993.
Os estudiosos da história vêm, há muito tempo, ampliando sensibilidade em relação aos sinais do passado que chegaram até nós, trazendo seu testemunho acerca de outras organizações sociais.
O historiador francês Lucien Febvre alertou, num texto de 1949, para a 1mportancra dessa abertura da noção do documento histórico: os documentos escritos têm grande utilidade na pesquisa. Porém, sua ausência não deve impossibilitar tal trabalho. Também os signos, as palavras, as paisagens e as formas dos campos, ou seja, tudo o que traga inscrita a ação humana serve como documento ao historiador hábil e perspicaz.
É esta criatividade na busca de fontes que faz da obra de Pedro Paulo Funari um texto essencial para os leitores que s interessam pelas várias possibilidades abertas pela construção do passado histórico. No caso, a Antigüidade Clássica é analisada a partir de um aspecto inédito, o que leva o autor a falar em uma outra Antiguidade. A cultura popular, suas manifestações esquecidas e desprezadas durante tantos séculos- quando só uma parte da cultura clássica fascinou e serviu de modelo à cultura ocidental moderna – é o tema de reflexão da obra.
Na ausência de documentos escritos tradicionais, o autor recupera as pichações nos muros e paredes das cidades antigas. A maior parte da documentação foi levantada em Pompéia, cidade onde uma catástrofe vulcânica Preveniu a destruição desses sinais. A forma de lidar com os grafites mostra-se tão original quanto a sua escolha como documentação: Funari não se reduz a desvendar as palavras, frases e poesias inscritas, mas analisa a expressividade iconográfica dos sinais gráficos, mostrando a excelência artística dos autores anônimos e, talvez o mais importante para o olhar do historiador, a forma através da qual esses pichadores relacionavam-se com as palavras.
No seu intento de fugir a uma história parcial, que privilegia apenas uma versão construída pelas elites dominantes da época, o autor utiliza os grafites como monumentos: são sinais de um assado construídos dentro de situações de conflito, ambiguidades, sonhos e esperanças, protestos e indignações. Entretanto, a obra continua apoiando-se num dos pilares da historiografia tradicional: o que move a pesquisa é, segundo as palavras de Funari, reconhecer-se “nos gregos e nos romanos e perceber como eles têm a ver com a gente”. Historiadores dedicados ao período clássico – como Finley, Vidal-Naquet, Vernant, M. Dettienne e Paul Veyne – renovaram a abordagem historiográfica justamente pela vertente oposta. Destacam a diferença de valores, de mentalidade, de organização social. Ressaltam o caráter diverso dessas sociedades, renunciando-se às categorias eternas e continuidades enganadoras. Como afirma o filósofo C. Castoriadis, o que precisamente nos interessa na história é nossa “alteridade autêntica, os outros possíveis do homem em sua singularidade absoluta”.
Outro aspecto passível de discussão pode ser apontado na visão dicotômica transmitida na separação cultura popular/cultura erudita. A cultura erudita é classificada como “continuadora imóvel da tradição reprodutora de um passado clássico”; a minoria erudita é inativa; a pintura apreciada pela elite caracteriza-se, para o autor, pela ”continuidade na ausência de rupturas, na sensação de imutabilidade”. Funari apresenta o leitor uma cultura clássica erudita completamente estática e desprezível. Por outro lado, a cultura popular é dinâmica, criativa, revestida de caráter multifacetado e contestatório.
Entretanto, não é tão fácil dividir, cultura erudita e popular, já que há um movimento constante de recriações e apropriações, onde pólos aparentemente opostos se interpenetram. Além disso, é inútil negar a riqueza da cultura clássica que o autor classifica como erudita. Como desprezar (só para citar alguns exemplos) Ésquilo, Sófoles, Hesíodo, Heródoto, Virgílio e tantos outros? A nova história precisa exorcisar o perigo da adesão às novidades simplificadoras, como a de que tudo o que foi criado pelos “vencidos” seja “bom”, sob pena d cair no moralismo românico.
Paralelamente à necessidade de debater tais posições contidas no livro, afirma-se o valor de sua leitura. Dedicado a um público Jovem, estimulará, sem margem de dúvida, o fascínio pelo estudo da história. Acreditamos que seu uso, em turmas de jovens estudantes, poderá contribuir imensamente para levar, ao ensino de segundo grau, uma história renovada, simples sem ser simplista, interessante e, finalmente, instigante.
Regina Horta Duarte – Professora do Departamento de História FAFICH·UFMG.
[DR]
Trajetória política do Brasil. 1500-1964 – IGLÉSIAS (VH)
IGLÉSIAS, Francisco. Trajetória política do Brasil. 1500-1964. São Paulo: Companhia das Letras, 1993. Resenha de: ANASTASIA, Carla Maria Junho. Varia História, Belo Horizonte, v.9, n.12, p. 156-157, dez., 1993.
Aqueles que têm o privilégio de conhecer a intimidade compartilhada com a História pelo Prof. Francisco lglésias; seu trânsito, com singular competência, pelas ciências sociais; sua fina ironia, não se surpreenderam com as qualidades de Trajetória política do Brasil, livro que vem reiterar a posição do autor, considerado um dos maiores historiadores do pais.
Trajetória política do Brasil é obra da mais refinada tradição historiográfica e, embora recentemente publicada, já se coloca ao lado dos clássicos da História do Brasil. A identificação do trabalho do Prof. Francisco lglésias com as obras de Sérgio Buarque de Holanda, Caio Prado Jr., e com o magistral Formação Econômica do Brasil, de Celso Furtado, é imediata.
Na introdução, o autor explícita a necessidade do trato rigoroso das questões metodológicas. Enfatiza as imprescindíveis conexões da história política com a sociologia, economia e cultura. Pelo caráter abrangente de seu texto, ressalta somente as invocar para caracterizar o sentido geral da obra. Tratando dos cortes temporal e temático – que permitem o estudo da história por partes afirma fazer “dupla história especial; no espaço e no assunto”. História especial no espaço ao tratar especificamente do Brasil; história especial nos “aspectos do real”, ao privilegiar o político.
Com rara habilidade, o autor desenha a trajetória política do Brasil do período colonial à fase imediatamente anterior ao golpe político militar de 1964. A luz dos ensinamentos de Marc Bloch, explica essa trajetória do lugar onde ela se torna inteligível – como parte de uma totalidade – a história geral. Reitera o autor que o pleno sentido da história política do Brasil” … só se esclarece no relacionamento das partes, com as quais se forma um sistema, configurador de várias fisionomias'”.
Assim, ao analisar o período colonial, compara a política administrativa implementada no Brasil por Portugal com o quadro político delineado nas colônias espanholas e ressalta as relações que se estabelecem entre os estados europeus. Emerge, nessa primeira parte da obra, o Brasil inserido em um sistema mais amplo, que se convencionou denominar Antigo Sistema Colonial.
O mesmo procedimento é adotado na Parte 11 na qual o autor examina a transição do mundo colonial para o Brasil independente. Novamente aparece o un1verso europeu do Iluminismo, do Racionalismo, das políticas agressivas das potências do além-mar, o papel desempenhado por Portugal e Espanha. Situa-se nesta intrincada rede de relações políticas a transferência da Corte Portuguesa para o Brasil e o final da transição para a Monarquia.
Na terceira parte, o autor apresenta as singularidades do regime monárquico brasileiro em uma América Latina republicana. A análise se torna mais complexa à medida em que avança o processo de nacionalização da independência. Apesar da maior complexidade do texto, é a questão da dicotomia centralização versus descentralização, decisiva no período colonial, que continua a informar o exame do processo político pelo autor. E assim terá seu próprio lugar na análise do federalismo na República.
Na Parte IV, ao examinar o período republicano, surgem, com mais força as especificidades da trajetória política brasileira. Sem dúvida, a preocupação central do texto e o ponto mais alto do trabalho.
Deve ser ressaltado como o cuidadoso trato do autor com as palavras consegue transmitir ao leitor fortes impressões. Não há como não antecipar àqueles que ainda não tiveram o livro nas mãos. a presença, na obra, de vigorosos perfis de homens públicos da República e a densidade da análise de momentos cruciais deste período. A fundação da República e Floriano, homem que se deixou tomar pela paixão política; Juscelino Kubitschek e suas realizações, pelos quais o autor deixa transparecer grande admiração; Jânio Quadros, sua estranha personalidade e seu ambíguo comportamento político são exemplos de virtudes, circunstâncias e acasos, cuja descrição impressiona vivamente o leitor.
O trabalho do Prof. Francisco lglésias, ao contrário dos pesados textos acadêmicos, é de leitura saborosa. Não sem razão, em número alentado de páginas constam apenas vinte e sete notas.
Ao final, o autor apresenta, além de uma cronologia, bibliografia selecionada e comentada. E é sem surpresa que se encontra, com algumas poucas exceções, as obras clássicas da historiografia brasileira nesta síntese da história do Brasil que já nasce clássica.
O autor afirma que seu livro é um ” … texto a ser lido por qualquer pessoa culta'”. Essas pessoas e, em especial, os estudiosos da história do Brasil certamente terão um enorme prazer ao ler Trajetória política do Brasil.
Carla Maria Junho Anastasia – Professora do Departamento de História- UFMG.
[DR]
Caminhos da História Ensinada – FONSECA (RBH)
FONSECA, Selva Guimarães. Caminhos da História Ensinada. Campinas: Papirus, 1993. Resenha de: VERÍSSIMO, Mara Rúbia A. M. Revista Brasileira de História, São Paulo, v.13, n.25/26, p.277-282, set.1992/ago.1993.
Mara Rúbia A. M. Veríssimo – Professora de Metodologia do Departamento de Princípios e Organização da Prática Pedagógica da UFU.
[IF]Human osteology. A laboratory and field manual – BASS (RCA)
BASS, William M. Human osteology. A laboratory and field manual. 3ed. Columbia: Special publication, n.2 of the Missouri Archaelogical Society, 1987. Resenha de: CONSTANTINESCU, Florence. Revista Chilena de Antropologia, n.12, p.233, 1993/1994.
Acessar apenas pelo link original
[IF]
Viajes y Arqueología en Chile Austral – BIRD (RCA)
BIRD, Junios. Viajes y Arqueología en Chile Austral. Punta Arenas: Ediciones de la Universidad de Magallanes, 1993. Traducción al español del original en inglês editado por John Hyslop, University of Iowa Press, 1988. Resenha de: MENA, Francisco. Revista Chilena de Antropologia, n.12, p.234-235, 1993/1994.
[IF]Sistemas Sociales. Lineamientos para una Teoría General – NIKLAS (RCA)
NIKLAS, Luhmann. Sistemas Sociales. Lineamientos para una Teoría General. México: Universidad Iberoamericana y Alianza Editorial, 1991. Resenha de: ARNOLDO, Marcelo. Revista Chilena de Antropologia, n.12, p.235-237, 1993/1994.
[IF]Historia y Antropología de la Isla de La Laja – RODRÍGUEZ (RCA)
RODRÍGUEZ, Mario Orellana. Historia y Antropología de la Isla de La Laja. Santiago: Ed. Universitaria, Colección Imagen de Chile, 1992. Resenha de: PARENTINI, Luis Carlos. Revista Chilena de Antropologia, n.12, p.237-240, 1993/1994.
Acesso apenas pelo link original
[IF]
L’Economie de l’Afrique / Philippe Hugon
Como a economia da África evoluiu da época colonial ao período da independência? Por que sua produtividade econômica se encontra em fase de estagnação? Quais os efeitos da intensa competividade internacional dos últimos anos sobre as debilitadas estruturas econômicas do continente? Os instrumentos tradicionais da análise econômica são eficazes diante dos desafios interpretativos que são impostos pelas novas condições econômicas da África? Por que as trajetórias econômicas de seus países são tão diversas entre si? A África, enfim, recusa o desenvolvimento? Essas, entre outras relevantes questões, constituem os pontos de partida do professor de economia de Universidade de Paris-X (Nanterre), Philippe Hugon, para a produção do sua obra, em formato de “livre de poche”, com a profundidade do especialista que tem o sentido do grande público leitor. Contando com a experiência da direção do Centre de Recherche en Economie du Dévelopment (CERED) e a autoria de muitas obras dedicadas à análise do desenvolvimento na África; com a vivência de inúmeras consultorias internacionais; e com as lições de dez anos como professor em diferentes países africanos (principalmente nos Camarões e em Madagascar), Hugon apresenta ao leitor uma obra condensada e rica.
Qualquer autor que pretenda produzir uma obra de síntese sobre o tema da economia africana enfrentará um desafio delicado. Há a dificuldade de delimitar o essencial, mesmo quando se pretende, como foi o caso na obra de Hugon, abordar exclusivamente a África ao sul do Saara. É que o subcontinente é uma terra de contrastes: nove grandes regiões, com 45 países, dos quais 35 possuem menos de 10 milhões de habitantes e 15 são enclaves. Todos eles abrigados sob um PIB da ordem de 230 milhões de dólares, em 1990, o mesmo do México ou dos Países Baixos. Somam cerca de 520 milhões de habitantes e representam, sem a África do Sul, 10% da população mundial, 2% do PIB, 1,7% das exportações e menos de 1% do valor agregado industrial do mundo. Abordar, portanto, essa diversidade no quadro da economia mundial é uma tarefa que impõe um tremendo esforço de síntese. Philippe Hugon dá provas da sua capacidade de construtor de sínteses através desta obra recém lançada.
Existem ainda as dificuldades metodológicas. Os utensílios da análise econômica devem ser aplicados linearmente ao continente? Ou devem ser questionadas as categorias da análise econômica a partir das particularidades africanas? Há uma complexa especificade africanista que deve ser compreendida, ao mesmo tempo que há legitimidade da economia. As perspectivas da longa-duração e os regimes de acumulação e de crise devem ser privilegiados sobre os quadros de equilíbrio e dequilíbrio de preços e quantidades? Para Hugon, a economia do desenvolvimento não deve ser somente a aplicação de um campo particular dos instumentos da análise econômica universal. E l a deve ser também um espaço de questionamento da “caixa preta” das estruturas sociais e dos mecanismo particulares dos países com herança colonial. Esse é exatamente o caso africano. Assim, a análise da economia do desenvolvimento africano não pode prescindir da História e dos enfoques econômicos de longa duração que permitem vislumbrar a gênese de parte das grandes questões sugeridas pela atualidade africana.
A partir das duas perspectivas anteriores, Hugon divide sua obra em três grandes unidades. Na inicial, apresenta a evolução estrutural da economia, da época mercantilista às crises contemporâneas. Em uma perspectiva macroeconômica, o autor trata o tema da colonização direta do continente, de 1870 a 1960, depois de uma abordagem bastante breve, mas convincente, dos séculos do tráfico mercantilista. Há também nessa unidade uma interessante análise das disfunções e desequilíbrios setoriais constituídos com o processo colonial na África.
Três temas extremamente reinteressantes encerram a referida unidade: a crescente marginalização internacional do continente, a crise comercial e o endividamento permanente. Lembrando Raffinot, o autor afirma claramente que “a África sub-saárica ficou, ao longo dos anos 80, presa à engrenagem do endividamento permanente.” (p. 48) A segunda unidade aborda as questões da racionalidade socio-econômica da economia do desenvolvimento africano. O autor busca atacar a antinomia colonialista da chamada irracionalidade do homo africanas contra a racionalidade do homo economicus. Mas isso não significa que não se deva buscar especificidades no comportamento econômicos dos agentes econômicos africanos. Hugon não deixa de discutir a lógica da minimização dos riscos, típica dos agentes econômicos africanos. O pouco investimento, o desinteresse pela educação e a tendência à diversificação seriam características bastante relevantes para a instabilidade e a incerteza econômica.
Ainda nessa segunda unidade, vale observar a análise de Hugon sobre a informalização da economia africana. Tema de grande interesse para o leitor brasileiro, a economia informal permanece como uma reminiscência pré-colonial, e colonial com grande significado no sistema econômico.
A terceira unidade do livro talvez seja a que mais chama a atenção. Hugon aborda o tema das políticas econômicas a do tadas e suas trajetórias históricas. Abordando desde as políticas liberais, de ajustamento ou de intervenção, o autor mostra seu ceticismo em relação à eficiência de tais políticas no contexto africano. Ao longo da histórica econômica do continente, elas não teriam conseguido enfrentar plenamente ou solucionar os principais desafios econômicos da África.
Outro aspecto interessante observado é a diversidade das trajetórias históricas dos diferentes modelos de política econômica. Os principais pólos regionais, em torno dos quais houve certo nível de desenvolvimento econômico, são analisados, a saber: a África do Sul, a Nigéria e a África Ocidental de expressão francesa.
Para concluir, Hugon discute perspectivas. Em uma visão bastante menos pessimista do que a maioria dos textos recentes sobre a economia da África, o autor não deixa de reconhecer a viabilidade do continente. Criticando o afro-pessimisme, Hugon acredita que será possível a saída do fundo do poço, desde que os países africanos, através de um esforço político brutal das suas elites, encontrem algum caminho menos tortuoso para o desenvolvimento.
José Flávio Sombra Saraiva
HUGON, Philippe. L’Economie de l’Afrique. Paris, Editions La Découverte, 1993. 124p. Resenha de: SARAIVA, José Flávio Sombra. Textos de História, Brasília, v.1, n.2, p.154-157, 1993. Acessar publicação original. [IF
O Rio de Janeiro e a Conjuntura Atlântica / Corcino M. dos Santos
Fruto de esmerada pesquisa, “O Rio de Janeiro e a Conjuntura Atlântica” situa-se na linha de pesquisa científica percorrida e iniciada pelos historiadores franceses Fernand Fruto de esmerada pesquisa, “O Rio de Janeiro e a Conjuntura Atlântica” situa-se na linha de pesquisa científica percorrida e iniciada pelos historiadores franceses Fernand Dividido em três capítulos, ordenadamente, o autor nos passa uma nítida noção da importância do Oceano Atlântico, da posição geográfica do Porto do Rio de Janeiro e das condições de seu aportamento. Num segundo momento, temos elencado o movimento de embarcações e de mercadorias chegando-se a questões de ocupação do solo e de estrutura fundiária, até às condições da Alfândega do Porto do Rio de Janeiro. O Capítulo III trata da navegação de longo curso e comércio internacional.
O livro é ainda leitura imprescindível para todos aqueles estudiosos dos primórdios do africanismo no Brasil. Assim, pontos como a mortandade de escravos em viagem, o comércio com portos de escravos e o atraso de Angola em benefício do Brasil são pormenorizadamente descritos. Um outro item importante é o comércio com as colônias espanholas do rio da Prata e a questão das fronteiras: “O vice-rei D. Nicolas de Arredondo se preocupou muito mais com as fronteiras por considerá-las grandes caminhos para o Brasil. Visava evitar a saída de prata, gado, couros, cavalhadas e mulas e ao mesmo tempo conter a introdução de mercadorias de contrabando” (p.183), bem como o comprometimento do “coronel Rafael Pinto Bandeira, processado pelo seu grande envolvimento com os espanhóis” referente à “prática constante do contrabando público” (p.191).
Três anexos referentes à relação dos gêneros e fazendas próprias do consumo do rio da Prata e Reino do Peru; produção da América Meridional, via Montevidéo e Bueno Aires com os preços correntes à época e a pauta da Alfândega do Rio de Janeiro de 1766-1799, encerram o volumoso estudo.
O resultado do trabalho de Corcino Medeiros dos Santos é analítico, lúcido e interpretativo, enriquecendo os estudos sobre o fortalecimento do capitalismo moderno, produção e circulação de riquezas. Com belíssima capa de Victyor Burton, ilustrada com vista de uma esquadra inglesa na Baía de Guanabara (séc. XVIII), editado pela Expressão e Cultura, constitui um magnífico exemplo de tentativa do que George Lluppert denominou de “1’idée de lliistoire parfaite.”.
Luciara Silveira de Aragão e Frota.
SANTOS, Corcino Medeiros dos. O Rio de Janeiro e a Conjuntura Atlântica. Rio de Janeiro: Expressão e Cultura, 1993. Resenha de: ARAGÃO E FROTA, Luciara Silveira de; Textos de História, Brasília, v.1, n.2, p.157-160, 1993. Acessar publicação original. [IF]
Palafox y America | Perla Chinchilla Pawling
Resenhista
Guy Rozat – Instituto Nacional de Antropologia e Historia. Leia Mais
La experiencia burguesa. La educación de los sentidos/vol. I | Peter Gay
Resenhista
Ilán Semo – Universidad Iberoamericana. Leia Mais
El miedo en Occidente. (Siglos XIV-XVIII). Una ciudad sitiada | Jean Delumeau
Resenhista
Perla Chinchilla Pawling – Universidad Iberoamericana. Leia Mais
La responsabilidade del historiador. Homenaje a Moisés González Navarro | Shulamit Goldsmit, Guillermo Zermeño
Resenhista
Álvaro Matute – Universidad Nacional Autónoma de México. Leia Mais
Haciendas poblanas | Mariana Yampolsky
Resenhista
Aurelio de los Reyes – Universidad Nacional Autónoma de México. Leia Mais
Manifestaciones religiosas en el mundo colonial americano | Manuel Ramos Medina, Clara García Ayluardo
Resenhista
Margo Glantz Leia Mais
Visões da liberdade, uma história das últimas décadas da escravidão na Corte | Sidney Chalhoub
CHALHOUB, Sidney. Visões da liberdade, uma história das últimas décadas da escravidão na Corte. São Paulo: Companhia das Letras, 1990. Resenha de: MONTEIRO, Marília Pessoa. CLIO – Revista de pesquisa histórica. Recife, v.14, n.1, p.245-246, jan./dez. 1993.
Conquista y barbárie. Ensayo crítico acerca de la conquista de Chile – BENGOA (RCA)
BENGOA, José. Conquista y barbárie. Ensayo crítico acerca de la conquista de Chile. Santiago: Ediciones Sur, 1992. Resenha de: FOERSTER, Rolf. Revista Chilena de Antropología, n.11, p.131-133, 1992.
[IF]Expedicion cientifica de los hermanos Heuland (1795-1796) | Juan Carlos Arias Divito
Publicado con ocasión del Bicentenario del Jardín Botánico de Madrid (1774-1974), el manuscrito «Relación histórica y de geografía física, de los viajes hechos en la América Meridional, de orden de S.M. durante los años 1795 y 1796 por D. Cristino y D. Conrado euland, ambos comisionados por el Rey Nuestro Señor a las Américas Meridional y Septentrional, con el objeto de hacer colecciones de mineralogía y conchiliología, para el eal Gabinete de Historia Natural en Madrid», se encuentra en ese centro científico, junto a los catálogos elaborados en tal expedición,1 además de los informes, documentos, láminas y herbarios de otras importantes expediciones científicas españolas del siglo XVIII.
En 1929 el padre Agustín Barreiro, publicó en el Boletín de la Real Sociedad Geográfica de Madrid «El viaje científico de Conrado y Cristiano Heuland a Chile y Perú, organizado por el gobierno español en 1795», según nos informa el autor, quién debido al tiempo transcurrido y a la escasa difusión de la citada publicación, nos entrega esta interesante edición, que se divide en: Leia Mais
El ”48” Chileno. Igualitarios, reformistas, radicales, masones y bombeiros
Tornando como punto de partida la opinión de Benjamín Vicuña Mackenna respecto a la influencia del 48 europeo en Chile, Cristián Gazmuri desarrolla en su especificidad histórica el grado de esta influencia, Aunque Gazmuri comparte con el historiador decimonónico aquella premisa fundamental, va mucho más allá de este al proporcionar un visión global y coherente del desarrollo político del período, y al hacer uso no sólo de fuentes primarias, sino que también de nuevas técnicas historiográficas. Gazmuri demuestra además la insuficiencia de la historiografía conservadora, que no ha tendido a minimizar el impacto del 48 europeo en círculos nacionales.
La tesis fundamental del libro de Gazmuri es que el 48 chileno introdujo nuevas formas de sociabilidad, sobre todo en el sentido de un énfasis laico, racionalista y modernizante, que tendría poco impacto en el corto plazo, pero uno mayor en el mediano. El impacto inmediato del 48 europeo fue a través de la Sociedad de la Igualdad y su ingerencia en la revolución de 1851. Sin embargo, este impacto no logró alterar de manera fundamental las grandes corrientes políticas y culturales del período, dominadas por el catolicismo conservador, por una parte, y por un liberalismo modemizante en lo económico y educacional, pero conservador en lo social y político, por la otra. Es en el mediano plazo que las nuevas formas de sociabilidad arraigan en el mundo cultural y político chileno. Gazmuri identifica un gran número de actores en los acontecimientos del 51 que tendrán grandes papeles públicos en las décadas siguientes. Son estos actores los que consolidan un estado laico, inspirados en gran medida por las influencias europeas, pero también por sus propias experiencias de juventud. Tanto ellos como una gran cantidad de personalidades menos conocidas expresan las nuevas formas de sociabilidad mediante afiliaciones’a nuevas organizaciones políticas, culturales y filantrópicas. El conocido dicho «radical, bombero y masón» refleja la naturaleza de estas afiliaciones, todas las cuales traen una impronta laica y racionalista, y demuestran una estructuración organizativa moderna (con la excepción parcial de la masonería, que tiene algunas raíces medievales). Gazmuri revela la íntima conexión entre esas afiliaciones, y demuestra empíricamente, en un anexo de 46 páginas, la cantidad de personajes decimonónicos que pertenecen a estas tres categorías simultáneamente. Leia Mais
Biobibliografia de Don Eugenio Pereira Salas | Cristián Guerrero Yoacham, Luz María Fuchslocher Arancibia e Cristián Guerrero Lira
Este libro escrito con pulcritud es un homenaje al destacado historiador Eugenio Pereira Salas con ocasión del décimo aniversario de su fallecimiento (1979). El trabajo fue terminado en 1989 y volcado en letra de molde en 1990. Ahora bien, este homenaje proviene -si se nos permite la expresión- de diversas vertientes. Una de ella es de carácter institucional por pertenecer a la Academia Chilena de la Historia, entidad que por medio de su Presidente, don Femando Campos Harriet, deja constancia de ser el libro un homenaje que considera la obra completa del insigne historiador y en vida activo integrante y Presidente de esa corporación. El otro homenaje proviene de los autores que conocieron a Pereira Salas y su obra. No se equivoca Campos Harriet al señalar al primero de ellos como su principal impulsor, por haber sido discípulo y cercano colaborador del historiador.
La estructura del libro es sencilla y clara. Leia Mais
Historia de las fronteras de Chile | Santiago Benadava Cattan
Santiago Benadava, ex-Embajador de Chile en Misión Especial ante la Santa Sede para la Mediación Pontificia sobre el Diferendo Austral y Miembro consultivo de la Corte Permanente de Arbitraje de La Haya, ha publicado recientemente un libro de amena lectura intitulado Historia de las Fronteras de Chile. Si bien es cierto el autor no tiene – hasta donde conocemos- un entrenamiento formal en Historia, ello no ha sido obstáculo para que este destacado académico e internacionalista nos entregue una acabada, sucinta y actualizada historia de las fronteras territoriales chilenas. Sin duda cumplió el objetivo enunciado en el prólogo del libro, a saber «presentar un esquema coherente, objetivo y didáctico de la historia de las fronteras de Chile» (p. 9).
Las materias abordadas por el autor comprenden desde las nociones de frontera territorial, demarcación y controversia hasta los conceptos de aguas interiores, mar territorial y mar presencial, entre otros. Facilita la lectura del texto un glosario de términos por si surgiese la lector alguna duda sobre el significado o el alcance de algún tecnicismo geográfico o jurídico en el análisis de lá evolución de las fronteras. Con todo, Santiago Benadava ha evitado caer en un uso excesivo de tecnicismos para explicar con solidez y acabado dominio las cuestiones más complejas de nuestra historia fronteriza. Leia Mais
Decifra-me ou devoro-te: história de vida dos meninos de rua de Salvador – ATAÍDE (RBH)
ATAÍDE, Yara Dulce Bandeira de. Decifra-me ou devoro-te: história de vida dos meninos de rua de Salvador. São Paulo: Edições Loyola, 1993. 202p. Resenha de: REIS, João José. Revista Brasileira de História, São Paulo, v.12, n.23/24, p.210-212, set.1991/ago.1992.
João José Reis – Professor da UFBA. Autor de Amorte é uma festa (Companhia das Letras, 1991) entre outros livros.
[IF]O homem romano – GIARDINA (RBH)
GIARDINA, Andrea (Dir.). O homem romano. Tradução de Maria Jorge Vilar de Figueiredo. Lisboa: Editorial Presença, 1992. P.317. Resenha de: CORASSIN, Maria Luiza. Revista Brasileira de História, São Paulo, v.12, n.11/22, p.191-201, set.1991/ago.1992.
Maria Luiza Corassin – Departamento de História da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas – Universidade de São Paulo.
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Escravidão antiga e ideologia moderna – FINLEY (RBH)
FINLEY, Moses I. Escravidão antiga e ideologia moderna. Tradução de Norberto Luiz Guarinello. Rio de Janeiro: Graal, 1991. 208p. Resenha de: FUNARI, Pedro Paulo A. Revista Brasileira de História, São Paulo, v.12, n.23/24, p.197-198, set.1991/ago.1992.
Pedro Paulo A. Funari
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A crise da imigração japonesa no Brasil (1930-1934): Contornos diplomáticos – LEÃO (RBH)
LEÃO, Valdemar Carneiro. A crise da imigração japonesa no Brasil (1930-1934): Contornos diplomáticos. Brasília: Fundação Alexandre de Gusmão: Instituto de Pesquisa de Relações Internacionais (IPRI), 1990. 360p. Resenha de ALMEIDA, Paulo Roberto de. Revista Brasileira de História, São Paulo, v.11, n.197-213, mar.1991/ago.1991.
Paulo Roberto de Almeida
[IF]Caminhada no chão da noite: Emancipação política e a libertação nos movimentos sociais no campo – MARTINS (RBH)
MARTINS, José de Souza. Caminhada no chão da noite: Emancipação política e a libertação nos movimentos sociais no campo. São Paulo: Hucitec, 1909. Resenha de: IOKOI, Zilda Márcia Gricoli. Revista Brasileira de História, São Paulo, v.11, n.22, p.208-209, mar.1991/ago.1991.
Zilda Márcia Gricoli Iokoi – Professora do Departamento de História/USP.
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A Pesquisa em História / Maria P. Vieira, Maria R. Peixoto e Yara A. Khoury
A História caracteriza-se pela longa luta do homem para compreender o meio em que vive e aluar sobre ele. A época atual tem evidenciado uma maior valorização da consciência dos fatos históricos. Deste modo, todas as manifestações humanas, quer de cunho literário ou provenientes da herança de uma memória coletiva, contém informações que devem ser estudadas e pesquisadas. Enfim, tudo o que o homem produz, ou produziu, torna-se objeto de reflexão e questionamento para o historiador.
É neste sentido que o livro encaminha a discussão sobre o papel dos documentos e da experiência humana dentro dos ramos da pesquisa, dando ênfase às etapas a serem seguidas no trabalho de um pesquisador. Nota-se, com isso, a preocupação das autoras em definir o papel do historiador frente aos fatos históricos: desde a descoberta cuidadosa e exaustiva das fontes, até à crítica da documentação, problematização e incorporação das mesmas à interpretação da história, Este livro propicia uma leitura bastante instrutiva aos profissionais que atuam na área de ensino e, principalmente, aos iniciantes na carreira acadêmica, interessados no campo da pesquisa como complemento à sua formação. Assim, apesar de sintética, a obra apresenta um conteúdo permeado por exemplos que ilustram o assunto e facilitam o entendimento do tema proposto.
Dentro da perspectiva e finalidade da obra, um primeiro ponto que despertou nosso interesse diz respeito à utilização das fontes históricas como objeto de estudo do historiador. Segundo as autoras, “…os registros da experiência humana não estão só nesses arquivos, museus e centros, mas por toda parte, ao alcance de todos”, (p. 28, grifos nossos). Gostaríamos de evidenciar, neste contexto, que esta frase engloba toda a postura inovadora em relação ao documento histórico, permitindo ultrapassar a concepção estreita de que as fontes históricas restringem-se ao texto escrito. Subentende-se, então, com este argumento, que principalmente o pesquisador brasileiro, cujo acesso a documentos oficiais quase sempre enfrenta dificuldades, pode beneficiar-se de outros registros (literatura, cinema, música, etc.) como fontes ou “materiais de suporte” para o desenvolvimento de sua pesquisa.
Porém, sentimos na obra a falta de maiores referências e indicações sobre as pesquisas realizadas fora dos centros acadêmicos. Também não houve, por parle das autoras, a preocupação em esclarecer de que modo atuam os historiadores que se dedicam à pesquisa em centros de documentação não oficial. Afinal, em nosso país, os vestígios da Historiografia vinculada aos antigos Institutos Históricos ainda não desapareceram inteiramente.
Outro ponto, com relação à pesquisa, que a nosso ver ficou sem esclarecimentos corresponde à atuação das instituições financiadoras de pesquisa, como a FAPESP e o CNPq, e todo o difícil processo pelo qual passa o pesquisador iniciante para conseguir uma bolsa de estudos. Na realidade além de métodos, o historiador necessita de condições, tanto no plano subjetivo quanto econômico, para desenvolver seu projeto de pesquisa.
Não podemos deixar de ressaltar uma sugestiva contribuição a nível de metodologia: a orientação, dada pelas autoras, a respeito dos cuidados que o pesquisador deve tomar com uma série de problemas (de ordem metodológica e prática) que se colocam durante a elaboração de sua pesquisa. Ressaltamos, aqui, a importância deste aspecto para o sucesso de uma pesquisa, pois a deficiência técnica, a insuficiência metódica e teórica, e até mesmo o ensino universitário podem ser responsáveis pela debilidade deste trabalho.
Também, através dos exemplos fornecidos pela experiência das autoras, destacamos um aspecto muito bem abordado, que é a reflexão sobre a interação do historiador com o meio social em que vive. No horizonte desta ótica, fica-nos explícito o importante papel da subjetividade e da influência do ambiente histórico e social na seleção dos fatos pelo historiador.
Finalmente, em último aspecto a destacar é a importância desta obra, não somente dentro da área de pesquisa, mas também na área educacional.
Sob este prisma, a leitura deste livro traz, sem dúvida, grande contribuição para professores de 1º e 2º graus, pois uma inquietação que ainda paira sobre as cabeças de muitos profissionais é a de estimular os alunos a se interessarem pela História. Desta forma, passando por discussões sobre os objetivos da História enquanto ciência e, conseqüentemente, sobre o historiador e seu papel social, as autoras debatem a pesquisa e fazem um balanço bem objetivo da prática do historiador e das concepções de ciência nelas embutidas. Com isso, contribuem para uma atualização dos professores nos rumos da historiografia.
As autoras propõem, também, que a análise seja guiada pela percepção de que a História é uma “experiência vivida integral e socialmente”, dentro de um “campo de possibilidades”, e não um conhecimento pronto e acabado, sobre fatos sujeitados pelos métodos de pesquisa e interpretação. Assim, o livro induz à reflexão conjunta de alunos e professores e aponta direções para resgatar a unidade entre ensino e pesquisa. E esse pode ser um bom caminho para responder ao desafio de “fazer com que os alunos se interessem pela história”.
Desta maneira, contendo análises úteis sobre o processo de pesquisa (dentro de uma perspectiva de reflexão e indagação), esta obra apresenta um amplo painel dos espaços de estudo do historiador. Não é apenas mais um manual ou um receituário de informações, mas um livro informativo, cuja consulta torna-se necessária para os que desejarem enveredar pelos caminhos do ensino da disciplina e da pesquisa histórica.
Luciana S. Melo – Pós-graduando em História Social no Departamento de História /USP.
VIEIRA, Maria do Pilar; PEIXOTO, Maria do Rosário; KHOURY, Yara Aun. A Pesquisa em História. São Paulo, Ática, 1989. (Princípios – 159). Resenha de: MELO, Luciana S. História, São Paulo, n. 123-124, p. 143-219, ago/jul., 1990/1991. Acessar publicação original. [IF]
Trabalho e vadiagem: A origem do trabalho livre no Brasil – KOWARICK (RBH)
KOWARICK, Lúcio. Trabalho e vadiagem: A origem do trabalho livre no Brasil. São Paulo: Brasiliense, 1987. Resenha de: SAMARA, Eni de Mesquita. Revista Brasileira de História, São Paulo, v.11, n.22, p.204-207, mar.1991/ago.1991.
Eni de Mesquita Samara – Professora do Departamento de História/USP.
[IF]Women of the French Revolution – KELLY (RBH)
KELLY, Linda. Women of the French Revolution. Londres: Hamisch Hamilton, 1987. Resenha de: ALGRANTI, Leila Mezan. Revista Brasileira de História, São Paulo, v.10, n.18, n.20, p.261-264, mar.91/ago.91.
Acesso apenas pelo link original
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República em migalhas: história regional e local – SILVA (RBH)
História regional e local, República, América/Brasil (L), Século 20 (P), SILVA Marcos Antônio (Org), República em migalhas: história regional e local (T), Marco Zero (E), Anpuh (E), GOMES Angela Maria de Castro (Res), Revista Brasileira de História (RBH)
SILVA, Marcos Antônio (Org). República em migalhas: história regional e local. São Paulo: Marco Zero/Anpuh, 1990. Resenha de: GOMES, Angela Maria de Castro. Revista Brasileira de História, São Paulo, v.11, n.22, p.210-212, mar.1991/ago.1991.
Angela Maria de Castro Gomes – Pesquisadora do CPDOC da Fundação Getúlio Vargas no Rio de Janeiro e Professora da Universidade Federal Fluminense.
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