A construção do Terceiro Mundo. Teorias do subdesenvolvimento na Romênia e no Brasil | Joseph L. Love

Como os economistas – e outros autores de persuasão estruturalista – do desenvolvimento têm teorizado os complexos e comuns problemas do atraso ou subdesenvolvimento na Europa centro-oriental e na América Latina e Caribe (durante o século XX), em comparação com as economias centrais, industrializadas e capitalistas do Ocidente, parece ser a questão central que orienta o recente trabalho do destacado historiador norte-americano Joseph L. Love.

Joseph Love é professor da Universidade de Illinois (EUA), especialista em história contemporânea e regional do Brasil. Seus primeiros trabalhos sobre a história de Brasil datam da década de 1970. Love oferece-nos no momento um sólido trabalho de pesquisa que podemos localizar especificamente no âmbito da história das idéias. De maneira mais específica, estamos diante de um estudo sobre a evolução das idéias do desenvolvimento em duas regiões consideradas atrasadas. Também as características e os fatores que definem a condição periférica e, ainda, a recuperação das contribuições dos autores romenos, brasileiros e de outras nacionalidades são postas em evidência. O conjunto é utilizado para compreender, interpretar, atuar e, eventualmente, sugerir vias de superação da situação de subdesenvolvimento econômico, sócio-político e tecnológico, no contexto de expansão do sistema capitalista mundial. Leia Mais

Historia económica, política y social de la Argentina | Mario Rapoport

Como é sabido, a Argentina é um dos principais parceiros estratégicos do Brasil. Acadêmicos de ambos países lamentam, contudo, profundamente, o limitado conhecimento de que ainda se dispõe desse vizinho. Afortunadamente, essa tendência está sendo substituída por uma sistemática aproximação e intercâmbio de pesquisas, experiências e projetos. Nesse sentido, com grande satisfação, temos recebido um dos últimos trabalhos sobre a evolução histórica contemporânea da Argentina.

O texto, dirigido pelo reconhecido professor e pesquisador argentino Mario Rapoport, contou com a colaboração de três distintos pesquisadores, Eduardo Madrid, Andrés Musacchio e Ricardo Vicente, todos ligados ao Instituto de de Investigación de Historia Económica y Social da Universidade de Buenos Aires. O trabalho inspira-se nas idéias de totalidade e longa duração da influente escola francesa de história, particularmente das exemplares monografias de Fernand Braudel. Leia Mais

Todo império perecerá. Teoria das relações internacionais | Jean-Baptiste Duroselle

Como um instrumento de grande utilidade, recebemos a edição brasileira de Tout empire périra, do destacado historiador e professor francês Jean-Baptiste Duroselle. Para muitos autores, trata-se do melhor texto sobre aspectos teóricos e metodológicos da história das relações internacionais, bem como de uma densa teoria das relações internacionais.

Para iniciar nosso comentário, parece importante ter presente que Duroselle é um dos autores mais influentes da escola francesa de história das relações internacionais, fundada pelo grande mestre Pierre Renouvin, durante o decênio de 1930. Efetivamente, Duroselle recebe de Renouvin duas categorias centrais do paradigma francês: forças profundas e homens de Estado. Porém, Duroselle, também introduz novas categorias com fim de renovar suas pesquisas e interpretações, propor novas, úteis e pertinentes ferramentas de trabalho, assim como novos problemas de estudo em uma temática complexa, ampla e diversa como é a evolução das relações internacionais. Leia Mais

Brasil e Israel: diplomacia e sociedades | Norma Breda dos Santos

A Professora Norma Breda, da Universidade de Brasília, adicionou a ainda pouco desenvolvida bibliografia de estudos diplomáticos brasileiros uma valiosa coletânea dedicada às relações entre Brasil e Israel. Ela não somente organizou a coletânea e lhe escreveu o prefácio, como produziu também o mais extenso e abrangente estudo incluído no livro, enriquecido ainda pela substanciosa “Apresentação”, assinada pelo Professor Amado Luiz Cervo, diretor da Coleção Relações Internacionais da Universidade de Brasília.

No seu texto, Norma Breda acompanha com astúcia as posições, em relação a Israel, assumidas por diplomatas brasileiros, durante cinco décadas, nos inúmeros debates em torno da questão árabe-israelense, ocorridos nas Nações Unidas. Cabe aqui ressaltar que, até os anos setenta, tal era o contexto mental em que se pensavam, no Itamaraty, os problemas associados à existência de Israel: O mundo dos Estados árabes reagindo ao aparecimento entre eles do Estado judeu. O Brasil, que possuía bem agregado na sua população um forte contingente de judeus e grandes colônias árabes, tinha todo interesse em manter-se imparcial no conflito, vendo-se inclusive como candidato a mediador em eventual impasse. A autora registra, no contexto da preparação da famosa Resolução n° 242, análises do delegado brasileiro ao Conselho de Segurança, demonstrando a auto-satisfação com a contribuição dada pelo Brasil, forçando as partes a abandonarem suas posições inflexíveis e tornando possível o compromisso encerrado na Resolução. Leia Mais

Brasil-Alemanha: fases de uma parceria (1964-1999) | Christian Lohbauer

O cientista político Christian Lohbauer, após a conclusão de seu doutoramento em 1999, junto à Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo, reformula sua tese e elabora Brasil-Alemanha: fases de uma parceria (1964-1999). Publicado sob os auspícios da Fundação Konrad Adenauer e da editora da USP, o texto dedica-se ao estudo evolutivo das relações bilaterais do Brasil com a República Federal da Alemanha e, após 1990, com a Alemanha unificada. Ressalta as políticas nacionais e internacionais dos dois países, bem como suas abrangências no contexto internacional. Dentro da ordem internacional vigente no período, também prioriza as interações do Brasil e da República Alemã com os Estados Unidos.

Partindo do paradigma da “aliança especial com os Estados Unidos” e do paradigma “globalista” para explicar a atuação do Ministério das Relações Exteriores ao longo da história republicana do Brasil, Lohbauer adota o segundo, mesmo reconhecendo que o Brasil teve os Estados Unidos como aliado especial entre 1964 e 1967 e entre 1990 e 1992. O paradigma “globalista” tem como base a posição mais autônoma do Brasil no mundo, na busca de uma política externa visando sua melhor inserção no cenário internacional. Assim, as relações bilaterais entre o Brasil e a RFA destacaram e destacam-se por marcar a tentativa brasileira de obter uma maior autonomia no panorama mundial e de conquistar um expressivo poder de barganha frente aos países desenvolvidos, principalmente em relação aos Estados Unidos. Leia Mais

História Indiscreta da Ditadura e da Abertura – Brasil 1964-1985 – COUTO (HE)

COUTO, Ronaldo Costa. História Indiscreta da Ditadura e da Abertura – Brasil 1964-1985. Rio de Janeiro: Record, 1998, 517p. Resenha de: FERRAZ, Francisco César Alves. História & Ensino, Londrina, v.6, p.199-201, 2000.

Os interessados na história recente do Brasil têm à sua disposição uma obra que é proveitosa tanto do ponto de vista do seu conteúdo, quanto do perspectiva de quem a escreveu. A História Indiscreta da Ditadura e da Abertura -Brasil: 1964-1985, de Ronaldo da Costa Couto, além do estilo agradável e direto, sem as retorções acadêmicas de praxe, possui, dentre suas principais virtudes, o fato de oferecer uma síntese da história política brasileira recente a partir da perspectiva de quem participou de vários de seus momentos principais, seja sob as luzes do palco principal, seja nos bastidores do poder.

Costa Couto foi, ao longo das décadas de 70 e 80, secretário de governos estaduais do Rio de Janeiro e Minas Gerais, bem como ministro em duas pastas e governador de Brasília. A história que escreveu ajuda a entender melhor como alguns homens públicos neste país concebem sua função política e social.

É um tipo de história que tem sido escasso nesses últimos tempos, a do pOlítico de Estado que escreve histórias de seu presente, para além de suas memórias particulares. Dois exemplos deste tipo de história podem ser lembrados: a volumosa História da Segunda Guerra Mundial, do estadista britânico Winston Churchill, e o recém reeditado clássico da historiografia brasileira do século XIX Um Estadista do Império, do parlamentar Joaquim Nabuco.

A maior diferença desses trabalhos com o de Costa Couto é que este foi apresentado, originalmente, como tese de doutorado na Universidade de Paris-Sorbonne (Paris IV). A maior semelhança é a de ter a perspicácia de compreender a estrutura e o funcionamento dos acontecimentos políticos a partir de uma interpretação singular, combinando duas dimensões da história pol ítica que nós, historiadores acadêmicos, deixamos de lado como “história factual’ ou desprovida de interesse. Uma delas é aquilo que nossos parlamentares e membros do poder executivo chamam de “entendimentos”, ou seja, aquelas conversas de bastidores entre políticos, aqueles acordos ou rompimentos que nós, da plateia, só descobrimos quando o roteiro já foi todo rearranjado, à nossa revelia e muitas vezes às nossas custas … Essa dimensão da “política miúda” é enredada com o poder de síntese histórica que, queiramos ou não enxergar, alguns políticos possuem de sobra, principalmente quando tentam articular os meios que dispõem para os fins que desejam. Esse é o ponto mais forte desse livro. Se desejamos conhecer como as coisas realmente acontecem na política brasileira, precisamos aprender a ler as notinhas de jornais com o mesmo apetite que lemos as matérias de primeira página.

A fonte documental básica para o livro de Costa Couto contribui bastante para esta compreensão: são os depoimentos de trinta e duas pessoas de relevante importância política, de Luís Inácio Lula da Silva ao general João Baptista Figueiredo. Alguns dos depoentes não concediam entrevistas a historiadores acadêmicos, o que torna o estudo de Costa Couto uma boa oportunidade para conhecer certos meandros do poder no Brasil. Essas entrevistas propiciam ao leitor uma perspectiva que, dificilmente, seria conseguida com o estudo dos documentos usuais de nossa história recente. Têm, contudo, o inconveniente de limitar a compreensão dos processos históricos nas fronteiras do que é possível um político dizer em público. Pessoas públicas que têm uma imagem a zelar não costumam revelar nada além do que é permitido e já divulgado. Neste sentido, é uma história “discreta”, sem novidades para os leitores mais atentos de nossa produção historiográfica.

Assim, alguns problemas do livro aparecem. O principal, já evidente desde o título, é prometer algo maior do que o que pode cumprir: o que o autor quer dizer com ‘história indiscreta”? Não é uma história de fofocas do poder, adianta na apresentação

o historiador (recentemente falecido) Francisco Iglésias. Ainda bem. Mas ao fazer uma história da política brasileira a partir dos bastidores, “sem comprometer ninguém (p.20)”, sem o risco de propor explicações mais gerais do que a dinâmica de poder palaciano, perde-se uma oportunidade única de oferecer ao leitor uma reflexão sobre o porquê de “plantinhas tão tenras” (nas palavras do político Octávio Mangabeira) como democracia, direitos, cidadania e igualdade social, aparecerem com mais frequência de modo instrumental e oportunista, nas considerações de nossos homens públicos, do que como princípios fundamentados na vivência e na dignidade da vida política.

Não obstante essa “discrição” -por não revelar nada novo ou “guardado a sete chaves” pelo poder -o livro é importante pelas pistas que, voluntariamente ou não, oferece para estudos futuros sobre a história do poder político no Brasil. Nessa história, eu, você, todos nós, leitores, aparecemos mais como a plateia do que como coadjuvantes, menos ainda como protagonistas da história. Não se trata apenas de uma divisão entre classes, ou entre elites e massas. Se essa estrutura política ainda sobrevive às vésperas da virada do século, se ainda é possível combinar o discurso da modernidade com o clientelismo mais tradicional, e se tudo isso ainda aparece na história dos livros didáticos como algo pertencente à ordem natural das coisas, nossa atenção deve deslocar um pouco das explicações que reduzem a política à expressão dos interesses de classe. Talvez seja o momento de saber o que alguns políticos pensam de si mesmos, e como concebem a história da qual se vêem como os atores principais. Neste sentido, o livro de Costa Couto é um importante e útil ponto de partida.

Francisco César Alves Ferraz – Professor da Universidade Esiadual de Londrina e Doutorando em História na USP.

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Projeto emissão: o movimento folclórico brasileiro 1947-1964 | Luís Rodolfo Vilhena

Resenhista

Maria Amélia Garcia de Alencar – Professora dos Departamentos de História da Universidade Federal de Goiás e da Universidade Católica de Goiás. Doutoranda em História no Programa de Pós-Graduação da Universidade de Brasília – UnB.

Referências desta Resenha

VILHENA, Luís Rodolfo. Projeto emissão: o movimento folclórico brasileiro 1947-1964. Rio de Janeiro: Funarte; Fundação Getúlio Vargas, 1997. Resenha de: ALENCAR, Maria Amélia Garcia de. História Revista. Goiânia, v.5, n.1-2, p.193-196, jan./dez.2000. Acesso apenas pelo link original [DR]

Pompei. I volti dell’amore | E. Cantarella

Resenhista

Lourdes M. G. C. Feitosa – Doutoranda em História pela Universidade Estadual de Campinas e bolsista da FAPESP.

Referências desta Resenha

CANTARELLA, E. Pompei. I volti dell’amore. 2ª ed. Milano: Mondadori, 1999. Resenha de: FEITOSA, Lourdes M. G. C. História Revista. Goiânia, v.5, n.1-2, p. 197-202, jan./dez.2000. Acesso apenas pelo link original [DR]

Liberdade: rotinas e rupturas do escravismo. Recife, 1822-1850 – CARVALHO (RBH)

CARVALHO, Marcus J. M. de. Liberdade: rotinas e rupturas do escravismo. Recife, 1822-1850. Recife, Editora Universitária da UFPE, 1998, 353 p. Resenha de: RICCI, Magda. Revista Brasileira de História, São Paulo: v.20 n.39, 2000.

De repente um gemido. Certamente era de dor, certamente era fruto de uma execrada instituição que infelizmente governava o Brasil de 1831. Gritos escravos permeados pelo som do açoite. Eles constituíam a prova de que o castigo e a submissão grassavam o mundo Imperial, explicitando uma certa continuidade da exploração colonial. Restava aos negros crioulos e, especialmente aos africanos, a saída pela rebeldia pré-política. Restava-lhes o suicídio e a fuga para quilombos. Estas interpretações foram, durante muito tempo, temas prediletos dos pesquisadores da escravidão no Brasil. O outro lado desta história estava por ser pesquisado: a liberdade e seus muitos significados.

Aqueles gemidos acima referidos foram ouvidos no Recife de 1831 por Charles Darwin. Eles serviram de epígrafe ao livro de Marcus Carvalho, Liberdade: rotinas e rupturas do escravismo. Recife, 1822-1850. Distanciando-se das interpretações mais corriqueiras, o ousado estudo de Carvalho, interpreta-os de uma outra forma, demonstrando uma clara afinidade com aquilo que de mais interessante vem sendo produzido pela atual historiografia sobre escravidão no Brasil.

A liberdade é um tema difícil, tanto quanto maravilhoso. Para estudá-la, de imediato, surgem alguns entraves. Primeiramente, o problema do foco central de análise. Até recentemente, estudos sobre liberdade no século XIX só faziam sentido dentro do mundo da escravidão e da relação bipolar entre senhores e escravos. Por este raciocínio, estudar a escravidão significava analisar um eterno conflito dentro de um sistema ou modo de produção a ser definido minuciosamente. No entanto, hoje esta abordagem pode, no mínimo, gerar “polêmica”1. No lugar das certezas do escravismo (ou escravismos) surgiram múltiplas abordagens da escravidão e da liberdade.

Desde a época ao redor do centenário da abolição, em 1988, nossos livros sobre os tempos do cativeiro têm trazido a público alguns inusitados escravos. Eles vêm saindo do universo quase auto-suficiente do trabalho nas fazendas de cana e café. Vêm entrando em outros espaços, criando complexas e fascinantes situações a seus senhores e a nós, historiadores e leitores do século XX. Ganharam as ruas das cidades2, invadindo as cabeças e fazendo ressurgir, sobre outros olhares, a prática dos abolicionistas e/ou imigrantistas da segunda metade do século XIX3. Deixando seus donos pasmos, foram à justiça, atrás de justiça e uma dada noção de cidadania. Por outro lado, fizeram eclodir rebeliões dentro e fora das senzalas. Aqui, porém, seus quilombos revigoraram-se sob outra perspectiva, que não a do isolamento. Quase sempre, estes fugitivos mantinham relações comerciais e culturais com o mundo senhorial4.

Certamente os nossos escravos mudaram muito nos livros de história dos últimos dez anos. No entanto, mesmo assim, continuaram escravos. Por mais que alguns estudiosos denunciem a benevolência e o paternalismo historiográfico dos pesquisadores dos anos oitenta para com a escravidão dos séculos XVIII e XIX no Brasil, creio que, na maioria absoluta dos trabalhos, a dimensão do sofrimento e da dor escrava nunca foi esquecida5. Se a liberdade era uma bandeira poderosa, a escravidão era seu contraponto. O mundo do escravo transitava entre o sonho da liberdade e o cotidiano da luta dentro da escravidão. É neste ponto que o livro de Marcus Carvalho pode ser exemplarmente ressaltado.

Seguindo o rico percurso traçado por trabalhos pioneiros como os de João José Reis, Leila Algranti ou Sidney Chalhoub6 e, ao mesmo tempo, centrado em uma documentação das mais valiosas, o autor dá um passo adiante, revelando indícios de interessantes rumos historiográficos que se anunciam. Carvalho busca a liberdade dentro de um contexto de rupturas e rotinas da escravidão, ou como inapropriadamente insiste em chamar, do escravismo. Para o autor, a liberdade escrava situava-se, muitas vezes, longe do universo do trabalho nas fazendas. Por outro lado, o autor realçou enormente a dimensão do esforço cotidiano de luta, da árdua rotina constitutiva da vida de homens e mulheres expostos e surrados em praça pública e traficados quase como um material inerte.

É preciso lembrar que nos anos oitenta e início dos noventa a historiografia da escravidão no Brasil, ou parte significativa dela, buscava um escravo com ações autonômicas7. Era a partir deste campo de análise que, quase todos, recriavam uma vivência escrava rumo à liberdade que assumia ares de explícita, porém complexa, luta de classes. Os quilombolas analisados por Flávio Gomes, por exemplo, deixaram de ser fugitivos de um sistema escravista para tornarem-se combatentes de um outro tipo de liberdade. Surgiram dali homens com histórias de vida próprias e memórias de lutas coletivas. Como bem notou Silvia Lara, a influência thompsoniana neste tipo de estudo tornou-se evidente. Ela unia a história da escravidão àquela referente aos estudos sobre as relações e processo de trabalho livre no Brasil8. Para esta historiografia, os escravos e quilombolas eram indivíduos com personalidade e problemas pessoais, mas também faziam-se classe em diferentes contextos, especialmente quando imbuídos de um espírito de luta herdado e partilhado por experiências vindas de um presente ou de um passado em comum.

Por seu turno, o estudo de Carvalho, seguindo uma atual tendência, percebe a ação escrava dentro de relações que são sociais, étnicas e culturais. Sem abandonar a “economia moral” thompsoniana, as lutas pela liberdade ganharam outros ares, ampliando-se dentro de um universo em que muitos escravos desejavam ser ou tornar-se livres, vivendo sobre si e tendo quem os servissem. Ser livre era, em suma, ter propriedades, fossem elas um terreno ou um escravo. A liberdade estava contida, portanto, seja nas rebeliões e fugas escravas, seja na solidariedade de classe e/ou étnico-religiosa, que extrapolava, em muito, as fronteiras da relação senhor-escravo. Estava na cabeça de escravos, tanto quanto na dos homens livres ricos e pobres. Situava-se na cidade do Recife, mas também em seus muitos engenhos e roças. Nas casas dos ricos proprietários e em suas senzalas, bem como na casa do Conselho de Governo Provincial e nas inúmeras disputas partidárias em prol da emancipação brasileira durante as décadas de 1820 até 1850.

Em suma, o que de mais interessante apresenta o estudo de Carvalho é uma simbiose muito apropriada entre o universo da política imperial para os anos de 1822-1850 e o valioso contexto de lutas escravas e não escravas pela liberdade nos arredores de Recife. Juntando estudos que tradicionalmente caminhavam em paralelo, Carvalho percebeu a importância de associar temáticas dentro e fora dos debates historiográficos da escravidão. Se Pernambuco era a terra das Revoluções de 1817, de 1824 ou de outras como a Praieira, este local também tinha uma complexa tradição de revoltas escravas. Por outro lado, era o espaço da rotina escravista, da dor e do sofrimento de africanos e crioulos.

Entender este locus é uma tarefa árdua, que, quando bem empreendida, surte um resultado profícuo. Talvez Carvalho pudesse ir um pouco adiante, relacionando mais densamente alguns tempos históricos que se entrecruzavam no Recife da primeira metade do século XIX. É importante notar, por exemplo, que o calendário religioso, assim como o parlamentar e o da colheita e plantação da cana-de-açúcar estavam imbricados em um mundo repleto de credos e razões absolutas, que se contrapunha às novas liberdades constitucionais recém alcançadas. Certamente no Recife de frei Caneca e de outros tantos clérigos havia uma junção muito generosa entre a Igreja e o Estado, surgindo daí outras formas de se compreender os significados múltiplos da liberdade escrava e não escrava dentro deste universo.

Ressalva à parte, o livro de Carvalho deve ser lido pelo que se propõe efetuar. São três partes que o compõe: uma primeira dedicada à explicação espacial e social da cidade do Recife, de seus moradores e de suas tradições de luta. Uma segunda que estuda o tráfico e sua lógica de comércio e alianças sociais e políticas dentro do Recife. E uma terceira que se centra nos caminhos da liberdade (política e social) nos melindrosos cenários rebeldes da primeira metade do século XIX. Como ressalta Carvalho, para bem se entender os “vários passos que podiam, ou não, ser dados em direção à ‘liberdade'”, é preciso buscar outras “possibilidades humanas na história da escravidão”. É preciso estudar “outras tantas situações intermediárias” dentro do restritivo campo tradicionalmente traçado por senhores e escravos.

Robert Slenes, em recente estudo, chamou a atenção para estudos que valorizassem as relações entre senhores e subalternos, contrariando a tradicional dicotomia entre senhores e escravos. Sidney Chalhoub, por sua vez, desvencilha-se dos escravos, debruçando-se sobre a análise de um Rio de Janeiro pluri-étnico e culturalmente febril. João José Reis percebe em um movimento, como a cemiterada de Salvador, algo mais do que homens e mulheres ultrapassados e escravocratas, lutando contra a modernidade. Em A morte é um festa, desvenda um precioso viver no século XIX, que caminha muito próximo da diversidade cultural que ele possuia9.

Neste mesmo sentido segue o estudo de Carvalho que aqui apresento e recomendo. Estuda o escravismo, ou melhor, a escravidão, sem que as relações de trabalho tornem-se hegemônicas e quase auto-evidentes na explicação histórica. Analisa a liberdade, sem ficar restrito à dicotomia senhores versus escravos. Por fim, estuda a cidade do Recife, sem fazer regionalismos, ou uma história local e desinteressante ao público em geral.

A cidade do Recife descrita por Carvalho é específica e única, com ruas, bairros e pessoas muito próprias. No entanto, ela pode ser a síntese de tantas outras cidades e pessoas. Longe da Corte, estava, entretanto, tão próxima ao centro em muitas ocasiões. Todavia, em vários instantes, os moradores do Recife e de Pernambuco pleiteavam tomar o lugar dos cariocas. A cada levante social, a cada escravo que disputava espaço para bem viver o seu dia a dia, a cada traficante que contabilizava lucros e perdas sociais e políticas, a cidade do Recife e seus moradores livres e escravos se uniam a tantos outros habitantes de locais como Belém, Salvador ou São Paulo. Todos olhavam para a Corte, vendo imagens e semelhanças, tanto quanto diferenças e conflitos. Em resumo, o livro de Carvalho especifica muito bem o que seria o Brasil de então. Sem o exagero ufanista e nacionalista, tratava-se de um Brasil por se fazer. Um país ainda escravocrata em muitos sentidos, mas também cheio de liberdades. Um Brasil de leis novas, mas repleto de rotinas tradicionais como as do trabalho e as do tráfico. Um local de longas tradições religiosas e culturais, mas de rupturas sociais e políticas tão bruscas, quanto temerárias e deslumbrantes.

Notas

1 Para alguns autores como Suely Robles Reis de Queiróz o atual debate historiográfico sobre a escravidão no Brasil seguiu um percurso, no mínimo, equivocado, e assim, ainda hoje, seria “uma questão que continua polêmica”. Ver: QUEIROZ, Suely Robles Reis de. “Escravidão negra em debate”. In FREITAS, Marcos Cezar de (org.). Historiografia brasileira em perspectiva. São Paulo, Cantexto/USF, 1998, p. 117. Para uma contraposição a esta autora, ver, especialmente: MACHADO, Maria Helena P. T. “História e historiografia da escravidão e da abolição em São Paulo”. In Antonio Celso Ferreira et. al. (orgs.). Encontros com a história: percursos históricos e historiográficos de São Paulo. São Paulo, UNESP, 1999, pp. 61-70.

2 Sobre escravidão urbana, ver, entre outros, os trabalhos de: ALGRANTI, Leila M. O feitor ausente: estudo sobre a escravidão urbana no Rio de Janeiro, 1808-1822. Petrópolis, Vozes, 1988.

3 Ver, especialmente: AZEVEDO, Célia M. M. Onda negra, medo branco: o negro no imaginário das elites – século XIX. Rio de Janeiro, Paz e Terra, 1987; MACHADO, Maria Helena P. T. O plano e o pânico. Os movimentos sociais na década da abolição. Rio de Janeiro/São Paulo: UFRJ/EDUSP, 1994.

4 MATTOS, Hebe Maria. Das cores do silêncio. Os significados da liberdade no sudoeste escravista – Brasil século XIX. Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1998; LAMOUNIER, Maria Lúcia. Da escravidão ao trabalho livre. A lei de locação de serviços de 1879. Campinas, Papirus, 1988; REIS, João José & SILVA, Eduardo. Negociação e conflito: a resistência escrava no Brasil. São Paulo, Cia das Letras, 1989; GOMES, Flávio dos Santos. Histórias de quilombolas. Mocambos e comunidades de senzalas no Rio de Janeiro – século XIX. Rio de Janeiro, Arquivo Nacional, 1995; REIS, João José & GOMES, Flávio dos Santos (orgs.). Liberdade por um fio. História dos quilombos no Brasil. São Paulo, Cia das Letras, 1996.

5 A crítica e a denúncia vieram, principalmente de Jacob Gorender. Ver: GORENDER, Jacob. A escravidão reabilitada. São Paulo, Ática, 1990.

6 REIS, João José. Rebelião escrava no Brasil: a história do levante dos Malês (1835). São Paulo, Brasiliense, 1986; ALGRANTI, Leila M. op. cit.; CHALHOUB, Sidney. Visões da liberdade: uma história das últimas décadas da escravidão na Corte. São Paulo, Cia das Letras, 1990.

7 Para uma boa análise deste debate historiográfico, ver: LARA, Silvia Hunold. “Conversas com a bibliografia”. In Campos da violência: escravos e senhores na capitania do Rio de Janeiro – 1750-1808. Rio de Janeiro, Paz e Terra, 1988, pp. 97-113.

8 LARA, Silvia Hunold. “Escravidão, cidadania e história do trabalho no Brasil”. Projeto história: revista do Departamento de pós-graduação da PUC-SP. São Paulo, EDUC, no 16, 1997, pp. 25-38.

9 SLENES, Robert. “Senhores e subalternos no Oeste Paulista”. In NOVAIS, Fernando & ALENCASTRO, Luiz Felipe de (orgs.). História da vida privada no Brasil. Império, a Corte e a modernidade nacional. São Paulo, vol. 02, Cia das Letras, 1997, pp. 233-290. CHALHOUB, Sidney. Cidade febril. Cortiços e epidemias na Corte Imperial. São Paulo, Cia das Letras, 1996 e REIS, João José. A morte é uma festa: ritos fúnebres e revolta popular no Brasil do século XIX. São Paulo, Cia das Letras, 1991.

Magda Ricci – Universidade Federal do Pará.

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 Os Olhos do Império. Relatos de viagem e transculturação – PRATT (RBH)

PRATT, Mary Louise. Os Olhos do Império. Relatos de viagem e transculturação. Bauru, EDUSC, 1999, 394p. Resenha de MACHADO, Maria Helena Pereira Toledo. Revista Brasileira de História, São Paulo, v.20 n.39, 2000.

O livro de Mary Louise Pratt, Imperial Eyes. Travel Writing and Transculturation. Londres/Nova Iorque, Routledge, 1992, que aparece agora em versão para o português, com o título de Os Olhos do Império. Relatos de Viagem e Transculturação, traduzido por Jézio Gutierre e com revisão técnica desta autora e de Carlos Valero, Bauru, EDUSC, 1999, é um trabalho de grande peso intelectual, que vem sendo profusamente discutido nas universidades norte-americanas, latino-americanas e, em menor escala, no meio acadêmico brasileiro. A presente tradução, facilitando o acesso ao livro, deve sanar esta lacuna.

Obra de grande impacto acadêmico, com discussões teóricas inovadoras e análise minuciosa de uma ampla gama de relatos de viagem, o livro de Mary Pratt encontra-se na intersecção da análise de texto e crítica ideológica. Procurando desvendar não apenas os mecanismos ideológicos e semânticos por meio dos quais os viajantes europeus, a partir de meados do século XVIII, criaram um novo campo discursivo, forjando uma consciência planetária a respeito do outro colonial e suas culturas, a autora associa estes escritos e seus tropos às diferentes fases do expansionismo capitalista e suas conquistas dos territórios interiores do mundo colonial. Neste sentido, é este livro hoje considerado fundamental para a reavaliação dos processos de constituição de um repertório semântico-cognitivo imperialista que se construiu a partir dos anos de 1750, entrelaçando as amplas dinâmicas da expansão do capitalismo em direção às áreas coloniais à produção de um saber que vai criativamente reinventar a realidade colonial, produzindo os novos paradigmas e o repertório de imagens por meio dos quais estas novas dinâmicas puderam ser efetivamente realizadas e implementadas.

Como nota a autora em sua introdução, este livro foi escrito no ambiente acadêmico norte-americano da década de 1980, como parte de um amplo esforço de resistência à onda conservadora que então se impunha, e como exercício de descolonização do conhecimento. Embora se encontre estruturado nos moldes dos estudos acadêmicos, neste trabalho Mary Pratt não se furta à discussão política em seu sentido mais profundo, estabelecendo alguns marcos teóricos para resistência intelectual às análises globalizantes. Conceitos largamente desprezados pelas análises de texto pós-modernas, como os de imperialismo e descolonização, aparecem neste livro contextualizados num recorte teórico afinado com as discussões mais atuais, tornando este um livro que se localiza numa perspectiva interdisciplinar, útil aos estudos da literatura, antropologia, história e outras disciplinas.

Valendo-se da análise de texto e da crítica ideológica, Mary Louise Pratt analisa a literatura de viagem relativa à África no momento em que os europeus lutavam por superar os obstáculos que se antepunham à conquista do território interior do continente, possibilitando o enraizamento dos interesses políticos e comerciais. A autora se volta igualmente para a análise da literatura de viagem sobre a América do Sul, com algumas incursões sobre o México, ressaltando exatamente sua coincidência com o que se convencionou denominar como crise do sistema colonial, eclosão dos movimentos de independência e rearticulação desta área à divisão internacional do trabalho da era imperialista. Neste empreendimento a autora vai propor uma nova visão das relações entre a metrópole e as áreas coloniais, entre o saber europeu e o saber nativo, entre visitantes e visitados, entre viajantes e viajados (neologismo que a autora lança mão para sublinhar o caráter interativo destes encontros). A dimensão da autora é global – mas não globalizante – e é, sobretudo, relacional e interativa, desprezando as análises unilaterais e pretensamente imparciais mas que tomam, por princípio, o olhar imperial e o ponto de vista difusionista como verdade neutra e marco zero analítico. Novos recortes temáticos, novos conceitos e releituras renovadas da literatura imperial permitem que a autora coloque literalmente de cabeça para baixo as interpretações clássicas deste tema, sempre por meio da desconstrução de um universo semântico aparentamente neutro e objetivo. Para tal, alguns conceitos são fundamentais e eu vou apenas nomeá-los rapidamente.

Primeiro o de transculturação, entendido como um fenômeno da zona de contato e que se refere às apropriações dos materiais nativos pelos europeus mas também à maneira pela qual os coloniais se apropriam dos estilos imperiais, construindo eles próprios modos de representação que, absorvidos pelo olhar imperial, constituem um universo cognitivo que passa a ser considerado como originariamente europeu. O termo transculturação foi criado na década de 40 por Fernando Ortiz em seu Contrapunteo Cubano del Tabaco y el Azúcar, e é lá correlacionado ao universo das trocas culturais. Este mesmo conceito foi, na década de 70, utilizado por Angel Rama nos estudos literários. No entanto, parece-me que o uso extensivo do conceito de transculturação em Olhos do Império reporta-se a um universo mais amplo, que é o da constituição de repertórios de símbolos, imagens e discursos que conformam um modo ou estilo cognitivo e um repertório semântico e imagético por meio do qual o outro colonial passa a ser abordado.

Outro conceito fundamental ao livro é o de zona de contato que é compreendido como sinônimo de fronteira cultural, enfatizando as dimensões interativas e improvisadas dos encontros coloniais, pondo em questão como os sujeitos coloniais são constituídos nas e pelas relações entre colonizadores e colonizados, ou viajantes e visitados, em termos de interação e trocas no interior de relações assimétricas de poder. Frente a esta dimensão a autora, invertendo os paradigmas analíticos da análise objetiva, racionalista e eurocentrada do olhar imperialista, faz a pergunta fundamental que, de fato, norteia sua abordagem: Em que medida as construções européias a respeito do outro subordinado teriam sido moldadas pelos próprios subordinados através da construção de si próprios e de seu ambiente tal como eles – os próprios coloniais – os apresentaram aos europeus? Refletindo sobre a constituição do paradigma imperialista, Pratt ressalta a importância da viagem e da literatura de viagem romântico-naturalista como experiência daquilo que se convencionou denominar de modernidade, propondo a crítica aos conceitos reificados que norteiam estas análises e que igualmente legitimam a utilização acrítica dos conceitos da pós-modernidade.

Marcadas por processos culturais complexos norteados pelo racionalismo, pela ciência, pelo romantismo, pela constituição de um self individualizado e pelas teorias raciais, a experiência da viagem e da literatura de viagem se apresentavam como espaço privilegiado para a articulação do novo paradigma imperial. Possibilitando, por meio do deslocamento, a que viajantes e seu público – as sociedades envolvidas com os desafios da modernidade – refletissem a respeito de si próprias, a literatura de viagem, ao mesmo tempo, abria espaço para a construção, por oposição, de um discurso sobre a alteridade e sobre o papel do ocidente no domínio, condução e absorção das sociedades não-ocidentais. Enquanto experiência individual do sujeito-viajante às portas da modernidade, a viagem para terras longínquas surgia claramente como metáfora da viagem interior, suportando experiências pioneiras de subjetividade e auto-conhecimento. Enquanto discurso auto-reflexivo do homem que, ao viajar, observa, reflete e cataloga terras estranhas e povos selvagens, a viagem realizava uma apropriação discursiva das áreas coloniais, dando origem a uma configuração nova, porém extremamente efetiva de conquista, que Mary Louise Pratt denominou de “anti-conquista”, em alusão ao caráter aparentemente pacífico e reflexivo do viajante-naturalista e às características abstratas da apropriação catalagadora por ele promovida.

A literatura de viagem naturalista – masculina, eurocêntrica, com traços edipianos, da dedicação dos filhos viajantes ao pai Lineu, ou mais tarde ao pai Humboldt, ou no caso do Brasil, a Martius – e seu objetivo de estabelecer uma posse intelectual e abstrata de um saber e da natureza, traços sugestivos da idealização e impotência do filho edipiano, expressa um desejo de posse a ser realizado sem violência, que caracterizaria a anti-conquista. Note-se que um dos objetivos explícitos de Olhos do Império é o de discutir as relações entre a viagem, sua literatura e a questão de gênero. Para tal Mary Pratt não apenas sublinhou o caráter androcêntrico da viagem naturalista como dedicou todo um capítulo às viagens realizadas e relatadas por mulheres, procurando determinar as particularidades do olhar feminino sobre as áreas coloniais, bem como sua inserção na construção de formas específicas e variadas da abordagem imperial.

Os estudos acadêmicos sobre o Iluminismo, fortemente eurocentrados, têm freqüentemente negligenciado o papel dos agressivos empreendimentos coloniais e comerciais europeus que funcionaram como modelo, inspiração e base de teste para formas de disciplina social que, re-importadas para a Europa nos finais século XVIII e inícios do XIX, tornaram-se importantes mecanismos sociais na construção da ordem burguesa. É preciso igualmente lembrar que a sistematização da natureza coincidiu com o apogeu do tráfico de escravos, com o sistema de plantation, com o genocídio colonial na América do Norte e na África do Sul, com as rebeliões de índios e escravos nos Andes, Caribe e América do Norte e noutras partes do globo. Na seqüência, Mary Pratt faz uma aproximação entre a célebre acumulação primitiva de capital e a sistematização da natureza que, nela inspirando-se, conduziu a idéia de acumulação a um extremo totalizante. Enquanto base de um gênero literário a literatura de viagem serviu para suprir as necessidades de cultura, educação e lazer das nascentes classes médias européias e norte-americanas, construindo, entre outras coisas, um repertório comum a respeito dos povos selvagens e um consenso sobre a necessidade da intervenção do homem branco no mundo pós-colonial que então se esboçava.

Por meio da crítica ideológica e da desconstrução dos textos naturalistas, a autora também reelabora o conceito de natureza. Segundo nota Mary Pratt, nos escritos de viagem do período, natureza significa antes de tudo regiões e ecossistemas não dominados por europeus, embora incluindo muitas regiões da entidade geográfica conhecida como Europa. A história natural impôs uma autoridade urbana, letrada e masculina sobre todo o planeta, elaborando um entendimento racionalizador, extrativo e dissociativo, que suprimiu as relações funcionais e experenciais entre as pessoas, plantas e animais. O resultado deste processo concretizou-se na prefiguração de uma certa forma de hegemonia global, que deu origem a um paradigma descritivo e uma apropriação do planeta aparentemente benigna e totalmente abstrata, produzindo uma visão utópica e inocente da autoridade mundial européia, a qual a autora se refere como a de anti-conquista.

Conforme sublinha Os Olhos do Império, a literatura de viagem anterior ao paradigma naturalista segue o modelo do antigo relato de viagem marítimo. Neste, o enredo gira em torno das narrativas de aventura e sobrevivência (catástrofes, naufrágios, lutas pela sobrevivência em terras estrangeiras) nas quais a perspectiva analítica é interativa e os nativos podem ainda ser inclusos no mesmo universo institucional dos europeus. Acrescente-se que nesta literatura o marco divisório a partir do qual o europeu julga e classifica a sociedade nativa é a escravidão que estabelece a divisão básica entre o eu e o outro, sendo os escravizados percebidos como brutais e inferiores, mesmo quando o observador, homem, europeu e branco, refere-se às sociedades africanas e à escravidão tradicional e doméstica nelas existente.

Por seu turno, a literatura de viagem que começa a se concretizar com a expedição do geógrafo Charles de la Condamine à América do Sul em 1735 e com as viagens realizadas também em meados do XVIII à África, reflete um empreendimento narrativo, de caráter cumulativo e organizacional, na qual a geografia é minuciosamente documentada e o mundo humano naturalizado. Aqui se reencena Adão no Jardim do Éden nomeando a natureza. A paisagem é descrita como inabitada, devoluta, sem história e desocupada, até mesmo pelo próprio viajante. A atividade de descrever a geografia e identificar a flora e a fauna estrutura uma narrativa a-social em que a presença européia ou nativa é absolutamente marginal, ainda que fosse este, evidentemente, um aspecto constante e essencial da viagem em si. Neste sentido, conforme aponta Mary Pratt, é fácil relacionar esta literatura e sua produção de um corpo sem discurso, desnudo e biologizado com a força de trabalho desenraizada, despojada e disponível criada pelo colonialismo. Nestas descrições, as mudanças são naturalizadas e descritas como lacunas, a historicidade das sociedades locais desaparece e o estado em que os viajantes encontram estas sociedades – muitas vezes já profundamente deterioradas pela influência colonial – é descrito como eterno e atemporal.

Em sua análise, a autora reflete sobre os princípios da anti-conquista mostrando a maneira pela qual esta se legitimava ideologicamente argumentando a existência de uma reciprocidade entre europeus e as sociedades coloniais, entre viajantes e viajados. Utilizando-se de conceitos derivados do discurso das nascentes ideologias liberais e capitalistas, porém contextualizado-os na análise de texto, a autora aponta para a falácia desta suposta troca, que legitimaria a intervenção classificatória do sábio europeu nas áreas coloniais, aqui denominada como zona de contato. Mary Pratt forja o conceito da mística da reciprocidade mostrando que a literatura de viajem naturalista assenta-se sobre as mesmas bases ideológicas e discursivas do capitalismo. Interessante notar que uma parcela do livro concentra-se no enfoque da literatura de viagem sobre a África, como a realizada por Mungo Park e relatada em seu livro Travels in the Interior of Africa, publicado em 1799 (por sinal, lido e citado por Southey quando escrevia a História do Brasil), bem como sobre muitas outras, que aparecem vinculadas aos interesses europeus comerciais e de conquista do interior da África. Entre estas destacam-se as que objetivavam delimitar o curso, direção, nascente e desaguadouro do Rio Niger, com vistas a estabelecer rota transcontinental mediterrânea, que atravessasse a África, supostamente desaguando no Nilo. Por meio da análise destes textos, constrói a autora uma taxionomia da literatura de viagem e das fases da conquista da África. Assim, o viajante naturalista que lança mão da ciência se associa ao aparato estatal e panóptico da vigilância, absorvendo as ambições territoriais dos impérios. Por seu turno, a viagem sentimental (associada às qualidades da domesticidade, interioridade e privacidade), alia-se aos ideais do comércio e da iniciativa privada. Conclui a autora que a mística da reciprocidade na literatura de viagem remonta à mística da reciprocidade das relações capitalistas, embora saiba-se que o capitalismo tem como base exatamente a negação deste princípo na própria base das relações sociais. Neste sentido, a viagem sentimental identifica-se com a fase de tentativa de conquista da África e seus autores com a missão civilizadora que é, em essência, o contrário ideológico e simbólico da reciprocidade

Numa operação ainda mais ousada, Mary Louise Pratt percebe nos conflitos entre raça, relações raciais e movimentos abolicionistas dos finais do XVIII e inícios do XIX nas Américas, os motivos de uma literatura de viagem sentimental, que em seus enredos e soluções narrativas estabelece as relações sentimentais entre homens brancos e mulheres nativas, com a óbvia submissão destas últimas, como codificadora de uma nova solução racial. Isto é, na realidade, as soluções narrativas desta literatura dão forma a uma proposta política reformista em ascensão nesta conjutura, que propõe uma saída humanitária ao problema da escravidão e da assimetria das raças, que seria o da abolição com a manutenção da subserviências das culturas nativas e afroamericanas ao homem branco. Seria o romantismo criação da zona de contato e expressão destas experiências inusitadas de encontros culturais assimétricos e, recambiado para a metrópole, seria apropriado como a mais pura expressão do espírito europeu?

Analisando a literatura de viagem sobre a América hispânica, a autora chama a atenção para a reivenção da América enquanto natureza, operação esta que se concretizou por meio da reatualização do deslumbramento dos primeiros cronistas, sobretudo de Colombo, como se três séculos de colonização não houvessem ocorrido. O grande inspirador desta vertente foi Alexander von Humboldt e, no caso do Brasil, este lugar foi ocupado por Martius. A autora aponta para a historicidade desta reinvenção, pois a América é reinventada como natureza primal e o espanto e deslumbramento inicial são reatualizados como ato histórico, embora a infraestrutura colonial a partir da qual os viajantes se valem para realizar a viagem esteja lá, bem presente, embora completamente eludida nos relatos de viagem. Assim, por exemplo, as solidões andinas, que constituem uma imagem extremamente valorizada por Humboldt, que as descreve em cenas carregadas de dramaticidade. No entanto, sabemos que é nesta mesma solidão que vive a maior parte da população indígena do Peru, tendo sido inclusive o centro de gravidade de grandes civilizações.

A autora descontrói o discurso naturalista, analisando a historicidade da produção do texto em todas as suas instâncias de produção, circulação e apropriação. Ao mesmo tempo, e este me parece é outro aspecto extremamente importante a ser ressaltado, é o fato de que o saber que os naturalistas produzem é na verdade fruto da apropriação do saber nativo. Mais ainda, as relações sociais estabelecidas entre o viajante e as populações coloniais, sejam elas compostas de índios, escravos, autoridades coloniais ou fazendeiros, apenas surgem no texto exercendo funções instrumentais, de informantes, guias ou hospedeiros do viajante. Desta maneira, como aponta Mary Pratt, as populações coloniais surgem no texto em um estado de disponibilidade, que é em si a essência das relacões coloniais. Assim, a natureza ahistórica, as populações instrumentalizadas e despersonalizadas e o processo histórico colonial elidido (e acrescente-se para o caso das antigas civilizações, do México e Peru, a arqueologização da cultura, que desconhece os elos entre aqueles índios decaídos que carregam as malas e os instrumentos e os produtores das maravilhas das antigas civilizações) forjam um saber que, vazado num estilo da ciência do XIX, conforma aquilo que convencionamos chamar de literatura de viagem ilustrada e naturalista. Refazendo estes circuito, Pratt pergunta-se se o romantismo foi, de fato, concebido na Europa e daí transplantado para a América ou na verdade foi ele um, entre tantos processos originais produzidos nas e pelas Américas e, transculturado para Europa, ali transformou-se na concretização mais sutil e sublime do espírito europeu.

Interessante sublinhar que a autora não pára aí, isto é, no desvelamento da historicidade e na crítica ideológica da escrita de viagem e do saber científico naturalista, mas refaz o circuito mostrando como a produção e publicação da literatura de viagem irá realimentar um sistema que tem como elo final a volta à América. Nela, esta mesma literatura será apropriada pelas elites crioulas do XIX, mas não de forma mecânica. Na verdade o que vai ocorrer é uma apropriação seletiva que vai justificar uma nova inserção da América no contexto imperial, no processo de descolonização e nos movimentos de independência. Movimentos novos e essencialmente americanos, como sublinharam Benedict Anderson e a própria autora (embora Pratt não pareça compartilhar da mesma concepção de comunidade imaginada de Anderson), estes serão apropriados pelas elites crioulas europeizantes em busca de sua auto-justificação e legitimidade. Todas estas idéias estão minuciosamente discutidas e analisadas no texto propondo novas formas de se pensar estas questões fundamentais para nossa história. Embora o Brasil não seja o tema deste livro, as interpretações e debates aqui discutidos têm para nós grande interesse.

Finalmente, chamo atenção para um erro que aparece na página 42 da tradução portuguesa, na qual Carl Linné é citado como “naturalista francês”, embora no livro Os Olhos do Império, em sua versão original, inglesa e na tradução em espanhol, ele apareça corretamente denominado como de origem sueca.

Maria Helena Pereira Toledo Machado – Universidade de São Paulo;

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Gênero em debate. Trajetórias e perspectivas na historiografia contemporânea – SAMARA et al (RBH)

SAMARA, Eni de Mesquita; SOHIET, Raquel e MATOS, M. Izilda S. de. Gênero em debate. Trajetórias e perspectivas na historiografia contemporânea. São Paulo, EDUC, 1997. Resenha de: MOREIRA, Maria de Fátima Salum. Revista Brasileira de História, São Paulo, v.20 n.39, 2000.

Eni de Mesquita Samara, Rachel Sohiet e Maria Izilda S. de Matos são professoras universitárias, vinculadas aos Departamentos de História da USP, PUC-SP e UFF -RJ, respectivamente, cujas trajetórias junto à pesquisa em História têm sido marcadas pela preocupação com as investigações sobre as mulheres e, mais recentemente, também pelos estudos de gênero. Enquanto as análises de Samara e Sohiet denotam as suas preocupações mais marcadamente influenciadas pelos estudos e práticas feministas, Matos tem indicado em seus últimos trabalhos a necessidade de também se valorizar, em enfoques de gênero, as perspectivas de análise relacionadas às experiências vividas pelos homens e a construção das significações sociais relativas ao “ser masculino”. Autoras dos três textos que compõem o livro Gênero em Debate, Sohiet, Samara e Matos apresentam as suas abordagens teóricas particulares e também demarcam os temas e problemáticas aos quais têm dado primazia em seus trabalhos de pesquisadoras.

O que as reúne é o objetivo de discutir os referenciais teóricos de gênero que se fazem presentes na historiografia contemporânea e que têm nas mulheres o seu principal objeto de estudo. Para isto, discutem o contexto nos quais as pesquisas sobre a mulher e sobre gênero surgiram e foram originalmente pensadas, assim como a questão das influências recíprocas entre a produção historiográfica e o movimento feminista. Abordam a crise dos paradigmas e premissas conceituais da ciência moderna, bem como as diversas tendências e correntes teóricas presentes no campo da disciplina histórica contemporânea, situando, a partir daí, os seus pontos de vista quanto aos aspectos teóricos e metodológicos que priorizam na produção historiográfica.

As autoras ressaltam as análises que enfatizam a necessidade de crítica às noções abstratas e universais de homem e de mulher, apontando para a importância em se produzir interpretações que considerem a “diferença dentro da diferença”, isto é, a pluralidadade de masculinos e femininos que se constituem em cada situação histórica particular. Enquanto em seu texto “Outras Histórias: as Mulheres e Estudos dos Gêneros”, Matos ressalta a importância de se entrecruzar elementos como cultura, classe, etnia, geração e ocupação para se acompanhar a diversidade na construção social dos gêneros, em “O Discurso e a Construção da Identidade de Gênero na América Latina”, Mesquita aponta para a necessidade de atenção para as variáveis raça e classe, visando a “realizar estudos comparativos que vão nuançar as diferenças mas, ao mesmo tempo, realçar e permitir o entendimento dos pontos em comum das “identidades femininas”1.

Embora Sohiet, em “Enfoques Feministas e a História: desafios e perspectivas” também indique a crítica historiográfica que opôs as categorias históricas universais às idéias de diferença e de múltiplas identidades para as mulheres, a sua reflexão propõe um debate mais voltado para os pressupostos da história social que têm como eixo a investigação das relações de poder travadas nas lutas do viver cotidiano, com ênfase na análise das práticas e representações que constituem a experiência social e cultural dos sujeitos. Deste modo, a autora destaca a importância do trabalho com a categoria gênero nos estudos referentes aos interesses e jogos de poder relativos às políticas de Estado e demais instituições sociais. Porém, a sua ênfase é para a necessidade de um trabalho voltado para a história do cotidiano e das mulheres, de forma a garantir maior visibilidade aos processos sociais em que estas viveram “papéis informais, situações inéditas e atípicas”. Insistindo, portanto, no estudo das lutas e poderes das mulheres, inscritos em uma “experiência feminina”, a autora apresenta as suas ressalvas a uma historiografia sobre as mulheres que seja construída dentro dos mesmos pressupostos metodológicos e mesmos marcos políticos e cronológicos de uma história escrita pelos setores dominantes e do ponto de vista masculino.

Analisando a produção bibliográfica, principalmente a brasileira e européia ocidental, as discussões de Matos levantam questões em torno dos novos desafios colocados para o trabalho do historiador, a partir da “politização do privado e da privatização do público”, considerando-se a “pluralidade de possíveis vivências e interpretações em relação às diferentes dimensões da experiência social, inclusive, a da trama das relações cotidianas”2. Indica, ainda, para o campo de controvérsias que se encontra aberto e que requer a continuidade dos debates sobre o trabalho com o conceito de gênero em torno de problemas tais como os de “definição, fontes, método e explicação”. A sua crítica, entretanto, ressalta o quanto a produção historiográfica tem privilegiado “o enfoque das experiências femininas em detrimento de seu universo de relações com o mundo masculino”, sendo poucos os estudos que tratam da masculinidade ou da homossexualidade, “deixando de revelar a pluralidade dos masculinos e femininos”3.

Mesquita propõe uma discussão em torno da utilização das categorias gênero e identidade nos estudos sobre as mulheres na América Latina. A sua preocupação é discutir como a historiografia tem abordado a “condição feminina e as relações entre os sexos na América Latina” e para isto apresenta aos seus leitores uma discussão da ampla e variada produção bibliográfica mais recentemente publicada nos Estados Unidos e em vários países da América Latina. Conclui que, “apesar das tradições culturais comuns, é impossível traçar um perfil único para a mulher da América Latina”, sendo que a complexidade da vida destas mulheres deve ser remetida a uma reflexão sobre a diferença “nas práticas cotidianas, no discurso, no processo de socialização e na construção da identidade social de gênero”4. A autora realiza, ainda, uma discussão sobre o significado do “marianismo” e do “machismo” na construção dessas identidades de gênero.

Os textos indicam tanto para os impasses e tensões que permeiam a discussão do conceito de gênero diante da impossibilidade em se trabalhar com categorias definitivas ou precisas no campo da ciência atual, como para a carência de um aprofundamento da discussão teórica e interpretativa que fundamenta estudos sobre gênero, sugerindo a necessidade de adensar a bagagem conceitual e intelectual que envolve tal categoria. Sem dúvida, no campo geral dos estudos históricos, é necessário que se realizem e concretizem trabalhos que permitam avançar para além de meras descrições ou apresentações de determinados temas ou matérias. Ao invés disto, é preciso que se venha a propor novas configurações interpretativas e conceituais, as quais possam servir de suporte e de ferramentas para a descoberta de outras realidades históricas.

Constituindo-se em um importante referencial para a ampliação das reflexões propostas atualmente pelos estudos de gênero, este livro pode corresponder a um duplo interesse do leitor, tanto pela discussão teórica e bibliográfica proposta, como pelo diálogo com autores que são agentes do próprio processo de produção de conhecimento que se propuseram analisar e discutir. Em uma linguagem didática e acessível àqueles que se pretendem iniciar os estudos neste campo historiográfico, e sem incidir na simplicação dos conceitos, tal obra visa a situá-los nos debates teóricos e colocá-los a par da diversificada bibliografia recentemente publicada sobre o assunto.

Notas

1 SAMARA, Eni de Mesquita; SOHIET, Raquel e MATOS M. Izilda S. de. Gênero em DebateTrajetórias e Perspectivas na Historiografia Contemporânea. São Paulo, EDUC, 1997,
pp. 45-46.

2 Idem, p. 105.

3 Idem. p. 106.

4 Idem, p. 13.

Maria de Fátima Salum Moreira – UNESP/Pres. Prudente.

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Depois das Caravelas. As relações entre Portugal e Brasil/ 1808-2000 | Amado Luiz Cervo e José Calvet de Magalhães

Depois das Caravelas, obra publicada na Coleção Relações Internacionais da Editora Universidade de Brasília, representa um trabalho de grande importância para as relações bilaterais entre Portugal e sua ex-colônia, o Brasil. Com seu enfoque nos últimos duzentos anos, o livro preenche uma grande lacuna na literatura acadêmica sobre as relações entre os dois países, que tende a focalizar, sobretudo no ano do V Centenário do Descobrimento do Brasil, o próprio descobrimento e o período colonial. O livro soma os esforços de scholars dos dois países, como que simbolicamente representando a nova qualidade das relações bilaterais. A obra contém duas partes. Na primeira (151 páginas) o historiador brasileiro Amado Luiz Cervo analisa as relações entre Portugal e Brasil no século XIX. Segue um capítulo sobre as relações culturais no século XIX, escrito pelas duas historiadoras cariocas Tânia Maria Tavares Bessone da Cruz Ferreira e Lúcia Maria Bastos Pereira das Neves, ambas especialistas em história cultural do Brasil (30 páginas). A segunda parte do livro trata das relações bilaterais do início do século XX até os tempos mais recentes (122 páginas). O autor, José Calvet de Magalhães, é diplomata português e especialista em história diplomática do seu país. O livro conta ainda com uma apresentação, escrita por Dário Moreira de Castro Alves, que oferece, em 50 páginas, um resumo de seu conteúdo. Finalmente, são reproduzidos em anexo os três mais importantes tratados entre Portugal e Brasil. Leia Mais

O Brasil e as novas dimensões da segurança internacional | Gilberto Dupas e Tullo Vigevani

O Brasil e as novas dimensões da segurança internacional, coletânea organizada por Gilberto Dupas e Tullo Vigevani, tem origem em um seminário realizado pelo Instituto de Estudos Avançados da Universidade de São Paulo, em 1998. Trata-se de um sério esforço de estudiosos brasileiros no sentido de pensar sobre o lugar do Brasil no mundo pós-bipolar, em que a distribuição de poder, como adverte M.-C. Smouts, parece mais próxima dos relógios moles de Dali do que de qualquer fórmula geométrica. Tarefa difícil, pois, é esta de compreender o funcionamento da era pós-Guerra Fria e dos possíveis caminhos para a inserção do Brasil.

No primeiro capítulo, Gelson Fonseca Jr. situa o enfoque realista no espectro interpretativo sobre o sistema internacional, atualizando-o com vistas a definir o tipo de relações de poder que substituiu a bipolaridade. Das poucas certezas que temos, afirma o autor, provavelmente a mais indiscutível é a de que os Estados Unidos são pólo que se diferencia por seus recursos de poder, e questiona: “em uma ordem que combina concerto e multipolaridade, quais seriam as posições do Brasil?” Compartilhamos dos valores do concerto, como a democracia, os direitos humanos, etc, e, se persiste tal configuração de poder, a resposta estaria em “como aumentar a nossa capacidade de influência”. Leia Mais

O Capital em Jogo: fundamentos filosóficos da especulação financeira | Gilson Schwartz

W. Rostow sugeriu certa vez que o socialismo era apenas uma moléstia do crescimento do capitalismo. Retrospectivamente, isso parece correto. Contudo, para os que viveram os anos seguintes à Revolução Russa de 1917 e, mais ainda, os da Grande Depressão, as coisas se apresentavam de modo muito diferente. John Maynard Keynes foi um deles — e dos mais brilhantes. Os fantasmas da depressão, diretamente, e da revolução, indiretamente, rondam atrás do seu Tratado Geral, publicado em 1936.

A economia política encarava as depressões como uma fase do ciclo econômico que se esgotava, a longo prazo, pela ação dos mecanismos de reativação do próprio mercado. A melhor tirada de Keynes — “a longo prazo, estamos todos mortos” — sintetizou a sua crítica devastadora à teoria clássica sobre o desemprego e funcionou como bandeira do paradigma emergente de administração anticíclica da demanda. O Tratado Geral ensinou os governos a regular os mercados ao longo do ciclo e assinalou o nascimento da política econômica. Nos limites do raciocínio contrafactual, é razoável argumentar que o keynesianismo salvou o capitalismo do abismo da depressão e, por essa via, “provou” o erro de Karl Marx. Leia Mais

Sob a sombra de Mussolini: os italianos de São Paulo e a luta contra o fascismo, 1919-1945 | João Fábio Bertonha

A emergência e afirmação de regimes políticos autoritários, impulsionados por idéias e princípios antidemocráticos, constituíram duas das características mais evidentes do entreguerras, a tal ponto que o “breve século XX” de Eric Hobsbawm já tinha sido batizado de “século das ideologias” por diversos historiadores que o precederam. Nesse conjunto de regimes autocráticos, o regime fascista inaugurado por Mussolini representou, sem dúvida, um paradigma do antiliberalismo, representando — tanto do ponto de vista prático como teórico — o protótipo do que ele mesmo chamou de “Estado totalitário”, termo depois estendido por Hannah Arendt para cobrir a modalidade soviética de poder político absoluto. Muitos historiadores e cientistas políticos, entre eles François Furet de O passado de uma ilusão, consideram aliás que o fascismo se desenvolveu especificamente em reação ao bolchevismo, dele retirando entretanto diversos elementos substantivos e formais, pois que combinando o estatismo do planejamento socialista e o monopólio do poder pelo partido único com uma ideologia anticapitalista e supostamente igualitária, como no caso da ideologia marxista. Leia Mais

The Paraguayan War (1864-1870) | Leslie Bethell || História do Cone Sul | Amado Luiz Cervo e Mário Raport || A guerra contra o Paraguai | Júlio J. Chiavenato || A espada de Dâmocles: O exército/ a guerra do Paraguai e a crise do Império | Wilma Peres Costa || A Guerra do Paraguai | Francisco Doratioto || Guerra do Paraguai: como construímos o conflito | Alfredo da Mota Menezes

Até onde as relações entre os Estados processam-se em virtude do confronto dos interesses independentes de cada um deles? Em que medida a História de um povo ou de um conflito pode ser pensada como um contexto autônomo frente ao contato com outras nações? As respostas para estas perguntas são múltiplas, mas, divergentes ou não, há algo que as torna semelhantes: a cada forma de contar a História das relações internacionais corresponde um projeto – pessoal ou mais comumente coletivo –, de manter ou de transformar a situação atual da convivência entre os povos. Em outras palavras, o conhecimento produzido sobre o mundo não costuma estar desvinculado de um conjunto específico de interesses.

O tema da Guerra do Paraguai é perfeito para explicitar essas questões. Realmente, diversas pesquisas têm sido realizadas recentemente sobre o assunto e isso não é por acaso, já que aquele conflito representa um divisor de águas na história do Cone Sul. Numa época em que a globalização e o Mercosul dão o tom dos debates políticos e acadêmicos envolvendo o relacionamento dos países sul-americanos, discutir as origens da guerra e o real peso de influências externas ao sub-continente nas mesmas torna-se um exercício fundamental. Leia Mais

Navegantes/ bandeirantes/ diplomatas: um ensaio sobre a formação das fronteiras do Brasil | Synesio Sampaio Goes Filho

O livro de Synesio Sampaio aborda um tema relevante para um campo de experiências particularmente férteis no Continente Americano, a saber o processo de formação de fronteiras. Neste livro o autor apresenta a formação das fronteiras brasileiras dentro de um contexto complexo, marcado pelas especificidades de um processo histórico de descoberta e colonização européias. Os assuntos desenvolvidos são: descobrimento, ocupação e fronteira, respectivamente relacionados aos navegantes, bandeirantes e diplomatas, assinalando o papel desses três agentes sociais, dotando-os de singularidade à medida que o livro seleciona alguns e salienta seus nomes e histórias particulares, apresentando seus feitos e obras.

O livro está estruturalmente divido em três partes. A primeira designada “A descoberta do Continente”, a segunda, “A ocupação do território brasileiro”, a terceira, “As negociações dos limites terrestres”. Leia Mais

Arqueología de la Educación. Textos, indicios, monumentos. La imagen de los indios en el mundo escolar – PODGORNY (IA)

PODGORNY, Irina. Arqueología de la Educación. Textos, indicios, monumentos. La imagen de los indios en el mundo escolar. Buenos Aires: Sociedad Argentina de Antropología. Buenos Aires, 1999. 222p. Resenha de: ENDERE, María Luz. Intersecciones en Antropología, Olavarría, n.1, ene./dic., 2000.

La Dra. Irina Podgorny cuenta con una sólida formación en arqueología y antropología y ha publicado numerosos trabajos en temas relacionados con historia de la ciencia en Argentina, en especial de la arqueología y la antropología en el período de institucionalización de las mismas y de la creación de los grandes museos nacionales hasta la primera mitad del siglo XX.

En este trabajo se reproduce en parte su tesis doctoral “Arqueología y Educación: la inclusión de la arqueología pampeana en la educación argentina”, presentada en 1993. Lo que ha sido excluido de la versión original es la segunda parte en la cual se analizaban los trabajos científicos en base a los cuales se organizó el estudio del pasado indígena entre 1880 y 1940, por haber sido objeto de publicaciones anteriores de la misma autora y que no son ajenos al lector familiarizado con la producción de Podgorny en los últimos años (en especial Podgorny 1999).

Esta publicación, aunque tardía, no es menos oportuna ya que aborda una cuestión poco explorada en Argentina, cual es la presentación de la arqueología y del pasado indígena en la enseñanza primaria (actual EGB) en la provincia de Buenos Aires. Pese a que la relación entre arqueología y educación es una cuestión que ha sido objeto de reflexión por parte de autores extranjeros (en particular MacKensie y Stone 1990), en el marco de la denominada arqueología postprocesual (Hodder 1986), la producción de trabajos que se ocupen específicamente de cómo se enseña la arqueología y el pasado indígena en la escuela en Argentina es muy escasa. Si bien se reconoce en los ámbitos científicos que el pasado prehistórico está virtualmente excluido en la educación formal argentina, no hay suficientes trabajos de investigación que contrasten esta afirmación con la realidad cotidiana que se vive en las aulas.

Desde la arqueología postprocesual se ha enfatizado la subjetividad de la interpretación del pasado y su manipulación desde el presente, manipulación de la que no ha sido ajena la arqueología (ver Kohl y Fawcett 1995; Díaz-Andrew y Champion 1996). En esta línea interpretativa, recobra especial interés la indagación de cómo el pasado o determinadas versiones del pasado han servido de fundamento a políticas hegemónicas, así como a la consolidación de una identidad nacional única -y al mismo tiempo negadora de toda posible diversidad étnica o cultural-, sobretodo en las nuevas naciones surgidas a partir de procesos de descolonización.

En este sentido, la educación formal constituye un instrumento idóneo para difundir la idea de nacionalidad cuya fuerza homogeneizante requiere necesariamente la negación y exclusión de todo pasado que pueda proveer de algún resquicio para una versión que difiera de la historia oficial, así como la exaltación de aquello que pueda servir de base a las “nuevas” tradiciones nacionales (en el sentido de Hobsbawm y Ranger 1983).

En ese marco la indagación sobre la presentación del pasado indígena y la inserción de la arqueología en la currícula escolar -tanto en la formación de docentes como de alumnos-, así como en los libros de textos permite comprobar qué lugar ocupaban en la “versión oficial” del pasado y comprobar cómo el mismo se fue modificando a través del tiempo.

Este trabajo abarca el período 1880-1990 en los cuales -destaca Podgorny- se ponen de manifiesto dos diferentes modelos culturales de nación: el de la homogeneidad cultural y el crisol de razas, correspondiente a la etapa de la consolidación institucional del país (1880-1940) y el de nación pluricultural evidenciado en las políticas culturales instrumentadas desde la restauración democrática de 1983.

La propuesta de Podgorny consiste en analizar las representaciones acerca de los indígenas en la educación formal en la provincia de Buenos Aires con el fin de “comprender los usos de tales imágenes en la consolidación del sentimiento de pertenencia a la nación”.

Reconociendo su basamento metodológico en la “arqueología del saber” de Foucault (1969) en el cual “los discursos y saberes son definidos como ´monumentos ´ y analizados en su materialidad”, Podgorny señala que “los discursos que se originan y se usan en la vida cotidiana en la escuela pueden ser definidos como monumentos de una cultura contemporánea que contiene en sí elementos procedentes de las mentalidades y culturas del pasado, más allá de la voluntad de los participantes actuales de ese discurso, (…) tales restos pueden ser hallados también en el discurso de los científicos y, desde ese punto de vista, ambos tipos de discursos pueden ser equiparados” (pág. 4).

Esta “arqueología de la educación” argentina es reconstruida mediante análisis de contenido de documentos, entrevistas, observación participante, etnográfica y encuestas y se basa en tres tipos de evidencias: los contenidos curriculares, la realidad en el aula -a través del caso de estudio- y el análisis de los textos escolares, que permiten evaluar no sólo los contenidos sino también la articulación entre arqueología y educación a través del tiempo.

La obra se estructura en dos partes. En el capítulo primero de la primera parte, aborda la situación escolar contemporánea a través del análisis de las imágenes, los presupuestos y las categorías utilizadas en la presentación de los pueblos aborígenes de los programas de educación primaria y demás documentación oficial en la provincia de Buenos Aires entre 1975-86, período durante el cual se produce el paso de un modelo hacia el otro. En el capítulo segundo, se contrasta la reforma curricular impuesta desde el Estado con la realidad en el aula, tomando como caso de estudio escuelas de la zona sur del Gran Buenos Aires, en las cuales se efectuó el trabajo de campo entre 1987-1989. En el tercero, aborda los conceptos de historia y ciencias sociales que manejan los docentes entrevistados durante el trabajo de campo y en el cuarto, las representaciones de los pueblos indígenas y las ideas acerca de los indios que expresan los alumnos.

Al final de la primera parte, la autora marca las contradicciones existentes en el mundo escolar: “mientras que en los documentos y manuales se define a la argentina como un país pluricultural y plurilingüe, los contenidos y la lógica de la organización de los contenidos tienden a una presentación que entraña la exclusión de los pueblos indígenas” (pág. 100). Al tiempo que señala que las categorías que efectivamente se usan en la escuela primaria, presentan a los pueblos indígenas como entidades naturales desconectados tanto de su propia historia como de la historia nacional.

En la segunda parte del libro, Podgorny analiza la presentación de las sociedades indígenas en los textos utilizados en las escuelas bonaerenses entre 1880 a 1989, reconstruyendo la relación entre arqueología, discursos acerca de la nacionalidad y contenidos educativos a través del tiempo. Es allí donde se pone de manifiesto la segunda contradicción, ya que mientras el modelo de crisol de razas continuó vigente en gran parte del siglo XX, la fluida relación entre investigación arqueológica y educación que existía hasta 1925, comenzó a eclipsarse desde entonces hasta su total desconexión.

Las razones de esta crisis Podgorny las busca más allá del ámbito estrictamente educativo y se remite a la disputa entre arqueología e historia en ocupar un lugar de privilegio en el discurso intelectual -y político sobre los orígenes de la nacionalidad argentina. Por otro lado, esa desconexión fue agravada por “la relativa autonomía de las editoriales con respecto a la información que hacen circular” y a la reiteración año tras año de la misma información a través de un proceso que la autora califica de “autoplagio” de los manuales escolares (pág. 171). Finalmente, la realidad educativa aportó un elemento adicional: pese a la existencia en el mercado de manuales que responden al cambio de modelo curricular desde 1980, los viejos manuales seguían siendo usados en el aula para fines de esa década. Y lo que es aún peor se puede estimar que están todavía hoy en uso, tomando en consideración la conclusión a la que arriba la propia autora luego de relevar los textos escolares usados en las escuelas investigadas: “el desfasaje entre la fecha de publicación del libro y las del uso por un niño, oscila entre los tres y los treinta años” (pág. 163).

En conclusión, este trabajo tuvo en el momento de su producción y sigue teniendo aún una gran cuota de originalidad pues ilustra con datos de la realidad la distancia que media entre la información arqueológica que se maneja en los ámbitos universitarios y académicos y la contenida en los manuales de instrucción básica y, lo que es peor aún, las categorías que manejan docentes y alumnos sobre la arqueología y sobre los pueblos indígenas y su pasado. La lectura de las respuestas de los entrevistados es a la vez divertida y trágica, cuando se comprueba que los equívocos de los niños escasamente puedan ser aclarados por los docentes. Podgorny enfatiza que este trabajo “es una evidencia arqueológica de la situación de la enseñanza de la historia hacia fines de la década de 1980” y que no pretende que sea visto como el presupuesto de una realidad inmutable. Sin embargo, por más optimistas que seamos con los beneficios que hayan traído dieciséis años de democracia, el tiempo que requieren los cambios en educación permite suponer que no se esté demasiado lejos de la realidad actual en muchas aulas del país.

Reflexionar sobre esta cuestión, es también el punto de partida para un nuevo desafío para los arqueólogos en Argentina, cual es cómo presentar la arqueología al público de una manera más democrática y pluralista (ver Jameson 1997; también Stone y Molyneaux 1994; McManus 1996).

En este sentido, la elección de este trabajo para su publicación en la colección Tesis doctorales de la Sociedad Argentina de Antropología ha permitido la difusión de una investigación que no merecía permanecer inédita y que sin duda será de gran utilidad, no sólo para la reflexión de los propios arqueólogos, sino de todos aquellos que estén de algún modo involucrados con la presentación del pasado a través de la educación formal y no formal.

Referências

Díaz-Andreu, M. y T. Champion (eds.). 1996 Nationalism and Archaeology in Europe. UCL Press, Londres.    [ Links ]

Foucault, M. 1969 La arqueología del saber. Siglo XXI, México.   [ Links ]

Hobsbawm, E y T. Ranger (eds.). 1983. The Invention of Tradition. Cambridge University Press, Cambridge.    [ Links ]

Hodder, I. 1986 Reading the past; current approaches to interpretation in archaeology. Cambridge University Press, Cambridge.    [ Links ]

Jameson, J. (ed.). 1997 Presenting Archaeology to the Public. Diging for Truth. Altamira Press, Londres.   [ Links ]

Kohl, P y C. Fawcett (eds.). 1995 Nationalism, Politics and the Practice of Archaeology. Cambridge University Press. Cambridge.    [ Links ]

MacKensie, R. y S. Stone (eds.). 1990 The Excluded Past. Archaeology in Education. Routledge, Londres.    [ Links ]

McManus, P. (ed.) 1996 Archaeological Display and The Public. Museology and Interpretation. Institute of Archaeology, UCL, Londres.    [ Links ]

Podgorny, I. 1999 El argentino despertar de las faunas y de las gentes prehistóricas. Coleccionistas, Museos y estudiosos en la Argentina entre 1880 y 1910. EUDEBA, Buenos Aires.   [ Links ]

Stone, P. y B. Molyneaux (eds.). 1994 The Presented Past. Heritage, Museums and Education. Routledge, Londres.   [ Links ]

María Luz Endere – INCUAPA – Departamento de Arqueología. Facultad de Ciencias Sociales. UNCPBA. Avenida Del Valle Nº 5737. B740JWI Olavarría. Buenos Aires. Correo electrónico: mendere@soc.unicen.edu.ar

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Iroquois Corn in a Culture-Based Curriculum: A Framework for Respectfully Teaching About Culture – CORNELIUS (CSS)

CORNELIUS, Carol. Iroquois Corn in a Culture-Based Curriculum: A Framework for Respectfully Teaching About Cultures. Albany, NY: State University of New York Press, 1999. 294.p. Resenha de: BRADLEY, Jon G. Canadian Social Studies, v.35, n.1, 2000.

“The greater the ignorance the greater the dogmatism.”
Sir William Osler, 1902, Montreal Medical Journal

As I entered the staff room, I became an unintended participant in a mini-drama that was unfolding with all the fury and vitriol that such heated staff room debates can generate. The two teachers, standing toe to toe, were exchanging what any pupil would recognize as ‘those looks.’ Clearly, my unexpected entry had interrupted their oral exchange. Once determined that I was not of the school or of the Board and, in fact, was an outsider from the university, I became their self-elected referee. A winner and, thereby a loser, had to be determined and I had been chosen to render judgement!

Briefly, the two elementary teachers were arguing philosophies of education and, as we all know, this is in and of itself dangerous to do within school grounds. Teacher 1 had just erected her monthly hallway bulletin board display of grade five student work around the theme of Northland Indians. Teacher 2 had just seen the display and had commented to Teacher 1 that some of the pupils’ written and pictorial perceptions about native peoples were inaccurate. Additionally, Teacher 2 had apparently forcefully indicated that such “insensitive” and “ignorant” depictions had to be immediately removed. Teacher 1, as one might expect, took great personal umbrage to this criticism and had rebutted that pupil opinion was valid and it was not up to Teacher 2 to force her own ‘narrow’ beliefs on others. Enter the innocent university visitor.

“No matter what grade level – kindergarten to college level – whether in history, literature, or social studies, the stereotypes, omissions, and distortions about American Indians continue to pervade educational materials. What is the basis, the underlying assumption behind these images of the noble savage, savage savage, or the vanishing race?” (17).

Cornelius has written a most thought-provoking and, at times, disturbing book. This is not a volume for the faint-hearted! Cornelius asks some terribly important questions and openly challenges what many North Americans might well consider to be ‘truths’ and ‘facts’ about the First Nations peoples. Additionally, several precepts concerning general curriculum foundations and design are challenged by Cornelius. Unlike many other volumes that centrally seek a more literate or a more academically knowledgeable teacher, Cornelius asks the more difficult and deeply fundamental questions related to how minority groups are portrayed within our educational system. To a certain extent, Cornelius suggests that Native studies can only be accomplished with dignity if one operates from an assumption of cultural equality.

Basing her reflections on her own personal-practical knowledge as well as using the Haudenosaunee culture as a touch-stone, Cornelius creatively and delicately strips away imposed curriculum designs to reveal another that is deeply rooted in mystical pasts and cultural depths. Metaphorically centering the cultural dimension upon the power and spirit of corn, she deftly intertwines historical and contemporary issues so as to illustrate a multicultural curriculum in the making. Cornelius does not simply state or attempt to make a case for better, more or nicer native curriculum; rather, she offers the reader a grounded philosophical framework that emanates directly from the culture itself. In a sense, the reader is taken on a winding journey that weaves history and curriculum together in a meaningful entity and, in the process, forces the reader to confront the surfacing contradictions.

Iroquois Corn in a Culture-Based Curriculum provides educators at all levels with a model for curriculum development. This is a model that emphasizes cultural strengths and clearly offers an alternative to schema that suggest there is a dominant culture to which all others must be subservient.

Jon G. Bradley – McGill University, Montreal.

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The Ugly Canadian: The Rise and Fall of a Caring Society – MURPHY (CSS)

MURPHY, Barbara. The Ugly Canadian: The Rise and Fall of a Caring Society. Winnipeg, Manitoba: J. Gordon Shillingford Publishing Inc, 1999. 152p. Resenha de: CLIFTON, Rodney. Canadian Social Studies, v.35, n.1, 2000.

This book is about the historical development of social welfare programs in Canada. In Barbara Murphy’s view, social activists through a long and tortured struggle have pieced ‘the caring society’ together. The book outlines, rather briefly, the struggle that these activists have had in developing the specific programs: programs to help injured workers, widows, and orphans, old age pensioners, and the unemployed, programs for family allowances, health care, and proposed programs for national pension schemes.
In the final two chapters Barbara Murphy examines the decline in welfare support during the 1990s. These two chapters provide the insight that readers need to understand the title of the book, The Ugly Canadian. She argues that Canadians have turned ugly because the substantial support that was previously given to the increasingly pervasive social welfare programs has been slowing down, leveling off, and in some cases declining.

She derides Canadians for turning against the progressive social welfare policies that were implemented in the 50s, 60s, 70s, and 80s. In her mind, Canadians are ugly because they have lost their compassion for their fellow citizens. One could, however, turn the argument around: Canadians are, on the whole, generous and compassionate people who have provided social services to millions of needy and destitute people for many years. Social programs in Canada are better developed and financed than those in most other countries.

Grudgingly, Barbara Murphy recognizes that the expansion of these programs was built on increasing taxes and borrowing money. She does not examine the fact that in the second half of the 20th Century, governments had been taking a growing share of the national income in taxes and using a considerable amount to pay for increasingly expensive welfare programs. She does not seem to recognize that there is a limit to the amount of taxes that can be extracted from citizens.

In addition, Ms. Murphy refuses to acknowledge that the development of these programs probably adversely affected the mediating institutions (such as churches, ethnic organizations, service clubs) that previously provided support to people who were suffering. Likewise, she does not acknowledge that increasing the support for people also, in many cases, increased their dependency on the state. Finally, a telling flaw in Murphy’s argument is that her proposal is anti-democratic. Without going through the normal democratic process, she would, if she had the power, increasingly tax Canadians to finance ever-expanding social welfare programmes.

If you want to read a book by an activist who clearly, but briefly, outlines the history of social programs in Canada, this book is for you. If you want to read a well-balanced assessment of these programs, both their strengths and weaknesses, this book is not for you. If you want to have a basic understanding of the history of social welfare, albeit largely from newspaper reports and editorials, then read chapters 1 through 7. Teachers who are teaching about social welfare programs in Canada could use this book as background reading. High school students could also use it, but they would need substantial guidance in understanding how the welfare programs have expanded over the last 40 years and the costs associated with this expansion. This book is very readable, but it is also very ideological.

Rodney A. Clifton – University of Manitoba, Winnipeg.

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Wild West Shows – REDDIN (CSS)

REDDIN, Paul. Wild West Shows. Urbana and Chicago: University of Illinois Press, 1999. 314p. Resenha de: GILLIS, Michael J. Canadian Social Studies, v.35, n.1, 2000.

In this book Paul Reddin examines the evolution of Wild West Shows over a one hundred-year period. The author reviews four different shows beginning with George Catlin’s Wild West show in the 1830s and ending with Tom Mix’s movie career in the 1930s.

The first Wild West show was organized in the 1830s by George Catlin, the world-renowned painter of the Plains Indians. Catlin’s show set the model for all of the following shows by using authentic clothing and objects while recreating life on the Great Plains on a vast scale. The show’s entourage included hundreds of colorfully costumed Indians on horseback and a herd of buffalo. Action scenes included Indian ceremonial dances, a buffalo hunt, warfare, scalping and remarkable feats of horsemanship. Catlin’s purpose in putting together his Wild West show was twofold. First, it was a terrific opportunity for him to make money. Second, and more importantly, he hoped to “rally support for the Great Plains and the Indians and animals who lived there.” Catlin regarded the Plains Indians as noble savages who were victims of Euro-American expansion. His show, whether it was presented to the cheering crowds of New York City or London, was designed to educate the public on the plight of the Indians and “their noble natures and do them justice.”

Fifty years later, Buffalo Bill Cody’s Wild West Show, unlike Catlin’s, glorified the frontiersmen rather than the Indians. Cody’s shows depicted the courageous and virtuous Americans withstanding repeated Indian attacks until finally the Americans were the clear winners of the west. Indians were portrayed as savages and obstacles to progress. The rattle of gunfire, galloping horses and elaborately staged Indian battles marked Buffalo Bill’s show. Cody often starred in the shows, arriving in just the nick of time to save stagecoaches, settlers and wagon trains from annihilation by ‘bloodthirsty’ Indians. His shows included all manner of horsemanship including racing, roping and riding, and eventually incorporated rodeo-style acts which became the centerpiece of the show. It was Cody, perhaps more than anyone else, who helped popularize the notion of the cowboy. The audiences loved the image of the gun-slinging desperados who rode horses and settled arguments with six-shooters. Like Catlin, Cody brought his show to Europe where crowds cheered the rustic westerners. Even the Pope was swept up in the enthusiasm and offered a papal blessing to mud-splattered cowboys and Indians in full war paint.

In the early 19th Century the Miller brothers, owners of the 101 Ranch in the Oklahoma Territory, formed their own wild west show. Unlike the others, this one was not a traveling road show. Instead, people came to the 101 Ranch to see the show. The Miller’s sought to recreate, on their vast ranch, a working replica of what they perceived to be the American West. The 101 Ranch employed hundreds of cowboys and a thousand Indians. Their acts included horsemanship, men and women in marksmanship competitions, buffalo hunts, Indian camp life, Indian attacks on a wagon train, and rodeo events. Unlike Catlin’s show where the Indians were the heroes, or Cody’s show where the cowboy was king, the Millers sought to elevate the ranch owners as the real founders and heroes of the American West.

The last of the four shows discussed by Reddin starred Tom Mix. Mix bridged the gap between live Wild West shows and silent movies. Employed by the 101 Ranch for a time, the athletic and hard-working Mix became the first true motion picture hero to adopt the cowboy persona. Mix’s show celebrated the victory of white America over the Plains Indians but in a muted fashion. World War I had left America and most of the world in a cynical mood and sick of bloodshed. His shows reflected this attitude by eliminating much of the violence long associated with Wild West shows.

Overall, this is a valuable book on several levels. It offers a succinct review of four Wild West shows by providing insight into important historical figures such as William Cody, Geronimo and Sitting Bull. In addition, it presents a valuable interpretation of how changes in American popular culture were reflected in the Wild West Shows. For teachers and students this book is a wonderful departure point for research and discussion on popular culture and the American West.

Michael J. Gillis – California State University, Chico. Chico, California.

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Khmer American: Identity and Moral Education in a Diasporic Community – SMITH-HEFNER (CSS)

SMITH-HEFNER, Nancy J. Khmer American: Identity and Moral Education in a Diasporic Community. Berkeley, Los Angeles, London: University of California Press, 1999. 237p. Resenha de: HOFFMAN, George. Canadian Social Studies, v.35, n.1, 2000.

In Khmer American Nancy Smith-Hefner examines the movement of Cambodians, most of whom were refugees, into the United States. She provides a moving portrait of their trials and tribulations as they attempted to adjust and make their way in a new society. She shows that they faced many of the same challenges that earlier immigrant groups, such as the Irish, Germans, Poles, Italians and others, had faced. At the same time, however, because of their cultural background and the circumstances of their arrival, there are also important differences.

Smith-Hefner’s account is not a history of Cambodian Americans. Rather it is an anthropological study of the Khmer (because the overwhelming majority of Cambodians are ethnic Khmer, the terms Khmer and Cambodian are both used in the book in reference to the language and the people of Cambodia) refugees and their families who live in metropolitan Boston and some neighbouring cities of eastern Massachusetts. The story is told largely from the perspective of the parental generation of Khmer refugees.

Since 1979 approximately 152,000 Cambodians have settled in the United States. Today the Khmer population of Boston and surrounding area is about 25,000. The city of Lowell, north of Boston, is said to have the second largest Khmer population in the United States after Long Beach, California. Most of the refugees, upon whom Smith-Hefner’s study is based, fled the horror of Pol Pot and the Khmer Rouge. The experiences under Pol Pot’s murderous regime exacted a high toll on the Khmer. Many of Cambodian refugees in the Boston area spoke openly when interviewed of having personally witnessed torture, rape and killings.

Khmer American includes a discussion of the basic beliefs and practices of Buddhism which, the author states, is essential for understanding Khmer culture. Khmer child rearing practices are described with particular emphasis on the moral education of children. Smith-Hefner shows that these beliefs relate directly to the cultural discontinuities that Khmer children face in American schools. Cultural practices in regard to sexuality and marriage are also explained, including a fascinating account of a Khmer wedding. Through examining these various social processes, it is shown how acculturation occurred and how a reconstructed Khmer identity emerged in the United States during the 1990s.

Khmer American is a well-documented study. It is based on an impressive amount of published and unpublished material which is referred to in the notes and references at the end of the book. As well, Smith-Hefner spoke with members of the Khmer community in the Boston region. She allows people to speak for themselves by quoting at some length from these interviews. Many of the excerpts are moving and filled with human interest. The author’s knowledge of the Khmer language adds greatly to her work. There are frequent references to the Khmer language and how certain key words can best be translated into English. The book shows an understanding of both traditional Khmer culture and contemporary American society. As a result the study contributes substantially to an overall interpretation of the immigrant experience in twentieth century America.

Both because of the subject and the academic level, it is unlikely that Khmer American will be widely read by Canadian high school students. However, they would find parts of it interesting and understandable. The book refers to inter-generation conflict between parents and their children over such matters as respect for elders, religion, dating and arranged marriages — subjects on which Canadian teenagers no doubt would express strong opinions.

Certainly history and social studies teachers could usefully apply the book to their classes. It provides an excellent description of Buddhism and Khmer culture. It contains a case study of a relatively unassimilated ethnic group within a multicultural society. This could be compared with earlier immigrant groups or with those of different cultural backgrounds. Another approach would be to compare the American experience with the Canadian. How many Cambodians came to Canada in the 1970s and 1980s, and how has Khmer culture fared in Canada? Do the two experiences prove or disprove the theory of an American ‘melting pot’ and a Canadian ‘mosaic’? In conclusion, I strongly recommend Khmer American. It is a serious academic study of an important and interesting subject.

George Hoffman – Weyburn, Saskatchewan.

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The Tramp Room – PATTERSON (CSS)

PATTERSON, Nancy-Lou. The Tramp Room. Waterloo, ON: Wilfred Laurier University Press, 1999. 149p. Resenha de: INNIS, Ken Mac. Canadian Social Studies, v.35, n.1, 2000.

Patterson’s fictional historical novel, The Tramp Room, deals with the daily life of Mennonites in the Kitchener area of Ontario, circa 1850. The strength of the book lies in her informative descriptions of daily life of the times, such as making sausages and linen. Another strength, and a real example for our society today, is how Patterson explains that everything was effectively utilized. The section entitled the “Spinning Room” is a good example of how every scrap of material was used for either patching clothes or in making quilts. The author certainly knows her history and is able to recreate an effective feel for life at the time. I was particularly taken with her ability to show how much time it took to produce everything from cloth to candles. The novel provides an excellent view into the daily life of pioneer women.
The Tramp Room would be most valuable to elementary students and teachers from grades 3 to 6. I would use it by reading selected chapters to reinforce a social studies concept about the past. It could also be useful as a resource to direct students to during project work. I would not, however, read the whole book to the class as I found it difficult to get in to the story. As well, the premise of the girl falling asleep and waking up in Joseph Schneider Haus in the 19th Century is one that is overdone and does not work well in this novel. The best parts of the story are those in which Patterson describes the daily and seasonal routines of life on the farm.
I found it refreshing to read a novel that emphasized kindness (the Mennonites’ willingness to take in the tramp boy) and the harmony of working together as a family with the environment. The Tramp Room would be a good addition to any elementary school library.

Ken Mac Innis – Sir Charles Tupper School. Halifax, Nova Scotia.

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Nova Scotia: Shaped by the Sea – CHYCE (CSS)

CHYCE, Lesley. Nova Scotia: Shaped by the Sea. Toronto: Viking, 1996. 352p. Resenha de: WILLIE, Richard A. Canadian Social Studies, v.35, n.1, 2000.

Lesley Choyce obviously cares deeply for his adopted province and has written a book reflective of his own maritime sentiments and interests. His book is not a definitive or comprehensive study of Nova Scotia, but is, instead, a series of short and interesting episodes, roughly arranged in chronological order, encompassing selections all the way from the ancient geological legacy of continental drift to the deeply troubled Atlantic fishery of today. The result is a breezy, highly readable, and sometimes chatty romp through Nova Scotia’s past encompassing wide-ranging accounts of a mixed bag of fascinating characters and the diverse and sometimes tragic circumstances which surrounded them.
From the outset, Choyce makes it quite clear that he has no intention of writing objective history, nor of joining the ranks of traditional professional historians in the province. In fact, he seems quite happy to leave to others the painstaking tasks of original research and creative syntheses and to eschew the recognized themes of politics, economics, warfare and diplomacy which usually supply the content for the story of Nova Scotia. Despite the author’s disclaimer, readers who press on are certainly rewarded.
Roughly half of the book is devoted to the shaping of Nova Scotia prior to its golden age of sail in the 19th Century. Each episode is meant to be a good read (and they are): the Micmacs; the earliest explorers; the French and English colonial empires and their conflicts; the Acadian deportation and return; the defeat of Louisbourg and the founding of Halifax; immigrants and Loyalists; and finally, the influence of the American Revolution and the War of 1812 are all there. Many examples of lesser knowns such as John Cabot’s son Sebastian, who is given the lion’s share of credit for publicizing his father’s discoveries, are also included. Choyce also does not overlook opportunities to report on myths that have been shattered; mentioning, for instance, that the widely accepted Viking visits to Nova Scotia actually have a dubious authenticity. In reporting myths, however, he is perhaps too uncritical in his support of the views expressed by a Micmac historian, Dan Paul, when he repeats the not unchallenged view that the story of “the arrival of white settlers is a tragic tale of the degradation of a near-utopian society ” (18). While few historians today would dispute that European contact led to enormously negative or ‘tragic’ consequences for native populations, the second part of this often repeated myth, the idea that prior to European contact native populations lived in perfect harmony with nature, is an interpretation which has frequently been used to supply a convenient corrective to our modern collective guilt over our stewardship of natural resources.
The second part of the book is devoted to the period leading up to Confederation and its subsequent history as a province of Canada. One would normally expect in a history of Nova Scotia that the themes which have tied the province to the Canadian experience, including responsible government, railways, national policy, patronage and political party developments, federal-provincial relations, regional disparity and sectionalism would receive greater attention, but aside from some focus on Confederation, the Maritime Rights Movement and federal policy bungling, there is very little of this. Stories about brothels and reformers, of shipping disasters and triumphs, of inventors and famous sojourners (apparently revolutionary Leon Trotsky was once a prisoner at the Citadel in Halifax), of catastrophes and contraband rum, and of the explosive impact of two world wars on Halifax fill these pages, yet they seem to serve mainly as a backdrop for the author to get to the closing chapters of the book. The closing chapters are, refreshingly, the best in the book, and in them Choyce reveals what he believes has been and remains wrong with his Nova Scotia: the still deeply rooted racial prejudice that includes the shame of Africville; the environmental degradation of polluting harbors with untreated sewage; the devastated fishery; and, the continuing economic and social despair associated with Cape Breton coal mining.
Though Nova Scotia is written with an eye to that which is most interesting in Nova Scotia’s past, there are also many important things which are not examined by Choyce, a fact made even more apparent by notable omissions from his select bibliography. Nevertheless, the book certainly could be used by secondary-level students and teachers seeking an accessible source on Nova Scotia’s past, but for those seeking greater content, coverage, and interpretive depth, it would provide only a starting point for further study.

Richard A Willie – Concordia University College of Alberta. Edmonton, Alberta.

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Uncertain Refuge: Italy and the Jews During the Holocaust – CARACCIOLO (CSS)

CARACCIOLO, Nicola. Uncertain Refuge: Italy and the Jews During the Holocaust. Urbana and Chicago: University of Illinois Press, 1995. 176p. Resenha de: TOTTEN, Samuel. Canadian Social Studies, v.35, n.1, 2000.

Uncertain Refuge is a fascinating book. Comprised of a series of interviews conducted by Italian journalist Nicola Caracciolo of more than sixty Italian Jewish survivors and some of their rescuers, this book explores the complex and unique way the state of Italy and the Italian people reacted to Nazi pressure to ostracize, isolate, and expel Jews to Nazi-dominated territories. The interviewees talk about how Jews were harassed, denounced, terrorized and, in some cases, saved. The cumulative effect of the interviews provide a telling picture as to why and how in Italy, an ally of Germany, 42,000 of the 50,000 Jews survived the Nazis’ efforts to murder them.
The annotation of the interviews constitutes a particular strength. Such annotations are helpful in assisting readers to gain a clearer and more in-depth understanding of certain personages, events, situations, and organizations. While the book also includes an appendix, “Historical Personnel, Organizations, and Places”, in which the annotations are located, an introduction to each interview establishing the historical context vis-à-vis the information contained therein would have been helpful.
In places Caracciolo has the unfortunate habit of interrupting the interviewees in mid-sentence. Over and above that, he often neglects to bring the interviewee back to the point of interruption, thus losing key information. At times, he also tends to ask two questions at once, and then neglects to answer both. In some instances, he also neglects to ask follow-up questions, thus leaving the reader wondering about certain issues.
All-in-all, though, this is an informative and interesting book on a significant topic. For those teachers who are intent on ‘complicating’ the study of history for their students, this book is a must. It will avail students of the important point that not all countries or people reacted in the same way to the Holocaust; and that, in fact, various circumstances, perspectives and belief systems dictated how governments and individuals acted under varying conditions.

Samuel Totten – University of Arkansas, Fayetteville.

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Teacher Evaluation Policy: From Accountability to Professional Development – DUKE (CSS)

DUKE, Daniel L. Ed. Teacher Evaluation Policy: From Accountability to Professional Development. New York: State University of New York Press, 1995. 203p. Resenha de: DOWSETT, Eric. Canadian Social Studies, v.35, n.1, 2000.

Teacher evaluation policies stand at a cross-roads in North America. One road leads to a system created by legislators and special interest groups who push for competitive test score-driven, merit-pay and incentive-pay alternatives to a single salary scale. The other road leads to a system created collaboratively by educational stake-holders which follows a professional development orientation. Teacher Evaluation Policy is a scholarly work that is of value to members of teams working collaboratively to shape teacher appraisal systems. For those not involved in a collaborative effort, this text presents a clear argument for using collaborative action if the goal of improving instruction or successful school reform is ever to be realized.
The book is organized into nine chapters, with a useful index, which draw on the work of a number of authors through case studies and analysis from Britain and the United States. Duke’s introductory chapter creates the framework for the presentation of the case studies. He presents four central ideas for developing teacher evaluation systems over which policy makers have struggled in the past two decades: Accountability, Professional Development, Professionalism, and Pay for Performance.
Through the case studies, Duke demonstrates that past and future developments of teacher evaluation policies can be best understood in a political framework. Readers need to understand that change is the consequence of conflict and choice along with understanding why particular choices are made in order to make sense of policy formulations. Knowledge of the context is essential to comprehend choices which are made because teacher evaluation policies continue to evolve, even after adoption and implementation. Each of these case studies point to a generalized agreement “that teacher evaluation should: 1) serve professional development as well as accountability purposes; 2) differentiate between new and experienced teachers; 3) include training for teacher evaluators; 4) provide extended periods for professional development; 5) be shaped by local school systems; and 6) avoid direct links to pay for performance schemes” (174).
The book concludes with a cross-case analysis of the accounts which presents the conditions for creating new thinking about educational accountability and, with it, new changes in teacher evaluations. It is clear that the dual needs of accountability and improvement are not met through an individually focused accountability system. This new thinking represents an historic shift from a relatively exclusive focus on individual accountability to a combination of individual accountability and professional development. This shift is a result of people’s dissatisfaction with traditional teacher evaluation systems. Duke predicts that the evaluation of individual teachers, especially veteran teachers, will concentrate on professional development. The goal of accountability, on the other hand, will be addressed in ways other than the summative evaluation of individual teachers. Duke uses an analogy of a bomb disposal unit, where self-interest merges with collective interest, as an example of the type of challenge which fosters collective accountability. Successful schools of tomorrow will have a school culture that accepts collective accountability making everyone responsible for teacher development through a community of learners.
As a school administrator who has struggled with teacher evaluation and its role in school improvement, I appreciate the synthesis of research presented in this book. It validates a number of issues and concerns that have been experienced at the site-based level. The case studies afford the opportunity to gain a deeper understanding of other’s experiences and draw parallels to one’s own situation. For those who wish a less detailed yet effective approach to the main ideas, one could read Chapters 1, 2, 8 and 9 to obtain a sense of where teacher evaluation policies need to be directed and still have a good grasp of this evolving field of school improvement.

Eric Dowsett – Neelin High School. Brandon, Manitoba.

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Saúde e democracia: a luta do Cebes | Sonia Fleury

Lançada há pouco mais de um ano, durante as comemorações dos 21 anos de fundação do Cebes, esta coletânea reúne um conjunto de artigos que nos permitem uma aproximação da gradativa especialização que vem se processando no campo da saúde pública nestes últimos anos. Enfoca diferentes aspectos relativos à reforma sanitária, ao processo de implementação do Sistema Único de Saúde (SUS) e a temas como: gestão em saúde, determinantes epidemiológicos, recursos humanos, assistência hospitalar, saúde mental e produção farmacêutica e de imunobiológicos, entre outros.

Apesar da diversidade temática, a preocupação de articular as especificidades da saúde pública ao tema da democracia na sociedade brasileira se define como a questão central do livro, presente ao longo dos diferentes artigos. É evidente o claro objetivo de retomar o debate acerca do papel do Estado na esfera das políticas públicas de saúde, considerando as recentes transformações ocorridas neste campo, e este deve ser considerado o principal mérito da publicação, ou seja, sua intenção de articular os problemas recentes enfrentados pela saúde aos princípios que propiciaram movimentos transformadores nesta área. Leia Mais

Uma História do Brasil – SKIDMORE (HE)

SKIDMORE, Thomas. Uma História do Brasil. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1998. Resenha de: JOANILHO, André Luiz. Para inglês (e brasileiro) ver. História & Ensino, Londrina, v. 5, p. 165-168, out., 1999.

Inicialmente escrito para um público norte-americano, Uma História do Brasil, Paz e Terra, 1998, deve ser lido pelos brasileiros. Sem a necessidade de filiação com determinadas linhas de interpretação da nossa História, Skidmore pôde apresentar uma narrativa geral sobre a nossa formação e, mais ainda, traçar uma rota para compreendê-la.

A questão fundamental para o autor é perceber como foi possível constituir uma identidade nacional num país que apresenta características de formação tão disparatadas e aí está o seu grande mérito.

Se uma das nossas maiores preocupações em relação ao estrangeiro é passar uma imagem de civilidade, este livro, justamente, nos mostra como podemos ser percebidos e compreendidos por alguém de fora, que busca ir além dos estereótipos, explicando-os. Assim, podemos perceber a extensão do que somos, ou melhor, de como somos explicados a um público de cultura média e, no caso, norte-americano.

É evidente que, se procuramos análises complexas por parte do autor, não as teremos, e aí está outro dos grandes valores do livros. Sem a necessidade de linguagem rebuscada, Skidmore apresenta um quadro claro e bastante elucidativo da nossa formação. Isto é possível justamente por estar livre de filiações acadêmicas ou linhas interpretativas da nossa História. Percebese que o texto não rende homenagens a este ou àquele pensador nacional, pois a preocupação de Skidmore é a possibilidade de síntese para um público que desconhece querelas acadêmicas, o que dá fluidez ao texto, sem cair em simplificações.

Skidmore identifica bem a nossa situação racial ao centrála na figura do mulato. Este, expoente de uma sociedade multirracial que se constituiu durante o período colonial, teve ascensão social limitada, mas significativa, praticamente inviabilizando a separação legal entre as raças. O racismo da elite branca se revela mais “sutil” do que o da elite norteamericana. A idéia de “branquear” a população através da imigração européia é parte constitutiva da ideologia da sociedade multirracial.

O autor percebe em parte esta trajetória, mas acredito que faltou compreender um pouco melhor o espírito da “Casa Grande” na qual a aparência é fundamental-um grande fazendeiro nunca aceitou rótulos negativos sobre a sua conduta ou condição social, logo faz de tudo para se promover e aparentar.

Desse modo, o mito multirracial não é só fruto de cruzamentos, é também formas da elite aparentar cordialidade, bondade, preocupação com os pobres e também poder, pois os mulatos, muitos filhos bastardos de grandes proprietários, não podiam ser deixados à míngua, logo lhes eram arranjadas colocações junto à administração pública, uma maneira de estender o poder da Casa Grande em direção à esfera do espaço público.

Essa expressão da nossa elite e, porque não, da nossa sociedade, é difícil de ser notada por alguém que não vivencia tal experiência. A explicação de Skidmore é bem americana: “ocorreu que uma constante carência de mão-de-obra européia nos escalões mais altos da força de trabalho brasileira deixou abertas algumas oportunidades de trabalho para negros livres, que eram bem mais numerosos no Brasil colonial do que na América do Norte colonial” e corretamente acrescenta: “não se deve concluir daí que o Brasil estava livre de preconceito” (pág. 42).

Ora, essa certa ascensão do mestiço, para Skidmore, aliviou as tensões raciais até os nossos dias, o que não é de modo algum satisfatório. É necessário um sistema ideológico e de constituição do social que assegure, além das condições econômicas, a situação racial e, no nosso caso, a situação das classes. Não que exista engano na observação do autor, mas ela não é suficiente. Um sistema que apresenta como representação social a possibilidade das diferentes culturas se manifestarem, a ideologia da democracia racial, são elementos constitutivos das relações interaciais.

A parte esta questão, a narrativa de Skidmore, longe de ser inédita, privilegia junto com as questões de formação, a trajetória política do nosso país e é justamente aqui que o livro se mostra muito interessante. A necessidade de síntese leva o autor a nos fornecer quadros amplos e bastante compreensivos acerca dos acontecimentos de nossa História. A análise do período militar é particularmente profícua nesse sentido. Os mais críticos verão um quadro simplificado, mas tendo em vista os objetivos da obra, o que o autor nos apresenta é uma descrição sintética sem perder o gosto explicativo.

Enfim, é uma obra que deve ser lida, pois ao evitar filiações, pode nos apresentar um painel instrutivo e de fácil leitura da nossa História.

André Luiz Joanilho – Professor Adjunto da UEL e do Programa Associado de Pós-Graduação em História UEM/UEL.

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O Hitler da História – LUKACS (HE)

LUKACS, John. O Hitler da História. Trad. de Ruy Jungmann. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1998, 250p. Resenha de: FERRAZ, Francisco César Alves. Hitler, a História e a Historiografia. História & Ensino, Londrina, v. 5, p.169-170, out. 1999.

Adolf Hitler foi, sem dúvida, a personalidade mais importante da história do século XX. Por mais que possamos reagir com merecida indignação a qualquer esforço de legitimação ou reabilitação dos atos que, direta ou indiretamente, desencadeou, não podemos negar que, para o bem e para o mal, o século que está terminando não seria o mesmo sem ele e o que ele representou e ainda representa.

Mas o que significa a trajetória de um único homem no fluir da história? Pergunta interessante, sempre presente nas discussões sobre a biografia como uma modalidade do conhecimento histórico. Nos bancos escolares, aprendemos que homens sozinhos não fazem a história, mas grupos sociais (sejam estes classes, estamentos, grupos políticos, religiosos, étnicos, etc). Mas será que o caso de Hitler se encaixa neste princípio geral? Afinal, qual o lugar de Hitler na história da Alemanha, da Europa e do século XX?

Essas e outras questões importantíssimas para o entendimento da história mais recente da civilização ocidental são a base para O Hitler da História, livro de John Lukacs, historiador húngaro radicado nos Estados Unidos. Nele, o autor analisa a imensa variedade de biografias e estudos sobre Adolf Hitler, uma massa historiográfica que soma mais de uma centena de títulos, se ficarmos apenas nas obras consideradas “mais sérias” ou de maior repercussão.

Lukacs inicia seu rigoroso balanço das biografias e interpretações sobre Hitler com um pressuposto básico: embora moralmente compreensível, a demonização de Hitler não contribui em nada para entender seu papel na história. Mais do que simplesmente condenar Hitler pelos males da guerra e do nazismo, é preciso compreendê-lo historicamente, cotejar as fontes documentais, entender os influxos do passado e do presente nas interpretações sobre o líder nazista.

Somos apresentados, assim, a um debate que envolveu historiadores que procuravam entender o fenômeno Hitler e, ao mesmo tempo, entender o lugar dos alemães naquele passado. Esse debate foi marcado ideologicamente pela Guerra Fria e seus maniqueísmos. Enquanto historiadores “de esquerda” procuravam definir Hitler e o nazismo ora como fenômenos da extrema-direita alemã e européia, ora como decorrências históricas do imperialismo capitalista, outros, auto-denominados “conservadores”, procuravam explicar o Terceiro Reich como uma anomalia, um desvio da história alemã, ou mesmo como uma resposta histórica a um mal maior, que seria representado pelo então totalitarismo comunista. Na esteira dessas variadas interpretações, documentos de toda espécie eram invocados para corroborar tais afirmações, enquanto outros seriam desprezados por negá-las ou colocá-Ias em dúvida.

Dessa maneira, o leitor é sempre lembrado de que não basta ser uma interpretação tradicional ou mesmo inovadora, se ela não estiver respaldada em metodologias e aparatos documentais coerentes e abrangentes. Neste ponto, Lukacs é particularmente ácido nas críticas a obras que, nos meios acadêmicos brasileiros, são bastante prestigiadas, como Origens do Totalitarismo, de Hannah Arendt (que critica pelo uso arbitrário e assistemático de fontes, “cheio de falhas e desonesto”) e Ascensão e Queda do Terceiro Reich, de William Shirer (“superficial e germanófobo”).

Após esse breve balanço, Lukacs elegeu alguns problemas históricos e historiográficos da vida de Hitler e qual a relação desses com a história da Alemanha e do mundo na primeira metade do século XX. Alguns desses problemas são tão fundamentais como polêmicos, para o entendimento do lugar de Hitler na história.

a) As idéias e crenças de Hitler a respeito da política, dos judeus e do papel da Alemanha no mundo consolidaram-se em Munique, após a primeira Guerra Mundial.

Para Lukacs, se existem indícios suficientes para apontar

o período vienense como a base para o seu germanismo e antisemitismo, a consolidação dessas idéias e a luta para transformálas em realidade, porém, só puderam acontecer após a derrota alemã e o fracasso da revolução comunista na Baviera em 1919. Em Munique, Hitler descobriu ser um orador de talento, e que suas idéias encontravam ressonância: o repertório de ódios explícitos aos judeus, aos comunistas, aos “traidores da Alemanha”, aos inimigos de Versalhes (p.50-61) encontrou terreno fértil na Baviera e, depois, no resto do país.

  1. b) Hitler foi, a seu modo, mais revolucionário do que reacionário.

Depois de discorrer sobre os problemas da definição do que é ser revolucionário e/ou reacionário, Lukacs afirma algo que apenas alguns inimigos contemporâneos a Hitler (como Winston Churchill) intuíram: Hitler era perigoso por ser revolucionário, e não por ser reacionário. Muitas das idéias de Hitler eram modernas. Em que pese seus métodos, sob sua liderança, a Alemanha transformou-se numa potência econômica e tecnológica mais respeitável do que era antes da Primeira Guerra Mundial, com auto-estima e prosperidade recuperadas (p.78). E dentre os ingredientes da modemidade de Hitler, estava sua habilidade para conquistar tanto as classes conservadoras quanto as massas em um mesmo discurso de transformação e mudança. Nas palavras de Lukacs,

o que isso significa para o passado recente o historiador pode -e tem o dever de reconhecer: que Hitler foi um novo tipo de revolucionário, um revolucionário populista em uma era democrática, não obstante os elementos mais antigos das instituições e da sociedade alemã ainda existentes em sua época, muitas das quais ele sabia usar para seus próprios fins (p.88).

  1. c) Ele era mais nacionalista que racista.

Embora a questão racial fosse fundamental para toda sua ideologia, sua racionalidade política buscava, quando lhe convinha, apoio em japoneses, chineses, árabes, croatas, romenos, etc, desde que isso significasse auxflio no combate aos inimigos dos “arianos” (p.94). Além disso, a despeito de não se encontrar claramente uma definição diferencial de Hitler se a “Raça Ariana”ou a “Nação Alemã” é que iria governar seu mundo, existem indícios suficientes de que seu pensamento e ação elegiam a Nação Alemã, concebida sob prisma mais cultural que biológico. A Nação seria a realização histórico-cultural do Volk (Povo), liderada não por um Estado tradicional de funcionários públicos, mas por um Volkgenossenstaat, um “Estado de camaradagem do Povo”. Assim, segundo Lukacs, diferenças entre arianos e negros, amarelos, etc não chamavam tanto a atenção de Hitler quanto àquela que dizia respeito à “luta dentro da raça branca, entre arianos e judeus”. Os judeus seriam sua obsessão, por viverem entre os “legítimos membros da nação alemã”. E nesse ponto, seu ódio obsessivo aos que considerava “inimigos da nação” era insuperável (p.98).

  1. d) De certa maneira, Hitler foi um estadista e estrategista competente

Assim como o êxito do líder alemão deveu-se, em grande parte, à sua subestimação pelos seus inimigos e aliados de ocasião, muitos historiadores desprezam-no a priori como estadista e estrategista. Lukacs, no capítulo mais longo do livro, recoloca em discussão o problema. Para ele, Hitler demonstrou, principalmente no período que antecedeu a guerra, atitudes de estadista que eram esperadas de líderes de potências européias daquele tempo. Embora condenáveis moralmente, sua política possuia uma celia racionalidade na adequação dos meios (muitas vezes ultrajantes) para os fins que se propunha. Na Alemanha de Hitler, a política interna e externa se apoiavam mutuamente.

Do ponto de vista estratégico, suas decisões, se examinadas friamente, tiveram sucessos retumbantes embora, a longo prazo, terminassem em fracassos flagrorosos. Apesar da oposição de alguns generais do Exército, a prioridade às forças terrestres de rápida mobilidade não apenas garantiu as vitórias iniciais alemãs como contribuiu para drásticas mudanças nas doutrinas de guerra de então. Mesmo aquele que é apontado como como seu maior equ ívoco estratégico -a criação da Segunda Frente, ao invadir a União Soviética -pode ser entendido a partir da suposição de Hitler de que as principais potências capitalistas (Inglaterra e Estados Unidos) hesitariam em combater mortalmente a nação que pudesse subjugar a ameaça bolchevique. Lukacs chama a atenção para documentos que mostram que, até as vésperas do fim, Hitler acreditava que a aliança “improvável” entre o Ocidente capitalista e a potência comunista poderia ser rompida (p.115 e segs.). E conclui com uma ressalva: se por um lado sentiu-se “obrigado a enfatizar que ele [Hitler] possuía talentos políticos e militares”, por outros, esses “coexistiam com obsessões não raro fanáticas”. Além disso, embora Hitler não tenha sido o autor de todas as decisões e ações do Terceiro Reicl1, ele sabia que suas principais diretrizes eram cumpridas fielmente. E por isso é que “ele foi sem dúvida responsável pelas maldades mais brutais cometidas por seus esbirros (p.126)”.

  1. e) Não há como dissociar Hitler da “Solução Final” dos Judeus.

Embora tenha havido tentativas, como a de David Irving, de eximir Hitler de qualquer responsabilidade de planejar e ordenar a execução em massa dos judeus (afirmando que quem planejara e ordenara tudo foram os auxiliares de Hitler, sem seu conhecimento e autorização), o que a vasta documentação e as interpretações mostram é que ele ordenou -ou pelo menos consentiu com -o extermínio em massa dos judeus, o que ficou conhecido como a “Solução Final”. Se não foi encontrada sua “assinatura” em documentos dessas espécie, isso só prova uma coisa: havia um mínimo de consciência de que o que se estava cometendo era uma atrocidade sem pararelos, e isso obviamente não podia ser documentado, ainda mais na iminência de uma invasão aliada (p.135). O que merece ser ainda melhor pesquisado é o quanto a população germânica realmente sabia sobre os campos de concentração e sobre a “Solução Final” e como quem sabia de algo lidava com isso.

  1. f) Hitler foi parte da história alemã, e não um “desvio” acidental e indesejável.

Segundo Lukacs, há entre os alemães uma tendência em ver Hitler como um episódio antinatural na história do país. No entanto, o Terceiro Reich representou muito mais uma continuidade do que uma aberração na história alemã. Isso não quer dizer que Hitler e o nazismo seriam inevitáveis. Mas a ascensão de Hitler e as crenças e atitudes do povo alemão da primeira metade do século estavam intimamente interligadas:

o nacionalismo e a unidade nacional alemã constituíram também forças poderosas durante a I Guerra Mundial. Hábitos nacionais profundamente enraizados de obediência e disciplina persistiram e culminaram na /I Guerra Mundial. A estrutura psíquica (e social) dos sucessos do povo alemão na /I Guera Mundial, porém, mudou, e isto foi tanto condição quanto resultado da ação de Hitler. Sem Hitler, os alemães não poderiam ter conseguido o que conseguiram, e Hitler tampouco poderia ter realizado oque realizou sem opovo alemão ou mais exatamente, sem a aceitação esmagadora de sua pessoa pela maioria (p. 142).

É preciso separar o movimento historiográfico de “reabilitação” de Hitler e dos alemães sob o Terceiro Reich das tentativas conhecidas como “revisionistas”. Esses últimos sequer podem ser considerados como dignos de figurar no debate historiográfico, pois além da pobreza e má fé documental de seus escritos, são sectários escrevendo para um número limitado de leitores, que já estavam convencidos de antemão ou prontos para sê-lo (p.156). De outra natureza são especialistas, alguns com assento nas universidades e institutos de pesquisa e que, inadvertidamente ou não, tentam minimizar os apectos sombrios do Reich e de Hitler, bem como distribuir responsabilidades para outros agentes históricos, como no caso do desencadear da 11 Guerra Mundial, atribuída aos “objetivos bélicos e inflexível má vontade de seus inimigos”. No entanto, Lukacs não aprofunda os porquês de tal posicionamento. Talvez, o que se deve perguntar é como o clima da Guerra Fria e de anti-comunismo contribuiu para justificar e promover aberrações interpretativas como essas…

Trata-se, portanto, de um balanço histórico e historiográfico de grande importáncia, para todos aqueles que se interessam por conhecer melhor Hitler e o nazismo, bem como o debate historiográfico a respeito. É uma obra admirável, de estilo agradável e que aprofunda pontos bastante polêmicos de nossa história mais recente. Para não ficar apenas nos elogios, acredito que pelo menos dois problemas devem ser comentados, embora não comprometam a grandeza do conjunto.

Um deles é seu sistemático desprezo às abordagens marxistas sobre seu tema. Embora tenha alguma razão ao apontar a pouca variação dos argumentos marxistas, ele não desenvolve nehuma discussão aprofundada sobre quais seriam os equívocos dessa corrente, preferindo refugiar-se no chavão de que o marxismo padece de determinismo econômico, como se não existissem abordagens bem distantes desses lugarescomuns.

O outro problema é que, depois de passar o livro todo chamando a atenção para a necessidade de abordagens sem demonizações de qualquer espécie, discorre ao final sobre as “características malignas espirituais” de Hitler, e propõe “a necessidade de uma interpretação cristã de Adolf Hitler (p. 180 e

  1. 240, n. 49 e segs.)”. Particularmente, prefiro sua proposta inicial, de que por mais que provoque nossa indignação moral, é preciso compreendê-lo historicamente, e não como o Anticristo ou a emanação do Mal em seu estado mais absoluto.

Mostrar a crueldade, a monstruosidade e tudo o que é mais abjeto, obscuro e inumano no nazismo é imprescindível, mas nunca será o suficiente. Por mais de 50 anos partilhamos a condenação moral do que acreditamos ser a origem da maior tragédia do século. No entanto, seu espectro resiste, se fortalece e se diversifica (como os grupos neonazis, skinheads, nacionalistas de extrema-direita e os defensores de “limpezas étnicas”, por exemplo), num mundo sem utopias libertadoras e regido pelo pensamento único do mercado. Até agora nos satisfizemos em condenar o nazismo. O desafio, para o presente e o futuro, é compreendê-lo. Mais do que um avanço historiográfico, é um ato de militância pela dignidade da política. E este livro proporciona considerável contribuição para isso.

Francisco César Alves Ferraz – Professor-Assistente do Departamento de História da Universidade Estadual de Londrina-PR.

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As barbas do imperador: dom Pedro II, um monarca nos trópicos | Lília Moritz Schwarcz

O novo livro de Lilia Moritz Schwarcz, intitulado As barbas do imperador: dom Pedro II, um monarca nos trópicos, busca fazer uma reconstrução da figura e do papel simbólico ocupado pelo imperador Pedro II durante esse momento fulcral da história brasileira que foi o século XIX.

Entre a herança colonial e o país moderno, o tempo do império foi aquele em que as contradições da passagem do estatuto de colônia ao de país soberano solidificaram-se em instituições que até hoje marcam a vida brasileira: o favor, o beletrismo, as dúbias fronteiras entre as esferas do público e do privado são algumas das heranças que nos legou o império. Leia Mais

Os Carrascos Voluntários de Hitler. O povo alemão e o Holocausto – GOLDHAGEN (RBH)

GOLDHAGEN, Daniel Jonah. Os Carrascos Voluntários de Hitler. O povo alemão e o Holocausto. São Paulo: Companhia das Letras, 1997. Resenha de: BERTONHA, João Fábio. Revista Brasileira de História, São Paulo, v.19 n.37 sept. 1999.

Em 1996, o livro de um jovem professor de Harvard provocou um verdadeiro terremoto no meio universitário europeu e americano, além de uma verdadeira crise de consciência na Alemanha, onde o texto foi lido, relido e provocou imenso debate. Sua tese central: os alemães, como povo, foram ativos e voluntários carrascos dos judeus durante o Holocausto nazista.

Goldhagen refuta categoricamente a idéia de que os carrascos nazistas assassinaram os judeus por coerção, por uma disciplina tipicamente alemã que os levava a cumprir mesmo as ordens que consideravam indignas, por pressão psicológica, ou ainda, numa recusa clara das teses de Hannah Arendt1, por serem burocratas cumprindo suas obrigações, sem se importar com mais nada. Para ele, os alemães massacraram os judeus porque acreditavam realmente que assassinar o povo hebreu era algo necessário e correto, e a base para essa crença seria o anti-semitismo, desenvolvido em séculos de história alemã.

Trabalhando em torno dessa tese, o autor vai procurar demonstrar as origens do anti-semitismo em torno do cristianismo e a sua lenta evolução de um padrão “religioso” onde havia aversão e discriminação (mas onde não se pregava o extermínio e se abriam as portas, ao menos teóricas, da conversão) para um outro “nacional” e cada vez mais “racial”, onde o problema judeu só poderia ser realmente resolvido com a sua eliminação do corpo nacional e racial alemão.

Para ele, o modelo anti-semita alemão, com ênfase na periculosidade e na necessidade de eliminar os judeus, já estava plenamente desenvolvido na Alemanha do século XIX e início do XX. O regime nazista não teria criado, assim, o ódio aos judeus, mas se aproveitado de um sentimento antigo e disseminado pela sociedade alemã como um todo. Tanto seria assim que as leis anti-semitas e o próprio Holocausto teriam sido integralmente apoiados pela sociedade alemã, mesmo entre os grupos (católicos, conservadores etc.) que, por outros motivos, opunham-se ao menos parcialmente, ao Reich.

Hitler e o nazismo sempre teriam tido, sempre segundo Goldhagen, a intenção de efetivar o genocídio. Apenas as condições objetivas teriam retardado o processo até o momento adequado, quando então o massacre dos judeus se tornou a prioridade número um do regime.

O texto procura ressaltar à exaustão que os alemães foram cruéis até o último segundo. Que não eram burocratas executando ordens. Odiavam. Que não foram enganados. Tinham consciência e apreciavam o que faziam. Que não foram coagidos. Eram voluntários. E que, especialmente, os carrascos não eram simplesmente os SS, mas militares, policiais, alemães comuns, os “carrascos voluntários” de Hitler.

A abordagem de Goldhagen é muito interessante em vários aspectos. Em primeiro lugar, a idéia de interromper o estudo da máquina de morte alemã na voz passiva, como se ela fosse apenas uma estrutura mecânica, sem homens de carne e osso que a faziam funcionar e estudar as motivações desses homens é muito importante ao recuperar o seu papel (e a sua culpa) num processo em que eles não eram, sem dúvida, cem por cento passivos.

O livro também cresce ao ressaltar o papel das idéias e das mentalidades no fazer-se histórico. De fato, é uma realidade que o extermínio dos judeus foi realizado contra toda a lógica das necessidades militares e econômicas, e é possível até imaginar que o uso racional da mão de obra judia na economia e nas forças armadas poderia ter levado a Alemanha à vitória na guerra. Em nome da necessidade de eliminar o grande inimigo (cem por cento imaginário, sem dúvida) da raça alemã e de atender o leitmotiv de sua ideologia e uma das bases de sua estrutura mental (o “perigo judeu”), os nazistas podem, paradoxalmente, ter destruído as suas próprias chances de vitória. Nesse sentido, os carrascos não eram, certamente, totalmente passivos e a grande maioria devia considerar que fazia o correto e o justo, por mais repugnante que isso possa parecer.

Pensando nesse sentido, a idéia assustadora levantada pelo autor de que os nazistas foram, talvez, os maiores revolucionários modernos, não deve ser descartada. Eles não pensavam, realmente, em apenas resolver questões de classe e poder, mas em reverter a moral européia, arrasar a herança do moralismo cristão e do humanismo iluminista e criar um novo mundo baseado na biologia, na raça, na dominação e no ódio.

Apesar de tudo, porém, várias das teses de Goldhagen podem ser questionadas. Que havia uma base cultural de séculos que facilitou e muito o trabalho dos nazistas e que eles não criaram e impuseram o anti-semitismo, é algo evidente, mas é grandemente duvidoso que esse anti-semitismo tenha sido tão generalizado e genocida como ele propõe.

De fato, suas provas de que o anti-semitismo era absoluto e incontestável na Alemanha; de que o povo alemão estava total e completamente consciente do que ocorria, que aprovava tudo sem hesitação2 e de que toda pessoa que compartilhasse algum traço de anti-semitismo (por mais sutil que fosse) era um genocida pronto a atuar quando as condições fossem propícias, são muito falhas e não refletem a realidade histórica.

Não sejamos ingênuos. É verdade que a idéia, correta para muitas pessoas, de que os judeus deviam morrer, colaborou para o Holocausto e que, muito provavelmente, as resistências teriam sido muito maiores se, para usar o exemplo do autor, tivesse sido o povo dinamarquês o escolhido para vítima. Esse anti-semitismo, porém, era comum à grande parte da Europa e o autor não consegue provar que o alemão era tão particularmente genocida como ele deseja demonstrar.

Diferenças nacionais frente ao anti-semitismo certamente existiram e determinaram reações diferentes frente ao desejo nazista de exterminar o judaísmo europeu (ver o colaboracionismo báltico ou romeno e a resistência italiana e dinamarquesa), mas não há nada que indique realmente que apenas o alemão, apesar de fortíssimo e com suas peculiariedades3, tinha o ethos cultural que levaria inevitavelmente ao genocídio.

A particularidade da Alemanha nazista, na realidade, é que um grupo particularmente radical e disposto a implantar seus ideais (e dentro destes a eliminação do “perigo judeu” atingia uma importância única), assumiu o poder (fazendo-o não apenas pelo seu anti-semitismo, ao contrário do que propõe o autor) e não só permitiu, como estimulou ao extremo a criação de uma máquina de morte que foi dirigida com especial ênfase e crueldade aos judeus, mas que podia ser transferida (e o foi) contra outros povos e até mesmo contra os próprios alemães, se isso fosse necessário para a manutenção do poder e a criação do “mundo novo” nazista4. Goldhagen apenas consegue isolar o elemento que explica o “tratamento especial” dado aos judeus5 e não aquele capaz de nos fazer compreender a “máquina da morte” nazista como um todo.

Nesse sentido, parece-nos que, apesar das objeções de Goldhagen, as informações e reflexões de Hannah Arendt e Cristopher Browning6 sobre como muitos dos mentores e agentes do extermínio não eram necessariamente anti-semitas extremados, mas principalmente fiéis funcionários da Alemanha e do Reich que cumpririam quaisquer funções – com maior ou menor entusiasmo – para os quais fossem designados, continuam válidas. Sendo assim, o extermínio dos dinamarqueses, por exemplo, teria suscitado muito menos entusiasmo e muito mais resistências do que o dos judeus, sem dúvida, mas, se fosse esse o interesse dos dirigentes do Reich, teria sido certamente realizado.

Também é bastante questionável a sua convicção (compreensível dentro do seu esforço para mostrar o massacre dos judeus como efeito natural do anti-semitismo alemão) de que o Holocausto figurava permanentemente nas mentes de todos os alemães desde sempre. Que muitos alemães, desde o século XIX, e, especialmente, muitos nazistas (incluindo Hitler), pensavam com freqüência na idéia de exterminar os judeus e esperaram o momento propício para isso, é perfeitamente aceitável. É difícil acreditar, porém, que essa idéia tenha estado sempre tão presente na mente de todos os alemães e mesmo na de todos os nazistas e que soluções outras não tenham sido cogitadas. Mais provável é que a evolução das condições históricas tenha feito a cúpula nazista decidir pela “solução final” e não que eles tenham simplesmente esperado essas condições para implementar um plano decidido desde sempre7.

A incapacidade (ou falta de vontade) do autor em fazer distinção entre, por exemplo, os iluministas alemães do XIX interessados em assimilar pacificamente os judeus e ferozes anti-semitas realmente genocidas como, por exemplo, Streicher, também é frustrante. Ao reunir, de fato, numa categoria única (determinada pela cultura alemã) todas as pessoas que tenham tido algum tipo de pensamento ou ação anti-semita, isolá-las de seus contextos e ignorar o anti-semitismo fora das fronteiras da Alemanha, ele acaba negligenciando o próprio papel e a própria culpa das elites nazistas e dos genocidas verdadeiros, pois, se levarmos o seu raciocínio ao extremo, o Holocausto não teria sido mais do que a expressão da essência da alma alemã. Voltamos à “voz passiva” de onde tínhamos tentado sair.

O livro também tem inconsistências metodológicas evidentes e é irritantemente repetitivo, como que desejando convencer o leitor pelo cansaço da validade de suas teses. Entre essas inconsistências, as mais gritantes são a generalização, as simplificações, a colocação de fatos fora do contexto e a ignorância de dados que poderiam contradizer a tese principal.

De fato, a partir de alguns exemplos de anti-semitismo dos carrascos (certamente verdadeiros), ele generaliza para todo o povo alemão, sem dar virtualmente nenhum indício consistente de que essa generalização era possível8 e recusando fontes que fornecem indícios em contrário9. No decorrer do próprio livro, além disso, são contínuos os momentos em que, para demonstrar o anti-semitismo generalizado e absoluto dos alemães, ele cita exemplos que acabam por contradizê-lo10. São problemas que afetam, sem dúvida, a credibilidade do trabalho11.

O livro, além disso, procura mostrar-se como totalmente inovador ao trabalhar as motivações dos carrascos e a resposta definitiva ao problema do Holocausto, o que na verdade não é12. Em grande parte, realmente, ele não passa de uma “reescritura” de velhos textos, o que nos impede de aceitar que ele seja o “supra-sumo” da historiografia que o autor considera. Ele é útil ao isolar, ainda que de forma problemática, um elemento (o anti-semitismo) que fez dos judeus a grande vítima da “máquina da morte” nazista, mas é incapaz de trabalhar com o conjunto que fez dessa máquina um perigo para todo o mundo, incluindo judeus, não judeus e até alemães.

Notas

1 ARENDT, Hannah. Eichmann in Jerusalém. Um retrato sobre a banalidade do mal. Rio de Janeiro, Diagrama e Texto, 1983.

2 Que não havia total ignorância, é evidente até pela própria magnitude do evento. Ver LAQUEUR, Walter. O Terrível Segredo – A verdade sobre a manipulação de informações na “solução final” de Hitler. Rio de Janeiro, Zahar, 1981.

3 Ver TUCCI CARNEIRO, Maria Luiza. O Anti-semitismo na era Vargas (1930-1945). São Paulo, Brasiliense, 1988, parte 1; POLIAKOV, León. A Europa Suicida. São Paulo, Perspectiva, 1985 e SORLIN, Pierre. O anti-semitismo alemão. São Paulo, Perspectiva, 1974.

4 O caso do extermínio dos doentes mentais alemães é, nesse sentido, exemplar. Goldhagen tem razão, porém, em recordar como o massacre dos alemães levantou muito mais protestos na Alemanha do que o dos judeus. Ver CYTRYCNOWICZ, Roney. Memória da Barbárie – A história do genocídio dos judeus na II Guerra Mundial. São Paulo, EDUSP/Nova Stella, 1990, pp. 47-56 e BURLEIGH, Michael. Euthanasia in Germany, 1900-1945. Cambridge, Cambridge University Press, 1995.

5 Ele demonstra com razoável eficiência (ainda que ignorando a brutal violência e crueldade nazista contra os eslavos e ciganos, por exemplo, e subestimando o fato, sobre o qual ele é plenamente consciente, de que a crueldade nos campos não era, muitas vezes, derivada apenas de motivações cognitivas, mas também de uma estratégia cuidadosamente pensada para instituir a dominação e a submissão) que realmente os judeus foram o povo escolhido não para o trabalho escravo e a morte e a violência ocasionais, mas para o extermínio e a crueldade totais. Ainda assim, e ainda que os séculos de anti-semitismo tenham influência clara nessa situação, esquecer o papel da “pirâmide racial nazista” na determinação dos níveis “aceitáveis” de violência e extermínio em relação a cada grupo é problemático.

6 ARENDT, Hannah. op. cit. e BROWNING, Cristopher R. Ordinary Men – Reserve Police Batallion 101 and the final solution in Poland. New York, Harper Collins, 1992.

7 Ver CYTRYNOWICZ, Roney. op. cit. e BURRIN, Philip. Hitler e os judeus – Gênese de um genocídio. Porto Alegre, L & PM, 1990.

8 Ainda assim, sua demonstração de que os agentes do Holocausto não eram apenas os membros da SS e que incluíram muitos alemães comuns é convincente e merece ser destacada como lembrança do nível de envolvimento do povo alemão com o nazismo. Só nesse sentido é que a “culpa geral do povo alemão” poderia, no nosso entender, ser aceita.

9 Ver o diário do judeu alemão Viktor Klemperer, onde há vários exemplos de alemães solidários com os judeus (subutilizado no livro) ou, para ficar em exemplos mais conhecidos da mídia, os casos de Edward Schultze e Oskar Schindler. Ver KLEMPERER, Viktor. I will bear witness – A Diary of the Nazi years, 1933-45. Random House, 1998; LAQUEUR, Walter e BREITMAN, Richard. O herói solitário. São Paulo, Best Seller, 1987 e o filme A lista de Schindler, de Steven Spielberg.

10 O mais gritante é o das páginas 371-372, onde ele mostra prisioneiras judias em plena “marcha da morte” sendo impedidas de receber alimentos ofertados pela população das pequenas aldeias alemãs por onde elas passavam. Um bom exemplo de como os guardas, muitos deles “alemães comuns”, não apreciavam (para dizer o mínimo) os judeus e desejavam puní-los, mas dificilmente um bom indício de que o anti-semitismo era tão absoluto como o que ele propõe.

11 Para uma análise detalhada dos problemas metodológicos do livro de Goldhagen, ver FINKELSTEIN, Norman e BIRN, Ruth. A Nation on trial. New York, Metropolitan, 1998.

12 Cristopher Browning e Raul Hilberg, por exemplo, já haviam trabalhado a questão das motivações dos carrascos, mas se concentrado nas circunstâncias que haviam feito bons pais de família alemães virarem genocidas, incluindo preocupações anti-semitas, mas não propondo um anti-semitismo absoluto como motivação única. Ver BROWNING, Cristopher. op. cit. e HILBERG, Raul. The Destruction of the European Jews. New York, New Viewsport, 1973.

João Fábio Bertonha – Universidade Estadual de Maringá.

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Sonhos africanos, vivências ladinas: escravos e forros em São Paulo (1850-1888) – WISSENBACH (RBH)

WISSENBACH, Maria Cristina Cortez. Sonhos africanos, vivências ladinas: escravos e forros em São Paulo (1850-1888). São Paulo, Hucitec/História Social, USP, 1998. Resenha de: MOURA, Denise. Revista Brasileira de História, São Paulo, v.19 n.37, sept. 1999.

Graças à iniciativa do Programa de Pós-Graduação em História Social, do Depto. de História da USP e a Ed. HUCITEC, Sonhos africanos, vivências ladinas, defendido como dissertação de mestrado em 1989, é mais um volume da série Teses que vem facilitando o acesso dos pesquisadores a estudos de relevo, que têm contribuído para entendermos um pouco mais sobre nosso passado e nossa própria atualidade.

A autora, Maria Cristina Cortez Wissenbach, vem se destacando com publicações em diversas revistas especializadas e mais recentemente com um dos capítulos do 3o volume da História da Vida Privada. Em 1997, apresentou sua tese de doutorado sobre práticas mágico-religiosas nas primeiras décadas do século XX paulista.

Em Sonhos africanos…, sua pena de historiadora coloca-nos diante das experiências de vida de pessoas comuns. Homens, mulheres, forros ou escravos, remediados ou muito pobres. Uma gente engenhosa o suficiente para se apropriar das asperezas da vida e das relações cotidianas e criar estratégias de sobrevivência. O quê nos liga a estes homens e mulheres das terras paulistas de 1850-1880?

Tributária de uma vertente teórica que nos anos 80 trouxe novos ares aos estudos de escravidão – E. P. Thompson, E. Genovese, Herbert G. Gutman -, a autora empreendeu um vigoroso trabalho de pesquisa em documentos do Tribunal de Justiça, trazendo à luz práticas, percepções e valores de uma gente de ontem disfarçada no discurso das camadas dominantes. É nos processos-crime – e na documetanção processual em geral – que ouvimos o sussuro de suas existências. Mesmo revelando um universo sutilmente recortado pelos interrogatórios, é nos processos jurídicos que estão estas vozes: sofridas, tímidas, medrosas, ladinas, chorosas.

São vozes que a renovação historiográfica dos anos 80 tornou mais perceptíveis e que têm desconcertado formas mais tradicionais de se ver nosso passado escravista. A começar pela maneira desfigurada do escravismo em São Paulo dos anos 1850-1880, pois núcleo urbano tímido que era, favoreceu uma situação na qual pessoas de diferentes condições sociais serviam-se das mãos e pés escravos, sob a forma de aluguel ou ganho, numa vivência tão estreita que tendia a confundir senhores de posses irrisórias com seus cativos.

A escravidão urbana tendeu a atenuar os rigores do regime, ampliando a margem de negociação dos escravos com seus senhores, dando-lhes maior liberdade para circular pelas ruas e improvisar variados expedientes que aumentavam seus ganhos, além de favorecerem o exercício de uma sociabilidade nas irmandades e em pontos específicos da cidade.

De página em página, o leitor vai assistindo a cenas intrigantes da vida de pessoas comuns: desentendimentos, confusões com guardas locais insistentes em alinhar condutas em padrões definidos, um ir e vir incessante, solitário ou em ajuntamentos, sempre procurando tornar a vida melhor de ser vivida.

Os níveis de criminalidade cativa – e a própria documentação que a autora utilizou – apontam para a violência destes tempos. Esta criminalidade, insana em muitas situações, coexistia no entanto com histórias bastantes corriqueiras, como a dos escravos de Joaquim Camargo do bairro de Santana, que podiam usar o carro do senhor para venderem lenha, produto de seus próprios negócios1. Quantos não se ocuparam de outros serviços nos intervalos das tarefas incumbidas por seus senhores. Afinal, eram possibilidades extras de ganhos. Produção agrícola ou criações independentes também fizeram parte desta política de consentimentos e acordos nos relacionamentos de escravos e senhores.

No capítulo “O sentido social do crime e da criminalidade escrava” vemos o quanto transgressões à lei e o recurso à violência pelos escravos foi parte de um movimento mais amplo, dotado de uma coerência criada por eles próprios e que aos poucos foi ruindo o regime de escravidão.

Foi recolhendo os fragmentos da fala de negros cativos ou forros e homens livres, pobres ou remediados, que a autora foi costurando o tecido social da São Paulo destes anos. Eram lavadeiras, quitandeiras, domésticas e trabalhadores de ofícios, andejos na sobrevivência e que diariamente incomodavam as autoridades locais e as famílias mais abastadas. Parecia intrigante aos olhos de senhoras brancas e senhores sisudos o vai-e-vem nervoso de uma gente de cor ora com trajos que quase a confundia com seus donos, ora com adereços que lembravam as tradições africanas.

Intolerável era o conversar ruidoso, em torno aos chafarizes, em meio às rodas de capoeira e partidas de jogos, misturando-os a homens livres pobres, também trabalhadores de diversos ofícios e expedientes, numa convivência tensa e necessária para a sobrevivência.

O capítulo “O escravo e o mundo caipira na comarca de São Paulo” é primoroso ao revelar o ritmo da escravidão num meio rural pobre, afrouxado pela pobreza dos senhores e pelas interrupções do trabalho inerentes à faina na roça.

É o potencial criativo que as pessoas carregam consigo que vamos acompanhando por meio da narrativa de Sonhos africanos…. Artistas da sobrevivência, escravos criavam a partir das condições que o “ser escravo” em São Paulo na segunda metade do XIX permitiam, ou seja, o regime abria esta possibilidade e os escravos souberam se apropriar disto com astúcia e sabedoria, donos que eram de uma erudição das ruas, aprendida nos imprevistos que enfrentavam, nas traições, nas brigas em torno do chafariz, nos sofrimentos de amor e nos laços de vizinhos e parentes que tão bem sabiam tecer.

O leitor se vê diante de uma sociabilidade tensa e solidária nas praças, largos, pontes, becos, festas e reuniões. Espaços onde solucionavam discórdias, lavavam a honra e tramavam ganhos e negócios. Sob o foco de estudo pioneiro e clássico da história social e das mulheres2, a autora vai desvelando flagrantes da pobreza feminina paulista, na vida de forras audaciosas o suficiente para afrontarem imposições de maridos e autoridades, firmando sua condição de mulheres que respondiam por boa parte – senão por todo – o sustento da casa.

O conjunto iconográfico do volume é tocante: uma galeria de fisionomias comuns e antigos locais de trânsito, trabalho e encontros que desafiaram o tempo graças à arte fotográfica do conhecido fotógrafo Militão Augusto de Azevedo (1835-1905).

O estudo de Wissenbach é também um desafio ao tempo, fazendo com que os sonhos e as vivências de homens e mulheres que viveram tão antes de nós não caiam na grande armadilha do esquecimento. Mas como estes sonhos de uma vida melhor de ser vivida e esta arte de improvisar e criar a sobrevivência parecem tanto com os dos dias de hoje.

Notas

1 WISSENBACH, Maria Cristina Cortez. Sonhos africanos, vivências ladinas: escravos e forros em São Paulo (1850-1888). São Paulo, Hucitec/História Social, USP, p. 135, 1998.

2 DIAS, Maria Odila Leite da Silva. Quotidiano e poder em São Paulo no século XIX. 2a. ed., São Paulo, Brasiliense, 1995.

Denise Moura – Doutoranda do Dep. de História da Universidade de São Paulo

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História Social da Criança Abandonada – MARCÍLIO (RBH)

MARCÍLIO, Maria Luiza. História Social da Criança Abandonada. São Paulo: Hucitec, 1998. Resenha de: VENÂNCIO, Renato Pinto. Revista Brasileira de História, São Paulo, v.19 n.37, sept. 1999.

Nos meios acadêmicos brasileiros, a Demografia Histórica é freqüentemente identificada aos excessos dos métodos quantitativos e à ausência de problemáticas definidas. Ao longo de sua prolífica vida acadêmica como professora, pesquisadora e, principalmente, como autora dos primeiros e principais trabalhos de Demografia Histórica do Brasil, Maria Luiza Marcílio só fez desmentir tais estereótipos. Nos anos 60, ao ingressar no doutorado na França, foi orientanda de Fernand Braudel e, posteriormente, de Louis Henry, o que lhe possibilitou transitar com facilidade entre a História Social e a Demografia Histórica. Da mesma forma que em trabalhos anteriores, como A Cidade de São Paulo ou Os caiçaras, seu livro História Social da Criança Abandonada é um exemplo de como a sensibilidade e até mesmo o envolvimento afetivo com um tema podem andar irmanados com seriedade e rigor metodológico. Marcílio sensibiliza-se com o destino trágico de milhares de crianças que desde a Antigüidade foram abandonadas por seus familiares; emociona-se, contudo, sem resvalar para uma história militante, tão propícia a anacronismos e perspectivas vitimizadoras.

O livro História Social da Criança Abandonada dividi-se em três partes, obedecendo assim a uma arquitetura cara à autora: o desenvolvimento da narrativa histórica do geral para o particular. Segundo Maria Luiza Marcílio, é possível detectar a permanência, durante vários séculos, de uma preocupação com a proteção da criança “sem-família”. No que diz respeito a tal proteção, é importante sublinhar que, na Antigüidade, a confluência do estoicismo com o cristianismo diferenciou Roma das demais sociedades. Durante a Alta Idade Média, a preocupação com o destino dos enjeitados foi institucionalizada: os mosteiros, procurando erradicar o infanticídio, aceitaram os oblatas, ou seja, enjeitados que deviam seguir a carreira sacerdotal. No século XII, a emergência da crença no Purgatório e de sua versão mirim, o Limbo, expandiu para o restante da comunidade cristão dever de proteger os meninos e as meninas desvalidos. Não por acaso, esse período também foi caracterizado pelo ressurgimento da vida urbana no Ocidente, fenômeno que por diversas razões foi acompanhado pelo aumento do nível de pobreza na sociedade. A preocupação em garantir o sacramento do batismo para todos os recém-nascidos – protegendo-os dessa forma do Limbo – somada ao temor frente ao risco do reaparecimento do infanticídio nas cidades, levaram à fundação de uma forma de assistência infantil que conheceu, entre os séculos XIII e XIX, um enorme sucesso: a Roda dos Expostos.

Tais Rodas, explica a autora, eram

de forma cilíndrica e com uma divisória no meio, esse dispositivo era fixado no muro ou na janela da instituição. No tabuleiro inferior da parte externa, o expositor colocava a criança que enjeitava, girava a Roda e puxava um cordão com uma sineta para avisar à vigilante – ou Rodeira – que um bebê acabara de ser abandonado, retirando-se furtivamente do local, sem ser reconhecido”.

Uma vez recolhida, a criança era entregue a uma ama-de-leite e depois a uma ama-seca que cuidava do menino ou menina até completarem sete anos de idade, quando então deveriam ser encaminhados para atividades produtivas.

No século XVIII, aponta Maria Luíza Marcílio, começou a ocorrer uma outra mutação que atingiu seu apogeu no século XIX e XX: a emergência da infância abandonada como uma questão social, alvo de políticas do Estado; mutação que em grande parte explica o progressivo declínio e fechamento das Rodas.

Na segunda parte do livro, a autora apresenta, para o caso específico do Brasil, os processos de formação e de adaptação do sistema de proteção europeu a uma sociedade colonial. Da mesma forma que em vários aspectos da realidade brasileira, a assistência nos trópicos caracterizou-se pela ausência de recursos financeiros regulares e pela longevidade de instituições consideradas arcaicas no mundo europeu. A precariedade da assistência colonial – apenas quatro Rodas foram fundadas até fins do século XVIII – levou os Senados das Câmaras a assumirem a dispendiosa tarefa de manter os enjeitados. Este apoio só declinou em meados do século XIX, época em que o sistema de Rodas conheceu notável expansão. Mesmo um século depois das Rodas portuguesas terem sido desativadas, os receptáculos brasileiros continuavam em pleno vapor, a maioria deles só encerrando suas atividades nos anos 1930-1950 (diga-se, de passagem, não devido ao desaparecimento do abandono de crianças recém-nascidas, mas sim em função das deliberações do Código de Menores de 1927, que determinou o fechamento das Rodas).

A terceira parte do livro apresenta os resultados dos últimos vinte anos de pesquisas de Demografia Histórica a respeito do abandono infantil. Em razão do enjeitamento de recém-nascidos ter sido registrado sistematicamente nas atas paroquiais de batismo, assim como nos livros das Câmaras e dos Hospitais, foi possível conhecer o perfil da criança abandonada e – nos casos daquelas acompanhadas de bilhetes – os motivos que levaram os pais a recorrerem à assistência hospitalar e camarária. O capítulo dedicado às “causas do abandono” é fascinante. Marcílio não se deixa levar, como acontece com muitos historiadores atuais, pelos estereótipos do passado, ou seja, pela caracterização dos pais e mães que enjeitavam os filhos como irresponsáveis e promíscuos; ao contrário disso, a autora sublinha o quanto a miséria era um fator importante na desagregação das unidades familiares.

Da mesma forma que nas seções anteriores, a última parte estende a análise até o presente, superando assim as prisões da “curta duração”, traço bastante comum aos estudos do tema em questão, elaborados por sociólogos, antropólogos e assistentes sociais. Ao integrar sua análise na “longa duração”, Marcílio, a meu ver, contribui até para que seja repensada a atual política assistencial frente à criança e ao adolescente carentes.

Dito em termos mais explícitos: após mil e quinhentos anos de assistência infantil, é possível observar duas realidades distintas; a primeira diz respeito aos países europeus, nos quais o abandono de crianças foi praticamente erradicado; a segunda à realidade da América Latina, onde o abandono conheceu um processo de expansão do período colonial à atualidade. Pelo que se pode perceber por meio da leitura do História Social da Criança Abandonada, erram os que pensam que a primeira situação é um reflexo automático do processo de desenvolvimento econômico. Na realidade, a melhoria da condição infantil foi resultado de muitas lutas populares e de uma compreensão das formas específicas da organização familiar das camadas populares.

Em uma passagem magistral (pp. 80-81), Marcílio aprofunda essa questão mostrando que o número de crianças abandonadas na Europa do século XIX atingiu proporções ainda mais assustadoras do que as brasileiras. Frente a tal situação, vários países europeus reavaliaram o sistema assistencial herdado do Antigo Regime e progressivamente, a começar pela França, adotaram a política de “subsídios às mães pobres (…) para impedir que estas abandonassem seus filhos”.

Eis um importante ensinamento que serve como tema de reflexão a propósito das atitudes das elites brasileiras frente ao abandono de crianças: o que elas encaram como uma novidade esquerdista no Brasil de nossos dias, era uma realidade institucional na Europa dos anos 1830!

Por fim, cabe sublinhar que a História Social da Criança Abandonada apresenta uma magnífica bibliografia, remando contra a maré do provincianismo monoglota de alguns estudos de Demografia Histórica elaborados mais recentemente. Cabe apenas lamentar que a editora Hucitec não tenha tido o cuidado de incluir na presente edição índices onomásticos e temáticos, que muito facilitariam a consulta dessa obra de referência obrigatória.

Renato Pinto Venâncio – Universidade Federal de Ouro Preto.

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Pontos e bordados: escritos de história e política | José Murilo de Carvalho

Em animada polêmica que movimentou o meio acadêmico em 1997, o historiador Boris Fausto admirava-se de que sua colega, Maria Sylvia de Carvalho Franco, autora do (arrisquemo-nos, vá lá) clássico Homens livres na sociedade escravocrata, tenha se aborrecido tanto com a inclusão de seu livro entre aqueles que Fausto achava merecerem ser chamados, justamente, de clássicos. Espantado com a reação da colega, Fausto escreveu: “Se perguntarmos a vinte especialistas na área de ciências humanas o que é um clássico, estou seguro de que a resposta será mais ou menos a seguinte: um livro muito relevante, marco de referência obrigatória para os trabalhos subseqüentes e que já realizou um percurso no tempo maior ou menor, conforme o caso, permitindo que a condição de clássico se afirmasse.” E acrescentava alguns exemplos de livros clássicos: Formação do Brasil contemporâneo, de Caio Prado Jr., Raízes do Brasil, de Sérgio Buarque de Holanda, Casa-grande e senzala, de Gilberto Freyre. A lista encerrava-se com a dupla A construção da ordem e Teatro de sombras, de José Murilo de Carvalho.

Os que acompanham a trajetória de José Murilo de Carvalho já conhecem a maior parte dos artigos que estão reunidos em Pontos e bordados. Muito justamente, boa parte deles pode fazer companhia aos dois livros citados por Boris Fausto: são obras de leitura e referência obrigatória nos temas de que tratam. Leia Mais

Doença/ sofrimento/ perturbação: perspectivas etnográficas | Luiz Fernando Duarte

A coletânea organizada por Duarte e Leal volta-se para o tratamento dos temas ‘saúde’ e ‘doença’ na perspectiva antropológica e é uma das iniciativas que se integram aos esforços de sistematização e aos investimentos científicos em pesquisa e trabalhos desenvolvidos nessa área. É composta por 12 textos de diversos autores, divididos em ‘Corpo e reprodução’, ‘Instituições e trajetórias’, ‘Os limites da pessoa’ e ‘Sexualidade e gênero’, que fornecem uma indicação clara da diversidade das situações etnográficas em análise. Não se poderia deixar de reconhecer a importância da participação dos organizadores na produção de trabalhos em torno da temática ‘pessoa, corpo e doença’. Leia Mais

Crime e loucura: o aparecimento do manicômio judiciário na passagem do século | Sérgio Carrara

O trabalho de pesquisa desenvolvido por Sérgio Carrara, sob a orientação do prof. Peter Fry, é resultado de dissertação de mestrado defendida no Programa de Pós-Graduação em Antropologia Social do Museu Nacional/UFRJ. O livro vem suprir a falta de estudos e análises sobre questões bastante complexas e inerentes ao universo da loucura e do crime.

Por opção do autor, o livro segue não só a forma e divisão originais dados à dissertação como também seu texto é o mesmo, pois atualizá-lo seria o mesmo que reescrevê-lo, o que poderia alterar profundamente sua estrutura, além de a obra estar inserida num determinado contexto de meados da década de 1980. Assim, a edição vem enriquecida de um valioso posfácio, onde Carrara elabora um balanço bibliográfico bastante minucioso do que se produziu durante os últimos dez anos acerca das temáticas afins. Nele menciona-se a importância de estudos, alguns já familiares a nós hoje, como o trabalho de Maria Clementina Pereira Cunha (O espelho do mundo: Juquery — a história de um asilo), Ruth Harris (Assassinato e loucura: medicina, leis e sociedade no fin de siècle), Pierre Darmon (Médicos e assassinos na Belle Époque), além dos trabalhos de Roberto Nye (Crime, madness & politics in modern France: the medical concept of national decline) e Daniel Pick (Faces of degeneration: an European disorder), ambos inéditos no Brasil. Leia Mais

Preconceito de marca: as relações raciais em Itapetininga | Oracy Nogueira

Ao iniciar minha graduação em história, deparei-me, pela primeira vez, com estudos que desmistificavam noções, ainda freqüentes nos compêndios e livros didáticos, sobre a organização social brasileira. Trabalho importante fora, sem dúvida, Relativizando, de Roberto DaMatta (Rio de Janeiro, Rocco, 1990), por seu caráter introdutório e iconoclasta, no que concerne às relações interétnicas vigentes. Com o tempo, o acesso a uma tradição sociológica, antropológica e histórica, que, há muito, já tinha posto em xeque as premissas de uma “democracia racial à brasileira”, me permitiu a visualização desta ideologia de longa duração e o seu isolamento como objeto de análise.

No item ‘Digressão: a fábula das três raças ou o problema do racismo à brasileira’ (idem, ibidem, pp. 58-85), DaMatta realça o caráter colonial brasileiro, profundamente marcado por um sistema hierarquizado, implementado pelo branco, português, e definidor de uma lógica jurídica, política e socialmente discriminatória. Apesar de substituído, no decorrer do processo de independência e de abolição, não apenas deixaria marcas ‘tradicionais’ na nossa cultura, como teria a sua continuidade confirmada por uma ideologia, que traduziria a supremacia do branco frente aos outros grupos étnicos, consubstanciando, assim, o “racismo à brasileira”. Leia Mais

A descoberta do homem e do mundo | Adauto Novaes

descoberta do homem e do mundo é o resultado do primeiro ciclo de conferências promovido pela Funarte sobre os quinhentos anos do descobrimento do Brasil. Segundo o organizador do evento e do livro, Adauto Novaes, até o ano 2000 três outros ciclos completarão a série de palestras sobre o mesmo tema.

A partir do título, pode-se já perceber que a descoberta em questão constitui não apenas a do Novo Mundo e de seus habitantes, conseqüência imediata das grandes navegações, mas igualmente a descoberta de um homem novo a habitar o mundo velho. Dizendo de outra forma: os descobrimentos e o nascimento da modernidade são facetas de um mesmo tempo de passagem, quando o homem europeu descobre-se — ao desvelar a América —, e inventa-se civilizado — ao construir o discurso sobre a diferença, concretizada no selvagem. O ponto de partida da coletânea e de todo o projeto parece então ser o de reforçar claramente a relação existente entre modernidade e descobrimentos, ao ponto de tomá-la quase como natural, suficiente e necessária. Leia Mais

Religion grecque et politique française au XIXe siecle, Dionysos et Marianne – TRABULSI (VH)

TRABULSI, José Antônio Dabdab. Religion grecque et politique française au XIXe siecle, Dionysos et Marianne. Paris: L’Harmattan, 1998. Resenha de: FUNARI, Pedro Paulo A. Varia História, Belo Horizonte, v.15, n.20, p. 186-190, mar., 1999.

Raros são os historiadores brasileiros que publicam livros no exterior e, ainda mais infreqüentes, aqueles que o fazem sobre temas distantes da História do Brasil. O Professor Dabdab Trabulsi, da Universidade Federal de Minas Gerais, já havia publicado, em Paris, um volume sobre Dionysisme, pouvoir et socíété (Belles Lettres, 1990), obra que recebera prêmio, na França, por seu valor e, agora, publica um trabalho ainda mais ambicioso. Trata-se de um estudo, propriamente, historiográfico, sobre a interpenetração de ciência e política, no século XIX, centrando-se sobre o tratamento dispensado à religião grega pela erudição francesa, no contexto da História da França.

Wolfgang J. Mommsen1 lembrava que já Goethe advertira que cada geração cria seu próprio passado e Dabdab Trabulsi, logo de início, explícita uma abordagem que procura dar conta do contexto de produção da historiografia: “há que examinar os condicionamentos diversos que influem sobre a elaboração dos modelos de interpretação da História e, ao mesmo tempo, estudar a dinâmica científica, que tem uma dinâmica própria, e que pode fazer perdurar certos modelos bem adiante dos contextos sociais e intelectuais que lhes deram origem” (p. 9). A partir deste enfoque, o primeiro capítulo aborda a evolução política e intelectual francesa no século XIX, em especial a oposição entre catolicismo e laicização e suas repercussões tanto no ensino básico como superior. No segundo capítulo, dedicado aos fundamentos do debate historiográfico, debruça-se sobre a religião grega em meados do século, aprofundando-se em Fustel, Renan, Duruy, Girard, Boissier. Destaque-se que o estilo francês, literário, por oposição à erudição alemã, é relacionado, após a derrota de 1870-71, à superioridade da Educação alemã, que teria garantido a vitória militar aos prussianos (p. 37).

No capítulo terceiro, “A Idade da Erudição Triunfante”, a emulação à erudição alemã, de cunho filológico, acaba por produzir seus resultados, a começar pelo Dictíonnaire des antiquítés grecques et romaines, de C. Daremberg, E. Saglio e E. Pottier (a partir de 1877). O autor estuda os verbetes da enciclopédia que se referem a Dioniso e dialoga com os autores daquela época como se fossem nossos contemporâneos: Gerard faz uma “muito boa” apresentação, Lenormant é “demasiado etimológico”, Legrand compreende melhor as mênades do que um autor atual, Devereux, “que não conseguiu compreender”, algo que Legrand já explicara no século passado. Devereux “está totalmente equivocado” (p. 65)2 . Embora pouco usuais na historiografia anglo-saxônica e alemã, estes juízos e mesclas de abordagens afastadas no tempo podem ser o resultado de uma fluidez tipicamente francesa3 . Ainda neste capítulo, menciona en passant a “invenção do Oriente”, ainda que não explore o conceito de “invenção”, tão explorado na historiografia contemporânea, em geral, e sobre a Antigüidade, em particular4.

Em seguida, volta-se para a vulgarização, as polêmicas e os manuais escolares, objeto pouco explorado pelos estudiosos da historiografia. A imagem dominante, que continuará como referência por longo tempo, será, segundo o autor, aquela elaborada nos grandes trabalhos de erudição, dominados pelo positivismo e a filologia comparativa indo-européia. Com o tempo, a Antropologia começa a deslocar a lingüística como modelo explicativo, comparando os antigos aos “primitivos”. Os livros didáticos. por outro lado, seguem, com certo atraso, os autores eruditos, dando pouco destaque a Dioniso, associado à Ásia e, desta forma, à oposição ocidente/oriente, aludida acima, quando se mencionou a invenção do Oriente. A breve conclusão constata que “o exame dos diversos autores mostrou-nos que estas teorias e métodos foram elaborados no calor da luta social e política” e que “a História da Antigüidade e de sua religião participou na obra de laicização dos espíritos que contribuiu para consolidar a República. Seu esforço metodológico foi “exportado” para outros domínios e intelectuais saídos dos estudos da Antigüidade levaram este sopro crítico para a criação de outras disciplinas científicas” (p. 94).

Dabdab Trabulsi constrói um quadro coerente, cujo ponto alto consiste, precisamente, na articulação entre o estudo da Antigüidade e a política francesa. A oposição entre as correntes católicas e laicas, tão presente na França do oitocentos, apresenta-se, de forma explícita, nas formulações sobre a religião grega e o dionisismo, em particular. O estilo literário francês, oposto ao estilo erudito alemão, liga-se à influência crescente e irresistível da ciência alemã, cujos parâmetros, gradativamente, passam a ser reconhecidos pelos estudiosos franceses. Neste contexto, os autores alemães citados pelos franceses aparecem no livro apenas de forma indireta, sempre referidos pelos autores franceses estudados. Isto explica que a os fundamentos da filologia indo-européia, criação alemã por excelência, apareça de forma superficial. H.J. Klaproth, criador do termo lndogermanisch, em 1823, ainda usado pela historiografia alemã, foi apropriado pelos franceses, alterando seu nome para “IndoEuropeu”, menos germânico e intenso ao nacionalismo francês. A noção de Ursprache não pode, além disso, ser separada de Urvolke Urheimat: uma língua, um povo, uma cultura. Naturalmente, a leitura francesa dos alemães era muito seletiva e não é casual que nada disso apareça nos autores franceses. Uma comparação, pois, entre o que diziam os franceses dos alemães e os originais alemães muito poderia contribuir para elucidar a especificidade da construção discursiva francesa.

A construção discursiva dá-se, assim, por contrastes, e a historiografia francesa não se mirava e diferenciava apenas na alemã, mas há, também, uma oposição por silêncio: a historiografia em língua inglesa. Se os franceses mantinham uma relação particularmente complexa com os alemães, o silêncio quanto à literatura erudita britânica não podia ser mais significativa, especialmente após a derrota napoleônica. Os clássicos britânicos sobre a religião grega, desde Potter, Blackwell, Musgrave, Milford e Jones, nos séculos XVII e XVIII, chegando a Gladstone e Brown, já no século XIX5 , não foram ignorados à toa pela erudição francesa do século XIX, pois o referencial, por um lado protestante e por outro monárquico, não encontrava ressonância na oposição francesa entre católicos e laicos. A historiografia de língua inglesa tem ressaltado, nos últimos anos, que, a despeito desse silêncio francês, havia relações íntimas entre os paradigmas interpretativos que se formavam, em particular no que se refere à hermenêutica filológica e suas derivações colonialistas e racistas6 . Este contexto permitiria notar que o estudo da Antigüidade não apenas serviu para fortalecer a laicização dos espíritos como, principalmente, para assentar as bases de uma Weltanschauung que, a um só tempo, se queria neutra e científica e que se fundava em classificações iníquas. O anti-semitismo, primeiro latente e, depois, ativo e triunfante é só uma das manifestações desse novo paradigma. Ainda que tema pouco explorado por Dabdab Trabulsi, diversos autores franceses estudados neste volume não escondem seu propósito de naturalização da superioridade grega frente à inferioridade oriental. Neste sentido, o caso Dreyfus revela este outro lado do êxito dos novos paradigmas, com um novo anti-semitismo, agora científico, por oposição àquele religioso.

De toda forma, o livro de Dabab Trabulsi contribui para que se entenda melhor como a historiografia francesa continua a preferir imaginar-se auto-suficiente e com uma contribuição sempre positiva para a sociedade francesa. Já se mencionou, mais de uma vez, que a França tem dificuldade em lidar com um passado nem sempre tão humanista quanto sua consciência gostaria que fosse, nem tão autônomo e original como conviria ao nacionalismo. Dionysos et Marianne insere-se bem nesta tradição e o autor, ainda que brasileiro, não deixa de adotar uma perspectiva eminentemente francesa. O mérito maior desta obra consiste em demonstrar que também um brasileiro pode escrever um estudo historiográfico à francesa e para os franceses, mérito tanto maior quanto Dabdab Trabulsi retoma e vivifica estes valores com competência e conhecimento de causa. Até mesmo o estilo da escrita francesa do autor, envolvente e acolhedor, favorece esta identificação do leitor com os argumentos apresentados. O volume constitui, pois, uma leitura agradável e recomendada a todos os que se interessam pelo estudo da historiografia.

Notas

1… die bekannte. schon von Johann Wolfgang Goethe hervorgehobene tatsache. dass eine jede Generation die Vergangenheit die Geschichte. in der si wiedererkennt; ihr Geschichtsbild ist Teil ihrer geistig Kulturelfen und nicht selten auch ihrer politischen ldentitat. em Historlsche Zeltscrift. 238, 1, 1984, Die Sprache des Historikers, p. 80.

2 Contraste-se com Ellen Somekawa & Elizabeth A. Smith: there is no one neutral/po/itical position from which to view events and hence no one correct intepretation, em Journal of Social Hlstory, 1988, 22,1, Theorizing the writing of history, p. 154.

3 Segundo Ernest Schulin, ich habe versucht. den Weg einzelner bedeutender Geschchtswissenschaften in unserem Jahrhundert zu skizzeieren: … der franzosischen mil ihrer breiten, unideo/ogischen Vergangenheits rekonstruktion. em Hlstorische Zeitschrlft. 245, 1, 1987, Geschichtswissenschaft in unserem Jahrhundert. Probleme und Umrisse einer Geschichte der Historie, p. 29.

4 Cf. Mark Golden & Peter Toohey (orgs), lnventing Ancient Culture, Londres. Routedge, 1997.

5 J. Potter, Archaeologia Graeca, or the Antiquities of Greece, Londres, 1697; T. Blackwell, Enquiry into the Life and Writing of Homer, Londres. 1735; S Musgrave, On lhe Graecian Mythology, Londres, 1782; W. Mitford, The History oi Greece. Londres, 1784-1804; W Jones, on the gods of Greece, ltaly and lndia, em The Works of Sir William Jones, vol.1 ” Londres. 1807; W Gladstone, Juventus Mundi: The Gods and Men of the Heroic Age, Londres, Macmillan,1869: R. Brown, Semitic influences in Hellenic Mythology, Londres, 1898.

6 Cf. M. Bernal, Studies in History and Phílosophy of Science, 1993, 24,4, Essay review, Paradise Lost, pp. 669-675; M. Bernal, Social Construction of the Past, organizado por G. Bond & A. Gilliam. Londres. Routledge, 1994, The image of Ancient Greece as a tool for colonialism and European hegemongy, pp. 119-128; E. M. Wood, Peasant-Cítízen and Slave, The Foundations of Athenian Democracy, Londres, Verso, 1989.

Pedro Paulo A. Funari – Departamento de História, Instituto de Filosofia e Ciências Humanas, Universidade Estadual de Campinas. E-mail: pedrofunari@sti.com.br

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Vísceras da Memória:Uma leitura da obra de Pedro Nava – BUENO (VH)

BUENO, Antônio Sérgio. Vísceras da Memória:Uma leitura da obra de Pedro Nava. Belo Horizonte: Editora UFMG, 1997. Resenha de: ALMEIDA, Marcelina das Graças de. Varia História, Belo Horizonte, v.15, n.20, p. 184-186, mar., 1999.

Cada ser humano é único. Esta é uma grande verdade. Cada um de nós guarda em si potencialidades e qualidades que nos tornam singulares. Entretanto existem alguns, entre nós, cuja singularidade e unicidade se tornam por demais significativas. Pedro Nava, certamente, foi um ser humano assim. Médico, desenhista, poeta, escritor-memorialista, revelou – se ao mundo como uma personalidade única e ao mesmo tempo dotado de múltiplas facetas. Conhecê-lo, defini-lo não é uma tarefa muito simples.

Existem uma quantidade expressiva de obras acadêmicas, jornalísticas, literárias, entre outras que analisam a personalidade e a obra de Pedro Nava, entretanto podemos afirmar que o livro recentemente publicado pelo Prof. Antônio Sérgio Bueno nos possibilita mergulhar no universo navaniano e ao menos, enxergar algumas novas centelhas acerca do personagem inquieto e insondável que foi Pedro Nava.

A obra de Bueno é resultado de uma tese de doutorado defendida no ano de 1994 inserida no Programa de Pós – graduação da Faculdade de Letras da Universidade Federal de Minas Gerais.

Ao falar de suas pretensões em relação ao trabalho, autor afirma que seu objetivo foi: “( … ) estudar as memórias de Nava através de categorias operacionais como espaço, corpo e figuração, tendo sempre em vista o diálogo da literatura com outras áreas do saber e o diálogo interno entre as próprias obras literárias.( … )” ( p. 19 grifas do autor), entretanto podemos dizer que as questões apontadas por Bueno ao longo de seu texto se abrem para maiores possibilidades de análise e servem como referencial àquele que se interessa não apenas pela trajetória de Pedro Nava, mas para o estudioso da memória, cidades e cultura busca .em fontes alternativas como a Literatura, um apoio para seus estudos e Investigações.

Bueno divide seu texto em três capítulos seguindo a estrutura que gestou ao eleger três categorias como essenciais nas memórias de Pedro Nava. São elas: o espaço, o corpo e a figuração.

No capítulo I, intitulado, “Espaço” irá nos revelar como a noção de espaço, lugar, recriação e restauração foram importantes para Nava ao escrever suas memórias. Segundo ele, ao rememorar, o escritor reconstruía lugares, pontos, ruas, de forma que pudesse recuperar em suas lembranças a essência de suas memórias. A recuperação dos espaços · funcionava como elemento detonador das lembranças. Revela ao leitor um Nava amador de ruínas buscando entre cacos e estilhaços reter e reconstruir aquilo que já não existia mais e através de seu texto restaurava as imagens que haviam se tornado invisíveis ou mutiladas.

No capítulo 11 dedicado ao “Corpo” encontramos a relação clara e intrínseca entre o Nava médico e o Nava escritor que lidava com seu texto e com suas lembranças com uma precisão visceral e a curiosidade de um anatomista. A Anatomia era em verdade, sua grande paixão. A analogia estabelecida entre o médico Frankenstein que desejou dar vida à matéria morta e ao médico Pedro Nava que recuperava o passado não o considerando matéria morta, mas algo vivo e pulsante no qual sempre esteve mergulhado, nos faz refletir sobre o papel do historiador na sociedade como aquele sujeito que mesmo compreendendo a impossibilidade de recuperar o passado integralmente, faz dele seu objeto e referencial no entendimento da sociedade em que vivemos. O historiador reúne características do Dr. Frankenstein e do Dr. Pedro Nava.

Neste capítulo o autor tratará, também, da relação de Pedro Nava com a morte, a presença dos cadáveres em suas descrições, a rememoração das aulas na Faculdade de Medicina e como estas experiências definiram de forma indelével sua personalidade.

No terceiro e último capítulo “Figuração”, Bueno irá tratar de um aspecto fundamental na vida e obra de Nava: a imagem. É sabido por todos que o memorialista possuía conhecimentos artísticos que o dotavam de qualidades plásticas que, caso tivesse persistido na carreira artística, não teria deixado nada a dever ao mundo das artes. Entretanto nos mostra o autor que a imagem nunca esteve afastada do universo criativo de Nava. Nos originais de seus textos elaborava desenhos, caricaturas, colagens, reconstruía e desenhava mapas, lugares, buscava em fotografias sue material de apoio para a recuperação das memórias que escrevia. Rescrever suas memórias era trabalho e um trabalho que envolvia a manipulação de uma linguagem estética.

Bueno encerra sua análise comentando acerca dos originais somados em trinta e seis páginas inéditas do que seria parte do sétimo volume das memórias de Nava intitulado “Cera das Almas”.

Na realidade o texto de Antônio Sérgio Bueno é uma aula de erudição e um convite, prazeroso, à leitura e ao estudo. Ao analisar, visceralmente, a produção de Nava nos aponta algumas de suas influências literárias que se destacam em seu texto, citamos Edgar Allan Poe, Mareei Proust, Stevenson, Rabelais, entre outros, bem como seu infinito conhecimento em relação às artes plásticas e as analogias que invariavelmente estabeleceu entre a produção de artistas como Rembrandt, Michelângelo, Rubens, Monet, Renoir, entre outros como elementos detonadores e referenciais para a construção de suas lembranças.

Por outro lado, embora não trate desta questão diretamente, o autor nos permite refletir acerca da importância da memória como categoria social, cujo compartilhamento permite aos homens reconstruir seu passado através de depoimentos orais ou escritos, reestruturar sua história e muitas vezes recuperar elementos que não poderiam ser recuperados através de outras fontes.

E neste sentido ao mencionarmos as fontes, acrescentamos que as análises implementadas por Sérgio Bueno possibilitam enxergar a Literatura como uma categoria de fonte para os pesquisadores que muito tem contribuído para o enriquecimento de novas abordagens e tem permitido um diálogo mais amplo e profundo entre os homens e a história que é construída por eles. Revela – nos que este fazer não acontece apenas nos espaços e nos meios tradicionais, mas as obras de pensamento, de criação e reflexão muito podem nos contar acerca destes homens. É óbvio que as memórias de Nava já vêm sendo utilizadas por historiadores, arquitetos, sociólogos, entre outros estudiosos como elemento constituinte em suas análises, entretanto o que se ressalta no estudo de Bueno é a interpretação que ele estabelece em relação ao texto navaniano e as possibilidades de verticalização que permite ao leitor e que se encontram nas entrelinhas.

Desta forma, portanto, podemos afirmar que o trabalho realizado pelo Prof. Antônio Sérgio Bueno é uma obra que merece ser lida, analisada, criticada e aproveitada em todos os seus sentidos, explorando todas as possibilidades que nela são apontadas, inclusive o retorno ao texto de Pedro Nava. Bueno através de suas interpretações, nos convida, delicada mas convincentemente, à leitura dos seis volumes das memórias de Nava, para aquele que ainda não teve esta oportunidade e incita à uma releitura, cuidadosa, anatômica, visceral aquele que já teve a chance de mergulhar na escrita navaniana, pois certamente encontrará novas nuanças no depoimento deste personagem ímpar que foi Pedro da Silva Nava.

Marcelina das Graças de Almeida – Mestre em História Professora da Rede Municipal de BH.

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O Racismo – D’AIRE (VH)

D’ AIRE, Teresa Castro.  O Racismo. [Lisboa]: Sociedade Gráfica, 1996. Resenha de: RIBEIRO, Maria Solange Pereira. Varia História, Belo Horizonte, v.15, n.20, p. 181-183, mar., 1999.

Racismo em Portugal: qualquer semelhança com o Brasil é mera coincidência.

Teresa Castro introduz essa obra com um dito africano de profunda densidade ideológica: “obrigado meu Deus por ter criado o cavalo, porque se não existisse o cavalo os brancos montavam em cima de nós “e afirma logo no início, sobre a epopéia dos descobrimentos, a miscigenação das raças e a teoria dos brandos costumes, serem tudo mentira – “os portugueses são racistas, sim”.

Essa obra é composta de perguntas e respostas, constituíndo-se um texto que no seu cômputo geral é claro e de leitura rápida e fácil de modo que pode servir facilmente como texto para debates ou discussões em níveis diferenciados. O livro enfoca um assunto de profunda importância na explicitação do racismo em Portugal, desse modo, em circunstâncias e dosagem diversas, poderá ser útil ao ensino em matérias que discutam o preconceito racial. Apresenta-se dividido em 15 entrevistas referentes às seguintes perguntas básicas:- Origem geográfica do entrevistado e de sua família; nível de escolarização e profissão: como e onde mora e qual a cor dos vizinhos; se o entrevistado acredita ter raça mais bonita, mais inteligente; se tem raça que comete mais crimes; se o entrevistado se casaria com alguém de outra religião que não a sua; se o entrevistado se casaria mais facilmente com um pobre ou com um preto, se as leis portuguesas protegem todos da mesma forma, etc.

As respostas a essas perguntas e a outras são surpreendentes e reveladoras sobre a existência de racismo em Portugal.

Diz a autora sobre as pessoas que inicialmente admitiram a existência do racismo em Portugal. quando convidados a falar um pouco mais sobre suas experiências fecharam-se e comentaram que no seu caso pessoal nem tinham muita razão de queixa. Para essas pessoas. que passaram pelas humilhações mais vergonhosas que um ser humano pode ser sujeito, a não-denúncia era como se fosse a única forma de conservar o mínimo de dignidade que os brancos ainda lhes não roubaram. conclui a autora na sua introdução.

Prosseguindo a análise levanta questões sobre o depoimento do dirigente do SOS Racismo que afirmou ser o português mais racista do que os alemães. uma vez que na Alemanha tomam se providências diante de manifestações agressivas de preconceitos e intolerância, enquanto em Portugal as autoridades. através da ausência de atitudes, são coniventes com os agressores.

A maioria dos entrevistados foi unânime em afirmar que os discriminados que vão a tribunal por maus tratos. dificilmente ganham a causa. pois os juízes são racistas. É comum em Portugal a ação dos Skinheads e da Polícia contra grupos minoritários especialmente o preto. Entretanto admitir ter sido discriminado é sentir a humilhação duas vezes, a grande maioria das pessoas discriminadas não dão queixa e dizem não adiantar.

Mas nem todos pensam assim, há negros conscientes de seus direitos e estão mobilizando as autoridades para que façam justiça com as minorias portuguesas ou como dizem os portugueses os “retornados” (ex-colônia Portuguesa). O SOS Racismo está solicitando também que se incorpore nos currículos das escolas secundárias o senso de respeito pelas raças. Trabalhos como o da cantora cabo-verdiana Celina Pereira. vem tentando levar às escolas bilíngües histórias nascidas em Cabo Verde. Um livro com fita cassete foi patrocinado por uma organização não-governamental italiana, editada em três idiomas; italiano, português e crioulo. São canções infantis, trovadinhas, cantigas de roda, confeccionadas dentro de uma ordem pedagógica e didática para as escolas de ensino bilíngüe. Nos Estados Unidos a obra aparece em português, crioulo e inglês e já é utilizada em algumas escolas em Massachusetts, onde a autora recebeu alguns prêmios.

O projeto dirige-se a crianças cabo-verdianas que possuem um índice muito grande de insucesso escolar, pois são obrigadas a aprender a estudar numa língua que não é a delas; entretanto, Portugal não tomou conhecimento do projeto, lamenta Celina. O maior número de africanos que vivem em Portugal é de Cabo Verde, acrescenta a cantora; “eu só queria dar às crianças de Cabo Verde algumas referências culturais dos seus progenitores para poder se situar enquanto seres humanos, saber de onde vêm e para onde vão”.

Este livro, curiosamente, leva-nos a tecer algumas comparações e consequentemente uma compreensão da base do racismo no Brasil, uma vez que estamos na condição de “retornados”, através da língua e de algumas heranças culturais.

Um dos fatos de aproximação é que no Brasil os negros de nível sócio-econômico mais elevado ficam “sem cor” e passam a discriminar a sua raça. Isso ocorre também com o mulato, que para fugir da discriminação se coloca mais próximo do branco de forma ideológica. Dessa forma vai emergindo uma massa sem identidade pois o mulato nem é negro nem é branco, como afirma uma entrevistada- a colonização tirou do africano que vive em Portugal, a cultura, a língua, os costumes e lhes impôs uma vida de humilhação.

Por outro lado a autora coloca a dificuldade das mulheres pretas em se manifestarem e em dar depoimentos aprofundando ao gravíssimo problema da auto-estima.

“Eu quando tenho saudades de ver um preto basta-me olhar para o espelho, e pronto, tão cedo já não preciso de voltar a vê-los na minha frente.”

Sobre esse fato revela a autora, que o curioso nessas mulheres é serem de um status sócio-econômico de classe média e talvez tenham sido ainda mais discriminadas do que os homens por isso tenham tanta pressa em esquecer as humilhações do passado. Uma culpa de todos nós, considera Teresa Castro, cidadãos de todas as raças e que parece repetir-se em muitos casos como recorrência.

Maria Solange Pereira Ribeiro – Doutoranda- Educação- USP. E-mail: bibaecir@turing.unicamp.br

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Uma história da leitura – MANGEL (VH)

MANGUEL, Alberto. Uma história da leitura. Tradução de Pedro Maia Soares. São Paulo: Companhia das Letras, 1997. Resenha de: GOMES, Leonardo José Magalhães. Varia História, Belo Horizonte, v.15, n.20, p. 178-181, mar., 1999.

Em uma conferência ditada na Universidade de Belgrano e publicada em seu livro “BORGES ORAL”, o mestre portenho chama a atenção do papel do livro como extensão da memória e da imaginação, qualificando-o como o mais assombroso dos diversos objetos humanos, cuja função principal é a recordação do passado e dos sonhos. Mais adiante, manifesta o desejo de escrever uma história das diversas valorizações que o livro recebeu ao longo do tempo, tarefa que nunca chegou a realizar. Também no pequeno ensaio “DEL CULTO DE LOS LIBROS”, parte de “OTRAS INQUISICIONES”, estão já presentes muitas das idéias mais tarde expostas na conferência. Se considerarmos as quase três décadas existentes entre um e outro texto fica clara a constância destas idéias em sua Obra.

Se Borges não chegou a escrever seu estudo, nos privando assim de mais uma de suas fascinantes contribuições, a idéia não se perdeu, já que agora nos chega esta “UMA HISTÓRIA DA LEITURA”, do argentino naturalizado canadense Alberto Manguei, que ao longo de suas 408 páginas traça um interessante painel das diversas valorizações que a leitura, e conseqüentemente seu continente, o livro, vêm recebendo ao longo dos tempos.

Começo este texto lembrando a figura de Jorge Luis Borges, porque embora Manguei não o admita explicitamente, talvez por ser desnecessário de tão óbvio, sua obra está impregnada pelo universo simbólico e pelas idéias do velho mestre, inspirador evidente da concepção e de muitas das passagens capitais desta “UMA HISTÓRIA DA LEITURA”. Basta uma leitura de cada uma das obras citadas (no caso de Borges, a conferência “EL LIBRO” em “BORGES ORAL”) para que seja comprovada esta afirmação. Além da influência natural de um grande autor sobre um seu conteporâneo e conterrâneo mais jovem, há nesse caso um elo mais forte, já que Manguei, como ele mesmo conta, foi leitor para Borges, tendo assim, ao substituir os olhos do outro, a oportunidade de uma convivência muito mais íntima e cúmplice do que a de um mero leitor com um autor distante.

Não vai aí nenhum demérito, não estou dizendo que Manguei copia Borges, longe disso, acho apenas que ele desenvolve, e de maneira brilhante, idéias que foram adquiridas pela convivência e/ou leitura de seu antecessor. Nada de mais lisonjeiro para um leitor que ampliar, melhorar e desenvolver o texto lido, num verdadeiro trabalho de recriação, transferindo-o para um novo universo, ainda mais quando a fonte de inspiração é um autor do porte de Jorge Luis Borges. Além disso, e podemos dizer sem problemas, já que ele próprio o alardeava, um dos traços mais característicos da obra de Borges é exatamente este, a releitura, recriação e inserção em nova realidade de obras e conceitos de autores do passado, proporcionando assim uma nova vida a criações que de outra forma desapareceriam no vai-e-vem das modas, criando com isso uma meta-literatura.

Histórias da escrita, da imprensa, das bibliotecas, da indústria gráfica, ou seja, do objeto-livro em suas mais diversas formas e conjuntos, e até mesmo manuais de editoração, produção, aquisição e de cuidados com os livros há muitos. Exemplos recentes, escritos em ou traduzidos para o português, que ainda se acham nas livrarias e sebos da cidade, são: “O LIVRO” de Douglas C. McMurtrie, “O APARECIMENTO DO LIVRO” de Lucien Febvre e Henry-Jean Martin, ‘SÍNTESE HISTÓRICA DO LIVRO”, de José Barboza de Mello, “A PALAVRA ESCRITA”, de Wilson Martins, “A CONSTRUÇÃO DO LIVRO”, de Emanuel Araújo e os “ELEMENTOS DE BIBLIOLOGIA”, de Antônio Houaiss, além do há muito esgotado “O BIBLIÓFILO APRENDIZ” de Rubens Borba De Moraes. Mas histórias da leitura ou como disse Borges, das diversas valorizações que o livro tem recebido ao longo do tempo, têm sido raras.

É claro que quando se fala de livros há que se falar de leitura, e que em diversos momentos este tema é tratado nestas obras. Mas parece interessar aos seus autores mais o objeto material, cobiçado pelos bibliófilos antes pelo aspecto e raridade do que propriamente pelo conteúdo, que a íntima relação entre o leitor e o autor através da obra, da qual o livro é apenas o necessário, indispensável e, é bom que se diga nestes tempos de computador em que muitos apressadinhos tentam declará-lo em extinção, eterno suporte físico.

Obras que tratam deste assunto sob esta ótica da leitura, em português, só me vêm à lembrança no momento, os belos e indispensáveis “OS LIVROS NOSSOS AMIGOS” e “O DIABO NA LIVRARIA DO CÔNEGO”, de nosso mestre Eduardo Frieira, que juntamente com seus diversos ensaios merecem uma divulgação muito mais ampla do que têm, tal a sua qualidade e perene contribuição. É bom lembrarmos que Frieira, que por coincidência morreu cego como Borges, não só escreveu livros, como também os fabricou, pois começou sua vida profissional como impressor e tipógrafo, adquirindo assim um conhecimento dos dois lados da produção dos livros talvez único entre intelectuais de seu porte, o que dá um sabor especial às suas obras sobre o tema. Mas como santo de casa não faz milagre …

Esta “UMA HISTÓRIA DA LEITURA” chega em boa hora, no momento em que a própria sobrevivência do livro como suporte material está sendo contestada. Há aqueles que, provavelmente porque ou não gostam da leitura como prazer, fora das atividades profissionais, ou nem chegam a imaginar a existência deste hábito, acham estar o livro com seus dias contados, sendo substituído pelos computadores. Isso é grande bobagem. A tela da máquina pode substituir as obras de referência, tais como enciclopédias e dicionários, e os periódicos. Mas quem vai ler “GUERRA E PAZ”, um conto qualquer de Rubem Fonseca ou um exemplar de Asterix numa tela?

Por enquanto não há melhor suporte para leitura que o nosso bom e velho “códice”, um dos mais geniais objetos de “design” criados pelo Homem, que, como já foi amplamente dito, é leve, portátil, permite acesso quase imediato às informações nele contidas, sua leitura não cansa como a da tela do computador, além de ser extremamente durável.

A teia, por outro lado, como o próprio Manguei diz em sua obra, é uma versão moderna, eletrônica, dos antigos rolos de papiro ou de pergaminho e velino, que tinham de ser desenrolados à medida que iam sendo lidos, dificultando assim o acesso ao seu conteúdo, além de ser de difícil armazenagem e transporte. Experimente ler na cama, ou mesmo em uma poltrona com um computador, mesmo daqueles pequenos, portáteis. E quando acabar a luz, qual vela iluminará a tela?

O livro de Manguei está dividido em quatro partes, organizadas como um livro às avessas começando com “A ÚLTIMA PÁGINA” e terminando com as “PÁGINAS DE GUARDA”, com os “ATOS DE LEITURA” e “OS PODERES DO LEITOR” pelo meio. Nestes capítulos é traçado um vasto painel do surgimento, desenvolvimento e variação da atividade da leitura nas diversas fases e situações por que passou o Homem ao longo de sua trajetória.

Neles aprendemos sobre a solidão e a discriminação sofridas pelo leitor, sobre as suspeitas que a leitura gera em épocas de totalitarismo, o que leva estes regimes a combater com vigor, desde o início, esta atividade para melhor controlar a sociedade e reprimir a oposição. Aprendemos também, como era vista a leitura na Antigüidade Clássica e nos primórdios da Idade Média, em que o importante era a palavra dita e não a escrita, sendo os livros vistos como verdadeiros túmulos das ide ias, e destruidores desta outra arte quase perdida para nós, a da Memória, diluída hoje no infinito mar de informação que nos afoga, espalhado que está em seus suportes eletrônicos, e não como achavam Sócrates e Platão dentro do cérebro, ou coração de cada um, trazendo assim a necessária sabedoria como fruto da aprendizagem, e não apenas a repetição mecânica.

Discute-se também o espanto de Agostinho ao ver Ambrósio lendo silenciosamente, o que nos leva a crer que esta era a prática incomum nos primeiros séculos· da leitura, o que deveria causar um verdadeiro tumulto nas bibliotecas e locais públicos, além da inevitável indiscrição em relação ao texto lido. Fala-se da lenta evolução para uma leitura silenciosa, que foi possibilitada pela invenção dos sinais de pontuação no início da Idade Média.

Temos, também, um painel do aparecimento das heresias causadas pela leitura silenciosa, que deixava o leitor divagar pelo texto lido, imaginar teorias e chegar a conclusões não ortodoxas, fato impossível quando da leitura em voz alta. Por aí o autor vai, até chegar aos nosso dias, passando pelos mais variados aspectos da arte e do prazer de ler em suas mais diversas formas, situações e conseqüências, como o roubo de livros, a leitura do futuro através dos textos consagrados. o futuro da leitura como atividade, a leitura do mundo e dos códigos não escritos, a aprendizagem da leitura, a relação entre estas duas e muito mais. Tudo isto é exposto em linguagem clara, de maneira extremamente agradável, que aliada a uma boa tradução e ótima apresentação gráfica torna este livro indispensável para quem se interessa pelo assunto, e inevitável para quem gosta de ler.

Leonardo José Magalhães Gomes – Licenciado em História pela UFMG.

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Projeto e missão: o movimento folclórico brasileiro 1947-1964 | Luís Rodolfo Vilhena

Ao escrever sobre o folclore e o movimento folclorista no Brasil dos anos de 1947 a 1964, Luís Rodolfo Vilhena retomou um dos temas polêmicos de nossa tradição de pensamento: a construção da idéia de nação brasileira. Fez isso de maneira criativa e corajosa porque escolheu examinar o assunto, investigando o sentido que os folcloristas davam aos estudos sobre as tradições populares, tema habitualmente pouco valorizado pelos cientistas sociais, ainda mais no contexto da institucionalização das ciências sociais na década de 1950, quando foi objeto de críticas severas.

No livro, a reconstituição do projeto dos folcloristas da década de 1950 leva Luís Rodolfo a questionar um conjunto de problemas relevantes da vida intelectual brasileira. Começa perscrutando o significado da criação da Comissão Nacional do Folclore (CNFL) em 1947, vinculada ao Instituto Brasileiro de Educação, Ciência e Cultura do Ministério das Relações Exteriores. Discute os limites das escolhas feitas pelos cientistas sociais no processo de institucionalização de suas disciplinas, a excluir campos do saber como o folclore, em nome de uma concepção rigorosa de ciência. Finalmente, revela a qualidade da missão dos folcloristas e analisa o estilo solidário e fraternal que imprimem a suas atividades. Leia Mais

A era do saneamento: as bases da política de saúde pública no Brasil | Gilberto Hochman

As temáticas relacionadas ao campo da saúde pública e da medicina têm merecido, nas últimas duas décadas, crescente atenção de historiadores e sociólogos brasileiros. Este fenômeno, aliás, não é circunscrito ao nosso país: trata-se de uma tendência internacional. De fato, nos Estados Unidos a tradição de utilizar abordagens das ciências humanas no estudo da medicina e saúde pública é mais antiga. Rats, lice and history, por exemplo, uma reflexão sobre o impacto das epidemias nas sociedades humanas, foi escrito em 1934 pelo bacteriologista Hans Zinsser (1984), que se dizia impressionado com a “negligência quase completa de historiadores e sociólogos” no estudo do papel desempenhado pelas epidemias no “destino das nações”. Se Zinsser foi um solitário na década de 1930, na de 1950 já existia uma tradição de estudos neste campo, onde se destacavam homens como George Rosen, com seu clássico A history of public health, de 1958, e Erwin Ackerknectht, e seu A short history of medicine, de 1955. Leia Mais

O fim da ciência: uma discussão sobre os limites do conhecimento científico | John Horgan

Temos atribuído principalmente a Comte, nas terras tropicais, a idéia de que a ciência pode ser fechada e finita. Há autores brasileiros, como Antônio Paim, que visualizaram o começo de nossa ciência na rejeição da idéia comtiana que, até a visita de Einstein ao Brasil, ainda seria dominante em nossa Academia (Lovisolo, 1991, pp. 55-65). John Horgan retoma o tema dos limites com outros argumentos, pois física, biologia ou cosmologia não são as mesmas da época da elaboração positivista. Estaríamos diante de indicadores de fechamento e finitude? Diante de limites físicos, sociais, políticos e intelectuais para o desenvolvimento da ciência pura? Os limites seriam produto da própria eficácia do passado da produção científica? Poder-se-ia temer uma queda da produção científica significativa, daquela que surpreende, emociona e faz sentido? A produção significativa no campo da ciência pura teria alcançado fronteiras ou barreiras de difícil, senão impossível, superação? Ao longo de mais de trezentas páginas, Horgan procura responder questões desse tipo sobre as quais começou a pensar a partir de entrevista com Roger Penrose, no verão de 1989.

Um currículo significativo de divulgação científica, a realização de um número importante de entrevistas com cientistas de ponta, alguns dos quais estiveram às voltas com os limites do conhecimento, e o cargo de editor da Scientific American ocupado pelo autor parecem estímulos mais que suficientes para uma leitura atenta de seu livro.1

Horgan não pretende apenas apresentar os argumentos contrapostos de reconhecidos filósofos, poucos, e de cientistas norte-americanos e europeus que trabalham dominantemente nos Estados Unidos, sobre os limites da ciência. Não pretende fazer um inquérito ‘objetivo’, situando-se como um observador fora do campo que contrapõe opiniões alheias guiado pelo valor da equanimidade. Ele entra no ringue, manifesta sentimentos, opiniões e desejos, estabelece um compromisso pessoal com suas questões. Desafia para a luta. Procura, no entanto, não confundir seu próprio wishful thinking com a realidade.

Por vezes bate pesado. Sobretudo, quando as “verrugas” físicas, psicológicas e morais dos cientistas são expostas. Os ‘perfis’ que deles traça são econômicos e vivos. Persegue as contradições de pensamento. Mas talvez, goste mesmo de fotografar as que existem entre crenças — talvez fosse melhor dizer declarações — e atos. Assim, por exemplo, Feyerabend, crítico implacável da medicina, quando doente, depositou toda sua confiança nos médicos que o atendiam. Popper, defensor da liberdade, é apresentado como um autoritário de vanguarda que teria escrito A sociedade aberta por um de seus inimigos. Tudo demasiadamente humano. Contudo, essas inconfidências que podem tornar o livro mais atraente para aqueles que gostam de se divertir com fofocas, uma especialidade de homens e mulheres, não são centrais para a lógica da argumentação. Podem, decerto, soar como inconvenientes e até agressivas para o leitor que confunde dinâmica científica com ideal de relacionamento e o produtor de conhecimentos com o herói moral. É bem possível que os entrevistados de Horgan, adulados para dedicar tempo a suas perguntas, tenham se sentido chicoteados pela irreverência de suas afirmações, nem sempre registradas no gravador por serem impressões visuais ou psicológicas do entrevistador. Por vezes, Horgan brande o chicote sobre si mesmo, embora de modo bem mais suave. Talvez porque partilhe da velha fraqueza, também demasiadamente humana, de revelar mais autocompaixão do que compaixão pelos outros. Contudo, a “verrugografia” de Horgan não é razão suficiente para jogar seus argumentos fora, sobretudo se levamos em consideração alguns de seus contrapesos:

Descobri que os cientistas raramente são tão humanos como quando se confrontam com os limites do conhecimento. … Também acreditam, como eu, que a busca do conhecimento é, sem dúvida, a mais nobre e significativa de todas as atividades humanas. Os cientistas que nutrem essa crença são freqüentemente acusados de arrogância. Alguns são arrogantes, em alto grau. Mas descobri que muitos outros são menos arrogantes que ansiosos (p. 16).

Horgan não cai nos arquiconhecidos discursos contra a ciência nem contra a intelectualidade. Manifesta imensa estima pelo conhecimento científico já gerado e pelo seu modo, empírico, de produzi-lo. Acredita que grande parte dele é verdadeiro, que os relatos construídos na física, na biologia e na cosmologia não terão variações significativas no futuro. Acredita na ciência e valoriza a finalidade de descobrirmos por que estamos no mundo, o conhecer pelo conhecer. Defende a visão clássica da ciência pura, empírica e preditiva, no teste, como um modo de conhecimento especial e hierarquicamente superior. Está preocupado com a ciência pura, não com a ciência aplicada, que parece andar muito bem graças ao interesse do público. Assim, o cientista otimista ou o amigo da ciência, que pensa que não há limites para seu progresso, não deverá jogar o livro fora como mais uma manifestação do retrógrado espírito anticiência. E, mais ainda, se é um cientista que desconfia da ciência meramente especulativa, desligada da prova empírica, e das modas do anti-reducionismo, do holismo e, especialmente, da “caocomplexidade”, à qual Horgan dedica porções consideráveis de sua voracidade crítica.

Não acredito que a constatação de haver existido, em outros momentos históricos, sentimentos semelhantes sobre os limites seja razão suficiente para jogar fora os argumentos de Horgan como mera reiteração do passado. Horgan procura demonstrar que, nos casos mais citados na literatura, tais afirmações sobre os limites não se teriam comprovado. Tenho reservas sobre seus argumentos. Santiago Ramón y Cajal, por exemplo, dizia, antes de se encerrar o século passado, que há momentos da ciência nos quais é dominante o sentimento de que tudo o que é importante já foi feito. Acrescentava, no entanto, que novas técnicas possibilitam que especulações sejam testadas, abrindo-se então um novo período de entusiasmo científico que gera boa ciência, ciência verdadeira, e acaba contribuindo poderosamente para a solução de problemas práticos (Lovisolo, 1994). Estamos diante de uma hipótese sobre a história da ciência e, portanto, o que não ocorreu no passado pode ocorrer no presente e a ocorrência do passado deixar de ser ocorrência presente. O argumento histórico não parece ser fundamental.

Formado em inglês, embora com estudos de ciências ou matemática em todos os semestres — os currículos norte-americanos não sofrem do fechamento dos nossos, que promovem uma especialização prematura de duvidosa qualidade —, Horgan confessa que se desencantou com a crítica literária e tomou a direção da ciência, do jornalismo científico. Segundo o ponto de vista adotado, pode-se considerar que está dentro ou fora da ciência. Na melhor das hipóteses, podemos crer que a trajetória específica de Horgan o habilita a entrar e sair, a pertencer e se distanciar da ciência com maior facilidade.

Retomou Horgan, no entanto, as elaborações do crítico literário Harold Bloom (1992) sobre a ansiedade de influência e as utilizou como instrumentos para uma tipologia dos cientistas.2 Bloom vê os poetas sempre constrangidos pela ansiedade provocada pela impossibilidade de igualar, e menos ainda de superar, os poetas do passado, em especial Shakespeare. Os cientistas, para Horgan, seriam figuras igualmente retardatárias e trágicas, que devem carregar o peso, ainda maior, de belas e verdadeiras teorias associadas aos nomes de Newton, Darwin e Einstein.

Diante da ansiedade do peso do passado produzir-se-iam três tipos de reação. A maior parte dos cientistas admite sua incapacidade de superar uma tradição “rica para precisar de algo mais” e dedica-se a solucionar “charadas”, fortalecendo os paradigmas vigentes, refinando conceitos e medições. Outros tornam-se rebeldes que “denigrem” as teorias dominantes da ciência, considerando-as fabricações ou invenções sociais inconsistentes, e não descrições rigorosamente testadas da natureza. Por último, os “poetas fortes” ou “cientistas fortes” aceitam a perfeição dos antecessores e lutam para transcendê-los, embora para isso devam se valer de recursos de interpretação errônea das teorias herdadas.

“Roger Penrose é um cientista forte. Em geral, ele e os outros de sua espécie só têm uma opção: explorar a ciência de modo especulativo e pós-empírico, o que eu chamo de ciência irônica. Essa ciência irônica se assemelha à crítica literária por oferecer pontos de vista, opiniões que são, na melhor das hipóteses, interessantes, provocando outros comentários. Mas elas não convergem para a verdade. Não pode realizar surpresas empiricamente verificáveis que forcem os cientistas a fazer revisões substanciais na sua descrição básica da realidade” (p. 18).

Horgan tenta ao longo de seus capítulos, que tomam por objeto um campo científico, mostrar a ciência irônica em funcionamento, seu modo especulativo e pós-empírico de operar. Se a ciência de fato está operando dessa forma, ironicamente, em diversos campos de conhecimento, seria esse modus resultado ou reação dos limites? A questão não pode ser ignorada, dizendo-se apenas que ela é perigosa. Que leva água para o moinho dos que pretendem cortar os recursos destinados à ciência pura ou vento para o ventilador dos reacionários que reiteram seus conhecidos argumentos contra a ciência. Apontar as conseqüências negativas e imaginadas do argumento de Horgan é meramente uma atitude defensiva e, talvez, uma renúncia especulativa, irônica, ao valor da verdade. Acredito que seria mais adequado, dentro da tradição científica empírica, que os cientistas de cada campo de conhecimento analisado por Horgan discutissem conceitual e empiricamente seus argumentos. E estou esperando que nossos físicos, biólogos ou cientistas sociais apresentem seus argumentos contrários ou em apoio de Horgan, sobretudo os que ainda apostam em ser “fortes”. Horgan jogou a luva, quantos aceitarão o desafio? Assim, a teoria das “supercordas” ou a “caocomplexidade” é ciência irônica ou não? A unificação da física seria tão surpreendente como as teorias da relatividade e a quântica? A simulação computacional é ciência irônica ou não? A descrição das diferenças, biológicas e culturais, apenas completa o mapa ou gera conhecimentos surpreendentes, significativos, que aumentam nossa compreensão do universo e de nós mesmos?

Caso o argumento de Horgan seja válido, emergem outras interrogações importantes. Estaríamos diante de uma reunificação das duas culturas, a científica e a humanista, que Charles Snow tinha considerado em termos de suas conseqüências para a unidade da cultura? Estaríamos presenciando nas ciências da natureza, e talvez nas ciências sociais, um processo semelhante ao que ocorreu na arte de vanguarda e que levaria na direção de uma produção que apenas pode ser degustada por um pequeno grupo de produtores que são ao mesmo tempo seus degustadores? É comum escutarmos de um colega cientista que não considera como arte uma obra que não faz sentido para ele. Mas os outros — políticos, artistas e leitores — deveriam continuar a considerar como ciência um conhecimento que não faça sentido para eles? A avaliação deverá ser produto apenas da perspectiva dos de dentro? Somente físicos deverão julgar a física, pintores a pintura, cientista sociais a ciência social, médicos a medicina e assim por diante? Isso não seria como moldar a dinâmica social no modelo dos comitês avaliadores da Coordenação de Aperfeiçoamento do Ensino Superior (Capes) ou do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) e impor ao social uma solução gerada para o encaminhamento de problemas internos? Devo reconhecer que um mundo de arquipélagos absolutamente autônomos não me parece uma boa perspectiva de vida.

Horgan está dizendo: a ciência irônica pode ser um bom divertimento para os cientistas irônicos, porém seus esforços não convergem, cada um atribui sentidos diferenciados, e o jogo apenas faz sentido para os de dentro. Por que deveriam os de fora financiar um jogo que apenas faz sentido para os de dentro? A falta de convergência e a multiplicidade dos sentidos atribuídos às teorizações irônicas pode se tornar um limite social e político para a ciência. (E não apenas entre os neoliberais. Lula, recentemente, declarou que as universidades gastam muito.)

Horgan elabora algumas hipóteses mais manejáveis a partir das posições de Gunther Stent: a ciência poderia estar no fim porque funcionava muito bem — este é o núcleo do argumento de Stent, que atribuía sua prioridade ao historiador Henry Adams. A lei de aceleração do progresso científico, que estaria se movendo a velocidade sem precedentes, teria como corolário a possibilidade de a ciência defrontar-se com barreiras para seu progresso (uma hipótese paradoxal e, por isso, estética): a própria limitação de certos campos de conhecimento (anatomia humana, geografia e química, como exemplos) ou as questões reduzidas que faltaria responder na biologia; a limitação social que resultaria da queda dos resultados práticos da nova pesquisa pura e, portanto, do interesse em seu financiamento; ou mesmo a disponibilidade de conhecimentos de ciência pura suficiente para se realizar pesquisa aplicada durante muito tempo, respondendo às demandas sociais de modo satisfatório, poderia justificar uma diminuição de investimentos na investigação científica. Uma sociedade mais rica e satisfeita, aponta Stent, poderia levar os jovens a escolher caminhos mais leves que aqueles em que se torna cada vez mais difícil transitar, como o das ciências e o das artes. Assim, o domínio sobre a natureza levar-nos-ia a uma perda de vontade de poder. Para Stent, as ciências físicas parecem ser abertas. Porém, sempre que os físicos pretendam colher dados de sistemas mais remotos, enfrentarão limites físicos, econômicos e até cognitivos.

As considerações de Stent levam Horgan à conclusão de que “a ciência pura, a busca de conhecimento sobre o que somos e de onde viemos, já entrou numa era de resultados decrescentes. A maior barreira para o progresso futuro é, sem dúvida, o seu sucesso passado” (p. 29). Esta afirmação de Horgan é empírica ou irônica? O acompanhamento numérico da ciência em termos de cientistas, publicações e patentes, ao longo do século, indica seu crescimento acelerado. Porém, em termos mais qualitativos, pode-se dizer que estamos obtendo resultados que superem em significado os da teoria da relatividade, da teoria quântica ou da genética? Ou são essas teorias marcos que podem ser aperfeiçoados, mas não superados? Encontrar partículas cada vez ‘menores’, e talvez menos previsíveis, causaria surpresa semelhante ou maior aos que foram gerados pelos resultados hoje clássicos? Parece que uma avaliação qualitativa se faz necessária, uma vez que nem políticos nem público em geral, nem os possíveis candidatos à ciência deixar-se-iam afetar pelos resultados meramente quantitativos. O público, pelo menos, parece estar concentrado nos resultados aplicados e, em especial, nos que se referem a saúde e longevidade.

Horgan dedica um de seus capítulos — o sexto, ‘O fim da ciência social’— às ciências sociais, focalizando as contribuições de Wilson, Chomsky e Geertz. É consensual que a tradição das ciências sociais formou-se na tensão entre um modelo literário e um modelo científico e entre redução universalista e defesa da singularidade. A oposição entre elaborações empíricas e irônicas esteve presente em sua história, tanto como a coexistência de teorizações de difícil, ou mesmo impossível, convergência. Kuhn consagrou as ciências sociais como pré-paradigmáticas. Assim, para o cientista social é mais fácil assimilar os argumentos de Horgan. A seleção dos três autores parece orientar-se na direção de representar essas tensões e também diferenças políticas entre os entrevistados.

Edward Wilson luta pela conservação da diversidade na Terra. Uma formiga deixa Wilson deslumbrado diante do universo. Este deslumbramento apresenta-nos apenas um dos Wilson, o poeta dos insetos sociais e o defensor apaixonado da biodiversidade. O outro, o lado escuro, seria, para Horgan, o do homem ambicioso e competitivo em luta com o sentimento de ser um retardatário num campo de estudos que estaria mais ou menos completo. Wilson, em confronto com a ansiedade de influência, em vez de reagir ao darwinismo, argumentando sobre suas limitações, optou por fazer a teoria explicar bem mais do que os outros haviam sonhado. A sociobiologia foi o resultado: normas de acasalamento e a divisão do trabalho podiam ser explicadas como respostas adaptativas à pressão evolutiva. Wilson procurou as regras de condutas que regeriam todos os animais sociais. Os que conhecem o debate sabem que as críticas foram duras e, por vezes, além das palavras. Horgan afirma que Wilson teria reconhecido as críticas e também que uma teoria da natureza humana, aquela que vai resolver todas as perguntas sobre nós mesmos, é impossível. Há, portanto, limites cognitivos. Sobre a própria biologia, Wilson manifesta a opinião de que, no campo da teoria da biologia, não existirão mudanças revolucionárias. Assim, os êxitos do passado tornam-se limites no presente, e a tarefa que resta é a de ajustar as constantes para o próximo ponto decimal.

Noam Chomsky foi um crítico intransigente da sócio-biologia e continua sendo radical em suas críticas à sociedade norte-americana e aos sistemas autoritários. A crítica social e política é um dever moral para Chomsky. Desempenha, na argumentação de Horgan, o lugar do superlativo do contestatário. Ninguém, em seu juízo, poderá argumentar que as opiniões de Chomsky sobre a ciência derivam de ser um reacionário. Chomsky, por outro lado, não comunga com as explicações darwinianas do comportamento humano e, portanto, com uma visão da ciência como resultado adaptativo a pressões evolutivas. Entretanto, ele acredita que a estrutura inata de nossa mente impõe limites ao nosso entendimento. Haveria problemas solucionáveis, e também mistérios, e os físicos apenas poderiam criar teorias do que eles sabem como formular. Há campos, para Chomsky, nos quais é quase impossível afirmar que há progresso. O sucesso da ciência dependeria de uma convergência casual entre a verdade sobre o mundo e a estrutura de nosso espaço cognitivo. Porém, diante da pergunta direta de Horgan sobre os limites, retrocede e acusa o establishment de roubar a curiosidade e criatividade das crianças. Horgan apresenta-nos um Chomsky que leva água à idéia geral de que existem limites cognitivos e sociais. Contudo, não consegue extrair dele argumentos fortes no sentido de que os limites já estariam em ação de modo particular no presente, embora fique no ar a interrogação sobre a possibilidade de o cérebro explicar o cérebro.

Clifford Geertz seria o exemplo do cientista irônico sofisticado, que não espera estar descobrindo verdades sobre a natureza. Sua obra, que se tornou modelo de antropologia interpretativa, teria contribuído para a profecia de Stent, no sentido de levar a disciplina das ciências sociais para o terreno do impressionismo e da ambigüidade, da ironia. Os textos de Geertz teceriam um longo comentário sobre si mesmos, e a antropologia interpretativa que desenvolve encontraria seu ‘progresso’ mais no refinamento do debate do que na obtenção do consenso. Assim, Geertz, de pronto, afirma a não convergência. Geertz aceita a atração do modelo da literatura e, também, que resulta difícil traçar a distinção com a antropologia interpretativa. A opção de Geertz pelo modelo da arte estaria sendo determinada pelas dificuldades de uma ciência social empírica? Ou antes, pelos limites para o conhecimento científico do social e do cultural no modelo da ciência empírica? Horgan exalta o talento literário de Geertz e seu refinamento conceitual, especialmente quando se situa na leitura de seus textos que considera marcados por um estilo intermitente, com afirmações arrojadas, pontuadas por inúmeras ressalvas e impregnadas de uma autoconsciência hipertrófica. Contudo, na entrevista, Horgan mostra um Geertz disposto a corrigir a impressão de ser um cético universal. Geertz teria declarado que alguns campos, sobretudo a física, têm capacidade de alcançar a verdade. Teria também enfatizado que a antropologia não seria uma simples forma de arte, vazia de conteúdo empírico: sua teorização responderia à evidência empírica e poderia conseguir um certo tipo de progresso. Nada, porém, em antropologia teria o status dos ramos rigorosos das ciências duras. Na verdade, as coisas estar-se-iam tornando mais complicadas, as receitas perderam seu valor, não haveria convergência. Assim, o progresso de Geertz seria uma espécie de antiprogresso, onde as crenças firmes perdem força e as dúvidas se multiplicam.

A antropologia não é o único campo em luta com suas limitações, e a autoconfiança na ciência não parece a Geertz tão difundida como no passado. Contudo, a ciência social irônica pode continuar a produzir interpretações do mundo que já caminhou adiante, inescrutável como sempre. Ela não levará a lugar nenhum, diz Horgan, interpretando Geertz, mas pelo menos dará o que fazer, se quisermos, para sempre.

A ciência legitimou-se pela afirmação do valor do progresso na esfera da verdade e da utilidade. A ciência pura, enquanto boa, produziria aplicações úteis para os seres humanos enfrentarem as dores da vida, superarem a pobreza, a humilhação, a crueldade e a servidão. Enfim, a aplicação das ciências ajuda os humanos a progredir em suas condições de vida. O argumento utilitário foi o núcleo poderoso da linguagem política em favor da ciência. A construção da prova empírica, em suas relações com a especulação, foi o mecanismo central para assegurar a convergência ou consenso intersubjetivo. O esquema funcionou eficientemente durante quase cinco séculos, talvez com alguns percalços. A ciência aplicada continua ainda potente em seu papel de produzir utilidades a partir de verdades já enunciadas, mesmo que o faça, em muitos casos, com base no conhecimento de uma relação empírica que se funda no desconhecimento da verdade dos mecanismos. Todavia, ela pode continuar funcionando bastante bem a partir do já sabido. Assim, não está em questão o horizonte da aplicabilidade, da utilidade.

As questões situam-se em relação aos valores do conhecer e a seus mecanismos. Se o esquema, o mecanismo central e a esperança estão sendo abandonados em graus significativos, se estamos diante da substituição da ciência empírica por uma ‘ciência irônica’, se não acreditamos em mudanças profundas em termos das verdades já conhecidas, se pensamos que há campos que não oferecem problemas significativos e outros que são apenas mistérios, se algumas destas razões estão em nossas mentes, isoladas ou em conjunto, é mais ou menos natural que se coloque a questão dos limites da ciência. Podemos discordar de Horgan quanto ao encaminhamento de algumas de suas questões específicas, quanto ao modo de tratar os limites em campos particulares de conhecimento e quanto à metodologia de construção de seus argumentos. Contudo, não se pode deixar de observar que sua pedra caiu sobre o telhado, que há valor em suas questões. Fechar os olhos não é uma solução, e talvez, se o telhado não pode ser fortalecido, seja melhor caminhar na direção aberta e clara de uma ‘autoconsciência sofisticada’, e pagando o preço da especulação ironista.

Notas

1Nos‘ Agradecimentos’, pp. 327-8, Horgan indica as datas de publicação da entrevista.

2Tradutora de Horgan, Rosaura Eichember preferiu “angústia e a ansiedade” na tradução da expressão “anxiety of influence”. Marcos Santarrita, tradutor da obra de Bloom, O cânone ocidental (Rio de Janeiro, Objetiva, 1995), optou por ‘ansiedade’. Não tendo em mãos o original inglês de Horgan, inclino-me, a partir de Bloom, a acompanhar a opção de Santarrita.

Referências

LOVISOLO, H. Einstein 1994 ‘A legitimação da ciência na fronteira’. Dados, vol. 37, no 2, pp. 161-78.

LOVISOLO, H. Einstein 1991 ‘Uma viagem, duas visitas’. Estudos Históricos, no 7.

BLOOM, Harold 1992 The anxiety of influence: a theory of poetry. Nova York, Oxford University Press


Resenhista

Hugo Lovisolo – Doutor em antropologia social, professor da universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ). E-mail: lovisolo@momentus.com.br


Referências desta Resenha

HORGAN, John. O fim da ciência: uma discussão sobre os limites do conhecimento científicoSão Paulo: Companhia das Letras, 1998. Resenha de: LOVISOLO, Hugo. Da empiria à ironia. História, Ciência, Saúde-Manguinhos. Rio de Janeiro, v.6, n.1, mar./jun. 1999. Acessar publicação original [DR]

Os indesejáveis: desclassificados da modernidade.  Protesto, crime e expulsão na capital federal (1890-1930) | Lená Medeiros de Menezes

MENEZES, Lená Medeiros de. Os indesejáveis: desclassificados da modernidade.  Protesto, crime e expulsão na capital federal (1890-1930).  Rio de Janeiro: EDUERJ, 1996. Resenha de: NEVES, Lúcia Maria Bastos P. das. Revista Maracanan. Rio de Janeiro, v.1, n.1, p.134-136, 1999.

Acesso apenas pelo link original [DR]

 

 

 

 

 

 

 

 

História social da criança abandonada – MARCÍLIO (AN)

MARCÍLIO, Maria Luiza. História social da criança abandonada. São Paulo: Hucitec, 1998. Resenha de: FENELON, Déa. Anos 90, Porto alegre, v.7, n.11, p.186-193, 1999.

Déa Fenelon – Professora doutora em História pela Universidade Federal de Minas gerais.  Acesso apenas pelo link original

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La política en las calles: entre el voto y la movilización (Buenos Aires, 1862-1880) | Hilda Sabato

Após a publicação de alguns artigos acerca das práticas políticas portenhas nos anos da chamada formação nacional Argentina, Hilda Sabato apresenta-nos agora os resultados finais de sua pesquisa. (Sabato, 1992, 1993) Nesse projeto, a historiadora tem se preocupado em perceber como a população de Buenos Aires se relacionou com o poder e quais foram os canais de comunicação legítimos entre Estado e sociedade.

Essa preocupação historiográfica pelas relações governantes-governados não tem sido exclusividade de pesquisadores da Argentina. Tanto lá como aqui, o fim do regime militar e a retomada do processo democrático têm colocado para as ciências sociais a necessidade de perceber as forma como a sociedade estabelece pressão política sobre o Estado. Ou seja, quais as formas possíveis de se exercer a cidadania. Nesse sentido, essa obra sobre o caso portenho é um belo contraponto para o estudo de José Murilo de Carvalho sobre Os bestializados do Rio de Janeiro nos primeiros anos da República (Carvalho, 1987, 1990, 1997). Leia Mais

Colônia e nativismo: a história como “biografia da nação” | Rogério Forastiere da Silva

Uma essência nacional que esteja presente qualquer que seja a situação histórica do Brasil, no passado, no presente e no futuro: essa é a base do pensamento nacionalista construído a partir de cima, usuário da história e de seu ensino para fazer-se presente na memória coletiva. Isso fica claro – exemplo banal, mas com o mérito de ser contemporâneo – na propaganda da Rede Globo para as comemorações dos 500 anos do descobrimento, que não são chamadas dessa maneira. Diversamente, o locutor não se cansa de repetir todos os dias: faltam tantos dias para os 500 anos do Brasil. Não do descobrimento ou do que lhe equivalha. Sem outras palavras, a história que aí se ensina pondera que o Brasil é um ente trazido definitivamente à luz por Cabral e que, a partir daí, existe de forma cada vez mais completa e complexa, alcançando-nos no presente.

Esse olhar sobre a história nacional toma o seu objeto central, a nação, como um corpo, como um sujeito no tempo: existe potencialmente no passado como um embrião, nasce com a chegada dos portugueses à costa, emancipa-se com a Independência e alcança a maturidade num passado bem recente. Segundo Forastieri da Silva, a partir de Antonio Gramsci, essa é a perspectiva que lê a história como biografia da nação, como se a mesma fosse uma vontade ou um desígnio homogêneo, e por isso silencia todos os eventos em que essa unidade é posta à prova. Silencia ou integra, modificando o seu sentido e integrando-o a uma marcha em que tudo conduz, inexoravelmente, para o que há hoje. Leia Mais

Nem tudo era italiano. São Paulo e pobreza (1890-1915) | Carlos José Ferreira dos Santos

A primeira impressão que o livro de Carlos José suscita é de espanto. Será possível que ele pretenda refutar a imensa influência da imigração européia no crescimento e na transformação da cidade de São Paulo entre fins do século XIX e início do XX? Mais especificadamente, será que ele pretende negar a esmagadora presença física e cultural dos italianos na população paulistana e o seu papel decisivo na industrialização e nas lutas operárias daquele momento, conforme décadas de trabalho historiográfico tem demonstrado? [1]

Essa impressão se desvanece com facilidade na leitura do trabalho. Longe de negar o poder do dilúvio italiano que mudou profundamente a vida da cidade naquele período, ele procura anexar a este contexto um dado novo e relativamente pouco explorado: a presença de uma população de trabalhadores pobres nacionais, via de regra negros, que deram uma contribuição decisiva à vida da cidade daqueles anos, mas que permanecem escondidos nas brumas da História. Leia Mais

O livro da Ordem de Cavalaria | Ramon Llull

LLULL, Ramon. O livro da Ordem de Cavalaria. Tradução, apresentação e notas de Ricardo da Costa. São Paulo: Editora Giordano; Instituto Brasileiro de Filosofia e Ciência Raimundo Lúlio, 2000. Resenha de: OLIVEIRA, Josemar Machado de. Dimensões. Vitória, n.9, p. 193-196, 1999. Acesso apenas pelo link original [DR]

Supermadre: la mujer dentro de la política em América Latina | Elsa M. Chaney

CHANEY, Elsa M. Supermadre: la mujer dentro de la política em América Latina. Mexico: Fondo de Cultura Económica, 1983. Resenha de: NADER, Maria Beatriz. Dimensões. Vitória, n.8, p.133-137, 1999. Acesso apenas pelo link original [DR]

Multidões em cena: propaganda política no varguismo e peronismo | Maria Helena Rolim Capelato

Conhecida pela sua larga produção intelectual, a profª. Maria Helena Capelato é autora de O Bravo Matutino, Imprensa e ldeologia: O Jornal ”O Estado de São Paulo”, (em co-autoria com Maria Lígia Prado), O movimento de 1932: A causa Paulista, (em co-autoria com Carlos Guilherme Mota), Imprensa e História do Brasil, e Os Arautos do Liberalismo: Imprensa Paulista 1920-l94. Como se pode notar, teve sua preocupação centrada nos anos 30 e em especial no Estado Novo e na análise da imprensa no período, e agora apresenta-nos mais este livro, que é um estudo sobre o varguismo e o peronismo.

Multidões em cena tem como objeto o estudo comparado entre o varguismo e o peronismo no tocante ao significado da propaganda política idealizada e posta em prática, tanto pelo Estado Novo (1937) como pelo Peronismo (1945-1955). Estes regimes, por sua vez, inspiram-se nos métodos de propaganda nazista e fascista, adaptados para a realidade histórica brasileira e argentina, pois, nesse período, estes países têm necessidades de projetar-se enquanto Estado-Nação, e dessa maneira, nada mais adequado do que inspirar-se nas nações ditas civilizadas, daí, a inter-relação de idéias que havia no período do entre-guerras nos países que adotaram políticas antiliberais. Leia Mais

A transfiguração do político: a tribalização do mundo | Michel Maffesoli

Na obra A transfiguração do político: a tribalização do mundo, Michel Maffesoli se propõe a demonstrar que passou o tempo da política, a qual por não estar mais capacitada para enfrentar os desafios do momento, tornou-se objeto de desconfiança geral. A política perdeu a força de atração porque as pessoas não querem mais adiar o gozo, numa espera messiânica do paraíso celeste ou da ação urdida para um amanhã que canta, ou outras formas de sociedades futuras reformadas, revolucionadas ou mudadas. Somente o presente vivido aqui e agora com outros importa.

O autor nos diz que, ao longo da História humana, sempre existiu uma força imaterial, imaginal que deu sustentação ao político. Há sempre na origem de qualquer coletividade uma idéia fundadora: mito, história racional, fato legendário, pouco importa, tal idéia serve de substrato à dominação legítima do Estado. O político é uma instância, que, na sua acepção mais forte, determina a vida social, limita-a, constrange-a e permite-lhe existir. Se referindo à servidão voluntária, o autor afirma que existe uma curiosa pulsão que força a submissão a outro, a aceitar chefes, um efeito de estrutura ou lei natural inexorável que incita a dobrar a espinha e a aceitar de alguém ou alguns a lei: o bem, o verdadeiro, o desejável e o contrário disso tudo. Quando reina absoluto (o que nem sempre acontece), a coerção é a marca do político. Qualquer que seja o nome com o qual se condecora, o detentor do poder cristaliza a energia interna da comunidade, mobiliza a força imaginal que a constitui como tal e assegura o bom equilíbrio entre esta e o meio circundante, tanto social quanto natural. Portanto, todo poder, que tem sua origem legitimada por uma espécie de contrato, de consentimento, pode até mesmo impor a coerção, mas se trata aí, paradoxalmente, de coerção consentida. Para que a coerção política possa funcionar, deve-se aceitar a evidência de sua autoridade moral, deve-se, de certa maneira, ter fé nela. Ou seja, qualquer imposição repousa sobre uma forma de aceitação. Um regime político sobreviverá enquanto corresponder às aspirações da base. Leia Mais

Cartas Anuas de la Província Jesuítica del Paraguay (1641 a 1643) | Ernesto Maeder

Encontrar documentos “perdidos” é uma das compensações para aqueles que labutam em arquivos. Mas é muito mais compensador quando se consegue publicá-los em adequada edição diplomática, com introdução, notas explicativas, índices, ilustrações e análises críticas. Isso constitui valiosa contribuição aos demais pesquisadores e aos leitores comuns, reduzindo as horas a serem passadas em arquivos, na leitura de originais e, na atualidade, uma significativa “redução de custos”. Também pode atingir um público que normalmente não teria fácil acesso para ler um original de meados do séc. XVII, carregado de abreviaturas, escrita nem sempre legível, redigida em espanhol já arcaico, perdido em um canto obscuro do imenso arquivo da Real Academia de la História, em Madri.

A resenha que segue apresenta uma publicação com essas propriedades. O autor dessa bem sucedida empresa, Ernesto J. A. Maeder, é um notório estudioso da História e da Demografia Histórica do Nordeste Argentino e da Província Jesuítica do Paraguai. Além da sua profícua produção, também se destaca pela edição de inéditos e reedição de obras raras. Suas edições compreendem outras cartas ânuas, de 1632-1634 e 1637-1639 (Maeder, 1984, 1990), e reedições com anotações críticas de livros fundamentais há muito esgotados, como a Conquista Espiritual hecha por los religiosos de la Compañia de Jesus en las Províncias de Paraguay, Paraná, Uruguay y Tape (Montoya, 1989) e a Breve relación de las Misiones del Paraguay (Cardiel, 1994). Leia Mais

Negros e brancos em São Paulo (1888-1988) | George Reid Andrews

Resenhista

Heliane Prudente Nunes – Professora do departamento de História da UFG. Doutora em História Econômica pela USP em 1996.

Referências desta Resenha

ANDREWS, George Reid. Negros e brancos em São Paulo (1888-1988). Trad. Magda Lopes. Revisão técnica e apresentação de Maria Lígia Coelho Prado. Bauru, São Paulo: EDUSC, 1998. Resenha de: NUNES, Heliane Prudente. História Revista. Goiânia, v.4, n.1-2, p.133-136, jan./dez.1999. Acesso apenas pelo link original [DR]

As formas do mesmo: ensaios sobre o pensamento historiográfico de Varnhagen e Oliveira Viana | Nilo Odália

Resenhista

João Alberto Costa Pinto – Professor Assistente do Departamento de História da UFG.

Referências desta Resenha

ODÁLIA, Nilo. As formas do mesmo: ensaios sobre o pensamento historiográfico de Varnhagen e Oliveira Viana. São Paulo: Fundação Editora UNESP, 1997. Resenha de: PINTO, João Alberto Costa. História Revista. Goiânia, v.4, n.1-2, p. 137-143, jan./dez.1999. Acesso apenas pelo link original [DR]

Historia General de Chile – ARANA (RCA)

ARANA, Diego Barros. Historia General de Chile. Santiago: Editorial universitária y Centro de Investigaciones Diego Barros Arana, 2000. Resenha de: RODRÍGUEZ, Mario Orellana. Revista Chilena de Antropologia, n.15, p.169-172, 1999.

Acesso apenas pelo link original

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Debaixo da imediata proteção de Sua Majestade Imperial: o Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro (1838-1889) | Lucia Maria Paschoal Guimarães

GUIMARÃES, Lucia Maria Paschoal.  Debaixo da imediata proteção de Sua Majestade Imperial: o Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro (1838-1889).  Rio de Janeiro: Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, 1997. Resenha de: MOREL, Marco. Revista Maracanan. Rio de Janeiro, v.1, n.1, p.137-138, 1999.

Acesso apenas pelo link original [DR]

Formarse como profesor – MARTÍNEZ (RTDCS)

MARTÍNEZ, José María Rosada. Formarse como profesor. Madrid: Akal Ediciones, 1997. Resenha de: ARCHILA, Marleny Rivas. Revista de Teoría y Didáctica de las Ciencias Sociales, v.4, n.4, p.210-211, 1999.

El profesor José María Rosada Martínez, a partir de su propia experiencia académica y de investigación, nos presenta una propuesta teórico – práctica para la formación inicial y permanente del profesorado del área de ciencias sociales, basada en presupuestos ontológicos, gnoseológicos, epistemológicos y metodológicos de la didáctica de las ciencias sociales.

En esta guía se desarrollan siete trabajos desde una posición crítica de la enseñanza de las ciencias sociales, cuyo objetivo principal es asumir con responsabilidad ideológica y moral la actividad de la enseñanza y el aprender, comprometiendo a la escuela en el servicio a los ideales del ser humano.

Los temas desarrollados se refieren a:

  1. ¨Compilaciones¨ teóricas e ideológicas imprescindibles para plantearse cualquier cuestión referida a la enseñanza institucionalizada.
  2. La formación de un profesor bajo una perspectiva crítica.
  3. Algunos instrumentos y formas de organización para llevar a cabo un proceso de formación permanente.
  4. Las fuentes: Pedagogía, Psicología, Sociología y las disciplinas que se enseñan.
  5. Los objetivos: cuestiones de forma para no distraerse del fondo.
  6. Los contenidos: entre las disciplinas académicas y la vida de los alumnos.
  7. Las actividades: la conveniencia de buscarles algún fundamento y darles un cierto orden.

Es importante y significativa la publicación para los estudiantes y profesionales de educación, interesados en conocer los avances de las investigaciones científicas relacionadas con el proceso de enseñanza – aprendizaje de las Ciencias Sociales, en la educación primaria y secundaria obligatoria.

La propuesta nos convoca a la reflexión y discusión sobre la formación permanente del profesorado en general y de quienes enseñan ciencias sociales en particular.

Marleny Rivas Archila – GITDCS. Universidad de los Andes-Venezuela.

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Los viejos y la vejez en la Edad Media. Sociedad e imaginario -HOMET (RBH)

HOMET, Raquel. Los viejos y la vejez en la Edad Media. Sociedad e imaginario. Rosario, Pontificia Universidad Católica Argentina/Faculdad de Derecho y Ciencias Sociales del Rosario, 1997, 257 p. Resenha de: SOUZA, Néri de almeida. Revista Brasileira de História, São Paulo, v.19 n.38, 1999.

Desde o pioneirismo de Philippe Ariès, a morte não deixou de interessar aos historiadores. Medievalistas e modernistas exploraram e ainda exploram com interesse as possibilidades deste objeto. À visão panorâmica de Ariès se seguiram estudos regionalizados, com recortes temporais mais estreitos, baseados em uma documentação mais homogênea, e sobretudo, um grande número de objetos correlatos ou que se beneficiaram do tema ganharam luz como a história da espiritualidade, da liturgia, da família, da sensibilidade e mesmo das relações de poder e a história social.

O olhar de Ariès sobre a infância, no entanto, não despertou interesse de igual intensidade. Embora os trabalhos inspirados em sua pesquisa nunca tenham deixado de aparecer, são claramente menos numerosos e influentes. O estudo de uma faixa etária específica de um conjunto social apresenta evidentemente inconvenientes metodológicos que devem estar relacionados a tal carência. É o caso da dificuldade de se abordar com objetividade grupos isolados em um conjunto social. Impedimento que, de resto, afeta a já antiga e melhor desenvolvida história das mulheres. Para os períodos mais antigos não seria sequer necessário lembrar a parcialidade documental como inviabilizadora de uma história que repercuta nossas necessidades de descoberta e comprovação.

A historiografia destes segmentos sociais vê-se, assim, conformada a limites cuja ultrapassagem apenas os mais esperançosos podem divisar. Mesmo o recurso à arqueologia, que, embora ainda tímida, ganha cada vez mais importância entre os medievalistas, não promete um desbravamento muito amplo. Mas para além das dificuldades metodológicas, impedimentos mais profundos talvez guiem nosso desinteresse por recortes etários que fogem às vozes dominantes em nossa documentação. Neste momento histórico de uma valentia ímpar na proposta de objetos historiográficos, talvez vivamos uma ambigüidade na historiografia semelhante àquela que temos em nosso cotidiano político.

A criança, a mulher e o idoso fazem parte de um discurso constante de defesa e proteção que não repercute na maior parte de nossos gestos e preocupações quer em nossa vida institucional quer em nosso cotidiano. Para a Idade Média a valorização destes três objetos deveria dar-se ao menos devido à sua ligação com o tema da morte cuja relevância social, política e religiosa tem sido atestada em inúmeros trabalhos. Estas três personagens de relações extremas com a morte por si só seriam emblemáticas de uma experiência com os limites da vida do ponto de vista da cultura medieval e poderiam orientar uma releitura de documentos escritos com os olhos em outros resultados históricos e ambientes sociais.

Estes fatos fazem com que a opção temática da professora Raquel Homet já torne seu trabalho louvável, pois preenche de forma oportuna uma lacuna e um silêncio que, infelizmente, afetam não apenas a história medieval mas também a contemporânea. Tais circunstâncias fazem de seu trabalho uma pesquisa historiográfica de grande importância, mas também um atualíssimo alerta social. No entanto, neste caso, a ousadia exige seu preço, e o historiador tem de se debater com um campo aberto carente de apoio para firmar suposições. Por isso, a professora Raquel Homet acerta na opção por uma obra ampla cronologicamente e tematicamente abrangente. Seu texto se organiza em dois grandes blocos em que a autora estuda sucessivamente retratos da condição social do idoso e da consideração da velhice e representações dos mesmos na longa duração da história castelhana que vai do século VIII ao XV.

As duas partes da obra sintetizam um problema fundamental do pensamento sobre as idades da vida no período, quando estas foram quase sempre influenciadas por um enquadramento mítico que as relacionava ora a uma escala de decadência ora a uma consumação temporal que aproximava seus extremos da beatitude. A autora procura acompanhar a mudança desta perspectiva que, segundo ela, acontece com o aparecimento de uma visão mais objetiva do idoso ao longo das mudanças demográficas do final da Idade Média. No entanto, as representações mentais não deixam de, à sua maneira, acompanhar este movimento no ressurgimento compensatório de outras tradições que vinculavam a velhice à sabedoria e à pureza espiritual1.

Os resultados apresentados na primeira parte da obra foram obtidos a partir da análise de um conjunto documental tão vasto quanto heterogêneo. Foram pesquisadas correspondências particulares e institucionais, cartas de doação, testamentos, legislação, literatura, regras religiosas, textos teatrais e hagiográficos de Castela e, por vezes, de um círculo hispânico mais amplo. Na segunda parte, a documentação perde o caráter exclusivamente regional. São utilizados textos que, embora tenham uma história bem documentada de difusão no território de circunscrição da pesquisa, foram produzidas em outros locais e tiveram circulação em escala européia.

Aqui as fontes também mudam de tom. Mesmo a hagiografia, que na primeira parte teve selecionados exemplares próximos de uma verdadeira biografia, na segunda parte dá lugar à documentação estereotipada da Legenda aurea, por isso mesmo bastante adequada aos imperativos da pesquisa das representações. Embora tenha sido composta na segunda metade do século XIII, a Legenda aurea, com sua hagiografia recolhida sobretudo em fontes da alta Idade Média, segundo a autora, ao lado da interpretação do legado bíblico, fornece o modelo de interpretação da velhice nas representações da alta Idade Média e da Idade Média central. Junto com a Legenda aurea tem destaque o Libro del Conoscimiento de uma anônimo franciscano espanhol e o Libro de las Maravillas del mundo de John de Mandeville, ambos de meados do século XIV.

Francamente motivada por sua experiência pessoal com a “velhice ditosa” de seus avós, a autora se interessa em examinar a definição da velhice ao longo do tempo e as formas de assistência e amparo previstas pelos costumes e pela legislação para o cuidado do sustento, abrigo e saúde do idoso. As dificuldades na perseguição desses objetivos não são mascaradas pela autora. A própria definição do que a sociedade entende como sendo um homem velho é muito difícil no período uma vez que não se trata de uma “questão de idade cronológica mas de apreciação subjetiva”2, não diz respeito também simplesmente à aparência, como para nós. Ademais, as posições apresentadas nas fontes são vagas e contraditórias. No entanto, a autora mostra que, ao menos nos estratos mais altos da sociedade – aqueles que as fontes contemplam com maior precisão – o afastamento das funções sociais não vinha com data marcada, definida por taxas etárias precoces como acontece hoje mas com a incapacidade trazida pela decrepitude física.

Esta situação, segundo Raquel Homet, era responsável por abusos como os deveres de guerra que eram exigidos a cavaleiros idosos. Quadro agravado por uma legislação que apenas no final da Idade Média passou a prever meios institucionais para a manutenção de idosos. Por outro lado, esta “aposentadoria” tardia também permitia, em presença das condições físicas para tal, uma vida social e econômica mais longa que preservava, ao menos por mais tempo, o idoso da “exclusão” e lhe reservava melhor consideração social. No entanto, permanece o fato de que o idoso, incapacitado para se manter, se não podia contar com o auxílio de sua família via-se em situação de indigência. A única opção ficava por conta das instituições eclesiásticas às quais a autora dedica especial atenção.

As dificuldades para abordar a história dos velhos e da velhice na Idade Média não estão limitadas às fontes primárias. A bibliografia apresentada pela professora Homet mostra como a história dos velhos ainda carece de atenção. É ao caráter pioneiro desta pesquisa, portanto, que se devem algumas de suas limitações. A necessária amplitude documental e cronológica deste estudo numa área em que quase tudo ainda está por ser feito, deu ao resultado da pesquisa um caráter desigual. As conclusões não aparecem num mesmo volume ao longo dos diferentes capítulos e partes da obra. A conclusão final, por sua vez, ficou devendo uma correlação mais extensa entre os dois eixos de desenvolvimento da pesquisa: a sociedade e o imaginário. A exposição, segundo uma seqüência cronológica secular, não estabelece uma ligação constante e incisiva da história dos velhos com o desenvolvimento histórico geral da sociedade. Por fim, infelizmente, as fontes não permitem muitos avanços na precisão da origem social dos idosos e mesmo as realidades econômicas dos diversos extratos sociais.

O cuidadoso inventário de fontes de naturezas tão diversas e sua apresentação e análise criteriosa, no entanto, fazem desta obra um amplo panorama de orientação de pesquisa. A riqueza documental que por vezes dificultou a obtenção de resultados, por outro lado, é um manancial de possibilidades de recorte. Implicitamente, a pesquisa da professora Homet indica também a necessidade de se percorrer o caminho de monografias mais circunscritas em termos documentais, no espaço e no tempo. Um exemplo disso pode ser encontrado no capítulo “Longevidad y eterna juventud” que, envolvendo um volume mais amplo de fontes similares às utilizadas, daria um belo livro comparativo. Tal orientação, porém, não abole a importância de visões panorâmicas, aliás tão caras aos trabalhos, já mencionados, de Philippe Ariès.

Cabe ao leitor avaliar com maior profundidade a importância de se prosseguir na exploração desta linha investigativa e decidir se esta não nos levará aos mesmos impasses que outros objetos historiográficos contemporâneos. De nossa parte, o recorte etário parece extremamente oportuno para a abordagem da história medieval, pois fornece um critério alternativo, que podemos considerar universalmente válido que estabelece recortes, funções, valores e relações sociais. Perspectiva antropológica que fornece um ponto de partida que permite ao historiador reatualizar sua consideração do tecido social e das fontes, ultrapassando o critério anacrônico de “classe” e a noção ideológica e elitista das “ordens” do período. Talvez a perspectiva etária nos leve a reavaliar o retrato da sociedade legado por teorias e ideologias e nos aproximem de um perfil mais verossímil das práticas históricas.

Notas

1 HOMET, Raquel. Los viejos y la vejez en la Edad Media. Sociedad e imaginario. Rosario, Pontificia Universidad Católica Argentina\Faculdad de Derecho y Ciencias Sociales del Rosario, 1997, p. 228.

2 Idem, p. 10.

Néri de Almeida Souza – Departamento de História – UNESP – Franca.

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Angola e Brasil nas rotas do Atlântico Sul | Selma Pantoja e José Flávio S. Saraiva

A obra organizada pelos dois historiadores das relações internacionais da Universidade de Brasília traz o Atlântico Sul para o centro das preocupações relativas à inserção externa do Brasil neste final de século. Área privilegiada para a articulação da política africana do Brasil, a porção atlântica ao sul do Equador é explorada em sua dimensão histórica, em particular em seu conjunto de vínculos e relacionamentos que unem o Brasil a Angola dos tempos do grande comércio de escravos até os desdobramentos das atuais relações bilaterais entre os dois Estados. Os organizadores, no entanto, nos alertam, já na apresentação do livro, que a “riqueza das relações das duas margens do Atlântico” não se reduz à lógica do tráfico atlântico de escravos. Intercâmbios diversificados proporcionaram uma vida bastante mais arrojada e múltipla à convivência de angolanos e brasileiros no Atlântico Sul.

Os autores utilizam a brecha aberta pelos debates acadêmicos em torno dos quinhentos anos da chegada dos portuguesas ao Brasil para explorar o ângulo das motivações que tornaram brasileiros, portugueses e angolanos competidores ou colaboradores no espaço atlântico. Vereda de intensa movimentação comercial bem como de intercâmbio de idéias, experimentos políticos e culturais comuns, as rotas do Atlântico são apresentadas nos sete capítulos que compõem a obra como uma área de construção civilizacional. Reivindicam os autores a noção de um espaço de construção civilizacional como, em certa medida, acostumamo-nos a perceber o Mediterrâneo euro-africano. Leia Mais

O Brasil e o Multilateralismo Econômico | Paulo Roberto de Almeida

Poucos são os trabalhos sobre política econômica externa do Brasil que destacam o papel de entidades como a OCDE ou a UNCTAD no processo de inserção internacional do país. O diplomata e historiador Paulo Roberto de Almeida apresenta neste trabalho um estudo inédito acerca da trajetória do Brasil em foros normalmente negligenciados em obras do gênero, tais como a OCDE e a UNCTAD. O livro aborda, por meio de uma perspectiva histórica, o papel das organizações multilaterais no sistema econômico contemporâneo e como uma ativa interação do Brasil com essas entidades pode facilitar uma melhor inserção internacional do país no cenário da globalização.

Essas relações são vistas em uma perspectiva global e de uma maneira evolutiva, tanto em busca do passado como em uma discussão sobre os problemas atuais da agenda econômica e política do Brasil. A análise faz-se ao abrigo da noção de interdependência, que é o conceito-chave para a compreensão da formação da ordem econômica mundial contemporânea. Leia Mais

O Estudo das Relações Internacionais do Brasil | Paulo Roberto de Almeida

Estudantes e estudiosos das relações internacionais do Brasil e de sua política externa têm, a partir de agora, uma preocupação a menos. O lançamento de Paulo Roberto de Almeida expõe o estado do conhecimento e as tendências atuais da área de estudo das relações internacionais no Brasil. A obra, com características de manual prático e introdutório, preenche uma lacuna há muito constatada.

Em seu primeiro capítulo – “O Brasil no contexto econômico mundial: 1820-1992” –, as relações econômicas internacionais do Brasil constituem o eixo norteador do rápido retrato traçado sobre as relações externas do país, em uma perspectiva comparada. Em termos de crescimento do PIB, a experiência brasileira foi uma das de maior dinamismo do século XX, mas, no entanto, foi acompanhada por uma alta taxa de crescimento demográfico, a “bomba demográfica”, responsável pela diluição dos frutos da expansão do produto interno bruto. Nestes últimos anos, com o plano de estabilização, iniciado em 1994, os índices de crescimento econômico não repetiram desempenhos anteriores e a inserção do país na globalização financeira geraram turbulências financeiras e uma certa inquietação em relação ao futuro mais imediato. Leia Mais

Europa y la globalización. Tendencias, problemas, opiniones | Víktor Sukup

A nova obra do austríaco que se fez latino-americano, nas expressões de Aldo Ferrer no prólogo de Europa y la globalización, evidencia o ângulo de quem, há mais de dez anos, trocou a Áustria pelo Extremo Ocidente. A Europa é revisitada por meio de uma linguagem solta, sem as amarras do excesso de rigor da pesquisa documental do historiador das relações internacionais e com a desenvoltura da tradição ensaísta da América Latina. O europeu converte-se às hostes daqueles que buscam, por intermédio da vontade integradora da explicação e do uso de uma certa sociologia das relações internacionais, uma maneira toda especial de ver a Europa na passagem do milênio.

O norte da obra é o da relação da Europa com o fenômeno da globalização. Encontrará a Europa um lugar próprio na ordem global? Vem a Europa explorando as oportunidades abertas pelas novas rotas produtivas e financeiras mundiais? Há riscos para a inserção competitiva na Europa, particularmente diante da hegemonia norte-americana neste final de século? São essas algumas perguntas essenciais, abordadas por Sukup com elegância e vontade de intervir no espaço das decisões políticas do seu tempo. Leia Mais

We Now Know: Rethinking Cold War History | John Lewis Gaddis

O ano de 1989 é considerado o ano do fim da Guerra Fria, devido ao colapso do mundo socialista, simbolizado pela queda do muro de Berlim, seguida da dissolução da União das Repúblicas Socialistas Soviéticas em 1991. Continuaram, no entanto, os debates a respeito desse fenômeno político singular, que perdurou por mais de meio século. O colapso do comunismo está permitindo aos historiadores do ocidente ter acesso aos arquivos orientais pela primeira vez. O conceituado historiador e especialista em Guerra Fria, John Lewis Gaddis, procura dialogar com essas fontes em sua mais recente obra: We Now Know. Ele procura unir uma sólida bibliografia no campo à pesquisa em novas fontes. Sua proposta seria a de apresentar uma nova história da Guerra Fria.

Segundo Gaddis, nós saberíamos agora que os países democráticos pensavam de forma mais realista do que a URSS e seus satélites. Stalin acreditava que o mundo capitalista jamais conseguiria destruir a revolução russa. Mao iludiu-se em acreditar que a URSS estaria ao lado da recém criada República Popular da China. Kruschev, ao instalar os mísseis em Cuba, acreditava estar assegurando a disseminação do comunismo pela América Latina. Essas posições, mais próximas do romantismo revolucionário do que de uma realpolitick, dificilmente seriam adotadas pelos regimes democráticos, dotados de maior capacidade de autocorreção. A URSS, seus satélites e a China, segundo Gaddis, seriam semelhantes às monarquias absolutas. Leia Mais

Die beiden deutschen Staaten in Afrika: Zwischen Konkurrenz und Koexistenz 1949-1990 | Ulf Enge e Hans-Georg Scheicher

Este livro sobre as políticas africanas dos dois Estados alemães entre 1949 e 1990 pode ser considerado, por duas razões, uma agradável conseqüência da reunificação da Alemanha. Em primeiro lugar, só a abertura dos arquivos da ex-RDA permitiu, pela primeira vez, pesquisar e entender profundamente a política exterior deste Estado. Os dois autores tiraram bastante proveito desta extraordinária oportunidade. Em segundo lugar, a cooperação entre os dois autores simboliza a ruptura política na Alemanha. Ulf Engel, cientista político de Hamburgo, cuja área principal de trabalho são as relações internacionais na África Austral, atuou neste projeto com Hans-Georg Schleicher, historiador, ex-diplomata de carreira da RDA e ex-embaixador deste Estado no Zimbábue que, juntamente com a grande maioria dos seus colegas, foi demitido no processo da reunificação. A pesquisa ganhou significativamente com esta cooperação “desigual”, e com a formação acadêmica e política e as biografias e experiências profissionais tão variadas e distintas dos dois colaboradores. Leia Mais

Diplomacia Brasileira – Palavras, Contextos e Razões | Luiz Felipe Lampreia

A diplomacia brasileira foi sempre um tema reservado para um grupo restrito de pessoas. O hermetismo do debate fez com que as relações internacionais, por muito tempo, não fossem tema de campanhas eleitorais, não ganhassem destaque na mídia nacional, nem mesmo sendo prioridade nos debates do Congresso brasileiro. Essa realidade, porém, vem sendo transformada desde o início da década de 90. O mais recente exemplo da democratização do debate da política exterior do país é o lançamento da obra Diplomacia Brasileira – Palavras, Contextos e Razões, de autoria do Chanceler Luiz Felipe Lampreia.

O livro, da Lacerda Editores, reúne os principais discursos do ministro, com o cuidado de apresentar, de forma coerente, as diretrizes da atuação externa do Brasil nos últimos anos do século XX. Dois são os objetivos da obra: a apresentação das prioridades externas do país e a avaliação das posições tomadas pela diplomacia com relação aos principais temas da agenda internacional.

Sempre com a perspectiva da “busca do desenvolvimento econômico nacional, em todos os seus múltiplos aspectos”, Lampreia aponta os principais eixos externos do país. Entre eles, destaca-se a consolidação do Mercosul, a defesa dos interesses na integração hemisférica, a aproximação à União Européia, as negociações na OMC, a proteção aos direitos humanos, o meio ambiente e a não-proliferação de armas de destruição em massa.

A obra é dividida em quatro partes e cada discurso é precedido por uma introdução, contextualizando o tema e identificando os interesses nacionais. Na primeira parte, o Chanceler apresenta a plataforma completa da política externa do país durante o primeiro mandato de Fernando Henrique Cardoso (1995-1998), marcada pelo resgate das “hipotecas” do país perante à comunidade internacional. Por meio da análises desses discursos, fica evidente a preocupação dos formuladores da política externa nacional por uma inserção plena no sistema internacional, seja ao aderir a acordos multilaterais seja ao consolidar, internamente, políticas de apoio aos direitos humanos e à proteção ambiental.

A segunda seção da obra é dedicada à análise das principais relações bilaterais do Brasil, seja com países do Oriente Médio, África e Europa, seja com os vizinhos. Para o autor, a diversidade de parcerias é um “ativo estratégico” para os interesses brasileiros.

As negociações econômico-comerciais multilaterais (OMC, Mercosul e Alca) estão apresentadas na terceira parte. Lampreia, embora reconheça que a iniciativa de uma Área de Livre-Comércio das Américas (Alca) seja uma proposta norte-americana, aponta o importante paradigma que se estabeleceu na diplomacia brasileira com a ampla e significativa participação da sociedade nos debates sobre o futuro do continente.

Tendo seu ápice durante a reunião ministerial de Belo Horizonte, de 1997, o envolvimento de representantes do setor produtivo, de sindicados e acadêmicos não apenas deu maior legitimidade ao processo decisório da política externa nacional como também estabeleceu um novo parâmetro de relacionamento entre os negociadores brasileiros e os diversos setores da sociedade.

O Chanceler brasileiro, porém, não deixa de destacar que, para que a Alca tenha efeitos positivos para todos os países da região, um tempo necessário de adequação será vital, não apenas para as economias nacionais, mas também para a consolidação da integração sub-regional no Cone Sul.

De fato, o Mercosul é um dos temas que pode ser encontrado em diversos discursos, nem todos direcionados a aspectos econômicos das relações exteriores do país. Lampreia classifica a relação com o principal parceiro do bloco – a Argentina –, como “um exemplo de pragmatismo e bom senso”, reconhecendo a existência de uma dinâmica que envolve, ao mesmo tempo, cooperação e competição.

Os contenciosos que a relação bilateral enfrenta, no ano de 1999, são, segundo o Chanceler, resultado do esgotamento do ciclo inicial de expansão. A solução ocorrerá apenas com a superação das assimetrias de percepções, valorizando a complementaridade das economias da região.

Lampreia não deixa de chamar a atenção, ainda no campo das negociações econômicas internacionais, para o fato de que a proteção da propriedade intelectual foi uma das mudanças mais importante nessa área para a credibilidade do Brasil no exterior.

O Chanceler conclui o livro com a análise de temas políticos e da postura adotada pelo país na ONU, que podem ser resumidas em dois aspectos: a permanente busca pela reforma da instituição e a mudança de atitude do Brasil, seja no cenário interno – direitos humanos e meio ambiente –, seja no ambiente internacional, principalmente com a assinatura do Tratado de Não-Proliferação de Armas Nucleares.

Entre as características do autor, uma das mais evidentes é o realismo que o Chanceler imprime em sua ações. Avesso a “fosforescências fáceis”, Lampreia vem sendo capaz de ver o processo de globalização não apenas como uma ameaça, mas como uma oportunidade para uma inserção positiva do Brasil no cenário internacional.

O autor ressalta que “não podemos mais ignorar o mundo exterior, porque ele chega, queiramos ou não”. De fato, a fronteira entre nacional e internacional vem se diluindo cada vez mais. Porém, ainda ficaremos à espera de que, no futuro, Lampreia, já distanciado desses anos marcantes para a política externa brasileira, nos apresente os bastidores da postura internacional que o país adotou em um momento em que o novo sistema internacional ganha novos contornos.


Resenhista

Jamil Cezar Chade


Referências desta Resenha

LAMPREIA, Luiz Felipe. Diplomacia Brasileira – Palavras, Contextos e Razões. Rio de Janeiro: Lacerda Editores, 1999. Resenha de: CHADE, Jamil Cezar. Revista Brasileira de Política Internacional, v.42, n.2, 1999. Acessar publicação original [DR]

500 anos de Periferia – Uma contribuição ao estudo da política internacional | Samuel Pinheiiro Guimarães

Colônia e metrópole, terceiro mundo e primeiro mundo, países subdesenvolvidos e desenvolvidos, Sul e Norte. A estrutura moderna da comunidade internacional de Estados foi sempre caracterizada por ser hierárquica, ainda que o topo dessa estrutura fosse ocupado, ao longo dos últimos séculos, por potências com características distintas, mas com uma semelhança essencial: o poder de organizar o mundo de acordo com seus interesses. Resgatando o debate quanto aos aspectos que condicionam o sistema internacional, o embaixador Samuel Pinheiro Guimarães, em sua obra 500 Anos de Periferia – Uma contribuição ao estudo da política internacional, analisa a condição periférica do Brasil no atual sistema internacional, apontando os caminhos para a superação dessa realidade que já dura 500 anos.

De fato, o objetivo de Guimarães é desenvolver uma interpretação pragmática dos fenômenos que orientam as relações internacionais e como esses movimentos impactam nos grandes Estados periféricos, nem sempre beneficiados pelo processo de globalização. Entre as características desses Estados, o autor destaca a fragilidade político-econômica e a estreita vinculação com um único centro como razões para que seja realizada uma análise do sistema internacional a partir do ponto de vista periférico. A idéia é de que a marginalização desses países será crescente se não enfrentarem os desafios da nova ordem, como a concentração de poder econômico, político e militar. Leia Mais

Comércio/ Desarmamento/ Direitos Humanos: reflexões sobre uma experiência diplomática | Celso Lafer

Desde o final dos anos 60, quando publicou um artigo pioneiro nesta mesma Revista (“Uma interpretação do sistema das relações internacionais do Brasil”, RBPI, Rio de Janeiro: ano 10, nºs 39/40, 1967, p. 81-100), o professor e empresário Celso Lafer tem sido uma das presenças mais constantes, se não a mais freqüente, na bibliografia brasileira de relações internacionais. Gerações de estudantes das universidades e da academia diplomática (o Instituto Rio Branco do MRE) debruçaram-se sobre seus artigos e livros, dali retirando reflexões inovadoras sobre o papel do realismo e do idealismo na política internacional, lições enriquecedoras sobre as desigualdades intrínsecas entre as nações na ordem política e na economia internacional, sobre a situação do Brasil no comércio internacional, bem como contribuições de alto sentido filosófico e moral sobre a defesa dos direitos humanos e das causas humanitárias em um mundo em mudança. Mas Celso Lafer não apenas desempenhou-se como intelectual de grande brilho nas lides acadêmicas; ele também exerceu seu talento na gestão prática das relações internacionais e na política exterior do Brasil, retomando com isso uma herança familiar, pois que é sobrinho do falecido político Horácio Lafer, que foi ministro da Fazenda do segundo Governo Vargas e Chanceler de Juscelino Kubitschek. Leia Mais

Tratado de Direito Internacional dos Direitos Humanos – Volume II | Antônio Augusto Cançado Trindade

O segundo volume do Tratado de Direito Internacional dos Direitos Humanos se insere em um projeto de grande envergadura do Professor e Juiz da Corte Interamericana de Direitos Humanos Antônio Augusto Cançado Trindade. Trata-se de um momento singular na vida de um autor já consagrado, com inúmeros textos, artigos e livros publicados, que agora se dedica a fazer uma “síntese” de suas reflexões. Síntese, não no sentido comum, mas no sentido da aufhebung hegeliana, ou seja, da superação com conservação. Apoiado em seus escritos anteriores, o autor lança mão de sua imensa erudição e criatividade para dar um salto de qualidade e criar, nesse movimento dialético, uma obra nova que conserva os pilares fundadores de seus escritos anteriores, mas os supera em alcance e complexidade.

Na linha do Volume I, Cançado Trindade inicia o segundo volume pela defesa do caráter especial do direito internacional dos direitos humanos. Diferentemente dos tratados tradicionais, os tratados de direitos humanos prescrevem, segundo o autor, obrigações de caráter objetivo, a serem implementadas coletivamente, e procuram garantir o interesse geral, transcendendo os interesses individuais das Partes Contratantes. Com base nessa constatação, o autor retira algumas ilações referentes à interpretação e aplicação dos instrumentos internacionais de proteção dos direitos humanos (Capítulo XI). Em primeiro lugar, não se pode presumir limitações ao exercício dos direitos consagrados em tais instrumentos, a menos que estejam expressamente formuladas nos tratados. Leia Mais

Solução e Prevenção de Litígios Internacionais | Araminta de Azevedo Mercadante

Uma das conseqüências do chamado processo de globalização é a ocorrência de número crescente de disputas e controvérsias de caráter transfronteiriço. De fato, quanto mais intensa a teia de relações econômicas, jurídicas, e culturais entre países, maior é a probabilidade de que desentendimentos aflorem. Esse processo apresenta como novidade marcante uma ampliação do número de atores na cena internacional, que passa a incluir organizações intergovernamentais e não-governamentais, empresas privadas e mesmo pessoas físicas, multiplicando o universo de contatos internacionais passíveis de gerar conflitos. Nesse sentido, é particularmente oportuno o livro Solução e Prevenção de Litígios Internacionais, coordenado pelos professores Araminta de Azevedo Mercadante e José Carlos de Magalhães, do Departamento de Direito Internacional da USP.

Em se tratando de uma coletânea de artigos, a proposta da obra evidentemente não é a de tratar de nenhum dos tópicos de forma exaustiva, mas de oferecer uma visão panorâmica. Sua heterogeneidade permite ao leitor tomar contato com uma variedade de aspectos relativos à solução de controvérsias internacionais. Mais ainda, os artigos servem como fonte de referências, com alguma legislação pertinente, casos concretos e dados estatísticos. Para efeitos deste comentário, os diferentes textos serão agregados em quatro grupos, tratando respectivamente de arbitragem, de organizações de caráter econômico, de mecanismos vinculados à tradicional estrutura da ONU/Liga das Nações e aqueles de temas mais gerais. Leia Mais

Coroas de Gloria, Lagrimas de Sangue — A rebelião em Demerara em 1823 – COSTA (VH)

COSTA, Emilia Viotti da. Coroas de Gloria, Lagrimas de Sangue — A rebelião em Demerara em 1823. São Paulo, Companhia das Letras, 1998. Resenha de: SÁ, Cristina Isabel Abreu Campolina. Varia História, Belo Horizonte, v.14, n.19, p. 212, nov., 1998.

Este livro e um fino exemplo de um trabalho de pesquisa de primeira classe sobre urna das maiores revoltas de escravo do Novo Mundo. A revolta ocorreu no ano de 1823 na Colônia de Demerara na Guiana, ex-Guiana Inglesa. A autora se propõe a contar a história do missionário evangélico John Smith que, proveniente da Grã-Bretanha para Demerara em 1817, foi acusado de ser o mentor e instigador da referida rebelião.

A região onde o conflito se deu é conhecida corno Costa Leste ocupando urna imensa área de cultivo de açúcar que se estende ao longo do mar por quase 40 Kms a leste da foz do rio Dernerara. Atingindo quase 60 fazendas a partir da fazenda Success pertencente a Jonh Gladstone, a rebelião contou com a participação de 10 a 12 mil escravos que se sublevara, em nome de seus “dreitos”.

O dado que confere singularidade ao conflito foi a interferência do missionários evangélicos que jogaram luz nos desmandos do sistema escravista vigente, em confronto com os senhores (fazendeiros locais) e, as autoridades coloniais que os acusavam simultaneamente de traidores e fanáticos. Outro dado importante no conflito foi que contrariando a esperada atitude de apoio por parte da Metrópole, nos inúmeros atritos entre missionários/colonos, colonos/escravos, as autoridades britânicas nunca se posicionaram radicalmente a favor dos fazendeiros.

A autora justifica a importância de tal pesquisa pelo valor universal do terna da escravidão e, considera o trágico destino do Reverendo Smith emblemático no que concerne a atuação de indivíduos que se distinguem na história corno paladinos da justiça e da igualdade.

Cristina Isabel Abreu Campolina Sá.

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OBS: Resenha incompleta só consta essa página.

A geografia política do desenvolvimento sustentável | Bertha Becker e Mariana Miranda

Esta coletânea reúne textos apresentados no simpósio ‘O desafio do desenvolvimento sustentável e a geografia política’, realizado no Rio de Janeiro em outubro de 1995, por iniciativa da União Geográfica Internacional e do Laboratório de Gestão do Território (LAGET) do Departamento de Geografia da Universidade Federal do Rio de Janeiro. Trata do polêmico tema do desenvolvimento sustentável. Os textos são de geógrafos, economistas, cientistas políticos e sociólogos, e tratam da desigualdade da distribuição dos recursos naturais, do desenvolvimento tecnológico, da globalização econômica, das relações entre problemas locais e globais e da eficácia de programas específicos baseados no controvertido conceito.

A coletânea reúne algumas contribuições conceituais e teóricas valiosas para o refinamento do conceito, possibilitando o seu uso mais preciso, tanto por geógrafos quanto por outros cientistas que pensam sistematicamente as relações entre os recursos naturais e o desenvolvimento sócio-econômico. Alguns artigos são mais propriamente normativos ou opinativos. Há numerosas discussões conceituais. Infelizmente, poucos artigos apresentam resultados de pesquisas originais, baseadas ou não no conceito. O conjunto é heterogêneo, como geralmente acontece com coletâneas, mas a heterogeneidade desse volume tem a desvantagem particular de colocar em dúvida a validade do próprio conceito que lhe dá o título. O volume inaugura uma verdadeira temporada de caça ao conceito de desenvolvimento sustentável. Leia Mais

O jogo da onda: entre na onda da saúde | Sandra Rebello e Simone Monteiro

 

Não são poucos os desafios com os quais, nesta nossa contemporaneidade, têm se defrontado os chamados ‘profissionais da educação’. A bem da verdade, em um mundo marcado pela inflação de fontes de informação e pela difusão de diferentes meios e modos de comunicação, é tarefa difícil discriminar uma categoria profissional específica que possa responder pelos (des)caminhos da educação. E, aos que com ênfase argumentam em torno das diferenças existentes entre informação e formação, só podemos apontar como paradoxal o papel reconhecido e disputado que desempenham os meios de comunicação na formação da opinião pública.

De qualquer forma, sempre é possível considerar que, desde os tempos que nossa memória histórica não consegue alcançar, a educação das novas gerações implica a participação e a responsabilidade de todos os membros das gerações precedentes. Mesmo que tenhamos transferido tal responsabilidade para instituições, nomeadamente a escola e a família, não raras vezes responsabilizamos a ineficiência de nosso sistema de ensino — em última instância, de nossas escolas — pelos índices de desemprego. Diante do noticiário policial, que nos informa do envolvimento de jovens em atos criminosos, automática é a suspeita de que os pais desses ‘infelizes jovens’ falharam na tarefa de preservação dos valores morais da sociedade.

Um observador mais destemperado não titubearia em afirmar que tais posturas são a tradução de um progressivo processo de ausência de responsabilidade, processo que tem por contraface o (nosso) anonimato. Escola e família são duas instituições que nos dão a pista dos contornos de uma sociedade que se estruturou, entre outras divisões, a partir da cisão entre conhecimento e ética.

Bem, antes que algum leitor mais apressado imagine que o que se pretende é o desenrolar de mais um dos discursos ‘pessimistas’ que costumam acometer alguns pobres mortais por ocasião da virada dos séculos, retornemos ao que foi dito no primeiro parágrafo. ‘Desafio’ é a palavra-chave. Melhor dizendo, é o sentimento que tanto nos mobiliza a decifrar os diferentes percursos das histórias das civilizações, como é o sentimento que nos impulsiona a tecer, ou a desvendar, novas rotas de saída-começo. Num ou noutro caminho, um requisito se impõe: sensibilidade para decifrar o ritmo.

Sensibilidade para desvendar o ritmo desta nossa contemporaneidade é o que demonstra o trabalho de Sandra Rebello e Simone Monteiro, O jogo da onda. De resto, como marca de todas as iniciativas e inovações de qualidade, é um trabalho enraizado num sólido terreno, no caso, o Laboratório de Educação Ambiental e em Saúde do Departamento de Biologia/IOC, Fundação Oswaldo Cruz, que é coordenado por Virgínia Schall.

Antecipo os argumentos do elogio. Conforme mencionado nas instruções que acompanham o jogo, “de forma divertida, educativa e motivadora, O jogo da onda esclarece dúvidas e promove reflexões sobre a prevenção do HIV/Aids e a dimensão social do uso indevido de drogas, enfocando questões emocionais, familiares e pedagógicas”. Como proposta pedagógico-metodológica, destaco os méritos do jogo em reapresentar o lúdico como fundamento da cultura e de suas formas de transmissão e resgatar o diálogo como lugar de encontro entre os jovens e os educadores.

O que é o homem? Talvez este seja um dos principais enigmas postos pelo e para o próprio homem, na aventura do conhecimento. Mesmo que adormecida, visto o inevitável (e necessário…) confronto com o ‘pantanoso’ terreno da metafísica, cremos não incorrer em exageros se afirmarmos que esta questão, ainda hoje, subjaz às grandes áreas dos conhecimentos, escusado dizer, científicos, e as mobiliza.

Pois bem, um contemporâneo nosso, se assim ainda for possível definir alguém que habitou este planeta na primeira metade do século XX, ousou inferir uma nova nomenclatura no mosaico de tentativas de definição do que, afinal de contas, vem a ser a espécie humana. Às designações dessa nossa espécie como Homo sapiens, ou Homo faber, Johan Huizinga contrapõe o seu Homo ludens. Para este pensador, é no jogo e pelo jogo que a civilização surge e se desenvolve. Mais do que isso, para Huizinga, “o jogo é fato mais antigo que a cultura”. Dito de outra maneira, “a cultura surge sob a forma de jogo”. Para ele, o jogo é mais do que um fenômeno fisiológico ou um reflexo psicológico, o jogo “é uma função significante, isto é, encerra um determinado sentido”.

Distante de quaisquer vestígios de banalização e vulgarização da existência, Huizinga vê no jogo a própria possibilidade do exercício da criatividade humana. Jogo não é a ausência de critério; está longe de significar a ausência de valores.

O ponto de partida, e de chegada, de seu fascinante trabalho é a afirmação de que, em suas fases mais primitivas, a cultura possui um caráter lúdico, processa-se segundo as formas e no ambiente do jogo. “Regra geral, o elemento lúdico vai gradualmente passando para segundo plano, sendo sua maior parte absorvida pela esfera do sagrado. O restante cristaliza-se sob a forma de saber: folclore, poesia, filosofia e as diversas formas da vida jurídica e política. Fica assim completamente oculto por detrás dos fenômenos culturais o elemento lúdico original.”

Vejamos, em acordo com Johan Huizinga, algumas das características fundamentais do jogo: o jogo é livre, é uma atividade voluntária; o jogo não é vida corrente, nem vida real, é como que fosse um intervalo em nossa vida quotidiana; distingue-se da vida ‘comum’ tanto pelo lugar quanto pela duração que ocupa, ou seja, tem por características o isolamento e a limitação; outra de suas características, talvez a mais marcante, refere-se ao fato de que, na dupla unidade do jogo e da cultura, cabe ao jogo a primazia: ele cria ordem e é a ordem.

No jogo, verificam-se todas as características lúdicas: ordem, tensão, movimento, mudança, solenidade, ritmo e entusiasmo. Em que pese serem estas características marcadamente estéticas e em que pese o fato de que o jogo, enquanto tal, esteja posto para além do domínio do bem e do mal, “o elemento de tensão lhe confere um certo valor ético, na medida em que são postas à prova as qualidades do jogador: sua força e tenacidade, sua habilidade e coragem e, igualmente, suas capacidades espirituais, sua ‘lealdade’”. No jogo, não existe possibilidade para a manifestação de quaisquer ceticismos. Nele, o jogador, “apesar de seu ardente desejo de ganhar, deve sempre obedecer às regras do jogo”.

O quanto tenhamos ocultado o Homo ludens do cotidiano de nossas vidas, ou o quanto nos permitimos acreditar que ‘ele’ se manifesta nas nossas horas programadas para o lazer, seriam temas para especialistas mais qualificados. Aqui, importa brindar um trabalho que alia o lúdico à seriedade. Trabalho que é resposta ao desafio posto pela realidade de vida dos jovens que têm por morada as metrópoles do final do século XX.

Por concordar com a formulação de Huizinga, não considero que utilizar o jogo como recurso educativo, por si só, seja um argumento de pouca monta para destacar os elementos de qualidade que caracterizam O jogo proposto por Sandra Rebello e Simone Monteiro. Mas cabe destacar outro argumento de singular significado. Nos termos em que foi formulado, O jogo da onda é um convite ao diálogo, ou seja, está implícita na metodologia proposta a negação de ser mais um dos inúmeros manuais de comportamento e conduta. Nesse sentido, está em consonância com o que de melhor foi realizado na área denominada educação e saúde. A título de exemplo de realizações nessa linha e, antes de tudo, por homenagem, eu lembraria os nomes de Hortência Holanda e Joaquim Alberto Cardoso de Melo.

Um significativo trabalho de pesquisa precedeu a elaboração de O jogo da onda. Tendo por preocupação apreender a percepção dos jovens no que se refere ao consumo e à dimensão social das drogas, uma pesquisa de campo foi realizada com jovens na faixa etária de 12 a 18 anos, regularmente matriculados na rede escolar de ensino do estado do Rio de Janeiro. Os resultados da pesquisa indicaram, entre outros problemas, a precariedade dos programas e iniciativas que visam à prevenção do uso indevido de drogas. Esta constatação ratificou a importância de que a equipe continuasse o desenvolvimento de jogos, tanto como recurso educativo quanto como recurso metodológico de pesquisas subseqüentes relacionadas ao tema.

No entanto, o trabalho é significativo não apenas por ter utilizado uma bibliografia pertinente, ou por ter analisado com competência os resultados da pesquisa de campo. A preocupação em penetrar no universo simbólico dos jovens de forma a permitir a construção de recursos educativos que, além de transmitir informações, sejam pontes de diálogo entre as diferentes gerações é marca importante deste trabalho de pesquisa.

É bem verdade que o que estou destacando como aspecto significativo deste trabalho — a sintonia entre as preocupações do ponto de partida e o produto final — em princípio pode parecer não mais que uma obviedade metodológica. Mas quando o tema envolve nosso papel e nossa responsabilidade na orientação das novas gerações no que se refere à descoberta da sexualidade, ao uso de drogas, à indicação dos valores que devem nortear a conduta dos jovens diante da curiosidade e da sedução provocadas pela possibilidade de experimentar novas sensações, que obviedade deverá nos orientar no cumprimento desta ‘tarefa’?

No encarte de apresentação de O jogo da onda, as autoras registram pelo menos duas constatações que considero deverem entrar na ‘pauta’ de nossas reflexões: no que diz respeito ao uso de drogas, “muitos pais não se sentem capazes de orientar os filhos corretamente, além de terem receio de que a simples menção do assunto drogas possa despertar o interesse pelo consumo”; no que diz respeito ao papel da escola na prevenção ao uso de drogas, as autoras questionam “a possibilidade da manutenção de um diálogo claro e aberto entre professores e alunos, visto que o conhecimento dos profissionais de ensino sobre drogas muitas vezes é mais restrito que o dos estudantes”.

No mesmo encarte, sem meias-palavras, Francisco Inácio Bastos provoca o início de O jogo, afirmando que o uso de substâncias ativas sobre o sistema nervoso central e o psiquismo é um dos problemas mais angustiantes deste final de século e, também, um dos hábitos mais antigos da humanidade, um hábito que, associado ao descompasso que se verifica entre o desenvolvimento das modernas tecnologias e o aprendizado, ou regulação, dos limites do consumo dos produtos destas tecnologias, vira sinônimo de problema social. À lista de problemas decorrentes do consumo de drogas, acrescentou-se, nestas duas últimas décadas, o da transmissão da Aids.

Pois bem, se entrecruzarmos as constatações feitas pelas autoras com o convite-provocação de Francisco Inácio Bastos, e se não estivermos convencidos da eficácia de determinados códigos de conduta moral, os quais, em geral, são estabelecidos à revelia da realidade do cotidiano da vida dos homens, resta-nos aceitar o desafio da aventura do diálogo.

Diálogo, relação, encontro, estas são algumas das pistas para que nos aproximemos da ontologia relacional de Martin Buber. Certa vez, em resposta a um interlocutor que lhe solicitava que apresentasse os segredos do ofício do educador, Buber respondeu: “Não tenho ensinamento algum, mas conduzo um diálogo. Não tenho ensinamentos a transmitir. Apenas aponto algo, indico algo na realidade, algo malvisto ou escassamente avistado, tomo quem me ouve pela mão e o encaminho à janela.”

Tal declaração pode perder a força de seu sentido se não tivermos demarcado em nossos horizontes de percepção o fato de que toda obra de Buber é construída a partir do pressuposto de que vida é relação. O eu só se torna eu no encontro com o outro.

Ousando uma definição, diríamos que o motivo desta resenha foi a apresentação de um jogo dialogal. O ponto de interseção entre o jogo e o diálogo é a surpresa. Favorecer a surpresa do encontro é o que desejamos aos que entrarem na onda deste jogo.

Referências

BUBER, Martin.1985. Que es el hombre?. México, Fondo de Cultura Económica.

BUBER, Martin.1982. Do diálogo e do dialógicoSão Paulo, Perspectiva.

BUBER, Martin. 1979. Eu e tu. São Paulo, Cortez e Moraes.

HUIZINGA, Johan. 1993. Homo ludensSão Paulo, Perspectiva.


Resenhista

Bianca Antunes Cortes – Pesquisadora da Casa de Oswaldo Cruz, COC/Fiocruz.


Referências desta Resenha

REBELLO, Sandra; MONTEIRO, Simone. O jogo da onda: entre na onda da saúde. Rio de Janeiro: Laboratório de Educação Ambiental e em Saúde; Instituto Oswaldo Cruz; Fiocruz; Edições Consultor, 1997. Resenha de: CORTES, Bianca Antunes. O jogo da onda: um convite ao diálogo. História, Ciência, Saúde-Manguinhos. Rio de Janeiro, v.5, n.3, nov. 1998/fev. 1999. Acessar publicação original [DR]

A escola dos Annales (1929-1989): A Revolução Francesa da historiografia – BURKE (VH)

BURKE, Peter. A escola dos Annales (1929-1989): A Revolução Francesa da historiografia. São Paulo: Editora da UNESP, 1992. REIS, José Carlos. Annales: a renovação da história. Ouro Preto: Editora da UFOP, 1996. Resenha de: LOPES, Marcos Antonio. Varia História, Belo Horizonte, v.14, n.19, p. 209-212, nov., 1998.

Dois livros tematicamente aparentados, e que quase se confundem pelo conteúdo de seus títulos. E as semelhanças não se esgotam nisso. A concepção geral das duas obras converge numa distribuição quase idêntica das matérias em análise. O período abordado e praticamente o mesmo. Os autores tencionam traçar um quadro amplo do desenvolvimento da chamada Escola dos Annales, desde os tempos de seus heréticos pais fundadores – pela explosão inovadora de suas idéias em meio a um ambiente intelectual conservador — Lucien Febvre e Marc Bloch, até o final da década de 80.

Na verdade, esta é a intenção maior de Burke e de Reis, que acabam por estender o que seria o projeto de uma história circunscrita dos Annales. Escrever uma história dos Annales partindo somente de seus fundadores seria fazer uma “história de pernas curtas”, como diria o próprio Lucien Febvre. Ao tentarem compreender o conteúdo “revolucionário” da história proposta por Febvre e Bloch, alargam o foco da pesquisa, descendo ao leito complexo do pensamento filosófico, da sociologia e da história, da forma corno eram concebidas estas disciplinas no século 19, o que Peter Burke chama – para esta última área – de “o Antigo Regime da historiografia”. Nesse percurso, Burke e Reis estabelecem as “genealogias”, febvriana e blochiana, identificando as raízes mais profundas das filiações teóricas e metodológicas dos fundadores, para explicar de que forma foram absorvidas e de que modo atuaram as influências recebidas em meio aos primeiros “debates e combates” travados na luta pela elaboração de uma história renovada.

Outra convergência dos textos: analisam as obras mais importantes, os maiores “monumentos” erguidos pelos Annales, como Os Reis Taumaturgos de Bloch, o problema da descrença (…) de Febvre, 0 Mediterrâneo e o mundo mediterrâneo (…) de Braudel, Camponeses do Languedoc de Le Roy Ladurie, entre outros. Ambos percorrem as “três gerações” dos Annales, sendo que Reis pretende avançar este quadro, levando a pensar numa “Quarta geração” surgida do tournant critique de 1988.

Entretanto, apesar de algumas semelhanças de superfície, trata-se de textos acentuadamente distantes um do outro. Com efeito, as obras de Burke e Reis são ótimos exemplos de como pesquisadores que se debruçam sobre um mesmo objeto podem obter resultados desiguais, podem chegar a respostas convergentes ou divergentes, sem que necessariamente uma delas esteja incorreta ou deva ser refutada. Abandonadas as exageradas pretensões cientificistas na história, o que conta para um bom resultado da pesquisa é o seu “questionário”, ou seja, o programa do pesquisador, o grau de complexidade de suas perguntas, o amadurecirnento intelectual de seu projeto, como, a propósito, enfatiza Reis. Não que os dois trabalhos destoem quanto a qualidade e rigor, antes pelo contrário.

A diferença está em outra parte, isto é, no calibre da discussão, no fôlego e na disposição em discutir amplamente as matérias. Se os autores seguem um roteiro semelhante, corno foi ressaltado, existem sensíveis disparidades na estratégia de seu desenvolvimento. Não há dúvida de que o livro de Burke é mais leve, de leitura mais fácil, muito mais dinâmico e povoado de personagens que fizeram e ainda fazem a história da historiografia de nosso tempo. Por outro lado, o livro do professor Reis e mais te6rico, mais “sisudo”, e bem mais compacto. Acerca desse aspecto, vale ressaltar que aquilo que Burke discute em dois ou três parágrafos, de maneira quase alusiva, Reis desenvolve em diversas páginas. Para ficar em alguns poucos exemplos, basta comparar o tratamento que recebem as influências fecundas de Max Weber, Ernile Durkheirn, Frangois Simiand e Henri Berr. Em média, sete ou oito páginas de análise profunda de cada um!

Desse modo, seria o caso de indagar: em dois livros que têm propósito comum de informar sobre urna mesma questão, de onde vem o descompasso? A resposta para isso talvez possa ser encontrada no “espirito” de cada obra, na intenção de cada autor, naquilo que se refere ao público-alvo que eles tinham em mente corno destinatário de seus textos.

Ora, o livro de Peter Burke é quase urna obra de circunstancia, no sentido de se voltar claramente para o grande mercado editorial – no que, aliás, teve bastante êxito numa área em que, apesar da presença de alguns títulos consagrados, ainda há um considerável vazio de textos dessa natureza. Poder-se-ia objetar que o livro em questão foi publicado por urna editora universitária, preocupada em destinar obras de grande valor acadêmico para um público restrito. Contudo, a Editora da Unesp há anos já está inserida no circuito comercial das grandes editoras nacionais, desempenhando, diga-se de passagem, um papel brilhante.

Já o livro de Reis e extrato de tese, escrita para atender a uma rigorosa banca examinadora europeia, visto que seu trabalho foi defendido na Universidade Católica de Louvain, sem querer dizer com isto que as bancas nacionais sejam pouco rigorosas. E sobre este aspecto, o autor não se preocupou nem um pouco em “aliviar” o seu texto das necessárias mas sempre pouco agradáveis arestas acadêmicas, em destitui-lo de suas feições de tese, em esvazia-lo de pelo menos uma parte de sua densidade doutoral, premeditando atingir um público mais amplo, muito provavelmente desamparado de suficientes dados para digerir informações transmitidas num nível tão elevado. Limitou-se em nos conceder urna versão em português, incorporando as indigestas citações e refer8ncias bibliográficas no corpo do texto. Mas, pensando melhor, esta pode ser uma opção legitima do autor, que não faz concessões a certas “profanações”, igualmente legitimas, do grande mercado editorial. Se não conhecesse a história da obra, seus percalços e peripécias, teria sérias dúvidas de que editoras comerciais aceitassem publica-la, no formato corno se encontra pela Editora Universitária da UFOP.

Nesse ponto, a obra de Burke é mais feliz. Seu texto, sem a menor pretensão de desmerecer o livro, é material paradidático – com direito até a Glossário para aqueles que passaram por Francois Dosse, H. Coutau-Bergarie, Guy Bordé e Hervé Martin, sem esquecer o livro-dicionário organizado por Jacques Le Goff, Roger Chartier e Jacque Revel. Apesar de seu desenvolvimento quase telegráfico, ou melhor, o seu tratamento bastante ligeiro dos temas enfocados, o autor atinge seu principal objetivo: dar a conhecer o “regime” historiográfico que havia antes dos Annales, o impacto e a influência da obra de Febvre e de Bloch, a recepção internacional dos Annales, até fins dos anos 80, passando pelas “gerações” intermediarias em trajetórias breves mas muito bem tecidas, com destaque para a atuação e o lugar de Fernand Braudel.

E o que nos oferece o livro de Reis? o mesmo que a obra de Burke. Mas com analises mais extensas, o que não deixa de ser um importante diferencial. Um bom exemplo disso e o quadro que o autor traça sobre a “contaminação” da história pelas ciências sociais, e com vantagens sobre Burke, pois não se limita a estabelecer influencias e filiações te6ricas: explicita metódica e pormenorizadamente cada sistema teórico, para, ato continuo, identificar os seus pontos de enraizamento junto a história. Aí está com certeza, o seu maior mérito. Além  de uma erudita exposição do desenvolvimento da historiografia francesa, o livro de Reis constitui-se ainda numa competente e bem informada aula de metodologia da história, posto que orienta sobre as especificidades da pesquisa histórica, suas dificuldades e riscos.

Apesar da identidade temática, de uma certa coincidência no desenvolvimento do texto, ‘bem como pela presença dos mesmos personagens e algumas referências bibliográficas cruzadas, as duas obras têm poucos traços em comum. Trata-se de pesquisas que chegam a resultados bem diferentes, porque desde seu ponto de partida perseguiram fins muito diversos. Acentua-se a disparidade principalmente porque são textos de níveis teóricos claramente distintos, o que para o leitor interessado nessa matéria e muito favorável: terá acesso a duas visões, a duas formas personalizadas de tratamento de um só problema. Mas, fora de qualquer dúvida, ao transformarem uma área importante da historiografia contemporânea em objeto de análise, tarefa sumamente espinhosa, cada trabalho desempenha com valor a sua meta: colaborar para a ampliação do conhecimento de um terna mais que relevante. Em síntese, dois livros inteligentes sobre uma questão a um só tempo complexa e fascinante.

Marcos Antonio Lopes – Departamento de História/ UNIOESTE-Pr.

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[DR]

 

Cocanha: A história de um país imaginário – FRANCO JÚNIOR (VH)

FRANCO JUNIOR, Hilário. Cocanha: A história de um país imaginário. São Paulo: Companhia das Letras, 1998. Resenha de: PAIS, Marco Antonio de Oliveira. Varia História, Belo Horizonte, v.14, n.19, p. 205- 208, nov., 1998.

No início da presente década o Prof. Hilário passou a dedicar-se a uma linha de pesquisa direcionada para o estudo da mitologia medieval e cujos resultados podem ser encontrados nos seus livros As utopias medievais, A Eva barbada: ensaios de mitologia medieval e Cocanha: lianas faces de uma utopia. Mas é com a presente obra que o autor mais avança nos seus estudos, na qual aborda um tema de grande interesse para os estudiosos da civilização medieval. 0 livro coloca ponto final numa discussão que ocorre nos meios acadêmicos nacionais e Órgãos financiadores de pesquisa sobre a possibilidade, ou não, de ocorrer avanços na historiografia medieval conduzida por um pesquisador brasileiro, trabalhando no Brasil. Seu trabalho serve de estimulo para o professor que diante das dificuldades colocadas pela pratica da pesquisa nesta área aqui no Brasil muitas vezes deixa-se vencer pelo desanimo. Penso que com este livro a historiografia medieval brasileira atinge a maturidade, abrindo perspectivas para a realização de novos trabalhos.

A excelência da obra e reconhecida inclusive por um dos maiores medievalista contemporâneo, o professor francês Jacques Le Goff, que no prefacio, entre outros temas, agradece ao autor pela seu trabalho sobre o pais de Cocanha, pois mesmo apesar de atrair a atenção de diversos historiadores, nunca tinha sido tratado de forma abrangente e sistemática. A partir de agora o livro deverá tornar-se citação obrigatória na bibliografia sobre o assunto.

A utopia de um país maravilhoso, de uma terra de abundancia e felicidade, da eterna juventude pode ser encontrada em diversas formações sociais pré-industriais, ocidentais e orientais, sejam elas letradas ou iletradas, tanto no mundo antigo quanto no contemporâneo. Estes sonhos que povoam o imaginário de inúmeros povos vão aos poucos sendo desvendados pela pesquisa histórica, ampliando nosso conhecimento sobre as sociedades onde surgiram. E partindo do pressuposto de Duby — de que para conhecer a ordenação das sociedades humanas o historiador deve prestar a atenção tanto nos aspectos econômicos quanto mentais que o Prof. Hilário desenvolve seu trabalho.

Movimentando-se numa área onde são muitas as imprecisões conceituais, aquela do imaginário e da intersecção cultura popular/erudita, o autor consegue se locomover com habilidade, discutindo e esclarecendo os pressupostos teóricos que utiliza, apresentando hipóteses precisas e bem elaboradas. Demonstrando ser um discípulo da história social, o autor abre-se a interdisciplinaridade movimentando-se com desenvoltura na área da história, literatura, semiótica, etimologia, filosofia, antropologia, sociologia, e mesmo algumas escapadas pela psicanalise.

O livro demonstra uma grande erudição e acesso a uma vasta bibliografia, mas nem por isto deixa de ser urna leitura agradável. O autor evita as citações em idiomas estrangeiros, tediosas e incompreensíveis para muitos, e com isto favorece a leitura a um público mais amplo do que aquele restrito ao interessados pela história medieval. A tradução completa do fabliau da Cocanha nas primeiras páginas presta um auxilio inestimável ao leitor e favorece a compreensão das idéias do autor no decorrer da obra.

No primeiro capítulo, O Fabliau de Cocagne, mosaico textual, localiza o texto manuscrito cronológica e geograficamente e faz algumas incursões pela área do maravilhoso em várias culturas do mundo antigo, concluindo que o “fabliau da Cocanha pode ser considerado um exemplo típico da utilização de lugares-comuns, de imitação, de empréstimos, de compilação enfim, pratica muito difundida nas elaborações literárias medievais.” (p. 50) Quanto ao público alvo do fabliau não há acordo entre os especialistas, e o autor prefere sustentar a hipótese de que o mito de Cocanha funciona como uma compensação imaginaria para os principais grupos sociais urbanos dos séculos XII e XIII, período muito agitado na Europa em consequências das transformações oriundas do crescimento comercial e urbano ocorridas naquela época. Mas Cocanha não e só uma terra de sonho, pois representa também urna crítica social, além de urna sátira ou paródia da cultura oficial.

No segundo capitulo A terra da abundância parte do princípio de que a fome representava um dos piores inimigos da população da Europa medieval, daí o surgimento de várias utopias que poderiam dar cabo daquela desgraça de uma forma imaginaria. Ao que tudo indica nem mesmo o nome do país — Cocanha estaria livre de associações com o terna dos alimentos. A dieta dos cocanianos e alvo então de interessante analise e comentário, e nos dá uma visão panorâmica dos hábitos alimentares da civilização medieval.

No capitulo terceiro A terra da ociosidade, a partir do verso de que “La, quem mais dorme mais ganha” (FC v.28), aborda-se um dos tragos marcantes dos cocanianos, herança talvez dos preconceitos contra o trabalho oriundos da civilização greco-romana, da cultura germana e do cristianismo. E o interessante foi a valorização da ociosidade num momento em que o trabalho começava a ser reconhecido, refletindo talvez unia postura aristocrática contra as atividades dos burgueses. Neste capitulo o autor defende a tese de que “a natureza cocaniana e divina.” (p. 90), o que leva ao panteismo, isto e, doutrina na qual a idéia de Deus e do mundo representa urna (mica realidade. Dedica também algumas páginas na análise do carnaval e outras festas populares, pois “A terra maravilhosa com seus excessos alimentares, alcoólicos e sexuais é um carnaval ininterrupto.” (p. 97/98.)

No quarto capitulo, A terra da juventude aborda-se este tema tão sonhado pelas sociedades pré-industriais, mas que permanece obcecando o mundo pós-moderno. As condições econômicas, médico-sanitárias e alimentares da sociedade medieval conspiravam para que os indivíduos tivessem uma vida reduzida, daí a ênfase dada ao assunto pelo autor do fabliau, que inicia e fecha seu texto fazendo referências a Fonte da Juventude. Ser jovem era urna condição sine qua non para desfrutar das delicias e maravilhas de Cocanha. O próprio autor do fabliau era um jovem, corno ele mesmo afirma no texto, e que o imaginário transposto para país maravilhoso seria aquele da juventude aristocrática feudal. Mas para o Prof. Hilário o público alvo do fabliau não seria exclusivamente esta jovem aristocracia, pois atenderia também aos anseios e sonhos dos grupos urbanos burgueses.

No capitulo quinto, A terra da liberdade, discute-se as restrições que ela passou a sofrer no início da baixa idade média quando passou a ser cerceada pelo grande conjunto de normas imposto pelas monarquias centralizadas, pelos núcleos urbanos e pela igreja. Estas medidas deram origem a um clima de intolerância inexistente até então e que gerou a segregação de diversos segmentos da sociedades como enfermos, prostitutas, homossexuais, pobres de urna maneira geral, estudantes itinerantes, por exemplo. A ênfase na liberdade cocaniana seria urna compensação da liberdade real negada pelas realidade histórica daquele momento. Num momento de conflitos entre os partidários da ortodoxia da igreja e os diversos grupos heréticos que surgiram por várias partes da Europa, Cocanha desfruta de urna liberdade religiosa, e, melhor ainda, e um país não sacerdotal, conforme afirma o autor na página 139. Com uma igreja obcecada em impedir os prazeres oriundos do sexo, os cocanianos contra-atacam estabelecendo urna liberdade sexual que atinge a violência, pois os homens e a mulheres poderiam tornar a iniciativa de “pegar” os parceiros que quisessem, independente do seu consentimento, sem que isto gerasse algum descontentamento. O apelo da natureza era a única motivação a orientar a vida sexual dos cocanianos. No capitulo busca-se urna vez mais as possíveis origens do autor do fabliau e o Prof. Hilário enfatiza a hipótese de que vários indícios apontam para um goliardo que se investe contra a corrupta e avarenta estrutura papal e eclesiástica.

No sexto capitulo o autor aborda urna versão medieval inglesa do fabliau, cuja tradução e apresentada. Diferententemente da versão francesa, esta é bem mais limitada, concentrando-se na paródia de uma instituição monástica, ao que tudo indica a poderosa ordem de Cister, e seu autor seria um poeta franciscano, adepto da pobreza e simplicidade. 0 texto teria sua gênese então nos conflitos enfrentados pelas ordens monásticas a respeito dos valores e funções que as mesmas deveriam manter.

O sétimo e último capítulo trata de versões tardias que por surgirem num contexto histórico diferente do medieval incluem alguns elementos novos, apesar de manter constante o sonho de urna terra maravilhosa. Como o autor afirma, houve urna certa popularização do país da Cocanha e muitas versões representam críticas sociais as condições de vida levadas pelas classes mais pobres da sociedade, principalmente os camponeses. Algumas versões marcadas pela ideologia burguesa voltaram-se contra o clima de ociosidade e descontração da antiga Coconha. Por outro lado o realismo, o racionalismo e o iluminismo cuidaram de dar um cunho mais realista e sóbrio a algumas versões. Muito interessante para os leitores brasileiros são as páginas dedicadas a adaptação dos ideais cocanianos para o Novo Mundo a partir do final do século XV, funcionando como incentivo para o deslocamento de grandes contingentes de europeus para a América. A vegetação exuberante, a fauna variada, as aves coloridas, os rios caudalosos, a abundância de metais preciosos, a nudez indígena, levaram a transferir para a América a realidade da Cocanha. E para encerrar o livro o autor, como medievalista e brasileiro, não poderia ser mais feliz ao abordar uma interessante e cômica versão nacional do fabliau, o livreto de cordel intitulado o País de Sa -o Saruê, cujo autor transpôs para a realidade nordestina as maravilhas do país de Cocanha.

Na análise de um recorrente sonho da civilização ocidental — a utopia de uma terra maravilhosa o Prof. Hilário faz uma grande viagem pelo tempo, pois inicia seu livro abordando o famoso Poema de Gilgamech escrito por volta de 2500 a.C. no Oriente Media, e o conclui com um texto brasileiro de meados do século vinte.

Finalizando só resta-me recomendar a leitura do livro não só para os interessados pela cultura medieval, mas para todos aqueles dedicados aos temas relacionados ao imaginário, ideologia e cultura popular/erudita. E como aprofunda o tema referente ao carnaval deve ser leitura obrigatória para todos interessados pela cultura brasileira, pois afinal, para muitos, o Brasil e o país do carnaval.

Marco Antonio de Oliveira Pais – Professor do Departamento de História da UFMG.

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O limpo e o sujo, uma história da higiene corporal – VIGARELLO (HE)

VIGARELLO, Georges O limpo e o sujo, uma história da higiene corporal. São Paulo: Martíns Fontes, 1996. Resenha de: JOANILHO, André Luiz. O limpo e o sujo: anotações sobre um livro. História & Ensino, Londrina, v.4, p. 173-176, out. 1998.

Um texto límpido. Não é bom começar uma resenha sobre um livro fazendo trocadilho com o título e objeto, porém é irresistível. A objetividade traçada desde o princípio, a clareza da linguagem, cria uma imagem muito precisa sobre o que Georges Vigarello propõe no seu livro O limpo e o sujo, uma história da higiene corporal, da Martins Fontes, 1996. Dividido em quatro partes que ganharam títulos apropriados: “Da água festiva à água inquietante”, “A roupa branca que lava”, “Da água que penetra o corpo àquela que o reforça” e “A água que protege”. A propriedade dos títulos está no texto que segue cada um, pois apresenta justamente o que foi anunciado.

Viajando no tempo desde o século XIV, chega até meados do nosso século, tratando de um único assunto, a higiene corporal. Mas, surpresa, não se trata de como os homens evoluíram no trato com o seu próprio corpo, e sim de uma linha sinuosa ao longo dos séculos que parte do banho medieval e chega no banho moderno.

Insuspeitamente acreditamos que os banhos medievais tinham o mesmo caráter dos banhos contemporâneos: limpar. Ledo engano, eles não visam a higiene, e sim a lubricidade (desculpem a palavra). A umidade dos banhos é prenúncio dos prazeres da cama. Os banhos são tomados em estabelecimentos específicos, porém, como contíguos à bordéis, tavernas, e eles visam a excitação e não ahigiene.

Tudo muda. Estamos em plena Renascença. O temor das epidemias se associa ao temor das águas. Água que enlanguesce os músculos, os orgãos, abre os poros aos miasmas com as suas doenças. O conselho é evitar de toda forma os banhos e muito mais a imersão completa. O ideal é manter o corpo limpo através de uma segunda pele: a roupa branca justa, limpa e, de preferência feita de finos tecidos -é claro que isto se aplica à nobreza. Ela absorveria as impurezas naturais expelidas pelo próprio corpo e manteria uma certa proteção dos ares malsãos. No entanto, por mais contraditório que seja, a fuga dos banhos não significa que o período barroco foi mais descuidado da higiene corporal, muito pelo contrário, é nesse momento que surge a idéia de limpeza mais íntima, pois o que está além do olhar é que deve ser cuidado, ou melhor “o íntimo é gradualmente incluído no visível” (p. 251).

É o espetáculo do que é visível dentro do processo civilizatório, isto é, o processo de recalcamento das pulsões na sociedade (podemos lembrar do consagrado estudo de Norbert Elias, O processo civilizatório, da Jorge Zahar, sobre a etiqueta no Antigo Regime, associando-a ao desejo de distinção de classe por parte da nobreza). Aquilo que é vergonhoso e não deve ser visto, e ao contrário, o que é valorizado e todos devem ver.

De novo tudo muda. Insinua-se novas idéias sobre o corpo e as correspondentes práticas de limpeza. O vigor do organismo deve ser estimulado agora pela água. Assim passamos da água lúbrica, para aquela que é veículo de doenças e no século XVIII, para água que revigora. Representações de classe no trato do corpo e a limpeza. Para uma burguesia que quer conquistar é preciso corpos rígidos, fortalecidos, longe do enlanguecimento corporal provocado pelas representações que a nobreza “ociosa e devassa” tem de si mesma. A ciência do final do século XVIII corrobora a imagem que a burguesia tem de si ao legitimar que a limpeza protege e reforça o corpo. O banho frio enrijece, revigora o organismo, enquanto que o banho quente enlanguesce.

Durante o século XIX vamos assistir o reforço dessa idéia de vigor proporcionado pela limpeza, e mais ainda, a limpeza íntima é fundamental nesse novo processo. O asseio corporal passa a ser a salvaguarda contra as doenças, mas ao mesmo tempo há um avanço inexorável do pudor. Nos séculos XVII e XVIII a roupa branca íntima representava o ideal de limpeza e delicadamente deveria ser notada pelos outrosrendas saindo nos punhos, ou visíveis através de decotes ousados, sendo comum os camareiros pessoais participarem da higiene do patrão. Já no século XIX se torna impensável a presença de alguém estranho nos momentos de higiene pessoal, muitas vezes se estendendo aos familiares.

Esse novo pudor, inventado pela burguesia, mostra as práticas que envolvem o corpo nas sociedades capitalistas, e com o avanço da ciência, essa higiene se personaliza cada vez mais. Mas, de novo a surpresa. A paranóia em relação aos micróbios, desvelados como agentes patológicos, leva a idéia de higiene ao paroxismo. Médicos, higienistas propõem, na passagem do século, a lavagem das paredes, a desinfecção das casas, rígidas quarentenas, uma perseguição sem tréguas à sujidade e à falta de asseio. E com isso triunfa a idéia do banho diário e a higiene íntima. Porém, é demonstrável que a essa nova concepção de higiene é muito mais uma representação que a sociedade ocidental criou sobre o corpo.

As cidades, a arquitetura, os fluxos de água, ar, esgotos, fazem parte desse imaginário sobre o corpo e sobre o indivíduo. É antes uma psicologia, sensações que se traduzem em práticas cotidianas. O bem-estar, o consumo, o temor do que não é visível. Assim, a higiene não é simples imperativo com bases científicas, é antes de mais nada, uma imagem que a sociedade produz sobre si mesma, sobre os indivíduos, sobre os cuidados de si.

Pode-se afirmar que na realidade o trabalho de Geoges Vigarello trata de parte da história da idéia de intimidade. Entretanto, além dessa viagem surpreendente, uma outra questão chama a atenção do leitor mais atento, e que é uma vantagem para os desatentos: não há enunciações teóricas, ou melhor, o autor prescinde da citação de autoridade, o que lhe dá um ganho, pois não precisa enunciar métodos e nem complicadas fórmulas para compreender o objeto, e não que o autor não tenha reflexão. Atentamente transparece vários conceitos teóricos, mas que, pelo menos é o que transparece, não são citados pela segurança que o autor demonstra nas suas discussões, dispensando o recurso à autoridade. É desnecessário citar este ou aquele teórico para corroborar com as conclusões da pesquisa. Dispensável porque antes de serem aqueles que conformaram o objeto sem o saber, eles aparecem como inspiradores da análise e conclusão.

Ele bebe em vários filósofos e historiadores. Alguns aparecem claramente, outros nem tanto. Foucault, para começar, mas também Norbert Elias -já destacado acima. Além destes cabe lembrar Jacques Le Goff, Georges Duby e Roger Chartier, não por estarem citados, mas por trabalharem com o que se convencionou chamar de mentalidades. Há também que lembrar de Pierre Bordieu, este sociológo, e que trabalhou com a noção de hábito. Isso para não apontar outros mais clássicos, como Freud, para questões da psicologia, e Marx para as questões de classe. Porém, apesar de toda essa inspiração, o autor não faz referências diretas a elas, e por isso que os leitores mais desatentos, ou melhor, o leitor não especialista em história pode ter o prazer de ler um grande livro, e ainda por cima refletir um pouco sobre si mesmo.

André Luiz Joanilho – Professor do Departamento de História -Universidade Estadual de Londrina -PR.

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A sociedade do espetáculo | Guy Debord

A imodesta citação “Uma teoria crítica como esta não se altera, pelo menos enquanto não forem destruídas as condições gerais do longo período histórico que ela foi a primeira a definir com precisão” é do próprio Guy Debord em sua ‘Advertência da edição francesa de 1992’, texto que abre a edição brasileira de A sociedade do espetáculo. A teoria proposta por Guy Debord na década de 1960 registrou a ampliação da falsificação do mundo através da mídia e a substituição das vivências diretas dos homens pela condição de espectador, pelo consumo passivo de imagens. O livro, que ganhou adeptos imediatos na militância radical na França de 1968 e reconhecimento tardio nos meios acadêmicos, deixou os rastros principais por onde seguiram autores que refletiram sobre novas configurações institucionais do capitalismo globalizado e hoje se destacam nos debates da teoria social contemporânea. Leia Mais

Vita Brevis: a carta de Flória Emília para Aurélio Agostinho | Jostein Gaarder

Resenhista

Monique Cittadino


Referências desta Resenha

GAARDER, Jostein. Vita Brevis: a carta de Flória Emília para Aurélio Agostinho. São Paulo: Companhia das Letras, 1997. Resenha de: CITTADINO, Monique. “Vita Brevis”: uma visão feminina do pensamento agostiniano. SÆCULUM – Revista de História. João Pessoa, n. 4/5, p. 327-335, jul./dez. 1998/1999.

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A opção brasileira | César Benjamin e Emir Sader

Resenhista

Jaldes Reis de Meneses


Referências desta Resenha

BENJAMIN, César; SADER, Emir et al. A opção brasileira. Rio de Janeiro: Contraponto, 1998. Resenha de: MENESES, Jaldes Reis de. Caminhos e descaminhos do Projeto Nacional. SÆCULUM – Revista de História. João Pessoa, n. 4/5, p. 337-352, jul./dez. 1998/1999.

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Viagem à luta armada: memórias romanceadas | Eugênio Carlos Paz

Resenhista

Michelle Dayse Marques de Lima


Referências desta Resenha

PAZ, Carlos Eugênio. Viagem à luta armada: memórias romanceadas. 2. ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1996. Resenha de: LIMA, Michelle Dayse Marques de. Impressões sobre uma viagem à luta armada. SÆCULUM – Revista de História. João Pessoa, n. 4/5, p. 353-357, jul./dez. 1998/1999.

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A miragem da pós- modernidade: democracia e políticas sociais no contexto da globalização | Silvia Gerschman e Maria Lúcia Werneck Vianna

Este livro é uma coletânea de 12 ensaios apresentados originalmente num seminário realizado na Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), em julho de 1995. O livro inovou ao ressaltar os efeitos políticos e sociais da globalização econômica, rompendo com a tradição economicista predominante nesta área. Os artigos convergiram para três preocupações: o futuro da democracia, os rumos do setor público e a natureza das políticas sociais na época da globalização. Cada tema aglutinou quatro artigos em uma média de 15 páginas.

O primeiro bloco, intitulado ‘Globalização, democracia e questão social’, inclui os artigos teóricos de Schmitter, Reis, Gerschman e Viola. Phillippe Schmitter ressalta a consolidação do sistema político democrático como o fato mais conclusivo da globalização. O mundo aderiu à democracia e assumiu seus mecanismos de representação. Schmitter acredita que o futuro desta sociedade “será incrivelmente tumultuado, incerto e muito acidentado”. Surpreendentemente, o grande desafio à globalização viria das “democracias liberais consolidadas” (DLCs). Países recém-democratizados, ou “neodemocracias recentes” (NDRs), são seguidores de modelos e, naturalmente, não dispõem de condições objetivas para mudar os rumos. Muitas das NDRs são ordenações políticas oligárquicas que se aproveitam do sistema democrático para manter seu domínio. O retrato dado pelo autor é de pioneiros democratas, de um lado, e de seguidores autoritários, de outro, forçados a assumir o sistema de representação por acidente do destino. A verdadeira mudança social sempre acontecerá nos países pioneiros, enquanto os países em desenvolvimento estarão confinados às “democraduras”. Leia Mais

Sobre o risco: para compreender a epidemiologia

A epidemiologia, definida como o estudo da distribuição e dos determinantes dos problemas de saúde e de doença na população, tende a ser identificada por um conjunto de técnicas e métodos de análise quantitativa em saúde. A tradição de se compreender a excelência da produção epidemiológica a partir do refinamento das técnicas tendeu a desconsiderar o pensamento daqueles que, desde o início do processo de institucionalização da disciplina, detectaram a pobreza da discussão filosófica e conceitual entre os epidemiologistas. Afinal, o conhecimento epidemiológico é nuclear nas concepções e organização das práticas sanitárias na sociedade ocidental, e a importância e legitimidade social destas estão impregnadas de juízos de valor, extrapolando em muito as dimensões técnica e científica. Não são poucas as conseqüências negativas de não tratar com rigor a natureza filosófica de conceitos que orientam práticas, por sua vez, institucionalizadas como capazes de promover a saúde das populações. Ao não se ter clareza dos alcances e limites dos conceitos e, conseqüentemente, das práticas, tende-se a considerá-los neutros e absolutos, perdendo-se a possibilidade de transformações com base em valores que possam ser explicitados e escolhidos. Leia Mais

El regreso de las epidemias: salud y sociedad en el Perú del siglo XX | Marcos Cueto

O retorno de velhas doenças transmissíveis, quase esquecidas no cenário sanitário do Brasil contemporâneo, é uma mudança no quadro nosológico já incorporada à agenda dos problemas sanitários do país nas últimas décadas do século XX, seja na forma de grandes epidemias, como o cólera, a dengue e a malária, ou de endemia, como a tuberculose. É de um processo análogo que Marcos Cueto trata em El regreso de las epidemias: salud y sociedad en el Perú del siglo XX.

O livro reúne um conjunto de investigações realizadas por Cueto nos últimos anos sobre diferentes epidemias que ocorreram no Peru no século XX. O autor inicia seu período de estudo em 1903, com a peste bubônica, encerrando-o na década de 1990, com a epidemia de cólera de 1991, já transformada em endemia neste final de século. Entre as duas epidemias encontram-se as de febre amarela, a de tifo e varíola e a de malária. A combinação de processos sanitários tão díspares, longe de constituir uma colcha de retalhos, resultou em um trabalho encorpado, tendo como fio condutor as doenças estudadas e sua relação com a crescente participação do Estado peruano no campo da saúde pública. Leia Mais

Médicos italianos em São Paulo (1890-1930): um projeto de ascensão social | Maria do Rosário Rolfsen

Alfonso Bovero, Antonio Carini, Alfonso Splendore, Alessandro Donati, Carlos Foá, Mário Artom, Archimede Busacca, Carlos Brunetti e tantos outros deixaram suas marcas na saúde pública de São Paulo e no curso de medicina da Faculdade de Medicina de São Paulo. Todos eram médicos italianos vindos para São Paulo no final do século XIX e começo do século XX.

O livro de Maria do Rosário Rolfsen Salles responde a nossa curiosidade em saber por que esses e outros médicos deslocaram-se para São Paulo e como se inseriram no mercado de trabalho, ou melhor, em que setores eles desenvolveram suas carreiras para cumprirem o objetivo da ascensão social. O livro soma-se ao de Carlos da Silva Lacaz, Médicos italianos em São Paulo: trajetória em busca de uma nova pátria , e traz novos elementos à história da saúde pública e da ciência médica em São Paulo. Leia Mais

Image and Logic | Peter Galison

De acordo com o mais recente livro de Peter Galison, Image and logic, imagem e lógica são as palavras-chave para se entender a recente e importante história da microfísica. Pois, como ele ali descreve e analisa detalhadamente, estas idéias caracterizam as duas principais correntes que, desde o início do nosso século, disputam e se alternam na liderança das pesquisas da física atômica e de partículas, até a década de 1970, quando então começam a se fundir. O livro trata dessa fusão e de sua origem, mas de uma perspectiva peculiar, expressa no subtítulo, a cultura material do laboratório, ou seja, das técnicas, instrumentos e arranjos institucionais que se entrelaçam no desenvolvimento dos dois modelos de pesquisa concorrentes.

Mas não se trata apenas de outro bom livro de história da física. O trabalho de Galison se filia à boa linhagem de uma historiografia repleta de reflexões metodológicas, de insights sociológicos e implicações filosóficas. Seu livro inaugural, How the experiments end, publicado em 1988, valeu-lhe um lugar de destaque em Harvard e na arena norte-americana da história das ciências. Se as narrativas históricas das ciências são costumeiramente tecidas a partir dos resultados encontrados, a originalidade da história reconstruída por Galison está na tentativa de entender seus processos de constituição, os rearranjos que antecedem às conclusões teóricas. Como numa história de vida (ciência) privada, suas peças documentais, neste livro de 1988, são muitas vezes bilhetes e anotações trocados pelas equipes que se revezam nos grandes laboratórios, evidenciando impasses e negociações anteriores à sua publicidade. Em 1996, Galison editara com David Stump um debate sobre a unidade, contextos e limites da ciência, The disunity of science, reunindo boa parte da nata anglo-saxã dos historiadores e filósofos da ciência: Schaffer, Lenoir, Davidson, Hacking, Fine. Leia Mais

Reinventando o otimismo: ditadura, propaganda e imaginação social no Brasil | Carlos Fico

 

Resenhistas

Ana Lúcia da Silva


Referências desta Resenha

FICO, Carlos. Reinventando o otimismo: ditadura, propaganda e imaginação social no Brasil. Resenha de: SILVA, Ana Lúcia da. Diálogos. Maringá, v.2, n.1, 217 -220, 1998. Sem acesso a publicação original [DR]

A (des) construção do discurso histórico: a historiografia brasileira dos anos 70 | Ana Maria de Oliveira Burmester

Resenhista

Jurandir Malerba


Referências desta Resenha

BURMESTER, Ana Maria de Oliveira. A (des) construção do discurso histórico: a historiografia brasileira dos anos 70. Curitiba: Aos Quatro Ventos, 1997. Resenha de: MALERBA, Jurandir. Diálogos. Maringá, v.2, n.1, 221 -227, 1998. Sem acesso a publicação original [DR]

Correspondência de Rodrigues Lapa. Seleções (1929 – 1985) | Maria Alegria Marques

Resenhista

André Figueiredo Rodrigues


Referências desta Resenha

MARQUES, Maria Alegria et al. Correspondência de Rodrigues Lapa. Seleções (1929 – 1985). Coimbra: Minerva, 1997. Resenha de: RODRIGUES, André Figueiredo. Diálogos. Maringá, v.2, n.1, 229 -231, 1998. Sem acesso a publicação original [DR]

Houses and Society in Pompeii and Herculaneum | Andrew Wallace-Hadrill

Resenhista

Pedro Paulo A. Funari


Referências desta Resenha

WALLACE-HADRILL, Andrew. Houses and Society in Pompeii and Herculaneum. Princeton: Princeton University Press, 1994. Resenha de: FUNARI, Pedro Paulo A. Diálogos. Maringá, v.2, n.1, 233 -236, 1998. Sem acesso a publicação original [DR]

Caminhos de Goiás: da construção da “decadência” aos limites da “modernidade” | Nasr Nagib Fayad Chaul

Resenhista

José Carlos Sebe Bom Meihy – Professor livre-docente do Departamento de História da USP.

Referências desta Resenha

CHAUL, Nasr Nagib Fayad. Caminhos de Goiás: da construção da “decadência” aos limites da “modernidade”. Goiânia: Editora da UFG; Editora da UCG, 1997. Resenha de: MEIHY, José Carlos Sebe Bom. História Revista. Goiânia, v.3, n.1-2, p.127-130, jan./dez.1998. Acesso apenas pelo link original [DR]

Estado e Agricultura no Brasil | Wenceslau Gonçalves Neto

Resenhista

Barsanufo Gomides Borges – Doutor em História Econômica pela USP e Professor Titular do Programa de Mestrado em História das Sociedades Agrárias da Universidade Federal de Goiás.

Referências desta Resenha

NETO, Wenceslau Gonçalves. Estado e Agricultura no Brasil. São Paulo: Hucitec, 1997. Resenha de: BORGES, Barsanufo Gomides. História Revista. Goiânia, v.3, n.1-2, p.131-137, jan./dez.1998. Acesso apenas pelo link original [DR]

O universo indistinto: Estado e sociedade nas Minas setecentistas (1735-1808) | Marco Silveira Antônio

Resenhista

Ramir Curado – Mestrando do Programa de Mestrado em História das Sociedades Agrárias da Universidade Federal de Goiás.

Referências desta Resenha

SILVEIRA, Marco Antônio. O universo indistinto: Estado e sociedade nas Minas setecentistas (1735-1808). São Paulo: Hucitec, 1997. Resenha de: CURADO, Ramir. História Revista. Goiânia, v.3, n.1-2, p. 139-142, jan./dez.1998. Acesso apenas pelo link original [DR]

Anibal – LANCEL (PR)

LANCEL, Serge. Anibal. Barcelona: Sn. 1997. 309p. Resenha de: EGEA, Alejandro. Panta Rei – Revista de Ciencia Y Didáctica de la Historia, Murcia, n.4, p. 1998.

Una nueva biografía sobre uno de los estrategas más geniales que ha dado la historia, Aníbal, es eltrabajo que nos ofrece este catedrático de arqueología en Grenoble, conocido por sus estudiosdentro del campo de la arqueología púnica, concretamente por sus excavaciones en la propia Cartago. La bibliografía que mana cada año sobre Aníbal y todo lo relacionado con la 2ª Guerra Púnica es muy complicado de rastrear y las monografías sobre este tema son muy abundantes encualquier librería o biblioteca. Sin embargo, el estudio que Crítica propone al lector es presentado, apriori, como un detallado, imparcial y riguroso estudio sobre el hombre que emprendería una de lasaventuras más geniales que nos han transmitido las fuentes.

El autor sigue muy fielmente los textos de Polibio de Megalópolis y Tito Livio, recurriendo a otrasfuentes literarias (Apiano, Silio Itálico, Diodoro o Nepote) y a la arqueología cuando las lagunas deaquellos obligan a ello. Estructurado ordenadamente y estudiando, previamente, los antecedentes, ya posteriori las consecuencias históricas de la figura protagonista, el núcleo central de la obra sebasa, como no, en la “expedición de conquista” que inicia Aníbal en Cartago Nova y que lo lleva alas mismas puertas de Roma. Frente a otros biógrafos que simplemente plasman las fuenteslinealmente en su obra, aquí los textos literarios son, normalmente, contrastados y estudiados,dejando en simple hipótesis los relatos no muy fiables, según el punto de vista, siempre discutible,del autor.

En nueve capítulos va relatando los inicios, desarrollo y culminación de un proyecto imposible, queestuvo a punto de cambiar la historia. Desde que Amílcar Barca sale de Cartago con su hijo Aníbal(con sólo nueve años de edad), se investiga paulatina y atentamente la forja de un personajehistórico único, verdadero actor principal de toda una guerra: desde sus primeras campañas contrapueblos de Iberia, el sitio de Sagunto, el maravilloso relato del paso de los Alpes, las victorias queponen a Roma al borde del abismo (Tesino, Trebia, Trasimeno y la hecatombe de Cannas), donde elestratega muestra sus verdaderas posibilidades, el estancamiento de la operación, la pérdida deCartago Nova y la consecuente pérdida de Iberia, el fracaso, la derrota en Zama y el exilio final.

Todo ello contrastado siempre con la visión de la guerra desde Roma: su caos interno, la sucesiónde mandos militares y cónsules que se ven impotentes y apabullados uno tras otro, la magnitudpolítica del clan de los Escipiones y en especial un seguimiento cuantioso a la persona de PublioCornelio Escipión (más tarde llamado Africanus), verdadero y único contrapeso que Roma expuso ala increíble calidad de Aníbal.

Gracias a un buena documentación gráfica, los acontecimientos quedan perfectamente encuadradosen el espacio, siguiendo los sucesos relatados muy fácilmente y sin perderse, en ningún momento,entre tal cantidad de nombres propios y de lugares antiguos que abundan en el libro. Las batallas yestrategia militar seguida por uno y otro bando son razonadas claramente y en ellas el autor hahecho un buen seguimiento, planteándolas a su vez gráficamente, mediante una recopilación demapas, lo cual es de agradecer.

Como punto curioso y valorable frente a otras semblanzas del personaje sorprende el últimocapítulo, donde dedica unas páginas a comprobar la herencia, la leyenda y la imagen de Aníbal quesurgen tras su muerte y permanecen hasta nuestro tiempo, en el mundo del arte, de la literatura, dela ciencia militar y la historia en general.

En resumen, una biografía bastante completa, muy recomendable y fácil de leer, sobre unossucesos, archiconocidos, acontecidos a finales del siglo III a.C., pero que son despedazadossabiamente para que logremos una visión total y sencilla de lo que fue la 2ª Guerra Púnica y lo quesignificó Aníbal en su desarrollo. No olvida ningún escenario de la guerra (Hispania, Grecia,Cartago, Roma, Sicilia, etc.), si bien, estamos seguros que no será, ni mucho menos, la biografíadefinitiva. El motivo de esta afirmación no es la calidad, siempre cuestionable del libro, sino laincreíble atracción que ejerce Aníbal sobre los historiadores y estudiosos de la antigüedad. Enpalabras del autor, las cuales comparto totalmente: “sin el golpe de látigo que dio al mundo de sutiempo, nuestra herencia no sería la misma”.

Alejandro Egea

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Que es la Filosofía Antigua? – HADOT (PR)

HADOT, Pierre. ¿Que es la Filosofía Antigua?, México: Sn., 1998. 338p. (Primera edición enfrancés 1995). Resenha de: MOLINA, Antonio I. Panta Rei – Revista de Ciencia Y Didáctica de la Historia, Murcia, n.4, p. 1998.

Por Filosofía entendemos un fenómeno histórico y espiritual que nace en el 28 de mayo del 585 a.C. fecha en la que se reconoce el inicio del pensamiento racional, tras su separación del mito . Para elautor de esta obra P. Hadot, eminente estudioso del pensamiento grecorromano, la filosofía no debeentenderse como mera teorización, fría palabra o simple discurso, sino como “un modo de vida”,que determina de forma decisiva el discurso filosófico. En opinión de Hadot “el discurso justifica laelección de vida y desarrolla todas sus implicaciones: se podría decir por una especie de casualidade reciproca, la elección de vida determina el discurso y este origina la elección de vida justificándolateóricamente” (193pg). Esta hipótesis, junto a la creencia certera de que toda conversión filosófica requiere necesariamente de un cambio en el individuo, y de la noción del “otro”, es decir que no hayfilosofía sin sociedad, son las ideas que repetitivamente Hadot defiende a lo largo de su libro.

Este presenta tres partes claramente diferenciadas por su mismo autor. La primera parte “Ladefinición platónica del filósofo y de sus antecedentes”, constaría de 4 capítulos. En los que sedescribe la semblanza de los primeros pensadores griegos, siendo su mayor punto de interés, y detodo el libro, la figura de Sócrates, inmortalizada por Platón en el Banquete (Cap. IV). En el Banquete de Platón se creo la figura por esencia del filósofo. Como argumenta Hadot, “Eros y Sócrates personifican, uno de una manera mítica, el otro de manera histórica, la figura del filósofo”(54pg). Al igual que el Eros, hijo de la Riqueza y de la Pobreza, Sócrates es un ser intermedio, amedio camino entre la sabiduría y la ignorancia, que se esfuerza por alcanzar su objeto de deseo, laSofía, pero sin éxito. Pues sólo Dios es sabio, el hombre filósofo. La ruptura entre sabiduría yfilosofía, queda fijada, y el filósofo condenado a comenzar una búsqueda que nunca se ha de acabar,su destino es a la vez trágico e irónico.

La segunda parte “La filosofía como modo de vida”, se inicia con la descripción de las dos escuelasque mayor éxito tuvieron en el mundo antiguo, la Academia y el Liceo. En ambas existió unanecesidad común de formar y modelar al “otro”, pero mientras en la escuela platónica había unaeminente intencionalidad practica, entiéndase política, en Aristóteles y su escuela se pierde poco apoco en pos de alcanzar la vida teorética o contemplativa que va a marcar la figura del sabio (Cap,V-VI). Las grandes escuelas de época helenística como el estoicismo, el cinismo, el epicureísmo oel escepticismo, son calificadas por Hadot como terapéuticas (117pg), pues dieron una mayorimportancia al individuo y sus problemas, pero no renegaban de la posibilidad de cambiar lasociedad mediante el ejemplo de sus vidas, más que por sus palabras. En las escuelas filosóficas deépoca imperial (Cap VIII), esta concepción de la filosofía se mantendrá, pese a la temprana nociónde la “autoridad” de los clásicos, no bastaba con adquirir conocimientos si estos no pasaban aformar parte de la Naturaleza del hombre. Finalmente (Cap IX) muestras sus conclusiones, ademásde oponerse a la concepción chamánica de la cultura griega de algunos autores como Dodds y Mircea Eliade y retratar la figura del sabio en el mundo antiguo.

En la tercera y última parte de su obra “Ruptura y continuidad. La Edad Media y los tempos modernos”, (cap, X-XII) se analiza la influencia del cristianismo en la filosofía, corriente religiosaque se llegara a definir a si misma como filosofía, y como consecuencia una forma de vida, aunqueposteriormente la filosofía quedará destinada a ser una justificación teológica de la religión. Hadotacaba su exposición reflexionando si tal comprensión de la filosofía es aplicable a nuestros días o sipor el contrario se cumple la máxima de Thoreau “En nuestros días hay profesores de filosofía, perono filósofos”.

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O Brasil na América: caracterização da formação brasileira – BOMFIM (RBH)

BONFIM, Manoel. O Brasil na América: caracterização da formação brasileira. (prefácio de Maria Thétis Nunes). 2 ed. Rio de Janeiro: Topbooks, 1997. 415p. Resenha de: IOKOI, Zilda Márcia Grícoli. Revista Brasileira de História, São Paulo, v.18 n. 35, 1998.

MEMÓRIA E ESQUECIMENTO: O VALOR DA REEDIÇÃO DA OBRA

Após 66 anos do lançamento da primeira edição, em 1929, a obra de Manoel Bonfim volta a ser editada, demonstrando uma retomada dos interesses sobre a formação brasileira. Exatamente quando o senso comum afirma ser anacrônica a recuperação histórica, uma vez que este é um momento em que o importante é estar inserido no mercado globalizado e assimilado na cultura de massa que unifica costumes e elimina a questão nacional, e onde alguns vão mais longe e propõem o fim da história, a reedição do livro é surpreendente.

Em primeiro lugar, gostaria de analisar as razões de Maria Thétis Nunes em propor à Topbooks sua reedição. Em seguida, passarei a recuperar a leitura deste admirável sergipano sobre o Brasil, a América e as noções de educação e desenvolvimento formuladas em um conjunto significativo de trabalhos considerados pela historiografia moderna como clássicos do pensamento político brasileiro.

No prefácio, Thétis Nunes levanta como hipótese sobre o esquecimento, o desinteresse das elites por idéias tão avançadas para o seu tempo. Este problema foiapontado também por Dante Moreira Leite na obra O Caráter Nacional Brasileiro, Antonio Candido, Nelson Verneck Sodré entre outros. A criação do primeiro laboratório de Psicologia Experimental do Brasil, a atualidade de estudos filosóficos e as críticas ao cientificismo e ao evolucionismo são argumentos que comprovam a seriedade intelectual de Bonfim. Entretanto, para a prefaciante, seu nacionalismo entendido como” identificação do indivíduo com a terra natal, que o conduziria à solidariedade, à confiança e a luta para a preservação da liberdade e da independência”1, são a chave do esquecimento.

Em 1929, o jogo político das oligarquias cafeicultoras experimentava uma profunda crise demonstrada pelas articulações entre as dissidências oligárquicas e os novos setores sociais que disputavam com maior amplitude a participação na cena política nacional. Além do mais, ao longo das primeiras décadas deste século a imigração cresceu, introduziu os europeus orientais, os japoneses e alemães, que ao lado dos imigrantes do final do século passado, procuravam um maior nível de integração no conjunto nacional. Assim, a conjuntura política do período, diferente daquela vivida pelos modernistas de 1922, não mais permitia a exclusão dos vastos contingentes de imigrantes que naquele momento eram capitães de indústria, assessores do governo e novos proprietários, especialmente os beneficiários da crise do café, após o crack da bolsa, em 1929.

Parece-me, entretanto, que o autor não estava preocupado em demonstrar o nacionalismo como algo que emergia das tradições históricas e da paulatina descoberta do sentido da brasilidade pela incorporação da diversidade dos grupos étnicos culturais aqui estabelecidos. Um dos elementos sui generis apresentado pelo autor é o da incorporação daqueles que lutaram pela preservação do território como se esta luta garantisse legitimidade e unidade aos diferentes grupos.

Outra colocação importante de Bonfim, não recuperada inteiramente pela autora do prefácio é a discussão bastante complexa que faz das noções de cultura, raça e alteridade. Para ele, nenhum dos grupos étnicos-culturais que ocuparam o Brasil puderam preservar seus valores sem que eles sofressem profundas alterações. Deste modo, a idéia subjacente é a que há uma circularidade cultural independente da aceitação ou não desta objetividade.

Assim, afirma:

(…) o Brasil, como agrupamento-povo, não poderia ser considerado simples soma de elementos étnicos, estimulados isoladamente: o português _ A, o negro _ B, o índio _ C… para chegar ao tipo apenas composto A-B-C. No povo brasileiro encontram-se essas três raças, diferentes, muito diferentes mesmo. A constatação de tais origens, em qualidades e tom de civilização, como origens dispersas, seria banalidade, repetida sem outra significação além da tecnologia, pois o que tem interesse não é a fútil resenha antropológica, e a corriqueira enumeração de caracteres etnográficos, mas a boa compreensão do modo segundo o qual aqui se encontram os elementos formadores da nação, até que logicamente se defina o efeito histórico da mesma formação. É isto o que faz valer cada uma das qualidades elementares das raças misturadas, e dá a fórmula geral da combinação nacional, resultante da mistura. (…) Ninguém admitiria hoje [que] isto é do negro, tal é do índio ou do português, sem conseguir reconhecer o que haja de novo e de próprio no gênio brasileiro2.

Dito de outro modo, não eram os portugueses tolerantes, democráticos ou mais assimilados, mas foram as condições históricas do conflito e as acomodações possíveis no cotidiano que engendraram as relações sociais. Para os cientificistas e racistas, Bonfim ironizava afirmando que o sentido da superioridade só poderia ser considerado se os superiores conquistassem raças, grupos ou lugares superiores a eles. E mais, perguntava qual o mérito em dominar um fraco? Seria possível sentir orgulho batendo ou violentando uma criança?

Para Maria Thétis, a importância da reedição do livro é recuperar um dos pioneiros da formulação de uma ideologia nacional. Peno que as razões são bem diversas.

O BRASIL NA AMÉRICA

Em primeiro lugar, vale ressaltar que Bonfim escreveu este livro em continuidade a um amplo debate que se abriu no início do século no Brasil. Na década de vinte, a oposição ao conceito de latino-americano se colocava para o autor, uma vez que essa unidade era entendida de modo preconceituoso especialmente pelos Estados Unidos, que atribuía a todo o continente o estigma de atraso, inferioridade e alienação. Muitos intelectuais de renome aceitavam essa desqualificação e procuravam constituir fórmulas para o embate entre a civilização (Europa e Estados Unidos) e a barbárie. Deste modo, figuras como Oliveira Lima, Oliveira Vianna, Domingos Sarmiento ou Riva Arguedas, desenvolveram tratados históricos ou projetos de desenvolvimento para superar os males de origem. A obra de Bonfim é escrita com o intuito de negar a homogeneidade que o conceito de América Latina apresentava e ao mesmo tempo procurar o lugar da nação nas singularidades encontradas.

De um lado, uma clara e firme posição anti-imperialista, e de outro, a busca do nacional como especificidade de um projeto incorporador, na medida em que a cultura singular de cada lugar ou região, permitia a análise por um novo contributo ao entendimento do pertencimento e da memória. Deste modo, o regresso ao passado colonial é realizado com vistas ao encontro de formas de entendimento que pudesse responder, não a uma abstração idealizada do que significava cada um dos acontecimentos e as várias dimensões do conflito, mas os resultados transformadores numa dialética de tempos desiguais e simultâneos em ação.

Assim, na primeira parte, Origens, estão tecidos cinco capítulos que procuram reconstituir a epopéia do pioneirismo ibérico, as conquistas ultramarinas, as relações entre europeus e o gentio, o sentido menos destrutivo dos contatos, as alterações nos vários modos de vida, a formação da população brasileira com os elementos centrais da mestiçagem, o cruzamento das tradições e a gênese do sentido de inferioridade atribuído ao Brasil em decorrência do negro escravo. Neste capítulo em especial, nosso autor combate Oliveira Vianna, que de modo acrítico e a-histórico repete as teorias cientificistas e racistas sem levar em consideração a realidade histórica brasileira. Na Segunda parte, O Primeiro Brasil, encontram-se os seis capítulos onde o autor desenvolve sua tese central, ou seja, a nacionalidade foi sendo formada nas lutas pela preservação dos territórios e através delas formaram-se o entendimento do Brasil e do ser brasileiro.

As lutas foram sendo incorporadas de modo muito especial por cada um dos grupos envolvidos, separando-se os elementos inassimiláveis, articulando localismos, regionalismos e mesmo o caudilhismo. Assim, aquilo que aparece como as longas durações históricas, são poderosas forças de acomodação e particularidades, tecidas e criadas na superação do modo de vida anterior de cada grupo. Estes elementos tornaram-se a tessitura da nova conformação social geradores do Estado Nacional. Deste medo, as comparações que Bonfim estabelece entre os processos que se desenvolvem nas colônias espanholas e as do Brasil são sempre linhagens de argumentação para demonstrar a formação brasileira em sua singularidade. Não há como atribuir a ele, contextualizando seu pensamento, um sentido hierarquizado ou mesmo uma centralidade fixa na conformação nacional apresentada.

Em conclusão, Bonfim afirma:

Na América, foi a colônia portuguesa a primeira a afirmar-se como nacionalidade. De formação essencialmente rural-agrícola, sabendo aproveitar as populações indígenas, essa colônia se expandiu naturalmente, por virtude própria, ao ponto de ocupar todos os territórios que se lhe abriam, até entestar com o domínio definitivo das gentes castelhanas. (…) O Estado português com que se fez a primeira defesa, logo declinou e, quanto mais viva a luta decisiva pela terra pátria, já foram os brasileiros que as fizeram3.

O interessante é notar como Bonfim modifica o conceito de nacional comum entre seus interlocutores. Mais radical que seus contemporâneos, ele atribui valor às lutas concretas em defesa da territorialidade e considera serem agregadores os elementos constitutivos dessa ação. Antecipando Mário de Andrade, constrói um entendimento sobre a cultura como movimento em movimento, e a circularidade de seus elementos, negando qualquer hierarquia e sobreposição entre uns e outros. São fruto de circunstâncias e de experiências históricas indivisíveis. Por isso, na linguagem de Mário, Macunaíma é simultaneamente o complexo da formação cultural brasileira, não apenas em termos de valores, mas também de crenças, lugares, hábitos e desejos.

Hoje, no encerramento deste século XX, quando o paradigma clássico do Estado/ Nação está totalmente superado, quando os controles supra-nacionais realizam a gestão econômico-política dos antigos governantes, reestrutura-se a necessidade do debate sobre o sentido do nacional e os elos agregadores ainda existentes. A moderna teoria4 tem enfatizado o papel das lutas no e pelo território, como elemento engendrador do pertencimento e, cada vez mais, as histórias do lugar são referências identitárias.

Um livro desta importância será estimulador do debate histórico político e solicita-se à Topbooks, que fez um cuidadoso trabalho de texto e capa, que providencie uma encadernação mais adequada, pois o simples abrir das páginas, para um leitor interessado, é suficiente para desmontar o livro que esperou mais de seis décadas para ser oferecido ao público.

Notas

1 NUNES, Thétis. Prefácio à Segunda edição, p. 15.

2 BONFIM, Manoel. op. cit., p. 36

3 Idem, p. 381.

4 Ver SANTOS, Milton. Espaço e Método. São Paulo, Nobel, 1992; BENKO, Georges. Economia, Espaço e Globalização na aurora do século XXI. São Paulo, Hucitec, 1996; ROY, Pierre. La faim dans le monde. Paris, Le Monde Éditions et Marabout, 1994; entre outros.

Zilda Márcia Grícoli Iokoi – Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas
Universidade de São Paulo.

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