Fronteiras guaranis: com um estudo sobre o idioma guarani, ou ava-ñe-ê | José de Melo e Silva

Fronteiras Guaranis: com um estudo sobre o idioma guarani ou ava-ñee-ê, de autoria de José de Melo e Silva, foi publicada em 1939, dois anos após a instauração do Estado Novo (1937-1945) e no princípio de uma guerra mundial. Tornou-se mais acessível ao público com o lançamento da segunda edição em 2003 [1]. O responsável por essa edição foi o Professor Hildebrando Campestrini [2].

Influenciado pelo contexto histórico que colocava a necessidade de nacionalizar a fronteira, Melo e Silva realizou um estudo sobre a fronteira com o Paraguai, ou seja, sobre uma fronteira que era brasileira, de direito, mas, segundo ele, culturalmente guaranizada, daí denominá-la “fronteira guarani”, para propor uma reforma de sua organização econômica e social. Daí, também, o título do livro. Sua crítica mais incisiva recai sobre três questões: a cultura, o trabalho e a educação.

Nascido no ano de 1892, em Missão Velha, no Estado do Ceará, Melo e Silva foi seminarista e auxiliou nos trabalhos das missões franciscanas no Pará, em meados da década de 1910 [3]. Formou-se pela Faculdade de Direito do Ceará, concluindo o curso em 1919 e em 1932, foi aluno da primeira turma do Curso de Doutorado, criado pelo decreto federal n°.19.852, pela mesma Instituição. Em 1933, foi contratado pelo Governo do Estado de Mato Grosso para exercer o cargo de juiz de direito na fronteira com o Paraguai. No final da década de 1940, foi transferido para o Território Federal de Guaporé, hoje Estado de Rondônia. Em Mato Grosso do Sul ele é Patrono da Cadeira n°.14 do Instituto Histórico Geográfico. Escreveu outra obra que incorpora temática sobre a fronteira, denominada de Canaã do Oeste, publicada em 1948.

A primeira parte foi construída, segundo o autor, para estudar aspectos da cultura guarani a fim de compreender os costumes que vinham influenciando a fronteira brasileira [4]. Foi dividida em cinco capítulos: I- O Guarani versus Tupi; II As reduções de Guairá; III- República ou Confederação dos guaranis em Paraguai; IV- Destruição da República dos guaranis; V- O jesuíta e sua obra – opiniões e confrontos – comunismo cristão e doutrina de Marx

Nessa primeira parte, Melo e Silva realiza um diálogo com a historiografia acerca dos guarani, discutindo a formação da “raça”, suas origens e a influência da educação jesuítica na transformação dos costumes indígenas. De fato, evidencia a necessidade de o autor travar um combate ideológico dirigido a uma corrente de escritores hispano-americanos, marxistas, segundo ele, que reivindicavam o “verdadeiro” sentido da civilização guarani [5]. São textos muito ricos que mostram a singularidade desse autor combativo por dialogar mais incisivamente com intelectuais, algo pouco comum na historiografia regional.

A Segunda Parte apresenta cinco capítulos: VI- Aspecto geral da fronteira: o solo e suas riquezas, clima, condições sanitárias, chuvas, elementos povoadores, nacionais e estrangeiros, descendentes guaranis; VII- Remanescentes de famílias indígenas na fronteira: vias de comunicação, regime de segurança; VIII – Os guaranis nas fronteiras: costumes, deturpação da língua, música, dansas e festas, religiosidades, tabus, práticas místicas, abusões e crendices; IX- Situação econômica das fronteiras: meios de produção, pecuária, agricultura, aversão do descendente guarani pelo amanho da terra, carestia de vida, regime alimentar deficiente, indiferença pela caça, sistemas de habitação, de trajar e de transporte, corrida de cavalos; X- Aspectos morais: a honra da mulher, desrespeito à condição de virgem, amor livre e casamento. Nela, o autor discute as condições da fronteira em sua época, a geografia, as condições naturais, trata dos guarani “modernos” e dos problemas econômicos encontrados pelo homem.

Quatro capítulos compõem a Terceira Parte: XI – Município de Bela Vista; XII- Município de Dourados; Município de Porto Murtinho; XIV- Município de Ponta Porã – Companhia Mate Laranjeira e sua organização. Nessa parte são expostos dados sobre cada um dos municípios da fronteira, com descrição sobre rendas, escolas, população, economia, dentre outros.

A quarta parte é organizada em dois capítulos: XV- Colonização e nacionalização das fronteiras; XVI- Medidas indispensáveis à colonização e conseqüente nacionalização das fronteiras. Nessa parte, o autor retoma todos os problemas apontados no decorrer da obra para apresentar um projeto de nacionalização para a fronteira.

Finalmente, a quinta e última parte, também denominada de Parte Especial, é dividida em 15 pequenos títulos em que o autor denominou de capítulos e neles são discutidas “noções da língua guarani”. Para ele aprender o guarani era “armar-se de um excelente meio para transmitir o conhecimento da língua portuguesa” [6]. Daí a inclusão de um estudo sobre essa língua.

Importante observar que em Fronteiras Guaranis o critério adotado para a definição dos limites da fronteira é cultural. Para Melo e Silva, as “lindes guaranis” eram delimitadas pelos municípios de Ponta Porã, Bela Vista, Dourados e Porto Murtinho, locais marcados, segundo ele, pela influência da civilização guarani [7].

A fronteira, na sua consideração, era um Brasil à parte; tudo lá era diferente: “costumes, língua e, nalguns pontos, o próprio caráter do povo sofreu grande modificação” [8].

Dominada pela população paraguaia, a fronteira teria sido influenciada por modos de vida incompatíveis com os costumes nacionais. Essa população, numerosa e desconhecida oficialmente, com os seus costumes tão arraigados influenciava toda a população lindeira. Todavia, para Melo e Silva, o que seriam os costumes dessa população “guaranizada”? O autor aponta várias características no decorrer da obra, mas a que se sobressai é a “aversão ao trabalho” [9].

Ainda que reconhecesse que a fronteira era servida por muitas dádivas da natureza, apontada que a vida lá era caríssima, quase tudo era importado de São Paulo e de Campo Grande [10]. Além disso, não existiam adequados meios de transporte e de comunicação, bem como incentivos financeiros que atraíssem o elemento nacional, inclusive outros estrangeiros mais adaptados ao trabalho sistematizado. Para ele, era necessário, então, implantar uma nova organização de trabalho na fronteira. Contudo, como introduzir novos elementos sem incentivos?

Nesse sentido, o autor parece ter escrito a obra para chamar a atenção para essa parte “esquecida” do Brasil. E, ainda que a crítica ao trabalho seja central em sua obra, o autor reflete sobre todos os problemas da região: educação, saúde, comunicação, meios de transporte, produção, dentre outros, e clama pela atenção do Governo Federal. Melo e Silva traçou uma plataforma para a fronteira e considerou ser necessária a mão forte do Estado para resolver os problemas apontados.

A publicação de Fronteiras Guaranis ocorreu após a tomada das primeiras medidas orquestradas pelo Governo Vargas visando à centralização das políticas de desenvolvimento. Mas, apesar da formulação dessas políticas centralizadoras, inclusive para a fronteira, Melo e Silva as considerava não satisfatórias à época  [11].

A escolha de Monte Arraes [12] como prefaciador da obra sugere pistas que permitem identificar a aproximação de Melo e Silva com a vertente do pensamento nacionalista autoritário, que estabeleceu como critério definidor da Nação a unidade étnica e lingüística. É evidenciada por seu prefaciador, inclusive, a sintonia de Melo e Silva com essa corrente de pensamento expressa e determinada, segundo Arraes [13], pela Constituição de 1937, especialmente quando defende o controle das fronteiras pelo Governo Federal.

Para expor sua tese – a necessidade de nacionalização da fronteira –, o autor analisou a região em todos os seus pormenores, e deu preferência ao estudo do homem fronteiriço, o guaranizado, problema máximo da fronteira.

Mas, de fato, quem era esse homem? Melo e Silva ora o denomina paraguaio guarani, ora descendente guarani, ora paraguaio. Segundo ele, os homens da fronteira não eram “puros”, pois haviam se misturado, “em parte já fundidos com representantes de etnias européias e hispano-americanas, e modificados pela influência da civilização dos nossos dias” [14]. Melo e Silva reconhece, também, que muitos brasileiros possuíam os mesmos hábitos desses guaranizados, pois misturados, descendentes de paraguaios. Para ele, a cultura dos guaranizados prevalecia e, devido aos casamentos “livres”, seus costumes multiplicavam-se entre a população [15]. Ou seja, para o autor, não fazia diferença se esse trabalhador era nascido no Brasil ou no Paraguai. O que importava eram seus costumes, sobretudo se a mãe fosse guarani ou mestiça: “se guarani ou mestiça a mãe, e apenas brasileiro o pai, este pouco influe na educação dos filhos, mesmo porque entre os guaranis há resíduos bem patentes de matriarcado” [16]. Na realidade, é o trabalhador que preocupa Melo e Silva e a quase totalidade dos trabalhadores fronteiriços eram paraguaios ou descendentes. Era preciso, na visão do autor, fazer um “caldeamento em que preponderem os bons elementos” [17].

Grande parte de Fronteiras Guaranis é reservada ao estudo da denominada dissolução de costumes. Para discuti-la, Melo e Silva traça um panorama minucioso dos costumes indígenas da fronteira e, para tanto, usa autores ligados ao estudo da antropologia [18], da psicanálise [19] e da psiquiatria [20]. Mas, é necessário frisar, sua preocupação é demonstrar de que forma os costumes fronteiriços, como por exemplo, o lazer, festas, músicas, carreiradas [21], etc., acabavam interferindo na vida dos homens, ocasionando prejuízos ao desenvolvimento do trabalho. Se há uma preocupação racista em Melo e Silva, ela se torna secundária ao observar que é o trabalho a questão que o move.

De fato, os hábitos e costumes dos trabalhadores, resistências tão abominadas por Melo e Silva, eram manifestações culturais do trabalhador fronteiriço e estavam ligadas ao tipo de trabalho desenvolvido na região. Grande parte desses trabalhadores empregava-se no trabalho de elaboração da erva-mate, organizado nos moldes da manufatura. Na fronteira, o trabalho era manufatureiro, isto é, ele ainda não sofrera o suficiente a divisão do trabalho para baratear as mercadorias. Nas atividades mais atingidas pela especialização, como era o caso da erva mate, significa dizer que o trabalho ainda não fora suficientemente objetivado.

Para resolver o conjunto de problemas apontado, Melo e Silva sugeria que os homens fronteiriços fossem ensinados por culturas diferenciadas, próprias dos nacionais, como os nordestinos, por exemplo, acostumados ao trabalho metódico, diferentemente dos guaranizados, que não tinham noção de propriedade nem de nacionalidade e viviam no sul de Mato Grosso como se fosse sua própria terra, comportamento que, segundo ele, ocorria em todo território sul americano [22].

É necessário observar que ainda que a questão relativa ao trabalho fosse determinante, observa-se a incorporação de teorias racistas, responsáveis por uma interpretação preconceituosa e idealizada do homem da fronteira. Fronteiras Guaranis incorpora noções discutíveis e atrasadas, do ponto de vista da ciência, por meio das idéias de Oliveira Vianna, estudioso que desenvolveu conceitos como o do apuramento da raça brasileira.

Incorpora, também, as motivações de nacionalização associadas às políticas de centralização do Governo Vargas, que se transformaram em projetos, em planos de colonização e em movimentos tal como a Marcha para Oeste, e, ao mesmo tempo, é expressão de como interpretava a realização mais apropriada dessas políticas na região de fronteira onde vivia. A partir da década de 1930, em razão das medidas de centralização do Governo Vargas foram adotadas novas políticas de controle, impondo a centralização do poder. A Companhia Matte Larangeira, monopolizando a exploração ervateira, sofreu perseguição do Governo Vargas que a obrigava a empregar trabalhadores nacionais em dois terços de sua força de trabalho. Além disso, estava sendo pressionada a desocupar o arrendamento do qual ocupara há quase 50 anos.

Mas, Melo e Silva não incorporou o discurso nacionalista contra a Companhia Matte Larangeira. Importante frisar que melo e Silva foi o único historiador a defender abertamente, à época, a referida empresa [23]. O “nacionalismo” encontrado na referida obra parece estar mais ligado a uma concepção de desenvolvimento capitalista na qual se fazem presentes as idéias de modernização e de maior presença do Estado na economia.

A incorporação do neotomismo, por meio de Alceu de Amoroso Lima, também é evidente na obra, sobretudo para fazer o combate ideológico ao comunismo, revelando seu posicionamento conservador. Ideologicamente, portanto, o autor mesclou idéias que postulam uma forma mais avançada de desenvolvimento do capitalismo na fronteira, o neotomismo e o racismo do século XIX.

Outra observação se faz necessária. Ainda que Melo e Silva tenha incorporado ideologias racistas em seus textos e que, em alguns momentos, essas idéias tenham sido incisivas, o autor acreditava, também, na possibilidade de modificar a cultura fronteiriça pela educação.

Em Fronteiras Guaranis, a educação é vista de forma mais ampla, como processo de socialização. Melo e Silva defende uma educação que pudesse modificar os costumes dos guarani em relação ao trabalho. Para tanto, acreditava na “lição do exemplo”. A educação teria um papel fundamental, homogeneizando a cultura, inserindo novos hábitos no trabalho, eliminando, assim, as diferenças. Para ele, a introdução de colonos brasileiros na fronteira poderia causar um impacto na educação dos trabalhadores guaranis ou mestiços, pois criaria a possibilidade de que absorvessem um novo modo de encarar e de fazer o trabalho.

Sugeria, sim, a modificação em seus costumes graças ao contato com outros povos, sobretudo o nordestino, trabalhador que poderia lhes dar “a lição do exemplo” [24]. Além disso, para que esses trabalhadores permanecessem na fronteira deveriam permitir que seus descendentes, nascidos no Brasil, fossem educados “à moda brasileira”. Mas não era qualquer tipo de educação que resultaria em modificação para o autor. Essa educação teria como princípio a moral cristã, o mesmo princípio dos missionários jesuítas [25].

Seguramente, Fronteiras Guaranis é referência imprescindível para o estudo da fronteira de Mato Grosso, no período em que esta região passava por um controle mais rigoroso do Governo ditatorial de Vargas (1937-1945). É uma obra que se destaca por ser a primeira da historiografia mato-grossense que faz uma análise com maior profundidade e riqueza de detalhes sobre a fronteira paraguaia. Mas sua importância não reside apenas nisso, pois é, também, expressão regional de um contexto de grandes mudanças no país; é fruto desse momento histórico em que a “nação” e a “raça” tornam-se uma preocupação central de muitos intelectuais conservadores.

Notas

1. A obra pode ser acessada, também, no site do Instituto: www.ihgms.com.br

2. Co-autor de História de Mato Grosso do Sul (2003) e autor de Breve Memória da Justiça Sul-Mato-Grossense (1987) e Santana do Paranaíba (2003), hoje Campestrini é Presidente do Instituto Histórico Geográfico de Mato Grosso do Sul – IHG-MS e membro da Academia Sul-mato-grossense de Letras.

3. MELO E SILVA, José de. Id., ibid., p. 170.

4. Id.., ibid., p.93.

5. Id. ,ibid., p. 21.

6. Id., ibid., p. 292.

7. Estranha-se a não inclusão de Nioaque e de Corumbá, municípios em que a presença de trabalhadores paraguaios era elevada. Sobre Nioaque o autor nada menciona, mas no caso de Corumbá, negava a influência da cultura guarani. A princesa do Paraguai, afirmava, tinha quase todas as características de uma cidade moderna, de sentido “spengleriano”. Id.,ibid.,p. 99.

8. Id., ibid., p. 116.

9. Id., ibid., p. 272.

10. Id., ibid., p. 148.

11. Id., ibid., p. 117.

12. Raymundo de Monte Arraes nasceu no Ceará em 1888 e faleceu no Rio de Janeiro em 1965. Arraes foi advogado autodidata. Foi, juntamente com Francisco Campos e Azevedo de Amaral, um dos três teóricos do Estado Novo. Quando deputado federal ingressou em várias comissões técnicas, sobressaindo-se na Comissão de Educação do Ministro Capanema (PAULA, 1987). Segundo a neta de Arraes, a escritora Vânia Moreira Diniz (2004), logo após a instituição do Estado Novo, em 1937, o Presidente Vargas teria lhe oferecido um cartório. Seu avô, conforme ela, resistira inicialmente, mas acabara aceitando por insistência de seus amigos. Após a década de 1950, seus escritos passam a criticar a revolução de 1930 e o regime ditatorial de Vargas.

13. MELO E SILVA, José de. Op. cit.

14. Id., ibid., p. 121.

15. Id., ibid., p. 122.

16. Id., ibid.

17. Id., ibid., p. 175.

18. D´Orbigni. Evreux, Levy-Bruhl, Martius, Metraux, Nordenskiaeld, Frazer, Estevão Pinto.

19. Freud, por exemplo.

20. Franco da Rocha e Nina Rodrigues.

21. Corridas de cavalo.

22. MELO E SILVA, José de. Op. cit., p. 121.

23. Id., ibid., p. 257/262.

24. Id., Ibid., p. 275.

25. Id., ibid., p. 179.

Carla Villamaina Centeno – Doutora em Filosofia e História da Educação. UEMS. UNIDERP. E-mail: carla.centeno@uol.com.br


MELO E SILVA, José de. Fronteiras guaranis: com um estudo sobre o idioma guarani, ou ava-ñe-ê, São Paulo: Imprensa Metodista, 1939. Resenha de: CENTENO, Carla Villamaina. A fronteira referida à nação. Albuquerque – Revista de História. Campo Grande, v. 1, n. 1, p. 237-244, jan./jun., 2009.

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Mato Grosso do Sul: o universal e o singular | Gilberto Luiz Alves

“Agora a nossa realidade se desmorona.

Despencam-se deuses, valores, paredes…

Estamos entre ruínas.

A nós, poetas destes tempos, cabe falar dos morcegos que voam dentro dessas ruínas.

Dos restos humanos fazendo discursos sozinhos nas ruas.

A nós cabe falar do lixo sobrado e dos rios podres

que correm por dentro de nós e das casas.”

Manoel de Barros

Se ao poeta destes tempos cabe alertar sobre a fragmentação da sociedade e, sobretudo, sobre a fragmentação que atinge nossa visão sobre a mesma – tarefa cumprida com maestria pelo cantador do Pantanal, Manoel de Barros -, a perspectiva do pesquisador é procurar compreendê-la. Em outras palavras, como mesmo aponta Gilberto Luiz Alves na obra Mato Grosso do Sul: o universal e o singular, a importância do conhecimento está exatamente em captar a condição humana que nos aproxima, em sua relação com os singulares nos quais esta humanidade vem se expressando, em diferentes espaços e momentos da história.

Esta é a proposta central desta obra: discutir o movimento histórico de como se constituem, em permanente relação, o universal de nossos tempos, a sociedade capitalista, e suas diferentes expressões singulares, marcadas pelas particularidades próprias ao desenrolar da constituição histórica do capital em diferentes paisagens sociais. Ao adentrar tal caminho, contudo, o autor acaba por confrontar-nos com discussões centrais na historiografia atual, de interesse não só àqueles que se dedicam à temática educacional e regional, nas quais Alves tem concentrado seus trabalhos de pesquisa1.

Mais que isso, o autor nos brinda com uma reflexão acerca do próprio significado epistemológico e da importância heurística destas duas categorias, universal e singular, dentro do campo teórico marxista. Com isso, apresenta uma discussão profícua para que sejam discutidos os particularismos que ainda hoje se apresentam no campo teórico das Ciências Humanas, ainda mais quando as manifestações de um regionalismo estreito têm impregnado diferentes análises, sob o invólucro da defesa do direito à diferença.

Neste sentido, Alves rejeita qualquer análise que desconsidere o singular e sua importância enquanto espaço de manifestação das leis gerais que operam na sociedade capitalista. Já que o universal, nunca é demais lembrar, encontra aí seu espaço de materialização histórico-social; mas também alerta para o perigo de autonomizar-se o movimento do particular, tornando-o auto- explicativo, perdendo a perspectiva de que seu móvel encontra-se no próprio movimento do todo, encontra-se na sociedade capitalista do qual é parte constituinte. Como forma específica de realização do universal, portanto, os distintos singulares presentes na realidade social estão a ela subordinados, e somente nesta relação dialética serão encontradas as chaves para seu entendimento.

Tais reflexões tornam-se ainda mais interessantes quando ao exercício teórico somam-se os resultados das pesquisas de campo realizadas pelo autor, momento em que expõe seu enfrentamento com os problemas concretos trazidos pela necessidade, imperiosamente colocada ao teórico marxista, de considerar adequadamente a relação universal/singular. Necessidade esta, diga-se de passagem, que vai além do campo meramente explicativo, mas que tem raízes na própria práxis do profissional engajado nos embates sociais de seu tempo.

Como resultado deste confronto, vemo-nos frente a quatro trabalhos, escritos em distintos momentos da vida acadêmica do autor, mas alinhavados teoricamente, como declara este último, pela proposta metodológica de destacar como o marxismo se posiciona frente à relação entre o universal e o singular, objeto de suas reflexões no primeiro texto desta coletânea (Universal e singular: em discussão a abordagem científica do regional). Para a apresentação de suas conclusões, nada melhor do que evidenciar a própria trama de que resulta o processo de formação e consolidação da sociedade capitalista, materializada nas expressões singulares que conformaram esta mesma sociedade no Novo Mundo. Estas últimas são trazidas à cena histórica, por um lado, fazendo menção àquilo que universaliza a ação humana nesta parte do globo, ou seja, as manifestações do capital enquanto elemento inerente e essencial no processo societário em curso; por outro, este capital, na sua dinâmica concreta, encontrou sua materialidade nas formas distintas por meio das quais expressou-se nesta parte do mundo, manifestas na atividade jesuítica, nas diferentes formas de colonização das Américas, na maneira como se deu a utilização da força de trabalho índia, negra ou imigrante, ou mais modernamente, como se expressou no continente a doutrina de segurança nacional.

O autor destaca, contudo, a necessidade de que sejam desveladas, neste esforço teórico-metodológico, as representações ideológicas que reforçam o estranhamento entre os povos americanos, na medida em que desviam a atenção do pesquisador da relação dialética necessária entre o singular e o universal. Na verdade, os regionalismos, os nacionalismos, em seus diferentes matizes, levam ao esquecimento da necessidade de se enfatizar a subordinação dos distintos singulares ao movimento universal da sociedade capitalista, uma vez que estes singulares são formas de realização desta mesma sociedade. Na práxis política, destaca ainda, isso significa a construção das bases para uma ação política significativa para o conjunto da humanidade, isto é, capaz de colaborar para o projeto emancipatório do homem hodierno.

O segundo texto (Nacional e regional na historiografia educacional brasileira: uma análise sob a ótica dos estados mato-grossenses) promove um balanço da historiografia educacional produzida no e sobre os estados de Mato Grosso e Mato Grosso do Sul, entre os anos 70 e 90. O critério a partir do qual esta parcela da historiografia regional será analisada está centrado na relação universal/singular, desta feita discutida a partir de algumas das expressões desta singularidade, a questão regional e a questão educacional.

Com base nestas premissas é discutida a historiografia sobre esta região do país, tanto aquela que teve a educação como objeto como aquela que, embora não centrada nos fenômenos educativos, é essencial para que se compreenda a constituição do processo capitalista nesta parte do Brasil. Revelam-se assim, no exercício cotidiano da pesquisa em História da Educação, os liames que permitem reconstituir os processos educativos em curso naquela determinada região do país, em determinado momento de sua história, a partir da reconstituição das relações que os processos em foco guardam com a totalidade da sociedade capitalista.

Para esta exposição, são retomadas as obras da historiografia educacional diletante, marcadas essencialmente pelo registro e reconstituição factual da história. Entre estes trabalhos que antecederam a produção acadêmica destaca-se a obra de Melo e Silva, único intelectual a lançar-se à análise do momento histórico que era foco de suas preocupações – a década de 40 do século XX, em especial na fronteira sul do então estado de Mato Grosso, obra que ainda permanece como um desafio para a historiografia regional, dada esta sua especificidade.

O surgimento da produção acadêmica a partir dos anos 70, fortalecida na década seguinte pelo aparecimento dos primeiros cursos de pós-graduação naqueles estados, dá ensejo não só ao maior conhecimento e problematização da questão educativa regional, como à sua incorporação no debate nacional. A formação de coletivos de pesquisa, o levantamento de fontes para a pesquisa, a organização de arquivos, centros de documentação, entre outras iniciativas, fortaleceu a discussão sobre os entraves representados pelo regionalismo, e a necessidade do fortalecimento da discussão acerca da relação universal/singular, no entendimento das formas assumidas pelo processo educativo nos dois estados.

Além disso, mais recentemente, como o demonstra este próprio texto, escrito por ocasião do I Congresso Nacional de História da Educação, realizado sob os auspícios da Sociedade Brasileira de História da Educação (SBHE), as reflexões sobre a historiografia educacional mato-grossense e sul-mato-grossense, na medida em que desvele as singularidades assumidas pelo processo educativo nestas regiões do Brasil, pode contribuir para iluminar a produção historiográfica sobre o tema em todo o país, em dois sentidos. Primeiro, ao levantar hipóteses de trabalho sobre como fenômenos produzidos nacionalmente, fruto do processo de expansão capitalista, singularizam-se nestes estados, e de como estas singularidades podem ou não tornarem-se expressões presentes em outras regiões do Brasil. Segundo, colaborando para que certas idéias que se tornaram comuns na historiografia educacional brasileira sejam confrontadas com sua materialidade, o que pode favorecer a crítica científica de certos equívocos que vem se perpetuando entre os estudiosos da área.

O terceiro texto retoma a mesma discussão sobre o singular e o universal, desta feita ao tratar sobre A trajetória histórica do grande comerciante dos portos em Corumbá: 1857-1929.

Tendo como preocupação central analisar o surgimento da casa comercial em Corumbá, na segunda metade do século XIX, o autor demonstra, em um texto de rara inspiração, os liames que fazem desta uma expressão, no distante Mato Grosso, do período de transição da fase manufatureira para aquela centrada na Revolução Industrial, ou seja, na produção de bens industrializados, no interior da etapa concorrencial do capitalismo.

Alves demonstra, recorrendo a exemplos relativos ao mesmo fenômeno em outras partes do continente sul-americano, como se deu a formação, o desenvolvimento e, posteriormente, o ocaso desta atividade comercial que marcou tão intensamente a vida daquela região de Mato Grosso2. O autor destaca ainda como essas marcas provocaram a cosmopolitização da vida em Corumbá, dando ensejo a manifestações culturais e sociais até hoje presentes naquele município fronteiriço, como é o caso do conjunto arquitetônico denominado Casario do Porto. No momento em que se discutem propostas de revitalização destas e de outras edificações em Corumbá, nada mais importante do que se ter sob os olhos este passado, base para as reflexões presentes sobre o seu uso continuado e, acima de tudo, centrado nos interesses de construção de uma sociedade cidadã.

No quarto e último texto o autor volta suas preocupações aos primórdios da atividade que, em momento histórico posterior ao comércio, virá a ser determinante na região pantaneira. Estamos falando da pecuária na segunda metade do século XIX, e sobre um de seus principais mentores no Pantanal neste período, temas do trabalho José de Barros: a formação de um pioneiro.

Sobre os destaques deste texto, é interessante assinalar, primeiramente, a utilização sistemática da obra de cronistas e viajantes para descrever aspectos da região neste momento histórico, destacando a forma como se davam as relações humanas nesta etapa da sociedade capitalista no Pantanal. Em outras palavras, como se singularizou, na região da Nhecolândia, uma determinada forma de expressão, particular a este espaço e momento histórico, da sociedade capitalista.

Num segundo momento, Alves demonstra ainda como os limites materiais impostos a esses homens neste processo de formação e consolidação das fazendas de gado levaram-nos a determinadas soluções no processo de recolonização da região. Neste sentido, por exemplo, embora valorizasse o ensino formal, – traço este que parece ter destacado a sua família frente a outros pioneiros -, José de Barros teve que abandonar a escola regular, após ter aprendido os seus fundamentos (ler, escrever e realizar as quatro operações aritméticas), dados os precários recursos materiais de sua família.

As necessidades impostas pelas dificuldades inerentes ao trabalho com a família lhe impuseram continuar sua formação na “escola do trabalho”, aquela que lhe permitiria, junto aos conhecimentos e hábitos adquiridos graças à escola regular, alguns anos depois, criar as condições concretas para o sustento e a formação de uma vasta prole, criada e ambientada na região pantaneira.

À guisa de conclusão, consideramos aqui as palavras iniciais do autor quando, na página de abertura da obra Mato Grosso do Sul: o universal e o singular, dedica seu trabalho ao poeta Manoel de Barros, “poeta que se universalizou ao cantar o Pantanal.” Da mesma forma, cremos que Alves, partindo de uma discussão centrada na temática regional, – intenção claramente exposta desde o início no próprio título dado a este trabalho, – tenha alcançado seu intento de demonstrar e discutir questões que são de interesse para pesquisadores de todas as áreas do conhecimento. Em outras palavras, o autor também se universaliza, trazendo a baila um trabalho que, pelo rigor com que discute uma questão central no universo metodológico marxista, contribui para o debate teórico enfrentado pelos estudiosos de hoje, sejam quais forem seus recortes temáticos específicos. Neste sentido, torna-se uma obra importante para quantos tenham interesse de trabalhar, teórica e ou praticamente, a relação entre o singular e o universal na pesquisa científica.

Notas

1. Eis, a título de exemplo, algumas das obras do autor nestes campos temáticos: ALVES, Gilberto Luiz. Educação e história em Mato Grosso: 1719-1864. 2.ed. rev. Campo Grande: UFMS, 1996.; Id. Mato Grosso e a história: 1870-1929 (Ensaio sobre a transição do domínio econômico da casa comercial à hegemonia do capital financeiro). Boletim Paulista de Geografia, São Paulo, v. 2, n. 61, p. 5-81, 1984; Id. O pensamento burguês no Seminário de Olinda: 1800-1836. 2. ed. rev. Campo Grande: UFMS; Campinas: Autores Associados, 2001.; Id. A produção da escola pública contemporânea. Campinas: Autores Associados, 2001.

2. Trata-se aqui do estado de Mato Grosso antes do processo de divisão, ocorrida em 1979, que deu origem a duas unidades federativas: Mato Grosso e Mato Grosso do Sul

Silvia Helena Andrade de Brito – Departamento de Ciências Humanas e Sociais. CCHS/UFMS. E-mail: shbrito@terra.com.br


ALVES, Gilberto Luiz. Mato Grosso do Sul: o universal e o singular. Resenha de: BRITO, Silvia Helena Andrade de. Reconstituindo as teias da relação entre o universal e o singular. Albuquerque – Revista de História. Campo Grande, v. 1, n. 1, p. 229-235, jan./jun., 2009.

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I Encontro de Arqueologia de Mato Grosso do Sul / Albuquerque: revista de história / 2009

É com muita satisfação que nos dirigimos a toda comunidade de pesquisadores, profissionais de áreas afins, empresas, instituições governamentais, patrocinadores e estudantes. O I Encontro de Arqueologia de Mato Grosso do Sul marca um grande avanço na produção do conhecimento científico neste estado. Apresentar este evento é, sem dúvida nenhuma, dar um importante passo para consolidar os estudos sobre a ciência do passado do homem nessa região. Comemorar o primeiro ano de inauguração do MuArq (Museu de Arqueologia da UFMS) é a confirmação de um antigo desejo de toda comunidade científica sul-mato-grossense.

O tema proposto para este primeiro encontro apresenta uma vertente para o direcionamento dos estudos arqueológicos. Arqueologia Histórica de Mato Grosso do Sul é uma temática totalmente apropriada para um estado que oficialmente tem aproximadamente três décadas de existência, mas, que teve suas origens ainda no início do século XVI. Essa tendência para a pesquisa arqueológica vincula-se às discussões sobre os processos construtivos das identidades da sociedade e com o resgate da memória multicultural de Mato Grosso do Sul como forma de consolidar a democracia cultural e fomentar a auto-estima de todos os segmentos étnicos da população.

O número de trabalhos apresentados nesta primeira edição do Encontro de Arqueologia superou a previsão inicial quanto à produção do conhecimento arqueológico em Mato Grosso do Sul. Esse fato revela que há uma grande demanda pelo conhecimento científico na área desta ciência, mesmo sem ainda haver um curso de nível superior ou de pós-graduação que atenda à oferta de temas para a pesquisa arqueológica na região.

Finalmente, gostaríamos de ressaltar ainda que o I Encontro de Arqueologia de Mato Grosso do Sul está inserido dentro da proposta da 7ª Semana Nacional de Museus, que acontece entre os dias 17 e 23 de maio de 2009 e tem como tema Museus e Turismo, em conformidade com o que foi decidido pelo International Council Of Museums – ICOM. A apresentação da exposição cênica Arqueologia Histórica de Mato Grosso do Sul aproxima a arte e a ciência, propondo uma releitura dos vestígios materiais pretéritos, despertando o interesse e o debate entre acadêmicos, professores, profissionais, alunos e a comunidade como um todo sobre o passado regional. A iniciativa de realizar este primeiro evento em Mato Grosso do Sul ainda nos aproxima das discussões arqueológicas / científicas com países e estados vizinhos, além de criar as condições necessárias para que futuramente a Arqueologia possa ser discutida e repensada de forma abrangente por toda a comunidade. Campo Grande, maio de 2009.

Gilson Rodolfo Martins – Professor Doutor. Diretor do MuArq e Coordenador do I Encontro de Arqueologia de Mato Grosso do Sul.

MARTINS, Gilson Rodolfo. Apresentação. Albuquerque: revista de história, Mato Grosso do Sul, v.1, n.2, 2009. Acessar publicação original [DR]

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História, Cultura e Linguagens / Albuquerque: revista de história / 2010

Manter um periódico no Brasil não é tarefa das mais fáceis, especialmente no que se refere a publicações no campo das Ciências Humanas. Apesar de todas as dificuldades impostas aos cursos de história da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul, materializadas, sobretudo, na sua pulverização em seis dos dez campi mantidos por essa instituição no interior do estado, o que vem inclusive obstando a construção de um Programa de Pós-Graduação na área, a Revista Albuquerque, graças ao empenho de seus colaboradores, dos membros de seu Conselho Consultivo e de seus editores, tem sustentado o desafio de apresentar à comunidade acadêmica os resultados de estudos de profissionais vinculados ao campo da História e áreas correlatas, do país e do exterior.

O saldo desse empenho revela-se na profícua troca de experiências que os profissionais da área de História da UFMS têm estabelecido entre si, bem como com professores e pesquisadores de diferentes áreas das Ciências Humanas que atuam nas mais diversas instituições de ensino e pesquisa nacionais e internacionais, permitindo não só a abertura de novas possibilidades de estudos, mas a constante ampliação do debate acadêmico, tido pelos editores da Revista Albuquerque como elemento essencial para o amadurecimento do conhecimento histórico.

Exatamente por isso, o periódico, dirigido e organizado por docentes dos cursos de graduação em História da UFMS, tem merecido o apoio de professores das várias instituições que compõem o Conselho Consultivo. Também a coordenação e os pesquisadores atrelados à Base de Pesquisas Históricas e Culturais das Bacias dos Rios Aquidauana e Miranda (BPRAM) assumem, a partir desta edição, papel importante para a manutenção da revista. Criada em março de 2009 como uma Unidade Técnica de Apoio ligada ao Departamento de História do Campus de Aquidauana da UFMS, a BPRAM é hoje um dos órgãos responsáveis pelas atividades científicas e culturais de interesse da UFMS. Entre as suas diversas atribuições constam o estímulo à pesquisa de caráter teórico e empírico visando ao aprofundamento e avanço do conhecimento da ciência histórica e de seus campos correlatos, o apoio e fortalecimento dos grupos e linhas de pesquisa, o estimulo e o apoio aos pesquisadores no tocante à publicação e divulgação de suas produções científicas. Nascidas ao mesmo tempo e agora juntas, a Revista Albuquerque e a BPRAM constituem-se em elementos fundamentais para a expansão da pesquisa histórica na UFMS.

Procurando manter e consolidar sua trajetória de instrumento de divulgação e debate acadêmico entre professores, pesquisadores e pessoas ligadas à produção do conhecimento, e seguindo uma proposta mais específica de sua linha editorial, a seção Artigos deste terceiro número da Revista Albuquerque acolhe importantes trabalhos referentes às regiões platinas e mato-grossenses. Os desdobramentos do encontro entre as cosmovisões do colonizador espanhol e dos indígenas americanos são examinadas por Raúl Prada Alcoreza no artigo Poder, Saber y Subjetividad en los Movimientos Indígenas. Já a memória e cultura das Comitivas, bem como o registro do cotidiano do peão pantaneiro, é tema abordado por Eron Brum em Cenários do Pantanal: o Gado, os Peões e as Comitivas. A seguir, um artigo de Ely Carneiro de Paiva contempla as expedições do explorador alemão Karl Von den Steinen, considerado o iniciador da investigação científica dos povos indígenas da América do Sul no final do século XIX. A seção se encerra com texto Charqueadas: uma alternativa na economia pecuária do sul de Mato Grosso (1880-1930 / 40), no qual Valmir Batista Corrêa e Lúcia Salsa Corrêa analisam papel das charqueadas na economia regional do sul de Mato Grosso.

Trilhando o caminho aberto no número anterior, esta edição da Revista Albuquerque apresenta o dossiê “História, Cultura e Linguagens”, que traz, em sua abertura, o artigo de José D’Assunção Barros intitulado Um caminho percorrido e perspectivas sobre os novos tempos. Nele, seu autor busca compreender a tarefa do historiador no tratamento que dá às fontes polifônicas, baseado no dialogismo inerente à própria forma contemporânea assumida pela narrativa histórica. D’Assunção Barros aponta para as transformações na historiografia a partir de meados do século XIX e, sobretudo, a partir da aproximação entre a História e outras disciplinas do campo das Humanidades no segundo quartel do século XX. Importa ao autor a constituição de uma historiografia dialógica incrementada a partir da absorção das linguagens artísticas como fontes possíveis para a interpretação dos historiadores.

Se este dossiê é inaugurado por uma reflexão de caráter teórico metodológico, ele segue com o estudo de caso apresentado por Marcos Antonio de Menezes em Baudelaire, a mulher e “o amor que não ousa dizer seu nome”. Tal reflexão baseia-se na interpretação de alguns dos poemas de As Flores do Mal, de Charles Baudelaire, especialmente naqueles que apresentam temas antes não atingidos pela leitura do historiador, como o erotismo lésbico. Ali, o historiador se encontra com o crítico literário e a junção de ambos oferece ao leitor uma visão pormenorizada da maneira como a sociedade parisiense de meados do século XIX interpretava os desejos que figuram além da heteronormatividade.

Se a margem social experimentada pelas discípulas de Safo nos é apresentada por Marcos Antonio Menezes, a composição de outra margem acadêmica é proposta por Peterson José de Oliveira. No artigo intitulado Novela: um gênero polêmico, o autor aponta para uma crítica literária canônica que negligenciou tal gênero em seus estudos, considerando-o menor. Para além desta constatação advinda da revisão da bibliografia especializada, Peterson José de Oliveira nos leva para outro campo, aquele do esfacelamento dos gêneros literários na contemporaneidade, ao mesmo tempo em que as convenções nominativas dos gêneros permanecem.

A sessão é finalizada com o artigo Movimento Divisionista e as diversas interpretações na historiografia: análise do Movimento Guaicuru, de Thaís Leão Vieira e Aline Xavier Cana Verde. As autoras se voltam para o Movimento Cultural Guaicuru e a reconstrução que tal movimento – posteriormente à divisão do Estado de Mato Grosso e o surgimento do Estado de Mato Grosso do Sul – faz da memória do indígena Guaicuru e sua distribuição espacial que, em última análise, apontaria para a existência de uma unidade espacial autônoma bem antes da divisão do Estado. Se outros suportes já foram utilizados para construir / compreender uma possível identidade sul-mato-grossense, para Vieira e Cana Verde importam o pensamento e a produção artística aqui estabelecidas nos anos 1980 e seguintes.

O dossiê “História, Cultura e Linguagens” constitui-se, portanto, de trabalhos das áreas de História e Crítica Literária, bem como do encontro das duas áreas, e, ainda, de historiadores que assimilam, em sua produção, as linguagens artísticas como fonte privilegiada de análise, no que se irmanam a um esforço da historiografia brasileira das duas últimas décadas, renovando o campo de interpretação das ações humanas no tempo e no espaço.

Finalmente, a seção Caderno Especial traz o documento intitulado Viagens a Mato Grosso (1887 / 88). Segunda Expedição ao Xingu, por Peter Vogel, traduzido pela Professora Doutora Maria Alvina Krähenbühl.

Esperamos que essa nova edição da Revista Albuquerque contribua para que o espaço por ela conquistado até aqui seja mantido e mesmo expandido.

Editores. Apresentação. Albuquerque: revista de história, Mato Grosso do Sul, v.2, n.3, 2010. Acessar publicação original [DR]

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A cidade como objeto de reflexão interdisciplinar-1ª parte / Albuquerque: revista de história / 2010

Com o lançamento do quarto número, a Revista Albuquerque completa seu segundo ano de existência. Possibilitando aos pesquisadores a divulgação dos resultados de suas pesquisas, propiciando aos estudantes e professores o amplo acesso a informações e à produção acadêmica mais recente, acreditamos que nesse período desempenhamos um papel fundamental, não só para o processo de socialização do conhecimento, mas também para o desenvolvimento científico da área de história, das humanidades e de áreas afins, em Mato Grosso do Sul e no restante do país. Por isso, o número que ora vem a público assume um significado especial, pois representa o momento de consolidação deste periódico, que reafirma seu compromisso de publicar textos de qualidade e relevância científica.

Neste quarto número da Revista Albuquerque, a seção “Artigos” se abre com três textos de suma importância para a compreensão do processo de ocupação colonial dos territórios situados ao longo do rio Paraguai, a rigor uma extensa área de fronteiras indefinidas até praticamente o século XIX, da qual fazem parte os estados de Mato Grosso e Mato Grosso do Sul.

Partindo da constatação de que o controle daquele território fazia parte dos projetos expansionistas portugueses e espanhóis, no texto intitulado “Mato Grosso e Concepción, uma experiência de fronteira no período colonial (século XVIII)”, Ney Iared Reynaldo debruça-se sobre as estratégias adotadas pelas monarquias ibéricas para ocupar e salvaguardar suas áreas de domínio na região platina, então povoada por diferentes populações indígenas.

Em “Curumaí: uma povoação no caminho de Xerez”, Paulo Cezar Vargas Freire coloca em evidência a povoação de Curumiaí, um pueblo colonial espanhol formado por indígenas guaranis e fundado por religiosos franciscanos na década de 1580, cuja localização ainda é desconhecida. Partindo da proposição de que as escolhas dos locais de moradia, nesta parte da América do Sul, estão imbricadas com os traçados dos caminhos pré-coloniais, que durante os séculos XVI e XVII foram utilizados nos deslocamentos com igual ou maior constância que as vias fluviais, o autor objetiva, de um lado, contribuir para a localização do sítio da povoação de Curumiaí e, de outro, analisar a importância de considerar os caminhos pré-coloniais como um dos elementos para compreender a sucessão de deslocamentos das aldeias, dos pueblos ou das villas numa região em que as transmigrações das populações coloniais foram acentuadas.

A temática de Xerez é retomada por Sandra Nara da Silva Novais e Aguinaldo Rodrigues Gomes em “Campos de Xerez: palco de lutas e conflitos pela exploração da mão-de-obra indígena”, texto no qual os autores propõem apresentar os fatores históricos que inviabilizaram a perpetuação do projeto assuncenho- -castelhano no atual território sul-mato-grossense, abrangendo especificamente a região que na toponímia colonial foi denominada “Campos de Xerez”.

Seguindo a trajetória iniciada com a publicação de seu segundo número, o presente volume da Revista Albuquerque traz o Dossiê “A cidade como objeto de reflexão interdisciplinar”. Dado o volume de artigos apresentados, os editores resolveram dividí-los em duas partes, uma no presente volume e a segunda no volume seguinte. Reconhecendo as cidades como elementos constitutivos da trama cultural e histórica, podendo, portanto, ser observadas como espaços que condicionam múltiplas experiências pessoais e coletivas, tecidos de memórias do passado e de impressões recolhidas ao longo das diversas experiências urbanas, nos textos selecionados para este dossiê, produzidos por especialistas vinculados a variadas áreas do conhecimento, as problemáticas da cidade são delineadas como questões significativas, nas quais emergem temáticas variadas que vão desde representações urbanas sobre a modernidade, até a presença de um léxico urbano para nomear e dar significados aos lugares e às gentes.

Por fim, a seção “Caderno Especial” apresenta dois documentos importantes como contribuição para a compreensão histórica da fronteira oeste. O primeiro, “A retomada de Corumbá vista pelos paraguayos”, é um extrato do Album Graphico de la Republica del Paraguay, de Arsenio Lopez Decoud, e que traz uma visão diferente deste fato importante da Guerra com o Paraguai. O outro, “Repressão ao contrabando no Apa. Instruções. 1917”, demonstrou a preocupação das autoridades alfandegárias em legislar o combate aos descaminhos característicos da região fronteiriça.

Assim, a Revista Albuquerque segue superando os obstáculos comuns de um veículo de divulgação de produção histórica, matendo a sua regularidade e a qualidade de seus artigos.

Editores. Apresentação. Albuquerque: revista de história, Mato Grosso do Sul, v.2, n.4, 2010. Acessar publicação original [DR]

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A cidade como objeto de reflexão interdisciplinar-2ª parte / Albuquerque: revista de história / 2011

Mesmo enfrentando as dificuldades inerentes à publicação de um periódico acadêmico e superando o descrédito de alguns que não acreditam que os cursos de história da UFMS podem ter uma vitrine de pesquisas, não somente de seus docentes mas também dos pesquisadores de outras instituições, a Revista Albuquerque chega ao seu terceiro ano. Assim, consolida-se cada vez mais este projeto editorial e também mostra a relevância das atividades desenvolvidas pela Base de Pesquisas Históricas e Culturais das Bacias dos Rios Aquidauana e Miranda / BPRAM / DHI / CPAQ / UFMS.

Neste número estão incluídos na seção “Artigos” dois textos inovadores, frutos de pesquisas dos professores Bruno Torquato Silva, Luciene Lemos de Campos e Luciano Rodrigues. O artigo “Acerca dos problemas enfrentados pela burocracia do Exército na introdução do sorteio militar no Estado de Mato Grosso (1916-1945)”, insere-se no terreno da chamada Nova História Militar e contempla um problema central enfrentado pelo Exército Brasileiro, em Mato Grosso, no tocante à reposição de seus quadros efetivos. Ao mesmo tempo aponta fontes que possibilitem discussões sobre as implicações estratégicas da presença militar na região, sobretudo no concernente à defesa das fronteiras ocidentais, à manutenção da coesão nacional e da ordem social.

A seção é encerrada com “Migrantes e migrações: entre a história e a literatura”, texto no qual, a partir da interface da História com a Literatura, os autores discutem o fenômeno da migração, enfatizando os significados contidos nos fluxos populacionais, bem como o papel que os migrantes exerceram e exercem na formação sócio-cultural de diversas etnias.

A Revista Albuquerque, neste número, também dá continuidade na seção “Dossiê” ao assunto “A cidade como objeto de reflexão interdisciplinar”, iniciado no número anterior. Assim, os textos selecionados para este dossiê, produzidos por especialistas vinculados a variadas áreas do conhecimento, as problemáticas da cidade são delineadas como questões significativas, nas quais emergem temáticas variadas que vão desde representações urbanas sobre a modernidade, até a presença de um léxico urbano para nomear e dar significados aos lugares e às gentes.

Finalmente, na seção “Caderno Especial” está inserido um precioso documento, raro e inédito, do frei Mariano de Bagnaia, que vivenciou um momento difícil em sua passagem pela fronteira sul de Mato Grosso, quando foi prisioneiro dos paraguaios durante a Guerra com o Paraguai. Este documento faz parte do acervo histórico do arquivo do Instituto Histórico e Geográfico de Mato Grosso do Sul e foi gentilmente cedido para a sua reprodução nesta revista. São importantes informações sobre as consequências da guerra que retratam os danos financeiros e materiais das igrejas de Corumbá, Miranda, Nioaque, Albuquerque e da Missão Bom Conselho.

Com certeza, a Revista Albuquerque, mais uma vez, contribui como um veículo apropriado à divulgação da produção científica na área da história, para uma profícua reflexão sobre temas históricos e culturais.

Editores. Apresentação. Albuquerque: revista de história, Mato Grosso do Sul, v.3, n.5, 2011. Acessar publicação original [DR]

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Guerra com o Paraguai / Albuquerque: revista de história / 2011

O ano de 2011 teve um significado especial para os estudos históricos pela comemoração do centenário de nascimento de Nelson Werneck Sodré, historiador, professor e ideólogo que influenciou gerações de estudantes e professores de história, pesquisadores e historiadores. A festiva programação foi intensa, com discussões, simpósios, reedições e publicações de seus livros que enriqueceram a historiografia brasileira. A Revista Albuquerque não poderia ficar alheia a estes eventos. Assim, honrosamente, traz aos seus leitores um interessante artigo de Olga Sodré, sua filha. Este texto enfoca a participação do historiador Nelson Werneck Sodré no polêmico Instituto Superior de Estudos Brasileiros – ISEB, e conta a sua luta pelo desenvolvimento de uma cultura nacional, popular e democrática.

As questões relativas á historiografia regional , um dos objetivos de divulgação da Albuquerque, encontram-se representadas nos artigos de Marcos Hanemann, Valmir Batista Corrêa, Lúcia Salsa Corrêa e Alvaro Neder. O primeiro enfoca a criação do Tribunal de Relação em Mato Grosso e a fragilidade da aplicação da justiça, motivada pela falta de pessoas formadas que quisessem servir na região. O segundo traça um perfil da historiografia mato-grossense, a partir da segunda metade do século XIX, e a marcante influência de Augusto Leverger na formação dos historiadores regionais. O terceiro enfatiza a importância dos documentos históricos para o estudo das epidemias recorrentes em Corumbá, no período de 1856 e 1922. O quarto texto produz uma instigante reflexão sobre a canção popular urbana, tendo como cenário a cidade de Campo Grande – MS.

Na seção “Dossiê”, a Revista Albuquerque abriu espaço ao III Encontro Internacional de História sobre as Operações Bélicas da Guerra da Tríplice Aliança, promovido pelo Instituto Histórico e Geográfico de Mato Grosso do Sul, em parceria com o Comando Militar do Oeste. Foi uma rara e instigante oportunidade de reunir pesquisadores e interessados sobre este conflito bélico, nacionais e estrangeiros. Neste dossiê são apresentados três trabalhos: no primeiro, Bruno Mendes Tulux discute a gênese da formação do espaço fronteiriço e os entendimentos que mantiveram as partes litigiosas, representando os interesses coloniais de Portugal e de Espanha, em diversos momentos, até a eclosão do conflito com os paraguaios em 1864; no segundo, Edgley Pereira de Paula, estuda o uso de caricaturas publicadas na imprensa da época como estratégia de guerra, tanto da parte brasileira como da paraguaia; o texto de Maria Teresa Garritano Dourado propõe-se a analisar as questões relativas a fome, as doenças e as penalidades durante a guerra, vistas sobre o olhar de um soldado comum. Sem dúvida, são trabalhos que contribuem para a compreensão da história da guerra com o Paraguai, abrindo um painel para a releitura crítica do episódio, de suas fontes e de seus desdobramentos.

O encerramento do sexto número dá-se, como nos números anteriores, com o Caderno Especial. Nesta oportunidade, esta seção traz dois textos, também apresentados no III Encontro Internacional de História sobre as Operações Bélicas da Guerra da Tríplice Aliança. O texto de abertura desta seção, de Hildebrando Campestrini, é a apresentação do evento, revelando uma visão peculiar da Guerra da Tríplice Aliança, acrescido de um Referencial Teórico apresentado como indicador aos participantes do evento. O propósito, neste caso, é resguardar o espaço do Instituto Histórico e Geográfico de Mato Grosso do Sul na historiografia regional, proporcionado um saudável diálogo entre historiadores acadêmicos e diletantes.

Para fechar a sua seção especial, a Revista Albuquerque edita, prazeirosamente, uma entrevista com o ex-governador e político Wilson Barbosa Martins.

A Revista Albuquerque em seu sexto número e terceiro ano, em última instância, simboliza o esforço, misto de teimosia e de quixotismo de seus coordenadores e colaboradores, tendo por princípio divulgar e estimular a produção historiográfica em nossa região, mediante os critérios de relevância e de qualidade. Modestamente, acredita-se que estes princípios seguem contemplados nesta edição.

Editores. Apresentação. Albuquerque: revista de história, Mato Grosso do Sul, v.3, n.6, 2011. Acessar publicação original [DR]

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História e Literatura / Albuquerque: revista de história / 2012

A revista Albuquerque cumpre mais uma vez o seu compromisso de divulgar a produção acadêmica de qualidade, representando a área de História e suas articulações com as demais Ciências Humanas. Nesta edição de número oito, em seu quarto ano de teimosa existência sob o seu formato em papel e a despeito das dificudades inerentes à publicação tradicional de artigos, a Albuquerque apresenta o dossiê História e Literatura.

Os trabalhos aqui publicados atenderam à chamada pública através de edital espefícico, submetidos à avaliação e aprovação de conformidde com os seus critérios e normas. Entretanto, neste caso, os responsáveis pela resvista se surpreenderam com o resultado desta chamada, prontamente atendida com a afluência de bons trabalhos e em quantidade que extapolou as expectativas desta edição.

Entende-se, dessa forma, que a Albuquerque se fortalece e se consolida, buscando sempre atrair os pesquisadores que elegeram a área da História para focar seus estudos e que escolheram também a forma convencional de revista acadêmica, editada como brochura. Isso não sinifica uma reação conservadora diante das ferramentas eletrônicas, das redes sociais e demais instrumentos de divulgação via internet que, sem dúvida nenhuma, socializam a produção científica de forma muito mais rápida e democrática. Muito ao contrário, acredita-se que em breve a Albuquerque será editada também em versão eletrônica, sem excluir a sua forma tradicional.

Como bem demonstram os artigos do dossiê que seguem publicados, a escrita, o texto e a literatura, expressada sob as suas mais diversas modalidades e através dos diálogos possíveis com a ciência da História, remetem à tradição da pena, do papel e da prensa que produziram epístolas, documentos, códices e livros. Essa tradição é ainda muito importante e o prazer que proporcionam aos leitores e pesquisadores jamais será superado pelas inovações tecnológicas por mais fantásticas que se apresentem.

Editores. Apresentação. Albuquerque: revista de história, Mato Grosso do Sul, v.4, n.8, 2012. Acessar publicação original [DR]

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Mídia e Política / Albuquerque: revista de história / 2013

Toda história é presente e aos vivos ela pertence. Diversos historiadores disseram a mesma coisa com outras palavras, em tempos diversos e de diferenciadas maneiras. O importante, contudo, é consolidar a idéia de que o objeto de estudo da história é o homem, o seu tempo e as suas construções.

A revista Albuquerque, em sua nona edição, está viva e presente. A cada número que vem à luz, amadurece e solidifica a sua proposta original de divulgar estudos inovadores que revigoram a área de conhecimento da história, enfatizando temáticas regionais. Mas, como representação da produção histórica viva e presente no ambiente acadêmico contemporâneo, a revista assume também a forma apropriada de um caleidoscópio de temas e de abordagens balizadas sempre pelo critério de qualidade científica.

Dessa forma, em sua primeira parte estão publicados artigos completos e de diversas e interessantes abordagens: Impactos sobre o desenvolvimento regional decorrentes do Assentamento Itamarati, Ponta Porã (MS): 2001 -2010, de Maria de Fátima Lessa Bellé, Gilberto Luiz Alves e Celso Correia de Souza; Nacionalismo, antifascismo e internacionalismo nas Brigadas Internacionais na Guerra Civil Espanhola (1936 -1939) de Jorge C. Fernández; Do Tejo ao Rio das Mortes: sobre fazer-se “homem bom” na longínqua Vila de São João Del Rei. Séculos XVIII e XIX de Tarcisio Greggio e Relações de trabalho e industrialização recente na periferia de Vitor Wagner Neto de Oliveira.

Na segunda parte, a revista Albuquerque, com o Dossiê Mídia e Política, apresenta um painel significativo e oportuno, tendo como eixo a imprensa brasileira que ainda reflete os seus dilemas históricos na sua difícil convivência e articulação com outras esferas de poder, com as incertezas da crise de paradigmas do nosso século e mudanças sociais, econômicas e tecnológicas vertiginosas. De fato, debruçar sobre o passado para buscar a compreensão e a explicação do nosso mundo, do nosso tempo e dos processos históricos que os produziram, é a especial e principal responsabilidade dos historiadores, iniciantes e veteranos aqui representados vivos e presentes.

O Caderno Especial dedicado a divulgar documentos interessantes para a história regional, nesta edição, acompanha a temática dos trabalhos do Dossiê Mídia e Política, reproduzindo um artigo do jornal A Tribuna de Corumbá, de 1943. O autor, Lobivar de Matos, falecido prematuramente aos trinta e três anos de idade, foi um expoente da poesia moderna da língua portuguesa, apenas reconhecido recentemente por pesquisadores da literatura regional. Naquela oportunidade, Lobivar de Matos homenageou a figura do cidadão Pedro de Medeiros, também poeta, líder popular e corumbaense proeminente.

Editores. Apresentação. Albuquerque: revista de história, Mato Grosso do Sul, v.5, n.9, 2013. Acessar publicação original [DR]

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O Golpe de 1964: Reflexos, Desdobramentos e Olhares Cinquenta Anos Depois / Albuquerque: revista de história / 2014

O ano de 1964 mal havia se iniciado e, no seu horizonte, já se avistavam nuvens pouco alvissareiras. No ocaso de um mês de Março especialmente conturbado, um Golpe de Estado abalou a jovem república brasileira. Seus autores e mentores, militares e civis, representavam um vasto espectro das forças da direita no Brasil, desde os setores mais conservadores das forças armadas, da igreja e do latifúndio, até os grupos empresariais mais modernos e dinâmicos, da indústria, comércio ou mídia, frequentemente vinculados a interesses e capitais estrangeiros.

O Golpe, produto final de uma longa gestação conspiratória, mesmo que desordenada, e, cuja justificação era dada em termos de “defesa” da democracia contra o comunismo, foi desferido, paradoxalmente, contra um governo democraticamente eleito, mas cujo projeto econômico, político e social de cunho nacionalista, moderado e reformista não mais correspondiam aos anseios e interesses das elites dominantes.

Mais do que isso, o Golpe no Brasil também sinalizava aos países vizinhos que os modelos de desenvolvimento pautados na participação do Estado na economia, na substituição de importações e baseados no pacto social se encontravam à beira do colapso. No particular contexto histórico da Guerra Fria, tais governos se encontraram assimetricamente imprensados: pelo alto, sob a agressiva investida dos imperialismos, especialmente o estadunidense, no marco de ascensão de um novo regime de acumulação integral de capital; e, pela base, com a radicalização dos movimentos sociais contestatários inspirados nas recentes experiências revolucionárias, anti-imperialistas e de libertação nacional do mundo periférico. E conviria destacar, em especial, o caso de Cuba que, destarte o seu reduzido espaço geográfico e limitado poder ofensivo real, foi superdimensionada como uma ameaça ao poderio econômico-militar de Washington em todo o continente por tornar-se um exemplo de ousadia e resistência frente aos Estados Unidos e, cuja experiência revolucionária poderia ser, em tese, emulada em qualquer país latino-americano, desde a fronteira do Rio Grande, ao norte, até os confins patagônicos.

Neste ano de 2014, completa-se exatamente cinquenta anos do Golpe de Estado de 31 de Março / 01 de Abril de 1964. Os remanescentes e herdeiros ideológicos da ditadura ainda continuam a bradara desgastada cantilena de que o Golpe de 1964 foi uma “ação democrática” para “salvar o país” de uma pretensa ameaça do comunismo. Porém, tais acepções sobre o ocorrido em 1964 não recebem, nos dias de hoje, um eco similar ao que eles outrora receberam da sociedade em geral. Durante o seu longo período de duração, a ditadura brasileira (em especial) conseguiu forjar uma representação bastante positiva no imaginário social e político, apesar do emprego sistemático da violência institucional e das repetidas violações aos direitos humanos cometidos ao longo desses vinte e um anos (com intensidade variada, conforme necessidades conjunturais). Evidentemente que tal percepção “benévola” encontrava arraigo nos setores favorecidos com o regime, especialmente nas classes alta e média, mas não somente.

Apesar de suas particularidades nacionais, as Ditaduras de Segurança Nacional do Cone Sul utilizaram (em graus distintos) a lógica binária da “mão que bate é a mão que afaga” e empregaram o terror Estatal buscando combinar medo generalizado e terror pontual com recompensa material para ampliar uma base de apoio em determinados grupos sociais. Assim, os governos equacionaram o Terrorismo de Estado (simultaneamente seletivo e indiscriminado, o que lhe garante um efeito de irradiação social) com mecanismos de criação de consenso social. Consenso este que seria obtido, em parte, mediante concessões de benefícios materiais a setores da população. Mas, além disso, não podemos esquecer o peso exercido pela propaganda maciça exercida desde e para o Estado, por seus agentes, mas também por seus colaboradores (mídia, personalidades artísticas, lideranças civis, etc.), em combinação com instrumentos tais como a censura, a repressão, a desqualificação, a criminalização, a demonização e, em alguns casos, até o extermínio físico daqueles tidos como opositores mais perigosos.

A combinação e interação desses fatores não somente possibilitou a hegemonia do poder, como também delineou o nível de sucesso ou aceitação dos regimes ditatoriais do Cone Sul que aplicaram o terror de Estado, moldando o teor positivo ou negativo da sua imagem e garantindo a permanência desta construção tanto no plano subjetivo quanto na memória coletiva. Especificamente no caso brasileiro, não era incomum ouvirmos (e até ouvimos ainda!) em expressões orais e escritas do senso comum (ecoa até mesmo em meios acadêmicos), a percepção de que, apesar da violência, dos abusos e da corrupção da ditadura, o saldo do regime militar foi positivo, seja porque possuía um projeto de desenvolvimento que deixou um “legado” ao país, ou porque teve um relativo sucesso em matéria econômica, ou porque havia mais “ordem e segurança”…

Em outras palavras, pode se dizer que, em determinados grupos sociais se exerceu (e se exerce ainda) uma clara relativização do emprego sistemático do terror, das arbitrariedades e dos crimes cometidos pela ditadura, e nessa relativização (que ora beira a banalização, de tão grosseira), que se traduz em um mero “balanço” entre os crimes e as benesses do regime, os segundos terminam geralmente ofuscando os primeiros, de modo a gerar uma hierarquização um tanto inversa. Aqui no Brasil, o terror e o “milagre econômico” foram instrumentos de dominação e cooptação, em tese opostos, mas utilizados de modo complementar. Todavia, ao contrário de outros países vizinhos, o terror foi administrado de forma mais especifica e aplicado com precisão quase cirúrgica, principalmente se comparado com a extensão e a profundidade do terror estatal aplicado na Argentina.

Ao contrário da ditadura argentina, a ditadura brasileira soube focalizar precisamente na sua mira os sujeitos considerados alvos da repressão e, assim, direcionar verticalmente a aplicação dos mecanismos do terror. Entretanto, esse caráter pontual da violência repressiva no Brasil não significa que o regime tenha sido “brando”, se comparado aos outros regimes ditatoriais e, por extensão, “melhor” que eles. Se a ditadura brasileira torturou, assassinou e ocultou os cadáveres de seus oponentes em menor proporção do que a ditadura vizinha foi porque considerou que não havia necessidade concreta de fazê-lo em grande escala.

Assim sendo, independente das comparações “estatísticas” de contagem de mortos e / ou desaparecidos que possam ser efetuadas entre as ditaduras de Segurança Nacional para medir um suposto grau de brutalidade de tal ou qual regime, o que deve ser observado, em tais regimes, são características estruturais, tais como a sistematização e aplicação da tortura em grande escala, a racionalidade da repressão, a metodologia “científica” do terror, suas justificativas políticas e o arcabouço ideológico empregado foram muito similares em todas as ditaduras do Cone Sul.

Passados cinquenta anos, não se pode negar que o nosso país (em similar sintonia com o nosso subcontinente) passou por consideráveis mudanças históricas e que estas contribuíram para modificar a percepção da atual sociedade brasileira sobre aqueles tempos passados. No plano político-institucional, e especialmente nos últimos anos, com a assunção de governos mais identificados com as questões sociais e historicamente vinculados àqueles setores progressistas ou de esquerda e que participaram ativamente do polarizado cenário político dos anos 1960 e 1970 se reacendeu o debate sobre o incômodo passado recente, um debate postergado e ofuscado no imediato pós-ditadura. Em novembro de 2011, foi criada a Comissão Nacional da Verdade (CNV)1 , após anos de embates políticos entre militares e civis para definir alcances e limites de atuação que essa Comissão teria. Tal iniciativa, mesmo que tardia, exemplifica esse olhar atual do Poder Executivo com relação a medidas vinculadas à questão da memória e a busca da verdade histórica, em nome de uma reconciliação nacional efetiva.

No entanto, em função da condenação do Brasil na Corte Interamericana de Direitos Humanos (CIDH), no final de 2010, as ações do Estado brasileiro nesse sentido deveriam ser mais aprofundadas. No entendimento da CIDH, não basta apenas à criação da CNV ou facilitar o acesso à documentação repressiva pelas vítimas, seus familiares e também a pesquisadores em busca de informação antes proibida. O que é fundamental é que o Estado brasileiro remova todos os obstáculos jurídicos para poder “conduzir eficazmente a investigação penal dos fatos do presente caso, a fim de esclarecê-los, determinar as correspondentes responsabilidades penais e aplicar efetivamente as sanções e consequências que a lei disponha”2. E isto significa, segundo especialistas da área jurídica, começar pela anulação da Lei de Anistia de 1979 3.

Cabe recordar que, ao longo da década de 1980, o Estado brasileiro advindo “democrático” procurou colocar uma “pedra” sobre os crimes da ditadura. Certamente que a assimétrica Lei de Anistia, duramente negociada entre a ditadura (ainda na posse das rédeas do poder) e alguns setores da “elite” da oposição, no marco de um progressivo descontentamento geral da população com o regime (especialmente após evidenciar os limites do “milagre”) não deixava margem de manobra para tais discussões, o que redundou em “perdão incondicional” aos agentes da repressão e uma incontestável vitória dos setores da “linha dura” militar, que permaneceram impunes.

Por outro lado, deve se apontar que, sob a justificativa de não atravancar o processo de transição para um Estado democrático de direito, os governos civis evitaram enfrentar o poderio militar, bem como tocar no problema da sujeição das Forças Armadas às regras do jogo democrático. Por fim, não se pode obliterar que parte considerável da elite (em especial os políticos e empresários) e da classe média brasileira era também comprometida, direta ou indiretamente, e em maior ou menor grau, com o regime ditatorial pregresso, o que explicaria seu interesse em “esquecer” determinadas ações e alianças do passado que não lhe seriam adequadas nem favoráveis naquele ambiente de devir “democrático”. Nesse sentido, a “amnésia histórica” converteu-se em prática oportuna e corrente de distintos setores sociais.

Nos dias atuais, é possível evidenciar que o Estado brasileiro, pelo menos na figura do poder executivo, efetuou “um passo a frente” no sentido de responder às históricas demandas pelo direito à memória e à verdade. Mas, haverá por parte das outras instâncias do Estado um “segundo passo”? Isto é, como enfrentar a demanda por justiça? Esta questão primordial ainda carece de resposta efetiva. O poder judiciário, até o momento, tem recuado diante desta problemática, especialmente no que tange a revisão da Lei de Anistia, pois o Superior Tribunal Federal continua a ratificá-la, à revelia de instância jurídica internacional e em claro desrespeito aos Tratados Internacionais de Direitos Humanos dos quais o Brasil é signatário.

Neste sentido, porém, a demanda por justiça tem lugar na pauta da atual agenda das novas gerações que participam dos movimentos sociais. Se durante décadas as reclamações pelos crimes da ditadura se restringiram a círculos de vítimas e seus familiares, ex-presos políticos, militantes ou a organizações de direitos humanos, esta questão agora transcende este núcleo inicial, impregnando e polarizando o debate nos distintos âmbitos do tecido social. E neste contexto favorável à memória, não estranhamente, surgem as outrora silenciadas “memórias subterrâneas” dos sobreviventes desse passado traumático e que hoje encontram eco, tanto com a juventude, interessada em conhecer um passado que lhes foi “negado”, quanto com os historiadores (e outros pesquisadores das áreas humanas) interessados em produzir conhecimento sobre esses temas em meio a esse processo de emergência de antigas questões e revalorização das experiências daquele tempo passado. Ou seja, preocupados em compreender por que esse passado não elaborado “teima em passar”, aflorando em determinados contextos e nos relembrando permanentemente da sua vigência.

Ao encontro deste momento histórico tão significativo, a Revista Albuquerque dedica este Número 11 a temática das Ditaduras de Segurança Nacional no Brasil e Cone Sul, com o Dossiê intitulado: O Golpe de 1964: Reflexos, Desdobramentos e Olhares Cinquenta Anos Depois. Embora inicialmente focado na experiência ditatorial brasileira, em virtude da data a ser rememorada, este Dossiê pretende abordar a temática desde uma perspectiva mais abrangente. Não somente em termos de expressar a diversidade de olhares e enfoques possíveis sobre as ditaduras partindo de prismas teóricos e metodológicos distintos. Mas especialmente em termos de ampliar o recorte geográfico ao incluir pesquisas históricas sobre / ou os “nossos vizinhos” da região, por entender que existem interconexões, elementos em comum que, independente de particularidades, vinculam as distintas experiências ditatoriais do Cone Sul entre as décadas de 1960 e 1980.

O presente Dossiê inicia com o texto de Carlos Artur Gallo “Comissões da Verdade em Perspectiva: notas sobre a experiência uruguaia, chilena e argentina”, em que o autor, após historicizar sobre o período autoritário na Argentina (1976-1983), no Chile (1973-1990) e no Uruguai (1973-1985) nos estabelece, em escala comparativa, uma análise concisa sobre as distintas formas que os países do Cone Sul enfrentaram a problemática que encerra a trinômia memória, verdade e justiça, nos seus respectivos processos de democratização, na tentativa de fazer face aos problemas do “legado” do passado ditatorial.

O artigo de Jefferson Gomes Nogueira, “História, imprensa e a construção da realidade durante o regime militar no Brasil (1964 / 1985)”, aproxima-nos mediante o estudo da produção histórica sobre a imprensa e o regime militar no Brasil, dos mecanismos e agentes utilizados (censura, propaganda, censores, jornalistas, etc.) tanto pelo aparato estatal repressor, quanto pelos seus colaboradores privados para construir uma “realidade” parcial e conveniente que lhe possibilitasse atingir a hegemonia e o controle social pretendido. Desde uma perspectiva estadual, Cristina Medianeira Ávila Dias, discorre sobre “O terrorismo de Estado (TDE) no Rio Grande do Sul: perseguição, prisãoe tortura de militantes da Vanguarda Popular Revolucionária (VPR)”, utilizando como ponto de partida, o surgimento de um grupo armado de esquerda, no extremo sul do Brasil, e estabelecendo a relação deste com o desenvolvimento e a consolidação da estrutura repressiva montada pelos órgãos de segurança para combater as atividades das forças que resistiam ao regime, bem como aborda a metodologia empregada pelo aparato repressivo.

Já Enrique Serra Padrós nos apresenta, em seu artigo, uma reflexão sobre um tema delicado e pouco abordado, aqui no Brasil em particular: “A guerra contra as crianças: práticas de sequestro, desaparecimento e apropriação de identidade no século XX”. Nesse artigo, focaliza as experiências do sequestro de crianças durante as ditaduras de Segurança Nacional da Argentina e do Uruguai, ocorridas entre as décadas de 1970 e 1980, uma das mais brutais práticas do Terrorismo de Estado platino inserido na lógica da captura do “butim de guerra” e vinculado aos projetos de “refundação” social trazidas no bojo ideológico de tais ditaduras. Além disso, Padrós contextualiza e estabelece uma relação desta prática criminosa com outras experiências correlatas (na Europa ocupada pelo nazismo, na Espanha de Franco e nos recentes conflitos armados da África), no transcorrer do século XX e início do XXI, apontando a persistência destes mecanismos de opressão social, os profundos traumas por eles gerados e como tais crimes se projetam ao longo do tempo, incidindo sobre diversas gerações.

O artigo de Ananda Simões Fernandes e Silvia Simões, “Apontamentos acerca da conexão repressiva entre as ditaduras brasileira e chilena”, perscruta a multifacetada e complexa rede de conexão repressiva entre as ditaduras brasileira e chilena, chancelada após a vitória do golpe de Estado chileno, em 11 de setembro de 1973. A pesquisa das autoras, baseada em fontes primárias, centra sua análise na atuação combinada de organismos brasileiros e chilenos nos mais diversos âmbitos (policiais, diplomáticos, etc.) em sua colaboração na luta contra a “subversão”, e como essa conexão se consolidou em direção à formalização de uma rede orgânica e transnacional de repressão extraterritorial, que envolveria o conjunto das ditaduras do Cone Sul, e que passaria para a história da região como a “Operação Condor”.

A autora Caroline Silveira Bauer, no texto “Um passado que não passa: a persistência do crime de tortura na democracia brasileira”, disseca uma das ferramentas mais amplas e intensamente utilizadas pelo Estado terrorista brasileiro, a tortura. No entanto, o trabalho não se restringe sua análise ao período ditatorial somente, pois a autora excede os limites temporais da ditadura e incursiona sobre a permanência de tal prática abjeta até os dias de hoje. Um tema que nos leva a refletir duplamente. Por um lado, sobre as continuidades das práticas dos regimes ditatoriais sob o manto democrático e, por outro, sobre o próprio caráter e o alcance da nossa democracia.

Seguindo na dinâmica dos processos de transição das ditaduras para os regimes democráticos, Claudia Wasserman nos apresenta “Democracia e ditadura no Brasil e na Argentina: o papel dos Intelectuais”. A autora, cuja densa narrativa nos transporta até a década de 1980, foca seu olhar nos intelectuais brasileiros e argentinos, comparando e analisando o papel representado por estes, enquanto sujeitos políticos, sociais e históricos, no contexto da chamada redemocratização. Um período promissor em termos de efervescência social e cultural permeado pela retomada da discussão política e pela possibilidade de retorno daqueles que haviam padecido o exílio; mas que também foi uma era impregnada pela “cultura do medo”, pela desconfiança mútua entre os que haviam permanecido e aqueles que haviam partido ou obrigados a partir, bem como profundamente marcada pelas então recentes cicatrizes provocadas pelas experiências autoritárias.

Mario Hugo Ayala, em “Los exiliados argentinos en Venezuela ante el inicio de latransición a la democracia en la Argentina”, também efetua seu recorte temporal no período da transição, porém, desde outra interrelação geográfica e transnacional: Argentina e Venezuela. Ele aborda especificamente o fenômeno do exílio dos argentinos (um dos mais numerosos exílios da região) perante às questões surgidas com a volta da democracia e os dilemas que esta apresentava, por exemplo, a possibilidade do regresso ao país, mas também o leque de problemas políticos, grupais e subjetivos que o “retorno” (ou desexilio) paradoxalmente gerava. O artigo de Ayala está embasado em ampla documentação, utilizando-se de testemunhos publicados e, principalmente, de materiais inéditos oriundos de fontes orais.

Encerra o nosso Dossiê a obra de Monica Piccolo Almeida, “Agentes e Agências no Ocaso da Ditadura Empresarial Militar e a Reedição do ‘Milagre’”. Nesse texto, a autora propôs-se a analisar as diretrizes que guiaram a política econômica da ditadura brasileira em sua derradeira etapa, o governo de João B. Figueiredo, utilizando como hipótese central que os intentos aplicados em matéria de política econômica pretendiam recuperar os níveis de crescimento da década anterior, buscando o ressurgimento do “milagre econômico”. No entanto, tais tentativas estiveram perpassadas por contradições inerentes ao próprio sistema capitalista e pelas formas que este adquiriu nas regiões periféricas e dependentes, bem como por disputas, em virtude de interesses diversos, dentre os grupos da classe dominante mediante a ação de agentes específicos, públicos e privados, inseridos diretamente ou não no seio do aparato estatal.

Desse modo, e seguindo uma perspectiva acadêmica plural e democrática, bem representada por esta diversidade e riqueza temática, assim como pelas distintas aproximações e análises do passado apresentadas pelos autores neste Dossiê (cada um partindo de abordagens teóricas e metodológicas diferenciadas), procuramos contribuir com a reflexão crítica e o debate histórico sobre o nosso passado recente e compartilhado aqui na região sul da América do Sul, promovendo o avanço do saber (dentro e fora da academia), bem como da produção historiográfica. Esperamos que o resultado final, este Dossiê Número 11 da Revista Albuquerque, agrade aos nossos leitores exigentes.

Notas

1 lei 12.528 / 2011. a cnv iniciou os seus trabalhos em maio de 2012.

2 cidh, caso gomes lund e outros (“guerrilha do araguaia”) vs. brasil, exceções preliminares, mérito, reparações e custas, sentença de 24 de novembro de 2010, série c, nº 219, parágrafo 256. citado por gomes, luis f. disponível em: http: / / www.conjur.com. br / 2011-mar-10 / coluna-lfg-lei-anistia-viola-convencoes-direitos-humanos

3 lei nº 6.683, de 28 de agosto de 1979.

Jorge Christian Fernández – Doutor em História pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) e Professor de História da América do Curso de História (Campus Campo Grande / MS) da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS). E-mail: intbrig@yahoo.com.br

FERNÁNDEZ, Jorge Christian. Apresentação. Albuquerque: revista de história, Mato Grosso do Sul, v.6, n.11, 2014. Acessar publicação original [DR]

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Outras eróticas e desejos possíveis- volume I / Albuquerque: revista de história / 2015

É com imensa satisfação que apresentamos a@s leitor@s de albuquerque: revista de história o dossiê Outras eróticas e desejos possíveis, conjunto temático de textos proposto com vistas à socialização e debate de pesquisas referentes ao amplo campo interdisciplinar dos estudos sobre a sexualidade e as performances de gênero em suas diferentes facetas e suportes.

Na história ocidental a sexualidade e sua relação como o poder, a política e a cultura, remontam à narrativa seminal do Gênesis. No Éden, o criador advertiu ao homem que deveria ter cuidado com a arvore da ciência do bem e do mal, pois se dela comesse haveria consequências negativas. Ali encontramos o cenário e o herói (Adão) originário da saga cristão-ocidental; faltava a vilã dessa história, e senhor resolveu criá-la, fazendo-lhe adjutora de Adão, Eva.

Quando o homem provou o fruto proibido no jardim do Éden, iniciou-se sua conturbada relação com seu corpo e sexualidade. Incitada pela serpente, Eva ousou tocar e provar da árvore que lhe parecia agradável e cujos frutos pareciam bons para serem comidos e os compartilha com Adão. Segunda a narrativa sagrada, o ato de Eva ocorreu em função da curiosidade e da ganancia humanas; os homens ansiavam se comparar a Deus e esperavam que isso ocorresse ao comer do fruto e conhecer o bem e mal; encontraram, entretanto, o castigo da decadência – oriunda do afastamento daquelas plagas e o impedimento de comer da árvore da vida, o que levaria à mortalidade.

Ao provar do fruto perceberam que estavam nus e se cobriram com a folha da figueira. O que antes, segundo a narrativa bíblica, era um mundo natural marcado pela relação harmoniosa entre o criador e a criatura, tornou-se uma experiência de dor, de negação do corpo, da sexualidade e do prazer sexual. O ato de desobediência foi punido severamente pelo criador que amaldiçoou a serpente, e condenou o homem a comer o pão com o suor do teu rosto até que retornasse ao pó e a mulher parir com dor os seus filhos e a desejar seu marido que a dominaria.

(Cumpre, aqui, abrir esse parêntesis, para retomar outra figura feminina, presente nas tradições babilônica e hebraica, associada a Adão: Lilith. Ela teria sido a primeira mulher, feita do mesmo barro que seu companheiro, não de sua costela. Em determinado momento, querendo ficar por cima de Adão durante o coito sexual, teria por isso sido expulsa do paraíso, perseguida por anjos. Enquanto fugia, copulava com animais e demônios, dando à luz outros seres. Teria se refugiado no mar, tornando-se sua senhora. É também associada à noite. Outra vez, a mulher é a transgressora, mas aqui, tendo “ofendido” seu companheiro com sua audácia erótica, sofre sozinha as consequências de seus atos.)

Retomando a passagem da expulsão de Adão e Eva, sobre qual se assenta a longa tradição ocidental de negação do corpo e do desejo, do exercício do poder patriarcal que subordina, explora e mata as mulheres e todos os demais sujeitos considerados inferiores ao homem branco, cristão e europeu. Foi, portanto, a partir da subordinação sexista, misógina e machista que se construiu o projeto de civilização no ocidente, bem como o projeto de colonização que se espalhou por diversas regiões do mundo, as quais, como apontou Michael Foucault, o cristianismo modificou o cenário, fazendo a ligação entre sexo e pecado da carne, distanciando-o da noção de desejo.

Foucault também afirma que a partir do século XVI, com reforço no XIX, o sexo foi incitado a se manifestar. O autor pensa a história do homem e do desejo e realiza uma genealogia de como o homem ocidental foi levado a se reconhecer como sujeito de desejo. A sociedade capitalista não obrigou o sexo a esconder-se. Contudo, ainda hoje, em pese o crescimento do consumo da pornografia, da prostituição (principalmente feminina), da divulgação de discursos de especialistas sobre o sexo e das experiências proporcionadas pelo ciberespaço, ainda lidamos mal com nosso corpo e nossa sexualidade. Ainda existem diversos tabus, sobretudo hoje, com a retomada conservadora em escala global que interdita a discussão sobre a sexualidade na família, na escola e no espaço público de maneira geral.

Assim ansiamos, nesse dossiê, verticalizar reflexões e debater teórica e metodologicamente, além da relação entre história e imprensa escrita, linguagens artísticas, produção virtual, os movimentos feministas, em suas diversas temporalidades e feições, a violência de gênero e os movimentos de afirmação de lésbicas, gays, bissexuais, travestis, transexuais e transgêneros, bem como suas representações, a sexualidade e suas diversas expressões e representações (artísticas, corporais, sociais), notadamente aquelas divergentes da heteronormatividade e os embates sociais que de tais expressões surgem.

Além disso, debateremos ainda as novas possibilidades de expressão das performances de gênero, seja nas práticas sexuais efetivas ou ainda no ciberespaço. Há na contemporaneidade uma ênfase significativa nos valores e virtudes de instantaneidade e de descartabilidade, sendo importante a capacidade de abandonar rapidamente um sistema de valores e estilos de vida e construir imagens e personas que se moldem a diferentes situações, sobretudo nos ambientes virtuais, espaços nos quais ocorre uma reconfiguração das relações de sociabilidade, da sexualidade, dos corpos e das performances de gênero. Todas as dimensões da sexualidade são reelaboradas nesse ambiente. Corpos, prazeres, sensações eróticas são experimentadas numa nova relação corpo-máquina.

Organizamos esse dossiê em dois volumes, sendo o primeiro “Outras eróticas e desejos possíveis, volume I”, referente ao volume 7, número13 de albuquerque: revista de história, nos meses de janeiro a junho de 2015, o que segue.

Assim, no primeiro conjunto de textos @s autor@s voltam-se ao jornal O Lampião da Esquina, importante publicação sobre a cultura homoerótica no Brasil recente. Edvaldo Correa Sotana e Mellany de Oliveira Guimarães, no texto Ativismo político em traços de humor: as charges veiculadas no jornal O Lampião da Esquina (1978-1981), estabelecem relações entre imprensa escrita, ditadura militar brasileira, política e produção de charges, apresentando dados referentes ao levantamento de charges veiculadas no jornal entre os anos de 1978 e 1981 e indicando as charges como instrumento de ação política na resistência ao regime militar brasileiro. Débora de Sousa Bueno Mosqueira, no artigo “Então chegamos”: representações do feminino nas páginas d’O Lampião da Esquina (1978-1981), analisa as representações produzidas sobre a mulher por meio da categoria gênero no jornal que circulou no Brasil nos anos de 1978 até 1981. Já Victor Hugo da Silva Gomes Mariusso, no texto “Prendam, matam e comam os travestis”: a imprensa brasileira e seu papel na exclusão da população lgbt (1978-1981), busca compreender, a partir de algumas reportagens, como a imprensa brasileira constrói práticas de exclusão e destaca a importância d’O Lampião da Esquina não só como jornal alternativo, mas como ferramenta política que contribuiu para a visibilidade de tais questões em um período marcado pelo regime militar e por mudanças nas formas de atuações dos grupos tidos ali como “minoritários”.

Na segunda parte deste primeiro volume do dossiê “Outras eróticas e desejos possíveis”, os textos focalizam as reflexões acerca da sexualidade e das performances de gênero em suas múltiplas dimensões e representações estéticas, e ainda o gênero como categoria de análise e definidor de grupos sociais e seus movimentos.

Andrew Feitosa do Nascimento, no artigo Os primeiros grupos de afirmação homossexual no brasil contemporâneo, mapeia os grupos representativos do movimento lgbt no Brasil, bem como suas estratégias de visibilidade, a partir de levantamento realizado por meio da bibliografia especializada e dos sítios voltados à temática na rede mundial de computadores. Leonardo Nascimento, no texto Qual ideologia de gênero? A emergência de uma teoria religiosa fundamentalista e seus impactos na democracia, analisa e desconstrói os discursos religiosos fundamentalistas cristão e político-jurídico que circularam na mídia nas vésperas da aprovação do Plano Nacional de Educação (PNE), em 2014, por deputados conservadores, mobilizados por fundamentalistas cristãos dentro e fora do campo da representação política, contra o que foi definido por eles como “ideologia de gênero”. Em A mecanização do prazer: sexualidade e corpo no ciberespaço, Aguinaldo Rodrigues Gomes procura discutir o processo de mecanização do prazer propiciado pelo advento da Internet, identificando uma nova sociabilidade e uma reconfiguração dos corpos no ambiente virtual. Para tanto, recorro a depoimentos colhidos nos sites de “bate-papo”, buscando situá-los no debate teórico acerca da pós-modernidade. Finalmente, Miguel Rodrigues de Sousa Netto, no texto Miditiatização, representações, violência: paradoxos das experiências lgbt no Brasil contemporâneo, nos apresenta uma reflexão sobre as experiências da população formada por transgêneros, lésbicas, bissexuais e gays na história recente e presente do Brasil, indicando o paradoxo da visibilidade / midiatização e a permanência da violência. O autor manifesta sua perplexidade diante manutenção da violência em suas diversas formas, e ainda a manutenção de redes de sociabilidade e encontros eróticos e a midiatização / representação dos / sobre a população lgbt, apontando, finalmente, para a necessidade de ruptura com a cultura hegemônica heteronormativa e mantenedora do binarismo de gênero e da violência que disso advém.

Espera-se, por fim, que @s leitor@s apreciem as presentes reflexões que reafirmam a transversalidade das eróticas e das performances de gênero na sociedade contemporânea, bem como uma cultura que nega a violência de gênero em suas diversas formas e repõe as experiências libertárias dos usos dos corpos, de suas expressões e sociabilidades.

Para além, na Seção de Artigos Livres, Bruno Roberto Nantes Araujo, no artigo intitulado A historicidade do TILS – Tradutor e Intérprete de Língua de Sinais: do anonimato ao reconhecimento, desenvolve sua análise histórica do aparecimento e transformações do sujeito tradutor e intérprete de Língua de Sinais, abordando também a legislação referente ao mesmo no Brasil. Mais uma vez, diferença e inclusão entram na pauta do dia.

Miguel Rodrigues de Souza Netto – Doutor em História pela Universidade Federal de Uberlândia. Docente do Curso de História do Campus de Aquidauana da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul. E-mail: miguelrodrigues.snetto@gmail.com

Aguinaldo Rodrigues Gomes – Doutor em História e Filosofia da Educação pela Universidade Estadual de Campinas. Docente do Curso de História do Campus Universitário de Rondonópolis da Universidade Federal de Mato Grosso. E-mail: aguinaldorod@gmail.com

SOUZA NETTO, Miguel Rodrigues de; GOMES, Aguinaldo Rodrigues. Apresentação. Albuquerque: revista de história, Mato Grosso do Sul, v.7, n.13, 2015. Acessar publicação original [DR]

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Outras eróticas e desejos possíveis- volume II / Albuquerque: revista de história / 2015

É com imensa satisfação que apresentamos a@s leitor@s de albuquerque: revista de história o dossiê Outras eróticas e desejos possíveis, conjunto temático de textos proposto com vistas à socialização e debate de pesquisas referentes ao amplo campo interdisciplinar dos estudos sobre a sexualidade e as performances de gênero em suas diferentes facetas e suportes.

Na história ocidental a sexualidade e sua relação como o poder, a política e a cultura, remontam à narrativa seminal do Gênesis. No Éden, o criador advertiu ao homem que deveria ter cuidado com a arvore da ciência do bem e do mal, pois se dela comesse haveria consequências negativas. Ali encontramos o cenário e o herói (Adão) originário da saga cristão-ocidental; faltava a vilã dessa história, e senhor resolveu criá-la, fazendo-lhe adjutora de Adão, Eva.

Quando o homem provou o fruto proibido no jardim do Éden, iniciou-se sua conturbada relação com seu corpo e sexualidade. Incitada pela serpente, Eva ousou tocar e provar da árvore que lhe parecia agradável e cujos frutos pareciam bons para serem comidos e os compartilha com Adão. Segunda a narrativa sagrada, o ato de Eva ocorreu em função da curiosidade e da ganancia humanas; os homens ansiavam se comparar a Deus e esperavam que isso ocorresse ao comer do fruto e conhecer o bem e mal; encontraram, entretanto, o castigo da decadência – oriunda do afastamento daquelas plagas e o impedimento de comer da árvore da vida, o que levaria à mortalidade.

Ao provar do fruto perceberam que estavam nus e se cobriram com a folha da figueira. O que antes, segundo a narrativa bíblica, era um mundo natural marcado pela relação harmoniosa entre o criador e a criatura, tornou-se uma experiência de dor, de negação do corpo, da sexualidade e do prazer sexual. O ato de desobediência foi punido severamente pelo criador que amaldiçoou a serpente, e condenou o homem a comer o pão com o suor do teu rosto até que retornasse ao pó e a mulher parir com dor os seus filhos e a desejar seu marido que a dominaria.

(Cumpre, aqui, abrir esse parêntesis, para retomar outra figura feminina, presente nas tradições babilônica e hebraica, associada a Adão: Lilith. Ela teria sido a primeira mulher, feita do mesmo barro que seu companheiro, não de sua costela. Em determinado momento, querendo ficar por cima de Adão durante o coito sexual, teria por isso sido expulsa do paraíso, perseguida por anjos. Enquanto fugia, copulava com animais e demônios, dando à luz outros seres. Teria se refugiado no mar, tornando-se sua senhora. É também associada à noite. Outra vez, a mulher é a transgressora, mas aqui, tendo “ofendido” seu companheiro com sua audácia erótica, sofre sozinha as consequências de seus atos.)

Retomando a passagem da expulsão de Adão e Eva, sobre qual se assenta a longa tradição ocidental de negação do corpo e do desejo, do exercício do poder patriarcal que subordina, explora e mata as mulheres e todos os demais sujeitos considerados inferiores ao homem branco, cristão e europeu. Foi, portanto, a partir da subordinação sexista, misógina e machista que se construiu o projeto de civilização no ocidente, bem como o projeto de colonização que se espalhou por diversas regiões do mundo, as quais, como apontou Michael Foucault, o cristianismo modificou o cenário, fazendo a ligação entre sexo e pecado da carne, distanciando-o da noção de desejo.

Foucault também afirma que a partir do século XVI, com reforço no XIX, o sexo foi incitado a se manifestar. O autor pensa a história do homem e do desejo e realiza uma genealogia de como o homem ocidental foi levado a se reconhecer como sujeito de desejo. A sociedade capitalista não obrigou o sexo a esconder-se. Contudo, ainda hoje, em pese o crescimento do consumo da pornografia, da prostituição (principalmente feminina), da divulgação de discursos de especialistas sobre o sexo e das experiências proporcionadas pelo ciberespaço, ainda lidamos mal com nosso corpo e nossa sexualidade. Ainda existem diversos tabus, sobretudo hoje, com a retomada conservadora em escala global que interdita a discussão sobre a sexualidade na família, na escola e no espaço público de maneira geral.

Assim ansiamos, nesse dossiê, verticalizar reflexões e debater teórica e metodologicamente, além da relação entre história e imprensa escrita, linguagens artísticas, produção virtual, os movimentos feministas, em suas diversas temporalidades e feições, a violência de gênero e os movimentos de afirmação de lésbicas, gays, bissexuais, travestis, transexuais e transgêneros, bem como suas representações, a sexualidade e suas diversas expressões e representações (artísticas, corporais, sociais), notadamente aquelas divergentes da heteronormatividade e os embates sociais que de tais expressões surgem.

Além disso, debateremos ainda as novas possibilidades de expressão das performances de gênero, seja nas práticas sexuais efetivas ou ainda no ciberespaço. Há na contemporaneidade uma ênfase significativa nos valores e virtudes de instantaneidade e de descartabilidade, sendo importante a capacidade de abandonar rapidamente um sistema de valores e estilos de vida e construir imagens e personas que se moldem a diferentes situações, sobretudo nos ambientes virtuais, espaços nos quais ocorre uma reconfiguração das relações de sociabilidade, da sexualidade, dos corpos e das performances de gênero. Todas as dimensões da sexualidade são reelaboradas nesse ambiente. Corpos, prazeres, sensações eróticas são experimentadas numa nova relação corpo-máquina.

Organizamos esse dossiê em dois volumes, sendo o primeiro “Outras eróticas e desejos possíveis, volume I”, referente ao volume 7, número 13 de albuquerque: revista de história, nos meses de janeiro a junho de 2015, e o segundo volume (referente ao volume 7, número 14, nos meses de julho a dezembro de 20015) o que segue.

Assim, no primeiro conjunto de textos @s autor@s tomam como objeto de suas análises a produção literária. No primeiro artigo deste segundo volume do dossiê, Dilemas sentimentais e identidade homoerótica: uma leitura de Frederico Paciência de Mário de Andrade, Peterson José de Oliveira se debruça sobre o conto de Mário de Andrade escrito e reescrito por dezoito anos, no qual a amizade e o homoerotismo se desenrolam entre dois adolescentes. Um libelo ao desejo. Flávia Benfatti, em Identidade de gênero: a masculinidade hegemônica em Tropic of Capricorn, toma a obra de Henry Miller, publicada em 1961 (traduzida no Brasil em 1975) para acionar as categorias de sexo, gênero, sexualidade como construções sociais, analisando, em especial, o primado da masculinidade. George de Santana Mori, no artigo Queer, identidade e masculinidade em Giovanni, de James Baldwin, busca interpretar as principais personagens do romance publicado em 2008 a partir das questões de gênero e da teoria queer, notadamente a partir da construção identitária das masculinidades homossexual e heterossexual. O embate hegemonia versus diferença permeia sua narrativa. Encerrando esse primeiro conjunto de textos dedicados à literatura está o artigo de João Carlos Nunes Ibanhez, Cartografias homoeróticas: uma leitura de Onde andará Dulce Veiga?, de Caio Fernando Abreu. O autor, interdisciplinarmente, busca compreender a produção de espaços na obra literária de Caio Fernando Abreu, bem como as formas de apropriação de parte destes espaços, especialmente os marginais, por determinados grupos sociais, entre eles os homossexuais, transformando a margem em seu locus de atuação. Literatura, espacialidade e tensões sociais são o foco de Ibanhez.

No segundo conjunto de artigos que compõe o segundo volume do dossiê Outras eróticas e desejos possíveis, encontra-se o texto de Robson Pereira da Silva, “Nenhuma malícia será castigada”: eróticas no corpo e no palco de Ney Matogrosso, no qual o autor analisa aspectos do espetáculo Mato Grosso, de 1982, de Ney Matogrosso, compreendendo-o na conjuntura de sua produção, ou seja, no Brasil da abertura, da decadência da ditadura militar estabelecida por meio do Golpe de 1964, trazendo à baila os sujeitos marginais tornados arquétipos pelo artista, tais como índios, caipiras e malandros, carnavalizados, erotizados. Antonio Ricardo Calori de Lion, no artigo Ivaná: a grande dúvida no Teatro de Revista dos anos 1950, apresenta um belo estudo sobre as ambiguidades da representação de gêneros da transformista Ivaná, nos anos 1950, no Teatro de Revista da Companhia de Walter Pinto. A repercussão da dúvida sobre a performatividade de gênero do / a artista foi objeto de matérias na imprensa escrita, de capas de revista. Compreender esse impacto no Brasil dos anos 1950 é uma tarefa importante para o conjunto dos estudos Gays, Lésbicos e Transgênicos da atualidade. Encerrando o dossiê, Diego Aparecido Cafola, no texto Madame para uns, Satã para outros: uma leitura do corpo marginal em Madame Satã (2002), de Karim Aïnouz, busca, a partir da interseccionalidade, compreender a personagem criada por Aïnouz e vivida nas telas pelo ator Lázaro Ramos, João Francisco dos Santos, e sua transformação em Madame Satã, uma das lendas da boemia e da malandragem cariocas. Aqui, a violência tornada linguagem, a navalha transformada em resposta.

Espera-se, por fim, que @s leitor@s apreciem as presentes reflexões que reafirmam a transversalidade das eróticas e das performances de gênero na sociedade contemporânea, bem como uma cultura que nega a violência de gênero em suas diversas formas e repõe as experiências libertárias dos usos dos corpos, de suas expressões e sociabilidades.

Para além, na Seção de Artigos Livres, Cássio Rodrigues da Silveira, no artigo intitulado Crise do regime de historicidade moderno, individualização e confiança: entre os movimentos e as mobilizações, analisa o tipo de indivíduo e de individualidade que têm sido produzidos na contemporaneidade, a partir de proposições de R. Koselleck e F. Hartog, avaliando suas implicações para a efetivação dos movimentos sociais. Mais uma vez, indivíduo, coletividades, diferença e tensionamentos sociais entram na pauta do dia.

Miguel Rodrigues de Souza Netto – Doutor em História pela Universidade Federal de Uberlândia. Docente do Curso de História do Campus de Aquidauana da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul. E-mail: miguelrodrigues.snetto@gmail.com

Aguinaldo Rodrigues Gomes – Doutor em História e Filosofia da Educação pela Universidade Estadual de Campinas. Docente do Curso de História do Campus Universitário de Rondonópolis da Universidade Federal de Mato Grosso. E-mail: aguinaldorod@gmail.com

SOUZA NETTO, Miguel Rodrigues de; GOMES, Aguinaldo Rodrigues. Apresentação. Albuquerque: revista de história, Mato Grosso do Sul, v.7, n.14, 2015. Acessar publicação original [DR]

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História e Política / Albuquerque: revista de história / 2016

“definir uma posição singular pela exterioridade de suas vizinhanças; mais do que querer reduzir os outros ao silêncio, (…)”1

A opção por História Política como tema central do presente dossiê não tem qualquer relação com uma tentativa de “reduzir” os outros campos da história ao “silêncio”. É preciso ressaltar que a História Política não é uma área fechada, com fronteiras rígidas e inflexíveis. Ao contrário, pautado numa postura interdisciplinar, seu pesquisador vale-se de métodos, técnicas, conceitos, vocabulários e problemas gerados (e germinados) do contato com outras disciplinas e / ou áreas do conhecimento. Desse modo, entendemos que o cultural, o econômico e o político se “influenciam mutua e desigualmente segundo as conjunturas, guardando ao mesmo tempo cada um sua vida autônoma e seus dinamismos próprios.”2 E de acordo com René Rémond: “se o político tem características próprias que tornam inoperante toda análise reducionista, ele também tem relações com outros domínios.” Conferindo centralidade à postura interdisciplinar, Rémond salientou que o político “liga-se por mil vínculos, por toda espécie de laços, a todos os outros aspectos da vida coletiva.”3 Portanto, o político “não constitui um setor separado: é uma modalidade da prática social.”4

É certo que a postura interdisciplinar contribuiu para o alargamento do campo da história e, particularmente, da chamada “história política renovada.”5 Nas últimas décadas, objetos até então pouco pesquisados no Brasil passaram a despertar maior interesse dos estudiosos brasileiros. Mídia, intelectuais, opinião pública, discursos e cultura política são apenas alguns exemplos.6

Convém observar, igualmente, que a própria noção de política se ampliou. Como, então, definir a política? Sem a pretensão de oferecer uma resposta definitiva e inquestionável, podemos recorrer às formulações de René Remond: “Já que não se pode definir o político por uma coleção de objetos ou um espaço, somos levados a definições mais abstratas. A mais constante é pela referência ao poder.”7 Por sua vez, Rosanvallon8 sublinhou com relação ao político: “Pode ser definido como o processo que permite a constituição de uma ordem a que todos se associam, mediante deliberação das normas de participação e distribuição.” Ressaltou, ainda, que devemos considerar a “atividade política” como “subordinada à pluralidade da atividade humana.”9

Referências ao poder10 e postura interdisciplinar são algumas das características dos onze textos reunidos no presente dossiê, além, é claro, de instigantes discussões e reflexões historiográficas sobre a própria constituição da história política como campo de estudos.

No primeiro artigo, o leitor encontrará uma discussão de cunho historiográfica. Em seu texto, Moisés Stahl abordou o chamado “retorno do político” discutindo as formulações de autores como Roger Chartier, Pierre Rosanvallon, Christian Edward Cyril Lynch e René Rémond.

Na publicação seguinte, Juliana Cristina da Rosa analisou a contribuição de Jürgen Habermas para a Nova História Política, enfocando, sobretudo, a relação entre Dignidade Humana e Direitos Humanos. De modo contundente, demonstrou como o teórico alemão criticou o “mau uso” dos direitos humanos como discurso legitimador para ações intervencionistas – e imperialistas – empreendidas por governantes dos Estados Unidos da América.

Já Raphael Silva Fagundes procurou analisar os discursos proferidos pelos membros do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro (IHGB), descortinando peças de retórica que buscavam legitimar, a partir da noção de progresso, a presença da associação oitocentista no cenário político. Para tanto, enfocou pronunciamentos nas sessões de aniversário do IHGB.

No quarto texto, Pedro Henrique de Mello Rabelo e Cláudia Maria das Graças Chaves trataram da Abertura dos Portos (1808) e do comércio britânico no Brasil tendo como fonte a correspondência do cônsul estadunidense Joseph Rademaker com o governo luso. Refletiram, igualmente, sobre os conceitos de metrópole, colônia, império e sistema colonial.

As biografias acerca de D. Pedro II constituem o escopo do artigo veiculado na sequência. Nele, Mauro Henrique Miranda de Alcântara discutiu o trabalho da antropóloga Lilia M. Schwarcz (As Barbas do Imperador, 1998), bem como os livros dos historiadores José Murilo de Carvalho (D. Pedro II, 2007) e Roderick J. Barman (O Monarca-Cidadão, 2013).

Já os primeiros momentos da participação brasileira na Segunda Guerra Mundial foram abordados por Paulo Sérgio da Silva e Honorato C. Chagas. Dentre outros temas, trataram da implantação e execução das medidas tomadas pelo governo de Getúlio Vargas em busca dos recursos financeiros, abastecimento de materiais, reorganização produtiva e treinamento da defesa passiva civil.

Os resultados obtidos em dois diferentes estudos ensejaram as reflexões de Douglas Souza Angeli e Marcos Jovino Asturian. No trabalho, os autores abordaram o papel exercido por jornais nas campanhas eleitorais no Rio Grande do Sul. A partir de periódicos de circulação local e / ou regional, analisaram as estratégias discursivas adotadas nas campanhas eleitorais de cidades gaúchas na década de 1950.

No oitavo artigo, Samuel da Silva Alves e Cleusa Maria Gomes Graebin examinaram um discurso de Leonel de Moura Brizola, proferido num evento organizado por acadêmicos da Faculdade de Ciência Política e Econômica da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), em meados de 1961, momento em que o político ocupava o cargo de governador do Estado.

Já no nono texto, os pesquisadores estabeleceram relações entre literatura, política e ditadura militar no Brasil. Marcio Luiz Carreri e Francislaine A. Carvalho discutiram a peça O Rei da Vela, de Oswald de Andrade, escrita em 1933 e encenada, três décadas depois, no Teatro Oficina.

Rock e política compõem o mote para o texto publicado na sequência. Em seu artigo, Paulo Gustavo da Encarnação procurou abordar a relação entre rock e política interpretando versos e acordes de canções como O adventista (banda Camisa de Vênus) Fé nenhuma (banda Engenheiros do Hawaii) e Ideologia (Cazuza).

O último texto da presente edição foi redigido pela pesquisadora argentina Magdalena López. No artigo, López refletiu acerca da história política do Paraguai contemporâneo, buscando compreender, principalmente, os fatores que influenciam a formação e o modelo atual de democracia paraguaia.

Além dos onze artigos, publicamos uma entrevista realizada com a professora Alisolete Antônia dos Santos Weingartner. Na conversa, a pesquisador tratou dos estudos sobre o Movimento Divisionista, a Divisão do Estado de Mato Grosso e a criação de Mato Grosso do Sul. Dentre outros temas, também abordou o seu novo livro, intitulado “Mato Grosso do Sul: a construção de um Estado”.

Por fim, desejamos uma excelente leitura para todos / as que tenham interesse numa publicação de história sem, obviamente, abrir mão do contato com outras disciplinas e / ou áreas do conhecimento, como bem enseja à referência aos escritos de Michel Foucault na epígrafe aqui reproduzida.

Aquidauana-MS, 2016.

Notas

1 FOUCAULT, Michel. Arqueologia do saber. 6.ed. Rio de Janeiro: Florense Universitária, 2000, p. 20.

2 RÉMOND, René. (org.) Por uma história política. Rio de Janeiro: Editora UFRJ / FGV, 1996, p. 10.

3 Idem, ibidem, p. 35.

4 Idem, ibidem, p. 35-6.

5 BORGES, Vavy Pacheco. História e política: laços permanentes. Revista Brasileira de História. São Paulo: ANPUH, n.º 23 / 24, set 91 / ago 92, p. 16.

6 Não se pretende afirmar que os pesquisadores brasileiros começaram a trabalhar com os objetos citados nos últimos anos. Tomemos, por exemplo, o caso da mídia. Há muito tempo a imprensa escrita é objeto de estudo para os historiadores, como podemos observar a partir dos estudos de SODRÉ, Nelson Werneck. História da imprensa no Brasil. São Paulo: Civilização Brasileira, 1966, CAPELATO, Maria Helena Rolim; PRADO, Maria Lígia. O Bravo matutino: imprensa e ideologia: o jornal O Estado de São Paulo. São Paulo: Alfa-Ômega, 1980 ou CAPELATO, Maria Helena Rolim. Os arautos do liberalismo: imprensa paulista (1920- 1945). São Paulo: Editora Brasiliense, 1989. Procuramos salientamos somente que os historiadores tem se ocupado com maior frequência de tais objetos.

7 RÉMOND, René. Do Político. _____. (Org.). Por uma história política. Rio de Janeiro: Editora UFRJ / FGV, 1996, p. 443-444.

8 Considerar a proposição do autor para uma história conceitual do político. Cf. ROSANVALLON, Pierre. Por uma história conceitual do político. Revista Brasileira de História. v.15, n.º 30, p. 9-22, 1995.

9 ROSANVALLON, Pierre. Por uma história do político. São Paulo: Alameda, 2010, p. 42.

10 E aqui pensamos em poder também tendo em mente as formulações de Bourdieu. Cf. BOURDIEU, Pierre. O poder simbólico. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2000.

Edvaldo Correa Sotana – Doutor em História pela Universidade Estadual Paulista “Júlio de Mesquita Filho”. Docente do Curso de História do Campus de Aquidauana da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul. E-mail: sotana.ufms@gmail.com

Carlos Martins Junior – Doutor em História pela Universidade de São Paulo. Docente do Curso de História do Campus de Aquidauana da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul. E-mail: martinscjr@gmail.com

Miguel Rodrigues de Souza Netto – Doutor em História pela Universidade Federal de Uberlândia. Docente do Curso de História do Campus de Aquidauana da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul. E-mail: miguelrodrigues.snetto@gmail.com

SOTANA, Edvaldo Correa; MARTINS JUNIOR, Carlos; SOUZA NETTO, Miguel Rodrigues de. Apresentação. Albuquerque: revista de história, Mato Grosso do Sul, v.8, n.15, 2016. Acessar publicação original [DR]

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História e Linguagens / Albuquerque: revista de história / 2016

É com imensa satisfação que apresentamos a@s leitor@s de albuquerque: revista de história o dossiê História & Linguagens, conjunto temático de textos proposto com vistas à socialização e debate de pesquisas referentes ao amplo campo de contato interdisciplinar dos estudos da História e das mais distintas Linguagens, em suas diferentes facetas e suportes.

A História, tomada como forma específica de se conhecer e compreender o mundo, passa por transformações, na medida em que a sociedade se transforma e ela não é outra coisa que não um produto humano. É possível que essa seja uma afirmação óbvia, entretanto, em um período como esse no qual estamos inseridos, tão afeito a naturalizações, talvez não seja algo ruim retomar algumas premissas.

A História tem sido elaborada muito próxima a outras formas de compreender o mundo, por vezes sendo confundida com elas. Não somos @s primeir@s, claro. Na construção das hegemonias no vasto campo do ato de conhecer o mundo as tensões entre pensador@s, suas escolhas, suas incursões até outros campos, são percebidas.

Assim, a História já esteve muito próxima das artes, da filosofia, de outras narrativas e ciências. Num rasgo de necessidade, entretanto, inseridos no processo de cientificização da sociedade ocidental característico de fins do século XVIII e do século XIX, seus artífices buscaram o afastamento. Retirados, se impunham a tarefa de elaborar as fronteiras do campo, acompanhado de seus modos específicos de analisar, compreender e narrar as sociedades humanas no tempo. E isso foi feito.

Entretanto, o interesse em dialogar com outros campos, de nos aproximarmos de outras leituras de mundo e suas ferramentas, tem sido uma constante. As fronteiras, que em um primeiro momento foram tomadas como muros servindo para nos separar, foram sendo modificadas e tornadas zonas de contato. ´

Em diálogo com as Ciências Sociais os conceitos foram ampliados, o conjunto de fontes foi tornado quase ilimitado. Tomar de empréstimo à Antropologia o seu largo conceito de Cultura possibilitou um século de avanços robustos na compreensão das ações humanas no seu embate cotidiano com a natureza e entre sujeitos. Os estudos da psiquê, aqueles da economia, da política e tantos mais foram sendo observados e, em alguma medida, apropriados no fazer histórico e historiográfico.

Quando observamos dessa maneira a elaboração do conhecimento histórico, não causa estranheza que, à medida em que novos objetos foram introduzidos no corpo social, eles foram também tomados como forma de acessar os sujeitos e suas ações, agregados a tantos outros que estavam ali há mais tempo. Historiador@s que utilizam a arte para elaboração de suas interpretações podem ser observados desde o século XIX, a exemplo de Jacob Burckhardt e sua Cultura do Renascimento na Itália.

Na produção histórica brasileira, entretanto, é possível perceber a partir de meados dos anos 1990 o aparecimento cada vez mais frequente de trabalhos elaborados a partir do diálogo com as Linguagens e / ou que tomaram / tomam objetos estéticos como corpus documental, exclusivo ou não.

A difusão de autores como Edward P. Thompson, Raymond Williams, Roger Chartier, entre outros, nos cursos de História, foi um movimento importante, responsável por parte dessa ampliação do paradigma histórico nestas plagas. Mas, a partir de fins dos anos 1990, esse tipo de produção historiográfica se torna mais comum no Brasil, possibilitando um continuado incremento desta zona de contato, alargada.

Assim ansiamos, nesse dossiê, verticalizar reflexões e debater teórica e metodologicamente a relação entre história e as linguagens artísticas, a produção virtual, os movimentos de cultura, em suas diversas temporalidades e feições e representações, e os embates intelectuais que de tais expressões surgem.

O dossiê História & Linguagens foi composto como segue: o texto de abertura é de Janaina Cardoso de Mello, intitulado Os crimes contra mulheres nas fontes do Arquivo Geral do Poder Judiciário em Sergipe (1878-1935): cotidiano de poder, denúncias e impunidade; fruto de pesquisa da autora baseada na análise e cotejamento de cinco documentos encontrados naquele arquivo e que possibilitam a compreensão de um cotidiano de violência contra mulheres e impunidade de seus algozes em Sergipe, na passagem do século XIX para o século XX.

O artigo seguinte, Turismo literário: uma análise sobre autenticidade, imagem e imaginário, de autoria de Fernanda Naves Coutinho, Diomira Maria Cicci Pinto Faria e Sergio Donizete Faria, foi escrito com vistas a ampliar o conhecimento sobre esse segmento turístico, inserindo-o em uma teia ampliada de relações advinda da produção, circulação, ressignificação, apropriação de bens culturais, materiais e imateriais.

Já Alessandro Henrique Cavichia Dias busca compreender o processo de travessia de Sérgio Reis de uma carreira de cantor romântico ligado à Jovem Guarda para o mundo do cancioneiro rural, alterando toda a sua performance, inclusa sua indumentária, mas, sobretudo, no que tange ao próprio ritmo, instrumentação, etc. No artigo “O caminho do sertão”: a construção e a concretização da imagem de Sérgio Reis como intérprete da moderna música rural, Dias analisa como uma nova estética caipira seria elaborada pelo cantor, aproximando campo e cidade.

Ceildes da Silva Pereira & Fernanda Correa Silveira Galli tomam como objeto de análise um dos mais relevantes acontecimentos da história recente do país, a aprovação da PEC 241 / 2016, por meio da qual foram limitados os gastos governamentais pelo prazo de vinte anos. Discursos da / na mídia digital: efeitos de sentido sobre a PEC 241 é a análise das autoras, baseada na Análise do Discurso de linha francesa, sobre a construção discursiva daquele fato.

O texto de Wallace Lucas Magalhães, O imaginário social como um campo de disputas: um diálogo entre Baczko e Bourdieu, volta-se para a compreensão teórica das ciências humanas e sociais a partir dos conceitos de imaginário social (de Baczko) e campo (de Bourdieu), inserindo tal processo nas transformações sociais e intelectuais a partir dos anos 1960 na Europa, considerando o permanente imbricamento entre o real e o simbólico.

O artigo de Elite Borges Lopes, intitulado Comunidade da Ilha do Bananal: auto-organização da população em situação de rua na cidade de Cuiabá-MT, encerra esse dossiê. A autora transita pelas ruas da Ilha do Bananal, no centro da capital mato-grossense, e percebe ali a organização da população em situação de rua por meio de seus arte-fatos. Uma bela análise de vivências expressas também na arte pouco observadas pela academia brasileira, ou, ainda, pouco observada por quem quer que seja.

Esperamos que @s leitor@s apreciem as presentes reflexões que reafirmam os diálogos entre as áreas do conhecimento que elaboram análises sobre as sociedades contemporâneas por meio dos mais distintos suportes e com várias nuances, considerando a produção intelectual e artística como expressão relevante da sociedade global.

Na Seção de Artigos Livres, estão quatro outros trabalhos.

Partindo da interpretação de que, desde o período imperial, notadamente a partir da guerra contra o Paraguai (1864-1870), a fronteira oeste se tornaria objeto de interesse e de políticas do Estado nacional, Carlos Alexandre Barros Trubiliano escreve seus Apontamentos sobre as frentes pioneiras na Zona da Mata Rondoniense (1970-2000).

Eduardo Giavara compreende a fronteira como espaço de tensionamento; considerando essa premissa, no artigo As fronteiras do desconhecido: civilização e barbárie no oeste paulista, analisa os processos migratórios do século XIX e as transformações sociais havidas no oeste paulista em decorrência delas, no período que vai da publicação da Lei de Terras (1850) até a aquele da reorganização política daquela região por meio da chegada dos trilhos na cidade de Salto Grande.

Cesar Magolin, no artigo Política operária no pré-64: história e crítica, busca compreender a construção de uma política operária a partir das formulações do Partido Comunista Brasileiro (PCB), inserindo tal fenômeno no amplo e complexo processo político nacional e internacional que precederia o golpe de 1964.

Finalmente, Isabel Camilo de Camargo analisa o processo de formação de Sant’Ana de Paranaíba baseada no âmbito da história ambiental, considerando os embates e apropriações do corpo social com a natureza no tempo, no artigo intitulado Fontes históricas e a ocupação de Sant’Ana de Paranaíba no século XIX: possibilidades para se pensar a História Ambiental.

Miguel Rodrigues de Souza Netto – Doutor em História pela Universidade Federal de Uberlândia. Docente do Curso de História do Campus de Aquidauana da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul. E-mail: miguelrodrigues.snetto@gmail.com

Edvaldo Correa Sotana – Doutor em História pela Universidade Estadual Paulista “Júlio de Mesquita Filho”. Docente do Curso de História do Campus de Aquidauana da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul. E-mail: sotana.ufms@gmail.com

Carlos Martins Junior – Doutor em História pela Universidade de São Paulo. Docente do Curso de História do Campus de Aquidauana da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul. E-mail: martinscjr@gmail.com

SOTANA, Edvaldo Correa; MARTINS JUNIOR, Carlos; SOUZA NETTO, Miguel Rodrigues de. Apresentação. Albuquerque: revista de história, Mato Grosso do Sul, v.8, n.16, 2016. Acessar publicação original [DR]

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História, democracia e diferenças: os direitos humanos na contemporaneidade / Albuquerque: revista de história / 2017

É com grande satisfação que apresentamos ao público-leitor o dossiê “História, democracia e diferenças: os direitos humanos na contemporaneidade”. A proposta desse compêndio de artigos escritos por pesquisadores de diversas partes do mundo é construir, desde o campo acadêmico, um olhar mais aberto ao inventário social que estabelece a relação entre História e contemporaneidade. A partir de abordagens teóricas plurais, as discussões sobre temas centrais como racismo, política, território, memória, gênero, e episteme, compõem um mosaico cultural definidor do maior desafio do atual cenário político internacional: a defesa de certo sentido de democracia no que se convencionou chamar de “Direitos Humanos”

O debate sobre o lugar das minorias em situações de conflito como as vivenciadas no mundo contemporâneo revela a urgência com que a produção científica atual precisa não apenas se posicionar em relação a contextos de exceção, de resistência e de luta, mas também se debruçar sobre temas espinhosos que, de forma geral, fazem com que a História e as demais ciências humanas tenham algo a dizer sobre a visibilidade social e politica que determinados grupos reivindicam. O silêncio diante da opressão é algo que precisa ser superado e debatido amplamente, e nada melhor do que a reflexão acadêmica para trazer à discussão as questões que fundamentam diversas agendas sociais. A utilização de um espaço consolidado de análise como a Revista Albuquerque mostra que o propósito desse dossiê atinge não somente a sensibilidade dos grupos envolvidos nessas demandas, mas alcança um universo alargado de preocupações teóricas que extrapola as convenções científicas e obriga a universidade pública a se aproximar das tensões que nos definem desde o passado em direção ao presente.

Os artigos que fazem parte desse dossiê foram produzidos a partir dessas inquietações, e almejam fomentar o anseio de se compreender a importância do tema dos Direitos Humanos e reconhecer a necessidade de considerá-lo como uma conquista que não pode ser monopolizada politicamente em tempos difíceis como o que vivemos. Com esse espírito, por meio de um olhar abrangente sobre o tema, Agustín Ávila Romero e José Luis Silvaran mostram como a História deve ser definida a partir de um binômio singular: a diversidade biocultural e as ontologias espaciais na América Latina. Para tanto, os autores superam a tendência geral de se olhar para a História mexicana exclusivamente por meio de fontes escritas espanholas, demonstrando certa resistência epistemológica ao se debruçar sobre formas narrativas próprias dos maias tzeltales de Chiapas para se compreender valores e saberes que se sedimentam no chamado Ejército Zapatista de Liberación Nacional (EZLN). A defesa do olhar local sobre o citado movimento é reforçada por escolhas teóricas apropriadas e inovadoras, especialmente quando se recorre aos conceitos de colonialidade do saber e colonialidade do poder para se redefinir uma espécie de memória zapatista. No pulsante coração da América Latina, o exemplo epistemológico dos autores serve de modelo para que outros movimentos sociais no mesmo continente sejam lidos por um viés mais autêntico e fiel aos grupos locais do que a velha e mofada epistemologia clássica.

Ainda sobre as questões ligadas ao exercício da dominação cultural na teoria do conhecimento que se reproduz nas universidades ocidentais, José Marín destrincha o vínculo entre eurocentrismo, racismo e interculturalidade no mundo globalizado. Os problemas contemporâneos, em suas múltiplas faces, garantem a sobrevivência de aspectos das relações humanas que já deveriam ter sido extintos no trato entre as diferentes culturas. Um desses elementos nocivos, que reforçam a necessidade de discussão sobre os Direitos Humanos é a herança colonial europeia de se desqualificar o outro para oprimi-lo. Marín nomeia essa estratégia epistemológica de “perversão ideológica” fundadora do racismo e do nacionalismo que nos dias atuais, se transformam em políticas de massas. Não reduzindo sua reflexão à denúncia dos males, e estendendo suas conclusões em direção a caminhos que permitam a solução desses problemas, o autor apresenta a educação como principal ferramenta de conciliação entre valores universais e particularidades culturais. O primeiro passo, portanto, seria a validação da ideia de que a História da humanidade é a história de nossas migrações.

Já Bruno do Prado Alexandre e Raquel Gonçalves Salgado, em artigo sobre as narrativas de travestis, transferem o olhar do leitor para outro universo silenciado: o lugar desses indivíduos e de seus corpos no ambiente escolar brasileiro. A base teórica para essa análise seria o que os autores chamam de “estudos de gênero e pós- feministas”, o que por si só já conferiria a originalidade e a importância desse trabalho. O mapeamento da questão a partir das vozes de cinco jovens travestis de Rondonópolis, Mato Grosso, escancara pela ótica acadêmica o que se tenta ocultar pela opressiva caracterização de certa “normalidade” social O tempo da infância, o espaço escolar e a sociabilidade cotidiana são marcados por categorias emblemáticas da violência sofrida pelo “diferente”, traduzida em acepções como “viadinho”, “estranho” e até mesmo “corpo abjeto”. O resultado dessa dinâmica de opressão singular é a construção de estratégias de sobrevivência e resistência dentro de um espaço que deveria originalmente ser acolhedor e integrado como a escola. A dinâmica de violência do ambiente escolar em relação aos travestis tem um palco de atuação ainda mais central: o banheiro. É aqui que o “processo de negação e privação de direitos empreendidos sobre os corpos considerados grotescos certamente, a dimensão mais cruel das memórias escolares desses sujeitos formados pelos silêncios e pelas invisibilidades.

Outro universo a ser revelado pelas questões ligadas aos Direitos Humanos nesse dossiê é a luta pela terra como agenda global. Em seu artigo, Cassio Rodrigues da Silveira estabelece os parâmetros da reforma agrária como uma reivindicação social que transcende a demanda específica dos integrantes de um movimento organizado como o MST (Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra). Em conflito não apenas com o latifúndio, mas também com o viés globalizante do capitalismo neoliberal, o combate pelo direito à terra defendido pelo MST confere uma dimensão social à questão agrária, já que passa a ser movida pela necessidade de sobrevivência, e não pela lógica do mercado fundiário. O problema da concentração da posse da terra, portanto, ultrapassa as fronteiras nacionais, pois o sistema econômico, o Estado e os interesses de classe são distintas dimensões de um debate assumido pelo MST como altermundialista. No entrecruzamento dessa questão estão as relações com os dois mandatos do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, as expectativas construídas a partir do Fórum Social Mundial em 2001, e a luta anti-imperialista mundial, tudo expresso nas publicações do MST e na construção de um vocabulário político próprio em seus textos e redes de informação.

Mantendo-se no campo das lutas políticas em contextos de repressão, Aguinaldo Rodrigues Gomes apresenta o tema da resistência de intelectuais e estudantes do PCB (Partido Comunista Brasileiro) ao regime militar brasileiro. O primeiro desafio enfrentado aqui é justamente contribuir com o recente debate historiográfico acerca do tema, que tem buscado pensar como esse acontecimento político, um dos mais dramáticos de nossa história, repercutiu fora dos centros de poder do país, especificamente o eixo Rio-São Paulo. O autor enfatiza no artigo as estratégias adotadas pelo PCB para a construção de uma luta pelos diretos civis no campo educacional por parte de estudantes e professores que ousaram enfrentar o regime em defesa das liberdades de expressão. No momento em que se discute o que foi a ditatura militar no Brasil, notória por seu completo desprezo aos Direitos Humanos mais fundamentais, estender o debate para outras partes do país é democratizar a luta contra um passado recente, além de ser também uma forma de resistência epistemológica que quebra a centralidade do Rio de Janeiro e de São Paulo no discurso sobre a memória política do Brasil contemporâneo.

Ainda em relação à resistência a ditadura militar em nosso país Ary Cavalcanti Junior nos traz uma narrativa sobre a resistência das mulheres ao regime a partir da trajetória da militante Diva Soares Santana que atuou em defesa dos direitos dos mortos e desaparecidos durante a ditadura civil-militar no grupo Tortura Nunca Mais-Bahia. Utilizando a metodologia da história oral, o autor busca representar as memórias, seus confrontos e ressignificações a partir dos relatos de Diva Santana. Nas palavras de Cavalcanti Junior a inserção de Diva na militância ocorreu devido ao desaparecimento de sua irmã Dinaelza, mas uma vítima do regime ditatorial. Sua busca pelo corpo da irmã nos fornece um claro retrato da face perversa da ditadura na Bahia, a exemplo do que ocorreu em diversas regiões do país e que ainda estão por ser descortinadas pelas pesquisas acadêmicas, daí a importância do texto de Cavalcanti Junior.

Com os olhos voltados para um dos grandes ícones da cultura brasileira, Tadeu Pereira dos Santos analisa a condição de subalternidade do negro no Brasil pela biografia de Sebastião Bernardes de Souza Prata, conhecido como Grande Otelo. As representações sobre negros e atores na imprensa brasileira, fonte principal desse trabalho, coloca elementos depreciativos como definidores da carreira de Grande Otelo, como por exemplo, a estratégia constante de reforçar a presença do alcoolismo em sua biografia. Alguém realmente pode conceber que o excesso de consumo de álcool pode ser um elemento central na trajetória de uma figura marcante como Grande Otelo? Parece que para a imprensa e a sociedade civil brasileira, com seus preconceitos e estigmas, o artista negro merece destaque por aquilo que se espera de alguém como ele: instabilidade, vício e práticas religiosas abalizadas pela dubiedade. A malandragem e a astúcia, tomadas em determinados contextos como uma ação social pejorativa, passa a definir, no artigo de Tadeu Pereira dos Santos, uma estratégia de sobrevivência a ser exaltada. Não se trata apenas de discutir os Direitos Humanos como uma questão de ordem jurídica e moral, mas como mais uma expressão da necessidade de se humanizar determinados grupos marginalizados pela hierarquia social vigente.

Na esteira das reflexões sobre a marginalização dos negros a historiadora Priscila Xavier de Oliveira Scudder ancorada no mapa da violência 2016 e na obra “A democracia da Abolição” da filosofa Ângela Davis nos apresenta uma comparação entre as facetas do racismo nos Estados Unidos da América e no Brasil. Perscrutando a história brasileira e suas práticas racistas decorrentes do colonialismo que se apresenta em um viés duplo, a saber, no plano da organização social e da própria construção do saber acadêmico, denuncia assim, o apagamento / silenciamento das minorias no âmbito da esfera social e mesmo no campo das narrativas epistemológicas. Seu texto aponta para a necessidade de uma resistência intelectual e popular contra as práticas legitimadoras da subalternidade que favorecem a discriminação, as novas formas de escravização e, sobretudo o extermínio da população negra em nosso país.

Se falar em democracia e Direitos Humanos é, sobretudo, conferir humanidade aos destituídos dessa condição, o artigo de Eliete Borges Lopes e Luis Augusto Passos segue esse mesmo princípio ao dedicar-se à análise da população em situação de rua da chamada Ilha do Bananal, em Cuiabá. A noção de resistência abarca também estigmas sociais comuns no Brasil como a pobreza e a violência, alicerçados em um competente arcabouço metodológico composto por uma cartografia das ruas, uma pesquisa exploratória e uma interpretação-descrição dos fenômenos. Independente das condições de vida e marginalização desse território e de seus moradores, os autores se valem de uma sensibilidade acadêmica rara para identificar nos sujeitos de sua pesquisa aquilo que chamam de arte-fatos e afetos da vida da cidade, expressos na paisagem local negociada entre o patrimônio arquitetônico e os graffitis, além da visibilidade de certa performance da população em situação de rua. Há que se considerar, portanto o potencial de “educação popular” da Ilha do Bananal, em uma época em que a presença do poder público nesses espaços de marginalização se fortalece por meio de ações autoritárias e de políticas intervencionistas agressivas nomeadas como “higienização”

E por fim, contribuindo para o debate sobre as relações étnico-religiosas e as origens do discurso sobre os Direitos Humanos, Karina Arroyo e Murilo Sebe Bon Meihy trazem à tona a necessidade de se romper o monopólio ocidental sobre o discurso dos Direitos Humanos. O lugar do Islam, e especificamente de um de seus grupos mais perseguidos, os muçulmanos xiitas, é analisado nesse artigo por meio de uma espécie de aproximação dos valores da citada religião com a moralidade laica e universalista atribuída de forma unilateral ao Ocidente após o século XVIII. Neste artigo, da filosofia de Kant às interpretações dos textos religiosos do Islam por seus jurisprudentes, o caminho escolhido pelos autores é o de reforçar o diálogo entre culturas como precondição para o debate sobre a aplicação geral do legado dos Direitos Humanos. Os xiitas no Brasil são os atores centrais desta reflexão, o que obriga o leitor a considerar que se há um processo de identificação do Oriente Médio como o espaço de desrespeito flagrante aos pilares dos Direitos Humanos contemporâneos, não nos esqueçamos de que as principais vítimas desse tipo de violência são os próprios muçulmanos, especialmente grupos minoritários como os xiitas, tanto no Oriente Médio, como no Brasil.

Enfim, a Revista Albuquerque oferece a todos um mapa bastante detalhado do uso político e seletivo que se dá atualmente aos princípios democráticos e ao direito em geral. O contato com esse dossiê deve ser acompanhado desse espírito crítico. Em um mundo tão pouco democrático e desumanizado como o atual, ter acesso a esses textos é mais que uma atividade intelectual. Chega a ser um direito…

Boa leitura!

Murilo Sebe Bom Meihy – Professor de História Contemporânea do Instituo de História da Universidade Federal do Rio de Janeiro. E-mail: meihy1@yahoo.com.br

Aguinaldo Rodrigues Gomes – Professor do Departamento de História e do Programa de Pós-Graduação em Educação do Campus Universitário de Rondonópolis da Universidade Federal de Mato Grosso. E-mail: aguinaldorod@gmail.com

MEIHY, Murilo Sebe Bom; GOMES, Aguinaldo Rodrigues. Apresentação. Albuquerque: revista de história, Mato Grosso do Sul, v.9, n.17, 2017. Acessar publicação original [DR]

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História Indígena: o campo interdisciplinar renovado / Albuquerque: revista de história / 2017

CASTRO, Iára Quelho de; VARGAS, Vera Lúcia Ferreira; MOURA, Noêmia dos Santos Pereira. Apresentação. Albuquerque: revista de história, Mato Grosso do Sul, v.9, n.18, 2017. Acesso apenas pelo link original [DR]

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Patrimônio, Cultura Material e Imaterial: diálogos e perspectivas / Albuquerque: revista de história / 2018

GIAVARA, Eduardo; FERREIRA FILHO, Aurelino José. Apresentação. Albuquerque: revista de história, Mato Grosso do Sul, v.10, n.19, 2018. Acesso apenas pelo link original [DR]

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América Latina em Perspectiva: Política, Subjetividade e Fricções / Albuquerque: revista de história / 2018

É com satisfação que apresentamos ao público mais um número de Albuquerque: Revista de História. Em sua vigésima edição a revista trás onze artigos produzidos por professores e pesquisadores brasileiros e argentinos, que compõem o dossiê América Latina em Perspectiva: Política, Subjetividade e Fricções, correspondente ao resultado, ainda que parcial, do projeto “Associados de Pós-Graduações Brasil-Argentina (CAFB-BA)”.

Desenvolvido entre os anos de 2014 e 2017, sob avaliação e financiamento, no Brasil, da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes) e, no caso argentino, pela Secretaria de Políticas Universitárias (SPU), o projeto “Associados de Pós-Graduações Brasil-Argentina (CAFB-BA)”, coordenado na Argentina e no Brasil, respectivamente, pelos professores Sebastián Valverde e Marco Aurélio Machado de Oliveira, buscou interligar, por meio do intercâmbio de pesquisadores desses dois países, o Programa de Pós Graduação em nível de Mestrado em Estudos de Fronteiriços (PPGMEF) da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS), Instituição de Ensino Superior (IES) na Região Centro-Oeste do Brasil, e da Escola de Pós-graduação de Antropologia e Filosofia e Letras da Universidade de Buenos Aires (FFyL-UBA), Cidade Autônoma de Buenos Aires, República Argentina.

O aprofundamento da análise desse projeto aparece no artigo que abre o dossiê América Latina em Perspectiva: Política, Subjetividade e Fricções, intitulado “Experiencias de intercambio entre Brasil y Argentina: contexto socioeconómico, cientificismo y abordajes críticos”, de autoria de Ivana Petz, pesquisadora ligada ao Consejo Nacional de investigaciones Científicas y Técnicas-CONICET / Universidad de Buenos Aires, à Facultad de Filosofía y Letras, ao Instituto de Ciencias Antropológicas e à Secretaría de Extensión Universitaria y Bienestar Estudiantil; María Cecilia Scaglia, professora do Instituto de Ciencias Antropológicas e integrante da Secretaría de Extensión Universitaria y Bienestar Estudiantil da Universidad de Buenos Aires; e Sebastián Valverde, pesquisador do Consejo Nacional de investigaciones Científicas y Técnicas-CONICET / Universidad de Buenos Aires e profesor do Instituto de Ciencias Antropológicas da Universidad Nacional de Luján, Departamento de Ciencias Sociales.

Frisando as diferenças de perfil da Universidade de Buenos Aires (UBA), historicamente mais acadêmico, e do Mestrado em Estudos Frnteiriços (MEF), de caráter profissionalizante, o artigo faz referências às experiências desenvolvidas a partir de pesquisas articuladas com transferência e / ou extensão, como as ações concretizadas no Centro de Inovação e Desenvolvimento para Ação Comunitária (CIDAC) – na zona sul da Cidade de Buenos Aires – ou por meio dos “Projetos de Desenvolvimento Tecnológico e Social (PDTS)”, em contraponto com a análise dos pontos comuns e as diferenças como o MEF-UFMS atua com as instituições que trabalham com os imigrantes na região de fronteira do estado do Mato Grosso do Sul (MS).

O dossiê prossegue com o artigo “Aportes a los estudios de frontera a partir de la valorizacion inmobiliaria reciente el caso del norte grande argentino”, no qual o geógrafo Sergio Iván Braticevic, vinculado ao Instituto Patagónico en Estudios en Humanidades y Ciencias Sociales da Universidade de Buenos Aires e pesquisador do CONICET-UNCo, apresenta os resultados de uma ampla pesquisa sobre o recente processo de alta dos preços da terra no norte argentino, impulsionado, de acordo com o autor, por fatores econômicos e institucionais, entre os quais destacam-se a expansão da fronteira agropecuária, as atividades turísticas e a especulação imobiliária.

A questão agrária na Argentina também é abordada pelas pesquisadoras do CONICET-UNCo Verónica Trpin e María Daniela Rodríguez, no artigo “Transformaciones territoriales y desigualdades en el norte de la Patagonia: extractivismo y conflictos en áreas agrarias y turísticas”. A partir de trabalho de campo realizado no norte da Patagônia, especificamente nos vales irrigados dos rios Negro e Neuquén e nas zonas de estepe e cordilheira da província de Neuquén, as autoras analisam as transformações territoriais em curso nas áreas agrárias e turísticas dessa região, observando que as dinâmicas dessas transformações se materializam na desapropriação de bens comuns como a terra e a água.

O bloco de três artigos seguintes articula o problema agrário face à questão indígena no Brasil e na Argentina.

No artigo intitulado “Capitalismo dependente empobrecimento indígena no Brasil rural”, o professor e pesquisador da Universidade de Brasília Cristhian Teófilo da Silva parte da premissa de que estudos sobre as formas de desigualdade e pobreza que afetam os povos indígenas contemporâneos devem estar fundamentados em uma perspectiva macro-histórica e micro-sociológica, a fim de que se possa construir uma definição de “pobreza indígena” sensível a sua diversidade e complexidade de manifestações. O autor apóia-se em contribuições etnográficas e denúncias de violação dos direitos humanos dos povos indígenas nas regiões da fronteira Sul do Brasil, bem como na conciliação dos debates sobre o capitalismo dependente e os processos socioeconômicos de integração dos povos indígenas a sistemas coloniais e capitalistas específicos, para demonstrar que tais processos não se desenrolaram de modo idêntico em cada lugar e tampouco de forma inalterada ao longo do tempo.

Em “Despojos de las poblaciones mapuches por parte del Estado Argentino. La frontera bonaerense y el caso de la comunidad mapuche Calfu Lafken de Carhué”, a pesquisadora Sofia Varisco investiga os processos de desapropriação territorial sofridos pelas comunidades indígenas mapuches através das diversas campanhas militares no norte da Patagônia, as quais produziram migrações forçadas e deslocamento de famílias para diferentes regiões do país. Focando sua análise na comunidade Mapuche Calfu Lafken da localidade turística de Carhué, situada no sudoeste da Província de Buenos Aires, a autora destaca de que forma o constante avanço do Estado sobre essa região, definida por alguns analistas argentinos como a “última fronteira bonaerense”, privou a população nativa de seus territórios, o que não só dificultou a comprovação da ocupação ancestral como, em muitos aspectos, tornou invisível a presença de indígenas na referida região.

A problemática da terra articulada à questão indígena na Argentina é retomada no artigo intitulado “Configuraciones espaciales a partir de la intervención estatal en territorios indigenas de Chaco” , no qual Malena Inés Castilla analisa o papel das políticas desenvolvidas pelos organismos governamentais na Província argentina do Chaco, as quais implementam e constroem fronteiras que determinam de forma prejudicial as comunidades étnicas locais. Para tanto, a autora concentra-se em explicar o contexto em que a expansão da fronteira agrária do Chaco foi consolidada durante a década de 1990, e como as ações posteriores das organizações governamentais impactaram as transformações socioeconômicas, territoriais e culturais naquela região.

Sasha Camila Cherñavsky, da Faculdade de Sociologia da Universidade de Buenos Aires, traz sua contribuição ao dossiê América Latina em Perspectiva: Política, Subjetividade e Fricções com uma reflexão sobre a Educação Intercultural Bilíngue (EIB). Partindo do pressuposto de que a Educação Intercultural Bilíngue pode ser localizada no marco do paradigma epistemológico do “Sul” apoiado numa prática descolonizadora, no artigo “La Educación Intercultural Bilingue como aporte a un pensamiento heterárquico” a autora destaca a EIB como uma modalidade educativa, que parte de uma lógica oposta àquela aplicada pela matriz colonial moderna, de caráter cada vez mais discriminador e desigual. Enquanto modalidade educativa marginalizada pela educação tradicional, a Educação Intercultural Bilíngue tem sua gênese, como observa Sasha Cherñavsky a partir de pesquisa realizada com a comunidade Lma Iacia Qom radicada em San Pedro (Província de Missiones), nas demandas e ações levadas a cabo pelos próprios indígenas, com o objetivo de difundir sua cultura ancestral, de buscar o apoio às demandas territoriais, à luta contra a discriminação e à violação de outros direitos, em busca de uma sociedade inter e multicultural.

A questão urbana tem lugar, no presente dossiê, no artigo “Lugares de ciudadanía, experiencias de ciudadanización: investigaciones etnográficas en relación con el derecho a la vivienda en la Ciudad de Buenos Aires”, escrito por Maria Florencia Girola e Maria Belén Garibotti, ambas pesquisadoras vinculadas ao CONICET e à Faculdade de Filosofia e Letras da Universidade de Buenos Aires. Nesse artigo as autoras analisam diferentes experiências de “cidadanização” registradas em duas áreas urbano-habitacionais da cidade de Buenos Aires, que se distinguem, entre outros aspectos, por seus contextos históricos de origem e por suas tipologias de construção e modalidades de povoamento: o Conjunto Urbano Soldati, um mega-conjunto residencial localizado no bairro de Vila Soldati proveniente de um processo de produção estatal de habitação social, e o Assentamento La Carbonilla, situado no bairro portenho de La Paternal, resultante de um processo popular de produção social do habitat. Recorrendo a um trabalho de sistematização de fontes e a uma pesquisa de campo de caráter etnográfico, construida em torno de atividades de observação / participação e entrevistas com moradores dos dois espaços urbanos-habitacionais citados, Maria Florencia Girola e Maria Belén Garibotti se dispõem, através do estudo das práticas e experiências ‘nativas’, de materialidades e significados concretos envolvendo sujeitos localizados, a avançar na análise comparativa de processos de conformação de cidadanias, ligados à aquisição do direito à moradia.

Em “Los caminos de la institucionalización de la economía popular en contextos neoliberales: aportes en clave de procesos hegemônicos”, Guadalupe Hindi e Matias Larsen, ambos da Faculdade de Filosofia e Letras da Universidade de Buenos Aires, discutem a problemática da economia popular na Argentina como um processo de institucionalização, que se insere em um processo hegemônico neoliberal. Para tanto os autores dividem o texto em dois momentos tratando, primeiramente, dos eventos que se referem ao processo de institucionalização da economia popular, em particular o que diz respeito à sanção e regulamentação da Lei de Emergência Social e dos debates gerados em torno dela para, a partir daí, revisar as formas pelas quais se dá a renovação de um determinado debate em termos da “autonomia” das demandas populares em sua conexão com o Estado. Em contraposição a isso, os autores procuram revisar os eventos posteriores à regulamentação da Lei, com o objetivo de propor marcos de entendimento que localizem no centro da análise menos o consenso do que os sentidos que estão implicados, tanto nas ações do Estado como dos sujeitos organizados.

Os dois artigos finais foram produzidos por professores e pesquisadores brasileiros vinculados a três instituições públicas de ensino superior de Mato Grosso do Sul (UFMS. UFGD e UEMS), todos eles direta ou indiretamente ligados ao Programa de Mestrado em Estudos Fronteiriços, sediado no campus de Corumbá da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul. Neles a questão da migração na América Latina e os impactos ambientais na fronteira brasileira estão no centro das discussões.

Em “América Latina racionalizada na nova Lei de Migração (Lei nº 13.455 / 17: discursos e legitimidade”, Marco Aurélio Machado de Oliveira, Fábio Machado da Silva e Davi Lopes Campos trazem algumas reflexões relacionadas à imigração na América Latina, nos aspectos envolvendo os discursos e a legitimidade. Partindo da premissa de que é possível pensar a questão migratória nesse espaço dentro de um relacionamento legítimo e discursivo, os autores procuram apresentar algumas discussões teóricas sobre como são desenvolvidos os diálogos discursivos entre os atingidos pela nova lei de migração (lei nº 13.445 / 17), conferindo ou não legitimidade aos atores envolvidos. Dessa forma objetivam analisar criticamente o aspecto prático no discurso dos operadores do direito referente à migração, propondo um debate de como o direito pode limitar ou ampliar a questão social, histórica e cultural da migração na atualidade.

O dossiê América Latina em Perspectiva: Política, Subjetividade e Fricções é encerrado com o artigo intitulado “Os impactos ambientais da IIRSA-COSIPLAN no Arco Central da fronteira brasileira”, escrito por Camilo Pereira Carneiro, Felipe Pereira Matoso e Katucy Santos. Destacando que o processo de integração sul-americano, que teve início no final do século XX, possibilitou a emergência de iniciativas de aproximação entre os países do subcontinente, com destaque para o MERCOSUL, a UNASUL e a IIRSA-COSIPLAN, os autores propõem uma análise, a partir das Relações Internacionais, dos impactos socioambientais da IIRSA-COSIPLAN no Arco Central da fronteira brasileira. A análise dessa iniciativa em particular justifica-se, segundo os autores, em razão da mesma ter gerado um importante impacto, materializado de modo especial em zonas de fronteira, ainda que os projetos de infraestrutura implementados se caracterizem pela falta de participação das comunidades locais, e a inobservância dos aspectos socioambientais quando da execução das obras tenha efeitos negativos nas esferas ambiental, social, econômica e cultural.

Com a publicação do dossiê América Latina em Perspectiva: Política, Subjetividade e Fricções Albuquerque: Revista de História cumpre mais uma vez sua proposta de divulgar os trabalhos de pesquisadores nacionais e estrangeiros, estabelecendo com os mesmos um diálogo de caráter inter e transdiscipinar.

Aquidauana, verão de 2019.

Sebastián Valverde

Marco Aurélio Machado de Oliveira

Carlos Martins Junior

VALVERDE, Sebastián; OLIVEIRA, Marco Aurélio Machado de; MARTINS JUNIOR, Carlos. Apresentação. Albuquerque: revista de história, Mato Grosso do Sul, v.10, n.20, 2018. Acessar publicação original [DR]

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Experiências Estéticas Contemporâneas / Albuquerque: revista de história / 2019

A revelação da experiência estética não precisa de uma formulação utópica, porque as obras de arte alcançadas não prometem a satisfação de um requisito absoluto de significado, mas nosso enriquecimento cognitivo em um sentido amplo. Trata-se de experimentar esteticamente o presente precário de nossa liberdade finita, não seu futuro ilusório. Quem quer liberdade também deve querer as decepções da experiência. Portanto, o conhecimento estético não substitui o pensamento conceitual fracassado. As virtualidades da experiência estética são as de uma crítica à experiência curta, omitida, escassa, reprimida.

– Daniel Innerarity

O dossiê Experiências Estéticas Contemporâneas tem como propositura debater acerca das dimensões estéticas entre o século XIX e o século XX, especialmente a partir das expressões produzidas pelas linguagens artísticas (literatura, cinema e música) e suas respectivas performances.

Consideramos a estética como uma modalidade cognitiva legítima capaz de acessar a realidade a partir de verbos criativos como o sentir, querer e pensar, o que caracterizaria o processo compreensivo da realidade proposto por Dilthey em Vida Y Poesia (1945). A estética, como remonta Susan Buck-Morss (2012, p. 157), em sua etimologia carrega consigo a dimensão corpórea, sinestésica – trata-se da percepção pela via sensorial – não restrita somente a arte, beleza e verdade, como os modernos quiseram, mas na captação da realidade em sua natureza material e corpórea, enquanto uma forma de cognição da vida.

Assim, nesse dossiê, nós organizadores, quisemos angariar textos que trouxessem à tona o potencial político de captação compreensiva da experiência social e política da cultura, a partir de aspectos caros a estética como profundidade, aparência, forma, conteúdo e, sobretudo, as mediações elaboradas pelos efeitos teóricos e práticos da relação entre arte, cultura e sociedade. Especialmente em um contexto em que a arte e a cultura tem sido alvo de ataques políticos e a estética é apropriada pela política, o que tem proporcionado, para setores conservadores, um efeito de satisfação artística no campo político e, por conseguinte, fazendo com que a arte busque empreender a politização de suas performances para enfrentar esses efeitos autoritários.

Esse “cogito” foi bem localizado por Walter Benjamin, no século XX, acerca dessas inserções da estética entre as práticas políticas do fascismo e os anseios do comunismo diante da obra de arte e sua reprodutibilidade técnica. Talvez, a esperança de Benjamin, em tal constatação, estivesse na relação ética entre arte e política, o que configura uma tarefa árdua para a estética na contemporaneidade que, segundo Buck-Morss, consiste em

desfazer a alienação do sensório corporal, restaurar a força instintiva dos sentidos corporais humanos em prol da autopreservação da humanidade, e fazê-lo não evitando as novas tecnologias, mas perpassando-as. (BUCK-MORSS, 2012, p. 156).

Dessa feita, o nosso desejo se faz quase apologético acerca da estética, no sentido de que devemos pensar esteticamente e, sobretudo, investigar as produções culturais enquanto calcadas e atravessadas pela realidade, não como “elucubrações supralunares”. No que se refere a dimensão estética da arte, concordamos com os pressupostos de Jauss e a estética da recepção, apontados por Daniel Innerarity, em que a “estética acentua de maneira particular a historicidade e o caráter público da arte, ao situar em sua centralidade o sujeito que percebe e o contexto em que elas são recebidas” (INNERARITY, 2002, p. 09). Interessa-nos aqui os processos históricos de significação, de atribuição de sentido e, como a estética trata do ordenamento cognitivo das possibilidades de estranhamento das formas de perceber a vida, bem como “daquelas que já foram vivas em alguma vez, ordenando-as de novo” (LUCKÁCS apud MACHADO, 2004, p. 12). Trata-se de pensar a forma (a vida dotada de sentido ético e estético), enquanto “absoluto em relação à caótica vida cotidiana” (MACHADO, 2004, p. 19).

As experiências estéticas são um campo aberto de experimentações de liberdade e fracassos capazes de, historicamente, renovarem e produzirem diversos sentidos às nossas formas de perceber a realidade em suas múltiplas interfaces. Nesse sentido, como aponta Daniel Innerarity, na introdução de Pequena apologia de la experiência estética, de Jauss:

A obra de arte alcançada oferece, aqui e agora, possibilidades de um encontro libertador com a própria experiência. Essa experiência reflexiva transgride as convenções da ação cotidiana, mas não para negar, em princípio, seu escopo e suas limitações, mas medir-se de forma modificável com as possibilidades e limites dessa prática. (INNERARITY, 2002, p. 24)

Diante desse propósito de pensar as experiências estéticas enquanto possibilidades abertas de atribuição e transformação de sentido ao longo do tempo, o presente dossiê é formado por seis artigos de pesquisadores que, de alguma maneira, lidam com objetos estéticos em sua dimensão histórica. O primeiro bloco se destina a experimentar análises acerca da relação entre estética e literatura, lidando com proposições estéticas em obras de Paul Celan, Charles Baudelaire, Francisco Candido Xavier e Nelson Rodrigues. O segundo bloco se incumbe de investigar as relações estéticas entre a crítica, história e cinema. O terceiro bloco se encarrega de pensar a estética musical.

Em A Neve das Palavras, texto que abre o dossiê e seu respectivo primeiro bloco, Maria João Cantinho trata da vida do poeta, romeno radicado na França, Paul Celan e, por conseguinte, analisa como os protocolos e referenciais de leitura dele desenvolveram uma “simultaneidade” estética entre política e literatura que, de certa forma, reverberaram em sua poesia. Para Celan, o poema, em sua dimensão estética encarnada na linguagem, é a forma em que as possibilidades “são um caminho: encaminham-se para um destino para um lugar aberto, para um tu intocável” (CELAN, 1996, p. 34). Nessa esteira da poesia, Marcos Antonio de Menezes, em Dandy: Uma criação das Metrópoles novecentistas, se acerca de compreender como se constrói a figura do Dândi, como aquele que desnuda e experimenta a vida parisiense em seus ápices de modernidade, no século XIX, sob as letras da escrita de Charles Baudelaire.

Ainda sobre os aspectos da literatura, mas sob a égide dos processos de recepção e circulação, Ana Lorym Soares, em Circulação E Recepção Da Literatura Psicografada A Partir Da Coleção A Vida No Mundo Espiritual (1944-1968), De Chico Xavier, mapeia e interpreta dentro de uma comunidade específica de leitores qual o percurso de significação que os romances psicografados por Chico Xavier e editados pela Federação Espírita Brasileira (FEB), na coleção A vida no mundo espiritual (1944-1968), percorreram historicamente. Isso, a partir das nuances do romance, história e ficção diante de determinado público leitor.

Em O Verdadeiro Casamento Rodriguiano: Apontamentos Sobre Amor E Desejo No Romance O Casamento (1966) De Nelson Rodrigues, Lays da Cruz Capelozi empreende notas analíticas sobre o único romance escrito por Rodrigues, a fim de abordar temas como amor e desejo, a partir da inferência da moral religiosa cristã quanto ao funcionamento do matrimônio. O livro analisado pela autora foi lançado em 1966, e figurava para Nelson Rodrigues como uma defesa ao casamento, mas para os censores tratou-se de uma crítica à família burguesa. Assim, percebe-se que os processos de significações que extrapolam o desejo do autor ao longo do tempo.

O segundo bloco se restringe ao artigo O Clássico E O Moderno: Eisenstein E Orson Welles Na Pena De Paulo Emílio Sales Gomes, de Rafael Morato Zanatto, que trata como as categorias de clássico e moderno são empreendidas pelo crítico e historiador Paulo Emílio Sales Gomes acerca do fenômeno cinematográfico, especialmente a partir de sua profícua atenção às produções estéticas do cineasta russo Serguei Eisenstein e do estadunidense Orson Welles. Nesse ensejo, Zanatto aponta que Paulo Emílio forjou um método próprio, capaz de condensar no âmbito da crítica e da história um procedimento que concilia o estudo da linguagem, do estilo e da expressão social das produções cinematográficas.

O último bloco conta com o texto que encerra o dossiê, Drogas, Festivais E Rock Na Imprensa Brasileira E Portuguesa – 1970 / 1975, de Paulo Gustavo da Encarnação. O autor articula música, eventos musicais – os festivais – e as drogas para compreender como esses elementos se tornaram um fenômeno de escala mundial e, conseguintemente, atraíram a atenção das imprensas brasileira e portuguesa. Dessa maneira, analisa como os veículos de imprensa abordaram, em suas respectivas páginas, a relação entre drogas, festivais e rock no período compreendido entre 1970 a 1975. Não obstante, apresenta a dimensão social, cultural e política dos festivais roqueiros em tempos de ditaduras, tanto em terras brasileiras quanto portuguesas.

Com a publicação do dossiê Experiências Estéticas Contemporâneas, a albuquerque: revista de história cumpre, mais uma vez, a sua proposta de divulgar os trabalhos de pesquisadores nacionais e estrangeiros, estabelecendo com os mesmos um diálogo de caráter interdisciplinar que configura o propósito do Programa de Pós-graduação em Estudos Culturais da UFMS / CPAq que, inclusive, propõe em suas linhas de pesquisa reflexões sobre a estética acerca dos marcadores da diferença, identidade, etc.

Aquidauana, dezembro de 2019

Referências

BUCK-MORSS, Susan. Estética e anestética: uma reconsideração de A obra de arte de Walter Benjamin. In: BENJAMIN, Walter; SCHÖTTKER, Detlev; BUCK-MORSS, Susan. Benjamin e a obra de arte: técnica, imagem, percepção. Rio de Janeiro: Contraponto, 2012.

CELAN, Paul. Arte poética: O Meridiano e outros textos. Lisboa: Cotovia, 1996.

DILTHEY, Wilhelm. Vida y poesia. México: Fundo de Cultura Econômica, 1945.

INNERARITY, Daniel. Introdución. In: JAUSS, Hans Robert. Pequeña apología de la experiencia estética. Barcelona: Ediciones Paidós, 2002.

MACHADO, Carlos Eduardo Jordão. As formas e a vida: Estética e ética no jovem Luckács (1910- 1918). São Paulo: Editora UNESP, 2004.

Marcos Antonio de Menezes (UFJ)

Rafael Morato Zanatto (Doutor pela Unesp-Assis)

Robson Pereira da Silva (Doutorando em História pelo PPGHI / UFU)

Organizadores

MENEZES, Marcos Antonio de; ZANATTO, Rafael Morato; SILVA, Robson Pereira da. Apresentação. Albuquerque: revista de história, Mato Grosso do Sul, v.11, n.21, 2019. Acessar publicação original [DR]

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História e Ensino. A Produção de Conhecimento / Antíteses / 2009

Tudo o tempo leva.

A própria vida não dura.

Com sabedoria

colhe a alegria de agora

para a saudade futura.

Helena Kolody

Na década de 80 do século XX, pode-se dizer que ocorreu uma ruptura no debate filosófico do ensino de história. Tal ruptura deveu-se ao fato de alçar como sujeitos o professor e o estudante no fazer escolar. Estava posto, nesse contexto, o debate sobre o conhecimento histórico produzido em todos os níveis escolares, e o alicerce para o entendimento de que na escola básica e média seria produzido saber na nossa disciplina. A questão polêmica constitui campo de reflexão sobre o conhecimento em geral e específico.

Entende-se aqui por saber histórico, apesar da polêmica ainda contemporânea daí advinda, o conhecimento produzido na reflexão educacional onde professores e alunos dialogam diversamente com as tradições e fontes históricas disponíveis. O fortalecimento do debate acerca das relações entre História e Ensino amplia este campo de investigação traduzido no expressivo resultado de pesquisas apresentadas nos grandes encontros da área (Encontro Nacional de Pesquisadores de Ensino de História e Encontro Nacional Perspectivas do Ensino de História), bem como, nos simpósios regionais e nacionais de História (ANPUH).

Tal adensamento reflete-se na abertura dos debates acerca dos novos suportes, fontes e abordagens para o ensino de história, incluindo outras formas de constituição de consciência histórica, fora do ambiente escolar, e as relações que são travadas entre estes meios e a sociedade (BARCA, LEE, DICKINSON, ASHBY).

Saberes docentes, formação de professores, formação de consciência histórica pelos jovens, metodologias de ensino e pesquisa a partir do espaço da sala de aula, currículos e práticas pedagógicas em todos os níveis, e políticas públicas e ensino de história, além de outros, são exemplos de linhas investigativas em curso que a cada dia mais ocupam espaço nos programas de pós graduação, em obras e periódicos científicos da área.

Este debate está inserido de forma exemplar em sua historicidade, especialmente, na transição política brasileira e é reflexo das novas teorias e abordagens da historiografia. As concepções historiográficas contemporâneas – que articulam reflexão sobre a cultura, a política, a economia e o social– serão também as matrizes norteadoras das grandes guinadas e da ampliação das discussões acerca do ensino de história.

Nas reflexões sobre o ensino de história deságuam as contradições, proximidades e equacionamentos da historiografia contemporânea, sendo, portanto, o debate teórico-metodológico objeto privilegiado de investigação.

Reflexões sobre o lugar da História da Educação, assim como o reconhecimento, na produção historiográfica brasileira e nas atividades dos historiadores por todo o país, da necessidade de constituição de um espaço próprio para as questões relacionadas ao ensino de História constituíram parte das justificativas para a inclusão de História e Ensino como linha de pesquisa no Programa de Pós- Graduação em História Social da Universidade Estadual de Londrina. Deve-se acrescentar que, além dessa demanda por uma reflexão embasada por questões teóricas e metodológicas próprias à área, é possível amalgamar às reflexões sobre o Ensino de História, a História das instituições e políticas públicas educacionais. Este debate coloca em evidência a necessidade de constituição de um campo de investigação historiográfica, não somente do ensino de História no ambiente escolar, mas também as relações entre essa cultura escolar e outros meios que as sociedades dispõem para elaboração e reelaboração do passado.

De tal forma que, para alguns autores, não se pode separar, atualmente, o debate sobre o ensino de História do contexto no qual este é produzido. Ou seja, das relações de poder e saber, em especial das relações entre universidades, indústria cultural e ensino fundamental e médio (FONSECA, 2003).

Nas últimas décadas do século XX, além do Estado e do mercado editorial, a mídia também se fez presente na discussão sobre o que ensinar aos jovens. Assim, como salienta a autora mencionada, discutir o ensino de História hoje, significa pensar outros espaços e formas de se educar cidadãos, principalmente numa sociedade marcada pelas diferenças e desigualdades. Uma sociedade que vive um tempo de mudanças e incertezas, de relativismos e neoliberalismos, no qual a mudança tomou um valor enquanto tal, isto é, o homem de hoje carrega em si próprio a ruptura como um desejo.

Nesta perspectiva, uma questão que se coloca é o que ensinar e preservar em relação ao passado numa sociedade que faz uma apologia à mudança? (FONSECA; FORQUIN). Tentativas como as realizadas pelos Parâmetros Curriculares Nacionais (PCNs), no Brasil, pretenderam dar uma resposta para essa questão: o que da nossa cultura, da nossa memória seria mais adequado transmitir às novas gerações. Entretanto, não se deve esquecer que o currículo é uma “invenção da tradição” como bem indica (GOODSON). Ou seja, é um discurso que atende interesses e, portanto, age no pensamento dos professores, na burocracia escolar e na indústria cultural.

Todavia, também deve-se levar em conta que o currículo formal é apenas um aspecto que opera e faz uma seleção cultural, igualmente o currículo real que é feito a partir da cultura escolar e da vida cotidiana dos alunos são dimensões que se tem que tomar como parâmetros (FONSECA; PERRENOUD; FORQUIN). Refletir sobre tais questões, inclusive sobre a nova LDB e os PCNs, nos remetem a reexaminar qual é a função e o papel da escola com relação aos saberes históricos nela transmitidos.

Diferentemente das décadas de 1970 e 1980, quando a escola era vista como um aparelho de reprodução dos valores e idéias da “classe dominante” e a História como um veículo de reprodução da memória do vencedor, nas décadas seguintes, ela é repensada como um lugar social que deve ser analisado de diferentes formas (APPLE). Não se trata apenas de um “reflexo” do funcionamento da sociedade, mas um local de conflitos de classes e de formas culturais outras, bem como um lugar de produção do conhecimento (FONSECA).

Segundo André Chervel, é inconcebível como não se percebeu durante tanto tempo o poder criativo que a escola detém e desempenha, pois ela forma não apenas os indivíduos, mas também uma cultura que pode penetrar, moldar e modificar a cultura da sociedade global. (CHERVEL). Isso não significa que a escola deve ser vista como “um império dentro do império”, mas é necessário reconhecer a sua autonomia relativa em relação às outras dinâmicas que coexistem no campo social. (FONSECA; FORQUIN; SACRISTÁN). Dessa forma, a escola pode ser vista como dotada de uma dinâmica própria, possuidora de saberes, hábitos, valores, modos de pensar, estratégias de dominação e resistências, critérios de seleção que fazem parte daquilo que se chama “cultura escolar”.

Nesse contexto, o professor de História pode fazer emergir o plural (a memória e projetos de diferenciados sujeitos sociais) ou pode perpetuar uma memória dominante. Talvez a reposta mais comum encontrada nos últimos anos para esse dilema, tanto no ensino público quanto no privado, seja a concepção do ensino temático e multicultural, como pode ser constatado nos textos dos PCNs, por exemplo. Para Selva Fonseca, essa constatação nos remete a repensar pelo menos três aspectos. Primeiro, não basta introduzir novos temas nos currículos multiculturais, se na prática, nas relações cotidianas se promove a exclusão através de brincadeiras, jogos ou formas de avaliação. Segundo, devese reconhecer que o professor não opera no vazio. Existem outros espaços educativos atuando nas concepções dos alunos como, por exemplo, a televisão, os quadrinhos ou os acontecimentos cotidianos. E terceiro, a perspectiva do ensino temático e multicultural deve vir acompanhada de uma mudança na formação dos professores: postura crítica e reflexiva, cultivo à tolerância e respeito à diversidade e às diferenças.

Podemos dizer igualmente que, na atualidade, parte das pesquisas se volta para a compreensão da lógica da História, nomeadamente no que diz respeito ao pensamento dos alunos, em especial nos trabalhos de ingleses e portugueses (LEE; BARCA) assumiu um objetivo central procurando encontrar os vários componentes dessa lógica através da produção filosófica da História, da Psicologia, em especial das teorias construtivistas do conhecimento, focalizando o seu labor investigativo no pensamento histórico dos alunos através de uma sólida fundamentação empírica, centrada, sobretudo em idéias chave como as de mudança, desenvolvimento, causa, efeito, entre outros.

Por outro lado, autores como Rüsen, entre outros, afirmam a existência de um domínio específico do conhecimento que denominam de Didática da História, nas interfaces da investigação entre a própria epistemologia da História, tomada como referência para a construção de categorias e metodologias de análise, e seu diálogo com as outras ciências, situado naquilo que Prats denomina de encruzilhada de diversas ciências humanas, as que se ocupam tradicionalmente da aprendizagem e as que constituem a base do conhecimento que se pretende ensinar.

Entre as mudanças paradigmáticas que ocorreram no campo da história e do ensino de história a partir da década de 1980, que ampliaram as perspectivas de pesquisa, estão as propostas de investigar os processos de constituição da consciência histórica, aqui tendo como referencia epistemológica as investigações de Rüsen e Laville sobre a constituição de um pensamento sobre a história e um pensar histórico necessários para a vida prática dos seres humanos, que se levanta como um dos grandes debates atuais das investigações no campo do ensino de história.

As idéias anteriormente apresentadas constituíram o alicerce e os pilares das reflexões que foram construídas pelos membros da Área de Ensino de História do Departamento de História da UEL para a proposição da Linha de Pesquisa denominada “História e Ensino” do seu Programa de Pós-graduação em História Social, que entre outras iniciativas promoveu a edição de uma revista, Antíteses, que apresenta seu primeiro número sobre as temáticas relacionadas a esta área de conhecimento.

O título “História e Ensino. A Produção de Conhecimento” deste dossiê teve a intenção de abarcar e sublinhar os marcos do debate sobre a já superada, no sentido de não restar dúvida, discussão sobre a possibilidade de produção de conhecimento –hoje conhecido como conhecimento histórico escolar– que se constrói no fazer dos professores e estudantes no âmbito do ensino fundamental e médio, mas também, a produção das reflexões sobre ensino, instituições e políticas públicas, no meio acadêmico.

Para fazer jus a tal proposição, nosso autor convidado, Marcos Silva, que nos oferece uma contundente reflexão sobre o historiador e seu tempo, representa aqui uma geração de historiadores que ousaram trazer à baila o debate sobre o ensino de história nos moldes em que se deu a partir da década de oitenta do século XX. O historiador organizou a obra “Repensando a História” que concentrou naquele momento as principais referências do debate que depois muito se ampliou. Mesmo com os limites que são peculiares a uma publicação como a que aqui apresentamos, podemos visualizar, a partir dela, a grandiosidade do alcance e da perspectiva de tal ampliação.

Por último, especialmente, pela importância do ato, a primeira publicação da Linha de Pesquisa de História e Ensino deste Programa, que traz a notícia de suas primeiras dissertações defendidas na área, deve ser oferecida à memória da Professora Mariana Josefa de Carvalho Almeida, nossa pioneira e precursora na longa e trabalhosa trajetória que construiu a possibilidade de hoje nos constituirmos uma das linhas de pesquisa que contribuem para sua edificação. Para lembrar e homenagear a doçura e sabedoria que representava a prazerosa convivência com nossa queridíssima colega Mariana encontramos na obra “Sinfonia da Vida”, da grande poetisa paranaense Helena Kolody, um poema intitulado “Sabedoria” (1993) o epígrafe que expressa de maneira ímpar a felicidade e tesouro que significou para nós o convívio com o jeito de ser dessa pessoa maravilhosa.

Cristiano Biazzo Simon –  Coodenador do Dossiê.

Londrina, junho de 2009

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História e Defesa / Antíteses / 2009

Editorial

É com grande prazer que anunciamos o lançamento de um novo número de Antíteses, demonstração de que o trabalho tem sido fecundo. Na breve história da nossa revista avançamos a passos largos, fruto do empenho e da confiança que o corpo editorial, os autores e os avaliadores depositam nesta ferramenta de divulgação e contato da comunidade acadêmica, que já deixou de ser apenas da Universidade Estadual de Londrina para abranger uma ampla rede, que vem se expandindo e consolidando rapidamente.

Como parte da estratégia de qualificação e diversificação regional, dentro e fora do Brasil, incorporamos nos Conselhos a mais colegas latino-americanos de renome, como Ana Frega, da Universidad de la República, do Uruguai; Maria Luisa Soux Muñoz Reyes, da Universidad Mayor de San Andrés, da Bolívia e Rita Ana Giacalone, da Universidad Central de Venezuela; assim como destacados especialistas brasileiros das regiões Norte e Nordeste, como Almir de Carvalho Bueno, da Universidade Federal do Rio Grande do Norte; Dilton Candido Souza Maynard, da Universidade Federal de Sergipe e Temis Gomes Parente, da Universidade Federal do Tocantins, que seguramente nos ajudarão na empreitada com o mesmo afinco dos que já vêm participando.

Nesse sentido, informamos que Gabriela Dalla Corte Caballero, da Universitát de Barcelona, Espanha, coordenará o dossiê “Diálogos Europa América. Passado e Presente”, correspondente ao volume 4, número 7, de janeiro-junho de 2011, com o qual pretendemos dar outro importante impulso na direção que nos permita estreitar laços com acadêmicos dos Velho e Novo continentes.

Como manifestamos, o ano que fechamos foi intenso também em resultados. A nossa alegria de informar no mês de fevereiro passado o ingresso da revista no Latindex se multiplicou, pois, além dos indexadores já elencados em números passados, fomos incorporados ainda em: BASE, EZB, HeBISVerbundkatalog e vLib, da MPG, da Alemanha; Citation Linker, do consórcio entre o MPG e o SFX, da Alemanha e da Inglaterra, respectivamente; OAKList, da Austrália; VUB, da Bélgica; PIRATE, do Canadá; Current Abstracts, EBSCO A-to-Z, Fonte Acadêmica e TOC Premier, os quatro do EBSCO Host, Ejournals.org, Google Scholar, Journal Finder, JournalSeek, New Jour, WorldCat, do OCLC, Refbase, ResearchGATE e Researching Brazil Bibliographic Index, dos Estados Unidos; SPARC Europe, da Europa; HKU Libraries, de Hong Kong; MetaLib e SFX, os dois do Ex Libris, da Inglaterra; TULIPS-Linker, do Japão; CLASE e Maestroteca, do México; BIBSYS, da Noruega; e DOAJ, da Suécia. Encontram-se também avançados os processos de indexação no Scopus, da Holanda, e RedALyC, do México.

Várias destas incorporações nos auxiliaram na obtenção de ferramentas de preservação digital e de direitos autorais, assim como permitiram a presença da revista nos catálogos digitais (Online Public Access Catalog: OPAC) de bibliotecas do mundo todo. Assim, com o ingresso no DOAJ, Antíteses passou a ser preservada digitalmente pela Koninklijke Bibliotheek, Biblioteca Nacional da Holanda, e suas colaborações registradas e protegidas autoralmente pela Scientific Commons; já com a admissão no Portal do CLACSO será incorporada numa coleção especial do RedALyC, cujo ingresso já estava sendo providenciado independentemente com pareceres favoráveis, e as colaborações também estarão protegidas autoralmente pela Creative Commons; e a Universidade Estadual de Londrina deu parecer favorável para a filiação à CrossRef, com o objetivo de colocar o Digital Object Identifier (DOI) nas colaborações, com o que poderemos obter indicadores bibliométricos mais acurados.

Passando ao conteúdo desse número, o dossiê “História e Defesa”, alusivo ao III Encontro Nacional da Associação Brasileira de Estudos da Defesa, que se realizou no mês de julho deste ano na UEL, é aberto por Celso Castro, como coordenador e autor convidado, brindando-nos com um estudo sobre o trote no Colégio Naval, ritual de passagem usual também em outras instituições de vários países; na seqüência José Otávio Aguiar discorre acerca de literatura Wushia, Budismo, marcialidade e ascese, abordagem pouco usual por estas latitudes; Cristina Souza da Rosa escreve sobre a educação militar na Itália de Mussolini; Helder Gordim da Silveira analisa a visão militar brasileira da Guerra do Chaco, em especial sua projeção geopolítica e a rivalidade internacional na América do Sul; Gabriel Carrizo disserta sobre a Patagonia argentina no período de entreguerras, particularmente sobre as origens da Zona Militar de Comodoro Rivadavia; Hernán Comastri escreve sobre os limites e potencialidades da transferência científico-tecnológica, impulsionada por cientistas alemães na Argentina peronista; Nilo Dias Oliveira analisa as atividades do Serviço Secreto do DOPS, de São Paulo, objetivando vigiar as Forças Armadas; Maria Valeria Galvan discorre sobre os discursos dos órgãos de inteligência argentinos a respeito de um movimento de direita, o Tacuara, ocorrido durante a Guerra Fria; Mariana Joffily analisa as estratégias de defesa nos interrogatórios políticos da Oban e do DOI-CODI; Ananda Simões Fernandes e Marina Franco escrevem acerca da Doutrina de Segurança Nacional, na Escola Superior de Guerra do Brasil e na política estatal na Argentina, respectivamente; Ramiro José dos Reis analisa a metodologia de Terror de Estado no seqüestro e cárcere de dois militantes uruguaios; Andrea Rodriguez observa o cotidiano da guerra nas experiências dos integrantes do Apostadero Naval Malvinas no conflito do Atlântico Sul; e, fechando o dossiê, Claudia Marques Amaral escreve sobre um tema universal, embora centrado nos jovens portugueses, a mobilização de conhecimento histórico escolar na resolução de situações de conflito.

Destes, os trabalhos de Marina Franco e Mariana Joffily foram selecionados a tradução para o inglês, após uma difícil escolha que levou em consideração seus méritos acadêmicos e relevância temática. O principal intuito dessa iniciativa é o de internacionalizar a revista, oferecendo à comunidade de fala anglo-saxã a oportunidade de aproximação às problemáticas candentes nas historiografias argentina e brasileira, que têm se tomado freqüentes nas páginas de Antíteses.

Seguidamente, na seção de artigos, Macarena Perusset nos fala da tensão entre a regulamentação jurídica e os usos e costumes no Paraguai colonial; Paula Caldo junto a Sandra Fernández sobre os usos do epistolário no estudo da sociabilidade; Amelia Beatriz Garcia acerca das Malvinas e da Antártida nos textos escolares para a “Nueva Argentina” de Perón; e, finalmente, Alejandra Reta sobre o Frente Estudiantil Nacional no processo contestatário dos anos sessenta na Argentina.

Continuando com o intuito de revelar trabalhos promissores na seção Primeiros Passos, Odilon Caldeira Neto nos apresenta um artigo no qual reflete sobre um tema sempre candente, como o da memória e da justiça no caso do negacionismo. Nas resenhas, Thiago Rodrigo da Silva nos reapresenta o clássico de Fernando Oliveira, A Arte da Guerra do Mar, e José Miguel Arias Neto a coletânea organizada por Celso Castro e Piero Leiner intitulada Antropologia dos militares – Reflexões sobre pesquisas de campo.

Fechando o número, nossos ex alunos, já mestres, Andre Camargo Lopes, Milton Genésio de Brito, Vandergleison Judar, Juliana Dela Torres e Márcia Raquel Branco de Almeida nos brindam os resumos das suas dissertações, defendidas durante este semestre, em nosso Programa de Pós-graduação em História Social.

Por último, agradecemos a todos os que colaboraram de inúmeras formas para que a revista seja uma realidade e fique à disposição dos leitores, em especial a Celso Castro, coordenador do dossiê. Desejamos-lhe, igualmente, uma ótima leitura e os convidamos a que continuem enviando colaborações, na espera que no ano próximo as conquistas, pessoais e coletivas, continuem.

Hernán Ramírez –  Editor

Londrina, dezembro de 2008.

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Passagens | UFF | 2009

Passagens Passagens

O principal objetivo de Passagens – Revista Internacional de História Política e Cultura Jurídica (Niterói, 2009-) é ampliar o espaço de sociabilidade acadêmica dos campos intelectuais das ciências humanas e sociais aplicadas, com ênfase em estudos de história política e cultura jurídica.

Passagens incentiva a divulgação de trabalhos em andamento que contribuam para o aprofundamento de pesquisas com abordagem transdisciplinar, dando visibilidade à discussão pertinente no Brasil e no exterior, com destaque estratégico para a América do Sul, sem perder de vista sua abrangência internacional. Publica artigos inéditos, que são submetidos a um processo de avaliação (duplo cego).

Passagens aceita artigos e resenhas em quatro línguas: português, espanhol, francês e inglês, e é publicada eletronicamente três vezes ao ano: janeiro, maio e setembro. Passagens é uma iniciativa do Grupo de Pesquisa (Laboratório Cidade e Poder) fundado no início dos anos 1990 e atuante no Instituto de Ciências Humanas e Filosofia da Universidade Federal Fluminense, em Niterói, Rio de Janeiro, Brasil.

Situado no âmbito do Programa de Pós-Graduação em História, o Laboratório Cidade e Poder (LCP) congrega professores e pesquisadores que se afiliam aos Programas de Pós-Graduação em Ciência Política, Sociologia e Direito e Psicologia.

Periodicidade quadrimestral.

Acesso livre.

ISSN 1984-2503 (Online)

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HiSTOReLo | UNAL | 2009

Historelo Passagens

HiSTOReLo (Medelin, 2009) ess un espacio de divulgación académica de resultados de investigación elaborados por investigadores, historiadores y personas interesadas en la generación de conocimiento histórico. Promueve también el debate teórico, historiográfico y metodológico en los estudios de historia local y regional. La revista acepta propuestas que propendan por la relación de la disciplina con otras ciencias sociales, con miras a potenciar el diálogo interdisciplinario.

HiSTOReLo es una publicación cuatrimestral —se publica en enero, mayo y septiembre— y de acceso abierto en formato digital (PDF y XML). El contenido está dirigido a profesionales, investigadores, estudiantes de posgrado y académicos interesados en la creación de conocimiento histórico. Ni autores, ni lectores tienen cargo alguno por publicar o tener acceso a nuestra publicación.

HiSTOReLo es pionera como revista digital con un enfoque histórico local y regional. Es editada por la Universidad Nacional de Colombia – Facultad de Ciencias Humanas y Económicas – Sede Medellín.

Periodicidade quadrimestral.

Acesso livre.

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Teoria da História | UFG | 2009

revista de teoria da historia Passagens

O periódico eletrônico Revista de Teoria da História (Goiânia, 2009-) é uma publicação oficial vinculada à Faculdade de História e ao Programa de Pós-Graduação em História da Universidade Federal de Goiás (UFG). A RTH também é associada à Sociedade Brasileira de Teoria da História e História da Historiografia (SBTHH) e à International Network for Theory of History (INTH). No ano de 2013, a Revista de Teoria da História foi classificada com o estrato B2 pelo portal Webqualis.

Preocupada com as questões próprias da Teoria da História, a Revista objetiva a produção de mais um foro para o debate científico como local de discussão de temas atuais que fomentem a reflexão sobre o que fazem os historiadores quando fazem história hoje.

A Revista de Teoria da História representa um esforço de produção de mais um foro para o debate científico e como local de discussão de temas atuais que fomentem a reflexão sobre o que fazem os historiadores quando fazem história hoje. A partir desse intento original reunimos um corpo editorial e consultivo que possa dar conta da crescente produção em torno do campo da teoria da história, agregando a produção de diversas instituições dentro e fora do Brasil. Trata-se, desse modo, de possibilitar o debate sobre a história no início do século XXI.

Revista de Teoria da História publica estudos nas seguintes áreas:

– Teoria da História;
– Filosofia da História;
– História da Historiografia;
– Metodologia da História;
– História Intelectual;
– História das Ideias e dos Conceitos;
– História das Ciências;
– Áreas afins.

Periodicidade semestral.

Acesso livre.

ISSN: 2175- 5892

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Temporalidades | UFMG | 2009

Temporalidades1 Passagens

Temporalidades (Belo Horizonte, 2009-) é um periódico quadrimestral dos alunos de Pós-Graduação do Departamento de História da UFMG.

Trata-se de um espaço voltado para a publicação de trabalhos originais produzidos por pesquisadores da área de História, ou que com ela dialoguem, sem restrição de titulação, apesar de voltar-se, preferencialmente, para um público constituído por alunos de pós-graduação de todo o Brasil e também do exterior.

Temporalidades está vinculada ao Departamento de História da UFMG e à revista Varia História, que, através dos seus representantes, apoiaram e financiaram o projeto de criação da revista discente, juntamente com o Programa de Pós-Graduação em História da UFMG, a Faculdade de Filosofia e Ciência Humanas (FAFICH) e a Reitoria dessa instituição.

Apesar de vinculada institucionalmente, Temporalidades conta com um Conselho Editorial composto exclusivamente por alunos da pós-graduação da UFMG, coordenados por um professor do Departamento. A revista goza de total independência editorial, tendo sido concebida e concretizada pelos editores discentes, que, através de um trabalho sério e constante, levaram a cabo este projeto, demonstrando que o alunado é capaz de assumir a dianteira de grandes empreendimentos, com responsabilidade e autonomia intelectual.

O aprimoramento das capacidades acadêmicas dos discentes de todo o país passa, certamente, pelo exercício criativo da escrita, que pode resultar em trabalhos científicos de excelente qualidade. Temporalidades visa abrir um novo campo para a publicação de pesquisas discentes, que, muitas vezes, apesar de sua inquestionável distinção, não têm a oportunidade de serem divulgadas, dado que a maioria dos periódicos institucionais se fecha para a produção dos alunos. Foi pensando nas carências desse público, que os discentes do Conselho Editorial se esforçaram para constituir um periódico dotado de credibilidade, cumpridor de todos aqueles requisitos que garantem excelência, e reconhecimento institucional, às publicações científicas sérias.

Ao entregar a revista Temporalidades para a comunidade acadêmica, os alunos do Conselho Editorial demonstram que os discentes das universidades, em particular aqueles que integram a pós-graduação em História da UFMG, devem ser considerados como parte da solução para os problemas que afligem as instituições públicas de ensino; desafio comum que precisa ser enfrentado no exercício do respeito mútuo entre profissionais formados, e no diálogo franco e fecundo entre o corpo docente e o alunado.

Graças à realização de um trabalho coletivo, forjado na convivência democrática entre iguais, assumindo uma postura ativa e independente, os alunos puderam concretizar o projeto de criação da revista Temporalidades. Estamos certos de termos contribuído para o aprimoramento acadêmico do Departamento de História da UFMG, e esperamos que, a partir de agora, este periódico se consolide como um espaço aberto a todos aqueles que desejarem colaborar para a renovação do conhecimento histórico.

Periodicidade trimestral.

[Acesso livre]

SSN 1984-6150 (Online)

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História da Enfermagem | ABEn | 2015

HISTORIA DA ENFERMAGEM3 Passagens

História da Enfermagem: Revista Eletrônica – HERE (Brasília, 2009-) é uma publicação do Fórum Permanente de Pesquisadores de História da Enfermagem, tem periodicidade semestral e sua publicação é em versão eletrônica, pela Associação Brasileira de Enfermagem (ABEn), com sede em Brasília-DF.

A revista tem como missão promover a disseminação do conhecimento relativo à História da Enfermagem, Saúde e Educação, por meio da publicação arbitrada de artigos que contribuam com o conhecimento histórico, para a expansão de referenciais teóricos e metodológicos, fontes de pesquisas históricas e propiciem a interlocução entre pesquisadores e interessados em história da enfermagem e da saúde.

Seu propósito é enfocar a História na perspectiva das ciências da saúde e mais especificamente da enfermagem, enquanto disciplina. Neste sentido, pretende uma interlocução interdisciplinar com as áreas de conhecimento que fazem interface com a Enfermagem e sua história, dando ênfase nos aspectos do cuidado, educação e saúde.

[Periodicidade semestral] [Acesso livre]

ISSN 2176 7475

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História em Curso | PUC-MG | 2009

HISTORIA EM CURSO Passagens

A Revista História em Curso (Belo Horizonte, 2009-), do Departamento de História da PUC Minas, é voltada para submissão de manuscritos de discentes, graduados, pós-graduados na área de História. De fluxo contínuo, visa contribuir como um espaço para publicação de trabalhos e de debates.

A Revista publica textos, resenhas, notícias e outras matérias sobre História Antiga e Medieval, História Moderna e Contemporânea, História da América, História do Brasil, Teoria e Metodologia da História e Ensino de História; além de, avaliação de arquivos e fontes de interesse para a pesquisa nas áreas acima discriminadas.

Os artigos são prioritariamente elaborados por membros do corpo discente da graduação e pós-graduação strictu sensu e lato sensu dos Cursos e Programas da PUC Minas e de outras Universidades do País da área de História.

Periodicidade semestral.

[Acesso livre].

ISSN 2178-1044

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Nações, Regiões, Identidades: possibilidades históricas e historiográficas / Aedos / 2009

Em sua terceira edição, Aedos apresenta o dossiê Nações, Regiões, Identidades: possibilidades históricas e historiográficas. Três artigos concentram-se em um dos temas mais polêmicos em discussão nos últimos anos, qual seja, o sentimento de pertencimento à nação e à região e a grande diversidade de interpretações desse fenômeno histórico. Mariana Thompson Flores, em “Visões da Cisplatina: a criação do Estado Oriental – por Lavalleja e Anônimo”, analisa dois relatos da Guerra da Cisplatina, discutindo memória e identidade e evidenciando duas abordagens sobre a emancipação política do Uruguai. Já Carolina Fernandes Calixto, no trabalho “O Brasil regional de Freyre e Amado: elos entre identidade nacional, história e literatura”, centra seu estudo nas obras literárias de dois intelectuais brasileiros, debatendo os ideários de nação e regionalismo, bem como sua proximidade às diretrizes políticas governamentais. Alexandre Piana Lemos encerra essa seção especial, percorrendo as obras de Nelson Werneck Sodré, Caio Prado Jr. e Fernando Henrique Cardoso no artigo “A formação histórica brasileira: perspectivas marxistas” para analisar como a teoria social brasileira de inspiração marxista concebeu a formação social e o desenvolvimento da nação.

Entre os artigos que versam sobre assuntos variados, o leitor encontrará oito trabalhos. O artigo “Do Arquipélago ao Continente: estratégias de sobrevivência e ascensão social na inserção açoriana nos Campos de Viamão (séc. XVIII)”, de Adriano Comissoli, analisa as formas de inserção social dos açorianos imigrados para o sul do Brasil, destacando o funcionamento do mercado de terras e as estratégias de ascensão social baseadas no grupo familiar. O texto “Natureza, Ciência e Progresso: a natureza brasileira no debate letrado do IHGB (1839-1845)”, de Luiz Fernando Barbato, por sua vez, trata dos usos que os letrados oitocentistas do IHGB fizeram dos elementos das Ciências Naturais em seus discursos para, por exemplo, incentivar o desenvolvimento econômico e o povoamento do interior do Brasil, com o intuito de inseri-lo no rol dos países europeus considerados por eles como civilizados. Ao analisar a trajetória e relações de um dos líderes da Revolução Farroupilha no artigo “Tramados, Penas e Farrapos: mecanismos de articulação política através da trajetória de Domingos José de Almeida. (Rio Grande São Pedro, Século XIX)”, Carla Menegat pretende evidenciar as formas de organização e de participação política no momento do pós-independência no Brasil. Já Francivaldo Alves Nunes oferece-nos “Colonização agrícola e núcleos coloniais nas terras de florestas da Amazônia Oriental (Pará, século XIX)”, um texto no qual enfatiza as preocupações e os discursos do Império Brasileiro no estabelecimento de núcleos agrícolas nas áreas de floresta do estado do Pará. O trabalho do autor Juan Zeballos, “Racismo en Córdoba entre 1900 y 1915. La Continuidad.”, analisa práticas discursivas proferidas pela elite cordobesa na virada do século XIX para o XX. O objetivo de tal análise é perceber a racialização, a biologização e a inferiorização de minorias étnicas (indígenas e africanos) presentes em uma nação pretensamente branca. Através das manifestações racistas, Zeballos percebe a reivindicação empreendida por essa elite intelectual e política por uma sociedade organizada em castas característica do período colonial, em um importante contexto social e político de debates sobre cidadania. Thiago Mourelle nos apresenta o artigo “Pedro Ernesto Baptista: um projeto político inovador”, em que problematiza a historiografia sobre o populismo e o trabalhismo, investigando a trajetória do interventor e, depois, prefeito do Rio de Janeiro Pedro Ernesto Baptista durante a década de 1930, analisando os embates do referido governante com a política do início do governo Getúlio Vargas. Em seu artigo, “O crepúsculo da escravidão e a formação do mercado de trabalho livre no Brasil: as interpretações de Caio Prado Jr. e de Celso Furtado”, Ivan Colangelo Salomão realiza um breve estudo comparativo entre as teses de Celso Furtado e Caio Prado Junior com o objetivo de perceber as diferenças e semelhanças presentes nas obras de ambos os autores em relação ao duplo processo da abolição da escravidão e da formação do mercado de trabalho assalariado no contexto da história contemporânea do Brasil. Mergulhado na contemporaneidade, Róber Ávila fecha a seção com o trabalho “Fragilidade Hegemônica”, em que aborda o poder estadunidense e a noção de crise hegemônica. Segundo o autor há sinais de incompatibilidade entre o poder estadunidense e as circunstâncias contextuais verificadas.

Na seção Mesa Redonda, temos a satisfação de oferecer ao público o debate travado em torno do texto do norte-americano Joseph Younger, “Corredores de comércio e salas de justiça: lei, coerção e lealdade nas fronteiras do Rio da Prata” – publicado na primeira edição de Aedos – por três especialistas brasileiros: Fabrício Prado, Luiz Augusto Farinatti e Mariana Thompson Flores. Em seu comentário, Prado enfatiza os modos pelos quais, na transição entre a colônia e o estado-nação, a própria lei deve ser vista como um determinado tipo de coerção. Da mesma maneira, Flores e Farinatti chamam a atenção para os diversos debates historiográficos sobre o processo de asseguramento das lealdades nacionais no Prata no período imediatamente posterior às independências. A réplica de Younger, disponibilizada em português e em inglês, realiza um balanço das principais críticas feitas pelos comentadores, concordando com muitas das sugestões por eles realizadas, sem deixar, contudo, de expor algumas divergências.

Para dar continuidade ao propósito da seção, apresentamos o artigo de Keila Auxiliadora Carvalho, doutoranda da Universidade Federal Fluminense, “Tempo de Lembrar: as memórias dos portadores de lepra sobre o isolamento compulsório”, acerca do qual o público interessado poderá enviar comentários críticos para serem publicados na próxima edição de Aedos. Ao tomar como objeto de estudo pessoas com ranceníase isoladas na Colônia Santa Izabel, em Minas Gerais, o referido texto não apenas coloca em questão a visão da História Oral como procedimento técnico, mas problematiza conceitos como “memória” e “identidade”. Para além de divulgar o trabalho de Carvalho, o propósito de disponibilizá-lo na seção Mesa Redonda é o de proporcionar uma discussão franca e pública sobre as contribuições que ele traz para a historiografia.

Na seção de resenhas, Aedos proporciona a seus leitores a possibilidade de conhecer os minuciosos trabalhos de Ana Paula Pruner de Siqueira e Alejandra Noemí Ferreyra. Siqueira nos apresenta o livro Gerações de Cativeiro, de Ira Berlin, que, em sua síntese sobre a experiência escravista dos Estados Unidos, escrita a partir da leitura de recentes pesquisas historiográficas, foca o olhar na ação dos diversos sujeitos envolvidos no processo. Já Ferreyra resenha o livro Inmigración española, familia y movilidad social en la Argentina moderna, de Maria Liliana da Orden, que aborda a problemática da integração de imigrantes espanhóis na cidade de Mar Del Plata no início do século XX através da análise das redes sociais primárias.

Encerra o presente número a entrevista realizada com Sabina Loriga. A historiadora italiana da École des Hautes Études en Sciences Sociales (EHESS) é entrevistada por Viviane Trindade Borges, respondendo a questões mais amplas sobre a “experiência institucional” através do exército piemontês do Antigo Regime.

Com o presente número, a Gestão 2008 / 2009 do Conselho Editorial de Aedos despede-se dos membros do Conselho Consultivo e dos leitores, agradecendo-lhes pelo sucesso das três primeiras edições da revista e desejando ao corpo de avaliadores e aos novos colegas que passam a integrar o Conselho Editorial que a continuação desse trabalho seja tão enriquecedora e prazerosa como foi para nós.

Conselho Editorial

Gestão 2008 / 2009


Conselho Editorial. Editorial. Aedos, Porto Alegre, v.2, n.3, 2009. Acessar publicação original [DR]

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Descoberta de Foz do Iguaçu e a fundação da Colônia Militar – José Maria de Brito

BRITO, José Maria de. Descoberta de Foz do Iguaçu e a fundação da Colônia Militar. Curitiba-PR: Travessa dos Editores, 2005. Resenha de: SBARDELOTTO, Kloeckner. Revista de História Regional, v.14, n.2, p.206-211, Inverno, 2009.

Uma obra inédita e rica em detalhes, a “Descoberta de Foz do Iguaçu e a fundação da Colônia Militar”, foi escrita por José Maria de Brito no ano de 1938, quando, já no fi nal de sua vida, se incumbiu de deixar registrado aquilo que presenciou como membro da Expedição Militar designada pela Comissão Fundadora da Colônia Militar do Iguassu, instalada onde hoje se situa a cidade de Foz do Iguaçu, considerada o centro urbano “pioneiro”2 do Oeste do estado do Paraná. Publicada pela primeira vez em 1938, em tiragem muito pequena – encontramos um exemplar original apenas no Arquivo Público do Paraná –, esta obra é rara e retrata na forma de testemunho parte da história do estado do Paraná e principalmente de sua região Oeste. Foi reorganizada e reeditada no ano de 2005, pela Travessa dos Editores, sob apresentação do jornalista e escritor Beto Maciel e do editor Fábio Campana. Nesta segunda edição foi acrescentado um anexo: a transcrição de um manuscrito de audiências particulares com colonos da Colônia Militar do Iguassu, datado de 1907, encontrado no Arquivo Nacional do Rio de Janeiro e pertencente aos relatórios do Ministério do Exército.

A história a que se dedica o piauiense José Maria de Brito se confunde com sua própria história de vida. Ele fez parte do Destacamento da Expedição Militar, chefiado pelo 2º tenente José Joaquim Firmino, e acompanhou todo o penoso percurso da viagem e a fundação da Colônia Militar do Iguassu. Depois da fundação, Brito voltou à cidade de Guarapuava onde foi incumbido de aldear e catequizar índios Guaranis, encontrados durante a Expedição e reunidos em Catanduvas e Formigas. Posteriormente, regressou à Foz do Iguaçu onde exerceu a função de sargento Almoxarife da Colônia Militar do Iguassu e Agente da Companhia de Vapores – La Platense. A seguir, exerceu outros cargos públicos, até mesmo de professor da zona rural do município de Foz do Iguaçu. Nos seus últimos anos de vida José Maria de Brito adoeceu e passou por sérias dificuldades financeiras – em 11 de outubro de 1939, através do Decreto Municipal n.º 4, Brito passou a receber uma pensão anual, por ser na época o único membro ainda vivo da Expedição que fundou a Colônia Militar do Iguassu. Em Foz do Iguaçu, conheceu uma índia, casou-se, constituiu família, fi xou raízes e ali faleceu em 1942. É importante observar que a obra de Brito não se caracteriza como um relato de viagem. Ele só se empenhou neste registro muitos anos depois dos fatos vivenciados – há quem diga que a pobreza e o abandono foram os elementos que o impulsionaram a esta tarefa. Como resignado militar que era, Brito o fez também obedecendo ao sentimento de “prestar mais um serviço ao meu país”.

No primeiro capítulo, “A fronteira no fim do Império”, o autor contextualiza o cenário histórico-político-social dos anos finais do regime Imperial e início do regime Republicano. Explica que a ideia de “descobrir” a foz do Iguaçu, ocupar a região estratégica da tríplice fronteira fundando uma Colônia Militar e construir um forte e uma flotilha3 da Marinha Nacional já eram assuntos muito discutidos durante os anos finais do Império, mas, por razões políticas, permaneceram por muito tempo no esquecimento.

Três questões foram responsáveis pelo atraso da “descoberta” da foz do Iguaçu: a “Questão Militar”, a luta abolicionista e os ideais propagandistas civis-republicanos. Brito afirma que, quando o Exército uniu-se aos abolicionistas e aos civis-republicanos, estes ideais se tornaram mais fortes.

Em 1888, quando a “Questão Militar” foi resolvida e João Alfredo Corrêa de Oliveira assumiu o Ministério da Guerra, a classe militar passou a ser vista com bons olhos pelo governo e, com esta harmonia, o estado do Paraná se tornou um terreno mais confortável para as ações do Exército.

No segundo capítulo, “A Expedição”, Brito apresenta em riqueza de detalhes a fauna, a fl ora e os principais acontecimentos durante a longa viagem à foz do Iguaçu. Em 1888, um dos primeiros atos do novo Ministro de Guerra foi a criação de uma Comissão Militar sob o comando do capitão Bellarmino Augusto de Mendonça Lobo. A Comissão tinha uma grande lista de encargos, dentre eles “descobrir a foz do Iguaçu; fundar uma Colônia Militar na mesma foz.” Esta Comissão foi oficializada no Rio de Janeiro e enviada à Guarapuava, escolhida para ser a cede por ser o centro urbano mais próximo da região em que os trabalhos seriam realizados. A Comissão compôs uma Expedição Militar, sob o comando do 2º tenente José Joaquim Firmino e começou seus trabalhos no Km 16 da estrada que ligava Guarapuava à Colônia Militar do Chopim.

É interessante como o autor associa a aventura da Expedição e o papel de Firmino aos grandes feitos da história dos bravos e grandes homens que, tais como Napoleão, Colombo e César, enfrentavam seus medos e todas as adversidades em prol de uma causa nobre. Apesar de a história para ele ser apenas a história dos vencedores, de fato, as adversidades do trajeto foram reais: dias de constantes chuvas, caudalosos e intransponíveis rios, barracas muito pequenas, roupas mofadas, desenvolvimento de bronquites e outras moléstias, terrenos acidentados, ataques de tigres e falta de alimentos.

Brito não relata a resistência indígena, mas apenas a colaboração às necessidades da Expedição e se refere a eles como “selvagens”, “filhos das selvas”, “irmãos das selvas” – sob forte influência católica, o que demonstra a união da Igreja ao poder do Exército. Sua concepção era ainda aos moldes jesuíticos: de catequizá-los, civilizá-los e pacificá-los, para que fossem chamados “ao centro da civilização”. A obra apresenta apenas vantagens do “grande feito” do Exército ao “descobrir” a foz do Iguaçu – aumento da população, domínio de um ponto estratégico, fonte de rendas, estreitamento de laços de amizade com o Paraguai e a Argentina –, porém não considera os prejuízos que a ocupação brasileira causou aos povos indígenas que ali já habitavam.

No terceiro capítulo, “A Fundação da Colônia Militar”, o autor retoma detalhes sobre a longa viagem da Expedição e relata as providências tomadas logo após a “descoberta” da foz do Iguaçu. Recém chegados, após 69 dias de viagem, Firmino tornou público que já havia autoridade na foz do Iguaçu e que esta assumiria a competência de conceder lotes aos colonos interessados – embora esses títulos nunca chegassem às mãos dos colonos. Além disso, Firmino tratou de tomar “providências com o fi m de coibir abusos no território descoberto” e avisar que “daquela data por diante não seria mais permitido explorações nas matas brasileiras sem prévia autorização do Governo.” Quanto a estes abusos, Brito se referia aos estrangeiros, principalmente argentinos e paraguaios, que durante anos devastaram o Oeste do Paraná com a extração de erva-mate e de madeira. Portanto, a “descoberta” da foz do Iguaçu foi uma iniciativa de salvaguardar a região geograficamente estratégica da tríplice fronteira e tomar a posse efetiva de um território que pertencia legalmente ao Brasil.

Brito se propõe a corrigir erros cometidos por algumas publicações de sua época, em português e espanhol e que, segundo ele, não exprimiam a verdade sobre certos fatos.

Cita a questão da data de fundação da Colônia Militar que, segundo ele, alguns autores equivocaram-se afirmando ter ocorrido no ano de 1888. Além disso, explica que a Colônia foi instalada em um local diferente do que previam as Instruções devido ao fato de que, diante da seca daqueles meses e a falta de água, os Diretores da Colônia resolveram deslocá-la “provisoriamente” – que acabou sendo definitivo – para um local mais perto da barra do arroio. Os equívocos em relação ao ano de chegada e o local da cidade foram esclarecidos por Brito, entretanto sua narração cai em outras contradições.

No segundo capítulo, o autor afirma que a turma exploradora teria chegado ao seu objetivo, à foz do Iguaçu, no dia 15 de julho de 1889 e, no terceiro capítulo, afirma que a Expedição chegou ao Iguaçu em 22 de novembro de 1889! Outro ponto contraditório é em relação à partida da Expedição: no primeiro capítulo Brito afirma que ela teria começado seus trabalhos em 25 de Novembro de 1888 e que os trabalhos anteriores à partida ocorreram em 7 meses e 20 dias. Mas, se foram 7 meses e 20 dias, como Brito pode afirmar, no terceiro capítulo, que a Expedição partiu de Guarapuava em 16 de Setembro de 1889? Além destas contradições, o livro mostra a versão dos fatos de um ângulo decididamente militar e elitista. Com demasiado saudosismo, a obra enaltece o papel do Exército, cuja presença para o autor era a única garantia de “ordem e progresso”. Ao término do terceiro capítulo, Brito apresenta os últimos avanços de Foz do Iguaçu e associa-os às ações do Governo Federal. O faz com um ufanismo característico da década de 1930, típico de um membro militar que vê no retorno do Exército ao poder – a chamada “Revolução de 30” – a possibilidade de renovar suas esperanças patrióticas e de marchar rumo ao progresso.

O manuscrito de audiências particulares do Ministério de Guerra é ainda mais revelador. Mostra os conflitos existentes na Colônia, quem mandava e quem obedecia. Revela que os “negociantes” e extratores de erva-mate e de madeira mais abastados – dentre eles o Coronel Jorge Schimmelpfeng – eram aqueles que decidiam quem permaneceria com lote, quem receberia ajuda ou permaneceria na Colônia. E mais. Os “poderosos” economicamente desrespeitavam as leis da Colônia, apossavam-se ou exploravam lotes alheios e não recebiam punição alguma da Diretoria da Colônia.

Apesar das contradições, o livro de José Maria de Brito tem implicações indiretas significativas para pesquisa e para educação na região de Foz do Iguaçu e de todo o Oeste do Paraná.

Os materiais bibliográficos desenvolvidos sobre a educação nesta região ainda são escassos, tanto quanto o são os materiais de fontes primárias, documentais e fotográficos.

Portanto, as pesquisas no âmbito da Pós-Graduação em história, história da educação e outras diversas áreas, podem encontrar no trabalho de José Maria de Brito uma importante fonte explicativa da gênese da sociedade iguaçuense, que não deixa de exercer inf uência em todo o território do Oeste do Paraná. Os professores e estudantes de graduação também encontrarão nesta obra uma significativa fonte de pesquisa sobre esta região. Além disso, o texto de José Maria de Brito pode ser explorado em especial nos cursos de licenciatura, nos quais existem orientações no sentido de se conhecer a história do Paraná, para posteriormente ensiná-la nas escolas. Portanto, o ensino da história local nas escolas, principalmente nas séries iniciais do Ensino Fundamental de Foz do Iguaçu, só tem a ser enriquecido considerando os importantes dados registrados por José Maria de Brito.

Trata-se de um único registro existente de um membro fundador da Colônia Militar do Iguassu. É um livro pequeno no tamanho, mas apresenta uma riqueza de detalhes e uma fonte riquíssima para historiadores, pesquisadores, professores e alunos, na medida em que contextualiza – mesmo que de um ângulo tendencioso, militarista e elitista, pois isso não deixa de ser um elemento histórico a ser considerado – o início da história do Município de Foz do Iguaçu e a história do Oeste do estado do Paraná.

2 Os termos “pioneiro (a)”, “descobrir” e “descoberta” serão utilizados entre aspas, indicando que nos referimos à ocupação brasileira do século XIX e XX e que não nos valemos de concepções eurocêntricas. Não desconsideramos a legitimidade das ocupações ocorridas em períodos históricos anteriores, incluindo a ocupação indígena do Oeste do Paraná pelos povos Guarani e Caingangue.

3 Forma de velejar em grupo com outros barcos.

Denise Kloeckner Sbardelotto – Especialista em História da Educação Brasileira pela Universidade Estadual do Oeste do Paraná – UNIOESTE. Mestre em Educação pela Universidade Estadual de Ponta Grossa – UEPG e Professora Colaboradora nesta mesma Universidade. Membro do Grupo de Estudos e Pesquisa Estado, Educação e Trabalho – GEEPET e do Grupo de Pesquisa em História, Sociedade e Educação no Brasil – GT da Região Oeste do Paraná/HISTEDOPR/UNIOESTE. Áreas de interesse: Fundamentos da Educação; História e História da Educação Regional; História da Educação do Paraná e do Oeste do Paraná.

História | UFBA | 2009

Historia UFBA2 Passagens

A Revista de História (Salvador, 2009-) é uma iniciativa discente do Programa de Pós-Graduação em História da Universidade Federal da Bahia.

A Revista de História publica anualmente artigos originais que sejam resultantes de pesquisa com fontes primárias, críticas documentais, balanços historiográficos ou reflexões teórico-metodológicas concernentes à História ou a disciplinas correlatas. A partir de 2019, a Revista de História adotou o sistema ahead of print.

Também são veiculadas resenhas de livros de publicação recente (até 3 anos para edições brasileiras e 5 anos para edições estrangeiras, admitindo-se exceções desde que devidamente justificadas), inclusive reedições, e notas de pesquisa.

Periodicidade anual.

Acesso livre.

ISSN 1984-6894

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Conexões Afro-Atlânticas – Caribe Literatura Pós-colonial / Revista Brasileira do Caribe / 2009

A Revista Brasileira do Caribe alcança sua maturidade com uma alta qualidade nos autores e artigos selecionados. Os artigos têm sido reunidos neste vol. IX, nº 18 na forma de dossiê, também temos incorporado ao sumário a divisão por seções, ficando os artigos agrupados em uma delas. As instruções para o envio dos artigos têm sido colocadas ao final do fascículo assim como os dados dos autores, como constam no sumário. A possibilidade do contato fica garantida porque além do e-mail dos autores está indicada a instituição onde este labora.

Alguns especialistas que vêm participando da revista e dos simpósios internacionais do Caribe foram incorporados ao seu Comitê Editorial para garantir a abrangência geográfica e institucional desta.

Dentre os colaboradores da revista e dos simpósios do Caribe, temos convidado ao conselho editorial dois novos especialistas de currículo expressivo: Stephen Baines, UnB, estuda as problemáticas das fronteiras do Brasil com o Caribe e Maria Antonieta Antonacci, PUC-SP, coordena um grupo de pesquisa sobre a diáspora africana.

O Conselho Consultivo da revista está representado por autores de diversas partes do Caribe, México, Espanha, Escócia (UK), Estados Unidos e Brasil. Temos incorporado também consultores Ad Hoc. O Conselho Editorial tem buscado seu aperfeiçoamento com especialistas que participem ativamente na realização da revista. Por enquanto, temos introduzido a experiência de convidar editores, especialistas em determinada temática, para a organização de dossiês.

Para a divulgação da revista entre nossos pares brasileiros e estrangeiros, um novo site foi criado, com um novo provedor para melhor acesso: www.revistabrasileiradocaribe.org. Todos os números da revista encontram-se digitalizados e disponíveis para consulta neste site. Já temos incluído em inglês, português, espanhol e francês as instruções para publicação dos artigos assim como a missão da revista.

O perfil da Revista Brasileira do Caribe não se corresponde com as visões tradicionais geopolíticas criadas pelos impérios coloniais. Nossa interpretação apóia-se na presença das culturas negras no Caribe e no estudo das relações, interconexões, comparações e perspectivas ocasionados pela Diáspora Africana que afetou o Brasil e outras regiões da América, a Afro-América, a Neo América ou o Caribe.

O presente fascículo da Revista Brasileira do Caribe agrupou os artigos num dossiê sob o título: Conexões Afro-Atlânticas/Caribe Literatura Pós-colonial. A primeira parte do dossiê está integrada por sete artigos que aludem às conexões Afro-Atlânticas entre países, expressões culturais, performances, etc. O primeiro dos artigos dessa primeira parte, “La construcción de una identidad imaginada: El Caribe” de Luis A. Várguez Pasos, aborda a diversidade e a riqueza cultural que fica escurecida sob os estereótipos gerados pela propaganda turística sobre o Caribe. O segundo e terceiro artigos, de Milton Moura, “Notas sobre a presença da música caribenha em Salvador, Bahia” e de Yukio Agerkop, “Fronteiras e movimento cultural entre o Caribe e Salvador: o samba-reggae, o merengue e o reggae”, desde perspectivas diferentes, estudam a penetração da música caribenha em Salvador. O primeiro autor apóia-se na historicidade dessas influências e o segundo, musicólogo, exprime sua divergência das versões dos criadores de Salvador e afirma a presença da música caribenha nas composições musicais da cidade.

Outros três artigos focalizam o estudo do Reggae, dos Rastafaris e de seus símbolos. Leonardo Alvares Vidigal no artigo “A Jamaica é aqui”: relações entre música e território no audiovisual” analisa em um documentário os vínculos de Maranhão com uma Jamaica recriada popularmente, Maristane Sousa Rosa em “Repensar a História: Visual dreadlocks” apresenta a revitalização de símbolos africanos na cultura Rastafari, no entanto, Donna Hope no artigo “Eu venho para ocupar o meu lugar” mostra como os discursos contemporâneos rastafaris na cultura popular jamaicana são veiculados pelos símbolos da masculinidade. Por último “ Direitos de autor e o comércio musical em Jamaica – Proteção para quem?” de Denis Howard fecha esta primeira parte do dossiê com um tema pouco abordado como é o dos direitos autorais e os ocultos interesses, nestes, das potencias coloniais.

A segunda parte do dossiê Caribe Literatura Pós-colonial outorga visibilidade e historicidade ao “outro” mediante a criação de novas relações. No artigo de Renaud Malavialle, “Historia y cuerpo en El siglo de las luces de Alejo Carpentier, o cómo combatir el esencialismo”, tem a originalidade de apresentar com novas luzes o problema dos contatos e relações do branco com o negro. A partir das reações e sensações dos corpos, no conhecido romance, El siglo de las luces, o autor estuda a presença e persistência de estereótipos paralisantes no encontro dos corpos separados pela racialidade. Mas, esse encontro da branca Sofia com o médico negro Ogé, durante a doença do primo daquela, revela também que serão nos corpos onde poderão acontecer os processos da libertação de preconceitos.

Adlai Murdoch em “Trazando Africa en Jamaica: Etnicidade, gênero e identidade pós-colonial” na magnífica interpretação do romance Abeng de Clift aborda as conexões entre história e literatura no paralelismo entre os caminhos seguidos pela protagonista mestiça na busca de sua problemática identidade racial entre África e Europa e o complexo processo identitário jamaicano. O violento processo de auto afirmação também como mulher traça uma ativa apropriação em uma sugestiva rede da interação de influências multiculturais que impactam seu potencial pessoal como agente político. Por outra parte, “Pós-colonialidade e Resistência no romance de Earl Lovelace The Wine of Astonishment e The Dragon Can’t Dance” por Mawuena Logan, oferece uma visão diferente das reducionistas colonialistas. Os sujeitos “outros” caribenhos emergem como protagonistas ficcionais, cujas ações ficam ancoradas na sua própria história. E por último, para fechar a seção de artigos, Françoise Cévaër em “Enfrentando a irracionalidade no romance policial da África e nas Américas” estabelece um paralelo entre o destino histórico dos povos do Sul, brasileiros, caribenhos e africanos utilizando a irracionalidade como conceito que permite a interpretação da literatura policial mediante uma aproximação histórica aos contextos.

Convidamos à leitura.

Olga Cabrera


CABRERA, Olga. Conexões Afro-Atlânticas/Caribe Literatura Pós-colonial. Revista Brasileira do Caribe, São Luís, v.9, n.19, p.331-334, jan./jun. 2009. Acessar publicação original . [IF].

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I Encontro de Arqueologia de Mato Grosso do Sul / Albuquerque: Revista de História / 2009

É com muita satisfação que nos dirigimos a toda comunidade de pesquisadores, profissionais de áreas afins, empresas, instituições governamentais, patrocinadores e estudantes. O I Encontro de Arqueologia de Mato Grosso do Sul marca um grande avanço na produção do conhecimento científico neste estado. Apresentar este evento é, sem dúvida nenhuma, dar um importante passo para consolidar os estudos sobre a ciência do passado do homem nessa região. Comemorar o primeiro ano de inauguração do MuArq (Museu de Arqueologia da UFMS) é a confirmação de um antigo desejo de toda comunidade científica sul-mato-grossense.

O tema proposto para este primeiro encontro apresenta uma vertente para o direcionamento dos estudos arqueológicos. Arqueologia Histórica de Mato Grosso do Sul é uma temática totalmente apropriada para um estado que oficialmente tem aproximadamente três décadas de existência, mas, que teve suas origens ainda no início do século XVI. Essa tendência para a pesquisa arqueológica vincula-se às discussões sobre os processos construtivos das identidades da sociedade e com o resgate da memória multicultural de Mato Grosso do Sul como forma de consolidar a democracia cultural e fomentar a auto-estima de todos os segmentos étnicos da população.

O número de trabalhos apresentados nesta primeira edição do Encontro de Arqueologia superou a previsão inicial quanto à produção do conhecimento arqueológico em Mato Grosso do Sul. Esse fato revela que há uma grande demanda pelo conhecimento científico na área desta ciência, mesmo sem ainda haver um curso de nível superior ou de pós-graduação que atenda à oferta de temas para a pesquisa arqueológica na região.

Finalmente, gostaríamos de ressaltar ainda que o I Encontro de Arqueologia de Mato Grosso do Sul está inserido dentro da proposta da 7ª Semana Nacional de Museus, que acontece entre os dias 17 e 23 de maio de 2009 e tem como tema Museus e Turismo, em conformidade com o que foi decidido pelo International Council Of Museums – ICOM. A apresentação da exposição cênica Arqueologia Histórica de Mato Grosso do Sul aproxima a arte e a ciência, propondo uma releitura dos vestígios materiais pretéritos, despertando o interesse e o debate entre acadêmicos, professores, profissionais, alunos e a comunidade como um todo sobre o passado regional. A iniciativa de realizar este primeiro evento em Mato Grosso do Sul ainda nos aproxima das discussões arqueológicas / científicas com países e estados vizinhos, além de criar as condições necessárias para que futuramente a Arqueologia possa ser discutida e repensada de forma abrangente por toda a comunidade. Campo Grande, maio de 2009.

Gilson Rodolfo Martins – Professor Doutor. Diretor do MuArq e Coordenador do I Encontro de Arqueologia de Mato Grosso do Sul.


MARTINS, Gilson Rodolfo. Apresentação. Albuquerque: revista de história, Mato Grosso do Sul, v.1, n.2, 2009. Acessar publicação original [DR]

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Albuquerque | UFMS | 2009

Resenha Capa de Revista 21 Passagens

AlbuquerqueRevista de História (Aquidauana, 2009-) é uma publicação semestral de acesso aberto, que objetiva a divulgação da produção nos campos das Ciências Humanas e Sociais, das Linguagens e das Artes, bem como do encontro entre as distintas áreas, na forma de artigos, traduções, resenhas, ensaios, entrevistas.

A revista é editada pelo Programa de Pós-graduação em Estudos Culturais (PPGCult) da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS/Câmpus de Aquidauana) e pelos membros do Laboratório de Estudos em Diferenças & Linguagens – LEDLin – UFMS.

Periodicidade semestral

Acesso livre

ISSN 1983-9472 (Impresso)

ISSN 2526-7280 (Online)

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Tempo & Argumento | UDESC | 2009

Tempo e ARgumento3 Passagens

A Revista Tempo & Argumento (Florinópolis, 2009-) é uma publicação do Programa de Pós-Graduação em História, da Universidade do Estado de Santa Catarina – UDESC.

Apresenta como objetivos estabelecer-se como canal de divulgação de estudos recentes e inovadores na área de concentração do Programa de Pós Graduação: História do Tempo Presente; estimular e desenvolver o intercâmbio entre pesquisadores e profissionais atuantes na área de História e/ou áreas afins; fomentar o intercâmbio de informações e experiências entre instituições nacionais e/ou estrangeiras; fomentar o debate de questões teórico-metodológicas referentes à História; divulgar publicações, comentários, entrevistas e documentos concernentes à pesquisa em História.

Periodicidade quadrimestral.

Acesso livre.

ISSN 2175-1803 (Online)

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Aleijadinho e o aeroplano: o paraíso barroco e a construção do herói nacional – GRAMMONT (Bo)

GRAMMONT, G. Aleijadinho e o aeroplano: o paraíso barroco e a construção do herói nacional. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2008. Resenha de: GARNICA, Antonio Vincente Marafioti. Da Historiografia: campos, mitos, biografias. Bolema, Rio Claro, n. 34, p. 283-294, 2009.

“Toda vida narrada, biográfica ou auto-biográfica, é sempre habitada por uma dupla tentação: transformar os acasos e imprevistos de uma existência numa implacável necessidade; sustentar, com irredutível singularidade, o que foi um destino fragmentário.” (Roger Chartier)

“It ain’t necessarily so

It ain’t necessarily so

De things dat yo’ liable to read in de Bible

It ain’t necessarily so

/…/

Dey tell all you chillun de debble’s a villain But ‘taint necessarily so.”

(Gershwin)

Na apresentação ao recente livro de Guiomar de Grammont – sua tese de doutorado em Literatura Brasileira defendida na Universidade de São Paulo em 2002 – Roger Chartier sensatamente avalia o trabalho como uma demonstração de que “é possível escrever a história sem ficar prisioneiro de fórmulas herdadas”. O tema, bem como o esboço de cada um dos cinco capítulos, vem explicitado na Introdução da autora: “Esta não é a história de um personagem. É a história de uma imagem que se desdobra em outra e outra”. Trata-se, portanto, não de apresentar Antônio Francisco Lisboa, o Aleijadinho, e suas obras, mas de descortinar a trajetória que alçou o personagem à condição emblemática de mito, herói nacional, genial expressão do espírito barroco. Os mitos e heróis são predestinados a serem e fazerem aquilo que se deseja que sejam e façam, sendo suas existências atestadas, grande parte das vezes, à revelia de documentação que as sustente. Uma vasta busca em arquivos e uma cautelosa análise das referências bibliográficas fundadoras da mitificação permite à autora afirmar que a história do Aleijadinho (e de sua obra), “reconstituída, na medida do possível, apenas a partir dos dados que se encontram nos documentos, resulta prosaica e comum, muito menos espetacular do que se supunha. Como costuma ser, aliás, a maior parte das vidas humanas.” O tom configurador desse mito barroco é inaugurado pelo texto de Rodrigo José Ferreira Bretas1, obra meticulosamente analisada pela autora.

Fundado em 1838 e tendo como patrono o imperador Pedro II, o Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro (IHGB) esforça-se para iniciar uma historiografia nacional, da qual necessariamente faria parte o resgate de personagens, localidades e eventos que, em seu conjunto, definiriam “a” identidade nacional. O IHGB, com a intenção enunciada de apropriar-se do passado como fonte de experiência que visasse a uma sustentação para o futuro da Nação, praticava uma história teleológica, não só “conferindo ao historiador um papel central na condução desse fim último, que seria o patriotismo, o amor pelas instituições monárquicas e o sentimento religioso” como também, nas palavras de Lilia Schwarcz, “nas mãos de uma forte oligarquia local, associada a um monarca ilustrado, o IHGB se autorepresentará, nos certames internos e externos, enquanto uma fala oficial em meio a outros discursos apenas parciais”. Nesse cenário não é estranha a criação de um prêmio, em 1842, aos melhores trabalhos estatísticos e históricos sobre as províncias brasileiras. Particularmente interessantes seriam as notas biográficas sobre nossas “celebridades”, das quais surgiria um panteon de heróis nacionais. Tendo ou não sido escrita com a intenção específica de permitir a Bretas o ingresso no IHGB, o certo é que a obra sobre o Aleijadinho abre a ele as portas do Instituto, do qual passa a fazer parte como sócio-correspondente.

A obra de Bretas cria o Aleijadinho e torna-se não um texto a ser lido segundo a perspectiva da ficção – como são os retratos biográficos encomiásticos – mas como uma síntese documental encorpada com fontes orais e, portanto, a descrição de um conjunto de “fatos reais”. E “o retrato realizado por Bretas não apenas servirá à invenção romântica do artista como monstruoso gênio que a doença teria tornado taciturno e solitário, mas também provocará leituras da obra do monstro como retrato expressivo da sua personalidade atormentada. /…/ Na urgência de destacar um personagem da massa anônima dos artesãos coloniais, já não se sabe quem é autor, quem é obra”. O Aleijadinho de Bretas carrega a pesada cruz dos heróis, cujos destinos são sempre acompanhados de provação e dor. O sofrimento é condição essencial para que os consumidores de mitos reconheçam, nesses heróis, sua própria finitude e com eles sejam solidários, tornando-se co-criadores e perpetuadores dos heróis, apropriando-se inclusive de sua redenção e vitória sobre o mal. “Em Bretas”, afirma a autora, “já se inicia a associação entre o artista sofrido, martirizado (como Cristo, naturalmente) e a idéia, germinal, de nação. Aleijadinho e a nacionalidade brasileira nascem juntos na mesma manjedoura, ou seja, envoltos pela força da Igreja, força que atravessou, incólume, um século XIX de transição para a República, marcado por conflitos sangrentos, mas setorizados. Aleijadinho chega quase a tornar-se um mártir a serviço da pátria: ‘jazeu por quase dois anos, tendo um dos lados horrivelmente chagado, aquele que por suas obras de artista distinto tanto havia honrado a sua pátria!´.”

Embora a documentação existente não dê garantias sobre a paternidade do Aleijadinho, Bretas a atribui a Manuel Francisco Lisboa, artesão branco e relativamente reverenciado nas Minas dos Oitocentos: “Na sociedade rigidamente hierarquizada de então, o ‘homem bom’ é aquele que tem um bom nascimento. O filho de um homem sábio e honrado será necessariamente sábio e respeitado2. Além disso, note-se que, ao fazê-lo, Bretas dá a seu personagem uma origem branca, que o dignifica, mesmo no século XIX, quando, supõe-se, essas clivagens raciais fossem um pouco mais tênues do que no século anterior”.

Também os viajantes, interessados em explorar a exótica terra brasilis e descrevê-la a seus conterrâneos, criam uma imagem da arte mineira e, por conseguinte, operam no sentido de atribuir uma identidade ao Brasil frente ao mundo civilizado que representam. Essa visão estrangeira será por vezes negada e por vezes servirá de fundamentação aos modernistas, nas primeiras décadas do século XX, ainda que sustentando discursos em sentidos distintos: “No discurso dos viajantes do século XIX, como Saint-Hilaire, Burton, Eschwege e outros, observamos sempre a comparação implícita com manifestações artísticas e monumentos europeus, para fornecer imagens verossímeis, que possam aproximar mais da visão de seus leitores aquilo que descrevem. A comparação, contudo, sempre é efetuada segundo um padrão de inferioridade da colônia americana em relação à Europa /…/. No discurso modernista, o movimento é contrário: a ordem é revalorizar a arte local para integrá-la no vasto programa de ‘redescoberta’ das raízes da arte brasileira, enfatizando aspectos como a miscigenação racial e cultural, projeto no qual foi integrado o mito do Aleijadinho. O que chamamos de ‘redescoberta’, contudo, em nossa perspectiva, significou, efetivamente, a invenção de um país que é o Brasil modernista, baseado na invenção das raízes culturais. O barroco teria um papel fundamental na constituição dessas ‘raízes’.”

Para o viajante estrangeiro, as artesanias nacionais sempre foram arremedos da alta arte praticada nos países “centrais” dos quais provinham; interessava-lhes mais a fauna e a flora exóticas e as possibilidades que elas abriam ao desenvolvimento das ciências européias. Os relatos dos viajantes, entretanto, convém notar – como ressalta a própria autora – “costumam ser utilizados como fontes históricas ‘primárias’, capazes de fornecer informações de ‘primeira mão’ sobre os acontecimentos. Raramente essas obras são analisadas como ficção literária em si mesmas /…/. Não são apenas ‘fontes históricas’, mas fontes privilegiadas, em acordo com o pressuposto positivista de que a distância conferiria certa ‘imparcialidade’ ao olhar.” O modernismo, ao contrário, tenderá a valorizar as produções nacionais, ávido por repensar nossa identidade. O projeto de constituição dessa identidade, entretanto, afasta-se daquele anteriormente praticado pelo IHGB que era, ao mesmo tempo, uma continuidade da tradição ilustrada já iniciada no século XVIII e uma alteração quanto aos seus objetivos: no século XIX, o IHGB “tinha o objetivo completamente novo de produzir uma reflexão sistemática sobre os problemas da nação e do Estado emergentes, como um projeto civilizatório de uma elite, uma vez que /…/ a maior parte de seus membros pertencia aos aparelhos burocráticos e administrativos da hierarquia dominante no Império.” Apostando na construção da idéia de Nação num momento em que a escravidão ainda existia e parametrizado por uma visão de História apoiada na noção de progresso, não caberia identificar a cultura nacional a uma arte produzida por mulatos e indivíduos situados em escalas sociais inferiores (daí a necessidade, em Bretas, de “clarear” Antônio Francisco Lisboa e aproximá-lo da casta mais nobre, atribuindo-lhe um pai branco e até certo ponto endinheirado). Os “mitógrafos do império” tenderão, de forma mais ou menos clara, mais ou menos explícita, a desvalorizar a arte barroca ou jesuítica. No Modernismo, ao contrário, a intenção de repensar a identidade nacional não teme a aproximação com a discussão sobre a identidade racial: torna-se visceral a idéia da pluralidade étnica e, conseqüentemente, passam a ser valorizadas as contribuições dadas pela mistura de raças diferentes, ainda que as relações entre o Modernismo (leia-se Mário de Andrade) e o Estado Novo (leia-se Gustavo Capanema) não tenham sido totalmente cordiais principalmente devido ao desacordo quanto a essa questão das etnias raciais3. Do modernismo surge o Aleijadinho mulato genial, representante de uma artesania emblemática que simbolizaria a riqueza e a originalidade da arte brasileira, expressão mesmo da “alma nacional”.

Se os três primeiros capítulos do livro de Guiomar de Grammont voltam-se mais à biografia (lacunar) e à constituição do mito do artista genial a partir dessas caracterizações biográficas e interesses diversos, o capítulo quarto inicia uma discussão mais pormenorizada sobre a produção do Aleijadinho que, se já havia sido evocada nos capítulos anteriores – dada a vinculação sempre estabelecida entre autor e obra – começa então a ser tratada com mais detalhamento. O pressuposto da autora, enunciado já no primeiro parágrafo do capítulo, é o de que técnicos e historiadores da arte, via-de regra, operam “sem questionar a historicidade das categorias nas quais se baseiam para construir seus objetos. Fundamentando-se em pressupostos como ‘estilo’, ‘autoria’, ‘diretos autorais’ etc., os críticos costumam analisar obras de tempos e lugares diferentes do seu, aplicando, anacronicamente, categorias de análise contemporâneas.”

A noção de autoria – cujas origens Foucault supõe radicadas no final do século XVIII e início do século XX e que Chartier, preenchendo as lacunas cronológicas deixadas por Foucault, fixa no começo do século XVIII – pressupõe a construção de um autor que, de alguma forma, teria a prerrogativa de propriedade em relação a sua obra. Ainda que atualmente a idéia de autoria – em vários campos, mas principalmente no da arte, onde autoria está diretamente vinculada à questão financeira – nos seja usual, ela só é consolidada no século XVIII, embora tenha começado a desenhar-se na idade média (“com o revivescimento das cidades [e] a conseqüente formação das corporações de ofícios”) e fortalecida durante o Renascimento. Certamente a autoria encontra ressonância e tem sua importância maximizada num mundo que transforma tudo em mercadoria. Os ateliers mineiros do século XVIII, entretanto, funcionavam como uma coletividade produtora de obras cuja execução era “arrematada” em leilões pelos mestres desses núcleos que congregavam os mais distintos artesãos. Dessa feita, os mestres coloniais seriam bons negociantes, mas não necessariamente os artistas mais hábeis de sua corporação. Sem ater-se a esses “pormenores”, a atribuição de obras ao Aleijadinho passou a ser feita a partir de um suposto “estilo próprio”, categoria bastante interessante ao ideal onipresente de destacar, dentre a multidão de artífices mineiros, os criadores originais e, dentre eles, o genial criador dentre os criadores. Do estilo Aleijadinho, segundo os críticos, destacam-se, “além dos polegares na mesma posição dos outros dedos, /…/ os olhos amendoados, o furo no queixo, o nariz afilado com as ventas bem marcadas, as maçãs salientes do rosto; os bigodes e a barba bem delineados, apontando para baixo, barba partida no queixo /…/ etc.” O estilo é a norma a partir da qual todo o resto é definido como mesmice e vulgaridade. A discussão sobre os parâmetros que dariam conta da autenticidade da obra, assentados em princípios anacrônicos, despreza tanto as lacunas documentais relativas às obras quanto despreza as condições reais de produção à época: “em um tempo em que a locomoção de uma cidade a outra não era nada fácil, Aleijadinho teria trabalhado em cerca de trinta igrejas em diversas cidades de Minas, e realizado um número incalculável de pequenas imagens, oratórios, castiçais etc. Quantos artífices anônimos não se ocultam sob a sombra desse mito?”.

Junto aos critérios de autoria e estilo surge, para os historiadores da arte, a difícil questão da originalidade. Estudos sobre Manoel da Costa Ataíde mostram claramente que a originalidade não era um critério a nortear os trabalhos dos artífices coloniais. Há evidências eloqüentes quanto à existência de modelos prévios, gravuras e desenhos comercializados e/ou disponíveis em bíblias e outras obras. A originalidade do Aleijadinho – defendida chamando à cena seu autodidatismo, suas limitações físicas, a enorme produção em um período de tempo tão exíguo – sempre foi uma prova de sua genialidade. Há que se considerar, entretanto, que não há prática – artística ou qualquer que seja – genuinamente autóctone, e as evidências face às cópias e emulações naturais à artesania colonial levaram a uma redefinição no conceito de originalidade de modo a perpetuar mitos de genialidade artística: aos originais, o artista genuinamente genial agrega características próprias, que definem a arte nacional frente aos modelos importados. As igrejas de Aleijadinho, por exemplo, seriam “borromínicas”, mas sua apropriação do estilo seria nova e consistiria em algo totalmente diferenciado.

“Em sua definição contemporânea” – afirma Chartier logo na apresentação do livro – “a obra [de arte] supõe a originalidade da expressão, fortes relações entre as experiências do artista e suas criações e a inalterável propriedade do criador sobre os produtos de sua imaginação. É sobre tais categorias que, a partir do século XIX, foram escritas as histórias da literatura, da pintura e da escultura”. Aplicadas anacronicamente à produção artística de um escultor (ou de vários escultores) mineiro do século XVIII, esses postulados vão se conformando para sustentar a genialidade de um personagem intencionalmente constituído para louvar a nação e provê-la com uma identidade. Na confluência desses fatores tantos surge um Aleijadinho inventado a partir de documentos que, ao mesmo tempo, servem para diferentes fins, “na medida em que se imponha a eles a interpretação desejada”. Constrói-se, pois, o Aleijadinho, e tal construção – alerta Chartier – atua como um silogismo: “Aleijadinho é o escultor barroco por excelência; o barroco é a expressão mais completa da identidade brasileira; portanto, o barroco é a nação brasileira em sua essência e Aleijadinho seu profeta, reconhecido como tal pelo Estado e suas instituições. Guiomar de Grammont retira (como se diz em relação à restauração de um quadro) as diferentes camadas de verniz depositadas sobre o traço histórico do Aleijadinho”.

O que justifica, entretanto, uma resenha deste trabalho, elaborado em searas aparentemente tão distantes, num Boletim de Educação Matemática?

A aproximação de outros campos de produção cultural e acadêmica – temos defendido – é vital para repensarmos nossas próprias práticas e, num processo de apropriação criativa, dão novo fôlego e permitem a configuração de novos rumos às nossas investigações. Assim, alguns elementos claramente perceptíveis no livro de Grammont podem, sim, servir de guia principalmente aos que atualmente exercitam-se na interface entre História, Matemática e Educação Matemática.

Como primeira contribuição, aponta-se a clareza com que a autora – e o prefácio de João Adolfo Hansen, orientador da pesquisa que originou o livro – explicita a posição do IHGB que, como sabemos, é uma das matrizes – se não a matriz – da historiografia nacional e, especificamente, da historiografia da Educação. Não parece ser vão entender os mecanismos de favores e interesses que sustentavam o projeto historiográfico elitista e teleológico do Instituto, afinando-o como um aparelho ideológico cuja função precípua era inventar a nacionalidade de modo a propagar os valores imperiais. São, essas, algumas das raízes do nosso modo de conceber e produzir História, e aliar-se ou afastar-se dessas intenções talvez seja uma opção mais adequadamente feita ao se analisar versões sobre suas “origens”. Note-se, entretanto, que nem todas essas versões sobre o IHGB são tão radicais. A reportagem “Os inventores do Brasil”, de Lorenzo Aldé, publicado na Revista de História da Biblioteca Nacional em comemoração ao aniversário de 170 anos do IHGB, relativiza a situação do Instituto e seus sócios em relação à tutela do Império: “D. Pedro II foi assíduo freqüentador dos debates. O fato de ter o imperador como patrono e mecenas costuma render à instituição o rótulo de ‘chapa branca’. Embora não haja dúvidas sobre o monarquismo do IHGB no século XIX, essa impressão soa anacrônica, segundo Lúcia Guimarães: ‘Era um espaço de contraposição de interpretações. As idéias eram debatidas, não impostas. A versão sobre a independência que se consolidou nos livros didáticos tinha opositores no Instituto. Varnhagen combatia a idéia de que o episódio tinha sido fruto da vontade de José Bonifácio, D. Pedro I e do povo’ /…/. Ou seja, a idéia de ´chapa branca´ faz sentido atualmente, mas não é adequada para se pensar um tempo em que os contornos do Brasil mal existiam. Literalmente falando. Em 1841, convocado ao Parlamento para expor informações sobre os limites do país, o Ministro dos Negócios Estrangeiros, Aureliano de Souza Coutinho, teve que confessar que…não sabia. Quando D. João voltou para Portugal, em 1821, levou com ele os mapas originais.”

Nas práticas do IHGB ficam claras as intenções quanto à construção de um panteon nacional de heróis a partir de biografias. O fascínio pelas biografias, entre alguns, perdura até hoje, e por vezes a elaboração de descrições de personagens e situações “como realmente ocorreram” confunde-se com a própria função da historiografia. Dos livros didáticos (inclusive dos de Matemática) provêm grandes contribuições para a divulgação dessa concepção distorcida de história. A “ilusão biográfica”, expressão cunhada por Bourdieu, nos dá “a ilusória unidade de uma identidade específica, aparentemente sem contradições, mas que não passa de uma máscara sob a qual se oculta uma miríade de fragmentos e versões. A utopia biográfica”, continua Grammont, “é a ilusão de que a narrativa pode reconstituir autenticamente um destino”. Esforços contemporâneos, portanto, têm a intenção de “desnudar essa utopia, de desconstruir – a contrapelo – uma história tornada verdade pela repetição e por sua adequação aos diversos interesses de momentos específicos da historiografia brasileira”. O desnudamento da utopia, porém, implica trazê-la à cena: por que as verdades fabricadas deveriam ser rechaçadas, postas à margem do histórico? Não somos também as verdades que nos impomos e segundo as quais pretendemos ou quereríamos viver? Qual o problema em aceitar o relato de uma vida que se faz relato exatamente para que o passado seja purgado, para que o presente seja mais aceitável? Tal relato não nos diz tanto quanto o relato que o nega? E ainda que alguma checagem fosse feita, ainda que alguma divergência nos surgisse no processo mesmo sem checagem alguma, não seria mais produtivo indagar-se por que essa divergência? O que ela nos ensina sobre o sujeito, sobre suas verdades, sobre seu tempo e seu modo de constituição do mundo? Recentemente numa revista nacional de grande circulação debatia-se, na seção de cartas dos leitores, sobre a autoria da conhecida frase “O Brasil não é um país sério”. Foi Charles De Gaulle, afirmam alguns. Foi Celso Vieira, embaixador brasileiro na França, rebatem outros. Foi um assessor de De Gaulle? Foi Carlos Alves de Souza, embaixador em Paris? Perguntaríamos: o que faz com que o eco dessa frase ressoe tão significativamente até hoje? Por que esse fascínio com uma autoria? O que esse fascínio nos revelaria? Que percepção de país a frase nos permite vislumbrar? Na História da Matemática, Gauss realmente determinou com presteza, quando ainda criança, a soma dos cem primeiros naturais? Como saber? Como garantir a isenção dos biógrafos de Gauss? Por que essas perguntas afetam de modo tão inclemente os historiadores da Matemática? Não seria mais operativo perguntar-se que tipo de concepção essa afirmação – e sua trajetória pelos tempos – desvela? Qual Gauss esse registro permite construir? Qual Gauss esse registro quer construir? Obviamente, na esteira de uma história-problema, não se negam as questões: afirma-se a necessidade de analisá-las sob diferentes perspectivas.

Ademais, a criação de mitos e heróis para defender posições e construir verdades “compartilhadas” não é nova, não foi inventada pelo IHGB, nem termina com o Império.

Joaquim José da Silva Xavier – apelidado Tiradentes pela habilidade em arrancar dentes sem ter formação específica para isso – é um dos maiores heróis nacionais, tido como mártir do movimento que levou o Brasil à independência de Portugal. Tiradentes foi enforcado no Rio de Janeiro em 21 de abril de 1792. Tanto sua biografia quanto os traços de seu caráter são incertos, vagamente registrados: de Tiradentes não conhecemos um esboço fisionômico confiável, nem podemos decidir se foi um consistente revolucionário ou apenas uma personagem útil às causas da República implantada no país em 1889. Dentre tantos revolucionários de biografia mais documentada, com configuração de caráter e fisionomias menos lacunares, foi Tiradentes o escolhido a representar o sucesso da causa republicana: tão logo proclamada a República, já o dia 21 de Abril de 1890 foi feriado. O regime militar, em 1965, declarou Tiradentes “Patrono da Nação Brasileira”.

Os espaços em branco no registro de sua trajetória permitiam que ele fosse visto por uns como o defensor dos valores que os militares pretendiam representar e, por outros, como um revolucionário contrário aos valores defendidos pelos militares. Sobretudo, agradava à população a fusão de dois aspectos – o Tiradentes herói defensor da Pátria e o Tiradentes ícone religioso que, como um quase-Cristo protagonizou uma paixão, percorrendo seu calvário. Mas, principalmente – e este é o traço que pretendemos realçar – Tiradentes havia nascido no estado de Minas Gerais. Ao contrário de outros estados brasileiros onde viveram grandes revolucionários, defensores das causas da Pátria, Minas Gerais constituiria, já em meados do século XIX, com os Estados de São Paulo e Rio de Janeiro, o centro político do país.

IHGB, Modernismo, Império, República, Tiradentes, Aleijadinho… em tantas alterações, quantas permanências. Face a essas observações, mantemos (e defendemos como legítima) a posição de que se escreve história a partir da detecção e análise dos mecanismos – ora contrários, ora complementares – que sustentam alterações e permanências, de que é possível escapar à sina de escrever História a partir de estratégias consagradas – muitas vezes pelo senso comum –, apostando na história-problema, querendo com isso significar que “a história não deveria ser propriamente vista como uma ciência do passado, mas como uma disciplina que procuraria estabelecer um  ‘diálogo do presente com o passado, e no qual o presente tomaria e conservaria a iniciativa’”, como aponta Miguel. Essa não é, definitivamente, uma posição hegemônica dentre aqueles que, em Educação Matemática, se inscrevem na região cujas preocupações orbitam no binômio História – Educação Matemática. Dentre as tantas justificativas possíveis, essa talvez seja a que mais eloqüentemente indique a pertinência da leitura, entre nós, educadores matemáticos, do livro de Guiomar de Grammont.

Notas:  

1 Traços biográficos relativos ao finado Antônio Francisco Lisboa (o Aleijadinho), publicado no Correio Oficial de Minas em 1858.

2 Segundo a autora, o postulado de que os filhos se assemelham a seus pais está radicado na noção de genus, da retórica de Quintiliano que Bretas – especialista em retórica – certamente conhecia.

3 Segundo Guiomar de Grammont, o projeto do governo Vargas propunha a erradicação das raças, ao contrário do Modernismo que defendia a integração e louvava a miscigenação: “Houve, então, um prepotente esforço do governo nacionalista de criar as bases de um novo conceito de nacionalidade por meio da educação, da cultura e de versões oficiais da história, visando, pela unificação da língua e padronização do ensino, à ‘erradicação das minorias étnicas, lingüísticas e culturais’ em todos os níveis.”

Referências

ALDE, L. Os inventores do Brasil. Revista de História da Biblioteca Nacional. Ano 4, n. 39. Rio de Janeiro: Sociedade de Amigos da Biblioteca Nacional, pp. 56-61. Dez./ 2008.

CARVALHO, J. M. de. A Formação das Almas: o imaginário da república no Brasil. São Paulo: Companhia das Letras, 1990.

GRAMMONT, G. Aleijadinho e o aeroplano: o paraíso barroco e a construção do herói nacional. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2008.

HORTA, J.S.B. O hino, o sermão e a ordem do dia: a educação no Brasil (1930-1945). Rio de Janeiro: Editora da UFRJ, 1994.

NEMER, J.A. A mão devota: santeiros populares das Minas Gerais nos séculos 18 e 19. Rio de Janeiro: Editora Bem-Te-Vi, 2008.

VIDAL, D.G., A escrita da História da Educação e seus múltiplos olhares In: SEMINÁRIO NACIONAL DE HISTÓRIA DA MATEMÁTICA.PACHECO, n. 7, 2007, Guarapuava. Anais… Guarapuava: SBHMat, 2007. p. 97-108.

Antonio Vicente Marafioti Garnica.

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Estudios Históricos | CDHRPBVR | 2009

Estudios Historicos Uruguai Passagens

Estudios Históricos (Rivera, 2009-) é a revista eletrônica no Centro de Documentación Histórica del Río de la Plata y Brasil Dr. Walter Rela (Rivera-Uruguay).

Es con enorme placer que nos dirigimos a ustedes para hacerles llegar el primer ejemplar de la revista digital Estudios Históricos, medio de comunicación académica que hemos creado en el ámbito del Centro de Documentación Histórica del Río de la Plata y que está abierto a la participación y colaboración de todos ustedes desde este momento.

Estudios Históricos es un nuevo espacio académico destinado a la difusión de los conocimientos, investigaciones, ensayos, seminarios, encuentros, entrevistas, proyectos de investigación en curso, en los campos de la Historia, Geo-Historia y Antropología, en sus aspectos sociales, económicos, políticos y culturales, que se desarrollan en la cuenca del Plata, entendiendo por tal a Argentina, Brasil, Paraguay y Uruguay, sin perjuicio de divulgar trabajos provenientes de América, Europa y otros partes del mundo.

La pluralidad de ideas y miradas sobre los diferentes temas nos anima a pensar que este será un espacio de reflexión crítica, sobre nuestras disciplinas, un punto de encuentro y enlace entre investigadores de diferentes lugares.

[Periodicidade semestral]

ISSN 1688 5317

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Ars Historica | UFRJ | 2009

ARS3 Passagens

Ars Historica (Rio de Janeiro, 2009-) é uma publicação científica discente do Programa de Pós-Graduação em História Social da Universidade Federal do Rio de Janeiro (PPGHIS – UFRJ).

Ela é online de acesso aberto (open access), avaliada como Qualis B4 (quadriênio 2013-2016) na área de História e áreas correlatas. A revista trabalha com avaliação por parecer duplo-cego (peer review) e submissão gratuita.

Periodicidade semestral.

Acesso livre.

ISSN 2178-244X

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Historiar | UVA | 2009

HISTORIAR UVA Passagens

A Diretoria do Centro de Ciências Humanas da Universidade Estadual Vale do Acaraú, em parceria com o Curso de História, dispõem para a comunidade acadêmica a  Revista Historiar (Sobral, 2009-), cujo objetivo é criar oportunidades para a divulgação das pesquisas do corpo docente das áreas de humanidades da UVA e de outras IES de ensino e pesquisa.

Face à sua concepção inicial, a Revista Historiar estará voltada para a divulgação (online) dos resultados das pesquisas desenvolvidas por profissionais da História, dentro de suas atividades acadêmico-científicas.

Periodicidade semestral.

Acesso livre.

ISSN 2176-3267

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História & Ciências Sociais | FURG | 2009

Historia e Ciencias Sociais Passagens

Revista Brasileira de História & Ciências Sociais — RBHCS — (Rio Grande, 2009-) é um periódico científico da Universidade Federal do Rio Grande (FURG), vinculado ao Programa de Pós-Graduação em História, e foi criado para atender a necessidade de maior circulação do conhecimento acadêmico, buscando promover o diálogo entre a História & as Ciências Sociais.

Desenvolvida com o apoio de professores das mais distintas Instituições de Ensino Superior do país e do exterior, a RBHCS vem dar oportunidade para o público acadêmico publicar suas descobertas em um espaço com os pareceristas das mais renomadas revistas de História & Ciências Sociais do Brasil e do exterior.

RBHCS é uma revista eletrônica de periodicidade semestral que busca promover o diálogo mais próximo entre a História & as Ciências Sociais, não objetivando que Historiadores façam trabalhos de Cientistas Sociais, nem o inverso, mas sim que as áreas do conhecimento sejam enriquecidas pelo diálogo oriundo das trocas de conhecimento e experiência.

Este periódico eletrônico possui quatro grandes eixos temáticos: Arqueologia/Antropologia, Historiografia & Teoria Social, Pensamento Social Brasileiro e Reflexões sobre a Antiguidade, a Modernidade e a Contemporaneidade. Possuindo quatro seções para a publicação de trabalhos: Artigos, Resenhas & Transcrições e Dossiê Temático, possuindo também um espaço para publicação de pesquisas em andamento ou já concluídas no Informe de Pesquisas.

Assim, é o objetivo central da Revista Brasileira de História & Ciências Sociais que ela se torne um instrumento de diálogo e enriquecimento tanto para a História quanto para as Ciências Sociais.

Periodicidade semestral.

Acesso livre.

ISSN 2175-3423

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Historiografía Lingüística | [?] | 2009

Historiografia Linguistica Passagens
La Revista argentina de historiografía lingüística ([?], 2009-) es una publicación electrónica de acceso libre. Tiene como principal objetivo difundir las investigaciones que, en el marco de la historiografía lingüística, se realizan acerca de la historia de las ciencias del lenguaje en Argentina y América Latina.

Periodicidade semestral.

Acesso livre

ISSN 1852-1495

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Fotografia e cinema em Minas Gerais: Olhares / Revista do Arquivo Público Mineiro / 2009

Linguagens visuais

Em 1999, o Museu da Imagem e Som de São Paulo patrocinou uma exposição dedicada à história da fotografia no Brasil. No encarte intitulado Minas: minas. IV Mês Internacional da Fotografia, o fotógrafo mineiro e organizador da seção de Minas Gerais, Bernardo Magalhães, afirmou: “[…] nenhum estudo crítico jamais foi feito sobre a Fotografia em Minas Gerais, verbete praticamente inexistente na História da Fotografia no Brasil”.[1] Leia Mais

Mundos do Trabalho | UFBA/Unicamp/UFSC/UFRRJ | 2009

Mundos do trabalho Passagens

A Revista Mundos do Trabalho (Salvador…, 2009-) é uma publicação digital da Associação Nacional de História do Trabalho – “GT Mundos do Trabalho/ANPUH”. Tem por objetivo a divulgação da produção acadêmica brasileira e internacional da área de História Social do Trabalho.

Mundos do Trabalho recebe o apoio da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), com a hospedagem de seus serviços no Portal de Periódicos UFSC. A revista é financiada pelos Programas de Pós-Graduação em História da Universidade do Estado da Bahia (UNEB), da Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP) e da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ).

Periodicidade contínua.

Acesso livre.

e-ISSN 1984-9222

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Gerações de cativeiro: uma história da escravidão nos Estados Unidos | Ira Berlin

O professor Ira Berlin, da Universidade de Maryland, Estados Unidos, já ganhou diversos prêmios em razão de seus livros publicados em 1975 e 1999, intitulados, respectivamente, Slave without masters: the free negro in the Antebellum South e Many thounsands gone: the first two centuries of slavery in Mainland North America. O mesmo aconteceria com a publicação de outro livro em 2002, e traduzido para o português em 2006, Gerações de Cativeiro, que foi agraciado pela Associação Histórica Americana. Com essa publicação, o professor americano prossegue suas pesquisas na área da história dos Estados Unidos e do mundo Atlântico, enfocando o trabalho escravo.

No livro Gerações de Cativeiro, Berlin trabalha novamente com a escravidão nos Estados Unidos, dando ênfase no escravo, pois, como afirma, apesar da relação entre proprietários e cativos ser desigual, tendo estes pouco poder se comparado aqueles, havia um embate entre ambos. Os escravos eram ameaças constantes aos seus senhores e, portanto, era necessária uma contínua relação de disputas entre estes dois grupos, sendo que, às vezes, o resultado desta era a realização de algumas “concessões” em prol dos cativos. Apesar da proibição de casarem-se, muitos escravos formaram famílias; apesar de não poderem ter religião própria, criaram-se igrejas à revelia dos senhores; apesar de não poderem ter propriedades, muitos cativos adquiram posses. Deste modo, neste livro o escravo é o centro da narrativa mesmo sem esquecer outros atores sociais como os proprietários de escravos, os brancos livres, negros livres ou libertos e indígenas.

O criativo título Gerações de Cativeiro expressa a outra ideia que permeia a análise no livro: a perspectiva de mudanças. Mudanças nas gerações em cativeiro, nas gerações de comunidades escravas, as quais, como a própria palavra geração expressa, foram influenciadas pelas que as precederam e diferenciadas das posteriores. Assim, Berlin demonstra a descontinuidade, as variações e opõe-se a uma história linear dos quase 300 anos de escravidão nos Estados Unidos bem como a uma história que retrata os escravos como “socialmente mortos”, sem enraizamento, isolados no Novo Mundo trazendo à tona a ideia do escravo como ativo, como sujeito na sua própria história e na sua geração.

Observando o escravo por este viés, Berlin percebe, portanto, a escravidão como algo negociado e não simplesmente imposto e mantido através da violência. No centro deste processo está o trabalho desses cativos. Todavia, Berlin não se concentra somente na história do trabalho; ele amplia seus estudos para as relações familiares, religiosas e para o próprio vocabulário desenvolvido pelos grupos de africanos e de seus descendentes que se estabeleceram nas plantações de tabaco, arroz, índigo e nas cidades. Embora não oficiais, essas práticas formularam instituições escravas, as quais se diferenciavam da dos seus senhores.

Conectando o título com a divisão do livro, Berlin intitula e separa seus capítulos baseando-se também na concepção de gerações, as quais organizaram-se e estabeleceram-se a partir do final do século XVI até meados do XIX, com o término da escravidão nos Estados Unidos. Há, portanto, as gerações da Travessia, da Plantation, Revolucionárias, de Migrantes e, por fim, da Liberdade. Nesses capítulos, além da observação de diversas formas de relações dos cativos entre si e entre estes e seus superiores, há a análise das variações dessas relações referentes aos espaços onde estas foram constituídas. Desta forma, nos capítulos iniciais, as narrativas têm como palco as treze colônias americanas enquanto, no fim do livro, temos os Estados Unidos como nação e dividido, principalmente, entre norte e sul.

As Gerações da Travessia são os grupos iniciais de africanos trazidos para a América. Berlin nomeia esses como crioulos do Atlântico, uma vez que eram um grupo de origem não somente africana, mas também europeia. A formação desse grupo deu-se pelo contato ocorrido em virtude do estabelecimento de feitorias e pontos comerciais europeus na costa oeste da África a partir do século XV. Desta relação surgiram os crioulos, um terceiro grupo, o qual não era reconhecido nem como europeu e nem como africano. Esses crioulos eram extremamente hábeis no comércio, pois tinham maleabilidade e conhecimentos para ir e vir tanto no mundo dos europeus como no dos africanos. A despeito das vantagens comerciais e linguísticas, esse aspecto limítrofe do crioulo trazia dificuldades na sua identificação com determinados grupos detentores do poder e, por conseguinte, na obtenção de proteção por parte destes. Deste modo, questões como crimes, dívidas ou má sorte poderiam significar escravização.

Os crioulos do Atlântico, em diversas situações, desempenhavam as atividades diárias lado a lado com os europeus, os quais, em alguns casos, trabalhavam como servos. Aqueles puderam continuar e expandir sua cultura nascida no continente africano. Diferentemente do que aconteceu com as gerações posteriores, a travessia do Atlântico não desfez os laços entre os cativos: simplesmente, deslocou-os para outra localidade. Além disso, participavam das atividades religiosas europeias e tinham mais possibilidades de acesso a terras bem como a alforrias e ao casamento do que as gerações posteriores.

Com a introdução das plantations essa pequena prosperidade vivenciada pelos crioulos do Atlântico desapareceu e a segunda geração de escravos surge: estamos na Geração da Plantation. Apesar das especificidades regionais, o que compreende toda esta segunda geração é a introdução das grandes plantações e a rigidez e a brutalidade com que o sistema escravista se estabeleceu, haja vista que, neste momento, temos a necessidade de maior produção em menos espaço de tempo visando à exportação. Com a plantation, almejava-se o lucro, custe o que custar. Essa geração é o retrato que pintamos da escravidão como tal, com trabalho árduo e castigos corporais mais acentuados, com altas taxas de mortalidade, desequilíbrio entre homens e mulheres, poucas alforrias e famílias.

Não eram mais os crioulos do Atlântico, os escravos trazidos da África. Saiu-se do litoral e mirou-se nos nativos do interior do continente. Assim, a língua crioula deixou de ser corrente para dar voz às africanas do interior. O contato entre trabalhador o escravo africano e o europeu esvaiu-se, aumentando a distância entre brancos e negros.

Nesse segundo capítulo, o autor trabalha com a escravidão na região norte dos Estados Unidos. A priori, a ideia comum é considerar os estados do norte como abolucionistas e livres de escravos. Mas, Berlin demonstra que esta região quase chegou a vias de tornar-se uma sociedade escravista, ou seja, uma sociedade em que este tipo de mão de obra é o alicerce central da produção econômica e todas as relações sociais estão construídas em torno no modelo patriarcal de senhor e escravo. Todavia, a expansão da escravidão freou antes desse processo ocorrer como aconteceu na região sul.

Após o estabelecimento da Geração da Plantation, vêm, no final do século XVIII, as Gerações Revolucionárias, acompanhando e vivenciando as revoluções por igualdade e liberdade que borbulhavam tanto na Europa quanto na América. A Revolução Americana desestruturou internamente a organização da sociedade escravocrata de então, sendo que não havia mais uma uniformidade entre os proprietários de escravos, os quais estavam divididos entre legalistas e patriotas, e nem havia mais um Estado forte para a proteção da instituição escravista. Deste modo, esse período de conflitos internos gerou uma válvula de escape para os cativos.

Além da guerra, a ideologia, que permeava essa e as outras revoluções contemporâneas, também foi extremamente significativa para a erosão do poder dos senhores escravocratas. Apregoava-se, tanto na Declaração Americana de Independência como na Declaração Francesa dos Direitos do Homem, a igualdade universal. Portanto, surgiam questionamentos como: se todos eram iguais como uns poderiam ser subjugados a outros? Além disso, havia outra questão: os americanos desejavam a independência por estarem sendo escravizados pelos países metropolitanos, mas como poderiam almejar sua liberdade se continuavam a escravizar em suas terras? Esse paradoxo fortaleceu ainda mais os escravos.

Com o fim das revoluções, os escravos iriam vivenciar outro momento: a expansão das grandes plantações para o interior do sul dos Estados Unidos, criando as Gerações de Migrantes. Acompanhando a plantation, seguiram mais de um milhão de escravos vindos de outras regiões do país, haja vista que o tráfico Atlântico de africanos havia sido extinto em 1808. Esse mercado interno de cativos aqueceu-se entre os anos de 1810 a 1861 quando as terras do interior sulista foram protagonistas das plantações de algodão e de açúcar.

Enquanto no sul as relações escravocratas enrijeciam-se e se fortaleciam com os lucros das plantações, no norte, após as ondas revolucionárias, mudanças estavam em prosseguimento. Leis para a gradativa abolição da escravatura estavam sendo elaboradas e aplicadas. Em algumas regiões, a abolição aconteceu mais rápido do que em outras, apesar de a escravidão, em certos locais, perdurar com outras formas e nomes, porém com o mesmo conteúdo e objetivo. Além disso, a liberdade para os negros não significava igualdade no norte e muito menos proteção contra investidas dos brancos sulistas, haja vista que a temática da reescravização esteve sempre presente na vida desses indivíduos no século XIX. Mesmo sendo estados considerados livres e sendo refúgio e esperança de muitos ex-excravos, negros livres e cativos sulistas fugidos, o norte auxiliou na recaptura e envio de escravos para os seus senhores sulistas.

Mas, a escravidão não viveria para sempre. A partir de meados do século XIX, a possibilidade da liberdade com o fim da escravidão estava ganhando mais força. A abolição da escravatura em diversos países e o fortalecimento do movimento abolicionista no norte dos Estados Unidos eram os carros chefes desse movimento. Assim, chega-se às Gerações da Liberdade.

Com a guerra civil entre o norte e o sul, iniciada em 1861, os escravos viram o sistema escravista em colapso e aproveitaram essa fragilidade. Contudo, em seus primeiros momentos, a decepção dos escravos quanto à liberdade e a salvação vinda do norte foi grande. A guerra, diferentemente do que geralmente aprendemos, não tinha inicialmente motivos abolicionistas, como expõe Berlin. Os soldados federais não estavam lutando pelo fim da escravidão; a maioria nem se importava com estas questões. Esta relação mudou somente quando os sulistas passaram a utilizar os cativos nas fortificações e na luta contra os soldados da União. Indo de encontro com as políticas federais, os soldados do norte começaram a também fazer uso dos escravos e a não mais devolver os cativos fugidos aos seus donos sulistas. Com o passar da guerra, o governo necessitou de mão-de-obra, o que favoreceu as fugas escravas, que só aumentavam. Para o fugitivo, o envolvimento com o serviço militar significava não só liberdade, mas também a possibilidade de ter acesso à cidadania. Entretanto, foi somente em 1863 que o presidente Lincoln declarou todos os cativos dos estados rebeldes do sul como livres. Portanto, vale ressaltar que a abolição aconteceu quase dois anos depois do início da guerra, demonstrando que esta não era a intenção inicial do governo de Lincoln.

Porém, a escravidão não solapou somente com as forças externas dos federais. Dentro das plantações, os escravos também resistiam, protestavam e se rebelavam. Assim, com o fim da guerra civil, a instituição escravista estava destruída e a nova lógica em jogo era a da liberdade. A construção dessa nova sociedade era um misto de antigos e novos desejos. A história desses libertos não poderia ser elaborada ser as marcas e as vivências da escravidão. E, segundo Berlin, a herança da escravidão são essas marcas e vivências que delinearam e delineiam a formulação da vida em liberdade e do direito de ser cidadão.

O livro Gerações de Cativeiro é um trabalho de síntese histórica uma vez que o autor percorre desde as feitorias na África do século XV até as batalhas da Guerra de Secessão nos Estados Unidos no século XIX. Neste caso, ser um trabalho de síntese não significa um termo depreciativo, ao contrário. Berlin consegue entrelaçar num livro de poucas centenas de páginas diversas pesquisas menores sobre este extenso período. Os dados que apresenta não são retirados de fontes primárias e sim, dessas pesquisas que estão expressas nas notas no fim do livro. Devido ao grande número de trabalhos citados, verificamos uma grande carga de leitura e formidável capacidade de organizá-la de forma coerente e concisa por parte do autor. Porém, além desses trabalhos de outros pesquisadores, Berlin apresenta os resultados das suas próprias pesquisas anteriores resultando num livro dos quase 300 anos de escravidão nos Estados Unidos com questionamentos e apontamentos revisados e inseridos nos atuais estudos da história social da escravidão.

Ana Paula Pruner de Siqueira – Mestranda pela Universidade Federal de Santa Catarina, financiada pela CAPES. E-mail: paulaas_pruner@yahoo.com.br.


BERLIN, Ira. Gerações de cativeiro: uma história da escravidão nos Estados Unidos. Rio de Janeiro: Record, 2006. Resenha de: SIQUEIRA, Ana Paula Pruner de. Aedos. Porto Alegre, v.2, n.3, p. 287-292, jan. / jun., 2009.

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Inmigración española, familia y movilidad social en la Argentina moderna. Una mirada desde Mar del Plata (1890-1930)

En este trabajo la autora se propone abordar un aspecto crucial para el campo de los estudios migratorios: la problemática de la integración económico social de los inmigrantes en los lugares de destino. Este tema no es analizado unívocamente en términos de “ruptura” o de “continuidad”, sino que es examinado a partir de la noción multidimensional de “recreación”. Por ello, la permanencia de rasgos étnicos particulares y el mantenimiento de los lazos familiares pueden presentarse, según Da Orden, como la vía más segura para la integración en el contexto social de acogida.

El análisis se concentra en dilucidar el rol que jugaron, para la llegada y la posterior inserción de los inmigrantes españoles en una ciudad intermedia como Mar del Plata, las redes sociales primarias, la fortaleza de los vínculos familiares y las aspiraciones de ascenso social. A través del estudio de las redes sociales primarias (y atendiendo a su carácter dinámico tanto en el lugar de origen como en el de destino de los inmigrantes), Da Orden intenta rescatar la complejidad y las peculiaridades que adquiere la construcción de las identidades étnicas en un contexto social cambiante como lo fue la ciudad de Mar del Plata a principios del siglo XX.

El planteo metodológico propuesto por la autora deja entrever una impronta sociológica y antropológica que aspira a combinar, a través de una “vía intermedia”, una perspectiva macro estructural con un enfoque relacional y micro analítico, atendiendo tanto a los sujetos y a sus experiencias de vida, como a la observación de los datos agregados relativamente amplios.

A partir de una presentación breve del tema a abordar, cada capítulo o apartado de análisis se inicia con una serie de preguntas direccionales y concluye con una síntesis  explicativa que logra responder de manera sólida a sus cuestionamientos iniciales. El desarrollo de cada tópico es llevado adelante con un ejemplar trabajo de interpretación y entrecruzamiento de fuentes de diverso tipo. Estas incluyen, entre fuentes documentales editas e inéditas: fotografías, planos catastrales del Partido de General Pueyrredón y de la ciudad de Mar del Plata, diarios y periódicos del período (El mensajero leones, El trabajo, La vanguardia, entre otros), entrevistas a inmigrantes españoles, fuentes españolas (en particular del ayuntamiento de Sorbas y del municipio de Pola Gordon), documentación de la Sociedad Española de Socorros Mutuos de Mar del Plata, datos del Primer, Segundo, Tercer y Cuarto Censo Nacional de Población de la República Argentina, Libros de Matrimonios y de Nacimiento del Registro Provincial de Mar del Plata y Expedientes Correccionales del Juzgado de dicha ciudad, entre otras. Además, la autora incorpora la reconstrucción de redes parentales y socio-ocupacionales (a partir de las fuentes nominativas disponibles: Libros de Nacimientos, Libros de Bautismos y Libros de Matrimonios de las parroquias marplatenses y españolas) que permiten un acercamiento gráfico al proceso de conformación y mantenimiento de los vínculos sociales primarios entre los inmigrantes españoles de Mar del Plata.

El libro se encuentra dividido en cinco capítulos y un epílogo, además de una introducción en la que María Liliana Da Orden expone la temática y los supuestos teóricos y metodológicos que guían su trabajo. En el primer capítulo incorpora una breve descripción sobre la realidad de procedencia de los inmigrantes, para acercarse al bagaje con el que debieron arribar a la ciudad de Mar del Plata. La España de fines de siglo XIX fue un contexto caracterizado por profundas transformaciones signadas por el avance del capitalismo en la economía local. Si bien este proceso afectó al campesinado español, también le brindó nuevas oportunidades a la economía doméstica a partir del ejercicio de algún trabajo temporario u oficio lejos del campo. Esto deja entrever, según la autora, la existencia de una tradición migratoria previa a los desplazamientos hacia América. En el segundo capítulo, realiza un análisis de las formas de asentamiento y de los mecanismos migratorios que utilizaron los españoles para arribar a Mar del Plata. A partir de ello, estudia pormenorizadamente el papel crucial que tuvieron las redes sociales primarias, y en particular, la familia en la elección de Mar del Plata como lugar de destino. También incorpora, a través del seguimiento de casos particulares, una revisión sobre el fenómeno de la “reemigración” y del “efecto de arrastre” que implicaba cada nuevo desplazamiento dentro del Continente Americano. El tercer capítulo ahonda en las posibilidades que ofrecía el mercado de trabajo de Mar del Plata y el importante papel que jugaron las relaciones sociales primarias para el arribo y la inserción laboral en la ciudad. También destaca la estrecha relación que se percibe entre la movilidad ocupacional (y las posibilidades de ascenso social que ella posibilita) y el matrimonio exogámico. El cuarto capítulo, se enfoca en estudiar las diferentes formas de adaptación que los inmigrantes españoles pusieron en juego una vez establecidos en la ciudad de Mar del Plata. A través del análisis de las pautas residenciales, la elección conyugal y las formas de crianza de los hijos, la autora subraya la importancia crucial que tenían los vínculos familiares y la permanencia de los particularismos como un medio fundamental para la adaptación al nuevo contexto social de residencia. En el quinto capítulo, se concentra en la esfera “visible” de la colectividad española residente en Mar del Plata. A partir del estudio del movimiento asociativo, se sumerge en las formas de adaptación ligadas al ejercicio del poder y la política en la nueva sociedad. Según Da Orden, estas asociaciones favorecieron la integración en mayor medida que los gremios o los partidos políticos y al mismo tiempo, unificaron a los españoles conservando sus costumbres y especificidades como colectivo. Por último, el epílogo retoma las principales conclusiones desarrolladas a lo largo del trabajo, ligadas al tema de la integración.

El trabajo incorpora valiosos aportes del debate que, en décadas pasadas, signó al campo de los estudios migratorios. Esta discusión, protagonizada por aquellos investigadores que privilegiaron las dimensiones “plurales” de los fenómenos migratorios (es decir, la permanencia de los particularismos étnicos) y por aquellos estudiosos proclives a destacar las favorables condiciones de asimilación y de homogenización de los inmigrantes en la sociedad de acogida, es retomada y en gran medida superada por el análisis de María Liliana Da Orden.

En este estudio de caso, centrado en la ciudad de Mar del Plata, la autora combina aportes de ambas posturas y demuestra que pueden ser utilizadas y revalorizadas conjuntamente, enriqueciendo los trabajos realizados en un nuevo contexto historiográfico. Si bien retoma puntos claves de la agenda de estudio germaniana, como lo fueron los matrimonios, el lugar de residencia, el movimiento asociativo, la participación política y las posibilidades de ascenso social, también incorpora el concepto de etnicidad y de grupo étnico, para hacer referencia a la permanencia de las especificidades sociales y culturales del colectivo español. De esta manera, la autora presenta un nuevo esquema de interpretación en el que la persistencia de las peculiaridades étnicas se demuestran primordiales para la integración de los  inmigrantes en la sociedad receptora. Creemos que esta original forma de reinterpretar un tema fundamental para el campo de los estudios migratorios y el análisis pormenorizado, a través del gran trabajo de entrecruzamiento de fuentes, se convierten en los principales aportes del libro de María Liliana Da Orden.

Este trabajo se presenta como un interesante modelo de análisis que combina exitosamente una interpretación novedosa con un consistente análisis de fuentes, lo que permite estimar positivamente la solidez de sus argumentos.

Alejandra Noemí Ferreyra – Universidad de Buenos Aires. E-mail: alejandranoemif@yahoo.com.ar.


DA ORDEN, Maria Liliana. Inmigración española, familia y movilidad social en la Argentina moderna. Una mirada desde Mar del Plata (1890-1930). Buenos Aires: Biblos, 2007. Resenha de: FERREYRA, Alejandra Noemí. Aedos. Porto Alegre, v.2, n.3, p. 293-296, jan. / jun., 2009.

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Alfareros del Imperio Huari. Vida Cotidiana y Áreas de Actividad en Conchopata – PARAVICINO (C-RAC)

PARAVICINO, José Ochatoma. Alfareros del Imperio Huari. Vida Cotidiana y Áreas de Actividad en Conchopata. Lima: Facultad de Ciencias Sociales, Universidad Nacional de San Cristóbal de Huamanga, 2007. pp. 328p. Resenha de: LOZA, Carmen Beatriz. Chungara – Revista de Antropología Chilena, Arica, v.40, n.2, p.235-237, dic. 2008.

La reciente aparición del último libro del arqueólogo y antropólogo peruano José Ochatoma Paravicino ofrece numerosas pistas de investigación futuras al haber presentado un enfoque novedoso sobre la vida cotidiana y las áreas de actividad de Conchopata (Andes Centrales). Se trata de un conocido centro secundario Huari, en Perú, cuya principal actividad estuvo concentrada en la producción especializada de cerámica fina con iconografía y acabado magistral, la cual fue posible de producir dentro de un patrón jerárquico. El esfuerzo investigativo del autor consistió en proponer la comprensión de la utilización del espacio, la organización de la producción y los sistemas de creencias y rituales entre los Huari durante el siglo IV. Todo esto planteando la discusión de categorías arqueológicas y antropológicas que se redefinen y aclaran a la luz de los datos empíricos de Conchopata, sitio arqueológico situado al noroeste de la Plaza Mayor de la ciudad de Ayacucho, pero cuyas evidencias se dispersan hasta las inmediaciones del aeropuerto.

Este libro fue escrito a partir de la redacción de su tesis para obtener el grado de Doctor en la Universidad Nacional Autónoma de México, bajo la dirección de la arqueó loga mexicana Linda Manzanilla Naim. La estructura del libro refleja una arquitectura de un trabajo académico desarrollado en siete capítulos (incluidas las consideraciones finales). La elección del terreno de investigación no fue hecha al azar, más bien se funda en apreciaciones anteriores que caracterizaban el sitio de Conchopata como un gran centro de producción cerámica, excavado por el propio autor en distintas oportunidades.

Apoyado en esos antecedentes, se propuso excavar y analizar la evidencia arqueológica considerando diversas escalas de análisis. Así, “la unidad mínima es el área de actividad, luego la unidad doméstica y, en una escala jerárquica mayor estaría la vida cotidiana”. Su objetivo principal consiste en comprender el ámbito de la organización social ligada a la subsistencia y la reproducción familiar. En esa línea se centró en el análisis de la producción de cerámica ahondando en todas sus etapas, observando paralelamente la ideología de la fabricación y distribución tanto en las áreas ceremoniales y las tumbas, como en los depósitos de ofrendas.

El primer capítulo es esencial porque sirvió de piedra angular para plantear la discusión sobre los linea-mientos teóricos que servirán de lazos con los capítulos siguientes, donde se utilizó la información arqueológica a la luz de muchas de las nociones claves y elecciones metodológicas utilizadas a lo largo del texto. De este modo, presenta el corpus teórico donde se discuten conceptos centrales. Por un lado, aquéllos que están muy relacionados con el análisis del espacio: áreas de actividad, unidades domésticas y espacio social. Por el otro, conceptos más técnicos como especialización artesanal y taller. El conjunto de esas nociones es revisado tomando en cuenta tanto la bibliografía internacional como aquella producida localmente a partir de evidencia arqueológica de Conchopata.

Mientras que en el segundo capítulo se muestra el entorno ambiental complementado con la descripción geomorfológica que sirve de sostén para el análisis de los recursos no metálicos como la arcilla y sus bancos que servían para la producción de la cerámica en gran escala. Téngase presente que la especialización se debe a que los pobladores de Conchopata tenían dificultades para dedicarse a la agricultura, pero supieron sacar partido de la abundancia de mantos arcillosos convirtiéndose en eximios especialistas alfareros. Dentro de este mismo capítulo se repasan, en una perspectiva de larga duración, las visiones sobre el sitio desde 1492 hasta las investigaciones anteriores al 2007. Justamente, gracias a ese balance bibliográfico se revela que esos análisis se habrían centrado en la taxonomía descriptiva de cerámica, aislando el contexto social de producción.

El tratamiento de la esfera de reproducción familiar se desarrolla, ampliamente, en el tercer capítulo apoyado en la cerámica “doméstica” o “utilitaria” como una fuente sin parangón para entender la reproducción social, a pesar de lo subestimada que estuvo por los estudiosos de Conchopata. Por esa razón, fue necesaria una propuesta de clasificación morfológica de los diversos tipos de vasijas a fin de distinguir: la preparación de alimentos, el servicio y consumo de alimentos, el transporte y entrenamiento. También, la evidencia arqueológica permitió distinguir fuera del área de la cocina otras más: la del descanso, almacenamiento, patios y basurales.

El cuarto capítulo está dedicado a la esfera de la producción cerámica. Dos dimensiones bien definidas lo caracterizan: Por un lado, una presentación del espacio arquitectónico mostrando las áreas definidas de producción alfarera y grandes concentraciones de herramientas y desgrasantes. Por el otro, la tecnología para la producción, aspecto que es tratado de manera más extensa. Por ejemplo, se precisa el empleo de azadas y azadones multifuncionales, las porras discoidales perforadas y los batanes. Apoyado en esa información, nos introduce al manejo de la preparación arcillosa y su amasado. El autor muestra claros ejemplos del empleo de moldes que servían para dar cuerpo a las cerámicas cocidas en hornos cerrados ubicados al interior de las unidades habitacionales. Importante evidencia de la utilización de un alto nivel tecnológico.

El quinto capítulo reconstruye la arquitectura de las unidades domésticas dentro de un contexto urbanístico cuyo estilo correspondería a “horizonte arquitectónico ortogonal celular”. Mostrándonos que Conchopata fue “sede de una ciudad muy importante que al parecer, en sus primeras fases, competía con la metrópoli Huari”. Justamente en ese momento de pugna se produjo la especialización cerámica. Para entender mejor los patrones arquitecturales se presentan las características de muros, pisos, accesos, hornacinas, áreas abiertas, banquetas y canales de drenaje.

El sexto capítulo está relacionado a la esfera ideológica de la cotidianidad. Se identifican los diversos contextos: las áreas ceremoniales, las ofrendas y los sistemas de entierros. Para estos últimos se propone una tipología a partir de los componentes básicos. Uno de los indicadores más valiosos es el análisis de la cerámica en particular de las vasijas rituales y votivas. Estos temas son complementados por la información arquitectónica sobre los entierros dentro de las unidades domésticas, lo cual es un elemento importante de la cosmovisión de los habitantes de Conchopata. Este dato es esencial porque nos permite ampliar las informaciones sobre los espacios ceremoniales cerrados y abiertos.

Finalmente, el séptimo capítulo de manera sintética presenta los logros de la excavación dando coherencia a la diversidad de temas desarrollados en los seis capítulos precedentes. Reafirma su idea de que las condiciones ambientales fueron esenciales para la ocupación de Conchopata. Plantea que se produjo en “una etapa previa al Estado Huari donde el crecimiento de la población habría generado el desplazamiento de algunos agricultores hacia las zonas de baja productividad agrícola, quienes en su afán de obtener los recursos necesarios para su subsistencia, se habrían especializado en la producción de cerámica”. Posteriormente se dedicaron tiempo completo a esa actividad bajo el mando de las élites dominantes Huari.

El autor nos propone la noción de vivienda-taller alfarero como un espacio aislado si no más bien conectado con otros espacios habitacionales y ceremoniales. Esto significa que existía una multifuncionalidad de los sitios donde se desarrollaban diversas actividades domésticas o rituales. Existían algunos talleres donde se producía cerámica a tiempo completo y otros a tiempo parcial, pero sea cual fuere la modalidad parecería que sirvió para pagar tributo entre otros productos manufacturados.

Algunas habitaciones guardaban secretamente a los muertos (con quienes convivían), pero también se construían mausoleos para éstos. El culto a los antepasados fue central, al igual que el denominado “Dios de los Báculos y otras deidades”. El estudio de la ideología religiosa se constituyó en una clave para entender el posterior abandono de Conchopata.

En suma, el libro de Ochatoma Paravicino, a diferencia de muchos trabajos donde la teoría no se armoniza con los datos empíricos, es un caso donde existe una buena sincronización. Además, el libro tiene el mérito de presentar una revisión bibliográfica exhaustiva de un arco temporal bastante amplio: desde 1927 hasta 2007, sobre los trabajos realizados en Conchopata y en torno al sitio. El examen pasa obligatoriamente por los estudios locales peruanos y los resultados obtenidos por los investigadores extranjeros interesados por Conchopata. Señalo esto como algo provechoso, pues en algunos estudios internacionales se prescinde de los trabajos arqueológicos andinos locales, sin que ello problematice a los autores sobre lo fragmentario de sus estados de arte. En todo caso, la presentación cronológica de la bibliografía debió ser mejor articulada en la narrativa del autor porque se presenta como una sucesión de fechas, cuando sabemos que reflejan cambios teóricos o metodológicos que se fueron produciendo en la ciencia arqueológica.

El centro de la reflexión estuvo claramente explicitado al recrear la cotidianeidad que, como lo reconoce el autor, ha sido una temática sumamente compleja para su estudio. Al igual, que la demostración de la especialización jerarquizada de la producción alfarera que habría permitido la definición y la legitimación de las élites locales Huari.

Queda claro a través del libro que las élites Huari organizaban el trabajo de los alfareros, logrando que algunos se especialicen en la producción de bienes utilitarios de amplia distribución. Mientras que otros vendrían a ser “especialistas agregados” encargados de prestar servicios a un patrón. El autor ahonda en el aspecto de la especialización gracias a las excavaciones de los sitios habitacionales y deja claro que existía un pequeño grupo de especialistas en cerámica fina con rica iconografía. Al respecto, es importante señalar que en el último capítulo la problemática de la cerámica es abordada de manera dispersa y redundante, lo cual habría podido evitarse con una puntualización temática en uno solo de los apartados.

Algo semejante sucede a nivel narrativo con la problemática de los rituales domésticos cuya evidencia material -en restos de camélidos, cuyes o conchas enterrados en pequeñas fosas cavadas en las paredes- merecería alguna comparación y una mayor profundización. En todo caso, este y otros aspectos forman parte de los avances, y nuevas propuestas para la comprensión de la sociedad Huari, dignos de dilucidarlos, debatirlos y problematizarlos en el futuro a la luz de esta importante publicación sobre Conchopata.

Carmen Beatriz Loza – Directora de Investigación INBOMETRAKA, La Paz, Bolivia.

E-mail: lozaquipu@yahoo.es

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A História e suas fontes / Anos 90 / 2008

Este número da revista Anos 90 reúne trabalhos apresentados nas mesas-redondas realizadas durante o IX Encontro Estadual de História, promovido pela Seção Rio Grande do Sul da Associação Nacional de História – ANPUH-RS – e pelo Departamento de História da UFRGS entre os dias 14 e 18 de julho de 2008, nas dependências do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas desta Universidade. Para o Encontro, foi proposto como eixo central das reflexões o tema “Vestígios do passado: a história e suas fontes”, e as mesasredondas tiveram as seguintes pautas: 1) os diversos tipos de fontes das quais se vale o historiador para elaborar suas interpretações sobre o passado (escritas, visuais, orais e cultura material); 2) o uso destas fontes no ensino de História e 3) o papel do historiador em arquivos, museus e outros “lugares de memória”.

O tema das fontes é, ao mesmo tempo, tradicional e atual no âmbito da História. Afinal, se este campo do conhecimento passou por inúmeras transformações desde a sua constituição como disciplina autônoma e científica no século XIX, as palavras de dois dos nossos “pais fundadores”, Charles Langlois e Charles Seignobos, mestres da chamada história tradicional, não perderam sua validade: “onde não há documentos, não há história”. Claro está que a concepção daquilo que se entende por documento se alterou profundamente, passando a incluir todos os vestígios da experiência humana, os quais só se tornam fontes quando submetidos às indagações e análises dos historiadores.

Nem todos os participantes das mesas, por motivos diversos, tiveram condições de enviar seus textos, mas aqueles que agora publicamos são uma amostra significativa da diversidade e do excelente nível das intervenções então realizadas e, com a publicação dos artigos, a Anos 90 pretende contribuir para o prolongamento dos profícuos debates intelectuais que ocorreram durante o Encontro. Assim, das discussões sobre fontes escritas, temos duas reflexões baseadas em documentos específicos, a de Silvia Lara, sobre uma crônica do século XVII e a de Cláudio Elmir, sobre uma narrativa autobiográfica. Ainda dentro desta mesma pauta, além das duas reflexões supracitadas, temos a proposta de Luis Augusto Farinatti de demonstrar que um mesmo conjunto documental pode tanto permitir análises seriais quanto possibilitar a reconstrução de trajetórias individuais no estilo da micro-história. Da mesa sobre fontes orais, apresentamos o artigo de Verena Alberti em parceria com Amilcar Araujo Pereira, que, a partir da pesquisa conjunta acerca da história do movimento negro no Brasil, reflete sobre as articulações entre história oral e história política e sobre o cruzamento entre fontes orais e fontes escritas, e também o artigo de Marluza Marques Harres, que perpassa discussões sobre as possibilidades e limitações do trabalho com fontes orais. A temática das fontes visuais está representada pelo artigo de Paulo Knauss, que revisita os campos da história da imagem e da história da arte, buscando pontuar que o conceito de arte é histórico, e pelo artigo de Charles Monteiro, que, através de uma revisão na historiografia brasileira sobre história, fotografia e cultura visual, elenca problemáticas e questões teórico-metodológicas recorrentes.

A indissociabilidade entre ensino e pesquisa tem sido uma proposta freqüentemente levantada pelos historiadores brasileiros, em particular através da ANPUH, que procura estar aberta às questões ligadas ao ensino de História, seja no nível superior, seja nos níveis fundamental e médio. Os dois textos que discutem o uso de fontes históricas no ensino básico exemplificam este diálogo: o artigo de Nilton Pereira e Fernando Seffner, defendendo que o uso de fontes históricas em sala de aula pode ser uma estratégia pedagógica alternativa no ensino de História, e o de Flávia Caimi, problematizando o tema através da análise de antigos e novos livros didáticos e da avaliação de políticas públicas nacionais.

Para contribuir com as discussões sobre acervos, Rosani Feron comenta a experiência de implantação de uma política de gestão documental no Poder Executivo do estado do Rio Grande do Sul, enquanto Zita Possamai e Benito Schmidt discutem as implicações e potencialidades da ampliação do campo de atuação do profissional da área de História em espaços como museus, arquivos, memoriais, centros de documentação, órgãos de gestão do patrimônio histórico, agências de políticas culturais e de turismo.

Este número de Anos 90 conta ainda com dois artigos gerais e uma resenha. O texto de Helenice Rodrigues da Silva busca examinar a relação entre a experiência vivida e a representação elaborada do acontecimento histórico na análise da entrevista realizada com um sobrevivente dos campos de concentração nazistas. Eliane Lucia Colussi e Valmíria Antonia Balbinot analisam, em seu artigo, a repercussão da campanha de educação sanitária “Povo desenvolvido é povo limpo”, protagonizada pelo personagem denominado “Sujismundo”, no contexto histórico do período militar e do projeto de desenvolvimento para o Brasil. Por fim, uma última colaboração está na resenha, assinada por Wagner da Silva Teixeira, do livro Jango, de Angela de Castro Gomes e Jorge Ferreira.

A equipe editorial de Anos 90 agradece a todos pareceristas que auxiliaram na avaliação dos artigos e ao apoio recebido da Pró- Reitoria de Pesquisa da UFRGS, e deseja aos leitores uma proveitosa leitura.

Os Editores


Apresentação. Anos 90, Porto Alegre, v. 15, n. 28, dez., 2008. Acessar publicação original [DR]

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A ingratidão: a relação do homem de hoje com a História | Alain Finkielkraut

Nosso sentimento de superioridade sobre um passado – que, queiramos ou não, nos pertence – de preconceitos, exclusões e crimes, necessariamente nos torna mais livres e abertos do que nossos antepassados? É esta a questão que o filósofo francês Alain Finkielkraut nos apresenta em A ingratidão, obra sobre a postura do homem atual frente à história. Nascido em 1949, participante das rebeliões de maio de 1968, se na juventude Finkielkraut erguia barricadas contra o status quo, na maturidade não hesita em advogar a defesa de valores, tradições ou instituições centrais da cultura ocidental. É o que se depreende da leitura de obras como A memória vã e, sobretudo, A derrota do pensamento, ambas traduzidas para o português há duas décadas [1].

Publicada na França em 1999 (Ed. Gallimard), e no ano seguinte no Brasil, A ingratidão recebeu o Prêmio Aujourd’hui, concedido a obra histórica ou política sobre a atualidade. Apesar de publicado originalmente há quase dez anos, o livro conserva uma atualidade impressionante, o que justifica esta resenha. Fruto de uma entrevista ao jornalista do órgão Devoir Antoine Robitaille, natural de Quebec (província canadense de língua francesa), A ingratidão é como o diagnóstico do pensamento, dado por um filósofo, dos males e perspectivas da inteligência humana no início do século XXI.

Embora praticamente todo o conteúdo seja de autoria de Finkielkraut, dado que as intervenções de Robitaille são bem pontuais, o texto conserva a estrutura de uma entrevista, aliás, muito bem conduzida pelo entrevistador, interado da obra do filósofo e interessado em questões atuais relevantes. No prefácio da obra Finkielkraut destaca seu apoio ao projeto, ao afirmar que “Não existe cabeça bem formada que não seja também uma cabeça repleta de amigos exigentes ou de obsessivos contraditores” (p. 8). Todavia, sabe-se das dificuldades que acompanham o projeto de livro derivado de entrevista. Maria Lúcia Pallares-Burke, que organizou uma coletânea de entrevistas com historiadores, sintetizou-as por meio de uma frase do historiador britânico A. J. P. Taylor, após uma entrevista: “Após viver tanto tempo com livros (…) se começa a preferi-los às pessoas [2] ”. Mas, apesar deste empecilho que, potencialmente, acompanha todo intelectual, Finkielkraut é honesto o bastante para reconhecer que “Para argumentar, não basta (…) possuir toda a razão; é preciso ver-se coagido a usá-la” (p. 8).

A obra é dividida em cinco capítulos – “Os inimigos e os demônios”, “O esquecimento do presente”, “O abandono da língua”, “O impudor dos vivos” e “Por que somos tão morais” –, sendo que os vários temas abordados no livro se entrelaçam numa visão abrangente do diálogo. É difícil, em uma resenha, discorrer sobre todos. Opto por destacar três deles, correlatos com assuntos prementes em nossa época e até nos noticiários: o judaísmo e o Estado de Israel; o paradoxo, num mundo globalizado, da luta das “pequenas nações” por autonomia; e – o que melhor revela a ingratidão para com a história, que intitula o livro – o relativismo cultural.

Em janeiro de 2008, uma polêmica entre a Federação Israelita do Rio de Janeiro e a escola de samba Viradouro a respeito de uma alegoria sobre o genocídio dos judeus pelos nazistas – o “holocausto” – ganhou os tribunais. O carro alegórico, a pedido da FIERJ, foi impedido pela Justiça de desfilar no carnaval. Sérgio Niskier, presidente da entidade, teria afirmado em conversa com o carnavalesco Paulo Barros que a função da entidade é combater o nazismo “24 horas por dia”. Este fato recentíssimo – obviamente, não citado no livro – ilustra um ponto levantado por Finkielkraut (nascido numa família judia): o choque do “holocausto” erigiu os judeus em referência moral do Ocidente, paradigmas do infortúnio e apóstolos contra a catástrofe. Vítimas por excelência, os judeus agora primam pela eterna vigilância sobre a memória do totalitarismo, função por eles aceita. Revelam-no a instrumentalização do anti-semitismo e o aparente monopólio da memória do genocídio nazista.

Há uma expressão utilizada por Finkielkraut sobre algumas minorias étnicas que bem cabe para qualificar tal postura: “mentalidade de credores”. Povos que sofreram no passado agora se sentem isentos de crítica; às vezes, podem até impingir sofrimento, reclamando imunidade para si. Se, para o autor, o paradigma desta mentalidade é a Sérvia (é de lembrar que o texto data de 1999, ano da intervenção das tropas da OTAN na crise entre o governo sérvio e Kosovo), os judeus – ou melhor, o Estado judeu, Israel – não o são menos. Há poucos anos, o pesquisador francês Pascal Boniface publicou um livro intitulado É permitido criticar Israel? (Est-il Permis de Critiquer Israël?, ed. Robert Laffont), que despertou violento debate na França. Ao criticar Israel pela instrumentalização do anti-semitismo – algo como: quem reprova Israel só pode ser anti-semita –, Boniface também alertava para o uso do “holocausto” como justificativa da agressiva política israelense relativa aos palestinos. O que é isto, senão a “mentalidade de credor” denunciada pelo filósofo?

É de notar que Finkielkraut apóia um “dever de memória” especial relativo ao nazismo, alegando a singularidade de fatos como o campo de concentração de Auschwitz. Os crimes hitleristas são paradigmáticos (em primeiro lugar) para o Ocidente por dois motivos: pela fabricação industrial de cadáveres e por ter sido cometido sob a égide de valores caros aos ocidentais, como a racionalização, o objetivo do progresso e a submissão da vontade à lei. A bem da verdade, o autor tem razão em destacar o “holocausto” entre outros genocídios. Como diz Marcos Marguiles, “cada vez menos pessoas entendem que os judeus foram as únicas vítimas ideologicamente predeterminadas e ‘cientificamente’ pré-selecionadas pelo nazismo. As outras (…) tinham fuga – os judeus eram condenados por terem nascido [3] ”. Finkielkraut lembra que o trauma de Auschwitz (metonímia, no livro, do genocídio nazista) é tão grande que levou a Alemanha a renunciar ao nacionalismo. Ainda são nítidas em nossa memória as imagens da Copa do Mundo de 2006, talvez a primeira explosão de patriotismo alemão em muitas décadas, exceto a ocasião especial da queda do Muro de Berlim.

Assumidamente judeu e comprometido com o “dever de memória”, Finkielkraut recusa, todavia, a identificação de tudo que ocorre no presente com Auschwitz. Isto é, a seu ver, uma memória preguiçosa, pois não leva em conta o hoje. Porém – aqui o autor denuncia um viés da ingratidão –, a pretexto de combater este tipo de memória, muitos querem dessacralizar in totum o passado. É o caso de historiadores israelenses que almejam reescrever criticamente a história do Estado. Se estes têm o mérito de refutar uma memória apologética, erram ao subordinar o passado ao presente e pretender uma cidadania “pura”, livre da etnia. Finkielkraut observa que todo país tem seus mitos, seus heróis, seu romance nacional, especialmente “pequenas nações” como Israel. Menosprezar tais traços revela ingratidão com as origens, a herança, com a própria história.

Para o leitor, chamar Israel – Estado poderoso, ponta-de-lança dos EUA no Oriente Médio – de “pequena nação” pode soar irônico. Mas, explica Finkielkraut, o conceito de “pequenas nações” se refere àquelas que têm sua existência posta em dúvida. As “grandes nações” têm uma existência imemorial que dispensa explicações; as pequenas, como Israel, têm de se agarrar ao seu romance nacional. Aliás, o autor afirma que deve a Israel o não ter sucumbido ao desprezo pelas pequenas nações. Não gratuitamente, Finkielkraut assume ser solidário ao Estado judeu, contudo, menos por sua origem étnica do que pelo modo de vida e participação política dos israelenses, pelo menos nas primeiras décadas do Estado. O que o desaponta em Israel é a admissão, pelo Estado, daquela “memória preguiçosa” a partir do fim dos anos 1970, revelada na “orgia analógica” da identificação entre as agressões impostas pelos vizinhos árabes e o “holocausto”. Foi esta postura – encarnada no então general Ariel Sharon – uma das responsáveis pelo assassinato do primeiro-ministro Ytzakh Rabin, em 1995, por um judeu, que não perdoara ao dirigente o “ter-se entendido com Hitler”.

Israel ocupa um lugar especial no livro – o segundo capítulo é quase todo dedicado àquele país e à “nação judaica” –, como se supõe, pelas origens do autor (que também escreveu La réprobation d’Israël, ed. Denoël), a importância do Estado judeu no mundo atual e sua vinculação inegável com o “dever de memória”, construção do século XX imposta pelo trauma do nazismo. Mas a discussão sobre Israel faz parte de um tema mais amplo: o significado das pequenas nações e seu lugar em meio à globalização. Como pode uma nação preservar sua identidade ao mesmo tempo em que participa de grandes blocos políticos e econômicos, em meio à expansão dos mercados e livre fluxo de capitais e sob a pressão de Estados multinacionais indispostos a lhes conceder autonomia ou mesmo reconhecimento?

A presente leitura de A ingratidão remete o leitor à questão do difícil reconhecimento, pela comunidade internacional, da recente proclamação de independência de Kosovo. Pode-se dizer que Finkielkraut antecipa as dificuldades a um projeto de autonomia de Kosovo na comparação que faz com a Bósnia. Esta tem uma composição multiétnica, enquanto o nacionalismo de Kosovo é genuinamente albanês. Como há, hoje, uma obsessiva atração por formações cosmopolitas, as entidades que não o são passam a serem ignoradas e até oprimidas, com a conivência alheia. Isaac Akcelrud, autor de um livro sobre o Oriente Médio, perguntado se uma defesa intransigente das nacionalidades provocaria um “aumento desordenado” de pequenas nações, responde com a pergunta: “que são ‘pequenas nações inexpressivas’[4] ?” Com efeito, Finkielkraut ressalta o perigo que é a má-vontade para com estas nações, observando que o século XX, marcado pela traição e desprezo àquelas entidades, deve servir como lição para o presente. Lição, talvez, não entendida por alguns países, como revela a questão kosovar. O caso de Kosovo remete a uma conclusão de Finkielkraut sobre o panorama ideológico da Europa no final do século XX: venceu o projeto de um continente em que as “grandes nações” hão de absorver os “peixes pequenos”.

Um argumento forte contra o apoio radical ao direito à autonomia das pequenas nações é a vigilância democrática. Afinal, em nome da liberdade, uma destas nações pode se tornar um reduto do despotismo do qual afirmam querer escapar. É nesta intrincada questão que Finkielkraut nos faz pensar ao discorrer – a pedido do entrevistador – sobre o caso de Quebec, província de língua francesa do Canadá que há décadas reclama autonomia política. A recusa da opinião pública ocidental em apoiar o projeto autônomo revela um desprezo clássico pelas nações pequenas ou uma saudável vigilância democrática? O filósofo responde com a afirmação de que o debate revela o choque entre duas idéias de nação – uma (cara a Quebec) baseada na memória, na tradição e na vinculação cultural (língua francesa); outra (cara ao Canadá anglófono), baseada no vínculo racional tecido em torno dos valores democráticos –, sendo que prevalece a que encarna um valor dos nossos dias: o cosmopolitismo. Isto é, vence a idéia de nação capaz de abrigar várias heranças culturais.

No entanto, é contra o cosmopolitismo do início do século XXI que Finkielkraut se coloca. O cosmopolita, de acordo com o significado tradicional da palavra, desfruta do teste do outro, deseja estar com o outro. Já o neocosmopolita não quer testar o diferente, mas ser como todos os outros ao mesmo tempo. Abre mão, assim, da cultura de que é herdeiro – de sua identidade – em prol de um “vir-a-ser turista” permanente. É o caso de homens e mulheres ocidentais que são adeptos de técnicas de relaxamento ou de sexualidade orientais, como a yoga e o kama sutra, mas que não deixam as comodidades do american way of life. Observação semelhante pode ser feita a respeito daqueles que criam sua própria religião, às vezes misturando elementos de várias delas, acabando por não professar nenhuma. Na verdade, trata-se de uma voluntária e radical desvinculação da herança. Para Finkielkraut, o cidadão tradicional, cioso de sua cultura, talvez seja mais benéfico para a democracia, porque lembra a existência e a legitimidade do outro.

Será que o Ocidente está perdendo sua identidade? Talvez sim, se a civilização ocidental preferir se enclausurar em si mesma, se recusando a disseminar suas conquistas. Estas palavras podem provocar a ira dos defensores das sociedades não-ocidentais, especialmente em tempos de exportação pela força de seus valores, encarnados pelos EUA. Só que muitos dos militantes que pretensamente combatem pelo “direito à diferença” contra a arrogância ocidental não percebem que a legitimidade de sua luta se baseia em conquistas tipicamente ocidentais, como a democracia e a liberdade de expressão. Esquecê-lo é “desvincular o ser da herança”, isto é, se portar (da maneira que convém) no hoje como um ocidental descartando todos os pressupostos que o ontem nos legou na construção da civilização. Um sinal desta distorção é a validade concedida ao relativismo e ao subjetivismo, propiciada por uma equivocada radicalização da democracia.

Se “todas as coisas são democráticas”, para que hierarquizar a arte, os estilos, os saberes, os protocolos, a idade? Finkielkraut diagnostica e lamenta um mundo em que todas as maneiras de viver e todos os enunciados se equivalem. O filósofo afirma que a transição para o século XXI testemunha um “niilismo triunfante”, que atinge todas as dimensões da cultura. O termo “niilismo” cai como uma luva no argumento, pois, com efeito, nossa época é a que nada vale mais ou menos do que nada. O valor de uma obra de arte, por exemplo, é relativo, dado por quem queira dar. O autor nota que um dos lugares em que esta tirania do relativismo e subversão dos valores tem mais força é a escola obrigatória, uma conquista do Iluminismo. Como tudo equivale, já não se cultiva a reverência aos grandes autores, às obras clássicas, à língua dos poetas. Finkielkraut justifica o lugar central das obras-primas ocidentais no ensino: se não são as melhores do mundo, são as melhores da nossa cultura. Mas a escola passou a ser ingrata com a história que a precede, em favor da valorização do momento e do gosto da clientela. No ensino da língua, um exemplo claro é o do “internetês”. Chama atenção a quem visita o Museu da Língua Portuguesa, em São Paulo, que, ao fim de um enorme painel sobre a história e evolução do português, há uma parte dedicada a uma nova forma de escrever o idioma, utilizada principalmente pelos adolescentes e jovens, na internet: “vc naum ta em ksa hj?”.

Será Finkielkraut um conservador, tradicionalista, retrógrado? Do ponto de vista atual, a resposta é afirmativa. Mas o filósofo nos quer levar à conclusão de que um programa “conservador”, que defenda os valores clássicos, as hierarquias, a cultura erudita e a não-equivalência – enfim, que combata o relativismo –, é a verdadeira subversão. Ao lembrar de 1968, quando a palavra de ordem era contra a escola e a favor da vivência de todas as sensações possíveis, o autor – com certa nostalgia inconfessa – alerta que há, na verdade, um “conservadorismo do movimento”. O relativismo cultural revela sua face mais intransigente no multiculturalismo e na escrita da história que o legitima, um ponto de muito interesse para nós, historiadores.

Talvez nenhuma palavra seja mais ouvida nos atuais discursos sobre a “diferença” do que tolerância. Toleram-se todas as opiniões, religiões, manifestações culturais, orientações sexuais, todas as escolhas, desde que não contrariem a tolerância. Finkielkraut observa que este discurso da tolerância é extremamente tirânico: no fundo, só tolera a si mesmo. Não se admite meio-termo: quem não defende o casamento gay é homofóbico ou, no Brasil, quem não apóia as cotas para negros é racista. Tirania que condiciona até o uso da língua. É de notar que Lula da Silva – cujo governo, aliás, tem como símbolo a palavra “Brasil” escrita em várias cores e como slogan a divisa “Um país de todos” – sempre inicia suas saudações televisivas com “a todas e a todos”.

Há vinte anos atrás, em A derrota do pensamento, Finkielkraut já alertava sobre o multiculturalismo no item “Um par de botas vale tanto quanto Shakespeare [5] ”. Ou seja, um simples trabalho artesanal não podia ser considerado “menor” que uma obra-prima da literatura universal. Aliás, perguntarão os multiculturalistas, por que obra-prima? Eis um ponto-chave do relativismo cultural: este se preocupa menos com a disciplina do verdadeiro do que com o reconhecimento mútuo. A história escrita sob a égide da “política do reconhecimento”, ao assumir feições vingativas contra o Ocidente (alegando “reparação”), partilha lógica semelhante. Na política educacional brasileira, temos diante de nós a obrigatoriedade do ensino de história africana nas escolas; na academia, os gays que escrevem a história do homossexualismo. Studies que, em nome de minorias historicamente oprimidas, condenam os white males. Para os representantes daquelas, a historiografia clássica não passa de porta-voz de um grupo desprezível: os machos europeus. Com efeito, se uma outra história tem pontos positivos (expansão dos objetos de estudo, valorização de outros pontos de vista), ela transforma o objeto em sujeito do discurso e é, no limite, preconceituosa: só se admira o que não é branco e ocidental. As tradições são descartadas pelo mero fato de o serem, enquanto os “livros desconcertantes”, que destroem símbolos e tradições herdados, é que são valorizados [6].

Finkielkraut, por tudo o que assume, é polêmico e corajoso, sem dúvida. Suas opiniões são ainda mais legitimadas pela qualidade de Robitaille, que não se furta a questioná-lo, interrompê-lo e mesmo provocá-lo. Por exemplo, quando o jornalista lembra o autor de que há intelectuais que se rejubilam em serem “do contra”, ou quando diz que havia chegado o momento de “pôr as cartas na mesa”: Finkielkraut não defende um programa conservador? Um livro apenas escrito pelo filósofo seria indubitavelmente de grande valor, mas, derivado de uma entrevista, a obra amplia o conhecimento do leitor sobre o intelectual, a ponto de aquele desejar, em alguns momentos, estar no lugar de Robitaille para interpelar o entrevistado.

Apesar do tom incisivo de suas palavras, Finkielkraut passa ao largo da intransigência. Não vê no relativismo cultural o fim da humanidade ou da história. O que o filósofo quer é nos deixar um alerta: escarnecer dos valores tradicionais, da história, enfim, da nossa própria herança, é ato tão corajoso quanto espancar nossa avó. Se uma memória que deplora os males do passado, como o genocídio nazista, é benéfica, nos faz falta outro tipo de memória, que venere o que há de bom no pretérito. Senão, seremos apenas uns ingratos, desmemoriados e intransigentes conservadores de plantão, papel inadvertidamente assumido pelos auto- apregoados arautos do reconhecimento mútuo, das minorias e da “reparação” histórica.

Notas

1. A derrota do pensamento. Trad. Mônica Campos de Almeida. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1988; A memória vã: do crime contra a humanidade. Trad. Rosa Freire d’Aguiar. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1989.

2. Introdução. As muitas faces da história: nove entrevistas. São Paulo: Ed. UNESP, 2000, p. 17.

3. Na contracapa de Hannah Arendt. Origens do totalitarismo, I: o anti-semitismo, instrumento de poder, uma análise dialética. Trad. Roberto Raposo. 2a ed. Rio de Janeiro: Documentário, 1979 (grifo original).

4. Isaac Akcelrud. O Oriente Médio: origem histórica dos conflitos – imperialismo e petróleo; judeus, árabes, curdos e persas. 4a ed. São Paulo/Campinas: Atual/Ed. da Unicamp, 1986, p. 2.

5. Op. cit. (1988), pp. 131-40.

6. Como diz Bronislaw Baczko: “A época das ortodoxias parece, pois, ultrapassada; vivemos, muito felizmente, na época das heresias ecléticas”. Imaginação Social. In: Einaudi. Vol. 5 (Antropos – Homem). Lisboa: Imprensa Nacional/Casa da Moeda, 1985, p. 308.

Fernando Gil Portela Vieira – Mestre em História pela Universidade Federal Fluminense e doutorando no Programa de Pós-Graduação em História Social da Universidade de São Paulo.


FINKIELKRAUT, Alain. A ingratidão: a relação do homem de hoje com a História. Trad. Álvaro Cabral. Rio de Janeiro: Objetiva, 2000. Resenha de: VIEIRA, Fernando Gil Portela. Um Reencontro com o Ocidente. Cantareira. Niterói, n.13, 2008. Acessar publicação original [DR]

História e Memória / Anos 90 / 2007

São incontáveis os títulos de livros ou periódicos temáticos com o enunciado História e Memória. Se apresentamos ao leitor mais um conjunto de textos sobre o assunto é porque, mais que um tema que continua importante, o assunto parece ter se tornado emblemático da atividade do historiador. Se, como afirma Le Goff, (1992, p. 426), tornarem-se senhores da memória e do esquecimento é uma das grandes preocupações das classes, dos grupos, dos indivíduos que dominaram e dominam as sociedades históricas, não seria uma tarefa dos historiadores elucidar, nos mais diferentes contextos, quem são os senhores da memória e desvendar o que foi relegado ao esquecimento? Tendo acompanhado os desenvolvimentos da memória em diferentes épocas históricas e sua ampliação e diversificação na sociedade contemporânea, sua provável resposta a uma questão semelhante não deixaria dúvidas: Cabe, com efeito, aos profissionais científicos da memória, antropólogos, historiadores, jornalistas, sociólogos, fazer da luta pela democratização da memória social um dos imperativos prioritários da sua objetividade científica (LE GOFF, 1992, p. 477). Em Pierre Nora encontramos uma contraposição semelhante, explicitada no artigo de Benito Schmidt: enquanto a memória teria um caráter afetivo e sacralizante, a história supõe um enfoque racional e laicizante. Portanto, podemos tratar de questões de memória e história separadamente, mas se, freqüentemente, os termos formam uma dupla é porque, quando operando em um mesmo campo, há uma grande probabilidade que atuem na contramão um do outro. E as particularidades de um são relativas às do outro. Porque a memória é dominadora, a história deve ser democrática; porque a memória é afetiva, a história deve ser científica, objetiva e racional; se a memória tende para o sacro, a história deve apontar sua base humana.

Há um campo da história que precisou enfrentar essas questões de maneira mais aguda que outros, o da História Oral. A idéia de que a história oral fosse mais democrática norteou a visão daqueles que impulsionaram internacionalmente a moderna história oral (THOMPSON, 1987, p. 10). Mas logo tal concepção foi criticada (PORTELLI, 1981, p. 104). Com o refinamento dos debates podemos dizer, então, que a história oral contribui para a democratização da memória, de uma forma certamente muito importante e diferenciada da história baseada em documentos escritos, mas, como qualquer outra, a história oral não é essencialmente democrática. Contudo, o entusiasmo inicial dos historiadores orais por estarem contribuindo para versões mais matizadas da história, por trazerem à cena o relato dos que vivenciaram os acontecimentos e processos, cedeu espaço a uma reflexão que surgiu com o progresso das discussões metodológicas: a visão dos entrevistados não é diferente apenas de outras memórias construídas, ela também costuma ser diferente da interpretação do historiador, aquele mesmo que depende da boa-vontade do entrevistado. Em suma, o historiador oral, ao se pretender científico, estará desconstruindo não apenas memórias sistematizadas, produzidas a alguma distância, mas memórias que ele demandou e que ele obteve por métodos dos quais não está ausente uma certa dose de sedução. Os debates, portanto, são complexos e exigiram um aperfeiçoamento dos conceitos e das interpretações. Para tal refinamento da discussão no campo da história oral no Brasil, tem sido fundamental a reflexão de Verena Alberti, conhecida também por alguns dos melhores textos de sistematização dos procedimentos da história oral (ALBERTI, 1990; ALBERTI, 2005). Neste número de Anos 90 contamos com artigo de sua autoria, enfocando um campo muito próximo ao da história oral, o da tradição oral, em um texto que nos traz um exemplo contundente de luta pela democratização da memória, ou, mais especificamente, a luta pelo reconhecimento de direitos dos maoris da Nova Zelândia dos dias de hoje, que se legitima pela afirmação de uma determinada memória.

Os diferentes modos de construção da memória são um dos temas que têm se desenvolvido com ampliação dos estudos sobre memória nas últimas décadas. Se Capistrano de Abreu passou a ser reconhecido por muitos como o mais importante historiador brasileiro das décadas iniciais do século XX, e se foi transformado em modelo de intelectual e símbolo da nacionalidade, algum trabalho de construção de memória operou-se sobre sua figura. De uma vasta memorialística construída em torno do autor (necrológios, artigos, resenhas, biografias, sonetos, retratos, charges, fotografias, dissertações e teses, além de cartas do próprio Capistrano que contêm reflexões sobre si) Rebeca Gontijo busca nos textos biográficos sobre o estudioso os elementos para compreender como a identidade de um indivíduo pode ser apresentada como símbolo da nacionalidade. Retomando Le Goff (1992, p. 476): A memória é um elemento essencial do que se costuma chamar identidade, individual ou coletiva, cuja busca é uma das atividades fundamentais dos indivíduos e das sociedades de hoje, na febre e na angústia. Também sobre a relação entre memória e construção de representações identitárias trata o texto de Ernesto Seidl, sendo os construtores, neste caso, agentes vinculados à Igreja católica do Rio Grande do Sul, que atuam em diferentes esferas sociais (religiosa, científico-acadêmica, intelectual, artística), e os grupos étnicos oriundos da imigração alemã e italiana, aqueles sobre quem se escreve uma história, dos quais a memória que se busca divulgar não sem disputas é a memória do êxito.

Entretanto, não poderia um texto memorialístico ser apropriado pelo historiador, não ou não apenas para sofrer uma desconstrução, para este apontar-lhe as elaborações afetivas, mas como aquilo que é básico do trabalho científico do historiador, como fonte histórica? Analisando a autobiografia póstuma do jornalista Samuel Wainer, Minha razão de viver, Luís Carlos Martins propõe que ela possa ser vista como um documento importante para compreendermos a criação do jornal Última Hora e muitos acontecimentos fundamentais do Segundo Governo Vargas. Memórias escritas serão sempre um documento importante, mesmo que seu autor não tenha sido alguém importante ou não tenha convivido com personagens históricos. Infelizmente, no Brasil, não dispomos de autobiografias ou diários de pessoas do povo, como os escritos por artesãos calvinistas ou líderes religiosos ingleses no século XVIII, estimulados a registrar os sinais de sua fé pessoal ou da de sua comunidade, munindo os historiadores dos séculos seguintes de uma preciosa fonte de pesquisa sobre os trabalhadores (ver THOMPSON, 1987).

O período da ditadura militar brasileira, por sua vez como em outros regimes em que o arbítrio leva ao encarceramento, à perda de direitos, ao exílio e à morte , ocasionou, passados quarenta anos, candentes batalhas da memória, que extrapolam os diretamente envolvidos, as vítimas e os agentes do regime repressivo, dizendo respeito a toda sociedade. Para o campo histórico, como mostra o artigo de Benito Schmidt, a presença de historiadores que foram também testemunhas cobra aos estudos de memória reflexões que dêem conta de tais imbricações.

Nos artigos diversos, dois assuntos que abordam fenômenos do processo de urbanização de um país ainda predominantemente rural. No primeiro caso, em uma das capitais Porto Alegre de um Brasil que organizava sua novel vida republicana, tornava-se necessário, em função de projetos de saneamento, regular o comércio e a prestação de serviços ambulantes. Regulamentar significa restringir, e as populações atingidas por tais medidas não deixaram de reagir. No outro caso, na região de colonização alemã, o prefeito de uma cidade recém-emancipada Novo Hamburgo narra, em 1931, através das páginas do jornal que representava a municipalidade, uma história segundo a qual os primeiros colonos da região teriam enfrentado, cem anos antes, um grupo de índios comandados por um escravo fugido. As velhas representações da superioridade branca européia, associadas a uma pitada de nacionalismo romântico (contaram com a ajuda de um cacique amigo) são utilizadas para a afirmação regional de descendentes de imigrantes.

A entrevista de Hugo Bauzá, professor titular de Literatura Latina e Artes na Universidade de Buenos Aires, com Jean Jacques Wunenburger, da Faculdade de Filosofia da Universidade de Lyon, inaugura a abertura de Anos 90 à publicação de artigos em espanhol, com alteração de nossas normas editorais. Tal procedimento apenas consolida o intercâmbio já existente entre nosso programa de Pós-Graduação e os pesquisadores da América espanhola. Em breves palavras, Francisco Marshall apresenta ao leitor o campo de discussão que aproximou Bauzá de Wunenburger.

Por fim, contamos com duas resenhas, uma de Diogo da Silva Roiz sobre a coletânea Fontes Históricas, e outra de Carla Rodeghero sobre a biografia de Jango, escrita por Jorge Ferreira e Ângela de Castro Gomes.

A elaboração deste número contou com a colaboração de mais de vinte pareceristas, cujo trabalho anônimo e generoso nós agradecemos.

Referências

ALBERTI, Verena. História Oral: a experiência do CPDOC. Rio de Janeiro: Fundação Getúlio Vargas, 1990.

______. Histórias dentro da História. In: PINSKI, Carla Bassanezi (org.). Fontes Históricas. São Paulo: Contexto, 2005. p. 155-202.

LE GOFF, Jacques. História e Memória, 2. ed. Campinas: Editora da UNICAMP, 1992.

PORTELLI, Alessandro. The Peculiarities of Oral History. History Workshop, n. 12, p. 96-107, 1981.

THOMPSON, Edward P. A formação da classe operária inglesa. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1987. v. 1.

Regina Weber – Professora do Departamento e do PPG em História da UFRGS. Editora de Anos 90.

WEBER, Regina. Apresentação. Anos 90, Porto Alegre, v. 14, n. 26, dez., 2007. Acessar publicação original [DR]

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África-Brasil / Anos 90 / 2008


Apresentação. Anos 90, Porto Alegre, v. 15, n. 27, jul., 2008. Acesso apenas pelo link original [DR]

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História da Historiografia | UFOP | 2008

Historia da Historiografia1 2 Passagens

Mais uma revista acadêmica. Com a explosão do espaço virtual, não há como ignorar o resmungo de um leitor que constate, com o nascimento de mais uma publicação, o crescimento desmesurado do número de textos para conhecer e informações para assimilar. Portanto, considerando que a multiplicação de artigos científicos parece, em algumas ocasiões, uma perigosa metástase, há uma necessidade de se apresentar ao público, cuja atenção precisa ser valorizada.

Pensamos que parte da sensação de cansaço deve-se a uma evidência na realidade acadêmica brasileira: as revistas estão, em geral, atadas aos programas de pós-graduação; e os programas se estruturam em linhas de pesquisa que precisam ter sua produção contemplada. É justo e prático que assim seja, claro. Há, porém, um preço: a indefinição dos perfis e a dispersão da produção acadêmica. Para o pesquisador especializado – por vezes precocemente especializado – é extremamente difícil encontrar uma referência que lhe permita rastrear e colher os textos de sua bibliografia, sobretudo, aquela produzida no Brasil. É comum termos um interlocutor em nossa língua, quando nos imaginamos isolados em uma área de pesquisa ainda não consolidada.

A proposta de História da Historiografia (Ouro Preto, 2008-), portanto, não consiste em dispersar e fragmentar ainda mais a produção acadêmica, mas em oferecer um espaço de convergência da produção crescente, em volume e qualidade, no campo da teoria e história da historiografia – por isso a vocação interinstitucional da revista. Afinal, foi em uma série de encontros, ocorridos ao longo dos anos e em diferentes cidades do Brasil, que se percebeu que o olhar reflexivo sobre a Historiografia não é tão insólito quanto se poderia imaginar. Claro: esta atividade reflexiva se expressa de várias maneiras, seja por meio da filosofia da história mais tradicional, seja pelo que dela mais se espera, ou seja, ponderações epistemológicas sobre o ofício do historiador e sobre os diferentes modos de se escrever história ao longo do tempo, no Brasil e no Ocidente como um todo.

Afinal, da mesma maneira que criticaríamos uma formação musical que desprezasse Bach e Villa-Lobos, ou o escritor que desconhecesse Machado de Assis e Cervantes, os historiadores procuram cada vez mais perceber a importância da leitura aberta dos clássicos, além de compreender as transformações sofridas por seu ofício. Não se fará aqui uma história canônica. Os trabalhos que o leitor encontrará são tentativas de relembrar e elaborar as diferentes motivações que levaram os seres humanos a pensar e representar suas vidas historicamente. A História da Historiografia aqui debatida ultrapassa – embora não exclua – o debate historiográfico indispensável na discussão especializada e nos projetos de pesquisa; ela procurará, destarte, explorar a riqueza desse campo de pesquisa particular sem isolá-lo do conjunto maior do qual faz parte.

Periodicidade quadrimestral.

Acesso livre.

ISSN 1983-9928

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Projeto Memória da Administração do Estado de Minas Gerais (1889-1945) / Revista do Arquivo Público Mineiro / 2008

República e modernidade em Minas

O presente Dossiê é fruto de mais uma aproximação entre duas instituições que, com orgulho, têm contribuído para o desenvolvimento científico e cultural do Brasil. A Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), desde 2001, implementa o Projeto República: núcleo de pesquisa, documentação e memória. O Arquivo Público Mineiro (APM), responsável pelo mais importante acervo documental referente à história mineira, desenvolve, desde 2005, o Projeto Memória da Administração do Estado de Minas Gerais (1889-1945). Leia Mais

Shamans of the Foye Tree: Gender, Power and Healing Among Chilean Mapuche – BACIGALUPO (C-RAC)

BACIGALUPO, Ana Mariella. Shamans of the Foye Tree: Gender, Power and Healing Among Chilean Mapuche. Austin: University of Texas Press, 2007. 21p. Resenha de: DILLEHAY, Tom D. Chungara – Revista de Antropología Chilena, Arica, v.40, n.1, p.103-104, jun. 2008.

Ana Mariella Bacigalupo’s Shamans of the Foye Tree: Gender, Power and Healing Among Chilean Mapuche is a descriptively rich and theoretically nuanced ethnographic analysis of Chilean Mapuche shamans or machis. Aimed at a wide audience of scholars and students, Bacigalupo raises critical theoretical questions relevant wherever religion, gender and body politics, spiritual power, and the identity of indigenous people in the nation-state intersect. At a time when the world is focused on efforts to understand religious manipulations of politics, political interpretations of religion, and clashes between political agendas and religions of the world, this book sheds light on the complexities and dynamics of these concerns from the viewpoint of indigenous gender structures and practices. Besides being an illuminating ethnography on Mapuche shamanism, Bacigalupo succeeds greatly in problematizing constructions of gender, spiritual power, health and healing, and race and culture, as politically strategic discourses invoked in discrete religious settings that both replicate and challenge modern formations of subjectivity, personhood, and performance. As indicated in the book’s title, a metaphoric centralizing theme is the foye or cinnamon tree, which serves as a source of symbolic healing and medicinal qualities, as well as a sacred emblem of shamanic authority and ritual performance.

Specifically, Bacigalupo hails the importance of examining the margins of indigenous shamanism in Chile to understand the subjective workings of the state apparatus as it affects the Mapuche and linkages between local and national ideologies. In using conceptual constructs drawn from anthropology and other social sciences, her ultimate objective is not just to understand shaman’s lives but also to understand what women’s and men’s shamanic lives can reveal about the cultural construction of self and about the workings of the wider religious and political system of the Mapuche within the Chilean nation-state. Herein lies an important lesson for anthropologists about the value and relevance of the discipline to understanding wider political processes and to processes of subject formation.

Anthropological attention to processes of subject formation has generated critical observations regarding how these processes change over time and space, doing much to ground and specify the theoretical insights of other fields as well. Scholars have demonstrated how groups of people make and remake themselves through the prisms of race, class, gender, occupation, and ethnicity-categories that have been linked to “culture” in different ways at different historical moments. Set in this context, Bacigalupo explores how the subject formation of biological sex can mask other important issues such as gendered constructions of sexuality and personhood and ruptures in shaman gendered and sexual identities. Bacigalupo’s theoretical departure draws on the works that examine both female and male shaman’s strategy responses to current circumstances within a changing Mapuche society, emphasizing both boundary crossing and production. The most vivid illustration of these dynamics is an examination of the significance of balanced, gender-salient power in traditional and contemporary healing practices based on ancestral worship and spirituality. Bacigalupo’s mapping of this particular case also illustrates how state-making apparatuses can be utilized by indigenous authorities to reinforce and transgress cultural and gender boundaries for achieving similar purposes: economic or political gain and the disruption or reinforcement of structures of traditional authority. In this regard, Bacigalupo is especially intuitive in seeing that the gender divisions of labor and the social position of both men and women have the potential to shape shamanism and its aesthetic and healing values.

Above all, the book is an effort informed by the complementary expertises of Bacigalupo as an ethnographer, ritual practitioner, and historian. The ethnography explores the complex ways in which indigenous cultural traditions interplay with the increased introduction of new and different non-ethnic ideologies, engaging state politics and leading, in some ways, to revitalized shaman renewal ceremonies that have invigorated gender political identities. Bacigalupo, as a historian, documents transformations as a religion oriented toward universal accessibility of shamanic teachings irrespective of gender and political status. And Bacigalupo, as an ethnographer practitioner brings vivid color and accuracy to the healing practices and spiritual beliefs of modern-day Mapuche machis. She demonstrates clearly how region wide patterns of healing authority, grounded already in a shared set of cultural resources, are shaped by responses to shared threats from both inside and outside the indigenous culture. Bacigalupo also points out that Mapuche shamans previously have either been examined in terms of spiritual labors and performers or not given much attention at all. When given attention, most studies have situated shamans within marginalized social settings that convey an artificial boundedness that does not always account for the real life-dynamics of the religious and political geography of shamans and their realistic identities within their own society.

Shamans of the Foye Tree stresses the importance of gendered power relations, which is a neglected topic in Mapuche ethnographies and in shaman studies in general. In this regard, this book represents a significant anthropological contribution to round out a picture of cross-gender shamanism in a modern world. Aside from gender identity and shaman’s sexualities, Bacigalupo deals with machi’s construction of authority in the Chilean neo-liberal state, in which machi are usually typed by the state as sorcerer’s and sexual deviants. But Mapuche healers are therapeutic and political entrepreneurs, often creating social hierarchies of both healing practices and institutionalized personhoods among themselves and others. Coming into view in this study are the new ways in which nationalist politics engage with Mapuche shaman renewal and its encounter with western religious sects, and the ways in which these encounters impact the effort to more strongly assert indigenous gender and occupational (shaman) identity. While not discounting traditionalist tendencies of resistance and revival, Bacigalupo is specifically interested in demonstrating how reaffirmation of practices of shamans has the means through which modernist forms can be adopted by local communities undergoing rapid change. Two of the several major contributions of this book are the insights that Bacigalupo provides into the thinking of some of the shamans who shape their society and into machi perceptions of themselves and of their place in the world. The result is a splendidly rendered ethnography that advances a wealth of informed analysis about specific renewal rituals and gendered power relations while suggesting many insights into the process of gendered shamanistic practices throughout the region.

All in all, this book provides plenty of new data, ideas, and questions for a wide range of scholars and students in studies of shamanism, gender, power and hierarchies, and identity politics. The book is destined to make a wide mark on the field, because of the broader intersection between gender, politics, and religious interaction that is at its core. Shamans of the Foye Tree is a must read for any scholar and student interested in these topics and in South American indigenous groups.

Tom D. Dillehay – Vanderbilt University, Nashville, USA. E-mail: tom.d.dillehay@vanderbilt.edu

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Contra la Tiranía Tipológica en Arqueología: Una Visión desde Suramérica – GNECCO; LANGEBAEK (C-RAC)

GNECCO, Cristóbal; LANGEBAEK, Carl Henrick. (Editores). Contra la Tiranía Tipológica en Arqueología: Una Visión desde Suramérica. Bogotá: Facultad de Ciencias Sociales, CESO, Universidad de los Andes, Ediciones Uniandes, 2006. 272p. Resenha de: LOZA, Carmen Beatriz. Chungara – Revista de Antropología Chilena, Arica, v.40, n.1, p.99-102, jun. 2008.

Ninguna lectura –con un mínimo de atención y sensibilidad– dejaría de presentar y reflexionar sobre este denso, polémico y novedoso libro suramericano, destinado a mostrar la necesidad de sobrepasar los ámbitos de la tipología y, por esa vía, descentrar la narrativa arqueológica de los estrechos límites que imponen los modelos y las categorías. Me refiero a diez ensayos, escritos por un número equivalente de arqueólogos suramericanos, en los que la investigación rigurosa, el espíritu crítico y la claridad expositiva se alían al servicio de la discusión sobre los alcances de la tipología arqueológica. En efecto, se trata de observar cómo las evidencias de la cultura material se colocan dentro de proporciones ordenables, reduciéndolas para convertirlas en suficientemente manejables, obviamente, dentro de una dirección operativa, cómoda y útil, susceptible de atraer numerosos adeptos a esta opción metodológica.

La propuesta del libro es, desde el inicio, provocativa: inventar nuevas categorías, nuevas formas de interpretar, nuevas propuestas analíticas a la luz de una evaluación de la literatura teórica y un análisis de la información arqueológica. Ese ofrecimiento se concretiza en un libro que se posesiona de manera directa “en contra de la tiranía” tipológica, expresada en una aplicación automática, irreflexiva, apolítica y poco crítica de los datos arqueológicos suramericanos. Por esa razón, los autores se adhieren a varios postulados básicos. Uno de ellos, considerar que la universalización se produce a condición de que la teoría que construye las tipologías requiera que ese criterio se cumpla. El otro postulado, prevenir sobre la supuesta neutralidad objetiva de la tipología, a la cual califican de un producto social como cualquier otro. Por eso mismo aseguran que no “…escapan de la lucha ideológica; no son inocentes construcciones y neutras sino dispositivos de poder…” (Gnecco y Langebaek 2006:ix).

De ahí que utilicen los postulados señalados como leitmotiv de los ensayos escritos en base a los datos arqueológicos provenientes de diferentes estudios de caso. Todos los autores proponen lecturas que “cuestionan la tiranía del pensamiento tipológico” en sus formas abusivas y dominantes. Sin que ello signifique emplearla desde una perspectiva no prescriptiva, más bien crítica y heurística que conduciría a formular interpretaciones “alternativas y sugerentes”, es decir, propuestas transitorias, provocativas a las interpretaciones reiterativas que confirman, una y otra vez, los modelos institucionalizados, forzando muchas veces los propios datos para que coincidan con estos últimos.

¿Cómo ese grupo de arqueólogos suramericanos plantea tamaño desafío metodológico?, ¿cuáles son los ámbitos que se dedican a estudiar y sobre qué tipo de evidencia?, ¿cómo se posesionan con relación a la tipologización desde sus estudios de caso? Los diez ensayos independientes que componen el libro han dado respuestas a estas interrogantes. Cada respuesta es, sin duda, única. No sólo porque hay estudios de caso donde se discute el manejo de la tipología en condiciones específicas de su aplicación, sino porque cada texto está sujeto a condicionamientos propios de su objeto de análisis y de sus horizontes ideológicos. Esto no quita que, vistos los capítulos en su conjunto, las respuestas esbozadas por todos ellos presentan también rasgos comunes, preocupaciones similares, idénticos desafíos metodológicos, entregándonos una imagen unitaria de los peligros de una tipologización.

El primer capítulo, escrito por la investigadora Cristina Barreto desde Brasil, guarda distancia del determinismo ecológico a pesar de su popularidad. Más bien, la autora construye su narración recordando los prejuicios con que se ha mirado a las sociedades de las tierras bajas del subcontinente –considerándolas carentes de complejidad; luego, de simples e igualitarias y, finalmente, limitadas en sus estructuras políticas jerárquicas. A partir de esas lecturas que provienen de la arqueología y de la analogía etnográfica, la autora se pregunta: ¿Por qué no se desarrollaron sociedades más complejas en la región o por qué no duraron mucho en el proceso evolutivo de la sociedad? La respuesta la bosqueja apoyada en un examen crítico y agudo de los modelos de evolución social fuertemente influenciados por el determinismo ecológico. Para Barreto, estos modelos habrían tenido un rol de “plaga” que se propaga en la comprensión del desarrollo evolutivo de las sociedades amazónicas. Sin embargo, sus datos contradicen los modelos de desarrollo cultural amazónico que enfatizan limitantes ecológicos y que tienden a explicar cualquier asentamiento grande en la región como consecuencia de ocupaciones repetidas de lugares favoritos. Barreto invita a considerar las particularidades locales, los fenómenos sociales (como la demografía, la intensificación ritual, la movilización de la fuerza de trabajo) y la constitución y mantenimiento de interacciones supralocales para tener una visión más integral.

El segundo capítulo discute el llamado “Sistema de interdependencia regional” del Orinoco en Venezuela, caracterizado por la horizontalidad política y la complementariedad ecológica. Rafael A. Gasson realiza un detallado balance bibliográfico con la particularidad de contrastar datos sobre el problema de las organizaciones políticas del área. La pregunta que lo guía es: ¿cómo estaban estructurados los sistemas durante la época prehispánica y qué relación existió entre las organizaciones sociopolíticas del área y el tamaño y complejidad de los sistemas? Para ello, escudriña las definiciones y controversias acerca de los sistemas regionales de intercambio. De ello deduce que no hubo un macrosistema regional de interdependencias en el Orinoco, sino más bien sistemas y subsistemas regionales de intercambio. Asimismo, invita a desechar la visión primordialista a favor de “una perspectiva que tome en cuenta la diversidad, la complejidad y la prioridad explicativa de los procesos históricos” a partir de nuevos datos (Gasson 2006:47).

Siguiendo con el terreno venezolano, el tercer capítulo, de Rodrigo Navarrete, estudia los palenques y empalizadas, a partir de una revisión del problema de la complejidad social durante el período del contacto en el oriente de Venezuela. Partiendo de una perspectiva de análisis bibliográfico cronológico, desarrolla una narrativa lineal para entender la información etnohistórica, etnográfica y arqueológica como documento iluminador de la depresión del Unare. Repasa detalladamente la visión europea temprana, prestando atención a los palenques complejos dejando al descubierto “los silencios” existentes en las fuentes sobre las mujeres y sobre los individuos no pertenecientes a las élites, producto de una representación eurocéntrica, andinocéntrica y elitista (Navarrete 2006:61). Con el propósito de complementar esas visiones se adentra en las referencias coloniales tardías para mostrarnos una mutación gradual de los palenques. Finalmente, ese recorrido lo conduce a afirmar que: “Las diferencias en las versiones de este pasado específico no están sólo determinadas por diferencias metodológicas sino por interpretaciones y posiciones de los autores” (Navarrete 2006:66). Por esa razón, el autor sugiere como derrotero establecer un análisis donde la cultura material tenga un papel comunicativo justo ahí donde no existen documentos. Obviamente, considerando “las transformaciones sociopolíticas Palenque y los cambios de los diferentes intereses políticos de los actores sociales que escribieron los documentos, de quiénes produjeron sus prácticas materiales en la vida cotidiana y de los antropólogos que las interpretaron” (Navarrete 2006:67).

Alejandro F. Haber, en el cuarto capítulo, nos introduce al problema de la relación entre la caza y la domesticación, alejándonos de las causalidades unidireccionales y determinismos para concentrarse en la vicuña, a partir de los estudios de la Puna de Atacama. Dicho estudio parte del postulado de renunciar a “aplicar sobre el mundo un pensamiento tipológico que lo interpreta según la realidad virtual sostenida por las grandes narrativas teóricas”, razón por la cual prefiere atender a las teorías locales acerca de las condiciones de las relaciones entre los seres del mundo. Apoyado en datos etnográficos y lingüísticos quechua-aymaras se adentra en la búsqueda de categorías explicativas que den cuenta de las relaciones domésticas y los vínculos de los hombres con los animales silvestres. Recoge el concepto de uywaña para explicar la producción y reproducción de las vicuñas; pero, también para entender las relaciones entre los humanos y no humanos.

El quinto capítulo es redactado por Andrés Laguens sobre el espacio social y recursos en la arqueología de la desigualdad social. Apoyado en los conceptos “campo y espacio social”, provenientes de la teoría del sociólogo francés Pierre Bourdieu, desarrolla una estrategia para entender las desigualdades sociales preeuropeas. Dicha propuesta es presentada en toda su amplitud. En primer lugar, a partir de un inventario sumamente cuidadoso de los conceptos que son utilizados en el análisis, por ejemplo desigualdad, diferenciación, clase, campo social o recursos. Esta revisión es capital para dar cabida a las elecciones metodológicas cuali-cuantitativas para la definición del espacio social desde el registro arqueológico del valle de Ambato, en Catamarca, entre los siglos VI y XI a.C. Con la ayuda de ese arsenal teórico, el autor logra determinar que el volumen y la estructura de los recursos son dos dimensiones descriptivas importantes en la caracterización de la desigualdad social, siendo esta última una dimensión relacional, relativa y multidimensional.

El sexto capítulo, de Axel E. Nielsen, está destinado a mostrar que las tipologías neoevolucionistas son herramientas teóricas inadecuadas para conceptualizar los procesos sociales que permiten el tránsito del período Medio al período Intermedio Tardío. Pero, sobre todo, impiden aprehender el modelo de “jefatura” y su aplicación al noroeste argentino. Tal constatación se desprende de un análisis minucioso de las variables utilizadas en determinados contextos que permitieron la formulación de los modelos, pero también de las transformaciones sociales andinas en las jefaturas del siglo XVI. Considerando sobre todo literatura etnohistórica y etnográfica andina plantea los rasgos del espacio social andino y deduce que el modelo etnohistórico se ajusta más a la interpretación del registro arqueológico del período de Desarrollos Regionales.

El séptimo capítulo, de Víctor González, presenta una evaluación de un modelo de localización geográfica de asentamientos en Alto Magdalena. Se trata de ver hasta qué punto se cumplen las expectativas teóricas y hasta qué punto podemos caracterizar los cacicazgos agustinianos como sistemas tributarios. Apoyado en el empleo de patrones geográficos para señalar la disposición espacial de los centros monumentales, señala la disposición espacial de dichos centros.

El octavo capítulo, redactado por Wilhelm Londoño, se centra en discutir el estereotipo de cacicazgo en Tierradentro, a partir de una narrativa que contrasta los datos etnohistóricos y arqueológicos para mostrar la diferenciación social en el sur occidente de Colombia. A su manera, desea contrarrestar la transferencia del derrotero histórico de occidente al resto de las culturas pasadas y presentes. Dicha tarea la realiza repasando los conceptos y planteamientos de Reichel-Dolmatoff y de sus sucesores, los cuales son discutidos y presentados ampliamente, mientras que para tener una idea del manejo de artefactos que se empleaban todavía en el contexto colonial ceremonial, se ahonda en el registro etnohistórico para comprender el universo indígena simbólico.

Cristóbal Gnecco, en el noveno capítulo, discute el concepto de desarrollo prehispánico desigual en el sur occidente de Colombia. En realidad, se ataca al desarrollo por su “pesada carga política, por sus connotaciones evolucionistas que fundan el orden colonial” (Gnecco 2006:191). Una manera de hacerlo es ahondar en la forma en que diversos estudiosos fueron construyendo sus marcos conceptuales, pero además rastreando cómo éstos fueron influyendo en las explicaciones e interpretaciones sobre las entidades prehispánicas. Examina las relaciones intrarregionales ahondando sobre los objetos que circulaban y las trayectorias que debieron seguir.

Finalmente, el último capítulo, escrito por Carl Henrik Langebaek, muestra la posibilidad de inferir analogías de los documentos y la etnología para la comprensión de la sociedad muisca. Se trata de advertir al lector acerca de la manera en que se está asumiendo la información etnohistórica, cuyos resultados son muchas veces discutibles y merecen una revisión más detallada.

En suma, esta obra fundadora nos muestra la madurez en los estudios arqueológicos suramericanos, al probar extensamente que las más recientes investigaciones no se construyen como simple reflejo de teorías, modelos y categorías replicadas redundante e irreflexivamente. Mas, al contrario, los ensayos prueban que se trata de deconstruir las narrativas del pasado en la búsqueda de una coherencia interna entre datos de cultura material y teoría. No deja de sorprender, sin embargo, la falta de una síntesis final que redondee lo planteado en la decena de ensayos y establezca las relaciones existentes entre los textos, en sus propuestas metodológicas y datos arqueológicos. La corta introducción no llega a llenar ese importante vacío del libro.

En el libro hubiese sido importante utilizar otros notables contraejemplos provenientes de Bolivia, Chile, Ecuador y Perú para tener un verdadero panorama de los cambios que se están operando a nivel teórico y conceptual en la arqueología suramericana. Estamos seguros de que los mismos habrían complementado mucho lo realizado por los autores desde Argentina, Brasil, Colombia y Venezuela. Señalo esto porque el peso específico de la arqueología andina en Suramérica es gravitante en la actual configuración continental. Además, más allá de ofrecernos contraejemplos, la arqueología andina habría aportado mucho con el manejo de las fuentes etnohistóricas y los datos etnográficos por el mismo hecho de poseer una larga tradición en ese campo. Aunque hay, ciertamente, varios ensayos que han mostrado una sensibilidad particular por el manejo de la información documental llamada “etnohistórica”, esta información debe ser leída cuidadosamente porque también es reflejo de una ideología y producto de un contexto histórico específico.

Sea como fuere, las reflexiones y el trabajo de campo realizados por los arqueólogos que produjeron este libro son una muestra de que la institucionalización de la arqueología en una parte de Suramérica ha sido un factor que coadyuvó la construcción de una arqueología crítica. Esto se debe a la influencia de factores económicos y políticos que permiten a los arqueólogos de los países desde donde se trabajó el libro, tener mayores recursos para sus investigaciones y la prueba es la confección editorial de este libro desde la Universidad de los Andes. Los arqueólogos que lo escribieron se hallan trabajando en países donde la investigación científico-arqueológica cuenta con el respaldo de una estabilidad institucional, la cual, en la práctica, no es homogénea a todos los países sudamericanos y, en menor medida, a los andinos. La discusión sobre tipología en algunos países no es el centro del debate, pues existen actividades de rescate y conservación que ocupan gran parte de su trabajo y reflexión.

Carmen Beatriz Loza – Directora de Investigación INBOMETRAKA, La Paz. E-mail: lozaquipu@yahoo.es

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Microfísica do Poder | Michel Foucault

Um dos mais célebres pensadores do século XX, Michel Foucault escreveu textos que são considerados tratados na área de Ciências Humanas. Suas principais temáticas versam sobre sexualidade, poder, loucura, discurso, instituições, disciplina, vigilância… Ele não pode ser enquadrado em nenhuma categoria pré-estabelecida, pois seus trabalhos transpassam as Ciências Humanas de ponta a ponta.

O tema dos artigos, entrevistas e aulas que originaram o livro Microfísica do Poder, publicado pela primeira vez no Brasil em 1979 pela editora Graal, gira em torno da questão do poder nas sociedades capitalistas. É através da análise de dispositivos de segurança que Foucault fará o inventário da relação entre segurança, população e governo, assunto principal desta resenha.

Esse texto é uma versão da aula dada por Foucault no Collége de France em primeiro de fevereiro de 1978. O autor principia seu texto sobre governamentalidade, o último da série de XVII capítulos que constam no livro supramencionado, fazendo uma análise genealógica dos tratados sobre a arte de governar do século XVI ao século XVIII. O problema do governo havia sido remodelado no século XVI: problema do governo de si, governo das almas e das condutas, tema da pastoral católica e protestante, governo das crianças… Como governar? Como ser governado?

Esses questionamentos tiveram palco no século XVI devido a dois fatores: o movimento de concentração estatal que começava a instaurar os grandes Estados territoriais e a superar a idéia de feudalismo e, por outro lado, o movimento de dispersão e desavença religiosa encabeçado pelas Reforma e Contra-Reforma.

Foucault optou por opor a literatura emergente sobre a arte do governar a um único texto que segundo ele “do século XVI ao século XVIII, constitui um ponto de repulsão, implícito ou explícito, em relação ao qual – por oposição ou recusa – se situa a literatura governo: O Príncipe, de Maquiavel” (p. 278).

Antes de ser recusado, porém, o livro de Maquiavel foi reverenciado pelos seus contemporâneos e imediatos sucessores e retomado também ainda no início do século XIX quando desaparece a literatura da arte de governar e se coloca a questão de “como e em que condições se pode manter a soberania de um soberano sobre um Estado” (p. 278).

Nesse intervalo de tempo, porém, houve uma considerável produção de literatura anti-Maquiavel, umas claramente explícitas, outras nem tanto; livros de origem católica ou protestante. Foucault escolheu trabalhar o viés positivo dessa literatura, seus objetivos, conceitos e estratégias. Porém o aspecto negativo do pensamento de Maquiavel é o que mais salta aos olhos. Essa literatura da arte de governar vai contra um Príncipe caracterizado em Maquiavel como exterior a seu principado, transcendente, que recebe seus súditos como herança, aquisição ou conquista. Os laços que o unem aos seus súditos são de violência, de tradição; são artificiais, não existe uma ligação fundamental, jurídica, natural entre as partes. A relação, portanto, é tênue, frágil e pode ser abalada por fatores externos e internos. Nesse contexto o objetivo do exercício de poder, portanto é o de reforçar e manter os laços do príncipe com o que ele possui, com o que herdou ou adquiriu (território e súditos). É exatamente esse esquema proposto por Maquiavel que a literatura da arte do governar quer substituir.

O primeiro texto anti-Maquiavel que será analisado por Foucault é Espelho político contendo diversas maneiras de governar [minha tradução], de Guillaume de La Perrière. Foucault inicia pela análise morfológica do que La Perrière entende por governante e enfatiza que também se diz governar uma casa, um estabelecimento, uma ordem religiosa. Nessas literaturas da arte de governar, o príncipe não é o único em seu principado, como é o príncipe “maquiavélico”. A arte de governar mostra que há várias formas de governar, há várias pessoas que exercem essa função, são práticas coletivas de exercício de poder, onde o Estado é apenas mais uma modalidade. Maquiavel propõe uma singularidade transcendente do príncipe enquanto a literatura da arte de governar propõe uma pluralidade de formas de governos.

Na análise do texto seguinte de La Mothe Le Vayer, que escreveu um século depois de La Perrière, Foucault ressalta a tipologia das diferentes formas de governo que segundo Le Vayer são três: “O governo de si mesmo, que diz respeito à moral; a arte de governar adequadamente uma família, que diz respeito à economia; a ciência de bem governar o Estado, que diz respeito à política” (p. 278).

Na literatura da arte de governar há uma harmonia, uma continuidade (ascendente ou descendente) entre ética, economia e política; enquanto que na doutrina do príncipe há uma descontinuidade entre o poder do soberano e as demais formas de poder. Foucault cita, inteligentemente embasado na literatura da arte de governar, que se alguém quer governar o Estado deve antes saber governar a si, sua família, seus bens (em continuidade ascendente). E a continuidade descendente quer dizer que quando um Estado é bem governado, os pais de família sabem governar a si próprios, suas famílias, seus bens; e assim os indivíduos se comportam adequadamente. A instituição governamental que assegura a continuidade decrescente do bom governo do Estado passou a chamar-se Polícia. Inicia-se, assim, com a continuidade decrescente e a institucionalização da Polícia, uma coerção e vigilância sobre sujeitos individuais e as práticas coletivas.

O governo da família, que diz respeito à economia, é o elemento central da continuidade – seja crescente, seja decrescente. O papel essencial do governo foi mesclar em sua arte de governar a economia familiar e o exercício político, vigiando os habitantes, as riquezas e os comportamentos individuais e coletivos como um pai de família (p. 281).

Com o estudo filológico, sociológico e histórico da palavra “economia”, Foucault foi capaz de afirmar que no século XVI esse termo significava uma forma de governo, e no século XVIII será entendido como uma realidade, “um campo de intervenção do governo através de uma série de processos complexos absolutamente capitais para nossa história” (p. 282).

Foucault analisa os elementos que constituem o objeto de exercício de poder, ou melhor, quais são os encargos do governo. Há uma diferença de abordagens entre Guillaume de La Perrière, que vê o governo como aquele que conduz coisas a um fim conveniente, enquanto que Maquiavel entende que governar significa exercer poder sobre um território e seus habitantes. Há que ser explicado, porém, que para La Perrière “coisas” significam as relações sociais, quer seja entre homens, com as riquezas, objetos, instituições, recursos, território e fronteiras, costumes, hábitos, cultura, acidentes, desgraças, fome… Foucault exemplifica sobre governo de “coisas” falando sobre o funcionamento de um navio. Quem quer que seja o governante, ou qualquer outra determinação que o valha, terá de exercer seu poder sobre a nau, a carga, bem como prestar atenção no mar, se ocupar dos passageiros e dos marinheiros… “O essencial é portanto este conjunto de coisas e homens; o território e a propriedade são apenas variáveis” (p. 282).

Segundo a afirmação de La Perrière “governo é uma correta disposição das coisas de que se assume o encargo para conduzi-las a um fim conveniente” (p. 283). Essa passagem esclarece que a finalidade é intrínseca ao governo e é esta característica que o diferencia da soberania. A finalidade do exercício da soberania é o bem comum e a salvação. Sobre autoridade e soberania, Pufendorf, um autor do século XVII, cita: “Só lhe será conferida autoridade soberana para que ele se sirva dela para obter e manter a utilidade pública” (p. 283).

Para La Perrière, porém, a finalidade do governo não está no bem comum, mas sim na condução das coisas a um objetivo adequado a cada uma delas, portanto os seus fins são múltiplos e específicos. Para que atinja seus propósitos, a teoria do governo não estabelece leis aos homens, utiliza-se, pois, mais de táticas do que de leis, ou faz das leis, táticas. Não é, pois, através da lei que os objetivos do governo são atingidos.

É importante entender em que contexto pôde emergir a teoria da arte de governar no século XVI. Ela estava ligada ao aparelho administrativo monárquico territorial, ao conhecimento da ciência do Estado e estava intimamente relacionada com as práticas mercantis.

É no final do século XVI e início do século XVII que há uma primeira forma de cristalização da arte de governar devido à racionalização do Estado que “se governa segundo as regras que lhes são próprias” e tem sua própria racionalidade (p. 286). Pode-se entender que esta razão de Estado foi um entrave para o desenvolvimento da arte do governo que durou até o início do século XVIII.

Esta cristalização deveu-se a uma série de grandes crises do século XVII, momentos de urgências militares, políticas e econômicas que impossibilitavam a arte de governar de se expandir. A estrutura institucional e mental do século XVII também contribuiu para este bloqueio. Com a primazia do problema da soberania e suas instituições e enquanto o exercício do poder era pensado como exercício da soberania, “a arte do governo não pôde se desenvolver de modo específico e autônomo” (p. 286).

Houve, no século XVII, uma tentativa de compor a arte de governo com a teoria da soberania. Foi através dessa tentativa que se formulou a teoria do contrato: “a teoria do contrato fundador – o compromisso recíproco entre soberano e súditos – se tornará uma matriz teórica a partir de que se procurará formular os princípios gerais de uma arte de governo” (p. 286).

O desbloqueio da arte de governar, portanto o fim da cristalização que estamos comentando, se deu por vários fatores de expansão (demográfica, monetária, agrícola), mas, sobretudo, está estritamente vinculada com a “emergência do problema da população” (p. 288). Com esse novo problema posto, pode-se repensar a noção de economia não mais vinculada estritamente à família. A família estaria agora no interior da população e seria seu instrumento fundamental. Porém a população tem características próprias e produz efeitos econômicos específicos, independentes dos da família. A família, então, passa de modelo econômico da arte de governar a segmento privilegiado da população. O que permite, portanto, o desbloqueio da arte de governar é a população ter eliminado o modelo de família de constituição do governo.

O novo conceito forjado no século XVII de economia política só pôde existir devido à concepção da população como o novo objeto do governo. Bem como o a passagem da arte de governo a uma ciência política, e de um governo com técnicas e modelos da soberania para um regime de técnicas de governo, só pôde existir em torno da população, quando a idéia de família como sustentáculo econômico havia sido superada.

O conjunto configurado no século XVII entre governo, população e economia é o modelo que predomina em nossos Estados. Há ainda que se questionar sobre o que é esse Estado. Foucault diz: “o Estado não é mais do que uma realidade compositória e uma abstração mistificada, cuja importância é muito menor do que se acredita” (p. 292).

O Estado deve ser entendido, atualmente, a partir do seu modelo de governamentalidade e não de estatização. Foucault termina o texto dizendo que suas próximas aulas no Collège de France continuariam tratando desse assunto e finaliza com a afirmação de que: a “pastoral, novas técnicas diplomático-militares e finalmente a polícia” (p. 293) foram os três pilares sobre o qual se fundou a governamentalização do Estado.

Bibiana Soldera Dias – Licenciada e Bacharel em História pela Universidade Federal de Santa Catarina. Mestranda na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (bolsista do CNPq). E-mail:  bibiana.dias@gmail.com

FOUCAULT, Michel. A Governamentalidade. In: Microfísica do Poder. 11ª Ed. Rio de Janeiro: Graal, 1993. Resenha de: DIA, Bibiana Soldera. Aedos. Porto Alegre, v.1, n.1, p. 325-329, jun. / dez., 2008.

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História e Esporte / Revista do IHGB / 2008

A segunda revista do ano de 2008 apresenta um formato que idealizamos, há 8 anos, quando chegamos, por convite do Sr. Presidente do IHGB, à direção da mesma a saber: a seção de dossiê, nesse caso abordando estudos variados sobre a História e Esporte, fruto de um curso planejado por Mary Del Priore e Vitor Andrade de Melo, a de discursos, a que agasalha as comunicações e a de documentos inéditos. Não fizemos, neste número, por espaço, a seção de resenhas.

O Dossiê desta revista 439 dedica-se a trabalhos especiais sobre História e Esporte, tema dos mais abordados pela moderna historiografia, que privilegia a múltipla observação, apresentando os seguintes artigos: O que é Sport Tensões na definição do campo esportivo na cidade do Rio de Janeiro do século XIX de Victor Andrade de Melo; Futebol e política, nações em jogo de Maurício Drumond, Esportes na natureza e urbanização uma conexão de significados de Cleber Augusto Gonçalves Dias, Primórdios do futebol na Cidade do Rio de Janeiro de Giomar Mascarenhas, A História da bicicleta e do ciclismo de André Maia Schetino, Futebol e racismo no Brasil de Ricardo Pinto dos Santos e finalmente Esporte na Grécia Antiga de Fábio de Souza Lessa.

Os trabalhos foram selecionados por Mary Del Priore e foram fruto de um curso oferecido no IHGB com a participação de uma grande equipe do IFCS / UFRJ / Programa de Pós-graduação em História Comparada, sendo conduzido por professores daquela instituição.

Apresenta na seção Discursos e Conferências o discurso de posse e a saudação ao sócio que recentemente nos chegou, a saber, professor Ondemar Ferreira Dias Junior, arqueólogo e grande historiador aposentado por Cybelle de Ipanema.

Incorpora como Comunicações nove expressivos trabalhos. Essa seção tem por finalidade apresentar pequenos estudos ou palestras apresentadas na Cephas mas, neste número, juntamos trabalhos de fôlego aos pequenas estudos e palestras e que foram deslocados para esta seção em função do dossiê.

Cinco estudos são de professores ou pesquisadores de diversas instituições e quatro são de sócios do IHGB. De produção exógena temos: o estudo sobre Santos Simões e o Patrimônio Histórico e Artístico Brasileiro da doutoranda Maria Eduarda Magalhães Marques, da PUC-Rio, o ensaio de Ângela / Domingues sobre O Brasil nos relatos dos viajantes ingleses do século XVIII, A mobilização e os Voluntários da Pátria no Maranhão do historiador piauiense Jony Santana de Araujo, o estudo da Contribuição do naturalista José Bonifácio de Andrada e Silva de Alex Varela e o ensaio sobre a Questão indígena em 1808 do historiador Marco Morel. Os quatro outros estudos são de nossos membros: Arno Wehling com o Absolutismo e Regalismo: a alegação jurídica do bispo Azeredo Coutinho, Associativismo científico no Brasil Imperial e a Sociedade Palestra Scientífica de Melquíades Pinto Paiva, o estudo sobre o Centenário de Luiz Viana Filho de Edivaldo Boaventura e finalmente o excelente trabalho da sócia arqueóloga Maria da Conceição Beltrão sobre Ruínas do Convento de São Boaventura Vila de Santo Antonio de Sá.

Apresentamos como Documentos a contribuição de Rafael Chamboulevron sobre o Regimento enviado para Gomes Freire, governador do Maranhão.

Temos assim dezesseis longos trabalhos dos quais somente quatro foram realizados por nossos sócios cumprindo a observação da CAPES de que a Revista não deverá ser endógena.

Distanciados das atividades especificamente acadêmicas como são os Programas de História, nosso Instituto e consequentemente nossa Revista, cumpre sua missão e objetivos: apresentar ao público em geral, historiadores, sociólogos e cientistas políticos, as contribuições mais recentes da produção dentro dessas áreas.

Miridan Britto Falci – Sócia titular – Diretora da Revista.


FALCI, Miridan Britto. Apresentação. Revista do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro. Rio de Janeiro, v. 169, n.439, p.7-8, abr./jun., 2008. Acesso apenas pelo link original[DR].

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Intolerâncias / Antíteses / 2008

Editorial

Apresentar este segundo número de Antíteses tem um significado especial, já que tínhamos que lhe dar continuidade, depois de um auspicioso início, não apenas para confirmar o que havia sido realizado, mas também para ampliar seus horizontes, num caminho que, almejamos, seja muito longo e próspero.

O padrão de qualidade da revista vem se mantendo, contando com um quadro de consultores e colaboradores de ampla abrangência institucional, enriquecendo seu processo interno de trabalho. Os textos que aqui incluímos confirmam, assim, que a construção do conhecimento é uma tarefa coletiva, à qual todos nós nos dedicamos.

Estes primeiros meses de vida da Revista Antíteses têm sido intensos e, devido às novas tecnologias, o impacto foi além do esperado, pois conseguimos nossa primeira indexação, com a inclusão da revista no Latindex, situação que, a partir de agora, será intensificada com novos pedidos em bases nacionais e estrangeiras, possibilitando, assim, maior visibilidade e oportunidades de atingir um público mais vasto.

Fizemos também várias inovações internas, além da nova versão da página, com maiores aplicativos, incluímos as seções Primeiros Passos, aberta para os estudantes de graduação e pós-graduação do Departamento de História da Universidade Estadual de Londrina; resumos de Teses e Dissertações; e Análises Bibliográficas. Pretendemos, dessa forma, contribuir tanto para o processo formativo do corpo discente, quanto para a discussão de temáticas nas quais se dialogue com um conjunto amplo de autores e ainda divulgar a importante produção do nosso Departamento.

Passando a tratar do conteúdo das colaborações incluídas neste número, destacamos que as “Intolerâncias”, temática do dossiê, permitiram abordar uma multiplicidade de objetos e abranger espaços distantes que, mesmo não sendo sua pretensão inicial, terminou por formar microcosmos articulados que permitem o diálogo entre diferentes textos.

No primeiro grupo, são abordadas as intolerâncias contra diferentes grupos étnicos durante o fim do período medieval e na Idade Moderna, em especial para com os judeus, em territórios do império português. Patrícia Souza de Faria e Carlos Eduardo Calaça se debruçam sobre o estudo desse assunto na Espanha, em Goa e no Rio de Janeiro.

O racismo contra os negros, que ainda dilacera muitas sociedades, foi abordado por Valeria Lourdes Carbone e Elaine Pereira Rocha, num diálogo multidisciplinar entre a história e a literatura, para os Estados Unidos, a África do Sul e o Brasil, debate que as instituições brasileiras e, em especial a Universidade Estadual de Londrina, têm promovido intensamente nestes últimos anos.

A intolerância política centrada no anti-comunismo perpassa os textos de Cristiano Cruz Alves, Marylu Alves de Oliveira e Alicia Servetto, que embora tratando de regiões distintas como Piauí, Bahia e Córdoba, na Argentina, são elucidativos de processos mais amplos.

De certa forma, o trabalho de Fernando da Silva Rodrigues terminou por articular o estudo dessas três formas de intolerância dentro do exército brasileiro, trazendo contribuições inéditas para as discussões que seguramente serão prosseguidas no evento da Associação Brasileira de Estudos da Defesa, que promoveremos no mês de julho deste ano, e no respectivo dossiê, a ser publicado na revista.

Gabriel Giannattasio e Rodrigo Poreli nos proporcionam um olhar sobre a vadiagem e vidas transgressoras, discorrendo sobre o assunto por várias épocas históricas até chegar a uma singular série de eventos que ocorreram na cidade de Londrina e arredores, que fez aflorar atitudes de repulsa para com comportamentos diferentes.

Na seção artigos, Vanessa Cristina Santos Matos propõe um estudo teórico, na perspectiva historiográfica, para articular os conceitos de gênero e classe no processo de produção e reprodução da força de trabalho, os que, muitas vezes, têm estado dissociados.

Através de suas resenhas, Victoria Baratta e Leonardo Simonetta, nos oferecem análises acerca de obras de autores argentinos que abordam questões medulares da historiografia de minha pátria natal e país irmão, como o caudilhismo e o doloroso processo de integração nacional, que esclarecem sobre as formas de construir a ordem naquele espaço.

Inaugurando a seção Resumos de Teses e Dissertações, nossa colega, Regina Célia Alegro, nos brinda a possibilidade de conhecer seu trabalho de doutorado em Educação, que fora defendido na Universidade Estadual Paulista “Julio de Mesquita Filho”, campus de Marília. Aproveitamos a oportunidade para felicitá-la pela conquista.

No momento da despedida, gostaria de agradecer a todos aqueles que se envolveram para o sucesso do segundo número da revista, em especial a Marco Antonio Neves Soares, coordenador do dossiê, a Laudicena de Fátima Ribeiro, diretora da Biblioteca Central e a Zaqueu Costeski, da Assessoria de Tecnologia de Informática, os três da Universidade Estadual de Londrina, desejar a todos uma boa leitura e solicitar que continuem colaborando, nos diferentes níveis do processo editorial, para que possamos continuar nesta senda, que, a cada dia, se reafirma como instância de debates e trocas, no melhor sentido do termo, imprescindível para o sadio desenvolvimento acadêmico.

Hernán Ramírez –  Editor

Londrina, março de 2009.

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Perspectivas em História Social / Antíteses / 2008

Editorial

Iniciar uma nova revista apresenta sempre múltiplos desafios, principalmente pela força criadora e aglutinadora que esta empreitada leva implícita, já que não depende apenas de nosso esforço único, mas também da ação coletiva e institucional. Por isso, das atividades acadêmicas seja talvez aquela na qual a longa duração se reflita de forma mais contundente. Em Antíteses, projetos individuais, de grupos e oficiais se encontrarão para dar origem a um produto que levará suas marcas e no qual poderão ser perceptíveis seus humores temporais.

O Programa de Pós-graduação em História Social da Universidade Estadual de Londrina abraçou a idéia desta publicação, já que considera o debate a chave para aperfeiçoar o conhecimento e as revistas como um dos instrumentos mais importantes para constituir uma arena onde autores e idéias sejam colocados à disposição pública e divulgados e, com isso, poderão transpor os limites espaciais e temporais aos quais estamos sujeitos.

O nome escolhido para a revista é a primeira amostra dessa intenção, retomando uma palavra que o tempo tinha ossificado decidimos resgatá-la, mas desta vez livre de interpretações que podem gerar preconceitos teóricos, e de alguma forma brincamos com sua natureza polissêmica. Assim, adotando-a como própria, não pretendemos reviver questões ideológicas há muito superadas, mas registra-o como um dos mais importantes objetivos almejados pela revista.

Para alcançar esse propósito, procuramos interagir com um público acadêmico amplo valendo-nos das novas tecnologias e oferecendo diferentes alternativas de participação e discussão. Em primeiro lugar acreditamos na força dos dossiês temáticos, os quais abordarão uma gama de problemáticas consideradas relevantes. Nos artigos de fluxo contínuo os pesquisadores poderão tratar de temas que julguem meritórios, mas que não estejam contemplados nos dossiês em andamento.

Pesquisadores de notório saber serão convidados a expor suas contribuições nos âmbitos nos quais se destacam. Nesta ocasião, Estevão Chaves de Rezende Martins nos proporciona uma reflexão sobre “Memória e experiência vivida: a domesticação do tempo na história”, tema da aula inaugural que deu início ao período letivo de 2009 em nosso programa de pós-graduação, no qual analisa como os atos humanos de lembrar e esquecer se constituem em procedimentos elementares do conhecimento, da coesão social e, por conseqüência, da história.

Com as seções de notas sobre acervos e fontes de pesquisas, nos propomos a constituir uma ferramenta para que os investigadores possam divulgar suas descobertas, inquietações ou caminhos percorridos e, assim, apresentar aos nossos leitores novas possibilidades no âmbito da pesquisa, já que os acervos, por ocasiões tão ricos, encontram-se, muitas vezes, ocultos dos não iniciados que, dessa forma, poderão encontrar auxílios para trilhar suas próprias sendas, ou pontos de encontro para compartilhar suas experiências.

No espaço reservado às entrevistas, pretendemos divulgar opiniões de personalidades e acadêmicos, privilegiando aqueles que sejam pouco conhecidos no Brasil. Com isso, pretendemos contribuir para que outras perspectivas amplifiquem sua voz.

A seção de debates, uma modalidade que há anos era a favorita dos periódicos acadêmicos e que vem praticamente desaparecendo desse meio, foi retomada com força em Antíteses, como um espaço para a polêmica sadia e necessária, sem privilegiar nenhum ponto de vista em particular, permitindo que todos possam dialogar, respeitando as alteridades, sem perder com isso seu sentido original.

Muitas vezes essa prática foi deslocada para as resenhas, estas, aqui, sem perder seu ponto de vista nem esquecer seu lado crítico, serão reservadas para dar conhecimento de obras com méritos diversos a um público mais amplo. Com as traduções, nos propomos colocar à disposição da comunidade acadêmica textos que, apesar de seu mérito, ainda não hajam sido divulgados em nossa língua. Todas essas seções serão coordenadas por nossa colega Silvia Cristina Martins de Souza e Silva.

Por fim, com a seção Primeiros Passos, que será coordenada pelo professor Alfredo dos Santos Oliva, nos propomos a incorporar novos ares às discussões, incentivando, através de chamadas específicas, a participação de nossos acadêmicos da graduação e da pós-graduação a apresentação de artigos produzidos nas pesquisas realizadas na instituição em suas diversas instâncias.

Falando das concretizações deste primeiro número, gostaria salientar o difícil dilema que nos foi colocado pelo Dossiê “Perspectivas em História Social”, que não era outro senão o de tomar a decisão sobre quais colaborações incluir e quais excluir. De certa forma, toda história pode ser considerada História Social, na mesma medida que toda história é História Cultural. Não existe história não social ou história não cultural. Definir os limites desse corte, portanto, não é nada fácil, razão pela qual decidimos deixá-lo a critério do leitor.

Nesse número, o veio teórico-metodológico aberto por Rezende Martins continua, à sua medida, com o artigo de José D’Assunção Barros, que disserta em “História, narrativa, imagens. Desafios Contemporâneos do Discurso Historiográfico”, sobre um problema que a cada tanto retorna, agora com maior força, por causa dos novos critérios nos processos avaliativos da produção acadêmica. Assim, a preocupação recorrente acerca da tensão entre a liberdade acadêmica, neste caso na produção de textos, e a “objetividade cientifica” é o objeto principal de sua análise, contribuindo com isso para um debate sempre atual.

Adotando diferentes perspectivas, os outros artigos se ocupam de estudos de casos, que manifestam a riqueza da produção nas ciências sociais em geral, num país de dimensões continentais, com objetos e ângulos teóricometodológicos diversos.

César Augusto B. Queirós em “A questão social no Rio Grande do Sul: positivismo, borgismo e a incorporação do proletariado à sociedade moderna” analisa a forma como o Partido Republicano Rio-Grandense, de forte inspiração positivista, durante os governos de Júlio de Castilho e Borges de Medeiros, tratou o movimento operário, num momento de forte agitação social.

O aporte das próximas duas colaborações vai além dos seus objetivos específicos dos autores, já que, através do diálogo interdisciplinar, podemos trazer de volta para uma revista, focada na problemática histórica e editada por historiadores, discussões que no Brasil por diversos motivos estão quase ausentes do debate nesse campo historiográfico, mas que inegavelmente deveriam retornar para poder compreender melhor certos processos.

Assim, Fabiane Santana Previtalli e Andréia Farina de Faria em “Reestruturação produtiva e novas formas de controle no local de trabalho: a experiência da indústria de fumo em Uberlândia / MG” nos brindam com uma abordagem da problemática relação entre novas tecnologias, trabalho e educação num contexto específico, mas que seguramente pode ser interpretada numa perspectiva mais abrangente.

Também desde uma perspectiva sociológica, Luciana da Luz Silva, em “Breve relato histórico da luta por moradia em Salvador: o caso da ocupação Quilombo de Escada” ilustra o conflito fundiário no cenário soteropolitano, não apenas focado nesse aspecto, mas com nuances que permitem inserir a problemática no contexto amplo do quotidiano e da luta pela sobrevivência de amplos segmentos sociais brasileiros, que não se limitam apenas a esse espaço geográfico.

A partir de outro ângulo, mas igualmente focado na problemática que nos é colocada pela exclusão, Mauro Amoroso, através de depoimentos de repórteres, proporciona, em “Memórias do olhar: as favelas do Rio de Janeiro na lembrança dos repórteres fotográficos”, um panorama acerca do papel da imprensa e do discurso foto jornalístico na cobertura de matérias sobre as favelas cariocas.

Esse artigo e os posteriores se ocupam de problemas e utilizam perspectivas que mostram o dinamismo da historiografia brasileira, que rapidamente incorporou as novidades vindas do mundo afora, mas que às vezes se esqueceu ou enviou ao ostracismo assuntos e visões, que, apesar dos justos questionamentos, são medulares na análise social, vista como um todo.

Demonstrando a riqueza desses novos olhares, Raul Max Lucas da Costa se centra, no artigo “Alcoolismo, discurso científico e escrita de si no Diário do Hospício de Lima Barreto”, na relação entre a perspectiva individual e coletiva para tratar de um problema social e médico, que tem despertado um interesse crescente, precisamente por mudar o locus a partir do qual é abordado, pelas diferentes tradições teóricas nos mais diversos tempos e espaços.

A preocupação por questões vinculadas à arte de curar é comum a Patrícia de Freitas que desde a perspectiva de gênero aborda em “‘A mulher é seu útero’. A criação da moderna medicina feminina no Brasil”, as vicissitudes particulares no surgimento de duas especialidades voltadas para a saúde das mulheres como a ginecologia e obstetrícia.

Igualmente com foco no gênero, Caroline P. Leal nos propõe continuar como tema das festas populares em “Carnaval em Porto Alegre: mulheres, entrudo, perseguição e repressão”, resgatando seu surgimento na capital da Província do Rio Grande, ainda no século XIX, assim como muitas das polêmicas que levaram à sua defesa ou condenação.

Já na seção de Notas sobre Acervos e Fontes, contamos com a colaboração de Nancy E. Juncos, colega da Argentina, que oferece, em “El retorno de los Documentos de las Temporalidades de Córdoba al Archivo General e Histórico de la Universidad Nacional” um pequeno, mas significativo, panorama de um riquíssimo arquivo da mais antiga universidade argentina, prestes a completar quatro séculos de existência, e que também foi a cabeça intelectual dos jesuítas no Cone Sul, durante o período colonial tendo, em épocas recentes protagonizado fatos relevantes como a Reforma Universitária, que repercutiu em vários países da América Latina.

Na continuação, Nora Siegrist, também colega da Argentina, elabora uma resenha do livro de Ana María Rivera Medina, Entre la cordillera y la Pampa: la vitivinicultura en Cuyo, Argentina (S. XVIII), e Ana Claudia Ribas nos ilustra a respeito da coletânea organizada por Luiz Fernando Duarte, Maria Luiza Heilborn, Myriam Lins de Barros, Clarice Peixoto, Família e Religião.

Para finalizar, manifesto meu reconhecimento a todos aqueles colegas que se animaram a colocar seus nomes à disposição para dar crédito a algo novo como membros de seus conselhos Editorial e Consultivo, que nos apóiam, e aos quais deveremos prestar contas, esperando confirmar a confiança depositada. Também aos autores, que nos confiaram seus textos, aos consultores ad hoc, que os avaliaram em tempo e que contribuíram com sugestões valiosas para aprimorá-los, demonstrando assim o quanto a criação do conhecimento é dinâmica e fruto do esforço coletivo.

Igualmente devo agradecer aos colegas do programa de pós-graduação por se engajarem na formação dos conselhos, indicando membros tão qualificados, e, em especial, ao seu Coordenador, José Miguel Arias Netto; a Francisco César Alvez Ferraz, agradeço pela organização deste primeiro dossiê; a Célia Regina da Silveira Célia, Isabel Bilhão e Silvia Cristina Martins de Souza e Silva, pela correção de alguns textos; às assistentes editorias, Daniela Reis de Moraes e Manuela Garanhani Lopes de Mello que, no atribulado fim de ano, esticaram seu tempo para se dedicarem a inúmeras tarefas. Sem as suas colaborações, a aspiração de lançar uma nova revista não teria sido possível.

Hernán Ramírez –  Editor

Londrina, dezembro de 2008

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Antíteses | Londrina, v.12, n.24, 2019 / v.1, n.1, 2008.

 

Antíteses. Londrina, v. 12, n. 24, 2019.

Dossiê: Francisco e o franciscanismo

Expediente

Editorial | Carolina Amaral de Aguiar |

  • Carta de Princípios | Carta de Princípios |

Dossiê

“[…] Que o estudo não extinga o espírito da santa oração e devoção”: reflexões sobre a educação na Ordem dos Frades Menores a partir das primeiras hagiografias em prosa sobre Antônio de Pádua | Victor Mariano Camacho, Andreia Cristina Lopes Frazão da Silva |

Artigos

Sociedades cientificas

Primeiros Passos

Resenhas


Antíteses. Londrina, v. 12, n. 23 (2019)

Dossie: revistas culturales de iberoamérica

Expediente

Carta de Princípios | Carta de Princípios dos Editores da revista Antíteses | |

Dossiê

Artigos

Sociedades cientificas

Primeiros Passos

Entrevistas | A elaboração do Atlas Histórico Escolar do MEC. Entrevista com a historiadora Miridan Britto Falci. | Renato Amado Peixoto |

Notas sobre Acervos e Fontes

Resenhas


Antíteses. Londrina, v. 11, n. 22 , 2018.

Expediente

Editorial | Gilmar Arruda |  |

Apresentação

Autor Convidado

Dossiê

História, livro didático e formação docente: produção, limites e possibilidades | Erinaldo Vicente Cavalcanti |

Artigos

Primeiros Passos

Resenhas

  • Por uma nova leitura de Michelet no Brasil | Renato Fagundes Pereira |

Antíteses. Londrina, . 11, n. 21, 2018.

Dossiê

As reduções da Companhia de Jesus na América Colonial: diálogos de realidades missionárias e debates intelectuais sobre a ação jesuítica

Expediente

Palavras do editor | Gilmar Arruda |

Dossiê

Artigos

Primeiros Passos

Notas de Pesquisa

Resenhas


Antíteses. Londrina, v. 10, n. 20, 2017.

Dossiê

Cultura Intelectual e Cultura Material (séculos XVII-XIX)

Expediente

Editorial | Gilmar Arruda |

Apresentação

  • Apresentação dossiê | Maria Renata da Cruz Duran, Isabel Drumond Braga |

Autor Convidado

Dossiê

Artigos

Primeiros Passos

Resenhas


Antíteses. Londrina, v. 10, n. 19, 2017.

História e imprensa

Expediente

Editorial | Gilmar Arruda |

Apresentação

  • Apresentação | Tania Maria Bessone da Cruz Ferreira, José Miguel Arias Neto |

Dossiê

Artigos

30 anos após a lei uruguaia de caducidade,o que é que devemos comemorar e como? | Ana Buriano, Silvia Dutrénit |

Primeiros Passos


Antíteses. Londrina, v. 9, n. 18, 2016.

Expediente

Editorial | Gilmar Arruda

Apresentação

Dossiê

Artigos

Primeiros Passos


Antíteses. Londrina, v. 9, n. 17, 2016.

Dossìe: Imagem na Idade Média

Expediente

Palavras do editor | Gilmar Arruda |

Apresentação

Apresentação dossiê: Imagem na Idade Média | Angelita Marques Visalli |

Dossiê

Artigos

Primeiros Passos


Antíteses. Londrina, v. 8, n. 16, 2015.

Dossiê: Identidades cristãs no mundo romano

Expediente

Notas do Editor | Gilmar Arruda |

Apresentação

  • Apresentação | Monica Selvatici, Paulo Augusto de Souza Nogueira |

Autor Convidado

Dossiê

Artigos

Primeiros Passos

Resenhas


Antíteses. Londrina, v. 8, n. 15 Esp. 2015

Dossiê: 50 anos do golpe: arte, cultura e poder(Parte II)

Expediente

Editorial | Gilmar Arruda |  |

Apresentação

Autor Convidado

Dossiê


Antíteses. Londrina, v. 8, n. 15, 2015.

Anos de golpe: arte, cultura e poder

Expediente

Editorial | Zueleide Casagrande de Paula |

Autor Convidado

Apresentação

Apresentação | Miliandre Garcia, Rodrigo Czajka | APRESENTAÇÃO

Dossiê

Artigos

Primeiros Passos

Resenhas

  • Texto e contexto: Gramsci e a História | Cézar de Alencar Arnaut de Toledo, Jarbas Mauricio Gomes |

Antíteses. Londrina, v. 7, n. 14, 2014.

Histórias e Antropologias dos Patrimônios Culturais

Expediente

Editorial | Zueleide Casagrande de Paula |

Autor Convidado

Dossiê

Artigos

Primeiros Passos

Resenhas

Resumos de Dissertações


Antíteses. Londrina, v. 7, n. 13, 2014.

Dossiê

Cultura Marítima

Expediente

Editorial | Silvia Cristina Martins de Souza |

Autor Convidado

Apresentação

  • Apresentação | Francisco Eduardo Alves de Almeida, José Miguel Arias Neto |

Dossiê

Artigos

Notas de Pesquisa


Antíteses. Londrina, v. 6, n. 12, 2013.

Dossiê História e Ensino

Editorial

  • Conselho Editorial

Expediente

Autor Convidado

Dossiê

Artigos

Debates

Primeiros Passos

Notícias de Eventos e Livros | Notícias de Eventos e Livros |


Antíteses. Londrina, v. 6, n. 11, jan./jun. 2013.

Dossiê: História, Literatura e Literatos

Expediente

Editorial | Silvia Cristina Martins de Souza |

Autor Convidado

Dossiê

Artigos

Notícias de Eventos e Livros | Noticias de eventos e livros |


Antíteses. Londrina, Vol. 5, n. 10, jul./dez. 2012.

Dossiê: Educação Histórica, Teoria da História e Historiografia

Apresentação

Dossiê

Artigos

Primeiros Passos

Entrevistas | Isabel Barca: caminhos trilhados pela Educação Histórica | Nucia Alexandra Silva de Oliveira |

Traduções

Resumos de Dissertações


Antíteses. Londrina, Vol. 5, n. 9, jan./jun. 2012.

Dossiê: Humor Gráfico

Editorial | Gilmar Arruda |

Dossiê

Artigos

Resenhas

Resumos de Dissertações


Antíteses. Londrina, Vol. 4, n. 8, jul./dez. 2011.

Dossiê: Representaciones en Torno al Territorio y Relaciones Sociales en las Fronteras Iberoamericanas, siglos XVIII y XIX

Editorial | Gilmar Arruda |

In Memoriam | Las viejas fronteras revisitadas: problematizando la formación territorial de los bordes de los Estados-nación latinoamericanos a través del caso de la Norpatagonia Argentina | Pedro Navarro Floria |  |

Apresentação

Autor Convidado

The representations of San Francisco (California): a portable harbor in the fragile geography of the North Pacific | Salvador Bernabéu Albert, José María García Redondo | -ESPANHOL  – INGLES |

Dossiê

Artigos

Debates

Notas sobre Acervos e Fontes

Resenhas


Antíteses. Londrina, Vol. 4, n. 7, jan./jun. 2011.

Dossiê : Diálogo Europa América. Passado e Presente

Editorial

  • Silvia Cristina Martins de Souza |  |

Apresentação

  • Apresentação | Gabriela Dalla-Corte Caballero |

Autor Convidado

Dossiê

Artigos

Primeiros Passos

Resumos de Dissertações


Antíteses. Londrina, Vol. 3, dez. 2010 (Edição Especial).

Dossiê: Cem Anos da Revolta da Chibata

Editorial

  • Silvia Cristina Martins de Souza |

Apresentação

  • Apresentação | Marco Morel, Sílvia Capanema Pereira de Almeida, ?Tania Maria Tavares Bessone da Cruz Ferreira, José Miguel Arias Neto |

Dossiê


Antíteses. Londrina, Vol. 3, n. 6, jul./dez. 2010.

Dossiê: História e Ensino. Teorias e Metodologias

Editorial |Hernán Ramiro Ramírez |

Apresentação

  • Apresentação | Maria de Fátima da Cunha |

Autor Convidado

Dossiê

Artigos

Primeiros Passos

Notas de Pesquisa

Resenhas

Resumos de Dissertações

  • O imaginário em traços: progresso, modernização e cultura de consumo no cartum Amigo da Onça (1956-1961) | Ana Flávia Dias Zammataro |
  • Parque Municipal Arthur Thomas em Londrina–PR: conflitos políticos e socioambientais em um território de diversidade (1975-2009) | Carlos Roberto Ballarotti |
  • Fotografia e revolução: Tina Modotti e o México pós-revolucionário | Fabiane Tais Muzardo |
  • Do terreiro ao púlpito – apropriação e ressignificação de elementos de crença das religiões afro-brasileiras pela liderança da Igreja Universal do Reino de Deus (1977-2010) | Marco Antonio Barbosa |
  • A produção do conhecimento histórico escolar mediada pelo uso da imagem fotográfica: o governo de Getúlio Vargas e a relação com a classe trabalhadora (1930-1945) | Natalia Germano Gejão |
  • Um inventário de fontes: as estampas e as artes mineiras entre os séculos XVIII-XIX | Pedro Queirós Leite |
  • Identidades e memória de imigrantes japoneses e descendentes em Londrina: 193 | Priscila Martins Fernandes |
  • Prazeres fraternais: o outro lado da cidade de Assis através dos processos criminais entre 1930 a | Renan Saab Rodrigues Manaia |
  • As práticas de poder nas igrejas-base da diocese de Apucarana (1968-1982) | Ricardo Mendes |

Expediente

Notícias de Eventos e Livros | Notícias de Eventos e Livros


Antíteses. Londrina, Vol. 3, n. 5, jan./jun. 2010.

Dossiê: Manifestações Culturais. Perspectivas da Diversidade

Editorial | Hernán Ramiro Ramírez |

Apresentação

  • Apresentação | Silvia Cristina Martins de Souza e Silva |

Autor Convidado

Dossiê

Artigos

Primeiros Passos

Resumos de Dissertações

  • Entre dois mundos: etnicidade, identidade e finitude entre os refugiados da Shoah em Rolândia – PR | Marcos Ursi Corrêa de Castilho |
  • O museu e a escola: memórias e histórias em uma cidade de formação recente | Gilberto Hildebrando |
  • Educação profissional: história e ensino de história | Francinne Calegari de Souza |  |

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Antíteses. Londrina, Vol. 2, n. 4, jul./dez. 2009.

Dossiê: História e Defesa

Editorial

  • Hernán Ramiro Ramírez |

Autor Convidado

Dossiê

Artigos

Primeiros Passos

Clássicos | Oliveira, Fernando. A Arte da Guerra do Mar | Thiago Rodrigo da Silva |

Resenhas

  • CASTRO, Celso e LEIRNER, Piero. Uma antropologia dos militares – Reflexões sobre pesquisas de Campo | José Miguel Arias Neto |

Resumos de Dissertações

  • O adeus às violas: as Companhias de Reis da região dos Cinco Conjuntos no município de Londrina/ PR – Estudo histórico-sociológico acerca do catolicismo tradicional popular brasileiro e a formação dos mestres rituais a partir da mobilidade social da região | Andre Camargo Lopes |
  • Entre resignação e resistência: as fábulas de Fedro como perspectivas sobre as relações sociais ao início do principado romano | Milton Genésio de Brito |
  • “Até que a morte nos separe!”. Reflexões sobre a morte de São Francisco de Assis | Vandergleison Judar |
  • A representação visual da mulher na imprensa comunista brasileira (1945/1957) | Juliana Dela Torres |
  • Hannah Arendt: entre a história e a política | Márcia Raquel Branco de Almeida |

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Antíteses. Londrina, Vol. 2, n. 3, jan./jun. 2009.

Dossiê: História e Ensino. A Produção de Conhecimento

Editorial | Hernán Ramiro Ramírez |

  • História e Ensino. A Produção de Conhecimento | Cristiano Gustavo Biazzo Simon |

Autor Convidado

Dossiê

Artigos

Primeiros Passos

Notas sobre Acervos e Fontes

Notas de Pesquisa

Resenhas

  • PRINGLE, Heather. El Plan Maestro. Arqueología fantástica al servicio del régimen nazi | Adrián Viale |
  • DEVOTO, Fernando y FAUSTO, Boris. Argentina-Brasil, 1850-2000. Un ensayo de historia comparada | Nancy Romina Escobar |
  • Costumbrismo, hispanismo e caráter nacional em Las mujeres españolas, portuguesas y americanas: imagens, textos e política nos anos | Edméia Aparecida Ribeiro |
  • O ensino de história na revista Nova Escola (1986-2002): cultura midiática, currículo e ação docente | Márcia Elisa Teté Ramos |

Resumos de Dissertações

  • Manuel González Prada (1844-1918): História, Debate e Pensamento | Pedro Francisco Cataneli |
  • As metamorfoses do sagrado no Protestantismo Brasileiro: o caso da Igreja Presbiteriana Independente Filadélfia. Londrina (1972-2008) | Jonathan M. Menezes |
  • O messianismo acadêmico: redenção pela classe operária. Uma análise da produção acadêmica das décadas de 1970 e | Igor Guedes Ramos |
  • Possibilidades e limites na construção do conhecimento histórico em conexão com o mundo virtual. | Cyntia Simioni França |
  • O ensino de História nos primeiros anos do Ensino Fundamental: o uso de fontes | Susana Barbosa Ribeiro Bernardo |
  • Entre fatos e artefatos: literatura e ensino de História nos encontros acadêmicos nacionais (1979-2007) | Ademar Firmino dos Santos |
  • O uso da imagem no ensino médio: uma avaliação sobre essa contribuição para a aprendizagem dos conteúdos em História | Érica Ramos Moimaz |

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Antíteses. Londrina, Vol. 1, n. 2, jul./dez. 2008.

Dossiê: Intolerâncias

Editorial | Hernán Ramiro Ramírez |

Dossiê

Artigos

Um estudo teórico na perspectiva historiográfica: articulando gênero e classe no processo de produção e reprodução da força de trabalho | Vanessa Cristina Santos Matos |

Resenhas

  • DE LA FUENTE, Ariel. Los hijos de Facundo. Caudillos y montoneras en la provincia de La Rioja durante el proceso de formación del estado nacional argentino (1853-1870) | Victoria Baratta |
  • SANTOS, Juan José. El Tata Dios. Milenarismo y xenofobia en las pampas | Leonardo C. Simonetta |
  • Conhecimento prévio e aprendizagem significativa de conceitos históricos no Ensino Médio | Regina Célia Alegro |

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Antíteses. Londrina, Vol. 1, n. 1, jan./jun. 2008.

Dossiê : Perspectivas em História Social | Palavras do Coordenador | José Miguel Arias Neto

Editorial | Hernán Ramiro Ramiro Ramírez |

Autor Convidado

Dossiê

Notas sobre Acervos e Fontes

Resenhas

  • RIVERA MEDINA, Ana María. Entre la cordillera y La Pampa: la vitivinicultura en Cuyo, Argentina (S. XVIII). San Juan: Editorial de la Universidad Nacional de San Juan, Argentina, | Nora Siegrist |
  • DUARTE, Luiz Fernando; HEILBORN, Maria Luiza; BARROS, Myriam Lins de; PEIXOTO, Clarice (Orgs.). Família e Religião. Rio de Janeiro: Contra Capa Livraria, | Ana Claudia Ribas |

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Izquierdas y derechas en la mundialización – RUBIO (AN)

RUBIO, Enrique. Izquierdas y derechas en la mundialización. Montevideo: Banda Oriental, 2006. 142p. Resenha de: CABRAL, José Pedro Cabrera. Anos 90, Porto Alegre, v.15, n.27, p.407-410, jul. 2008.

Sob o título Izquierdas y Derechas en la Mundialización, o historiador e político uruguaio Enrique Rubio apresenta um ensaio que centra sua temática nas novas esquerdas ou as esquerdas progressistas que, a partir dos anos 2000, irromperam em vários governos nacionais do Cone Sul. O livro foca os desafios para essas esquerdas perante o processo de globalização e a necessidade de alternativas para enfrentar o modelo neoliberal representado pelas direitas na América Latina. Com esse objetivo, a obra se divide em seis capítulos.

No primeiro capítulo, Rubio analisa as implicações que a globalização apresenta para a esquerda latino-americana. O que se propõe, essencialmente, é discutir uma alternativa democrática ao processo de globalização. Para tal, parte do pressuposto de que a globalização é irreversível e, portanto, as estratégias de enfrentamento devem passar necessariamente pelo fortalecimento da democracia. Utiliza-se do conceito de altermundismo, de forma a identificar um movimento antiglobalização que, na sua concepção, implica um avanço, visto que esse conceito ultrapassa a mera oposição pelas vias da inovação em todos os terrenos.

Rubio aponta para a necessidade de se pensar uma nova ordem econômica mundial, que implicaria a transformação das instituições. nacionais e supranacionais, procurando seu pleno desenvolvimento, fortalecimento e uma efetiva democratização (isto tomaria mais envergadura nos organismos internacionais). A proposta tem como base a formação de uma articulação progressista internacional, que encontraria seu ponto de apoio no desenvolvimento de macrorregiões, como seria o caso do Mercosul. Dessa forma, segundo o autor, se articulariam iniciativas em redes que poderiam ter um alcance mundial.

No segundo capítulo, intitulado Estado de guerra y guerras culturales, o autor aborda a temática desencadeada (ou atualizada) a partir dos acontecimentos do 11 de setembro, no qual o Estado de Guerra contra o terrorismo trouxe, dos elementos fundantes da política exterior norte-americana, por um lado, a substituição do inimigo ideológico: do comunismo pelo terrorismo, associado ao islamismo, como a principal ameaça para a paz mundial. E, por outro lado, a justificativa dos inúmeros ataques e invasões aos países islâmicos.

Assim, o fundamentalismo, principalmente de base religiosa, tornou-se o alvo das atenções, legitimando a teoria do choque de civilizações. Rubio salienta que o fundamentalismo de cunho religioso é um dos grandes desafios para a esquerda progressista, na medida em que dificulta os processos de afirmação e consolidação da democracia.

Na terceira parte do livro, o autor analisa as crises ideológicas das esquerdas no mundo, com principal foco na América Latina. Rubio observa a vigência de uma nova agenda para a esquerda, que incorporou temáticas emergentes como as questões relacionadas ao multiculturalismo, ao multilateralismo, aos processos de integração regional, às guerras e às lutas pela paz, aos problemas críticos em matéria ambiental e ao enfraquecimento dos Estados nacionais, entre outros.

Essa nova agenda teria como base incontestável e central a questão democrática, entendida como a necessidade de aprofundamento da democracia em todas as relações sociais, como construção social ampla, como legitimação de direitos individuais e coletivos, e como aspiração de normas de convivência social eqüitativas e libertadoras.

Assim, o autor caracteriza o que, em sua opinião, se reflete no pensamento progressista: a democracia pela via da socialização do poder.

Dessa forma, o progressismo seria a única. opção política dentro da esquerda para efetivar essas aspirações democráticas, e também a única que pode combater a direita neoliberal no mundo globalizado.

Na quarta parte da obra, discute-se a questão do patrimônio comum, aludindo, assim, à parte substancial dos novos paradigmas da esquerda. Em primeiro lugar, a questão dos recursos naturais, seguida do conhecimento e das comunicações. Estes associados, por sua vez, como condições sine qua non para o aprofundamento da democracia. O que o autor parece esquecer é que precisamente esses em diversas formas e momentos . foram fatores determinantes de dominação e de dependência para os países latino-americanos.

Rubio considera que, a partir dos governos progressistas, se poderão democratizar essas problemáticas em favor das desigualdades sociais e econômicas.

Como quinto capítulo do livro, Rubio traz a temática da sociedade do conhecimento e pontua os novos desafios que essa apresenta para a esquerda. A mudança de paradigma é inquestionável, e o autor assinala, como a principal força produtiva, a questão do conhecimento. Conjuntamente com o conhecimento, a informação, a educação e a inovação passaram a ser as chaves para o desenvolvimento dos países do terceiro mundo. Esses temas tomaram um lugar privilegiado na nova agenda da esquerda latino-americana e, particularmente, na uruguaia, de onde Rubio fala, ocupando uma posição de destaque nas plataformas programáticas progressistas.

O último capítulo, intitulado La cuestión política, discorre sobre o papel do progressismo (como partido político de massas) como articulador. com a sociedade civil. Apresenta-se, por um lado, como a única. opção democrática conflitante com o neoliberalismo, induzindo a uma nova bipolaridade no cenário político uruguaio: a direita, representante das oligarquias e do neoliberalismo, e o progressismo, representante da democracia, da esquerda e dos setores democráticos e progressistas. Por outro lado, a articulação com a sociedade civil se produziria no âmbito dos movimentos sociais, os quais, independentemente de suas características próprias (gênero, etnia etc.), confluiriam com o progressismo na ampliação da democracia, fundamentalmente a partir da criação, implementação e colocação em prática de políticas públicas de inclusão social. Portanto, o papel dos novos movimentos sociais estaria atrelado à defesa dos paradigmas da nova esquerda: os paradigmas da liberdade, da eqüidade, da solidariedade e dos direitos cidadãos.

A obra de Rubio tem seu foco no progressismo uruguaio em particular, que o autor generaliza para o âmbito da América Latina.

As particularidades do continente fogem à obra, e ficaram postergadas na análise de Rubio, deixando uma lacuna a respeito do que o título do livro apresenta. Sua contribuição oferece uma visão do que essa nova esquerda progressista. uruguaia entende por desafios e também uma definida postura ideológica que diz respeito a essa nova realidade política do país. O progressismo uruguaio (e, da mesma forma Rubio) elabora um discurso híbrido que possibilita a interlocução dos atores sociais e políticos, confluindo permanentemente com o progressismo., tentando, assim, legitimar a agenda da nova esquerda.

José Pedro Cabrera Cabral – Doutor em História. Docente do Departamento de História da Universidade Federal do Tocantins. O presente trabalho foi realizado com apoio do CNPq. E-mail: jpcabreracabral@yahoo.com.br.

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Haiti: Fenomenologia de uma barbárie – SCARAMAL (AN)

SCARAMAL, Eliesse dos Santos Teixeira. Haiti: Fenomenologia de uma barbárie. Coleção: Etnicidade, Região e Nação. Goiânia: Cânone Editorial, 2006. 144p. Resenha de: FREIRE, Gildeneide dos Passos. Anos 90, Porto Alegre, v. 15, n. 27, p. 411-417, 2008.

A obra supra é fruto da Tese de Doutorado de Eliesse dos Santos Teixeira Scaramal, em História, pela Universidade de Brasília, em 2004. Está dividida em Introdução e três capítulos assim distribuídos: 1. O Caos; 2. O Horror; 3. A Repulsa.

Na Introdução, Scaramal aponta o sentimento de abjeção de outros povos ao migrante haitiano como aspecto fundamental para justificar a barbárie empreendida contra a nação objeto desse trabalho. Conforme a autora, os relatórios técnico-científicos produzidos por políticos, viajantes ou estudiosos da cultura haitiana são os responsáveis por criar conceitos negativos acerca da cultura do povo haitiano, uma vez que se deslocavam dos seus países, na Europa, para estudar a cultura subserviente e primitiva, munidos de conceitos pré-concebidos, muitos dos quais retratando o haitiano como sujo, feio, bruxo, repugnante, canibal, necrofágico, profanadores de túmulos, fétidos e seres de raça inferior. É possível afirmar que quase 100% do povo têm a pele negra e uma história cristalizada na negação de sua identidade por parte dos povos que o subjugaram/ exploraram. Scaramal relatou a esta resenhista que fora, por diversas vezes, ao Haiti, para compreender e constatar detalhes da cultura do povo sobre a qual a maioria dos livros, escritos por europeus, traziam, de forma (re)torcida, a imagem e a identidade cultural do povo negro haitiano. Na obra O que é Direito? Lyra Filho, em que o direito, quando visto sob uma óptica deformada ou (des)focada, não proporcionará a entrega da justiça na medida correta, gerando, para a sociedade, danos irreparáveis e irreversíveis. É assim que Scaramal abstrai as percepções do(a) escritor(a) Europeu em relação à cultura áfricohaitiana: até os dias de hoje, o povo está sofrendo muito com relatórios construídos a partir de um olhar da cultura branca e européia, e um dos responsáveis por isso foram os Relatórios parciais emitidos pelos europeus quando tinham de ir até a subjugada colônia haitiana para .observar. o povo culturalmente subjugado.

Scaramal resgata e critica os relatos de autores que escreveram sobre o Haiti, dizendo que os mesmos reproduzem ideologia, entorpecidas/ entorpecedoras da capacidade crítica de leitores(as) preparados( as) para (re)ler somente uma literatura ocidental/ocidentalizada, que não vê a identidade dos habitantes das terras do Aytí como parte de sua cultura intrínseca, senão como seres humanos canibais e despidos de quaisquer competências para viver em sociedade. Conforme a obra em tela, utilizam-se de expressões e posicionamentos que não traduzem, ou traduzem (de)formadamente/(des)focadamente, elementos da realidade espacial e temporal dos mesmos. A Autora utiliza-se da palavra epifenômeno, de origem grega, para dizer que as obras escritas sobre o povo haitiano são revestidas de uma consciência acessória, secundária, de simples reflexo e sem uma influência real e concreta sobre os fatos do pensamento e das atitudes e condutas de nações que expurgam haitianos como raças e seres abjetos/ desumanizados.

O CAOS, na opinião desta resenhista, é o retrato pintado com riscos precisos de imagens, cores, signos, significados e significantes em que resgata a memória do Haiti – como disse Maurice Halbacks – para refazer, reconstruir e repensar com imagens e idéias de hoje as experiências do passado, uma vez que, para ele, a memória do lugar é um fato social transcendente. O cenário da obra trazido pela autora se passa na América Central e, em diferentes momentos da história, a ilha recebe nomenclatura diversa que não se encontra reunida em outras obras, como nesta escrita por Scaramal. São: 1. La Española: refere-se à alcunha que Cristóvão Colombo deu à ilha Hispañiola . utilizada em referências cartográficas.  2. São Domingos: utilizada por historiadores ingleses, norte-americanos e franceses. Justifica-se pelo Tratado de Ryswick, 1697, em que a Espanha cedeu 1/3 da Ilha à França. 3. Saint Domingue francesa: compreende 1/3 da Ilha determinado por França e Espanha, em 1777, pelo Tratado de Aranjuez, que demarcou os limites geográficos entre as duas nações e onde se encontra o Haiti, que detém 27.750Km². 4.Santo Domingo Espanhola: geograficamente é a República Dominicana que ocupa 48.442 km². É uma ilha para duas nações e, neste caso, Scaramal faz um relato antropológico/historiográfico da ilha e do Haiti, que nos leva a supor estarmos mirando uma obra da época renascentista, tal é a forma como se imagina o modo como o sistema político, social, religioso, familiar e econômico do povo se construiu e foi construído. A autora argumenta o fato de desde a gênese da história das Américas as mesmas não terem sido inventadas antes mesmo de serem descobertas.? Em 1492, como um espaço de canibais pré-colombianos? Para ela, o espaço anterior a 1791 foi o prenúncio do Caos, pelo qual os haitianos passam até os dias atuais. Tudo começou com os grands blancs: fazendeiros, burocratas coloniais e profissionais liberais que reivindicaram certa autonomia em relação à metrópole francesa. Foi essa insurreição que desencadeou a situação político-administrativa do Haiti desde aquela época até a atualidade. Aproveitando-se da instabilidade gerada, os escravizados haitianos insurgiram-se na cena política, para eliminar, submeter e escravizar brancos, tornando-se imperadores, reis e governadores, e elevando o Haiti à condição de primeiro país das Américas a conquistar a independência promovida por escravos (1791-1804). Com essa ação política, percebe-se que os ideais franceses de liberdade, igualdade e fraternidade chegaram à ilha colonizada. Para Scaramal, a ordem estabelecida, nesse momento se .quebrava., porque negros escravizaram brancos. Isso nos remete a Paul Thompson em a Voz do Passado: História Oral (1992:188-189), em que aponta a reflexão sobre o passado pessoal e a aceitação de mudanças como essenciais para a preservação da auto-identidade diante de certas transformações consideradas violentas, pois .as vidas dos profetas africanos, por exemplo, podem transformar-se em mitos, no prazo de três anos”.

O HORROR, para a doutora/historiadora, foi estabelecido com o governo e com a morte do negro Dessalines que, despoticamente, subjugou brancos e negros. Para esta resenhista, Dessalines abriu uma cova ao subjugar negros, porque ele era negro. Com isso, escavou o caos e lançou todos os seus liderados no limbo do horror. O Hades e o Seol eram, ali mesmo, no Haiti e na República Dominicana, até que em 17 de outubro de 1806, o sanguinário foi emboscado e destroçado à semelhança de Trujillo, em 1961, na República Dominicana, pelos atos cometidos contra o seu povo e, em especí- fico, contra Las Mariposas; à semelhança de Hamã, que foi enforcado e destroçado no 5º Séc. a. C, Império Medo-Persa, porque marcou dia e hora para exterminar pessoas inocentes: crianças, jovens, idosos(as), homens e mulheres inocentes. Scaramal resgata a história dizendo que, aos revoltosos, foi permitido profanar tumbas, para rasgar os restos mortais de governantes que foram déspotas. A partir daí, a história dos haitianos fora escrita com nuances impregnadas de suor, dor, imundície, sangue, podridão, necrofagia, magia negra, envenenamentos, zumbificação e canibalismo, na visão dos escritores europeus. Por fim, com esse novo fenômeno instalado, rompeu-se a fronteira entre o Sagrado e o Profano, é o que pode-se abstrair a partir da obra de Mircea Eliade. Para a autora, a idéia de horror está sempre atrelada à idéia de impureza, sujeira, imundície e fedor, sendo o horror um fenômeno e não um processo, como o terror que permite ação formalizada de projetos que são gerados a partir de uma ação política esquematizada. O horror, por outro lado, consiste na cristalização de um sentimento do absurdo e do inexorável, em que o seu elemento de análise principal é o abjeto que causa todo o sentimento de abjeção, e é como se a pessoa humana estivesse imersa no próprio seol, no limbo do hades. Já o terror poderá produzir objetos que despertem o sentimento de horror e, por conseguinte, o de abjeção. Para os intelectuais haitianos foi Saint John, diplomata britânico no Haiti, que em sua obra Haiti or the Black Republic, de 1884, disseminou a semente maldita de que o povo haitiano carregava em sua natureza e era imanente a eles a barbárie, o canibalismo e a feitiçaria traduzidos por atos como sacrifícios humanos, reuniões em cerimônias nos hounfors templos vodus com o objetivo de punir e sangrar aqueles que desobedecessem as normas impostas pela Sociedade Secreta conhecida como Sect Rouge, Vinbrindingue ou Cochons Gris. Estes são delineados como grupo humano de última categoria e raça inferior, por serem descendentes de Caim, uma interpretação bíblica, observe-se, equivocada, porque os descendentes de Caim habitaram em tendas, possuíram gado, foram mestres e pioneiros na arte da harpa e do órgão, pioneiros e mestres na arte da fabricação do cobre e do ferro e jamais podem ser considerados seres de última categoria, como querem alguns pseudo-hermeneutas bíblicos. Essa ferida está aberta até hoje, conforme Scaramal. O horror é marcado pela ação política dos meios de comunicação em não (des)construir o mito de que os haitianos violaram o túmulo de François Duvalier, fortalecendo a idéia de liame dos epifenômenos entre poder, horror e abjeção pelos quais são marcados os migrantes haitianos pelo Caribe e mundo afora.

A REPULSA consiste no modo como os países se comportam em relação aos migrantes haitianos, tratando-os como personas non gratas, mesmo que não tenham infringido nenhuma norma e feito absolutamente nada. Querem, apenas, o direito de ir e vir, se estabelecer, procurar o meio de sobrevivência que melhor condiga com os seus anseios humanos para morar, se alimentar, manter e adquirir bens materiais e imaterias, em tempo de paz, conforme rezam as Convenções, os Tratados e os Acordos Internacionais de proteção à pessoa humana. Haiti: fenomenologia de uma barbárie aponta a República Dominicana como um dos países que expurgam os haitianos por todos os meios, apesar de serem países assentados na mesma ilha e de possuírem traços de raça e etnia quase iguais. Observo que o povo da República Dominicana não aceita imigrantes advindos do Haiti.

Participando de um trabalho jurídico/cultural promovido, por concurso público, pela Ordem dos Advogados do Brasil-OAB/Colégio de Abogados de la República Dominicana-CARD, realizado em RD, no ano de 2006, observei o fato de os Dominicanos não aceitarem a denominação de negros(as) em seus registros de identidades, senão a classificação de índios ou blancos. Percebi que quase 100% da população é negra. Naquela ocasião, indaguei, em visita ao Museu as Las Mariposas, o motivo pelo qual Rafael Trujillo, mesmo sanguinário, manteve-se no poder por tanto tempo. Não me deram uma resposta satisfatória. Mas foi na Obra de Scaramal que compreendi o porquê.

Trujillo – República Dominicana, negociou, por ter relações amistosas, com Stenio Vincent. República do Haiti, sem arbitragem de outros países, a fronteira geográfica e cultural que vige, na atualidade, entre os dois donos da ilha: República Dominicana e Haiti.

A autora propõe em sua tese que os haitianos não são bem-vindos e, quando vão, não são bem recebidos em países da América do Norte e do próprio Caribe. Palavras como repatriação, interceptação e expulsão fazem parte do cotidiano dos haitianos no círculo migratório Estados Unidos/Caribe. São classificados no Documento Blanco como migrantes forçados repentinos, econômicos, boat people e refugiados.

Nenhuma dessas categorias de análise recebe a atenção da legislação internacional de proteção aos direitos humanos como realmente é proposto. O povo haitiano é triplamente violentado: pelo próprio governo, que não supre as suas necessidades básicas; pelos países que escolhem para migrar e pelos organismos supranacionais de proteção aos direitos humanos fundamentais. Na obra, a autora resgata e cita leis e provas documentais em que são relatados casos de afronta aos direitos humanos das pessoas que buscam se proteger de instabilidades econômico-financeiras em seu país e que sofrem toda a espécie de repulsa e abjeção por parte daqueles que as detêm, ferindo, com esses atos, a consciência da humanidade. A resenhista lembra-se de Hanna Arendt, na obra A Condição Humana, em que enfatiza a importância da política como ação e como processo, dirigida à conquista da liberdade. Scaramal traz, no Capítulo 3, A Repulsa com uma tabela com os principais acontecimentos geopolíticos e históricos na demarcação fronteiriça entre o Haiti e a República Dominicana, traçando um registro de fatos de 1629-1936. Os relatórios do governo na Ciudad de Trujillo classificam os haitianos como decaídos de um estado de barbárie para um de selvageria: seres repugnáveis, fedorentos, excrementos de tribos e outros graves adjetivos. Construções literárias como essas causam sentimentos abjetos de repulsa, horror, caos e medo. A obra de Scaramal traz notas tão importantes que serviriam para escrever outro livro rico em detalhes, como o que está sendo analisado. A obra não possui uma conclusão como capítulo à parte. Possui Uma Última Palavra composta por trinta linhas, dentro do capítulo 3. Finalmente, pode-se deduzir que os Direitos Humanos do Povo Haitiano estão sendo violados, porque todo o esforço político que está sendo realizado, na atualidade, é pouco, diante das necessidades de ações mais efetivas de proteção à pessoa humana com base no que já está garantido na Legisla ção de Direito Público Internacional. Constata-se a existência de violência institucional praticada por Estados – partes hipersuficientes.

Gildeneide dos Passos Freire – Doutoranda em Direito Internacional Público e Relações Internacionais pela Universidade Pública de Extremadura – Espanha; Pesquisadora do Centro Interdisciplinar de Estudos África-Américas da Universidade Estadual de Goiás (CieAA-GO); Membro da Comissão de Direitos Humanos, Acesso à Justiça e a Direitos Sociais da OAB; Missionária CONAMAD; Advogada Honorária da República Dominicana. Professora de Direitos Humanos, Constitucional e Administrativo do Ministério da Justiça/Secretaria de Segurança Pública – GO.

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Jango: as múltiplas faces – FERREIRA; GOMES (AN)

FERREIRA, Jorge; GOMES, Angela de Castro. Jango: as múltiplas faces. Rio de Janeiro: Editora FGV, 2007, 272p. Resenha de: TEIXEIRA, Wagner da Silva. Anos 90, Porto Alegre, v.15, n.28, p.279-287, 2008.

de História do Brasil na Universidade Federal Fluminense (UFF). Doutora em Ciência Política pelo Instituto Universitário de Pesquisas do Rio de Janeiro (IUPERJ), Angela de Castro Gomes é pesquisadora do CPDOC/FGV e autora de diversos livros, entre eles Burguesia e trabalho: política e legislação social no Brasil (1979), A invenção do trabalhismo (1988) e História e historiadores: a política cultural do Estado Novo (1996). Doutor em História pela USP, Jorge Ferreira é pesquisador do CNPq e já publicou uma série de livros, tais como Trabalhadores do Brasil: o imaginário popular (1997), Prisioneiros do Mito: cultura e imaginário político dos comunistas no Brasil (2002) e O Imaginário trabalhista: getulismo, PTB e cultura política popular (2005).1 Escrever uma biografia certamente não é tarefa fácil, descrever uma vida inteira já é complexo, ainda mais analisar todo o período de uma existência, levando em conta seu contexto, suas especificidades, seus meandros, as visões que outras pessoas têm do mesmo personagem.

Uma biografia pode tender a contar a história de uma vida de forma linear, os fatos parecem encadeados, numa seqüência que pode dar a idéia de ser imutável, como se a vida das pessoas não pudesse ser alterada, como se não houvesse alternativas possíveis, escolhas a serem feitas. Nesse sentido, Giovanni Levi afirma que, muitas vezes, “seguindo uma tradição biográfica estabelecida e a própria retórica de nossa disciplina, contentamo-nos com modelos que associam uma cronologia ordenada, uma personalidade coerente e estável, ações sem inércia e decisões sem incertezas” (LEVI, 1989, p.169). Sobre isso, vale lembrar a advertência de Pierre Bourdieu em A ilusão biográfica: “não podemos compreender uma trajetória sem que tenhamos previamente construído os estados sucessivos do campo no qual ela se desenrolou” (BOURDIEU, 1986, p. 190).

O livro de Angela e Jorge escapa a essa cilada, com uma linguagem objetiva e direta, que diz claramente o que pretende. Os autores realizaram um trabalho que mostra diversas visões e diferentes opiniões sobre João Goulart. Sua trajetória é contada de forma que parece muito mais o sujeito da história do que um objeto de análise.

O livro é composto por sete capítulos, organizados de forma que cada capítulo é dividido em duas partes, uma primeira escrita pelos autores, na qual se apresenta o contexto político do período abordado e a trajetória de Jango, e uma segunda formada por entrevistas e documentos. Os relatos dos entrevistados dão vida à narrativa, é a fala de quem conviveu com Jango, quem o viu de perto e teve contato com ele, pessoas que estavam ao seu lado ou contra ele, que trabalharam em seu governo ou que articularam a sua queda. Os documentos também são outra fonte de vitalidade para o livro, demonstram as preocupações, as decisões e as escolhas que foram realizadas no momento em que foram escritos. A obra compreende a trajetória de Jango, de seu nascimento em São Borja em 1919, até sua morte em uma de suas fazendas na Argentina, na fronteira com o Brasil em 1976.

No primeiro capítulo, Jango em pessoa nos é apresentado sua infância no campo entre a estância e a escola, a convivência com os peões e o gado. A adolescência marcada pela expulsão da escola e pela conquista do campeonato gaúcho juvenil de futebol pelo Internacional.

A realização do curso de Direito, a preocupação com os negócios particulares da família e, no final de 1945, o contato cada vez maior com Getúlio Vargas, exilado dentro de suas fazendas em São Borja. Seguindo conselho de Vargas, entrou no Partido Trabalhista Brasileiro (PTB) e se elegeu deputado estadual em 1947; em 1950 participou da Campanha de Getúlio para a Presidência e se elegeu deputado federal; em 1952, foi definitivamente para o Rio de Janeiro onde teve um escritório político dentro do Palácio do Catete: estava pronto “para novas funções no PTB e no governo” (p.19).

No segundo capítulo, Tempos de formação, são exatamente as atuações de Goulart na presidência do PTB e depois no Ministério do Trabalho que passam a ser analisadas. Em 1950, o partido aumentou sua bancada federal de 22 para 51 deputados, neste mesmo período, consolidaram-se novas lideranças no interior da legenda, nomes como o do próprio Jango, Leonel Brizola e Fernando Ferrari passaram a representar uma nova postura do partido, orientada pelo nacionalismo e pelo reformismo. Em 1952, passou a ocupar a presidência nacional do PTB e, em sua gestão, procurou reduzir as disputas internas e promover o crescimento do partido entre a classe operária. Em 1953, assumiu o Ministério do Trabalho e inovou ao retirar duas das principais amarras dos sindicatos – a necessidade de atestado ideológico e as intervenções quando alguma chapa de oposição era eleita. De acordo com o depoimento transcrito de Hugo de Faria, “foi a época de maior liberdade sindical” (p. 63).

O terceiro capítulo aborda a relação entre Jango, o movimento sindical e as esquerdas. A atuação de Jango no Ministério do Trabalho e na presidência do PTB propiciou uma aproximação com as esquerdas, principalmente o Partido Comunista do Brasil (PCB), mas também com as esquerdas de forma geral, em especial as que atuavam no movimento sindical. Naquele momento, o movimento sindical estava cada vez mais ativo, com um forte discurso nacionalista, reivindicativo e reformista. João Goulart foi se tornando um elo entre sindicalistas e governo. De acordo ainda com Hugo de Faria, Jango era um ministro que sempre dialogava com os sindicalistas, independente do seu grupo político: “tinha abertura política para discutir com um dirigente sindical sem se preocupar se aquele dirigente era comunista, socialista, trabalhista, petebista ou o que fosse” (p. 93).

O quarto capítulo, Jango vice-presidente, trata de sua ascensão à vice-presidência da República em 1955 e sua reeleição em 1960. Naquele período, o vice era eleito de forma direta e independente, isso implicava ter um projeto político e partidário próprio. Sua campanha tinha vida própria na disputa dos votos dos eleitores. O vicepresidente exercia ainda a presidência do Senado e tinha funções diplomáticas, isso “significava possuir espaços políticos próprios extremamente visíveis e valiosos politicamente” (p. 111). Como vice de Juscelino Kubitschek, exerceu uma função de mediação entre governo e sindicatos. Nas eleições de 1960, presidente e vice foram eleitos por chapas diferentes. Com a renúncia de Jânio Quadros e a tentativa de golpe dos ministros militares, teve início um forte movimento de resistência ao golpe, liderado pelo então governador do Rio Grande do Sul, Leonel Brizola. Depois do acordo parlamentarista que pôs fim à crise, “João Goulart e seu partido, o PTB, chegavam ao poder; um poder esvaziado e conquistado de forma muito tensa” (p. 117).

Jango presidente da República é o título do quinto capítulo, que mostra a conjuntura crítica na qual Jango assumiu a presidência e governou o país entre 1961 e 1964. Sua posse, nas palavras de Raul Ryff, deu-se diante de uma “situação completamente adversa, com crise política, crise militar, crise econômica, inflação em marcha, tudo isso” (p. 158). Nessa situação, suas primeiras medidas foram no sentido de garantir sua permanência no poder. Na fase parlamentarista, uma postura de “conciliação nacional” foi aos poucos sendo substituída por uma estratégia de enfraquecimento do parlamentarismo.

Após o plebiscito de janeiro de 1963 e o retorno ao presidencialismo, as esquerdas deram início a uma luta cada vez mais radical pelas reformas. De outro lado, a conspiração civil/militar para derrubá-lo ganhava cada vez mais espaço. As iniciativas de San Thiago Dantas de tirar Goulart do isolamento político depois da tentativa de decretação do Estado de Sítio em setembro de 1963 se viram frustradas. A opção de João Goulart foi de se reaproximar das esquerdas.

O tema do sexto capítulo é Jango e o golpe de 1964. Os autores destacam o papel que os vários grupos políticos e militares envolvidos tiveram naquele momento, evitando assim colocar somente sobre João Goulart a responsabilidade sobre aquele evento. De um lado, o alinhamento político de Goulart com o movimento sindical e as esquerdas radicais em defesa das reformas de base. De outro, a postura agressiva da oposição ao governo na Marcha da Família com Deus pela Liberdade em São Paulo. O impacto da Revolta dos Marinheiros nas Forças Armadas, a quebra da hierarquia e a anistia significaram “um golpe profundo em sua integridade profissional, sustentada pelos valores de disciplina e hierarquia militar” (p.193). No dia 31 de Março, o jornal Correio da Manhã publicou o editorial “Fora”; Auro de Moura Andrade manifestou o rompimento do Senado com o governo; o General Mourão Filho partiu de Juiz de Fora ruma à Guanabara. No dia 1º de abril, Jango foi do Rio para Brasília e de lá para Porto Alegre. O Congresso decretou a vacância do cargo. O presidente estava deposto e chegava ao fim aquele período democrático.

O isolamento final de Goulart no país e sua saída para o Uruguai são os temas do último capítulo Jango no Exílio. Para os autores, seu exílio teve início logo no dia 2 de abril quando foi para uma de suas fazendas em São Borja. Tentou permanecer no Brasil até o dia 4 quando o cerco militar apertou e, “sem alternativas, pediu asilo ao governo uruguaio” (p. 229). Após uma expectativa de retorno imediato, viu aos poucos os militares se consolidarem no poder.

Do ponto de vista pessoal, a estadia no Uruguai permitiu a Jango uma recuperação financeira. Houve tentativas de retorno à ação polí tica, uma reaproximação com Brizola e depois a formação da Frente Ampla com JK e Carlos Lacerda. O aumento da vigilância e das perseguições a ele e a sua família após o golpe militar, em 1973, no Uruguai, forçaram a mudança para Buenos Aires. Em 1975, diante das ameaças da Operação Condor, foi para Londres, onde realizou vários exames, pois sua saúde física e psicológica estava muito debilitada.

Foram várias as tentativas de retorno ao Brasil, todas elas sem sucesso. Em dezembro de 1976, às vésperas de uma nova tentativa de atravessar a fronteira, sofreu um infarto fulminante.

Uma das grandes contribuições do livro é jogar luzes sobre a vida de João Goulart, já que alguns trabalhos anteriores sobre Jango cometiam um equívoco indicado por Norbert Elias em sua biografia sobre Mozart. Segundo Elias, tal equívoco ocorre quando “o interesse é apenas por sua obra, e não pelo ser humano que a criou” (ELIAS, 1995, p. 10). No livro, aparece o João Goulart político: deputado, líder partidário, ministro, vice-presidente e presidente; mas também o gaúcho de São Borja: filho de estancieiro, estudante, jogador de futebol, pecuarista, pai e avô. A obra também não foge ao debate de assuntos polêmicos, como a crise que culmina com o golpe em 1964. Evita o caminho percorrido por outros trabalhos, nos quais a imagem de Jango aparece quase sempre de forma negativa, definindo-o como o único responsável por aquele desfecho. Prefere resgatar a participação de outros personagens políticos: os militares, as direitas, as esquerdas e as forças estrangeiras, enfatizando que todos eles tiveram sua parcela de responsabilidade nos acontecimentos de março e abril de 1964 que resultaram na instauração da ditadura militar.

O texto é muito bem escrito, com uma linguagem direta e explicativa. Sua originalidade fica por conta da forma como foram usados os depoimentos, do grande número de entrevistados e da transcrição de diversos documentos da época. O livro cumpre o seu objetivo ao permitir o encontro do leitor com as múltiplas faces do ex-presidente João Goulart. As diversas falas, algumas de pessoas de seu convívio pessoal, como sua esposa Maria Theresa; auxiliares diretos, como Hugo de Faria; aliados, como o comunista Hércules Correia e o trabalhista Almino Afonso; ou inimigos políticos, como os militares Ernesto Geisel e Antonio Carlos Muricy.

O livro conta ainda com a inclusão inovadora de um CD com discurso de Jango pronunciado na Câmara Municipal de Juiz de Fora (MG), em 31 de maio de 1963, no qual pode-se ouvir, entre outras coisas, a defesa da Reforma Agrária.

Outros elementos que enriqueceram o livro são as fotografias e notas explicativas. Ambas auxiliam o leitor na visualização e compreensão de diversos fatos e personagens citados pelos autores ou pelos depoentes ao longo da obra. Sobre as notas, vale ressaltar que os autores poderiam ter aproveitado melhor este recurso, inserindo- as também para apresentar os dados biográficos dos entrevistados, possibilitando ao leitor elementos para um melhor entendimento das opiniões expostas sobre Goulart e sobre o contexto político de sua trajetória. A lista de depoentes colocada ao final do livro permite essa contextualização, porém se os dados biográficos estivessem distribuídos ao longo do texto tornariam mais fácil a leitura da obra.

Essa é a primeira biografia escrita pelos autores, ambos com uma larga experiência no trabalho historiográfico, especialmente na temática do trabalhismo. O livro foi lançado num momento muito importante, em que se refletiam ainda as discussões em torno dos 30 anos da morte de João Goulart. Sem dúvida nenhuma, o livro dos historiadores Ângela de Castro Gomes e Jorge Ferreira constitui um marco na historiografia sobre o passado recente do Brasil, tocando em feridas ainda não cicatrizadas. Para isso, utilizam a trajetória de um dos principais personagens daquele período. Uma leitura que se torna indispensável para quem pretende conhecer ou pesquisar a história política brasileira do tempo presente.

Notas

1FERREIRA, Jorge. O Imaginário trabalhista: getulismo, PTB e cultura política popular.

Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2005. FERREIRA, Jorge. Prisioneiros do Mito: cultura e imaginário político dos comunistas no Brasil. Niterói/Rio de Janeiro: Eduff/ Mauad, 2002. FERREIRA, Jorge. Trabalhadores do Brasil: o imaginário popular. Rio de Janeiro: Fundação Getúlio Vargas, 1997. GOMES, Angela de Castro. A Invenção do Trabalhismo. São Paulo/Rio de Janeiro: Vértice/IUPERJ, 1988. GOMES, Angela de Castro. Burguesia e trabalho: política e legislação social no Brasil. Rio de Janeiro: Editora Campus, 1979. GOMES, Angela de Castro. História e Historiadores: a política cultura do Estado Novo. Rio de Janeiro: Fundação Getúlio Vargas, 1996.

Referências

BOURDIEU, Pierre. A Ilusão Biográfica. In. AMADO, Janaína e FERREIRA, Marieta de Moraes. Usos e Abusos da História Oral. 5. ed. Rio de Janeiro: Editora FGV, 2002.

ELIAS, Norbert. Mozart: Sociologia de um gênio.Tradução Sérgio Góes de Paula. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1995.

LEVI, Giovanni. Usos da Biografia. In. AMADO, Janaína e FERREIRA, Marieta de Moraes. Usos e Abusos da História Oral. 5. ed. Rio de Janeiro: Editora FGV, 2002.

Wagner da Silva Teixeira – Tem graduação e mestrado em História pela Universidade Estadual Paulista (UNESP/FRANCA) e doutorado em História Social pela Universidade Federal Fluminense (UFF). E-mail: wagnersteixeira@yahoo.com.br

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Escritas | UFT | 2008

ESCRITAS UFT Passagens

A Escritas (Araguaína, 2008-) é uma publicação on-line vinculada ao Curso de História da Universidade Federal do Tocantins (UFT), campus de Araguaína. Criada em 2008, a Escritas teve os seus dois primeiros números anuais publicados em versão impressa. Desde 2013, a Escritas passou a ser semestral. A meta  da Revista é a divulgação da produção de historiadores, e demais profissionais das áreas afins, que investigam temas relacionados às ações e representações humanas no tempo e no espaço. Recebemos submissões de pesquisadores brasileiros e estrangeiros, que abordem temas relativos aos campos teórico, educacional, histórico e historiográfico.

A Escritas é um periódico semestral, de publicação on-line,  cuja missão é veicular a produção, a inovação e a transformação do conhecimento, especifico e pedagógico, na área de História e áreas afins,  e promover pesquisas que utilizam metodologias, teorias, fontes, práticas, objetos, temas e problemas que tratam, prioritariamente, da inserção do homem nos espaços-temporais globais, regionais e locais. A Escritas publica artigos, resenhas, conferências, traduções e ensaios, desde que expressem relevância e profundidade de análise e interpretação históricas.

Periodicidade semestral

Acesso livre [Coletar 2008-2014]

ISSN 2238-7188

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Izquierdas | SPBU | 2008

Izquierdas Passagens

Revista Izquierdas (Santiago, 2008-) es una publicación científica (peer reviewed) en acceso abierto y de edición continua (ahead of print o adelanto de edición) editada por Ariadna Ediciones con el auspicio de Saint-Petersburg University (Center for Iberoamerican Studies).

Su propósito principal es difundir la producción historiográfica sobre los hechos e ideas del conjunto de las manifestaciones sociales, políticas, intelectuales y estéticas de las agrupaciones, organizaciones y personas relacionadas con el pasado y presente de lo que social y tradicionalmente ha sido o son reconocidas como constitutivas de las izquierdas y el socialismo latinoamericanos, en una perspectiva de diálogo con realidades similares de otras regiones del mundo.

Su púbico objetivo es la comunidad de especialistas e historiadores/as vinculados/as o relacionadas/as con la temática de la historia del socialismo latinoamericano. No obstante ello, busca satisfacer consultas e interrogantes de un público amplio no necesariamente adscrito a la academia.

Periodicidade [?]

Acesso livre.

ISSN 0718-5049

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Antíteses | UEL | 2008

Antiteses2 2 Passagens

A revista Antíteses (Londrina, 2008-) é um periódico semestral eletrônico on-line em Open Access, no sistema ahead of print e volume fechado, do Programa de Pós-Graduação em História Social da Universidade Estadual de Londrina. Publica, após processo de avaliação entre pares, contribuições multidisciplinares inéditas a partir da perspectiva histórica, nos idiomas português, espanhol e inglês.

Periodicidade semestral.

Acesso livre

ISSN 1984-3356

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Aedos | UFRGS | 2008

Aedos4 2 Passagens

Aedos (Porto Alegre, 2008-) é a revista eletrônica discente de circulação semestral do Programa de Pós-Graduação em História da Universidaade Federal do Rio Grande do Sul (PPGH-UFRGS). Seu principal objetivo é proporcionar um espaço de divulgação e debate de trabalhos acadêmicos inéditos na área de História no formato de artigos, resenhas de livros e entrevistas.

Periodicidade semestral.

Acesso livre.

ISSN 1984 5634

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Diacronie | UniBo | 2008

Diacronie 2 Passagens

Diacronie Studi di Storia Contemporanea (Bologna, 2008-), è stata creata il 29 gennaio 2008 da un gruppo di studenti di storia contemporanea dell’Università di Bologna. A partire dall’ottobre 2009 ha incluso fra le sue attività la pubblicazione di una rivista. Diacronie si configura come una risorsa digitale a libero accesso attraverso cui si intende raccogliere e promuovere studi e ricerche scientifiche di carattere storico e storiografico. Il sito si propone anche come strumento informativo su eventi, pubblicazioni e risorse informatiche legate alle scienze storiche.

Rete

Questo progetto nasce dalla convinzione che lo sviluppo del web abbia comportato cambiamenti sostanziali all’interno degli studi in campo umanistico, sia per la produzione, sia per la divulgazione della ricerca. Il nostro vuole essere un contributo all’esplorazione delle possibilità che il web offre alla ricerca storica, soprattutto per quanto riguarda la legittimazione di studi, materiali e fonti che non sempre ottengono pieno riconoscimento attraverso i circuiti di diffusione più tradizionali. Ma, soprattutto, vuole essere un tentativo di esplorazione delle potenzialità legate al concetto di rete e, quindi, di collegamento e interazione. L’ambizione è quella di dare vita a una “socializzazione allargata” – fra gli studiosi, ma anche fra ricercatori e società – che consenta alla pagina web di non configurarsi come una semplice pubblicazione o come un raccoglitore, ma anche come una guidaun supporto, per quanto riguarda gli strumenti di ricerca e le fonti. Infine, la rete consente di esercitare una funzione critica delle conoscenze prodotte che, per sussistere, si deve fondare sulla massima libertà di accesso e di discussione dei contenuti.

Interdisciplinarità

Diacronie incoraggia l’adozione di un approccio attento a tutte le tematiche e le metodologie di ricerca e che possa metterne in risalto gli aspetti interdisciplinari. Lo studio della storia non può prescindere dall’apporto delle altre scienze – umanistiche e non – per affrontare le sfide che pone l’evoluzione del mestiere di storico nell’era digitale.

Condivisione

La dimensione esclusivamente informatica, la gestione redazionale democratica e condivisa e la libertà di accesso ai contenuti sono i principali caratteri di originalità del sito. La scelta del libero accesso ai contenuti intende garantire un’ampia diffusione dei documenti, nella convinzione che gli argomenti proposti possano e debbano interessare non solo una piccola cerchia di specialisti, ma un pubblico ampio, che sia portatore di interessi, curiosità, punti di vista esterni e alternativi. L’adozione di un medium interattivo non esclude, però, il rigore scientifico e metodologico con cui sono svolte le ricerche. La volontà di condivisione della ricerca storica e la fiducia riposta nei lettori sono il fondamento del progetto. Si auspica per questo il riconoscimento da parte del fruitore dell’operato e della proprietà intellettuale degli autori.

Buona lettura.

Periodicidade quadrimestral.

Acesso livre.

ISSN: 2038-0925

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a Ravardière e a França Equinocial: os franceses no Maranhão (1612-1615) – MARIZ; PROVENÇAL (RIHGB)

MARIZ, Vasco; PROVENÇAL, Lucien. La Ravardière e a França Equinocial: os franceses no Maranhão (1612-1615). Rio de Janeiro: Topbooks, 2007. 231p. Resenha de: DEL PRIORE, Mary. Revista do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, Rio de Janeiro, v.168, n.438, p.355-356, jan./mar., 2008.

De livro em livro, Vasco Mariz e Lucien Provençal vão construindo uma obra, se entendemos por obra um conjunto de textos atravessados por uma questão. No caso: as relações históricas entre Brasil e França. Autores de vários livros sobre personagens importantes da aventura americana, eles têm se debruçado sobre episódios que a história deixou no limbo. Depois de Villegagnon e a França Antártica, quem ganhou carne e osso foi este La Ravardiére e a França Equinoxial. Após as lutas na baía da Guanabara, àquelas nas praias pantanosas do Maranhão. Num texto coloquial e amistoso, os autores conjugam simplicidade e competência para nos contar o que alguns tentam esquecer : que por mais de um século, regiões inteiras do que, hoje, chamamos Brasil foram terra de ninguém. De ninguém, não. Pois os franceses sempre demonstraram enorme habilidade em se instalar e, diferentemente dos portugueses, estabelecer relações amistosas com seus moradores, os tupinambás

No Rio de Janeiro foi assim, e em São Luíz também. A idéia de uma colônia francesa no Norte, nasceu depois que alguns franceses aí estiveram, ao final do século Dezesseis. A idéia foi aplaudida por Daniel de La Touche, Senhor de la Ravardière, que já conhecia o litoral da atual Guiana. Em 1611, a primeira bandeira com a flor-de-lís foi hasteada e os “papagaios amarelos”, – alcunha amistosa que lhes foi dada pelo índios – davam início ao projeto de construir um forte, manter um convívio pacífico com os tupinambás e preparar a posterior ocupação por colonos. A campanha era escorada pelos chamados “grandes da Corte”: François de Razilly, Senhor des Aumels, chegado à família real, Nicolas de Harlay, barão de Molle et de Gros-Bois, e o senhor de Danville, almirante da Bretanha e primo do rei, Henrique IV. Com o sucesso da primeira parte da missão, passou-se à segunda. No ano quatro padres capuchinhos, entre os quais um dos primeiros etnógrafos a escrever sobre a região : Claude d´Abbeville. A chegada no porto de Jeviré tem banquete “tão magnífico quanto poderia ser em França”, reunião com os chefes aliados e uma decisão : a construção do forte São Luís : “feito de estacadas, com baluartes altos, casamatas e fosso de 40 palmos”.

Seguros para passar a etapa seguinte? Não. Aí que os problemas começam. E de um e de outro lado do Atlântico. De comum acordo com companheiros que levavam adiante uma campanha de alianças comerciais entre os diferentes grupos tupinambá, Razzily partiu para a França. Ia em busca de capitais, soldados e colonos. Deixava aqui disputas discretas com La Ravardière. Este, por ser protestante, era tratado como “herege” pelos capuchinhos e com pequenas humilhações por parte de seus subordinados católicos. Entretempos, Henri IV, que era um entusiasta da idéia, foi assassinado. Na mesma época programou-se o casamento de seus filhos com os de Felipe III, rei de Espanha e Portugal – sob a conjuntura da União Ibérica. Não era de bom alvitre, portanto, arranjar confusão no Brasil. Por aqui, os portugueses resolvem reagir.

Tem início as “jornadas importantíssimas do Maranhão”, dos melhores capítulos do livro, com detalhes das várias escaramuças, traições e operações estratégicas que levam à vitória de Guaxenduba. O fim da França Equinoxial se consolida com a rendição do forte São Luís – “Saint Louis des Français” –, no dia 3 de novembro de 1615. Foram tres curtos anos em que fatos externos ajudam a abortar uma experiência que poderia ter vida longa.

Se no século Dezesete, o Brasil continua como o país do ouro e das especiarias, para La Ravardière a França Equinoxial foi um sonho. Sonho decifrado com autoridade por especialistas capazes da arte sutíl de reunir a melhor informação com uma narrativa que deixará qualquer leitor por dentro do assunto. Trata-se de um exercício de precisão levado a cabo por dois colegas historiadores e que contribue de maneira esclarecedora para a compreensão das relações entre dois países amigos.

Mary Del Priore – Sócia honorária do IHGB.

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Alétheia | Unipampa | 2008

Aletheia 2 Passagens

Alétheia – Revista de Estudos sobre Antiguidade e Medievo (Jaguarão, 2008-) é um periódico eletrônico vinculado ao curso de História-Licenciatura do Campus de Jaguarão da Universidade Federal do Pampa.

Este periódico foi por pesquisadores de pós-graduação inicialmente vinculados à Universidade Federal de Goiás. Ao longo dos últimos anos, temos buscado promover esse espaço enquanto um local de promoção de pesquisas sobre Antiguidade e Medievo.

A partir de 2016, a revista está incorporada à base de periódicos da Universidade Federal do Pampa, que conta com dois de seus membros do quadro efetivo como editores da publicação.

Durante o ano de 2019, temos reorganizado as atividades e o funcionamento deste periódico de modo a restabelecer uma periodicidade e número de publicações mais adequado. Acreditamos que o resultado dessas modificações será mais bem perceptível a partir de 2020.

Atualmente, nosso objetivo consiste na divulgação de produções acadêmicas universitárias empreendidas por graduandos, pós-graduandos e doutores na área da História Antiga, História Medieval, Filosofia Antiga, Filosofia Medieval, e Letras Clássicas.

Nosso periódico tem como objetivo principal a disseminação de artigos científicos e resenhas de publicações recentes sobre a área de Antiguidade e Medievo.

Periodicidade anual

Acesso livre

ISSN 1983-2087

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Cordis | PUC-SP | 2008

Cordis 2 Passagens

Cordis – Revista Eletrônica de História Social da Cidade (São Paulo, 2008-), vinculada ao Programa de Estudos Pós-Graduados em História e ao Departamento de História da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), é uma revista acadêmica semestral e temática, disponibilizada de forma gratuita pela internet, que se propõe discutir a História e sua integração com os diversos ramos do conhecimento.

O periódico publica artigos, entrevistas, traduções, resenhas e pesquisas de graduação, em particular de assuntos das Ciências Humanas e Sociais.

Sua missão é publicar escritos que problematizem questões referentes à História e à historiografia, em especial a das cidades, primando por contribuir com os campos histórico e da cultura dos sujeitos analisados e, não obstante, também da sociedade em geral.

[Periodicidade anual].

[Acesso livre].

ISSN: 2176-4174

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Polígrafos, tipógrafos e jornalistas em Minas no século XIX / Revista do Arquivo Público Mineiro / 2008

Uma história de precursores e ativistas

A imprensa, que durante certo tempo foi relegada pelos estudiosos a uma posição inferior, em virtude do predomínio de abordagens de caráter mais social e econômico da história e até mesmo por uma atitude preconceituosa – uma vez que para muitos não passava de mero reflexo das idéias e fatos de seu tempo –, retoma seu valor enquanto fonte e objeto dos estudos históricos. Isso se dá não nos moldes de uma historiografia tradicional, mas na linha que já identificava Xavier da Veiga em fins do século XIX. Este, sim, o verdadeiro precursor dos estudos sobre a imprensa em Minas, se já não bastasse o legado da preciosa coleção de jornais e revistas dos séculos XIX e XX, que se iniciou com ele, à frente do Arquivo Público Mineiro, e que hoje constitui o acervo da Hemeroteca Histórica, vinculada à Superintendência de Bibliotecas Públicas de Minas Gerais, órgão da Secretaria de Estado de Cultura. Leia Mais

Tan lejos de Dios… Ensayos sobre las relaciones del Caribe con Estados Unidos | Antonio Gaztambide-Géigel

Tan Lejos de Dios… é o instigante título do livro de Antônio Gaztambide, uma co-edição, lançada simultaneamente (2006) em Porto Rico e Cuba. O historiador, no prefácio, completa a expressão que dá nome ao conjunto de ensaios: “Tan lejos de Dios… y tan cerca de los Estados Unidos”.

A anedota política tem origem mexicana, onde era precedida de um lamento: “Pobre México…”. Difundida em outras sociedades, a expressão reflete a experiência caribenha em sua dimensão de região. A proximidade com o poderoso vizinho tem influência na dinâmica de identidades e trocas regionais, fato diretamente relacionado às definições de Caribe. Reside aí a maior originalidade da abordagem, pensar o Caribe como categoria histórica. O livro se desdobra, então, num duplo movimento, investigar as políticas norteamericanas para a região no contexto das contradições internas àquele país, e, desde um lugar de fala demarcado, nuestra región, nela descortinar relações políticas e simbólicas, com ênfase no século passado. Tarefa cumprida com a autoridade de quem, como educador e pesquisador acostumado a construir pontes entre insularidades, conhece muito bem aquelas águas.

O primeiro ensaio, “A invenção do Caribe a partir de 1898”, nos remete à questão das concepções colonialistas, desde afuera, mas também à apropriação e redefinição conduzida regionalmente, desde adentro. A invenção tardia do Caribe seria resultado de arrafjos naquela “fronteira imperial”, que culminaram na hegemonia estadunidense. Não que a palavra fosse nova, havia sido empregada já por Colombo, para distinguir etnias que ‘resistiam à conquista’ e depois por ingleses (caribby). Porém, Antilhas e West Indies eram as designações mais comuns em diferentes concepções da região até o século XX. A partir daí emerge o signo Caribe e, no sentido de suas múltiplas definições, é que Gaztambide nos sugere pensar em muchos Caribes.

Duas tendências são discutidas no viés geopolítico. A primeira marca o período da intervenção militar norte-americana, iniciada com a ocupação de Cuba, ao fim da “Guerra Cubano-Hispano-Estadunidense” (p. 214) e com a anexação de Porto Rico. Este Caribe, aceito por boa parte da historiografia, reunia a princípio as Antilhas (quatro ilhas maiores) e o continente, de Belize ao Panamá, e, depois de 1945, todo o Caribe insular. A outra tendência propõe pensar um Grande Caribe, com a presença de México, Colômbia, Venezuela, originada em parte por interesses intrarregionais, mas também desde afuera, como ilustra a “contra-ofensiva” dos EUA sobre a Cuenca del Caribe. De maior complexidade são as definições menos territorializadas, o Caribe “etnohistórico” e o “cultural”. Trata-se de relações entre as Antilhas, sobretudo as hispanófonas (Cuba, República Dominicana e Porto Rico) e as repúblicas das West Indies, antes colônias inglesas, neerlandesas ou francesas, sempre associadas às Guianas e a Belize. No interior de cada um desses universos e entre eles, a afirmação de uma identidade caribenha permanece coftroversa: basta indicar que para uma dúzia de tarritórios a descolonização sequer se completou.

Os ensaios “A geopolítica do antilhanismo de fins do século XIX” e “Identidades internacionais e cooperação regional no Caribe” ampliam o debate anterior, sem perder de vista que as palavras “estão carregadas de histórias e, portanto, de ideologias e discursos, de imaginários”. Somos apresentados ao pensamento republicano e antilhanista de Ramón Betances e Eugenio Hostos, nascidos em Porto Rico, e às idéias do poeta e revolucionário cubano José Martí; ambos lutaram pela emancipação de Porto Rico e de Cuba. A proposta de Confederación de las Antillas surgiria em manifesto pioneiro de Betances, de 1867, logo partilhada, com nuanças, por Hostos. De um antilhanismo concebido para Cuba, República Dominicana, Porto Rico e Haiti, caminhava-se para a categoria Hispano-América; tendiam a excluir o Brasil, uma monarquia escravista. José Martí propõe uma categoria particular, Nuestra América. Ele postula, a partir da rejeição de modelos sociais e raciais derivados das metrópoles, a independência política e econômica diante da Europa e dos Estados Unidos. Mais tarde, Martí teria uma práxis mais antilhanista, com a fundação do Partido Revolucionário Cubano, em 1892.

As relações internacionais entre Estados Unidos e Caribe são o tema dos demais ensaios. Gaztambide defende uma história internacional que transcenda os espaços governamentais e a diplomacia, incluindo “classes, interesses e grupos culturais e étnicos” que atravessam as fronteiras nacionais.

O terceiro e o quarto estudo situam essas relações a partir da irrupção dos EUA como potência colonial ultramarina no fim do século XIX, passando pela(s) Política(s) de Boa Vizinhança, até 1945. As resistências internas não conseguiriam impedir a ambigüidade de um discurso anticolonial acompanhado de freqüentes agressões aos países vizinhos, tais como as intervenções no Haiti (1915) e na República Dominicana (1916). A luta pelo poder econômico e político sobre o Caribe continuaria mesmo sob a face da Buena Vecindad. Poucos “tratados de reciprocidade” repercutiram, de fato, nas economias do Caribe, mas o governo de Roosevelt, a partir da entrada na segunda grande guerra, ampliou a cooperação cultural e militar, “aparentando apoiar um sistema formal de Estados iguais” (p. 127).

“Hacia una historia social de las relaciones latinoamericanas” e “Estados Unidos, la idea de desarrollo y el Gran Caribe”, por sua vez, são parte, como se anuncia, de um próximo livro: “Camino al Desarrollismo”. Constituem uma análise profunda dos embates no interior da elite que conduz a política exterior norte-americana, e da transição para o imperialismo hegemônico.

Os confrontos entre corporações predominantemente nacionais, de um lado, e a burguesia internacional do Nordeste dos EUA, mais voltada para as articulações multinacionais, de outro, refletiam posições diferentes quanto à industrialização do continente. Nessa época, vemos surgir a política do “Bom Sócio”, nome genérico que se dá a vários ajustes a partir da Guerra Fria, marcada pelo combate ao desenvolvimento independente e ao comunismo, que implicaram ora em intervenções abertas, ora em apoio encoberto a regimes ditatoriais. Também surgem iniciativas no sentido de construir um modelo de desenvolvimento periférico. O autor destaca aí a trajetória da Comissão Econômica para América Latina (CEPAL), criada em 1948. O segundo livro de Gaztambide, certamente, trará análises ainda mais valiosas sobre esses fenômenos, centrais para uma história contemporânea do Caribe.

Trata-se, por tudo isso, de leitura proveitosa para os estudiosos das relações internacionais e da história caribenha. Os historiadores brasileiros, mais acostumados a olhar o Caribe desde o Brasil,1 provavelmente sentirão falta da presença brasileira no cenário das relações internacionais abordado pelo autor. Particularmente, na discussão sobre o Caribe cultural, baseada na concepção de Charles Wagley de esferas culturais americanas. Uma dessas esferas, relativa às heranças da empresa açucareira escravista (plantation), em que se inclui o Brasil, é adotada no livro para fundamentar a definição do Caribe como “Afro-América”. Embora outros autores pensem o Caribe nessa dimensão ampliada, Gaztambide enfatiza que seu entendimento do Caribe cultural é como “Afro-América Central”: ao sul dos Estados Unidos e ao norte do Brasil, “porém sem incluí-los” (p. 53). A pesquisa histórica, de outro modo, vem revelando, cada vez mais, os “matizes caribenhos” (cf.Maria T. Negrão de Mello) de realidades brasileiras, no passado e no presente.

A perspectiva cultural será enriquecida, como penso, quando integrar o Brasil na compreensão desses muchos Caribes. Afinal, Tan lejos de Dios nos alerta para a impossibilidade de uma definição inequívoca de Caribe. O mais importante para fazer avançar o debate será o esclarecimento, em cada contexto, de que Caribe se está falando e por quê.

Notas

1 Refiro-me, especialmente, aos inúmeros diálogos entre o Brasil e o Caribe presentes em alguns livros recentes e na Revista Brasileira do Caribe, organizados pelo Centro de Estudos do Caribe no Brasil, com a participação de pesquisadores como Olga Cabrera, Jaime de Almeida e Maria T. Negrão de Mello, entre outros.

Alex de Oliveira – Doutorando do PPGHIS/UnB.


GAZTAMBIDE-GÉIGEL, Antonio. Tan lejos de Dios… Ensayos sobre las relaciones del Caribe con Estados Unidos. San Juan: Ediciones Callejón; La Habana: Centro de Investigación y Desarrollo de la Cultura Cubana Juan Marinello, 2006. Resenha de: OLIVEIRA, Alex de. Tan lejos de Dios. Textos de História, Brasília, v.16, n.1, p.189-192, 2008. Acessar publicação original. [IF]

Historiador | FAPA | 2008

Historiador Passagens

A Revista Historiador (Porto Alegre, 2008) surgiu como uma iniciativa dos alunos do curso de graduação em História da Faculdade Porto-Alegrense. Desde então, vem anualmente publicando artigos acadêmicos para contribuir com o debate sobre a História no Brasil e no mundo.

[Periodicidade anual].

Acesso livre.

ISSN 2176-1116

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Territórios & Fronteiras | UFMT | 2008

Territorios e Fronteiras3 Passagens

A Revista Territórios e Fronteiras (Cuiabá, 2008-) publica artigos, resenhas, entrevistas, dossiês e edições críticas de documentos relacionados, preferencialmente, à disciplina da História e aos temas associados à constituição de territórios e fronteiras na história, em suas diferentes formas, realidades e dimensões. Administrada e apoiada financeiramente pelo Programa de Pós-graduação em História da UFMT, cuja área de concentração é “História, Territórios e Fronteiras”, a revista tem por meta constituir um espaço de debates e de divulgação da produção científica vinculada a esses temas. O periódico também recebe contribuições interdisciplinares e ligadas a áreas afins, a exemplo da Sociologia, Antropologia, Educação, Geografia, Ciência Política, Relações Internacionais etc.

Periodicidade semestral.

Acesso livre.

ISSN 1984-9036

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Recorde | UFRJ | 2008

RECORDE Passagens

Recorde – Revista de História do Esporte (Rio de Janeiro, 2008-) é uma revista científica editada pelo “Sport”: Laboratório de História do Esporte e do Lazer (Programa de Pós-Graduação em História Comparada/IH/UFRJ).

Publica artigos que se debruçam sobre as práticas corporais institucionalizadas (esporte, educação física, dança, ginástica, capoeira, entre outras), bem como sobre as atividades de diversão/lazer, desde o ponto de vista das ciências humanas e sociais, especialmente da História.

Recorde – Revista de História do Esporte é uma publicação destinada a acadêmicos, discentes e docentes, pesquisadores das áreas de História, Sociologia, Antropologia, Educação Física e demais ciências humanas e sociais, abrangendo áreas multidisciplinares como a dos “estudos do esporte”.

Periodicidade semestral.

Acesso livre.

ISSN 1982-8985

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Outros tempos, outros lugares: a história sob o olhar dos viajantes / Aedos / 2008

Criar um periódico científico era um antigo anseio dos alunos do Programa de Pós-Graduação em História da Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Em 2007, um grupo de estudantes dedicou-se à tarefa, planejando dar origem a uma publicação impressa, meta que esbarrou principalmente em obstáculos financeiros. Com o ingresso das turmas de Mestrado e Doutorado de 2008, as discussões relacionadas à revista avançaram no sentido de publicá-la eletronicamente. Para além das questões burocráticas, pensar o perfil da publicação foi sem dúvida o maior desafio, enfrentado em inúmeras e exaustivas reuniões. Alguns colegas que participaram dessa importante etapa não continuaram no grupo que deu seguimento ao trabalho. Mas muitas de suas ideias, de uma maneira ou outra, contribuíram para efetivarmos o projeto. Somos gratos a eles, bem como à Coordenação do PPG em História da UFRGS, que, na pessoa do Professor Dr. José Rivair Macedo, não poupou forças para que todo o empenho para criar a revista discente não esmorecesse. Desde a criação oficial de Aedos, em 2 de julho de 2008, numa assembléia aberta a professores e alunos do Programa e que contou com a participação de muitos colegas, viemos constituindo extenso, diversificado e qualificado corpo de avaliadores, a quem agradecemos imensamente por aceitarem integrar nosso Conselho Consultivo.

Aos poucos e tanto quanto possível, buscamos conquistar espaço acadêmico. O sítio eletrônico da Revista, no ar desde 3 de setembro de 2008, já conta com mais de 1.500 acessos no país e no exterior. A expectativa de tentar aproximar o debate historiográfico de um público mais amplo, por sua vez, foi atendida com a divulgação da chamada de artigos para o segundo número no jornal Correio do Povo (edição de 26 de janeiro de 2009). E acreditamos que um dos desdobramentos de tal preocupação com publicidade é a diversidade institucional dos autores presentes neste primeiro número, quase todos estudantes de programas de pós-graduação, detalhe revelador do sucesso obtido por Aedos em um de seus principais objetivos: aproximar mestrandos e doutorandos e lhes propiciar um espaço para discussão.

Neste número inaugural, Aedos apresenta o dossiê temático Outros tempos, outros lugares: a história sob o olhar dos viajantes. A ideia do tema apresenta-se interessante para o debate sobre os relatos de viagem como indícios de realidades históricas distintas, bem como para uma análise da produção historiográfica derivada dos mesmos. A grande diversidade de realidades e períodos históricos, bem como a potencialidade das discussões que caracterizam o tema, fica bastante evidente nos cinco artigos que integram o Dossiê. Esses textos apresentam a grande relevância dos relatos de viajantes como fonte para a pesquisa histórica, desde que considerados a posição do narrador, o público para quem produz e todo o complexo de percepções que norteia as suas descrições. Os textos abarcam um período histórico de mais de cinco séculos, evidenciando importantes aspectos da história / História do continente africano e de três países da América do Sul – Brasil, Argentina e Uruguai.

Os três primeiros artigos inserem-se num período de produção de um grande volume de informações, por parte das metrópoles europeias, acerca de suas colônias. Nesse “descobrimento” do “novo mundo”, o Império Português voltava sua atenção para o território africano e brasileiro. O primeiro artigo, intitulado “Evidências de História nos Relatos de Viajantes sobre a África Pré-Colonial”, esclarece algumas questões epistemológicas relativas aos relatos de viagem enquanto fonte para o estudo da História da África pré-colonial. Já o texto “Todas as Letras são oriundas do Rei: Inter Universitas Et Collegium” aborda os diferentes contextos de produção intelectual sobre o Brasil e evidencia os interesses políticos da monarquia portuguesa no incentivo à essa produção. E, com o objetivo de entender a imagem que se queria projetar da capital colonial do Brasil, em “O Rio sob Schematas: as representações de Thomas Ender”, suas obras são analisadas a fim de refletir sobre suas representações, esquematas e registros históricos.

Os dois últimos textos do Dossiê referenciam a importância dos relatos de viajantes na produção historiográfica da Argentina e do Uruguai. Em “Relatos de Viajeros e Historiografía: paisage rural y sociedad urbana en el Buenos Aires de la primera mitad del siglo XIX”, analisa-se como as imagens dos viajantes europeus que percorrem o espaço da campanha na primeira metade do séc. XIX são tomadas como ponto de partida indiscutível na construção de um estereótipo historiográfico que contrapõe a cidade e o campo. E o artigo “Tradición y modernidad en América Latina. Carlos Real de Azúa y sus análisis de relatos de viajes por Uruguay”, examina como o intelectual uruguaio Carlos Real de Azúa (1916-1977) utiliza e interpreta os relatos de viagem sobre o Uruguai, considerando o contexto de produção desse autor e o seu posicionamento crítico num ponto central da sua obra: as vinculações complexas entre “tradición-modernidad”.

O trabalho “Antióquia e a Fome: dois imperadores romanos entre a sanguinolência e a sátira”, é o primeiro da seção de artigos variados. Ele trata da relação entre dois imperadores romanos – Galo e Juliano – com os cidadãos e a política da cidade de Antióquia. A partir das escolhas religiosas de cada um dos dois irmãos que ascenderam ao cargo, este artigo desenha os desejos populares da cidade no século IV d.C. Já “Um Mundo às Avessas: relações de poder e dominação entre os operários gaúchos na Primeira República (1917-1919)” examina as relações de dominação e de poder entre os operários gaúchos na Primeira República (1917-1919), problematizando a relação entre grevistas e trabalhadores não engajados. “Será o populismo um conceito operacional? Notas para o debate”, por sua vez, faz uma reflexão teórica acerca do potencial analítico do conceito de “populismo” para o período de 1945-1964 da história brasileira, realizando um balanço de textos clássicos e contemporâneos em historiografia e teoria social, historicizando, assim, os diversos significados e usos do conceito.

“Economia, discurso e poder: os bastidores políticos do Segundo Plano Nacional de Desenvolvimento (II PND)”, busca levantar hipóteses sobre a estratégia de crescimento no período do governo Geisel, analisa o ambiente político, a retórica e o cenário internacional. Já “Acordo Nuclear Brasil-Alemanha Federal de 1975: o desafio brasileiro na estratégia de soberania internacional” investiga, a partir do acordo, as questões de tecnologia nuclear correlacionadas à política externa brasileira no período da Ditadura Militar. As relações entre memória, história e antropologia são abordadas no artigo “Nos porões da Glória: uma reflexão sobre arquivos pessoais, Teixeirinha e alguns cruzamentos entre História e Antropologia” a partir do acervo desse cantor gaúcho. E “Escravidão contemporânea no Brasil: a trajetória histórica de um debate teórico-metodológica e político (1985-2003)” nos brinda com uma análise dos diferentes aspectos da discussão sobre a existência de modalidades de trabalho escravo no Brasil contemporâneo, incluindo as discussões políticas que permeiam o debate e as interferências na legislação federal sobre o tema.

Além dessas seções, já tradicionais, a edição aqui apresentada oferece uma outra, mais dinâmica, chamada Mesa Redonda, na qual projetamos expectativas de franco envolvimento dos leitores. Compõe-na o artigo do doutorando da Universidade de Princeton (Estados Unidos) Joseph Younger intitulado “Corredores de Comércio e Salas de Justiça: Lei, Coerção e Lealdade nas fronteiras do Rio da Prata”. O texto discute os usos, e abusos, da lei pelos fronteiriços da região do Prata, enfatizando as definições cambiantes de “lei” e “coerção” nestes espaços e a necessidade dos Estados centrais de se adaptarem a estes usos, sob o risco de perderem a lealdade de seus cidadãos. Mais do que divulgar as problematizações suscitadas pela pesquisa deste historiador norte-americano, o objetivo de apresentar seu trabalho na seção Mesa Redonda é convidar o público leitor a debater de maneira mais aberta sobre as novidades que sua investigação traz para a historiografia.

Na seção de entrevistas, apresentamos a conversa com o Professor Titular do Departamento de História da UNICAMP Sidney Chalhoub, realizada em maio de 2008 nas dependências da UFRGS. Nela, Chalhoub nos fala de seu trabalho, de uma forma geral, e sobre o objeto atual de seus estudos: Machado de Assis.

Por fim, contamos em nosso primeiro número com uma resenha de texto clássico, seção destinada a atender a demanda por resumos críticos de obras não necessariamente atuais que marcaram o debate historiográfico. O artigo de Michel Foucault sobre a questão da governamentalidade, publicado na Microfísica do Poder, é comentado pormenorizadamente, desvelando a leitura que ele faz tanto da obra de Maquiavel quanto da literatura antimaquiavélica para mostrar como a atual noção de governo se constrói a partir da conjugação dos dois modelos de governamentalidade propostos, a saber, o da “teoria da soberania” e o da “arte de governar”, articulando, a partir do século XVII, governo, população e economia.

E, assim, a revista eletrônica do Corpo Discente do PPG em História da UFRGS torna público seu primeiro número, esperando, verdadeiramente, proporcionar um espaço dinâmico e útil para historiadores e demais profissionais que, à semelhança desses que vos escrevem, têm compromisso com a construção e a divulgação do conhecimento histórico.

Conselho Editorial

Gestão 2008 / 2009


Conselho Editorial. Editorial. Aedos, Porto Alegre, v.1, n.1, 2008. Acessar publicação original [DR]

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Sankofa | USP | 2008

Sankofa4 Passagens

A revista Sankofa (São Paulo, 2008-) tem como objetivo abrir espaço para publicação de textos inéditos nas áreas de História da África, Diáspora, Cultura Política e Colonialidade.

O conceito de Sankofa (Sanko = voltar; fa = buscar, trazer) origina-se de um provérbio tradicional entre os povos de língua Akan da África Ocidental, em Gana, Togo e Costa do Marfim. Em Akan “se wo were fi na wosan kofa a yenki” que pode ser traduzido por “não é tabu voltar atrás e buscar o que esqueceu”. Como um símbolo Adinkra, Sankofa pode ser representado como um pássaro mítico que voa para frente, tendo a cabeça voltada para trás e carregando no seu bico um ovo, o futuro.

Também se apresenta como um desenho similar ao coração ocidental. Os Ashantes de Gana usam os símbolos Adinkra para representar provérbios ou idéias filosóficas. Sankofa ensinaria a possibilidade de voltar atrás, às nossas raízes, para poder realizar nosso potencial para avançar.[1] Sankofa é, assim, uma realização do eu, individual e coletivo.

O que quer que seja que tenha sido perdido, esquecido, renunciado ou privado, pode ser reclamado, reavivado, preservado ou perpetuado. Ele representa os conceitos de auto-identidade e redefinição. Simboliza uma compreensão do destino individual e da identidade coletiva do grupo cultural. É parte do conhecimento dos povos africanos, expressando a busca de sabedoria em aprender com o passado para entender o presente e moldar o futuro.

Deste saber africano, Sankofa molda uma visão projetiva aos povos milenares e aqueles desterritorializados pela modernidade colonial do “Ocidente”. Admite a necessidade de recuperar o que foi esquecido ou renegado. Traz aqui, ao primeiro plano, a importância do estudo da história e culturas africanas e afro-americanas, como lições alternativas de conhecimento e vivências para a contemporaneidade.

Desvela, assim, desde a experiência africana e diaspórica, uma abertura para a heterogeneidade real do saber humano, para que nos possamos observar o mundo de formas diferentes. Em suma, perceber os nossos problemas de outros modos e com outros saberes. Em tempos de homogeneização, esta é a maior riqueza que um povo pode possuir.

Contato principal: NEACP – Núcleo de Estudos de África, Colonialidade e Cultura. Universidade de São Paulo. Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas. Departamento de História. Núcleo de Estudos de África, Colonialidade e Cultura Política

Periodicidade semestral.

Acesso livre

ISSN 1983-6023

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O Sol e a Sombra: política e administração na América portuguesa do século XVIII | Laura de Mello e Souza

No ano de 2006, foi publicado um livro que surge de forma a significar um divisor de águas quando o tema em questão é o da política e administração na América portuguesa do século XVIII, como expresso em seu subtítulo. Trata-se do livro O Sol e a Sombra, de autoria da historiadora Laura de Mello e Souza, onde são aplicadas novas perspectivas analíticas sobre o tema da “administração” colonial, assentadas em interpretações que incitam ao debate e à crítica.

O título do livro já é capaz de sintetizá-lo muito bem. O sol e a sombra se refere a um escrito – utilizado no livro como epígrafe – do famoso padre António Vieira, em que se relaciona, metaforicamente, a imagem do sol e a sua sombra variável à prática administrativa no império colonial português. Em seu raciocínio, Vieira adverte que quanto mais distante o sol está, maior, portanto, será a sombra projetada. O jogo entre o sol e a sombra, de que fala Viera, refere-se àqueles que compõem os governos ultramarinos, onde as grandes variações das sombras, dadas por distâncias cada vez maiores, significam, metaforicamente, que os ministros projetam, em possessões coloniais, imagens extrapoladas dos reis, de quem são representantes.

O fato de os oficiais formarem vários laços hierárquicos no aparelho administrativo favorecia a centralização, ao mesmo tempo em que se construía o seu contraponto, já que os oficiais poderiam, por exemplo, tomar decisões segundo vontade própria, haja vista as grandes distâncias entre reino e conquistas, além de vários casos particulares não estarem previstos nas Ordenações. Tem-se, então, um quadro “incoerente”, “inconsistente”, “contraditório”.

Por outro lado, como um quadro considerado como “contraditório” conseguiu se manter durante tanto tempo? Para Laura de Mello e Souza a resposta reside no fato de se entender esse quadro como aparentemente contraditório. Para ela, essa aparente “contradição”, significa, na verdade, um ajustamento entre interesses da metrópole e interesses das porções coloniais, disso resultando elementos peculiares. Para chegar a essa visão concernente ao funcionamento da política e administração colonial, a autora buscou conciliar rigor teórico e uma profunda pesquisa empírica, frutos do transcurso de mais de dez anos dedicados ao tema.

Em um estudo de 1980, intitulado Desclassificados do Ouro, Laura de Mello e Souza já havia constatado o caráter ambíguo das ações políticas e administrativas das personagens representantes do centro decisório do poder, passando a denominar de “pendular” a prática em que as autoridades buscavam uma “justa medida”, inicialmente qualificada de “política do bater-e-soprar”. Daí que a autora destaca que em muitas situações havia a necessidade de se recorrer à violência, bater; sem, contudo, deixar de soprar, ação esta que significaria amenizar as dores da colonização através de soluções que se adaptassem às circunstâncias locais. Esse mesmo enquadramento acompanhou o processo de construção do poder inerente aos Estados modernos, devido a sua importância para a permanência e duração da administração que se configurava naquele momento.

Preocupando-se com o diálogo historiográfico, Laura de Mello e Souza destaca que o comprometimento na conciliação entre os interesses que orientavam as ações desempenhadas tanto pelas elites locais quanto pelos oficiais régios lotados nos quadros da administração significaria um pressuposto inaceitável segundo as concepções de análise de muitos intelectuais brasileiros que escreveram sobre o assunto há mais de meio século. Esses estudiosos, entre os quais a autora destaca Caio Prado Jr. e Raymundo Faoro, não cogitavam a possibilidade de haver uma combinação entre interesses metropolitanos e coloniais. Assim, as análises historiográficas relacionadas ao tema não davam conta de apreender as “contradições” inerentes à política administrativa na América portuguesa, ponto este diretamente relacionado aos impasses e limites do mando português.

A “busca de ações comuns”, segundo a autora, comportava o ajuste de dois aspectos: interesses particulares, assentados, por exemplo, em contrabando, arbitrariedades, conflitos de jurisdições; juntamente com a adoção de políticas que preservavam interesses de religião, justiça e fazenda, elementos mais diretamente relacionados ao Estado. Para Laura de Mello e Souza, portanto, esse quadro se refere a uma política capaz de conciliar tanto interesses do Reino quanto interesses das conquistas. Daí o seu caráter aparentemente “contraditório”.

No decorrer de seus argumentos, Laura de Mello e Souza busca contrariar as discussões prevalecentes sobre o tema ao exercer a função primordial do intelectual: incomodar. E incomoda na medida em que destaca ser através do estudo de casos específicos a importante maneira para se compreender as características da administração e política imperial portuguesa na região do Atlântico sul do século XVIII; para tanto, adverte a importância de situá-los em um contexto maior, por ela denominado de “enquadramento geral”. A autora, então, lança uma crítica à postura adotada por uma série de jovens historiadores brasileiros influenciados pelos trabalhos de António Manuel Hespanha, traduzida no exagero do estudo de casos particulares desconectados de um contexto mais amplo e na interpretação capaz de identificar o Antigo Regime nos trópicos, sem levar em consideração os significados que o conceito de Antigo Regime encerra.

As preocupações do livro não estão relacionadas às descrições pormenorizadas das instituições que viabilizaram uma política administrativa no Brasil, mas buscar compreender as significações do mando e sua formação estrutural no interior do império português, concretizados em ações de homens inseridos numa dada conjuntura. A historiadora ainda aponta Stuart Schwartz como sendo o autor pioneiro no trato mais técnico dos órgãos da administração portuguesa, devido ao lançamento de Burocracia e Sociedade no Brasil Colonial (1979). Além de ressaltar o robustecimento da temática do mando através da comparação entre a política administrativa portuguesa no Brasil e a experiência espanhola na América, tal como nos havia apresentado Sérgio Buarque de Holanda em sua interpretação inovadora de Raízes do Brasil (1936).

Em sua primeira parte, o livro apura a crítica historiográfica: traça um panorama de importantes tradições analíticas brasileiras; analisa aspectos decisivos para a formação do século XVIII, que envolvem a descoberta do ouro na região das Minas gerais, a sua formação social e a montagem de sua estrutura administrativa e fiscal, bem como a formação de São Paulo e o delineamento de uma identidade paulista; discorre sobre a intensificação de trabalhos interessados pela temática da administração no império português; problematiza o Antigo Regime enquanto categoria analítica; e, por fim, situa a contribuição de Laura de Mello e Souza no processo de construção de uma “renovação de perspectivas” sobre o tema.

Já em sua segunda parte, o livro destaca o percurso do governador Conde de Assumar e de outros funcionários reais da região das Minas. Ao desvelar percursos individuais, Laura de Mello e Souza enfatiza as “contradições” inerentes às vivências das personagens que ajudaram a construir esta porção da América portuguesa. Vivências estas marcadas por dilemas e paradoxos, frutos da embaraçosa situação de estarem divididos entre a execução do poder central e o exercício deste poder ao sabor das circunstâncias delimitadas pelos poderes locais.

Sabe-se que as distâncias entre colônias e metrópoles foram marcadas por longas jornadas que levavam meses, e, às vezes, anos. Assim, essas grandes distâncias proporcionavam que a administração adotasse uma série de mecanismos inclinados às circunstâncias locais. Para Laura de Mello e Souza, a ambigüidade dos papéis desempenhados pelas personagens do mando colonial, recorrendo ora à violência ora à cessão, significava uma estratégia para manter a integridade de todo o império através do bom funcionamento da administração. Segundo essa perspectiva, era necessário combinar rigidez e brandura, tolerância e rigor, como forma de se impedir um desmoronamento da administração e, consequentemente, colocar em risco o domínio português sobre a colônia brasileira.

Neste sentido, o mar encerra dois aspectos importantes. Por um lado, o mar funcionou como um fator de distância entre a ordem e a sua realização, proporcionando distorções e anulações de determinações vindas de cima; por outro lado, o mar também funcionou como importante elemento de união, materializada nas políticas de combinação de interesses reinóis e coloniais, sendo esta concepção tributária à idealização de um império luso-brasileiro.

A metrópole deveria, então, executar uma política mais permissiva em relação ao ultramar. Daí que as ações das personagens, dadas no bojo da administração, somente podem ser compreendidas se enquadradas pelo contexto da política, caso contrário, perder-se-ia o significado dialético da questão. Para a autora, política e “administração” são elementos intrinsecamente ligados. Dessa forma, aponta-se como importante a compreensão das vicissitudes inseridas entre a violência e a tolerância exercidas pelos homens que formavam os grupos políticos brasileiros no período colonial.

O Sol e a Sombra, de Laura de Mello e Souza, é um livro necessário; seja por suas análises intentarem melhor situar as discussões acerca da política e administração no período colonial; seja por realçar a necessidade de um aprimoramento conceitual sobre o tema; ou por destacar a consciência de que um longo caminho ainda há de ser percorrido nesse campo, devido à falta de maiores avanços em estudos monográficos e o maior diálogo com a historiografia nacional. Não se trata de nenhum “regionalismo”, em que pese defender uma tradição historiográfica brasileira em detrimento de uma importante contribuição de trabalhos estrangeiros, mas de não se perder de vista o “enquadramento teórico”, ao combinar análises específicas e enquadramentos gerais, além de se buscar problematizar e questionar modelos explicativos, por meio da perspectiva dialógica.

David Salomão Feio – Universidade Federal do Pará.


MELLO E SOUZA, Laura de. O Sol e a Sombra: política e administração na América portuguesa do século XVIII. São Paulo: Companhia das Letras, 2006. Resenha de: FEIO, David Salomão. Canoa do Tempo. Manaus, V. 2, n. 1, jan./dez, 2008. Acessar publicação original [DR]

Process and form in social life: Selected essays of Fredrik Barth | Fredrik Barth

Trabalhar com a micro-história tornou-se uma das principais metodologias utilizadas pelos historiadores nos dias de hoje. A análise micro constitui-se em uma via de estudo que procura captar especificidades que passam despercebidas pela análise macro. Mas, para compreendermos como se caracteriza essa forma de análise voltada para o micro, torna-se fundamental conhecermos e compreendermos um dos seus principais aportes teórico-metodológicos, que tem no antropólogo Fredrik Barth um dos seus nomes mais expoentes, especialmente se falarmos da micro-história italiana.

Nesse sentido, a resenha se baseia em uma das principais obras do autor, Process and form in social life1, uma coletânea de estudos de Barth, publicada em 1981, onde o autor faz uma análise geral sobre o método antropológico.

No trabalho em questão, Barth realiza uma crítica ao funcionalismo e ao estruturalismo. Em relação ao método funcional, chama atenção para o seu caráter a-histórico, onde as coisas já estão dadas a priori, e procura se contrapor firmemente ao funcionalismo. Ao tratar do estruturalismo, critica a sua visão macro da análise social, visão essa que considera bastante abstrata. Dessa forma, aponta os limites da análise estrutural, mas não a desconsidera.

Dentro dessa perspectiva de análise social, Barth propõe uma imersão, mas buscando sempre atentar para os processos individuais, as trajetórias e os conflitos. Daí surge sua idéia de modelos generativos. Os modelos generativos são gamas de possibilidades, e essa noção de modelo é diferente daquela, por exemplo, do modo de produção escravista. Modelo quer criar um quadro explicativo para algo, que tem várias possibilidades. Nesse sentido é que se aplica modelo, e não como modelo matemático.

Barth busca a melhor maneira, a mais científica, de se construir modelos, dá ênfase na empiria, como na ciência positiva do século XIX. Preocupado em construir sistemas, procura enfatizar sua aversão a teorias pré-construídas. De acordo com o autor, os modelos generativos dependem da realidade social que se está analisando – embora modelo e realidade não devam ser confundidos. As coisas não são dadas de imediato, e nesse sentido, percebe ligações entre as ações – uma ação vai gerar outras ações, além de padrões maiores de resultados.

A teoria de Barth se encontra embasada em Max Weber2, com sua noção de ação social e ator social, mas o primeiro propõe, de novidade, o procedimento metodológico. Barth supera Weber, visto que o último faz tipos ideais, parte da ação social para criar tipos, enquanto Barth se preocupa com o micro, quer saber como a ação social é gerada, e justamente para dar conta da ação social, surgem os modelos generativos. Segundo Weber, as ações sociais se tornam objeto da sociologia quando se repetem no tempo, e as mesmas se repetem porque traduzem uma certa ordem, via tradição ou situação de interesses. É justamente dessa situação de interesses que Barth parte no seu trabalho, retira os conceitos de Weber, mas se nega a utilizar os tipos ideais.

Na análise da obra de Barth, devemos destacar também o conceito de cultura distributiva, que se encontra presente em vários trabalhos do autor. Para ele, a cultura é distributiva porque é a interação de valores diferentes, e afirma que o sistema social se dá apenas quando há essa interação de valores. Nesse sentido, todos têm que se perceber recebendo alguma coisa, e a satisfação das partes se dá via negociação.

A cultura distributiva é o produto de valores distintos, se dá através de um processo de agregação, e os atores saem realizados, ocorrendo assim a maximização dos ganhos das partes. A agregação seria o ponto de encontro dos vários processos de interação e, nessa perspectiva, Barth critica a agregação vista como um somatório.

É perceptível, em seu trabalho, a habilidade de Barth em lidar com os níveis macro e micro, e o autor propõe uma dialética entre os dois. A questão micro x macro é falsa para ele, e apresenta uma visão particular da relação entre um e outro, não a partir de um ponto de vista subjetivo, mas percebendo que os atos humanos são formados por decisão e escolha. Para ele, é fundamental se fazer o círculo completo, ou seja, se retornar do macro ao micro, visto que, segundo o antropólogo, a sociedade se define a partir do micro.

Em Process and form in social life, Barth fala, a princípio, da geração de regularidades, da freqüência das escolhas, e procura identificar como se geram essas regularidades no processo de repetição das ações. Então, desenvolvendo essa questão, o antropólogo trata da idéia de processo generativo que, para ele, se constrói por meio de um conjunto generalizado de ações recorrentes, ou de uma série de acontecimentos interdependentes, constituindo um padrão.

O processo generativo é a ação social de Weber, e se daria através do desmembramento dessa ação. A ação social pressupõe interação, e esta se encontra incluída no interior de um processo, seria um momento do mesmo. Essa interação ocorre porque os atores são sempre posicionados para agir de forma a realizar empreendimentos, e pelo fato de terem posições diferentes entre si – obrigações, direitos, recursos – e serem portadores de valores e estratégias distintas. Nesse sentido, a ação social de um ator pode cancelar ações de outros atores. Dessa forma, os resultados do processo nem sempre são os desejados pelos atores sociais e, por isso, a incerteza – conceito essencial para Barth – é inevitável.

Essa interação é, portanto, fruto de escolhas. Quando essas escolhas dão certo começam a criar um padrão – são institucionalizadas – e tendem a se repetir. As escolhas repetidas e cristalizadas constroem costumes e comportamentos padronizados, e trazem benefícios, uma vez que servem de referência para a ação social. Os costumes, no sentido dado por Barth, podem se modificar a qualquer momento, visto que é algo dinâmico, onde a incerteza paira, apesar do padrão.

Nesse sentido, o valor não é pré-condição, mas é aquilo que conduz à ação, derivado da prática, é uma escolha regular, que se repete, e vai surgir das escolhas institucionalizadas que visam um ganho qualquer. Algo só se transforma em valor quando a escolha é reiterada.

Pode se chegar ao valor seguindo as trajetórias das pessoas, visto que o mesmo é uma prática que deu certo. Já a reciprocidade pode ser entendida como a partilha de valores. Nos momentos de conflito, de mudança, os valores são mais fortes, os atores estão mais bem posicionados, e têm que, de alguma maneira, negociar.

O valor não é percebido como uma questão moral, ele tem o lado material, pressupõe ganho e perda, e em decorrência disso, o valor de um indivíduo pode variar. A partir dessa idéia, Barth trabalha com a maximização do valor, que seria o fato de se preferir algo a uma outra coisa, não implicando em uma teoria decisória. O indivíduo tenta conseguir algo que ele considera melhor que as outras opções, ou então, busca realizar os seus objetivos plenamente, da melhor forma possível. A maximização de valores define os comportamentos mais bem sucedidos, e forma os padrões de comportamento.

Dessa forma, pode-se perceber que o processo é uma questão central em Barth, e a partir dele se chega à interação, e a coisa macro, que é o valor. Assim, nota-se que o ator social tem a possibilidade de realizar escolhas, e a tradição, em Barth, se compõem através de um conjunto de escolhas bem-sucedidas, é o conjunto de práticas transformadas em valores. Já a performance, conceito também muito importante para compreender sua obra, seria o modo como se atua, a forma através da qual o ator realiza as escolhas.

Nessa perspectiva, Barth afirma que é importante seguir as trajetórias dos indivíduos, perceber suas relações sociais. Dessa forma, poderíamos notar que as suas escolhas e opções estariam pré-determinadas, os recursos e obrigações estariam pré-definidos, não existindo comportamento-padrão, mas comportamentos possíveis, uma gama de possíveis, onde a ação de um elemento depende das ações dos outros (teoria dos jogos). Para Barth, a gama de possíveis só é factível através do método comparativo, o que, segundo o antropólogo, os historiadores italianos, em geral, não fazem.

O talento pode também ser um recurso, e isso pressupõe um jogo, uma negociação, ou uma barganha, termo usado por Barth. Dessa negociação tem que surgir uma reciprocidade, pois é impossível se pensar o indivíduo de forma isolada. Este, para Barth, só é entendido pela sua relação – ação social – com outros indivíduos.

As obrigações, assim como os direitos e os recursos, são formadoras do status, conceito básico para o sociólogo Edward Shils3, e também utilizado por Fredrik Barth. De acordo com Barth, os atores sociais possuem status, porém isso não significa uma rigidez completa na forma de ação. De alguma maneira se estabelecem limites, mas, em decorrência dos recursos, não necessariamente produzem indivíduos semelhantes.

Status é a ordem social, a relação entre indivíduos, grupos, e deve ser aplicado tanto no nível micro quanto no nível macro. As pessoas têm um status conforme sua honra, e a reafirmação do status é o ponto de partida para se entender o processo generativo, do qual falamos anteriormente.

Os vários status são as bases organizacionais para as diferenças entre sistemas sociais. A ação social se dá entre pessoas com status distintos, mas pode ocorrer também entre indivíduos do mesmo status, e para cada ação social se ativa um ou outro status, pois uma pessoa tem vários, um repertório deles, constituindo-se naquilo que Antônio Manuel Hespanha chama de várias personas4. A sociedade é composta por um inventário de status. Pode-se perceber, assim, que a hierarquia é fluida, a hierarquia dos status depende da situação – daí se desenvolve o conceito de Barth de definição da situação.

Barth chama a atenção também para a possibilidade de que os códigos de comunicação podem não ser compreendidos, em decorrência da utilização de um status errado. Existem ainda status com grande abrangência, quando um indivíduo encontra-se no ponto nodal entre várias redes: seria o que Barth chama de estrela, o ponto de encontro de diversas redes sociais.

O argumento que envolve a questão da importância do ponto nodal, discutido nesse livro, é mais bem desenvolvido no trabalho Scale and social organization5, quando o antropólogo afirma que cada ator pode ser considerado como o centro de uma estrela de primeira grandeza de relacionamentos, o ator social é a estrela de uma rede. Ao se perseguir a trajetória de alguém, está se seguindo uma determinada rede, pois todos os indivíduos estão conectados em várias redes, um indivíduo leva em conta o outro. Dessa forma, torna-se possível ver no ator social algo que já se percebe na sociedade como um todo.

Assim, a forma agregada de organização social pode ser prevista através da escolha na ação e do campo de possíveis para cada interação, fatores esses que se encontram padronizados em todas as sociedades, e que indicam restrições nas estruturas dos atores sociais, nos seus repertórios. Nesse sentido, se concebe o conceito de multiplex, ou de relações do tipo multiplex, que conformam o agregado social.

Apesar da essencialidade desse ponto de análise, Barth destaca alguns problemas que podem surgir para se perceber essas redes, como a questão da falta de documentação para se demonstrar o que ocorre, pois é preciso ter informação suficiente para checar a hipótese.

Tratando especificamente das redes, o autor destaca três características principais. A primeira delas seria que as redes são muito estáveis; a segunda diz respeito àquilo que chama de relações multiplex – que já vimos anteriormente –, que surgem como característica principal nas sociedades complexas; e a terceira nos faz perceber a densidade das redes, que não podem ser observadas de forma unilateral.

Barth nota que a organização social se projeta no ator social e, em relação à sociedade ocidental, destaca que o ator tem um grande número de repertórios (de competências ou status), e a diversidade dos repertórios e dos diferentes atores sociais aumenta a complexidade das redes e induz a operação com escalas.

Para que o conceito de escala possa ser melhor utilizado nas análises e para retratar os processos da organização social, Barth afirma que o primeiro passo é conceituar escala como uma característica do contexto de interação social, visto que, dessa forma, somos forçados a procurar as interconexões dos acontecimentos nos subsistemas naturais. A questão da escala é percebida como o ponto de partida, que é o mesmo para todos, mas que se modifica dependendo do “ecossistema” do ator social. Os atores são escolhidos a partir da informação que se tem sobre eles e das perguntas que se quer fazer.

A escala refere-se a números de algo que pode ser contado, de tamanho no sentido tanto do número de membros, como de extensão espacial. Ela é uma propriedade de qualquer sistema, e o espaço social de uma pessoa pode ser caracterizado como escala. A partir da idéia de que todos os sistemas podem ser percebidos em termos de escala, é possível a realização de análise e comparação, além do que, dessa forma, nos é fornecida uma chave para se compreender a dinâmica das organizações sociais complexas.

Todos os sistemas sociais de grande escala estão projetados e são originados no nível micro, na estrutura dos atores sociais, sendo que a sociedade não é vista como um sistema de grande escala. Tanto para Barth quanto para Weber, a ordem social surge do micro, da ação social e, de acordo com o primeiro, a questão micro e macro é um pouco diferente de escala, visto que, segundo ele, o micro é o espaço onde se realiza o macro, a sociedade; já a escala é percebida como uma propriedade do contexto.

Trabalhando com a questão de poder e escolha, Barth rebate uma crítica feita a ele, por estudiosos do assunto, de que minimizaria a idéia de poder. Nesse sentido, afirma que poder são as forças e as fraquezas concretas dos atores sociais, e percebe a formação do nicho, que seria a ligação de um ator com os demais, e representaria o que seria, para nós, o nível macro.

Ao tratar da escolha, destaca que a mesma não é sinônimo de liberdade, porque o indivíduo tem constrangimentos a agir, os deveres o impulsionam para a ação. E, quando não se tem condições ideais de pensar algo, a pessoa opta por aquilo que conhece, para minimizar as perdas – seria então o costume, como já vimos anteriormente. Com essa análise, Barth combate mais uma vez o funcionalismo, pois percebe que a ação dos indivíduos não é sempre racional, visando algo.

Barth, na coletânea Process and form in social life, ao tratar da mudança social, destaca também a necessidade de se especificar a natureza da continuidade, ao perceber as mudanças dentro da continuidade. Nota ainda que todas as questões trabalhadas na obra, e tratadas anteriormente, estão em contínuo movimento, que acaba por causar uma mudança maior, com as estratégias se modificando para se conseguir os mesmos valores.

Diante de todo esse aporte teórico-metodológico, introduzido por Barth, o estudioso Paul-André Rosental, em trabalho sobre a micro-história, destaca a importância dos estudos do antropólogo, percebendo que a obra de Fredrik Barth “forneceu muitos dos componentes teóricos mais importantes da micro-história social italiana”6.

Para Rosental, a micro-história tenta quebrar o comportamento modal a partir de Barth, e dessa forma, através do micro, dar conta do macro. O estudo realizado, nesse sentido, não é micro-analítico no sentido do pequeno caso, mas da multiplicidade das relações sociais. Rosental afirma que o fato de se apresentar primeiro na pesquisa situações gerais não entra em contradição com a micro-história, visto que o geral pode ser redefinido a partir do micro.

O autor nos mostra que Barth escolhe as situações a serem analisadas, e esse procedimento é aplicado particularmente nos conflitos, porque essa seria uma situação limite, onde ficariam claros os recursos e as obrigações. E, os recursos e obrigações não são os mesmos para um escravo e um senhor, por exemplo, o que tornaria explícita a idéia de sistema não-integrado e a questão da incerteza. Nesse sentido, podemos perceber a idéia de cultura distributiva, conceito muito caro a Barth, como vimos anteriormente.

Além desses conceitos, Rosental apresenta vários outros, presentes no trabalho de Barth, que influenciam a micro-história. Entre eles, podemos destacar a noção de excepcional normal. Essa noção nos faz perceber que as pessoas não estão agindo no vazio, que o sujeito compartilha valores, ele não vive enclausurado. Através da trajetória de alguém podem se perceber os seus recursos, as obrigações e os valores: assim se daria o excepcional normal.

A partir das idéias apresentadas por Rosental, podemos notar que foi o antropólogo Fredrik Barth quem desenvolveu a metodologia de se trabalhar a experiência de uma pessoa enquanto processo. Sem essa metodologia, a micro-história não poderia ser feita. E, para se saber a experiência das pessoas, é necessário ter fontes; por isso, a micro-história é um método que tem limites concretos muito precisos.

Contudo, para além da micro-história, os conceitos e categorias indicados por Barth podem ser aplicados em outros campos de estudo das ciências sociais e humanas, inclusive em outras formas de análise histórica. Conhecer o arcabouço teórico-metodológico apresentado por Barth torna-se útil para percebermos uma interessante metodologia a ser utilizada em nossas pesquisas, a fim de que possamos compreender melhor a totalidade do nosso objeto de estudo, percebendo, entre outras características, as trajetórias dos sujeitos, as redes que os envolvem e que compõem a sociedade analisada.

Notas

1. BARTH, Fredrik. Process and form in social life: Selected essays of Fredrik Barth, v. 1. London, Routlegde & Kegan Paul, 1981.

2. Para compreender as idéias centrais do sociólogo, ver: WEBER, Max. “Classe, estamento e partido”. In _______. Ensaios de Sociologia. Rio de Janeiro, Guanabara Koogan, 1982; WEBER, Max. “Conceitos sociológicos fundamentais”. In _______. Economia e Sociedade. Brasília, Editora da UNB, 1991.

3. SHILS, Edward. Centro e Periferia. Lisboa, Difel, 1992.

4. HESPANHA, Antônio Manuel. “El imaginário de la sociedad y del poder”. In: _______. Cultura Jurídica Europea. Madri, Editorial Tecnos, 1998.

5. BARTH, Fredrik (ed.). Scale and social organization. Oslo, Universitesforlaget, 1978, p. 166.

6. ROSENTAL, Paul-André. “Construir o ‘macro’ pelo ‘micro’: Fredrik Barth e a microstoria”. In REVEL, Jacques (org.). Jogos de escalas. Rio de Janeiro, FGV, 1998, p. 153

Mônica da Silva Ribeiro – Doutoranda do PPGH-UFF.


BARTH, Fredrik. Process and form in social life: Selected essays of Fredrik Barth. v. 1. London: Routlegde & Kegan Paul, 1981. Resenha de: RIBEIRO, Mônica da Silva. Estudos sobre Fredrik Barth. Canoa do Tempo. Manaus, V. 2, n. 1, jan./dez, 2008. Acessar publicação original [DR]

Khronos | USP | 2008

Kronos3 Passagens

Khronos – Revista de História da Ciência (São Paulo, 2008-) é uma publicação semestral do CHC – Centro Interunidades de História da Ciência da Universidade de São Paulo (fundado em 1988) – voltada para a história e epistemologia das ciências naturais, ciências da vida, ciências humanas, técnicas e áreas correlatas.

A perspectiva é interdisciplinar e visa estimular as possibilidades interpretativas dos processos de conhecimento científico e técnico em seus contextos históricos.

São publicados resultados de pesquisas originais relativas a temas desde a Antiguidade até o século 21, inclusive.

Além destes, são bem vindos textos de memórias de cientistas ou de instituições, bem como traduções inéditas, resenhas, notícias de projetos de pesquisa e outros assuntos de interesse para historiadores.

[Periodicidade semestral].

Acesso livre.

ISSN 2447-2158

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Folia Histórica del Nordeste | ICHSA | 2008

Folia Historica Passagens

Folia Histórica del Nordeste (Resistência, 2008-) se publica en forma regular desde el año 1974. Sus primeros tres números fueron editados por el Instituto de Historia de la Facultad de Humanidades de la Universidad Nacional del Nordeste. A partir del cuarto, en el año 1980, el Instituto de Investigaciones Geohistóricas se integra al trabajo de edición de su publicación.

En la actualidad, la revista publica trabajos originales de investigación en ciencias sociales y humanas, especialmente sobre problemáticas argentinas y zonas adyacentes. Las temáticas que incluye se vinculan con aspectos sociales, culturales, económicos y políticos, educativos, en especial investigaciones que permitan establecer comparaciones regionales. Se espera que los artículos constituyan un aporte a la disciplina y fomenten el debate entre los especialistas del campo.

La revista está conformada por tres secciones permanentes. La primera de ellas, está dedicada a los Artículos Científicos. La segunda sección es Notas y Documentos que tiene como objetivo divulgar fundamentalmente documentos históricos, precedidos por breves estudios que contextualizan los textos seleccionados. Por último, cuenta con un apartado de Reseñas Bibliográficas que recoge la nómina de libros, folletos y artículos de reciente publicación y de interés regional. […]

Periodicidade quadrimestral.

Acesso livre

ISSN 0325-8238

E-ISSN 2525-1627

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Mosaico | PUC-GO | 2008

MOsaico Passagens

A revista Mosaico (Goiânia, 2008-) é um periódico do Programa de Pós-Graduação em História da PUC Goiás, criada em 2008.

Enfatiza, na grande área das ciências humanas, os estudos históricos e culturais, de forma interdisciplinar, com a missão de divulgar a produção científica e estabelecer intercâmbio com outras instituições locais, nacionais e internacionais.

A proposta da revista é tentar formar um conjunto novo, ou, assumindo-se a pretensão, de redesenhar o quadro de uma historiografia aberta. Se propõe a ser um espaço amplo para a execução e demonstração de mosaicos historiográficos, no plural, já que há muito que a história deixou de ser pensada no singular e disciplinarmente.

A Revista Mosaico, portanto, evoca o imperativo da interdisciplinariedade, visando uma História pluralista, no intuito de suprir a carência da História com H maiúsculo, da “história historicizante”. Possibilita um campo para essa luta. Reúne a perspectiva histórica às noções englobantes de cultura e poder.

A revista Mosaico tem como missão divulgar a produção científica em caráter interdisciplinar e estabelecer intercâmbio com outras instituições locais, nacionais e internacionais. Como objetivos propomos divulgar trabalhos relevantes da área de ciências humanas e sociais com destaque para a produção do conhecimento histórico.

Periodicidade semestral.

Acesso livre.

ISSN 1983 7801 (Online)

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Scripta Mediaevalia | UNCUYO | 2008

Scripta Passagens

Scripta Mediaevalia (Mendoza, 2008-) es una publicación del Centro de Estudios Filosóficos Medievales dependiente del Instituto de Filosofía de la Facultad de Filosofía y Letras de la Universidad Nacional de Cuyo (Mendoza, Argentina) y busca ser un medio más de expresión de los avances científicos en el espacio del pensamiento y de la filosofía medieval.

El área del conocimiento al que se dirige la revista se define como “pensamiento medieval”. Se trata de aquel sector transitado por los denominados borders, es decir, aquellos académicos e investigadores que han radicado su objeto de estudio en las problemáticas confluencias de disciplinas tales como la filosofía, la historia, la teología, la literatura y otras más. Lejos de significar indefiniciones, estos aportes procuran una mirada holística y, sobre todo, realista de la Edad Media, periodo en el que las divisiones disciplinares estancas propias de la Modernidad, y que hoy nos parecen insuperables, no existían.

Periodicidade semestral.

Acesso livre.

ISSN 2362-4868

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O Antigo Regime no Império Atlântico Português / Canoa do Tempo / 2008

“Outros haverão de ter

O que houvermos de perder.

Outros poderão achar

O que, no nosso encontrar,

Foi achado, ou não achado,

Segundo o destino dado.”

Fernando Pessoa

O novo número da Canoa do Tempo se propôs a contribuir para um debate fundamental na historiografia brasileira contemporânea e que diz respeito às múltiplas formas de interpretação da natureza do Império colonial que se estabeleceu no Novo Mundo. Autores como A J. Russell-Wood, afirmam que estamos diante do “ápice de um processo historiográfico iniciado na década de 1970”. 1

O impacto dessa vigorosa produção pode ser dimensionado não apenas pelas refinadas abordagens, que combinam metodologias inovadoras a pesquisa documental de peso, mas também pela intensidade das polêmicas que protagoniza em diferentes quadrantes. Acreditando no caráter produtivo e estimulante da discussão historiográfica, o Dossiê O Antigo Regime no Império Atlântico Português pretendeu reunir alguns desses autores e colocar em perspectiva novos movimentos analíticos nesse complexo jogo.

Assim, os artigos aqui apresentados formam um conjunto, não necessariamente homogêneo, mas que mantêm um intenso diálogo interno. Inicialmente, pensamos que as discussões poderiam partir do geral (o Reino) para o particular (o Estado do Brasil e o Estado do Grão-Pará). Porém, e ainda que esta seja a forma final de apresentação do dossiê, os trabalhos, lidos em conjunto, revelaram desenhos inovadores, instigantes e, em alguns casos, com discussões inéditas. Era muito mais do que esperávamos e, diante disso, pareceu-nos evidente que qualquer apresentação ficaria muito aquém da riqueza do dossiê. Optamos, então, por apresentar algumas de nossas impressões iniciais, sem a menor pretensão de esgotar os temas possíveis.

O texto de Antônio Manuel Hespanha (que dispensa maiores apresentações) discute o lugar das cortes nos sistemas de poder da época moderna, refletindo, de modo particular, sobre o período filipino; parte de sua discussão dialoga, diretamente, com o artigo de João Luis Ribeiro Fragoso, quando este apresenta as possibilidades analíticas abertas pela noção de monarquia pluricontinental, em um artigo instigante que combina pesquisa de fôlego com a abordagem inovadora que tem se constituído em uma marca de seu trabalho.

Por outro lado, o artigo de Miguel Jasmins, sobre as ilhas do Cabo Verde, e o de Maria de Fátima Gouvêa, sobre a Capitania do Rio de Janeiro, abordam, por diferentes ângulos e situados em diferentes lados do mar, questões cruciais para a administração colonial, tendo no horizonte as injunções próprias de sociedades de Antigo Regime e as implicações nas estruturas daí decorrentes. Poderiam ser agregados a este bloco de análise, o texto de Rafael Chambouleyron discutindo o lugar e a importância das ilhas (inclusive Cabo Verde) para o povoamento da Amazônia colonial e o de Fabiano Vilaça dos Santos, que realiza uma leitura fina da trajetória do coronel Joaquim Tinoco Valente, na Capitania do Rio Negro.

Rafael Ruiz, parafraseando João Francisco Lisboa, lida com uma “questão abrasadora”: o lugar das populações nativas nos cenários jurídicos coloniais. Suas análises permitem aproximações com as leituras renovadas efetuadas por Mauro Cézar Coelho, a respeito da aplicação de uma das mais famosas legislações indigenistas coloniais: o Diretório dos Índios.

Os caminhos, sejam os trilhados por São Tomé, sejam aqueles por onde circulavam o ouro e as gentes nos sertões da América Portuguesa, estão presentes nas abordagens fecundas de Leda Oliveira e Anderson Fonseca. Por fim, a Canoa do Tempo inaugura, com os artigos de Otoni Mesquita e James Roberto, uma nova seção Explorando Arquivo com a finalidade de refletir sobre os espaços de trabalho de nosso ofício.

As organizadoras aproveitam a oportunidade para agradecer, penhoradamente, a todos os autores deste número que, aceitando o convite, garantiram a qualidade deste dossiê. Agradecem a Otoni Mesquita, pela arte da capa, e também a James Roberto Silva, pela revisão técnica final, e a todos os professores e alunos do Núcleo de Pesquisa em Política, Instituições e Práticas Sociais – POLIS/UFAM. Por fim, agradecem uma a outra não apenas por este, mas por inúmeros outros trabalhos realizados em conjunto e sempre construídos sobre uma relação de respeito e profunda amizade.

Marcia Eliane Alves de Souza e Mello – Programa de Pós-Graduação em História da Universidade Federal do Amazonas.

Patrícia Maria Melo Sampaio –  Programa de Pós-Graduação em História da Universidade Federal do Amazonas.

Nota

1 RUSSELL-WOOD, A J. Prefácio in Fragoso, J., Bicalho, M. F e Gouvêa, M. F. (Orgs.) O Antigo Regime nos Trópicos: a dinâmica imperial portuguesa (séculos XVI – XVIII). Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2001, p. 11.

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[DR]

Veredas da História | UFBA/UERJ | 2008

Veredas da Historia Passagens

A Revista Veredas da História (Salvador/Rio de Janeiro, 2008-) encontra-se vinculada a diversas instituições universitárias, contando com a colaboração de editores ligados à  UFBA, UFS, UFPel, Unb, UERJ, Universidade Cândido Mendes e UFFRJ. Ela tem como objetivo publicar artigos, resenhas, textos e documentos, frutos de pesquisas desenvolvidas por alunos e professores.

A ideia da publicação é viabilizar o diálogo do campo da História com as mais diversas ciências, fomentando, através da sua interdisciplinaridade, a criação de um espaço para discussão e debate acadêmico promissor, originando assim pensamentos transformadores e criativos.

Periodicidade semestral.

Acesso livre.

ISSN 1982 4238

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Examãpaku | UFRR | 2008-2015

Exmapaku1 2 Passagens

Examãpaku – Revista Eletrônica de Ciências Sociais, História e Relações Internacionais (Boa Vista, 2008-2015).

Editora da Universidade Federal de Roraima

Periodicidade quadrimestral.

Acesso livre

ISSN 1983-9065

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The Cord Keepers. Khipus and Cultural Life in a Peruvian Village – SALOMON (C-RAC)

SALOMON, Frank. The Cord Keepers. Khipus and Cultural Life in a Peruvian Village. London: Duke University Press, 2004. 331p. Resenha de: PLATT, Tristan. Chungara – Revista de Antropología Chilena, Arica, v.39, n.2, p.285-286, dic. 2007.

Enderezando al vapor un torcido palo de aliso, un fabricante de varas en Tupicocha (un pueblo histórico en la precordillera limeña) explicó su procedimiento mediante una comparación. El etnógrafo traduce: “la ‘costumbre’ endereza lo que [Isaiah] Berlin llamó (siguiendo a Kant) la ‘madera torcida de la humanidad'”. Tales interpolaciones autoriales son características del estilo hermenéutico de Frank Salomon: busca la frase inglesa o la teoría noratlántica que mejor se ajusta a las intenciones lingüísticas o culturales andinas. Y la idea de “ajustarse” una cosa con otra expresa un ideal generalizado en la civilización andina, que Salomon hace suyo: así como las superficies irregulares deben ser raspadas o moldeadas para que puedan juntarse sin desigualdad, las diferentes ideas y formas lingüísticas deben encontrar su equivalencia mediante la traducción acertada, y los cuerpos campesinos deben recombinarse simétricamente en contextos sociales productivos mediante la propiciación del equilibrio y la participación equitativa. Tal estilo de cultura democrática busca acuerdos sobre una necesaria disciplina creativa: la equivalencia y la jerarquía están cada cual al servicio de la otra; los ideales compartidos de comportamiento social (“la ‘costumbre'”) canalizan el flujo errático de las inclinaciones individuales bajo los vigilantes ojos de las autoridades comunitarias elegidas cada año. La necesidad de reglamentar el servicio y la responsabilidad comunitarios, modelando de antemano la colaboración social y dejando constancia de ella después, ha sido, según el argumento de Salomon, un motor fundamental detrás del desarrollo del arte del khipu en Tupicocha. Este nuevo libro de Frank Salomon marca un hito en el estudio de los Andes y de la literacidad comparativa. En primer lugar, es una etnografía del uso y performance del khipu en una comunidad actual que, contra todo lo que podría esperarse, sigue poseyendo y manipulando en contextos ceremoniales un conjunto de estos enigmáticos “manojos de cuerdas anudadas” (como los llamaba un notario en el siglo XVI), uno (antes dos) para cada uno de los diez ayllus (grupos corporativos patrilineales) que conforman la comunidad. Y es el contexto del uso cultural lo que ha faltado, precisamente, en los análisis de los especímenes conservados en los museos. Así aprendemos, por ejemplo, que los quipo-camayos [sic] se envuelven alrededor de los cuerpos de las autoridades de los ayllus durante las fiestas de comienzos del año, indicando su continuidad con los sistemas significativos de los tejidos. Encarnando el proyecto colectivo de comunidad, sostienen y legitiman la autoridad de cada nuevo representante de ayllu.

El descubrimiento de khipus en plena acción en una moderna aldea andina es doblemente sorprendente, porque Tupicocha se sitúa en el centro del antiguo “archipiélago vertical” de Checa, uno de los cinco “miles” (waranqa) incaicos que conformaron Huarochiri (Bajo Yauyos). Todos se mencionan en el famoso “Manuscrito de Huarochiri”, escrito en quechua del siglo XVII temprano, que ya fue editado y traducido al inglés por Frank Salomon y George Urioste (Texas 1991 [1608]). Además, Tupicocha también posee archivos comunitarios y privados, e incluso 128 libros manuscritos que registran los acontecimientos de la vida comunitaria desde 1870 hasta el presente, desautorizando totalmente los antiguos estereotipos liberales, aún corrientes, sobre el “campesino analfabeto”. Estos libros serán objeto de un tercer trabajo sobre el crecimiento de la literacidad vernacular y las prácticas gráficas en Tupicocha, en cuanto la escritura alfabética sólo terminó reemplazando la literacidad de los khipus después de la guerra chilena del Pacífico. Muestran nuevamente que los programas modernos de alfabetización diseñados en ignorancia de las formas preexistentes de literacidad simplemente carecen de sentido (como ha argumentado Brian Street para el caso de Iran).

Salomon está consciente de la oportunidad y la responsabilidad que le ha sido asignada por este azar de la historia. Muestra cómo la comunidad entera se involucró en la investigación, especialmente el joven Nery Javier, encargado por su bisabuelo desde su lecho de muerte con la conservación del arte del khipu. Hoy, los guardianes de las cuerdas ya no las saben leer, y tampoco las construyen y reconstruyen para nuevos propósitos actuales; al mismo tiempo, han llegado a ser emblemáticos de la identidad tupicochana en el Perú de Toledo. Salomon ha intentado responder a las preocupaciones de los aldeanos, y también trabajar con ellos para producir una amplia reconsideración teórica del “problema de los khipus”.

Los resultados son emocionantes. Los khipus incaicos se sitúan al lado de otras formas semasiográfi-cas de inscripción (la semasiografía registra información independientemente del habla de cualquier idioma específico), empleadas por otros “Estados tempranos”, tales como el proto-Cuneiforme que, según Peter Da-merow, debería considerarse no como “un intento defectuoso de representar el habla, sino como intentos exitosos de representar conocimientos”. En el caso de los khipus, la iconicidad está siempre presente en la disposición de los conjuntos de datos que contienen, enunciando y “ajustándose” a la estructura de las acciones sociales. Así, en tiempos pasados fueron continuamente anudados y re-anudados en Tupicocha para actualizar determinados planes de acción; por ejemplo, la mobilización de equipos de trabajo colectivo. Las cuerdas pendientes se cambiaban de posición a lo largo de la cuerda principal (el nudo con que se ata cada cuerda es un simple hitch, fácilmente suelto para dejar pasar las cuerdas intermedias), o simplemente eran quitadas y reemplazadas; los khipus de Tupicocha están llenos de huellas de tales manejos (“rellenos, cosidos, la anudación de cuerdas pendientes por la mitad, y la superposición de cuerdas añadidas”): uno aprende a percibir el conjunto abierto de técnicas utilizadas por los dedos ágiles de los guardianes para relacionar y revisar información. La idea de una correspondencia exacta con una realidad emergente incluso da lugar al uso ritual de los khipus como oráculos (khipumancia). Y Salomon interpreta esta relación entre la estructura del khipu y la realidad no-linguística como evidencia para un “camino no tomado” en el Mundo Antiguo, que en una opción cultural de trascendental importancia ha preferido generalmente en-fatizar la “fijeza” y la posibilidad de una “equivalencia hablada” como rasgos definitorios de la “escritura”, en lugar de la modelación flexible y los ajustes constantes entre realidades materiales que encontramos en Tupicocha.

Las ideas claves de Salomon -simulación, modificación y constancia- pueden ser extendidas, por ejemplo, a las “secuencias de acciones” necesarias para cantar hazañas pasadas, estableciendo la secuencia temática de canciones dentro de una serie mayor. Precisamente esta función “historiográfica” es realizada hoy por las cuerdas anudadas utilizadas por algunos grupos amazónicos, por ejemplo, los Yagua del Perú, que aparentemente conmemoran batallas intertribales que remontan muchas décadas, e incluso siglos, antes del presente (Chaumeil 2005). ¿Acaso su funcionamiento puede echar luz sobre los khipus llamados “históricos” en las fuentes tempranas? Quizás sea prematuro ver las “estructuras elementales de la literacidad-ttfpu” en las prácticas amazónicas, pero a la luz de los hallazgos de Salomon es posible que las primeras cuerdas fuesen efectivamente desarrolladas independientemente, antes de atarse en grupos a una cuerda principal.

Entonces, si no podemos esperar saber todo lo que se esconde en los antiguos khipus, desprovistos de contexto, que yacen en los museos, podemos ahora preguntar cómo, por qué, y qué cosas podrían haber simulado, y a través de qué transiciones los ajustes colectivos al nivel local se transformaron en las “estadísticas frías” de la administración fiscal estatal. Leer el trabajo de Salomon es encontrar que, de repente, las puertas se han abierto tanto para el estudio de los khipus como para la teoría de la inscripción. En cuanto a los tupicochanos, el antropólogo ha merecido su confianza: son asombrosos la cautela y el rigor de la argumentación que conduce a la lectura experimental del khipu M-01. Pero el resultado es otro fruto más en la cornucopia ofrecida por este libro extraordinario, que nos enseña que, a nivel local, no es tanto que los khipus se refieren a aspectos de la vida social cotidiana según un código congruente con las estructuras del habla, sino más bien que la gente debía vivir los patrones sociales silenciosamente preencarnados por los khipus. La exploración de la iconicidad de los khipus como conjuntos de datos, utilizando las percepciones ofrecidas por Salomon, pueden todavía enseñarnos a mirar de otra manera lo que yace delante de nuestros ojos. Quizás resulte (para parafrasear el epígrafe sugerente de John Murra) que el arte del khipu “no está perdido: sólo ahora se está reencontrando”.

Referencias

Chaumeil, J.P. 2005 Mémoire nouée: les cordelettes á Noeuds en Amazonie. En Brésil Iridien. Les Arts des Amérindiens du Brésil. Paris, Galeries Nationales du Grand Palais (21 March-27 June).

Salomon, F. y G. Urioste 1991 [1608] The Huarochiri Manuscript. Texas.

Tristan Platt – University of St Andrews. Scotland, U.K. E-mail: tp@st-andrews.ac.uk

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Tramas en la Piedra. Producción y Usos del Arte Rupestre – FIORE; PODESTÁ (C-RAC)

FIORE, Dánae; PODESTÁ, María Mercedes. Tramas en la Piedra. Producción y Usos del Arte Rupestre. Buenos Aires: AÍNA (Asociación Amigos del Instituto Nacional de Antropología), WAC (World Archaeological Congress) y Sociedad Argentina de Antropología, Altuna Impresores, 2006. 278p. Buenos Aires. Resenha de: OLIVERA, Daniel E. Chungara – Revista de Antropología Chilena, Arica, v.39, n.2, p. 287-290, dic. 2007.

El libro Tramas en la Piedra reúne una serie de trabajos presentados en las Secciones 3 y 4 del VI Simposio Internacional de Arte Rupestre (29 de noviembre al 4 de diciembre del 2003, Jujuy, Argentina), coordinadas por Dánae Fiore y Agustín Llagostera, respectivamente. Este Simposio, una de las más importantes reuniones científicas de la especialidad, convoca a especialistas del tema de todo el mundo, pero muy especialmente de Latinoamérica y constituye un campo fértil para debatir ideas y actualizar el estado de las investigaciones en arte rupestre.

Es auspicioso que se hayan editado estos trabajos, cuyos 26 autores poseen reconocida trayectoria en el tema y son verdaderos referentes para todo aquel que desee incursionar en el apasionante universo del Arte Rupestre.

Existen diversos aspectos a destacar sobre la obra. En primer lugar, que se trata de versiones de las ponencias revisadas y corregidas por los autores y evaluadas por destacados especialistas previo a su publicación. Por otra parte, la variedad de las temáticas tratadas convierten a esta obra en elemento de consulta permanente, con especial referencia al tema de producción y usos del arte rupestre. Finalmente, la cuidada edición, la prolijidad de los gráficos y fotos y la rica bibliografía citada en los trabajos son un mérito incuestionable que debe asociarse a buena medida a la seriedad y capacidad de las editoras Dánae Fiore y María Mercedes Podestá.

Desearíamos detenernos algo más en los contenidos de los diferentes aportes, ya que existen abundantes motivos de interés que merecen destacarse.

En primer lugar, la Introducción escrita por las editoras posee dos aspectos importantes. Primero realizan un apretado y profundo resumen histórico de las tendencias teóricas que sirvieron de marco a las investigaciones en arte rupestre en arqueología. Es destacable la rigurosidad, análisis crítico y capacidad de síntesis puesta de manifiesto por las autoras en este punto. A continuación, esbozan los contenidos de los diferentes capítulos destacando los aspectos más relevantes de cada uno de ellos.

Debido al comentario anterior, evitaremos ser reiterativos en la descripción de los contenidos de cada capítulo, ya que estos han sido resumidos brillantemente por las editoras. Sin embargo, realizaremos algunas reflexiones generales que consideramos pertinente destacar sobre el valor de los mismos.

El primer bloque de tres capítulos se dirige a analizar producción y uso del arte en función de su relación profunda con el proceso creativo. Martí Mas Cornelia es el único autor que trata una temática europea sobre la andaluza Cueva del Tajo de las Figuras en Cádiz (España). Sin embargo, su aporte metodológico es muy valioso, ya que reúne diferentes vías analíticas combinando técnicas de campo, laboratorio y experimentales, consiguiendo aportar una proposición hipotética novedosa y sugerente: el interés de los autores del arte rupestre por comunicar información faunística que, además, muestra cierta diacronización en relación a los cambios de la misma en el ambiente. Dejamos a lectores más especializados la discusión sobre las interesantes implicancias de esta hipótesis.

El trabajo de Fiore acerca de la distribución espacio-temporal nos plantea interesantes reflexiones sobre cómo el análisis tecnológico y distribucional de sitios con arte pueden aportar importantes resultados para evaluar aspectos procesuales y poblacionales en el caso particular de la Patagonia Argentina, pero con implicancias metodológicas y teóricas que pueden ser útiles en su aplicación a otras áreas diferentes. Es llamativa la conclusión de la autora respecto de que técnicas distintas (pintura y grabado) mostrarían transmisión y reproducción espacio-temporal diferencial de acuerdo a sus características materiales y cualidades visuales.

Eminentemente relacionado en su orientación con el anterior, el trabajo de Crivelli Montero también apunta a considerar las diferencias en el aumento de sitios a través del tiempo y sus variaciones estilísticas en la cuenca media y superior del Río Limay Nordpatagonia, como relacionadas con diferentes intencionalidades en el mensaje al observador del arte. Al principio estarían orientados a ser compartidos por miembros corresidenciales para promover aspectos de cohesión social, mientras posteriormente se dirigirían hacia miembros de otros grupos con las implicancias étnicas y territoriales que ello conlleva. Es sugestivo el uso de variables cronológicas y cuantitativas en los trabajos de Fiore y Crivelli para su análisis, lo que, en mi opinión, abre perspectivas importantes acerca de la relación entre el arte rupestre y otros aspectos del registro arqueológico para analizar cuestiones de poblamiento, funcionamiento y territorialidad en los procesos sociales arqueológicos.

Los siguientes diez capítulos presentan una variada gama de intereses que tienen que ver con la producción de arte rupestre en relación al uso del arte y dinámica social. El primero de ellos, de Fernández, apunta al análisis del estilo de grecas en la misma área anterior (Cuenca del Río Limay) para discutir cronología a través de distintos indicadores incluyendo fechados radiocarbónicos de sitios unicomponentes, proponiendo la fecha más antigua para ese estilo (700 años a.p.) documentada en la región.

El trabajo de Belardi y Goñi, por su parte, aporta una rica discusión sobre la utilización de un modelo de circulación y uso del espacio entre las cuencas altas y bajas de la región de los lagos Strobel-Cardiel (Santa Cruz, Patagonia Argentina). El modelo utiliza el arte rupestre como un elemento central de evidencia, combinado con la tecnología lítica y equipamiento del espacio. El trabajo es realmente sugerente en lo que respecta a la interpretación de la estructuración logística de espacios diferentes por parte de las poblaciones y donde las imágenes del arte habrían sido usadas como mecanismos de circulación de información. Siguiendo la misma línea, Ferraro y Molinari analizan los componentes del arte rupestre de dos sitios en la meseta del Lago Strobel, y basándose en criterios estilísticos, tecnológicos y estructurales de los paneles rupestres concluyen que a partir de los últimos 2.500 años el espacio de la meseta sufre una jerarquización manifestada en el uso reiterado por parte de los grupos cazadores-recolectores durante la transición Holoceno Medio a Tardío.

Los siguientes tres trabajos tienen una relación importante entre sí, no sólo porque corresponden a la misma región, Antofagasta de la Sierra (Puna de Cata-marca, Argentina), sino porque se orientan teórica, metodológica y analíticamente dentro de los mismos parámetros claros y precisos que tienen que ver con la interacción entre las poblaciones humanas, su paisaje y los recursos de subsistencia con indudables repercusiones sociales y simbólicas. El primer trabajo, de Aschero, apunta al estudio de varios sitios que cubren un lapso de 4.500 a 2.500 años a.p. y cree notar la relación entre el arte y las crecientes actividades patoriles cuando aún continúan las de caza recolección. Estas modalidades parecen estar buscando su coexistencia frente al posible conflicto en un proceso inicial de mayor complejidad social y creciente circunscripción espacial.

A continuación, el mismo Aschero junto a Martel y López Campeny, presentan una propuesta audaz y novedosa respecto de ciertos motivos rectangulares con diseños geométricos internos en la misma región anterior. Estos denominados “cartuchos” los ubican entre el 0 y los 500 años a.p. en virtud de variadas evidencias contextúales y los relacionan a diversos aspectos de la vida social y económica de los grupos agropastoriles tempranos de la región. La sugestiva propuesta apunta a que dichos motivos, disímiles en cuanto al diseño, pero idénticos técnicamente, no solamente establecerían límites físicos de espacios (productivos, domésticos, funerarios, etc.), sino que estarían estableciendo diferencias identitarias de linajes sociales e, incluso, elementos simbólicos de vinculación con los ancestros. Agregan a la información arqueológica elementos etnográficos del mundo andino actual, lo que incrementa el interés de la propuesta.

Finalmente, también para Antofagasta de la Sierra, Martel propone una relación entre sectores con recursos básicos para las prácticas socioeconómicas y la producción de arte rupestre, para el período Formativo (3.000 a 1.500 años a.p.). Martel observa que existiría una relación proporcional entre la densidad de sitios con arte y la oferta de recursos entre las quebradas altas y los sectores intermedios de la cuenca. Debido a que los sectores intermedios serían los más ricos propone, apelando a conceptos de disminución del riesgo ambiental, que su control social sería más proclive a situaciones de conflicto. Los motivos de enfrentamiento en el arte rupestre, más abundantes allí que en las quebradas altas, avalarían esta proposición. La riqueza del trabajo se manifiesta en proponer una relación firme entre aspectos comunicativos del arte y variables socioeconómicas.

El siguiente trabajo, de Podestá et al., resulta novedoso en su tratamiento de evidencias rupestres históricas en Ichigualasto (San Juan, Argentina) relacionadas con el arreo de vacunos, actividad muy común a fines del siglo XIX y principios del XX. Esta actividad fue de gran importancia no sólo para las regiones del NOA, sino que establecía vínculos trasandinos con Chile. La información de los grabados asociados a los arrieros, donde sobresalen las marcas de ganado, se enriquece con el aporte de la documentación histórica y los relatos de los informantes que sobreviven de esa época. Los autores consideran a los grabados no sólo con aspectos de identidad, uso de caminos e información para los arrieros, sino incluso lo consideran una supervivencia de una expresión simbólica que los liga a una larga tradición indígena de más de 10.000 años de realizar grabados en las rocas.

El trabajo de Núñez et al. retoma el apasionante tema del arte rupestre como vinculado de manera directa con los contextos socioeconómicos del pasado. Analizan la variación en el uso del arte entre los períodos Arcaico Tardío (ca. 4.815-3.950 años a.p.) y el Formativo Temprano (ca. 3.200-2.400 años a.p.) en la Puna de Atacama (Chile). A partir de múltiples líneas de evidencia, que no excluye el cambio ambiental, analizan la variación desde el primer contexto cazador-recolector hacia las sociedades pastoriles formativas donde se evidencia una indudable complejización sociopolítica. Encuentran que las asociaciones entre los estilos representativos de ambos momentos muestran una serie de elementos transicionales que indican la derivación del uno al otro, donde se incrementa el carácter público de la representación icónica en los momentos pastoriles.

A continuación, el trabajo de Valenzuela et al. indaga en el vínculo entre el uso del arte rupestre y sus lugares de emplazamiento para los petroglifos y geoglifos del Valle de Lluta en el Norte de Chile. A través del análisis detenido de 29 sitios, correspondientes a los períodos Intermedio Tardío y Tardío (ca. 1.100-1.550 d.C), notan que el emplazamiento y las actividades desarrolladas varían según las dos modalidades de arte. Los geoglifos estarían orientados a una expresión pública asociada a zonas de tránsito este-oeste conectadas a redes de intercambio regional e interregional. Los petroglifos, por el contrario, se asocian a caminos locales de caravanas, contextos domésticos y ceremoniales con baja visibilidad y escasa exposición pública. Esto se altera en sólo dos casos donde se ubican en sectores polifuncionales que articulan áreas productivas, domésticas y caminos, lo que los lleva a la conclusión de que estas expresiones actuarían en la marcación y sacrali-zación de espacios sociales, al mismo tiempo que denotarían la jerarquización y el prestigio que adquirieron estos lugares.

El mismo apasionante tema del caravaneo andino abordan Núñez y Cartajena en su trabajo sobre el sitio Purilacti 1 y su arte rupestre. Asocian directamente este sitio con las rutas caravaneras que conectaban el oasis de San Pedro de Atacama con el sector del Río Loa durante el desarrollo de la cultura San Pedro (400-1.200 d.C). Son importantes las evidencias que asocian al sitio a la funcionalidad caravanera y a la tradición San Pedro. Pero más interesante aún es el vínculo con el sitio Inca e histórico Purilacti 2 que no sólo indicaría la continuación del uso de las rutas preincaicas, sino que la presencia de motivos grabados coloniales e históricas (siglos XIX y XX) muestran, más allá de la lógica variación icónica, la continuidad del uso de los sitios cuyo emplazamiento espacial ocupaba un lugar principal en el entramado de rutas y funcionalidades de la práctica caravanera a través del tiempo.

Los tres trabajos que cierran el volumen, referidos al ámbito de la Patagonia Argentina, son una conclusión importante del mismo, en relación a los usos que pueden tener las manifestaciones rupestres en el presente.

El primero de ellos, de Belelli y Podestá, aborda el tema de cómo los circuitos eco turísticos implementados en el valle del Río Manso Inferior incluyen el sitio “Paredón Lanfré”, el cual se convierte en un foco de atracción para los visitantes. Las autoras destacan cómo la intervención científica asegura tanto el respaldo de la información para el turista como los recaudos para la preservación del sitio. Asimismo, destacan al sitio como parte de la reconversión económica regional y auguran que en el futuro la incorporación de nuevos sitios abrirá excelentes perspectivas de desarrollo para la zona.

Contrasta en parte con lo anterior el caso presentado por Belelli en el siguiente trabajo, referido a los sitios del Valle Medio del Río Chubut, donde la fuerte presión para la incorporación de los sitios con arte a los circuitos turísticos se realiza sin la suficiente planificación ni tomando las medidas adecuadas de protección del ambiente y el registro arqueológico y paleontológico. Los numerosos años de investigación en la región autorizan a la autora a llamar la atención sobre el rol jugado en este proceso por los diferentes actores sociales en el uso del patrimonio. Más allá de los intentos de los investigadores y algunas autoridades provinciales por implementar una gestión sustentable, la autora advierte que la falta de control adecuado pone en riesgo el patrimonio del arte rupestre al acelerarse los procesos de degradación del mismo.

Finalmente, el trabajo de Onetto analiza el proceso que se desarrolló en el sitio Cueva de las Manos (Río Pinturas, Santa Cruz, Argentina) que a través del interés científico inicial y los prolongados esfuerzos del recordado arqueólogo Carlos Gradín, llevó a la puesta en valor del sitio y a su uso como atracción turística al ser declarado Patrimonio Mundial por la UNESCO debido a sus cualidades excepcionales. La autora, partícipe directa de las actividades de manejo implementadas, relata los mitos y realidades resultantes de las tareas de gestión y administración de Cueva de las Manos, que se convirtió en un sitio de alto valor tanto social como académico.

El apretado resumen de las páginas anteriores es sólo un pálido reflejo de las emociones y el interés que recibí al leer esta obra. Fue para mí una oportunidad excelente para poner al día mis informaciones e ideas sobre la problemática y redescubrir su importancia como registro para la interpretación acabada de los procesos sociales y económicos del pasado.

No me caben dudas que se ha de convertir en una lectura imprescindible tanto para los expertos en el arte rupestre, en especial de la región andina y patagónica, como para todo arqueólogo que indague en sus investigaciones sobre el pasado prehispánico de Sudamérica.

Las cualidades de este volumen son variadas y todas de gran importancia, pero deseo destacar muy especialmente dos de ellas. Primero, la contribución al terreno metodológico, que muestra el avance permanente en metodologías cada vez más confiables para el estudio del arte rupestre indígena donde confluyen aportes que van desde la arqueología a la etnografía y, en segundo término, la riqueza de ideas que a través de contribuciones hipotéticas sólidas apuntan a jerarquizar la discusión científica sobre las sociedades prehis-pánicas. Esto muestra que la tantas veces sostenida y controvertida afirmación de acusar a los estudios de arte de estar al límite de la especulación y carecer del rigor científico necesario, si es que alguna vez tuvo sustento, hoy está lejos de reflejar la realidad de este tipo de estudios.

Los colegas que han aportado sus esfuerzos para conformar esta obra echan definitivamente por tierra esa veleidosa afirmación anterior y colocan al arte rupestre como un registro riguroso y fundamental para aportar a los estudios del pasado humano. Se trata de un libro que no sólo aporta utilidad científica, sino que produce un innegable placer en su lectura. Recorriendo sus páginas recordé al autor Henry James, ya que sentí que iba atravesando ese entramado pétreo del título para ir descubriendo esa evasiva “figura en el tapiz” que sólo se hace visible cuando se posa en ella la mirada constante y sistemática.

Daniel E. Olivera – CONICET-INAPL y Universidad de Buenos Aires; Buenos Aires. E-mail: deolivera@gmail.com

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Actas del Primer Simposio Nacional de Arte Rupestre (Cusco, noviembre 2004) – HOSTNIG; FUFFROY (C-RAC)

HOSTNIG, Matthias Strecker; FUFFROY, Jean (Editores). Actas del Primer Simposio Nacional de Arte Rupestre (Cusco, noviembre 2004). Lima: Instituto Francés de Estudios Andinos, tomo 12 de la “Collection Actes et Mémoires” de l’Institut Francais d’Études Andines, 2007. 473p. Resenha de: SEPÚLVEDA, Marcela. Chungara – Revista de Antropología Chilena, Arica, v.39, n.2, p.291-292, dic. 2007.

La publicación de las Actas del Primer Simposio Nacional de Arte Rupestre de Perú, realizado en Cusco en noviembre de 2004, se inserta en la continuidad de una reciente y creciente realización de congresos y simposios relativos al estudio del arte rupestre sudamericano, y en este caso más precisamente del Perú. Frente a la monumentalidad de otras manifestaciones arqueológicas del pasado, el arte rupestre aparecía, hasta ahora, como un testimonio menor de las prácticas y de los modos de vida de los antiguos habitantes de estos territorios, tendencia que está siendo remediada.

Las Actas reúnen 21 trabajos ordenados en cuatro secciones según las áreas geográficas a las que se refieren: norte, centro, sur del Perú y otros países, haciendo eco del interés de investigadores de otras regiones por participar en dicho evento. La riqueza de las manifestaciones rupestres existentes en estas regiones concierne grabados, pinturas y geoglifos en toda su magnificencia, deleitándonos con una impresionante variedad de técnicas, formas, imágenes y composiciones.

Los trabajos abarcan distintas y variadas temáticas: desde recientes descubrimientos, como en el caso de los grabados de la región de Amazonas presentados por Arturo Ruiz Estrada; los de la Amazonia cusqueña, descritos por Henry Gamonal y Alberto Pineda; o los de Cerro Negro en la cuenca de Chicama ilustrados por Daniel Castillo; hasta aproximaciones funcionales, ilustradas por ejemplo en el trabajo sobre las lajas pintadas del sur del Perú de Renata Faron-Bartels; o la aproximación sintética sobre la funcionalidad de los sitios con grabados del Perú, con base en las evidencias provenientes del sitio de Checta, en el Departamento de Lima de Jean Guffroy; o el trabajo de Percy Paz Flores sobre los camélidos descubiertos en unas terrazas de cultivos del importante sitio de Choquek’iraw; o en el proyecto sobre los grabados de la meseta del Lago Strobel en Patagonia Argentina los cuales definirían un espacio de convergencia, presentado por Rafael Goñi y colaboradores. Se incluye en esta línea funcional el trabajo de Thomas Heyd sobre unas estructuras de cantos rodados en Norteamérica interpretadas como “ruedas medicinales”.

La prolija descripción de la relación entre un grabado y su soporte nos otorga también interesantes evidencias para su interpretación, como en el caso del “prisionero del tiempo”, un grabado del sitio Alta Las Guitarras, en el Río Moche al norte del Perú presentado por Cristóbal Campana. Un único trabajo de índole estilístico es dedicado a la reevaluación de los estilos de los geoglifos del Valle de Lluta en Chile presentado por Luis Briones y colaboradores. Otros trabajos sobre geoglifos de la costa sur del Perú de Markus Reindel y colaboradores y de la costa norte de Daniel Castillo y Victor Corcuera, nos recuerdan la necesidad de efectuar nuevas labores de documentación sobre este tipo de manifestaciones. De manera similar, un proyecto de documentación y registro de arte rupestre en Ecuador presentado por Diego González, nos recuerda su riqueza y la necesidad de generar un mayor interés por este tipo de manifestaciones en ese país.

Un interesante proyecto relacionado con la conservación de los sitios de arte rupestre y la geología de los soportes es ilustrado en el trabajo de Raúl Carreño y colaboradores. El estudio integra un análisis geológico de los soportes utilizados para la realización de arte rupestre en el área del Cusco. La relación entre los sitios de arte rupestre, la conservación y el turismo es también discutida a través de la elaboración de planes de manejo presentados en los trabajos de Mercedes Podestá y Diana Rolandi, y Teresa Vega en diferentes sitios de Argentina, y por Jesús Gordillo en el conocido sitio de Miculla, en el extremo sur del Perú. Cronológicamente, los trabajos abordan diferentes momentos de la historia andina desde períodos formativos, como los estudios de Ignacio Alva y Renzo Ventura, referente a los grabados de Cerro La Cal, en el norte del Perú, hasta el período colonial, que incluye los trabajos de Rai-ner Hostnig y César Del Solar sobre grabados del Cusco. En este contexto, Matthias Strecker y Freddy Taboada presentan un sugestivo ensayo sobre el arte rupestre de la cuenca del Lago Titicaca, demostrándonos la trascendente continuidad de una práctica que perduró por varios milenios.

La edición de las Actas por el Instituto Francés de Estudios Andinos (IFEA) es una garantía adicional respecto de la calidad y originalidad de los manuscritos. La obra se integra a la “Collection Actes et Memoir es” que reúne publicaciones de trabajos presentados en coloquios organizados por el Instituto. De la edición en particular vale destacar sus textos bien impresos con ilustraciones claras y de buen tamaño, lo que representa un complemento fundamental para la lectura de los capítulos. Esto permite que un lector no familiarizado con los temas presentados pueda asombrarse ante tanta variedad de manifestaciones rupestres presentes en Perú y en otras regiones, mientras que el especialista podrá encontrar valiosa información gráfica para fines comparativos o de otra índole.

La realización de este simposio y el consecuente encuentro entre investigadores que se destacan por su trayectoria en el estudio de estas temáticas desde diferentes experiencias, sin duda, permitirá que en el futuro se vayan madurando nuevas aproximaciones, abordando otras temáticas como la construcción del paisaje, los contextos de uso y producción asociados a los sitios de arte rupestre, además de su relación con determinadas prácticas, ceremonias u otros definidos por un particular contexto histórico social y cultural. Las Actas nos recuerdan la complejidad del arte rupestre, recalcando la necesidad de reflexionar también sobre los problemas teórico-metodológicos que acompañan su estudio. Siendo las primeras actas de un simposio dedicado entera y exclusivamente al estudio del arte rupestre peruano, sin duda, éstas marcarán un precedente para futuros simposios, tal como el realizado en noviembre de 2006 en Trujillo.

La originalidad e interés de estos trabajos radica en la necesidad de recordar cuan valioso puede ser el estudio del arte rupestre para la comprensión de las sociedades pasadas del Perú. Finalmente, quisiera agradecer a los organizadores y diferentes participantes por la iniciativa de realizar y publicar los resultados de este amplio simposio sobre arte rupestre peruano, considerando que su estudio ha sido por mucho tiempo margi-nalizado a pesar de las obras inspiradoras como las de Eloy Linares Málaga, Antonio Núñez Jiménez, Jean Guffroy, Hans Niemeyer y Rainer Hostnig, quienes han permitido dar a conocer internacionalmente su presencia. Espero, sinceramente, que se sigan realizando nuevos encuentros, incentivando la investigación y la necesidad de proteger un patrimonio complejo y frágil.

Marcela Sepúlveda – Departamento de Antropología, Universidad de Tarapacá, Arica. E-mail: msepulveda@uta.cl

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Zooarqueología del sur de los valles Calchaquíes (Provincias de Catamarca y Tucumán, República Argentina) – IZETA (C-RAC)

IZETA, Andrés D. Zooarqueología del sur de los valles Calchaquíes (Provincias de Catamarca y Tucumán, República Argentina). Oxford: BAR International Series 1612, 2007. 164p. Resenha de: CARTAJENA, Isabel. Chungara – Revista de Antropología Chilena, Arica, v.39, n.2, p.293-294, dic. 2007.

La reciente publicación de Andrés Izeta aborda el análisis de conjuntos arqueofaunísticos provenientes de yacimientos ubicados al sur de los valles Calchaquíes (Valle de Santa María y Valle del Cajón), en el marco de un proyecto regional sobre las sociedades prehispánicas que habitaron estos valles. En general, los sistemas aldeanos del periodo Formativo (primer milenio a.p.) son poco conocidos, en especial las estrategias de subsistencia basadas en economías mixtas donde se integran la caza y el pastoreo. La naturaleza de estas economías y el rol que le caben tanto a la caza como al pastoreo es un tema que recién comienza a ser abordado y que parece caracterizar a las sociedades formativas de los Andes Centro-Sur. De igual forma, a nivel de los asentamientos es poco conocida la reproducción y economía doméstica, aspecto que también se explora en esta obra. En este contexto, el autor presenta un cúmulo de datos a través de una perspectiva diacrónica y sincrónica, buscando a través de nuevas propuestas metodológicas datos que le permitan acercarse a la comprensión de estas economías mixtas. La sólida trayectoria de Andrés Izeta junto a su experiencia en el análisis de restos arqueofaunísticos de los valles Calchaquíes en general, le permiten abordar este problema con un manejo metodológico acabado, capaz de generar nuevos y diversos datos que le ayudan a modelar los sistemas de subsistencia formativos.

El trabajo se encuentra organizado en cuatro partes, cada una de las cuales está compuesta por capítulos. En la primera parte, a modo de introducción general, el autor plantea sus objetivos a la luz de los antecedentes existentes para esta región y en relación a los modelos de subsistencia propuestos para la puna y el área valliserrana (capítulo 1). A continuación, en el segundo capítulo se describen los marcos geográficos y ambientales en los cuales se localizan los yacimientos estudiados. El trabajo se focaliza en tres sectores, la Falda Occidental del Aconquija, Valle del Cajón y el Valle de Santa María, conformando diversas unidades del paisaje de la región, las que podrían repercutir en una distribución diferencial de la fauna. Con el fin de caracterizar de forma más certera especies que pudieron estar presentes en el pasado en el área de estudio, el autor coteja la información proveniente de diversas fuentes como los escritos de cronistas, el registro etnográfico y las fuentes actuales acerca de distribución de especies en el área.

En la segunda parte se presentan los aspectos teó-ricos-metodológicos, comenzando por la definición de las unidades observacionales tales como la identificación a nivel de elemento, determinación taxonómica de los restos y clases de edad. La identificación interespecífica de los camélidos se realizó a través de análisis morfológicos comparativos y multivariados cuantitativos, a través de la aplicación de herramientas estadísticas. Lo anterior, le permitió al autor una discriminación y asignación más ajustada de cada uno de estos elementos a una especie en particular. Posteriormente, se presentan las unidades de análisis, las que pueden ser separadas en unidades derivadas (cuantificación) e interpretativas (espacio-temporales). De esta forma, la metodología propuesta se encuentra diseñada para que a través de análisis cualicuantitativos se pueda generar una diversidad de información que permita la utilización de diferentes modelos. El marco de análisis se explícita en el capítulo 4, donde se advierte un enfoque con una fuerte orientación tafonómica puesto que el grado de integridad del conjunto tendrá una fuerte incidencia en las inferencias alcanzadas. El autor hace especial hincapié y denota gran rigurosidad en el análisis de la destrucción del material óseo mediado por la densidad ósea, utilizando para ello el Número Mínimo de Elementos (MNE) de cada una de las zonas diagnósticas, con el fin de obtener un perfil más completo de la posible destrucción. Por su parte, las modificaciones culturales son estudiadas a partir de indicadores como marcas de procesamiento, alteraciones térmicas, forma-tización y perfil de fragmentación.

Cabe destacar dentro de los aportes metodológicos de este trabajo, la utilización del Sistema de Información Geográfica (GIS), en general poco aplicado pero que ha demostrado una alta eficiencia para la cuantificación del MNE o para el análisis de patrones de fragmentación. Cada fragmento preservado, sea un elemento o espécimen es registrado y puede ser representado gráficamente, lo que permite observar en forma más rápida la fragmentación de cada elemento y del conjunto, como así también establecer patrones de fracturas y procesamiento. Lo anterior denota el alto potencial de este tipo de tecnología aplicada a los estudios ar-queofaunísticos ya que permitiría la cuantificación de diversos rasgos. Finalmente, la atención se centra en tres modelos asociados a las acciones de transporte, reparto a nivel intrasitio y consumo, que pueden dar cuenta desde la apropiación hasta el descarte de los restos.

En la tercera parte se detallan los sitios de los cuales provienen los materiales arqueofaunísticos analizados, con las fechas obtenidas en cada uno de ellos, las plantas de las estructuras y la disposición de las cuadrículas analizadas, lo que permite comprender de mejor forma el contexto al cual se asocian los restos estudiados.

En los siguientes capítulos se presentan los análisis detallados de los conjuntos arqueofaunísticos. Dentro del capítulo 6 se incluyen todos los yacimientos ubicados en la Falda Occidental del Aconquija tales como Loma Alta, Potrero del Atingal, Tesoro-1 y 2. En el siguiente capítulo, se presentan los resultados obtenidos del sitio Yutopián ubicado en el Valle del Cajón y finalmente y en el capítulo 8, los sitios del Valle de Santa María, Bañado Viejo y Morro de las Espinillas. Se aplicó sistemáticamente la misma metodología de análisis para los sitios antes mencionados y para los conjuntos tanto de adultos como de subadultos. Este procedimiento le permitió al autor un gran cúmulo de datos comparables entre los diversos yacimientos tanto sincrónicos como diacrónicos.

Sin embargo, como bien señala el autor en la cuarta parte (capítulo 9), donde se discuten los datos obtenidos, el grado de definición de los materiales de los diversos sitios es distinto. Estas diferencias no sólo se expresan en términos de variabilidad interna sino en cuanto al tipo de información obtenida. En este capítulo se introduce la dimensión temporal, a través del ordenamiento de los yacimientos en cuatro bloques temporales, Bloque Temporal 1 (2.000-1.700 a.p), Bloque Temporal 2 (1.700-1.500 a.p.), Bloque Temporal 3 (1.500-1.200 a.p.) y finalmente Bloque Temporal 4 (1.100-1.000 a.p.), lo que permite la comparación de los conjunto a través del tiempo, donde sorprendentemente no se observan grandes diferencias. De igual forma, se analiza la distribución espacial de los restos, lo que permite identificar diversos eventos en una misma estructura.

Finalmente, en el capítulo 10, el autor realiza una evaluación de los resultados obtenidos en relación con los aspectos metodológicos, los datos obtenidos y su aporte a la discusión de un modelo de caza y pastoreo, concluyendo que la presencia constante de guanaco y vicuña en los sitios analizados denota la importancia de la caza en la economía de las aldeas formativas. Si bien, la cría de ganado doméstico habría sido un componente importante dentro de estos sistemas, su utilización como alimento no sería el factor principal ya que como lo denota la estructura etaria de los conjuntos, el ganado habría sido criado hasta edad adulta para la obtención de productos secundarios como lana y transporte. Del mismo modo, aporta nuevos datos para comprender la distribución y el consumo diferencial de los camélidos y la utilización de otros taxones como cérvidos, vizcachas y quirquinchos, representados en casi todos los conjuntos.

El libro se encuentra dirigido a un público familiarizado con la zooarqueología, dada la especificidad de sus contenidos, dentro de cuyo ámbito cobra gran relevancia, puesto que nos propone una estructura de análisis sistemática que puede ser aplicada a diferentes registros, teniendo en cuenta las características particulares de cada uno de los conjuntos analizados y la aplicación de nuevas técnicas de análisis. Sin embargo, los temas abordados por el autor en cuanto a la generación de un modelo de caza y pastoreo, como también nuevas formas de abordar el reparto y consumo diferencial, pueden acercarnos entre otros a la comprensión de las diferencias sociales, aspecto de vital importancia en el desarrollo de las sociedades formativas; en este sentido, esta obra adquiere un carácter de interés general. Desde esta perspectiva, este trabajo mueve nuestro foco de atención comúnmente centrado en temas como la domesticación de los camélidos y nos obliga a indagar en nuevos campos metodológicos que nos permitan generar indicadores para abordar la naturaleza y complejidad de las sociedades formativas y que puedan ser aplicados más allá del área Circumpuneña.

Isabel Cartajena – Departamento de Antropología, Universidad de Chile, Santiago. E-mail: icartaje@uchile.cl

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História e Gênero / Anos 90 / 2007

Faz pouco menos de vinte anos que Joan Scott publicou seu artigo célebre mostrando a utilidade da categoria gênero para a análise histórica (Scott, 1995). De lá para cá, afloraram muitas polêmicas e abriram-se diversos caminhos nas pesquisas a respeito das relações de gênero realizadas por historiadores (as). No que tange às polêmicas, destacam-se os debates entre pesquisadores(as) alinhados(as) com a história social, que enfatizam o papel da experiência e do sujeito na construção cultural da diferença sexual, e aqueles(as) que partem de posições genericamente definidas como pós-estruturalistas, as quais procuram mostrar o próprio sujeito e suas experiências como produtos de práticas discursivas e não-discursivas.1 Em relação aos caminhos abertos, é possível dizer que, depois de uma quase exclusividade das investigações voltadas ao gênero feminino, os(as) historiadores(as) passaram a se preocupar também com as masculinidades e com os chamados “transgêneros”, além de voltarem seu olhar para processos históricos não tão obviamente generificados como, por exemplo, a construção das nações e suas metáforas femininas (a “mãe gentil”) e masculinas (o “herói guerreiro”).

Apesar deste campo de estudos ter se consolidado e institucionalizado – o que pode ser demonstrado pelas inúmeras revistas dedicadas ao tema, pelo surgimento de diversos núcleos de pesquisa, pela realização de numerosas dissertações de mestrado e teses de doutorado que, direta ou indiretamente, lidam com gênero, entre outros indicadores – cabe voltar à pergunta instigante proposta por Scott: será que esse enfoque modificou a nossa forma de encarar a História, de hierarquizar nossos temas e temporalidades, de (re)pensar referenciais teóricos e procedimentos metodológicos? Ou será que gênero continua a ser visto como “mais um tema”, um enfoque “moderno” que pode ser incluído nas coletâneas (de preferência ao final), mas que não modifica a arquitetura das nossas publicações e o nosso entendimento do passado?

Visando contribuir para tal discussão, a revista Anos 90 apresenta um dossiê sobre relações de gênero, no qual é possível vislumbrar essa pluralidade de caminhos e enfoques. O primeiro artigo, de Gil Mihaely, examina, a partir da perspectiva das masculinidades, a noção de domesticidade e seu impacto no mundo do trabalho francês de 1870 a 1910. Eni de Samara Mesquita, André Félix Marques da Silva, Breno Henrique Selmine Matrangolo, Nadia Beyeler e Patrícia Garcia Ernando da Silva, tendo por base um banco de dados construído com informações retiradas de testamentos manuscritos de São Paulo no período de 1840 a 1870, analisam as relações entre senhoras e escravos na era do café. Já Marlene de Fáveri e Anamaria Marcon Venson tratam de práticas culturais e representações construídas por mulheres de diferentes gerações, no sul do estado de Santa Catarina, relativas ao ritual de passagem ligado ao aparecimento da menarca. Por fim, fechando o dossiê, Paulo Pezat aborda a maneira pela qual o positivista religioso gaúcho Carlos Torres Gonçalves procurou aplicar, nas esferas pública e privada de sua vida, os ensinamentos de Comte a respeito do gênero feminino, o “sexo altruísta”.

Na parte geral da Revista, temos os artigos de José D’Assunção Barros sobre a “história da história comparada”; de Bruno Flávio Lontra Rodrigues, a respeito das relações entre História e Literatura, abordando especificamente a obra de Guimarães Rosa, Grande Sertão: Veredas; e de Márcia Janete Espig, relativa à presença, nas fontes e na historiografia militar do movimento do Contestado, de ex-operários da construção da Estrada de Ferro São Paulo-Rio Grande. Seguem ainda as resenhas de Teresa Malatian do livro de Justo Serna e Anaclet Pons, La historia cultural, e de Diogo da Silva Roiz, do livro de Décio Gatti Júnior, A escrita escolar da História: livro didático e ensino no Brasil (1970-1990).

A partir deste número, retomamos a publicação das edições semestrais e esperamos poder regularizar a periodicidade da Revista. Continuamos os esforços de editores anteriores para adaptar a revista a padrões técnicos solicitados pelos órgãos financiadores e indexadores, sem prejuízo da qualidade intelectual que a tem caracterizado desde sua criação. Nesse momento, a presença do Programa de Apoio à Edição de Periódicos da Pró-Reitoria de Pesquisa da UFRGS tem sido muito importante, não apenas pelo apoio financeiro, mas pelas orientações em questões técnicas, nem sempre previamente conhecidas por nós, docentes. O Portal de Periódicos Científicos da UFRGS2 é tanto um instrumento de divulgação dos periódicos da Universidade, no qual Anos 90 se faz presente, como um canal de assessoria aos editores.

Nosso Conselho Editorial foi ampliado, acompanhando a diversificação das pesquisas desenvolvidas em nosso Programa, o que é um reflexo tanto do aumento do corpo docente, pelo ingresso de novos doutores, quanto da ampliação do número de alunos em nossos cursos de mestrado e doutorado. Agradecemos a todos aqueles pesquisadores que aceitaram nosso convite.

A versão digital da revista, para o que estamos trabalhando, permitirá uma relação mais orgânica com os conselheiros, os articulistas e com os leitores da revista. O portal da Anos 90, 3 vinculado à página do Programa, já está em operação e estamos conjugando esforços para torná-lo mais operacional.

Notas

1. Um resumo desta polêmica encontra-se em Cadernos Pagu, 1994.

2. Portal de periódicos científicos – UFRGS. Disponível em

3. Disponível em

Referências

SCOTT, Joan. Gênero: uma categoria útil de análise histórica. Educação & realidade. 20(2): 71-99, julho / dezembro 1995 (original de 1988). Porto Alegre: FACED / UFRGS.

CADERNOS PAGU. Campinas: PAGU – Núcleo de Estudos de Gênero / UNICAMP, n. 3, 1994.

Benito Bisso Schmidt – Professor do Departamento e do PPG em História da UFRGS. Organizador deste número.

Regina Weber – Professora do Departamento e do PPG em História da UFRGS. Editora da revista Anos 90.


SCHMIDT, Benito Bisso; WEBER, Regina. Apresentação. Anos 90, Porto Alegre, v. 14, n. 25, jul., 2007. Acessar publicação original [DR]

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Historias del Desierto: Arqueología del Norte de Chile – RIVERA (C-RAC)

RIVERA, Mario. Historias del Desierto: Arqueología del Norte de Chile. La Serena: Editorial del Norte, 2002. 238p. Resenha de: BAIED, Carlos A. Chungara – Revista de Antropología Chilena, Arica, v.39, n.1, p. 135-136, jun. 2007.

Northern Chile and the Atacama Desert, in particular, has long been recognized as rich repositories of well-preserved archaeological remains and for its diversity in material culture. Conceptualizing this richness, however, became a major task for archaeologists who eagerly introduced John V. Murra’s vertical archipelago model as the preferred explanatory paradigm. Once transferred from the ethnohistorical to the archaeological context this model provided the much needed theoretical framework for understanding the variety of archaeological finds, and the tools to look into past resource exploitation practices and systems. Today, we know that the coast and valleys of southern Peru and north Chile were settled by multiple ethnic groups that displayed exchange-based mechanisms responsible for trans-Andean movement of a large variety of natural resources. Indeed, understanding Chilean coastal and hinterland archaeology north of the Loa River -particularly when looking at similarities in artifact assemblages- heavily relies, at least for the Andean Formative, on the existence of a core upland polity that was in need of and accessing maritime, coastal, and valley resources west of the Andes.

Over the past thirty years, Mario Rivera, has been one of the leading advocates of this explanatory paradigm. Historias del Desierto, a timely synthesis of the prehistory of the Chilean desert north, follows up on this line of thought incorporating an up to date discussion of what we currently know about coastal adaptations, highland developments, and the wide-range of valley-oases settlement patterns present in the Atacama Desert. Totaling some 198 pages of text, this book is organized into eight chapters preceded by a brief introduction. Informative figures, tables, and color photographs add to the extensive bibliography that represents almost the full bag of references to the most important works on the archaeology of north Chile.

Historias del Desierto opens with three exquisite quotes of Chilean poets followed by a brief summary on the history of archaeological research and a discussion of the geographic background and a culture history of the Chilean north. Past this section, the first two chapters of the book address early and Archaic upland and coastal adaptations. A brief look into the early upland hunters reveals that only a few archaeological localities have been systematically excavated and that most of our current knowledge relies on the analysis of surface reconnaissance, limited test-pits, and occasional excavations. Rivera’s presentation and discussion of this evidence is cautious in interpretative comments, a fact that points to the weaknesses in the proxy data. The book continues in its second chapter with a comprehensive chronology of the Chinchorro tradition that includes a brief discussion of the distribution of coastal sites with close attention given to maritime-coastal adaptations and their material culture. Here, mortuary practices take a leading role at the time of defining culture change. What I perceive is missing in these two chapters is a presentation and further discussion of the archaeological evidence provided by upland and coastal southern Peruvian sites. Early fish-shellfish gathering-oriented settlements such as those evidenced at Quebrada Jaguay, Quebrada Tacahuay, and Quebrada de los Burros in the nearby Tacna area are absent in the discussion. In all, a missed opportunity to integrate findings and explanations beyond borders, even in a book that is perse bounded by its title: The Archaeology of North Chile.

The third chapter deals with Mario Rivera’s area of exceptional expertise: the Formative of North Chile. Here is where the author focuses on what appeals most to him bringing to the project much of his own experience of working along the eastern escarpment and coastal areas of the north. The work he started in the 1970’s and has continued for more than three decades led him to define and characterize the Alto Ramirez Phase, a local development neatly tight through exchange and interaction to Wankarani (early Formative) and Pukara (full Formative), two contemporaneous upland developments in the nearby area of Lake Titicaca. Abundant and well-preserved surface evidence of human habitation and of highly-developed land use practices -that were already in place by approximately 2,800 B.P-are evident almost everywhere in north Chile. Two coastal localities, Camarones and Pisagua are treated extensively and a large number of radiocarbon age determinations are provided. At the core of Rivera’s argument is the existence of a transitional phase in which the Chinchorro Tradition coexists with an emergent Andean Tradition along the coast.

Chapter four includes the most recent information available for Ramaditas, a Late-Formative village-farming site in the Quebrada de Guatacondo. In many ways, Ramaditas and the group of sites in the Guatacondo archaeological district are unique because of excellent preservation of architectural features, the presence of a vast network of irrigation canals and agriculture fields, fabric, basketry, and macro-botanical remains. The settlement area -including structures and agricultural fields- has been estimated in approximately 600 hectares. Radiocarbon age determinations place occupation at this site within the Alto Ramirez II Phase, between 2,500-2,000 years B .P., a time span when large village-farming communities first appear in this sector of the Andes. Indeed, Ramaditas represented one of the earliest occupations in the Guatacondo District, a series of six roughly contemporaneous village-farming sites and associated structures arranged along the present-day Guatacondo gully. Archaeobotanical samples from Ramaditas provide evidence of Prosopis, Zea, and Chenopodium among the edible plants and the analysis of human feces suggests that wild algarrobo pods may have been at the core of the community diet. In addition, the combined study of pollen, starch, and phytoliths shows a diet that included Chenopodium, potato, algarrobo pods, and maize. Protein residue analysis of feces also suggests reliance on small mammals and fish for meat. In all, this chapter wraps up a little more than ten years of work by Mario Rivera at this site and lays the groundwork for the years to come in which remaining questions on water availability, irrigation, cultigens, and agriculture practices are certainly going to be addressed. The text in this chapter is supported by useful in-text tables and by exceptional color photos such as air-views of the site and agriculture fields.

Chapters five and sixth address the periphery, specifically the areas of Tiwanaku expansion in the lower valleys of Arica and San Pedro de Atacama. The chronological sequences developed by M. Uhle, J. Bird, and P. Dauelsberg for Arica are discussed and reinterpreted by Rivera as he stresses the impact of Chiribaya and Tiwanaku on the Azapa sequence. The periphery role is also addressed, more extensively, when looking at the Inka State and its political area of influence. A few sites are discussed and a long list of localities ascribed to this time-period is given.

Chapter seven moves beyond the realm of archaeology and into the field of ethnohistory as it addresses Colonial north Chile. Trade, exchange, and the role of ethnic groups in pursuing this practice are at the core of this section that also includes the reproduction of old Colonial-era maps that help stress the economic and political meaning of this otherwise marginal area of the Chilean north. Here too, trans-Andean commerce and interaction plays a leading role in understanding this time-period.

The last chapter of this book provides space for reflection on the legacy and withstanding of adaptive strategies in this part of the Andes. The archipelago model is by all means a compelling paradigm for addressing the long occupation sequence that spans for more than 10,000 years. Indeed, following Mario Rivera’s line of thought, the two Traditions, Chinchorro and Andean, trace back their roots to the Amazon lowlands and the Titicaca uplands respectively. My feeling here is, however, that little emphasis is placed in addressing alternative explanatory models, such as horizontal-type movements along the coast, which could also account for similarity -and divergence- in material culture and settlement patterns.

The chronological and geographic focus of this book provides for both strength and weakness. Strength because Mario Rivera fluidly brings to the project much of his own experience of working along the eastern escarpment and coastal areas of north Chile, a work that in the 1970’s took him to define and characterize the local Alto Ramirez Phase. Weaknesses because of the major task of producing a synthesis that starts more than 10,000 years ago and ends with the Colonial history of the region, an endeavor that, although magnificently done by Rivera, does not allow for the discussion of specific site characteristics, site formation processes, and for addressing thoroughly the enormous amount of data that each locality provides to the archaeologist. Because of this, it is a short book, but, by no means, a book short of ideas.

For those with specialized interest either in the prehistory of South America or the archaeology of the Atacama Desert, Historias del Desierto is unavoidable. Beyond a few production flaws in editing, Mario Rivera succeeds quite nicely in achieving a well thought synthesis of the archaeology of north Chile.

Carlos A. Baied – Latin American Studies Program, The University of Montana, Missoula, USA, and Instituto de Arqueología y Museo, Universidad Nacional de Tucumán, Argentina. E-mail: cbaied@yahoo.com

Notas

Esta reseña fue publicada previamente en Latin American Antiquity, vol. 18, num. 1, 2007.

Carlos A. Baied – Latin American Studies Program, The University of Montana, Missoula, USA, and Instituto de Arqueología y Museo, Universidad Nacional de Tucumán, Argentina. E-mail: cbaied@yahoo.com

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Los Antiguos Habitantes del Salar de Atacama, Prehistoria Atacameña – MARTÍNEZ (C-RAC)

MARTÍNEZ, Agustín Llagostera. Los Antiguos Habitantes del Salar de Atacama, Prehistoria Atacameña. Antofagasta: Universidad Católica del Norte, Editorial Pehuén, 2004. 215p. Resenha de: SANTORO, Calogero M. Chungara – Revista de Antropología Chilena, Arica, v.39, n.1, p.137-139, jun. 2007.

Esta nueva obra de Agustín Llagostera es para disfrutarla y descubrir que es posible difundir el conocimiento científico a un público lector, que va más allá del reducido grupo de especialistas que componen nuestra disciplina y con ello cultivar el interés por conocer la prehistoria atacameña. Con esta obra Agustín abre la puerta para que cualquier persona pueda adentrarse a través de sus relatos, fotos y dibujos, en la historia de los distintos pueblos que habitaron el territorio atacameño en épocas anteriores a la invasión europea en el siglo XVI, de allí el término de prehistoria Atacameña.

Como autor, Agustín integra dos grandes talentos que se ven muy bien reflejados en esta obra, por un lado su gran rigurosidad científica y, por otro una habilidad plástica para reproducir distintas escenas de la vida diaria de los antiguos habitantes del Salar de Atacama. Desde un punto de vista formal, el libro impresiona por la finura artística de la diagramación, que integra un texto ameno, generoso de espacio para hacer notas al margen, acompañado de ilustraciones, la gran mayoría de ellas dibujos a mano alzada realizadas por el propio Agustín, y la de otros artistas. Estas ilustraciones son, también, una manera distinta de presentar su “ensayo” sobre la prehistoria Atacameña; a través de lo que define como la “máquina del tiempo llamada arqueología” en un genuino intento por descubrir la “presencia de mujeres y hombres detrás de los artefactos y de acercar a los lectores a la calidez de lo humano de los protagonistas”.

El libro está estructurado en seis capítulos bien balanceados en cuanto a la extensión de su contenido, por lo que dan buena cuenta de una construcción de la prehistoria de los territorios atácamenos, con un fuerte apego a los datos disponibles e interpretaciones que distan mucho de ser historias imaginarias, veta que a su vez no ha sido explorada en la literatura chilena como en otros lugares del mundo, donde la vida de los pueblos antiguos ha inspirado una serie de historias noveladas o novelas históricas.

En el capítulo 1 el autor magistralmente muestra los detalles de los diferentes ambientes que integran el Salar de Atacama, que a pesar de ser un gran territorio yermo, sirvió como eje articulador y de referente geográfico para las poblaciones que se parapetaron en los oasis, quebradas y zonas altas al este de esta cuenca salada. En este contexto el autor presenta a los grupos de cazadores que comenzaron a colonizar estos territorios hace cerca de 13.000 años. Enfatiza, por un lado, su capacidad para integrar recursos de caza y recolección de frutos silvestres de las escasas plantas que crecen en la zona, y cómo a partir de ello estructuraron modos de vida más bien móviles, lo que les permitió mantenerse en estos territorios a pesar de las importantes fluctuaciones climáticas que por momentos provocaron condiciones mucho más secas que las actuales. Es interesante notar que Agustín no sólo hace una descripción interpretativa de la vida de los primeros habitantes del Salar de Atacama, sino también va explicando cómo se ha generado el conocimiento que permite darle sustento científico a su visión de los hechos rescatados a través de la arqueología, lo que en los capítulos siguientes se hace implícito.

El capítulo 2 está dedicado a una de las fases de cambio más significativas en la historia de la humanidad y que en este caso representan lo que Agustín define como “los cimientos de la sociedad atacameña” en la medida que se estructuraron pequeñas aldeas de comunidades de horticultores lo que permitió dejar de depender completamente de los medios de la subsistencia de caza y recolección. Con ello adquieren mayor estabilidad económica que da pie para el establecimiento de aldeas pequeñas y nuevas formas de convivencia social. Las comunidades se organizaron política y económicamente de manera distinta a sus antecesores los cazadores recolectores de quienes mantuvieron la destreza en la fabricación de instrumentos líticos y toda la experiencia de manejar plantas y animales silvestres por más de 8.000 años. Esta es la época de la domesticación de camélidos, proceso que Agustín deja caer en la experiencia de las mujeres, a través de la crianza de “chulengos” huérfanos. Esto es una propuesta interesante, dado que en literatura clásica de cazadores recolectores se estima que las labores de caza la realizaban los hombres, por lo tanto teóricamente habrían tenido una relación más cercana con los animales silvestres. Las mujeres y los niños, en cambio, dedicados corrientemente a la recolección de frutos silvestres, habrían tenido una mayor relación con el proceso de domesticación de plantas, que incluyó productos hoy día de gran valor comercial como el maíz y la quínoa. Detrás de estas actividades económicas se esconde un complejo mundo que abarca la materialización de nuevas prácticas religiosas, descritas, por ejemplo, a través de lo que interpreta como “infante mensajero” sobre la base de los objetos rituales que acompañan a este infante en su tumba. El capítulo tiene además detalles respecto del uso de tecnologías como la cerámica, la textilería, la metalurgia, el uso de piedras preciosas y la relación de esta zona con áreas alejadas como el oriente de los Andes, donde destaca el rol de las caravanas de llamas, uno de los rasgos culturales que caracterizarán luego a las poblaciones del Salar.

En el capítulo 3 el autor lleva adelante una tesis interesante que lo desliga de la clásica secuencia histórica cultural que marca a las reconstrucciones históricas a lo largo de los Andes. Propone que una vez consolidadas las aldeas de los horticultores de la época anterior las comunidades del Salar enfrentaron la tarea de buscar y crear una identidad propia. Para sustentar esta propuesta el autor revisa, describe e ilustra distintos aspectos de la forma como se estructuró la vida en el Salar, donde resaltan variadas expresiones de identidad que no sólo se reducen a las formas e iconografía de los tejidos y cerámica, sino también a los peinados, gorros, collares, deformación craneana y otros ornamentos que fueron estructurando una identidad étnica. Resalta el rol de las tabletas de rituales de madera tallada ligadas a la absorción de sustancias alucinógenas, que partiendo de formas simples terminan grabándose con sofisticados personajes que Agustín ha definido como los “dioses atácamenos”. Esta época, señala el autor, se caracteriza también por el surgimiento de estructuras políticas centralizadas donde surgen símbolos de prestigio y poder, cuyos líderes posiblemente manejaron una red de “tráfico” exterior.

En el capítulo 4 Agustín se aboca a mostrar cómo las sociedades muy bien afincadas en el Salar se integran a un gran sistema político, económico y cultural representado por el estado imperial de Tiwanaku. De esta manera, el acento del relato no radica en la “influencia de este imperio en la zona” sino en las transformaciones que ocurren en las sociedades atacameñas a consecuencia de la interacción con Tiwanaku y con otras sociedades de regiones aledañas como el noroeste argentino. Esta época de cambios se visualiza muy bien a través de la rica iconografía de personajes mitológicos, antropo y zoomorfos desplegados en las tallas de madera de las tabletas para alucinógenos, que contrastan con la iconografía más naturalista de la época anterior. Este cambio representaría profundas transformaciones en las sociedades atacameñas, donde resalta una ideología de sacrificios humanos, cuyas características y significados trata de explicar el autor. En la esfera tecnológica sobresale la introducción del bronce, lo que sumado a una proliferación de piezas de oro, representa el surgimiento de linajes o señoríos complejos, como el de Larache.

En el quinto capítulo relata primero los efectos de la desarticulación del sistema imperial de Tiwanaku, lo que habría provocado también que los líderes locales atácamenos, como los de Larache perdieran prestigio y poder. Se produce un fraccionamiento político y los tradicionales bienes de prestigio dejan de producirse y reaparecen otros como los objetos de plata, que el autor interpreta como signo de la competencia entre distintas facciones de las sociedades atacameñas. Desaparecen también del escenario social las imágenes todo poderosas de los dioses tiwanacotas, lo que muestra un cambio ideológico importante, donde el único “sobreviviente” es el personaje conocido como el “Sacrificador”, plasmado en otro tipo de soporte, como los tubos de inhalación de alucinógenos. El “empobrecimiento cultural” se expresa también en la discontinuación de la producción de objetos finamente labrados, reemplazados por bienes de corte más bien utilitarios. La fragmentación política se expresa en el surgimiento de poblados defensivos, junto a un decaimiento del poder de los shamanes de la época anterior, reemplazados por líderes más preocupados de la defensa física de sus comunidades, a través de alianzas estratégicas interétnicas para hacer frente a presiones tanto externas como internas. En ese nuevo orden social se imponen otros personajes ideológicos, donde destaca la figura del cóndor.

Toda esta dinámica interna se vuelve a transformar con las enmiendas impuestas por el estado imperial del Inka, que entre otras cosas dota de mayor prestigio y poder a los líderes locales para que sirvan a los propósitos del Estado. Destaca en este nuevo escenario una baja importante en los índices de violencia, marcado en fracturas y otros traumas corporales muy comunes en la época anterior. En el ámbito ideológico el estado imperial introduce nuevas prácticas como son los sacrificios en santuarios localizados a gran altura sobr la cima de los principales cerros y volcanes que bordean al Salar de Atacama. Lo interesante de todo este proceso de integración social es que ocurre, como destaca el autor, sin la instalación de asentamientos imperiales propiamente tal. Toda esta dinámica social estaba en proceso de cristalización cuando la capital del Cuzco fue invadida por el Estado de Castilla, lo que dio inicio a un nuevo proceso de interacción social, en desigualdad de condiciones, lo que no sofocó sin embargo una serie de episodios de resistencia que retardaron, pero no detuvieron el proceso de transformación de las sociedades atacameñas en los ámbitos políticos, económicos, ideológicos y tecnológicos.

Al terminar la lectura, el lector coincidirá con Don Misael Camus, Rector de la Universidad Católica del Norte, que el libro es “fascinante y acogedor” y querrá volver a repasar los detalles de la epopeya histórica de la “gente de esta tierra” o likan-antai.

Reseñado por Calogero M. Santoro – Instituto de Alta Investigación, Departamento de Antropología y Centro de Investigaciones del Hombre en el Desierto, Universidad de Tarapacá, Arica, Chile. E-mail: csantoro@uta.cl.

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La historia cultural – SERNA (AN)

SERNA, Justo; PONS, Anaclet. La historia cultural. Madrid: Ediciones Akal, 2005. 249p. Resenha de: MALATIAN, Teresa. Anos 90, Porto Alegre, v.14, n.25, p.223-227, 2007.

Brasil nas últimas décadas e alcançou o estatuto de área das mais promissoras da pesquisa histórica, a ponto de se tornar área de concentração de diversos programas de estudos de pós-graduação.

Nada mais oportuno, pois, que a leitura de um livro como o de Justo Serna e Anaclet Pons, professores especialistas em História Social e Cultural da Universidade de Valencia, Espanha. Entre suas obras, destacam-se o estudo La ciudad extensa (1992) sobre os burgueses no século XIX, e diversos ensaios de historiografia, a exemplo de Cómo se escribe la microhistoria (2000).

La historia cultural: autores, obras, lugares, publicado em 2005, aborda as diferentes possibilidades desse campo historiográfico e contribui para a compreensão da metodologia que vem sendo utilizada pelos pesquisadores que percorrem essa vertente potencialmente inovadora da Historiografia. Para isso, os autores partem em busca da interdisciplinar entre História e Antropologia, e voltado para a distinção entre a natureza e a criação humana que lhes permite afirmar ser a cultura “dispositivo que nos aleja de la naturaleza” (p. 6).

Conceptualização feita, abre-se um amplo leque de possibilidades de construção de objetos da história cultural, a se ocupar de códigos e convenções, instrumentos e regras, significados e prescrições, que permitem ao historiador um manancial riquíssimo de temas a serem trabalhados com as ferramentas de um método que se constrói na interface da disciplina com as ciências humanas.

Idêntico percurso, também em perspectiva historiográfica, permite aos autores desvendar, na pletora de obras que abordam a história cultural, temas e métodos mais significativos que caracterizam o campo na segunda metade do século XX. Melhor dizendo, o fio condutor desse livro é dado pela “genealogia do campo”, a qual permite a percepção da vitalidade do recorte analítico e as inumeráveis dimensões de possibilidades de construção do objeto. Para alcançá-la, é rastreado o “colégio invisível” dos autores que se sobressaem nos estudos de história cultural, num percurso de filiações e interdependências convergentes para a construção de um campo metodológico tramado em dimensões intercontinentais e muito distante de um paradigma unitário.

Os anos 1970 constituem, nessa perspectiva, um marco na formação de uma rede textual que agrega Roger Chartier, Carlo Guinzburg, Peter Burke e Robert Darnton, e tem como figura central Natalie Zemon Davis. As práticas acadêmicas de interlocução entre pares são esmiuçadas pelos autores desse livro em busca dos fios da trama da rede nem sempre totalmente invisível, porém agregadora de perspectivas analíticas e temáticas inovadoras desse “modo de fazer” que compartilha a fragmentação da História com os herdeiros divididos de Braudel.

Constitui excelente contribuição o tratamento historiográfico desse colégio e seus desdobramentos na busca de modos de construção extensas obras, centradas num único tema, no formato de tese acadêmica, e sim ensaios e fragmentos reunidos em volume, autônomos porém entrelaçados e que, em relação dialógica, constituem a característica textual de disseminação do objeto, fraturado em operação historiográfica devedora de Walter Benjamin e Wittgenstein. A complexidade sucessiva da abordagem, a multiplicação de referências a interlocutores internos, a reescrita contínua em resposta a múltiplos auditórios permitem a conexão entre os textos através de uma idéia mais geral que lhes serve de vínculo secreto e iluminação. Estratégia que reforça o conceito de cultura como código, marco, repertório de possibilidades.

Ao desvendar o colégio invisível dos autores e obras relevantes para a História cultural, o livro detém-se na identidade acadêmica e experiência de vida que constituiria o elemento forte de ligação entre os historiadores. Para isso, importância decisiva é atribuída aos anos de formação desses pesquisadores no pós-Segunda Guerra Mundial e à maturidade por eles alcançada na década de 1960, período marcado pela “americanização” da cultura e pela difusão do materialismo histórico no mundo acadêmico europeu. Com esse pressuposto, foi possível aos autores da obra em análise construir uma rede, tendo como epicentro a figura aglutinadora de Natalie Zemon Davis, situada na intersecção entre os expoentes da historiografia marxista britânica em sua vertente cultural e a historiografia francesa.

Serna e Pons apresentam um recorte da vertente do marxismo britânico de R. Hoggart, R. Williams, E. P. Thompson e E. Hobsbawm, ressaltando sua contribuição para o “novo materialismo cultural”, centrado na história from below e na cultura popular, nas experiências e tradições do povo comum que ocuparam os pesquisadores da universidade de Oxford.

Em Natalie Z. Davis essa proposta encontra ressonância no estudo do menu peuple e das mulheres, que alcança, em suas pesquisas, dimensão inovadora também pela leitura de M. Bakhtin e seus aportes cultura na França moderna (1975). Entusiastas admiradores de Davis, os autores reservam a esta autora um lugar destacado no colégio invisível dos historiadores da cultura, vistos em perspectiva européia.

Da historiografia vinculada aos Analles, sobressai no percurso a valorização de Os reis taumaturgos (1924), de Marc Bloch, na medida em que lhe é atribuído o papel de antecessor dos estudos de cultura, conceito que seria progressivamente dilatado em decorrência das relações estabelecidas pelos historiadores entre História e Antropologia, especialmente na École des Hautes Études em Sciences Sociales (EHESS). Ao percorrer a historiografia francesa, Serna e Pons não escondem seu entusiasmo pelo impacto causado pela vida e obra de Marc Bloch, que vem sendo, nos dias atuais, cada vez mais valorizado, e pelo “atelier parisiense”, no qual rastreiam a construção dos alicerces da antropologia histórica que permitiu o florescer da História cultural, desde os “pais fundadores” da Nova História até Roger Chartier, passando das mentalidades à história sociocultural.

O largo alcance territorial do colégio invisível da História cultural, pulverizado entre o Velho e o Novo Mundo, inclui também a universidade de Princeton, nos Estados Unidos, considerado o “laboratório” que acolheu Roger Chartier, Peter Burke, Natalie Z. Davis e Carlo Guinzburg, em torno da liderança de Lawrence Stone.

A este coube papel destacado pela reflexão de balanço do estatuto epistemológico da História que clareou os avanços da disciplina em direção aos estudos de cultura, na qual o estilo narrativo e o viés etnográfico permitem evocar no leitor um “efeito presencial”.

Melhor dizendo, por tratar-se de uma História vivamente construída, sugere ter sido o historiador testemunho presencial dos fatos e interlocutor direto de seus personagens. Muito contribuiu para tal efeito o retorno da narrativa no discurso histórico, inovador porque tornado complexo com a alternância de descrição e análise que permitem configurar a cultura em perspectiva histórica, e alcançar substituição da Sociologia e da Economia pela Etnologia, como referente dominante nas ciências sociais.

Não deixam de assinalar a figura destacada que Clifford Geertz ocupou na virada antropológica da História ao propor, em A interpretação das culturas (1987) e em O antropólogo como autor (1989), a construção de miniaturas etnográficas ricas em significado e iluminadoras de comportamentos e códigos reguladores das grandes paisagens culturais. Seu modelo interpretativo apropriado pelos historiadores permite a leitura da cultura como texto no qual o evento constituiria um signo, em micro-dimensão, cujo sentido está à espera de interpretação pelo observador externo, a exemplo do enfoque micro-analítico realizado por R. Darnton em O grande massacre dos gatos (1984).

Com tais marcos de referência, Serna e Pons percorrem ainda as mais recentes tendências historiográficas como o linguistic turn e a virada auto-reflexiva que resulta na análise da obra histórica como objeto cultural que finaliza o longo percurso historiográfico iniciado na fundação dos Annales, e construído em conexões transnacionais.

Vale a pena salientar o aspecto didático da obra que faz dela um sólido instrumento para os praticantes do gênero. A lamentar-se, apenas, a ausência de referências ao desenvolvimento dos estudos do campo no país de origem dos autores.

Teresa Malatian – Prof. Adjunto do Departamento de História da Faculdade de História, Direito e Serviço Social – UNESP, Campos de Franca. E-mail: tmalatian@uol.com.br.  Acessar publicação original

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A escrita da História: livro didático e ensino no Brasil (1970-1990) – GATTI JÚNIOR (AN)

GATTI JÚNIOR, Décio. A escrita da História: livro didático e ensino no Brasil (1970-1990). Bauru: EdUSC; Belo Horizonte: Editora da UFU, 2004. 252p. Resenha de ROIZ, Diogo da Silva. Anos 90, Porto Alegre, v.14, n.25, p.229-235, 2007.

A escrita da história nos livros didáticos de ensino fundamental (e médio) no Brasil é tema que vem despertando a atenção de estudiosos de Educação, Ciências Sociais e História desde, pelo menos, os anos de 1980. Evidentemente, encontram-se estudos pioneiros antes desse período, muito embora fossem esparsos. Com o desenvolvimento dos programas de pós-graduação no país, a partir dos anos de 1970, avançou-se consideravelmente no número, densidade e discussões da historiografia brasileira sobre a história dos livros didáticos no país. A tese de Circe Bittencourt, Livro didático e conhecimento histórico, que foi defendida em 1993 na Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo, é um bom exemplo da forma como as pesquisas sobre a produção, divulgação e usos dos livros didáticos de história se desenvolveram de lá para cá. Foi seguindo os passos dessa historiografia que, em 1998, Décio Gatti Júnior defendeu, na Pontifícia Universidade Católica (PUC) de São Paulo, sua tese Livro didático e ensino de história: dos anos sessenta aos nossos dias.

Edusc, em co-edição com a Edufu. Uma alteração substancial do texto, ora publicado, foi a exclusão das entrevistas que o autor fez em 1997 com autores de livros didáticos e editores, provavelmente em função da quantidade de páginas do material. O livro permaneceu dividido em três capítulos.

Na apresentação assinada pela professora Ester Buffa, orientadora do trabalho, desenvolvido entre 1994 e 1998, esta já esclarece as características do texto para o leitor, dando ênfase às suas contribuições para o tema. Para ela:

Ao buscar uma explicação, depois de analisar toda uma enorme coleção de livros didáticos de História, o autor, apoiado num referencial teórico-metodológico adequado, empreende uma análise do livro didático que passa pela sua escrita e confecção. Mostra como se passou, quanto à escrita, do autor individual à equipe técnica responsável (cap. 1) e quanto à confecção, da produção artesanal à indústria editorial (cap. 2).

Finalmente, focaliza as transformações ocorridas na escola e na sociedade brasileiras que fizeram com que o livro didático se tornasse definidor do processo de ensino-aprendizagem (cap. 3).(Gatti Júnior, 2004, p. 12-3).

Indica ainda que, por seu recorte inédito e suas análises, a leitura do livro é recomendada para os alunos de cursos de graduação em História, Ciências Sociais e Pedagogia, e ainda para os estudiosos da História da Educação e das Teorias do Currículo de História do Ensino Fundamental e Médio das escolas publicas do país.

Na introdução, o autor indica o que o levou a fazer essa pesquisa (além da questão formal do título de doutor na área de Educação), quais foram seus questionamentos e suas hipóteses. Segundo ele, “part[iu]-se da idéia de que, a partir da década de 1960, quando teve início o ainda inconcluso processo de massificação do ensino brasileiro, tenha ocorrido: a transformação dos antigos manuais individual à equipe técnica responsável pela elaboração dos produtos editoriais voltados para o mercado escolar; e a evolução de uma produção editorial quase artesanal para a formação de uma poderosa e moderna indústria editorial” (Idem, p. 16). Cada uma daquelas características correspondeu a cada um dos três capítulos do livro, tal como, acima, Ester Buffa já havia referido. Ressalta ainda que “a delimitação espacial foi se solidificando concomitantemente ao avanço do desenvolvimento da investigação, na qual os sujeitos envolvidos encontravam-se nas cidades de São Paulo, Belo Horizonte e João Pessoa, bem como os empreendimentos editoriais enfocados concentravam-se na região sudeste do Brasil” (Idem, p. 17). Para atingir seus objetivos, pautou-se metodologicamente nos procedimentos de André Chervel sintetizados no texto História das disciplinas escolares, traduzido no Brasil em 1990. Observa que:

[…] a partir dos relatos feitos pelos autores e editores de diversas coleções didáticas, foi possível perceber que a constituição dos conteúdos disciplinares, expressos nos livros didáticos, não era a transposição dos saberes produzidos na pesquisa científica, mas sim, resultado de um leque amplo de fatores, tais como: as novidades produzidas no âmbito das ciências, que são selecionadas conforme as opções teóricometodológicas dos autores e, por vezes, dos editores; as mudanças curriculares e programáticas provenientes dos diversos órgãos que legislam sobre a educação escolar; a sociedade civil, especialmente a mídia que por vezes conduz o aparecimento ou a valorização de certas temáticas em detrimento de outras. (Idem, p. 18).

Assim, ao destacar a escolha do período, do recorte do tema e das fontes, o autor preocupou-se em expor a procedência dos livros didáticos que pesquisou e onde pesquisou. Por outro lado, o tema e as fontes para a pesquisa justificavam-se ainda, segundo ele, porque além “de desempenhar esse papel central no cotidiano mencionar, no exercício profissional dos educadores dos mais diferentes níveis, os livros didáticos desde há muito são ainda o produto mais vendido pelas editoras nacionais” (Idem, p. 26).

E desde que surgiram, “os livros didáticos ganhavam, em pleno século XVII, uma função que conservam até os dias de hoje, a de portadores dos caracteres das ciências. De fato, durante os séculos subseqüentes, a palavra impressa, principalmente aquela registrada na forma de livros científicos, ganharia um estatuto de verdade que ainda hoje se dissemina em grande parte dos bancos escolares e da vida cotidiana das pessoas” (Idem, 36).

Como estariam caracterizados os processos de editoração e distribuição dos manuais escolares e dos livros didáticos no Brasil? Como definir a sua periodização? Essas questões foram fundamentais para o autor definir precisamente o seu recorte, e ao mesmo tempo pensar a história dos livros didáticos de ensino fundamental (e médio) no Brasil. Nas suas palavras:

O período compreendido entre as décadas de 1930 e 1960 caracterizou-se, no que diz respeito aos manuais escolares, da seguinte forma: foram livros que permaneceram por longo período no mercado sem sofrer grandes alterações; livros que possuíam autores provenientes de lugares tidos, naquela época, como de alta cultura, como o Colégio D. Pedro II [fundado em 1838]; livros publicados por poucas editoras que, muitas vezes, não os tinham como mercadoria principal e, por fim, livros que não apresentavam um processo de didatização e adaptação de linguagem consoante as faixas etárias às quais se destinavam. Nesse sentido, a década de 1960 foi o momento da transição desses manuais escolares para os livros didáticos do final da década de 1990, pois todas as características mencionadas foram paulatinamente sendo transformadas e adaptadas a uma nova realidade escolar […]. (Idem, p. 37).

A proposta do autor no livro começava, nesse sentido, por estudar, no primeiro capítulo, o lento e gradual processo de transição do autor individual para a equipe técnica responsável pela produção, diagramação e editoração dos livros didáticos de História de ensino fundamental (e médio) (e médio). Para demonstrar essa passagem, o autor contou com a contribuição da professora Joana Neves, que escreve livros didáticos desde 1975, do professor José Jobson de Andrade Arruda, autor de livros didáticos desde 1976, e dos professores Ricardo de Moura Faria, que escreve desde 1975, e Flávio Costa Berutti, que começou em 1986. Todos eles, a partir de entrevistas, permitiram que o autor fosse historiando as mudanças na linguagem, na adaptação ao público, na profissionalização do processo de editoração e na distribuição dos livros didáticos, a partir da década de 1970. O autor, demonstrando as diferenças e proximidades, compara as trajetórias acadêmicas de cada um dos entrevistados. Finaliza a análise do capítulo discutindo questões como a formação da memória nacional, da verdade no discurso histórico, da periodização em história, a rotina de trabalho, a relação com os editores e a maneira como cada um deles percebeu as mudanças que foram ocorrendo na escrita e na editoração dos livros didáticos.

No segundo capítulo, volta-se para a forma como ocorreu a passagem de uma produção tipicamente artesanal, para uma verdadeira indústria editorial especializada na produção de livros didáticos de História (e outras áreas do saber) de ensino fundamental (e médio) no país. Para contribuir com essa demonstração, também como no capítulo anterior, o autor se pautou em entrevistas realizadas em 1997 com os editores Alexandre Faccioli, da Saraiva, Lino Fruet, também da Saraiva, José Orlando Cunha, da Editora Lê, e João Guizzo, na época diretor da Ática. Também procurou indicar as semelhanças e diferenças entre cada um deles, como viram o desenrolar do processo nas suas editoras e no mercado editorial brasileiro, e como se relacionavam com os autores de livros didáticos durante esse período.

No terceiro capítulo, procurou evidenciar a passagem da escola voltada para as elites, para uma escola de massas, na qual o produto central passava a ser o livro didático. Nesse capítulo, o autor mescla as contribuições dos autores de livros didáticos e dos editores entrevistados, para melhor demonstrar essa passagem e como ela foi recebida pelo mercado editorial brasileiro. Evidencia como autores e editores passaram a se preocupar com o currículo, os programas oficiais, a diversidade regional, e em conseqüência disso melhorar o serviço de distribuição e editoração de livros didáticos e paradidáticos.

Nesse processo, o autor mostra a importância que os livros didáticos passaram a ter na veiculação de conteúdos escolares, no processo de ensino-aprendizagem, norteado por procedimentos metodológicos que incluíam o uso de letras de música, filmes e imagens no trabalho dos professores com seus alunos. Finaliza o capítulo evidenciando como os livros didáticos passaram a ser o produto central de várias editoras, que, para melhor distribuírem seus títulos no mercado, definiam sofisticadas estratégias de divulgação e publicidade perante a sociedade, as escolas e os professores do ensino fundamental (e médio) no país.

A leitura desse livro, nesse sentido, oferece ao leitor um conhecimento pormenorizado de como os livros didáticos de história de ensino fundamental (e médio) foram escritos e produzidos nas últimas décadas, com destaque para a passagem do autor individual para a equipe técnica especializada, da produção artesanal à indústria editorial de confecção de livros didáticos e paradidáticos e, finalmente, das mudanças da escola voltada para a elite se ampliar e abranger as massas. Nas suas palavras:

O governo federal, maior comprador de livros didáticos das editoras privadas, passava a observar com mais atenção aquilo que adquiria para distribuir à população carente [em função da inflação do mercado editorial de livros didáticos no país e da definição, pelo MEC, de formas mais eficientes de avaliação dos livros didáticos produzidos e distribuídos massas, que suplantou o de elite do início do século XX, ganhava em qualidade, ainda que faltassem livros aos alunos do ensino médio e verbas suficientes para a aquisição de livros pelas bibliotecas escolares. (Idem, p. 238).

De modo que o texto é uma bela contribuição para o tema, e certamente será um convite para novas pesquisas sobre o assunto

Diogo da Silva Roiz – Mestre em História pelo Programa de Pós-Graduação da UNESP, Campus de Franca. Coordenador do curso de História da Universidade Estadual do Mato Grosso do Sul (UEMS), Campos de Amanbaí.

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PINSKY Carla Bassanezi (Org), Fontes históricas (T), Contexto (E), ROIZ Diogo da Silva (Res), Anos 90, Fonte histórica, Ensino de História, Metodologia da História, Pesquisa histórica

PINSKY, Carla Bassanezi (Org.). Fontes históricas. São Paulo: Contexto, 2005. 302p. Resenha de: ROIZ, Diogo da Silva. Anos 90, Porto Alegre, v.14, n.26, p.227-233, 2007.

Diogo da Silva Roiz – Mestre em História pelo Programa de Pós-Graduação da UNESP, Campus de Franca. Coordenador do curso de História da Universidade Estadual do Mato Grosso do Sul (UEMS), Campos de Amanbaí.

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Jango: as múltiplas faces – FERREIRA; GOMES (AN)

FERREIRA, Jorge; GOMES, Ângela de Castro. Jango: as múltiplas faces. Rio de Janeiro: Editora da FGV, 2007. 272p. Resenha de: RODEGHERO, Carla Simone. Anos 90, Porto Alegre, v.14, n.26, p.235-242, 2007.

Jango: as múltiplas faces, de Ângela de Castro Gomes e de Jorge Ferreira, é um livro que foi pensado a partir do reconhecimento de que a memória e a história sobre João Goulart se concentram no período da presidência da República e a partir da percepção de que, ainda hoje, esse personagem histórico continua suscitando paixão e polêmica. Para mostrar que a atuação política de Jango foi muito mais longa do que seu mandato presidencial, os autores optaram por produzir uma narrativa biográfica acompanhando a trajetória de Jango e contemplando tanto sua dimensão política quanto a pessoal. (p. 9). Optaram também por mostrar que essa trajetória foi multifacetada. Segundo Gomes e Ferreira, as múltiplas faces de Jango vão além da pluralidade constitutiva do homem moderno., já que Goulart pode ser caracterizado, por excelência, como um personagem assinalado pelo contraditório, sendo, por isso, um desafio para interpretações que se queiram unívocas e lineares. (p. 9).

Essa percepção ganha corpo, a cada capítulo do livro, com a apresentação de um vasto conjunto de depoimentos e de alguns pessoal de Jango aí retratado. Assim, após uma exposição elabora- da pelos autores e acompanhada por imagens, são transcritos os depoimentos e os demais documentos, que possibilitam que o leitor se confronte com a diversidade dos pontos de vista a respeito de João Goulart. Com esta estratégia, os autores buscaram escrever uma biografia aberta à interpretação dos leitores., (p. 10) sem, no entanto, descartar o auxílio e a mediação dos historiadores.

A maior parte das entrevistas foi recolhida no acervo de depoimentos do Setor de História Oral do Centro de Pesquisa e Documentação de História Contemporânea do Brasil, da Fundação Getúlio Vargas. São entrevistas realizadas no contexto de diferentes projetos de pesquisa, desenvolvidos desde a década de 1970. Outras, mais recentes e relacionadas à trajetória pessoal de Jango, foram recolhidas pelos autores. Entre os depoentes estão familiares e pessoas próximas da família, como a esposa, Maria Thereza; a filha, Denise; o procurador Bijuja. Outro grupo é formado por membros do PTB e do governo deposto, como Abelardo Jurema, Ministro da Justiça entre 1963-1964; Almino Afonso, Ministro do Trabalho e da Previdência Social, em 1963; Evandro Lins e Silva, Chefe do Gabinete Civil da Presidência da República e Ministro das Relações Exteriores, em 1963; Hugo de Faria, Ministro do Trabalho em 1954, Chefe do Gabinete Civil da Presidência da República em 1963 e Presidente do Banco do Brasil em 1964; Leonel Brizola, governador do Rio Grande do Sul entre 1958 e 1962 e deputado federal pela Guanabara, eleito em 1962; Raul Ryff, Secretário de Imprensa da Presidência da República entre 1961 e 1964; e Wilson Fadul, Ministro da Saúde, entre 1963 e 1964. Também são apresentados depoimentos de apoiadores e de opositores políticos, que revelam os diferentes níveis de apoio e de oposição que se fizeram sentir ao longo da trajetória política de Jango. No primeiro caso, têm-se, entre outros, Francisco Julião, Deputado federal e líder das Ligas Camponesas, e Hércules Correia, ser citados Afonso Arinos de Mello Franco, da UDN, e os milita- res ligados ao golpe, Antônio Carlos Muricy e Ernesto Geisel.

Os depoimentos são apresentados ao final de cada capítulo, aprofundando, exemplificando, complexificando e enriquecendo a narrativa dos autores. No final do livro, o leitor encontra um quadro com a relação dos depoentes, com um breve currículo dos mesmos, a data da entrevista e o nome dos entrevistadores. Porém, como boa parte dos entrevistados não é automaticamente reconhecida pelo leitor comum e mesmo pelo especializado, fica faltando, no momento em que cada depoimento é apresentado, a remissão a uma nota de rodapé que permita situar, com rapidez, quem está falando, qual sua relação com os fatos em discussão, para quem está falando e quando concedeu a entrevista. Este de- talhe técnico beneficiaria o leitor, já que a consulta ao quadro final quebra o ritmo da leitura e prejudica a avaliação sobre as escolhas feitas pelos autores quando da seleção dos depoimentos. Por outro lado, várias notas explicativas acompanham os capítulos, mas elas se referem a personagens, fatos, instituições, leis que são, muitas vezes, de maior conhecimento público do que a trajetória ou filiação política dos depoentes.

Feita esta breve apresentação da obra, antes de entrar no relato das múltiplas faces de Jango., é preciso lembrar que a trajetória de pesquisa de Gomes e Ferreira sobre os temas do getulismo e do trabalhismo torna-os altamente qualificados para escrever sobre João Goulart. Ao longo das últimas décadas, seus trabalhos têm contribuído para repensar fenômenos da história brasileira pós- 1930, especialmente no que diz respeito ao período que é inaugurado com a redemocratização de 1945 e com a Constituição de 1946.

Boa parte das manifestações políticas e sindicais desse período havia sido alvo de severas avaliações e críticas, construídas a partir do conceito de populismo, ao longo dos anos 1960 e 1970.

Gomes e Ferreira têm realizado trabalhos pioneiros que permitem repensar tais interpretações. Além disso, o próprio personagem João Goulart já foi alvo de atenção direta de ambos os autores, em diversas oportunidades.

Ao longo do primeiro capítulo, o leitor acompanha João Goulart desde seu nascimento, em 1919, até sua entrada no mundo da política. Fica sabendo a respeito das posses da família em São Borja, do curso de Direito realizado em Porto Alegre e da posterior volta à terra natal para assumir os negócios, após a mor- te do pai. Acompanha, em São Borja, a rotina do jovem Jango transformada com a chegada de Getúlio Vargas, no final de 1945, seu posterior envolvimento com a criação do PTB e sua eleição para a Assembléia Legislativa gaúcha em 1947. É informado sobre o aprofundamento da sua atuação política nas articulações para a eleição de Vargas em 1950, ano em que Goulart também é eleito deputado federal. Neste capítulo, ainda é descrito o período de 13 meses, durante o qual Jango se afastou do mandato para atuar como Secretário do Interior e da Justiça no Governo de Ernesto Dornelles, no Rio Grande do Sul. Sabe-se, finalmente, que ao reassumir o cargo, no Rio de Janeiro, Vargas lhe concedeu um gabinete de trabalho no Palácio do Catete. Lá, Jango seria muito mais visto do que no Congresso Nacional.

Essa trajetória de envolvimento na política se consolidou com a passagem de Jango pelo Ministério do Trabalho, em 1953, o que é tratado no segundo capítulo da obra. Neste momento, teria se revelado a capacidade de negociação de Goulart, mediando questões entre empresários e trabalhadores, como aconteceu na greve dos marítimos. Medidas como a abolição do atestado ideológico para dirigentes sindicais permitiram a atuação em conjunto de lideranças trabalhistas e comunistas. A informalidade com que Jango se dirigia a essas lideranças aceitando, inclusive, convites para churrascos em final de semana para discutir demandas sindicais de trabalhadores, segundo relatam os autores, chocou setores da sociedade brasileira. A estada no Ministério culminou com militares com ampla repercussão levou à saída de Goulart da pasta do Trabalho.

Antes da entrada no Ministério, porém, Jango havia assumi- do a Presidência do PTB. O terceiro capítulo trata do sindicalismo no período entre 1945 e o começo da década de 1960, mostrando as aproximações entre os trabalhistas e o PCB. Em parte desse período, Jango viria a ocupar a vice-presidência da República (nos governos Juscelino Kubitschek e Jânio Quadros). Naquela época, como se lê no quarto capítulo da obra, ser vice-presidente exigia fazer uma campanha à parte e, depois de eleito, assumir, entre outros encargos, a presidência do Senado. Segundo os autores, ser vice-presidente significava possuir espaços políticos próprios extremamente visíveis e valiosos. (p. 111). A junção das possibilidades oferecidas pelo cargo com a prévia experiência de diálogo de Jango. que mantinha forte influência sobre o Ministério do Trabalho com o movimento sindical, teria contribuído para a estabilidade política do governo JK. O relacionamento com Jânio, todavia, teria sido mais difícil, já que o presidente fazia questão de demonstrar seu distanciamento em relação ao vice, eleito pela chapa oposta. O episódio da renúncia de Jango e a campanha da Legalidade também são narrados neste capítulo.

No capítulo seguinte, os autores se debruçam sobre o período em que Jango esteve na Presidência da República. Nesta parte, são enfatizados, entre outros aspectos, o seu programa nacionalista mínimo; as dificuldades com os credores internacionais; a falta de apoio no Congresso, onde PSD e PTB divergiam sobre questões essenciais do programa de governo; o afastamento das forças reformistas da estratégia da luta parlamentar; as substituições de gabinetes e o plebiscito que aprovou a volta do presidencialismo.

A partir dessa fase, é apresentado o Plano Trienal, com suas metas e a conjuntura que levou ao seu abandono. O capítulo é concluído com o tratamento da crescente radicalização política que atingiu optativas de negociação, aproximando-se das organizações que, ao longo do tempo, mais abertamente o sustentaram: o movimento sindical e as esquerdas radicais. (p. 144).

O golpe de 1964 é tratado no penúltimo capítulo do livro, que narra os acontecimentos que se seguiram ao comício de 13 de março: a revolta dos marinheiros e fuzileiros navais, o compareci- mento do presidente à solenidade de posse da nova diretoria da Associação dos Sargentos, no Automóvel Clube, o levante em Minas Gerais e a movimentação de Goulart até sua saída para o Uruguai. O não-apelo à resistência estaria ligado à percepção do Presidente de que havia um alto risco de guerra civil. (p. 196).

Jango no exílio. é o capítulo que encerra a biografia. Aí é tratado o rompimento definitivo entre Goulart e Brizola, depois de uma curta aproximação. Fica-se sabendo que após um ano de exílio, Jango passou a se dedicar a investimentos agropecuários no Uruguai. Por conta disso, além de engordar bois, tornou-se um dos maiores fornecedores de arroz daquele país. São brevemente descritas as articulações em torno da Frente Ampla, logo tornada ilegal. Vigiado pelo Serviço Nacional de Informações (SNI), o ex-presidente afastou-se de qualquer atividade política, voltando a se dedicar exclusivamente a seus negócios pessoais. (p. 231). Sofreu um enfarte em 1969, viu a sua situação e a da família se com- plicarem com o golpe de 1973, no Uruguai. Em 1974, passou a residir em Buenos Aires. Na Argentina, continuou com seus negócios agropecuários e comprou propriedades. Sua saúde, no entanto, estava debilitada: Jango alimentava-se mal, fumava e bebia muito, sofrendo de bruscas quedas de pressão arterial, desmaios e dores no peito. (p. 232). Em 1976, após receber ameaças de que seus dois filhos seriam seqüestrados, Goulart os enviou para Londres. Fez gestões para voltar ao Brasil. Em 6 de dezembro daquele ano, morreu no exílio, vítima de um enfarto fulminante.

para os autores do livro, o conjunto dos depoimentos e documentos apresentados instiga o leitor a tirar suas próprias conclusões, dialogando com a narrativa dos capítulos. Os autores resgataram também a própria voz de João Goulart, apresentando alguns discursos por ele proferidos, um dos quais no formato de CD. Tal material permite empreender uma série de comparações e de questionamentos. Avaliações absolutamente contrastantes sobre Jango convivem, em tais documentos, com diferentes valorações atribuídas a certas características pessoais ou políticas de João Goulart. A leitura dos depoimentos suscita questionamentos sobre como era visto e como foi descrito o preparo (ou a falta de preparo) de Jango para o cargo de Presidente da República; sobre as avaliações a respeito da consistência do seu programa de reformas de base e sobre a sinceridade no propósito de realizá-las; sobre o paradoxo de o rico proprietário de terras propor uma reforma agrária; sobre a sua capacidade de dialogar e de construir consensos, em situações nas quais os interlocutores eram sindicalistas e quando o diálogo precisou ser feito com os setores mais conserva- dores da sociedade brasileira. O perfil que os autores apresentam de Jango, como um governante que queria dialogar e, ao mesmo tempo, fazer as reformas acontecerem, faz pensar sobre o papel da conciliação e da radicalização na política brasileira, dos anos 1960 aos dias atuais.

Finalmente, é preciso chamar a atenção, no livro de Gomes e Ferreira, para a importância do recurso à memória na escrita da história recente do Brasil e para as contribuições da História Oral nesta tarefa. Isso é particularmente fecundo no caso de Jango, um personagem polêmico que, apesar de ter uma longa trajetória política, ainda é associado quase exclusivamente à derrota representada pelo golpe de 1964. Isso se deve, creio, ao fato do golpe e do regime militar serem, ainda hoje, marcos fundamentais da nossa da ditadura ainda permeiam boa parte das discussões políticas no Brasil. Ao mesmo tempo, cada vez mais, instigam historiadores a se voltarem a este período e àquele que o antecedeu. Desta tendência fazem parte livros como Jango: as múltiplas faces.

Notas

1 Sobre outras publicações dos autores sobre o assunto ver: Ferreira, Jorge. O governo Goulart e o golpe civil-militar de 1964. In: Jorge Ferreira; Lucília de Almeida Neves Delgado. (org.). O Brasil Republicano O tempo da experiência democrática – Da democratização de 1945 ao golpe civil-militar de 1964. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2003, v. 1, p. 343-425; Ferreira, Jorge. A estratégia do confronto: a Frente de Mobilização Popular. Revista Brasileira de História, São Paulo, v. 24, n. 47, p. 181-212, 2004. Ferreira, Jorge. O imaginário trabalhista. Getulismo, PTB e cultura política popular (1945-1964). Rio de Janeiro: Editora Civilização Brasileira, 2005 (especialmente os capítulos: O ministro que conversava: João Goulart no Ministério do trabalho; A legalidade traída: os dias sombrios de agosto e setembro de 1961 e O último ato: sexta-feira 13 na Central do Brasil). Ver ainda: Ferreira, Jorge (org.). O populismo e sua história. Debate e crítica. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2001. No que se refere a Ângela de Castro Gomes, ver: GOMES, A. M. C. . O Populismo e as Ciências Sociais no Brasil: notas sobre a trajetória de um conceito. Revista Tempo, Niterói – RJ, v. 1, n. 2, p. 59-72, 1996; GOMES, A. M. C.  Memórias em disputa: Jango, ministro do Trabalho ou dos Trabalhadores? In: FERREIRA, Marieta de Moraes (org.) João Goulart entre a memória e a história. Rio de Janeiro: FGV, 2006; e GOMES, A. M. C. O Populismo e as Ciências Sociais no Brasil: notas sobre a trajetória de um conceito. Revista Tempo, Niterói, v. 1, n. 2, p. 59-72, 1996.

Carla Simone Rodeghero – Professora do Departamento e do Programa de Pós-Graduação em História da UFRGS.

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História em Reflexão | UFGD | 2007

Historia em Reflexao2 2 Passagens

Revista Eletrônica História em ReflexãoREHR (Dourados, 2007-) é uma publicação do discentes de Mestrado e Doutorado do Programa de Pós-Graduação em História da Universidade Federal da Grande Dourados (PPGH-UFGD).

A REHR recebe contribuições em fluxo contínuo e tem como objetivo divulgar trabalhos acadêmicos desenvolvidos na área da História que possibilitem refletir sobre o fazer histórico, bem como em suas relações com a Literatura, a Sociologia, a Antropologia, a Geografia, a Linguística, Educação, entre outros, de forma a propiciar melhor compreensão nos estudos da História e promover a interdisciplinaridade. Ademais, não privilegia uma especificidade temática, na medida em que prevê a divulgação de trabalhos originais.

A Revista Eletrônica História em Reflexão, destina-se tanto a estudantes de graduação e pós-graduação que tenham interesse nos trabalhos publicados, assim como professores de graduação e pós-graduação. Aceita trabalhos em português, inglês e espanhol sob a forma de artigos, entrevistas, resenhas de livros, comentários sobre fontes inéditas, resumos expandidos de trabalhos de conclusão de curso, dissertações e teses, textos livres produção iconográfica e audiovisual e notas breves.

Periodicidade semestral.

Aceso livre.

ISSN 1981 2434

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Arqueología Histórica | [RAHAYL] | 2007

Revista de Arqueologia Passagens

La Revista de Arqueología Histórica Argentina y Latinoamericana (RAHAYL) ([?], 2007-) es una publicación semestral de acceso abierto, publicada y editada actualmente por su Comité Editor.

RAHAYL recibe artículos, notas y reseñas originales e inéditas, en español o en portugués, que versen de arqueología histórica o áreas afines, como historia, antropología histórica y etnohistoria, pertinentes a la región latinoamericana.

Periodização [?]

Acesso livre

ISSN 2344-9918

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Especiaria | UESC | 2007

ESPECIARIA Passagens

Revista Especiaria – Cadernos de Ciências Humanas [ISSN Eletrônico: 2675-5432; ISSN Impresso: 1517-5081] existe desde 1998, recebe artigos, resenhas e traduções de pesquisadores brasileiros e estrangeiros, em português, inglês, francês, italiano ou espanhol, da grande área de ciências humanas, se apresentando assim como uma revista interdisciplinar. As submissões seguem fluxo contínuo, através de demanda livre e convite editorial, incluindo propostas de dossiês temáticos,  artigos, resenhas, entrevistas e traduções que difundam o conhecimento científico. [Foco e escopo em 2024]

Revista Especiaria – Cadernos de Ciências Humanas (Ilhéus, 2007-) recebe semestralmente artigos, resenhas e traduções de pesquisadores brasileiros e estrangeiros, em português, inglês, italiano ou espanhol, das grandes áreas de ciências humanas e sociais e de letras e linguística.

As submissões seguem fluxo contínuo, com a seguinte configuração: dois semestres consecutivos com números dedicados à filosofia, à história, à arqueologia e às ciências sociais e um semestre com edição dedicada às letras e à linguística, podendo haver chamadas com temáticas específicas. [Foco e escopo em 2020]

Periodicidade semestral

Acesso livre

ISSN 1517-5081

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Acessar arquivo [Disponível apenas a partir do v.10, n.17, 2007]

Ponta de Lança | UFS | 2007

PONTA DE LANCA1 Passagens

A Ponta de Lança – Revista Eletrônica de História, Memória & Cultura (São Cristóvão, 2007-) é um periódico científico interdisciplinar, que prioriza as áreas de História, Estudos Culturais, Geografia e Letras, vinculado ao Grupo de Pesquisa História Popular do Nordeste do Departamento de História e do Programa de Pós-Graduação em História da Universidade Federal de Sergipe.

A revista tem por objetivo divulgar as pesquisas desenvolvidas pelo Grupo de Pesquisa, mas, principalmente, estabelecer o intercâmbio com pesquisadores de outras instituições.

Com periodicidade semestral, a revista aceita artigos, comunicações de pesquisas e resenhas inéditas. com reconhecido rigor teórico e metodológico e relevância intelectual na área de História, Letras e demais Ciências Humanas.

Todos os artigos apresentados à Revista Ponta de Lança serão submetidos à apreciação de dois pareceristas membros do Conselho Editorial ou, caso necessário, a parecerista ad hoc não integrante do Conselho Editorial, com titulação mínima de Doutor e pesquisa próxima à área do artigo em questão. Havendo algum parecer contrário, os artigos serão encaminhados a um terceiro parecerista. Em todo o processo de avaliação, está garantido o anonimato de autores e pareceristas.

Periodicidade semestral.

Acesso livre.

ISSN: 1982-193X.

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Perseu | FPA | 2007

Perseu Passagens

PERSEU – História, Memória e Política ([São Paulo], 2007-) foi idealizada como veículo para a difusão de pesquisas e reflexões sobre a história da esquerda contemporânea. Este espaço, por ser criado no interior do Centro Sérgio Buarque de Holanda (CSBH) da Fundação Perseu Abramo (FPA) – centro de documentação e memória que abriga o arquivo histórico do Diretório Nacional do Partido dos Trabalhadores (PT) e acervos relacionados – tem  algumas características singulares, que diferenciam PERSEU de outros periódicos de difusão da produção acadêmica.

Temos a oportunidade de acolher estudos que conciliem, aberta e democraticamente, o rigor necessário à produção de conhecimento e o engajamento político, que no mais é intrínseco ao ofício do historiador e do cientista social.

Nesse sentido, PERSEU vem se consolidando como uma referência para a difusão do conhecimento produzido de forma comprometida com a luta dos trabalhadores e trabalhadoras pela conquista dos direitos civis, políticos e sociais, conforme apontava a descrição da temática que seria privilegiada pelo periódico, já na apresentação de seu primeiro número em 2007. A proposta enfrenta a noção de imparcialidade técnica que se impõe frequentemente como “medida de qualidade” do conhecimento.

Isso resulta em aparente despolitização do exercício da produção de conhecimento, modelo autoritário e que tem se imposto através do controle de recursos destinados às etapas desta produção, dentre as quais se inclui a sua circulação. Consolidar-se como espaço de debate rigoroso e comprometido com um projeto político amplo e de longo prazo, é, portanto, um importante desafio diante da escalada autoritária e da instabilidade política que vivemos, e que afeta todo o sistema de produção e difusão de conhecimento em âmbito nacional.

Periodicidade semestral

Acesso livre

ISSN [?]

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Brasil-França: relações históricas no período colonial – VASCO (RIHGB)

VASCO, Mariz. Brasil-França: relações históricas no período colonial. Rio de Janeiro: Biblioteca do Exército (Bibliex), 2006. Resenha de: BELCHIOR, Elysio Custódio Gonçalves de Oliveira. Revista do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, Rio de Janeiro, v.168, n.434, p.283-287, jan./mar., 2007.

Acesso apenas pelo link original

[IF]

História e Filosofia da Biologia | ABFHiB | 2007

Historia e Filosofia da Biologia Passagens

O “Boletim de História e Filosofia da Biologia” ([?], 2007) é uma publicação trimestral da Associação Brasileira de Filosofia e História da Biologia (ABFHiB), iniciado em setembro de 2007, por Roberto de Andrade Martins. A partir de março de 2011 passou a ser editado por: Maria Elice Brzezinski Prestes (Universidade de São Paulo); Lilian Al-Chueyr Pereira Martins (Universidade de São Paulo/Ribeirão Preto); Aldo Mellender de Araújo, (Universidade Federal do Rio Grande do Sul) e Waldir Stefano (Universidade Presbiteriana Mackenzie e Universidade Cruzeiro do Sul). […]

O objetivo do “Boletim de História e Filosofia da Biologia” é divulgar informações de interesse dos pesquisadores e estudantes interessados em história e filosofia da Biologia. Com periodicidade trimestral, este Boletim traz informações atualizadas sobre congressos e outros eventos relevantes (no Brasil e no exterior), novas publicações da área (livros e revistas), informações sobre teses e dissertações, informes sobre as atividades da Associação Brasileira de Filosofia e História da Biologia (ABFHiB), bem como artigos curtos, descritos abaixo.

Poderão ser publicados no “Boletim de História e Filosofia da Biologia” artigos assinados (curtos) que discutam temas gerais de interesse da área como, por exemplo, a metodologia da pesquisa em história e filosofia da biologia, ou o uso da história e filosofia da biologia no ensino; bibliografias comentadas sobre tópicos específicos de história e filosofia da biologia; e textos de divulgação. Podem também ser publicadas resenhas, assinadas, de livros recentes sobre história e/ou filosofia da biologia, bem como tradução de trechos de fontes primárias relevantes da história e/ou filosofia da biologia, acompanhada de breve introdução e notas. Os artigos devem ser submetidos aos Editores deste Boletim (ver endereços no Expediente, ao final deste número). Todos os artigos submetidos devem ser elaborados tendo em vista os padrões acadêmicos usuais.

[Periodicidade quadrimestral].

Acesso livre.

ISSN 1982-1026.

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Canoa do Tempo | UFAM | 2007

Canoa do Tempo3 Passagens

Revista Canoa do Tempo (Manaus, 2007-) é uma publicação acadêmica online mantida e editada pelo Programa de Pós Graduação em História da Universidade Federal do Amazonas (PPGH-UFAM). Tem como objetivo divulgar resultados inéditos de pesquisas na área de História e interdisciplinar, com ênfase nos estudos que tenham por temática a região Amazônica. Tem como público alvo pesquisadores, estudantes e demais interessados pelo campo da História e áreas afins.

O conselho científico conta com especialistas pertencentes a instituições reconhecidas nacional e internacionalmente. A revista não cobra taxas e o conteúdo é disponibilizado em Acesso Livre.

A revista aceita submissões de artigos inéditos em sistema de fluxo contínuo produzidos por doutores e doutorandos em História e em áreas afins. Além dos dossiês temáticos, são publicados trabalhios na seção de artigos livres, entrevistas e resenhas de livros, promovendo a divulgação da produção científica com ênfase nos estudos voltados para a Amazônia.

Os critérios de seleção do tema de cada dossiê estão atentos aos debates historiográficos nacionais e internacionais, incentivando a construção de um diálogo profícuo entre pesquisadores das diferentes regiões brasileiras. 

Periodicidade anual

Acesso livre

ISSN 2594-8148 (Digital)

ISSN 1982-0755 (Impresso)

Acessar resenhas [Coletar 2007-2017]

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História Comparada | UFRJ | 2007

Historia Comparada1 2 Passagens

A Revista de História Comparada (Rio de Janeiro, 2007-) é publicada pelo programa de Pós-graduação em História Comparada da UFRJ e tem como principal objetivo divulgar e promover o debate sobre a História Comparada.

Neste sentido, busca-se divulgar trabalhos que reflitam teoricamente sobre a comparação; analisem criticamente o seu uso na historiografia em diversos períodos, e apliquem uma das suas modalidades – a comparação clássica, a história da transferência, a história cruzada, etc. – para a análise de fenômenos históricos.

Periodicidade semestral.

Acesso livre.

ISSN 1981-383X

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Domínios da Imagem | UEL | 2007

RC Capa Revista 300 x 200 11 Passagens

A revista Domínios da Imagem (Londrina, 2007-) é uma publicação dirigida pelo Laboratório de Estudos dos Domínios da Imagem (LEDI), um projeto integrado (pesquisa/extensão) do Departamento de História da Universidade Estadual de Londrina, tem o caráter multidisciplinar, está vinculada ao Programa de Pós-Graduação em História Social e teve seu primeiro número lançado em novembro de 2007.

[Periodicidade semestral]

Acesso livre

ISSN 2237-9126 (Online)

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Tan lejos de Dios… Ensayos sobre las relaciones del Caribe con Estados Unidos | Antonio Gaztambide-Geigel

Ao nomear ensaios aparentemente dispersos sob o título de um dito popular, ainda mais estando este incompleto, uma idéia de unidade se entrelaça com o omitido e suspenso pelas reticências: “… e tão perto dos Estados Unidos”. A invocação de um dito popular não se dá de forma gratuita, dela decorre um sentido que expressa a novidade deste trabalho. Mesmo o dito sendo de origem mexicana, como Gaztambide-Geigel faz questão de ressaltar, este dito expressa uma condição de existência comum a países do continente meso e sul americano: a proximidade física em relação aos Estados Unidos, potência esta que teve uma sobressalente mudança hierárquica no cenário econômico mundial, na qual se elevara ao avatar de maior poderio atual. E a novidade deste trabalho é justamente se adentrar no conjunto de relações que presidiram o processo de emergência da potência norte americana em relação aos vizinhos do sul, particularmente os antilhanos. A atualidade do dito faz-se clara.

Seu sentido coloca em xeque o paradoxo implicado na bandeira política norte americana: um imperialismo salvífico quase natural que na prática é muito distante disso—a recente investida democrática em terras iraquianas é exemplo atual de peso. Além levar este paradoxo acerca da política americana com meticulosidade, e se servir de um avantajado corpo material, a apresentação do presente trabalho se releva não só entre os pesquisadores caribenhos, radicados no Brasil ou não, como também para interessados no tema da “identidade” na contemporaneidade.

É certo que as discussões identitárias provêem de pesquisas inscritas metodicamente no campo dos estudos culturais. Entretanto, o conceito de identidade não deixou de se atravessar por objetos os mais distintos, oriundos de outros campos de saber. De modo que tal temática fora incorporada nas ciências humanas, em geral, história, antropologia, sociologia, geografia e mesmo, a filosofia. O que atesta seu estatuto de relevante acontecimento no pensamento das ditas “ciências humanas”. Todavia, seria uma ingenuidade supor que seus métodos permaneceriam os mesmos submetidos a objetos tão singulares. Hoje oferece tal diversidade, que consuma ainda mais o seu valor analítico. São muitas as perspectivas de utilização.

E, apoiado em uma massa documentária de fôlego e decorrente de vários anos de pesquisa, Gaztambide-Geigel abordou tal temática numa dimensão bem delimitada. Seu problema foi como se construiu o termo Caribe em relação à política internacional norteamericana para os vizinhos antilhanos. Desse modo, se se pode falar de um tema central coordenador dos setes ensaios constituintes da presente coletânea, este sem dúvida é o jogo implícito em vista das circunstâncias pelas quais se forma o conceito Caribe, ou melhor, se formam as identidades postas em jogo ao evocar os Caribes.

No primeiro ensaio, “La invención del Caribe a partir de 1898”, submete o termo Caribe à sua análise historiográfica. Situa seu caráter enquanto invenção. Desse modo, tomado como invenção, o Caribe não é um objeto fixo e estático, que bastaria ao historiador expor suas formas e conteúdos, e sim um objeto inventado, que não cessa de se recriar e reiterar-se. E ao inquirir quanto às relações políticas embutidas no momento de sua construção, busca-se ver justamente as circunstâncias em jogo no momento de sua criação, as contingências e encontros que marcaram sua emergência.

O que o jogo em torno da criação do termo Caribe revela é que não há um Caribe, pronto e acabado, e sim como houve, e há, vários Caribes de maneira que, em cada situação histórica em que é invocado, o termo não se refere às mesmas coisas, não falam dos mesmos objetos. Em vista disso, o autor propôs uma historicização do termo, e pôde ver suas diversas usagens mediante as situações próprias e específicas à história antilhana: de um arquipélago atlântico fragmentado submisso à metrópoles coloniais ao “Gran Caribe” em vias de emancipação cultural, foram decorridas enunciações bem diversas para o conceito “caribe”.

Por conseguinte, Gaztambide cunhou quatro momentos que são decisivos para a significação do termo caribe, do final do século XIX aos dias atuais: o caribe insular, o caribe geopolítico, o Gran Caribe ou Cuenca del Caribe e o caribe cultural.

No segundo ensaio, “La geopolítica del antillanismo de fines del siglo XIX”, procura-se destacar as forças motrizes do latinoamericanismo, sob as luzes antilhanas. Mostra como, por volta da metade do século XIX, começa-se a convergir às idéias de hispanoamericanismo e de latinoamericanismo, numa engrenagem à qual as Antilhas estariam em função otimizada, dado sua localização estratégica em relação ao mercado mundial internacional. Assim, as Antilhas espanholas, Cuba, Porto Rico e República Dominicana, encabeçariam o sonho da “nuestra América”. Situação que muda, já na década de 90 deste mesmo século, diante da ameaça imperial norteamericana.

Gaztambide avalia as idéias antilhanas a partir de figuras históricas inseridas no redemoinho hispanoamericano e antilhano: Marti, Hostos e Betonces. Personagens que dedicaram à luta emancipatória dos territórios coloniais da metrópole espanhola.

Mesmo que uma primeira onda de independência arrebatara o continente décadas antes, persistia uma colonialidade já dita como “cultural” e combatida pelos libertários antilhanos. O papel deles expressam um movimento, cujo sentido atravessaria a história latinoamericana. E a emancipação devia ser alçada nem tanto em relação aos velhos impérios europeus, bem como devia ser buscada em vista da potência emergente: a República norte americana. A política imperial desta potência emergente aos fins do século XIX, que a partir da compra da Lousiana começou a deferir ações com finalidade de expandir sua soberania, estava constituída às voltas de ambigüidades visíveis. E a emergência dos Estados Unidos, como defende Gaztambide, foi fator de grande determinação no caso de invenção do Caribe, já que é das ambigüidades geradas no interior da política imperial americana a razão das variações acerca deste processo de invenção.

E explorar as ambigüidades por detrás das políticas internacionais norte americana é o tema central do terceiro ensaio: “El imperio ‘bueno’ del 98”. Pois ao mesmo tempo em que o final do século XIX foi marcado por projetos políticos de cunho expansionista, encontrava-se também mostras de uma ação não imperialista, defendida como verdadeira representante do ideal republicano. São ambigüidades deste tipo que se alocam no cerne da campanha norte americana rumo à ascensão econômica e que foi aplicada aos vizinhos do Sul, continentais e antilhanos. O conceito de ambigüidade, como atributo qualitativo da política externa norte americana, marca de maneira decisiva a postura específica de seu imperialismo.

Em “La Buena vencidad y populismo”, como o título mesmo diz, trata das relações da política internacional norte americana, posta em prática no terço inicial do século XX e alterada com o término da Segunda Guerra Mundial, com a práxis política do populismo. Ressaltando a particularidade do populismo caribenho, seguindo assim o exemplo do populismo de Porto Rico, este ensaio propõe a hipótese de como os efeitos da política de boa vizinhança fizeram valer no modo de organização interno dos países atingidos por tal postura ambígua.

Entretanto, passada a Segunda Guerra Mundial e com a efetivação do poderio norte americano, a política da boa vizinhança cede lugar à política do bom sócio. Essa transição é o tema dos ensaios “Hacia uma historia social de las relaciones interamericanas: El camino del desarrollismo: 1946-1960” e “Estados Unidos, la idea del desarrolismo y el Caribe: Los orígenes”. A política do bom sócio nada mais é que a adaptação da política externa norte americana no momento em que esta nação acede ao topo econômico da economia mundial. O projeto desenvolvimentista que esta política visa suplantar nos sócios do sul adapta-os aos moldes do capitalismo mundial integrado sob a égide do desenvolvimento econômico, ajustando de forma a assegurar ainda mais a supremacia americana.

O tema do ultimo ensaio, “Identidades internacionales y cooperación regional en el Caribe”, é o modo como a política do bom sócio criou um imaginário internacional que abaixo suas variações locais possibilitou a criação de identidades multiculturais, o Gran Caribe e o latinoamericano.

Desse modo o que o trajeto destes ensaios evidenciam é como as políticas internacionais não são exercidas de forma aleatória, e sim são efeitos da historicidade que perpassam as formações históricas. E também que não é simplesmente a modulação dos estratos interiores de uma sociedade por um fora, e sim o que se dá é um complexo jogo no qual relações de forças heterogêneas se interagem incessantemente.

Leonardo de Melo Rodrigues


GAZTAMBIDE-GEIGEL, Antonio. Tan lejos de Dios… Ensayos sobre las relaciones del Caribe con Estados Unidos. San Ruan: Edicines Callejón, Porto Rico; 2006. 242 p. Resenha de: RODRIGUES, Leonardo Melo Rodrigues. Revista Brasileira do Caribe, São Luís, v.8, n.15, p.283-287, 2007. Acessar publicação original. [IF].

 

Sobre Ontens | Unespar/UERJ | 2007

SobreONtens3 Passagens

Sobre Ontens (Rio de Janeiro, 2007-) é uma revista brasileira multicampi, incorporando em seu conselho Editorial e Científico professores de várias instituições brasileiras. Nossa linha editorial busca publicar textos em Aprendizagem Histórica, Ensino de História e História do Ensino.

Desde 2015 a revista Sobre Ontens promove também a publicação de livros digitais. Nosso periódico é divulgado, produzido e gerenciado pelo LAPHIS – Laboratório de Aprendizagem Histórica [Unespar] e Projeto Orientalismo [Uerj].

Mail: sobreontens@gmail.com

Periodicidade [semestral].

Acesso livre.

ISSN 2176-1876

ISSN-L 2176-1876

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H Ideias | UNLP | 2007

Cuadernos de H Ideas Passagens

Cuadernos de H ideas (La Plata, 2007-) es una revista electrónica arbitrada, con periodicidad continuada, que edita el Equipo de cátedra II de Historia de las Ideas y Procesos Políticos de la Facultad de Periodismo y Comunicación Social de la Universidad Nacional de La Plata (Buenos Aires, Argentina).

La revista tiene por objetivo publicar toda producción en investigación ORIGINAL e INÉDITA relacionada con la comunicación social y con las disciplinas que contribuyen a enriquecer ese campo, por lo que ofrece un atractivo para profesionales de la antropología, la educación, el diseño, la psicología, la arquitectura, la historia, el derecho, entre otras.

En ese sentido, en cada número se publican, con un criterio pluralista, artículos sobre temas abiertos, producidos tanto en el ámbito de instituciones académicas y universitarias nacionales como extranjeras. Puede convocar a especialistas para la realización de Dossier tanto como recibir propuestas externas para su publicación. […]

Cuadernos de H ideas fue creada en 2007 y hasta 2011 se editó en formato impreso y electrónico. Desde entonces, solo se publica en soporte electrónico.

Periodicidade anual.

Acesso livre

ISSN 2313-9048

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Santa Catarina em História | UFSC | 2007

Santa Catarina em Historia Passagens

A Revista Santa Catarina em História (2007-) é uma publicação da Disciplina de História de Santa Catarina do Curso de História da Universidade Federal de Santa Catarina. Ela publica artigos inéditos sobre a História de Santa Catarina na seção Artigos, após avaliação por pares, e eventualmente publica artigos já publicados que sejam importantes para a divulgação do conhecimento sobre a História de Santa Catarina.

Na seção Estudos, são publicados artigos de alunos da disciplina após passarem por avaliação realizada através de pareceres de colegas e de professores. A publicação destes artigos visa a divulgação do conhecimento produzido por alunos e professores do Curso de História sobre as temáticas que envolvem a História de Santa Catarina.

A revista aceita artigos originais sobre a História de Santa Catarina, desde que estejam de acordo com as normas da revista. Os artigos devem envolver pesquisa bibliográfica e documental. Também são publicadas resenhas e relatos de viagens de estudos realizados na disciplina.

Periodicidade semestral.

Acesso livre.

ISSN 1984-3968

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Cidades / Canoa do Tempo / 2007

Já sabemos todos que o tempo não pode ser detido em sua marcha inexorável na direção do que ainda não sabemos. Mas o tempo pode ser recuperado e uma das formas possíveis de se fazer isso é percorrê-lo ao inverso, pela memória, pela narrativa em suas diversas formas e, claro, pela escrita historiográfica.

A revista Canoa do Tempo nasce com este anseio de percorrer o tempo, e, às margens de um rio tão belo, profundo e misterioso quanto são os rios do passado. Nada mais natural, portanto, do que evocar, no início de nosso percurso, a imagem dos pequenos e aparentemente frágeis barcos tão caros aos nossos ribeirinhos.

A imagem de nossos pequenos barcos, cruzando os longos rios de nossa Amazônia não poderia mesmo ser mais evocativa de uma jornada que pretende ancorar em vários portos e deixar-se levar ao infinito, sem jamais, no entanto, esquecer o lugar de onde partiu. E, como no fim de todas as viagens, para vê-lo com novos e atentos olhos ao retornar.

Em sua primeira viagem, nossa canoa aportou nas cidades e, em suas múltiplas manifestações e formas de vida, defrontou-se com as áfricas imaginárias na belle époque paulistana, adentrou os igarapés setecentistas dos líderes indígenas da colônia e foi ainda mais longe em busca dos indivíduos medievais. E este foi apenas o início de sua viagem, esperemos, então, que muitas outras se sigam a esta.

Sínval Carlos Mello Gonçalves –  Coordenador do Programa de Pós-Graduação em História.

Acessar publicação original dessa apresentação

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[DR]

Pesquisa CDHIS | UFU | 2007

Cadernos de Pesquisa do CDHIS Passagens

Cadernos de Pesquisa do CDHIS (Uberlândia, 2007-) tem periocidade semestral, com publicação de aproximadamente vinte artigos a cada semestre. Os autores são alunos (as) do Mestrado em História/UFU, integrantes do CDHIS e outros (as) pesquisadores (as) nacionais e internacionais. O periódico está classificado no estrato B3 do Qualis/Capes (Área de História, 2013-2016).

O conteúdo publicado no periódico interessa principalmente aos estudiosos e pesquisadores brasileiros e estrangeiros vinculados à temática de documentação e pesquisa em história, mas, também, a todos aqueles que se preocupam em conhecer os avanços do conhecimento no âmbito das Ciências Humanas e das questões sociais e culturais do país. O periódico não cobra qualquer valor dos autores para submissão, processamento e publicação dos artigos.

Periodicidade semestral.

Acesso livre.

ISSN: 1981-3090 (Online)

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Povos e culturas: da globalização do século XVI, á a globalização do século XXI, as Américas como lugar / Revista do IHGB / 2006

Luitgarde Oliveira Cavalcante Barros

Liudmila Ókuneva


BARROS, Luitgarde Oliveira Cavalcante; ÓKUNEVA, Liudmila. Povos e Culturas: da globalidade do século XVI à globalização do século XXI, as Américas como lugar. Revista do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro. Rio de Janeiro, v.167, n.433, p.9-10, out./dez., 2006.

Acesso apenas pelo link original [DR].

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Caravanas, Interacción y Cambio en el Desierto de Atacama – RODRÍGUEZ (C-RAC)

RODRÍGUEZ, José Berenguer. Caravanas, Interacción y Cambio en el Desierto de Atacama. Santiago: Sirawi Ediciones, 2004. 604p. Resenha de: NIELSEN, Axel E. Chungara – Revista de Antropología Chilena, Arica, v.38, n.1, p. 158-161, jun. 2006.

En un reciente artículo, Dobres y Robb (2005:161) afirman que los buenos estudios de caso son capaces de impulsar una disciplina porque superan la aplicación de teorías a situaciones particulares, convirtiéndose en ejercicios de construcción teórica por derecho propio. Lejos de limitarse a “contrastar” un modelo, esta forma de teorizar parte de ciertas proposiciones generales y un cuerpo de datos específico, y mediante un énfasis en los aspectos inductivos y analógicos del pensamiento, es capaz de arribar a una comprensión novedosa y de alcances generales respecto a un determinado campo de la realidad. Creo que esta idea hace justicia a los méritos de esta obra que, presentándose como un “estudio de caso” -la evaluación del modelo de movilidad giratoria (MG) de Núñez y Dillehay (1979) a la luz de evidencias de la Región de Antofagasta correspondientes al período Intermedio Tardío (PIT)-, se convierte en un original trabajo de reflexión sobre la interacción interregional y sus relaciones con los procesos sociopolíticos y culturales en general.

Por cierto, la elección de esta vía de acceso al problema no es casual. Bajo la influencia de la obra de Murra, la interacción interregional ha suscitado un enorme interés en la antropología andina. El modelo más invocado por los arqueólogos surandinos al referirse a este tema, sin embargo, no ha sido la “verticalidad,” sino la MG. Paradójicamente, esta popularidad ha hecho poca justicia a la propuesta de Núñez y Dillehay, ya que lo único que suele implicarse al citarla es que se piensa que las caravanas tuvieron un papel destacado en la circulación de bienes -lo que en última instancia no es mucho más que reconocer que la llama es un eficiente animal de carga- sin tomar en consideración la multiplicidad de proposiciones teóricas y substantivas que definen a este modelo. En tales circunstancias, un estudio sistemático de las relaciones entre tráfico y proceso social en un contexto surandino como el que encara Berenguer, debía partir necesariamente de una detallada disección de la MG.

El libro consta de 10 capítulos. El primero, de carácter introductorio, emprende un cuidadoso análisis de la MG que sirve de plataforma para formular los objetivos e interrogantes que guiaron la investigación y culmina con una exposición de la perspectiva teórica adoptada. En esta última hay dos aspectos que distinguen su aproximación. Uno de ellos es el papel protagónico atribuido a los espacios internodales (“elongados” en los términos de la MG) en los sistemas de interacción interregional y en los procesos sociales relacionados, una propuesta que se ancla firmemente en el concepto de espacialidad -el espacio y las relaciones sociales se constituyen recíprocamente- propias de la geografía constructivista. Esta premisa justifica la elección del Alto Loa -una zona que desde otras perspectivas se consideraría marginal- como lugar privilegiado para encarar la investigación. Otro aspecto importante concierne al papel que juegan en la interacción las identidades, ya sea a nivel de los colectivos sociales participantes o de individuos específicos (p. ej. los caravaneros). Esta idea respalda la atención que se dedica al estudio de ciertas prácticas y vestigios arqueológicos vinculados al tráfico que probablemente operaron como diacríticos culturales o sociales -p. ej. arte rupestre, muros-y-cajas- a la vez que proporciona un marco conceptual para su interpretación.

Los dos capítulos siguientes sintetizan la información existente sobre temas que son relevantes para la contextualización del problema: el escenario geográfico-ambiental y sus variaciones pasadas; etnografía y etnoarqueología del pastoreo y el caravaneo en los Andes; antecedentes locales de investigación sobre interacción prehispánica y sus principales indicadores materiales y los procesos generales de cambio ocurridos en la Región de Antofagasta durante la “Prehistoria Tardía” o lapso comprendido entre aproximadamente 500 y 1.535 d.C. Aunque estos capítulos desempeñan un papel auxiliar en el plan de la obra, como marco de referencia de la investigación, no son simples recuentos de antecedentes, sino que incluyen observaciones novedosas, apreciaciones y tomas de posición respecto a varias cuestiones de interés (p. ej. cronología, organización política regional) que no es posible detallar aquí por razones de espacio.

El Capítulo 4 está enteramente dedicado a la localidad donde se desarrolló la investigación (el sector Santa Bárbara de la subregión del Alto Loa), presentando el medio ambiente, los antecedentes arqueológicos e históricos y datos etnoarqueológicos sobre la vivienda pastoril. El autor muestra que, aunque dotado de escasas posibilidades para el asentamiento permanente de grandes poblaciones, este oasis -ubicado a unos 3.000 msm en un ambiente de desierto extremo- debió ofrecer recursos indispensables para la logística de caravanas transitando entre el Loa Medio, Tarapacá, el Altiplano de Lípez y la costa.

El Capítulo 5 detalla la metodología y el diseño de investigación, a la vez que sirve de nexo con la parte medular de la obra, consistente en un minucioso estudio de las vías de circulación, los asentamientos, los sitios de muros-y-cajas y el arte rupestre de Santa Bárbara con el objeto de esclarecer la relación de estos elementos con el tráfico de caravanas (los cuatro interrogantes específicos que busca responder el libro). El análisis de vías de circulación interregional -antiguos senderos y segmentos de un camino Inka (Capítulo 6)- constituye una buena ilustración de las posibilidades del enfoque adoptado, ya que permite definir con notable precisión el lugar de la localidad en la red de tráfico interregional apelando exclusivamente a evidencias internodales. El ejercicio resulta sorprendente para quienes estamos habituados a trabajar en ambientes más lluviosos, como el altiplano y los valles de su borde oriental, donde la vegetación y los fenómenos de remoción sólo permiten encontrar (a veces) vías formalizadas, como el Inkañam. A través del análisis de 17 senderos el autor demuestra la importancia del tramo sur del sector Santa Bárbara en el tráfico caravanero interregional, identificando los rastros concretos de tres rutas que estaban activas durante el PIT y conducían hacia: (1) Tarapacá; (2) Norte de Lípez y (3) el sureste, con destino a la cuenca del Salado, Sur de Lípez y/o Chichas. Mientras que las primeras dos verifican empíricamente rutas anticipadas por el modelo de MG, la tercera constituye un hallazgo imprevisto de la investigación. Valga señalar que estudios recientes de vías, sitios de ofrenda y paraderos de caravanas en el lado boliviano de la Cordillera Occidental confirman la segunda y tercer ruta definida por Berenguer. Una de ellas (2) ingresa por los portezuelos de Ascotán y del Inca, conduciendo alternativamente hacia el sector Chiguana-Colcha K por el valle del río Pucara o hacia el valle de Alota por el abra de Cuatro Mojones. La otra (3), remonta el río Silala y tras cruzar el Desierto de Siloli llega al sector Mallku-Soniquera, sin descartar la posibilidad de que comunique los otros destinos postulados.

El Capítulo 7 expone los resultados de las investigaciones realizadas en tres sitios del tramo sur de Santa Bárbara correspondientes a los últimos siglos del PIT, un lapso que el autor subdivide en dos fases locales. Conjugando distintas líneas de evidencia (estratigrafía, arquitectura, cerámica, lítico, arqueofauna, etc.) el autor argumenta que los asentamientos conglomerados SBa-103 y SBa-119 fueron estancias ocupadas por sendas unidades domésticas de filiación atacameña dedicadas al pastoreo y agricultura de pequeña escala, mientras que el alero SBa-110 fue un sitio utilizado fundamentalmente por las caravanas en tránsito por el lugar, asimilable a una “jarana de ocupación prolongada” (Nielsen 1997).

Los Capítulos 8 y 9, dedicados al estudio de los sitios de muros-y-cajas y al arte rupestre respectivamente, se distinguen por el empleo de dos aproximaciones metodológicas que rara vez se combinan, dado que suelen representar tendencias contrapuestas en la disciplina, pero que aquí se conjugan hábilmente para desplegar una visión muy comprehensiva de un tipo de registro que no es sencillo abordar. En ambos capítulos se ensaya primero una perspectiva “externa,” que apela a la contrastación de hipótesis múltiples, las analogías comparativas generales propias de la etnoarqueología y el análisis proxémico para inferir la cronología, usos y contextos sociales de interacción propios de las conductas asociadas a estas expresiones materiales. Llegado a este punto, el autor cambia de enfoque y se aventura por una ruta interpretativa más cercana al “enfoque histórico directo.” Mediante un minucioso cotejo con casos cultural e históricamente relacionados documentados por la etnohistoria y la etnografía andinas, busca ingresar al “interior” de estas expresiones materiales y explorar el sentido que pudieron tener para sus creadores. El resultado es -a mi juicio- uno de los aportes sobresalientes del libro, ya que pone en foco aspectos culturales, idiosincráticos de las prácticas de interacción interregional que los modelos economicistas relegan a un lugar secundario, pero que resultan fundamentales para comprender cómo este fenómeno se torna socialmente significativo y cuáles son sus expresiones arqueológica concretas.

Por esta doble vía, el autor propone que los muros-y-cajas fueron mesas ceremoniales donde los caravaneros ofrecían a los dioses de los cerros (Mallkus) y Pachamama “comidas” apropiadas para estos comensales sagrados (p. ej. minerales de cobre, conchas marinas) con el propósito de invocar o agradecer su protección en los viajes. La presencia de este tipo de estructuras exclusivamente en el Loa le permite postular que funcionaron como diacríticos culturales de caravaneros afiliados al Sistema Atacama.

Cabe preguntarse si su ausencia en la cuenca del Salar de Atacama responde a un problema de muestreo o refleja distinciones entre los habitantes de diferentes partes del desierto homónimo que no parecen evidentes en otros registros que comunican cierta unidad para el Sistema, p. ej. cerámica, arquitectura, textiles. Esta última posibilidad abonaría la idea -enunciada en varias partes del libro- de una división de Atacama en tres “subsistemas” autónomos, Alto Salado, Loa Medio y Oasis de Atacama.

Parece oportuno además recordar un contexto vinculado al ceremonialismo caravanero actual en Lípez que podría ser relevante para la interpretación de estos sitios. Me refiero a la talvarita, un mojón generalmente confeccionado con trozos de cuarzo blanco que suele ubicarse a varios cientos de metros de la vivienda, en un lugar de gran visibilidad ya en la ruta que seguirá la recua. El día de la partida, los familiares del llamero le acompañan hasta aquí, donde realizan las últimas libaciones y permanecen -a veces por horas- despidiendo a la caravana hasta que se pierde de vista. Cuando se acerca la época del regreso, las mujeres preparan chicha y la llevan a la talvarita cada mañana, escudriñando el horizonte a la espera de los viajeros. Cuando éstos llegan, aquí se comparte por primera vez la bebida y a veces, según cuentan, el caravanero toma una de las cargas y la transporta a su espalda hasta la casa, como si fuera él mismo una llama, dando así comienzo a la ceremonia del retorno. Si la analogía fuera apropiada, llevaría a pensar los muros-y-cajas también como “umbrales” que articulaban la casa con la ruta y que los caravaneros (¿locales?) debían atravesar -al partir y al retornar- mediante los ritos apropiados.

El arte rupestre del sector tiene una riqueza extraordinaria. Para épocas tardías, Berenguer detecta la existencia de dos estilos (Santa Bárbara I y II) que atribuye al “complejo caravanero” a partir de su temática (hileras de llamas, a veces con carga, elementos alóctonos) y de su asociación con senderos y otros vestigios de tráfico. El arte rupestre tardío de Santa Bárbara no representaría un desarrollo autóctono basado en estilos anteriores, sino que irrumpiría en la localidad por obra del tráfico interregional. El análisis espacial del arte sugiere que las ceremonias asociadas relacionaban tanto a los caravaneros con residentes locales, como a los caravaneros entre sí. El autor interpreta las representaciones como expresiones de una tecnología prefigurativa en la que los motivos imitarían su finalidad; mediante el arte, los caravaneros anticiparían simbólicamente el éxito de sus viajes. El énfasis puesto en la representación de tocados, camisas, petos y otros diacríticos culturales, en cambio, reflejarían la voluntad de proclamar la membresía de los viajeros y sus derechos al uso de la ruta, un punto que nos recuerda la importancia de las identidades como mediadoras en el acceso a recursos críticos.

El último capítulo integra todos estos datos para definir el papel de Santa Bárbara en el tráfico caravanero, evaluar las implicancias del estudio para la MG y discutir las relaciones entre tráfico de caravanas y procesos sociopolíticos en el sur andino. Durante la segunda mitad del PIT las estancias atacameñas de esta localidad (SBa 103 y 119), argumenta Berenguer, habrían operado como controles sobre el tráfico de minerales de cobre procedentes de las cercanas minas de Conchi y El Abra hacia otras regiones, mientras que el alero SBa-110 ubicado entre ambas constituiría una jarana abierta a caravaneros de diversos orígenes, pero atentamente vigilada por los atacameños residentes. La “lugarización” del oasis -el proceso histórico mediante el cual se constituyó en un espacio socialmente significativo- fue resultado de este doble juego de relaciones y negociaciones (caravaneros-residentes, caravaneros-caravaneros), plasmado en un heterogéneo repertorio de sitios ceremoniales e iconografías rupestres emblemáticas.

Desde una perspectiva más amplia, el protagonismo de Santa Bárbara como nudo de tráfico evidenciaría el renovado auge que cobró el caravaneo en estas rutas durante las postrimerías del PIT, tras una etapa inicial (fase Yaye) de aislamiento y conflictos vinculada al ingreso de sociedades altiplánicas de orientación colonizadora que irrumpieron en los oasis del desierto de Atacama en busca de tierras aptas para la agricultura de riego en un contexto de sequías crónicas. Este auge sería el fruto de negociaciones de los dirigentes atacameños, que lograron los acuerdos necesarios para abrir las rutas hacia el norte (Tarapacá) y este (Lípez y más allá) por el Alto Loa a cambio de ceder espacios dentro del propio territorio para la instalación de enclaves de los Sistemas Pica y Mallku en Quillagua y el Alto Salado, respectivamente. El autor entiende estas negociaciones en el marco de alianzas entre élites de distintos asentamientos-eje y regiones en control de un tráfico de bienes de prestigio vinculados a un marco esotérico compartido que jugaba un papel destacado en su propia reproducción.

Si este escenario es correcto, la coexistencia entre sociedades “colonizadoras” y “giratorias,” lejos de significar un “freno al desarrollo” como lo propusieran Núñez y Dillehay (1979), habría operado como un importante motor de cambio sociopolítico y desarrollo cultural. Más aún, el espacio elongado del Alto Loa habría jugado un papel crucial en estos cambios, demostrando la gravitación que pueden asumir los internodos en los procesos sociales vinculados a la interacción interregional.

El libro concluye con una discusión de aspectos específicos de la MG a la luz de los datos expuestos, ratificando algunos, proponiendo significativos ajustes en otros e identificando avenidas de investigación para el futuro. Como afirmé al comienzo, la interacción interregional es uno de los temas protagónicos de la arqueología surandina, siendo tratado en alguna medida por muchos investigadores con distintos tipos de datos y desde aproximaciones teóricas y metodológicas diversas. Así las cosas, es probable que no haya un acuerdo unánime con todas las propuestas de Berenguer, especialmente porque el caudal de información (original y édita) que teje en sus argumentos es muy vasto y porque el autor no vacila en explorar y definirse respecto a temas que son difíciles de abordar desde la arqueología, aunque fundamentales para este tipo de estudios. De lo que no tengo dudas, sin embargo, es que en los próximos años no podremos discutir la interacción interregional en los Andes circumpuneños sin “dialogar” con esta obra.

Referencias

Dobres, M. y J.E. Robb 2005 “Doing” agency: Introductory remarks on methodology. Journal of Archaeological Method and Theory 12:159-166.

Nielsen, A.E. 1997 El tráfico caravanero visto desde la Jara. Estudios Atacameños 14:339-371.

Núñez, L. y T.S. Dillehay 1979 Movilidad Giratoria, Armonía Social y Desarrollo en los Andes Meridionales: Patrones de Tráfico e Interacción Económica. Universidad Católica del Norte, Antofagasta.

Axel E. Nielsen – Consejo Nacional de Investigaciones Científicas y Técnicas, Instituto Interdisciplinario Tilcara, Argentina. anielsen@arnet.com.ar

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Arqueología y Sociedad. Luis Guillermo Lumbreras – CARRÉ; Del ÁQUILA (C-RAC)

CARRÉ, Enrique González; Del ÁGUILA, Carlos. Arqueología y Sociedad. Luis Guillermo Lumbreras. Lima: Instituto de Estudios Peruanos, Museo Nacional de Arqueología y Antropología, INDEA, 2005. 320p. Resenha de: GÁNDARA, Manuel. Chungara – Revista de Antropología Chilena, Arica, v.38, p.145-149, n.1, jun. 2006.

Este testimonio pretende dar cuenta de la trayectoria de un distinguido científico social peruano dedicado al quehacer arqueológico, etnológico e histórico. El análisis de su obra es un tema que deberá ser abordado por especialistas provistos de mayor lucidez y menos subjetividad, aunque el afecto y la identificación son también maneras de ser objetivos y consecuentes (de la “Presentación”, p. 20).

Con estas certeras y afectuosas palabras, los editores de este magnífico volumen dejan constancia de la intención y alcance del libro que nos ocupa. Y son apropiadas para abrir esta reseña, de cuyas limitaciones alertamos desde ahora al lector: por un lado, de espacio y de “lucidez”, que impiden pretender aquí un análisis detallado; y por otro lado, al aquejarme la misma subjetividad, afecto e identificación para con el autor que los editores apuntan.

Aunque a la distancia y sin el privilegio de un contacto más frecuente, me considero también un alumno del Dr. Lumbreras (o “Lucho”, como le llamamos en México). Nunca fui formalmente su discípulo, a pesar de que cada año de mi formación en la Escuela Nacional de Antropología e Historia, a inicios de los años setenta, el Dr. Jaime Litvak hacía el solemne y feliz anuncio de que “este año sí, repito,  vendrá el Dr. Lumbreras a dar clases”, pero nunca llegó. Años más tarde asistí parcialmente como oyente a un curso que dictó en el CIESAS, más una síntesis de arqueología peruana que un tratamiento de la arqueología social -aspecto que a muchos nos interesaba más que el caso empírico: desde que leímos La Arqueología como Ciencia Social (Lumbreras 1974), era claro que estábamos ante un cambio radical en la teoría arqueológica, cambio que en México estaba representado sobre todo por las figuras de Felipe Bate y Julio Montané, recién exiliados de Chile.

Aprender directamente sobre teoría con Lumbreras sucedió hasta la década de 1980, y ya más en un plano de discusión entre colegas (aunque la asimetría era obvia): en las discusiones del llamado “Grupo Oaxtepec” a las que tuve la fortuna de ser convocado, y que personalmente culminaron mi tránsito de la arqueología procesual a la arqueología social. El diálogo continuaría en Colombia y Venezuela; y luego, en la década del noventa, en España, México y Brasil. Lumbreras siempre nos impresionó por su capacidad de integrar teoría y práctica, técnica y empiria, sobriedad metodológica y pasión por la disciplina. Durante este trayecto pasé de ser un discípulo a ser un amigo. Así que me encuentro en un predicamento similar al de los editores del volumen. Pero espero que, aún así, ofrecer al menos una semblanza del libro, que de entrada recomiendo como lectura obligada a todos los interesados en la teoría arqueológica en general, y la arqueología social en particular.

El Recuento de una Generosa Contribución a la Teoría

El libro es una compilación de los artículos más sobresalientes de Lumbreras en torno a la teoría arqueológica. Son la contraparte, si se quiere, de sus libros de síntesis regional y aplicación de la arqueología social al caso peruano, que son bien conocidos incluso fuera del ámbito marxista. Por primera vez tenemos reunidos textos que documentan el trayecto de Lumbreras desde sus inconformidades con la arqueología de historia cultural (en la que se formó), hacia su formulación de la arqueología social, inspirada en el marxismo; y de los sucesivos ajustes, ampliaciones y aplicaciones de esta posición teórica a diferentes ámbitos: desde aquellos relacionados a la obtención e interpretación del registro arqueológico, hasta la formulación de teorías sustantivas sobre problemas específicos (como el de las sociedades clasistas y el estado).

El autor y los editores han decidido que los artículos se presenten tal como aparecieron (salvo por las obligadas correcciones a errores tipográficos y algunas cuestiones formales), por lo que el volumen se convierte en un corpus obligado sobre el trayecto de la visión de la arqueología social de Lumbreras. Salvo por la introducción, escrita específicamente para el volumen, el resto de los artículos han sido retomados de fuentes que no siempre son fáciles de consultar fuera del Perú, como sería el caso de la Gaceta Arqueológica Andina, cuya fama siempre fue mejor que su distribución fuera del ámbito andino. Como comentaré adelante, esta característica ofrece al mismo tiempo ventajas -el contar con este corpus como documento histórico- como desventajas, dado que en ausencia de un artículo de cierre, a manera de postcripto, en que algunos de los puntos fueran actualizados por el autor, no siempre es fácil intuir la última opinión de Lumbreras sobre algunos temas.

El libro se organiza en siete capítulos y un anexo fotográfico. Los capítulos, a su vez, están compuestos de artículos de temáticas similares, escritos en diferentes momentos. Así, la organización del libro es más bien temática que cronológica, dado que se buscó darle coherencia a los capítulos más que simplemente presentar, en el orden de su escritura original, una lista indiferenciada de trabajos (cosa que, huelga decir, hubiera sido difícil, dado que varios se publicaron en versiones previas antes de alcanzar la forma final que se presenta en el libro).

Los capítulos son: (1) Fundamentos para una crítica de la arqueología cultural -sobre el objeto de estudio de la arqueología; (2) Hacia una teoría de la observación, que “busca definir los instrumentos epistemológicos que sirven de base a la investigación arqueológica” (p. 39); (3) La búsqueda del dato empírico (sobre técnicas y procedimientos de obtención de datos); (4) La elaboración del dato empírico (sobre el análisis del material arqueológico); (5) Ensayos sobre teoría y método (que incluye un estudio histórico sobre Max Uhle y dos reflexiones sobre el método (la primera de orden general sobre el estudio de la conducta humana como fenómeno social y la segunda sobre la historia oral); (6) Estudios arqueológicos sobre el origen del Estado, en el que aborda tanto la teoría childeana sobre la revolución urbana como su propia formulación de una teoría sustantiva sobre el origen de las clases sociales, el estado y el urbanismo, y la aplica al caso andino; y un último capítulo, (7) Notas sobre la arqueología como profesión, que Lumbreras encuentra “más doméstico” (p. 42), al tratar sobre estas cuestiones en el ámbito peruano, pero que resulta altamente ilustrativo sobre los posibles paralelos en el desarrollo de la profesionalización de la arqueología en nuestros países. Complementa el volumen una brillante presentación por los editores, que nos regalan además una emotiva semblanza biográfica del autor; y la introducción del propio Lumbreras, que además de darnos el contexto histórico de los textos, ofrece una reflexión global sobre su desarrollo.

En conjunto, como se verá, el texto aborda prácticamente todos los aspectos de la teoría: desde los que tienen que ver con la ontología de la posición teórica (donde destaca su crítica a la concepción tipológica, “culturalista” de las culturas arqueológicas); las cuestiones epistemológicas (en lo que toca a las teorías de la observación y la manera en que se constituye el dato); las de orden metodológico y técnico (procedimientos de campo y gabinete); y por supuesto, las del para qué, u orientación valorativa, que permean todo el volumen y complementan la toma de posición que el autor inaugurara desde 1974 cuando propuso acercar la práctica académica a la práctica política al incorporar el materialismo histórico como marco de referencia para ambas. A esta presentación de la posición teórica, completa aunque fragmentada por la propia naturaleza de la antología, la complementan ejemplos de aplicación, y notablemente la producción y sucesivo perfeccionamiento de una teoría sustantiva, la del origen de las clases, el estado y el urbanismo.

Evidentemente, ante tal riqueza, amplitud y profusión de temáticas, es imposible hacer justicia en una reseña que es, por naturaleza, más modesta en ambición y más limitada en espacio que un ensayo crítico de fondo. Así que concentraré mis comentarios subsiguientes en algunas de las temáticas tratadas, sin duda reflejo de mis propios intereses más que de la propia riqueza interna de los textos.

Un trayecto Complicado, pero Fértil a cada Momento

Los artículos que componen el volumen representan momentos diferentes en el desarrollo de la posición del autor, por lo que documentan más una trayectoria que un punto de vista unificado -aunque hacia el cierre del libro, es más factible ver cómo el enfoque se hace cada vez más congruente. En cierto sentido, son ilustrativos de la propia trayectoria de la arqueología social, que ha seguido rutas curiosamente paralelas en los diferentes países iberoamericanos en los que se desarrolló.

Así, vemos a un Lumbreras preocupado por debatir, al inicio de este trayecto, con las concepciones tipológicas de la cultura, que asociaban conjuntos de restos cerámicos a grupos étnicos, y los cambios en estos tipos (y en materiales tales como la lítica o la arquitectura) a cambios culturales. Esta arqueología, heredera de la historia cultural boasiana, es el punto de partida para la rebeldía de Lumbreras: confunde los productos con los productores, y vacía de contenido histórico la historia para convertirse en un recuento largo y aburrido de rasgos tipológicos (p. 57 y ss). A esta concepción, marcada en Sudamérica por las propias polémicas que introdujeron en su momento los enfoques de la arqueología de asentamientos, y luego la de la ecología cultural, Lumbreras opone una concepción de corte materialista, inspirada en la obra de Gordon Childe. Algunos de los primeros artículos (Capítulo 1) son un rescate de las dimensiones que Childe propone para la identificación de culturas, que van más allá de las similitudes formales o estilísticas, para tomar en cuenta los procesos de asociación, distribución y recurrencia. En ese sentido, Lumbreras se opone a la historia cultural clásica, pero al apoyarse en Childe asume, como efecto inevitable, su modelo normativo de la cultura -modelo que siempre fue discordante con el resto de la propuesta childeana, seguramente porque estaba fuertemente sedimentada en este autor antes de que diera su viraje definitivo hacia el marxismo

Así, finalmente las culturas reflejan normas (p. 75), cuya ubicación debe ser mental, aunque se compartan socialmente. Esta conceptualización de la cultura Lumbreras la sostendría todavía en 1974, al retomar la diferencia entre cultura material y cultura no-material, que siempre nos pareció una manera muy peculiar de expresar el materialismo (proponer una ontología dual, en que a lo material se une ¡lo no material!). Pero ahora nos parece más claro que es precisamente la herencia childeana, con todo y sus propios titubeos, lo que se observa en estos primeros trabajos. Sin duda, la posición childeana era superior a aquellas contra las que Lumbreras polemiza. Pero, sin duda también, crea una tensión que me parece sigue latente, entre una posición normativa como la que sostiene en la mayoría de sus trabajos tempranos, y que no es sino la criticada por la arqueología procesual (p. ej. en Binford 1965); y una totalmente marxista, y con la que Lumbreras entiendo concuerda, pero que no aparece realmente tomada en cuenta en el texto, como sería la de Felipe Bate (1978, 1998). Quizá su reacción al término mismo de “cultura” lo lleva a tomar distancia incluso con esta propuesta. Este es un tema que ha salido a la luz en nuestras discusiones con Felipe más de una vez, y que creo sigue sin resolverse por entero. Al menos no siento que haya una toma clara de partido en el texto, pero ello puede deberse precisamente a que no hay un artículo de cierre, en que estos puntos de tensión se clarifiquen.

Irónicamente, en lo epistemológico Lumbreras no duda en separarse de la historia cultural y los supuestos de neutralidad teórica de los datos empíricos, e incluso recupera el concepto de “teoría de la observación” (Capítulo 2); y repudia que la elección de técnicas de campo y gabinete sea asunto de gustos personales. Claramente denosta la “estratigrafía artificial”, por niveles métricos, por ejemplo; o de los procedimientos analíticos que podríamos llamar “univariables” (Capítulos 3 y 4).

En el área del método (Capítulo 5), no duda en señalar las deficiencias que caracterizan a un enfoque totalmente de orientación inductiva. La arqueología, como bien reconoce, debe incorporar la deducción, la inducción e incluso la transducción (o analogía). Con ello, se deslinda claramente de dos posiciones extremas: la inductivista estrecha, de la arqueología tradicional, y la deductivista igualmente estrecha, de ciertas variantes de la arqueología procesual. Es también notorio que no recurre a la muletilla (errónea, en mi opinión) de proponer que el método a seguir es el “método marxista”: primero, porque ello revelaría una confusión entre método y teoría y, segundo, porque la teoría marxista es evaluable, como cualquier otra teoría, mediante el método científico general. De otra forma, la arqueología marxista quedaría aislada, en una especie de “inconmensurabilidad paradigmática” al estilo de Kuhn (1971): encerrada en un ámbito desde el que no puede compararse o competir con otras teorías, ya que dependería de un “método” que le sería exclusivo y que otras posiciones no reconocerían como compartido, y por lo tanto, incapaz de ayudarnos a seleccionar la mejor.

He de confesar que hace ya tiempo, y durante algunos años, pensé que este rechazo al enfoque inductivo, que sintetiza los datos y los “interpreta” de acuerdo a algún esquema a priori, era más un señalamiento de intenciones que una realidad en la obra de Lumbreras. Me temo que he sido no solamente insistente, sino hasta impertinente, en nuestras charlas al reclamarle que, en consecuencia, nos dé una teoría del origen de las clases que trascienda una narración de las peripecias del caso andino. Creo que Lumbreras está cada vez más cerca de lograrlo.

Hace ya muchos años, le señalaba el riesgo de plantear lo que parecía ser la causa de la aparición de las clases: la apropiación del excedente (o plusproducto, como prefiero llamarle), una vez que dicho plusproducto se produjo mediante la revolución neolítica. La pregunta era: ¿y por qué es enajenado por una clase? La respuesta original era una forma de “ontologización”: “por la naturaleza humana”, parecía entenderse. La respuesta es insatisfactoria, por cuando menos dos razones: primero, si es un asunto de naturaleza humana, entonces todas las sociedades agrícolas debieron terminar convirtiéndose en Estados; segundo, porque si esta naturaleza humana (de rapiña, de injusticia) es inherente al hombre, entonces no le veía yo sentido al programa revolucionario: no importa lo que hagamos, siempre retrocederemos para expresar nuestros más bajos instintos. A lo que Lumbreras reaccionaba con fuerza diciendo que “¡de ninguna manera, no es eso lo que se propone!”, y luego trataba de clarificar su propuesta. A partir de los años ochenta esa propuesta empezó a tomar una forma más clara, que recuperaba parte de la tradición childeana: el papel de los especialistas. Especialistas que no eran “malos por naturaleza”, sino que jugaban un papel estructural crucial en el desarrollo de las sociedades complejas, al ser los responsables de dos tecnologías fundamentales e indispensables en varios de los casos de estados arcaicos: el control del agua y el control del calendario; luego se unieron los expertos en la guerra y en el intercambio; empezaban a perfilarse los actores sociales cuyo “poder de función” iba más allá de las buenas o malas intenciones.

Ahora el reto era “el cómo” del proceso. De nuevo, si la aparición de estos especialistas es inevitable, todas las sociedades agrícolas tendrían que ser estatales, cosa que Lumbreras reconocía no era el caso. A partir de las ideas que desarrolló en los ochentas y afinó a principios de los noventas, ahora cuenta con algo mucho más cercano a un “esbozo explicativo”, que va más allá de lo anecdótico (Capítulo 6).

Lumbreras clarifica la(s) pregunta(s) explicativas: “Apareció esto [las clases, el Estado y las ciudades] todo a la vez y si todo se debe a las mismas causas o cada institución fue apareciendo independientemente a lo largo del proceso histórico. Si hubo en los Andes algún momento cuando todos los hombres fueron iguales, cuando no había gobernantes ni gobernadores [sic] y todos debían trabajar en las mismas cosas para sobrevivir: si hubo alguna época sin ejército; si no hubo ciudades desde siempre, ¿cuáles fueron las circunstancias, las causas del o los momentos en que todo esto apareció en los Andes? Es una pregunta, por cierto, de connotaciones generales o universales, porque en varias partes del mundo -en Mesoamérica, el Próximo y el Lejano Oriente- se produjo una situación similar” (p. 262).

Lumbreras piensa que en la literatura no existe una explicación satisfactoria (al menos del lado de la tradición marxista, representada en los años setenta por los seguidores del “Modo de producción asiático”, p. 264). Así que intenta formular una. A reserva de hacer en otro momento un análisis teórico detallado, como el que hemos propuesto en otro lado (Gándara 1992), puede resumirse la propuesta en algunos principios fundamentales.

La precondición para el proceso es la revolución neolítica (p. 265), que “tendió a avanzar en todas direcciones, desarrollando y creciendo”; de forma tal, que en “donde la agricultura pudo ser exitosa”, se generó un incremento demográfico y en la producción. En algunos casos, esto llevó a la creación de redes de intercambio y la complejización de procesos productivos y distributivos, lo que a su vez condujo a la aparición de sociedades jerarquizadas. En otros momentos Lumbreras parece estar convencido de que este tipo de sociedades no son el antecedente del Estado (p. ej. p. 273); aquí (p. 265) no es claro su papel. Pero parece que es en situaciones más adversas al cultivo en donde se darán las condiciones para el cambio, vía el desarrollo de nuevas tecnologías que requieren de especialistas, y que permitirán la intensificación agrícola: entre ellos, los especialistas en riego y en el calendario. Estos especialistas requieren una dedicación de tiempo que los separa del proceso productivo directo, lo que genera una primera división social del trabajo:

Es decir, la sociedad se escindirá en clases sociales, separadas por una diferente participación en el proceso productivo, y con relaciones desiguales de producción y consumo (p. 267).

Pero esto solamente sucederá en (a) condiciones en las que no es factible depender de otros recursos alternativos (como la caza y la pesca) como condiciones principales de la reproducción; o (b) en los que no se requiera de procesos técnicos progresivamente más complejos (Ibid); estas condiciones explicarían por qué el proceso no se dio, por ejemplo en la Amazonia.

El proceso llevará a que las instalaciones requeridas por los especialistas se constituyan en el núcleo de los futuros centros urbanos, dado que los procesos productivos ahora podrán realizarse no solamente en el campo (como sucedería con los talleres asociados a templos), fenómeno cuya intensidad variará con la importancia de los especialistas en este proceso (lo que explicaría que no fuera universal, como en el caso de Ayacucho, cuyo desarrollo se “congeló” -p. 268). La aparición de un aparato de control, a favor de una clase, agilizó el desarrollo de esta nueva infraestructura, por lo que para Lumbreras, “las clases sociales, la ciudad y el Estado aparecen, pues, juntos como consecuencia de una misma causa originaria” (p. 271). El crecimiento de estos primeros estados llevó, en condiciones de circunscripción y bajo un continuo aumento demográfico, a que algunos de estos estados que él llama “primarios” se hicieran expansivos, tomando a la guerra como mecanismo para la extensión de su poder, y finalmente llevando a un segundo tipo de estado que él llama “Arcaico” (pp. 272-3). Este proceso se dio en los Andes entre los años 500 a.C. y 500 d.C. Este segundo tipo de estado depende de un nuevo especialista, el especialista en la guerra, cuyo estamento finalmente domina al conjunto del estado.

Es interesante señalar que para Lumbreras, estos estados iniciales parecen haber sido propietarios tanto de la fuerza de trabajo como de la propia tierra:

La clase dominante quedaba como propietaria de la fuerza de trabajo (que incluía a los trabajadores, sus instrumentos y medios de producción; mientras que los productores directos de los bienes de consumo quedaban como propietarios de su fuerza de trabajo, enajenada a los instrumentos y medios productivos de los que los especialistas eran únicos poseedores (p. 254).

Esta propuesta, que suena contradictoria (eran o no propietarios de los medios de producción los trabajadores), no corresponde a otras formulaciones del propio autor, quizá porque es previa (y quizá todavía no definitiva). Lo cierto es que aunque se hace mención explícita del término “Sociedad clasista inicial” (p. 245), la teoría respectiva (o su autor, hasta donde me doy cuenta, Felipe Bate [1984]), no se menciona.

La propuesta es mucho más rica que lo que esta apretada síntesis permite presentar aquí, por lo que remito al lector a los propios textos. Pero quedan preguntas que seguramente nos mantendrán ocupados durante un buen tiempo: si los factores de diferenciación de las condiciones originales para el inicio del proceso tienen que ver con la facilidad o dificultad para extender la productividad agrícola, ¿no acaba entonces siendo de nuevo el ambiente la variable clave? Si hemos rechazado los modelos demográficos ¿no son estos reincorporados -con todo y la noción de “circunscripción” propuesta por Carneiro (1970) (que tampoco aparece citado)? Si, hasta donde sabemos, las guerras preindustriales nunca fueron de exterminio, ¿cómo aliviaría el problema de la presión sobre los recursos el dominio de otros pueblos? (problema original para la formulación de Carneiro y que al importarlo Lumbreras, se trae consigo). En fin, la lista de cuestionamientos posibles es larga, pero lo único que eso indica es que nos acercamos finalmente a algo que parece ser una auténtica teoría explicativa. Solamente un análisis teórico cuidadoso, más detallado de lo que es factible hacer aquí, arrojará luz al respecto.

Algunas Observaciones Finales

Este libro es una medida de la importancia de la contribución de Lumbreras a la disciplina, que además muestra que la buena teoría no tiene por qué estar divorciada de un sólido dominio de la técnica o de la información empírica: a Lumbreras no se le puede acusar de ser un teórico que “jamás fue al campo” o que “ignora los datos” -dos argumentos que se han esgrimido en contra de la arqueología social. Su sólida y pródiga contribución muestra que esta posición teórica no es solamente especulación en las estratosferas de la teoría, sino una diestra articulación de todos los niveles de la disciplina.

Una nota final, de corte menor, pero pensando en la segunda edición que seguramente veremos de este libro, que como otros de Lumbreras se agotará en poco tiempo: creo que el diseño editorial puede mejorarse. A la impecable edición que nos han regalado González y del Aguila, valdría la pena reforzarla con algunas convenciones que la composición tipográfica ayudaría: si bien agrupar por capítulos temáticos permite entender mejor el conjunto, el que entre un artículo y otro no se cambie de página, ni se utilice una tipografía que claramente indique que estamos en un texto diferente (que puede ser cronológicamente previo), resulta potencialmente confuso. La ficha de cada artículo aparece solamente al pie de página, en donde un lector poco atento podría no notarla. Creo que separar tipográficamente cada artículo, así como incluir la ficha junto a su título (así como en el índice), ayudaría a seguir mejor la secuencia de producción de los textos.

Un último señalamiento tiene que ver con la naturaleza más o menos coloquial de algunas de las publicaciones en que aparecieron originalmente varios de los artículos: al tratarse quizá de textos más bien destinados a la divulgación, Lumbreras no incluye referencias a los autores que usa. Obviamente, este problema no es atribuible a los editores, que simplemente han compilado los originales. Pero hace difícil al lector rastrear la fuente de algunos conceptos, o el blanco de alguna polémica -ejemplos: “teoría de la observación”, o “circunscripción” y “sociedad clasista inicial”, aludidos antes. Pecatta minuta, sin duda, en un texto de gran importancia, destinado a convertirse en un clásico de la teoría arqueológica, y en particular, de la arqueología social latinoamericana.

Referencias

Bate, F. 1998 El Proceso de Investigación en Arqueología. Crítica, Barcelona.

Bate, F. 1978 Sociedad, Formación Económico-Social y Cultura. Ediciones de Cultura Popular, México.

Bate, F. 1974 Hipótesis sobre la sociedad clasista inicial. Boletín de Antropología Americana 9:47-86.

Binford, L. 1972[1965] Archaeological systematics and the study of culture process. En An Archaeological Perspective, editado por L. Binford, pp. 194-207. Academic Press, New York.

Carneiro, R. 1970 Theory of the origin of the State. Science 169:733-738.

Gándara, M. 1992 El análisis teórico: aplicaciones al estudio de la complejidad social. Boletín de Antropología Americana 25:93-104.

Kuhn, T. 1971 La Estructura de las Revoluciones Científicas. F.C.E., México.

Lumbreras, L. G. 1974 La Arqueología como Ciencia Social. Histar, Lima.

Manuel Gándara – ENAH, México. E-mail: gandarav@prodigy.net.mx

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Arqueología y Sociedad. Luis Guillermo Lumbreras – CARRÉ; Del ÁQUILA (C-RAC)

CARRÉ, Enrique González; Del ÁGUILA, Carlos. Arqueología y Sociedad. Luis Guillermo Lumbreras. Lima: Instituto de Estudios Peruanos, Museo Nacional de Arqueología y Antropología, INDEA, 2005. 320p. Resenha de: IBÁÑEZ, Francisco Gallardo. Chungara – Revista de Antropología Chilena, Arica, v.38 n.1, p.150-151, jun. 2006.

Este libro reúne diversos textos sobre teoría y método en arqueología publicados con anterioridad. Su introducción es confesional, auténtica y autocrítica. En ella, Lumbreras describe con sinceridad su propio desarrollo político e intelectual, en especial aquel referido al marxismo y la arqueología. Hay importantes pasajes en la nota introductoria y otros ensayos donde expone su permanente incomodidad con el concepto de cultura que, luego de haber suscrito la propuesta de Felipe Bate, opta ahora por su abandono en beneficio de una categoría instrumental: la unidad arqueológica socialmente significativa (Bate 1978:37-38). El título del libro no es casual, nos habla sin rodeos de su rechazo sobre tal concepto.

En mi opinión, los libros son buenos por las ideas nuevas que promueven o por las polémicas que provocan. Este libro como otros del Profesor Lumbreras satisface ambos requerimientos. Para quienes no lo conocen, hay que decir que su categoría de Profesor le viene de una cualidad única y personal, es acogedor, con mucha experiencia en el oficio, sabe escuchar y no pierde ocasión para animar el debate. Algo que como él sabe bien, yo tampoco puedo evitar. En particular, si el tema es la arqueología, la cultura y la concepción materialista de la historia (rótulo acuñado por Engels luego de la muerte de Marx). Su abandono del concepto de cultura no es un capricho, sino un acto que arroja sobre la mesa el viejo dilema de ¿qué es la realidad?, asunto que para nosotros los “marxistas leninistas” (como gustaba llamarnos el general), es una oferta que no podemos rechazar.

En este campo de problemas, es imposible escribir sin aludir a la arqueología social, de la cual soy un simpatizante, pero no un militante. En lo medular estaré siempre de acuerdo con sus promotores, pues todos hemos leído a Marx, Engels y Lenin; creemos que “la explotación del hombre por el hombre” es un hecho injusto y vergonzoso; participado en movimientos revolucionarios durante el siglo XX; sufrido la persecución derechista casi tanto como hemos vivido y en lo general lucimos bastante saludables, pero estoy convencido que en esta corriente algo anda mal, pues es evidente que existe un desequilibrio de proporciones entre las innumerables proposiciones y los escasos resultados, cuestión que debería hacernos sospechar que es probable haya un muerto en el ropero. Sin embargo, sería poco honesto no reconocer la contribución de Felipe Bate (1978), en cuanto a que la cultura no es más que la expresión fenoménica de una formación social. Este fue el segundo punto de inflexión en este movimiento intelectual, el primero y originario: La Arqueología como Ciencia Social (Lumbreras 1974).

Apariencia y Esencia, Cultura e Infraestructura

Respecto al concepto de realidad, podemos decir que es algo que se presenta ante los sujetos como el campo donde ejercen su actividad práctico sensible y sobre la cual surge la intuición práctica inmediata de ella (ver Kosik 1967). En el mundo de las relaciones efectivas entre las personas sean estas de carácter formal o informal, profanas o sagradas, económicas o artísticas, es que cultivamos y maduramos nuestra conciencia ordinaria del mundo, el sentido común y el conocimiento. Este conjunto de prácticas humanas y significados, que es particular y concreta a un lugar, una época y una historia, es lo que hace distintivo a un pueblo de otro. Básicamente es a esto lo que -con mayor o menor fortuna- apuntan las definiciones de cultura en antropología, normas y valores, saberes y prácticas que pertenecen al reino del fenómeno o las apariencias, al mundo sensible y significativo en el que vivimos todos, nosotros y los otros, los del presente y los del pasado.

El registro arqueológico no es más que el resultado intencional (la manufactura de un instrumento de trabajo) y no intencional (el mismo instrumento, pero extraviado) de este conjunto de prácticas que atribuimos al mundo fenoménico, superestructural o cultural. Para el marxismo, descontado aquel naturalista ingenuo propio de Bujarin y Plejanov, la realidad es concebida como un claroscuro de verdad y engaño:

Su elemento propio es el doble sentido. El fenómeno muestra la esencia y, al mismo tiempo, la oculta. La esencia se manifiesta en el fenómeno, pero sólo de manera inadecuada […] El fenómeno indica algo que no es el mismo, y existe sólo gracias a su contrario (Kosik 1967:27).

Este mundo superestructural de lo vivido y experimentado tiene sus propias reglas (desde las tecnologías de producción cerámica a la decoración de la cestería, desde las formas de cooperación productiva a los protocolos de un jefe de Estado), pero estas reglas sólo pueden ser comprendidas en tanto revelamos su esencia o estructura. En este sentido, el marxismo es un tipo de estructuralismo (Lévi Strauss lo dijo con propiedad), pues distingue con claridad la diferencia entre fenómeno y esencia, entre representación y concepto, entre movios

miento visible y movimiento real interno, entre superestructura e infraestructura. Ambos aspectos constitutivos están contenidos en el mundo de lo real, pero sólo a través del análisis es que podemos capturar la esencia de las cosas, el concepto que le corresponde, su movimiento real interno, su infraestructura. De aquí que Marx haya tenido el cuidado de prevenir a sus lectores en el primer Prólogo de su obra El Capital.

Dos palabras para evitar posible equívocos. No pinto de color de rosa, por cierto, las figuras del capitalista y el terrateniente. Pero aquí sólo se trata de personas en la medida en que son la personificación de categorías económicas, portadores de determinadas relaciones e intereses de clase. Mi punto de vista, con arreglo al cual concibo como proceso de historia natural el desarrollo de la formación económico-social, menos que ningún otro podría responsabilizar al individuo por relaciones de las cuales él sigue siendo socialmente una criatura por más que subjetivamente pueda elevarse sobre las mismas (Marx 1987:8).

El Profesor Lumbreras lleva razón al afirmar que los contextos arqueológicos son el producto de acciones sociales concretas:

Los restos arqueológicos organizados en contextos determinados constituyen unidades arqueológicas socialmente significativas, que no son otra cosa que testimonios de eso: actividades de individuos o grupos de personas cuyos actos -de orden social o humano- dejaron testimonios materiales cognoscibles (p. 73).

Sin embargo, para respetar en sentido estricto la fórmula de Marx (al menos como yo la entiendo), tales contextos no son más que el resultado de las acciones de los sujetos en el mundo de lo sensible, lo vivido, imaginado y experimentado, contienen su esencia pero no la revelan (función de ocultamiento y disimulo que opera a nivel de la ideología) sino por los modelos infraestructurales que, en última instancia, nos hacemos a partir de ellos.

Epílogo

Ninguna ciencia social que yo conozca ha invertido tanto tiempo y esfuerzo en develar los misterios de la cultura como la antropología (por colonialista que sea su origen), y tan sólo por eso, siempre me ha hecho sentido ese viejo aforismo acuñado por Willey y Phillips de que la arqueología es antropología o nada (Gallardo 1983), sin embargo, dudo que todos los antropólogos estén dispuestos a suscribir la idea de la cultura como superestructura e ideología, por consiguiente, y ya que el marxismo no es algo que se encuentre en algún lugar preciso en el mapa del pensamiento y prácticas de quienes lo profesan o lo han profesado (incluido Marx a quien disgustaban los sistemas filosóficos), tal vez el dictamen más apropiado sea finalmente que la arqueología es arqueología o nada, una disciplina que trata con la superestructura de manera crítica en tanto es capaz de vulnerar sus ideologías para revelar su infraestructura, no simplemente por definirla sino para darle sentido a la vida ordinaria, para adquirir conciencia de aquello de lo que somos víctimas y no lo sabemos. Nadie eligió ser campesino o sacerdote, esclavo o señor, explotado o explotador.

 

Referencias Citadas

Bate, F. 1978 Sociedad, Formación Económico-Social y Cultura. Ediciones de Cultura Popular, México.

Gallardo, F. 1983 La arqueología ¿una ciencia social? En Arqueología y Ciencia: Primeras Jornadas, editado por L. Suárez, L. Cornejo y F. Gallardo, pp. 90-102, Museo Nacional de Historia Natural, Santiago de Chile.

Kosik, K. 1967 Dialéctica de lo Concreto. Editorial Grijalbo, México.

Lumbreras, L.G. 1974 La Arqueología como Ciencia Social. Ediciones Histar, Lima.

Marx, K. 1987[1867] El Capital. Tomo I / Libro Primero, El Proceso de Producción del Capital. Siglo Veintiuno Editores, México.

Francisco Gallardo Ibáñez – Museo Chileno de Arte Precolombino. E-mail: fgallardo@museoprecolombino.cl

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Salud e Interculturalidad en América Latina. Perspectivas Antropológicas – JUÁREZ (C-RAC)

JUÁREZ, Gerardo Fernández. Salud e Interculturalidad en América Latina. Perspectivas Antropológicas. Quito, Ediciones Abya-Yala, 2004, 350p. Resenha de: MADARIAGA, Carlos; GAVILÁN, Vivian; VIGUERAS, Patricia; MADARIAGA, Vesna. Chungara – Revista de Antropología Chilena, Arica, v.38, n.1, p. 152-155, jun. 2006.

Gerardo Fernández Juárez, autor de varios artículos y libros referidos al tema de la salud en comunidades andinas, coordina esta extensa obra producto de investigaciones realizadas en América Latina, cuya finalidad central fue ver las posibles aplicaciones que la antropología social y cultural puede sugerir en relación con la salud y la enfermedad.

El texto reúne a veinte autores que reflexionan acerca de los problemas teóricos y metodológicos que hoy enfrentamos para comprender el proceso salud-enfermedad-atención; informan acerca de experiencias interculturales y exponen investigaciones acerca de modelos conceptuales que sustentan las enfermedades, los sistemas terapéuticos y su relación con las categorías de cuerpo y persona diferentes al modelo biomédico hegemónico.

La diversidad de temas y de enfoques aplicados constituye la mayor riqueza de este proyecto editorial. Los trabajos muestran un gran esfuerzo por comprender las prácticas en el ámbito de la salud en nuestros países. Es posible afirmar, sin embargo, que el conjunto de los artículos se asientan en un gran ángulo de mirada, aquel que postula una crítica a la universalidad y a la ahistoricidad que subyace al modelo biomédico. Como resultado, tenemos un libro clave para elaborar el estado del arte no solo en la problemática de la salud intercultural como un problema social que se debe abordar con urgencia, sino también para reflexionar acerca de los presupuestos ontológicos y epistemológicos del estado actual de las llamadas ciencias naturales y sociales en general y de las ciencias médicas en particular.

Comelles y M. Caramés abren el debate planteando la necesidad de enmarcar el proceso de salud-enfermedad-atención en una perspectiva histórica y cultural, argumentando que la medicina actual es producto de una sociedad en particular: la occidental y capitalista. Para estos autores, el problema de las ciencias médicas radica en la negación de las relaciones sociales en la cual ella se inserta. Hipótesis que corroboran las experiencias concretas sobre salud intercultural en América Latina y que el mismo texto informa (Cf. R. Campos, L. Abad, Campos y Citarella, J. López, J. Michaux, A. Flores, G. Orobitg, J.P. Chaumeil, G. Fernández, A. Caprara, Citarella y otros).

Comelles acomete el obligatorio reencuentro de la medicina con la cultura como uno de los principales desafíos en el amplio campo de la salud para los inicios del tercer milenio. Su recapitulación hacia la sociedad clásica europea en busca de la tekhné hipocrática para rescatar de ella su condición de ciencia fundada en una amalgama entre el conocimiento impreso en tratados eruditos y la praxis de unos doctores metidos en el mundo experiencial de sus enfermos, en su comunidad, se nos asemeja a un retorno nietzscheano hacia ciertas bases epistémicas fundantes de una medicina enraizada en la cultura epocal. Medicina que se niega a sí misma en etapas posteriores de su propio desarrollo histórico, con el surgimiento del capitalismo y el Estado liberal. El autor alude, con la instauración hegemónica del modelo biomédico en la clínica, a la pérdida de ciertas prácticas de producción del saber-poder sanatorio de los doctores que se gestaba en el proceso dialógico entre conocimientos de diversos tipos (médico, religioso, mágico, popular, etc.), lo cual facilitaba un nivel de consenso social con el enfermo y su medio humano, suficiente como para otorgarle capacidad curativa.

La clínica que se inaugura sobre los restos de esas prácticas pasa a ser una disciplina empotrada en el discurso científico inaugurado por la razón iluminista, que comanda todo el devenir de las ciencias desde el derrumbe de la época medieval hasta nuestros días. Con ella se acaban formas incipientes de construcción colectiva del saber y se introduce la validación de las verdades a partir de su comprobación experimental o empírica, en los marcos de las teorías explicativas unilineales en boga. Al decir de Comelles, se termina la relación medio (sociedad, cultura)- enfermedad y empieza el reino de otra relación, más específica y unívoca: naturaleza-enfermedad. Dicho de otro modo, la enfermedad, de pathos social deviene en fenómeno natural. La nueva forma de conocer la realidad en el campo de la salud y la enfermedad que emerge con este vuelco paradigmático traslada el dominio del cuerpo por la medicina (y, naturalmente, por los médicos) a un escenario privativo de los “especialistas”, de las instituciones sanitarias y las políticas de Estado. Escenario en el que profesionales, tratados de medicina, dispositivos de salud, planes y programas están diseñados para operar sobre un mundo humano reificado, reducido a sus miserias biológicas y descontextualizado de las realidades sociohistóricas que lo condicionan y lo limitan.

El modelo biomédico es la ideología médica del liberalismo económico, la herramienta teórico-metodológica con la que opera en el dominio del proceso salud-enfermedad-atención. El divorcio que promueve activamente respecto de las ciencias sociales obedece a la necesidad de preservar el cuerpo del sujeto aislado de todo influjo interpretativo que amenace con incorporar un campus explicativo-comprensivo que reconozca a la persona humana, a este ser social que es, al mismo tiempo, sujeto individual y social, y que se encuentra multideterminado en una compleja trama de relaciones sociales.

El autor revisa el andamiaje histórico de la medicina desde una óptica de la arqueología foucaultiana para ofrecernos una problematización de gran trascendencia acerca de cómo la versión más actualizada de esta ideología médica es cuestionada desde campos de pensamiento y de acción contrahegemónicos, en tiempos que se disputan como todavía modernos o definitivamente posmodernos.

En la misma línea, M. Camarés afirma que el modelo biomédico tendería a atomizar tanto al sujeto de estudio (el enfermo) como al objeto de estudio (la enfermedad), lo cual impediría contemplar y abordar esta última de una manera procesual, dialéctica y contextualizada. Para esta autora, “el lenguaje de la biomedicina como un hecho social está cargado de significados sociales que manifiestan relaciones de poder y que, al mismo tiempo, al estar investido de un aura de poder está legitimado para construir formas de conocer, intervenir así como de homogeneizar, entre otros, al cuerpo pieza anatomopatológica, al individuo enfermo-paciente a la propia enfermedad –entidad nosológica– a las relaciones profesional sanitario-usuario, médico-paciente; en definitiva al mundo” (p. 35). En este marco de análisis, muestra cómo la ruptura que se hace en la relación medio-cultura-enfermedad se expresa en la formación de los profesionales de la salud. Estos no son socializados únicamente en términos de habilidades técnicas sino también formados dentro de una cultura particular, a través de un proceso de construcción ideológico-cultural caracterizado por lo que ella llama biologicismo o determinismo biológico. Pone, de este modo, énfasis en la dimensión político-ideológica de la enseñanza y formación profesional de los agentes de la salud. Por una parte, nos recuerda cómo los programas educativos se fundan en la certidumbre de tener por particularidad la universalidad. Parafraseando a Bourdieu, “la universalidad de los intereses particulares es la estrategia de legitimación por excelencia, que se impone con una urgencia particular a los productores culturales, siempre incitados por toda su tradición a pensarse como portadores y portavoces de lo universal, como ‘funcionarios de la humanidad'”. Situación que constituye, en nuestra opinión, un obstáculo difícil de enfrentar, dado que se halla incorporado en los agentes (cultura subjetivada) y en las instituciones (cultura objetivada) (Bourdieu 2005:158), lo que plantea el principal desafío del enfoque intercultural en salud en América Latina.
En nuestra propia experiencia de salud comunitaria en el norte chileno hemos observado a personas que se presentan del siguiente modo: “yo soy Carmen y soy un cáncer terminal” o “soy bebedor problema con dependencia”. La patología pasa a ser parte de su identidad, logra disipar las propias sensaciones, sentimientos y hasta la sintomatología porque un bebedor problema con dependencia debe comportarse de tal forma y tener estos síntomas, tomar tales medicamentos, ir a control y hacer lo políticamente correcto si quiere gozar de la atención y buen trato del equipo.

De acuerdo con Comelles, el debate sobre la diversidad en salud y sobre el papel de lo cultural surge en dos circunstancias históricas distintas. La primera es el despliegue del proyecto de la biomedicina y la salud pública en países no occidentales, que no tienen por qué compartir los rasgos judeocristianos o ilustrados característicos de la articulación entre el modelo médico y el pensamiento liberal occidental. La segunda circunstancia es distinta y se refiere al problema que plantea hoy en los países desarrollados una demanda cualitativamente sesgada basada en cuidados de salud, enfermedades crónicas y degenerativas y medicalización de formas de aflicción en toda la población, así como los problemas que plantea la diversidad cultural que acarrean los procesos migratorios. Es en este segundo contexto que se inscribe la preocupación de Arancha Meñaca. Su artículo titulado “Salud y migraciones” expone el caso de la inmigración ecuatoriana en España con el objeto de comprender mejor las relaciones entre los procesos de salud-enfermedad-atención y los fenómenos migratorios.

Meñaca propone que es preciso asumir un concepto de cultura no esencialista y, por lo tanto, considerar en el análisis su vinculación con los aspectos socioeconómicos implicados en las migraciones. En este sentido, insiste en la necesidad de conocer las comunidades de origen de los inmigrantes, tanto en las razones de emigración como también los contextos sociopolíticos de las mismas, en los que un aspecto clave es el conocimiento del funcionamiento de los sistemas sanitarios. Por otra parte señala que es importante analizar los contextos receptores a fin de observar las estrategias que utilizan en sus procesos de integración.

Xavier Albó, por su parte, expone conceptos básicos acerca de la interculturalidad y sus implicaciones en el campo de la salud. Para el autor la relación de culturas diferentes en un contexto de relaciones de poder implica considerar distintos niveles: el interpersonal, el grupal y el estructural. Apuesta por comprender las relaciones entre culturas en un contexto de relaciones de poder; el enfoque intercultural en salud tendría que reconocer las culturas en juego (los agentes de salud y los agentes que acuden en busca del servicio). Ve aquí de parte de los profesionales un problema ético al subvalorar la cultura del otro (paciente) y la desconfianza de este último respecto de las prácticas médicas hegemónicas, lo que lleva a bloqueos culturales que se deberían derrumbar. De este modo, afirma que ello no será posible sin una lucha en contra del neocolonialismo en lo económico, político-social y cultural.

Luisa Abad nos informa acerca de la experiencia en atención de salud en las comunidades Aguarunas en la Amazonia peruana. Describe cómo ha operado el sistema de salud pública, imponiendo el modelo biomédico, bajo una forma asistencialista y en un contexto que se orienta más al control de la población indígena que a satisfacer sus propias necesidades. Su tesis es que para aplicar la interculturalidad en estas poblaciones es necesario estudiar a fondo la etiología de las enfermedades, las formas de terapia indígenas y su farmacopea, las relaciones existentes entre patologías, medio ambiente y espacio terapéutico, las variables de género en la consideración de la enfermedad y su tratamiento, las relaciones institucionales y de poder entre médicos pacientes y especialistas médicos nativos, etc.

Los resultados de los trabajos de investigación empírica incluidos en el texto, y sus consecuentes reflexiones nos hablan de la diversidad de aspectos involucrados en aquello que hoy llamamos salud intercultural. Los relatos etnográficos y experiencias personales de sus autores muestran sus aproximaciones a una realidad compleja, no de un modo distante sino formando parte de la trama de relaciones. Roberto Campos, por ejemplo, expone cómo en nuestros países “el fenómeno de autoatención curativa es un fenómeno social generalizado, que la automedicación es creciente en los sectores populares, que existe una bien conservada cultura médica materna, que ellas establecen estrategias particulares para cada evento de enfermedad de acuerdo a sus conocimientos y experiencias previas; que realizan complementariedad de tratamientos biomédicos y populares, y que estas estrategias curativas deben ser conocidas por el personal de salud con el fin de establecer una mejor relación médico paciente” (Cf. página 132).

Ferrandiz y P. Pitarch, por su parte, llaman la atención cómo en los Altos de Chiapas la medicina indígena se relaciona con la adscripción a grupos religiosos. R. Campos y L. Citarella nos informan acerca del esfuerzo por crear un programa de formación en salud intercultural en el nivel de posgrado en Bolivia, implementado en el departamento de Potosí dirigido a suplir la ausencia parcial o total de una capacitación específica de los médicos, enfermeras y dentistas sobre las características socioculturales de los pueblos indígenas con los cuales se pretende trabajar en forma cotidiana.

De esta manera, Luisa Abad concluye en que la historia de la medicina en América Latina es la historia de una negación. La clasificación de la medicina indígena como etnomedicina, medicina popular, medicina ancestral, medicina tradicional, etc., se impone para evidenciar la subalternidad de sus agentes. Para ella el problema de la aplicación de la salud intercultural radica en la grave crisis que sufre la medicina (académica) en relación a los niveles, grados, tonos y modos de comunicación entre el médico (entendido como persona que sabe curar) y el paciente (entendido como ser doliente) que se sabe o se considera enfermo y que precisa de la ayuda especializada. Esa confianza en el médico (léase yatiri, chamán, etc.) sin embargo no se ha perdido en el mundo indígena, muy a pesar de los insistentes intentos de la OPS en la década de los ochenta y noventa por introducir la medicina occidental basándose en las contundentes cifras ofrecidas por los respectivos países sobre las tasas de mortalidad materno infantil, perinatal etc., causadas por enfermedades infectocontagiosas, principalmente, y que llevaron a muchos pueblos indígenas a idealizar y sobreestimar la capacidad de “los remedios” frente a sus propios especialistas o terapias.

Sugiere que para que la salud intercultural sea un hecho es necesaria la participación real y no tutelada de los verdaderos actores sociales de las comunidades. No obstante, se echa de menos en el texto algún cuestionamiento acerca del concepto de paciente. Asimismo, a excepción de algunos artículos, no se presentan experiencias ni reflexiones en relación a las prácticas de salud de la población no indígena o mestiza, ni cómo ellas se vinculan a la clase social y a la condición de género, cuestiones que, a nuestro entender, forman parte del enfoque intercultural en salud. Si asumimos que la salud es un producto sociohistórico, el contexto sociopolítico en el cual ésta se presenta debe ser recuperado en el análisis a fin de explicitar las relaciones de desigualdad existentes entre ricos y pobres y entre hombres y mujeres. Sólo de este modo es posible evidenciar cómo el modelo biomédico, al no verlas, contribuye a reproducir las desigualdades sociales e inequidades en el acceso a la salud. Por otra parte, cabría también tomar nota de la ausencia de una crítica a las miradas de los cientistas sociales en relación a la invisibilidad de la “biología” o su determinismo social y/o cultural, que inhibe la comunicación entre las disciplinas.

Mientras el modelo biomédico aún no sacia su necesidad de enfermedades y de enfermos (por tanto, de doctores, hospitales, fármacos e intervenciones quirúrgicas), para lo cual proliferan nuevas nosologías y taxonomías, la sociedad neoliberal modifica drásticamente las maneras de enfermar, incorporando en esta transformación los nuevos fenómenos (contra)culturales, las condiciones y calidad de vida del capitalismo, los fenómenos anómicos, las llamadas patologías de la pobreza, etc., procesos que más que aumentar la carga de enfermedades acrecienta el malestar social. La ideología médica no reconoce (no logra ver) este malestar en la sociedad moderna, por lo tanto medicaliza todo, desde las emociones normales hasta las respuestas fisiológicas de tipo adaptativo. Crítica que abre puertas a la legitimación de nuevas propuestas epistemológicas en el campo de la salud y, especialmente, de la salud mental, con la irrupción del modelo biopsicosocial, que incorpora el enfoque comunitario, la interdisciplinariedad, la participación de diversas formas del saber, la intersectorialidad, el trabajo en redes, un nuevo concepto de equipo de salud, etc. Desde esta nueva perspectiva sí es posible construir nuevas prácticas en salud, entre las cuales la interculturalidad constituye una de las más importantes, en la medida en que nos llama al desafío de explicitar nuestra propia cultura, evidenciar nuestra posición en las relaciones de poder e intentar construir nuevas relaciones humanas que incorporen una mirada integral sobre cada uno de los tres componentes de la ecuación salud-enfermedad-cuidado.

De este modo, para nosotra(o)s como trabajadores de la salud y de la cultura en/y para América Latina el libro es, sin duda, una gran fuente de inspiración para pensar y practicar con la comunidad un modelo médico humanizado, inscrito en relaciones sociales más equitativas y para avanzar hacia un mayor y mejor acercamiento entre las disciplinas.

Referencia

Bourdieu, P. 2005 Intelectuales, Política y Poder. Eudeba, Buenos Aires.

* Esta referencia forma parte del trabajo en curso del Proyecto SA05I20016 del Fondo Nacional de Investigación y Desarrollo en Salud de CONICYT, Chile.

Carlos Madariaga – Servici/o de Psiquiatría Hospital de Iquique, Chile. carlos21@entelchile.net
Vivian Gavilán – Centro de Investigaciones del Hombre en el Desierto. Universidad Arturo Prat, Iquique, Chile. vivian.gavilan@unap.cl
Patricia Vigueras – Escuela de Enfermería Universidad Arturo Prat, Iquique, Chile. patricia.vigueras@unap.cl
Vesna Madariaga – vesnofila@gmail.com

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Salud e Interculturalidad en América Latina. Perspectivas Antropológicas – JUÁREZ (C-RAC)

JUÁREZ, Gerardo Fernández. Salud e Interculturalidad en América Latina. Perspectivas Antropológicas. Quito, Ediciones Abya-Yala, 2004, 350p. Resenha de: VARGAS, Luis Alberto. Chungara – Revista de Antropología Chilena, Arica, v.38, n.1, p.155-157, jun. 2006.

América Latina abarca un territorio enorme, cuya diversidad de ámbitos geográficos y la extensión de sus latitudes se refleja en paisajes muy diferentes, donde se han desarrollado numerosos grupos indígenas a lo largo de su historia. El mundo de la cultura occidental apenas comienza a percibir este fenómeno y a reconocer identidades, donde hasta ahora ha percibido uniformidades.

El campo de la salud es un buen ejemplo de lo anterior. A los diferentes sistemas médicos de la región se les ha considerado un conjunto, suponiendo la homogeneidad de las culturas indígenas, así como la manera como han incorporado la teoría y la práctica de otros sistemas venidos del resto del mundo, comenzando por el aportado por los conquistadores españoles y seguido de cerca por los de los esclavos africanos traídos contra su voluntad.

Por otra parte, el ejercicio profesional basado en la biomedicina ha sido cegado por sus indudables éxitos, entre los que destacan el control de las enfermedades transmisibles, los logros de la cirugía y la anestesia, la producción de fármacos eficaces y tantas más. Como resultado de lo anterior, ha dejado de lado el contexto verdaderamente humano de los problemas de salud, los padeceres y las enfermedades, con sus componentes emocionales, sentimentales, sociales y culturales.

Le reacción contra este estado de cosas ha llegado de dos principales fuentes: los médicos formados con un genuino enfoque humanista y los antropólogos quienes han experimentado los problemas de atención de las personas y comunidades quienes no participan de la visión occidental. Es interesante destacar que son pocas las manifestaciones de inconformidad organizada que han surgido entre los usuarios de los servicios de salud.

El libro reseñado tiene la virtud de recoger estas inquietudes para América Latina. Está constituido por 20 capítulos de autores quienes trabajan en esta región, desde instituciones locales, españolas y una francesa. Algunos contenidos son valiosas reflexiones teóricas, bien apoyadas en la bibliografía y en otros se ofrecen experiencias directas, vividas en diversas comunidades indígenas y mestizas. También se ofrece una panorámica general de la situación, mientras que otros capítulos se concentran en una zona particular o abordan un problema concreto, por ejemplo las enfermedades identificadas por algún grupo indígena.

No estimo adecuado reseñar cada capítulo, sino prefiero ofrecer algunas reflexiones en torno al conjunto de los temas abordados, como producto de la experiencia de nuestro grupo de trabajo en México.

Mi primera inquietud es plantear lo que realmente queremos decir al hablar sobre salud e interculturalidad. Es claro que nos referimos al contacto entre personas o grupos con diferente cultura cuando está en juego su salud. Así planteado el tema es aún ambicioso, ya que la salud permea a una gran cantidad de las actividades humanas. Yo considero que realmente nos referimos a la atención y el tratamiento de los problemas de salud personales y colectivos. Para entender lo anterior, debo aclarar algunos conceptos.

Entendemos por comunicación y acciones interculturales a las que se derivan de la interacción y diálogo respetuoso y equilibrado entre personas o grupos de diferentes culturas; sin ser la simple yuxtaposición de contenidos ya elaborados.

Para mí ha resultado muy práctico distinguir tres componentes de un mismo proceso: problema de salud, padecer y enfermedad. El problema de salud son las alteraciones morfológicas, fisiológicas o conductuales que permiten saber que una persona ha salido de lo que para ella era normal y estimaba como saludable. Síntomas y signos comunes de dichos problemas de salud son la fatiga, el dolor, el sangrado o la aparición de tumoraciones visibles o palpables. Esta salida del cauce de la normalidad provoca en cada persona un conjunto de sentimientos e inquietudes basadas en su propia personalidad, experiencias biográficas, acervo cultural y otros factores, que determinan que se viva el problema de salud de una manera absolutamente personal, lo que constituye el padecer. En determinado momento la persona misma sola, o con la ayuda de personas cercanas o los variados especialistas médicos de diferentes sistemas, encontrará que su padecer puede ser explicado por una enfermedad.

Las enfermedades que identifican los distintos sistemas médicos son realmente abstracciones hechas a partir de una serie de elementos comunes a los problemas de salud de un grupo de personas. Como hace siglos lo señaló Hipócrates: no hay enfermedades, sino enfermos. Nosotros modificaríamos la frase para decir que no hay enfermedades, sino personas con padeceres y también hay padeceres sin enfermedad. Desde luego es importante recalcar que las enfermedades son identificadas por cada sistema médico y, por lo tanto, todas ellas son dependientes de la cultura. De esta manera estamos obligados a reconocer que no solamente son válidas las enfermedades reconocidas por la biomedicina, aunque tengan un fundamento científico, sino también lo son el susto, el empacho y tantas otras que reconocen los sistemas médicos indígenas americanos.

Ahora bien, también hemos postulado la sutil diferencia entre la atención de los problemas de salud y los padeceres y el tratamiento de las enfermedades. Los padeceres requieren de apoyos sociales y emocionales, además de aquellos necesarios para satisfacer necesidades tan básicas como las de comer, mantenerse limpio y protegido o en reposo. En cambio, los tratamientos son el conjunto de medidas encaminadas específicamente para prevenir, aliviar, paliar o curar las enfermedades.

De lo someramente expuesto en las líneas anteriores, se postula que nuestro centro de interés en el campo de la salud y la interculturalidad es dicha atención de los problemas de salud y los padeceres, así como el tratamiento de las enfermedades. Lo anterior puede parecer obvio, pero la realidad demuestra que no lo es tanto. Los antropólogos quienes trabajamos en América Latina hemos estado activos colaborando principalmente con los sistemas de salud gubernamentales, pretendiendo incorporar en ellos la visión y las necesidades de sus usuarios. En la obra que reseñamos, también destaca que hemos apoyado las demandas de los grupos indígenas. Donde menos hemos funcionado es en el apoyo individual a los pacientes y en las labores de la salud pública, a pesar de las experiencias ganadas a lo largo de nuestra historia.

Ahora bien, de la experiencia de nuestro grupo y acorde con lo que aparece en varios de los capítulos del libro que nos ocupa, debemos postular tres alternativas para la comunicación y las acciones interculturales en materia de salud.

Las acciones y la comunicación intercultural espontáneas se derivan de aquella relación que se establece entre individuos o grupos de diferentes culturas, sin preparación ni capacitación previa, y que se guía -por lo general- mediante el sentido común. En ocasiones tal tipo de situación es forzada por las circunstancias.

Las acciones y la comunicación intercultural informadas se realizan cuando una de las partes, haciendo acopio de información -casi siempre publicada- sobre la cultura con la que se propone interactuar, pero sin buscar la participación activa de sus interlocutores.

Las acciones y la comunicación intercultural adecuadas o propositiva se realizan voluntariamente y con vocación humanista, después de una preparación, sensibilización y capacitación que conduce a mejores resultados mediante el diálogo respetuoso, tolerante y flexible entre las personas de las dos culturas.

En el campo concreto de las acciones y la comunicación intercultural en salud se debe partir de la capacidad de moverse equilibradamente entre conocimientos, creencias y prácticas culturales diferentes respecto a los procesos bioculturales salud-enfermedad, vida-muerte, y los conceptos sobre el cuerpo y la espiritualidad propios y ajenos. Dichas percepciones suelen estar contrapuestas y requieren de tolerancia y respeto entre quienes interactúan, evitando la imposición de una cultura sobre otra, sino más bien una tercera vía donde se aproveche lo más adecuado de las alternativas presentes.

La lectura del libro aquí reseñado apoya las ideas generales que hemos expuesto y destaca la necesidad de emplear el enfoque adecuado o propositivo. Su lectura es altamente recomendable, no solamente para el relativamente pequeño grupo de antropólogos quienes nos ocupamos de este asunto, sino también para los integrantes de los equipos de salud de cualquier sistema. Las tareas que debemos realizar entre profesiones, para el beneficio de los habitantes de nuestra región, necesariamente serán producto del diálogo respetuoso y equilibrado al que hemos hecho alusión.

Desde luego la obra constituye también un apoyo de suma utilidad para las labores docentes que se llevan a cabo en las instituciones del sector de la salud y el de la antropología. Hago votos para que quienes estamos activos en este campo encontremos las vías para dialogar y en un plazo razonable seamos capaces de producir los libros de texto capaces de apoyar la formación de los técnicos y profesionales que sigan adelante con las labores iniciadas por el relativamente pequeño grupo que somos ahora.

Luis Alberto Vargas – Instituto de Investigaciones Antropológicas y Facultad de Medicina de la Universidad Nacional Autónoma de México. E-mail: lavargas@servidor.unam.mx

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