América latina no século XIX: tramas, telas e textos | Maria Lígia Coelho Prado

Não existe historiador que se preze que jamais tenha tomado contato com as obras de Bloch, Thompson, Duby, somente para citar alguns, independentemente da área de atuação ou do objeto de estudo de sua especialidade. Isto se dá não apenas por serem autores ditos “clássicos”, mas, sobretudo, por tratar-se de textos cuja leitura permite discutir, transcendendo a problemática proposta, a própria disciplina histórica. O livro da Profa. Maria Lígia Prado, sem ter a pretensão de ser um “clássico”, convida o leitor à analise de diferentes possibilidades de abordagem para a história. Apesar da delimitação sugerida pelo título, não se trata de um livro restrito aos latino-americanistas. Pelo contrário, interessa a todos que buscam refletir sobre a escrita da história, com ênfase sobre a (nova) história política e os imaginários sociais. Utilizando o recurso da análise comparativa, Maria Lígia Prado tece a trama do século XIX latino-americano abrindo mão de uma narrativa cronológica, ao promover uma separação temática dos ensaios, sem, no entanto, abandonar, no enredo subjacente, os marcos temáticos da história latino-americana. Assim, o livro começa com a guerra de independência e termina com a discussão dos projetos de identidade nacional, passando por propostas de independência frustradas, por projetos pós-independência, pela consolidação de instituições, pela literatura e vida cultural e, ainda, pela consolidação do Estado Nacional. Em cada um desses tópicos houve a escolha de um foco privilegiado para a análise. Leia Mais

Pré-História do Brasil: As origens do homem brasileiro; O Brasil antes de Cabral; Descobertas arqueológicas recentes | Pedro Paulo Funari e Francisco Noelli

Até princípios do século XX, a história das populações pré-históricas aborígenes que habitaram o atual território brasileiro era um tema pouco conhecido e sobre o qual não existia interesse maior. Afortunadamente, estas concepções, que silenciavam a rica e complexa História desses povos, paulatinamente foram ficando para trás. Precisamente, “Pré-história do Brasil…”, escrita por dois importantes arqueólogos brasileiros, resulta ser uma obra clara e simples que permite ao leitor obter uma idéia geral sobre o processo de ocupação humana do território onde hoje está o Brasil. Por sua vez, possui uma linguagem amena, que evita terminologias complexas, próprias do jargão arqueológico, fazendo com que o livro possa chegar a um público amplo e heterogêneo. Leia Mais

Em busca do Povo Brasileiro – Artistas da revolução, do CPC à era da TV | Marcelo Ridenti

A utopia de uma efetiva aproximação entre os intelectuais, os artistas e o povo brasileiro é o tema central desse livro de Marcelo Ridente, que, em última instância, trata da produção cultural inspirada no âmbito da então sonhada Revolução Brasileira. Apesar das especificidades de cada uma das áreas artísticas abordadas, é possível observar, através do estudo proposto, as diversas problemáticas que nortearam a produção cultural brasileira, em meados dos anos 60 e 70 – um período de intensos debates sobre a viabilidade do projeto de modernização do País. Nessa direção, o estudo privilegia a análise de obras, cuja proposta não escamoteia a intenção do artista em revelar ao espectador a história de sua gente, analisar o presente e projetar o futuro da sociedade brasileira.

A pesquisa de Ridente se insere no âmbito das preocupações que se aproximam dos pressupostos teóricos e metodológicos da chamada História Nova, capaz de reconhecer, em todas as marcas da inteligência humana, objetos de estudo para a disciplina. A história – asseguraria Jacques Le Goff, um dos expoentes da Escola dos Annales – deve perscrutar as fábulas, os mitos, os sonhos da imaginação (1990, p. 107). Nesse sentido, os historiadores, no decorrer do século XX, propuseram a superação das premissas positivistas, responsáveis pelo confinamento das pesquisas aos documentos escritos, e muitas vezes, oficiais. A terceira geração dos Annales ampliou as possibilidades da escrita da história, propondo a utilização de tipos de fontes diferenciadas: documentos que abarcam formas de linguagem não escrita, depoimentos orais, registros judiciais, artísticos, literários, entre outros. Leia Mais

Introducción a la Arqueología Histórica | Charles E. Orser Junior

Este é o principal manual introdutório de Arqueologia Histórica, síntese da experiência de um pesquisador com uma formação múltipla e profunda em Arqueologia, História e Antropologia. O grande mérito da obra é a capacidade de apresentar, historiar e conceituar o desenvolvimento dos principais aspectos teóricos, técnicos e políticos da Arqueologia Histórica, “uma subdivisão autônoma da Arqueologia” com pouco mais de trinta anos de existência.

Para Orser Jr., “a grande maioria dos arqueólogos diria hoje que seu campo de investigação compreende tanto a história como a antropologia, como outras disciplinas relacionadas, incluindo por exemplo a geografia histórica e cultural, a economia política e a cartografia. Assim mesmo, a Arqueologia Histórica não é nem história, nem antropologia, nem sequer uma conjunção das duas. Simplesmente é um amplo campo de investigações que combina um grande número de abordagens”. Sua principal atenção é dirigida às “manifestações materiais de um mundo em rápida transformação depois de 1500 D.C.”. Trata-se, em suma, do “estudo arqueológico dos aspectos materiais – em termos históricos, culturais e sociais – dos efeitos do mercantilismo trazidos da Europa ao final do século XV e que continuam em ação até hoje”. Leia Mais

Relações internacionais: dois séculos de história | Entre a preponderância européia e a emergência americano-soviética | Entre a ordem bipolar e o policentrismo (1947 a nossos dias)| José Flávio Sobra Saraiva || Relações internacionais e temas sociais: a década das conferências | José Augusto Lindgren Alves || Relações internacionais da América Latina: velhos e novos paradigmas | Amado Luiz Cervo || Relações internacionais: cultura e poder | Estevão Chaves de Rezende Martins || Cooperação/ integração e processo negociador: a construção do Mercosul | Alcides Costa Vaz

Foram lançados em 2002 mais dois títulos da coleção “Relações Internacionais”, que se juntam aos quatro levados a público no segundo semestre de 2001. A coleção é publicada pelo Instituto Brasileiro de Relações Internacionais (IBRI) e organizada por José Flávio Sombra Saraiva, diretor-geral do Instituto, com o apoio da Fundação Alexandre de Gusmão (Funag) e o patrocínio da Petrobras. O IBRI cumpre, assim, uma das importantes missões a que se propôs, que é a de difundir os estudos desenvolvidos no Brasil sobre as relações internacionais e sobre a inserção do país no cenário internacional. A coleção, distinta de outras que recentemente incorporaram-se ao mercado editorial do país, volta-se, com efeito, à exposição do atual pensamento brasileiro em relações internacionais.

Os dois volumes de “Relações internacionais: dois séculos de história”, organizados por José Flávio Sombra Saraiva, são, não por acaso, os dois primeiros títulos da coleção “Relações internacionais”. Trata-se de uma versão ampliada e revista de “Relações internacionais: da construção do mundo liberal à globalização (1815 a nossos dias)”, lançado em 1997, rapidamente esgotado. O primeiro volume intitula-se Entre a preponderância européia e a emergência americano-soviética (1815-1947) e o segundo Entre a ordem bipolar e o policentrismo (de 1947 a nossos dias). O leitor encontra nos dois caprichados volumes uma excelente síntese de quase dois séculos da história das relações internacionais, escrita de maneira acessível e instigante por quatro especialistas: além do organizador, José Flávio Sombra Saraiva, Amado Luiz Cervo, Wolfgang Döpcke e Paulo Roberto de Almeida. Os autores utilizaram bibliografia atualizada e da mais alta qualidade, trazida ao final de cada capítulo, o que permite ao leitor prosseguir facilmente no aprofundamento de temas que são de seu maior interesse. Leia Mais

História da Política Exterior do Brasil. Brasília | Amado Luiz Cervo e Clodoaldo Bueno

É fato que o pensamento brasileiro de relações internacionais conhece já há mais de duas décadas uma renovação que não encontra paralelos em outras áreas das ciências sociais, tocado de perto pela importância crescente do Brasil no cenário internacional mas, especialmente, arejado pelo dinamismo de uma produção científico-acadêmica que mostrou-se muito mais pujante do que a criação de programas de formação de recursos humanos para a área. Com efeito, ao longo desse período, a existência de duas únicas experiências de capacitação de quadros para a pesquisa e para o ensino (na forma dos programas de pós-graduação da Universidade de Brasília e da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro), poderia indicar que a reflexão especializada continuaria sendo por bom tempo ainda negócio entregue a diplomatas ociosos, a acadêmicos deslocados e a militares dedicados. Nesse sentido, não há dúvidas de que tal dinamismo é fruto especialmente da realização de visões estratégicas que se adiantaram ao surgimento de uma demanda que não era tão facilmente percebida, e que somente ganhou formas complexas no adiantar dos anos noventa. Leia Mais

A identidade internacional do Brasil e a política externa brasileira: passado, presente e futuro | Celso Lafer

“… um balanço de minhas pesquisas e reflexões de muitos anos sobre a política externa brasileira, adensado pela minha experiência diplomática na década de 1990.” Assim define Celso Lafer seu mais recente livro, intitulado “A identidade internacional do Brasil e a política externa brasileira: passado, presente e futuro”, que se junta, assim, a sua profícua produção intelectual.

Com efeito, além de conhecido pelas importantes funções que tem exercido – foi Ministro das Relações Exteriores em 1992, chefe da Missão Permanente do Brasil junto às Nações Unidas e à Organização Mundial do Comércio de 1995 a 1998, Ministro do Desenvolvimento, Indústria e Comércio em 1999, e chefe do Itamaraty novamente a partir de janeiro de 2001 –, Celso Lafer é autor de estudos importantes nas áreas de Ciência Política e Direito. Dentre eles, para nos limitarmos a poucas referências, destaquemos sua tese de doutoramento The Planning Process and the Political System in Brazil: a Study of Kubitschek’s Target Plan, 1956-1961 (1970), passagem obrigatória para quem estuda a implementação da política desenvolvimentista do período JK, e Uma interpretação do sistema das relações internacionais do Brasil (Revista Brasileira de Política Internacional, 1967), análise sistêmica que enfoca as articulações entre a esfera nacional e a política exterior do Brasil com o nível global e regional, até os anos 1960. E os mais recentes “A OMC e a regulamentação do comércio internacional: uma visão brasileira” (1998) e “Comércio, desarmamento, direitos humanosreflexões sobre uma experiência diplomática” (1999). Além disso, num tipo de exercício em que poucos se sobressaem, Celso Lafer se destaca: quantos de nós já não tivemos o prazer de abrir um livro e nos depararmos com seus prefácios, guias seguros e argutos de leitura, que muito enriquecem os trabalhos daqueles que tiveram a sorte de poder contar com esse precioso convite à leitura de seus estudos. Lembremos, dentre tantos, os primorosos prefácios aos livros O governo Kubitschekdesenvolvimento econômico e estabilidade política, 1956-1961 (1976), de Maria Victória Benevides, e A legitimidade e outras questões internacionais (1999), de Gelson Fonseca Júnior.

A identidade internacional do Brasil e a política externa brasileira é uma obra sintética que abarca diversos aspectos da História do Brasil, ainda que se proponha mais especificamente “buscar e apreender as tendências inerentes à `duração longa’ da diplomacia brasileira”. Nela está muito presente a preocupação do autor com o sentido último e verdadeiro da construção da nação brasileira. É a leitura de Lafer sobre a especificidade brasileira, valendo-se de autores diversos que se debruçaram sobre a mesma reflexão, de um ponto de vista mais geral, como Sérgio Buarque de Holanda, Caio Prado Júnior, Gilberto Freyre, ou de um prisma mais pontual.

Entendendo como tarefa da política externa “traduzir necessidades internas em possibilidades externas para ampliar o poder de controle da sociedade sobre o seu destino”, Lafer começa seu estudo chamando a atenção para a crescente diluição entre as esferas interna e externa, do “nós” e do “outro”, que têm mudado a dinâmica das relações internacionais e a própria definição do campo de atuação da política externa e do que poderíamos chamar de seus insumos. Chama também a atenção para a importância do Itamaraty como depositário da memória da diplomacia do Brasil, conferindo à atuação diplomática coerência e continuidade, e para “fatores de persistência” que explicariam em larga medida a identidade internacional do Brasil: “o dado geográfico da América do Sul; a escala continental; o relacionamento com muitos países vizinhos; a unidade lingüística; a menor proximidade, desde a independência em 1822, dos focos de tensão presentes no centro do cenário internacional; o tema da estratificação mundial e o desafio do desenvolvimento”.

Tendo essas definições e argumentos maiores em mente, o capítulo “O Brasil como um país de escala continental …” enfoca a consolidação do extenso espaço territorial nacional, componente identitário bastante valorizado pelo autor. De fato, a busca da construção da escala continental do Brasil é considerada como “um dos sentidos da história do Brasil” e o “primeiro vetor da política externa brasileira”, que prevalece no período monárquico e adentra o período republicano, indo até o momento em que Rio Branco dirige a diplomacia brasileira (1902-1912). Rio Branco, “com virtù e fortuna“, equaciona as questões fronteiriças pendentes no começo do século XX e terá papel fundamental na fixação de padrões da atuação diplomática brasileira, que se caracteriza pelo realismo, ou pragmatismo, temperado pelo pacifismo e pelo jurisdicismo. Esse traço da diplomacia encontrará sua expressão maior no relacionamento com os vizinhos da América do Sul, tema do capítulo “O contexto da vizinhança…”.

O contraponto ao eixo de simetria das relações do Brasil com os países sul-americanos, em que vigora uma relativa igualdade, é a relação assimétrica com as grandes potências mundiais, sobretudo com os Estados Unidos (Rubens Ricupero). O capítulo “O Brasil no eixo assimétrico do sistema internacional …” trata dessa questão, que é outra condicionante do tipo de inserção internacional do País. Potência média, o Brasil tem, assim, apostado desde o começo do século XX – pensemos aqui em Rui Barbosa em Haia – na via multilateral como compensadora das assimetrias do sistema internacional. Nesse âmbito, sem dúvida alguma o tema do desenvolvimento é mais um elemento marcante da política externa brasileira, que teve, inclusive, um papel bastante ativo na inserção da ideologia do desenvolvimento no sistema da ONU. Esses são assuntos tratados no capítulo “A busca do desenvolvimento do espaço nacional: o nacionalismo de fins e a diplomacia da inserção controlada no mundo”.

A partir desses traços de identidade, qual política externa para o século XXI? Celso Lafer busca responder à questão no capítulo “O desafio do século XXI …”, último capítulo do livro. A resposta passa pela continuidade da disposição negociadora do Brasil, o aproveitamento dos foros multilaterais e a “internalização” do mundo, já que “mudanças significativas do funcionamento do mundo provocam e exigem de um país uma mudança da visão de seu papel, o que pode alterar significativamente sua identidade internacional”.

Enfim, a reflexão de Celso Lafer, lastreada que está em sua trajetória intelectual e de homem de Estado, busca a “coerência profunda” de nossa política externa, não se preocupando com as “incoerências conjunturais”. Ao leitor, no entanto, resta a impressão de que a concepção histórica que permeia a obra se enriqueceria com a contradição, a visão crítica; a tentativa de compreender por que, apesar de sua coerência, a política externa brasileira não conseguiu responder adequadamente ao interesse nacional prioritário, e imperativo, que é o desenvolvimento. Com efeito, parece possível combinar as palavras de Joaquim Nabuco, citado por Lafer como leitura norteadora – “O Brasil teve consciência do seu tamanho e tem sido governado por um sentimento do seu futuro” –, com a idéia de pluralidade. Transpor os mitos e encarar a história como campo de possibilidades.


Resenhista

Norma Breda dos Santos


Referências desta Resenha

LAFER, Celso. A identidade internacional do Brasil e a política externa brasileira: passado, presente e futuro. São Paulo: Perspectiva, 2001. Resenha de: SANTOS, Norma Breda dos. Revista Brasileira de Política Internacional, v.45, n.1, 2002. Acessar publicação original [DR]

Os primeiros anos do século XXI: o Brasil e as relações internacionais contemporâneas | Paulo Roberto de Almeida

A área acadêmica das relações internacionais no Brasil não carece de manuais de estudo, recentemente publicados Há manuais apresentando a disciplina do ponto de vista do Brasil, além de outros manuais traduzidos de línguas estrangeiras. O livro em questão do diplomata Paulo Roberto de Almeida não conforma um manual no sentido clássico do termo para atender às necessidades dos muitos cursos de relações internacionais que apareceram nos últimos anos em nosso país. Mas ele corresponde a uma aproximação do que se espera seja a discussão dessa problemática a partir das preocupações e dos problemas brasileiros.

Paulo Roberto de Almeida tem se distinguido, desde o começo dos anos 1990, por uma produção constante e de reconhecida qualidade no campo da história diplomática e das relações internacionais do Brasil. Em novembro de 2001, coroando uma já longa lista de livros anteriores sobre o Mercosul ou a política exterior do Brasil (que ele divulga em seu website pessoal: www.pralmeida.org), Paulo Almeida lançou um grosso volume de pesquisa histórica sobre os fundamentos da diplomacia brasileira na área econômica: Formação da diplomacia econômica no Brasil: as relações econômicas internacionais no Império (São Paulo: Senac-Funag, 2001), que faz o balanço da inserção econômica internacional do Brasil ao longo do século XIX. Leia Mais

Formação da diplomacia econômica no Brasil: as relações econômicas internacionais do Império | Paulo Roberto de Almeida

Globalização, patentes, OMC e aviões brasileiros são alguns dos temas com crescente aparição nos meios de comunicação. Este fato já seria suficiente para que o leitor voltasse sua curiosidade para estes assuntos. Ainda, se considerarmos que a compreensão destes tópicos é essencial para um melhor posicionamento do Brasil em um contexto de crescente internacionalização das sociedades, será fácil concluir que todo esforço na criação de uma opinião pública melhor informada deva ser bem recebido. A publicação de Formação da diplomacia econômica no Brasil – as relações econômicas internacionais no Império de Paulo Roberto de Almeida é uma dessas tentativas.

Edição conjunta da Editora SENAC e FUNAG (Fundação Alexandre de Gusmão), este livro é o primeiro de uma projetada trilogia que pretende avançar o estudo do tema até o presente. Apesar disso, verifica-se que este primeiro volume editado em 2001 é um livro que se auto-sustenta tanto em conteúdo como pela suas quase 680 páginas. Leia Mais

Maldita guerra: nova história da Guerra do Paraguai | Francisco Doratioto

A 7 de dezembro de 1864, o diplomata Edward Thornton, representante britânico na Argentina e Paraguai, escreveu ao chanceler paraguaio José Berges uma carta que comprova o desinteresse da Grã-Bretanha na eclosão de uma guerra entre o Paraguai e seus vizinhos. No documento, Thornton afirma textualmente: “V.E. sabe que a Inglaterra também está em atritos com o Brasil, de modo que tanto por esse motivo, como pela falta de instruções de meu governo, não poderia fazer nada de oficial com seu governo; mas particularmente sim, se puder servir, no mínimo que seja, para contribuir para a reconciliação dos dois países, espero que V.E. não hesite em me utilizar”.

A disposição do representante britânico de colaborar para evitar o conflito entre Brasil e Paraguai é uma das muitas surpresas guardadas na obra do historiador Francisco Doratioto, que desfaz um dos maiores mitos a respeito da Guerra do Paraguai: o de uma guerra que teria sido provocada pelos interesses “imperialistas” britânicos. Construído inicialmente pelo revisionismo histórico paraguaio, a valorização da figura de Solano López chegou ao paroxismo no final dos anos 1960, quando intelectuais nacionalistas e de esquerda o elevaram à condição de líder antiimperialista. Uma geração inteira de brasileiros concluiu seus estudos secundários e mesmo de nível superior acreditando que o Paraguai alcançou um bom nível de desenvolvimento após a independência, possuía um projeto autônomo e equilibrado de crescimento e que foi destruído pela Tríplice Aliança, por representar uma ameaça aos interesses ingleses na região. A Grã-Bretanha teria se utilizado do Brasil, da Argentina e do Uruguai para pôr fim ao projeto paraguaio. Leia Mais

El Cono Sur. Una historia común | Mario Rapoport e Amado Luiz Cervo

Relançado em edição revista e ampliada pela Editora Fondo de Cultura Económica, El Cono Sur.Una historia común (História do Cone Sul. Rio de Janeiro: Revan, 1998) amplia a oportunidade oferecida ao público das relações internacionais de conhecer uma nova história da América Latina, contada de forma conjunta por alguns dos mais renomados pesquisadores brasileiros e argentinos, como Amado Luiz Cervo, Mario Rapoport, Luiz Alberto Moniz Bandeira, Eduardo Azcuy Ameghino, Edmundo A. Heredia e Francisco Doratioto.

No momento em que mudanças políticas e econômicas fundamentais surpreendem os principais países latino-americanos, os trabalhos apresentados pelos autores servem como uma resposta às indagações muitas vezes feitas pelos tomadores de decisão a respeito da importância da renovação e aprofundamento dos laços de integração regional como forma de recuperação dos rumos do desenvolvimento. Leia Mais

Israel-Palestina: a construção da paz vista de uma perspectiva global | Gilberto Dupas e Tullo Vigevani

Há algo singular na apreciação das relações internacionais contemporâneas e na história das relações internacionais do século XX. Apenas um tema tem sido ultrapassado, em volume e proporção quantitativa, pelo estudo das questões Israel-Palestina: a Grande Guerra de 1914-1918. Isso evidencia algo a nos induzir a uma forte preocupação: mais do que a paz, como lembram os clássicos realistas, a guerra é ainda o cerne a dar fundamento epistemológico às relações internacionais.

Nesse sentido, à primeira vista, pareceria que o livro organizado por Dupas e Vigevani padeceria da síndrome do sucesso do tema em voga ou da pouco criativa recorrência ao lugar comum, ao já dito, ao já qualificado. Em outras palavras, ao déjà vu. Mas não é isso o que emerge ao longo da leitura da coletânea conduzida pelos colegas paulistas. O conflito Israel-Palestina é posto em tela de uma maneira original, no esforço teleológico da busca de caminhos da paz. Os autores, ao aceitarem o desafio, não reificam a guerra, mas a desconstroem, de fato, por meio de múltiplos olhares e binóculos distintos, mas a partir da mesma colina: a da vontade de celebrar a convivência de contrários. Leia Mais

O Direito Internacional em um mundo em transformação | Antonio Augusto Cançado Trindade

Um livro de mais de mil páginas assustaria grande parte dos leitores contemporâneos, ávidos por literatura ligeira, descartável e de linguagem fácil. A esse leitor desapercebido, sem interesse ademais por um substantivo discurso jurídico – a incluir a dimensão de um “mundo em transformação”, quando o que lhe interessaria seria a “conservação do mundo”, da sua paróquia, da sua tribo, como nos faz recordar Mafesoli – o novo livro de Antonio Augusto Cançado Trindade nada lhe dirá.

A todos nós, no entanto, que acompanhamos desde os anos 1970, a difícil forja de um pensamento brasileiro de relações internacionais, não mais prisioneiro da cópia e da reprodução colonial que insiste em imperar nas salas de aula dos nossos cursos de graduação e pós-graduação na área, nada poderia ser mais bem recebido que o novo livro do grande internacionalista. Reagindo de forma explícita à reprodução do discurso dos outros, especialmente dos centros hegemônicos, mas antenado à revolução conceitual e na jurisprudência do Direito Internacional Público nas últimas décadas em muitas partes do mundo, a obra do elegante professor e jurista brasileiro das relações internacionais traz um contentamento elevado para todos aqueles que militam no campo. Leia Mais

Argentinos e brasileiros: encontros, imagens e estereótipos | Alejandro Frigerio e Gustavo Ribeiro Lins

Revista Brasileira de Política Internacional tem informado seus leitores, nos últimos anos, acerca da volumosa literatura lançada pelo mercado editorial do Mercosul sob a forma de estudos coletivos empreendidos, sobretudo, por brasileiros e argentinos. Esses estudos fizeram avançar o conhecimento do outro, constituindo contribuição importante da academia aos tomadores de decisão no âmbito das relações bilaterais e do processo de integração.

Dois renomados acadêmicos, um argentino, Alejandro Frigerio, e outro brasileiro, Gustavo Lins Ribeiro, inscrevem-se nessa linhagem de lideranças intelectuais capazes de compor grupos mercosulinos de estudo e nos brindam com uma análise original de interações concretas, revelando aspectos antropológicos da convivência dos povos do Cone Sul. Leia Mais

Um estudo crítico da História | Hélio Jaguaribe

Os recentes eventos – espetaculares impactos de aviões comerciais cheios de desprevenidos passageiros, chocando-se com o maior edifício de Nova York e um dos maiores do mundo, ademais de outro tanto contra o Pentágono, Ministério da Defesa em Washington – levaram o próprio presidente dos Estados Unidos, George W. Bush, a declarar, a telespectadores estupefactos em escala mundial pela comunicação instantânea via satélite, que se tratava da primeira guerra mundial do século XXI.

Naturalmente logo vieram recordações do otimismo de Francis Fukuyama em muito discutido artigo publicado na revista Foreign Affairs sobre o fim (pacífico…) da história, e pessimismo de Samuel P. Huntington em artigo, também ali, transformado em livro sobre o choque das civilizações. Leia Mais

O Populismo e sua História: debate e crítica | Jorge Ferreira

A coletânea reúne textos de sete historiadores, uma antropóloga e uma socióloga, num total de sete artigos, já que dois deles são escritos a quatro mãos. Constituem uma plêiade de pesquisadores contemporâneos que labutam nos departamentos de História, Antropologia e Sociologia de universidades como USP, UFF, UFRJ, UFMG, Metodista de Piracicaba e Escola Sindical São Paulo, vinculada à CUT. Não seria exagerado afirmar que se trata de um livro que corta e recorta, não sem marcar o nosso tempo, a categoria populismo e seu corolário histórico mais imediato, a chamada democracia populista que teria sua vigência mais arrebatadora entre 1945 e 1964. Do fato de que o uso da categoria remete à noção de traição, ninguém ficaria contrariado e, embora nem os seus críticos nem os seus defensores tenham aludido a hipóteses psicológicas, talvez não fosse despropositado mencionar que a própria idéia de traição política e de classe teria gerado no Brasil um fenômeno de complexo de populismo. O propósito da minha recensão é tentar elucidar, com a verve e a argúcia dos autores reunidos, a teoria e o complexo, tarefa nada fácil para o espaço normativo das revistas nacionais em se tratando de polêmicas historiográficas. Leia Mais

Breve painel etno-histórico de Mato Grosso do Sul | Gilson Rodolfo Martins

A década de 1990 testemunhou o florescimento de obras de divulgação sobre povos indígenas no Brasil, feitas por antropólogos, historiadores e arqueólogos profissionais. Em grande medida, esses livros levaram ao grande público informações básicas e corretas, suplantando uma série de erros e má interpretações perpetradas e reproduzidas pela maioria dos livros didáticos do Ensino Fundamental e do Ensino Médio. Outra contribuição importante desses trabalhos é a difusão de conteúdos politicamente orientados, visando levar ao público conhecimentos que auxiliem na formação de opiniões humanitárias e democráticas baseadas na ética e na justiça social, tanto para reduzir o preconceito e etnocentrismo arraigados contra os povos indígenas, quanto para que se possa ponderar adequadamente sobre os diversos conflitos interétnicos, especialmente em relação à luta pela manutenção e/ou reconquista de territórios tradicionais.

De forma simpática e concisa, porém crítica e cientificamente consistente, Gilson Rodolfo Martins traça um completo painel sobre as populações indígenas situadas no território do Estado do Mato Grosso do Sul. Trata-se de uma segunda edição, revista e ampliada, que resume com clareza a Pré-História das populações que ocuparam a região a partir de, pelo menos, 10 mil anos atrás, conforme as inúmeras evidências e pesquisas arqueológicas realizadas nas últimas duas décadas. Na seqüência apresenta as populações da região desde os primeiros contatos com os europeus até o presente, destacando alguns aspectos marcantes das suas sociedades, das suas culturas materiais e dos seus imaginários, destacando a composição multiétnica dos povos indígenas. Leia Mais

Breve painel etno-histórico de Mato Grosso do Sul | Gilson Rodolfo Martins

A década de 1990 testemunhou o florescimento de obras de divulgação sobre povos indígenas no Brasil, feitas por antropólogos, historiadores e arqueólogos profissionais. Em grande medida, esses livros levaram ao grande público informações básicas e corretas, suplantando uma série de erros e má interpretações perpetradas e reproduzidas pela maioria dos livros didáticos do Ensino Fundamental e do Ensino Médio. Outra contribuição importante desses trabalhos é a difusão de conteúdos politicamente orientados, visando levar ao público conhecimentos que auxiliem na formação de opiniões humanitárias e democráticas baseadas na ética e na justiça social, tanto para reduzir o preconceito e etnocentrismo arraigados contra os povos indígenas, quanto para que se possa ponderar adequadamente sobre os diversos conflitos interétnicos, especialmente em relação à luta pela manutenção e/ou reconquista de territórios tradicionais. Leia Mais

O rei no espelho. A monarquia portuguesa e a colonização da América: 1640-1720 | Rodrigo Bentes Monteiro

Publicado em 2002, O rei no espelho, de Rodrigo Bentes Monteiro, parte da análise de movimentos de caráter contestatório, ocorridos em Seiscentos e Setecentos, nas possessões americanas de Portugal, a fim de perscrutar as relações entre os vassalos sediados em diferentes regiões da América portuguesa e o Estado metropolitano, em momentos de crise política no âmbito europeu.

O autor parte da assunção de que, no tocante ao Brasil, há de fato possessões coloniais, não possessão, pois, adotando a formulação de Ilmar Rohloff de Mattos referente à noção de região, concebe social, política e economicamente a colônia americana como conjunto de enclaves de colonização lusa na América e busca, a partir de tal assunção, compreender como as diferentes realidades regionais implicaram formas diferenciadas de relacionamento entre vassalos e Coroa. Leia Mais

Vida e morte no sertão: história das secas no Nordeste nos séculos XIX e XX – VILLA (RBH)

VILLA, Marco Antonio. Vida e morte no sertão: história das secas no Nordeste nos séculos XIX e XX. São Paulo: Ática, 2000. 269p. Resenha de: MARTINEZ, Paulo Henrique. Revista Brasileira de História, São Paulo, v.22, n.43, 2002.

Onde reside o interesse de um livro sobre a história das secas no nordeste do Brasil, nos dois últimos séculos? As secas constituem uma realidade presente, atuante nos dias de hoje, como no passado. E isto já bastaria para uma boa recepção ao livro de Marco Antonio Villa, não trouxesse o volume outras tantas qualidades, e também problemas. O que faz de Vida e morte no sertão uma obra não apenas necessária, mas original e instigante, pelo que oferece, pela ajuda que fornece na compreensão do tema e pelo que faz pensar. O impacto provocado pela leitura é comparável àquele de Estação Carandiru, do médico Drauzio Varela, uma vez que ambos expõem as chagas e a indiferença da sociedade e do Estado, no Brasil, diante das mazelas sociais. Este sabor de livro-denúncia, temperado com demonstrações da negligência, incúria, violência, corrupção, manipulação e clientelismo reinantes, decorre da observação, em perspectiva temporal extensa, quase duzentos anos, da ação “reparadora” do Estado brasileiro nos momentos de seca. Villa não aborda a estrutura econômica e social nordestina, sob a qual se abate a calamidade, a mesma que produz e reforça seus efeitos, mas rastreia a ação de órgãos dos governos estaduais e federal, registrando o comportamento e a conduta das elites sociais e dos dirigentes políticos naquela região. A leitura de Vida e morte no sertão pode ser enriquecida, ainda, com outras publicações recentes, tais como Seca e poder: entrevista com Celso Furtado, da Fundação Perseu Abramo (1998), O “Dossiê Nordeste seco”, organizado pelo geógrafo Aziz Ab’Saber para a revista Estudos Avançados (IEA/USP, nº 36, 1999), e A invenção do Nordeste e outras artes, de Durval Muniz de Albuquerque (Cortez/Massangana, 1999).

A criatividade inventiva do autor foi capaz de suplantar a aridez intelectual que caracterizou as iniciativas governamentais na passagem dos quinhentos anos da viagem de Cabral. A realização da pesquisa contou com o apoio do Instituto Teotônio Vilela, ligado ao PSDB, que veio somar sua participação à de outras entidades similares, como a Fundação Perseu Abramo, ligada ao PT, e o Instituto Tancredo Neves, ao PFL. Distantes de desempenhar um papel de think tank nesses partidos, a preocupação que cada um deles, e à sua maneira, demonstra em pensar e conhecer o país não deixa de ser louvável.

O livro estuda as principais secas ocorridas no nordeste brasileiro, entre os séculos XIX e XX, até o governo do general Figueiredo (1979-1985). Uma questão incomoda o autor, e ele a perseguiu com denodo ao longo dos capítulos: o saldo de mortos com as sucessivas secas, de um lado, e o imobilismo das autoridades públicas e da sociedade, de outro. Em operações de mórbida matemática, Villa estimou em torno de três milhões de pessoas as vítimas fatais nesses dois séculos. Um novo holocausto, equivalente a duas guerras do Vietnã. Eis porque o livro é portador de “uma triste história em que a morte rondou diuturnamente a vida dos sertanejos” (p. 13). A seca de 1877-1879, uma das mais terríveis, teria dizimado cerca de 4% da população nordestina, erigindo o Nordeste, desde então, em “região-problema”. Já a morte, convertendo-se em personagem principal, comparece na abertura de todos os capítulos e no encerramento do livro. Ao fechá-lo tem-se a sensação de haver assistido a um espetáculo macabro, impressionante. Palco privilegiado para atuação da morte e dos desmandos parece ter sido o Ceará. Não se sabe se pelas condições particulares daquele Estado ou se pelas condições de acesso e disponibilidade de fontes e documentação, há no livro um certo protagonismo cearense em várias das situações estudadas.

No conjunto ressalta um minucioso trabalho de pesquisa, exemplar em qualidade de análise, dos dados coligidos, na reconstituição de contextos e conjunturas. Os efeitos das secas sobre a economia regional e os grandes prejuízos que ocasionam; o fenômeno das migrações, orientadas, ao longo do tempo, para quase todo o Brasil, com destaque para o Maranhão, Pará, Amazonas, São Paulo, Rio de Janeiro, Distrito Federal e capitais do Nordeste; o surgimento de expressões, personagens e situações próprias ao universo das secas, como “indústria da seca”, a Sudene, os saques, retirantes, epidemias, frentes de trabalho, entre outros. Cenários que abrem o leque de problemas correlatos para novas pesquisas, tais como o papel da imprensa, os efeitos das intervenções governamentais, os movimentos sociais, o universo cultural e o imaginário das secas, as ações da Igreja e dos partidos, o Nordeste como “região-problema”, o impacto sobre as comunidades agrárias e a história regional. Se a introdução de dromedários na região, na década de 1850, fez a esperança de superação dos problemas das secas recair antes nas costas desses animais do que na ação dos homens, nas décadas de 1950 e 1960, as repetidas tentativas de definir uma política de desenvolvimento para o Nordeste tornaram-se pregações no deserto. A “inação” dos homens e a inclemência da natureza regaram o canteiro dos discursos de identidade regional, tragando inclusive o Estado da Bahia, até então, unidade avulsa na federação brasileira. Lástima o livro não incorporar o tratamento dispensado às secas sob os governos civis, afinal, Sarney e Collor foram “presidentes do Nordeste”, e na década de 1990, quando o PSDB dirigiu o País. O Instituto Teotônio Vilela poderia, assim, refletir e extrair lições sobre o comportamento de seu próprio partido no governo e das ações que este desenvolveu para enfrentar as calamidades provocadas pelas secas, como a de 1998, por exemplo. Teria havido, nestes últimos anos, mudanças nos procedimentos administrativos de prevenção e reparação dos males? Vida e morte no sertão também desperta a cobiça por estudos comparativos. Em 1998, diante dos incêndios florestais em Roraima (não haveria outras situações semelhantes na região amazônica?), a postura do governo federal diferiu ou se assemelhou àquelas estudadas neste livro? Eis uma questão que pede esclarecimentos. E alguma pesquisa, não uma história-catástrofe.

Onde reside, para os historiadores, o interesse de um livro sobre a história das secas no nordeste do Brasil, nos dois últimos séculos? O interesse pelo Nordeste é remoto e diversificado, conforme constatou a professora Suely Robles Reis de Queiroz, autora de uma Historiografia do Nordeste (São Paulo. Secretaria da Cultura/Arquivo do Estado, 1979, Col. Monografias, 2), dado, por exemplo, o papel que aquela porção de terra ocupou na América portuguesa. Há, também, no livro de Marco Antonio Villa, esse curioso ponto de partida, a geografia, o espaço, as condições climáticas e as particularidades que resultam das intervenções humanas, produtoras das peculiaridades dessa “região”, examinadas em suas dimensões propriamente temporais. Um encontro entre as preocupações da História e da Geografia que caminham, juntas e atentas, às relações entre Estado e sociedade no Brasil. Diante dos problemas que, acredita Villa, deveriam ser enfrentados, o da terra, com a realização de reforma agrária e o estabelecimento de lavouras secas, e o da água, com o armazenamento e o uso social dos recursos hídricos, estariam plantados os “condottieri do atraso”, a elite social e política nordestina. Eis, então, uma questão para os historiadores: “Os fatores de conservação transformaram o semi-árido em uma região aparentemente sem história, dada a permanência e imutabilidade dos problemasComo se com o decorrer das décadas nada tivesse se alterado e o presente fosse um eterno passado. A cada seca, e mesmo no intervalo entre uma e outra, milhares de nordestinos foram abandonando a região. Sem esperança de mudar a história das suas cidades, buscaram em outras paragens a solução para a sobrevivência das suas famílias. Foi nos sertões que permaneceu inalterado o poder pessoal dos coronéis, petrificado durante o populismo e pela migração de milhões de nordestinos para o sul” (p. 252, grifos meus). Como explicar esta persistência? De onde ela emerge e como se alimenta? Ousaria dizer que nas respostas àquela situação encontram-se elos dessa corrente do passado. Uma rigorosa evasão das populações, de um lado, fazendo de cidades e roças fontes ininterruptas de mão-de-obra barata, e a reiteração cultural das elites sociais e políticas, por outro, transformando-as em ponto de sustentação política dos governos estaduais e federal, têm sido respostas que aprisionam os homens à realidade que querem evitar. É o que se depreende de uma leitura desse livro, amparada em Fernand Braudel. Foi por dever de ofício, que o ministro do interior do governo Figueiredo, Mário Andreazza, aspirante à presidência da República, fez perto de sessenta visitas ao Nordeste, entre 1979-1981? Curiosa, também, a omissão da esquerda brasileira perante as secas. O PCB, diz o autor, “omitiu-se politicamente durante os flagelos” e “nunca se dispôs a apresentar um programa para a região” (p. 253).

Uma última palavra, sobre a religiosidade nordestina. Vista, até pouco anos atrás, por segmentos políticos e intelectuais, como uma dentre outras rotas de fuga da seca, ao lado da migração para as cidades e outras regiões do Brasil e, no passado, o cangaço e a jagunçama, a devoção religiosa foi associada a comportamentos sociais passivos no Nordeste, onde Canudos e Caldeirão formariam exceções à regra. Contudo, ao renovar esperanças em dias melhores, chuvas, chegada de alimentos, terra, sobrevivência dos roçados, essa mesma religiosidade converte-se em fator de “promoção social” e de expectativa de uma sedentarização, em condições outras. Permitiria, então, entrever possibilidades distintas daquelas “respostas”, anteriormente referidas?

Paulo Henrique Martinez – UNESP – Assis.

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Projeto e Missão: o Movimento Folclórico Brasileiro (1947-1964) | Luís Rodolfo Vilhena

VILHENA, Luís Rodolfo. Projeto e Missão: o Movimento Folclórico Brasileiro (1947-1964). Rio de Janeiro: FGV, 1997. Resenha de: COSTA, Michel DalCol; SANTOS, Estilaque Ferreira dos. O Movimento Folclórico Brasileiro (1947-1964) e o Debate Atual Sobre Folclore. Dimensões. Vitória, n.14, p.521-525, 2002. Acesso apenas pelo link original [DR]

Lajja – Shame | Taslima Nasrin

Os problemas que ora se agudizam na denominada região da Caxemira remontam ao período imediatamente posterior à separação das regiões noroeste e nordeste da Índia, respectivamente no dia 15 de agosto de 1947, quando os ingleses deixaram a Índia e foi criado o Estado do Paquistão, e em 26 de março de 1971, quando o Paquistão oriental ganhou sua independência, tornando-se o país Bangladesh. Houve um tempo em que povos de crenças distintas conviviam com relativa harmonia naquelas terras hoje divididas e rebatizadas. Com a formação dos Estados do Paquistão e de Bangladesh em conseqüência dessa partilha do território indiano, iniciou-se o reordenamento de fundamentalistas religiosos em busca de novas causas. O desastre do domínio imperial britânico na região resultou no que hoje conhecemos de Bangladesh ou da região de Bengala (atual Bangladesh, Calcutá e arredores). O que era antes um dos lugares mais ricos do mundo tornou-se um abrigo da miséria humana:

Não resta dúvida de que o domínio imperial tenha sido um desastre. Veja a Índia por exemplo. Quando os britânicos chegaram pela primeira vez, Bengala era um dos lugares mais ricos do mundo. Os primeiros mercadores britânicos descreveram-na como um paraíso. Essa é, atualmente, a área de Bangladesh e Calcutá, um símbolo de desespero e pobreza (Chomsky, 1999 p. 84). 1 Leia Mais

Natureza em Boiões: medicinas e boticários no Brasil setecentista | Vera Regina Beltrão Marques

O universo dos saberes e das práticas medicinais no período colonial vem sendo tema de importantes trabalhos. Somando-se à recente pesquisa de Márcia Moisés Ribeiro – que resultou no livro A ciência dos trópicos: a arte médica no Brasil do século XVIII –, Natureza em Boiões: medicinas e boticários no Brasil setecentista, de Vera Regina Beltrão Marques, oferece-nos uma contribuição original ao estudo do problema.

Natureza em Boiões apresenta uma questão fundamental: a diversidade das raízes culturais das populações aqui residentes, mais do que a falta de médicos, teria sido crucial para a persistência de práticas de curas plurais nos trópicos. Em última instância, parte dos medicamentos receitados pelos doutos coimbrãos seria constituída por fórmulas resultantes da aproximação das culturas presentes no Brasil. Mesmo vulgarizados, muitos desses saberes provinham da intuição e do uso secular daqueles curandeiros e pajés conhecedores das matas, em caminhos nunca dantes palmilhados pelos colonizadores. Saberes muitas vezes relegados no plano do discurso por parte dos colonizadores, na prática, teriam sido fundamentais para a constituição da ciência farmacêutica moderna do Ocidente. Leia Mais

Mulheres da floresta: uma história – Alto Juruá/ Acre (1890-1945) | Cristina Scheibe Wolff

A historiografia costuma descrever a história da Amazônia a partir do surgimento da exploração comercial do látex da seringueira e da grande quantidade de nordestinos que passaram a migrar para a região, principalmente após as secas da década de 1870. Para exemplificar este tipo de abordagem onde a economia da borracha e suas ligações com o mercado externo aparecem com destaque, podemos citar a numerosa obra de Arthur Cesar Ferreira Reis. Entretanto, o livro Mulheres da floresta: uma história – Alto Juruá, Acre (1890-1845) de Cristina Scheibe Wolff aponta em outra direção. A autora critica esta perspectiva, a qual denominou de “fetichização da mercadoria”, e ressalta as relações sociais e as experiências vividas por indivíduos, especialmente por mulheres, no cotidiano da floresta.

Para tanto, Cristina Wolff reuniu fontes variadas como, por exemplo, processos civis e criminais (encontrados no Fórum de Cruzeiro do Sul), jornais, relatórios, textos e diários de viajantes (como Constantin Tastevin, Craveiro Costa, Euclides da Cunha, Chandless, Belarmino Mendonça, entre outros). Ao cruzar dados diversos, obteve informações acerca das idades em que os matrimônios se realizavam, seus motivos, a profissão dos envolvidos, as causas de defloramento e assassinato de mulheres, que iluminaram suas conclusões acerca das relações familiares e do cotidiano. Todo este trabalho documental foi somado a um significativo acervo de fontes orais, composto por 26 depoimentos gravados e transcritos, na maioria de mulheres entre sessenta e noventa anos, produzidos em 1995, durante o ano em que a historiadora viveu entre os seringueiros. Leia Mais

Vizinhos distantes: universidade e ciência na Argentina e no Brasil | Hugo Lovisolo

O livro de Hugo Lovisolo, escrito numa prosa clara, fluente e não uniforme, ao mesmo tempo que conceitualmente precisa, parte de um tema rico e de um problema oportuno: realizar um estudo comparativo entre o desenvolvimento científico da Argentina e do Brasil, que, apesar das muitas semelhanças, seguiram caminhos distintos. O autor se pergunta, já desde o início, o que interessa às comunidades científicas de muitos países, particularmente as latino-americanas: “historicamente, desde a conquista, os vizinhos próximos herdaram tradições religiosas, políticas, culturais e posições econômicas estruturais bem mais semelhantes do que na comparação com os vizinhos distantes … . Diante do pano de fundo das semelhanças, emerge então com naturalidade a questão geral: como e por que foram geradas as diferenças” (p. 9). O período tratado vai, grosso modo, de 1900 a 1970, mas o século XIX acaba sendo englobado por conta da análise, imprescindível, da influência do positivismo, com suas nuanças e matizes, em ambos os países.

As 132 páginas dividem-se em cinco capítulos, além da ‘Introdução’, na qual o autor apresenta o livro, suas intenções e premissas, e adiciona os agradecimentos. Sua premissa básica é que, em princípio, desenvolvimento econômico e desenvolvimento científico e cultural caminham juntos. Nos dois casos sob análise essa relação não é direta, o que conduz a um paradoxo que terá função heurística, como explica o autor já na primeira página. Outra premissa importante é que comparações com não-vizinhos, principalmente com os freqüentemente citados Estados Unidos, Inglaterra e França, por haverem sido já muito exploradas, estariam agora, de certo modo, esgotadas como desafio intelectual, e portanto valeria a pena apostar na comparação com a América Latina. Leia Mais

Il gênio dello storico: le considerazioni sulla storia di Marc Bloch e Lucien Febvre e Ia tradizione metodológica francese | Massimo Mastrogregori

Resenhista

Raimundo Barroso Cordeiro Junior – Professor da Universidade Federal da Paraíba.

Referências desta Resenha

MASTROGREGORI, Massimo. Il gênio dello storico: le considerazioni sulla storia di Marc Bloch e Lucien Febvre e Ia tradizione metodológica francese. Napoli: Edizione Scientifiche Italiane, 1987. Resenha de: CORDEIRO JUNIOR, Raimundo Barroso. História Revista. Goiânia, v.7, 1-2, p.157-167, jan./dez.2002. Acesso apenas pelo link original [DR]

Cartografias dos estudos culturais: uma versão latino-americana | Ana Carolina D. Escosteguy

Resenhista

Eugênio Rezende de Carvalho – Professor da Universidade Federal de Goiás.

Referências desta Resenha

ESCOSTEGUY, Ana Carolina D. Cartografias dos estudos culturais: uma versão latino-americana. Belo Horizonte: Autêntica, 2001. Resenha de: CARVALHO, Eugênio Rezende de. História Revista. Goiânia, v.7, 1-2, p. 169-176, jan./dez.2002. Acesso apenas pelo link original [DR]

O fim da utopia: política e cultura na era da apatia | Jacoby Russell

Resenhista

Ademir Luiz da Silva– Mestre em História das Sociedades Agrárias pela Universidade Federal de Goiás.

Referências desta Resenha

RUSSELL, Jacoby. O fim da utopia: política e cultura na era da apatia. Trad. Clóvis Marques. Rio de Janeiro: Record, 2001. Resenha de: SILVA, Ademir Luiz da. História Revista. Goiânia, v.7, 1-2, p. 177-180, jan./dez.2002. Acesso apenas pelo link original [DR]

Lais de Maria de França | Antonio L. Furtado

Escritos no século XII quando a Europa Ocidental vivia a sua “Renascença” e desfrutava a delicada experiência da cortesia, os Lais de Maria de França mostram aos leitores do século XXI um retrato elaborado com finas cores da sociedade medieval e, principalmente, de elementos da cultura celta que estão presentes em alguns lais.

Esses textos denominados “lai” têm a sua origem na palavra celta “laid” que significa “canto”. Portanto, essas composições na sua origem provavelmente foram cantadas, acompanhadas do alaúde e das flautas, e foram compostas por uma mulher da qual, pouco se conhece da sua biografia (a hipótese mais provável é que foi meia-irmã do rei Henrique II da Inglaterra). Esses lais carregam em suas linhas elementos importantes para o estudo da cultura e da sociedade celta.

Há três lais que chamam a atenção quando tratamos dos elementos celtas. São eles: “Freixo”, “Dois Amantes” e “Madressilva”. Este último nos apresenta o episódio da madressilva e da aveleira, passagem de Tristão e Isolda , uma das mais populares narrativas medievais.

O lai “Freixo”, tem o nome de uma frondosa e bela árvore que na mitologia celta tem caráter sagrado. O freixo, (Fraxinus Excelsior) é uma árvore que tem o poder de afugentar cobras e de proteger todos aqueles que estão sob a sua sombra, segundo a mitologia e as crenças que surgiram em torno da grande árvore.

Essa árvore é responsável pela ligação com o mundo dos deuses ( na mitologia nórdica o Feixo é Yggdrasil, a Árvore do Mundo) e pela proteção para os homens. Encontramos narrado nesse lai a história da menina de origem nobre que é abandonada sob um freixo: “…largo e copado, muito espesso e frondoso, dividia-se em quatro ramificações. Fora plantado para dar sombra.” “… porque fora achada no freixo, Freixo foi o nome que lhe deram e todos a chamavam Freixo.” (p.68/69).

Esses são elementos importantes para entendermos o caráter sagrado da natureza e a interação entre o mundo sagrado e o humano.

“Dois Amantes” narra uma aventura passada na Normandia (Noroeste Francês, região vizinha à Bretanha, região fortemente marcada pela cultura celta) e a autora nos informa que foram os Bretões que fizeram um lai para contar essa aventura.

Uma bela jovem filha de um rei será dada em casamento aquele que conseguir escalar um alto morro carregando-a em seus braços sem parar para descansar.

A donzela conhece um belo jovem e os dois se apaixonam, e para conseguir cumprir a tarefa exigida pelo rei recorrem a uma mulher sábia, parenta da jovem, para que prepare uma poção que dê forças ao jovem. Mas, com a donzela nos braços esquece a poção e cai morto no pico do morro. A missão fora cumprida. A jovem enlouquecida pela morte do amado joga o frasco com a poção que se espalha na terra trazendo fertilidade ao lugar e alegria aos seus moradores.

A presença de uma mulher, parenta da jovem que “… tanto praticou a arte da medicina que é muito perita em remédios, tanto conhece ervas e raízes” (p.97) mais uma vez nos remete aos celtas: a presença da mulher mais velha detentora do conhecimento das artes da cura que se coloca a serviço do amor entre os jovens.

No lai “Madressilva”, que também é conhecido pelo nome francês “Chievrefoil”, nos conta o encontro de Tristão e Isolda numa floresta.

Desesperado por estar distante de sua amada Tristão molda um bastão com um galho da aveleira e escreve a mais marcante frase da narrativa de Tristão e Isolda:

-Bela amiga, entre nós é assim:

nem eu sem vós, nem vós sem mim”.(p.131)

Escreve isso porque observa o que acontece com a madressilva e a aveleira: quando elas se entrelaçam podem viver por um longo período, mas separadas, morrem, uma em seguida da outra.

Esses três lais nos dão uma mostra do que é possível encontrarmos nas pequenas narrativas escritas por Maria de França: um mundo envolto em magia, onde ocorrem as metamorfoses de um príncipe em cisne para conquistar sua amada, como acontece no lai “Milun”, ou então, a maldição que persegue o príncipe em “Homem-Lobo”.

As mulheres são descritas de maneira singular: envoltas nos seus véus e brocados ocultam as suas estratégias para estarem junto dos seus amados.

A natureza está sempre presente pelas árvores: freixo, a aveleira e a madressilva que nos remetem ao mundo natural, o que, para os celtas representava o elo de ligação entre os homens e o mundo sagrado.

Os lais estão permeados por elementos mágicos e naturais, o que nos leva a vislumbrar o mundo com os olhos dos celtas, onde o sagrado e o humano vivem em harmonia e colocam as mulheres muitas vezes como interlocutoras entre esses dois universos.

A tradução brasileira realizada por Antonio L. Furtado é cuidadosa e oferece ao leitor um texto leve e melodioso, conservando em suas linhas a musicalidade herdada dos celtas. O prefácio de Marina Colasanti é o convite para um passeio no mundo celta descrito em cada lai.

O público brasileiro – estudioso ou não da Idade Média – ganhou muito com a publicação dos Lais de Maria de França, não só pela excelente tradução diretamente do francês antigo, mas por ter em mãos uma obra que oferece uma das chaves para o conhecimento do mundo celta e da sociedade medieval do século XII.

Luciana Campos – Doutoranda em Letras/UNESP/S.J. Rio Preto. E-mail: lucampos@eudoramail.com


FURTADO, Antonio L. (Tradução e Introdução). Lais de Maria de França. Prefácio de Marina Colassanti. Petrópolis, Rio de Janeiro: Vozes, 2001. Resenha de: CAMPOS, Luciana. Brathair – Revista de Estudos Celtas e Germânicos. São Luís, v.2, n.1, p.62-63, 2002. Acessar publicação original [DR]

Os Lusitanos | Adriano Vasco Rodrigues

No primeiro número do Brathair apresentei um artigo sobre os lusitanos. Entendi que um grupo de estudo dedicado aos “Celtas e Germanos” deveria, em sua manifestação inicial ao público, lembrar o principal laço que pela tradição une os brasileiros aos celtas. Essa iniciativa a assumi por ser, no grupo do Brathair, o único português, provável descendente dos lusitanos. Sabia que seria difícil encontrar bibliografia que me fornecesse subsídios para redigir o artigo, e a de que dispunha estava desatualizada; mas contava com a colaboração de professores portugueses, e de livrarias de Lisboa. As expectativas, porém, foram fraudadas e tudo o que me respondiam era “não há obras disponíveis sobre esse assunto”, “não sei quem se interessa pelo tema”. Lembrando porém antigas leituras, consultando amigos esforçados em me ajudar, e comparando a literatura possível, cheguei a conclusões e definições que arrisquei expor, e que brevemente retomo aqui, com os retoques próprios de uma apresentação sumária, começando pela questão da ascendência lusitana dos portugueses. Ora neste ponto parece que se pode dizer com tranqüilidade que os lusitanos são prováveis antepassados dos atuais portugueses, mas não de todos, nem no todo: a área abrangida pela ocupação desse povo na Península Ibérica corresponde apenas à região entre o Douro e o Tejo, e avança pela Estremadura espanhola e Castela-a-Nova; e como ascendentes dos portugueses os lusitanos se miscigenaram em proporções variáveis com os romanos (mais no Sul), com os germanos (mais no Norte) com mouros e berberes (no Sul) e muitos outros povos; além disso, sobretudo se acreditarmos nos relatos dos romanos, na longa guerra de dois séculos que sustentaram contra o Império, os lusitanos foram dizimados, e não foram muitos os que ficaram para serem legítimos antepassados dos portugueses.

Outra questão controversa é a da origem dos lusitanos; parece que a maioria dos autores se inclina pela ascendência local, recuando às ocupações megalíticas da Península; os lusitanos seriam a resultante de um povo de migração muito antiga, de cultura aparentada com outras culturas pré-históricas européias, que sofreu influências ibéricas em muitos aspectos da vida quotidiana – embora também pouco se saiba sobre a origem dos iberos. Será preciso também, para abordar corretamente a origem étnica e a cultura dos lusitanos, distinguir os das montanhas do interior dos habitantes das cidades do litoral, bem como os do norte dos do sul, sobretudo pelo fato da região do Tejo Ter ficado muito mais exposta à penetração dos povos do sul: célticos, cinéticos, e cônios, por sua vez relacionados com turdetanos, fenícios, e norte africanos. Por outro lado, a arqueologia diz-nos muito pouco das relações deste povo com os celtas, e as narrativas gregas e romanas também não a confirmam. A influência celta sobre os lusitanos é inegável, mas limitada, pouco comprovada, e posterior à existência dos lusitanos como povo identificado, sendo portanto provavelmente incorreto dizer que os lusitanos eram celtas, ao menos perante os dados disponíveis hoje em dia. Contudo, uma vez que a celtização da Península partiu dos Pirinéus em direção ao Atlântico pode se supor que a influência céltica sobre os lusitanos foi maior nas montanhas (atual Beira Interior, pátria dos lusitanos, segundo a tradição mais forte) do que no litoral.

A ideologia lusitana no Renascimento foi determinante para a construção doutrinal da idéia de Pátria com raízes compostas, entre a romanização e a oposição ao Império. Desde André de Resende (sempre citado) e Gil Vicente (com seu Auto da Luzitânia, pouco lembrado) a Luís Vaz de Camões (da ocidental praia lusitana) em cerca de um século se montou e difundiu a idéia de que os portugueses são descendentes dos valorosos lusitanos e de seus inimigos romanos. A idéia de pátria, como todos os mitos políticos de qualquer época, é complexa; mas os nossos renascentistas souberam articulá-la muito bem: por um lado descendemos dos romanos, cujo Império colocou neste território marcos indeléveis na língua e nos costumes; por outro somos herdeiros do confronto nascido nas raízes do território, nos lusitanos, miticamente ligados a deuses (da mitologia romana, não céltica nem ibérica). Essa dualidade, esses dois gêmeos que lutam no seio da mãe, constitui um paradigma de origem conflituosa, que serve para explicar todos os antagonismos existentes no povo, os ciclos e os altos e baixos da História de Portugal, toso o mito e realidade dos descendentes dos lusitanos.

Ao chegar a este ponto – que no meu artigo do Brathair entrevia, mas explicitei com outras palavras – duvidando ainda da consistência das minhas hipóteses, continuava esperando que as explicações dos especialistas de campo e de prática me confirmassem os pontos de vista. Mas foi só depois da edição desse primeiro número da nossa revista que me chegou às mãos o livro de Adriano Vasco Rodrigues. Adriano é arqueólogo e pesquisador da Universidade Portucalense e da Academia Internacional de Cultura Portuguesa, dirigiu uma instituição de ensino na Bélgica, criou o Instituto de Estudos Lusitanos no Porto (1961); em 1956 localizou uma inscrição lusitana (no Cabeço das Fráguas, Guarda, Beira Alta) que tem sido estudada pelo Professor António Tovar e considerada decisiva para o conhecimento da língua e do modo de vida dos antepassados (se não étnicos, ao menos simbólicos) dos portugueses. O que encontrei no livro de Rodrigues, anterior ao meu trabalho de busca de fontes para o artigo do Brathair, veio, para minha tranqüilidade, confirmar as hipóteses acima expostas, com algumas variantes ou pequenas diferenças que passo a explicar.

Em primeiro lugar vamos apreciar a composição e o conjunto do livro. No que se refere ao método de distribuição dos assuntos o texto deixa a desejar: está dividido em dezenove capítulos de tamanho muito desigual, variando de duas até 47 páginas de extensão; freqüentemente no corpo do mesmo capítulo misturam-se digressões e interpolações sobre temas de outros capítulos bem distintos, e que, não vindo a propósito, prejudicam o acompanhamento da argumentação. Contudo é possível distinguir-lhes uma ordem agrupando-os em três partes: 1. Questões gerais e metodológicas, incluindo historiografia e a problemática do estudo dos lusitanos, além do enquadramento etnológico e geográfico (p.13 – 142): 2. A cultura lusitana: economia, sociedade, religião, medicina, tática militar (143 – 308); e 3. O comunitarismo agro-pastoril lusitano e português (309 – 353). O índice está mal distribuído, e não há uma bibliografia final, mas apenas referências bibliográficas (notas) após cada capítulo; também não há índices de nomes, de temas, ou de autores citados, o que, dada a frequente discussão de questões, seria importante para nos localizarmos no texto. Estas falhas de metodologia, que prejudicam a apresentação e dificultam a consulta, não invalidam porém o conteúdo da obra e as teses apresentadas, que estão bem documentadas, cuidadosamente discutidas, e claramente definidas, além de apoiadas numa variedade consistente de fatores: geográficos e climáticos, de fontes históricas e etnográficas, de economia e de religião… É importante, por exemplo, a longa exposição da organização da Mesta, que desde pelo menos a Idade Média controla e disciplina a transumância na região central da Península, comparando-a com o modo de vida pastoril das montanhas e com as estratégias de guerra de Viriato; ou o paralelo que se estabelece entre o comunitarismo trasmontano e beirão, que perdurou até ao século XX, e a estrutura comunitária lusitana. Neste ponto, porém, o autor aparenta certa incoerência: por um lado utiliza a etnografia pastoril contemporânea para entender o modo de vida lusitano de dois mil anos atrás; por outro critica aqueles que usam relatos de escritores romanos, redigidos após a dominação dos lusitanos pelo Império, para discutir o modo de vida pré-romano – de dois séculos antes. Dizemos “aparenta “ porque de fato é inegável que a ocupação romana produziu sensíveis alterações no modo de vida dos lusitanos – sobretudo na maior sedentarização, ênfase na economia agrícola, e controle do bandoleirismo; enquanto, por outro lado, deve-se reconhecer que há traços da economia e das relações sociais dos montanheses e dos pastores nômades que têm tendência a longa vitalidade. É preciso ressaltar esta questão porque ela perpassa todo o livro de Adriano Rodrigues.

Um dos temas que mais nos interessa é o da relação entre os lusitanos e os celtas. O Autor começa por ser bastante explícito na negação do relacionamento étnico, para depois mostrar certa hesitação. Nas páginas 40-41 afirma: “A leitura da inscrição do Cabeço das Fráguas veio mostrar que a linguagem dos lusitanos não era céltica. Se compararmos agora um elemento de interesse etnográfico importante, o vestuário, veremos que se afasta daquele que nos chegou das descrições dos celtas (…) Pois os Celtas foram os inventores das calças. Os lusitanos não usavam calças. Os Celtas combatiam servindo-se de carros de guerra, praticando uma luta totalmente diferente da seguida pelos Lusitanos, que nunca recorrem ao carro de combate “. Aparte o detalhe de escrever Celtas com maiúscula e lusitanos geralmente com minúscula, sem motivo aparente, o Autor utilizou três elementos relevantes para demonstrar que os lusitanos não eram celtas: a língua, o traje, e as táticas de guerra. Podem se fazer vários reparos a distinções tão taxativas (e, ao contrário do que faz em outras questões, apressadas), porque: (a) sabe-se muito a respeito das línguas celtas para se conhecer grande variedade de idiomas distintos, e sabe-se muito pouco da língua lusitana para poder afiliá-la – ou não – com certeza a algum grupo lingüístico; (b) se o uso das calças fosse determinante na cultura celta os escoceses, que têm no saiote o traje tradicional, teriam que ser excluídos dessa família; (c) os celtas não usavam nem todos nem sempre os carros de guerra quando combatiam. Mas Adriano Rodrigues foi claro ao afastar o parentesco céltico dos lusitanos, como também foi claro ao não o negar completamente: “os Lusitanos poderão ter recebido aculturação do tipo céltico, gerada pelos contactos (…)” (ib.) Portanto, para o A. os lusitanos não eram originários nem descendentes dos grupos celtas que invadiram a Península Ibérica a partir do século VI ou V a.C., mas receberam influências culturais desses grupos.

Contudo, no decorrer das suas explicações e exposições, Rodrigues insiste tantas vezes em mostrar elementos celtas em território lusitano que parece duvidar de suas afirmações iniciais. Essa insistência aparece por exemplo a propósito dos topônimos, já que em terras lusitanas muitas localidades têm nomes derivados do celta, e o A. lembra todos eles, mesmo quando a distância torna as filiações lingüísticas muito improváveis, como ao sugerir relação entre a portuguesa Panóias e a imperial Panônia. Também na vida religiosa Rodrigues está sempre a lembrar o celtismo dos lusitanos, tanto nos nomes dos deuses como nas práticas de culto: até as tão conhecidas alminhas (pequenos nichos de rua com imagens dos santos populares) ele faz remontar ao culto dos mortos dos celtas (p.182). Ora se as localidades têm nomes celtas é porque os celtas andaram por lá, e não apenas mantiveram contactos com os lusitanos, como se estes se lembrassem de termos ouvidos em viagem por terras dos celtas peninsulares. Quanto à religião, sendo algo tão íntimo e arraigado à tradição, não se copia facilmente nem se abandona só por influência distante: é preciso um parentesco mais sólido para que se adotem deuses alheios. O A. pode até ter razão em descartar parentesco étnico entre os dois povos, mas como não discute o problema nos deixa em dúvida sobre as provas de que os lusitanos não eram celtas, mas só vagamente celtizados.

Pela nossa parte achamos mais provável, e já o dissemos no artigo do n. 1 do Brathair, que alguns grupos celtas tenham se estabelecido em terras lusitanas e contribuído não só para a formação cultural mas também para a composição étnica dos lusitanos, e por isso vamos deter-nos um pouco mais na questão.

No capítulo “ Sobrevivências actuais da religião dos lusitanos” Rodrigues trata da religião pré-romana, da influência céltica, celtibérica e romana, e da continuidade do paganismo nos cultos populares cristianizados – mas sem observar esta ordem de assuntos, antes todos eles mesclados. Nas 26 páginas do capítulo as palavras celta ou céltico aparecem 23 vezes, mas sem que em nenhum momento se faça uma análise detida do relacionamento entre as religiões em causa; apenas vai dizendo: “também os Celtas “(180) , “faz lembrar o deus celta “(181) , “tal como entre os Celtas “(181) , “o mesmo aconteceu com os Celtas “ (185), e vai justapondo radicais de nomes de deuses, festas cíclicas, cultos, e símbolos, mas sempre de passagem, sem ordem, para concluir : “(…) os lusitanos, que, como está provado, sofreram influências religiosas célticas “ (195) . A impressão é de que Adriano Rodrigues já estava convencido dessa influência e apenas se foi referindo a ela à medida que se lembra. Certamente não negamos a adoção de elementos religiosos celtas pelos lusitanos, mas fica a dúvida sobre se uma influência tão marcante, como AR aponta, viria só por contato externo, e não seria devida a uma presença céltica na Lusitânia. Dito de outro modo: a romanização da religião lusitana foi forte porque os romanos estavam no meio desse povo e o dominavam; não seria o caso de pensar que, de modo semelhante, os celtas se tivessem mesclado (em pequena proporção) com os lusitanos, pois desse modo se explicaria melhor a celtização da religião dos primeiros ocupantes dessa região? Ora o A., que afirma a relação entre as duas religiões mas nega a relação étnica entre os dois povos, nos deixa, pela sua forma de argumentar, a dúvida acerca da sua própria convicção e razão. Por outro lado, a presença dos celtas em manifestações religiosas e lápides de cemitérios em terras lusitanas comprovada incontestavelmente pelos trabalhos arqueológicos de Fernando de Almeida na Idanha (que citamos no nosso artigo) não é discutida, como se fosse para AR uma lembrança incômoda. Mas se os celtas morreram na Lusitânia é porque viveram por lá.

Os três últimos capítulos, que designamos por terceira parte, e que tratam das sobrevivências do comunitarismo agro-pastoril no Norte de Portugal, mais se deveriam considerar um apêndice, que parece que o A. pretendia colocar como introdutório, pois numa das páginas finais (321) escreveu: “(…) que ao longo deste livro iremos referindo (…)”. O caráter de anexo deve-se a que pouco faz menção do personagem principal da obra – os lusitanos – no decorrer dessas quase cinqüenta páginas. A hipótese básica é de o comunitarismo lusitano tenha de alguma forma persistido no português, “sem pretendermos que o sistema comunitário actual seja o dos lusitanos (…) “(30() pois as posteriores ocupações da Península por outros povos alterou a estrutura e o funcionamento do sistema de relações sociais e econômicas.. E após a descrição narrativa dos usos portugueses, sem se deter em análises e comparações, fecha o livro (p. 348, antes das notas finais) com a seguinte frase: “Apesar de mais de dois mil anos nos separarem dos lusitanos e profundas mudanças acentuarem as diferenças entre dois mundos, o deles e o nosso, nem tudo o tempo apagou na sua marcha inexorável.”

A obra de Adriano Vasco Rodrigues ficará certamente como uma referência importante para o estudo dos lusitanos: é alicerçada em vastas pesquisas arqueológicas, do autor e alheias, num considerável e por vezes exaustivo trabalho de campo etnográfico, e por demorada análise de fontes documentais antigas e de investigadores modernos. A desordem, ou quase desarrumação do texto, e a falta de revisão ortográfica e sintática prejudicam o entendimento do texto a tal ponto que muitas vezes deixam dúvidas sobre o que o A. pretende dizer. Quanto ao que procurávamos parece que as teses principais que Rodrigues defende são claras: a constituição da etnia e da comunidade de lusitanos, e sua presença contínua nas terras de Entre-Douro-e-Tejo são anteriores às migrações celtas; a cultura celta influenciou a lusitana em muitos aspectos, mas sobretudo na vida do espírito, sem alterar seus traços básicos; as migrações celtas não atingiram a Lusitânia com a sua presença física mas só pela sua influência cultural; os lusitanos contam-se entre os antepassados de uma parte dos portugueses mas também dos espanhóis da Estremadura e de parte de Castela-a-Nova; muitos outros povos e culturas contribuíram para a formação do povo português cabendo aos lusitanos um lugar predominante porém mais simbólico do que efetivo; a ascendência lusitana é desigual nas diversas regiões de Portugal, sendo mais forte nas regiões montanhosas do interior central e norte do País.

João Lupi – Universidade Federal de Santa Catarina. E-mail: lupi@cfh.ufsc.br


RODRIGUES, Adriano Vasco. Os Lusitanos. Mito e realidade. Lisboa: Academia Internacional da Cultura Portuguesa, 1998. Resenha de: LUPI, João. Brathair – Revista de Estudos Celtas e Germânicos. São Luís, v.2, n.1, p.64-68, 2002. Acessar publicação original [DR]

Tobias Barreto e a filosofia alemã – SUCUPIRA (RIHGB)

SUCUPIRA, Newton Buarque. Tobias Barreto e a filosofia alemã. Rio de Janeiro: Editora Gama Filho, 2001. Resenha de: MARTINS, Wilson. Revista do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, Rio de Janeiro, v.163, n.414, p.223-225, jan./mar., 2002.

Wilson Martins – Sócio correspondente brasileiro do IHGB.

Acesso apenas pelo link original

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Um estudo crítico da história – JAGUARIBE (RIHGB)

JAGUARIBE, Helio. Um estudo crítico da história. São Paulo: Paz e Terra, 2001. Resenha de: RODRIGUES, Lêda Boechat. Revista do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, Rio de Janeiro, v.163, n.414, p.227-239, jan./mar., 2002.

Lêda Boechat Rodrigues – Sócia emérita do IHGB.

Acessar publicação original

[IF]

A Inquisição em Minas Gerais no século XVIII – FERNANDES (RIHGB)

FERNANDES, Neusa. A Inquisição em Minas Gerais no século XVIII. Rio de Janeiro: Editora da UERJ, 2000. Resenha de: CUNHA, Lygia da Fonseca Fernandes da. Revista do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, Rio de Janeiro, v.163, n.414, p.241-244, jan./mar., 2002.

Lygia da Fonseca Fernandes da Cunha – Sócia emérita do IHGB.

Acesso apenas pelo link original

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Metahistory. The Histórica, Imagination in Nineteenth-Century Europe / Hayden White

O papel da historiografia na construção social da cultura e, por conseguinte, na conformação da identidade dos integrantes dos respectivos grupos é um tema relevante na reflexão histórica contemporânea.

O ponto fulcral para a contribuição historiográfica ao processo de construção das identidades está no pensamento histórico e nas formas culturais de fixação deste pensamento. Esse tema tem ocupado debates e colóquios pelo mundo afora, além de conduzir a um grande número de publicações, desde a década de 1980.

Destacar e explicar o caráter multifacetado e mutante dos modos de expressão histórica do pensamento identificador da individualidade e da sociedade foi um dos objetivos principais do modelo narrativista inaugurado pelo livro de Hayden White, Metahistory. The Histórica/ Imagination in Nineteenth- Century Europe} Rapidamente essa obra veio a ser considerada como o sinal de uma mudança de paradigma na historiografia contemporânea, com a pretensão de ter superado ingenuidades passadas quanto à isenção metódica da história. A idéia é a de que o pensamento histórico de cada geração (mesmo dentro de uma “mesma” cultura) elabora seu modo próprio de ler e reler seu tempo e seus textos, a exemplo das teorias literárias estruturalistas, semióticas, desconstrutivistas, formalistas, intertextualistas, analíticas do discurso, enfim pós- e até mesmo pós-pós-modernas. O “choque” provocado pela teoria narrativista, ao pôr em evidência os limites da ciência histórica — questão que o paradigma “libertário” do modelo positivista e do seu culto às fontes, em sua influência sobre os modos de fazer história desde meados do século 19, havia amplamente ignorado. Um exagero parece ter acarretado o outro. As reações à teoria de Hayden White foram muitas. Aqui não se busca examinar este debate, mas registrar um de seus efeitos benéficos. A conside ração da diversidade historiográfica como um ganho para a produção do pensamento histórico e de sua inserção cultural em um mundo cada vez mais interativo e interdependente decorre, ao menos em sua valorização recente, deste debate, prevalente nos últimos vinte anos. Não há nisso apenas a (re)descoberta do outro como identidade própria (e não sempre reduzido à do observador ou a ela submetido), mas igualmente uma revalorização do recurso à teoria da história como sistema de equacionamento dos inúmeros fatores que constituem o “objeto” da análise social, inclusive no caso da história.

A coletânea editada por Jôrn Rüsen e Sebastian Manhart, Geschichtsdenken der Kulturen — Eine kommentierte Dokumentation (O pensamento histórico nas culturas — uma documentação comentada, Frankfurt/Main, Alemanha: Humanities On Line, 2002) tem por objetivo imediato abrir acesso, a todos os interessados, aos espaços culturais em que a memória e a narrativa, como constituintes do pensamento histórico, contribuem para a construção das identidades. Os dois primeiros volumes dessa colerânea trazem textos e comentários do espaço sul-asiático: Südasien — Von den A.nfàngen bis %ur Gegenwart (Ásia do Sul — dos primórdios ao presente). Stephan Conermann edita, introduz e comenta a visão muçulmana do século 13 ao século 18 (Die muslimische Sicht, 2002, ISBN 3- 934157-22-X, 350 p.), e Michael Gottíob faz o mesmo com o pensamento moderno da Ásia do Sul, de 1786 até os dias de hoje {Historisches Denken im modernen Südasien, 2002, ISBN 3-934157-23-8, 474 p.). Um terceiro volume encontra-se em preparação, versando sobre poética histórica indiana, a cargo de Georg Berkemer (Vom Rigveda %ur historischen Versdichtung — Hinduismus, Jinismus, Buddhismus und orale Traditionen, 2003, ISBN 3-934157-30-0, 344 p.).

A inspiração culturalista e historiográfica dessa coletânea deve seu impulso principal à teoria crítica da história elaborada por Rüsen,2 desde seu tempo como professor na Universidade de Bochum, mas fundamentalmente nos projetos que dirigiu no Centro de Pesquisa Interdisciplinar da Universidade de Bielefeld (ZiF, Bielefeld, Alemanha) e nos que dirige há quase dez anos no Instituto de Ciências da Cultura (Kulturwissenschaftliches Instituí), em Essen. Rüsen é certamente um dos principais autores contemporâneos de teoria e metodologia da história. Seu diálogo internacional é amplo e sua preocupação com a tarefa esclarecedora do pensamento histórico como fator de resgate da autonomia crítica dos indivíduos e como fator de entendimento multicultural são mundialmente reconhecidos Um dos desafios enfrentados por Rüsen está na forte pressão que o paradigma ocidental da ciência história vem sofrendo, nos últimos anos. Exige- se desse paradigma e de seus praticantes a revisão de seus fundamentos, não apenas por causa dos avanços significativos e da inovações de sua especialidade, mas igualmente pela consciência crescente de que o sistema ocidental de interpretações, predominante até o presente, está sendo cada vez mais posto em cheque pelas tradições historiográficas não-ocidentais, amplamente ignoradas, subestimadas ou menosprezadas. Apesar de o conhecimento das culturas não-européias ter progredido gradualmente — o que se deve também ao fato de que o circuito de influências da globalização produz efeitos reversos sobre os centros de irradiação da pressão econômica, comercial ou culrural — o conhecimento das múltiplas formas não-ocidentais de lidar com o passado ainda continua sendo absorvido de modo apenas superficial, tanto na ciência histórica como no senso comum. A perspectiva da historiografia ocidental continua claramente hegemônica, e até a história da historiografia permanece concentrada na historiografia ocidental desde os gregos (uma espécie de eurocentrismo expandido). Uma provável causa desse déficit cognitivo não se reduzia à mera falta de interesse pelas formas de pensar e de exprimir-se não-ocidentais, mas pode estar nas grandes dificuldades em se ter acesso aos textos básicos dessas culturas. As dificuldades mais freqüentes são duas: a barreira da língua e a inexistência de corpora sistematizados.

A falta de conhecimento acerca da relevância de determinados textos e das relações entre os diferentes gêneros textuais dificulta igualmente a compreensão de seus discursos quando não se está por dentro das respectivas ciências especializadas (por exemplo: sinologia, arabologia, indologia e assim por diante). A diversidade das tradições historiográficas, cujo significado somente se alcança no contexto da respectiva história social, religiosa e discursiva, tampouco vem a ser apreendida e avaliada adequadamente sem a intermediação de especialistas.

A edição comentada de textos “O pensamento histórico das culturas” contribui para diminuir os obstáculos referidos ao estudo dos discursos historiográficos não-ocidentais e para criar um acesso às formas mais representativas do modo de lidar com o tempo, com a lembrança e com a história, fora do âmbito eurocêntrico. A coletânea procura fornecer ao leitor um primeiro panorama de diversos textos de diferentes feituras, de modo a permitir construir uma representação adequada das respectivas tradições historiográficas. O período coberto vai dos primeiros inícios das tradições orais e escritas na forma de lendas religiosas, anais tribais, crônicas da corte ou do Estado, até os textos cada vez mais marcados pelo modelo da historiografia ocidental (ou a ela opostos, a partir de um passado recente).

Os critérios adotados pelo procedimento de seleção têm, obviamente, uma conseqüência inevitável: de um corpus sempre cada vez maior só se pode apresentar uma parte relativamente pequena. Ademais, quase sempre é preciso fazer a primeira tradução na história desses textos em uma outra língua, além de os ordenar e comentar cientificamente. A escolha e o comentário dos textos vão, pois, bem além do âmbito de uma única ciência especializada.

A edição destina-se tanto ao especialista em história ou outras ciências sociais da cultura como aos demais interessados, abrindo-lhes o acesso à história e à cultura das regiões em questão. Até os dias de hoje, não há, em inglês, francês ou alemão, nenhuma coletânea de fontes históricas dessas culturas. Para o público de língua neo-latina, como o leitor do português, a barreira da língua continua, mesmo se forma relativa, na medida em que o alemão não é um idioma correntemente praticado. Mas a barreira diminui, certamente, pois é ainda mais difícil encontrar quem possa ler e comentar textos em mandarim, hindu ou japonês.

O conceito diretor da coletânea, “pensamento histórico”, tem por intenção dar conta do amplo espectro das mais diversas maneiras e práticas de refletir sobre a experiência do tempo, o relacionamento com o tempo e as atribuições de sentido ao passado. A antologia reúne, por conseguinte, além de excertos da historiografia dinástica chinesa e dos discursos mais recentes sobre a especificidade científica da concepção indiana de história desde a independência, inscrições chinesas em ossos de oráculo ou em tablitas indianas, lendas de templos budistas, epopéias persas ou ainda trechos de romances populares árabes. A grande quantidade de gêneros literários, assim como sua classificação e seu comentário permitem apreender a amplitude dos modos de lidar com o passado, fora das tradições que nos são familiares. Pode-se desvelar, assim, a evolução constante de determinados gêneros literários, por vezes ao longo de séculos, e sua diferenciação, influência recíproca e mescla.

Ter colocado lado a lado conteúdos e linhas de tradição diversas permite também elaborar uma primeira representação da complexidade das respectivas culturas e relações sociais, determinantes dos processos de intercâmbio intercultural contemporâneo, no plano regional como global.

O plano geral da obra inclui ainda duas outras coletâneas já em andamento: sobre a China e sobre os países centrais do islamismo. Nas três coletâneas fica claro que a periodização estabelecida pelos autores foge do eurocentrismo, que colocaria o domínio colonial e a independência com marcos delimitadores. As obras procuram inserir-se em referências cronológicas internas aos textos e às culturas em que foram concebidos — embora, obviamente, as datas obedeçam ao calendário gregoriano hoje universalmente praticado na vida civil. Uma vantagem está em que as obras estão disponíveis também em formato eletrônico (www.humanities-online.de). E de se recomendar a todo interessado em abrir seus horizontes e conscientizar-se da diversidade social e cultural do mundo — mais importante talvez do que sua pasteurização “globalizada” — que faça uso dessa(s) coletânea(s), enriquecendo sua própria cultura com o aprendizado dos idiomas que lhes dão acesso — que seja começando pelo alemão.

Notas

1 O edição original, em inglês, foi publicada em 1973 pelajohns Hopkins University Press (Baltimore e Londres). Como em diversos outros países, o livro de H. White só veio a ser traduzido no Brasil em 1992 (EDUSP), omitindo-se no título em português de que se trata da imaginação histórica na Europa do século 19. A polêmica suscitada pela obra talvez explique a opção os editores. Com efeito, Metabistory tornou-se um clássico do assim chamado pensamento pós-moderno acerca da historiografia, a ponto de duas das mais importantes revistas dedicarem números especiais ao tema: History and Tbeory (vol, 19,1980) e Storia delia Storiografta (vols. 24 e 25,1993 e 1994).

2 A Editora da Universidade de Brasília já publicou o primeiro volume da teoria da história de J. Rüsen: Razão Histórica, 2000). Os dois volumes que completam o tríptico deverão ser publicados em 2003.

Estevão C. de Rezende MARTINS – Universidade de Brasília.


WHITE, Hayden. Metahistory. The Histórica/ Imagination in Nineteenth-Century Europe. Johns Hopkins University, 1973; RÜSEN, Jörn; MANHART, Sebastian (Ed.). Geschichtsdenken der Kulturen — Eine kommentierte Dokumentation (O pensamento histórico nas culturas — uma documentação comentada). Frankfurt/Main: Humanities On Line, 2002. Resenha de: MARTINS, Estevão C. de Rezende. Pensamento histórico, cultura e identidade. Textos de História, Brasília, v.10, n.1/2, p.214-219, 2002. Acessar publicação original. [IF]

A idéia de Europa – uma perspectiva histórica / Maria M. Ribeiro

Os estudos europeus tomaram um impulso notável nos últimos vinte anos. Se a construção da integração européia é objeto, há cerca de cinqüenta anos, de análises econômicas, políticas e comerciais, a perspectiva histórica e historiográfica ganhou espaço após a queda do Muro de Berlim.

Com efeito, a superação da fratura bipolar característica da Guerra Fria trouxe conseqüências interessantes para a reflexão acerca da Europa. A Europa ocidental esteve inserida numa lógica de opção atlântica e ocidental cujo fundamento foi a oposição entre democracia e socialismo, com seus desdobramentos econômicos e militares. As longas tradições européias — matrizes do mundo, pode-se dizer em risco de exagero — estiveram em surdina enquanto os “grandes” (Estados Unidos e União Soviética) polarizavam a atenção de todos, em manobras táticas de constante adiamento do apocalipse.

A modificação da correlação de forças na década de 1990 provocou uma intensificação do interesse pela história e pela cultura européias como fatores de identificação, coesão e estruturação da unidade política supra-nacional que se formava desde meados dos anos 1950: a União Européia. A realização da unidade européia evoluiu, na consideração das ciências sociais, de um exercício comercial e estratégico, reservado aos governos e aos juristas, para um elemento crucial de auto-afirmação e de personalidade política historicamente relevante.

Autores favoráveis (eurotimistas) como desfavoráveis (euro-céticos) aos processos de integração européia passaram a se contrapor, em particular no plano político-institucional — sobretudo por causa da crise que esses processos acarretaram na concepção e na prática dos estado-nação. As alianças comerciais e políticas, assim como o lento processamento de uma longa história de rivalidades e contraposições intra-européias, trouxeram um ritmo vagaroso ao progresso da integração européia, mas não a impediram nem a fizeram regredir. A análise histórica dos fatores que concorrem para essa construção tem conduzido à produção crescente de pesquisas e estudos historiográficos que se debruçam sobre três pontos de reflexão: a idéia de Europa, a identidade européia e os processos efetivos da construção institucional da unidade européia pós-1945.

Nesse contexto reflexivo destacam-se, no espaço de língua portuguesa, as obras da professora Maria Manuela Tavares Ribeiro, da Faculdade de Letras e do Centro de Estudos Interdisciplinares do Século XX (CEIS20), da Universidade de Coimbra. Grande animadora dos estudos europeus em Portugal, Ribeiro co-organiza, com diversas outras universidades européias (Siena, Salamanca, Atenas, Granada, Swansea, Cracóvia, Estrasburgo, Hannover) um respeitado curso de Master in European Studies, centrado no processo da construção européia. Maria Manuela Ribeiro publicou, em 2003, A idéia de Europa — uma perspectiva histórica (Coimbra: Quarteto, 2003, 972- 8717-84-9, 190 p.).’ Dotado de meridiana clareza, A idéia de Europa — uma perspectiva histórica é um notável guia reflexivo do itinerário percorrido pela concepção de “Europa”, para além de sua mera fixação geográfica, no campo do pensamento e da cultura. Em seis capítulos, divididos em duas partes, a autora conduz o leitor pela emergência da idéia de Europa (parte I), por sua evolução e crise (parte I I , caps. 1-11) e por suas transformações recentes (parte I I , caps. III-V).

A reflexão é instigante e não mascara as crises por que passou o Velho Continente, destacando, contudo, a persistência salutar da perspectiva utópica da construção européia, que afinal vem-se realizando desde meados dos anos 1950 — resultado da consciência coletiva tanto dos conflitos quanto da necessidade de os superar de uma vez por todas.

O olhar analítico da autora se projeta à Antigüidade e à formação do espaço político e cultural helênico para localizar as raízes virtuais da idéia de Europa como topos físico e mental. Se os séculos que se sucederam até o século 20 mostraram a fragilidade dos processos de homogeneização e liderança entre os europeus — soberanos e Estados — a referência a um denominador comum é constante. O conflito entre as interpretações do patrimônio cultural europeu e a concorrência — amiúde violenta — pela hegemonia no Velho Continente são examinados com pertinência e lucidez, indicando a contradição entre o humanismo valorativo e a rudeza dos embates por preeminência entre os contraentes europeus.

Sob o elegante título de “A primavera da Europa”, Maria Manuela Tavares Ribeiro alinha as grandes tradições que emergiram da longa história de rivalidades em que os europeus estiveram mergulhados, por centenas de anos, afastando-se uns dos outros ao optarem (ou serem forçados a optar) por crenças excludentes, nações estranhas, estados combatentes. O trauma do horror, chegado a seu clímax com 2a Guerra Mundial, e a experiência também traumática de viver no clima da Guerra Fria, conduziram não apenas a uma espécie de “exame de consciência” das lideranças políticas e sociais, mas igualmente ao renascimento do pensamento comum, à “primavera” de expectativa e de esperança, ao menos para os próprios europeus. Um preço ainda está por ser pago — ou está a ser pago: a crise da identidade, por tanto tempo ancorada na exclusão do outro (mesmo se co-europeu), e a tentação umbilical de pensar agora somente em si (uma sorte de egoísmo político que, de francês ou alemão, inglês ou italiano, passaria a “europeu” — ainda refém da mesma lógica de estranhamento prático contraposta às boas palavras teóricas). A exposição de Maria Manuela Tavares Ribeiro representa uma demonstração sólida do interesse que há em praticar a reflexão historiográfica para equacionar os fatores da experiência do tempo que marcam a consciência e a cultura histórica.

A reflexão de fundo é acompanhada por um plano pormenorizado de um curso sobre a idéia de Europa (p. 83-96) e por duas vastas bibliografias: uma sistematizada de acordo com o plano de curso (p. 97-138) e outra, geral, sobre a Europa em geral (p. 139-177). Dois índices (onomástico e remissivo) completam o trabalho, de grande utilidade para o leitor. Este livro de Maria Manuela Tavares Ribeiro é um grande instrumento de trabalho para o estudioso dos temas europeus na contemporaneidade, compondo a acuidade da reflexão sobre o complexo tema da noção de Europa e da identidade européia, como questão subjetiva e coletiva, com a limpidez didática em que está lavrado o texto. Um elemento adicional merece destaque: a autora não negligencia de apontar os desafios que ainda esperam a União Européia (entrementes tomada pela Europa como um todo…) no plano político como no cultural e individual. Com efeito, a redefinição da identidade de si, dos cidadãos, e a da Europa — como unidade política — , requerem complexo processo de reorganização mental, por parte das pessoas e dos dirigentes. A contribuição historiográfica de uma reflexão desta qualidade indica como a questão européia já não mais pode ser tratada apenas como um item da agenda interestatal ou intergovernamental, como foi o caso durante os seus primeiros quarenta anos e como a evolução recente das negociações em torno de uma constituição para a Europa demonstrou. O formalismo ainda eivado de um nacionalismo tardio tende a ser superado, mesmo se o processo tenha de ser lento e gradual, desde que seja constante.

Outros trabalhos organizados por Maria Manuela Tavares Ribeiro merecem aqui menção, para a melhor ilustração do leitor. Lembre-se em primeiro lugar a coleção “Estudos sobre a Europa” (de que o volume comentado acima é o terceiro), cujos dois primeiros volumes reúnem estudos relevantes para conhecer a diversidade da reflexão na Europa e sobre ela: Olhares sobre a Europa (vol. 1, 2002) e Identidade Européia e Mulriculturalismo (vol. 2, 2002). Iniciada em 2001, esta coleção é publicada pela Editora Quarteto, de Coimbra. Importa ainda recomendar à leitura do interessado a revista Estudos do Século XX (ISSN 1645-3530), fundada pelo CEIS20 em 2001, que tem Maria Manuela Tavares Ribeiro na direção, como coordenadora. O primeiro número da revista está dedicado ás “Estéticas do Século” (2001) e o segundo, organizado por Maria Manuela Tavares Ribeiro, tem por eixo “Europa-Utopia — Europa-Realidade” (2002), confrontando nesse binômio a dialética que move os europeus, apesar deles mesmos.

Essas publicações, e a qualidade das reflexões que veiculam, mostram ao leitor a amplitude do interesse que a Europa suscita entre os historiadores e o cosmopolitismo crescente da academia portuguesa, na qual se destacam o Centro de Estudos Interdisciplinares do Século XX da Universidade de Coimbra (CEIS20) e a produção científica e pedagógica de Maria Manuela Tavares Ribeiro.

Estevão de Rezende MARTINS – Universidade de Brasília.


RIBEIRO, Maria Manuela. A idéia de Europa uma perspectiva histórica. Coimbra: Quarteto, 2003. 190p. Resenha de: MARTINS, Estevão C. de Rezende. Europa: uma idéia em mutação? Textos de História, Brasília, v.10, n.1/2, p.221-224, 2002. Acessar publicação original. [IF]

Introducción a la Antropología – RODRIGUEZ (RCA)

RODRIGUEZ, Mario Orellana. Introducción a la Antropología. Santiago de Chile: Ediciones SEK y CPU, 2001. Resenha de: HERNÁNDEZ, Roberto. Revista Chilena de Antropologia, n.16, p.188-192, 2001/2002.

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Das Ráísel der Vergangenheit / Paul Ricoeur

As questões da apreensão da multiplicidade cultural do mundo contemporâneo e da compreensão de sua complexidade histórica e social são objeto da série “Conferências de Essen sobre Ciências da Cultura”, promovida e editada pelo Instituto de Ciências da Cultura.

Este Instituto, fundado em 1988 e sediado na cidade de Essen (Alemanha) é integrante do Centro de Ciências da Renânia do Norte/Vestfália. O Instituto (conhecido por sua sigla KWI, homólogo do Institute for Advanced Studies de Princeton ou do Wissenschaftskolleg de Berlim) é uma instituição pública, voltada para a pesquisa científica realizada mediante projetos de investigação dedicados aos problemas da sociedade e da cultura marcadas pelo desenvolvimento científico, pela sofisticação tecnológica e pela industrialização. Os projetos são desenvolvidos por grupos de estudo interdisciplinares, com temas vinculados à pesquisa fundamental no campo das ciências da cultura. O arco temático dos projetos apoiados pelo Instituto vincula-se aos problemas atuais de orientação das sociedades modernas no contexto internacional e intercultural.

Pesquisas dessa natureza não atraem facilmente a atenção do público. Seus resultados, contudo, são habitualmente incorporados pelas próprias ciências setoriais e continuam a surtir efeitos nelas e por intermédio delas. A interdisciplinaridade e o trabalho em grupo dos especialistas são uma condição importante para o êxito desse tipo de projeto. No entanto, o KWI considera ser também incumbência sua fundamentar a necessidade e a relevância de suas atividades e fazê-las perceber pelo grande público. Isso ocorre de forma multifacetada: conferências, mesas redondas, debates públicos, cursos de extensão.

A série de livros das “Conferências” publica textos escolhidos do programa de conferências do Instituto. Esses textos se originam em palestras abertas ao grande público, e ao especializado, elaboradas e completadas para os fins de publicação. O amplo leque temático documenta a amplitude e o alcance das questões ligadas às ciências da cultura, assim como o fascínio das constelações interdisciplinares de pontos de vista, perspectivas e estratégias de argumentação. Cada conferência representa, por si, uma faceta desse leque.

Cada uma é um componente do vasto complexo de abordagens do conhecimento, no qual as experiências do homem consigo mesmo e com seu mundo são interpretadas, as interpretações são refletidas e transformadas em orientações práticas, para afinal serem incorporadas nas mais diversas formas de determinações de sentido, em função das quais o homem age e interage com os outros.

A pesquisa em ciências da cultura requer distanciamento da atualidade do cotidiano imediato, independência com relação às lutas pelo poder e atitude crítica com respeito às polêmicas e dos conflitos de pessoas. A aparente ausência de aplicação prática imediata não raro traz à pesquisa básica e às ciências humanas a fama de serem um luxo, um desperdício. No entanto, o pragmatismo imediatista da pressão tecnológica — que decorre muito mais da lógica econômica da lucratividade — exige justamente que se desenvolvam reflexões que se libertem a prisão “dourada” em que os resultados “imediatos” parecem ser o máximo dos máximos. O longo prazo, a profundidade do alcance, a multiplicidade das perspectivas — esses e outros fatores fazem das ciências da cultura as que apreendem, descrevem, analisam, interpretam e explicam os complexos códigos de sentido — as estruturas de significado — que produzem, consolidam e reproduzem a(s) cultura(s). A ciência da cultura torna-se assim, ela mesma, um fator ativo da cultura como patrimônio coletivo e imaterial da sociedade. Ela desempenha o papel relevante de pensamento crítico e de diretriz interpretativa para a orientação — aí sim — prática do agir humano em todos os campos. A série de “Conferências” busca, assim, na apresentação de seu editor principal, Jórn Rüsen (Presidente do KWI), dar forma concreta a essa tarefa constante da crítica científica e social.

Da série estão disponíveis, até o final de 2003, doze pequenos volumes:

  1. Friedrich Kambartel. Pbilosophie und politische Òkonomie. Gõttingen: Wallstein Verlag, 1998 (3-89244-332-7) 85 p.
  2. Paul Ricoeur. Das Ráísel der Vergangenheit. Erinnern — Vergessen — Vençiben. 1998 (3-89244-333-5) 156 p.
  3. Klaus E. Müller. Die fünfte Dimension. So^iale Raum^eit und Gescbichtsverstàdnis inprimordialen Ku/turen. 1999(3-89244-348-3) 158 p.
  4. Jürgen Straub. Veriehen, Kritik, Anerkennung. Das Eigene und das Fremde in der Erkenntnisbildung interpretativer Wissenscbaften. 1999(3-89244-366-1) 95p.
  5. Burkhard Liebsch. Moralische Spielràume. Menschbeit und Anderheit, Zugehorigkeit und Identitãt. 1999 (3-89244-383-1) 128 p.
  6. Helwig Schmidt-Glinzer. Wir und China — China und wir. Kulturelle Identitãt im Zeitalter der Globalisierung. 2000 (3-89244-426-9) 101 p.
  7. Hans Schleier. Historisches Denken in der Krise der Kultur. Fachhistorie, Kulturgescbichte undAnfànge der Kulturwissenschaften in Deutschland. 2000 (3- 89244-427-7) 127 p.
  8. Gertrud Koch. Medien der Kultur. Film: Beivegungin derLatenç. (3.89244- 428-5). no prelo 9. Rolf Wiggerhaus. Wittgenstein und Adorno. Zwei Spielarten modernen Phi/osophierens. 2000 (3-89244-429-3) 143 p.
  9. Bernhard Waldenfels. VerfremdungderModerne. Phãnomenologische Ansãtze. 2001 (3-89244-459-5) 162 p.
  10. Hans-Ulrich Wehler. Historisches Denken am Ende des 20. Jahrhunderts. 1945-2000. 2001 (3-89244-430-7) 108 p.
  11. Ludwig Amman. Die Geburt des Islam. Historische Innovation und Offenbarung. 2001 (3-89244-460-9) 111 p.

Seus títulos representam efetivamente a variedade de perspecdvas que compõem o espectro ilimitado das questões culturais: Kambartel preconiza a crítica filosófica da economia política, sustentando a necessidade de ampliação da economia social de mercado (vol. 1); o respeitado filósofo Paul Ricoeur relembra um enigma amiúde negligenciado pela tecnologia da pesquisa: o passado só subsiste na memória e em seus vestígios, lidar com ela é questão de lembrar, esquecer, perdoar (vol. 2); como ecoando Ricoeur, o antropólogo Klaus Müller reforça a tese da memória na concepção de história, de origem, de pertencimento e de constituição do espaço social nas sociedades originárias (vol. 3).

Jürgen Straub, professor de comunicação intercultural, aborda a compreensão, a crítica e o reconhecimento: imagens de si e do outro nas ciências que recorrem à interpretação — um problema espinhoso, sobretudo para a interface entre história e psicologia social (vol. 4); Liebsch, professor de filosofia em Bochum, reflete sobre os campos — virtuais — do agir moral como espaço de relacionamento entre afirmação de si e reconhecimento da alteridade — com os problemas decorrentes da “etnicização” dos grupos e subgrupos nas sociedades (vol. 5). Como transparece ao longo de todos os volumes desta série, a referência de origem é a perspectiva cultural européia e o “déficit” de conhecimento e de compreensão da outras culturas [inclusive levando- se em conta a história colonial e seus efeitos perversos] — assim, a alteridade “radical” da cultura chinesa e a contraposição a ela histórica cultural européia, forçada pela globalização, e a impossibilidade de se entronizar novamente uma cultura hegemônica ocupam a reflexão de Schmidt-Glintzer, um dos maiores sinólogos alemães e diretor da famosa Biblioteca do Duque Augusto, em Wolfenbüttel (vol. 6).

A diversificação do tecido cultural da sociedade abriu, também para os historiadores, a crise da identidade em sua especialidade e a instrumentalização da historiografia para projetos políticos passou a ser problematizada. Hans Schleier os primórdios das ciências da cultura na Alemanha e o papel da ciência da história no contexto da crise da cultura contemporânea, a partir da experiência da desconstrução e da reconstrução alemãs entre 1880 e 1930 (vol. 7). O fenômeno da mídia — em particular da crítica social no cinema — e seu impacto na concepção do pertencimento social é o tema estudado por Gertrud Koch, professora de cinema em Berlim, ainda a ser publicado (vol.8). Wittgenstein e Adorno como representantes de dois formatos de crítica filosófica no século 20: a analítica, formal, que não se manifesta sobre o inverificável, e a dialética, engajada, que não admite que não se manifeste sobre o inefável e o subentendido são os objetos de Rolf Wiggerhaus, filósofo e jornalista (vol. 9). Bernhard Waldenfels, professor de filosofia prática e fenomenologia em Bochum, desenvolve uma forte e consistente crítica à alienação do projeto (incompleto) da modernidade por causa de seu individualismo pretensioso que concebe o global como projeção de si — e por isso mesmo compromete a racionalidade como faculdade do indivíduo e como liame do coletivo (vol. 10). O historiador Hans-Ulrich Wehler, um dos chefes de fila da escola de história social de Bielefeld, faz um balanço comparativo dos resultados obtidos pela reflexão historiográfica na segunda metade do século 20 — por exemplo, acerca do caráter “ocidental” das grandes conquistas políticas, como o estado de direito e o sistema parlamentar e eleitoral universal —, e os parcos efeitos que esses conhecimentos tiveram, até o presente, sobre a crítica social, política, econômica e cultural do mundo contemporâneo (vol. 11). O contraste inquietador que as culturas não-européias provocam nas sociedades de feitura européia é uma espécie de enigma adicional que intriga e mesmo atemoriza a “matriz” européia. A longa experiência das sociedades européias (ocidentais) e da norte-americana de ver as demais sociedades ser-lhes submissas ou ao menos delas discípulas, leva Ludwig Ammann, especialista em islamismo e jornalista, a sistematizar as circunstâncias do nascimento do islã (o aparecimento de Maomé e de sua pregação do monoteísmo, à maneira de um messias) e o choque que provoca nas tribos politeístas árabes e nas respectivas relações sociais, ao enunciar a necessidade da conversão como o sentido de uma missão transcendental instituída por revelação divina — e de como foi possível o fenômeno da islamização das culturas árabes a partir do século 7o (vol. 12).

Duas reflexões se impõem, diante da variedade e da complexidade dos temas abordados pelos textos da série. A primeira é relativa ao caráter pioneiro de abrir espaço de discussão e de contraponto, no âmbito de culturas tradicionalmente avançadas e extremamente seguras e cheias de si, como a alemã. Essa iniciativa do KWI se entende bem pela forma característica de Jõrn Rüsen de conceber o papel da reflexão histórica como um dos fatores relevantes na interculturalidade da comunicação social. Trata-se de uma contribuição de importância tanto para incrementar o arejamento do debate público e científico alemão e europeu como para resistir à crescente intolerância para com o outro e o diferente, que distorce as relações intra- e intersociais, em um mundo cada vez mais marcado pela produção e pela circulação ilimitada de informações. Essa abertura científica e cultural protagonizada pelo KWI reveste-se de duas qualidades adicionais: coragem pública e exemplaridade.

A segunda reflexão refere-se à utilidade de publicações desta natureza para sociedades multiculturais, como a brasileira. A dupla constatação de que há fissuras (bem-vindas) na torre de marfim do eurocentrismo e de que se toma consciência da necessidade de apreender o outro não para reduzi-lo a si é uma perspectiva alvissareira de fecundação da ciência pratica no Brasil. A história é um eixo de constituição da identidade que incorpora, à luz de estudos críticos como os desta série “Conferências sobre Ciências da Cultura”, a dimensão do processamento intelectual e cultural da diversidade como integrantes dialéticos do retorno a si mediante a afirmação do outro, e não por sua eliminação. A leitura historiográfica da cultura e da sociedade pode enriquecer-se com os pontos de vista da interculturalidade, superando assim a constante tentação do nombrilismo nacionalista.

Estevão C. de Rezende Martins – Universidade de Brasília.


RICOEUR, Paul. Das Ráísel der Vergangenheit. Erinnern — Vergessen — Vençiben. 1998. 156p. Resenha de: MARTINS, Estevão C. de Rezende. Cultura, multiculturalismo e os desafios da compreensão histórica. Textos de História, Brasília, v.10, n. 1/2, p.225-230, 2002. Acessar publicação original. [IF].

O pensamento mestiço – GRUZINSKI (RBH)

GRUZINSKI, Serge. O pensamento mestiço. São Paulo: Companhia das Letras, 2001. 398p. Resenha de: GIL, Antonio Carlos. Revista Brasileira de História, São Paulo, v.22, n.44, 2002.

Neste seu novo livro, Serge Gruzinski, historiador francês, diretor de pesquisa do Centre Nacional de la Recherche Cientifique (CNRS) e diretor de estudos na École des Hautes Études em Sciences Sociales (EHESS), comenta em suas páginas iniciais a experiência precursora de Aby Warburg, um famoso historiador da arte de inícios do século XX. Warburg, imbuído de um olhar antropológico, descobrira um vínculo entre a cultura dos índios hopis do Novo México e a civilização do Renascimento. Gruzinski também se volta para esta relação, pois um dos objetivos centrais deste seu novo livro é observar como os povos ameríndios da segunda metade do século XVI, estão impregnados de diversos elementos europeus e vice-versa. Ou seja, se trataria de fato do estudo de culturas mestiças.

Gruzinski, ao abordar este tema, faz sempre uma ponte com o presente. Afinal, vivemos ainda mais radicalmente hoje as influências do processo de mundialização que se iniciou com a expansão européia no século XVI. Da Amazônia a Hong Kong vivemos em mundos mesclados, onde temos que nos esforçar para juntar os fragmentos que nos chegam por todas as partes, hoje em escala planetária. Nossas práticas atuais foram inauguradas no México do Renascimento (p. 90). A narrativa de Gruzinski demonstra que o arcaico é um engodo e que estamos profundamente contaminados pela modernidade. Sua epígrafe retirada de Mário de Andrade: “Sou um tupi tangendo um alaúde”, que também encerra o seu livro, exprime de maneira simbólica o que o autor irá demonstrar em todo o decorrer do livro. Vários traços característicos das sociedades analisadas, no caso, as sociedades indígenas da América Espanhola do século XVI, provêm da Península Ibérica e da Itália do Renascimento e não do distante passado pré-hispânico. O fenômeno da mestiçagem manobra com um número muito grande de variáveis que muitas vezes fogem à percepção dos historiadores. Além da grande complexidade das mestiçagens, o autor demonstra que havia e ainda há uma grande desconfiança em relação ao tema. Gruzinski estende a sua crítica aos antropólogos amantes de arcaísmos e de “sociedades frias” ou de tradições autênticas. Gruzinski certamente, ao escolher o título de seu livro, quer marcar sua distância do autor de “O pensamento selvagem”. Em seu primeiro capítulo, de fato, critica a antropologia estruturalista por ter desprezado a importância dos processos de recomposição permanente, privilegiando por sua vez as totalidades coerentes, estáveis e com contornos tangíveis. A todos que ignoram os efeitos da colonização ocidental e as reações que se desencadearam, o autor acusa de ocultadores da história, sem a qual é impossível conhecer a profundidade essencial desse processo.

Gruzinski tem a preocupação de tentar definir o que seria o conceito de mestiçagem. Tarefa difícil na medida em que os termos “mistura”, “mestiçagem” e “sincretismo” são carregados de diversas conotações e a priori (p. 42). Gruzinski alerta que a compreensão do termo choca-se com os hábitos intelectuais que preferem os conjuntos monolíticos e os clichês e estereótipos em vez dos espaços intermediários (p. 48). Alerta também para as ciladas que se impõem quando se utilizam os conceitos de cultura ou identidade. Neste sentido, o autor critica aos que “evocam a existência de uma ‘América Barroca’ ou uma ‘economia do Antigo Regime’ como se pudesse se tratar de realidades homogêneas e coerentes, das quais só restasse estabelecer os traços originais” (p. 54). Ou seja, Gruzinski adverte que para analisarmos as mestiçagens, nós, historiadores, precisamos “submeter nossas ferramentas de ofício a uma crítica severa e reexaminar as categorias canônicas que organizam, condicionam e, com freqüência, compartimentam as nossas pesquisas” (p. 55). Na análise que Gruzinski se propõe, emprega o termo “mestiçagem” para designar as misturas que ocorreram em solo americano no século XVI entre seres humanos imaginários e formas de vida, vindos de quatro continentes, América, Europa, África e Ásia. Já o termo “hibridação” é utilizado por Gruzinski na análise das misturas que se desenvolvem dentro de uma mesma civilização ou de um mesmo conjunto histórico (p. 62).

Ao analisar o momento da conquista, Gruzinski relembra que a chegada dos europeus gerou altas turbulências e foi sinônimo de desordem e caos, e que sem esta noção em mente não podemos compreender a evolução da colonização e as misturas provocadas pela conquista (p. 73). Surgiram o que o autor chama de “zonas estranhas” onde a improvisação venceu a norma e o costume, ou seja, os vínculos que ligaram os espanhóis e as populações ameríndias foram profundamente marcados por indeterminações, precariedades e improvisações. Havia um déficit constante nas trocas que se estabeleciam, visto que se relacionavam fragmentos e estilhaços da Europa, da América e da África. Além do impacto da conquista, Gruzinski desenvolve em um de seus capítulos outro processo que considera importante na formação das mestiçagens na América Espanhola: a ocidentalização. Ela operou a transferência para o nosso lado do Atlântico dos imaginários e das instituições do Velho Mundo (p. 94). Um dos elos essenciais dessa ocidentalização foi a cristianização.

Ao considerar o processo de ocidentalização, Gruzinski passa a abordar a cópia indígena. Fruto da demanda de uma clientela espanhola ou indígena, ávida por objetos de estilo europeu, a reprodução indígena, ou melhor, a noção de cópia acabou por se revelar extremamente elástica. Gruzinski demonstra que a concepção européia de reprodução deixava um campo considerável à interpretação e à invenção. Neste ponto, o autor começa a analisar o que consideramos o cerne deste seu novo livro: as mestiçagens da imagem.

De uma forma bastante criativa, Gruzinski, ao analisar os frisos do desfile das Sibilas que se encontram na “Casa do Decano” em Puebla ou os afrescos que enfeitam a igreja agostiniana de Ixmiquilpan, foge dos esquematismos e clichês construídos em relação aos índios da América, que sempre se referem aos esplendores das civilizações pré-colombianas ou à decadência inapelável que teria se sucedido (p. 131). Gruzinski demonstra que os indígenas, que pintaram as imagens analisadas, se inspiraram nas obras de Ovídio, principalmente em “As metamorfoses”, e adaptaram motivos clássicos de modo a dar às cenas indígenas um aspecto antigo. Gruzinski acredita que a razão para tantos esforços em unir os motivos ovidianos e indígenas seria maquiar as inúmeras reminiscências pagãs cujas conseqüências reflexivas poderiam assim estar fora do alcance de um espírito europeu.

Gruzinski direciona o nosso olhar para um espaço ornamental — os frisos. Seriam estes espaços um local dedicado às frivolidades da decoração, aos efeitos superficiais e ao culto do pormenor? Gruzinski afirma que é preciso reconsiderar o papel das margens e do ornamento na arte européia e a devolver a esses espaços o papel e o significado que lhes cabem. Gruzinski também põe em relevo a importância do maneirismo na proliferação do gosto pelo bizarro, pelos fenômenos estranhos e monstruosos, que influenciou o uso dos grotescos europeus pelos artistas mexicanos — os tlacuilos. Os grotescos revelam o gosto da época pelos arabescos e bestiários fantásticos. Em sua análise, Gruzinski demonstra que os grotescos permitiram a troca entre dois mundos — o indígena e o europeu. Neste sentido, o autor se volta para este objeto tão pouco estudado mas essencial para o processo de localização de engrenagens e processos de mestiçagem. Os grotescos europeus, ainda que explorem tendências decorativas, privilegiam metamorfoses e hibridações que estão presentes no pensamento do Renascimento. A contribuição de Gruzinski se dá pelo fato de constatar que a hibridação presente nas gravuras analisadas se transforma, em solo mexicano, em mestiçagens, uma vez que houve naquele momento um alargamento gigantesco de horizontes (p. 193). Cabe ressaltar que Gruzinski, em relação ao seu conceito de mestiçagem, não trabalha com a idéia de choque, justaposição, substituição ou mascaramento. O autor considera que o processo resultante da mestiçagem não é um puro produto dos meios que o engendraram. Neste sentido, o autor prefere trabalhar com a idéia de “atraidor” que à maneira de um ímã permite ajustar entre si peças díspares, reorganizando-as e dando-lhes um sentido (p. 197). Ou seja, ao unir concepções diversas, o atraidor possibilita a expressão de um pensamento mestiço, como podemos ver nos afrescos indígenas, no mapa-paisagem da cidade de Cholula ou nos cantares indígenas mexicanos.

Gruzinski se apropria da expressão “culture of disappearance” utilizada pelo sociólogo Ackbar Abbas, que analisa a situação de Hong Kong no último decênio do século XX (p. 315). Gruzinski considera míopes os que reduziram o passado do México a uma história de massacres e destruições, e que por muito tempo ignoraram ou fizeram desaparecer as formas singulares do Renascimento indígena (p. 316). Os nobres mexicanos, para evitar serem assimilados ou reabsorvidos, tiveram que aprender a “sobreviver a uma cultura de desaparecimento” adotando estratégias para tirar partido de mutações, evitando a hispanização pura e simples (p. 316). Portanto, o autor de uma maneira bastante feliz descarta as ciladas da marginalidade que apenas consolida o centro, assim como escapa às ilusões do local, percebido de forma ideal como um porto seguro que teria conservado a antiga pureza (p. 317).

Gruzinski, o tempo todo, nos alerta que o conjunto de componentes extremamente diversos como os pictogramas, os grotescos, as fábulas antigas, os cromatismos, os efeitos luminosos, frutos do encontro e do enfrentamento, não de duas culturas, mas do que ele chama “dois modos de expressão e comunicação” (p. 273), pertencem a um espaço novo, a uma “zona estranha” (p. 243), cuja compreensão depende da invenção de novos procedimentos de análise.

Os artistas da cidade do México no século XVI, assim como os cineastas de Hong Kong, segundo o autor, elaboraram novas práticas da imagem, ao mesmo tempo que desestabilizaram e distorceram os gêneros, sejam eles os grotescos do Renascimento, os velhos cantares ameríndios ou os filmes de kung-fu (p. 319).

Este livro de Gruzinski, além de ser uma obra de grande erudição, também é uma lição de método. A nós, historiadores, propõe que estejamos atentos à interdisciplinaridade e a todas as formas de expressão que permitam um enriquecimento das formas de análise de nosso objeto de estudo. Como disse anteriormente, Gruzinski faz diversas pontes com o presente. O seu estudo do México espanhol após a conquista não impede que analise certas questões contemporâneas como a mundialização, a “World Culture” e a influência cada vez mais predominante dos Estados Unidos. Gruzinski, por exemplo, analisa em seu livro os filmes de Peter Greenaway “Prospero´s Books” e “The Pillow Book”, e o cinema do diretor Wong Kar-wai procedente de Hong Kong. Um dos filmes de Wong Kar-wai, “Happy Together”, que narra as peripécias de dois chineses em Buenos Aires, dá título a sua conclusão. Ao analisar este filme, Gruzinski, através do olhar do diretor, expõe a força das mestiçagens num mundo onde imperam os fluxos de informação e poder do capitalismo em nível mundial.

Gruzinski está atento à complexidade do tema na medida em que realça os limites que uma mistura pode alcançar, uma vez que pode se transformar em uma nova realidade ou adquirir uma autonomia imprevista. Portanto, o autor sugere que o estudo destes limites com suas conseqüências para o fenômeno da mestiçagem está sendo reservado para um livro futuro. Nele, talvez o autor possa nos mostrar algo que ainda não foi abordado neste livro. Qual será o lugar da cultura mestiça neste processo de mundialização engendrado em escala planetária pelo capitalismo? Gruzinski já demonstrou a impossibilidade do retorno ao passado, do despertar das culturas submetidas. Resta-nos indagar se a cultura mestiça se manterá refém dentro dos limites da tradição ocidental ou se permitirá o surgimento de algo novo que romperá com a lógica do sistema de dominação atualmente vigente.

Certamente o leitor que se dispuser a ler “O Pensamento Mestiço” de Serge Gruzinski, não se decepcionará e poderá se deixar levar pelo prazer de descobrir uma outra América.

Antonio Carlos Amador Gil – Universidade Federal do Espírito Santo.

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Raízes do Riso. A representação humorística na história brasileira: da Belle Époque aos primeiros tempos do rádio – SALIBA (RBH)

SALIBA, Elias Thomé. Raízes do Riso. A representação humorística na história brasileira: da Belle Époque aos primeiros tempos do rádio. São Paulo: Companhia das Letras, 2002. 366p. Resenha de: DE LUCA, Tania Regina. Revista Brasileira de História, São Paulo, v.22, n.44, 2002.

O período denominado de pré-moderno tem sido objeto, especialmente a partir da década de 1980, de profunda reavaliação histórica. A própria terminologia consagrada para nomeá-lo já denuncia o anátema que tem pesado sobre a produção literária das primeiras décadas republicanas, que esteve longe de contar com o entusiasmo de alguns dos nossos principais críticos. A idéia de negatividade acabou por se espraiar para o ambiente intelectual e cultural como um todo e mesmo quando se tenta atribuir ao pré-modernismo um sentido forte, ou seja, de antecipação temática e formal do que estaria por vir, a interpretação ainda permanece atada a parâmetros externos, uma vez que o período é avaliado em função de quanto é capaz de anunciar o futuro, numa assunção implícita de que o mesmo carece de essência e sentido próprios.

O peso simbólico de 1922 é de tal ordem que não apenas se impôs enquanto marco periodizador da cultura brasileira, como também homogeneizou os antecessores sob rótulos genéricos, subtraindo-lhes a identidade. A coerência e o equilíbrio desse quadro, construído em larga medida pelo discurso dos modernistas, cujas opiniões, testemunhos e análises foram incorporados de forma pouco crítica pela historiografia, vêm sendo perturbados em mais de um sentido.

O trabalho de Elias Thomé Saliba constitui-se numa significativa contribuição para o premente esforço de releitura das décadas iniciais do século XX. O autor propõe-se a estudar a representação humorística brasileira durante a Belle Époque e nos primeiros tempos do rádio e, para tanto, apresenta os resultados da sua pesquisa em quatro capítulos, precedidos por um prólogo.

No texto de abertura merece particular destaque a discussão a respeito da crise e desarticulação das definições clássicas do humor, ancoradas na procura da essência do risível, e as análises, produzidas justamente no período estudado, das reflexões de Bergson, Freud e Pirandello que, a partir de perspectivas diferentes, enfatizaram o caráter histórico do humor e do cômico. Elias Saliba bem assinala o lugar central então ocupado pelas narrativas sobre a nação, temática que já possuía considerável tradição, mas que se revestiu de novos significados e conteúdos na passagem do século XIX para o XX. As representações humorísticas, assinala o historiador, desempenharam papel de relevo no processo de invenção das imaginações nacionais, e se fomentaram estereótipos, também contribuíram para modificá-los e desmistificá-los. Nessa perspectiva, cabe questionar: O que significaria, então, ser brasileiro num momento de aceleradas mudanças, marcado pela Abolição, República e pelo irromper dos substratos materiais da modernidade? Já éramos uma nação? O que nos faltava para atingir a completude ou, num tom mais pessimista, seria possível realizar tal proeza algum dia? Dilemas que também foram enfrentados pelos humoristas, como demonstra a primorosa pesquisa realizada.

Explicitados os fundamentos e objetivos da obra, o capítulo 1, Preparando o espírito para a Belle Époque, fornece ao leitor um rico panorama da produção humorística brasileira ao longo do século XIX, abarcando desde os folhetos cômicos do período regencial, pasquins, rodapés dos pequenos jornais até o surgimento das primeiras revistas ilustradas, que começaram a proliferar graças ao desenvolvimento da impressão e reprodução. A questão, porém, está longe de haver sido circunscrita aos seus aspectos técnicos. Como alerta o autor, nos decênios finais do Império,

(…) o recurso cômico era não apenas pouco difundido devido à inexistência dos próprios meios de difusão, mas também havia um mal disfarçado desprezo da cultura em geral pela produção humorística, a não ser quando esta se mostrava suscetível de ser incluída — ou classificada — nos moldes estéticos consagrados do romance, do drama ou da epopéia (p.43).

O que se admitia, no máximo, era o bom riso, que não destilasse rancor e tampouco atacasse frontalmente algo ou alguém em especial, postura exemplificada na maior parte da Enciclopédia do riso e da galhofa (1863), de um tal Pafúncio Semicúpio Pechincha, cognome Patusco Jubilado, pseudônimo adotado por Eduardo Laemmert. Quando não era esse o caso, e a narrativa continha (ou era lida como se contivesse) lances forte, com conotação degradante, obscena, grotesca ou marcada pelo rancor pessoal, rixas políticas, ressentimento social, a produção satírica acabava por ser cuidadosamente alocada nas margens da obra do escritor, como ocorreu com Bernardo de Guimarães e Olavo Bilac, por exemplo. Outros, que não adentraram o circuito da produção culta, acabaram esquecidos e proscritos do próprio mundo da escrita, caso de José Joaquim de Campos Leão, Hippolyto da Silva e Pedro Antonio Gomes Júnior.

Se a representação cômica da vida nacional não se iniciou na República, como o autor bem demonstra, parece assente que foi a partir dessa época que ela se intensificou e ganhou novas dimensões. No segundo capítulo, relativo à cidade do Rio de Janeiro, Saliba explicita quem eram os humoristas, sob que circunstâncias atuavam, de que forma se inseriam no campo intelectual, a auto-imagem que cultivavam. Num primeiro momento, a desilusão com o regime republicano congregou homens como Pardal Mallet, Lúcio de Mendonça, Paula Nei, Arthur Azevedo e José do Patrocínio que expunham, valendo-se das armas do humor, as contradições e paradoxos do regime recém instalado.

A esse grupo sucedeu outro, formado por Bastos Tigre, Emílio de Menezes, José do Patrocínio Filho, Raul Pederneiras, K. Lixto, J. Carlos, Storni, Yantok, que seguiu na trilha das críticas ao regime. É interessante notar que essa geração encontrava-se comprimida entre a alta cultura, representada, sobretudo, pelos parnasianos e simbolistas, e a atuação numa miríade de atividades que incluía artigos para jornais e revista, confecção de textos e desenhos para a nascente indústria do reclame, legendas e cartazes para filmes mudos, produção para teatro de revista, seja escrevendo roteiros, criando cenários e/ou figurinos, o que os obrigava a interagir com músicos, cantores, dançarinos, atores, diretores, encenadores, cenógrafos, enfim, todos os envolvidos nesse gênero misto destinado a atingir um público diversificado. As agruras que enfrentavam, a posição subalterna diante das fórmulas consagradas, que os instava a elaborar paródias e anúncios de acordo com os postulados da boa métrica, mas também a premência de agradar o público, atender às demandas dos meios de comunicação modernos e do mercado de bens culturais, que exigiam rapidez, concisão e versatilidade, os aproximava da oralidade, da fala coloquial, tornando-os uma espécie de ponte entre dois mundos. Além de explorar, com riqueza de detalhes, os aspectos mencionados, Saliba não deixa de perguntar como essa produção foi recebida pela elite letrada e de apontar a força do estigma por ela instituído, capaz de constranger esses homens, sintomaticamente denominados de ratés, a admitirem, implícita ou explicitamente, que não faziam literatura.

Questões de natureza semelhante são desenvolvidas no capítulo 3, consagrado aos humoristas radicados em São Paulo que, de forma ainda mais contundente, foram varridos da memória da cidade, possivelmente em função do conteúdo antiprogramático da sua produção, além de não se poder desprezar o fato de eles terem ficado ao largo do movimento de 1922. Os nomes de maior destaque foram: José Agudo (José da Costa Sampaio), Voltolino (Lemmo Lemmi), Cornélio Pires, Raul de Freitas, Juó Bananéri (Alexandre Ribeiro Marcondes Machado), Oduvaldo Vianna, Victor Caruso, Belmonte (Benedito Carneiro Bastos Barreto), Moacyr Piza, Hilário Tácito (José Maria de Toledo Malta) e, assim como ocorreu com os humoristas radicados na capital federal, muitos deles também transitaram por diferentes práticas culturais, ainda que as oportunidades oferecidas em São Paulo fossem bem mais restritas.

Saliba nos conduz à alta sociedade paulistana da Belle Époque por meio dos romances de José Agudo, ao universo caipira com Cornélio Pires, à babel moderna com o falar macarrônico, que atingiu seu melhor estilo em Juó Bananéri. Consegue, desta forma, dotar de materialidade a ebulição que caracterizava a cidade, com suas levas de desenraizados: ex-escravos, caipiras, imigrantes de origens variadas, que tanto preocupavam os detentores do poder e da ordem. A irreverência, porém, lhes custaria caro, pois:

(…) parece claro, afinal, que Bananéri e seus confrades, com seu hibridismo sintático, sua mestiçagem idiomática e seu anarquismo macarrônico, tinham se tornado um pouco inconvenientes naquela fábrica de certezas que era o clima mental vigente na São Paulo dos anos 20 (p. 212).

As polêmicas nas quais se envolveram Alexandre Marcondes, sempre protagonizadas pelo personagem que criou, e vários de seus confrades humoristas, foram objeto de detida análise, descortinando perspectivas instigantes para compreender as linhas de força que estruturavam o campo intelectual do período, atravessado por antagonismos, adesões, fidelidades, amizades e desafetos.

Por fim, no capítulo 4, questiona-se a respeito das relações que se estabeleceram entre o humor típico da Belle Époque e as novas mídias que se tornavam realidade a partir dos anos 30: o disco, o cinema sonoro, o rádio. O autor demonstra, de forma inequívoca, que os humoristas não tiveram dificuldades em se adaptar aos meios que então surgiam, graças à experiência que haviam acumulado:

(…) a mistura lingüística, a incorporação anárquica de ditos e refrões conhecidos por ampla maioria da população, a concisão, a rapidez, a habilidade dos trocadilhos e jogos de palavras, a facilidade na criação de versos prontamente adaptáveis à música, aos ritmos rápidos da dança e aos anúncios publicitários (p. 228).

As oportunidades abertas pela indústria fonográfica são exemplificadas com Cornélio Pires, pioneiro que, em 1929, já ostentava uma série inteira gravada com suas anedotas e crônicas, baseada na fala caipira, e Juó Bananére, que não chegou ao rádio em função de sua morte precoce. Saliba envereda, ainda, pelas relações entre humorismo e música, reconstruindo especialmente os diálogos entre Lamartine Babo e Bastos Tigre:

(…) espécie de último elo nessa tendência de intermediação cultural que praticamente constituirá a base para o humor radiofônico nos anos 30 e 40, com a geração do Capitão Furtado, Nho Totico (Vital Fernandes da Silva), Adoniram Barbosa, Ademar Casé, Renato Murce, Lauro Borges, Castro Barbosa, Gino Cortapassi e tantos outros(p. 283).

Ao lado da cuidadosa pesquisa, rigor e perspicácia analítica, na melhor tradição dos estudos culturais, Raízes do Riso distingue-se pela riqueza do material iconográfico, apuro editorial e estilo elegante do autor, que não se furta a brindar o leitor com excelentes tiradas de humor, fazendo jus a uma de suas epígrafes: “O humor não é um estado de espírito, mas uma visão de mundo” (p. 15).

Tania Regina de Luca – UNESP/Assis.

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Anarquismo, Estado e pastoral do imigrante. Das disputas ideológicas pelo imigrante aos limites da ordem: o caso Idalina – SOUZA (RBH)

SOUZA, Wlaumir Donizeti de. Anarquismo, Estado e pastoral do imigrante. Das disputas ideológicas pelo imigrante aos limites da ordem: o caso Idalina. Sn. Editora da Unesp, 2000. 243p. Resenha de: ALMEIDA, Vasni de. Revista Brasileira de História, São Paulo, v.22, n.44, 2002.

Um bom estudo em ciências humanas, um estudo histórico em particular, ganha relevância ao primar por dois aspectos: a preocupação com as mudanças que marcam uma sociedade numa determinada trajetória histórica e a atenção redobrada com as alterações verificadas nas instituições inseridas e ativas nesse processo de transformação1. Um tratamento cuidadoso para com as redes de interdependências entre diferentes grupos no estabelecimento de uma nova ordem social e cultural e para com os rearranjos internos que acompanham cada um dos grupos envolvidos aponta para a eficácia de um estudo acadêmico transformado em publicação. Esse é o caso do livro de Wlaumir Donizeti de Souza, voltado para a imigração italiana para o Brasil, ocorrida entre a segunda metade do século XIX e os primeiros decênios do século XX. Transição da monarquia para o sistema republicano de governo, a imigração como fator de mudança cultural e social e os elementos sociais em conflito (Estado, catolicismo e anarquismo) formam o esteio da obra.

Procurando se desvincular das armadilhas que tendem a estreitar “o leito do rio”, o autor verificou e destacou a intrincada teia de interesses desse significativo período de mudanças políticas e culturais pelo qual passou o País. Seu olhar esteve atento para as ações da Igreja Católica em relação às forças sociais externas a ela e em relação aos “catolicismos” coexistentes na sua esfera interna. Da mesma forma, sua atenção se voltou para os movimentos anarquistas em suas relações com o poder social do catolicismo, notadamente no que tange ao trato com o imigrante. Completando as forças que se locomoviam ao redor do trabalhador imigrante, estava o agricultor contratador de mão-de-obra. Esses são os elementos básicos que compõem a trama tecida pelo autor.

Para Donizeti de Souza, a população imigrante italiana, contratada para trabalhar no Brasil a partir da segunda metade do século XIX, foi instrumentalizada pelo catolicismo ultramontano, com a Igreja Católica buscando influenciar a política imigratória num período em que se aproximava o rompimento formal e tardio entre essa religião e o Estado brasileiro. Na tentativa de estabelecer os critérios para a arregimentação de trabalhadores, o catolicismo romanizado estimulou a elaboração de pastorais voltadas para o enquadramento do imigrante, tendo em vista o seu projeto religioso e político. Aos scalabrinianos, instituição missionária fundada em 1887, por dom Giovanni Baptista Scalabrini, religioso com larga experiência no trato com os postulantes `a imigração nas suas cidades de origem, coube essa tarefa. Para sustentar sua análise, o autor se apega ao conceito de imigrante ideal, ou seja, um trabalhador lapidado para atender a interesses econômicos políticos dos grupos que pensavam no sentido de nação, que então se desenhava lentamente, tanto na visão de fazendeiros quanto na de políticos de linhagem conservadora. O imigrante ideal seria aquele comprometido com os laços culturais e religiosos propostos na perspectiva romana de sociedade e indivíduo, imagem idealizada também pela oligarquia que o contratava. Para os fazendeiros, o estrangeiro contratado deveria ser “dócil, ordeiro, familiar e trabalhador”, uma mão-de-obra com as marcas da “resignação”. Na visão do poder religioso ultramontano, caberia ao catolicismo a moldagem do imigrante que satisfizesse os requisitos dos contratantes. O autor aponta com acuidade a conexidade entre o ideal de trabalhador desenvolvido pelo catolicismo romano e o tipo de trabalhador procurado pelo coronel para ser empregado na lavoura. Os dois ansiavam por trabalhadores obedientes. Quais as pretensões de um catolicismo que se via ameaçado por intrincada e complexa rede de inimigos, dentre os quais podemos encontrar os anarquistas, os maçons, os políticos liberais e os protestantes? Donizeti de Souza responde sem mais delongas: ser fonte inspiradora da cidadania brasileira e fonte única de unidade nacional. Enquanto o chefe local buscava aumentar o lucro (com a devida ordem) na unidade agrícola, o catolicismo buscava forjar, sob seus auspícios, a unidade cultural e religiosa do País. O que um fazendeiro esperava de um padre era que este ressaltasse “as obrigações morais do empregado para com o patrão, seu dever de obediência, de humildade, de docilidade e resignação, aceitando sua situação como desígnio divino, uma vez que a ordem social era por ele estabelecida”.

Da sua parte, o ultramontanismo pretendia, além das prerrogativas políticas e econômicas, enquadrar religiosamente o colono do interior do País, pouco afinado com as doutrinas da Igreja, procurando “instar um tempo sem magia”. Sendo assim, os scalabrinianos foram os designados para acompanhar o homem católico, desde a partida até sua instalação definitiva na sociedade hospedeira, isso dada a experiência acumulada por esses religiosos na missão junto ao imigrante. Na visão dos scalabrinianos, a religião seria um fator de patriotismo e de princípios civilizadores para os imigrantes em terras brasileiras. No entanto, como acontece em todos os processos de incursões missionárias, o agente não fica incólume na sociedade envolvente, não tardando muito para que esses religiosos percebecessem os fatores complicadores de sua missão. Havia inúmeras dificuldades em implantar o projeto de pastoral de imigrante: falta de padres, custo das viagens de religiosos, descontinuidade na formação de trabalhadores contratados. Padres ávidos por lucros, ostentadores, boêmios, apresentavam-se também como percalços na organização de uma pastoral alicerçada no ultramontanismo.

Os scalabrinianos, assim, tencionavam atuar junto ao imigrante italiano com maior independência possível do clero local, dada a influência que esse exercia junto às populações interioranas e por serem poucos afeitos às exigências de um catolicismo disciplinador. A religiosidade praticada em regiões distantes dos grandes centros, com a complacência dos padres, poderia colocar em risco o projeto educacional que pretendiam implantar. As divergências entre os scalabrinianos e padres das paróquias logo emergiram e são reveladoras dos embates internos no seio de um catolicismo que atuava numa sociedade que passava por profundas transformações, tanto na esfera política quanto na cultural. Em determinado momento da missão dos scalabrinianos no Brasil, mais precisamente no período em que o padre Cansoni esteve no País, a ordem foi aconselhada a assumir paróquias, onde o sustento seria mais viável. Isso porque a inquietude entre o clero nacional e o ultramontano estava se tornando visível, com os primeiros cada vez mais resistentes à presença da ordem em sua área de atuação, já que esta tinha a liberdade de acompanhar os imigrantes em qualquer paróquia, mesmo sem estar comprometida com ela.

Uma proposta de Domenico Vicentine, substituto de Scalabrini na condução da ordem, restringia a missão dos carlistas à formação de quadros para o serviço junto aos imigrantes, cabendo aos bispos das dioceses a administração da política pastoral ao imigrante. Na verdade, o clero nacional pretendia enquadrar os scalabrinianos nas estruturas das paróquias, impedindo assim que a missão junto aos imigrantes invadisse a jurisdição das dioceses, o que contrariava a intenção da ordem, que era a de agir sem necessariamente estar vinculado às estruturas eclesiais vigentes. Percebendo as dificuldades em atuar na jurisdição das paróquias, os scalabrinianos fundaram um orfanato cujo objetivo seria o de amparar crianças órfãs que vagavam pelas ruas (esquálidas, tristes, fracas e miseráveis), preparando-as para o trabalho e para serem “bons cidadãos” e “cidadãs”. Utilizando como recurso de convencimento o fato de o orfanato ser um espaço de formação de crianças desvalidas, moldando-as para o trabalho, os scalabrinianos obtiveram dos fazendeiros o apoio necessário para a implantação do projeto, conseqüentemente, da estruturação da ordem no País. Lembra o autor que os orfanatos constituíam-se através de uma mentalidade tridentina, fato que mais uma vez denota a tentativa de romanização do imigrante por meio da ação educacional.Ao saírem em missão para angariar fundos para o orfanato, os padres scalabrinianos batizavam, ouviam confissões, faziam casamentos, enfim, atrelavam a proposta educacional à estruturação da ordem, funcionando o orfanato como um ponto estabilizador das missões.

O autor destaca que os scalabrinianos foram acossados, no final do processo imigratório, em três frentes: na primeira, pela oligarquia, já que o imigrante não mais se apresentava como um investimento seguro; na segunda, pelos párocos locais, temerosos de perder a arrecadação junto aos poucos imigrantes que ainda entravam no país; na terceira, sofria a concorrência dos anarquistas e dos maçons. Nessas frentes de combate, a que mais merecia atenção por parte do clero romano era a política desencadeada pelos anarquistas juntos aos imigrantes.

A celeuma entre a ordem scalabriniana e grupos anarquistas, na atuação junto aos imigrantes, mereceu por parte do autor um capítulo à parte. De posse de um documento desses religiosos sobre o desaparecimento de uma das internas do orfanato, Donizeti de Souza rastreou em publicações anarquistas o mesmo assunto. Nas leituras dos periódicos, percebeu com perspicácia a disputa que se travava entre o movimento político anarquista e o movimento religioso católico ultramontano pelo controle do imigrante. Tencionando alcançar o monopólio do acompanhamento ao imigrante em diversas regiões do País, as duas partes procuravam atingir a imagem do outro perante a opinião pública e perante o Estado. Não foi intenção do autor apontar o desenlace da trama envolvendo a menina Idalina, personagem central da discórdia, o que certamente o faria enveredar para um texto novelesco, tão em moda na historiografia atual. Antes, sua atenção esteve voltada para a distinção dos elementos em conflito, fazendo de sua obra uma possibilidade de compreensão dos interesses de instituições nas formulações ideológicas de um período que ainda carece de novos estudos.

Resta apontar os complicadores das considerações de Donizeti de Souza, que são de duas ordens: a primeira diz respeito à afirmação de que a intenção dos scalabrinianos era a de constituir, nas pequenas cidades em ascensão, dada a presença do imigrante italiano, “pequenas itálias”; o segundo complicador desse texto bem articulado reside na afirmação do autor de que no projeto dos religiosos estava embutido um projeto “neocolonial”. Não estariam essas responsabilidades aquém das forças de uma ordem religiosa que não se configurava entre as mais influentes dentre o escopo missionário católico, tanto no Império quanto na Primeira República?

Para além desse pequeno deslize (se é possível considerar como tal uma afirmação que não compromete o texto), essa obra é um alerta para quem reduz aos liberais, à maçonaria e ao protestantismo a capacitação de indivíduos voltados para uma sociedade ordeira e laboriosa, quesitos básicos para a consolidação da República. Em se tratando de moralização de condutas, as intenções de protestantes, católicos e maçons não eram tão díspares quanto podem parecer numa análise estreita. Os ultramontanos buscavam com disposição instilar o rigor disciplinar entre os trabalhadores imigrantes tendo em vista a composição de uma nova ordem social, um tanto quanto ameaçada pelos ideais políticos anarquistas, dos quais os italianos não estavam distantes.

Notas

1 Temos em mente, quando sinalizamos para a rede de interdependências em processos de mudanças (ou de desenvolvimento), as concepções teóricas de Norbert Elias sobre transformações sociais no processo civilizador. O processo civilizador. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1993, vol. 1.

Vasni de Almeida – Doutorando em História-UNESP/Assis.

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Antigo Regime nos trópicos: a dinâmica imperial portuguesa (séculos XVI-XVIII) – FRAGOSO et al (RBH)

FRAGOSO, João; BICALHO, Maria Fernanda; GOUVÊA, Maria de Fátima (orgs.). Antigo Regime nos trópicos: a dinâmica imperial portuguesa (séculos XVI-XVIII). Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2001. 473p. Resenha de: GRAÇA FILHO, Afonso de Alencastro. Revista Brasileira de História, São Paulo, v.22, n.44, 2002.

Com um prefácio impecável de A. J. R. Russell-Wood, chega-nos uma obra coletiva inovadora que une pesquisadores lusos e brasileiros. Não se trata de mais uma publicação que acompanha o crescimento do mercado editorial sobre os tempos coloniais, embalado pela comemoração dos descobrimentos, mas de uma contribuição definitiva para a revisão do chamado “antigo sistema colonial”. Lá se vão pouco mais de vinte anos desde que Ciro Flamarion Cardoso chamou a atenção, de forma ensaística, para a preocupação obsessiva com a extração de excedentes pela metrópole na historiografia colonial brasileira. Ao cabo deste período, a pesquisa acadêmica tomou fôlego e trouxe novas evidências empíricas para a cena do debate.

A historiografia portuguesa, independentemente das discussões acerca da autonomia do modo-de-produção escravista colonial que marcou profundamente os estudos brasileiros, também se renovou com o revisionismo de seu Antigo Regime, particularmente sobre o fracasso das reformas pombalinas, o crescimento industrial gorado com a Independência brasileira e o questionamento sobre a centralização do poder pelo Estado monárquico lusitano.

Ambos os percursos historiográficos se amalgamam nesse livro, nos dando uma visão ampla e diversificada sobre a complexidade do que foi o Império luso, tendo como elemento catalizador o controvertido “pacto colonial”.

O primeiro bloco de ensaios, através da pesquisa de múltiplas fontes primárias manuscritas e inéditas, traça a trajetória da elite econômica e política da capitania do Rio de Janeiro. João Fragoso, Antonio Carlos Jucá de Sampaio e Helen Osório vão abrir o conjunto de doze artigos, situando a praça mercantil carioca no centro de uma vasta rede de operações abrangendo rotas no ultramar africano e asiático, bem como as linhas do abastecimento do mercado brasileiro da época. Atuação que caracterizou a elite mercantil de grosso trato daquela cidade pelo menos até os anos de 1830 e que se consolida no setecentos (Fragoso, p. 333).

A passagem da elite agrária dos fundadores da Guanabara para o predomínio dos homens de negócios na hierarquia social é marcada pela crise da economia açucareira que acompanhou a reativação mercantil do Rio de Janeiro, causada pelo impacto da mineração e o controle carioca no abastecimento das Minas Gerais. Também a subordinação da economia sulista ao domínio dos capitais mais elevados dos negociantes guanabarinos fica patente nos dados de arrematação dos impostos sobre as mercadorias rio-grandenses, estudados por Helen Osório.

Os três artigos iniciais vão sublinhar as estratégias de enriquecimento dentro de uma economia chamada do “bem comum”, dominada pelas melhores famílias da terra. Nessa economia de distribuição de benesses e privilégios, as alianças familiares e clientelistas são decisivas para acumulação de fortunas. Nota-se a influência, entre outras, da abordagem de Giovanni Levi, Braudel e Polanyi, para a análise da reciprocidade dos favores entre famílias e o mercado pré-capitalista imperfeito, bem como do método genealógico das famílias, propalado por Adeline Daumard e Jacques Dupâquier, imprescindível para a reconstituição dos mecanismos de formação dos patrimônios privados nas sociedades pré-industriais.

Talvez, neste bloco inicial e ao longo do livro, o leitor sinta a falta de trabalhos que cuidassem mais detidamente da participação das demais capitanias no sistema complexo das rotas mercantes e no funcionamento administrativo dos vice-reinados, notadamente da Bahia, Pernambuco, Minas Gerais, São Paulo e Grão-Pará. Embora esse desejo pudesse soar excessivo ao plano que alinhava a obra, o do esforço de análise dos aspectos centrais do Antigo Regime lusitano revisto pelo papel desempenhado pelas instituições e elites coloniais, com ênfase na praça do Rio de Janeiro.

Nas duas seções seguintes, a diversidade de assuntos partilha de um denominador, o das relações de poder na administração do Mare Lusitano. A figura de um regime colonial centralizado no poder da Coroa é substituída pela imagem de um espaço de negociação, que edifica as relações mutualistas ou simbióticas entre a grande autonomia das câmaras municipais, instituições eclesiásticas ou senhoriais e o poder real, que se beneficiava do bom andamento dos negócios coloniais (ver artigos de Maria Fernanda B. Bicalho, Antonio Manuel Hespanha, Nuno Gonçalo F. Monteiro e Maria de Fátima S. Gouvêa). Afinal a economia política dos privilégios, institucionalizada pelas monarquias do Antigo Regime nas colônias, estava assentada numa cadeia de negociações entre redes pessoais e institucionais do poder local e o trono metropolitano, hierarquizando os homens e o acesso à obtenção das benesses imperiais. O outro lado desta realidade seria a coesão política necessária para o governo do Império. Antonio Manuel Hespanha, investigando as regras formais para a atuação das instituições coloniais diante do poder real, indicará as inconsistências da suposta uniformidade da estrutura jurídica do Império, como corolário da idealização do centralismo do poder do monarca. Trabalhando comparativamente com a diversidade de situações entre a organização da justiça em Goa, Bahia e Rio de Janeiro, Antonio Hespanha torna visível a pluralidade dos laços de políticos que iriam se estabelecer entre o poder local e a Coroa a partir das distâncias e realidades da conquista, nas quais o direito colonial moderno se ajustava e os nativos estabeleciam suas práticas legislativas próprias. Portanto, a centralização não poderia ser efetiva sem um quadro legal uniforme e o poder restrito ao mando dos oficiais metropolitanos.

A experiência da evangelização é tratada por Ronald Raminelli e Hebe de Mattos. O primeiro, enfatizando as diferentes estratégias missionárias no Congo, Brasil e Japão, que pretenderam unir povos diversos sob a defesa da fé cristã. O projeto missionário que cimentava a conquista, ao criar a identidade cultural entre povos subjugados e os valores metropolitanos, continha elementos para a sua corrosão ao se manter dentro dos limites da desigualdade representada pela exclusão dos gentios no corpo social hierarquizado.

Num dos artigos mais polêmicos da coletânea, Hebe de Mattos vai se contrapor às motivações de ordem econômica utilizadas pela historiografia brasileira para explicar o estabelecimento do regime escravista nas Américas, tais como a falta de braços para as tarefas da colonização ou a lógica mercantilista das monarquias modernas. A construção de justificativas religiosas para a escravidão, a exemplo da guerra justa para a salvação dos gentios, não foi forçada pela lógica mercantil da expansão. Ao contrário, antecederia a empresa ultramarina e teria fabricado as referências mentais e políticas, de fundo corporativo e religioso, que permitiram a aventura colonial, inclusive em sua dimensão mercantil. A escravidão seria a mola propulsora para os colonos portugueses motivados pela possibilidade de se afidalgarem no além-mar, conquistando o status de senhores de homens e terras. Caímos, assim, na polêmica das determinações históricas e poderíamos nos perguntar se não deveríamos separar as motivações das razões impostas pelas necessidades da experiência da colonização. Ou ainda, distinguir as aspirações que moviam os colonos e as estratégias da Coroa para o seu enriquecimento, dentro da lógica mercantilista do Estado moderno. De qualquer maneira, deixemos o leitor tomar partido.

A última parte do livro vincula múltiplos aspectos da obra à construção da noção de uma economia colonial tardia, que se define pela hegemonia do capital mercantil residente no Rio de Janeiro, e se constituiria na nova elite econômica da América portuguesa. João Fragoso persegue um modelo explicativo para a economia colonial já definido em sua tese de doutorado (Homens de grossa aventura), e do qual alguns trabalhos aqui apresentados lhe são tributários. Por conseguinte, modelo forjado no programa de história agrária da UFF, sob a batuta de Maria Yedda Linhares. Nele, a autonomia da economia colonial é sustentada, com base numa cuidadosa pesquisa empírica, diante das flutuações externas e do poder da metrópole. A hegemonia econômica dos negociantes do Rio de Janeiro é meticulosamente recuperada por fontes cartoriais e arquivísticas diversas. Neste novo livro, Fragoso procura remontar seu estudo ao momento da transformação da acumulação de capitais pela economia da plantation em direção à constituição de uma elite mercantil colonial, que se mostrará autônoma e capaz de amealhar sua fortuna nas redes do comércio interno e ultramarino. As implicações dessas constatações são imensas para a historiografia brasileira, ainda não explorada de todo nas suas dimensões políticas e sociais.

E, finalmente, os textos de Roquinaldo Ferreira e Luís Frederico Dias Antunes ajudam a fundamentar os argumentos de Fragoso. Ambos, com riqueza de detalhes, reconstroem os circuitos intra-ultramarinos do comércio carioca com a costa africana e Goa. Negociantes do Rio, da Bahia e Pernambuco são identificados com freqüência nos portos indianos, participando ativamente do comércio de tecidos asiáticos (Luís Antunes). As três praças também usufruíam da vantagem do comércio direto com Angola, com a presença de suas embarcações representando cerca de 85% de toda a movimentação portuária de Luanda entre 1736 e 1770 (Roquinaldo Ferreira). Do Brasil partiam os panos asiáticos reexportados, as cachaças (“geribitas”), pólvora e armamentos para as trocas no sertão angolano, especialmente os escravos. E nesse tráfico novamente o Rio de Janeiro se destaca, absorvendo 48,5 % dos navios negreiros que zarparam de Luanda na década de 1760 (Idem).

Ao concluirmos nossa leitura, no mínimo podemos afirmar que se os argumentos não convencerem os mais céticos, a profusão de indícios e as comprovações empíricas, especialmente sobre a vinculação da praça carioca com a navegação de longa distância e suas triangulações de mercadorias com a Costa da Mina, Angola e Goa, alteram em definitivo a percepção do “pacto colonial”, reafirmando a autonomia que o capital mercantil sediado nas colônias ousou possuir ante o poder metropolitano. É prova também de que a história econômica e das estruturas se renova, sem esgotar as suas possibilidades de contribuição para o saber histórico. Aqui, os resultados das pesquisas regionais se sintonizam e dialogam com uma totalidade revisitada, o Império colonial português. Aguardamos ansiosos pelas controvérsias que o livro certamente causará no meio acadêmico.

Afonso de Alencastro Graça Filho – Universidade Federal de São João del Rei.

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Nossa América: A Utopia de um Novo Mundo | Eugênio R. Carvalho

Com o titulo Nossa América: a utopia de um Novo Mundo, o historiador Eugênio Rezende de Carvalho nos apresenta o pensamento de José Martí, grande poeta, escritor de uma obra bastante densa e também revolucionário cubano. Sem dúvidas, uma das figuras substantivas do pensamento americanista do século XIX. Eugênio Carvalho há alguns anos vem trilhando pelos caminhos tortuosos do estudo da História das idéias e do pensamento latino-americano, tendo como foco central de sua atenção a produção intelectual de José Martí. Este livro é sua primeira obra, permitindo identificar um escritor refinado com uma linguagem densa mas sumamente acessível ao público universitário e geral. Trata-se de uma obra síntese em que o autor se propõe a nos apresentar as premissas básicas que estruturaram o pensamento de José Martí sobre o mundo latino-americano; principalmente no que concerne ao seu projeto identitário de construção de uma América que fosse ‘Nossa’. Seu livro merece destaque por introduzir a obra de José Martí no mercado editorial nacional; vindo desta forma, suprir uma carência de estudos desta figura importantíssima do pensamento latino-americano.

Pela leitura da obra, percebe-se que o projeto contido em Nossa América de José Martí é a proposta da construção de uma indentidade continental, expressão de um desejo de integração que se estrutura na convicção de que se possui um destino próprio, diferenciado porém comum. É um desejo que funciona como fator de identificação. É o nome de uma ‘comunidade imaginada’, e imaginada não por irreal e sim por ideológica, por ser sonhada, cobiçada. O discurso americanista de Martí representa uma ação a nível real e simbólico, contribui na produção de uma realidade e é a expressão de um imaginário social, um desejo e uma identidade, um desejo de identidade. E como todo produto social e cultural, o americanismo tem sua história, afinal, as condições de enunciação do discurso, que permitiram tanto sua gestação quanto sua difusão são de suma importância a qualquer estudo histórico. É o chamado contexto, tão caro a nós historiadores, e que nos permite penetrar no diálogo que o escritor estabelece com as demandas de seu tempo, com suas carências que são também as carências de sua sociedade, e, acima de tudo nos possibilita buscar quais são os interlocutores deste autor – qual o debate de idéias que está sendo travado, as visões e projetos que estão em combate. É exatamente por este caminho que nos conduz a leitura do livro de Eugênio Carvalho.

O autor busca e consegue proporcionar uma visão panorâmica do século XIX, século das independências dos países da América Latina, contexto social e político propiciador do surgimento de projetos utópicos.

Afinal, é o momento em que a identidade representa uma preocupação premente para a intelectualidade latinoamericana. Para a elaboração de um projeto é condição imprescindível o diálogo com os antecedentes históricos para se estabelecer a diagnose do período que se vive; uma espécie de inventário para identificar os erros e desvios tendo em vista apontar e legitimar o caminho a seguir para mudar o estado das coisas.

Estas são algumas das questões tratadas no capítulo primeiro de Nossa América. Eugênio Carvalho mostra qual foi o diagnóstico estabelecido por José Martí, e como seu discurso se estrutura no sentido de revelar os perigos que rondavam a América Latina.

José Martí, dono de uma narrativa permeada por um emaranhado abundante e complexo de figuras literárias e metafóricas de riqueza ímpar, faz uso destas últimas para nomear os perigos que assolavam o mundo latinoamericano. A estes ele nomeou de tigres, os de dentro e os de afuera, tigres que deveriam ser o objeto primeiro das preocupações dos homens de nossa América, pois, traiçoeiros, poderiam estar a espreita atrás de qualquer árvore. A segunda categoria de tigres, os de fora, é identificada pelos Estados Unidos (Martí é um dos primeiros a identificar o perigo que representava para a America Latina o espírito imperialista deste país). Já os primeiros, são os tigres internos, os fantasmas pessoais do mundo latinoamericano, ele aponta como sendo o produto da herança colonial, o localismo também chamado de espírito aldeão, a falta de raízes fruto de um sentimento de inferioridade, a importação cega de modelos e formas alienígenas, os falsos eruditos ou letrados artificiais, etc.

Eugênio Carvalho também procura trabalhar o processo da ‘evolução do pensamento’ de José Martí rumo a uma tomada de consciência maior sobre a realidade da América que ele propunha nossa.

Nos apresenta quais foram as experiências significativas para a configuração desta percepção consistente, assim como, exibe as teorias sociais e filosóficas em voga no período. Teorias que se propunham tanto a interpretar quanto a modernizar a América Latina, tirando-a do estado de bárbarie e levando a se constituir como civilização. Estas representavam o outro projeto de identidade com o qual Martí se bateu e debateu por considerá-lo incompatível com a realidade latinoamericana – um programa que era o fruto do desconhecimento dos reais problemas da América Latina.

No capítulo II, sob o título, A proposta, o autor mostra as figuras recorrentes no discurso martiano, a retórica construída para ilustrar a especificidade do mundo latinoamericano, que por sua vez demandava a busca de um caminho próprio e não a cópia de modelos oriundos de outra realidade histórica. A utopia martiana é considerada uma utopia realista por estar ancorada numa realidade concreta, em um profundo conhecimento das limitações e possibilidades efetivas existentes. O autor busca mostrar esta lucidez do pensamento de José Martí, clarea algumas questões que poderiam se apresentar contraditórias no pensamento de Martí, enfatizando assim possuir grande intimidade com seu objeto. Neste capítulo o autor demonstra a preocupação com os conceitos utilizados por Martí, como o de Nossa América, América Latina e modernidade.

Frente a uma realidade confessadamente fragmentada o exercício ordenador de Martí busca defender a América dos tigres tanto internos quanto externos. Defende a idéia da unidade latinoamericana por via de dois níveis interligados. O primeiro seria a necessidade de defesa frente a um inimigo comum, consubstanciado na ameaça de intervenção estrangeira (norteamericana); o outro ponto, foi o que José Martí designou como sendo a unidade de alma e espírito (acreditava que existia um espírito prórpio latinoamericano). Para ele, conseguir a sobrevivência de Nossa América só seria possível se hovesse a unidade destes dois níveis; uma vez que, estes representavam o componente sentimental essencial na consolidação de um projeto de “identidade-nós”. Um projeto que despertasse o sentimento de co-pertencimento numa realidade que se apresentava fragmentária, propugnando um passado e um futuro semelhantes.

Com relação ao conceito de identidade em Marti, este pregava a busca de equilíbrio entre a parte e o todo, entre a especificidade da cultura latinoamericana e sua integração a uma totalidade cultural a nível universal. Não é contra o diálogo com outras culturas (o que ele denomina de enxertos), mas defende a necessidade de preservação das raízes culturais próprias (o tronco). Considerava que o mundo latinoamericano muito teria a dar em contribuição às outras culturas, desde que despertasse do estado de inautenticidade e apatia em que se encontrava.

No capitulo terceiro, Eugênio Carvalho analisa a questão do sujeito que deveria encabeçar o projeto utópico elaborado por Martí, o chamado homem natural. Como nos capítulos anteriores o autor procura mostrar como foi ocorrendo a evolução do pensamento de José Martí até a definição final de homem natural. Para ele, este seria o mestiço, uma espécie de síntese superadora do europeu e do indígena autóctone, síntese esta que posteriormente englobaria os elementos de origem africana.

Todavia, como é apresentado pelo autor, quando Martí fala de mestiçagem, não está se referindo no sentido biológico, uma vez que ele é contra o conceito de raça. Quando ele usa tal conceito, está se referindo a uma comunidade cultural, a mestiçagem seria, portanto, uma mistura de culturas, fruto de um processo contínuo de enxertos e depurações.

Na época estava muito em voga a teoria da eugenia, como representante maior desta no continente temos a figura de Domingos Faustino Sarmiento (1811-1888), este considerava o elemento estrangeiro como sendo a figura responsável pela purificação do sangues do povo latino assim como alavancador da civilização moderna nos trópicos. Martí, ao contrário via com certa cautela esta migração, não que a ele fosse indesejada, mas considerava outro o protagonista da nova América. Para ele, o elemento indígena seria uma figura de suma importância para o futuro do continente, este mesmo elemento que na atualidade estava dormido, mas que uma vez desperto (livre dos vícios da escravidão e servidão) e instruído, assumiria o papel de verdadeiros sujeitos históricos do munto latinoamericano.

Como podemos observar, Eugênio Carvalho nos coloca algumas questões interessantes sobre o fenômeno das identidades. Perguntas bastante pertinentes a quem se aventura no campo da história das idéias e do fenômeno da constituição de identidades. Questiona sobre a produção dos discursos e os envolvidos em tal processo, sobre quem nomeia e quem é nomeado, porque silenciado (sem voz), assim como da autoridade e legitimidade de tal discurso. O realismo utópico de José Martí, baseado em um criterioso diagnóstico e em uma proposta/projeto de igual forma lucido muito tem a contribuir para uma reflexão maior sobre as especificidades/identidades das sociedade latinoamericanas. Martí buscou descobrir o homem latinoamericano a partir de uma visão própria, não com os olhos do outro, não com o pensamento impregnado de teorias (pré-conceitos) alienígenas, fruto de outras realidades sociais e históricas.

Constitui um truísmo o fato de que quando o historiador se volta para o passado esta viagem é levada a termo tendo em vista a busca de respostas às inquietações e carências do presente. Partindo desta premissa, a obra aqui resenhada mostra uma grande relevância por tratar de questões que são bastante caras à atualidade histórica. A identidade é uma questão central das sociedades modernas, a fragmentação do sujeito, o desaparecimento das fronteiras culturais devido aos meios de comunicação de massa, a sociedade de consumo e os avanços imperialistas reclamam uma reflexão maior sobre este fenômeno.

Constitui uma necessidade para que estas possam continuar existindo como unidades autônomas ainda que inter-dependentes.

Como José Martí pregava, “injértese en nuestras repúblicas el mundo; pero el tronco há de ser el de nuestras repúblicas”. Mas para que os enxertos realizem sua função de desenvolver/fortalecer a planta é necessário que se conheça bem o solo que esta habita. E, da mesma forma que é necessário distinguir as características daquela que irá acolher o enxerto também o é para a que será enxertada.

A obra aqui apresentada constitui material rico que muito estimula uma reflexão maior quanto às especificidades do mundo latinoamericano e seus projetos identitários. O diagnóstico feito por José Martí no século XIX pode facilmente ser transposto para o atual momento histórico sem incorrermos em muitos anacronismos. Afinal, os tigres, os de afuera e os de adentro estão nitidamente materializados e seus perigos apresentam-se cada vez mais reais e concretos. Quanto ao entorpecimento do homem latinoamericano, este ainda constitui um dado de nossa dura realidade que reclama por mudanças iminentes.

Márcio Antônio de Santana – Mestrando em História pela Universidade Federal de Goiás. Pesquisador do Centro de Estudos do Caribe no Brasil.


CARVALHO, Eugênio Rezende de. Nossa América: A Utopia de um Novo Mundo. São Paulo: Editora Garibaldi, sd. 106p. Resenha de: SANTANA, Márcio Antônio de. Revista Brasileira do Caribe, São Luís, v.2, n.4, jan./jun., 2002. Acessar publicação original. [IF].

La enseñanza de la Historia ayer y hoy – GÓMEZ (RTDCS)

GÓMEZ, A. L. La enseñanza de la Historia ayer y hoy. España. Díada Editora S.L., 2000. Resenha de: ARCHILA, Marleny Rivas. Revista de Teoría y Didáctica de las Ciencias Sociales. Mérida, n.7, p.288-290, ene./dic., 2000.

En los últimos años la enseñanza de las Ciencias Sociales y específicamente, la enseñanza de la Historia, por su implicación y trascendencia social ha sido motivo de reflexión y discusión crítica, tanto en el ámbito nacional como internacional.

En este sentido, el autor plantea un debate comparativo de esta problemática en la comunidad española y anglosajona.

El trabajo que reseñamos tiene como propósito realizar un análisis del proceso de la enseñanza de la Historia en el contexto europeo. Al mismo tiempo que estudia una revisión de la selección, organización y secuenciación de los contenidos curriculares, propone y sugiere alternativas distintas en la práctica educativa y su evaluación.

La obra consta de 5 apartados: El valor formativo de la enseñanza de la Historia: Culturalismo, civismo, formalismo y (Neo-) academicismo; la pluralidad de propuestas de selección y de organización de contenidos en Historia: Cultura, conocimiento y escuela; las estrategias de trabajo para el aula: Cultura, historia y psicología; la racionalidad curricular, evaluación y enseñanza-aprendizaje histórico – social; y a modo de síntesis valorativa: Cultura, ciudadanía y enseñanza de la Historia, ayer y hoy.

En el primer apartado el autor enfoca históricamente la evolución de la enseñanza de la Historia, su importancia en los niveles de primaria y secundaria, la utilidad que tiene como herramienta para comprender y resolver problemas de la sociedad en que vivimos. En esta primera parte, señala los aportes y cita alguna de las obras de Rafael Altamira, quien propone que la enseñanza de la Historia debe considerar el estudio de su epistemología, el qué Historia enseñar, el método para enseñar los contenidos, la formación del profesorado y la importancia que tiene en el proceso de enseñanza – aprendizaje. Este autor hace un estudio a la teoría historiográfica y sus profundos cambios en los contenidos curriculares.

En el segundo apartado: La pluralidad de propuestas de selección y de organización de contenidos en Historia: Cultura, conocimiento y escuela, realiza un recorrido histórico sobre la problemática de la selección y organización de los contenidos, al modelo didáctico transmisivo que se asume en la enseñanza tradicional de la Historia, la secuencia cronológica, y el aprendizaje repetitivo. Plantea los cambios propuestos y aportes de algunos investigadores del área de “Estudios Sociales”.

En el tercer apartado, estrategias de trabajo para el aula: Cultural, histórica y psicológica; se refiere a las estrategias de enseñanza que han predominado en el campo de la didáctica a través de los postulados de la psicología en los últimos 20 años. Lo más importante de esta tendencia es la presencia de actividades con una secuencia lógica de contenidos, siendo el recurso didáctico, en este caso, el docente. Otro planteamiento sobre la estrategia de la educación histórica es la propuesta de algunos autores sobre la enseñanza por descubrimiento, y la teoría sobre el aprendizaje significativo.

En el apartado número cuatro: Racionalidad curricular, evolución y enseñanza – aprendizaje histórico – social, hace una revisión a la evaluación en las últimas dos décadas y específicamente, a la evaluación en didáctica de las Ciencias Sociales. Cita a López Facal (1983) quien propone como referentes para evaluar, cuatro tipos de conocimiento: Acontecimientos, fuentes sociales, evidencias, indicios, relaciones, motivos y causas, procesos para lo cual se toman en cuenta cuatro capacidades: recordar, interpretar, aplicar y formular.

En el quinto y último apartado, a modo de síntesis valorativa: Cultura, ciudadanía y enseñanza de la Historia, ayer y hoy, y a manera de conclusión elabora algunas reflexiones y aportes sobre la enseñanza de la Historia, considerando los cuatro apartados anteriores.

Es de interés resaltar la importancia de esta publicación, ya que nos permite hacer un recorrido histórico de finales del siglo XX y comienzo del XXI sobre la enseñanza de la Historia, su finalidad social, el transitar de los contenidos curriculares, la práctica educativa, la evaluación y las propuestas alternativas que nos brindan la posibilidad de debatir y confrontar lo conceptual – metodológico de la enseñanza de la Historia en el contexto de las Ciencias Sociales.

Marleny Rivas Archila – Grupo de Investigación Teoría y Didáctica de las Ciencias Sociales Facultad de Humanidades y Educación. Universidad de los Andes.

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Pedagogía crítica y cultura depredadora. Políticas de oposición en la era posmoderna – McLAREN (RTDCS)

McLAREN, Peter. Pedagogía crítica y cultura depredadora. Políticas de oposición en la era posmoderna. Barcelona. Paidós Educador, 1997. Resenha de: VILLERA, Aliria. Revista de Teoría y Didáctica de las Ciencias Sociales, v.7, n.7, p.271-275, ene./dic., 2002.

Ante la vida contemporánea, sujeta a las transiciones de fin de siglo, la variedad de discursos “plurales”, “alternos” o “periféricos” evidencian las nuevas formas de encuentros intersubjetivos como acontecimientos signados por el “espíritu de los tiempos”. Colapsan las visiones lineales y la mirada logocéntrica como eje predominante de la razón totalizante y entra en descrédito toda supuesta unidad y modo universalista instaurado desde la modernidad.

Hoy, asistimos a la existencia de las paradojas entre lo uno y lo múltiple, lo simple y lo complejo, lo simultáneo y lo sincrónico, el caos y lo sistemático; en fin, las nuevas socialidades hacen surgir interrogaciones nuevas ante la emergencia de lo posmoderno – multiplicidad de identidades inestables, coexistentes y ambiguas-.

En el escenario presencial actual de nuevas realidades fluctuantes y fragmentadas, hacen ruidos múltiples voces desde las periferias y las diversas narrativas de la ficción. Nuevas búsquedas exigen re-equipamientos desde todos los sentidos representacionales posibles, a efectos de asumir la complejidad del presente. Pero, ¿desde dónde pueden ser pensadas, repensadas, recreadas o resituadas? Posiblemente, lo que hoy circula como vivencia de un “mundo de simulación” requiere de diversidad de lecturas como desplazamientos bajo distintos espacios e hiperdimensiones.

En estos asuntos que recorren los “nuevos tiempos”, McLaren se lanza a la disputa y al debate que supone “leer críticamente las narraciones que ya nos están leyendo a nosotros”.

El contexto de análisis de la obra presentada por Mclaren, examina la vivencia cultural en torno a los distintos escenarios de la existencia social -deslocalizada y sin rumbo fijo- como proliferación de múltiples divergencias y contingencias que imponen la velocidad tecnológica y los excesos del marketing y del consumo. El autor, expone tales cuestiones con la idea de “cultura depredadora”, la cual sobrevive sin antifaz ni camuflaje. Indica “la cultura depredadora es la gran impostora. Marca la ascendencia de la imaginación deshidratada que ha perdido su capacidad de soñar. Es la cultura de las víctimas erotizadas y de las revoluciones descafeinadas. Nosotros somos sus hijos y sus hijas”.

El texto contiene una narrativa inquietante que configura una exigencia reflexiva acuciosa, de constante ejercicio del pensamiento crítico y de la meditación ante todo lo que supone los llamados modos “alternos” y “periféricos” como lectura transtextual, además, aunado a la diversidad de los contenidos temáticos complejos en cuanto a: lo social, lo cultural, lo paradigmático, lo humano y, por supuesto, en las implicaciones con lo educativo, la crisis de significado y de representación.

Las nuevas formas culturales, desde los estilos de vida múltiples hasta todo el bricolage cultural massmediático comunicacional, es abordado por McLaren asumiendo la incerterza del presente en el advenimiento de la posmodernidad.

En tal sentido, la idea-fuerza que vehicula el texto de McLaren, se corresponde con la comprensión crítica de los diversos pluralismos y de las modalidades de subjetividades diseminadas en la cultura de la imagen como nuevas estructuras ideológicas hegemónicas.

Desde esta perspectiva, McLaren apuesta por una pedagogía crítica que denomina “praxis utópica sociocrítica” en tanto postula la acción crítica en tiempos de vida posmoderna, apropiándose dialécticamente y mediando activamente en “esferas públicas de oposición conectadas a la producción de la vida cotidiana y a las más amplias esferas institucionales de poder” .

Para McLaren la propuesta de una pedagogía crítica se deberá asumir como forma política cultural de resistencia.

Hace hincapié en plantear un tipo de teoría social posmoderna que él llama “posmodernismo de oposición”, en tanto ello supone asumir una acción educadora crítica intervencionista y transformadora que exige ver la diferencia situándola en conflictos históricos y sociales concretos que atraviesan diversas significaciones.

En tales asuntos, McLaren argumenta sobre la necesidad de mantener una narrativa liberadora que nutra la pedagogía. Así, expone: “los educadores necesitan de la liberación que realice una función metacrítica —que pueda metaconceptualizar las relaciones de la vida diaria— y esto no sucumbe a la unidad trascendental del sujeto o a su función transfiguradora”. La exigencia planteada obliga a una comprensión analítica además de una comprensión dialéctica.

Al interior de estas cuestiones se destaca en el texto la necesidad de repensar lo educativo bajo nuevas formas de praxis pedagógicas que resistan la tradicional lectura unívocamonodimensional de la Escuela y la práctica de domesticacióndisciplinamiento que impone la lógica cultural dominante.

Interesa para McLaren, una pedagogía crítica formada en la vivencia de un posmodernismo de resistencia como “lógica del sentir”, desde donde la “diferencia” permita “formas nómadas de acción individual y colectiva que abran nuevas disposiciones del deseo y nuevas modalidades de estar- en el mundo”.

Se percibe en el texto de McLaren una “otra mirada” para insistir, desde la educación y de la pedagogía, en el uso de un lenguaje del discernimiento, del pensar la complejidad, de atender la fuerza dialógica-analítica ante las nuevas experiencias societales en los modos de vida multiculturales, hibridados, fragmentarios, escépticos, contingentes y de tolerancia, entendidos todos como una condición epocal con lectura desde el “discurso de la posibilidad”, sin que por ello se obvien las representaciones de poder.

Advierte el autor:

zlos educadores deben mirar fijamente con audacia dentro del presente histórico y asumir un espacio narrativo en el que puedan ser creadas las condiciones para que los estudiantes expliquen sus propias historias, escuchen atentamente las historias de los otros y sueñen el sueño de la liberación”.

La riqueza intelectual y el ejercicio reflexivo-crítico de oposición, asumido en la obra de McLaren, exige del encuentro entre sus lectores, principalmente de los educadores, a efectos de confrontar el propio pensamiento crítico y apostar por asumir activamente la praxis pedagógica de disentimiento y transformación aquí formuladas como acción de resistencia y de oposición , o en todo caso, como posturas contrahegemónicas emergentes.

Por lo nutrido del texto, invito al lector a transitar intelectualmente su contenido, estando segura sobre la necesidad de asumir el reto implícito al interior de sus páginas ante la complejidad de las ideas expuestas, así como, de las tendencias teóricas de oposición propuestas por el autor.

Por tal motivo, recomiendo ampliamente la consulta de esta obra a efectos de comprender, desde la pedagogía crítica, aspectos importantes en torno a la discusión sociocultural y a la exigencia de responsabilidad intelectual actual.

Aliria Villera – GITDCS. Universidad de Los Andes. Facultad de Humanidades y Educacion.

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Ética para Amador – SAVATER (RTDCS)

SAVATER, Fernando. Ética para Amador. Barcelona: Ariel, 1991. Resenha de: CAMPEROS GARCÍA, Karlin Andrés. Revista de Teoría y Didáctica de las Ciencias Sociales. Mérida, n7, p.277-278, ene./dici., 2002.

Fernando Savater en su libro Ética para Amador nos deja conocer su percepción sobre aspectos muy importantes del arte de aprender y vivir y, tal vez, se refiere, asimismo y quizás más específicamente, a una noción de aprender a vivir. Según Savater, quien trata de escribir su libro de forma amena, sencilla, como si fuera especialmente dedicado a un público adolescente (de hecho, parece un libro escrito de un padre para su hijo), aborda cuestiones importantes y, en muchas ocasiones cotidianas en la vida de todo ser humano, al menos en el mundo occidental.

Sin embargo, uno de los temas que me pareció sumamente interesante, y al cual Savater hace referencia en todos los capítulos de su libro, es el de la libertad de la que gozamos los seres humanos para obrar, pensar, tomar decisiones y vivir. Esta libertad para hacer, relativamente, lo que deseemos se convierte en la principal característica que tenemos los seres humanos que nos diferencia radicalmente de los demás animales y seres vivos que habitan el planeta. Los seres humanos no desempeñamos funciones predestinadas por igual, como por ejemplo lo hacen las abejas, las hormigas (soldado) y otros seres. Los seres humanos estamos en el mundo para ser humanos, lo cual implica intrínsecamente la existencia de diversidad y pluralidad de comportamientos, costumbres, anhelos, percepciones, sentimientos, de los sujetos sociales. Por lo tanto, los seres humanos deben aprender, de forma esencial, lo importante que es la condición de ser humano. También, es de mucha relevancia comprender que el pertenecer a la raza humana implica tratar a las demás personas como seres humanos, independientemente del comportamiento que ellas demuestren hacia nosotros.

Uno de los aspectos a los que Fernando Savater hace referencia en su libro es a la realidad de que los seres humanos merecen vivir como tales: merecen una buena vida. Sin embargo, ¿a qué se refiere el autor cuando habla de merecer y tener una buena vida como seres humanos que somos? La respuesta es ciertamente compleja, pero al mismo tiempo bastante precisa: tener conciencia en la vida y sobre la vida. Este aspecto referente a tener conciencia no se refiere en lo absoluto a percatarse de que la vida se desvanece con la muerte, ni actuar mucho menos de forma azorada por la amenaza constante de fallecer. En la vida, la amenaza y la ansiedad que causa el saber que, de todas formas, vamos a morir, conlleva a que muchas personas entiendan que vivir bien y hacer lo que se desee implica únicamente satisfacer las necesidades más cercanas, más urgentes o lo que se nos presenta de forma fácil y sin esfuerzo. Esto no es vivir con conciencia.

Esto es vivir bajo la angustia constante de morir y de satisfacerse de forma inmediata y con el menor esfuerzo posible para evitar lamentarse por “no haber vivido lo suficiente”.

Vivir bien implica llegar a saber que es lo que realmente se quiere y, de igual forma, conocer, por sí mismo, lo que de verdad nos satisface como seres humanos que habitamos este planeta. La ética es aprender a vivir bien. La ética es hacer lo que de verdad queremos (no las satisfacciones inmediatas), sin olvidar que todas nuestras acciones y todos nuestros comportamientos siempre tendrán influencia fundamental en nuestra vida individual, y no en la vida de los demás (como muchas veces creemos).

Cuando tratamos de dañar al prójimo, muchas veces nos causaremos peores daños nosotros. Hay que recordar (y tratar de hacer de ellos un principio de vida) que debemos tratar a los seres humanos como tales, y que al no hacerlo de este modo, seremos nosotros mismo los que no vamos a conseguir ser tratados en estas condiciones. De igual forma, si no hacemos a otros lo que no queremos que nos hagan, tampoco debemos permitir que nos hagan lo que nosotros seríamos incapaces de hacer a otros, ya que no sería justo ni de razón.

Ética para Amador es un libro que nos enseña la importancia de muchos aspectos de la vida humana que en muchas ocasiones ignoramos por considerarlos carentes de relevancia. Sin embargo, son esas pequeñas (y a la vez grandes) cosas de la vida (la libertad, las decisiones tomadas, las costumbres, los deseos, etc.) lo que hacen que la vida humana sea tal: humana. Lo importante es comprender todos los aspectos que integran la vida humana y no dejar que algunos de ellos nos dominen o afecten de forma negativa e irreversible, lo cual evitaría poder desarrollarnos como sujetos que quieren vivir bien porque se lo merecen, simplemente porque somos humanos.

Karlin Andrés Camperos García – Licenciado en Idiomas Modernos y Estudiante de la Escuela de Educación, Facultad de Humanidades y Educación.

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La Investigación Didáctica de las Ciencias Sociales. Perspectivas y aportaciones desde la Enseñanza y el aprendizaje de las nociones económicas – TRAVÉ GONZÁLEZ (RTDCS)

TRAVÉ GONZÁLEZ, Gabriel. La Investigación Didáctica de las Ciencias Sociales. Perspectivas y aportaciones desde la Enseñanza y el aprendizaje de las nociones económicas. 1988. Huelva: Universidad de Huelva-Servicio de Publicaciones, 1988. Resenha de: ARRIAGA, Rebeca Pérez. Revista de Teoría y Didáctica de las Ciencias Sociales, Mérida, n.7, p.280-287, ene./dic., 2002.

La obra La Investigación Didáctica de las Ciencias Sociales.Perspectivas y aportaciones desde la Enseñanza y el aprendizaje de las nociones económicas de Gabriel Travé, se circunscribe dentro de la discusión de la dicotomía entre la teoria y la práctica, la investigación didáctica y la realidad escolar. Dentro de este contexto el autor plantea la necesidad de generar una investigación en torno a la práctica y aplicación de la teoría. En ella se expone la falta de una visión holística de la realidad, producto de la visión de una educación estática y conservadora ligada a los esquemas de la práctica individual y exploratoria.

Aspectos estos reflejados en los problemas que se abordan en el estudio de la Didáctica, así como la selección de los temas de estudio y la escasez de recursos humanos y económicos.

Travé Gonzalez nos plantea como objeto fundamental de su trabajo, el análisis y reflexión sobre el problema de la práctica educativa basado en estudios publicados, a fin de plantear nuevas investigaciones que conlleven a una propuesta alternativa. Cabe destacar que este trabajo se ubica dentro del contexto más amplio en el cual el autor planteó su tesis doctoral, el programa IRES (Proyecto de Investigación y Reforma Escolar).

La obra de Travé se estructura en seis capítulos referidos a las siguientes temáticas : La investigación didáctica; la investigación sobre el aprendizaje de la economía en la educación obligatoria; las concepciones económicas de los alumnos; investigación sobre la enseñanza de la noción de economía; el curriculum en la práctica y análisis de casos y, finalmente, cómo mejorar los procesos de enseñanza y aprendizaje de la economía.

En el capítulo I, Investigación didáctica, se realiza una descripción general de la investigación didáctica actual, fundamentalmente en el ámbito de las ciencias sociales y, de los modelos y métodos empleados para tal efecto. Este capítulo cubre varios aspectos como:

a) Estado de la investigación didáctica. Se plantean las variaciones del concepto de didáctica a través del tiempo, desde el enfoque de la didáctica como “arte de enseñar,” usado en la antigüedad, pasando por la década de los setenta del siglo pasado cuando se vislumbran dos enfoques divergentes: la corriente metodológica, fundamentada en el positivismo y concepciones conductistas del aprendizaje y, la corriente alternativa en la cual se concibe el objetivo de la didáctica como la formación del profesorado con el fin de intervenir en los procesos de enseñanzaaprendizaje mediante una preparación adecuada. Así mismo, hace un recorrido sobre el estado de la educación en Europa, Iberoamérica y Estados Unidos; destacando que entre los principales temas están el estudio de las diferentes facetas asignadas al profesor, dificultad del aprendizaje de los alumnos, el estudio del curriculum como medio para impartir la enseñanza y, cómo actuar y mejorar la selección, secuencia y organización del conocimiento escolar. Se menciona que en el campo de la metodología de la investigación, el paradigma positivista pierde terreno frente a las corrientes interpretativas y críticas.

b) En el aspecto referido a los modelos de investigación didáctica, plantea la relevancia de delimitar el modelo de investigación educativo, aunque indica que no todos los enfoques de investigación didáctica poseen el mismo marco de referencia.

c) En cuanto a la metodología e instrumentos de investigación se menciona, dentro del contexto de la integración de métodos cuantitativos y cualitativos, que es el propio investigador el principal instrumento de la investigación. Se indica el acuerdo general en la necesidad de unificar los procedimientos cualitativos con los cuantitativos en los procesos de experimentación y evaluación educativos.

d) Otro aspecto que se toca en este primer capítulo son las perspectivas de la investigación en didáctica de las ciencias sociales. Aquí analiza las características de la investigación educativa actual. Así mismo, desde la prospectiva didáctica, se proponen cinco campos de estudio para las futuras investigaciones en la didáctica de las ciencias sociales. Para Travé González, los tipos de estudio en la didáctica de las ciencias sociales se circunscriben a la investigación centrada en el profesor, la investigación basada en el curriculum, la investigación referida al alumno y, la investigación ecológica.

e) Un último aspecto se refiere a la investigación de la didáctica y los modelos de formación del profesorado, en el cual se plantean los estudios realizados sobre la profesión docente desde la óptica de diferentes autores.

El capítulo II, La investigación sobre el aprendizaje de la Economía en la educación obligatoria, versa sobre la descripción realizada por distintos investigadores acerca de las dificultades y problemas del educando para la construcción del conocimiento social y económico y su explicación coherente. Este capítulo contiene aspectos referidos a los siguientes aspectos:

a) el análisis de los estudios realizados sobre las concepciones económicas de los alumnos, siendo la producción en esta línea escasa. Para ello se utilizó como técnica el uso de pruebas y entrevistas y, como método de análisis las pruebas paramétricas y no paramétricas así como la elaboración de niveles o etapas en la construcción del pensamiento económico de los niños, según los estadios establecidos por Piaget a nivel general.

b) la investigación sobre la construcción de las relaciones de intercambio, específicamente referido a la compra-venta, las ganancias o beneficios, el dinero: su origen y función, la riqueza y sus causas, los bancos, el ahorro y los beneficios. Aquí se analizan algunos trabajos sobre las dificultades en la construcción del conocimiento de las relaciones de intercambio. c) Estudios sobre las relaciones de producción y los problemas medioambientales.

Plantea Travé, la escasez de investigaciones en las cuales se analizen los aspectos colaterales de los procesos de intercambio. d) Por último, se introduce el autor en la explicación de las dificultades del aprendizaje sobre el sistema económico. El autor recoge de los trabajos antes descritos las propuestas para mejorar el aprendizaje escolar.

En el capítulo III, Concepciones económicas de los alumnos, se aborda en la educación obligatoria y en el Magisterio.

En este capítulo, el autor, de forma aplicada analiza los problemas del aprendizaje expuestos en el capítulo II para contrastar las problemáticas de otros entornos y autores, con el ambito en el cual se ubica Gabriel Travé. La finalidad ultima es plantear hipótesis de progresión del conocimiento económico que sirvan de asidero para la actuación docente. Se estructura este capítulo en: una exposición del problema y objeto de la investigación, en este caso la evolución de las concepciones económicas del alumnado para detectar las dificultades del aprendizaje en diversos procesos. Luego, pasa a definir los instrumentos y fases de la investigación, en los cuales se selecciona la entrevista estandarizada no secuenciada como método de exploración de la concepción del educando. Se exponen cuatro fases: diseño de la entrevista; reformulación del cuestionario base y, la construcción de instrumentos definitivos a implementar en una muestra seleccionada, refrida a: procesos de venta, distribución, producción y extracción de productos y, el impacto ambiental que provoca al medio. Se plantea el análisis de datos para, finalmente, exponer una serie de conclusiones referidas a dos aspectos concretos: 1) la comparación con investigaciones comentadas en el capítulo II y, 2) aspectos que guien el planteamiento de otros estudios empíricos ya realizados.

En el capítulo IV, Investigación sobre enseñanza de las nociones económicas, se plantean aspectos como: el análisis de las diversas investigaciones cuyo objeto gira alrededor de la enseñanza económica así como las propuestas curriculares que contemplan: contenido, recursos, revisión de distintas investigaciones sobre la concepción económica del profesorado.

Por otra parte, se alude a la marginación del curriculum básico y de investigación de la didáctica de las ciencias sociales. También expone Travé González, el aspecto concerniente a la heterogeneidad en el desarrollo de la enseñanza económica reflejada en los distintos programas, diseños curriculares y materiales didácticos; no sin dejar a un lado los puntos de convergencia como: las tendencias ideológicas, estatus que ejerce el curriculum, los recursos y materiales usados, el qué y cuándo enseñar, la formación inicial y permanente del profesional.

Este capítulo contiene los aspectos siguientes:

a) El análisis de la investigación centrada en la enseñanza de las nociones económicas, la cual data de los años 60, siglo XX, en los países desarrollados.

b) La investigación sobre los contenidos económicos, en el cual se discuten: 1º) El contexto de los conocimientos económicos como elemento básico para la formación integral del ciudadano. 2º) El hecho que los contenidos de los planes de estudio estén impregnados de los intereses, demandas y principios ideológicos, manifestados en la tendencia económica emergente de cada sociedad. 3º) La enseñanza a partir del análisis de los hechos económicos, en la cual Travé plantea algunas ideas clave propuestas por varios autores para la enseñanza de las nociones económicas, caracterizadas fundamentalmente por la tendencia neoliberal. 4º) La reformulación del curriculum obligatorio en la enseñanza económica de EEUU por la National Commission on Sotial Studies en the Scholl en 1989. Se señala el intento de relacionar conceptos económicos estudiados en la escuela con la forma de introducirlos en propuestas hechas por varios autores, 5º) En investigaciones sobre recursos y materiales expone la clasificación de este elemento curricular, según la actividad desarrollada propuesta en el estudio norteamericano de Kourilsky. Igualmente, muestra los principales conceptos económicos propuestos por distintos autores y algunos estudios realizados sobre recursos y materiales en la enseñanza económica y formación de profesores. 6º) Finalmente, se tratan las investigaciones acerca del pensamiento económico del profesorado y la formación inicial y permanente. Se plantea en este punto que el valor e importancia asignados a la materia curricular y el conocimiento profesional que tengan los educadores determina, en mayor o menor grado, la calidad de la docencia.

Partiendo de allí, el autor analiza las diferentes investigaciones sobre el papel que juegan los profesores en el desarrollo del tema económico.

El capítulo V, El curriculum en la práctica. Análisis de caso, el autor trata la importancia de la planificación, experimentación y evaluación de los diseños curriculares como un requisito metodológico en cualquier propuesta didáctica.

En este libro, La Investigación Didáctica de las Ciencias Sociales, el autor parte de la fundamentación teórica y los resultados de los estudios analizados en los capítulos anteriores, para abordar la contrastación empírica mediante el proceso de experimentación curricular de una unidad didáctica: ¿de qué manera vivimos?: las actividades económicas. Esta unidad didáctica fue publicada en la Consejería de Educación de la Junta de Andalucía y ejecutada por Estepa, Travé y Wanbi en 1995.

En este capítulo, el proceso de investigación en la experimentación de la unidad didáctica, que se explica a detalle, se estructura en : Análisis del contexto escolar, Planificación del proyecto, Negociación, Exploración del desarrollo de la unidad, Análisis de resultados, Información y, Propuestas de mejoras.

Finalmente en el capítulo VI, Cómo mejorar los procesos de enseñanza y aprendizaje de la Economía, Travé plasma las conclusiones más relevantes, a su juicio, en el recorrido por su obra, partiendo de uno de los grandes objetivos de su libro: obtener una perspectiva sincrética y somera de la investigación en el campo de la didáctica de las ciencias sociales, centrado en la enseñanza/ aprendizaje de la economía en la educación obligatoria. Las conclusiones que expone, se sistematizan sobre la base del problema y objetivo de la investigación propuesta: primero, sintetizar la evolución de las concepciones económicas de los alumnos según la edad y nivel instruccional para detectar dificultades de aprendizaje; segundo, deficiencias presentes en la enseñanza de la economía en la etapa de la educación obligatoria.

De allí se desprenden sus conclusiones en relación a: a. Conclusiones y dificultades detectadas en la construcción del conocimiento económico, que incluye: conclusiones y deficiencias detectadas en la enseñanza; descripción y valoración de los resultados obtenidos en la enseñanza/aprendizaje de la unidad didáctica experimental sobre la noción económica.

  1. Propuestas didácticas para mejorar la enseñanza económica.
  2. Perspectiva en la línea de investigación del trabajo de Travé, enmarcado en el Proyecto de Investigación y Reforma Escolar (IRES).

Así pues, La Investigación Didáctica de las Ciencias Sociales.Perspectivas y aportaciones desde la Enseñanza y el aprendizaje de las nociones económicas de Gabriel Travé González resulta un llamado interesante a reflexionar sobre la base de la investigación-acción, a juicio de esta autora, sobre la problemática de la didáctica de la enseñanza de la economía.

Desde el espectro más amplio de las Ciencias Sociales, nos permite a los distintos profesionales que deambulamos por los diversos campos que componen este ambito del conocimiento, plantearnos análisis de este tipo con miras a contribuir a mejorar la calidad de la enseñanza en la educación básica y media venezolana, tan alejada de la mira de los investigadores que laboran en las áreas sistemáticas aplicadas de los recintos universitarios.

Rebeca Pérez Arriaga – Escuela de Geografía. Universidad de Los Andes. Mérida-Venezuela.

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Art, histoire et enseignement – BAQUÈS (CC)

BAQUÈS, Marie-Christine. Art, histoire et enseignement. Paris: Hachette et Centre national de documentation pédagogique (CNDP), «Enjeux du Système éducatif », 2001. 160 p. Resenha de: HEIMBERG, Charles. Le cartable de Clio – Revue romande et tessinoise sur les didactiques de l’histoire, Lausanne, n.2, p.281, 2002.

Un tableau, s’il est beau et célèbre, s’il est beau ou célèbre, peut sans doute constituer un élément déclencheur très efficace pour une séquence pédagogique d’histoire, même si l’enseignant aura quelques scrupules à l’analyser dans cette perspective sans posséder de solides connaissances en matière d’histoire de l’art. Mieux encore, il peut même être le vecteur de l’étude d’une époque ou d’une société à partir de son potentiel spécifique d’expression. En outre, l’Ecole publique a entre autres pour fonction de sensibiliser les élèves à l’appréciation des arts visuels, leur faisant construire un certain sens du beau. Dès lors, l’écart entre ce qui est vu et ce qui est perçu (nous voyons beaucoup plus de choses dans une œuvre que nous en percevons réellement), la relation avec les dimensions morale, politique ou sociale de l’œuvre, tout cela ne devrait-il pas être abordé en situation scolaire? Le premier intérêt d’Art, histoire et enseignement, le livre de Marie-Christine Baquès est de clarifier la problématique qui est relative à la place de l’œuvre d’art dans l’enseignement de l’histoire. Pour elle, en effet, l’œuvre d’art « suscite trois types d’interrogations – ce que l’artiste a voulu faire, les conditions de la création et de sa réception (mécènes, rôle de l’Etat, public, diffusion), sa ou ses fonctions – et offre trois entrées – l’œuvre, l’artiste, le contexte. Leur mise en relation est opératoire lorsque l’œuvre d’art devient objet d’enseignement» (page 19). Par ailleurs, l’objet artistique est « devenu terrain de l’historien qui tantôt y cherche une approche de l’imaginaire d’un groupe, tantôt y lit les relations complexes où l’œuvre d’art a pris forme » (page 23).

Travaillant sur les trois fonctions principales – esthétique, documentaire et mémorielle – de l’étude de l’œuvre d’art, l’histoire enseignée l’inscrit ainsi dans sa réalité sociale. En même temps, ce passage par des sources artistiques permet une ouverture vers des aspects souvent marginaux et ignorés des sociétés étudiées, et participe ainsi du renouvellement de l’histoire scolaire. Enfin, il faudrait éviter trois écueils: l’utilisation d’une œuvre comme simple illustration d’un fait, sans la moindre interrogation sur sa nature artistique ; l’analyse de l’œuvre sans aucune référence à l’esthétique et à sa dimension affective ; enfin, une approche patrimoniale qui confinerait l’œuvre à une fonction de point de repères.

Cet ouvrage, d’une écriture claire et accessible, propose encore quelques ébauches de séquences pédagogiques autour d’autant de tableaux. Il est un peu le reflet d’une situation dominante qui privilégie la seule peinture parmi les arts visuels à enseigner en relation avec l’histoire. Ce qui le mène ainsi à ignorer d’autres formes artistiques comme la sculpture ou la photographie. On pourrait aussi souhaiter le prolonger par des séquences pédagogiques centrées sur des comparaisons qui donneraient à voir la diversité et l’évolution possibles de l’expression artistique. Cela dit, il constitue un apport très stimulant et une belle incitation à associer utilement, dans un esprit d’ouverture, l’œuvre picturale et l’étude de l’histoire.

Charles Heimberg Institut de Formation des Maîtres (IFMES), Genève.

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Representações. Contribuições a um debate transdisciplinar – CARDOSO; MALERBA (RBH)

CARDOSO, Ciro Flamarion; MALERBA, Jurandir (orgs.). Representações. Contribuições a um debate transdisciplinar. Campinas: Papirus, 2000. 288p. Resenha de: PELEGRINI, Sandra C. A. Revista Brasileira de História, São Paulo, v.22, n.43, 2002.

A organização de uma coletânea voltada para o debate acerca das representações configura um projeto ambicioso, dada a complexidade que o próprio tema encerra. A obra, além de contemplar o necessário equacionamento do conceito, indica diferenciadas tendências teóricas e contribui para o aprofundamento da reflexão no âmbito da pesquisa histórica, sua natureza epistemológica e hermenêutica. Se uma ressalva pudesse ser feita, apontar-se-ia a ausência de uma detida análise sobre as relações entre a história das artes e as representações ¾ um terreno fértil, mas pouco explorado pela historiografia, especialmente no campo das produções pictóricas e da plasticidade.

No seu conjunto, o volume reúne ensaios que, mediante distintas interpretações, apresenta abordagens que enfocam desde as implicações da representação como objeto histórico até a constatação de sua dimensão lingüística na produção historiográfica. Embora aponte os riscos da utilização indiscriminada da noção supracitada e de determinados paradigmas teóricos sem as devidas precauções metodológicas, o trabalho parte do reconhecimento de que a representação tornou-se uma das pedras angulares do discurso histórico contemporâneo e, como tal, procura caracterizar sua índole e função cognitiva.

Entre as contribuições do volume, chama especial atenção a análise do conceito de representação política na esfera da produção historiográfica brasileira, efetuada por Maria Helena Rolim Capelato e Eliana Regina de Freitas Dutra. As autoras reconhecem a multiplicidade das abordagens, objetos e referenciais metodológicos que têm sido alvo das investigações no âmbito do político, todavia advertem que tal fato não deve ser atribuído aos modismos historiográficos passageiros que tendem a privilegiar os estudos voltados para as representações do poder e do exercício político e sua articulação com a vida social brasileira. Muito pelo contrário, esse deslocamento, do ponto de vista das historiadoras, resulta das aberturas epistemológicas e da operacionalidade proposta pelo estruturalismo e pós-estruturalismo. Nesse contexto, a análise proposta volta-se inicialmente para a identificação dos caminhos percorridos pelo conceito de representações, sua dimensão epistemológica e prática no campo das investigações históricas. E, num segundo momento, procura verificar o impacto do mesmo em cerca de uma centena de dissertações de mestrado e teses de doutorado concluídas nos anos 90, no Brasil.

Com o intento de promover um balanço historiográfico dessa produção, a reflexão abarca desde a análise do elenco dos temas abordados1 até o cômputo das fontes utilizadas nos referidos trabalhos2. A incidência de um confronto entre as posturas adotadas nesses trabalhos e os pressupostos teóricos que informaram as produções dos períodos anteriores às analisadas revelou a tentativa desses pesquisadores estabelecerem um exercício de interlocução com as tendências historiográficas internacionais. Se, por um lado, como salientam as autoras, percebe-se que o resultado de tais iniciativas parecem ter-se reduzido a um tratamento descritivo e pouco analítico, que em última instância revelou significativa dificuldade de compreensão do espaço da política. Por outro, a referida pesquisa possibilitou constatar a importância desse novo campo para a historiografia nacional, além da incorporação de novas fontes e objetos.

Não obstante a constatação do esforço dos profissionais brasileiros, torna-se imperioso admitir, segundo Capelato e Dutra, que mesmo os estudos portadores de maior eficácia empírica e metodológica, não conseguem superar as armadilhas inerentes às simplificações e demonstram uma efetiva dificuldade de aprofundamento teórico pertinente aos conceitos formadores da explanação do conhecimento histórico. Tal assertiva fundamenta-se no rastreamento da noção de representação e na instrumentalização do termo associada às teorias semiolingüísticas consolidadas nos anos 60 e vinculadas à lógica das articulações entre linguagem, símbolo, imaginário e representação. Na trilha dos suportes que embasaram teórica e metodologicamente as pesquisas no campo das humanidades, as autoras pontificam os encaminhamentos propostos por destacados pensadores como Marin, Castoriadis, Lefort, entre outros expoentes.

Nessa direção, a proposta de Capelato e Dutra termina intercruzando-se com as inferências implícitas no texto de Francisco J. C. Falcon, que se ocupa prioritariamente da discussão das matrizes teóricas que informam a construção do conceito de representações. Este, por sua vez, apropriadamente, antes de investigar as acepções das representações, propõe-se a pontuar a concepção do discurso histórico mediante a análise de distintas correntes historiográficas, mais precisamente, na perspectiva dos modernos e na dos pós-modernos. De um extremo ao outro, tende a sublinhar o trânsito do conceito: para esses últimos a representação figuraria como negação do conhecimento histórico, enquanto para os primeiros seria reconhecida como parte integrante do próprio discurso da disciplina. Enveredando pelo circunstanciamento dessa problemática no campo da história cultural, Falcon recupera usos e interpretações do conceito na historiografia atual. Assim, termina resgatando etimológica e cognitivamente acepções do termo e do conceito, ocupando-se das articulações entre representações, ideologia e imaginário, e também do mapeamento de algumas das principais obras dedicadas ao tema em questão.

Assim como Falcon, Helenice Rodrigues da Silva empenha-se na recuperação genealógica das representações e seus sentidos na disciplina histórica, debatendo a operacionalidade da noção de representação na esfera da historiografia francesa. Ao procurar acompanhar a trajetória na qual os estudiosos da história cultural e da história política foram atribuindo primazia ao conceito, ao longo da década de 1970, a autora alerta para a necessidade de se relativizar a importância da noção de representação na prática histórica. Nesse horizonte, ressalta que no universo das renovações teóricas e metodológicas processadas nessa área, a história das representações tendeu a firmar-se como complemento e nova orientação da história cultural, uma vez que significou, para os herdeiros da tradição dos Annales, a possibilidade de integração dos atores individuais ao social e histórico. Desse modo, como propõe Roger Chartier, o conceito permitiria a associação entre antigas categorias que a história social, a história das mentalidades e a história política mantinham separadas3. Em síntese, Silva procura evidenciar como a noção de representação, largamente utilizada em disciplinas como a sociologia e a psicologia (entre outras), tendeu a substituir o conceito de mentalidades na pesquisa histórica e de que forma viria a contribuir para a integração dos distintos domínios da disciplina.

Reportando-se às múltiplas facetas que o conceito implica, Ciro Flamarion Cardoso principia sua análise por intermédio de uma tentativa de perceber as motivações que informaram a denominada “virada cultural” na produção histórica da atualidade. Nesse sentido, detecta as implicações de três dos seus desdobramentos na esfera da nova história cultural4. Do seu ponto de vista, essas tendências tenderiam a inverter as premissas estruturais e explicativas do marxismo e dos Annales, terminando por promover a confecção de uma história cultural do social, em detrimento de uma história social da cultura.

Apesar de entender que as representações contribuem para a edificação de uma dada inteligibilidade do passado, Cardoso mostra-se temeroso em relação à crescente negação do realismo epistemológico, identificado em um número significativo de estudos na área das ciências humanas. Nessa direção, desnuda uma série de vícios que tem informado as pesquisas nessa área do conhecimento, analisa os pressupostos teóricos que fundamentam a obra de Roger Chartier e, posteriormente, debruça-se sobre um minucioso acompanhamento dos usos das representações nos horizontes da psicologia social.

Numa trilha similar, mas apresentando o tema do ponto de vista do sociólogo Norbert Elias, Jurandir Malerba analisa a apropriação que a história vem realizando da noção de representação. Considerando que essa questão deva ser deslocada para o campo da narratividade, o autor busca problematizar os procedimentos mais comuns nessa área. Assim, debate os ditames que orientam a indiscriminada utilização do conceito na historiografia contemporânea, reconduzindo a temática para uma síntese distinta das proposições mais recorrentes. Esse encaminhamento privilegia as articulações entre a teoria simbólica de Elias e a definição de habitus proposta por Pierre Bourdier.

Para Malerba, a teoria simbólica de Elias sugere uma leitura de representações que supera os limites circunstanciais da oposição maniqueísta entre o mundo real e o mundo representado. Nessa linha de argumentação, tal enfoque possibilita a incorporação do homem à natureza escapando de falsos dilemas, processados na edificação da teoria processual do conhecimento e da linguagem, de modo a permitir uma compreensão diferenciada do hábito social. Este, por sua vez, contempla a recuperação de visões da experiência de vida dos indivíduos em sociedade5.

Não menos relevantes são as assertivas de Lúcia Helena C. Z Pulino, Graciela Chamorro e Gustavo Blázquez. Enquanto Pulino equaciona o problema das representações em filosofia a partir da obra de Richard Rorty, Chamorro estabelece as possíveis articulações entre o referido conceito e a teologia, rastreando as representações de Deus na história, apontando as relações da teologia feminista com múltiplas formas do simbolismo (paterno e materno). Por seu turno, Blázquez aborda a maneira como a antropologia social tem-se relacionado com a noção de representação.

À guisa de conclusão, Jurandir Malerba reporta-se, por um lado, à proposta de alinhar possíveis conexões entre os textos que compõem a coletânea, respeitando as particularidades das análises propostas em cada um deles, e por outro, ao desconforto cunhado nas abordagens que tendem a limitar os efeitos das representações em toda e qualquer problemática. Oportunamente, acaba apontando os paradoxos de uma história que se propõe nova, mas enfrenta uma crise de “consciência” da própria disciplina. Para tanto, enfoca tantos os impasses teóricos enfrentados pela história como os problemas inerentes ao estatuto epistemológico da história cultural.

Curiosamente, as evidências ilustram o fato de que a abertura do diálogo da história com outras áreas do conhecimento, a conseqüente ampliação de seus objetos, o corpus documental e as estratégias metodológicas deflagraram aquela que poderíamos nomear como crise de identidade da disciplina e um intenso processo de fragmentação da mesma em múltiplas histórias, tomadas como eixo norteador da explicação sobre as contínuas transformações da sociedade moderna.

Por certo, as razões que motivaram o surgimento desse impasse teórico diante das constantes mutações do objeto histórico passam pela questão do narrativismo histórico. Mas, no contexto de tais transformações, a reflexão acerca das representações tornou-se providencial e seus aportes ganharam, cada vez mais, relevância e interesse por parte dos profissionais da área. Contudo, os excessos unilaterais detectados nas formas de interpretação histórica têm se circunscrito a modismos transitórios e efêmeros.

Sem dúvida, tais contingências explicitam a necessidade de se buscar soluções intermediárias para a abordagem das demandas mais urgentes da sociedade humana, suscitando paradigmas explicativos alternativos. Numa visão de conjunto, torna-se forçoso admitir que as restrições ao conceito de mentalidade propiciaram aos historiadores da cultura a busca de premissas alternativas àquelas assentadas na ambigüidade e na imprecisão, observadas nas articulações entre o mental e o social.

A nova história cultural, longe de tomar como objeto preponderante as interpretações dos expoentes filosóficos e as manifestações formais de cultura (como a arte e a literatura), demonstrou sua “estima” pelas práticas populares ou pelas manifestações das massas inominadas expressas nos rituais religiosos, crenças, festas e resistências cotidianas ao poder instituído.

No terreno da história social e política, o descontentamento com os modelos tradicionais impulsionou também a revisão de axiomas pautados por obnubilantes explicações globais. Desse modo, talvez a conjugação entre o poder e as representações venham a assinalar novos dispositivos de apreensão do saber histórico, sejam eles centrados no estudo do imaginário ou da simbologia política.

Por fim, não se deve furtar de proclamar que os resultados dessa coletânea foram plenamente satisfatórios. Ao superar os propósitos iniciais do projeto, com certeza esse volume se tornará uma obra de referência na esfera da produção historiográfica contemporânea.

Notas

1 Identidade nacional, imagens do poder, representações da política, espetáculos políticos, imagens e símbolos do progresso/modernidade/modernização/desenvolvimento capitalista, produção artística, veículos de propaganda política; instrumentos pedagógicos e meios de comunicação e imagens da cidades, são os temas diagnosticados pelo levantamento efetuado. CARDOSO, Ciro Flamarion e MALERBA, Jurandir (orgs.). Representações. Contribuições a um debate transdisciplinar. Campinas: Papirus, 2000, p. 247.

2 Entre as fontes mais citadas destacaram-se: jornais/revistas/pasquins/relatos jornalísticos; obras literárias/narrativas/crônicas/dramaturgia; memórias/diários/biografias/autobiografias/relatos de viagens; discursos/mensagens/manifestos/escritos políticos; depoimentos; iconografia; fotografia; correspondência; música; estátuas/monumentos/obras arquitetônicas/planos urbanísticos; filmes; álbuns; almanaques; objetos simbólicos/moedas, bandeiras, escudos, emblemas, cartazes; rádio/TV; publicidade; mapas e plantas. Idem, p.249.

3 Idem, pp. 82-83.

4 O autor as nomeia como “virada lingüística”, “virada para o interior” e “virada para exterior”, indicando os respectivos representantes de cada uma delas. Idem, p.11.

5 Idem, p. 218.

Sandra C. A. Pelegrini – Universidade Estadual de Maringá.

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As artes de curar: medicina, religião, magia e positivismo na República Rio-Grandense, 1889-1928 – WEBER (RBH)

WEBER, Beatriz Teixeira. As artes de curar: medicina, religião, magia e positivismo na República Rio-Grandense, 1889-1928. Santa Maria: Editora da UFMS; Bauru: EDUSC, 1999. 249p. Resenha de: SILVEIRA, Anny Jackeline Torres. Revista Brasileira de História, São Paulo, v.22, n.43, 2002.

O final do século XX reservou descobertas surpreendentes no campo do conhecimento médico, tanto na área da identificação como no tratamento dos males que atingem o corpo de homens e mulheres. O anúncio do mapeamento da seqüência dos genes que compõem o DNA humano, realizado durante a última década pelos pesquisadores do consórcio público internacional Projeto Genoma Humano (PGH), tem sido tratado como a maior conquista da área médica, inaugurando mesmo uma nova era do conhecimento sobre a humanidade. Alguns afirmam que a medicina aproxima-se agora das ciências exatas, pela precisão com a qual esta descoberta poderá municiar o saber médico na identificação e solução das doenças1.

Estamos cada vez mais próximos de uma visão de doença pautada exclusivamente por uma explicação científica, em que os exames realizados por equipamentos ultra-modernos e o recurso à bioquímica responderiam a todas as necessidades e enfermidades do corpo humano? Não há como negar que tal descoberta representa uma grande vitória da medicina laboratorial, pautada no desenvolvimento da técnica e da tecnologia que envolve as descobertas do que se convencionou chamar a “era bacteriológica”. Porém, notícias como estas tendem a reforçar no imaginário social uma visão homogeneizadora e evolucionista do saber médico e de suas práticas. É sobre um mundo bastante contraposto a tal visão que nos fala o livro de Beatriz Weber, As artes de curar.

Elegendo como espaço de pesquisa a sociedade do Rio Grande do Sul na passagem do século XIX para o XX, a autora examina aspectos variados e interligados que caracterizariam a história do saber médico nesta região. Dentre eles, podemos citar as diferentes práticas de cura a que recorria sua população, a luta pela constituição de um campo profissional pelos médicos diplomados, as interferências que a ideologia positivista exerceu no reconhecimento da profissão, o papel da religião, da caridade e da magia na percepção da doença pelos leigos e sua interferência na posição que era assumida pelos médicos diante das mesmas. Sua análise aponta para uma realidade na qual práticas, saberes e crenças, diversos em seus fundamentos e procedimentos, partilhavam de forma às vezes conflituosa, às vezes em sobreposição ou harmonia, um mesmo espaço de ação.

Segundo Beatriz Weber, o poder da medicina é fruto de um processo que foi sendo construído durante todo o século XIX, e vai se consolidar no Rio Grande do Sul apenas por volta da década de quarenta. A teoria positivista e a forma como a medicina era por ela encarada tiveram papel importante neste processo. Conforme a autora, o positivismo era uma marca na formação das elites políticas do Rio Grande Sul e interferiu nas reações do poder público às tentativas de parte do corpo médico em criar restrições ao exercício de sua prática profissional, à adoção de medidas de intervenção para evitar a propagação das doenças e àquelas relativas à organização do espaço e da higiene urbana.

Bastante interessante é a descrição que a autora efetua sobre o modo como o saber médico é percebido por Comte e pelos partidários do positivismo, especialmente a idéia de que a medicina está subordinada à moral e à imagem que aproxima o médico do sacerdote: “aquele que diz o que é preciso fazer e o que se pode esperar, que traz a resignação em nome de uma ordem superior quando a ação não pode modificá-la” (p. 36). Havia, no Rio Grande do Sul, vários médicos partidários do positivismo. No entanto, nem todos partilhavam completamente das proposições dos seus teóricos a respeito do saber e da prática médica, mostrando, assim, como são variadas as possibilidades de apropriação das teorias que circulavam naquele momento, com leituras específicas dentro de contextos determinados.

Sobre este aspecto, chamam a atenção as justificativas elaboradas pelos membros do Apostolado Positivista do Brasil a respeito da defesa da liberdade no exercício da arte de curar. O profissional desta arte devia exercer uma influência espiritual sobre seus pacientes, era preciso que o médico se esforçasse para conquistar sua confiança. Era através dela, somada à sua conduta e ao seu devotamento, que o médico imporia a autoridade de sua palavra, e não por uma reserva de mercado estabelecida pela lei ou pela força. Antes de criticar os empíricos, dos quais teria nascido, a medicina (dita científica) devia apropriar-se dos seus resultados que foram confirmados pela experiência. Além disto, a confiança angariada pelos práticos e empíricos junto à população era fruto de uma identidade de crenças por eles partilhada, de concepções de mundo muito mais próximas do que, por exemplo, as que seriam professadas e propostas pelos médicos diplomados. Miguel Lemos, do Apostolado Positivista, contrapunha a figura do médico moderno aos seus “primitivos confrades, que sabem sinceramente fazer partilhar aos seus doentes a confiança que eles têm nos meios que empregam” (p.43). Este fator talvez também explicasse o sucesso de muitos “charlatães indignos”. À ciência, dizia então, era necessário penetrar no espírito da população para ser aceita.

A autora aborda também as relações entre as crenças positivistas e as questões da higiene e da intervenção pública nos espaços urbanos, e a influência que as teorias científicas sobre o contágio/transmissão (miasmas, bacteriologia) exerceram sobre a administração gaúcha, marcada pela ação de políticos positivistas. Ela frisa que, muitas vezes, concepções teóricas diferenciadas eram agregadas pelas instituições públicas, assim como pelos próprios médicos. Isto põe em cheque a perspectiva evolucionista e triunfalista do conhecimento científico, pautado por conquistas cada vez mais amplas e por uma aproximação sempre maior com a verdade. E não eram só filiações a abordagens distintas sobre a doença e a cura ¾ muitas das quais na época eram consideradas “científicas”, como o espiritismo e a homeopatia, entre outros ¾ que caracterizavam os médicos do período. Havia as crenças de caráter “subjetivo”, como a própria religião, que também marcava a prática de muitos desses profissionais.

Beatriz Weber aborda ainda o processo de constituição de “uma solidariedade corporativa e de um consenso profissional” entre os médicos diplomados. Isto se faz através de instituições como hospitais, associações ou entidades profissionais e da própria Faculdade de Medicina. Porém, como mostra a autora, este não é um processo linear ou simples, mas um caminho conflituoso marcado por desavenças políticas e filosóficas. Ao mostrar que estes médicos não eram os únicos portadores de um saber sobre as doenças e a cura; que seu conhecimento era marcado por incertezas teóricas, além das dificuldades práticas (como o instrumental precário, por exemplo); que participavam de outras crenças, como a religião, que influíam na forma como viam o processo de cura e seu próprio papel como profissionais, a autora desmistifica mais uma vez a velha imagem gloriosa e triunfante da medicina e a noção de que a constituição do poder que este saber exerce sobre a sociedade tenha sido fruto de um projeto homogêneo e sempre vitorioso.

Faz parte, ainda, da sua análise, o papel desempenhado pela Santa Casa de Misericórdia no processo de formação de um campo de saber específico, a transformação de suas funções assistênciais em terapêuticas e de produção de conhecimento, e as tensões que eram criadas pela convivência de práticas e saberes distintos. Por fim, Beatriz Weber mostra a permanência, durante todo este processo de afirmação do saber médico “científico”, das outras diversas práticas de cura às quais recorriam os diferentes grupos sociais. Nesta parte, a autora enfatiza uma perspectiva de análise que toma os grupos populares como sujeitos atuantes na organização do mundo no qual viviam, superando as interpretações que vão apresentar estes grupos como meros objetos ou pacientes de um projeto de normatização (neste caso, de “medicalização” da sociedade), ou que encaram suas ações apenas como uma reação à imposição destas normas disciplinadoras e dominadoras. Conforme afirma Beatriz Weber, estes setores sociais “interagiram socialmente com criatividade e participaram ativamente das definições do mundo em que viveram”(p.18).

Em sua conclusão, a autora nos diz que

(…) as diversas formas de organização para a cura … não se impuseram inclementes umas sobre as outras, garantindo o predomínio de uma visão. Intercambiaram-se elementos entre as concepções, compondo universos explicativos próprios, muitas vezes ambíguos e contraditórios … Muitas desenvolveram formas de atuação que as mantiveram em atividade até hoje. (p.228).

Isto nos leva a pensar sobre as afirmações emitidas pela imprensa sobre a conquista representada pela descoberta do código genético humano, apresentadas no início deste texto. Será mesmo tão absoluto o triunfo identificado nesta conquista? Como têm reagido as pessoas comuns a este avanço anunciado? O que muda na sua perspectiva sobre a doença e o processo da cura? Será que esta descoberta vai fazer esvaziar a peregrinação de pacientes que procuram o “Lar São Luiz”, o Centro do médium Chico Xavier2 e outras diversas “casas de cura”, terreiros de umbanda ou benzedeiras que se espalham através do País? Vamos deixar de lado os velhos chás para o resfriado, a enxaqueca ou outro mal-estar qualquer?

A feição que tem tomado o noticiário a respeito destas descobertas se inscreve na tradição, apontada por Maria Clementina P Cunha na apresentação da obra em exame, que

(…) atribui ao saber [especialmente ao saber dito científico], com sua intrínseca pretensão de deter a verdade, um potencial quase ilimitado de controlar e moldar a sociedade segundo seus próprios desígnios (p.15).

Se a genética promete à sociedade grandes conquistas, ela também apresenta fracassos e erros ¾ que, porém, não encontram publicidade tão marcante nos meios de comunicação. Além disto, ela propõe questões de caráter ético que afetam toda a sociedade e que, portanto, não deverão ser decididas num âmbito cultural, social e político restrito, como até então tem sido feito. É preciso, como nos mostra o livro em exame, ultrapassar a imagem asséptica da medicina [e da ciência como um todo] que lança fora toda crença, toda subjetividade, toda diversidade que fundamentou este saber e suas práticas sobre a cura. A ciência não é tão poderosa e hegemônica como muitas vezes deixa transparecer, nem homens e mulheres vivem ou elaboram o seu cotidiano a partir de uma perspectiva exclusivamente científica, de uma visão de mundo informada apenas pelos saberes que compõem esta esfera da produção cultural da sociedade. A leitura de Beatriz Weber contribui de forma significativa para ultrapassarmos essa visão linear e progressista que ainda hoje marca a imagem do conhecimento científico.

 

Notas

1 “[O] Projeto Genoma Humano, promete a era da bio-medicina de precisão”; “A transcrição … do código genético inaugura a era da medicina como ciência quase exata”. Folha de S. Paulo, “Genoma” (Caderno Especial). São Paulo, 27 de junho de 2000.

2 O “Lar São Luiz” e o centro de Chico Xavier são conhecidas “casas de cura” que realizam consultas e operações espirituais. A primeira está localizada no Rio de Janeiro, e a segunda, em Minas Gerais.

Anny Jackeline Torres Silveira – Coltec – UFMG, Doutoranda UFF.

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O populismo e sua história – debate e crítica – FERREIRA (RBH)

FERREIRA, Jorge (org.). O populismo e sua história – debate e crítica. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2001. 380p. Resenha de: BORGUES, Vavy Pacheco. Revista Brasileira de História, São Paulo, v.22, n.43, 2002.

A coletânea organizada por Jorge Ferreira, professor do Departamento de História da Universidade Federal fluminense, se inscreve a meu ver em uma das melhores vertentes da chamada “história política renovada”, trazendo preocupações conceituais como eixo de articulação dos artigos, conforme bem exprime seu título. Como os historiadores têm procurado mostrar, os conceitos, além de históricos (como tudo que se refere ao homem e sua cultura, isto é, tudo que é humano), quando usados em política ¾ eminentemente uma disputa ¾ nunca são neutros. Também as emoções, os sentimentos e instintos dos indivíduos e das “massas” são hoje, para muitos historiadores, uma dimensão fundamental da vida política; os analistas do séc. XIX dela muito se ocuparam, mas essa dimensão foi relegada pelos cientistas sociais brasileiros das últimas décadas. Ao começar seu texto por uma bela epígrafe de Rachel de Queiroz, Jorge Ferreira indica sua intenção de lembrar a importância dessa questão, embora isso só permaneça subjacente aos textos. Cita ele : “Não há povo amorfo. Não há massa bruta e indiferente. A massa é formada de homens e a natureza de todos os homens é a mesma: dela é a paixão, a gratidão, a cólera, o instinto de luta e de defesa.”

Os autores, em suas análises, fazem-nos dar profícuas voltas e mais voltas em torno do conceito ou categoria explicativa populismo, ao qual se referem também como “noção”, “palavra”, “expressão”, “imagem”, “sentido”… Exploram também aqueles que são vistos como os sujeitos políticos dessa história: os líderes e seus projetos, as “massas” ou as classes e suas relações. Na obra, o populismo surge absolutamente enredado em outros conceitos, como trabalhismo, getulismo, queremismo, sindicalismo ou peleguismo, autoritarismo, fascismo ou totalitarismo (como se fossem termos equivalentes), e ainda nacionalismo e estatismo. Esses são analisados em suas doutrinas e em suas práticas, configuradas estas em noções como “mistificação, manipulação e demagogia”.

São sete artigos, praticamente todos sobre a história brasileira, e a forma de analisá-la. Apenas o de Maria Helena Capelato se debruça sobre a questão no âmbito da América Latina, fazendo uma comparação do chamado fenômeno populista no México e na Argentina. Alguns, na trilha “arqueológica” da história do conceito de populismo, apresentam preocupações teórico-conceituais mais marcantes, sobretudo os de Ângela C. Gomes, Jorge Ferreira e Daniel A . Reis. O artigo de Fernando T. da Silva e Hélio Costa situa-se ainda nesse terreno de fortes preocupações teórico-metodológicas, mas analisando interpretações historiográficas no campo da história social do trabalho. Os outros são mais reconstituições de partes da história política do período denominado populista, cujos inícios, a partir dos anos 1930 (“tempo das origens”), se solidificam no que é apresentado como um sistema político de 1945 a 1964 (a “república populista”). O artigo de Lucília de A . Neves (no campo das idéias políticas) explicita as propostas do trabalhismo, no que ela chama de “um projeto para o Brasil” de 1945 a 1964, entrelaçadas ao nacionalismo e ao desenvolvimentismo. Eliana Pessanha e Regina Morel comparam experiências de sindicalismo no Rio de Janeiro, que consideram “expressivas da experiência sindical no período considerado”: os operários navais e da indústria siderúrgica.

Como a maioria das coletâneas ou coleções, o resultado é desigual na organização do pensamento e na forma de exposição, da clareza, do estilo, revelando por vezes maior reflexão própria, outras vezes mais resumos e crítica historiográfica, sempre interessantes. Inicia com artigos agradavelmente escritos, como os de Ângela C. Gomes e Jorge Ferreira, com imagens simples e eficientes, e termina com um fecho de ouro, no sentido da narração, que é o artigo de Daniel A. Reis, dotado de uma fina ironia e um estilo envolvente. Há algumas repetições de idéias e de análises de autores que nos dão impressão de vai-e-vem; isso se nota mais no conjunto dos textos, mas por vezes em um mesmo texto.

De uma forma geral, o que ressalta da obra é mais uma demonstração cabal e irrefutável de que os conceitos que usamos para explicar a história política estão sempre enredados nos laços permanentes e inextricáveis entre o momento histórico e sua análise, entre a história e a política1. É preciso estar constantemente atento a esses laços, pois senão, por motivos múltiplos e diversos, as intenções não desvendadas da política levam o analista a considerar o conceito como um fato que se passou ou um tema que mereça um estudo, sem maiores questionamentos2. Não é possível, enquanto cientistas sociais, pensarmos no populismo só na vida política ou só na academia: o imbricamento entre os dois ( visto na coletânea como um “deslizamento”) resulta da luta política mais ampla, como bem se percebe pelos artigos que se detêm no panorama historiográfico, ao abordarem o conceito e seu uso pelos mais diversos agentes e/ou analistas políticos.

Do conjunto da obra depreendem-se claramente os mecanismos pelos quais as explicações sociológicas e da ciência política resultaram de uma luta política mais ampla3. Já no início a Introdução de Jorge Ferreira mostra a elasticidade da categoria até torná-la o que chamei de “categoria-monstro”, quando fiz uma retomada do surgimento do conceito de tenentismo e seus diversos empregos, por diferentes oponentes políticos, em diversos momentos da política brasileira4. Assim como esse, o populismo teve seu sinal invertido, mas em sentido contrário: quando surgiu o uso do termo populista no vocabulário da luta política, este aparecia quase como um mero adjetivo, ligado a “popular”. Getúlio Vargas e João Goulart eram chamados de populistas, e isto não tinha, para Jorge Ferreira, um sentido ofensivo. Depois, tornou-se um insulto para a direita liberal. O tenentismo começou como uma tentativa de descrédito político, depois foi legitimado e positivamente valorizado por Virgínio de Santa Rosa e outros da época, como a “revolução das classes-médias”5.

Ambos os conceitos tiveram também até hoje um uso eminentemente plástico: pelo fato de querer “pôr tudo no mesmo saco” (imagem de Jorge Ferreira) e por querer explicar tudo, acaba-se não explicando realmente nada. Como explicita o mesmo autor, “personagens com diferentes tradições políticas foram reduzidos a um denominador comum: líderes trabalhistas como Getúlio Vargas, João Goulart, Leonel Brizola e mesmo Miguel Arraes perfilaram-se ao lado de políticos regionais paulistas, como Adhemar de Barros e Jânio Quadros; de um general anódino, como Eurico Dutra; de um udenista golpista, como Carlos Lacerda; e de uma figura ainda mal estudada, como Juscelino Kubitschek. Após 1964, o próprio general-presidente João Figueiredo igualmente entrou no rol, segundo algumas análises. (…) projetos políticos que fincaram tradições políticas, e que ainda hoje se manifestam na sociedade brasileira, como o trabalhismo petebista e o liberalismo udenista, dissolvem-se e confundem-se em um mesmo rótulo: tratar-se-ia de ‘populismo’ ” 6.

Esse populismo, chamado pelos autores de “gato de sete vidas” ou “herança maldita” ¾ pois foi e por vezes ainda é visto como uma categoria explicativa de um sistema político e social brasileiro ¾ tem suas apontadas características explicitadas em muitos dos artigos. São dissecadas com propriedade e clareza as análises clássicas sobre o populismo, em especial as dos anos 1960, de Francisco Weffort e Octávio Ianni, mas também os primeiros trabalhos da década de 1950, do Grupo de Itatiaia e depois do ISEB, que estão nas origens das interpretações posteriores.

Algumas práticas historiográficas ¾ hoje já condenadas ¾ estavam presentes em nossa historiografia naquele momento, sendo de certa forma um pano de fundo que propiciava as interpretações analisadas na obra. As duas principais me parecem a linearidade do chamado “processo histórico” e o papel atribuído ao Estado na história brasileira. A primeira percebe-se numa recorrência da interpretação da nossa vida política: até hoje muitos consideram que 1937 está necessariamente contido em 1930, ou em outras palavras, o golpe de Estado e o autoritarismo eram as únicas possibilidades ao longo do primeiro período getulista, e assim a dita Revolução de 30 teria levado necessariamente ao golpe de Estado e à ditadura do Estado Novo; da mesma forma, no conjunto das interpretações criticadas pelos diversos autores, 1954 ¾ ano da morte de Getúlio ¾ contém em germe, inelutavelmente, o golpe político-militar de 1964, apontado como momento do colapso do populismo, tanto como sistema como prática política (esses dois sentidos por vezes parecem se confundir, na obra )7. Essas relações apresentadas como necessárias e inelutáveis são combatidas por historiadores que, além de recusar modelos de desenvolvimentos de outros tempos e espaços, estão atentos às possibilidades e potencialidades da história, que nunca é uma estrada de mão única, linear e com ponto de chegada definido, predeterminado. O segundo tipo de prática tem a ver com a definição dos sujeitos em história. No “desprezo” da história das grandes figuras do início do século XX, passamos, décadas atrás, a ver o Estado como o demiurgo de nossa história; isso se deu entre os historiadores ainda devido a essa importância atribuída às análises das ciências sociais. A forte presença do Estado na organização da vida política brasileira anulava os outros possíveis sujeitos.

Na verdade, a grande questão que estrutura toda a coletânea é: qual é o papel dos trabalhadores enquanto sujeitos da história brasileira? Os autores internacionais e nacionais que estudaram a história social do trabalho em geral e a brasileira em particular são bastante bem utilizados por alguns textos. Há uma crítica aos trabalhos que tratam de populismo por verem em geral os trabalhadores seja como massa manipulada, seja como “atrasados” em relação a outros desenvolvimentos históricos. Isso aparece centralizar as reflexões sobretudo de Jorge Ferreira, Fernando T. da Silva e Hélio Costa. Os dois últimos lembram o questionamento levantado pelo brasilianista John French, sobre a “mistificação” dos trabalhadores que apresenta como “a grande pergunta, nunca respondida”: “por que os operários sucumbiram aos agrados dos líderes populistas, aceitando a dominação, e, ao mesmo tempo, se dispuseram a confiar em traidores?” Decorre dessa questão o debate sobre os reais avanços da Consolidação Geral do Trabalho (CLT), hoje em dia ameaçada.

Só se pode receber bem estudos e pesquisas sobre a história política do período, ainda muito pouco examinada. Além disso, concordo com Francisco Carlos T. da Silva, autor da orelha da obra, que Jorge Ferreira, ao reunir autores significativos no tema, fez um trabalho “extremamente louvável”, que acaba por constituir uma “garantia contra o pensamento único”. Pois apesar do debate e da crítica a que os diversos artigos nos introduzem e reforçam, o conceito de populismo continua vivo, presente na mídia e em nosso cotidiano, como se referindo a um fato político-social indubitável, tanto no Brasil quanto na América Latina (e por vezes, em alguns breves momentos me pareceu que alguns dos próprios autores do livro escorregam nessa aceitação, legitimando o populismo como um “fenômeno histórico”). O que mostra que um conceito, uma vez consagrado pelo senso comum, é de difícil extirpação8.

Como diz Ângela C. Gomes, “escrever sobre o populismo no Brasil será sempre um risco”. Hoje em dia pode-se perceber que, na boca e na pena da direita conservadora, a pecha de “populista” substituiu a pecha de “comunista”, desde os anos vinte do século passado empregado como o maior insulto, ou seja, uma forte “arma” política. Aliás, Jorge Ferreira destacou a origem do termo populista enquanto insulto desde os anos 1960, mas também hoje em dia, na boca, por exemplo, de nosso presidente atual, Fernando Henrique Cardoso. Percebe-se na luta política mais ampla que, por trás do uso da qualificação de populista, há a tentativa (sempre renovada e proveniente do medo, e por que não dizer, mesquinhez) de se impedir uma decisiva participação de sujeitos políticos que possam mudar os rumos de nossa história, marcada por terríveis indicadores sociais, provenientes em última análise da nossa injusta e desumana distribuição de renda.

Penso que a principal contribuição da coletânea reside em repor a historicidade do conceito de populismo ( e de alguns dos a ele conexos). A tarefa não é empreendida explicitamente por cada texto, mas bem sucedida em seu conjunto. Para ilustrar tal resultado, penso ser interessante relatar um episódio ocorrido durante minha defesa de tese de doutorado, em que Francisco Weffort era membro da banca (trabalho já citado sobre a retomada do conceito de tenentismo). Ele terminou sua simpática argüição pela pergunta seguinte: “mas, afinal, o que foi o tenentismo?” Eu (e os outros membros, assim como parte do público, que compreenderam bem a intenção da tese ) percebemos que, enquanto cientista social e diversamente de Octávio Ianni, que orientara minha tese, Weffort não conseguia compreender o trabalho de um historiador que, numa linha de raciocínio de crítica ao conceito, procurara recuperar sua historicidade9. Não acredito, porém, que um leitor que faça atentamente a leitura desta coletânea, ao terminar pergunte, de forma semelhante à de Weffort: “mas, afinal, o que foi o populismo” ?

Notas

1 Ver BORGES, Vavy Pacheco. “História e Política: laços permanentes”. In Revista Brasileira de História: Política e Cultura. São Paulo: ANPUH/Marco Zero/SCT/CNpq/Finep, vol. 12, Nº.23/24, pp.7-18, set. 91-ago.92.

2 Esse tipo de preocupação surge entre nós historiadores brasileiros em torno do tema da “Revolução de Trinta”, a partir da década de 1970. No caso, ver sobretudo VESENTINI, Carlos A. A Teia do Fato: uma proposta de estudo sobre a memória histórica. São Paulo: HUCITEC/HISTÓRIA SOCIAL, USP, 1997.

3 A historicidade dos conceitos tem entre nós, no alemão Reinhardt Kosseleck e no francês Pierre Rosanvallon, alguns de seus expoentes. Os assuntos em questão têm sido debatidos nas apresentações promovidas nos encontros da ANPUH pelos grupos de trabalho de História Política e de Mundo do Trabalho.

4 Ver BORGES, Vavy Pacheco. Tenentismo e Revolução Brasileira.. São Paulo: Editora Brasiliense, 1992.

5 Essa concepção, embora questionada, permanece intocada em muitíssimos trabalhos. Tome-se um exemplo ao acaso, entre inúmeros exemplos recentes de obras de divulgação: a obra Viagem pela história do Brasil, de Jorge Caldeira, publicada em 1997 pela Companhia das Letras; essa apresenta o tenentismo como a expressão dos anseios das classes médias; apresenta também um capítulo intitulado: “O período populista” sem maiores explicitações….

6 Ver pp.10-11 da coletânea.

7 É interessante lembrar que, durante a presidência de Fernando Collor, uma caricatura na grande imprensa paulistana mostrava Collor sentado em um trono presidencial, tendo ao lado um bobo da corte, que carregava um livro intitulado ” O colapso do populismo”.

8 No momento em que escrevo a resenha, dois exemplos: do ponto de vista da academia, a recente versão do Dicionário Histórico-Biográfico Brasileiro ¾ pós-1930, produzido pelo CPDOC, traz um item “Populismo” com quase tudo o que é criticado nesta coletânea; do ponto de vista da política, o populismo na mídia tem aparecido como o culpado, em boa parte, pelos insucessos políticos atuais da Argentina (dezembro 2001- janeiro 2002.)

9 Eu respondi a Weffort que a criação do termo, datada do primeiro semestre do ano de 1931, foi resultado de um enorme medo das elites políticas paulistas, depois difundido por essas nas classes médias urbanas, gerado pela presença de uma forma de militarismo na política, que poderia trazer, temiam todos, uma enorme mudança social. Porém, para as elites, antes e depois desse momento histórico, quando os militares fazem o que elas querem, eles não parecem despertar medo algum.

Vavy Pacheco Borges – Universidade Estadual de Campinas.

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Uma estranha ditadura – FORRESTER (RBH)

FORRESTER, Viviane. Uma estranha ditadura. São Paulo: Editora da Unesp, 2001. 187p. Resenha de: CARDOSO, Heloisa Helena Pacheco. Revista Brasileira de História, São Paulo, v.22, n.43, 2002.

Desemprego nos EUA é o maior em 4 anos: 113 mil é o número de postos de trabalho cortados pela economia americana em agosto1. Manchetes como esta continuam a nos assustar. Elas provocam uma sensação de instabilidade, porque questionam aquilo que acreditamos ainda ser vital para a sobrevivência ¾ o emprego. As matérias publicadas na imprensa cotidianamente tentam fazer uma análise da crise econômica que tem afetado o mundo nessas últimas décadas, mostrando os seus reflexos sociais (mesmo porque eles não podem ser negados, dada a sua objetividade) e os caminhos possíveis para a sua superação: a capacidade das empresas de apresentarem produtividade e competitividade no mercado. A lógica deste caminho acena para a possibilidade de uma retomada do crescimento econômico pelas empresas, o que geraria frutos positivos para o conjunto da população, com a diminuição do desemprego e com a melhoria das condições de vida. Questionar esta lógica é o eixo central da análise feita por Viviane Forrester em Uma estranha ditadura, livro escrito em 1999, lançado na França no ano seguinte e publicado no Brasil em 2001, pela editora da UNESP.

Neste livro, a autora retoma reflexões feitas em O horror econômico 2, sobre o momento atual do capitalismo, caracterizado pelo liberalismo absoluto, pela globalização e pela desregulamentação. O modelo que se instala, sob o signo da automação ou das tecnologias revolucionárias, não tem vínculo com o mundo do trabalho, embora esta categoria, sob a roupagem do emprego, continue a ser sustentáculo da sociedade. O trabalho, ou o emprego, transforma-se em mito, em algo constantemente buscado, embora em extinção; e o desemprego ¾ sua negação ¾ continua sendo objeto de promessas de solução, principalmente nos projetos de desenvolvimento e nas plataformas políticas.

Ao trabalhar com temas atuais, como globalização, ultraliberalismo, competitividade, produtividade, Viviane Forrester levanta questões que estão no cerne das reflexões não só de historiadores, economistas, cientistas políticos, mas também nas discussões cotidianas das pessoas que vivem a pressão da mídia, que as conclama para o sacrifício individual na busca de soluções para as economias nacionais, e a sedução das propostas governamentais que, em nome da competitividade nos mercados internacionais, acenam com a flexibilidade dos empregos e dos direitos sociais. Aliás, esta palavra vem adquirindo uma conotação mágica ao ser usada para caracterizar uma pseudomodernidade do capitalismo.

Em Uma estranha ditadura, o conceito de ultraliberalismo é privilegiado. Esse conceito é tratado pelos dirigentes da economia como globalização. Esta identificação tem um sentido político importante, na medida em que o termo globalização, que possui conteúdo histórico, transmite a idéia de um processo irrefutável, que aconteceria de qualquer forma e que, portanto, seria inquestionável. Mas é o próprio estatuto da História, que se constrói na transformação, que nos possibilita resistir a essa idéia:

(…) na verdade, vivemos em um de seus momentos mais efervescentes, que não vêm acompanhados por crises sociais, mas pela mutação de uma civilização até aqui fundada no emprego, o qual está em contradição com a economia especulativa atualmente dominante3.

Vinculando o desemprego às políticas ultraliberais dos últimos decênios, a autora questiona a chamada economia de mercado que se movimenta em um universo virtual, na qual os assalariados e os consumidores não têm importância.

O título do livro ¾ no original Un étrange dictature ¾ é uma referência à nova ordem do capitalismo, identificada com a globalização, um sistema despótico que acredita poder se dar ao luxo, graças à sua força, de suportar a moldura democrática. Essa estranha ditadura, que mais se assemelha a uma ideologia totalitária, assenta-se em uma contradição básica, que se manifesta na diferença entre o discurso que consagra a economia de mercado como modelo único de sociedade e as políticas concretas adotadas pelas empresas, onde se associam lucro e especulação e a acumulação se liga às flutuações virtuais da especulação, de suas apostas alucinantes.

Duas reflexões básicas se destacam neste livro. A primeira diz respeito ao surgimento dos working poors, referência aos que vivem abaixo do nível de pobreza mesmo trabalhando e que, por isso, não aparecem nas estatísticas sobre desemprego. Assistimos hoje à substituição do welfare ( o conceito de bem- estar social) pelo workfare (trabalho forçado), uma tarifa do trabalho só possível depois que os trabalhadores são desprovidos de todos os recursos, gerando a submissão, que os leva a aceitar quaisquer condições de trabalho e de vida. O workfare consiste, sob pretexto de inserção, em forçar as pessoas a aceitar qualquer trabalho. Esse processo expõe a relação, ainda muito forte, que existe entre dignidade e emprego, e seu efeito imediato, visível na divisão entre assalariados e desempregados, o que possibilita a dominação.

Outra reflexão que nos faz repensar em nossos conceitos sobre as relações sociais hoje é a sobre educação dos jovens. Por que formar jovens para profissões julgadas parasitárias e muito dispendiosas? No que empregá-los? O sistema educacional em todos os países está falido. As profissões que não têm vínculo com o mercado especulativo são consideradas supérfluas. Em nome do controle dos gastos públicos, postos de trabalho essenciais, como de professores, enfermeiras, médicos, vigias de museus, entre outros, são suprimidos, anunciando um futuro sombrio para as próximas gerações. Não estaríamos vivendo agora uma nova exploração desenfreada, que a história já registrou para o século XIX, apenas com uma nova roupagem?

Embora o texto apresentado por Forrester tenha o caráter de ensaio, naquilo a que a autora se propôs, ou seja, refletir sobre os caminhos que trilhamos hoje para superá-los, ele cumpre o seu papel. Poderíamos, talvez, cobrar uma análise teórica mais profunda, assentada em uma pesquisa documental mais consistente. Isto significaria desconhecer a trajetória da autora, romancista, crítica literária do jornal Le Monde, atividades que possibilitaram, por outro lado, a comunicabilidade que ela transmite pela escrita. A pergunta inicial proposta no texto, a respeito do ultraliberalismo, já cria um clima de envolvimento do leitor: De onde vem o fato de suas atividades prosseguirem com a mesma arrogância, de seu poder tão caduco continuar a se consolidar e de seu caráter hegemônico ampliar-se cada vez mais?4 Ao analisar esta questão, a autora chama a atenção para a propaganda que, ao indicar falsas premissas, encobre os verdadeiros problemas.

Vivemos hoje no mundo da comunicação acelerada. Recebemos cotidianamente uma avalanche de informações. Ao ler o jornal, ao assistir o noticiário na televisão, somos bombardeados com uma série de dados e eles nos exigem um posicionamento crítico diante dos acontecimentos. Como sujeitos dessa história presente, recebemos uma chuva de notícias, cujos pingos vão nos atingindo de forma isolada, com o objetivo de nos transmitir uma postura positiva a respeito dos despropósitos do mundo atual que, espera-se, possamos assimilar. Ser sujeito desta história é complicado: nossa capacidade de discernimento e análise vê-se prejudicada não só por sermos sujeitos na cena contemporânea, mas também pela velocidade e multiplicidade das informações que nos são repassadas a todo momento, onde se mesclam as imagens do avanço tecnológico e da saúde das empresas com as da pobreza e da violência urbana.

Ao tratar esta realidade, Uma estranha ditadura ultrapassa o objetivo de análise das relações econômicas e sociais contemporâneas e assume o caráter de denúncia. Denúncia das estratégias de convencimento que visam ocultar a realidade das propagandas, que buscam o consentimento para as políticas destruidoras feitas em nome da globalização, esse apanágio para todos os males.

Acompanhando todas as reflexões feitas pela autora, uma pergunta vital não poderia deixar de ser feita: ¾ existe futuro? Ou melhor, existe a possibilidade de um outro futuro? Para enfrentar a ditadura da economia de mercado é necessário desmantelar a impostura, construir formas de resistência, e a opinião pública pode ter um papel fundamental, forçando seus representantes políticos a mudar de direção. Hobsbawm5, em artigo onde analisa a falência da democracia, observa como a opinião pública tem se tornado poderosa, graças aos meios de comunicação de massa, e como ela tem influído nas instâncias decisórias superiores. O poder desta opinião pública é a outra marca deste mundo globalizado, onde os governos têm que conviver com a vontade dos cidadãos, que não avaliam projetos, mas resultados.

Mais recentemente, afirma o autor, as manifestações em Seattle e Praga demonstram a eficácia da ação direta bem dirigida, conduzida por grupos pequenos, mas cientes de como agir diante das câmaras, mesmo quando agem contra organismos erguidos para serem imunes aos processos políticos democráticos, tais como o FMI e o Banco Mundial.

Se a pressão da opinião pública é o caminho, é necessário definir em que sociedade queremos viver. Transformar a sociedade atual é resolver a questão da repartição, jogando por terra as prioridades da economia ultraliberal, centradas no lucro, colocando as pessoas no centro dessas prioridades. Esta é uma operação realizável, como afirma Viviane Forrester, porque afinal o ultraliberalismo nada tem de irreversível.

Notas

1 “Desemprego nos EUA é o maior em 4 anos.” Folha de S. Paulo, 8 set. 2001, p.B1.

2 FORRESTER, Viviane. O horror econômico. São Paulo: UNESP, 1997.

3 FORRESTER, Viviane.Uma estranha ditadura. São Paulo: UNESP, 2001, p.15.

4 Idem, p. 5.

5 HOBSBAWM, Eric. “A falência da democracia”. In Folha de S. Paulo. Caderno Mais!, 9 set. 2001, pp. 4-7.

Heloisa Helena Pacheco Cardoso – Universidade Federal de Uberlândia/ Projeto PROCAD.

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Arqueología de rescate en el Banco Central de la República Argentina – WEISEL (IA)

WEISEL, M.; ZARANKIN, A.; PARADELA, H; CARDILLO, M.; VILLELLI, M.; MORALES, M.; GUILLERMO, S. y GOMÉZ, M. Arqueología de rescate en el Banco Central de la República Argentina. Buenos Aires: Secretaría de Cultura, 2000. 93p. Resenha de: FUNARI, Pedro Paulo A. Intersecciones en Antropología, Olavarría, n.3, ene./dic., 2002.

Pedro Paulo A. Funari – Departamento de História, IFCH-UNICAMP, C. Postal 6110, Campinas, SP, 13081-970, Brasil. Correo electrónico: pedrofunari@sti.con.br

Marcelo Weissel, perteneciente al Equipo de Arqueología de la Comisión para la Preservación del Patrimonio Histórico Cultural de la Ciudad de Buenos Aires y Andrés Zarankin, ambos directores de excavación y miembros del Programa de Estudios Prehistóricos del Consejo Nacional de Investigaciones Científicas y Técnicas han publicado este volumen, con la colaboración de los estudiantes de Ciencias Antropológicas, con orientación en Arqueología, de la Universidad de Buenos Aires, Horacio Paradela, Marcelo Cardillo, Marcia Bianchi Viellelli, Marcelo Morales, Sandra Guillermo y Mariana Gómez. Desde la década de los 80’s, Buenos Aires ha sido objeto de investigaciones arqueológicas sistemáticas sobre los procesos de conformación de la sociedad porteña, los patrones de consumo alimenticio y las tipologías de artefactos. Estos estudios -a partir de la cultura material- han posibilitado generar fuentes alternativas a los documentos escritos, posibilitando el acceso a grupos poco visibles en los textos, como lo son los indígenas, los negros, las mujeres, los niños y los oprimidos en general.

En este contexto se ubica este libro, que presenta los resultados de las excavaciones de rescate realizadas entre enero y marzo del 2000, en el lugar donde funcionaba el estacionamiento del Banco Central de la República Argentina, ubicada en la calle Reconquista 250 de la ciudad de Buenos Aires. El objetivo de las excavaciones de emergencia fue la recuperación y la preservación de materiales históricos que se hubieran perdido irreparablemente, de manera de constituirse en documentación disponible para la comunidad científica y para el público en general. Los autores lograron publicar este libro en un tiempo muy breve, presentando materiales y análisis en forma general. La excavación de pozos completos de basura antigua y una cisterna de un aljibe permitió la recuperación de gran cantidad de materiales, lo que permitió producir resultados importantes para la comprensión de la vida cultural. Los hallazgos fueron fechados entre mediados del siglo XVIII y mediados del siglo XIX, con una gran cantidad de loza inglesa, pues no se encontraron materiales de los dos primeros siglos de ocupación de la ciudad.

Los autores comienzan con la descripción detallada de los materiales recuperados (pp. 23-32), con especial énfasis en los objetos cerámicos: recipientes, mayólicas, lozas, gres y pipas de caolín. Se mencionan las famosas botijas españolas, conocidas también como olive jars. Este tipo cerámico, de los más usados en toda el área colonial española, atestigua la existencia de patrones de medidas imperiales, así como el grado de unidad cultural del imperio español desde América del Norte hasta Buenos Aires. Estos recipientes muestran la existencia de mecanismos esencialmente políticos de distribución, un sistema de apropriación de bienes por parte de una autoridad central (el Estado español) que más tarde los distribuye de acuerdo con las necesidades administrativas (cf. Jamieson 2000: 183-185 sobre los múltiplos aspectos de estas botijas). Buenos Aires era parte de un Imperio por lo que no estaba sólo afectada por factores económicos (ver Funari 1999 sobre la importancia de los factores políticos en el período moderno). En este capítulo, los autores presentan la pequeña exposición “El Patacón de Oro y otras curiosidades”, que generó un alto grado de repercusión inmediata. Convendría que la exposición introdujera una propuesta pedagógica propia, de manera de ofrecer al público no sólo la fruición de contemplar los hallazgos sino la posibilidad de intepretar, de manera crítica y multivocal, la cultura material histórica.

El capítulo siguiente trata de la historia del lugar (pp. 33-45). El diseño de la ciudad fundacional de 1580 responde a la Legislación de Indias de 1573, otra manifestación del orden imperial hispánico. El sur de la actual Plaza de Mayo aglutinó además dos fuerzas imperiales importantes, como lo fueron las órdenes Franciscana y Dominica, mientras el norte quedó en manos de los Mercedarios. Los autores presentan luego una síntesis histórica a partir de fuentes secundarias, desde 1580 hasta el Virreinato, recordando que la población colonial estaba dividida, desde el punto de vista imperial, en “vecinos” y “estantes”, los primeros, un grupo patricio y los segundos, la población restante, tales como comerciantes, profesionales, artesanos y jornaleros; africanos e indígenas estaban fuera de la clasificación oficial de los documentos. Los vecinos retenían el derecho de propiedad, de poseer encomiendas de indios y de formar parte del Cabildo, como alcaldes. Se trataba pues de una sociedad basada en grupos cerrados de status -otras posiblidad: grupos cerrados con status social muy bien diferenciado-, aunque con el tiempo los éxitos mercantiles llevaron a alianzas y matrimonios entre estantes y vecinos. De todas maneras, las características estamentales de la sociedad eran esenciales. Desde el Virreinato hubo cambios económicos y sociales importantes, pues Buenos Aires fue paulatinamente integrándose a la economía capitalista internacional y a sus grupos sociales dominantes en contacto con las más modernas tendencias. A partir de la documentación consultada, los autores proponen una periodización cronológica del predio que van luego a contrastar con los resultados de las excavaciones de urgencia efectuadas.

La investigación arqueológica (capítulo III, pp. 47-74) constituye el núcleo central del libro. La intervención en el sitio se estructuró en dos etapas sucesivas, la primera de excavación y la segunda de estudio en laboratorio de los materiales recuperados. La excavación de rescate se efectúo a través de pozos, perfiles (este y norte) y del estudio de la cisterna del aljibe. La segunda parte del trabajo de campo consistió en el seguimiento de la obra en curso, siguiendo el trabajo de los empleados y el de la retroexcavadora. Publican como documentación nada menos que 10 dibujos y 25 fotografías, documentando toda la etapa de campo de rescate. El trabajo de laboratorio se divide en dos partes: el análisis arqueofaunístico y de la muestra de restos óseos, cuyos resultados son presentados en 20 cuadros y gráficos.

En las conclusiones (pp. 75-80), dos importantes cuestiones son consideradas, en relación con los procesos de conformación del registro arqueológico en Buenos Aires. A partir de las fuentes escritas, afirman que las autoridades comenzaron a preocuparse por establecer el lugar donde debía arrojarse la basura desde los inicios de la ciudad. Los autores consideran que la gente utilizaban calles y lugares públicos, ya que en 1637 el Cabildo dispuso que los vecinos y moradores debían limpiar y barrer las veredas frente a sus casas y hacia 1800 surgen las primeras noticias sobre la adquisición de carros para la limpieza pública. La implementación del barrido y recolección de residuos a domicilio produjo un cambio considerable en cuanto a la deposición de restos. En este contexto se interpretan los “pozos de basura”, los “pozos de balde”, “pozos ciegos” y “aljibes” (cámara subterránea de ladrillos y cubierta con una bóveda). Fueron identificados cuatro estructuras subterráneas que contenían el 80% del material arqueológico: un aljibe, un pozo de balde, un pozo ciego y un pozo de basura.

La intepretación de los resultados demuestra que allí se hallaba una unidad doméstica cuyos moradores tenían acceso a la mayoría de los bienes suntuarios disponibles en Buenos Aires, tales como la loza inglesa, los juegos de té, la porcelana oriental, las mayólicas españolas. Los autores interpretan la presencia de cerámica española e inglesa como característica de un período de transición en el cual las familias españolas intentaban aún mantener una identidad propia, sin dejar de estar al día con la moda internacional. Las cerámicas emparentadas con manufacturas indígena o africana son minoritarias, a diferencia de lo que pasaba en otras partes de Buenos Aires y en otros sitios, donde se usaba en la cocina cerámica local. Esto permite suponer que el poder adquisitivo de los habitantes de este lugar era alto, lo cual se evidencia en el uso de una cerámica de cocina similar a la empleada en la propia península ibérica. A mi juicio, parece claro que vecinos y estantes, además de sus diferencias de status, tenían una cultura material bastante distinta, y que era este status el que a su vez permitía y exigía el uso de esta cerámica de cocina importada (cf. Kicza 1997). Su uso nos dice poco sobre su etnicidad, pero sí nos informa sobre su estilo de vida y sus gustos de clase (sensu Bourdieu). Este mismo sentido de consumo deélite explicaría el descarte, que resultó llamativo a los autores, de una gran cantidad de botellas de vidro enteras arrojadas en la basura, desde el siglo XVIII, así como el consumo principal de especies de gran tamaño (cf. Weisman 1992: 117-140; deFrance 1996).

En las palabras finales, los autores concluyen enfatizando la importancia de una política en relación al patrimonio cultural y no cabe duda que este libro contribuye a ello, pues tanto el rescate como la publicación inmediata constituyen acciones imprescindibles para la protección del patrimonio. La lectura del libro es ilustrativa tanto de la sociedad porteña del pasado, como sobre las tareas de la Arqueología, en tanto praxis científica y social. Los datos arqueológicos, aunque limitados a pocos días de trabajo de campo en una situación de urgencia, muestran una sociedad, entre los siglos XVIII y XIX, que es parte de un vasto imperio, primero, y del capitalismo naciente, después. La existencia misma de los pozos atestigua esta participación a un imperio, pues reflejan una actividad de limpieza de origen oficial. Además, los restos dan cuenta de un consumo de clase alta que revela una sociedad cuya crème de la crème se esfuerza en distinguirse del resto de la élite.

En términos arqueológicos, en primer lugar se destaca el hecho de que los materiales no confirman las fuentes, sino que presentan datos nuevos: ¿Quién pudiera haber dicho, a partir de los documentos escritos, que la gente de este lugar usaba un ajuar ibérico (cf.Kicza 1997) y descartaba tantas y tan caras botellas? En segundo lugar, en un contexto en el cual la mayoría de los trabajos de rescate permanecen inéditos, no sólo en Argentina, sino en todo el mundo e incluso en los países más ricos, los autores se preocuparon en publicar un libro, para que el público científico pudiera conocer estos datos y no se perdieran para la ciencia. Además, comprometidos con la sociedad más allá de los científicos, produjeron una exposición para el público. Un programa pedagógico podría conplementar esta exposición, para que la gente pueda reflexionar, de manera crítica, sobre la sociedad porteña y sus contradicciones sociales seculares. De hecho, el esplendor de los vestigios de este lugar ganaría sentido, si fuera confrontado con los vestigios de otros sitios, llamados de “toscos” por los autores. El sentido último del uso de estos objetos de ostentatación consistía, precisamente, en diferenciarse de la gente “tosca” y, por esto, sólo adquieren pleno sentido en la contraposición entre alta y baja manufactura, entre elegantes y toscos. De esta manera, también, el público, que vive las contradicciones sociales contemporáneas (cf. Podgorny 1999), puede entender el pasado no simplemente como el lugar de una falsa belleza y de una no menos artificial harmonía social, sino que los conflictos del presente tienen sus raíces en este mismo pasado (cf. Paynter 1999). La Arqueología tiene una contribución particular en este sentido, pues presenta a la vez los vestigios de elegantes y toscos; de europeos, indígenas y africanos. Esta es la contribución más específica de la Arqueología Histórica (Orser 1999: 65), pues muestra los vestigios de unos y de otros, y expone así las contradicciones sociales ocultas en el discurso escrito. Como conclusión puede decirse que este libro contiene los elementos in nuce para reflejar, desde diferentes puntos de vista, tanto la sociedad porteña, como la práctica de la Arqueología Histórica en Argentina.

Referências

deFrance, S. D. 1996 Iberian foodways in the Moquegua and Torata Valleys of Southern Peru. Historical Archaeology 30(3): 20-48.   [ Links ]

Funari, P. P. A. 1999 Historical archaeology from a world perspective. En Historical Archaeology, Back from the edge, editado por P. P. A. Funari, M. Hall y S. Jones, pp. 37-66. Routledge, Londres.   [ Links ]

Jamieson, R. W. 2000 Domestic Architecture and Power. The historical archaeology of Colonial Ecuador. Kluwer, Nueva York.   [ Links ]

Kicza, J. E. 1997 Native American, African, and Hispanic communities during the middle period in the Colonial Americas. Historical Archaeology 33(1): 9-17.   [ Links ]

Orser, C. E. 1999 The Archaeology of the African Diaspora. Annual Review of Anthropology 27: 63-82.   [ Links ]

Podgorny, I. 1999 Arqueología de la educación, textos, indicios, monumentos. La imagen de los indios en el mundo escolar. Sociedad Argentina de Antropología. Buenos Aires.   [ Links ]

Paynter, R. 1999 Epilogue: class analysis and historical archaeology. Historical Archaeology 33(1): 184-195.   [ Links ]

Weisman, B. R. 1992 Excavations on the Franciscan Frontier, Archaeology at the Fig Springs Mission. University Press of California, Gainesville.   [ Links ]

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A História de Homero a Santo Agostinho | François Hartog

Portanto, assim deve ser para mim o historiador: sem medo, incorruptível, livre, amigo da franqueza e da verdade; como diz o poeta cômico, alguém que chame os figos de figos e a gamela de gamela; alguém que não admita nem omita nada por ódio ou por amizade; que a ninguém poupe, nem respeite, nem humilhe; que seja juiz equânime, benevolente com todos até o ponto de não dar a um mais que o devido; estrangeiro nos livros, apátrida, autônomo, sem rei, não se preocupando com o que achará este ou aquele, mas dizendo o que se passou.

Esta orientação téorico-metodológica, esta introdução aos estudos históricos, embora tenha semelhança com o postulado estabelecido por Ranke no século XIX, aquele que instruía o historiador a “mostrar como algo realmente aconteceu” (wie es eigentlich gewesen 2), não pertence, no entanto, ao grande historiador alemão. Nem a W. Humboldt, ou a G. Monod, e muito menos a Langlois e Seignobos 3. Esta passagem é uma criação antiga, cuja data remonta ao ano 165 de nossa era, e foi escrita por Luciano de Samósata (119-175 d.C.), autor de numerosos tratados (diálogos, panfletos e sátiras), e da “única obra sobre a história que nos chegou da Antiguidade!”, explica François Hartog, na introdução que faz à coletânea, da qual também é o organizador e comentador, A história de Homero a Santo Agostinho 4. Leia Mais

L’Histoire à l’école. Modes de pensée et regard sur le monde – HEIMBERG (CC)

HEIMBERG, Charles. L’Histoire à l’école. Modes de pensée et regard sur le monde. Issy-les-Moulineaux, ESF éditeur, coll. Pratiques et enjeux pédagogiques, 2002, 125 pages. Resenha de: LEONARDIS, Patrick. Le cartable de Clio – Revue romande et tessinoise sur les didactiques de l’histoire, Lausanne, n.2, p.282-283, 2002.

L’histoire est une discipline en crise. Pourtant elle a rarement été autant sollicitée dans l’espace public. C’est le point de départ de la riche réflexion que Charles Heimberg nous propose sur la place de l’histoire dans la Cité en général et à l’école en particulier. Se nourrissant des écrits de Marc Bloch, d’Hobsbawm, de Walter Benjamin ou de ceux moins connus des historiens italiens actuels, il nous livre un petit ouvrage d’une remarquable concision et dégageant de grandes perspectives didactiques.

L’auteur regroupe en trois axes d’activités (comparer, périodiser et distinguer l’histoire de ses usages publics) les éléments constitutifs d’une pensée propre à la discipline dans le cadre scolaire: la compréhension du présent par une prise en compte du passé, l’intérêt pour le caractère spécifique du passé, la complexité des temps et des durées, la question de la mémoire collective et la critique des usages culturels et médiatiques de l’histoire. Il défend l’idée que tous les élèves peuvent entrer dans ces modes de pensée historiens relativement tôt, en tout cas dès les premiers degrés du secondaire et qu’il serait regrettable de croire que sans un socle préalable de connaissances, il n’est pas possible de faire réfléchir des élèves sur des problèmes d’histoire. Le défi de cette vision de l’histoire enseignée est de promouvoir une même his toire de la maternelle à l’université, sans négliger bien évidemment des niveaux de progression différenciés. Tout en ne dédaignant pas les didactiques transmissives traditionnelles ou béhavioristes, le socio-constructivisme semble bien la voie à suivre pour Heimberg, si l’on veut renouveler les pratiques d’enseignement et sortir de l’empilement de connaissances déconnectées les unes des autres et donc faiblement porteuses de sens.

Loin d’établir un catalogue de belles intentions didactiques et fort de son expérience d’historien, d’enseignant et de formateur, il présente, à l’appui de sa démonstration, des suggestions d’activités d’une rare simplicité à mettre en œuvre dans les classes et qui conjuguent avec efficacité des perspectives tant historiques que pédagogiques.

En vérité, derrière une apparente simplicité se cache une pédagogie très exigeante où les enseignants développeraient à leur tour une réflexion collective sur les usages publics de l’histoire, ainsi que sur leur responsabilité sociale d’historien et de pédagogue. Avec beaucoup de conviction, l’auteur les engage à dépasser le faux dilemme d’une école inculcatrice du savoir s’opposant à une école favorisant l’épanouissement de compétences citoyennes.

LHistoire à l’école s’adresse donc aux enseignants qui cherchent à développer dans leur classe une véritable pensée historique, au risque de l’expérimentation, de réajustements successifs, d’idées nouvelles. Un immense chantier, comme ne le cache pas l’auteur, mais, ajouterat-on, qui vaut la peine d’être entrepris.

L’ouvrage se conclut par quelques perspectives particulièrement pertinentes concernant le point qui fâche: l’évaluation. En exemplifiant les nouveaux objectifs d’apprentissage de fin de scolarité obligatoire introduits récemment dans l’école genevoise, Heimberg défend une vision de l’histoire scolaire qui ne serait pas um outil de sélection et qui participerait au projet d’une école ne galvaudant pas son épithète de démocratique. A juste titre, une place capitale est attribuée au formatif, malgré les grandes difficultés à pratiquer ce type d’évaluation dans une branche d’éveil à faible dotation horaire, et à la transparence des critères d’évaluation.

Il nous invite ainsi à parcourir le champ d’un possible pédagogique, permettant d’envisager une histoire enseignée ouverte, plurielle, citoyenne, démocratique. Beau programme s’il en est.

Patrick de Leonardis – Séminaire pédagogique (SPES), Lausanne.

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Historien, acteur du rapprochement judéo-chrétien – KASPI; ISAAC (CC)

KASPI, André; ISAAC, Jules. Historien, acteur du rapprochement judéo-chrétien. Paris: Plon, 258p. Resenha de: HEIMBERB, Charles. Le cartable de Clio – Revue romande et tessinoise sur les didactiques de l’histoire, Lausanne, n.2, p.283-284, 2002.

On connaît surtout la figure de Jules Isaac pour la fameuse série dite « Malet-Isaac » de manuels d’histoire. Une récente biographie d’André Kaspi nous permet aujourd’hui de mieux prendre la mesure de la très grande richesse du parcours de cet historien et citoyen. En réalité, c’est un peu par hasard, et pour arrondir des fins de mois alors difficiles, que Jules Isaac, historien agrégé et collaborateur occasionnel des Cahiers de la Quinzaine, se lança d’abord dans des adaptations des manuels qui avaient été écrits par Albert Malet. Contrairement à ce que l’on pourrait croire, il a d’ailleurs très peu connu celui avec En prenant la responsabilité de leur refonte, Jules Isaac introduisit dans ces manuels, au fil de son récit historique, des documents authentiques, qui exprimaient parfois des points de vue différents, pour aider les élèves à construire leur esprit critique. Il exprima aussi quelques intentions ou points de vue louables, et fort modernes, comme celui-ci: « la vérité historique n’a pas de patrie, ne porte pas d’écharpe tricolore » (cité en page 93). Son œuvre, à nouveau remise sur le métier à partir de 1937, joua d’ailleurs un rôle de vecteur de l’innovation pédagogique. Les rapports que laissa le désormais inspecteur général montrèrent par ailleurs qu’il appelait de ses vœux un usage distancié de ce manuel conçu comme un instrument de travail au service des activités des élèves. Et même si cette immense entreprise pédagogique restait fille d’un temps où l’enseignement ne s’adressait qu’à une partie limitée des enfants de la République, elle n’en demeure pas moins d’une grande valeur documentaire tant pour l’histoire de l’éducation que pour nos réflexions d’aujourd’hui sur l’histoire enseignée.

D’autres aspects, et non des moindres, de la vie publique et privée de Jules Isaac sont encore abordés dans cette biographie. Ses recherches d’histoire, par exemple, portèrent beaucoup sur des thèmes qui n’étaient pas sans lien avec sa propre vie. Ainsi, au cours de l’entre-deuxguerres, l’ancien combattant Isaac s’occupa-til beaucoup de l’histoire de la Première Guerre mondiale, et s’engagea-t-il de manière originale dans le débat sur les responsabilités, rejetant l’idée facile de les faire porter aux seuls Empires centraux. Mais surtout, alors que l’historien s’interrogeait sur les racines profondes de l’antisémitisme et qu’il préparait une étude à ce sujet, au cœur des drames de la Seconde Guerre mondiale, il échappa de peu à des rafles qui coûtèrent la vie à ses proches, sa femme Laure et sa fille Juliette, juste parce qu’elles s’appelaient Isaac.

Dès lors, comment survivre au désastre? Jules Isaac survécut notamment par ses travaux érudits sur l’antisémitisme, Jésus et Israël et Genèse de l’antisémitisme (qui a récemment été réédité dans la collection 10/18), par sa dénonciation systématique du terrible décalage entre les textes bibliques et l’enseignement chrétien comme source de l’antisémitisme et par son engagement, à la fin de sa vie, pour un rapprochement entre judaïsme et christianisme.

Dans sa thèse sur l’histoire de l’enseignement de l’histoire dans les lycées, Evelyne Hery évoque elle aussi à plusieurs reprises la figure de Jules Isaac et le caractère novateur, pour l’époque au cours de laquelle il a exercé la fonction d’inspecteur général, de ses propositions. Par ailleurs, nous l’avons vu, la vie de cet historien a été marquée par des drames personnels et toute une série d’engagements. Cela dit, André Kaspi insiste avec force, dans la conclusion de cette fort belle biographie, sur le fait que, décidément, Jules Isaac reste à ses yeux parfaitement inclassable…

Charles HeimbergInstitut de Formation des Maîtres (IFMES), Genève.

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A Slaves Place, a Master’s World: Fashioning Dependency in Rural Brazil | Nancy Priscilla Naro

NARO, Nancy Priscilla. A Slaves Place, a Master’s World: Fashioning Dependency in Rural Brazil. London: Continuum, 2000. Resenha de: HOFFNAGEL, Marc Jay. CLIO – Revista de pesquisa histórica. Recife, v.20, n.1, p.301-304, jan./dez. 2002.

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Knowing, Teaching & Learning History – STEARNS et al (CC)

STEARNS, Peter. SEIXAS, Peter; WINEBURG, Sam Wineburg (éd.).  Knowing, Teaching & Learning History. New York: University Press, 2000. 482p. Resenha de: Philippe Haeberli. Le cartable de Clio – Revue romande et tessinoise sur les didactiques de l’histoire, Lausanne, n.2, p.284-288, 2002.

Publié en association avec l’American Historical Association, cet ouvrage de près de 500 pages est issu d’un congrès tenu à la Carnegie Mellon University en novembre 1998. Il réunit une vingtaine de communications d’un panel de chercheurs anglo-saxons venus d’horizons différents (éducation, enseignement, histoire, psychologie, sociologie, sciences cognitives, sciences politiques…) et s’intéressant aux développements récents de la recherche sur l’enseignement et l’apprentissage de l’histoire. La volonté des éditeurs Peter Stearns, historien, Peter Seixas, spécialiste en plan d’études (curriculum) et ancien enseignant d’histoire au secondaire et Sam Wineburg, psychologue spécialisé dans les problèmes d’éducation, est de combler avec cet ouvrage une lacune, estimant que les historiens n’ont pas donné d’écho suffisant à l’intérêt grandissant du public américain pour la question de l’histoire à l’école. En effet, dès 1995 et la mise en débat au Congrès américain, on a assisté à une médiatisation croissante outreatlantique de la question de l’histoire à l’école. Des pratiques dans lesquelles des historiens non-professionnels évoquent, narrent ou utilisent des représentations du passé (commémorations, expositions, fictions, films…), l’enseignement scolaire de l’histoire reste, de l’avis des éditeurs, le parent pauvre de la recherche historique.

La question qui sert de fil rouge à l’ensemble des communications tourne autour de la fonction attribuée à l’histoire à l’école: cette dernière estelle principalement un héritage non-critique destiné à transmettre une certaine version du passé ou la version élémentaire de la discipline historique au sein de laquelle la dimension critique domine et que certains pourront développer plus tard à l’université? Les auteurs démontrent tout au long de l’ouvrage que la question de l’enseignement de l’histoire ne se réduit pas aux débats à propos des faits historiques à enseigner ou des identités à mettre en lumière, mais qu’il existe des compétences étroitement liées à la pratique de l’histoire qui constituent une base indispensable à l’exercice de la critique et qui, à ce titre, doivent être enseignées aux élèves.

L’approche sur laquelle l’ensemble des contributeurs s’accordent est épistémologique et culturelle. La séparation entre le contenu et les processus d’apprentissage est considérée comme artificielle et dangereuse. Il est entendu pour tous que le processus de communiquer des connaissances sur le passé est, avant tout, un acte qui charrie des messages implicites sur ce que signifie « être historique » dans une société moderne. Pour paraphraser le philosophe américain de l’histoire Hayden White, il y a énormément de contenu dans la forme. D’un acte purement technique, l’acte d’enseigner est considéré comme un acte culturel où se posent les questions de la nature du savoir, du rôle de l’élève et de l’enseignant dans la production de l’histoire. La classe peut ainsi devenir un des lieux du débat démocratique autour de la question de la signification de l’histoire.

La didactique de l’histoire étant un champ récent, elle cherche encore sa légitimité. Les auteurs énoncent trois références possibles: la ’révolution cognitive’ dans l’apprentissage et l’enseignement, comme l’a dénommée Howard Gardner, grâce à laquelle on est passé d’une pédagogie centrée sur les comportements à une attention particulière attribuée à la signification et au sens donnés aux actes d’enseignement; l’ouverture des débats historiographiques aux différents groupes minoritaires composant la société américaine; un intérêt accru pour les questions de conscience historique, de mémoire collective, et de présentation publique de l’histoire.

L’ouvrage se découpe en quatre parties et les articles sont classés par thèmes de la manière suivante:

1° Les choix, les croyances et la compréhension

Quelle histoire doit être enseignée? L’enseignement de l’histoire implique des choix de contenu. Sur quels critères opérer ces choix? Deux historiens, Gary B. Nash et Ross E. Dunn font la suggestion suivante: soit les choix sont dûment explicités par les enseignants (comme c’est le cas dans le domaine de la recherche historique), soit ils font l’objet de discussions entre enseignants et élèves. Voilà pour la forme. Sur le fond, Nash et Dunn défendent la thèse que le contenu devrait être celui d’une histoire mondiale libérée des questions identitaires et de la recherche des origines. L’important étant pour eux les questions épistémologiques liées à cette histoire. Citant l’historienne Marylin Waldmann, Dunn finit son article par ces mots: «I think we need to stop arguing over which books to read or which cultures to study and start talking about which questions to ask » (p. 137).

2° Représentations partagées

Quel rôle pour l’histoire dans le projet identitaire? Dans quelle mesure les croyances à propos du passé influencent-elles le citoyen dans la compréhension qu’il a de lui-même et du monde qui l’entoure? James V. Wertsch, psychologue, apporte des éléments de réponse à ces questions. Il a pu conclure de ses recherches sur la conscience historique menées en Estonie qu’il existe deux actes mentaux de nature différente dans les jugements sur le passé. La croyance et le savoir (’belief ’ et ’knowledge’). Il observe que les gens stockent dans leur mémoire des constructions souvent très élaborées d’histoire officielle tout en continuant à croire profondément des récits alternatifs, voire contraires sur le passé.

Chose intéressante, les croyances même si elles sont souvent plus incohérentes que les connaissances, contribuent, selon Wertsch, beaucoup plus que ces dernières, à la constitution de l’identité et des conceptions politiques ou morales de la personne. Roy Rosenzweig a mené quant à lui une étude sur les représentations et l’utilisation des adultes américains à propos du passé dont les conclusions se montrent plutôt positives quant à l’importance accordée à l’histoire comme instrument de dialogue entre le passé et le présent. Enquête de même nature, mais effectuée de l’autre côté de l’Atlantique, l’enquête Youth and History dirigée par Bodo Von Borries, ancien enseignant reconverti dans la recherche en éducation, réalisée auprès de 32’000 jeunes en Europe et au Moyen Orient, démontre une certaine ignorance des méthodes d’enseignement ’ouvertes’ et ’centrées sur l’élève’ issues de 25 ans de réforme scolaire, autant chez les élèves que chez les enseignants interrogés. Empiriquement, les méthodes traditionnelles de l’enseignement de l’histoire semblent même donner des résultats supérieurs aux méthodes nouvelles selon les standards de l’enquête. Ces résultats exigent, selon von Borries, un réexamen de la légitimation théorique et normative de ces nouvelles méthodes d’enseignement de l’histoire. Linda S. Levstik décrit le décalage entre les attentes des élèves sur les aspects négatifs de l’histoire nationale (en l’occurrence américaine) et les réticences des enseignants à aborder des sujets et récits historiques polémiques, diviseurs ou même alternatifs pour la raison qu’ils n’ont rien à voir avec la formation identitaire des élèves. De manière générale, les questions relatives aux conceptions que les élèves peuvent avoir sur la méthode historique (quelle source historique croire? comment se comporter devant des sources conflictuelles? la nature réelle de l’argument historique?) sont discutées par la majorité des intervenants. Elles font l’objet de belles controverses et soulèvent une question pertinente: comment aborder dans la classe les différences de conceptions sur la manière d’étudier le passé? James F. Voss et Jennifer Wiley cherchent à répondre à deux questions liées intimement à l’écriture de l’histoire: présenter des segments de textes historiques séparément (textes multiples) produit-il de meilleures performances que de présenter le segment comme un seul texte? Et écrire un essai argumentatif sur un sujet historique produit-il des performances supérieures à écrire un autre type d’essai, comme le texte narratif? Dans un article surprenant, Sam Wineburg se demande quelles représentations du passé les jeunes acquièrent à travers les médias, la culture populaire, l’église et la vie familiale et comment ils les acquièrent. Son postulat de base est celui de la micro-histoire: il faut aller voir si les théories sociologiques générales se vérifient dans les représentations des individus. Autre interrogation plutôt provocatrice soulevée par Wineburg: et si les représentations produits par les médias et la culture populaire peuplaient la conscience historique américaine plutôt que celles issues du contenu des cours d’histoire à l’école? Son opinion sur la question est pour le moins atypique:

« Rather than pretending that we can do away with popular culture – confiscate videos, banish grunge rock and rap music, magnetize Nintendo games, and unplug MTV and the Movie Channel-we might well try to understand how these forces shape historical consciousness and how they might be used, rather than spurned or simply ignored, to advance student’s historical understanding » (p. 323).

Peter Lee et Rosalyn Ashby estiment que la progression des représentations des élèves à propos de la discipline historique est une donnée importante à prendre en compte par les enseignants et les programmes. Ils cherchent ainsi à déterminer les différences de compréhension de l’histoire comme forme de savoir qu’il peut exister entre des enfants de 7 ans et des enfants de 14 ans. Leur enquête à laquelle ont participé 500 élèves anglais porte sur ce qu’ils appellent les idées de second-ordre (concepts de preuve, de changement, d’explication ou de récit historique) par opposition à l’histoire substantive qui concerne le contenu historique proprement dit. Les questions qui ont intéressé Lee et Ashby sont par exemple: qu’est-ce qu’un savoir à propos du passé? Quel genre de problèmes aborde l’histoire? Comment expliquer les différences dans les récits historiques? Comment expliquer les différences d’opinion entre auteurs?

3° Entre mémoire collective et histoire critique

La tension entre passé critique et passé utilisable est développée dans un certain nombre de communications. La question du but politique visé par l’enseignement de l’histoire est alors clairement posée. Peter Seixas expose et critique une alternative au choix cornélien entre mémoire collective et histoire critique, à savoir la perspective post-moderniste de l’histoire inspiré des écrits de Michel Foucault pour la rejeter en mettant le doigt sur les dangers de nihilisme et de relativisme extrême qu’entraîne cette position.

4° Recommandations pour des réformes (modèles pour enseigner)

Certains auteurs, praticiens, proposent des innovations qui pourraient servir de modèles pour la classe. Robert B. Bain, enseignant d’histoire à l’école secondaire pendant 26 ans, montre comment les sciences cognitives et la psychologie culturelle lui ont été utiles pour développer des nouvelles techniques d’apprentissage. Veronika Boix-Mansilla s’intéresse plus particulièrement à la relation passé-présent. Elle dénonce la subordination de l’histoire à des valeurs aussi respectables soient-elles (démocratie, droits de l’homme, identité nationale) et la transformation de l’histoire en leçons de morale ou en dogmes servant à diriger les comportements dans le présent. Elle suggère que les liens que font les élèves entre des événements historiques et des événements actuels sont souvent simplistes, quand ils ne sont pas faux. En utilisant une étude où les élèves devaient appliquer ce qu’ils savaient de l’Holocauste pour expliquer le génocide rwandais de 1994, BoixMansilla illustre sa suggestion. Peter Stearns identifie et discute des activités particulières à l’analyse historique rencontrées par des élèves de l’Université dans son cours sur l’histoire mondiale dont la comparaison interculturelle, la vérification de théorie et l’explication du changement en histoire. Il relève et souligne que ces activités requièrent certains savoirs que les enseignants secondaires négligent ou qu’ils considèrent comme déjà acquis par les élèves. Psychologue et linguiste, Charles A. Perfetti propose un outil informatique s’inspirant de recherches dans le domaine des sciences cognitives pour aider les élèves de secondaire à faire des liens entre différents documents historiques traitant du même sujet, partant, pour enseigner l’histoire à l’aide d’une multiplicité de documents. Quant à Diane Ravitch, historienne de l’éducation, elle considère qu’un des enjeux clés pour une réforme réside dans la formation des enseignants chez qui il existe, selon elle, trop souvent des lacunes dans le savoir historique. Or, remarque-t-elle, comment des enseignants à qui il manque les connaissances de base peuvent-ils enseigner ce qu’ils ne savent pas aux élèves? Le contenu d’un cours académique réservé aux enseignants historiens pose problème. Sur quel aspect du futur métier de l’enseignant mettre l’accent? G. Williamson et McDiarmid, tous deux professeurs d’histoire, et Peter Vinten-Johansen, professeur d’éducation, ont tenté de mettre en commun leur savoir au service des futurs enseignants dans un cours de méthodes d’enseignement historiques donné à l’Université de Michigan.

Nous retiendrons de cet ouvrage trois aspects susceptibles de nourrir la réflexion sur l’enseignement et l’apprentissage de l’histoire. L’approche pluridisciplinaire et en particulier la participation importante de chercheurs issus de la psychologie semblent enrichir le traitement et les réponses à des questions aussi complexes et hétérogènes que celles posées par l’enseignement et l’apprentissage de l’histoire ; même si les compétences liées à la pratique de l’histoire et notamment le développement d’un sens critique chez l’élève se révèlent prioritaires pour les auteurs, ils n’en oublient pas moins la question du contenu enseigné. Celui-ci fait l’objet d’une réelle réflexion et de discussions sérieuses, entre autres autour de la dimension identitaire de l’enseignement de l’histoire ; enfin, cet ouvrage démontre ce qu’une collaboration entre chercheurs et praticiens peut apporter comme résultats fructueux.

Philippe Haeberli – Université de Genève.

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Insegnare storia. Riflessioni a margine di un’esperienza di formazione – BALDOCCHI et al (CC)

BALDOCCHI, Umberto; BUCCIARELLI, Stefano; SODI, Stefano (a cura di). Insegnare storia. Riflessioni a margine di un’esperienza di formazione. Pise: Edizioni ETS, 2002. 278p. Resenha de: HEIMBERG, Charles. Le cartable de Clio – Revue romande et tessinoise sur les didactiques de l’histoire, Lausanne, n.2, p.288-290, 2002.

Enseigner l’histoire, tel est le thème de cet ouvrage collectif qui émane des activités de formation des maîtres des Ecoles de spécialisation de l’enseignement secondaire (les SSIS, selon les initiales de leur dénomination italienne) de la région toscane (soit les antennes de Florence, de Sienne et de Pise). A travers de courtes mais riches contributions – beaucoup ont été rédigées par les trois coordinateurs du livre, mais leurs réflexions sont encore prolongées par de nombreuses interventions ponctuelles de chercheurs universitaires ou de spécialistes de questions particulières – c’est un véritable tour de la question, une évocation systématique, mais synthétique, des problèmes posés par la formation didactique en histoire qui est proposé aux lecteurs.

Ce regard italien sur la formation professionnelle des maîtres d’histoire de l’enseignement secondaire est évidemment inscrit dans un contexte particulier qui exerce largement son influence sur la problématique qui est décrite. Mais cela donne d’autant plus de sens, au-delà des différences culturelles, et malgré un cadre institutionnel fort différent, à toute une série de points communs, de difficultés partagées ou d’interrogations de nature analogue qui peuventêtre identifiées au fil de ces pages. Notamment au fait que, dans l’enseignement secondaire, ceux qui enseignent l’histoire enseignent aussi d’autres disciplines qui prennent souvent plus de place dans les esprits, ce qui ne les pousse pas spontanément à affronter la complexité réelle de l’enseignement de cette discipline.

Les grands chapitres proposés évoquent tour à tour les dimensions spatiales de l’histoire enseignée, sa programmation annuelle, les problèmes posés par les manuels scolaires, l’usage didactique des sources, celui des instruments électroniques de communication et les dimensions culturelles de l’histoire enseignée. Des questions aussi fondamentales que l’utilisation des sources orales, les réflexions sur l’historiographie et son histoire, ou l’éducation à la citoyenneté, font par ailleurs l’objet de développements particuliers.

Quelques options fortes de ce recueil d’articles méritent d’être soulignées en tant que telles, mais aussi parce qu’elles font largement écho à nos réflexions suisses-romandes ou francophones. Ainsi Mauro Ronzani insiste-t-il avec raison sur l’intérêt d’un usage didactique direct de sources historiques. Et Gaetano Greco sur l’intérêt d’une prise en considération de l’histoire de l’histoire, tout comme de celle de l’enseignement de l’histoire, pour la formation initiale des maîtres. Les pages sur la dimension spatiale de l’histoire enseignée plaident pour une pluralité de ces échelles en montrant surtout la nécessité d’éviter des trous noirs (l’absence de toute dimension régionale, celle de toute perspective extra-européenne, etc.). Et si Umberto Baldocchi insiste sur la nécessité de développer une véritable histoire européenne, ou même pan-européenne, les auteurs insistent tous sur la nécessité de concevoir une histoire globale qui sache concilier le particulier et le général en faisant interagir les différentes échelles considérées.

L’enseignant d’histoire est de plus en plus confronté à la nécessité de programmer son enseignement en fonction d’un certain nombre de critères, finalités et consignes. La recherche italienne en matière de didactique de l’histoire a développé la perspective de programmation modulaire de l’histoire enseignée. Ainsi un module, unité d’enseignement-apprentissage qui traite d’une manière globale un thème d’histoire dans un contexte donné, peut-il comprendre plusieurs unités didactiques et durer jusqu’à deux ou trois mois. S’il s’agit bien par-là de rompre avec une histoire narrative, linéaire et encyclopédique, ce n’est pas pour autant un renversement de l’histoire enseignée ne privilégiant que l’entrée thématique et conceptuelle. De fait, notamment parce que la dimension diachronique et temporelle ne doit pas être évacuée, beaucoup d’enseignants pratiquent déjà sans le revendiquer, ni parfois le savoir, un enseignement-apprentissage de l’histoire qui va dans le sens de cette vision modulaire.

La question des manuels scolaires est évidemment significative. Du point de vue historique, il est fait mention d’une enquête d’Antonio Brusa montrant qu’au cours des années soixante, les manuels italiens étaient passés d’une fonction strictement narrative, l’enseignant devant raconter l’histoire avec le manuel, à une fonction documentaire, les élèves devant lire eux-mêmes le manuel et apprendre à utiliser un appareil éditorial (titres et sous-titres, glossaires, renvois de pages, etc.) toujours plus complexe. Et Umberto Baldocchi note en particulier que le paradigme romantico-national sur lequel ces manuels étaient basés induisit également, et pendant longtemps, une toute-puissance de la causalité qui empêchait de donner à voir dans l’histoire l’existence d’acteurs tentant librement d’agir sur le cours des événements ; et une conception très simplifiée de cette causalité (d’où le piège de la cause unique, notamment en l’absence de toute vision complexe et systémique des relations internationales dans l’exemple de la Grande Guerre). Cependant, le contenu de ces manuels ne dit pas tout, loin s’en faut, des pratiques réelles en classe. Aussi Stefano Sodi, à partir d’une analyse typologique et critique des manuels disponibles, évoque-t-il de son côté quelques manières dont ils pourraient être utilisés à bon escient.

L’ouvrage comprend des exemples de modules d’enseignement-apprentissage, ainsi que des propositions de sources pouvant faire l’objet d’unités didactiques. Dans une section consacrée à l’enseignement de l’historiographie, et à propos de l’origine du capitalisme, Alberta Patacchini développe en particulier la manière dont les élèves pourraient être amenés à comparer, en les schématisant, des points de vue différents sur tel ou tel phénomène historique. Enfin, la question des images, qui peuvent être à la fois des documents d’histoire et des supports pour la raconter, est traitée par Luca Baldassira qui insiste à juste titre sur les problèmes nouveaux qu’elles posent à la notion de vérité en histoire.

La dernière section de l’ouvrage regroupe deux thèmes tout à fait essentiels, mais sous l’étrange intitulé commun de dimension culturelle de l’histoire enseignée. Ainsi l’intérêt d’une histoire des genres, et pas seulement d’une histoire des femmes, comme prise en compte des interactions sociales liées aux sexes dans toute société humaine est-il notamment défendu avec pertinence par Simonetta Soldani. Alors que les débats italiens sur l’éducation civique sont également évoqués.

Plusieurs auteurs font allusion à des faits d’actualité qui ont marqué l’histoire scolaire italienne de ces dernières années: la volonté – absolument indéfendable dans une démocratie digne de ce nom – de certaines instances politiques de pratiquer une censure sur les manuels d’histoire pour décider elles-mêmes de leur contenu, surtout en matière d’histoire contemporaine ; le décret ministériel qui renforça il y a quelques années l’enseignement de l’histoire du XXe siècle en prévoyant de lui consacrer la dernière année de chaque cycle de formation ; le projet de nouveau curriculum de l’histoire enseignée, rejeté en fin de compte par le nouveau gouvernement, qui prévoyait de ne plus répéter à plusieurs reprises un enseignement chronologique de l’histoire et fit l’objet de réactions très contrastées parmi les historiens (voir les deux pétitions publiées dans le n° 1 du cartable de Clio, ainsi que l’article de Luigi Cajani et le projet de curriculum italien dans le présent volume).

Cette vision d’ensemble de l’histoire enseignée et des problèmes qu’elle pose dans une perspective de formation des maîtres, qui est bien sûr trop succinctement présentée ici, est donc des plus intéressante. Peut-être la définition même de l’histoire, c’est-à-dire l’explicitation de son apport spécifique au regard critique sur le monde qui devrait se construire au cours du cursus scolaire aurait-elle pu être développée avec plus de précision. Mais cette question de la nature de la pensée historique en matière d’enseignement-apprentissage devrait sans doute faire l’objet d’un vaste débat international, dans une perspective comparative. Ce à quoi cette très intéressante publication toscane ne pourra que contribuer utilement.

Charles Heimberg – Institut de formation des maîtres (IFMES), Genève.

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Making History: The Story of Canada in the Twentieth Century – BAIN et al (CSS)

BAIN, Colin M.; DesRIVIERES, Dennis; FLAHERTY, Peter; GOODMAN, Donna M.; SCHEMENAUER, Elma; SCULLY, Angus L. Making History: The Story of Canada in the Twentieth Century. Toronto: Prentice Hall, 2000. 440. Resenha de: SENGER, Elizabeth. Canadian Social Studies, v.37, n.2, 2003.

Colin Bain et al. have managed to produce a solid, basic overview of Canadian history in this volume. It is clearly a textbook destined for classrooms in the middle years. Skills development sections, chronological connections, items on changing technology and a focus on art make it a user friendly product; one well designed to guide student learning. Interesting activities are provided throughout the book, and particularly good evaluation techniques and case studies are also included. Making History is clearly designed to retain student interest – there are interesting and informative graphics, cartoons, excellent quality photographs and plenty of colour. Biographies of everyday people are also provided to make a real life connection for students. A detailed bibliography is provided to lend credibility, but also to direct the reader to further sources. A thorough glossary and index are also included. This bears mentioning because there seems to be a trend to delete these most useful tools from many current classroom works. Both the quality of production and inclusion of information from 1896 right up to 1999 are very good and the language and reading level are straightforward and conventional. Some of the cartoons, however, may require further explanation, both for students and instructors! Making History does a good job of providing a cross section of view points, both in encouraging students to evaluate issues from a variety of perspectives and with the inclusion of information about a number of groups which have been forgotten in other textbooks, namely women, immigrant minorities and First Nations peoples.

Another of its strengths seems to be the focus on skill development within the curriculum. At the end of Making History, for example, there is an excellent Historian’s Handbook which details how students can formulate research questions and carry out research using conventional and internet resources. It also gives very helpful guidelines for writing and for oral communication. This is such a valuable teaching tool that it would perhaps be more functional at the beginning of the book. It could certainly be used most effectively as an introduction to the whole practice of studying history.

Overall this is a good basic survey/outline history of Canada which should be a welcome addition to junior high schools throughout the country, and perhaps even on an international market. The greatest strength of Making History, however, does seem to be in teaching the process of studying history rather than in its content.

Elizabeth Senger – Henry Wise Wood High School. Calgary Alberta.

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Curriculum: Construction and Critique – ROSS (CSS)

ROSS, Alistair. Curriculum: Construction and Critique. London & New York: Falmer Press, 2000. 187p. Resenha de: TRYSSENAAR, Laura. Canadian Social Studies, v.37, n.2, 2003.

Curriculum is a complex and compelling subject for both students and practitioners in education. Curriculum: Construction and Critique is an important book in the Masters Classes in Education Series. It is suitably written for the Masters level and would be an excellent text for graduate courses in the curriculum field. It would also be a useful reference book, helping professors and students alike to steer a course through the complexity of curriculum concepts and constructs. It is a highly readable and coherent text with a depth of scholarly perception that will encourage debate and conjecture.

The intent of the book is to raise questions regarding the purpose and design of curriculum and to examine the ideologies that shape curriculum. Alistair Ross aptly introduces the book, and the idea of curriculum, by choosing a culturally significant metaphor. Curriculum as garden takes its meaning from the English concept of garden, in which gardens have identifiable designs, purposes, and philosophies. Ross notes, the different ideas about the form and purposes of gardens are part of the same cultural movements that expressed different ideas about the structure and objectives of the school curriculum (p. 3). He consequently extends the metaphor into an examination of The Baroque Curriculum, the Naturally Landscaped Curriculum, the Dig for Victory Curriculum, and the Cottage Curriculum. The connection between curriculum and culture is firmly established and carries through the entire text.

The curriculum construction context addressed in this book is that of the curriculum in England and Wales, yet it has great relevance for students of curriculum in other nations in that it provides a point of comparison for a global inquiry into curriculum. Ross conceptualizes curriculum using universal definitions, and examines global trends in school curricula. Citing a study done by John Meyer at Stanford University, he points out the extraordinary similarities in curricula worldwide indicating that local national variations have been ironed out as a pattern of international conformity has prevailed (p. 15). Ross acknowledges that there are many local variations in curriculum, but suggests that the international trends in education reflect many of the same forces that have shaped the curriculum in England and Wales and thus offers his critique of curriculum in his culture as a template for global comparison.

Ross, like many others, perceives curriculum as a social construct that has responded to diverse influences over more than a century. He provides an interesting historical perspective of some of the great controversies and conflicting ideologies brought to bear on curriculum from 1860 to the present. Conflict and turmoil over the years are examined in light of tradition, politics, and ideology. Students of curriculum will find this book useful as a historical reference and as a basis for identifying the similarities among curriculum histories.

Another advantage of choosing a text based on a study and critique of the national curriculum in England and Wales, is its deliberate analysis of government involvement in shaping and imposing curriculum. What is particularly revealing in this text is the overwhelming connection between government ideology and the curriculum. The Thatcher government’s position on education and neo-conservative pressures of the recent past are particularly revealing. Students interested in examining the possibilities and pitfalls of a national curriculum will find this text offers much substance for the debate of central versus local control of the curriculum.

This text also has value as a model for research and scholarship. Ross presents a comprehensive compilation of curriculum scholarship and theorizing throughout the book, but most distinctively in the chapter on curriculum and reproduction. He examines the relationship between an educational system, particularly its curriculum, and the wider society within which the system is located (p. 81) from the theoretical standpoints of theorists such as Emile Durkheim, John Dewey, Michael Apple, Antonio Gramsci, Samuel Bowles and Herbert Gintis, Pierre Bordeaux, and Basil Bernstein among others. These theorists place curriculum in a social context, and provide a variety of interpretations of the role of curriculum in social reproduction.

Ross then moves from a theoretical perspective to meeting the need of many curriculum scholars for a concrete or technical depiction of curriculum. The remaining chapters of the text focus on the forms or traditions that written curriculum takes, and a critique thereof. Various approaches to curriculum are scrutinized. The reader is introduced to the discourse and ideology of content-based curriculum, objectives-based curriculum, and process-driven curricula. This is where a number of visuals add clarity to the book. Graphs, charts, and diagrams serve to illustrate and illuminate curriculum types, and the relationships between teachers, students, and the curriculum in various contexts. Diagrams are clear, flow charts easy to follow, and graphs are relevant to the content of the chapters. The connection is made between the various forms that curriculum takes and what curriculum becomes for the students for whom it is intended in these chapters and supports Ross’s argument that curriculum has a role in shaping future identities (p. 149).

The text comes full circle in the concluding chapter with another cultural metaphor, this time equating the Englishness of roast beef to the national identity forged by the curriculum, and warning of the dangers of believing both concepts. The final chapter offers a critical analysis of the symbols of nationality embedded in the curriculum which present some problems in terms of values and equality (p. 150). Ross raises questions about whose identity is being transmitted through the curriculum, and wonders about the regional, class, gender, and ethnic identities that are being denied when one national identity is created and promoted. That curriculum is important and powerful cannot be denied.

The book successfully addresses the historical, cultural, and political influences on curriculum, and provides insight into the complexity of curriculum substance and theory. Students who engage with this text may find they have as many questions as they are given answers. Alistair Ross achieves his goal and is able to both distinguish some of the competing traditions in curriculum design and purpose, and to analyse some of the ideologies that drive its construction (p. 160). The strength of this book is in its very Englishness which offers an honest perspective for curriculum critique.

Laura Tryssenaar – Faculty of Education. University of Western Ontario. London, Ontario.

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The Canadian Anthology of Social Studies: Issues and Strategies for Teachers – CASE; CLARKE (CSS)

CASE, Roland; CLARK, Penney (eds). The Canadian Anthology of Social Studies: Issues and Strategies for Teachers. Burnaby, BC: Field Relations and Teacher In-service Education, Faculty of Education, Simon Fraser University,1997. 424p. Resenha de: BRADFORD, Kathy. Canadian Social Studies, v.36, n.2, 2002.

The Canadian Anthology of Social Studies, edited by Roland Case and Penney Clark, is an impressive collection of forty-one articles contributed by both practicing teachers and teacher educators from across the country. Although several of the articles have appeared elsewhere, many were written expressly for the anthology. Case and Clark use three major themes to organize this vast collection of information: Foundations; Ends and Means; and Implementation. More specific organization within each of the major parts provide further structure to the individual chapters in the book. In the Foundations section, the editors have included articles which discuss the need to develop and understand a ‘coherent vision’ of the social studies along with overarching approaches to social studies programs characterized as discipline-based strands (history, geography, anthropology, archaeology, law), concern-based strands (global education, multiculturalism, gender issues, peace education, environmentalism), and dimension-based strands. Case and Clark organize the chapters in Ends and Means around the themes of content knowledge, critical thinking, information gathering and reporting, personal social values, and individual and collective action. The final section, Implementation, offers chapters focusing on instructional planning, learning resources, and student assessment.

Three excellent introductory chapters offering different perspectives or approaches to foundations for social studies programs, challenge teachers to think about and determine their own underlying beliefs about social studies and encourage the formation of and adherence to a personal coherent vision. In Challenges and choices facing social studies teachers, Neil Smith uses vignettes of typical social studies lessons or units (the pursuit of factual content without understanding; hands-on fun without context; and student involvement in decision-making without benefit of developing decision-making skills) to identify common problems in successfully teaching social studies. Roland Case’s solo contribution to this section, Elements of a coherent social studies program, is a chapter which every social studies teacher should read. Case believes that every teacher should be able to identify a coherent and defensible vision of social studies that drives their teaching (p. 10). To encourage teachers to develop their visions, Case identifies three necessary elements which combine to form such a social studies program: an underlying rationales (social initiation, social reformation, personal development or academic understanding); educational goals (content knowledge, critical thinking, information gathering and reporting, personal and social values, individual and collective action); and organizational strands (discipline-based, dimension-based, concern-based) which determine the emphasis and content of a social studies program. Case provides insightful examples of how a particular subject of study may be approached differently depending upon the rationale, goals, and strands used to organize the unit.

Other chapters in the anthology also explore social studies issues from and for various theoretical perspectives, however, a major strength of this collection is the emphasis on practice and the many suggestions for implementing ideas and improving social studies practice. It is important to note that the suggestions for practice are all solidly based in theory they are not ‘keep busy’ activities, rather they are tools for improving learning outcomes and meeting educational goals. One such gem is Penney Clark’s Escaping the typical report trap: Learning to conduct research effectively. Clark offers a seven-step model, for use by both elementary and secondary students, to make the complex task of conducting and reporting on research an interesting and educationally useful experience (p. 195). The steps, which include how to formulate guiding questions, how to extract information, and how to synthesize information into an effective presentation format, focus not on the regurgitation of information but rather on the development and practice of skills.

Every teacher, student teacher and teacher new to social studies, whether at the elementary or secondary level, should acquire this book for her or his personal library. This book presents a wealth of information about issues in social studies across Canada. The reader should approach the articles in The Canadian Anthology of Social Studies as excellent introductions to issues and topics rather than as definitive answers to social studies teaching and learning. As the editors state in the Foreword, the articles in the anthology present a multiplicity of viewpoints and experiences[which]rather than compete with one anothercomplement and accentuate the features of the others (p. vii). The harmony and diversity of ideas in the anthology embody the essence of the social studies themselves.

Kathy Bradford – Calgary, Alberta.

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Tapestry: A Canadian Social Studies Program, Levels 4 – 6 – PETERSUN et al (CSS)

PETERSUN, Rod; ASSELSTINE, Les; DUBOIS, Wendy; LUKS, Norma; MORRISON, Judy; SHIELDS, Bob. Tapestry: A Canadian Social Studies Program, Levels 4 – 6. Toronto: Harcourt Brace Company, Canada Ltd, 1996-97. 48p. Resenha de: BRADFORD, Katy. Canadian Social Studies, v.36, n.2, 2002.

Tapestry, a collection of twelve student booklets and corresponding teacher guides, is a new social studies program aimed at grades four, five and six. Written collectively by author teams, only Rod Peterson, the lead author, has contributed to each of the texts. The booklets within each level and among the three levels are designed as a whole unit working together to achieve the stated objectives of the program. The content themes (Self and Society, Geography and History) are organized to support four major social studies concepts: Interdependence, Change, Diversity and Heritage. Six broad learning expectations inform the Tapestry program over the course of time the student will become: a self-directed and reflective learner; an effective communicator; a responsible, collaborative contributor; a critical, creative problem solver; a creative producer; and a responsive and responsible citizen. Clearly, these are extensive expectations for twelve social studies textbooks. Leia Mais

Under the Gaze: Learning to be Black in White Society – KELLY (CSS)

KELLY, Jennifer. Under the Gaze: Learning to be Black in White Society. Fernwood Publishing, 1998. 144p. Resenha de: BROWN, Yvonne. Canadian Social Studies, v.36, n.2, 2002.

Jennifer Kelly has produced another fine ethnography of African-Canadian high school students. She defines herself to be simultaneously an insider and an outsider. She shares a Black identity born out of a common history of enslavement and colonization but recognizes that the location of her birth and family background makes her an outsider. Another relevant aspect of her identity is that she is a teacher and mother. Employing a male interviewer enabled her to obtain richly textured data about the Black male identity constructs. There were twenty-six females and twenty-three males as well as thirteen teachers in her sample.

The purpose of the study was to investigate how a sample of Black students constructed their identities within a White-dominated society. The location is the City of Edmonton, Alberta. Kelly investigated six topics as follows: how Black students view and perceive themselves; how they relate to their peers; the significance they attach to being Black in a White-dominated environment; how they receive and perceive predominantly Western popular cultural forms; and how they relate to teachers and schools.

Her methodology employed multiple methods for obtaining data. There was
historical data from both primary and secondary sources. These data established the background for the conceptual framework, which she used to frame and interpret the other data collected. Out of this framework she defined the main terms Black, White, racialization and identity. Focus groups with boys only, girls only, and boys and girls together, were carried out. Individual interviews were done with the students and teachers. She drew on her research journal as well.

Discussion and data interpretation revolve around the trope of the racialized gaze, as explicated by Frantz Fanon (1967), in his very influential book Black Skins White Masks. It is from this work that the title of the book comes. The gaze is defined in many ways: 1) dominant as in the white gaze; 2) oppositional as in the black child returning the gaze; 3) perceptual as in signifying ascribed identities. One quotation will illustrate the complex meanings attached to the gaze:

The importance of the gaze is that it allows a dominant group to control the social spaces and social interaction of all groups. Blacks are made visible and invisible at the same time under the gaze. For example, when Black youth are seen it is often with a specific gaze that sees the troublemaker the school skipper or the criminal. Thus they are seen and constrained by a gaze that is intended to control physical and social movements. The purpose of the gaze is that it should subdue those who receive it and make them wish to be invisible (p.19).

In six short chapters, I believe that Kelly has fulfilled the five goals of her research. There are a few weaknesses. The reader would benefit from seeing the research protocols as well as an index. The prose is choppy; this is no doubt a function of including so many quotations. This said I would like to tell the reader about a few of the admirable qualities. The historical overview accompanied by the photographs of Black settlers in Alberta was a reminder that though they were deemed unsuitable they came and they made their contribution. Social Studies teachers could benefit from reading this short ethnography. The chapter on gender relations explains racialized patriarchy well. The pedagogical insights from this study could help teachers understand the construction of racialized identities.

Yvonne Brown – The University of British Columbia.

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The French Enigma: Survival and Development in Canada’s Francophone Societies – STEBBINS (CSS)

STEBBINS, Robert A. The French Enigma: Survival and Development in Canada’s Francophone Societies. Calgary: Detselig Enterprises Ltd, 2000. 254p. Resenha de: MacFARLANE, John W. Canadian Social Studies, v.36, n.2, 2002.

Much has been written on Canada’s francophone societies. Robert Stebbins, Professor in the Department of Sociology at the University of Calgary, draws on this literature and his own personal experiences to present an interesting account of the present situation. According to the cover, the book aims to work the expansive multidisciplinary literature into a coherent statement using a variety of social science concepts: society, community, social world, linguistic lifestyle, ethnolinguistic vitality, and institutional completeness.

Stebbins divides the work into four parts, beginning with an overview of these communities, present and past. In 1996 Canada’s 6,789,679 mother tongue francophones accounted for 23.7% of the Canadian population, with 1,002,295 of them living outside Quebec (p. 25). While he acknowledges the proportional decline of francophones everywhere in the country except Quebec, Stebbins notes with optimism that the absolute number is rising and that the proportion of Canadians outside Quebec who know French has been slowly rising (8.7 to 10.7 percent from 1961 to 1996) due to the growth of bilingualism among anglophones (pp. 29, 31, 37). He also refers to the improved legal protection provided by constitutional measures that allow better control over education for francophones outside Quebec. Of course there are challenges and some communities are more vulnerable than others.

The second part of the book is devoted to regions where the French language is most firmly established, the ‘majority societies’ (Quebec and Acadia). The third part looks at the ‘minority societies’ (Newfoundland and Ontario, and the West). The unique features of each community are presented: geography, politics, economics, education, language and culture. Some concepts used to presents the development of each region and the relative strength of the francophone societies include Raymond Breton’s institutional completeness (referring to a level of socio-cultural organization permitting the average person to sustain a full-scale linguistic lifestyle) and parity societies which include sufficient numbers of second-language members (approximately one-third) to ensure that both languages are recognized in public areas of community life (pp.19-22). Some of the contemporary issues discussed in these chapters include the role of exogamous marriages, birth rates and immigration, leisure activities and economic independence.

Finally, part four looks at the future of these Canadian communities. Stebbins argues that globalizing trends (the internationalization of francophone identity and economic ties, as well as the increasing involvement with international francophone culture, immigrants and refugees) bode well for the development of francophone societies particularly in urban areas (p. 197). He defends his optimism, pointing out that the pessimistic predictions for the survival of francophone communities have overlooked the importance of social organization (volunteer activities, community structure, education, visibility of French) and that the general failure to acknowledge the importance of leisure in the daily lives and personal growth of parity and minority francophones and in the development of their communities stands as one of the most glaring deficiencies in the interdisciplinary field of North American francophone studies (p. 220).

Students of sociology would certainly be most interested by Stebbin’s book: economic considerations receive little attention and several political interpretations are questionable (for example, that the Parti Qubcois’ sovereignty association has been embraced with equal enthusiasm by the provincial Liberals p. 84). Two important points, however, could have received more attention, beginning with the concept of identity. As noted in the foreward by Simon Langlois (Professor of Sociology at Laval University), by questioning the relevance of ethnicity, Stebbins is clear about how francophones should not be defined but less clear about what, other than language, will unite francophone communities in the future. Also deserving closer attention is the relationship between Quebec and the other communities. Stebbins refers to a new sense of responsibility in the ‘majority society’ for the linguistic and cultural welfare of francophones outside Quebec as concretely expressed in, for example, the Parc de l’Amrique franaise (pp. 93, 215). As the flags of francophone communities that flew in the Parc have all been replaced by flags of Quebec, the example is unfortunate or perhaps appropriate but deserves closer study. Nevertheless, Stebbins has provided a good summary of life in Canadian francophone societies. There is a useful bibliography of the secondary sources and several helpful maps and charts.

John W. MacFarlane – Directorate of History and Heritage. National Defense Headquarters. Ottawa, Ontario.

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Star-Spangled Canadians: Canadians Living the American Dream – SIMPSON (CSS)

SIMPSON, Jeffrey. Star-Spangled Canadians: Canadians Living the American Dream. Toronto: Harper Collins Ltd., 2000. 391p. Resenha de: NEIDHARDT, W. S. Canadian Social Studies, v.36, n.2, 2002.

Jeffrey Simpson is, of course, not only a widely read and highly regarded political columnist for The Globe and Mail, but also the author of several bestsellers about the Canadian political scene. In his most recent book, entitled Star-Spangled Canadians, he focuses on the experiences of that not insignificant group of Canadians who have left their Canadian homeland in order to pursue their dream in the United States.

Star-Spangled Canadians offers the reader almost 400 pages of text, endnotes, bibliography and index; unfortunately, there are no photos or illustrations. However, between a solid introduction and a thought-provoking conclusion, there are eleven informative chapters filled with lots of interesting information and much careful analysis. In Chapters 1 and 2 respectively entitled History and Differences the author provides his readers with a good historical background to his topic before turning to specific chapters dealing with: Race/Ethnicity; Crime; French Canadians; Brain Drain; Health; Academics; Entrepreneurship/Business; New York; and Entertainment/Journalism.

For anyone who is interested in this particular aspect of the Canadian-American relationship, Simpson has produced a most readable and solidly researched book. In fact, he interviewed nearly 250 expatriates as part of his extensive research. While some of his information is old, much more is new and this makes for some very worth-while reading. Simpson offers what are, perhaps, some rather unexpected conclusions, such as: that the United States is now more of a multi-cultural society while Canada has become more of a melting pot (pp. 89-91); that the image of America as a more violent society than Canada is only partially correct (p. 95); that the exodus of so many Canadians to the United States is more the result of greater opportunities in America than high taxes in Canada (pp. 156 – 157, 169-170, 246 -247); that the Canadian and American medical systems will look somewhat more alike a decade from now and Canadians and Americans will become even more alike too (p. 215); and, that the brain drain is not quite the one way street that many Canadians are led to believe, although there is little doubt that some of the best and the brightest Canadians have left in the past and are still leaving today (pp. 218, 239, 356). In Chapter 9, Simpson offers a detailed explanation of why the American business climate remains such a powerful magnet for many Canadians; and, in Chapter 11, he provides ample evidence that the big leagues in the worlds of entertainment and journalism still remain south of the border.

In Star-Spangled Canadians, Jeffrey Simpson has given us an excellent account of why and how so many Canadians have sought to pursue their dreams within the borders of the American republic; in fact, he estimates that at the end of the 20th century there were at least 660,000 former Canadians living in the United States (p. 7). However, the author also informs his readers that many of these Star-Spangled Canadians have, indeed, returned home over the years. Furthermore, he also tells us that while these expatriates ABC ‘s news-anchor Peter Jennings being one of the best known have made their homes and pursued their careers in the United States, many of them have actually remained Canadian citizens.

In his thoughtful conclusion, Simpson wanders a bit off his main topic and he spends considerable time speculating about Canada’s future relationship with her powerful continental neighbour. His suggestion that the United States will always be the most dominant country for Canada (p. 363) is, of course, hardly news. However, he does offer a keen insight when he shrewdly observes that whatever Canadians may think of their American neighbours, they have never been more like them. And not because Americans have changed to become more like Canadians, but the other way around (p. 343). Near the end of his book, Simpson (who incidentally was born in New York City and came as a nine-year old to Montreal with his parents) suggests to his readers that living beside the United States is both a challenge and an opportunity a challenge to preserve Canadians’ margin of distinctiveness, an opportunity to examine what the Americans are doing and adapt the successful aspects of American society for Canadian purposes (p. 362). This seems to me quite an accurate observation about what the future may be like. I also hope that Simpson will be proven a real visionary when he suggests that there is no reason why Canada cannot succeed. (p. 362).

Star-Spangled Canadians is obviously not a textbook. However, teachers and students alike can benefit greatly by reading this virtual gold mine of information about a hitherto much-neglected area of the Canadian-American relationship. This is the kind of book that deserves to be widely read and hopefully a copy will find its way into most school and public libraries and most certainly onto the shelves of every history department.

W. S. Neidhardt – Northview Heights S.S. Toronto, Ontario.

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Skills Mania: Snake Oil in Our Schools? – DAVIS (CSS)

DAVIS Bob. Skills Mania: Snake Oil in Our Schools? Toronto: Between The Lines, 2000. 224p. Resenha de: SENGER, Elizabeth. Canadian Social Studies, v.36, n.2, 2002.

Bob Davis takes a critical look at the state of education. He contends that there is currently a dangerous trend in which teachers are encouraged to emphasize the attainment and development of skills at the cost of all other aspects of education. The main theme of this book is perhaps best summed up in Davis’ own words: these skills should be anchored incontent, conviction, allegiances, real human beings and, in general, a commitment to helping students understand history, learn about the world and consider ways to make it a better place to live (.p 9). He does not contend that skills are unnecessary, only that when we emphasize one aspect of education at the expense of all others we are not doing justice to our students, ourselves or our world.

Skills Mania is clearly a book for the professional development library. It is intended for teachers of all grade levels and subjects. Davis addresses what he sees as the problems of skills mania, and makes some concrete suggestions for dealing with these issues. He provides specific examples from his own extensive teaching experiences to demonstrate his convictions. These are difficult issues and Davis tackles them with passion and insight, with idealism but also realism. While some of the things he suggests make perfect sense, some of them require a total commitment of body and soul which I personally do not believe is realistic. On the other hand, the idealism he provides is necessary in order to clarify some very important goals that educators need to work toward.

Throughout the book Davis emphasizes the need for a balance of methods and styles. He makes it clear that there is no one best way, and that we need to use the best aspects of established educational practices, new theories and ideas, and constantly refine them. He also takes a somewhat controversial (but in my mind courageous and important) position when he states that it is necessary to help instil an understanding of good and bad, positive and negative in our students. One of his main criticisms of skills mania is that it encourages students to see through all eyes, but establish a commitment to nothing. This implies that there is no right and wrong, and that anything goes as long as it suits your fancy. In these times of political correctness taken to the Nth degree, Davis is certainly justified in criticizing such attitudes.

Davis also encourages the valuing of personal experiences, and integrating these experiences into our teaching and learning. Further, he understands and advocates the interconnectedness of all subjects. We do not teach students in isolation from the rest of the world or their prior knowledge; nor can we realistically believe that we teach subjects in isolation from each other. Ultimately, Davis says we need to help our kids function in the educational system which currently exists, and at the same time work for meaningful changes to the way we educate the citizens of the future. As with any good piece of literature, this book needs to be read with a critical eye and with an open mind.

Elizabeth Senger – Henry Wise Wood High School. Calgary Alberta.

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Wise Women – Reflections of Teachers of Midlife – FREEMAN; SCHMIDT (CSS)

FREEMAN, Phyllis R.; SCHMIDT, Jan Zlotnik (eds). Wise Women – Reflections of Teachers of Midlife. New York: Routledge, 2000. 274p. Resenha de: SENGER, Elizbeth. Canadian Social Studies, v.36, n.2, 2002.

This book is a collection of reflective essays by long term post-secondary instructors, all female, who have now reached midlife. They offer an insightful variety of perspectives some positive, some rather bitter on the challenges and rewards of teaching careers. For the most part, these educators speak in clear language, full of emotion and heartfelt sentiment, about how the educational process has changed them both professionally and personally. One theme which remains constant throughout is that these women freely chose the education profession and clearly understand the importance of this lifelong work.

Wise Women will appeal to anyone, male or female, who has an interest in the educational experience from the instructor’s perspective and should be in any educator’s professional development library. Although some of the reflections are personal, they all evaluate the personal and professional lives of the writers’, sharing what they have learned to do and not do; sharing the greatest rewards and greatest heartbreaks of their careers, and in some cases, of their personal lives. After reading this book the reader will take away a very clear message about education: that teaching and learning, for all of the parties involved, is an ongoing process in which understandings of strategies, techniques, students and selves is continuously evolving and that it is not a process confined to classrooms or hallowed halls. The impact of educational experiences overflows into all aspects of the lives of those involved.

An interesting element of Wise Women is that very few of the contributors focused on the curriculum they teach, but rather discussed at length the process, the gaining of patience, the deepening understanding of themselves and their students. This truly is a book about living, learning and growing as human beings which the profession of teaching and learning encompasses in a most meaningful way.

The editors asked the writers to reflect upon their teaching careers. This is a valuable, perhaps even necessary process for educators to go through. Each year I teach, I find myself continually evaluating the students in my class (each group may be totally different, as some of the writers pointed out) and how I need to adapt my classroom environment and techniques to help them learn. Given the plethora of new ideas and techniques with which educators are bombarded, it is essential to continually examine what we do, how and why we do it, and to be open to the possibilities of adapting and/or adopting new methods, techniques and strategies, as well as retaining the good processes we have already developed. Personal reflection can certainly be a rewarding, and at times, painful experience and it speaks to the courage of these women that they rose to the challenge set before them. It is clear from their reminiscences that these educators went through many phases of growth in their long and distinguished careers. There is some bitterness and resentment in these contributions, as women still, in the twentieth (now twenty first) century, experience the small mindedness of discrimination on campuses across North America. Clearly, as progressive as the field of education may be, we still have a great deal of work to do in opening peoples’ minds to the value of integrating the talents and abilities of fully half the population. This is one of the important actions we, as educators, need to take and reading this book makes that even more clear.

I believe the significance of this book in focusing on midlife teachers is, in part, to provide assistance for those of us who come after these women; to continue learning how to cope with the vast and varied challenges that education presents. The contributors managed to deal effectively with internal and external changes, but often the struggle has taken its toll. In other cases, some of the writers make the point that while the world around them, and their external appearances may have changed, their inside selves have remained dynamic, young, energetic, and enthusiastic things which all teachers need to do their jobs with joy and love, and I believe, to be truly effective. Teaching at any level is not for the faint of heart!

Teaching and learning is as much about learning how to cope with constant change as it is presenting an established curriculum. While very few of these women focused on, or even mentioned, what curriculum they teach, they all had a great deal to say about the physical and psychological environments in which they work. Human interactions; increasing understanding of self and others; adapting teaching techniques to changing students and changing times; learning to balance personal and professional needs; these are the things which this book deals with so effectively, and it is an essential read for anyone who is, has been, or desires to become that much maligned, but very essential professional a teacher.

Elizabeth Senger – Henry Wise Wood High School. Calgary Alberta.

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Line Dancing: An Atlas of Geography Curriculum and Poetic Possibilities – HURREN (CSS)

HURREN, Wanda. Line Dancing: An Atlas of Geography Curriculum and Poetic Possibilities. New York: Peter Lang, 2000.152p. Resenha de: DARLING, Linda Farr. Canadian Social Studies, v.36, n.1, 2002.

When Professor of Geography Derek Gregory began work on his landmark book on geography as discipline and more importantly, discourse, he tentatively called it, The Geographic Imagination. By the time he finished mapping human geography into contemporary social theory, he had changed the title to Geographic Imaginations, an explicit reference to the diversity of perspectives, positions, and subjectivities embodied in any study of human understandings of place, space, landscape, and self. Leia Mais

Spaces of Hope – HARVEY

HARVEY, David. Spaces of Hope. Berkeley, CA: University of California Press, 2000. 293p. Resenha de: DARLING, Linda Farr. Canadian Social Studies, v.36, n.1, 2002.

Spaces of Hope is by no means the first book in which Geography Professor David Harvey has thoughtfully and dynamically discussed the themes of economic equality, social justice, and urban experience. (Beginning with Social Justice and the City in 1973 through to Justice, Nature and the Geography of Difference in 1996, these have been powerful themes in Harvey’s many books). Nor is it the first time he has brought Marx to the foreground of his analysis of the human condition. As Harvey explains in the first chapter of Spaces of Hope, he has been teaching Capital for thirty years, and Marxist theory may well have more relevance now, in the Age of Globalization, than it ever did, despite its present unpopularity. Spaces of Hope is not simply about revisiting places Harvey has gone before; it is an invitation for all of us to participate in the architecture of a wholly new way of life. To do this we need more than understanding of where we are now with regard to political, social, and economic failures that define our cities and towns, and in fact, our entire earthly environment. We need social vision and political will.

The first five chapters provide a stunning explanatory backdrop of the human condition, the units of analysis being as micro as the individual self and as macro as the globe. Harvey’s range is wide; from the application of Marxist theory to problems of postmodernity, to a conceptual analysis of globalization, to a discussion of the dilemmas we have faced since articulating universal human rights in 1946. In the sixth and seventh chapters (Part Two) he turns to the recent resurrection of ancient interest in the body as the irreducible locus for the determination of all values, meanings and significations (p. 97). Yet even crossing such a range, Harvey rarely leaves the reader breathless; his pace is measured and his approach to the journey is companionable and largely conversational. I did find several points of disagreement along the way. For example, I question Harvey’s willingness to view as much as he does through the Marxist lens; there are important reasons many academics stopped enthusiastically embracing this perspective, reasons into which Harvey does not delve.

The eighth chapter begins the section of the book Harvey calls, The Utopian Moment. Baltimore, an awful mess (p. 133) of a city, is the case study that brings into sharp relief the analyses he walks us through in Parts One and Two. Accompanied by a few well-chosen photographs, Harvey’s descriptions of Baltimore are both arresting and insightful. (They provide, in fact, a useful template for teaching about case studies of place.) By the time he opens our eyes to the array of utopian visions that have been created through history, we are well-aware of the great (unbridgeable?) divide between ideals of public space and the crumbling, gritty realism of urban life. Yet Harvey does not abandon us in the decay and the ruins, or even in the soulless suburbs of Baltimore that are eating into the countryside. Part Four is all about possible versions of the future and even, though it’s wrapped in a cautionary tale of risk and uncertainty, hope for change. Once again he leads us back to Marx:

What Marx called the ‘real movement’ that will abolish the ‘existing state of things’ is always there for the making and for the taking. That is what gaining the courage of our minds is all about (p. 255).

The courage of our minds is found in collective deliberation, participation in the construction of spaces of hope using (among other resources) every dialogical tool we have at our disposal. Harvey does not provide a blueprint, but an invitation to participate in the construction. What makes his invitation persuasive is that he has brought us to a place where alternatives to this work seem decidedly bleak. And the appendix (which can be read on its own as allegory) will spark many a conversation about just what spaces might be created, hopeful or otherwise.

Linda Farr Darling – University of British Columbia.

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In the Global Classroom 1 – PIKE; SELBY (CSS)

PIKE, Graham; SELBY, David. In the Global Classroom 1. Toronto: Pippin Publishing,1999. 256p. In the Global Classroom 2. Toronto: Pippin Publishing, 2000. 260p. Resenha de: BOYD, Kenneth. Canadian Social Studies, v.36, n.1, 2002.

This two-volume set originated at the Ontario Green School Project where educational planners noticed there was a widening gap between the school experiences of the students and global reality. They decided to create a resource that would help students to increase their understanding of local and global issues through collaborative and participatory learning processes. In the Global Classroom 1 and 2 are designed to help teachers approach several areas of concern including accountability, which tends to focus attention on statutory requirements rather than on human potential, and the concept of worldmindedness which stresses that the interest of individual nations must be viewed within the context of the overall needs of the planet. At the same time, Pike and Selby stress the idea that children learn best when encouraged to explore and discover for themselves. It is recognized that students cannot be programmed. At the personal level the books focus on the interconnectedness of an individual’s mental, physical and spiritual make-up. Students have to understand how personal well-being is entwined with the economic and political decision-making of governments around the world. The authors hope that by using these books students will come to see how global environmental trends are influenced by human behavior and changes in local ecosystems.

Individual students should be helped to understand that their perspective on any issue is but one among many; that there are a variety of cultural, social and ideological points. As educators, we have to provide students with such opportunities across the curriculum. These books look at areas or topics dealing with relevant global education knowledge, skills, and attitudes. There are countless possibilities for integrating these into the traditional subjects of the curriculum. Integration is important to understanding the world as a system and exploring its relationships. In the Global Classroom 1 and 2 give teachers and students many helpful suggestions for activities in which the students can engage. Student development goes hand-in-hand with planetary awareness. Global education is critical to the development of students who can prosper in the complex global system and who can contribute to building a more just and sustainable world.

Students’ learning should be self-motivated and directed, focussing on the needs of the students. By using these books students will experience a blend of teacher-led and self- or group-directed strategies. The suggested activities are organized by theme in order to facilitate their use across the curriculum and to promote an interdisciplinary approach in the classroom. Key activity concepts are explained at the beginning of each chapter. A matrix of concepts and activities follows each introduction. Connections to the other chapters are given underneath the matrix. Activities that explore similar or related concepts, though perhaps from different perspectives, are highlighted. Pike and Selby suggest that by exploring such connections in a sequence of activities students can better appreciate the interconnected nature of global issues.

The suggested time frame serves as a rough guide to the length of time necessary for students to understand the activity. Most of the activities are designed to fit within a 40 minute lesson. Materials and other necessary requirements for the activities, such as classroom layout or space, are also included. The resource lists assume an average class size of 30 students, though most activities will work successfully with groups ranging from 15 45. Student worksheets and other photocopy material often appear after the activity descriptions.

Pike and Selby provide step-by-step descriptions, written from the student perspective, of how the activities proceed. They offer a rationale for each activity, often provide further guidelines for teachers to maximize student learning, and frequently include questions for debriefing the activities. The questions serve to gear the students’ thinking toward issues and perspectives that may not have been considered or articulated. An extension section suggests ideas for specific follow-up work, either in class or outside school.

These global education activities are designed to be flexible learning tools that can be used in either infusion or integration modes of implementation. Their inherent flexibility offers countless possibilities for modification and adaptation, thereby meeting the particular needs of curricula, students and teachers. In the Global Classroom 1 deals with such concepts as Environment and Sustainability, Health, Perceptions, Perspectives and Cross Cultural Encounters, Technology and Futures. In the Global Classroom 2 deals with the concepts of Peace, Disarmament, Deterrence, Rights and Responsibilities, Equity, Economics, Development and Global Justice, Citizenship, and Mass Media. I found many activities that I would certainly use in my classroom. I would have to decide on whether others are as appropriate for student use.

Kenneth Boyd – Rosetown Central High School. Rosetown, Saskatchewan.

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Children in English-Canadian Society: Reframing the Twentieth-Century Consensus – SUTHERLAND (CSS)

SUTHERLAND, Neil. Children in English-Canadian Society: Reframing the Twentieth-Century Consensus. Waterloo: Wilfred Laurier University Press, 2000. 355p. Resenha de: MANDZUK, David. Canadian Social Studies, v.36, n.1, 2002.

Neil Sutherland’s Children in English-Canadian Society, originally published in 1976 and now reissued, is a book that every teacher and parent in English-speaking Canada should read for a number of reasons. First, it traces how peoples’ attitudes towards children have changed dramatically over the last one hundred years. Second, it provides a very detailed account of reform efforts that have affected families, schools, and health and welfare agencies. Third, it reminds us of the people who had the most significant influence on these reform efforts, both at the international and the national levels.

In the early chapters, Sutherland describes how peoples’ attitudes towards children have changed over time. For instance, he describes how, in the 1870s, children were seen as sources of wealth for their families who often needed children to contribute to family economies; in short, children were valued for the work they could do, not for who they were as individuals. In Sutherland’s words, English Canadians of the time saw a child as a partially formed and potential adult [they] would have been baffled by the 20th century concerns for the emotional life of their own and of immigrant children (p.11). Soon, people become more concerned about the conditions of children working in factories, fearing that they were placed in unsafe and unhealthy conditions and did not have opportunities to become properly educated. Sutherland explains that, by the 1890s, parents came to see a child as a seed of divine life for them to nurture and tend (p.17). Therefore, in a matter of decades, children come to be valued for their own worth; moreover, parents become much more aware of the effect of the home environment on their children’s overall growth and development.

Another strength of Sutherland’s book is how he so meticulously details the types of reform efforts that shaped English-Canadians’ attitudes towards children. Some of these reform efforts such as reducing infant mortality, dealing with juvenile delinquency, and advocating for educational reform had a tremendous impact on how Canadian society was shaped for future generations. In particular, we learn about such significant changes as inoculating children at an earlier age, moving delinquent children from institutions to homes, and debating whether schooling was to become more child-centered or more practical in order to properly prepare children for the world of work.

A third and final strength of the book is that is familiarizes the reader with people who led many of these reform efforts and who ultimately had a significant impact on how English-Canadians treated their young. We learn of such international figures as Pestalozzi and his emphasis on activity-based, sensory learning that began to shape education in the elementary grades and Frederich Froebel who was among the first to recognize the importance of a child’s environment in his/her mental, moral, and physical development. We also learn of such Canadian figures as Adelaide Hoodless who argued that, in order to change social conditions, Canadian schools needed to become agents that would shape Canadian homes for future generations and James W. Robertson who reminded Canadians that the whole child goes to school body, mind, and spirit and the training of the hand, head, and heart should go on harmoniously (p. 181).

All in all, Children in English-Canadian Society is a tremendously comprehensive account of the forces and the people who influenced how Canadians viewed and treated their youngest citizens at a time in history when both the nation and the world were changing dramatically.

David Mandzuk – University of Manitoba.

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The Gaullist Attack on Canada, 1967-1997 – BOSCHER (CSS)

BOSHER, J. F. The Gaullist Attack on Canada, 1967-1997. Montreal & Kingston: McGill-Queen’s University Press, 2000. 331p. Resenha de: LeVOS, Ernest. Canadian Social Studies, v.36, n.1, 2002.

In this well-researched book, one learns about Charles de Gaulle and the Gaullist aggression on Quebec between 1967 and 1977. Many Quebecois were aware of de Gaulle’s French imperial connections, but separatists in Quebec, encouraged by his famous Vive la Quebec libre! speech in July 1967, ignored the fact that de Gaulle interpreted history to serve his own political ambitions. There is little literature supporting the idea that de Gaulle was an inspiration to the Quebec separatists, and this book underscores that paucity. With cogent arguments, Bosher fills a large gap in the history of Quebec separatism.

In the 1960s, during the Cold War and the period of decolonization, de Gaulle identified with the liberal and national aspirations of the Quiet Revolution in Quebec (p.14). France and Quebec initially cooperated to establish agencies to achieve social, economic and political reform, but de Gaulle had an ulterior motive to include Quebec within the French realm. He believed that France would conduct cultural and clandestine activities, through the efforts of the French Quebec mafia (that included civil servants, diplomats, government officials, parliamentarians and associates of de Gaulle), to promote an independent French-speaking republic in North America (p.29). The Acadians in New Brunswick were also part of de Gaulle’s liberation schemes. France (and the Gaullists) offered the Acadians cultural gifts and scholarships that were obviously tinged with emotional and political motives.

Eventually, the Canadian government began to watch the French Quebec mafia that supported the separatist movement and the Parti Quebecois. While the RCMP carried out surveillance on separatists, it was the FLQ Crisis in October 1970 which alerted Canadian government officials that the Gaullist activities in Quebec were more than a part of the normal intellectual process in the world of la francophonie (p.142).

Part three of the book, focusing on imperialistic dreams, offers additional and succinct insights into the mind of Charles de Gaulle. His was to be a cultural and an economic empire based on language, history, and misty feelings of cultural affinity (p.180). In chapters 14 and 15, Bosher also critically explores de Gaulle’s (and Gaullist) thinking (p.216). de Gaulle reinvented the past and three points are evident. First, de Gaulle was a revisionist. Where Allied sacrifices are concerned, he ignored Canada’s contributions at Vimy Ridge and Dieppe. Second, by an act of faith (p. 221), the French were called upon to believe in their leader and his imperial dreams. He had a sense of history that many French never ceased to admire. Third, his views of history were propagandistic and he had no qualms about distorting past events to promote present political objectives. de Gaulle’s was a home-brewed version of Quebec history (p. 230). It was clear that he interpreted history to suit his own goals and schemes.

The Guallist Attack on Canada, 1967-1997 was written for a specialized audience. In addition to individuals interested in politics and foreign policy, senior university students and students of Quebec history will find the book a useful resource. Students in introductory Canadian history and political science courses will appreciate reading about the Gaullist support for the FLQ. While the appendix with the chronology of events is useful some may find the list of names confusing. That aside, readers will find the lessons Bosher draws, thirty years after de Gaulle’s 1967 speech, enlightening.

Ernest LeVos – Grant MacEwan College. Edmonton, Alberta.

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Understanding the Teacher Union Contract: A Citizen’s Handbook – LIEBERMAN (CSS)

LIEBERMAN, Myron. Understanding the Teacher Union Contract: A Citizen’s Handbook. New Brunswick, NJ: Transaction Publishers and Social Philosophy and Policy Center, 2000. 220p. Resenha de: BRILEY, Ron. Canadian Social Studies, v.36, n.1, 2002.

In Understanding the Teacher Union Contract, Myron Lieberman, chair of the Education Policy Institute and senior research scholar of the Social Philosophy Center, continues the argument made in previous studies such as The Teachers Unions (1997) and Teachers Evaluating Teachers (1998). While often assuming the voice of objectivity, Lieberman is hardly a disinterested observer, for the Social Philosophy and Policy Centre supports privatization, vouchers, competition and the market system as the solutions for the problems of America’s public schools.

Lieberman argues that collective bargaining is by definition an adversarial process between unions and management. According to Lieberman, in public education management is the school board, the party that is theoretically and legally responsible to the electorate for representing the public interest (p. xiii). Thus, advocacy between labour and management in the public sector is very different from espousing such a position in the private sector. Lieberman concludes that in taking a pro-management position he is really advocating a stance in favour of the public interest for Lieberman asserts that teacher unionization is the principle factor blocking educational reforms. Accordingly, this handbook is intended for use by school board members, school administrators, state legislators, parents and taxpayers. Much of the volume is technical, addressing such issues as grievance procedures, release time for bargaining, union access to district buildings, payroll deduction for union dues, union recognition, and no-strike clauses.

Perceiving the public interest as being represented by school management, Lieberman holds little promise for such teacher union initiatives as peer review and the National Board for Professional Teaching Standards. He insists these proposed reforms are dominated by the National Education Association and American Federation of Teachers, who want standards that most teachers can meet rather than extolling excellence. Like diplomats who insist that they are opposed to another nation’s government but not the people, Lieberman denounces union representation for teachers but is sympathetic to individual educators suffering under the yoke of union domination. In fact, Lieberman seems to have little use for teachers. He seems to assume that teachers are seeking the lowest common denominator and are motivated solely by self-interest. Missing from Lieberman’s analysis is any consideration of the long arduous hours put in by teachers after the classroom day as well as their commitment to improving the quality of life for young people.

Any indication that Lieberman is opposed simply to teacher unions and unionization in the public sector is dispelled by the handbook’s conclusion. Lieberman observes that unionization in the private sector has been declining steadily in the United States since 1953. Lieberman asserts that The fact that unionization tends to depress profits and weaken the value of stock in unionized companies is another factor in the decline of private sector unions; more and more employees recognize that their individual welfare is partly dependent on company welfare, and that company welfare is threatened by unionization (p. 192). However, Lieberman fails to acknowledge that the decline of unions has contributed to the growing gap between rich and poor in the United States.

Lieberman laments that unions continue to flourish in public education because individual teachers lack the resources to compete against powerful union monopolies in decertification campaigns. Yet he also believes that the power of the teacher unions is on the wane. Clearly Lieberman trusts that his handbook will contribute to this outcome. Nevertheless, the ideological market approach championed by Lieberman and his associates fails to acknowledge the it is smaller classrooms, decentralization, and increased teacher compensation and empowerment which would really change the face of American education.

Ron Briley – Sandia Preparatory School. Albuquerque, New Mexico.

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Standing Outside on the Inside: Black Adolescents and the Construction of Academic Identity – WELCH; HODGES (CSS)

WELCH, Olga M.; HODGES, Carolyn R. Standing Outside on the Inside: Black Adolescents and the Construction of Academic Identity. Albany: State University of New York Press, 1997. 144p. Resenha de: BECKETT, Gulbahar. Canadian Social Studies, v.37, n.1, 2002.

Standing Outside on the Inside is a report of a six-year longitudinal study conducted by Welch and Hodges. The book was introduced to me by a friend who thought it may be a good introduction to African American adolescent education as I was starting a new position in the United States. I read the book with great interest and found it to be informative, critical, and insightful.

Standing Outside on the Inside consists of an introduction and five chapters. The introductory section of the book is a presentation of research problems, the conceptual framework, research questions, and the methods applied to conduct the study as well as an overview of the five chapters. Chapter 1 is a critical discussion of many reforms designed to focus on academic preparation to promote equality of educational opportunity. It challenges the prevailing notion of academic achievement and achievement motivation with regard to African American students. It calls for a re-evaluation of such a notion in light of the school climate and students’ career aspirations. Chapters 2 through 5 report and discuss several case studies. Specifically, Chapter 2 addresses the notion of scholarship as a basis for scholar ethos. According to the authors, scholar ethos refers to an attitude of total commitment to learning, and considers its relationship to the preparation of African American students aspiring to college (p. 14). Chapter 3 presents one of several case studies on scholar ethos. It discusses a phenomenon that the authors call The Lana Turner Syndrome that emerged from their data analyses. Chapter 4 addresses the issue of underachievement through an examination of classroom climate combined with the issue of intellectual inferiority. It focuses on discussions of teacher expectation, classroom management, and instructional delivery. Chapter 5 presents an historical overview of impediments to equal access and their impact on identity construction among African American students and their academic achievement. The chapter also offers insights into and calls for alternative discourse and reconstruction of knowledge on school reform in light of findings about students’ perceptions towards Project EXCEL.

The rationale for conducting these studies was based on the authors’ concern that African American students continue to fall behind their white counterparts in terms of educational achievement after three decades of supplementary social and educational programs (e.g., Irvine, 1990). Using symbolic interactionism and critical theory perspectives, Welch and Hodges mainly wanted to know (1) whether providing an ‘enriched’ learning environment assured that disadvantaged youth would be admitted to and graduated from colleges and universities (p. 1); (2) how some southwestern American students, their parents, and teachers participating in a pre-college enrichment program called Project EXCEL interpreted the meaning, expectations, and motivations related to academic achievement (p. 7); and (3) how disadvantaged students approached academic work and how these approaches related to their definition of scholarship and to themselves as scholars. Data sources for the study included interviews with 11 EXCEL students (9 black females and 2 white females) and their parents, the student’s school records, observations of EXCEL and non-EXCEL classes, school curriculum, writing samples from students, GPA information, and admissions to colleges or vocational schools/careers.

A number of findings emerged from the data analyses. For example, an enriched learning environment for development of academic skills alone did not necessarily account for or ensure admission to or completion of college for African American adolescents. Welch and Hodges suggest that highly developed academic skills plus development of an academic self-concept may ensure success in college entrance and graduation. Second, the approach some of the students and their parents applied towards academic work was that of waiting to be discovered, a phenomenon that the authors call The Lana Turner Syndrome (p. 15). For the authors, this captures the conviction held by these students and their parents that potential alone is a more viable determinant of successful college admission and matriculation than demonstrated academic performance (p. 59). They say this is a syndrome that stifles the drive needed to sustain achievement motivation and thereby hampers development of an academic ethos because it denies the connection between efforts to excel and eventual college admission (p. 15). According to the authors, the absence of academic image in the media and in society contributes to such a syndrome because it sends a message that success in sports and entertainment are more reasonable, attainable, and desirable goals for blacks than academic achievement. Third, there was a correlation between high expectations of teachers and high achievement by the students and increased scholar ethos. That is, students whose teachers expected them to do so excelled in their studies and developed stronger study skills and more commitment to learning.

As stated earlier, this is an extremely informative, critical, and insightful book for developers and evaluators of enrichment programs as well as other educators who are interested in minority education in general and African American adolescent education in particular. However, the conclusions could have been more provocative. For instance, the book ends with a citation from Freire’s (1994) Pedagogy of Hope and the authors’ expectations of learning a great deal from an EXCEL model that they were field-testing. The quotation from Freire (1994) is as follows:

Without a minimum of hope, we cannot so much as start the struggle. But without the struggle, hope, as ontological need, dissipates, loses its bearings, and turns into hopelessness. And hopelessness can become tragic despair. Hence the need for a kind of education of hope . One of the tasks of the progressive educator, through serious, correct political analyses, is to unveil opportunities for hope no matter what the obstacles may be. After all, without hope, there is little we can do (p. 9).

If Irvine (1990) is correct in stating that after three decades of supplementary social and educational programs African American students continue to lag behind their white counterparts in their educational achievement, a pedagogy of hope seems to be inadequate. What African American adolescents need is a pedagogy of action. A pedagogy that encourages them to take action on the bases of the pride built on many glorious achievements and accomplishments of African American people, accomplishments that include the contributions they have made to world civilization in general and American civilization in particular. A pedagogy that acknowledges and takes pride in the fact that African American people have come a long way since the civil rights movement and takes action to show the achievements of not only the African American heroes in the sports and entertainment industry, but other hardworking African American heroes in all walks of life. Such pedagogy should not only acknowledge potentials and inequality, but also empower African American adolescents to take actions by learning from numerous hardworking and accomplished African American scholars, economists, entrepreneurs, and politicians and by building a strong self-esteem and scholar ethos. Only such pedagogy can empower African American adolescents with cultural capital that can be used to fight inequality and improve their own lives and eventually those of the whole African American race. This may be an issue that the authors will discuss in their next book, which I look forward to reading.

References

Freire, P. (1994). Pedagogy of hope: Reliving pedagogy of the oppressed. (R.R. Barr, Trans.). New York: Continuum.

Irvine, J.T. (1990). Black students and school failure: Policies, practices, and
prescriptions
. New York: Greenwood Press.

Gulbahar Beckett – College of Education. University of Cincinnati. Cincinnati, Ohio, USA.

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Social Studies at the Center: Integrating Kids, Content, and Literacy – LINDQUIST; SELWYN (CSS)

LINDQUIST, Tarry ; SELWYN, Douglas. Social Studies at the Center: Integrating Kids, Content, and Literacy. Portsmouth, N.H.: Heinemann, 2000. 256p. Resenha de: BRADLEY, Jon G. Canadian Social Studies, v.37, n.1, 2002.

As my good pal Pooh might have exclaimed in a moment of angst, this book bothers me. At times, I am not sure which eyes I should be using. If I read the volume as a social studies teacher educator, I am bothered by its apparent narrowness and lack of a well articulated and broadly based research grounding. On the other hand, if I read it as an elementary practitioner, I can see the practicality of a system that is based upon tried and true practice. Nonetheless, even in this view, I am bothered by the personal and professional power and strength of the authors and concerned that other elementary teachers may be unable to replicate the design model and, therefore, be unable to achieve the desired success.

What is proposed in Social Studies at the Center is not new. Advocating an integrated curriculum with social studies at the hub of a wheel of learning is not a particularly novel concept. In this day of first language mastery, second (and even third) language acquisition, mathematics and sciences orientations and renewed calls for more physical education programs to accompany the academic stream, elementary educators are hard pressed to focus upon and target the social studies. While the authors’ message may be a sympathetic clarion call for the social studies to command a centrist curriculum place, the hard reality of the contemporary curriculum landscape may dictate other priorities.

Essentially, Lindquist and Selwyn present their own practical planning template which they aptly term the curriculum disk. Clearly modelling Dewey’s notions of self-reflection and reflective practice over time, these two elementary practitioners have developed a specific, personal, and particular learning model that emphasizes the social studies and integrates the other acknowledged disciplines within this centering orientation.

According to the authors, the curriculum disk is a planning wheel whose central purpose is to help teachers design and organize integrated curriculum units with social studies as the key and overarching discipline. There are seven ‘R’ components that make up this planning scheme epitomized by the action verbs read, respond, research, represent, react, reflect and relate. The authors are careful to note that teachers may begin with any one of the planning verbs, may well spend more time on certain ones than others, and at all times are to make the pupils themselves part of the active learning processes that are advocated.

Social Studies at the Center begins with an introductory chapter, light on research but heavy on practice, that attempts to situate the broad discipline defined as social studies at the center of the elementary curriculum. Following chapters detail the curriculum disk organizing model and offer explicit classroom directions on how the curriculum design was carried out with classes. Samples of teacher planning as well as examples of students’ work illustrate the overall planning-learning processes in action. The last two chapters of the book deal with anticipated questions/answers as well as suggested Internet resources for the social studies.

When all is said and done, Social Studies at the Center is a rather weak and narrowly focused volume. Based almost entirely on the practical experiences of a couple of well-intentioned and no doubt effective elementary classroom teachers, the central curriculum wheel planning model that is advocated suggests that teachers make major curriculum planning decisions. While such serious curriculum decisions might well be within the scope of experienced practitioners, they certainly would flounder on the political shoals of local school boards, and furthermore, are not even on the radar screens of beginning teachers.

The volume is too ‘preachy’! There is no fault or problem that cannot be overcome if the advocated curriculum disk model is adopted. Conventional wisdom such as planning is the crux to good social studies teaching (p. 32) too often appears to trivialize the complex and intertwined processes of adult-child-discipline classroom interaction. The overriding tone of the volume seems to suggest that all will be well as long as the curriculum planning disk model is faithfully followed.

While one may applaud the particular professional viewpoints that emerge over time from the classroom environment, this has to be balanced against the possibilities of replication and improvement in a myriad of situations involving many kinds of children interacting with various classroom practitioners. While the general planning model advocated in Social Studies at the Center clearly works for the two authors, its general applicability to a larger professional audience of experienced practitioners and/or to neophyte beginners is questionable.

Jon G. Bradley – Faculty of Education. McGill University. Montreal, Quebec.

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All About Canadian Geographical Regions – McDERMOTT; McKEOWN (CSS)

McDERMOTT, Barb; McKEOWN, Gail. All About Canadian Geographical Regions. Edmonton: Reidmore Books, 1999. 28p. Resenha de: DARLING, Linda Farr. Canadian Social Studies, v.37, n.1, 2002.

I’m always delighted to find engaging and informative nonfiction books for primary students. Children who are just beginning to read independently appreciate (and need) a wide variety of literature to explore. The All About Series was designed to give new readers a nonfiction reference series they can read, and to develop an awareness of what Canada is, and what it means to be Canadian. The first goal is fairly straightforward and not too hard to reach. The second is more complex and demanding, if only because there are so many different senses of what it means to be Canadian. Nevertheless, these seven paperbacks on Canada’s six geographical regions (and one overview on all of Canada) are sensibly organized, full of basic but generally important (and accurate) facts, along with unusually well-reproduced photographs and illustrations.

Each booklet (they range from 29-49 pages) is made to look like a series of postcards. On each page a color photograph or illustration is paired with descriptive text about the region. The booklets include geologic history and natural features, climate, flora and fauna, people and resource-based occupations, and more. Yes, this is a lot to cover, and that’s both the strength and a possible weakness of the set I saw. The sheer breadth and diversity of this country is truly amazing, and at times these small booklets strain at the seams to contain it. There is a detailed glossary and an index at the back of each book to offer helpful pointers, but young readers will still need the guidance of teachers and parents to make sense of the wealth of facts. Taken together, the books make a small encyclopedia on Canada’s regions.

The postcard theme could have been used to even better advantage as a focus for some of the information, which in its present form may simply be overwhelming for some young readers. Perhaps a young traveler could have been created to visit the six regions and write about what she noticed in particular. Or a resident of each region could speak about the place he calls home. Or, the authors could have scaled back their use of specialized vocabulary. Even with the excellent definitions presented at the back, there is quite a bit of new vocabulary in each booklet. This will challenge many, and frustrate some. But these are relatively small worries. In fact, just before reviewing the series, I was browsing in a local children’s bookstore and recognized their distinctive covers on a wall display. Two seven or eight year-old girls were flipping through The Cordillera and exclaiming about places that looked familiar, and a few that just looked awesome. Surely that’s the kind of endorsement the authors are looking for from their audience. Barb McDermott and Gail McKeown have given primary teachers of social studies a rare treat: a visually appealing, nicely produced, and above all, accurate geographical resource for curious learners.

Linda Farr Darling – Faculty of Education. University of British Columbia. Vancouver, B.C.

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Assisting Emigration to Upper Canada: The Petworth Project, 1832-1837 – CAMERON; MAUDE (CSS)

CAMERON, Wendy; MAUDE, Mary McDougall. Assisting Emigration to Upper Canada: The Petworth Project, 1832-1837. Montreal: McGill-Queen’s University Press, 2000. 354p. Resenha de: HOFFMAN, George. Canadian Social Studies, v.37, n.1, 2002.

Historical writing reflects the fact that Canada is a nation of immigrants. Most accounts, however, concern the twentieth century and are not about the English. This book about the Petworth Project is an exception and, although narrow in scope, greatly adds to our understanding of nineteenth century immigration to Canada.

Between 1832 and 1837, eighteen hundred men, women and children travelled from Portsmouth, England to Upper Canada under the auspices of the Petworth Emigration Committee. They came mainly from parishes around Petworth in West Sussex in southeastern England and settled in what is today south-central and western Ontario. This book, filled with personal accounts, tells the story in marvellous detail: its English setting, the voyages across the Atlantic and settlement in Toronto, Hamilton, London and their vicinities.

The Petworth immigrants were primarily poor agricultural labourers and their families who received both private and public assistance to migrate. The Earl of Egremont (who owned much of the land around Petworth), the local parishes, the British government, and colonial officials in Upper Canada were all involved. The central character in the story was Thomas Sockett, rector of Petworth, personal chaplain to Egremont and founder of the Petworth Emigration Committee. He initiated the emigrations, chartered the ships, recruited prospective immigrants and, through correspondence, carefully observed their adjustment to life in Canada. Sockett deserves much of the credit for the success of the Petworth migrations.

The emigrations occurred during the time of the Swing Uprisings in southern England. Threatening letters were circulated by a mythical Captain Swing, and during the winter of 1830-1831 there were a series of local protests involving strikes, arson, machine breaking and mass demonstrations by unemployed agricultural labourers. Those in authority grew increasingly alarmed. Egremont, Sockett, and Sir John Colborne (Lieutenant-Governor of Upper Canada) were Tory paternalists who supported government assisted emigration and settlement for humanitarian reasons because they believed it would solve the problem of rural social unrest by removing the unemployed poor from the local English parishes and giving them a new start in Canada. Thus, it is interesting to see that there was a link between the famous Captain Swing and some pioneers on the frontier of Upper Canada.

During the 1830s, however, a new attitude toward the poor in the countryside was emerging within the British government and, in the aftermath of the Swing disturbances, a new Poor Law was introduced. It was based on free market principles and on the belief that government assistance only perpetuated poverty by encouraging dependency on public relief. It rejected the rationale behind the Petworth emigrations. Soon this new doctrine of laissez-faire liberalism was in place in England and among government officials in Upper Canada. In 1836 Sir Francis Bond Head (who is best remembered for precipitating the uprising led by William Lyon MacKenzie) arrived in Upper Canada and replaced Colborne as Lieutenant-Governor. Bond Head was fresh from his success of efficiently introducing the new Poor Law in England’s Kent county and was opposed, in principle, to government assistance to immigrants on either side of the Atlantic. The new political ideas which were current in England and in Upper Canada help to explain why the Petworth Project did not continue and why there was no large scale government assisted emigration and settlement in the years that followed. Thomas Sockett and those of similar views opposed the poor law reforms but their paternalistic humanitarianism was out of favour in mid-nineteenth century England.

Assisting Emigration to Upper Canada is a significant contribution to the study of nineteenth century Canada and will mainly be read by historians and used in university level studies. However, immigration topics are a part of most high school Canadian Studies courses, and the Petworth Project can be used by teachers to illustrate how immigrants are affected by events in both their country of origin and their new homeland. Too often we fail to emphasize that events in Canada do not occur in isolation from the rest of the world. Wendy Cameron and Mary McDougall Maude make clear that developments in England during the 1830s, particularly those in rural parishes, were directly connected to the lives of the people of Toronto, Hamilton and the Canadian frontier.

I strongly recommend this book to all serious students of nineteenth century Canadian history. It is a remarkable achievement based on an immense amount of research, much of which, due to space limitations, has not been described in this review.

George Hoffman – History Department. University of Regina. Regina, Saskatchewan.

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Eyewitness – THOMPSON (CSS)

THOMPSON, Margaret. Eyewitness. Vancouver: Ronsdale Press, 2000. 190p. Resenha de: MANDZUK, David; MANDZUK, Jayne. Canadian Social Studies, v.37, n.1, 2002.

Eyewitness by Margaret Thompson is a nicely crafted piece of historical fiction that is sure to appeal to young adolescents and adults alike. It tells the tale of Peter Mackenzie, a young boy who grows up without his parents in Fort St. James during the time of the Fur Trade in what is now British Columbia. In the book, Thompson interweaves a variety of interesting characters such as Sir George Simpson, Carrier Chief Kwah and James Douglas, many of whom actually lived during the time.

In our view, the book’s three major strengths are its rich descriptive passages, its ability to capture what life must have been really like for a child at the time, and its ability to capture both the respect and tension that characterized the relationship between Canada’s native people and the Europeans whose arrival changed the natives’ way of life forever. There are many passages throughout the novel that are rich in description and demonstrate Thompson’s love of language. One of these passages is found on page 70 where the protagonist of the story, Peter, describes the sled dogs and the beauty of a cold, winter’s night:

But on those winter nights so clear and cold that it seemed that the air must splinter and shiver into a million, tinkling shards, when the Northern Lights rippled and swelled across the sky, the dogs would waken and howl, filling the night with song, as if they, too, sensed the great silent chords that I could feel shuddering in my head as the lights swirled majestically overhead.

Another strength of the book is Thompson’s ability to recreate what life must have really been like for a child during the time of the Fur Trade. For instance, we learn what it is like to wake up with a skiff of snow at the foot of your bed, what it is like to eat fish for months on end, and the sheer tedium of waiting out the long Canadian winters. The following passage is particularly effective in this last regard:

There was little traffic between posts once the fish had been stored, the wood cut and the year’s returns packed and hauled away. The Fort settled into its dreamy winter state, the grey buildings huddled in the snow on their little eminence above the frozen lake, smoke from the tiny chimneys standing straight up in the still air, the inhabitants concentrating on keeping warm and whiling away the empty hours (p. 119).

A third strength of the book is Thompson’s ability to capture both the respect and tension between the native people and those of the Hudson’s Bay Company. In fact, Peter realizes how his friend’s people have probably been changed forever when he states that, in a sudden, bleak understanding, I realized how complicated life had become for Cadunda’s people, now that we were there, a different clan, with very different ideas, spreading everywhere and more of us coming all the time (p. 179).

Although we would recommend this book for young readers, we do have a few suggestions for the author and for teachers thinking of using this book with their classes. First, we felt that the cover was neither colourful enough nor eye-catching enough to attract the eyes of young readers who often rely on the title page to attract them to a book. Second, we both felt that a glossary would have helped the reader follow the story by explaining terms such as babiche and capot, words quite specific to Canada and the Fur Trade era. Finally, we believe that the novel might be reduced simply to an adventure story if students read the book without any knowledge of the Fur Trade and how it influenced settlement in Canada.

In general, however, we highly recommend this book for young adolescents and their teachers in the middle grades; in fact, it would be a wonderful complement to a Social Studies unit on the Fur Trade. For those middle years teachers who also integrate Social Studies with Language Arts, we believe that this book would be an excellent companion to Joan Clark’s The Hand of Robin Squires. Both books involve the interaction between white and native cultures, both take place in Canada, and both are jam-packed with action which is certainly an advantage in encouraging young adolescents to read!

David Mandzuk – Ph.D. Faculty of Education. University of Manitoba. Winnipeg, Manitoba.
Jayne Mandzuk – Grade 4 Student. Ryerson School. Winnipeg, Manitoba.

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Uma história cultural do humor | Jan Bremmer e Herman Roodenburg

Resenhista

Élio Chaves Flores


Referências desta Resenha

BREMMER, Jan; ROODENBURG, Herman (Orgs). Uma história cultural do humor. Trad. Cynthia Azevedo e Paulo Soares. Rio de Janeiro: Record, 2000. Resenha de: FLORES, Élio Chaves. A História deixou de ser agelasta? SÆCULUM – Revista de História. João Pessoa, n. 8/9, p. 181-189, jan./dez. 2002/2003.

Acesso apenas pelo link original [DR]

Paleoclimatology, reconstructing climates of the quaternary – BRADLEY (C-RMAX)

BRADLEY, Raymond S. Paleoclimatology, reconstructing climates of the quaternary. International Geophysics Séries. Volume 64. Second Edition. Massachusetts: Amberst, 1996. Resenha de: PINTO, Josefa Eliane Santana de Siqueira. A importância da Paleoclimatologia para os estudos arqueológicos. Canindé – Revista do Museu de Arqueologia de Xingó, Xingó, n.1, dez. 2001.

A Paleoclimatologia é o estudo do clima no período anterior as medidas instrumentais. Os registros instrumentais dão uma cobertura apenas de uma pequena fração da história do clima da terra, promovendo uma perspectiva inadequada na evolução do clima atual. Uma longa perspectiva na variabilidade do clima pode ser obtida através do estudo de fenômenos naturais dependentes ou relacionados com o clima, por aproximação.

Na flutuação climática a possibilidade de identificar causas e mecanismos de variações do clima é aumentada. Assim os dados de Paleoclimatologia promovem a base para testes de hipóteses sobre as causas de mudanças do clima. Somente quando as causas da variação passada dos climas forem entendidas será possível prever antecipadamente o clima do futuro.

É nesta perspectiva que a obra Paleoclimatologia, Reconstruindo Climas do Quaternário, de Raymond S. Bradley, em sua segunda edição, se propõe a discutir as inferências da pesquisa paleoclimatológica, em doze capítulos, explorados em 613 páginas, volume 64 da Série Internacional de Geofísica Bradley prefacia sua obra justificando a ampliação da segunda edição, pela explosão de interesses pela matéria e o avanço das pesquisas. É interessante acreditar que no início dos anos oitenta, a datação de carbono era usada com dificuldade e pouco se conhecia sobre a circulação atmosférica do Atlântico Norte. As primeiras medidas do dióxido de carbono e gelo foram formadas e depois não permaneceram mais da mesma forma. Os modelos de circulação geral eram primários e a simulação paleoclimática era rara. Em contrapartida, hoje é um campo de grande pesquisa sobre o sistema da terra e de vital importância para permitir esta possibilidade de mudanças futuras globais. Como resultado, a literatura sobre o assunto tem crescido imensamente e tem se tornado abundante. Isso é muito difícil no topo de todo o tempo no campo de pesquisa.

Nesta edição, o autor promove uma visão geral e contemporânea do campo, mas reconhece que, inevitavelmente haverão tópicos que ele possa não ter revisado adequadamente. Afirma que certamente existem tópicos que não foram debatidos e representados devidamente. Alguns outros tópicos foram omitidos ou tratados de forma superficial, apenas numa introdução, tais são os perigos de tentar cobrir sobre este enorme campo. Contudo, acredita que existem vantagens em ter uma lente através da qual envolva o campo que está sendo visto.

Inicia a Reconstrução Paleoclimática, com uma introdução, informações sobre a origem do Paleoclima; análises sobre os níveis paleoclimáticos; pesquisa de modelos em paleoclimas. O capítulo dois aborda o clima e as variações climáticas e trata da natureza do clima e suas variações, sistema climático, mecanismos de trocas, balanço de energia entre a superfície e atmosfera, variação climática e variações dos parâmetros orbitais da Terra.

Nos capítulos três e quatro, são discutidos os princípios, as aplicações, alguns problemas e erros dos métodos de datação. Em seguida, dedica um capítulo à contribuição das análises da criosfera para a reconstrução da Paleoclimatologia. Informações paleoclimáticas sobre os sedimentos marinhos e corais mereceram um capítulo, incluindo um levantamento a respeito de estudos sobre materiais biológicos nos oceanos, com referências ao Atlântico Norte, Pacífico e Índico. Aborda outrossim as informações sobre os materiais inorgânicos dos oceanos, importantes registros dos climas passados.

Os capítulos sete e oito exploram as evidências geológicas não marinhas, pelos solos, espeleologia, distribuição e formas de vegetação, fósseis.

Estudos dos pólens também foram contemplados com um capítulo, introduzindo as bases de análise e os métodos, reconduzindo à Paleoclimatologia de registros longos de pólens no quaternário na Europa, nas Savanas de Bogotá, na Colômbia, Amazônia, na África Equatorial e na Flórida.

O décimo capítulo introduz os fundamentos da Dendroclimatologia, evoluindo, no capítulo seguinte, para o registro histórico e sua interpretação. Conclui com modelos climáticos, tipos, simulações e experimentos, relações oceano-atmosfera.

Deve-se considerar que o autor, Raymond S. Bradley, ao apresentar discussão de métodos e técnicas propícias para a Paleoclimatologia, tenta desvendar os segredos da previsão eficaz dos climas atuais e futuros, contemplando uma expressiva gama de tópicos, incluindo novas referências que deve inspirar obras similares de interesse específico ao sul dos Equador. Espera-se que os especialistas saibam como trabalhar e também o que fazer com os objetivos gerados pelo livro em mente, sem substitutos originais.

Josefa Eliane Santana de Siqueira Pinto – – 1 Professora do NPGEO/UFS.

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Geologia do quaternário e mudanças ambientais – SUGUIO (C-RMAX)

SUGUIO, Kenitiro. Geologia do quaternário e mudanças ambientais. São Paulo: Editora Paulo’s Comunicações e Artes gráficas, 1999. 366p. Resenha de: FONTES, Aracy Losano. Estudos arqueológicos e do quaternário. Canindé – Revista do Museu Arqueológico de Xingó, Xingó, n.1, dez., 2001.

O desenvolvimento das geociências no Brasil ganhou intensidade maior com a instalação dos cursos de Geologia, a partir do segundo lustro da década de 50. A formação de sucessivas turmas de geólogos propiciou pessoal habilitado para acelerar o conhecimento sobre o território brasileiro e favorecer a expansão da dinâmica Sociedade Brasileira de Geologia (SBG).

Os estudos do Quaternário embora fossem realizados em algumas áreas específicas das geociências, como a geomorfologia e a geotecnia, as primeiras tentativas de integração dessas pesquisas foram iniciadas com o Primeiro Simpósio do Quaternário do Brasil que ocorreu juntamente com o XXV Congresso Brasileiro de Geologia, em 1971 na cidade de São Paulo.

O Professor Doutor kenitiro Suguio é conhecido como autor de vários livros, docente e conferencista de temas ligados às geociências. O compêndio intitulado “Geologia do Quaternário e Mudanças Ambientais” oferece ampla revisão sobre os vários registros do Quaternário – paleoclimático, geológico, geomorfológico, biológico e arqueológico, e apresenta considerações específicas do período em termos de Brasil. Ao tratar do passado e do presente, o Professor se remete a considerações acerca do futuro neste último período do Cenozóico.

A seqüência de treze capítulos trabalhados com a necessária individualidade e a devida interdependência abordam, didaticamente, um Quaternário geológico e antrópico, não descuidando das bases científicas que suportam os fatos ocorridos nesse período da história recente da Terra.

Dando ênfase ao “Período Quaternário”, o autor inicia a obra com noções gerais sobre os seus vários significados a partir do século XVI, subdivisão e duração. Observa-se o cuidado do autor em assinalar as técnicas e os métodos de estudo do Quaternário. A teoria do uniformitarismo, cujo enunciado “O presente é a chave do passado” e a pesquisa integrada são consideradas básicas para estabelecer o elo de ligação entre o passado geologicamente pouco remoto e o presente levando, em situações favoráveis, a tentar estabelecer cenários futuros. Ainda no primeiro capítulo fez um retrospecto histórico dos estudos do Quaternário no Brasil desde a sua descoberta até os dias atuais. Neste item, o enfoque está em apresentar fatos cronológicos ligados ao desenvolvimento dos trabalhos de pesquisadores estrangeiros e nacionais de cunhos multi e interdisciplinar, que constituem uma das características marcantes dos estudos do Quaternário.

“As Grandes Glaciações , os Seus Depósitos e as Suas Causas” constituem o tema do segundo capítulo. Após breve caracterização sobre os processos de formação e os tipos principais de geleiras, com indicação de algumas terminologias mais comumente utilizadas, são sucessivamente analisados a topografia glacial (fiordes, circos glaciais, estrias glaciais), os depósitos sedimentares (till, morenas, drumlins e eskers) e a distribuição das geleiras no presente e no passado atribuídas, principalmente, a expansão e retração das geleiras Escandinava, Cordilheirana, Laurenciana e Alpina. São analisados os efeitos múltiplos das variáveis de Milankovitch nas mudanças paleoclimáticas que deixaram inúmeras evidências sobre a Terra.

Assim, segue-se o capítulo III sobre as “Mudanças Paleoclimáticas Quaternárias e os Seus Registros”. Ao lado das glaciações quaternárias outros fenômenos periglaciais pretéritos foram relatados como permafrost, crioturbação molde de cunha de gelo e solifluxão, assim como evidências de fases pluviais na África e no Oeste dos Estados Unidos . As pesquisas biológicas dos estádios glaciais e interglaciais do Quaternário, onde incluem-se as mudanças florísticas e faunísticas, constituem temas de subitens. O autor finaliza o capítulo demonstrando as evidências utilizadas na reconstituição dos climas passados, que vão desde os registros históricos até às feições geomórficas e discorrendo sobre o clima no Holoceno e as questões relativas ao futuro do Homem e de outras espécies de seres vivos quanto ao clima global.

O capítulo IV “As Mudanças de Nível do Mar no Quaternário e os Seus Registros” explicita as bases conceituais – eutasia, isostasia, movimentos crustais – para analisar as variações de nível do mar desde o Último Máximo Glacial (UMG) no Pleistoceno, passando pela fase tardiglacial e terminando no pós-glacial. Focaliza as regiões do mar das Caraíbas onde foram obtidas numerosas datações situadas no intervalo entre 60.000 e 66.000 anos A.P da série de urânio e o litoral da Península de Huon (Nova Guiné) onde foram também reconstruídas as variações dos paleoníveis do mar durante os últimos 120.000 anos, baseadas nas faciologias de recifes de coral. Finaliza díscutindo os indicadores de níveis do mar pretéritos – geológicos, biológicos e arqueológicos.

Ao tratar da “Geomorfologia e dos Depósitos Quaternários” no capítulo V, a preocupação inicial é conceituar e classificar as superfícies geomorfológicas de acumulação e de erosão, enfatizando os processos fluviais e marinhos na formação dos terraços. Mostra que a classificação morfoestratigráfica é uma metodologia muito importante nos estudos estratigráficos do Quaternário porém adverte que se não for devidamente acompanhada por dados fornecidos pelas camadas – chave e informações geocronológicas, pode-se chegar a um quadro equivocado da evolução geomorfológica da área. Finaliza mostrando a relevância da aloestratigrafia na identificação e classificação dos dépositos quaternários.

O capítulo VI versa sobre a “Neotectônica e a Tectônica Quaternária”, iniciando pela exploração dos conceitos do termo neotectônica. Considerações são apresentadas sobre os cinturões móveis, ou seja, as áreas de rochas geologicamente mais novas onde os movimentos crustais pósterciários são intensos, núcleos continentais, fundos submarinos e cadeias mesoceânicas A seguir são discutidas as peculiaridades dos movimentos crustais quaternários em faixas móveis, as fontes de dados para estudos da neotectônica de natureza geológica, geomorfológica, geodésica e histórica ou arqueológica e os métodos de datação usados em estudos neotectônicos.

O capítulo VII direciona-se para a “Estratigrafia do Quaternário”, iniciando por analisar as técnicas de datação relativa – estudo paleontológico, técnicas geomorfológicas e grau de intemperismo químico – e as de datação absoluta – dendocronologia, varvecronologia e radiocronologia. O autor focaliza, ainda nas correlações estratigráficas, a tefrocronologia, a edafoestratigrafia, a bioestratigrafia baseada em microorganismos e a estratigrafia isotópica. Os problemas dos limites estratigráficos do Quaternário são discutidos no final do capítulo.

A temática relacionada com a “Reconstituição de Cenários do Quaternário” ocupa o capítulo VIII. Iniciando por tratar dos registros de fundos submarinos de águas profundas, o autor prossegue analisando a estratigrafia do loess e as pesquisas ambientais desenvolvidas pelo Projeto CLIMAP (Climate Long Range Investagion Mapping and Prediction), a partir de 1971.

O capítulo IX sobre “Relevo Cárstico e a Geoespeleologia”, transmite ensinamentos básicos como definições, tipos de carstes, condições para formação do relevo cárstico e morfologias características. A inserção deste capítulo encontra-se justificada por chamar a atenção para as mudanças paleoambientais, principalmente as de natureza paleoclimática, durante o Quaternário.

“As Mudanças do Nível Relativo do Mar e Paleoclimáticas Durante o Quaternário Tardio no Brasil e a Neotectônica” são temas dos três capítulos seguintes, em 81 páginas. No capítulo X ganham realce as variações relativas do nível do mar e suas conseqüências na sedimentação costeira, as reconstruções e evidências de paleoníveis marinhos na costa brasileira. Os principais estágios da construção das planícies da costa brasileira encerram o capítulo. As mudanças paleoclimáticas durante o Quaternário tardio no Brasil representa o tema do capítulo XI, abordando os estudos palinológicos, antracológicos e arqueológicos, em diferentes áreas do país. Um exemplo citado por Suguio assinala que os dados obtidos na serra de Carajás (PA) podem ser comparados com as informações obtidas sobre a evolução paleoclimática da África Ocidental, nos últimos 20.000 anos, isto é, entre o Último Máximo Glacial e o início do estágio interglacial atual. A neotectônica na Amazônia, na região sudeste e na costa brasileira constituem temas de subitens sobre a Tectônica Quaternária no Brasil, no capítulo XII.

“As Pesquisas Aplicadas do Quaternário” representam o tema do último capítulo, abordando os conceitos fundamentais da geologia ambiental, encarada como uma disciplina destinada a encontrar soluções para os conflitos resultantes da interação do Homem com o ambiente físico.

Diversos aspectos denunciam o cuidadoso preparo da obra. O texto surge com clareza e a preocupação didática também transparece na estrutura dos capítulos e encadeamento dos temas. Vários quadros são apresentados reunindo e sumariando conceitos, as fontes de referência e a aplicabilidade dos mesmos; gráficos e figuras esclarecem, devidamente, muitas das noções expostas. Nos finais dos capítulos encontram-se referências orientando sobre as contribuições importantes e pertinentes ao assunto versado.

Não só pelo aspecto formal, mas principalmente pela amplitude e riqueza de abordagem, a obra “Geologia do Quaternário e Mudanças Ambientais”, de Kenitiro Suguio surge como de grande importância para os cursos de Geografia, Geologia, Biologia e Arqueologia e a muitos outros interessados nos problemas ambientais do Quaternário.

Aracy Losano Fontes – Professora do NPGEO/UFS.

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Sentido oculto dos ritos mortuários: morrer é morrer? – BAYARD (C-RMAX)

BAYARD, Jean-Pierre. Sentido oculto dos ritos mortuários: morrer é morrer? Tradução: Benôni Lemos. São Paulo: Paulus, 321 págs. Resenha de: CARVALHO, Fernando Lins de. Simbologia dos ritos funerários na Pré-História. Canindé – Revista do Museu Arqueológico de Xingó, Xingó, n.1, dez., 2001.

Há, na racionalidade humana, a maior das angústias: a consciência da finitude. A morte, enquanto rito de passagem implica em uma estrutura de sinalização. O rito, profano em sua aparência, abre-se para o sagrado. Na relação entre o caos (morte) e o equilíbrio (vida), os ritos funerários são possuidores da perturbação da morte mas instauram uma nova ordem. A morte introduz a desorganização no processo da vida diária.

As escavações arqueológicas revelam o culto prestado aos mortos na perspectiva de uma continuidade, de uma outra vida. A posição fetal do corpo, dominante nas culturas pré-históricas, simbolizaria um (re) nascimento, na mãe terra e seu fértil útero.

Nas culturas humanas, desde a neanderthal às contemporâneas, há modelos de ritualização do cadáver: aceleração da decomposição, inumação, defumação, embalsamamento, ingestão canibalesca, cremação e outros. Os ritos funerais estão em correspondência com os quatro elementos: o ar, com o cadáver exposto; a inumação no elemento terra, a mais praticada; a imersão no elemento água e , finalmente, o elemento fogo, com a incineração, praticada já no Neolítico. No fundo, apesar de suas múltiplas formas no tempo e espaço, as condutas apresentam um discurso manifesto: a aceitação de uma forma de sobrevivência.

Trata-se da luta humana para dominar simbolicamente a morte, negando a nossa finitude. Em 1968, Arlette Leroi-Gourhan, examinando o chão da tumba neandertalense de Shanidar, no Iraque, mostrou que o corpo fora posto sobre leito de folhas de pinheiro e coberto de flores.

Jean-Pierre Bayard, importante semiólogo francês, disserta com propriedade sobre o assunto, talvez porque “falar da morte é o meio mais eficaz para superar nossa angústia”. Entendamos, portanto, o rito mortuário como um rito de passagem, configurando-se o esquema integração-separação-integração.

O entendimento da morte como um rito de passagem foi genialmente sintetizado por Marguerite Yourcenar em as Memórias de Adriano: “procuremos entrar na morte com os olhos abertos”.

Torna-se necessário morrer para renascer. Esse o constante diálogo homem-natureza em seu eterno cântico de renovação. Somos apenas um momento da vida eterna.

Para algumas culturas aceita-se a reencarnação, baseada na continuidade da consciência. Contos de inúmeros povos exprimem a crença na imortalidade da alma, que passa por diversas fases antes de voltar à terra: a cosmologia primitiva aceita a doutrina dos mundos superpostos.

A reencarnação é o retorno do princípio espiritual a um novo invólucro carnal.

O enterro sistemático dos corpos humanos remonta, pelo menos, a cem mil anos do presente, na cultura neandertalense. Os corpos eram depositados em posições variadas, com o arranjo das sepulturas modificado de acordo com as ferramentas, vestígios de fogueira e restos de animais. Em alguns sepultamentos os corpos eram salpicados de ocre.

Nos sepultamentos o esqueleto passa sempre a ser acompanhado de mobiliário funerário, característica cultural dos sapiens sapiens. As sepulturas passam também a ser agrupadas.

A prática funerária mais utilizada é a do enterramento primário, em covas pouco profundas (0,5m). Quatro as posições principais dadas aos corpos: alongada, semidobrada, amarrada e em flexão forçada (feto).

Em geral, a posição do esqueleto é orientada na linha leste-oeste, com a cabeça voltada para o sol poente. Trata-se, simbolicamente, do reconhecimento dos ciclos da finitude na natureza: o nascer e o morrer do sol. “O sol morre todas as noites, atravessa o mundo das trevas e ressuscita todas as manhãs”. Luz e trevas passam também a estar associadas à vida e morte. Os mortos devem encontrar o caminho do além, o qual, muitas vezes, é situado no oeste, lugar em que o sol desaparece e parece morrer.

Algumas culturas registram também o sepultamento em dois tempos (enterramentos secundários). Os ossos, perdidas as carnes, são exumados e lavados, sendo submetidos a novos funerais. Para Bayard, o rito cinde toda a relação do defunto com a vida terrestre pois é necessário que a carne deixe os ossos para libertar a alma.

No mobiliário funerário os adornos e suas forças simbólicas faziam-se e ainda se fazem presentes em larga escala, caracterizando classe ou posição social do defunto. É provável que flores, penas, agasalhos de pele e outros tenham acompanhado o corpo mas, restam-nos somente conchas, dentes de animais ou humanos, vértebras de peixes, pérolas, seixos, ossos, marfim como vestígios do mobiliário fúnebre, notadamente das culturas pré-históricas. Esses objetos formavam colares, braceletes, pendentes e anéis. Nos vasos funerários restos de comidas que permitiriam ao defunto empreender sua longa viagem. O fogo, em geral símbolo da vida é bem presente nessas cerimônias. Pela oferenda depositada sobre ou na sepultura estabelece-se um vínculo entre os vivos e os mortos.

Os artefatos líticos, pingentes de conchas e outros foram executados para embelezar a sepultura e nunca usados.

Todas as civilizações, desde os tempos mais remotos afirmam que o homem tem vários corpos invisíveis (almas), os quais, na hora da morte, separam-se do corpo físico e continuam a viver em outro espaço cósmico.

Para o autor, segundo os ritos funerários das diversas religiões, a alma do defunto comporta-se como o faria a de um mortal: procura um lugar privilegiado, atravessa países desconhecidos e empreendem viagem longa e penosa; depois de muitas armadilhas, o defunto chega a outro mundo, cuja organização assemelha-se à do clã do qual ele provém e no qual a vida é muito mais feliz. Em todas as épocas o homem procurou penetrar esse mistério e aprofundar essa tênue faixa imprecisa entre a vida e a morte. Todos os povos, em todos os tempos, dedicaram e dedicam, com o culto dos antepassados uma festa ou data específica anual, a fim de honrarem seus mortos.

Para o ser humano primitivo a morte definitiva não existia e continuava sua vida em outro mundo. A relação dialogada com o universo cósmico e os reinos vegetal e animal comprovam essas transformações constantes: o que nasce, morre e renasce. A imortalidade se identifica com o princípio de todas as coisas, restaurado em seu estado primordial.

Humanos, não somos mais que um instante na eternidade. A vida terrestre é somente uma parcela de nossa vida cósmica.

Bastante inspirador, o livro SENTIDO OCULTO DOS RITOS MORTUÁRIOS: MORRER É MORRER?, numa apresentação elegante e uso de ilustrações, peca em um ponto específico: não verticalizar alguns tópicos que são essenciais e ser repetitivo em outros. No entanto, o que não falta na obra de Bayard é matéria de reflexão e debate. Tais lacunas não comprometem a continuação da obra para os estudos da interface entre a vida e a morte em suas múltiplas linguagens. Há ainda um longo caminho a percorrer.

Fernando Lins de Carvalho – Professor do Departamento de Ciências Sociais.

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Camino al ejercicio profesional. Trabajo y género en Argentina y Chile (siglos XIX y XX) | Graciela Queirolo e María Soledad Zárate Campos

La presente obra editada por las historiadoras Graciela Queirolo, argentina, y María Soledad Zárate, chilena, tal como se señala en su introducción, abarca gran parte de las ponencias presentadas en el seminario “Trabajo, profesionalización y género. América Latina (siglos XIX y XX)”, patrocinado por la Universidad Alberto Hurtado y realizado en el año 2016. Sin embargo, “Camino al ejercicio profesional” pareciera ser, a primera vista, un término que queda corto para resumir todos los elementos que confluyen en este libro. Esta obra no solo hace referencia a lo que se denomina actualmente como ‘profesiones’, sino que también analiza oficios, tales como secretarias, escritoras, intelectuales, comerciantes, por nombrar algunos ejemplos que son trabajados a lo largo del texto.

Y es que el concepto de “ejercicio profesional”, quizás, es resaltado en referencia a uno de los temas centrales del texto, que es la profesionalización o perfeccionamiento de diversos ámbitos de la fuerza laboral durante los procesos de modernización estatal chileno y argentino durante el siglo XX. He aquí lo que las autoras plantean como novedad: si bien la modernización del Estado, tanto el argentino como el chileno, ha sido profusamente estudiado y analizado por la historiografía, el género como categoría de análisis histórico1, no ha sido del todo utilizado ni se le ha otorgado la relevancia que tiene a la hora de historiar este proceso. A partir de esta premisa, las autoras plantean en la hipótesis de esta obra, que la profesionalización del trabajo que se produjo durante el siglo XX condicionó “la integración laboral”2 de las y los actores estudiados, en donde el género tuvo un rol fundamental en este condicionamiento. Leia Mais

O espírito da dádiva | Jacques Godbout

O espírito da dádiva, obra do sociólogo canadense Jacques T. Godbout, veio esquentar ainda mais o caloroso debate acerca de questões vitais às ciências sociais. Ao seguir uma linha lévi-straussiana, em que a dádiva não encontra existência concreta, mas tão-somente efeitos disseminados na sociedade, o autor desenvolve convincentes argumentos sobre problemas modernos relacionados ao egoísmo, ao altruísmo, à violência, ao totalitarismo, à democracia e, sobretudo, às políticas públicas.

Godbout não só segue a trilha deixada por Marcel Mauss em Ensaio sobre a dádiva como também a renova, sugere uma nova interpretação. O ponto de partida de ambos os autores é justamente a premissa antro-pológica de que a vida social necessita e é constituída por mecanismos de troca. Em Mauss, essas trocas ocorrem em sintonia com uma natureza distinta das sociedades modernas, embora reconheça que determinados traços “primitivos” sobrevivam nas atuais sociedades industriais. Em Godbout, a experiência da troca se universaliza. Há, em certo sentido, uma radicalização do argumento central de seu antecessor. Leia Mais

Notas para a história do Rio Grande do Norte – MEDEIROS FILHO (RIHGB)

MEDEIROS FILHO, Olavo. Notas para a história do Rio Grande do Norte. João Pessoa: Unipê, 2001. Resenha de: WEHLING, Arno. Revista do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, Rio de Janeiro, v.162, n.413, p.229-230, out./dez., 2001

Arno Wehling – Sócio titular do IHGB.

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Um sertão chamado Brasil | Nísia Trindade Lima

A chamada história das mentalidades deixou, a despeito do quanto as tendências investigativas vivem num interminável estar e não estar, um roteiro metodológico cuja fertilidade raramente é aproveitada tanto pelos historiadores de ofício quanto pelos profissionais das ciências sociais. As atitudes humanas diante da morte, ou da vida, ou da festa, ou do inesperado, ou do constante e quase permanente compõem um acervo diante do qual o leitor pode observar o quanto as ‘continuidades’ requisitam extraordinárias habilidades analíticas para que se manifestem, nos textos, com a mesma contundência com a qual interferem no quotidiano das pessoas.

Um sertão chamado Brasil, de Nísia Trindade Lima, é um exemplar raro da habilidade analítica em captar a renitência e a força de uma metáfora geográfica na (con)formação de representações sobre a identidade nacional de um país considerado invariavelmente em conflito com o próprio vir-a-ser. Leia Mais

O imperialismo sedutor: a americanização do Brasil na época da Segunda Guerra | Antônio Pedro Tota || Guerra sem guerra: a mobilização e o cotidiano em São Paulo durante a Segunda Guerra Mundial | Roney Cytrynowicz

Os trabalhos de Roney Cytrynowicz e Antônio Pedro Tota têm em comum o fato de analisarem a história brasileira durante a Segunda Guerra Mundial. Entretanto, suas abordagens e enfoques são bastante diversos, refletindo também preocupações temáticas e conceituais e, naturalmente, escolha de fontes e bibliografia.

O livro de Antônio Tota aborda um tema fascinante e, ao mesmo tempo, pouco estudado pelos historiadores nacionais: a ofensiva cultural realizada pelo governo americano no Brasil, dentro do espírito da ‘política da boa vizinhança’. São poucos os trabalhos sobre o tema — a começar pelo já clássico livro de Gerson Moura Tio Sam chega ao Brasil (1984). Este fato torna-se ainda mais evidente quando comparamos a produção nacional com o grande número de trabalhos americanos sobre o tema: basta conferirmos a própria bibliografia utilizada por Tota. O autor, além de trabalhar com uma vasta bibliografia norte-americana sobre seu tema, utilizou fontes textuais, sonoras e iconográficas, tiradas de arquivos norte-americanos e brasileiros. Suas fontes são, principalmente, governamentais, o que naturalmente reflete o recorte de seu objeto: a ação do Office of Coordinatior of Inter-American Affairs (OCIIA) no Brasil, com o objetivo de “seduzir” os brasileiros para uma aliança com os Estados Unidos durante a Segunda Guerra Mundial. Apesar da inexistência de referências explícitas, a linguagem e a estrutura do livro nos fazem acreditar que se trata originalmente de uma tese de doutoramento. Leia Mais

As ilusões da liberdade: a Escola Nina Rodrigues e a antropologia no Brasil | Mariza Corrêa

Não causa espanto a quantidade de trabalhos acadêmicos que, poste- riormente à tese de Mariza Corrêa, tomou como problema central de pesquisa a trajetória ou as atividades do médico maranhense Raimundo Nina Rodrigues (1862-1906). Nesses quase vinte anos posteriores ao trabalho da autora, algumas gerações de cientistas sociais e historiadores continuam a se defrontar com esse que é considerado há algum tempo um dos grandes ícones da história da medicina em nosso país. Pode-se considerar que Mariza chamou a atenção de todos nós, em sua obra — que é leitura obrigatória sobre o tema —, para a existência de um daqueles personagens sui generis que, ao serem observados sociológica ou historicamente, parecem dizer tanto mais de seu tempo como de si mesmos.

Na verdade, não considero tarefa simples enquadrar em seu tempo a personagem central da obra de Côrreao próprio Nina Rodrigues. Desde a partida de sua terra natal, por volta de1882, até seu estabelecimento na Bahia, passando ainda pela Corte do Rio de Janeiro, a trajetória do médico não só permanecia nebulosa como também não era ainda considerada, tal como é hoje, um símbolo privilegiado tanto para a compreensão da história da medicina como do pensamento social no nosso país. A autora, nesse sentido, pode ser vista como uma das grandes responsáveis pela emergência de Nina Rodrigues como objeto de análise para todos aqueles que tiveram a oportunidade de ter contato direto ou indireto com sua tese, consagrada e de ampla circulação no mundo acadêmico. Leia Mais

Em defesa da honra: moralidade/ modernidade e nação no Rio de Janeiro (1918-1940) | Sueann Caulfield

Os leitores que já conheciam os artigos de Sueann Caulfield editados no Brasil certamente aguardavam com ansiedade a publicação completa do seu estudo, elaborado originalmente como uma tese de doutorado na New York University. No livro Em defesa da honra: moralidade, modernidade e nação no Rio de Janeiro (1918-1940), mais uma vez temos a expressão da sensibilidade da autora — que em antropologia poderíamos arriscar chamar de etnográfica — para tratar de temas como a honra e também de sua grande capacidade de articular inúmeras fontes e referências bibliográficas. Vale mencionar que o tipo de abordagem empreendido aproxima esse estudo de uma série de outros que nos últimos anos têm se caracterizado por privilegiar uma relação profícua entre história e antropologia. A natureza das questões propostas e a perspicácia na análise dos dados tornam a leitura do livro obrigatória não apenas para aqueles que se interessam pela história a partir da perspectiva das relações de gênero, mas para todos que querem compreender com mais profundidade o Brasil da primeira metade do século XX.

O estudo trata da honra sexual a partir do grande interesse que esse tema provocava na primeira metade do século XX no Brasil. Esse interesse aparecia expresso em diversos debates públicos e também, de uma forma mais particular, nas queixas que chegavam ao sistema jurídico-policial envolvendo vários tipos de delitos que contrariavam a moral sexual vigente. Para se ter uma idéia da magnitude do fenômeno, Caulfield revela que durante as décadas de 1920 e 1930, anualmente, cerca de quinhentas famílias procuravam a polícia da cidade do Rio de Janeiro para denunciar o defloramento de suas filhas e tentar algum tipo de reparação do mal. Os casos, sobretudo aqueles mais violentos, atraíam a atenção não apenas dos juristas, policiais, advogados, mas também da opinião pública em geral. E, se a importância da honra sexual parecia inquestionável, as concepções sobre o que ela de fato representava variavam bastante. Leia Mais

The Barbarians Speak: How the conquered peoples shaped Roman Europe | Peter S. Wells

A maioria das pessoas tem a mesma impressão do mundo romano: que a expansão de Roma pelo centro da Europa aculturou os povos dominados, substituindo a cultura nativa existente pelo modo de vida romano. Esta impressão é reforçada pelo fato de que há muito pouca informação ou documentos preservados referentes às populações que habitavam, nos tempos romanos, a área em que hoje ficam a França, Alemanha, os Países Baixos, a Escandinávia, as ilhas britânicas e a Europa oriental. O livro do Prof. Peter S. Wells, quebrando esta impressão hegemônica, se propõe a buscar entender, através da arqueologia, na perspectiva da teoria pós-colonial, o processo de interação entre as populações conquistadas e o império romano.

O relacionamento entre o exército expansionista romano e os povos desta área da Europa teve um evento divisor de águas: a batalha da floresta de Teutoburg. Nesta batalha, cerca de 20 mil soldados romanos foram atacados e completamente derrotados por bandos de guerreiros daqueles povos que os Romanos chamavam de germânicos. Tal derrota chocou o mundo romano e determinou que a fronteira do império se estabelecesse a oeste do Reno e ao sul do Danúbio. Porém, mais importante que isso, os despojos deixados por esta batalha e outros vestígios da ocupação romana, encontrados em escavações arqueológicas de hoje, podem dizer muito sobre a interação dos nativos com os romanos.

A primeira informação importante que pode ser fornecida pelas escavações é a de que espadas romanas, juntamente com outros tipos de material romano, podem ser encontradas em sítios arqueológicos que ficam centenas de quilômetros além da fronteira do império. Estes achados mostram significativa atividade romana em áreas não conquistadas. Wells comenta que o império romano é uma das maiores forças de unificação de que se tem notícia, ligando povos política, econômica, cultural e militarmente, desde o norte da Bretanha e do Estreito de Gibraltar até o Eufrates e o sul do Egito. Comercialmente, a influência romana foi ainda mais longe, de tal forma que Wells traça paralelos do mundo romano com o mundo globalizado de hoje. Neste livro, o exército romano é de grande importância, porque foi responsável pelas conquistas de território e também o principal mediador entre Roma e os povos locais.

A segunda informação importante revelada pelas escavações é a de que o relacionamento dos povos do norte da Europa com os povos mediterrâneos precede a chegada dos romanos na região e, apesar de não compreender-se totalmente a natureza deste relacionamento, atualmente pensa-se que girava em torno do comércio. O relacionamento das elites da região com a cultura mediterrânea era, no entanto, mais complexo que apenas comercial. Professor Wells declara que o aspecto mais significante de toda esta evidência de interação é o de que algumas pessoas na região norte da Europa, num período de até quinhentos anos antes da ocupação romana, começaram a se familiarizar com aspectos do estilo de vida mediterrâneo e claramente os achavam atraentes.

Numerosos autores clássicos falam de mercenários celtas – ou Keltoi, nome dado pelos gregos (Celtae para os romanos) aos povos da Europa central – servindo em exércitos de povos mediterrâneos durante os IV e III séculos a.C. Esta experiência dos mercenários serviu para familiarizar muitos homens da Europa central com o mundo mediterrâneo. A maioria destes homens provavelmente retornou para casa depois de seu serviço, e quando o fizeram, levaram com eles riqueza, conhecimento e ideologias provenientes dos povos mediterrâneos; em pelo menos alguns destes casos deve ter havido o desejo de “imitar” aspectos deste estilo de vida.

O livro descreve os povos que César encontrou na Gália e no norte da Europa como pertencentes a sociedades dinâmicas que estavam passando por processos complexos de mudança em sua economia, organização política e estrutura social. É especialmente importante a evidência cada vez maior de interação entre os habitantes de diferentes regiões da Europa no último século a.C. Havia uma quantidade crescente de bens romanos chegando a comunidades ao norte dos Alpes; o crescente desejo de adquirir estes bens, junto à sua cada vez maior disponibilidade, levou ao desenvolvimento de redes de comércio, por onde estes bens eram levados da Itália romana até a Europa central e ocidental, e mesmo a comunidades mais ao norte.

Por serem as sociedades heterogêneas e complexas quando os romanos marcharam pela Gália Central, não podemos compreender as interações que se iniciaram como simplesmente o exército romano conquistando as “massas” locais. Estes eventos ocorriam em uma época de feroz rivalidade entre as diferentes tribos da Gália. Desde o início dos conflitos, César e outros generais fizeram uso de tropas e métodos de luta locais para alcançar as metas imperiais romanas. César teve sucesso baseado na construção e no cultivo de alianças com muitos grupos de povos da Gália, que se uniram a ele para derrotar os outros.

Segundo Wells, hoje se entende que muito do que Roma construiu na Europa central se deve a alianças com os grupos nativos e a associações com a elite local. Precisamos portanto considerar as populações locais como agentes decisivos no processo. Eles não eram apenas hostis. Em muitas situações, as elites se utilizaram de oportunidades criadas pela aliança com a administração romana, porquanto traziam o aumento de status, poder, prestígio e riqueza.

Como parte das campanhas, os romanos estabeleceram uma série de instalações na região, que não eram apenas fortes militares, mas também bases de suprimentos. Algumas comunidades locais já estabelecidas podem ter assumido esse papel de fornecedor ao exército romano. A presença de grandes forças militares deve ter tido um efeito profundo nos sistemas econômico, social e político locais, mesmo que o confronto militar direto não tenha ocorrido com estas comunidades.

Uma evidência disto é que, em meados do I século d.C., o território em torno do Reno estava se tornando economicamente ativo e rico, em parte por causa da presença de tropas estabelecidas na área. Vilarejos conhecidos como vici se formaram próximos às comunidades militares. Estes lugarejos muitas vezes se desenvolveram e transformaram em centros comerciais e manufatureiros de bom tamanho, e serviam a clientes militares e civis.

Portanto, a mudança que ocorreu na época da conquista romana não foi o estabelecimento de contato e o início da interação entre Roma e os povos que habitavam as terras ao norte dos Alpes. O que ocorreu foi uma mudança de interações causadas por motivos econômicos para uma situação onde Roma exercia alguma medida de controle militar e político sobre estas terras européias. Em todas as situações, evidência textual e arqueológica mostra que existia um padrão complexo de combinação das tradições locais e elementos introduzidos pelo aparato militar e administrativo de Roma.

De uma forma geral, o que se tinha era diversidade. Além disso, a reação às mudanças variava de região para região, de indivíduo para indivíduo. Após a conquista, os grupos locais continuaram a fazer muitas coisas da forma que faziam durante o período pré-histórico. A evidência mais clara da continuidade de práticas tradicionais pode ser encontrada nas cerâmicas. Os arqueólogos que trabalham em escavações do período romano há muito reconheceram a presença de cerâmica do estilo tardio da Idade do Ferro nestes locais.

Wells pede que consideremos dois processos opostos que operavam ao mesmo tempo. Em contraste com as forças de homogeneização representadas pelos centros urbanos romanos, as bases militares e o seu pessoal, e as elites locais que em muitos aspectos se transformaram em membros da aristocracia imperial, a evidência arqueológica mostra que muitas populações nativas reagiram contra a tendência para a uniformidade através da criação de padrões regionais distintos de enterros, práticas rituais e estilos de cerâmica, usando estas formas de expressão para criar um necessário senso de identidade pessoal e coletiva, mesmo que de modo geral continuassem sob dominação de uma autoridade estrangeira.

Existe evidência arqueológica e textual de interação através das fronteiras. Esta interação teve dois resultados para a Europa central: o primeiro foi a gradual homogeneização das sociedades dos dois lados da fronteira; outro foi a formação, durante o século III, de grandes confederações tribais entre os povos além da fronteira. A dinâmica criada por estes dois processos criou as condições necessárias para que se iniciasse a luta na região pela independência de Roma. Por mais de duzentos anos as fronteiras do império sobreviveram intactas. Então, por volta de meados do século III d.C., Roma se rendeu aos freqüentes ataques na fronteira e tirou suas defesas da parte superior do Danúbio e do Reno.

O resultado da interação entre estes povos e o império romano foi a formação de novas e dinâmicas sociedades, que incorporavam de maneira diversa tanto elementos da tradição local quanto os do mundo mediterrâneo. Este livro sugere que o modelo de interação estudado pode ser aplicado a outros impérios em outros períodos históricos; que em todas as instâncias de interação entre uma sociedade maior e mais complexa e uma menor e menos complexa, não podemos presumir que a maior irá predominar através de força política, militar ou econômica. Sociedades menores têm recursos diversos e pouco estudados que possibilitam que elas tenham um papel determinante no resultado desta interação.

Assunção Medeiros – Professora (Cândido Mendes). E-mail: suemedeirosbr@yahoo.com.br


WELLS, Peter S. The Barbarians Speak: How the conquered peoples shaped Roman Europe. Princeton/New Jersey: Princeton University Press, 1999. Resenha de: MEDEIROS, Assunção. Brathair – Revista de Estudos Celtas e Germânicos. São Luís, v.1, n.2, p.68-70, 2001. Acessar publicação original [DR]

Vera: A Princesinha do Nortão. Uma contribuição ao estudo da ocupação da Amazônia Mato-grossense | Alexandre Panosso Netto

Vera: A Princesinha do Nortão. Uma contribuição ao estudo da ocupação da Amazônia Mato-grossense, de autoria de Alexandre Panosso Netto, licenciado em Filosofia e bacharel em Turismo pela Universidade Católica Dom Bosco, Campo Grande-MS e Especialista e Mestre em História pela Universidade Federal de Mato Grosso do Sul, Campus de Dourados.

Seu primeiro livro buscou resgatar a memória da cidade de Vera-MT, que se caracteriza como primeiro núcleo de colonização da Amazônia Mato-grossense a receber incentivos fiscais do Governo Federal após a criação do Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária -INCRA. Leia Mais

Tropical Versailles: empire, monarchy, and the portuguese Royal Court in Rio de Janeiro – SCHULTZ (VH)

SCHULTZ, Kirsten. Tropical Versailles: empire, monarchy, and the portuguese Royal Court in Rio de Janeiro, 1808-1821. New York: Routledge, 2001. Resenha de: NEEDELL, Jeffrey. Varia História, Belo Horizonte, v.17, n.25, p. 255-258, jul., 2001.

Redefinindo a Monarquia em uma Sociedade Escrava1

É um antigo lugar comum observar a particularidade estabilidade política do Brasil no século dezenove. Normalmente, se discute que isso deriva de circunstâncias singulares da conquista da sua independência com a manutenção das instituições e do herdeiro da monarquia Portuguesa no Rio de Janeiro. É sempre sugerido que a estabilidade deveu-se, assim, muito ao fato de que as estruturas políticas e sociais da colônia brasileira se mantiveram relativamente intactas devido a essa singular transição. A bem sucedida história intelectual e cultural da Corte Real no exílio, de Schultz, deixa de lado esses lugares comuns ao examinar o quanto a monarquia mudou e como essa mudança foi percebida entre 1808 e 1822, e a forma com que essas mudanças foram vistas e se manifestaram no pensamento e no dia-a-dia.

Por mais que esse estudo se deva aos últimos dez ou vinte anos da moderna história cultural, ele se baseia em um estudo muito meticuloso de fontes de arquivos e trabalhos contemporâneos publicados. De fato, algumas das preocupações centrais do livro são baseadas na minuciosa leitura de correspondência particular e do Estado, registros policiais, teatro e literatura, panfletos de política contemporânea e da coleta invejável de outras fontes publicadas da época, tanto em Portugal quanto no Brasil. Além disso, Schultz lucrou com a recente preocupação de seus colegas em torno dessa época, citando um número de trabalhos recém-publicados e teses não publicadas e dissertações no Brasil e nos Estados Unidos. Também merece comentários a imparcialidade de suas análises e conclusões. Por mais provocativos que fossem os assuntos, ela transporta a perspectiva dos contemporâneos com cuidado e chega a sua própria avaliação com criteriosa objetividade.

Inevitavelmente há imperfeições. Na minha leitura, elas parecem se acumular no terceiro capítulo, onde, freqüentemente, uma ou duas fontes são a única evidência para o pensamento ou a resposta a um número de pessoas (e. g., pp. 73-74, 78-80, 81, 85), ou no terceiro e quinto capítulos, onde as citações nem sempre suportam o peso das interpretações (e. g., 73-75, 103,164, 166). Também me pergunto porque, em um livro em que se faz tão boas observações com tão boas evidências, a autora se sinta obrigada a citar tantos autores recentes no texto (ao invés de fazer nas notas) para apoiar seus argumentos ou sugerir questões em comum. Mas nenhuma dessas faltas ocasionais é de importância no argumento central do livro, e elas são um pequeno preço a se pagar pela informação, pela análise e pelas sugestões que a autora nos dá aqui.

A contribuição do livro deve ser entendida no contexto historiográfico. Pode-se dizer que o sentido político da monarquia Brasileira sofreu terrivelmente de uma extrapolação ahistórica, na contramão do seu sucesso histórico. Isto é, a unidade da América Portuguesa depois da independência e a sua relativa estabilidade política tendem a serem dadas por certas. A maioria dos historiadores, por algum tempo, gastou sua energia em estudar a monarquia posterior, para entender a passagem do regime, ou, mais freqüentemente, eles compreenderam a história política da monarquia como algo que não mudava e se concentraram na análise de história social ou econômica, particularmente, sobre a escravidão e a abolição. Essas modas vêm se revertendo vagarosamente tanto no Brasil, quanto nos Estados Unidos.

José Murilo de Carvalho teceu competentemente uma elegante análise política das preocupações sócio-econômicas na publicação portuguesa de 1980 de sua dissertação feita em Stanford em 1974. Em 1985, Emilia Viotti da Costa retrabalhou muitos dos seus artigos originais em uma história do império; em 1988, Roderick Barman nos forneceu uma impecável narrativa política explicando a formação nacional entre a última década do século dezoito e 1853. Richard Graham tentou fazer um modelo provocativo do comportamento político nos níveis local e nacional, em 1990. Outros se ativeram a análises políticas mais particulares, como Thomas Flory, em 1981, sobre a ideologia e as reformas da oposição liberal dos anos de 1820 e 30. Neill Macaulay escreveu um delicioso estudo revisionista do primeiro imperador, em 1986. Eul-Soo Pang tentou desenvolver um entendimento da nobreza, em 1988, Barman forneceu aguda e completa biografia do segundo império, em 1999, e , no mesmo ano, Judy Bieber publicou estudo de caso da história política e comportamento no interior de Minas Gerais. Artigos bastante recentes de Jeffrey Mosher e Jeffrey Needell sugerem livros a serem publicados sobre a história política de Pernambuco e do Partido Conservador , respectivamente, e também temos artigos e livros de autoria de Hendrik Kraay (2001) e Peter Beattie (2001) interligando a instituição da monarquia, o exército, à história política e social do regime. No Brasil, o trabalho de Carvalho foi precedido por uma rica e pioneira antologia a respeito da independência, editada por Carlos Guilherme Mota em 1972, e então seguido pelo ambicioso estudo de Ilmar Rohloff de Mattos, sobre a ideologia do estado, em 1990. Em 1998, temos a sofisticada análise da cultura pública da monarquia colonial tardia e da recém-proclamada monarquia nacional de Iara Lis Carvalhos Souza e o tour fascinante de Lilia Moritz Schwartz sobre cultura pública e a iconografia do Segundo Reinado. Em 1999,Cecilia Helena de Salles Oliveira forneceu sua análise investigativa dos interesses sócio-econômicos influenciando a independência; em 2000, Isabel Lustosa publicou sua instigante análise da imprensa periódica política da segunda década do século dezenove, porta-voz dos interesses e das ideologias dominantes.

Em uma frase, o magistral trabalho de tais pioneiros como Murilo de Carvalho, Viotti da Costa, e Barman nos permitiu atacar partes menores de um todo, suprimindo muito que era pobre e superficialmente entendido. O livro de Schultz é, então, apenas a última contribuição à redescoberta e reavaliação da história política da monarquia. É, no entanto, especialmente convincente na metodologia, informando sua idéia e a centralidade do seu foco. A transição Portuguesa e Brasileira para monarquia constitucional e a independência foram habilmente traçadas por Macaulay e contribuintes da antologia de Mota (particularmente Maria Odila Leite da Silva Dias, Francisco D. Falcon e Ilmar Rohloff de Mattos), e Barman, entre outros. Estes, e mais recentemente Salles Oliveira, já nos serviram com narrativas políticas detalhadas e análises baseadas em fatos sobre a transição em termos de ideologia, contingência política e interesses sócio-econômicos. A contribuição de Schultz está em ir além dos eventos e das forças sócio-econômicas ou políticas dirigindo-nos a um entendimento de como a transição ocorreu na experiência vivida no centro político do Brasil.

Shultz faz essas coisas quando amarra a análise arquivística típica da melhor historiografia tradicional com as inovadoras preocupações dos estudos de cultura política comuns entre os novos historiadores. Ela o faz em um estudo de como a fuga e o exílio da Corte Portuguesa levou a uma reavaliação e reconstrução da instituição da monarquia em uma época revolucionária e em uma sociedade escravista marcada por distinções raciais. Os capítulos são organizados cronologicamente, amarrando questões chave: o impacto do exílio na natureza do império Português e a legitimidade da monarquia, a metamorfose do posto de vice-rei do Rio de Janeiro na Corte de um império, o impacto da proximidade monárquica dos seus vassalos americanos, a ambigüidade do papel da monarquia com respeito à instituição da escravidão, a metamorfose do comércio do Atlântico e o papel dos brasileiros, portugueses e ingleses em tudo isso e o desafio do constitucionalismo liberal na antiga metrópole e no novo reino do Brasil.

Nesses capítulos ela demonstra que o exílio transformou a monarquia de um regime absolutista Europeu com colônias no além-mar em uma regenerada, até mesmo nova, monarquia e então, finalmente, em uma instituição constitucional tentando conter revoluções políticas e equilibrar os reinos de ambos os lados do Atlântico. Ao fazê-lo, ela explora a forma com que discourso político e cerimonial indicam e incorporam as mudanças e desafios da época, e são refletidos nos usos da monarquia, no aparecimento da cidade, nas medidas de repressão e controle dos escravizados, na correspondência e nos memorandos dos oficiais e cortesãos da Coroa e na percepção e controle dos pobres e cativos. Essa aproximação cultural e íntima leitura ideológica são contribuições inovadoras com claro potencial para futuros trabalhos de outros historiadores. De fato, isso é algo que Schultz faz alusão quando nota que muitas das contradições da transição da monarquia foram legadas de forma intacta ao Império do Brasil. É um livro bem vindo, escrito claramente, vigorosamente discutido, e potencialmente seminal. Certamente vai resistir.

Nota

1 Em parceria com H-LatAm e H-Net.

Jeffrey Needell – History Departmente/University of Florida/USA.

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O índio brasileiro e a Revolução Francesa: as origens brasileiras da teoria da bondade natural | Afonso Arinos de Melo Franco

Resenhista

Libertad Borges Bittencourt – Professora Doutora do Departamento de História da Universidade Federal de Goiás-

Referências desta Resenha

FRANCO, Afonso Arinos de Melo. O índio brasileiro e a Revolução Francesa: as origens brasileiras da teoria da bondade natural. Introdução de Alberto Venâncio Filho. Prefácio de Sérgio Paulo Rouanet. Rio de Janeiro: Topbooks, 2000. Resenha de: BITTENCOURT, Libertad Borges. História Revista. Goiânia, v.6, n.2, p.179-185, jul./dez.2001. Acesso apenas pelo link original [DR]

Race and the archaeology of identity | C. E. Orser

Resenhista

Pedro Paulo Abreu Funari – Professor do Departamento de História, IFCH-UNICAMP.

Referências desta Resenha

ORSER, C. E. (Ed). Race and the archaeology of identity. Salt Lake City: The University of Utah Press, 2001. Resenha de: FUNARI, Pedro Paulo Abreu. História Revista. Goiânia, v.6, n.2, p. 187-190, jul./dez.2001. Acesso apenas pelo link original [DR]

A vida dos escravos no Rio de Janeiro (1808-1850) | Mary Karasch

Desde o século XIX, o tema da escravidão tem sido central nos estudos sociológicos e históricos sobre a formação do Brasil. Como objeto de investigação, teve um percurso variado. A produção intelectual brasileira voltou-se para o tema a partir de diversas perspectivas e, logicamente, chegou a diferentes conclusões. Sem dúvida, a obra de Gilberto Freyre, da década de 1930, destaca-se pelo êxito em termos de apresentação e circulação de suas idéias (Pinheiro, 1999). Na década de 1950, também sobressaíram vários estudos,1 que, procurando ir contra a idéia de uma escravidão branda, acabavam por considerar os escravos como vítimas passivas do sistema — abordagem já bastante criticada pela historiografia brasileira da década de 1980 (Chalhoub, 1990).

Um esforço no sentido de resgatar os grupos subalternos, inclusive os escravos, como agentes de sua própria história (Machado, 1988; Slenes, 1999), pode ser identificado nas historiografias européia e norte-americana entre o final da década de 1960 e o início da de 1970. A vida dos escravos no Rio de Janeiro (1808-1850), de Mary Karasch, originou-se da tese de doutorado defendida pela autora em 1972, estando inserida nesse período de renovação. Leia Mais

Medicina/ leis e moral: pensamento médico e comportamento no Brasil (1870-1930) | José Leopoldo Ferreira

Houve, de fato, um processo de medicalização da sociedade brasileira? Ou o que aconteceu foi uma socialização da medicina? Se houve, como tal processo se deu? Essas são as questões que José Leopoldo procura analisar em seu livro, levando-se em consideração a forma trabalhada por outros autores na investigação desse processo, tais como Jurandir Freire Costa, em Ordem médica e norma familiar, e Roberto Machado et alii de Danação da norma. Qual o papel da medicina legal nessa trajetória?

O livro é dividido em seis capítulos, nos quais se procurou analisar como o pensamento médico foi direcionado para objetos da vida social, tais como o crime, o sexo e a morte. O corte cronológico escolhido para análise e consideração pelo autor foi o período da Belle Époque, por possuir ampla e criteriosa reflexão científica sobre tais temas na literatura médica, tendo os médicos nesse momento feito da medicina uma ‘ciência da moral’. Leia Mais

Capanema: o ministro e seu ministério | Angela de Castro Gomes

Entre as personagens políticas do primeiro governo Getúlio Vargas, e mais especificamente do Estado Novo, o ministro da Educação e Saúde entre 1934 e 1945, Gustavo Capanema, é uma figura central na definição ideológica e nas políticas públicas implementadas. Seu ministério tinha, entre outras atribuições, a de formular um projeto cívico-pedagógico para engendrar um “novo homem brasileiro”. A reforma do Estado, da sociedade e do homem eram projetos que deveriam caminhar juntos. Educação, saúde e cultura eram pilares para a execução deste ideário. As interpretações mais difundidas sobre as idéias e ações de Capanema têm se apoiado em imagens cuja força, enquanto ícones de uma época, sobrepõem-se às tentativas de uma análise mais apurada. Dois podem ser os fatores determinantes destas interpretações.

Em primeiro lugar, Capanema foi político e intelectual dos mais complexos e de difícil apreensão, mesmo no contexto do ideário conservador. Ele mantinha uma teia de relações pessoais e de colaboradores, que incluía intelectuais de esquerda em pleno Estado Novo. Desta colaboração resultou a obra maior, segundo o ministro, que foi o edifício sede do Ministério da Educação no Rio de Janeiro, considerado um emblema da arquitetura modernista no país. A convivência entre a ditadura e o modernismo tem permanecido sob uma áurea quase enigmática. Leia Mais

Vera: A Princesinha do Nortão. Uma contribuição ao estudo da ocupação da Amazônia Mato-grossense | Alexandre Panosso Netto

Vera: A Princesinha do Nortão. Uma contribuição ao estudo da ocupação da Amazônia Mato-grossense, de autoria de Alexandre Panosso Netto, licenciado em Filosofia e bacharel em Turismo pela Universidade Católica Dom Bosco, Campo Grande-MS e Especialista e Mestre em História pela Universidade Federal de Mato Grosso do Sul, Campus de Dourados.

Seu primeiro livro buscou resgatar a memória da cidade de Vera-MT, que se caracteriza como primeiro núcleo de colonização da Amazônia Mato-grossense a receber incentivos fiscais do Governo Federal após a criação do Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária -INCRA. Leia Mais

O parente mais próximo: o que os chimpanzés me ensinaram sobre quem somos | Roger Fouts

Nas últimas décadas, o desenvolvimento do debate sobre o direito dos animais tem levado pesquisadores de todo mundo a refletirem sobre a ética do uso de seres vivos em experimentos científicos. O parente mais próximo: o que os chimpanzés me ensinaram sobre quem somos, de Roger Fouts, leva essa discussão às suas conseqüências filosóficas e morais mais agudas. Embora seja uma magnífica obra de divulgação científica, e tenha ficado umas poucas semanas entre os livros mais vendidos na categoria não-ficção, tudo que é sólido desmancha no ar: atualmente seus argumentos pouco despertam comentários, tanto entre os estudiosos de biologia e antropologia, quanto em outras áreas do conhecimento humano. O pretensioso alvo dessa nota é tentar sacudir o público dessa sonolência.

Produzido em parceria com o escritor de divulgação científica Stephen Tukel Mills, O parente mais próximo narra a trajetória do graduado em psicologia infantil Roger Fouts (e tangencialmente também a trajetória de sua esposa e as dos seus três filhos) desde que ele próprio se engajou no Projeto Washoe, em 1967, como estudante de pós-graduação que almejava ajudar crianças autistas. Washoe é a chimpanzé (Pan troglodytes) que Allan e Trixie Gardener adotaram em 1966 quando o bebê não-humano tinha cerca de dez meses de idade. O projeto: ensinar-lhe uma linguagem de sinais, ao contrário dos severos paradigmas behavioristas, em um ambiente rico em estímulos. Não era exatamente o trabalho que Fouts procurava na época, mas ele tinha que pagar a universidade em que estudava, e Washoe literalmente atirou-se nos braços dele quando o viu pela primeira vez. Leia Mais

As artes de curar: medicina/ religião/ magia e positivismo na República Rio-Grandense – 1889-1928 | Beatriz Teixeira Weber

Na paisagem sociocultural do século XX, as profissões apareceram como criaturas naturais, dotadas de legítima autoridade para influenciar ou mesmo dirigir os negócios humanos. Cada expertise reivindicava especial competência técnico-científica sobre a definição, avaliação e solução de nossos problemas cotidianos em áreas cada vez mais amplas. A medicina era geralmente apresentada como o arquétipo das profissões. Nela encontraríamos a forma mais bem-acabada de poder profissional. A demonstração da espetacular simbiose entre razão científica e ética de serviço tem sido a tônica de toda uma tradição historiográfica voltada a cultuar e justificar a autoridade que ela hoje goza, como sistema de conhecimentos e práticas dedicado a evitar, curar ou atenuar doenças.

Muita tinta tem sido gasta também na denúncia dessas formas de poder secular que se espalharam pelas sociedades modernas como contraponto do fenômeno que Weber cunhou como desencantamento do mundo. Da inspirada boutade de Oscar Wilde, para quem “toda profissão é uma conspiração contra os leigos” à “sociedade disciplinar” de Foucault, excelentes análises revelaram como as profissões lograram monopolizar o acesso e a aplicação do conhecimento que haviam adquirido, tendo em vista a preservação do status e de privilégios por elas reclamados. Dessa forma, toda uma vertente de estudos históricos e sociológicos dedicou-se à análise da influência política e cultural das profissões, buscando esclarecer a relação entre as profissões, as elites políticas e econômicas e o Estado; as relações entre elas, o mercado e o sistema de classes no mundo moderno. Leia Mais