Holocaustos Coloniais. Calma, fome e imperialismo na formação do Terceiro Mundo / Mike Davis

Norberto O. Ferreras – Universidade Federal Fluminense.


DAVIS, Mike. Holocaustos Coloniais. Calma, fome e imperialismo na formação do Terceiro Mundo. Rio de Janeiro/São Paulo: Record Editora, 2002 (1ª ed. em inglês: 2001), 486 p. Resenha de: FERRERAS, Norberto O. Revista Trajetos, Fortaleza, v.2, n.4, p.237-241, 2003. Disponível apenas no link original. [IF].

Escrita singular: Capistrano de Abreu e Madre Maria José / Virgínia A. C. Buarque

Paula Virgínia Pinheiro Batista – Universidade Federal do Ceará.


BUARQUE, Virgínia A. Castro. Escrita singular: Capistrano de Abreu e Madre Maria José. Fortaleza: Museu do Ceará/Secretaria da Cultura, 2003. Resenha de: Revista Trajetos, Fortaleza, v.4, n.8, p.287-300, 2005. Acesso apenas pelo link original. [IF].

Nordestino: uma invenção do falo – uma história do gênero masculino | Durval Muniz de Albuquerque Júnior

Sander Castelo – Universidade Federal do Ceará.


ALBUQUERQUE Jr., Durval Muniz de. Nordestino: uma invenção do falo – uma história do gênero masculino (Nordeste – 1920/1940). Maceió: Edições Catavento, 2003. Resenha de: CASTELO, Sander. Revista Trajetos, Fortaleza, v.2, n.4, 2003. Disponível apenas no link original. [IF].

Rio Branco, a América do Sul e a modernização do Brasil | Carlos Henrique Cardin e João Almino

Para comemorar o primeiro centenário da posse do barão do Rio Branco como Ministro das Relações Exteriores, a Funag, o Instituto Rio Branco e o Ipri organizaram um seminário no IRBr nos dias 28 e 29 de agosto de 2002. O encontro analisou a atuação de Rio Branco por meio de cinco enfoques: sua visão do Brasil e do mundo, seus contemporâneos, o trabalho pela modernização do Brasil, a política para as Américas e a política brasileira para o Prata. Os textos apresentados foram reunidos por Carlos Henrique Cardim e João Almino, dando origem ao livro lançado, em 2002, pela EMC Edições, prefaciado por Fernando Henrique Cardoso.

Na abertura dos trabalhos, Celso Lafer realçou a relação entre a tradição de uma diplomacia brasileira ancorada à história e à herança paradigmática do fazer diplomático do Barão como diretriz e orientação para as decisões do país. Leia Mais

Mais malandros. Ensaios tropicais e outros | Kenneth Maxwell

Talvez por sua consolidada reputação no país como especialista na história do império português e dada a ambigüidade do título desse seu último livro publicado no Brasil, essa coletânea de ensaios do historiador inglês Kenneth Maxwell não desperte entre os estudiosos das relações internacionais e da política externa brasileira a atenção que a obra merece. O título Mais malandros. Ensaios tropicais e outros parece fazer sentido apenas se a obra for entendida como sucedânea de outra coletânea de trabalhos do autor, publicada no país em 1999, intitulada Chocolate, Piratas e outros malandros. Ensaios tropicais (Paz e Terra). Os vinte e seis ensaios reunidos em Mais malandros foram, em sua maioria, publicados no extinto site NO (Notícia e Opinião) e no Caderno Mais da Folha de São Paulo, sendo os demais publicados em periódicos estrangeiros.

Se Maxwell é conhecido como autor, entre outros, de uma interpretação clássica da Inconfidência Mineira (A devassa da devassa, Paz e Terra, 1977), de uma biografia definitiva do Marquês de Pombal (Pombal: paradoxo do Iluminismo, Paz e Terra, 1996) e de uma provocativa interpretação da Revolução dos Cravos, ainda inédita no Brasil (The making of Portuguese Democracy, Cambridge University Press, 1995), a prazerosa leitura do trabalho aqui resenhado confirma a erudição e a vastidão dos interesses do autor, o que, por si só, já valeria a empreitada. Contudo, em Mais malandros destacam-se também a sagacidade e o pendor heterodoxo do autor na articulação de seu amplo conhecimento histórico a eventos sociais e políticos contemporâneos, tecedura essa usualmente evitada pelos historiadores. Leia Mais

Conflicting Missions. Havana, Washington and Africa, 1959-1976 | Piero Gleijeses

Conflicting Missions. Havana, Washington and Africa vem cobrir um vácuo na história da política externa de Cuba, relativo a um aspecto já tão discutido anteriormente, mas que, até aqui, não ia além de meras conjecturas sem provas: foi Cuba subserviente à União Soviética em seus envolvimentos de suporte a movimentos revolucionários na África? Desde 1991, Gleijeses realizou quatorze viagens a Cuba a fim de pesquisar nos documentos oficiais a história dessa época e trabalhou, ainda, com os arquivos norte-americanos, britânicos, alemães e belgas, além de realizar inúmeras entrevistas com personagens-chave africanos. Os resultados dos estudos de Gleijeses mostram nitidamente que os fatores que moveram Cuba em direção à África foram basicamente dois: uma “compulsão messiânica de liderar a revolução” e a sobrevivência da própria revolução cubana (p. 375). Para tanto, não houve nenhuma coordenação prévia com a União Soviética, e Cuba chegou, em alguns momentos, a pôr em risco relações importantes em função desses ideais.

Das 552 páginas do livro, cerca de 150 são constituídas por notas e referências bibliográficas e documentais. O restante está dividido em duas partes bem nítidas: a primeira inclui os primeiros dez capítulos e relata as intervenções na Argélia, no Zaire (hoje República Democrática do Congo), no Congo (hoje República do Congo) e na Guiné-Bissau; a segunda inclui sete capítulos referentes ao caso de Angola e as conclusões gerais. Todos os capítulos são enriquecidos de mapas e fotos explicativas e com referências adicionais às do texto. Leia Mais

A diplomacia do interesse nacional: a política externa do governo Médici | Cíntia Souto || As mudanças da política externa brasileira nos anos 80: uma potência média recém industrializada | Ricardo Sennes || A política externa do governo Sarney: a nova república diante do reordenamento internacional (1985-1990) | Analúcia Pereira

Esses são os três primeiros títulos da coleção Estudos Internacionais, coordenada pelo Professor Paulo Fagundes Vizentini e editada pelo Núcleo de Estudos de Estratégia e Relações Internacionais (Nerint) do Instituto Latino-Americano de Estudos Avançados da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, em parceria com a Editora da Universidade/UFRGS. A coleção é destinada a divulgar estudos, teses, dissertações e seminários produzidos ou orientados pelos pesquisadores do núcleo, bem como textos relevantes na área de relações internacionais.

Embora trabalhando com temporalidades diferenciadas, de certa forma os três livros têm uma linha de continuidade, pois discutem a mesma matriz de inserção internacional, formulada nos anos 1970 no Brasil e que vigorou até o final da década de 1980, mais conhecida pelo seu ápice, o Pragmatismo Responsável do governo Geisel. Mas a estruturação dessa matriz já vinha ocorrendo no período do Governo Médici, assim como, embora o regime militar tenha formalmente acabado em 1985, seu modelo de inserção internacional duraria até 1990. Nesse sentido, esses autores trabalham com os seus primeiros ensaios (no Governo Médici) e sua crise (já no final do governo Sarney). Leia Mais

Privilégios e imunidades diplomáticos | Sérgio Eduardo Moreira Lima || A imunidade de jurisdição e o Judiciário brasileiro | Márcio Garcia e Antenor Maragna Guimarães Lessa || A renúncia à imunidade de jurisdição pelo Estado brasileiro e o novo direito da imunidade de jurisdição | Antenor Pereira Madruga Filho

Durante o século XX, o direito diplomático experimentou mudanças substanciais, especialmente no que concerne aos privilégios e imunidades, que passaram a ser mais limitados, repercutindo diretamente sobre os agentes das missões diplomáticas e repartições consulares. A codificação das regras relativas às prerrogativas diplomáticas e consulares expressas na Convenção sobre Relações Diplomáticas de 1961 e na Convenção sobre Relações Consulares de 1963, ambas concluídas em Viena, possibilitou um tratamento mais uniforme sobre a matéria. Ademais, observou-se o papel da opinião pública internacional em demandar maior restrição às prerrogativas diplomáticas e consulares sempre que essas contrariassem o direito interno dos países acreditantes.

Essa evolução do costume para a codificação das normas de direito internacional tem tido efeito direto sobre os Poderes da União. No Legislativo, nota-se um movimento na elaboração de Immunity Acts, ou seja, leis que versam sobre os privilégios e imunidades dos agentes diplomáticos e consulares. No Executivo, observa-se o cuidado das Chancelarias em instruir as missões diplomáticas e repartições consulares em respeitar as jurisdições internas dos países acreditantes. No Judiciário, o Supremo Tribunal Federal, que manteve por décadas a posição de reconhecer a imunidade absoluta de jurisdição e de execução dos agentes diplomáticos, mudou sua postura no começo da década de 1990, também como conseqüência das inovações trazidas pela Constituição Federal de 1988, que teve impacto direto sobre as questões trabalhistas envolvendo os Estados acreditados e seus funcionários locais. Paralelamente, a distinção entre os chamados atos de império – ação em que o Estado age como entidade soberana e os atos de gestão – quando o Estado se equipara ao particular, em atos de natureza trabalhista ou comercial – contribuiu para a relativização de imunidade de jurisdição. Leia Mais

Del ABC al Mercosur: la integración latinoamericana em la doctrina y práxis del peronismo | Andrés Cisneiros e Carlos Piñeiro Iñiguez || La dictadura argentina (1976- 1983): del golpe de estado a la restauración democrática | Marcos Novaro e Vicente Palermo || Tiempos de crisis/ vientos de cambio: Argentina y el poder global | Mario Papoport || Crítica de las ideas políticas argentinas | Juan José Sebrelli

O triênio 2000-2003 foi de intensidade singular para a vida social, econômica e política da República Argentina, cenário que tem sido alvo de estudos por parte de internacionalistas e pesquisadores de áreas conexas. No caso dos historiadores, a prudência os leva a aguardar mais alguns anos para se aventurarem a explicar os acontecimentos passados no período. De qualquer forma, a explicação dos fenômenos da atualidade não é feita apenas no presente mas principalmente pelo retorno ao passado, pela apreciação de recorrências factuais e pela utilização de regularidades e analogias.

Nessa linha, a obra de Raul Bernal-Meza, Sistema Mundial y Mercosul(Buenos Aires: Grupo Editor Latinoamericano2000), seria um marco dos estudos argentinos sobre a nova configuração da política internacional, tendo como pano de fundo a inserção da Argentina nesse mundo, característica marcante dos estudiosos portenhos de relações internacionais. Destarte, a dinâmica da produção argentina, tradicionalmente intensa, permaneceria fornecendo trabalhos consistentes sobre a atualidade, valendo-se da perspectiva histórica como instrumento-chave de análise. Leia Mais

Política externa da Primeira República: os anos de apogeu (1902 a 1918) | Clodoaldo Bueno

Nas últimas décadas, o grande historiador Clodoaldo Bueno vem se destacando como um dos mais abalizados sobre a política externa brasileira, fenômeno que agora se repete com o lançamento de sua mais nova obra. Esta já surge como leitura essencial para os que militam no campo da história das relações internacionais, uma vez que o autor, demonstrando amplo conhecimento do tema em questão, narra, de forma celebrável, o desenrolar da formulação da política externa nos anos seguintes à década do nascedouro da República brasileira. O prefácio do professor Amado Luiz Cervo fala por si: a obra “compõe, ademais, a tríade de obras hoje indispensáveis ao conhecimento da evolução da política exterior durante a denominada República Velha”, juntamente com outro livro de Bueno, A República e sua política exterior, 1889-1902 (São Paulo: Ed. Unesp, 1995) e a Tese de Doutorado defendida por Eugênio Vargas Garcia, Entre América e Europa: a política externa brasileira na década de 1920 (Universidade deBrasília, 2001).

Apresentando recorte temporal de 1902 a 1918, Bueno seduz o leitor com a forma que o argumento principal de seu livro é exposto. Tendo como desafio principal “reconstruir o sistema de idéias de Rio Branco” (p. 23), o autor a ele dedica a parte mais longeva da obra, sem que haja, no entanto, a ausência de uma correta exploração da formulação da política externa brasileira nos anos que antecederam e precederam a chancelaria do Barão (1902-1912). Leia Mais

No olho da águia. Unilateralismo e relações internacionais | Argemiro Procópio

O fim da Guerra Fria ocasionou no país vencedor – Estados Unidos – sentimento de euforia de tal monta que um de seus ideólogos, Francis Fukuyama, chegou a decretar o fim da história, ou seja, a democracia liberal como a última etapa das instituições político-econômicas. Naturalmente, a administração cotidiana do presumido último estágio ficaria a cargo dos norte-americanos, que se transformariam no guardião da nova ordem mundial, que seria unipolar, menoscabando outros pólos de poder ou tendências que se configuram hodiernamente.

Todavia, para Argemiro Procópio, professor titular do Instituto de Relações Internacionais da Universidade de Brasília, esse conceito apenas mascara o contínuo jogo de poder, que sempre perpassa as relações internacionais. Desse modo, o fim da Guerra Fria não assegura harmonia, nem prosperidade; porém, a supremacia de um pequeno grupo de nações, que, a pretexto de manter a estabilidade com vistas a um interesse universal, subordina o destino de inúmeras outras, tanto política como economicamente. Seria, para ele, a modernização do conceito de espaço vital, tão caro aos expansionistas alemães do século passado. Leia Mais

A política externa dos Estados Unidos | Cristina Soreanu Pecequilo

Premiada como melhor Tese de Doutorado em 2000 pelo Departamento de Ciência Política da USP, a obra de Pecequilo torna-se leitura obrigatória para quem estuda não só a política externa dos Estados Unidos, mas as Relações Internacionais de maneira geral. Trata-se de um trabalho brasileiro sem precedentes sobre o tema e, justamente por ser uma obra nacional, esquiva-se das tradicionais análises norte-americanas e européias, contribuindo para uma visão mais neutra do tema em questão.

A idéia inicial da autora era trabalhar exclusivamente o período de 1989 a 1998, buscando traçar continuidades e rupturas na política externa dos Estados Unidos a partir do fim da Guerra Fria. Uma vez iniciada a pesquisa, contudo, percebeu que era necessário recuar no tempo, a fim de conferir maior precisão à própria idéia de continuidades e rupturas. Foi na formação nacional dos Estados Unidos que a autora encontrou os fundamentos que iriam guiar a política externa norte-americana até os períodos mais recentes. Ela lida com dois momentos distintos: o primeiro, de 1776 a 1945, “quando os Estados Unidos eram um país normal no sistema, consolidando seu poder doméstico e depois se projetando internacionalmente”, e o segundo, de 1947 a 1999, momento contemporâneo, “marcado pela ascensão e disseminação da hegemonia” (p. 18). Leia Mais

Jardim América: o primeiro bairro-jardim de São Paulo e sua arquitetura – WOLF (VH)

WOLFF, Silvia Ferreira Santos. Jardim América: o primeiro bairro-jardim de São Paulo e sua arquitetura. São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo/Fapesp/Imprensa Oficial do Estado, 2001. Resenha de: AGUIAR, Tito Flávio Rodrigues de. Jardim América, o subúrbio jardim em versão brasileira. Varia História, Belo Horizonte, v.19, n.29, p. 157-161, jan., 2003.

São Paulo, a maior metrópole brasileira, é freqüentemente evocada por sua impressionante massa edificada, composta por edifícios altos, espalhada por extensa área, e por sua confusa, densa e violenta periferia. Porém, em meio ao mar de concreto armado e bem longe do caos da periferia, despontam bairros residenciais marcados pela exuberante presença do verde e por casas afastadas das ruas sinuosas e arborizadas. São os bairros-jardins, que dão forma ao núcleo da São Paulo cosmopolita e próspera, a região que os paulistanos simplesmente chamam de Jardins.

Jardim América, Jardim Europa, Jardim Paulistano são hoje símbolo da cidade, talvez exatamente por seu caráter de exceção. Constituem o ambiente que os paulistanos desejariam ver e ter em toda a sua cidade. Surgiram na década de 1910, como uma alternativa para a expansão dos bairros até então ocupados pelas elites — Campos Elísios, Higienópolis e a Avenida Paulista. Caíram no gosto das camadas altas e médias. Foram modelados a partir dos subúrbios-jardins que, ao longo da segunda metade do século XIX, tomaram forma nas cercanias de grandes cidades britânicas e americanas — Londres, Nova York, Chicago. E, por sua vez, serviram de modelo para diversos outros bairros residenciais, enquanto consolidaram-se entre os anos 1920 e 1950 como espaço de vida das faixas mais ricas e dinâmicas da população da cidade. Por tudo isso, foram tombados pelo Condephaat (Conselho de Defesa do Patrimônio Histórico, Artístico, Arqueológico e Turístico do Estado de São Paulo), nos anos 1980, após intensa pressão popular.

Os Jardins vêm despertando a atenção de historiadores, arquitetos e urbanistas. Os historiadores — com destaque para Nicolau Sevcenko, em seu Orfeu extático na metrópole, e para Roney Bacelli, com sua dissertação A presença da Cia. City em São Paulo (1915-1940) e a implantação do primeiro bairro-jardim — interessados nas articulações da constituição dos Jardins com a modernização da sociedade paulista e nas possibilidades que o estudo dessa região abre para a história social e cultural da metrópole brasileira. Os arquitetos e urbanistas — entre eles Hugo Segawa e Dacio Araújo Benedicto Ottoni — fascinados pelas conexões entre o estabelecimento dos Jardins e uma das mais influentes utopias urbanísticas do fim do século XIX, a cidade-jardim proposta em 1898 pelo inglês Ebenezer Howard (1850-1928) como alternativa para as congestionadas cidades européias, numa obra com título eloqüente: Tomorrow: a peaceful pathto social reform1. Fascínio esse amplificado por serem os arquitetos que traçaram o Jardim América, o primeiro dos bairros-jardins paulistanos, os ingleses Raymond Unwin (1863-1940) e Barry Parker (1867-1947), os mesmos que, sob a liderança de Howard, conceberam e implantaram acerca de 70 quilômetros ao norte de Londres, a partir de 1903, a primeira garden city britânica, Letchworth. E por serem eles, também, os arquitetos que, entre 1903 e 1907, projetaram Hampstead, um bem sucedido garden-suburb nos arredores de Londres, já sem vínculos com Howard mas incorporando muito da experiência por eles desenvolvida em Letchworth.

Cidade-jardim, subúrbio-jardim e bairro-jardim são concepções urbanísticas surgidas a partir dos anos 1850 como respostas aos problemas decorrentes da rápida urbanização que marcou a Europa e a América do Norte no século XIX. O subúrbio-jardim pode ser entendido como o desdobramento de configurações urbanas que desde a Antiguidade estiveram presentes na cidade ocidental: chácaras e casas de campo nos arredores das cidades, possibilitando aos privilegiados a fuga dos densos ambientes urbanos. No século XIX, o desenvolvimento de estradas de ferro e linhas de bonde tornou viável o estabelecimento dos espaços de vida de grande número de pessoas em subúrbios cada vez mais distantes dos centros urbanos, expandindo as cidades. A Garden city de Howard foi, por sua vez, desdobramento desse processo de expansão urbana, propondo a criação de comunidades autônomas e de crescimento controlado, integrando campo e cidade. Com o subúrbio jardim, arquitetos britânicos e americanos também buscaram associar campo e cidade, porém sem pretenderem a autonomia característica da garden city. O subúrbio-jardim deve, assim, ser entendido como extensão da grande cidade, enquanto a cidade-jardim coloca-se como uma nova cidade, distinta da metrópole à qual se articula. Por fim, o bairro jardim surgiu da aplicação do modelo do subúrbio-jardim a contextos essencialmente urbanos, como no caso de São Paulo.

O primeiro bairro-jardim paulistano, o Jardim América, é o objeto do livro de Silvia Ferreira Santos Wolff. Longe de fazer a história de um bairro, a autora constrói seu objeto a partir de uma inquietação. Como pesquisadora do Condephaat, Silvia Wolff constatou que o processo de tombamento dos bairros-jardins e os mecanismos legais adotados em 1985 para a preservação desses bairros visavam sobretudo a conservação da paisagem urbana, do verde, das ruas e das praças. Ou seja, a preservação do espaço urbano. Quanto à conservação dos edifícios, pouca coisa, quase nada. Ora, sabemos que o traçado e a paisagem urbana dependem do modo como os edifícios configuram o espaço da cidade. Seria possível, portanto, preservar o espaço urbano sem conservar a arquitetura que o constitui? Por que a arquitetura do Jardim América (e de outros bairros, como o Pacaembu) não despertou maior interesse do Condephaat?

Para responder a essas questões, Silvia Wolff repassou em sua tese de doutoramento em Arquitetura, desenvolvida na USP sob orientação do Professor Carlos Lemos, o estabelecimento do Jardim América, empreendimento imobiliário comercial, distante das concepções utópicas da cidade-jardim e próximo ao subúrbio-jardim anglo-americano. Considerando que a arquitetura das casas do Jardim América vem sendo pouco estudada, por ser ela produção arquitetônica de transição entre duas produções mais valorizadas no campo da arquitetura — o ecletismo classicizante das últimas décadas do século XIX e a arquitetura modernista que se tornou hegemônica na paisagem paulistana após a Segunda Guerra Mundial —, Silvia Wolff levou a cabo um extenso levantamento arquitetônico das edificações do Jardim América com base no acervo do arquivo da Cia. City, empresa responsável pela implantação desse bairro-jardim. Levantamento que, apoiado por cuidadosa revisão da concepção urbanística da cidade-jardim e do subúrbio-jardim, é o ponto alto do trabalho e traz contribuições para pesquisadores interessados no estudo das grandes cidades brasileiras e nos modos de vida de seus habitantes.

A pesquisa histórica desenvolvida por Silvia Wolff nos arquivos da Cia. City deve ser destacada, pois aponta caminhos instigantes para arquitetos e historiadores que, tomando a produção arquitetônica como produção cultural, procuram lançar novas luzes sobre as transformações urbanas, especialmente desvelando as convergências e conflitos entre os interesses privados e o poder público na acelerada expansão das cidades brasileiras, no século XX. Conhecida como Cia. City, a City of São Paulo Improvements and Freehold Land Company Limited foi organizada em 1911, com escritórios em São Paulo, Londres e Paris, associando o arquiteto Joseph Bouvard e o banqueiro Édouard Fontaine de Laveleye, ambos franceses, a um grupo de investidores e proprietários de terras nos arredores de São Paulo, integrantes da elite paulista e com acesso franco à cúpula político-administrativa do estado. Cincinato Braga, político paulista, Horácio Belfort Sabino, advogado e proprietário de terras, e Victor da Silva Freire, professor da Escola Politécnica e diretor de Obras Públicas da Prefeitura de São Paulo, estiveram ligados ao início da atuação da Cia. City. Lord Balfour, presidente da São Paulo Railway Co. e governador do Banco da Escócia, também fazia parte da primeira diretoria da empresa. Com os capitais reunidos, a Cia. City comprou aproximadamente 12 km² de terras nas vizinhanças das áreas que já vinham sendo ocupadas pelas camadas altas da sociedade local. Constituída, a companhia iniciou a urbanização de partes dessas terras e a venda dos lotes, entrando no movimentado mercado imobiliário paulistano. Ainda hoje a Cia. City é atuante nesse mercado e seu sucesso derivou, em grande medida, das estratégias inovadoras e bem traçadas que marcaram seus primeiros anos. Estavam entre essas estratégias, por um lado, técnicas de venda a prazo dos lotes, de financiamento da construção das casas e de seleção dos compradores e, por outro lado, a busca de soluções urbanísticas que tornassem diferentes e atraentes seus loteamentos.

Isto explica a contratação, em 1913, de Raymond Unwin e Barry Parker para a elaboração do projeto do Jardim América e a vinda do segundo a São Paulo, em 1917, para conduzir a implantação do bairro-jardim. Em Londres, Unwin e Parker projetaram a concepção básica do loteamento, lançando mão do know-how acumulado nos projetos da cidade-jardim de Letchworth e do subúrbio-jardim de Hampstead. Em São Paulo, entre 1917 e 1919, Barry Parker desenvolveu o projeto, participou dos trabalhos de urbanização, definiu padrões urbanísticos para o Jardim América, influenciou a legislação urbanística da cidade (através de contatos com o diretor de obras da Prefeitura, Victor da Silva Freire) e estabeleceu padrões arquitetônicos para as casas do bairro-jardim, projetando algumas delas, inclusive. O levantamento da passagem de Parker por São Paulo é outro ponto destacado no trabalho de Silva Wolff e, sem dúvida, interessa aos historiadores e arquitetos que estudam as grandes cidades brasileiras.

Em resumo, o livro de Silvia Wolff, deve ser entendido como um trabalho que, desenvolvido a partir do campo da arquitetura e do urbanismo, situa-se na fronteira entre o campo da história e o campo da história da arquitetura e do urbanismo. Lançando mão do método histórico para o estudo da produção arquitetônica e da cidade, a autora traz uma importante contribuição à história social e cultural de São Paulo.

Por fim devemos elogiar a qualidade da edição e o modo como os numerosos desenhos, mapas, fotos e reproduções de peças publicitárias, pertencentes ao acervo do arquivo da Cia. City, estão associados ao texto, especialmente na parte dedicada ao levantamento e análise da arquitetura do Jardim América. Porém, não podemos deixar de lamentar a ausência de um glossário dirigido aos leitores menos familiarizados com os termos usualmente empregados na arquitetura e urbanismo. Num trabalho de fronteira, como esse de Silvia Wolff, é sempre útil lembrar que nem todos os dicionários comuns explicam o que vem a ser um traçado hipodâmico ou uma sash window.2

Notas

1 Amanhã: um caminho pacífico para a reforma social. Em 1902, essa obra seria reeditada com o título: Garden cities of tomorrow — Cidades-jardins de amanhã. Para os interessados, vale consultar a tradução brasileira, editada em São Paulo, em 1996, pelas editoras Hucitec e Annablume, reeditado em 2002.

2 Traçado hipodâmico é nada mais que o velho traçado em tabuleiro de xadrez, no qual ruas se cruzam ortogonalmente definindo quarteirões retangulares. O termo evoca Hipódamo, o grego que, no século VI a.C., teria sido o primeiro a propor esse traçado regular. Sash window é um tipo de janela comum nas casas inglesas, com duas folhas envidraçadas (sash) que podem ser levantadas ou abaixadas com facilidade, lembrando o funcionamento de uma guilhotina. Daí vem o termo brasileiro: janela de guilhotina.

Tito Flávio Rodrigues de Aguiar – Arquiteto. Doutorando em História, UFMG.

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A Era dos Festivais – Uma Parábola | Zuza Homem de Mello

Os festivais da canção realizados ao longo das décadas de 1960 e 1970 constituem, sem dúvida, marcos significativos na trajetória da história da música brasileira. Nesse período, novos talentos foram descobertos, movimentos musicais se renovaram e redimensionaram a música popular brasileira. Uma revisão do conceito de MPB impulsionou intensos debates acerca das relações entre a música e a política, fomentou discussões sobre a estética e suas articulações com o social. No bojo dessa efervescência cultural, compositores, músicos e intérpretes se depararam com as limitações impostas pelo regime militar, seus atos de exceção e, principalmente, pela ação censória. Não por acaso, muitos dos artistas envolvidos nos embates estéticos e políticos do período foram exilados, perseguidos e presos.

A Era dos Festivais – Uma Parábola reporta o leitor à magia dos festivais e o coloca diante da euforia do público, da competitividade entre os participantes, dos bastidores dos eventos musicais. O volume que integra a coleção “Todos os Cantos”, publicada pela Editora 34, se mostra envolvente como uma crônica, mas alia à narrativa romanceada uma vasta documentação, capaz de suscitar múltiplos interesses e chamar a atenção das mais distintas gerações. Zuza Homem de Mello atua como “testemunho ocular da história” – parafraseando o locutor do memorável programa Repórter Esso; envereda pela atmosfera agitada daqueles anos e apresenta versões controvertidas de casos pitorescos flagrados durante a realização dos festivais. Leia Mais

A Social History of Anthropology in the United States | Thomas C. Patterson

Pode escrever-se uma história da ciência apenas a partir da discussão de questões metodológicas? Pode isolar-se a história de uma ciência social de sua inserção no tecido social? Podem entender-se as transformações de uma disciplina sem relacioná-las aos avatares da política? Questões como estas parecem teóricas no contexto internacional da história das ciências, na medida em que a academia faz parte da sociedade e, por isso, nunca poderia ser dela desvinculada. No Brasil, contudo, assim como em outros países periféricos, a ciência, imbricadíssima com as vicissitudes da política, tem sido considerada por alguns como atividade impérvia às relações de poder, importação tecnológica periférica que se ressentiria somente do atraso metodológico. Neste contexto, adquire particular importância o livro de Thomas C. Patterson sobre a trajetória da Antropologia nos Estados Unidos. Patterson considera as condições históricas que permitiram a existência da disciplina, assim como as circunstâncias nas quais o conhecimento antropológico foi produzido, ressaltando que as contradições nesse conhecimento produzido pelos antropólogos americanos refletem divisões nas sociedades. Leia Mais

Relações internacionais: visões do Brasil e da América Latina | Estevão Chaves de Rezende Martins || A construção da Europa: a última utopia das relações internacionais | Antônio Carlos Lessa || Relações internacionais: economia política e globalização | Carlos Pio || Relações internacionais: teorias e agendas  | Antônio Jorge Ramalho da Rocha || Cooperação/ integração e processo negociador: a construção do Mercosul | Alcides Costa Vaz || Relações internacionais: cultura e poder | Estevão Chaves de Rezende Martins || Relações internacionais da América Latina: velhos e novos paradigmas | Amado Luiz Cervo || Relações internacionais e temas sociais: a década das conferências | José Augusto Lindgren Alves || Relações internacionais: dois séculos de história | José Flávio Sobra Saraiva

Com a publicação de mais quatro volumes, completa-se a coleção “Relações Internacionais”, do Instituto Brasileiro de Relações Internacionais (Ibri), organizada pelo diretor desse, José Flávio Sombra Saraiva. Com o apoio da Fundação Alexandre de Gusmão (Funag) e o patrocínio da Petrobrás, a coleção vem ao encontro e confirma, ao mesmo tempo, a maturidade que tem alcançado a produção acadêmica brasileira na área de relações internacionais.

O volume organizado por Estevão Chaves de Rezende Martins, Relações internacionais: visões do Brasil e da América Latina, reúne uma série de trabalhos sobre diversos temas importantes, escritos por especialistas brasileiros, argentinos e europeus. O livro é uma bela e mais do que merecida homenagem a Amado Luiz Cervo, editor desta Revista, que tem uma produção acadêmica notável no âmbito da história das relações internacionais, particularmente da política externa brasileira. Leia Mais

Brasil, Argentina e Estados Unidos: conflito e integração na América do Sul (Da Tríplice Aliança ao Mercosul, 1870-2003) | Luiz Alberto Moniz Bandeira

Moniz Bandeira, mais uma vez, surpreende. Sua nova obra, fruto de trabalho intelectual iniciado há 27 anos, consolida e desdobra suas reflexões acerca da inserção internacional do Brasil, já presentes, em grande parte, em outros trabalhos de igual fôlego como O expansionismo brasileiro e a formação dos Estados na Bacia do Prata (1980); Estado nacional e política internacional na América Latina: o continente através das relações Argentina-Brasil, 1930-1992 (1995); e Relações Brasil-EUA no contexto da globalização: rivalidade emergente (1999).

A referência aos seus trabalhos anteriores não exclui a originalidade do novo texto, que consubstancia um conhecimento resultante de três décadas de pesquisa. Ademais, Moniz Bandeira analisa a inserção internacional do Brasil no período mais recente da história das relações internacionais da mudança da conjuntura mundial em 1989-1991 aos dias atuais e comenta, sucintamente, os marcos teóricos que orientam sua reflexão, elemento praticamente ausente nos trabalhos anteriores. Leia Mais

Relações Internacionais do Brasil: de Vargas a Lula | Paulo Fagundes Vizentini

O estudo da política externa brasileira tem se valido dos avanços positivos experimentados por esse campo do conhecimento como um reflexo direto de programas de pesquisa cada vez mais consolidados e do incentivo à produção acadêmica provenientes das esferas pública e privada. Esses avanços, contudo, não representam um esgotamento dos temas a serem apreciados e das questões a serem resolvidas. Pelo contrário, o próprio caráter dinâmico da história faz com que o aperfeiçoamento do conhecimento seja a tarefa a ser buscada, o que de fato é exigido do estudo da história da política exterior do Brasil e dentro do qual o livro Relações Internacionais do Brasil: de Vargas a Lula é produto direto dessa preocupação eminentemente acadêmica.

A obra de Paulo Fagundes Vizentini responde às necessidades quase obsediantes daqueles diplomatas, professores, estudantes ávidos pelo conhecimento dos fatos mais relevantes da nossa história política contemporânea. Nesse sentido, destaque para a quarta parte do livro, na qual o autor enfoca o período de 1990 a 2002, apreciando e relacionando os impactos da globalização neoliberal com o culto irrestrito ao americanismo na passagem dos dois “Fernandos” pela presidência do Brasil, o que teria profundas repercussões sobre os rumos da política exterior do país. Além disso, procura demonstrar a fragilidade do Mercosul enquanto estratégia de inserção internacional, ao mesmo tempo em que aponta para o abandono do projeto nacional, que havia se amparado sobre o nacional-desenvolvimentismo no período anterior. Leia Mais

Chica da Silva e o contratador dos diamantes. O outro lado do mito | Júnia Ferreira Furtado

O mais novo livro de Júnia Ferreira Furtado, Chica da Silva e o contratador dos diamantes, conquanto possa ser lido como uma unidade discreta no interior da produção historiográfica da estudiosa mineira, alcança seu pleno sentido quando lido como parte integrante de uma pesquisa coerente sobre o avanço da colonização lusitana para o interior da América portuguesa e a implantação de núcleos de povoamento que possibilitaram a reprodução das estruturas de poder do Estado português em lugares cada vez mais distantes do centro de deliberação por excelência, a Metrópole.

Em livro publicado em 1998, Homens de negócio, a autora discutiu o importante papel que coube ao comércio como mecanismo propiciador da interiorização da Metrópole nas regiões em que os paulistas descobriram ouro. A necessidade de criação de novas rotas comerciais visando ao abastecimento dos novos núcleos urbanos afastados do litoral conduziu à organização do comércio de abastecimento que entrelaçava interesses de reinóis àqueles de muitos colonos que se lhes associaram. Segundo Júnia Ferreira Furtado, “o controle do mercado de abastecimento, essencial para sustentar uma população urbana que crescia; a cobrança de impostos sobre a atividade mercantil, como forma suplementar de arrecadação de metais; e o mecanismo de endividamento da população local, que ficava nas mãos dos comerciantes, foram algumas das estratégias de expansão dos interesses metropolitanos nas Minas, por meio da atividade mercantil”. Para além dos interesses propriamente mercantis, muitos comerciantes reinóis, prepostos de grandes casas de comércio lusas na América portuguesa, acabavam por dedicar-se à agricultura, à pecuária, à mineração, adquirindo terras, escravos, fixando-se à terra a ponto dos seus interesses não se diferenciarem dos interesses do colonato em geral. Leia Mais

Velhos Amigos | Ecléa Bosi

Ouvir o que os velhos têm a dizer sobre o passado raramente é experimentado e entendido como uma atividade aprazível. Identificar a poesia e a beleza contidas no conteúdo das narrativas memoriais é, ainda mais, uma tarefa de difícil realização. A exceção fica por conta dos interessados em estudar a memória, a oralidade, a narratividade e outros temas que vicejam nos campos acadêmicos, cultivados por pesquisadores, intelectuais e similares. Desde a modernidade que a memória parece relegada ao plano dos estudos, se descolando da característica de atividade construtiva do cotidiano humano.

Mas a professora Ecléa Bosi, ao conceber e escrever Velhos Amigos, não se deteve nessas questões, felizmente! Velhos Amigos tem ares de reencontro com narradores do ontem e do hoje, exibindo as fímbrias da teia que estabelecem os elos entre passado e presente. Esse texto estabelece o retorno a Memória e Sociedade; lembranças de velhos, tese de livre-docência da autora, publicada em 1973. Na apresentação do trabalho – originalmente a argüição a tese –, Marilena Chauí, a certa altura, escreveu que “o pensamento compartilhado. Outrora, a filosofia o nomeava: diálogo” (p. XXI). Ao terminar a leitura de Velhos amigos, recordei dessa afirmação esclarecedora. Fui conferi-la e criei a impressão de que Ecléa Bosi constrói essa interlocução de forma saborosa no livro em tela. Leia Mais

Educação e Sociedade na Primeira República | Jorge Nagle

No ano de 2001, à guisa de comemoração do terceiro milênio, a DP&A Editora brindou estudiosos, professores de história da educação brasileira e aos demais interessados com a publicação da obra do Prof. Jorge Nagle, Educação e Sociedade na Primeira República. Sua primeira edição (1974), bem como, a reimpressão (1976), resultado de uma parceria entre a Fundação Nacional de Material Escolar/MEC (Rio de Janeiro) e a Editora Pedagógica Universitária (São Paulo), estavam esgotadas há muito tempo. Tal situação forçava as pessoas, por necessidade de ofício, a violar os direitos autorais, xerocopiando a obra no todo ou em partes.

Trata-se de uma obra ímpar na interpretação da educação brasileira, no período da Primeira República. O Autor cunhou as categorias “entusiasmo pela educação” e “otimismo pedagógico”, para explicar a efervescência dos debates e disputas teóricas sobre a trajetória da educação, num momento em que a sociedade brasileira passava pela transição de uma sociedade agrário-comercial por outra, urbano-industrial. Leia Mais

Conhecimento e fronteira: história da ciência na Amazônia | Priscila Faulhaber e Peter Mann de Toledo

Conhecimento e fronteira: história da ciência na Amazônia ofe- rece aos leitores, além de farta documentação e muita informação, uma acurada análise a respeito do tema englobado pelo título: a história da ciência, dos cientistas e das instituições científicas na Amazônia brasileira. O livro focaliza primordialmente o Museu Paraense Emílio Goeldi (MPEG), sediado em Belém, e, de modo secundário, o Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa), sediado em Manaus. O volume está destinado a se tornar uma obra de referência.

O livro divide-se em duas partes principais. A primeira delas, intitulada ‘Estratégia científica e unidades de pesquisa na Amazônia’, reúne 14 ensaios e artigos de especialistas em história e política da ciência, em tecnologia e instituições científicas. A segunda parte, sob o título ‘Trajetória social e memória institucional’, apresenta as transcrições de 31 entrevistas e depoimentos de pesquisadores e administradores que atuaram direta ou indiretamente no MPEG, no Inpa ou no Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), órgão ao qual são subordinados esses dois principais institutos de pesquisa da Amazônia. A ‘cronologia’ dos dois institutos e a ‘iconografia’, levantadas com rigor e que figuram ao final do volume, formam uma terceira e enriquecedora parte, situando fatos e personagens mencionados ao longo do livro. Leia Mais

Americanos: representações da identidade nacional no Brasil e nos EUA | Lúcia Lippi Oliveira || A conquista do Oeste: a fronteira na obra de Sérgio Buarque de Holanda | Robert Wegner

Numa passagem de entrevista publicada no número 58 da revista Novos Estudos Cebrap (2000), Roberto Schwarz chama a atenção para o “comparativismo congênito” da história literária brasileira, que localiza invariavelmente a literatura produzida entre nós no interior da tradição ocidental mais ampla, conectando, portanto, produção nacional e matrizes européias. Nos trabalhos realizados nas áreas de sociologia e história, por sua vez, continua o crítico, o Brasil parece se esgotar nele mesmo, “como se o que acontecesse aqui dispensasse a consideração do resto” (p. 54). Se a advertência parece procedente em linhas gerais — as nossas ciências sociais, obcecadas pela compreensão do país, driblaram freqüentemente a empresa comparativa e os nexos com a produção internacional —, ela não se aplica a uma série de trabalhos produzidos nos últimos anos, entre os quais figuram A conquista do Oeste: a fronteira na obra de Sérgio Buarque de Holanda, de Robert Wegner, e Americanos: representações da identidade nacional no Brasil e nos EUA, de Lúcia Lippi Oliveira, ambos cuidadosamente editados pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Apesar de seus diferentes formatos e propósitos, os estudos têm, entre outros, o mérito de desprovincianizar a reflexão sobre o país, situando-a num debate ampliado sobre a(s) América(s).

Nesse sentido, a leitura dos volumes, lado a lado, revela-se extremamente proveitosa. Poderíamos dizer que os ensaios reunidos de Lúcia Lippi esboçam um grande painel sobre as relações Brasil-Estados Unidos no seio da qual o estudo de Robert Wegner se abriga ao focalizar estas mesmas relações através da obra de Sérgio Buarque de Holanda. De modo inverso, e complementar, o retrato minucioso pintado por Wegner permite qualificar processos e dimensionar questões apontadas no vasto e elaborado painel traçado por Lippi. Leia Mais

Norte-americanos no Brasil: uma história da Fundação Rockefeller na Universidade de São Paulo (1934-1952) | María Gabriela S. M. C. Marinho

En los últimos años han parecido varios y valiosos estudios sobre el papel de la Fundación Rockefeller, una institución creada en 1913, en la organización del conocimiento científico, la reforma de la enseñanza médica y la ejecución de campañas de salud internacionales. Originalmente, las primeros investigaciones se concentraban en el lado emisor, o norteamericano, y enfatizaban las motivaciones del mismo. Las motivaciones mas tradicionales eran las humanitarias y filantrópicas y las explicaciones mas críticas presentaban el programa de la Rockefeller como un medio más sofisticado para proteger e incrementar la productividad de las economías ligadas al capitalismo norteamericano y controlar a las élites locales a través de los sutiles mecanismos de la hegemonía cultural. Sin embargo, desde hace algunos pocos años los estudios sobre la relación entre la fundación y la ciencia se extendieron a varios países del mundo donde nuevos estudios empezaron a enfatizar el papel de la Rockefeller en los procesos locales de recepción, negociación y diferenciación entre grupos profesionales competitivos. Este importante libro de Marinho es ciertamente una contribución notable a esta renovada perspectiva de estudiar el impacto de la Rockefeller desde lo local. Leia Mais

Contos-de-fadas celtas

As narrativas selecionadas e apresentadas por Joseph Jacobs em Contos-de-fadas celtas são um convite para penetrarmos no fascinante mundo da mitologia celta. Os pequenos contos escritos ao estilo dos contos populares recolhidos pelos irmãos Grimm apresentam os elementos fantásticos comuns a esse tipo de narrativa: seres de outro mundo vem buscar os humanos para compartilhar as delícias da eterna juventude ou então, as personagens principais são grandes heróis capazes de toda e qualquer façanha para alcançar os seus objetivos. Alguns desses heróis são os protagonistas de determinadas histórias que fazem parte dos grandes ciclos das narrativas celtas, como por exemplo, o Ciclo Histórico ou o Ciclo de Finn. A maioria das narrativas foram reescritas e adaptadas durante a Idade Média e sofreram uma forte influência do cristianismo o que modificou um pouco algumas de suas características mas conservaram a essência da mitologia celta. As narrativas aqui selecionadas faziam parte da tradição oral do povo celta habitante das terras da Irlanda, Escócia e País de Gales e ainda hoje mantém vivos todos esses “contos-de-fada” como manifestação folclórica.

A primeira narrativa, “Connla e a donzela encantada” apresenta o herói Connla do Cabelo de Fogo, filho do rei Conn das Cem Lutas. Connla deixa-se seduzir por uma bela moça vinda do outro mundo. Ela o convida a seguí-la para juntos viverem em um lugar paradisíaco, onde ninguém sofre com doenças, a velhice ou morte. Conn, o pai tenta impedir o filho de partir nessa viagem sem volta mas, Connla parte com a jovem rumo ao pôr-do-sol e nunca mais são vistos. No desenrolar da trama elementos importantes da cultura celta vão sendo apresentados: a donzela aparece em uma curragh, barca de cristal mágica, utilizada para chegar ao Reino dos Mortos ou à Ilha de Avalon, ela oferece a Connla uma maçã, fruto sagrado e, por mais que esse fosse devorado, era sempre reconstituído.

Com uma narrativa ágil que prende o leitor ao texto os contos vão sendo apresentados de maneira a não só entreter, mas também, a apresentar a riqueza da cultura e mitologia celta.

Outra narrativa bastante interessante é “O’Shee Na Gannon e o Gruagach”. Esse conto vai apresentar o nascimento mágico da personagem título, O’Shee:

“O’Shee na Gannon nasceu de manhã, recebeu seu nome ao meio dia, e à noitinha foi pedir a mão da filha do rei de Erin em casamento”. (p.139)

Além demostrar como a personagem nasce, cresce e decide se casar no mesmo dia, ela escolhe como noiva a filha do rei de Erin, nome mitológico da Irlanda, clara referência ao passado mítico do país e a sua importância para o presente.

Mas, não só referências aos lugares sagrados e a alguns heróis desconhecidos existem nas narrativas; há um conto, “O pretendente de Olwen” onde o rei Artur e alguns dos futuros cavaleiros da Távola Redonda são personagens. Esse conto apresentado aqui em versão resumida mas conservando o eixo narrativo é um dos contos integrantes d’O Mabinogion [1]. O conto está nos “Quatro Contos Nativos Independentes”, segunda parte da obra e vai narrar a busca de Culhwch por sua pretendente, Olwen. O rei Artur, a mais conhecida personagem das narrativas que evocam tanto a mitologia celta como o imaginário medieval, é o pivô central da disputa pela mão da bela Olwen, auxiliando o primo Culhwch a conseguir vencer as provas para conseguir casar-se com a donzela. Nessa narrativa há descrições das armas utilizadas por alguns dos componentes das tropas do rei e, essas breves descrições apresentam a grandiosidade desses instrumentos nos remetendo ao espírito guerreiro dos celtas, mostrando a necessidade desse povo estar sempre atento às guerras e invasões de outros povos, fato constante e, portanto, era preciso estar em sempre em estado de alerta.

As descrições, tantos das armas como dos lugares e das personagens são realizadas de maneira sucinta, não há riqueza de detalhes, o que é uma características das narrativas mais curtas que privilegiam os aspectos fantásticos e mágicos esses sim, descritos com mais detalhes pois são o centro da narrativa. Há ainda alguns contos onde a personagem é visitada por seres fantásticos, como duendes e fadas e esses os agraciam com bons ou maus presentes dependendo da atitude do ser humano para com os seres etéreos.

As vinte e seis narrativas constantes no volume são uma pequena amostra da riqueza e beleza da mitologia celta e apresentadas na forma de narrativas curtas mas bem construídas, são fonte de conhecimento da cultura e sociedade celta e oferecem ao leitor e ao estudioso, subsídios para uma maior compreensão da importância do povo celta para a cultura ocidental.

Os elementos da narrativa fantástica estão presentes em todas as narrativas apresentadas e são eles, os responsáveis por enfatizarem o caráter mítico de cada conto e, desta forma, oferecer ao leitor – seja ele conhecedor da mitologia celta ou não -, uma chave para abrir as portas do fascinante mundo do povo celta.

Nota

1. A edição utilizada d’O Mabinogion é a seguinte: MORAIS, José Domingos (tradução e introdução) O Mabinogion. Lisboa: Assírio e Alvim, 2000.

Luciana de Campos – Doutoranda em Letras/UNESP/S.J. Rio Preto. E-mail: fadacelta@yahoo.com.br


JACOBS, Joseph (seleção). Contos-de-fadas celtas. São Paulo: Landy Editora, 2001. Resenha de: CAMPOS, Luciana de. Brathair – Revista de Estudos Celtas e Germânicos. São Luís, v.3, n.1, p.65-66, 2003. Acessar publicação original [DR]

Angus: o primeiro guerreiro. Livro um | Orlando Paes Filho

As narrativas de antigos guerreiros sempre fascinaram o ocidental moderno. Desde o romantismo, diversos romances foram escritos sobre façanhas ancestrais, elegendo principalmente a Idade Média como cenário para tal aventuras. Mas os denominados povos “bárbaros” – celtas, germanos e eslavos – sempre ocuparam uma posição secundária nestas literaturas. Foi somente no século XX que os escritores descobriram o universo encantador das obscuras etnias que sempre estiveram “à margem da civilização”.

Em seu lançamento de estréia, Angus, o escritor brasileiro Orlando Paes Filho realizou um projeto editorial ousado, com uma produção gráfica impecável e um monumental apoio de pesquisa. O livro conta a primeira etapa da formação do clã escocês MacLachlan, acompanhado de belas ilustrações e diversos mapas históricos ao final do texto. A condução da narrativa é bem feita, cativando em muitos momentos a imaginação do leitor. As cenas de batalha, desde seus preparativos até a sua sequência final, são maravilhosas, demonstrando um grande conhecimento do autor sobre a guerra nos tempos antigos. Aliás, a preocupação em conseguir definir um contexto histórico com mais precisão por toda a narrativa, levou o autor a solicitar apoio de acadêmicos, como o de alguns medievalistas brasileiros, alem de pesquisadores em arte sacra, como Marcelo Bertani. Mas devido ao fato da primeira parte da obra utilizar principalmente referências sobre a cultura Viking – praticamente desconhecida da academia brasileira – a obra acabou cometendo inúmeros erros, anacronismos, concepções moralistas e interpretações equivocadas, o que acabou comprometendo a qualidade geral do romance.

Em primeiro lugar, encontramos muitos erros etimológicos no texto, como por exemplo a utilização da palavra drakkar como sendo própria da cultura Viking (p. 31). Na realidade, ela surgiu de uma expressão latinizada na França, e a expressão original em Old Norse é Langrskip (navio longo, Haywood, 2000, p. 171). Já com relação à palavra Viking, no texto menciona-se “homens do norte, que chamavam a si mesmos de vikings” (p. 29). Recentemente, o especialista Jesse Byock demonstrou que o termo não designava originalmente os habitantes da Escandinávia, ou seja, eles não auto conclamavam-se com essa expressão. Ela era empregada para qualquer tipo de pessoa que navegava além mar, seja para motivações de pirataria, comércio pacífico e colonização (Byock, 2001, p. 11-13). Na mesma página, outro erro etimológico: “jarl, palavra da língua deles que significava exatamente comandante”. Porém, em Old Norse ela é traduzida como “conde” ou “lorde”, e segundo Haywood, originalmente significava “meant simply prominent man” (2000, p. 181). Para nomear as sacerdotisas das runas (p. 85), o autor utilizou a palavra “anjos da morte”, utilizada pelo árabe Ibn Fadlan no século IX d.C. e popularizada pelo filme “O 13º guerreiro”. Seria melhor utilizar a expressão original, spá-kona (mulher que conta o destino) ou völva (profetisa) (Boyer, 1981, p. 145).

Continuando a análise do livro, encontramos diversas interpretações incorretas. Logo no início, o autor descreve uma reunião de druídas, sacerdotes da religião celta, onde um monge cristão participa para revelar uma profecia (p. 11-22). A mesma situação se repetirá no desfecho, onde no círculo megalítico de Stonehenge, em meio a monges cristãos, um sacerdote druida oferece a Angus uma espada feita com os cravos da cruz de Cristo. Um situação totalmente impossível, do ponto de vista histórico. Representantes do paganismo nunca permitiriam a participação de cristãos em seus cultos, ainda mais num local muito significativo para as religiões pré-cristãs da Inglaterra, as ruínas de Stonehenge.

Com relação aos marinheiros Vikings, Paes Filho afirma que temiam a grande serpente marinha, Jormungandr, assim como os deuses oceânicos (p. 54). Nada mais incorreto. Esse monstro marinho não era temido, e sim respeitado pelos nórdicos, um verdadeiro símbolo da ordem e do caos no universo (Boyer, 1997, p. 435). Quanto aos deuses primordiais do oceano, Aegir e sua mulher Rán (depois substituidos em importância por Njörðr), eram aplacados facilmente com o transporte de peças de ouro nos navios (Boyer, 1981, p. 136). Aliás, em nosso conhecimento dos escandinavos medievais, podemos afirmar categoricamente que eles não temiam nada!

Outro equívoco do autor é a descrição do ritual Blóðörn (asa de águia) como sendo uma prática específica de um filho para vingar o pai morto. Na realidade, era um ritual utilizado para honrar o deus supremo, Óðinn, e também praticado em criminosos e prisioneiros de guerra (Boyer, 1981, p. 160).

Dois momentos do romance são puramente anacrônicos. No primeiro, o pai de Angus torna-se possuído por um sentimentalismo típico do mundo moderno, de origem hebraico-cristão: “Ninguém mais vai torturar prisioneiros que já foram derrotados e que não têm como se defender!” (p. 113). A prática de oferecer prisioneiros de guerra para rituais ao deus Óðinn era muito comum entre os nórdicos (tanto por afogamento, queima, enforcamento e pelo asa de águia), e de maneira nenhuma podemos considerála sádica, e sim, característica de uma cultura voltada essencialmente ao culto da guerra, ao belicismo e as consequências simbólicas na vitória dos conflitos (Boyer, 1981, p. 158-162). Em outro momento, Angus chora a morte do pai Seawulf (p. 138). Outra situação impensável para um guerreiro Viking e para os bárbaros germânicos em geral, pois mesmo diante da própria morte portavam-se sempre sorridentes e cômicos (Brøndsted, s.d., p. 236).

Comentando sobre antigos reis da Germânia e sua suposta descendência de Woden (Óðinn para os Vikings), Angus se revela perplexo: “Achei impossível e até engraçado alguém descender do próprio Odin” (p. 150). Era muito comum entre os escandinavos a associação entre esse deus com a dinastia dos governantes, e diversos skalds (poetas) e historiadores do século XII montaram verdadeiras listas da descendência divina dos reis nórdicos (Boyer, 1981, p. 142).

Mas apesar dos erros textuais, os piores problemas ocorrem nas ilustrações, obviamente as maiores perpetuadoras de estereótipos sobre os Vikings para a sociedade moderna (Langer, 2002). Nas maioria das imagens do livro os guerreiros são representados com enormes bíceps, musculatura descomunal, quase como praticantes de fisiculturismo moderno. Algo tão irreal quanto anacrônico. Essa maneira de representar os bárbaros surgiu com as primeiras imagens da obra do escritor Robert Howard, especialmente de seus heróis Conan e Kull. Durante os anos 1950, com Frank Frazetta, e posteriormente com Boris Vallejo e os inúmeros quadrinistas dos mesmos personagens, o bárbaro foi idealizado como símbolo do homem perfeito – forte e descomunal até os limites máximos do corpo humano. Com o filme Conan, o bárbaro (1982), o ator Arnold Schwarzenegger encarnou esse ideal, que persiste na arte atual como um verdadeiro modelo estético. Um dos únicos pintores que conseguiu retratar os Vikings com grande perfeição histórica foi Tom Lovell, com magníficas ilustrações realizadas para a revista National Geographic em 1970. Do mesmo modo, as mulheres representadas no livro Angus são irreais: seios gigantescos, corpo esguio e detalhes faciais típicos das modelos atuais.

Em uma análise do equipamento, causa muita admiração o fato dos ilustradores terem realizado uma pesquisa minuciosa, representando corretamente alguns capacetes reais da era Vendel, broches, mantos, escudos e espadas celtas. Mas ao mesmo tempo, apesar do estudo rigoroso, acabaram por perpetuar estereótipos bem conhecidos do grande público, como os fantasiosos capacetes com chifres e asas laterais (a ilustração “funeral de Wulfgar”, foi baseada na pintura “funeral de um Viking”, de F. Dicksee, 1893, uma das popularizadoras do estereótipo dos elmos chifrudos). Consideramos inadmissível um romance moderno sobre escandinavos ainda persistir em uma imagem tão ultrapassada dentro das pesquisas medievalistas (Langer, 2002).

Mas ainda existem outros erros. Por todo o livro, inclusive por parte do personagem central Angus, ocorre a utilização de machados duplos – um equipamento totalmente desconhecido pelos Vikings (utilizavam apenas machados de uma lâmina). Aliás, analisando-se o tamanho proporcional das peças ilustradas, o seu uso por apenas uma das mãos é algo impossível, mesmo por fortes guerreiros. Ainda com relação à esse armamento, na página 59 o autor descreve que no machado de Angus estaria gravado nas duas faces a runa de Þórr (Thor), chamada Thorn. Mas a ilustração “Seawulf, Angus e Hagarth na Ânglia do Leste” (p. 53), dentro deste contexto do romance, traz erroneamente a representação da runa Beorc no machado de Angus. Um descompasso entre texto e imagem.

Também as cotas de malha representadas (cobrindo todo o corpo) estão fora de contexto na época retratada (século IX d.C.) – visto que os escandinavos as utilizaram genericamente somente a partir do século XI d.C., principalmente na área da Normandia.

Em um ponto de vista da religiosidade medieval, a obra trata da conversão de Angus ao cristianismo – e em sentido simbólico – da supremacia teológica do cristianismo sobre o paganismo Viking: “Os deuses nórdicos são geniosos e impetuosos, mais humanos do que divinos. Mas aquele Deus dos cristãos, que fazia reis renunciar ao trono por devoção a Ele, deveria ser muito poderoso” (p. 107). Implicitamente, dizer que os deuses germânicos são mais antropomórficos que o deus monoteista hebraico-cristão é totalmente fantasioso e fora do contexto acadêmico moderno. O autor deveria ter lido alguns pesquisadores como Mircea Eliade, Régis Boyer e Joseph Campbell, que com certeza teria criado uma visão bem diferente das crenças da Europa pré-cristã. Aqui, evidentemente, as opiniões religiosas do escritor prevaleceram sobre seu personagem, tornando o livro uma ode ao triunfo do cristianismo. Uma lamentável opção, segundo o referencial dos leitores mais exigentes.

Em conclusão, devido aos inúmeros anacronismos do romance Angus, recomendamos a leitura dessa obra apenas como um passatempo inconseqüente. Para atingir uma proximidade maior com a verdadeira sociedade dos Vikings, ao leitor só resta aconselhar a busca por obras acadêmicas.

Referências

BOYER, Régis. Yggdrasill: la religion des anciens scandinaves. Paris: Payot, 1981.

_____ A grande serpente. In: BRUNEL, Pierre (org.) Dicionário de mitos literários. Rio de Janeiro: José Olympio Editora, 1997.

BRÖNSTED, Johannes. Os vikings: história de uma fascinante civilização. São Paulo: Hemus, s.d.

BYOCK, Jesse. Viking Age Iceland. London/New York: Penguin, 2001.

DUBOIS, Thomas A. Nordic religions in the Viking Age. Philadelphia: University of Pennsylvania Press, 1999.

HAYWOOD, John. Encyclopaedia of the Viking age. London: Thames and Hudson, 2000.

LANGER, Johnni. The origins of the imaginary Viking. Viking Heritage Magazine, University of Gotland/Centre for Baltic Studies. Visby (Sweden), n. 4, 2002b.

Johnni Langer – Facipal, Faculdades Integradas de Palmas, PR. E-mail: thor_odin7@hotmail.com


PAES FILHO, Orlando. Angus: o primeiro guerreiro. Livro um. São Paulo: Arxjovem, 2003. Resenha de: LANGER, Johnni. Brathair – Revista de Estudos Celtas e Germânicos. São Luís, v.3, n.1, p.67-70, 2003. Acessar publicação original [DR]

Ensaios sobre a intolerância; inquisição, marranismo e anti-semitismo – GORENSTEIN; TUCCI CARNEIRO (RIHGB)

GORENSTEIN, Lina; TUCCI CARNEIRO, Maria Luiza (orgs.). Ensaios sobre a intolerância; inquisição, marranismo e anti-semitismo. São Paulo: Humanitas; FFLCH/USP, 2002. Resenha de: ASSIS, Angelo Adriano Faria de. Revista do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, Rio de Janeiro, v.164, n.418, p.209-217, jan./mar., 2003.

Angelo Adriano Faria de Assis – Doutorando. Universidade Federal Fluminense.

Acesso apenas pelo link original

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Tempos interessantes. Uma vida no século XX – HOBSBAWM (RIHGB)

HOBSBAWM, Eric. Tempos interessantes. Uma vida no século XX. São Paulo: companhia das Letras, 2002. Resenha de: RODRIGUES, Lêda Boechat. Revista do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, Rio de Janeiro, v.164, n.418, p.219-223, jan./mar., 2003.

Lêda Boechat Rodrigues – Sócia emérita do IHGB.

Acesso apenas pelo link original

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Chilenizando a Tunupa. La Escuela Pública en el Tarapacá Andino 1880-1990 – MIRANDA (C-RAC)

MIRANDA, Sergio González. Chilenizando a Tunupa. La Escuela Pública en el Tarapacá Andino 1880-1990. Santiago: Ediciones de la Dirección de Bibliotecas, Archivos y Museos, Colección Sociedad y Cultura, 292p. Resenha de ROSAS, Luís Alberto Galdames; CORTEZ, Héctor González; CASTRO, Guillermo Williamson. Chungara – Revista de Antropología Chilena, Arica, v.35 n.1, ene., 2003.

Comentado por Luis Alberto Galdames Rosas*

El libro de Sergio González Miranda que edita la Dirección de Bibliotecas, Archivos y Museos nos propone dos títulos: Chilenizando a Tunupa, lanza al ruedo sin tapujos la contraposición de dos culturas: la chilena y la aymara, pero también sugiere un vínculo unidireccional determinado por las desiguales condiciones de poder entre ambas.

Chilenizando a Tunupa ilumina una asimetría que busca calar hondo en lo andino y promover una transformación profunda y consciente entre los pobladores aymaras de Tarapacá.

El segundo título: La escuela pública en el Tarapacá andino 1880-1990 corresponde, desde lo formal y explícito, al eje temático que organiza y sistematiza un conjunto de investigaciones que Sergio González ha llevado a cabo en el ámbito educacional.

Una nutrida bibliografía, fuentes documentales escritas procedentes de diversos archivos y testimonios orales proporcionan al autor de la obra una plataforma erudita construida a lo largo de su vida profesional. Con este sólido soporte, Sergio González se plantea como propósito “analizar la acción chilenizadora del Estado a través de la escuela pública, en el mundo andino de Tarapacá”.

Esta acción, desestructuradora para la cultura local, habría de provocar, sin duda, algún tipo de reacción por parte de la población andina. Por ello, adicionalmente a su propuesta central y no por esto menos relevante, González Miranda la dinamiza y plantea como tesis “que la actitud del hombre andino no fue pasiva frente al embate de las distintas agencias del Estado”.

Si bien la obra se puede clasificar derechamente en el campo de la producción historiográfica ofrece, además, una perspectiva interdisciplinaria que proviene de la amplia formación académica del autor en diversos campos del conocimiento y de su dilatada experiencia en terreno como investigador social y como hijo de la pampa.

Acaso por dicha formación, que reconoce raíces en la ciencia occidental positiva y por su práctica de vida, que lo ha puesto en contacto con el mundo andino y lo ha hecho permeable a sensibilidades culturales distintas a la propia, González Miranda busca instalarse en una posición equidistante entre un discurso oficial del Estado y sus agencias y visiones fundamentalistas tan en boga durante las últimas dos décadas.

No estoy convencido de que logre el mentado equilibrio, pero ello más que una crítica al autor constituye un llamado de atención a una visión andina que aún no ha sido capaz de construir y validar alternativas teórico-metodológicas que acojan con rigor el ethos aymara.

De esta búsqueda de equilibrio de percepciones distintas del mundo, el autor acepta y propone como herramienta significativa la práctica de una educación intercultural que asuma sin conflicto la existencia de lo diverso.

Nueve partes y un epílogo dan cuerpo a la obra. La primera de ellas, “Del refugio a la globalización”, resulta indispensable: allí se explicita el marco conceptual en el que mora y se despliega históricamente la escuela pública en Tarapacá. Asimismo, indica con rigor y lucidez la relevancia explicativa del ciclo de la expansión del salitre, que da cuenta en gran medida del carácter de los vínculos entre el Estado y la población andina y, más específicamente, de la necesaria articulación entre la fuerza de trabajo andina y las oficinas salitreras y del maridaje entre estas últimas y las comunidades campesinas merced al rol abastecedor de insumos agrícolas.

Para Sergio González, este contexto no es un mero telón de fondo que se pueda levantar o bajar indiscriminadamente para dar cuenta de la presencia de las escuelas públicas en Tarapacá; constituye, además, el guión por el que se orientan los papeles de los actores sociales y políticos y actúa como foco de luz que otorga significación a sus relaciones.

El desarrollo del transcurso en la obra, tan propio del trabajo del historiador, va contextualizando la presencia de la escuela pública, vinculando sus rasgos a los diversos procesos de reformas educacionales acaecidas durante el período de estudio que determina su autor.

Así, entre 1880 y 1930, la población andina de Tarapacá tendrá acceso a escuelas públicas que desplazarán abruptamente el modelo de las antiguas escuelas parroquiales que venían de la Colonia. Y el cambio suscitado no es menor. Durante este período, el autor nos recuerda la atmósfera nacionalista que imperaba en el territorio y que obligó a los pobladores andinos a redefinir sus relaciones con los hermanos de etnia en Bolivia.

Siguiendo un orden conscientemente planeado, primero la escuela se instaló en el espacio pampino; entre 1929 y 1930 la escuela se extenderá a los valles y a la puna altiplánica.

En la década de los 50, Estado y comunidades andinas se darán la mano en un mutuo interés por integrarse a la sociedad global, y para ello la difusión de escuelas públicas en el interior constituía, sin duda, una herramienta eficiente e insustituible.

Con gran agudeza, Sergio González advierte cómo durante los 60 se marca el fin del profesor normalista, desapareciendo el Estado Docente y dando paso al Estado Subsidiario. En este contexto, se abren los surcos para el crecimiento de la educación privada.

Especial mención merece, a nuestro juicio, el análisis que el autor lleva a cabo a propósito del período del Régimen Militar. En efecto, el énfasis puesto en la simbología patria, por ejemplo, no es otra cosa que la expresión de una mirada geopolítica según la cual lo aymara era percibido como una entidad ajena y contrapuesta a lo nacional, ligado a lo boliviano y por ende negativo desde la óptica geopolítica. En otro lugar hemos postulado que la presencia de la escuela y de otras agencias del Estado en el interior constituye, durante este período, una segunda etapa de chilenización.

Al momento de concluir estas pinceladas sobre la obra, me parece oportuno subrayar un regalo adicional que nos ofrece Sergio González y que trasciende los límites del territorio de Tarapacá. Me refiero al vacío que advierte respecto al conocimiento del profesor normalista. Nos hacen falta estudios profundos, rigurosos y aplicados que den cuenta contextualizadamente de su rol y de su paradigma. Resulta estimulante para las Universidades regionales recoger este desafío y afrontarlo aunque sea, en un primer momento, a través de memorias de títulos o tesis de postgrado. A esta labor habría que incorporar, ¿por qué no?, investigaciones similares en torno a los profesores de Educación General Básica y de Enseñanza Media.

Desde el orgullo disciplinario, estos desafíos no parecen ser empresas que puedan ser emprendidas solamente por las así llamadas ciencias de la educación. Hace falta reconocer y asumir el aporte de la Historia como disciplina y del conjunto de las ciencias sociales. Tal vez sin proponérselo conscientemente, Sergio González abre en este sentido rutas no transitadas. Replicar su enfoque a lo ancho del territorio podría resultar un primer intento digno de seguir y constituye, a mi juicio, un imperativo intelectual ineludible.

Comentado por Héctor González Cortez*

El Libro Chilenizando a Tunupa, del profesor Sergio González, es un aporte muy importante para la comprensión del mundo andino de esta región, nuestro Tarapacá profundo. Como todo buen libro fruto de la investigación acuciosa, aporta considerable y novedosa información sobre el tema de la introducción de la escuela pública entre los aymaras del interior de la Región de Tarapacá entre 1880 (año de la anexión a Chile de este territorio) y 1990 (el año del inicio de la transición a la democracia en nuestro país). La información y el análisis son contextualizados dentro de las políticas nacionales del Estado y las reformas educacionales implementadas dentro del período. También se enseña el contexto social y político existente en el país, la región y en la propia zona andina donde se va a introducir la escuela pública. Además, se caracteriza la labor y la visión de los propios docentes que ejercieron en las escuelas dispersas por las comunidades del interior.

En términos metodológicos se hace una acertada combinación de información bibliográfica y de documentación de archivos. Utiliza entrevistas y cuestionarios a los docentes y directivos de esas remotas escuelas. Se combinan así procedimientos historiográficos con el uso de recursos cualitativos más cercanos a la antropología y cuantitativos más próximos a la sociología. La información es analizada utilizando enfoques teóricos novedosos, para la forma en que hasta ahora se había procedido con este tema en el mundo andino del norte de Chile. El profesor González recurre a conceptos como los de “campo”, “habitus” y “violencia simbólica” de Pierre Bourdieu; a los aportes de la “microfísica del poder” de Michel Foucault; o al concepto de “violencia estructural” de Johan Galtung.

Pero, apuntando a lo que considero más importante de un buen libro, sus tesis son “provocadoras” en el sentido más acertado que puede tener la provocación: obligarnos a reaccionar sobre nuestras propias certidumbres y obsesiones. Desde mis preocupaciones antropológicas sobre el mundo andino, este trabajo del profesor González me ha provocado varias reflexiones, algunas de las cuales quiero compartir con ustedes.

Creo distinguir dos leitmotiv en las tesis que atraviesan el libro Chilenizando a Tunupa:

Que la introducción de la educación pública entre los aymaras del interior de la región no se debe entender solamente como la imposición de un Estado interesado en “chilenizar” a una población pasiva. Queda claro que fueron muchas veces los propios aymaras los que solicitaron las escuelas e incluso entregaron facilidades para ello.

Que los encargados de implementar el sistema, los propios profesores, no fueron plenamente conscientes de la violencia que ejercieron sobre los alumnos y la cultura aymara. Que sólo fueron agentes de una violencia estructural y simbólica ejercida desde la sinrazón de la razón del Estado, de una relación de poder entre Estado y saber.

Desde mi punto de vista, el libro Chilenizando a Tunupa es un texto antropológico. A propósito de “los otros” (la preocupación clásica de la antropología) trata sobre “nosotros”, examinando las políticas y prácticas, la violencia simbólica y estructural, que implicó la introducción de la educación pública entre los aymaras de las comunidades del interior.

Al hacerlo nos enseña la necesidad de, al menos, matizar aquellas propuestas que siguiendo un planteamiento dualista y unidireccional han planteado el holocausto de la cultura aymara, situando a la introducción de la educación pública como uno de los principales agentes de su hecatombe. Nadie duda que los aymaras fueron “chilenizados” y que una de las vías principales para hacerlo fue la educación fiscal. El libro del profesor González nos obliga ahora a indagar cuánto hicieron los propios aymaras por llegar a ser chilenos.

Por último me gustaría anotar que, curiosamente, cuando a partir de los años sesenta se masifica la presencia de la educación pública en el interior, los aymaras empiezan a dejar sus comunidades. Sabemos que uno de los principales factores de la emigración es la búsqueda de más educación para sus hijos, más de los seis años que, en promedio, ofrecen las escuelas de sus comunidades. Curiosamente también, este proceso no ha sido unidireccional ni el fenómeno puede inscribirse en un marco de comprensión dualista. Primero, porque la realidad enseña que no se trata de un asunto entre el campo opuesto a la ciudad. Los aymaras siguen circulando entre estos dos polos con redes complejas de movilidad de personas, bienes y capital cultural. Segundo, porque muchos jóvenes con los más altos niveles de educación encabezan hoy los procesos de reetnificación de su pueblo y varios de ellos están hoy presentes aquí en este acto.

La comprensión de estos procesos y fenómenos pasa por asumir su complejidad, por incorporar nuevos procedimientos de análisis. El libro del profesor González es un gran aporte en este último sentido.

Comentado por Guillermo Williamson Castro*

El libro Chilenizando a Tunupa. La Escuela Pública en el Tarapacá Andino 1880-1990, del académico de la Universidad Arturo Prat de Iquique, Prof. Dr. Sergio González Miranda, plantea una serie de reflexiones sobre la historia educacional de Chile vinculada a lo que es el desarrollo de las regiones y la expansión territorial del Estado-nación.

El libro entretiene, enseña y contribuye al conocimiento pedagógico y a la comprensión de la historia de la I Región de Tarapacá y con ello a la historia educacional de Chile, de sus pobladores rurales, de sus educadores, de sus pueblos indígenas. En un trabajo de investigación de varios años, hace un recorrido por las Reformas Educacionales y sus impactos en las prácticas docentes y las relaciones de los procesos educativos, con los contextos sociopolíticos-económicos de la Región. Analiza los procesos de “chilenización” a través de los cuales el Estado-nación se fue consolidando en las regiones que hace algo más de un siglo pertenecían a Bolivia y Perú, y en las comunidades ancestrales aymaras que ocupaban esos territorios. Metodológicamente utiliza una dinámica de presentación de los planteamientos semejante a las ondas del mar, transita entre los aspectos globales, estructurales de los procesos que analiza y las vivencias y testimonios de la cotidianeidad, y mantiene ese ritmo a lo largo del texto, lo que enriquece su lectura y su proximidad con la vida de los sujetos que día a día han construido la historia global. En su marco referencial utiliza categorías quizás hoy día poco usadas en las concepciones hegemónicas en las Ciencias Sociales, por ejemplo, las de violencia simbólica o estructural, de currículum oculto, de las relaciones entre saber y poder, pero que no por ello son de poca validez.

Comentarios emergentes del texto

Quisiera brevemente reseñar algunas reflexiones que me provocó la lectura del libro. Presentar un libro no es re-narrarlo, sería como contar una película y su final, hay que guardar el misterio que debe ser develado por el lector o lectora, pero también es estimular a su lectura crítica, reflexiva y constructiva. Quiero hacer algunos comentarios que me surgen a partir de la lectura como incentivo a conocer esta publicación, enfatizando algunos aportes temáticos a la comprensión de los procesos educacionales, más que realizando una crítica a ellos, que deberá hacer cada lector o lectora durante y luego de la lectura.

Aporte a la historia de la Educación Rural y de los/as profesores/as normalistas

La reivindicación crítica y autocrítica de los maestros rurales normalistas constituye un eje central del texto. La historia de la educación rural permite muchas perspectivas de análisis, pero sin duda que ninguna puede desconocer el esfuerzo de miles de profesores y profesoras normalistas que la hicieron y hacen posible, unos proletarizándose en ella, otros convirtiéndose en miembros económico-sociales de las comunidades, como medieros, comerciantes, intermediarios de las economías de sobrevivencia con los mercados locales, pero todos ­en su función de educadores­ representando la expansión y presencia del Estado-nación en las comunidades más alejadas del poder. “Hicieron patria” no sólo en el sentido común de construir la extensión de la sociedad a los campos y establecer soberanía cultural y territorial, sino en la más política de consolidar el Estado-nación en todos los rincones del país, “hacer patria” era “chilenizar” desde la educación pública. Y esto no como tareas individuales ­de la que docentes hacen autocríticas­ sino como parte de los procesos estructurales de imposición de modos de producción capitalistas, de una hegemonía cultural y lingüística, del poder del incipiente estado y de la democracia. El libro cuenta parte de esa historia rural de la educación, analizando críticamente el papel docente en la instalación del Estado y de la educación pública, y a través de ella de la hegemonía cultural de la sociedad. Establece un discurso histórico que se estructura entre lo que se produce en la sociedad global, con las Reformas Educacionales (principalmente en las de comienzo de siglo), expresión de los procesos políticos, económicos y sociales estructurales, con lo que sucede en las comunidades rurales del altiplano en su dinámica vital con la pampa y el litoral. Con ello aporta a la comprensión de la educación chilena y de la educación rural, rompiendo el eje de investigación focalizada en la zona central del país donde la Hacienda, hegemónica hasta la Reforma Agraria, parecía expresar el referente de análisis que englobaba homogéneamente la diversidad de territorios y contextos socioculturales del país rural. Aparecen otras zonas rurales, otros sujetos sociales, otros profesores y profesoras, otras expresiones de dominación y resistencia cultural. Pero también muestra que la Educación Rural no fue ni es equivalente a la Educación Intercultural Bilingüe (EIB): en realidad no consideraba la especificidad de lo aymara.

El papel del Estado y el movimiento indígena: la chilenización

Se analiza el papel del Estado en la chilenización de los territorios pertenecientes hasta hace algo más de un siglo a Perú y Bolivia. Esta es una parte de la historia social e indígena, educacional y de la EIB de Chile poco abordada, es una zona oscura de nuestra historia pedagógica. El libro abre la perspectiva de análisis aproximándose a las resistencias de docentes peruanos y bolivianos, a los cambios en las comunidades al fijarse límites nacionales a los territorios aymaras, donde antes no existían, discute la educación privada y la pública. Reafirma el carácter autoritario, modernizador y hegemonizante del Estado y sustenta ­como perspectiva de análisis­ el que las comunidades aymaras, el Estado y las empresas mineras (según la etapa de desarrollo de la minería) establecieron relaciones de negociación que involucraba demanda indígena por educación y aportes a escuelas, lo que en la práctica apuntaba a una estrategia social indígena de integración a través de la educación. La resistencia no se visualiza por la movilización social directa, sino más bien a través de mecanismos de negociación y formas de integración cultural (educación) y económica (asociándose a redes de servicios o de producción de ciertos insumos para las empresas mineras). Es una perspectiva a ser discutida y profundizada.

Una oportunidad y un desafío: la EIB para todos (tejido intercultural)

Se hacen una serie de interesantes aportes que sólo enunciaré. Un valor intrínseco es el aporte de la academia y del autor a los fundamentos históricos de la EIB, a la producción de conocimiento de base y mejor comprensión sobre ella, en particular sobre la realidad aymara que, en relación a la mapuche, aún tiene grandes campos desconocidos. Se deja en claro que la educación rural históricamente no ha considerado la EIB, que son expresiones educacionales distintas aunque operen en comunidades indígenas. El Estado en su proceso de expansión político tenía interés en constituirse como Estado-nación en todo el territorio y por ello no tenía preocupación en reconocer las culturas originarias. Los docentes no siempre fueron conscientes de este papel, por el contrario, lo asumían “patrióticamente” gracias a la ideología modernizadora y nacional de las Escuelas Normales, por ello algunos hacen una reflexión crítica sobre los procesos que vivieron hasta los noventa: la cultura y lengua aymara y la interculturalidad no constituyeron para ellos un referente pedagógico, muy por el contrario, se trataba de invisibilizarla de un modo autoritario, como ejemplifican algunos testimonios de indígenas. Se afirma la demanda de las comunidades al Estado por escuelas, aunque no siempre reivindicando la presencia de su cosmovisión; lo que expresa una actitud activa de construcción de planteamientos al menos de adecuación a los nuevos y cambiantes contextos estructurales de poder y dominación.

Pero junto a este mirar de denuncia, se plantea la EIB como una oportunidad en la que hoy es necesario tener confianza. La Reforma Educacional iniciada en la década de los noventa por los Gobiernos de la Concertación de Partidos por la Democracia se presenta, por sus características, como un esfuerzo de expresión política que reconoce la diversidad y el pluralismo cultural. Hay aquí una señal prospectiva de valoración de la EIB. Además resulta muy importante el uso de la categoría interculturalidad como referida a todos, lo que se manifiesta en la construcción de tejidos interculturales en los territorios, por cuanto no coloca la EIB sólo para los pueblos indígenas sino para el conjunto de la sociedad en sus relaciones socioculturales y lingüísticas en contextos de pluralismo cultural. Esta visión, correcta a juicio nuestro y de los pueblos, dirigentes e intelectuales indígenas, supone una igualdad de status lingüístico y de diálogo entre culturas, lo que no se da hoy, donde lo que impera es la dominación de cultura, pueblos (y clases). Hay aquí un tema de discusión. Este escenario es un desafío a construir que, a juicio nuestro, hoy pasa históricamente por el fortalecimiento orgánico, social, cultural, político de los pueblos, al establecimiento de alianzas amplias con otros sectores dominados e intelectuales y educadores críticos, junto a la denuncia y desarrollo de procesos de comunicación tendientes a generar una mayor comprensión y ojalá conciencia de la pluralidad cultural y los derechos humanos para el conjunto de la sociedad. Es valioso el análisis que coloca la interculturalidad como un punto intermediario que supera las reaccionarias categorías que afirman la contradicción entre modernidad y tradición, entre civilización o barbarie colocando a los pueblos indígenas en una noción de bárbaros tradicionalistas.

El papel del texto en la trasmisión ideológica

Finalmente es muy interesante cómo analiza y resalta el papel y la importancia del texto como vehículo de trasmisión y afirmación ideológica en el currículo y en la enseñanza. Presenta un enfoque crítico a los textos de estudio, como instrumento principal de los maestros en su quehacer pedagógico y de los niños y niñas en su aprendizaje, en relación a su función central en los procesos educativos de dominación cultural. Este es un campo de investigación, de estudio y sobre todo un desafío político-pedagógico de la Reforma Educacional en marcha, más aún en contextos de descentralización educacional y de hegemonía de empresas ­incluso multinacionales­ en la producción de textos, pese a los esfuerzos del Ministerio de Educación por generar pautas indicativas tendientes a afirmar la pluralidad cultural y el respeto por la diversidad en ellos.

La historia y la regionalización

Finalmente el libro es una reivindicación de las regiones. Es un modo de pensar Chile desde una región: la de Tarapacá. La historia de Chile y de la Educación se ha escrito desde el centro territorial del poder: Santiago y la zona central. El autor ofrece una parte de la historia de Chile oculta, la de un pueblo y un conjunto de sujetos sociales que hacen y han hecho historia fuera de ese eje de poder. Construir Chile, construir la democracia y el desarrollo es construir regiones y para ello es necesario conocerse y construir sentido de desarrollo territorial con identidad. A ello también contribuye el libro. Chile es construido no sólo en Santiago y la zona central, es más que la historia de las oligarquías agrarias o industriales, es más que los poderes financieros, es la historia de hombres y mujeres, con sus defectos, potencialidades y contradicciones, amores y pasiones, culturas y conciencia, que han hecho y hacen historia cotidianamente en todo el territorio del país. Quizás habría sido interesante profundizar más la visión indígena de los procesos sociales de que trata el libro, pero la perspectiva del autor estaba centrada en otros sujetos sociales. Aquí, sea cual sea la perspectiva crítica del lector frente al texto, hay un aporte de gran valor: hacer región es construir su identidad y para esto conocer su historia es algo fundamental.

Dos observaciones

Al leer el texto aparecen dos carencias a juicio nuestro que podrían ser tratadas en otros estudios o complementarse a éste. En primer lugar el análisis que se hace del período de la dictadura militar (1973-1990). No se profundizan los procesos de resistencia docente a las directrices y medidas del poder autoritario, como la municipalización de la educación y al autoritarismo en sí mismo, tanto en la cotidianeidad de las escuelas como orgánicamente, v.gr. en la Asociación Gremial de Educadores de Chile (AGECH); faltó mostrar la persecución a profesores ­entre ellos muchos normalistas­ y cómo la escuela rural durante este período fue considerada como lugar donde eran relegados profesores críticos. También al tratar la Ley Orgánica Constitucional de Enseñanza (LOCE) que nos rige hasta hoy, no se le relaciona con el conjunto de otras leyes de amarre que la dictadura dejó para la democracia y que consolidan un sistema económico neoliberal y una democracia limitada.

En segundo lugar, con las categorías de violencia simbólica y estructural, del discurso pedagógico como violencia social, coincidimos plenamente, sin embargo consideramos que falta un análisis del ejercicio del poder por parte de las alianzas de clases que la han ejercido. Sin estas categorías, es difícil establecer históricamente las relaciones entre Saber y Poder y determinar los componentes de la ideología que se trasmite a través de los textos, la pedagogía, la formación inicial docente. Un análisis histórico debe considerar esta variable, pues las relaciones de dominación/subordinación, de ejercicio de violencia y sufrimiento de la violencia, de violación de derechos humanos y de injusticia en su ejercicio, no pueden ser analizados en abstracto sino en relación a las fuerzas, organizaciones, categorías o clases sociales que se enfrentan contradictoriamente en la sociedad en su conjunto y en territorios específicos. La EIB en cuanto expresión política de la educación y campo de lucha, resistencia, alianzas y cooperación político-social, cultural-lingüística, no es ajena a ese contexto mayor, es parte de él con sus propias características.

Reflexión final

El libro nos plantea una discusión sobre la instalación y concepciones de la escuela pública y las políticas de Estado, que hoy se hace cada vez más necesaria en los nuevos contextos de país y de las relaciones entre los pueblos indígenas, el Estado y la sociedad global.

Sin duda que es interesante el aproximarse a una lectura regional de temas nacionales, o dicho de otra manera, conocer cómo los procesos estructurales de una sociedad se expresan en los diversos territorios que los reconstruyen, se apropian, resisten de maneras diferenciadas al “hacerse carne” en la vida cotidiana y en las estructuras regionales o locales de poder. Y también descubrir los procesos propios, autónomos, instalados en el largo acontecer de los tiempos de las comunidades que conforman las sociedades locales y regionales. La Educación es política decía con razón Paulo Freire, la educación es cultura como construcción humana, tiene sentido para todos o para algunos, es funcional a las estructuras de dominación, pero también conlleva gérmenes de rebeldía y transformación en la medida en que la pluralidad de creencias, sueños e ideales humanos se infiltran en los docentes y en los estudiantes, se enfrentan y tensionan discursos y significantes de las existencias personales y colectivas. La historia de los educadores es parte de la historia de construcción del país y de las comunidades rurales, las Reformas Educacionales expresaron momentos críticos de cambios institucionales y económicos nacionales e internacionales, la historia de la EIB (y su prehistoria) refleja el modo en que se establecieron y establecen las relaciones del o de los Estados con los pueblos indígenas.

Hoy en el contexto de una economía capitalista neo-liberal que entra en contradicción con profundos valores humanos de cooperación, igualdad, libertad, solidaridad, respeto por la naturaleza; de un sistema político de democracia limitada por un conjunto de leyes, ilegítimas en su origen, que han sido legitimadas por la necesidad de la gobernabilidad, pero que no responden a los requerimientos de la sociedad, afectando la real participación social de las comunidades rurales e indígenas, de los educadores. Con derechos humanos aún no vigentes para las grandes mayorías y las minorías del país, es muy difícil hacer una verdadera EIB que responda a los objetivos de establecer un nuevo trato entre Estado y pueblos indígenas, que cancele al menos parte de la deuda histórica con estas comunidades, que asuma pedagógicamente reivindicaciones culturales y lingüísticas, que permita igualdad de oportunidades para una educación de calidad con pertinencia. Pero también hay un tiempo de oportunidad para la EIB: la sociedad está valorando el pluralismo cultural y existe una mayor conciencia del carácter multicultural de la sociedad. Hay en desarrollo una Reforma Educacional donde por primera vez la EIB tiene un espacio político, recursos, ideas; los pueblos indígenas han ido sistematizando sus saberes y organizando sus demandas pedagógicas; progresivamente se ha ido acumulando conocimiento de base, técnico y empírico sobre la didáctica intercultural; en las escuelas se desarrollan múltiples experiencias en diversos campos de quehacer educativo; en algunas regiones lo indígena empieza a encontrar sentido global y a formar parte de la reflexión y acción colectiva. A aprovechar estas oportunidades llama el libro y a ello invitamos a los/las lectores/as.

Réplica de Sergio González Miranda*

Jorge Luis Borges, en Ficciones, nos recuerda que en el octavo libro de la Odisea se lee que los dioses tejen desdichas para que a las futuras generaciones nos les falte algo que cantar. Pareciera que quienes escriben libros, sea de literatura o ciencia, también investigan para tejer historias para que a las generaciones futuras nos les falte material para la vida.

Precisamente, desde comienzos de los años ochenta yo venía tejiendo esta historia sobre la presencia de la escuela pública chilena en el Tarapacá andino, pues me parecía que, por un lado, no había una visión de conjunto sobre este problema y, por otro, había conjeturas que, si bien parecían plausibles, era necesario corroborarlas. El tiempo pasaba y, a mi parecer, algunas de esas conjeturas se estaban convirtiendo en prejuicios.

Goethe dice en el Fausto “que con la elaboración de las ideas pasa lo mismo que con la obra de un tejedor, en la cual una simple presión del pie pone en movimiento un millón de hilos.” Quizás, algunos piensan que cuando una idea se refuta deberíamos deshacer el tejido hecho, pero con Karl Popper sabemos que una tesis refutada es el punto más firme en el telar del conocimiento.

Este libro, como muy bien observa Héctor González, tuvo por misión refutar una hipótesis, a saber: la idea o conjetura sobre el “etnocidio” (algunos autores llegan a denominarle “holocausto”) del mundo andino producto de la presencia del Estado Nacional en sus comunidades, y en especial de la escuela pública. Esta hipótesis la habíamos transformado en una verdad casi doctrinaria en los años ochenta. Además lo que veían nuestros ojos, con relación a la desintegración cultural de la sociedad andina frente a una creciente atracción urbana y sus instituciones, eran datos que aparentemente confirmaban dicha conjetura. Con este proceso de asimilación-desintegración no quedaba otra actitud que esperar impávidos la muerte o desaparición del mundo andino, desconociendo la complejidad del fenómeno cultural y humano.

Posiblemente mi espíritu científico popperiano respecto de la investigación sociológica e histórica y, como bien acota el profesor González Cortez, antropológica, para el caso de este estudio, me llevó a poner en duda la hipótesis del etnocidio. Como bien señala Luis Galdames, una investigación de esta naturaleza rebasa con mucho el campo exclusivo de la educación.

La escuela pública no era sólo un aparato de reproducción cultural, sino más bien se trataba de un “campo”, en palabras de Pierre Bourdieu, es decir, todos los actores participaban de alguna forma del fenómeno cultural. La llegada de la escuela pública a la pampa salitrera primero, seguidamente a los valles de precordillera y al altiplano después, en un período que abarcó un siglo, expresó un proceso de clara presencia y acción del Estado nacional, empero los pobladores no fueron meros contenedores de políticas públicas en educación, sino que se movilizaron con plena conciencia de una necesidad de escolarizarse para fines bien concretos. Ellos ya contrataban maestros particulares (bolivianos primero y chilenos después), desde comienzo del siglo veinte, para que les enseñaran el castellano a sus hijos. El gran fenómeno salitrero fue, sin duda, el efecto demostración para esa reivindicación cultural de los pobladores andinos. Sabemos que la industria salitrera no fue precisamente un diseño del Estado-Nación, sino más bien del capitalismo internacional.

A pesar de lo anterior, es necesario reconocer que hubo dominación del Estado-Nación respecto de la sociedad andina, pero ésta fue hegemónica, como diría Antonio Gramsci, es decir, los pobladores también tuvieron la posibilidad de influir a su dominador. Los campesinos tuvieron una conducta proactiva en favor de la presencia de la escuela en sus comunidades, llegando incluso a donar terrenos y casas, y, por otra parte, los maestros rurales hicieron una labor no sólo integradora a la identidad nacional, sino también emancipadora para dichas comunidades debido al ethos normalista que reprodujo en el aula los valores de la democracia.

Cabe una mención a la observación del profesor Luis Galdames Rosas, respecto del profesor normalista. Le agradezco que vea en este libro una mirada de contexto, por un lado, y un camino a futuras investigaciones sobre este importante actor del desarrollo regional. Al maestro normalista lo habíamos transformado en el gran culpable de la desintegración cultural del mundo andino, sin detenernos a reconocer sus aportes, tampoco de las condiciones y desafíos que debieron enfrentar y menos que eran, casi todos, muy jóvenes. Sostenidos en su ethos y en una misión bien definida, dos factores tan ausentes en la educación actual, emprendieron una de las hazañas educativas más notables de nuestra Historia regional.

Cuando el investigador tiene una perspectiva histórica o, como en este caso, trabaja con gran cantidad de información historiográfica, puede ver procesos, fenómenos que van cambiando en el tiempo. La chilenización no fue la misma a fines del siglo diecinueve, a medianos o fines del veinte. Hubo momentos de profundización del fenómeno, en otros de inflexión o retroceso. De lo que no cabe duda es de la constatación del proceso, pero no sabíamos cómo actuaron los diferentes actores y agentes en su desarrollo y, especialmente, como señala Héctor González, no conocíamos ni conocemos cuánto hicieron los propios aymaras por chilenizarse.

En los cien años de la presencia chilena en Tarapacá, y específicamente de la escuela pública, desde los primeros decretos firmados por Patricio Lynch hasta la promulgación de la LOCE, se puede afirmar que hubo efectivamente un proceso chilenizador, en determinados períodos compulsivos y simbólicamente violentos, generalmente confundido con un proceso civilizatorio sarmientino, donde chilenización y civilización suelen confundirse. Que dicho proceso generó un cambio cultural profundo en el mundo andino, pero que no fue el conjeturado “holocausto” o “etnocidio”, porque dicho mundo fue y es dinámico, complejo y culturalmente más flexible de lo que podíamos imaginar en los años ochenta.

Por lo mismo, podemos decir que todavía la sociedad andina está viva y tiene futuro, sea en las comunidades reales de la precordillera y el altiplano o en las comunidades imaginadas en las grandes ciudades.

Es por ello que se justifica con mayor razón el esfuerzo realizado por la Universidad Arturo Prat en pos de la formación de profesores de educación básica intercultural bilingüe, porque ellos utilizando la propia escuela pública podrán revertir en parte ese proceso de asimilación cultural. También ese esfuerzo ha permitido entender, sin prejuicios, la relación intercultural entre dos mundos complementarios al interior de un mismo territorio y nacionalidad, donde el joven andino puede desarrollarse con pertinencia en uno y otro sin perder su identidad. El ancla y la brújula que menciona Manuel Castells, refiriéndose a la relación entre identidad y globalización.

La visión modernizadora ve en esa identidad un pantano que impide el progreso, en vez de ver el ancla de la cultura, los pies seguros para enfrentar los vientos de cambios. Por su parte, la visión tradicionalista ve en la escuela el “etnocidio”, en vez de ver la brújula que permite orientar al joven la globalización. En este punto, el comentario del profesor Guillermo Williamson, quien además representa al Estado-Nación actual, es plenamente pertinente, demostrando con sus palabras y su presencia un cambio en las relaciones entre los mismos agentes que antes hicieron de la chilenización un fenómeno de violencia compulsiva. Como dijo, efectivamente hay una señal prospectiva de valoración de la EIB, tanto en el reconocimiento de los tejidos interculturales en territorios como Tarapacá como en la necesidad de una EIB para toda la sociedad chilena.

El título de este libro se refiere al dios andino Tunupa-Tarapacá, pero como expresión de un pueblo que vivió un proceso de asimilación cultural por parte de ciertas agencias del Estado, entre ellas la escuela, durante los siglos XIX y XX. Sabemos que en el siglo XXI los desafíos futuros que enfrentará la cultura andina, sin duda alguna, serán aún más complejos.

Este libro tiene deudas pendientes, facturas por su nacimiento, con Fondecyt y la Dirección de Investigación de la Universidad Arturo Prat, que posibilitaron la investigación de archivo y terreno. También con el Centro Barros Arana, con el Instituto Isluga y Terranuova por la edición del manuscrito.

Una mención especial para el Centro de Investigaciones del Hombre en el Desierto, del cual formo parte y que representa el espacio de investigación y reflexión por excelencia de estos temas de interés regional.

Les agradezco a los tres profesores: Héctor González, Luis Galdames y Guillermo Williamson, por sus interesantes comentarios. Para terminar, quisiera decir, con Borges, que la “historia es un inmenso libro…”, por tanto, este libro Chilenizando a Tunupa no es más que un par de líneas de ese libro eterno y verde de la vida. Al fin y al cabo, cada nuevo libro como cada nuevo hombre es en el fondo todos los libros y todos los hombres. Sacado definitivamente del telar, dejo entonces a Chilenizando a Tunupa en vuestras manos, porque ya no me pertenece.

Comentarios

1 Estos comentarios se presentaron en la ceremonia del lanzamiento del libro, en la Universidad Arturo Prat, Iquique, el día 2 de abril de 2003.

Luis Alberto Galdames Rosas – Departamento de Antropología e Historia, Universidad de Tarapacá, Arica, Chile.

Héctor González CortezDepartamento de Arqueología y Museología, Universidad de Tarapacá, Arica, Chile. E-mail: hgonzale@uta.cl

Guillermo Williamson Castro Profesor del Departamento de Educación y del Instituto de Desarrollo Local y Regional de la Universidad de La Frontera, Temuco. Actualmente se desempeña como Coordinador Nacional del Programa de Educación Intercultural Bilingüe del Ministerio de Educación. E-mail: gwilliamson@mineduc.cl

González Miranda – Universidad Arturo Prat, Iquique, Chile. Centro de Investigaciones del Hombre en el Desierto. E-mail:
sergio.gonzalez.miranda @cec.unap.cl

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O livro de ouro da história do Brasil | Mary del Priore

Resenhista

Cristiano Alencar Pereira Anais – Doutorando em História pela Universidade Federal de Minas Gerais.

Referências desta Resenha

PRIORE, Mary del; VENÂNCIO, Renato P. O livro de ouro da história do Brasil. Rio de Janeiro: Ediouro, 2001. Resenha de: ANAIS, Cristiano Alencar Pereira. História Revista. Goiânia, v.8, 1-2, p.159-162, jan./dez.2003. Acesso apenas pelo link original [DR]

Uma História da Justiça / Paolo Prodi

Paolo Prodi é atualmente catedrático de História Moderna da Faculdade de Letras e Filosofia da Universidade de Bolonha, Itália. Sua trajetória dentro do panorama da historiografia ultrapassa as fronteiras italianas e é impossível pensar na história das instituições e do direito sem recorrer a seus trabalhos fundacionais, sobretudo II sacramento deipotere. II juramento político nella storia costitu^ionak deliOcádente (1992) e //soiranopontefice (1998).- A obra que nos propomos resenhar aqui é uma continuação desses estudos anteriores, publicada na Itália, pela editora Mulino, em 2000, e traduzida para português, em 2002. Prodi passeia o conceito de justiça pela linha do tempo, revelando uma análise dialética entre as normas jurídicas e as normas morais, mas profundamente vinculada à história da cultura do Ocidente.

Sua pretensão, anunciada logo nas primeiras linhas da introdução, “é fazer uma reflexão histórica sobre o modo como a justiça foi vivida e pensada no nosso mundo ocidental, sobre uma tradição que faz parte do nosso patrimônio civilizacional e que agora estará, talvez, a extinguir-se” (p.13). Mais do que tecer uma teoria da justiça, o que Prodi se propõe é a colocar problemas que nos permitam compreender como chegamos até aqui, ou seja, à crise atual do direito.

Recuando à Grécia antiga, lembra que a consciência do cidadão coincidia substancialmente com a ordem objetiva do cosmos, uma vez que a polis era, ao mesmo tempo, Estado e Igreja. Já no mundo hebraico, a justiça será subtraída ao poder civil e colocada na esfera do sagrado. Em Israel, o pecado, como culpa aos olhos de Deus, desvincula-se do delito, este apenas compreendido como violação das leis dos homens.

A partir da Idade Média, Prodi reconstrói o embate entre o foro interno e o externo, por um lado, e o foro penitencial e o foro judicial, por outro. Uma configuração criada pelo direito canônico medieval, que “produziu uma confusão-fusão entre penitência, excomunhão e direito penitencial eclesiástico, com conseqüências até hoje na vida da Igreja e da sociedade civil” (p.108). O objetivo, por parte da Igreja, era fornecer à sociedade um sistema integrado de justiça. O fracasso da proposta afastou o perigo do monopólio eclesiástico nesta área, mas inaugurou “o caminho para o pluralismo dos ordenamentos jurídicos concorrentes, para o “utrumque ms” e para a distinção entre o foro eclesiástico e o civil, mas também para uma nova relação entre a lei humana (civil e eclesiástica) e a consciência”(p.109). Assim, o direito canônico encarna cada vez mais o lado humano e perde sua essência divina, passando a disputar os mesmos espaços dos outros direitos seculares.

Portanto, é fundamental recuar à Idade Média, para ver como se chega à idéia do dualismo entre o poder temporal e o espiritual e como esta percepção é matricial para se alcançar posteriormente “um equilíbrio dinâmico entre a união sagrada do juramento e a secularização do pacto político” (p.14). Neste caso valeria mesmo a pena recuar aos primórdios do Cristianismo para compreender como Igreja e Estado se separam, formando aquilo que Rosenzweig chamou de “grande duplo sistema” (p.109). Um dualismo que supõe a estreita convivência entre as duas esferas e não uma separação propriamente dita. Hoje, em plena vigência do poder secular, esquecemos amiúde que ele próprio encerra essa dualidade e que o Estado era tão cristão quanto a Igreja.

Além da dualidade entre o plano celestial e o terreno, surge um outro, o da Igreja, que não pode pretender arrogar-se a justiça divina, mas que tampouco está ao nível da justiça dos homens. Na realidade, ela vai estabelecer as pontes entre a justiça dos homens e a de Deus, desenhando o próprio espaço junsdicional, e emergindo da simbiose excessiva entre o poder tem poral e o espiritual dos primórdios do feudalismo. Aqui nasce a Respublica Christiana.

Este é o momento institucional mais emblemático da civilização ocidental, chegando-se mesmo a pensar em uma “revolução papal”. A grande questão é que apesar de que a Igreja se converta em uma instituição autônoma, jamais conseguiu o monopólio sagrado do poder. A competição e a cooperação se estabelecem com as cidades, as monarquias, as universidades, numa dialética que é o alimento da política da Respublica (p.64). Aqui está a chave para compreender toda a conflitividade junsdicional que arranca na Idade Média e atravessará todo o Antigo Regime. E esta concorrência que livrará o Ocidente da teocracia ou do cesaropapismo e que lhe permitirá viver no futuro as experiências liberais e democráticas.

Os embates em torno à jurisdição, ou ao foro são o resultado dessa maneira tão judaico-cnstã de construir a justiça. A assembléia dos fiéis (ecclesiae) converte-se num foro alternativo ao poder político, posto que ela tem autoridade para mediar o perdão da divindade. Essa assembléia institucionalizada na Igreja é herdeira desse foro – agora “foro eclesiástico” – que compete, complementa e legitima a justiça humana. Uma estrutura jurídica análoga à secular, sem a qual esta não se sustenta. Todas as instâncias do poder reconhecem- se como agentes ativos de uma “respublica sub Deo” e no exercício de suas funções são orientadas por uma ética inspirada na autoridade divina, o que explica que sempre se busque a convergência entre o foro externo e o interno.

Prodi mostra, ao longo de nove capítulos, que a construção do direito no mundo ocidental está assentada na dialética entre ética e direito, consciência e lei, pecado e delito, dando-lhe um perfil dinâmico e sempre atual. Entretanto, quando o direito positivo tende a normatizar e regular toda a vida social, e se ilude de que é capaz de resolver todos os problemas e conflitos, tornando-se absoluto, instala-se a crise. Cada vez mais, surgem problemas em tomo às regras positivas – que nunca são suficientes -, exige-se a especialização da autoridade. Um espesso tecido legal é invocado para cobrir todos os aspectos da vida cotidiana, e as leis transformam-se em camisa de força, engessando a dinâmica da sociedade. Prodi se interroga como será possível garantir a sobrevivência da civilização jurídica ocidental sem contar com as distintas normas morais que, desvinculadas do direito positivo, garantiram ao ocidente, no passado, o oxigênio necessário à sua revitalização. O pluralismo dos ordenamentos medievais deu lugar a um confronto entre um direito inexoravelmente amarrado ao poder e uma norma moral que agora já não consegue encontrar um espaço que vá além da consciência.

Esta História da Justiça de Paolo Prodi é uma obra indispensável, um instrumento fundamental para compreender como chegamos a esta encruzilhada: uma justiça que se deixou engolir pelo reducionismo da norma e do nominalismo. Uma justiça inoperante, cujo artífice está tão inebriado com a própria criatura, que não consegue mais percorrer o caminho filosófico que lhe dava sentido: do ser aos conceitos, dos conceitos aos termos. A justiça está agora amarrada unicamente aos termos e os “operadores de Direito” já não conseguem estabelecer a conexão entre este nominalismo, a realidade e o objetivo que a gerou. Por outro lado, perdida a dimensão plural das normas e das sedes de juízo, compromete-se o futuro liberal e democrático da sociedade.

Maria Filomena Coelho Nascimento – Pesquisadora associada ao Programade Pós-Graduação em História da Universidade de Brasília.


PRODI, Paolo. Uma História da Justiça: do pluralismo dos tribunais ao moderno dualismo entre a consciência e o direito. Lisboa: Editorial Estampa, 2002, 494p. Resenha de: Textos de História, Brasília, v.11, n.1/2, p.247-250, 2003. Acessar publicação original. [IF]

Pueblos de Mar: relatos etnográficos – SALVO (RCA)

SALVO, Andrés Recasens. Pueblos de Mar: relatos etnográficos. Santiago: Ediciones del Departamento de Antropología, Universidad de Chile; Bravo y Allende Editores, 2003. Resenha de: MÁRQUEZ, Francisca. Revista Chilena de Antropologia, n.17, p.199-202, 2003/2004.

Francisca Márquez – Antropóloga. Universidad A. Humanismo Cristiano.

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Black Imagination and the middle passage | Maria Diedrich, Henry L. Gates e Carl Pedersen

Danilo Rabelo

DIEDRICH, Maria; GATES, Henry Louis; PEDERSEN, Carl. Black Imagination and the middle passage. Oxford University Press, 1999. 320p. Resenha de: RABELO, Danilo. Revista Brasileira do Caribe, São Luís, v.3, n.6, jan./jun., 2003. Arquivo indisponível na publicação original. [IF]

 

Os 100 Livros que mais influenciaram a humanidade: a história do pensamento dos tempos antigos à atualidade | Martin Seymour-Smith

Este livro é um bom exemplo de uma excelente idéia mal executada. Não me refiro a inadequações editoriais meramente, como o Sefiroth impropriamente impresso no comentário acerca dos Anais de Tácito (p. 152), que, suponho, não é um texto cabalístico (o Sefiroth aparece depois novamente, mas em lugar adequado, na p. 206), mas erros do autor na tentativa de executar a idéia proposta pela editora. Não se pode questionar a validade da idéia. Eu mesmo muitas vezes tive a iniciativa de listar os livros mais importantes de alguma área ou sobre algum assunto. Importa, no entanto, avaliar a execução da idéia, e é aí que os problemas começam a surgir.

Seymour-Smith privilegia obras da tradição filosófica, em detrimento de outras áreas como a literatura e as ciências humanas. Seu livro chega às vezes a se parecer com um compêndio de filosofia qualquer, até porque o autor, cometendo um erro grave, “força a barra” e considera, por exemplo, as obras completas de Aristóteles como um único livro, e depois faz o mesmo em relação a Leibniz. Assim, a dificuldade de escolher as cem obras mais influentes se esvazia inteiramente, e caminha-se em direção da escolha dos cem autores mais influentes, o que é outro projeto, bem mais comum e mais fácil, diga-se de passagem. Leia Mais

Velhos Amigos | Ecléa Bosi

Ouvir o que os velhos têm a dizer sobre o passado raramente é experimentado e entendido como uma atividade aprazível. Identificar a poesia e a beleza contidas no conteúdo das narrativas memoriais é, ainda mais, uma tarefa de difícil realização. A exceção fica por conta dos interessados em estudar a memória, a oralidade, a narratividade e outros temas que vicejam nos campos acadêmicos, cultivados por pesquisadores, intelectuais e similares. Desde a modernidade que a memória parece relegada ao plano dos estudos, se descolando da característica de atividade construtiva do cotidiano humano.

Mas a professora Ecléa Bosi, ao conceber e escrever Velhos Amigos, não se deteve nessas questões, felizmente! Velhos Amigos tem ares de reencontro com narradores do ontem e do hoje, exibindo as fímbrias da teia que estabelecem os elos entre passado e presente. Esse texto estabelece o retorno a Memória e Sociedade; lembranças de velhos, tese de livre-docência da autora, publicada em 1973. Na apresentação do trabalho – originalmente a argüição a tese –, Marilena Chauí, a certa altura, escreveu que “o pensamento compartilhado. Outrora, a filosofia o nomeava: diálogo” (p. XXI). Ao terminar a leitura de Velhos amigos, recordei dessa afirmação esclarecedora. Fui conferi-la e criei a impressão de que Ecléa Bosi constrói essa interlocução de forma saborosa no livro em tela. Leia Mais

Entre a história e a liberdade: (Luce Fabbri e o anarquismo contemporâneo) – RAGO (RBH)

RAGO, Margareth. Entre a história e a liberdade: (Luce Fabbri e o anarquismo contemporâneo). São Paulo: UNESP, 2001. 368 p. Resenha de: LEITE, Miriam Lifchitz Moreira. Revista Brasileira de História, São Paulo, v.23, n.46, 2003.

Margareth Rago teve uma oportunidade raríssima: conversar com Luce Fabbri na casa dela, em Montevidéu. Enquanto a autora italiana (1908-2000) se empenhava em terminar de escrever a biografia de seu pai, Luigi Fabbri (1877-1935), relata à brasileira etapas de sua vida e o desenvolvimento de suas idéias.

Apesar da diferença de aproximadamente 40 anos, a historiadora brasileira e a italiana tinham, como professoras universitárias, um universo de discurso comum. Partilhavam inúmeras idéias e aspirações, não só políticas como educacionais. Encontraram as condições ideais para uma troca produtiva de idéias, raramente atingida em entrevistas comuns.

Assim como a biografia de Luigi Fabbri estava inserida na história do anarquismo europeu, a de Luce insere-se na do anarquismo europeu e sul-americano. Houve, portanto, não apenas a oportunidade de comparar experiências, como também a possibilidade de discutir o processo de trabalho que estavam realizando. As duas recuperavam, através de vida intelectual, uma história de que eram representantes e que tem sido desmerecida, deformada e ocultada pela história dos poderosos.

Para Luce, os instrumentos de trabalho e as fontes provinham de amigos de infância, textos escritos, documentos recolhidos através da vida organizados por critério diversos dos da história oficial. Para Margareth Rago, com um gravador e um computador, bolsas de estudo e visitas sucessivas à casa, à biblioteca e ao arquivo de uma anfitriã erudita, tão interessada no seu, como no trabalho da jovem anarquista.

As duas estavam conscientes de estar revelando aos contemporâneos o sentido da libertação social do anarquismo, que vem sendo desprezado como utopia pré-capitalista e soterrado sob o título de utopias românticas. Esta corrente de elos históricos vem desde Malatesta (1853-1922), que no maior Congresso Anarquista, em Amsterdã, em 1907, já teria apresentado o então jovem Luigi como seu “filho.” Esta, amigo de Malatesta até a morte, encarregou-se de sua biografia. O anti-autoritarismo fundamental do anarquismo, a sua busca de uma liberdade solidária e fraternal como um meio de vida e a rejeição os poderes macros e micros da vida social vêm sendo revelados em inúmeras de suas faces por esses biógrafos sucessivos. E agora, através das línguas italiana, castelhana e portuguesa, pelas duas militantes contemporâneas.

A casa em que Luce nasceu tinha um ambiente de compreensão e liberdade sem imposições externas — nem de opiniões, nem de atitudes, nem de religiões. Eram todos antiautoritários e solidários. Nem sequer o anarquismo lhes foi imposto. O pai explicou aos filhos os seus pensamentos a respeito, pediu-lhes que refletissem sobre isso e decidissem quando se sentissem capazes de fazê-lo. Luce estudou Letras na Universidade de Bolonha e seu irmão tornou-se marceneiro, sem qualquer ingerência em suas vocações, nem apelos aos seus gêneros. O pensamento de cada um era respeitado, o que é comprovado pela contestação que Luce, ainda muito jovem, fez ao pensamento de Malatesta, já figura proclamada do pensamento anarquista.

Nessa casa de uma harmonia invejável, Luce teve contato desde muito cedo com os amigos de seu pai, um professor primário e depois secundário, criador de uma Biblioteca popular para os operários, por volta de 1917. Esses contatos constituíram um outro perfil de educação, além da educação formal pequeno-burguesa, e revelou a sua vocação teórica em trabalhos de literatura, história e crítica política que publicava nos jornais criados pelos amigos de seu pai.

O respeito a essa vocação fez com que sua mãe, e depois no Uruguai, seu marido — um operário italiano imigrado e autodidata — a eximissem das “obrigações femininas” da vida privada (com comida e crianças) para que pudesse desenvolver sua vocação. Neste sentido, não passou pelos problemas de gênero que sufocaram inúmeras feministas, proibidas de estudar, proibidas de pensar e de trabalhar fora, consideradas como elementos de Segunda classe. A questão feminina não se apresentava como prioritária em suas reflexões. Considerava que resolvido o problema social, o sexual estava automaticamente decidido. Mais tarde, retomou a questão verificando a possibilidade das mulheres, habituadas a administrar situações não-lucrativas, como cuidar de crianças, de velhos e doentes, serem mais capazes de administrar as associações solidárias.

Sofreu desde a infância as injustiças e os temores provocados pela perseguição política infringida ao seu pai pela polícia fascista. Viver vigiada pela polícia foi uma experiência de toda a vida. Seu pai perdeu o cargo de professor, conquistado em concurso, por não Ter jurado fidelidade ao fascismo italiano, o que ela veio a repetir por ocasião de seu doutoramento na Universidade de Bolonha, com uma tese sobre o geógrafo anarquista Eliseé Reclus.

Perderam assim o direito a ter passaporte, e para sobreviver foram obrigados a sair clandestinamente da Itália, através do auxílio de núcleos anarquista capazes de se articularem sob a truculenta polícia fascista.

Nas mais difíceis condições e deixando para trás o irmão, a família Fabbri emigrou para Montevidéu, onde uma grande população de italianos imigrados os acolheu e auxiliou.

Luigi Fabbri sofreu muito com o afastamento do filho e da terra em que sempre vivera e da qual se afastara obrigado. Luce ainda moça, conhecendo a língua e com um entusiasmo militante, teve condições de aproveitar as características sociais do país a que tinha chegado, com suas associações e ateneus, além de um clima bem mais ameno que o de Bolonha. Ademais, veio a encontrar aí, em sua própria casa, o marido. Trabalhou inicialmente como professora de História, e mais tarde, na Universidade, pôde voltar-se para sua paixão pela literatura italiana, que nunca a abandonara.

Em Montevidéu, formara-se a Comunidad del Sur e uma editora, a Nordan-Comunidad, que funcionavam de acordo com os princípios anarquistas, de autogestão, incorporando a tecnologia contemporânea. A liberdade individual era cultivada como meio de criatividade e desenvolvida por formas educacionais alternativas, através de jornais, panfletos e trabalhos que levavam em conta pensamentos e sentimentos dos componentes da comunidade.

Uma questão mal estudada e que preocupou Luce Fabbri foi o autodidatismo dos trabalhadores. A necessidade de absorver o conhecimento com que ela conviveu desde muito cedo e a sede de instrução que sentiu entre homens e mulheres, sem oportunidade de contar com educação formal, que freqüentavam a Biblioteca Popular, depois de um dia de dez horas de trabalho estafante, estimularam os seus esforços didáticos e suas reflexões dirigidas para a auto-educação. “Caracteres e importância del autodidactismo obrero”, que publicou em Brecha, jornal de Montevidéu, em 1998, foi apenas uma de suas abordagens desse aspecto da educação.

Intercalando as entrevistas com cenas do convívio diário, Margareth Rago nos apresenta uma obra restauradora da confiança no ser humano e em sua capacidade de viver o presente. Embora disfarce as dificuldades da tarefa interlingüística a que se propôs com um entusiasmo contagiante, é possível constatar o esforço exigido para organizar uma bio-bibliografia de tais proporções e de tal conteúdo.

Mostra claramente como a idéia de anarquismo não deve ser pensada como ponto fixo ao qual se deve chegar, mas como um caminho a seguir, como Luce escreveu em 1952, em La Strada. Esse caminho que Luce continuou a percorrer pela vida afora, sempre preocupada em inventar um presente que permitisse a descoberta e a criação de novas alternativas. O conhecimento do passado e das tradições nos é necessário como solo onde é possível enraizar-se e fortalecer-se, para politizar constantemente as palavras e reconhecer o seu poder e a magia da produção poética por sua capacidade criadora. Ao trabalhar sobre a reforma do secundário, insistiu no ensino da língua castelhana em todos os graus, como o grande instrumento de comunicação e congraçamento.

Escrito como tese para obtenção do título de livre-docência, ele deve ser lido mais como um ato de militância e de esperança no momento presente.

Miriam Lifchitz Moreira Leite – Universidade de São Paulo.

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E. P. Thompson. As peculiaridades dos ingleses e outros artigos – NEGRO; SILVA (RBH)

NEGRO, A. L.;  SILVA, S. (orgs.) E. P. Thompson. As peculiaridades dos ingleses e outros artigos. Campinas: Editora da Unicamp, 2001. Resenha de: SECRETO, María Verónica. Revista Brasileira de História, São Paulo, v.23, n.46, 2003.

“Mentes que anseiam por um platonismo asseado logo se tornam impacientes com a história real.”

E.P. Thompson.

Peculiaridades dos ingleses é mais do que uma tradução. Na epígrafe, Christopher Hill diz sobre E. P. Thompson: “sua influência mundial sobre os estudantes de história tem sido incalculável“. Nenhuma frase ilustraria melhor o significado deste livro. Uma versão “doméstica” da Unicamp circulava faz alguns anos por iniciativa dos tradutores, quando realizavam o mestrado em história da Unicamp. Tratava-se de um texto para fins didáticos e de estrita circulação interna. Naquela versão antecipou-se a realização de um artigo de Alexandre Fortes e Antonio Luigi Negro sobre Thompson. Este viu-se concretizado no artigo que integra a parte introdutória da coletânea em questão, sendo intitulado “As peculiaridades de E. P. Thompson,” (e que também traz a autoria de Paulo Fontes). Previa-se a tradução de “Folclore, antropologia e história social,” igualmente incluído junto com “Nota sobre ‘As peculiaridades dos ingleses,'” “A história vista de baixo,” “Modos de dominação e revolução na Inglaterra” e “Algumas observações sobre classe e ‘falsa consciência.'”

O artigo de Sérgio Silva “Thompson, Marx, os marxistas e os outros,” e o de Hobsbawm, “E. P. Thompson” (este último escrito por ocasião de sua morte) complementam essa parte introdutória.

Historiador, socialista, poeta, ativista, orador, escritor, marcado pela sua origem, pela tradição e pelo critério de lealdade, são algumas das adjetivações que Eric Hobsbawm dedica a Thompson.

Entre os adjetivos adjudicados por Hobsbawm talvez tenha esquecido o de empirista. “Peculiaridades de E.P. Thompson” inicia com uma epígrafe do próprio Thompson, fortemente marcado por sua negação das filosofias da história ou das visões teleológicas. Supondo que a história seja um túnel por onde corre um trem expresso rumo a uma planície ensolarada, e no qual vivem gerações de passageiros que nascem e morrem sem ver a luz, o interesse do historiador deverá centrar-se na qualidade de vida, no sofrimento e satisfações daqueles que vivem e morrem nesse tempo não redimido; escreveu…

Poderíamos resumir as peculiaridades inglesas com uma frase do autor: “aconteceu de um jeito na França e de outro na Inglaterra”. A comparação surge no contexto do debate em que é produzido o artigo que denomina a coletânea “As peculiaridades dos ingleses.” Três artigos representantes da nova corrente da New Left Review (dentro da tendência iniciada na década de 1960) são o marco da construção de Thompson: “Origins of the present crisis” de Perry Anderson; “The British political elite” e “The anatomy of the Labour Party,” de Tom Nairn. Quando observada a partir da perspectiva francesa, a história inglesa apresentaria três importantes falhas: 1 – caráter prematuro e incompleto da revolução do século XVII. Conseqüentemente, a burguesia industrial não conseguiu obter a hegemonia mantendo uma relação simbiótica com a aristocracia terra-tenente; 2 – esta revolução do XVII foi impura porque impregnada de questões religiosas. A burguesia satisfez-se com a “ideologia do empirismo,” pela qual o legado intelectual da revolução teria sido quase nulo. Por último, uma revolução burguesa prematura deu lugar a um, outrossim, prematuro movimento da classe trabalhadora. O marxismo chegou tarde para esses trabalhadores, enquanto em Outros Países o marxismo arrebatou a classe trabalhadora.

Para responder a estes argumentos, Thompson entra num tema mais do que clássico: as origens e a natureza do capitalismo inglês.

Analisando essas origens, Anderson e Nairn não podem aceitar a noção de uma classe agrária rentier ou empresarial como uma verdadeira burguesia. Thompson recorre para resolver esta questão ao próprio Marx, que trata largamente do capitalismo agrário e do farmer como um capitalista industrial. O que houve no século XVIII, diz Thompson, foi uma redefinição capitalista do estatuto básico da propriedade, bem como da racionalidade da produção e das relações produtivas. Com um tom irônico, Thompson diz que é impossível compreender as origens do capitalismo inglês se esquadrinhamos as “províncias atrasadas” com olhos parisienses.

Em meados do século XVIII, Thompson localiza um momento chave da transição quando cada vez mais integrantes da gentry deixaram de se ver como beneficiários de rendas e benefícios estáveis, e passaram para um papel mais agressivo em busca de lucro, seguindo a lógica de receitas crescentes. Detalhe relevante, o autor não deixa de reparar que a revogação da economia moral não foi obra da burguesia industrial, mas dos interesses agrários.

Podemos voltar àquela frase “aconteceu de um jeito na França e de outro jeito na Inglaterra” porque Thompson nos lembra que a mistura capitalista-agrária inglesa foi excepcional, e se não há lugar para esta no modelo, o que deve ser mudado é o modelo. Segundo o autor, o que incomoda Anderson e Nairn é a passagem do capitalismo agrário e mercantil do XVIII para o capitalismo industrial do século XIX.

A Revolução Francesa não foi típica. Thompson se opõe ao modelo que concentra a atenção sobre um episódio dramático, “A” revolução, que se constitui em tipo ideal.

CIÊNCIAS NATURAIS, ECONOMIA POLÍTICA E LINGUAGEM EMPÍRICA

Como tínhamos adiantado, uma das caracerísticas da via inglesa, segundo Anderson e Nairn, foi o “empirismo cego”. A burguesia inglesa não teria transmitido impulsos de libertação à classe trabalhadora, nem valores revolucionários, só teria transmitido germes mortais do utilitarismo.

Conseqüência do que “realmente aconteceu” — o diferencial thompsoniano — a Revolução Inglesa foi disputada em termos religiosos porque a religião importava. Anderson e Nairn, diz Thompson, prefeririam que a Revolução tivesse ocorrido não em torno da religião, mas contra qualquer religião, desprezando o fato de que o protestantismo permitiu a expansão do racionalismo. Outro fato: não existia um enclave intelectual independente, mas uma multiplicação de enclaves intelectuais. Na Inglaterra de final do século XVIII e no XIX havia uma forte tradição de dissidência. Esta tradição não seria capaz de gerar um Marx, mas sem ela Marx não teria escrito O Capital. Esta tradição ainda foi capaz de gerar um Darwin. Podemos lembrar que quando o capitão Fitz Roy contatou Darwin para o acompanhar na expedição científica, o fez com o intuito de que o jovem cientista demonstrasse a existência do dilúvio e sua universalidade. As provas lhe ditaram o contrário. Darwin é, segundo Thompson, o resultado de três séculos de cientistas naturais britânicos e, em questão de décadas, foram postos à disposição do público conhecimentos que até então estiveram vedados. O conhecimento que “deveria” ter sido arrancado das mãos do padres e os enunciados de Darwin “deveriam” ter gerado uma grande crise, mas não aconteceu assim, entre outras coisas porque Darwin lançou sua teoria da evolução ante um público protestante e pós-baconiano.

Outras duas heranças ideológicas da revolução são salientadas por Thompson para contrapor àquela do utilitarismo denunciado por Nairn e Anderson: a tradição democrático-burguesa e a economia político-capitalista, esta última decorrente das limitações que a teoria mercantilista impunha a agricultores e manufatureiros. “Bacon expeliu Deus das Ciências Naturais. Adam Smith expeliu-O da teoria econômica.”(127) Foi esta contribuição que fez com que a burguesia industrial não se interessasse por teoria política: esta não importava. Thompson pergunta-se: Como ignorar este dado quando Marx dedicou a obra de sua vida para derrubar essa teoria de Smith?

Por todos os argumentos anteriores, Thompson nega a existência de uma ideologia empírica, embora não negue a importância do idioma empírico que tem sustentado o realismo do romance inglês e tem servido às Ciências Naturais.

MODELOS, METÁFORA E MOVIMENTO ECONÔMICO

Sobre os modelos como metáfora do processo histórico, diz que a história não se torna história até que não haja um modelo, já que “tudo o que aconteceu” não pode ser apreendido. Porém o modelo não deve condicionar a seleção das evidências. O problema para Thompson não está em adotar um modelo, mas na metáfora escolhida pelo marxismo para exprimir a relação entre ser social e consciência social: a metáfora base—superestrutura leva ao esquematismo e ao reducionismo. O desafio é encontrar um modelo que abarque a dialética humana, no qual a história não apareça de maneira voluntariosa nem fortuita, nem determinada.

Apresenta-se o problema de como entender o movimento econômico. Evidentemente que descarta a possibilidade de causação última. Thompson re-significa o termo econômico, afastando-o da representação usual, mas não a única, de econômico como forças produtivas e relações produtivas e indica o caminho hoje percorrido por sociólogos e antropólogos de entrelaçamentos das relações econômicas e não-econômicas das sociedades; pelo que é perigoso pensarmos num movimento econômico como oposto a um movimento cultural e moral. Caracterizando William Morris como exemplo, quando este escreveu sobre a “baixeza moral inata” do sistema capitalista o fez pensando no capitalismo como relações fundadas em formas de exploração que eram simultaneamente econômicas, morais e culturais. Por um momento se permite pensar que “base” não seja uma metáfora inadequada, mas, ainda assim, teríamos que entendê-la como não apenas econômica; mas cultural, historicamente constituída (embora este fato possa ser descrito em linhas gerais como econômico).

Composta com “os outros artigos”, a segunda parte da coletânea apresenta:

1) “A história Vista de Baixo”: trata-se de um estado da questão sobre a história social britânica; sempre nos termos das “peculiaridades do arquipélago”, diferente dos países com tradições revolucionárias ou populistas (nos quais a retórica da democracia teria saturado suas historiografias).

2) “Modos de dominação e revoluções na Inglaterra.” Novamente o termo de comparação é a França. Trata-se de uma crítica ao modelo de evolução histórica cujo motor é constituído por rupturas ou crises, partindo da idéia de que n’O Capital Marx se baseou no caso da Revolução Industrial inglesa, mas nos aspectos políticos guiou-se pela experiência francesa. Este último modelo apresenta uma série de crises com modelo de imposição hegemônica, enquanto o modelo inglês é de dominação contínua de uma burguesia fundiária.

3) “Folclore, Antropologia e História Social.” Das mais esperadas traduções, neste artigo Thompson apresenta algumas questões da relação da história com a antropologia e o folclore, questões levantadas a partir de sua experiência de pesquisa. Afirma ter sido levado a um diálogo com a antropologia, não nos termos de construção de modelos, mas na identificação de problemas. A busca de fontes sobre costumes levou-o a se aproximar dos folcloristas. Discorre sobre noções e conceitos como rituais, normas, teatro, tabus, terror, mediações sociais.
Volta a tratar da inadequação da metáfora base—superestrutura, sem questionar a centralidade do modo de produção, mas sim a idéia de descrever um modo de produção em termos unicamente econômicos sem considerar as normas, a cultura e os conceitos sobre os que se organiza um modo de produção.

4) “Algumas observações sobre classe e ‘falsa consciência.'” Este derradeiro texto aborda o tema de forma sintética através de oito pontos: 1-a necessidade de considerar classe como categoria histórica; 2-a constatação de que uma grande parte do discurso sobre a classe ocorre no nível teórico; 3-em muitas abordagens predomina a visão estática de classe; 4-classe é uma categoria histórica ainda para o próprio Marx d’O capital; 5-recuperar a classe como categoria histórica permitirá aos historiadores realizar observações empíricas além de utilizá-la como categoria heurística; 6-heuristicamente classe é inseparável de “luta de classes”. Este último conceito é prioritário, já que traz embutida a idéia de processo, é um conceito histórico que indica movimento. “Classe e consciência de classe são sempre o último e não o primeiro degrau de um processo histórico real;” 7-a classe configura-se segundo o modo em que os homens vivem as relações de produção, segundo suas experiências no conjunto das relações sociais; 8-sobre a “falsa consciência”, é uma construção absurda dos partidários das elites. A consciência designa uma cultura global desprendida da formação da classe, que não pode ser nem verdadeira nem falsa.

A publicação brasileira de “As peculiaridades dos ingleses e outros artigos” responde a uma necessidade acadêmica e política, duas instâncias que não se separam. Compõem esta coletânea textos de grande densidade conceitual que nos alertam sobre os perigos das simplificações. A mais atacada delas: a metáfora base—superestrutura. Mas outra leitura também é possível, sobretudo sabendo do convencimento que a respeito desta última afirmação têm os leitores thompsonianos: a economia não pode ser abolida. Ela está presente em todas as construções e explicações dos artigos, na forma de economia cultural e socialmente construída.

Em 1933, por motivos semelhantes aos de Thompson, Caio Prado tentava explicar a evolução política do Brasil e escrevia sobre o instante do nascimento da nação brasileira:

Erradamente entenderam alguns, que nossas condições fossem idênticas ou mesmo semelhantes às daquelas nações. Basta lembrar que as idéias do sistema político adotado por nossos legisladores constitucionais exprimem na Europa as reivindicações do Terceiro Estado, especialmente da burguesia comercial e industrial, contra a nobreza feudal, a classe dos proprietários. Até certo ponto, é o contrário que se dá no Brasil. São aqui os proprietários rurais que as adotam contra a burguesia mercantil daqui ou do reino.1

Talvez seja esta uma “peculiaridade brasileira” bem próxima da inglesa, no que diz respeito às origens agrárias do capitalismo, e que evidentemente tampouco se “encaixa” no modelo francês.

Aconteceu de um jeito na Inglaterra e de outro no Brasil. Na ilha, disseram Anderson e Nairn, um capitalismo prematuro deu origem a uma burguesia apática æ serva da arcaica tradição aristocrática æ, e a burguesia então deu origem a um proletariado subordinado, sem vocação hegemônica. No Brasil, se diz que um tardio capitalismo se viu construído por um Estado forte, que tomou o lugar da burguesia, porque que esta “falhou” em ser revolucionária. Como resultado, predominou a arcaica tradição oligárquica e o Estado subjugou a classe trabalhadora. Se a mistura capitalista-agrária brasileira não foi única, mas certamente excepcional, e se não há lugar para ela no modelo, o que deve ser mudado é o modelo.

Nota

1 PRADO, Caio, Evolução política do Brasil: Colônia e Império. São Paulo: Editorial Brasiliense, 1999, p. 54.

María Verónica Secreto – Departamento de História-UFC.

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The Fame of Gawa. A symbolic study of value transformation in a Massim (Papua New Guinea) society – MUNN (IA)

MUNN, Nancy D. The Fame of Gawa. A symbolic study of value transformation in a Massim (Papua New Guinea) society. Durham/London: Duke University Press, 1992. 331p. Reimpresión del original de 1986. Resenha de: MASSON,Laura E. Intersecciones en Antropología, Olavarría, n.4, ene./dic., 2003.

INTRODUCCIÓN

Mencionar el circuito Kula siempre fue para los antropólogos una referencia natural y obligatoria a Bronislaw Malinowski (1973 (1922)). Después de la publicación de The Fame of Gawa. A symbolic study of value transformation in a Massim (Papua New Guinea) society esta referencia debe hacerse extensiva al valioso y original aporte de Nancy Munn. La trascendencia de este libro, publicado originalmente hace casi dos décadas y aún no traducido al español, radica en que concentra varias preocupaciones contemporáneas de la antropología, sin duda poco discutidas en Argentina. Desde una lectura fenomenológica de la teoría de la práctica, The Fame of Gawa presenta una mirada diferente de los modelos de intercambio del clásico circuito Kula. Munn aborda aspectos tales como la construcción sociocultural del espacio y el tiempo, los problemas políticos y morales de la jerarquía y la igualdad, y la descripción de procesos de creación de valor en un espacio inter-islas. El análisis incorpora una perspectiva de género que reconoce la influencia de Annette Weiner (1976), quien renovó los estudios antropológicos de la región Massim e introdujo esta perspectiva a las discusiones sobre el kula. Mientras que Malinowski realiza su análisis a partir de la/s institución/es, Munn prefirió hacerlo partiendo del valor simbólico de las prácticas sociales. El relato se destaca por su coherencia interna. Así, su preocupación por la totalidad se refleja tanto en el análisis de la producción de valor en Gawa, como en la estrategia de construcción y presentación del argumento.

El libro se divide en cuatro partes. La primera está dedicada a la exposición del marco conceptual donde son definidos los conceptos claves para el desarrollo de un modelo antropológico sobre la creación y la transformación del valor en Gawa -pequeña isla del nordeste, de la región Massim de Papua Nueva Guinea-. El objetivo último de Munn es construir un modelo antropológico de la práctica como proceso simbólico partiendo del análisis de un caso etnográfico. Analiza la construcción del “mundo inter-islas Gawan” como parte de un proceso más amplio de creación de valor a través del cual los miembros de esa sociedad están comprometidos en la construcción y control de sí mismos y de su mundo social. En términos metodológicos la autora manifiesta moverse desde formas abiertas de acto (“mera facticidad”) a “relaciones internas” que dan formas significantes a los actos y especifican la naturaleza del valor producido. Dicho movimiento se da a través del análisis y explicación de significados culturales implícitos en las prácticas. Práctica (y/o acción) social son conceptos claves en la obra de Munn, lo cual resulta interesante en un análisis de porte estructuralista. Según Munn su trabajo “joins phenomenological and certain kinds of structuralist emphases frequently regarded as mutually exclusive”.

En la Parte II, Food transmission and spatiotemporal transformation, Munn se dedica a analizar la formación dialéctica del sistema simbólico de significados constituida a partir de determinadas prácticas sociales que tienen la capacidad de producir resultados, lo cual determina su valor o su proporción diferencial de potencia para crear un resultado. En el caso Gawa, este resultado sería la capacidad relativa de las prácticas para expandir el control espaciotemporal de los actores y de la comunidad como un todo. El acto creador de valor por excelencia es la transmisión de comida. Su opuesto, el consumo directo por parte del productor, no sólo reduce el tiempo de duración de la comida, sino quedestruye su potencial de creación de valor. A partir de esta dialéctica básica la autora analiza la relación de hospitalidad kula (skwayobwa) -considerada la base del intercambio kula-, el intercambio kula y el tipo de conversiones subjetivas posibles a partir de un acto de transmisión de comida, teniendo en cuenta que la persuasión es inherente al acto de dar comida. En las relaciones de hospitalidad, la comida es la persuasión no verbal y está en el centro de la relación. Mientras que en el intercambio kula el medio más importante de persuasión es el habla, actividad productiva necesaria para obtener “shells”. En este caso “habla” se opone a “comida”. La capacidad de persuadir y de tener un control más allá de si mismo, se refleja en el énfasis de la noción de recordar -los Gawans conectan el recuerdo con el acto de transmitir-.

Los intercambios kula crean, con sus viajes, un espacio-tiempo emergente que trasciende las transacciones inmediatas. Así, prácticas tales como hablar, recordar, olvidar, etc., son de vital importancia en la producción de un mundo común donde el resultado deseado depende de la habilidad de persuasión del dador. En el capítulo 5, Fame, Munn define a la fama como una conversión subjetiva positiva a través de una transacción particular, que deriva de un conocimiento externo de un otro distante a la transacción. Es un potencial de influencia sobre los actos de una tercera parte. Como código icónico y reflexivo la fama es una forma virtual de influencia, a través de la cual el actor se conoce a sí mismo, siendo conocido por otros. Este tipo de interpretaciones pone de manifiesto el carácter relacional del análisis de Munn, ejemplifica la coordinación de experiencias para la construcción de un mundo común inter-islas y apoya su supuesto de que la trama de significados constituye la existencia humana y que la realidad social es fundamentalmente simbólica.

Los valores positivos y negativos producidos en la tensión dialéctica del sistema simbólico en relación al consumo y transmisión de comida emerge en otros contextos bajo la forma de signos corporales denominados “qualisigns”. Existe una relación entre actos de comida y cualidades del cuerpo. Por ejemplo, comer mucho produce sueño. La pereza del cuerpo se convierte en un ícono de la negatividad de este espacio-tiempo intersubjetivo creado por el consumo como opuesto a la transmisión de comida. Esta relación entre los actos de comida y determinadas características son un reflejo de lo que la autora denomina un nexo subyacente de significados que es clave para entender la transformación del valor en Gawa y que actúa en diferentes contextos. La autora propone pensar el nexo (entire nexus) como una fórmula icónico-causal subyacente formada en la potencialidad del modelo de acción, el cual emplea tensiones dinámicas entre valores positivos y negativos en el proceso de formación del self y del self-other. Munn denomina a ese nexo relacional un patrón (template) o esquema generativo, intentando transmitir el sentido de una guía, una fórmula generativa que subyace y organiza significados en diferentes procesos o formaciones simbólicas abiertas, y que está disponible como una forma constructiva implícita para el manejo de la experiencia.

Partiendo del argumento de que este patrón gobierna tres ciclos de intercambios centrales, la Parte III del libro -“Exchange and the value template”- está dedicada al análisis de los intercambios matrimoniales, intercambios mortuorios y entretenimientos comunitarios, cada uno formando un modo particular de espacio-tiempo intersubjetivo. Para el último caso Munn analiza los dos entretenimientos comunitarios básicos: danza Drum y Comb, concentrándose primariamente en las formaciones simbólicas básicas de las transformaciones de valor positivas en ambas danzas puntualizando la manera en que los Gawans aseguran que éstas pueden ser socavadas por actos negativos. Por lo tanto estas prácticas están directamente ligadas a la demostración y mediación de jerarquía. Los intercambios mortuorios, por ejemplo, se caracterizan por los qualisignos de valor de los ritos, ítems del cuerpo decorado, directamente ligados al cuerpo de los participantes y en ciertas ocasiones intercambiados entre ellos. En ambos ciclos de intercambio, totalidad y jerarquía-igualdad son aspectos que aparecen implícitos en las prácticas, pero son puestos en evidencia con gran claridad en el Capítulo 6, dedicado al análisis de los intercambios matrimoniales. Los parientes del lado femenino dan comida, los parientes del lado masculino dan una canoa. La pareja nodal actúa como una unidad, es el tercer elemento que ofrece un lado diferente de los otros dos y hace de ellos una unidad (similaridad con el prerrequisito ternario del intercambio kula). A su vez el intercambio de la canoa debe ser considerado, según Munn, como parte del sistema kula inter-islas.

Las ideas de totalidad e igualdad están íntimamente relacionadas entre sí. La sociedad Gawa es fundamentalmente una sociedad igualitaria, donde cada individuo tiene autonomía, pero a su vez esta autonomía debe ser limitada a fin de que no ponga en peligro la igualdad. En este punto es donde juega un rol preponderante lasubversión del valor positivo simbolizada en las prácticas de brujería. Las brujas son identificadas con lo femenino, siendo una de las posibilidades de regular la jerarquía entre los géneros dentro del sistema Gawa. El patrón subyacente no sólo posee una tensión dialéctica entre valores positivos y negativos, sino que también tiene la posibilidad de subvertir un valor positivo en caso de que éste amenace el principio de igualdad.

El modelo totalizante presupone pares de opuestos que no se limitan a la elaboración de una lógica de oposiciones binarias como en el estructuralismo levistraussiano, sino que son concebidos desde una perspectiva Dumontiana de englobamiento del contrario y actúan dentro de una estructura generativa de valor. En este último aspecto es donde el aporte de Munn resulta más significativo. Las definiciones de género de las conchas kula, modelo de las relaciones políticas entre hombres y mujeres, son un buen ejemplo. El hombre debe influenciar a la mujer para ganar su consentimiento para los fines masculinos. El elemento femenino es visto como un lugar independiente de control que tiene que ser influenciado. En este contexto la “superordenación” del elemento femenino es evidente. Pero la polarización de género masculino y femenino es englobada por un orden más comprensivo. Desde que en el kula un collar debe ser convertido en brazalete y viceversa, cada objeto produce al otro, conteniendo su opuesto una potencialidad de él mismo. A través de la potencialización mutua en la circulación actual, las conchas crean una totalidad autoperpetuante.

Lo que trata de mostrar Munn en este proceso es la igualdad de los principios femenino y masculino cuyas asimetrías son resueltas en términos de la mutua necesidad y potencialización actual de cada uno en un proceso circular reversible. Munn logra dar una visión integral de la vida social de ese grupo, tratando la realidad como fundamentalmente simbólica y basada en la supuesta existencia de un esquema subyacente generativo que actúa en varios contextos del mundo Gawa. Al considerar a la existencia humana como una trama de significados, todas las prácticas y entidades incluidas en ella tienen la misma importancia analítica -sean materiales como comida o canoa, o inmateriales como fama- en tanto todas son prácticas significantes.

El modelo elaborado por Munn parece ponerse verdaderamente a prueba en el último capítulo del libro: “Didactic speech, consensus, and the control of witchcraft”, donde la autora admite, aunque no explícitamente, que la sociedad Gawa no es una mónada cerrada como parecía mostrar su análisis hasta este momento. En este capítulo Munn analiza un conflicto que se desata en la comunidad como consecuencia de la construcción de una escuela. En capítulos anteriores menciona la actuación dentro de la comunidad de padres pertenecientes a la Iglesia, pero sin especificar nada acerca de cómo se produjo la inserción de estas “nuevas autoridades” dentro de las prácticas religiosas de Gawa y qué significado adquirió la Iglesia en la creación de ese mundo simbólico (para una crítica acerca de los estudios antropológicos sobre cristiandad y religiones nativas ver Barker 1993). A pesar de que el conflicto presenta elementos que hasta ese momento no aparecían en el análisis y que son “externos” a ese todo integrado planteado por Munn, la explicación del mismo reproduce la lógica de análisis utilizada en otro tipo de prácticas en Gawa. El cambio sólo es concebido como una transformación de un estado posible a otro (de un estado negativo para uno positivo). El conflicto es explicado como un problema de coordinación espacio-temporal que repercute sobre los valores del esquema de producción de valor dominante en Gawa. Por lo tanto, el elemento dinámico –esquema generativo– y el énfasis en lo vivido se reducen a posibilidades de transformación, pero nunca de cambio. Plus ça change, plus c’ est la meme chose? 

Referências

Barker, J. 1993. Christianity in Western Melanesian Ethnography. En: Conversion to Christianity: Historical and Antropological Perspectives on a Great Transformation, editado por Robert Hefner. University of California Press, Berkeley.   [ Links ]

Malinowski, B. 1973 (1922) Los argonautas del Pacífico Occidental. Península, Barcelona.   [ Links ]

Weiner A. 1976 Women of Value, Men on Renown. University of Texas Press, Austin.   [ Links ]

Laura E. Masson – Departamento de Antropología Social, Facultad de Ciencias Sociales, Universidad Nacional del Centro de la Provincia de Buenos Aires, Olavarría, Buenos Aires, Argentina. Av. Del Valle 3757, Olavarría (7400). E-mail: lmasson@soc.unicen.edu.ar

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Fronteira Rebelde: A Vida e a Época dos Últimos Caudilhos Gaúchos | John Charles Chasteen

O livro é resultado da tese de doutorado de John Charles Chasteen, publicada em 1995 pela University of New Mexico com o título “Heroes on Horseback: a Life and Times of the Last Gaucho Caudillos” 3. O texto é prefaciado pela professora Helga Iracema Landgraf Piccolo, que ressalta a importância da pesquisa realizada pelo historiador norte-americano relativa à fronteira do Rio Grande o Sul e do Uruguai enquanto um espaço privilegiado para a ação dos caudilhos, no caso os irmãos Gumercindo e Aparício Saraiva/Saravia.

Como ressalta o autor no capítulo introdutório “Caudilhos”, o livro está organizado em dois conjuntos de capítulos intercalados. Nos capítulos narrativos, intitulados por datas, são descritas as trajetórias pessoais dos irmãos Saraiva/Saravia, com os principais episódios políticos e militares em que estiveram envolvidos; de “Janeiro de 1893” até “Janeiro a Agosto de 1894” o teatro da narrativa é a Revolução Federalista de 1893, e o grande protagonista é chefe maragato Gumercindo, o mais velho, tendo Aparício um papel secundário; de “Outubro de 1895” até “Março de 1897 a Setembro de 1904” as atenções voltam-se para as últimas ações armadas promovidas pelos blancos uruguaios comandados por Aparício. Leia Mais

Micro-história. Os Protagonistas Anônimos da História | Ronaldo Vainfas

Em 1997, a Editora Campus lançou uma obra que reunia uma série de ensaios gerais sobre teoria e metodologia, analisando os percursos, os principais conceitos e o debate em diversos campos da prática historiográfica. O livro “Domínios da História”2 , organizado pelos professores da Universidade Federal Fluminense, Ciro Flamarion Cardoso e Ronaldo Vainfas, logo se tornou referência em cursos de Graduação e Pós-Graduação, 3 ao revelar-se um importante instrumento de trabalho para professores e pesquisadores.

Naquela obra, além da Conclusão, em que avaliava os “caminhos e descaminhos da história”, Ronaldo Vainfas foi também responsável pelo capítulo intitulado “História das Mentalidades e História Cultural”, texto no qual elaborou reflexões que, de certa forma, acabaria por retomar e ampliar neste seu “Micro-história. Os Protagonistas Anônimos da História”, lançado pela mesma Campus em 2002. Leia Mais

Identités, Mémoires, Conscience historique – TUTIAUX-GUILLON; NOURISSON (CC)

TUTIAUX-GUILLON, Nicole; NOURISSON, Didier (Org). Identités, Mémoires, Conscience historique.  Publications de l’Université de Saint-Etienne, 2003. 220p. Resenha de: AUDIGIER, François. Le cartable de Clio – Revue romande et tessinoise sur les didactiques de l’histoire, Lausanne, n.3, p.319-321, 2003.

Ce volume rassemble les contributions présentées lors du Congrès mondial de la Société internationale de didactique de l’histoire qui s’est tenu à Lyon en 2001. Les organisateurs avaient retenu trois mots – identités, mémoires, conscience historique – pour définir le thème principal de ce Congrès, trois mots qui dessinent un ensemble de questions qui traversent aujourd’hui nos sociétés, l’histoire savante, l’histoire scolaire. Les questions posées ont rencontré un large écho dans la plupart des États et systèmes scolaires européens mais aussi en Amérique du Nord et du Sud, dans certains États d’Afrique et d’Asie. La diversité des contributions témoigne de cette large ouverture et de cette convergence des préoccupations. C’est un des intérêts forts de cet ouvrage que de nous ouvrir ainsi à d’autres horizons, de pouvoir établir des rapprochements, nuancer des différences, tenter de partager la recherche de solutions pour répondre aux défis que l’enseignement de l’histoire doit affronter.

L’ouvrage est divisé en trois parties. Chacune rassemble, autour d’un axe directeur, des contributions dans lesquelles les trois termes choisis pour ce Congrès entrent en écho l’un avec l’autre. La perspective commune est aussi celle d’une nécessaire interrogation de l’histoire scolaire du point de vue de sa définition, de ses contenus et de ses modes de transmission.

La première interroge « l’enseignement de l’histoire entre principes et pratiques ». Dans sa conférence d’ouverture Christian Laville livre une analyse critique du concept de conscience historique et du courant qui le porte. Empruntant ses références aux situations européenne et québécoise, il ouvre très largement son propos aux travaux anglophones. Il introduit ainsi une préoccupation qui habite de nombreuses contributions de cet ouvrage avec la critique du récit largement développée chez certains historiens et à l’école, et l’importance de plus en plus grande accordée à l’enseignement des modes de pensée historique. Nicole Tutiaux-Guillon s’appuie en particulier sur sa participation à l’enquête Jeunes et histoire pour mettre l’intention de construction d’une conscience historique critique au regard des coutumes didactiques. Elle souligne le poids des secondes comme obstacle à la première et souligne l’importance accordée aux connaissances comme vecteur privilégié voire unique pour cette construction. En s’appuyant sur l’exemple français Annie Bruter questionne la relation entre l’identité, la mémoire collective et l’enseignement de l’histoire. Si certains facteurs internes à l’école expliquent le délitement de cette relation, il convient aussi de considérer le rôle déterminant joué par les transformations de l’idée de nation. Elle conclut sur les ambiguïtés et les écarts qui caractérisent l’histoire scolaire et les discours officiels. Avec la Commune de Paris, Didier Nourrisson introduit les « oubliés » de l’histoire scolaire, les contenus de celle-ci variant de manière souvent plus spontanée que vraiment réfléchie. Ses réflexions se prolongent dans ce numéro du Cartable. Arja Virta clôt cette première partie par la présentation d’une enquête menée auprès de futurs enseignants du primaire en Finlande, sur les conceptions que ces derniers ont de l’histoire et de son rôle dans la société et pour les individus. Elle met notamment en évidence les composantes intellectuelles et critiques, mais aussi affectives et émotionnelles des relations que les personnes entretiennent avec l’histoire.

La deuxième partie traite de la question des « enjeux » et des « contextes ». Trois communications sont présentées par des universitaires engagés dans la formation des maîtres et travaillant dans des contextes différents. Robert Martineau analyse le problème identitaire canadien dans quatre de ses dimensions: historique, politique, civique et éducative, pour appeler à une nécessaire refondation de la citoyenneté canadienne dans une société plurielle. Il met en écho les travaux de nombreux historiens de son pays avant de plaider pour un enseignement qui, loin des grands récits épiques, privilégie un apprentissage des modes de pensée historique. Elisabeth Erdmann interroge la mémoire dans l’Allemagne d’aujourd’hui alors que s’y développe une sorte de « boulimie commémorative » selon la formule de Pierre Nora. Elle compare Les lieux de mémoire avec un ouvrage paru en Allemagne et inspiré par la même problématique, pour souligner certaines des différences entre les deux œuvres, différences liées au contexte de chaque pays. Observant l’accent mis en Allemagne sur les deux derniers siècles, elle propose de reprendre la distinction entre mémoire «communiquée» très liée à la mémoire orale, mémoire culturelle qui renvoie aux signes multiples dans une société donnée et mémoire historique liée aux méthodes critiques, à l’usage raisonné des sources, etc. Elle plaide pour un enseignement permettant aux élèves de différencier ces mémoires et pour le développement d’enquêtes comparatives entre nos États. L’enquête est le matériau sur lequel s’appuie Lana Mara de Castro Siman pour étudier les représentations du passé qu’ont de jeunes brésiliens, en prenant pour objet principal la fondation de la nation au Brésil et en utilisant la lecture d’images. Elle conclut notamment sur l’importance de l’histoire scolaire dans la formation de ces représentations et se prononce pour un enseignement qui favorise la rupture avec les schémas binaires simplificateurs.

Les contributions de la troisième partie sont rassemblées sous le titre de « Penser le passé, apprendre l’histoire ». Charles Heimberg développe l’importance d’un enseignement centré sur l’apprentissage des modes de pensée de l’histoire comme contribution d’une nouvelle manière d’interroger son identité et de regarder le monde. Il insiste notamment sur la distinction entre histoire et mémoire avant de proposer quelques exemples de travail en classe et de poser quelques questions sur la difficile question de l’évaluation. Jacques Vieuxloup présente une recherche en cours sur l’enseignement des concepts d’État et de pouvoir dans des classes de quatrième et de troisième dans un collège français. Tout en faisant place aux interrogations que l’idée même de concept soulève en histoire, il se situe dans la perspective d’un enseignement qui privilégie la construction de concepts et fait état des premiers résultats obtenus auprès des élèves. En s’appuyant sur les expériences menées à l’Université catholique de Louvain, Kathleen Rogiers fait quelques suggestions sur l’usage des ordinateurs dans l’enseignement et l’apprentissage de compétences historiques avec des élèves de l’enseignement secondaire. Le support est un cd-rom comportant quatre dossiers de sources historiques permettant de travailler sur le concept de pouvoir dans la société médiévale. L’accent est mis sur l’autonomie, la participation active, le travail d’interprétation, autant de résultats importants pour un enseignement renouvelé de l’histoire. Susanne Popp étudie la spécificité de la mémoire concernant Rosa Luxembourg et Karl Liebknecht et ses transformations en Allemagne. Elle part du fait que cette mémoire est une mémoire centrée sur un « couple » et non sur un « héros » pour analyser les possibilités que cette particularité éveille mais aussi les obstacles. L’existence de deux Allemagnes pendant une quarantaine d’années permet de développer une comparaison entre deux traditions mémorielles qui se rejoignent dans l’oubli des textes politiques de ces deux personnages. Angelina Ogier Cesari analyse les discours sur Napo léon 1er dans un corpus de manuels scolaires de l’école élémentaire entre 1880 et 1995 en France. Elle construit une périodisation de ces discours qui s’achève, à partir des années 1980, par une très nette diminution de la place accordée à Napoléon. Le lien avec les finalités de l’enseignement de l’histoire est ici fortement établi, la construction d’une identité nationale essentielle hier, un déclin de cette référence et une ouverture au monde aujourd’hui. En relation avec la mondialisation, Tayeb Chenntouf étudie la place donnée à l’histoire des civilisations et au concept de civilisation dans les enseignements d’histoire et de géographie des pays du Maghreb et de France. Il constate l’ouverture internationale de l’histoire surtout pour l’étude des civilisations anciennes et, en revanche, la place relativement modeste accordée aux civilisations du temps présent. Le projet Braudel reprend toute sa pertinence dans un monde où la prise en compte des identités plurielles, l’ouverture aux autres et la tolérance sont plus que jamais nécessaires.

Il revient à Henri Moniot qui a incarné l’intérêt des historiens universitaires pour la didactique de l’histoire de conclure en convoquant quelques « saints » auxquels se vouer. Choisissant Braudel, Létourneau, Lepetit et plusieurs autres, il reprend à nouveau frais la double référence, incontournable comme on dit aujourd’hui, qui commande l’enseignement de l’histoire: la connaissance et la connivence. Tout cela appelle, exige suis-je tenté d’écrire, la poursuite de divers chantiers déjà engagés, l’ouverture de quelques nouveaux, et pour tous, le développement de solides recherches appuyées sur des données empiriques, seul moyen de mettre à distance, au moins un peu, les dimensions idéologiques, affectives, les passions dont l’histoire et son enseignement sont l’objet.

François Audigier – Université de Genève.

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Pistes didactiques et chemins d’historiens. Textes offerts à Henri Moniot – BASQUÈS et al (CC)

BAQUÈS, Marie-Christine; BRUTER, Annie; TUTIAUX-GUILLON, Nicole (Org). Pistes didactiques et chemins d’historiens. Textes offerts à Henri Moniot. Paris, Budapest et Turin: L’Harmattan, 2003. 382p. Resenha de: Charles Heimberg. Le cartable de Clio – Revue romande et tessinoise sur les didactiques de l’histoire, Lausanne, n.3, p.321-322, 2003.

La tradition des « Mélanges » offerts à un chercheur qui part à la retraite débouche souvent sur des volumes très éclectiques. Mais avec Henri Moniot, la diversité des approches, pardessus les frontières, de l’histoire occultée de l’Afrique à la question récemment soulevée de la didactique de l’histoire, ne fait que refléter la richesse et l’originalité d’un parcours scientifique hors du commun.

Parmi les nombreux thèmes évoqués dans ce volume, il en est qui interrogent la différence et son occultation. Ainsi la visibilité des femmes dans l’histoire enseignée est-elle évoquée pour ses limites. Annie Rouquier regrette à juste titre une réduction régulière de leur place dans les manuels et les programmes français (mais en va-t-il autrement ailleurs?). Autre dimension de la différence, celle du racisme et de la conception ethnique de la nation. Claude Liauzu traite la question de l’ethnocentrisme des savoirs universitaires, qui sont nés avec la modernité et l’émergence de l’État nation, et s’interroge sur l’opacité des ressorts profonds du racisme, ainsi que sur les points communs du racisme colonial, de la xénophobie et de l’antisémitisme, autant de manières problématiques de gérer le rapport à Catherine Coquery-Vidrovitch s’interroge sur les liens inavoués entre histoire et propagande. Les faussaires de l’histoire sont certes identifiables, mais le rapport entre histoire engagée, dans le bon sens du terme, et parti pris idéologique est plus complexe. En principe, c’est l’apport de la connaissance qui devrait distinguer l’histoire de ses usages pervertis. Mais la nature même d’une science sociale ne permet pas de régler complètement la question. D’où l’intérêt, par exemple, des Subaltern Studies, ces études d’historiens de pays anciennement colonisés qui tentent de redonner une certaine pluralité à leur discipline.

Il n’est pas possible de rendre compte brièvement ici de toutes les contributions de ce volume. Notons toutefois la présence d’une série d’auteurs polonais, ce qui témoigne des réseaux de réflexion et de recherche comparée qu’Henri Moniot a su tisser au cours de sa carrière.

La question de l’enseignement de l’histoire est au centre d’un grand nombre de textes. Par exemple, les tentatives internationales de réécrire l’histoire dans un sens pacifique, favorable à l’entente entre les peuples, qui ont été impulsées au cours de l’entre-deuxguerres par le Bureau International de l’Éducation de Genève sont analysées par Maria Cristina Giuntella. Le bilan qu’elle en dresse n’est pas brillant, mais il est intéressant de constater que le débat se déroulait alors entre les tenants d’une approche éducative et morale de l’histoire enseignée et ceux qui tenaient à transmettre les connaissances spécifiques de la discipline, un débat qui n’est toujours pas épuisé aujourd’hui. De son côté, Anne Morelli relate la période où la Belgique a connu un enseignement rénové de l’histoire, un programme problématisé et susceptible de favoriser les activités des élèves qui a été généralisé à la fin des années soixante,puis supprimé par un ministre conservateur au début des années quatre-vingt. Encore une fois, ce cas nous montre l’inscription dans la longue durée de certains débats fondamentaux sur l’enseignement de l’histoire. Les propos de Christian Laville sont encore plus inquiets pour la période récente. Il note en effet une certaine tendance, dans bien des pays, à vouloir revenir à un récit fermé destiné à « mouler les consciences ». La dimension civique de l’enseignement de l’histoire devrait pourtant nous mener à aller dans le sens du développement d’un sens critique. Sur le même thème, François Audigier appelle de ses vœux un développement des réflexions et des recherches en didactique pour que l’on sache mieux quels récits communs sont à construire et ce que les élèves s’approprient vraiment en termes de citoyenneté et de sens critique.

Nicole Tutiaux-Guillon insiste à juste titre sur la valorisation de l’adhésion et la prédominance d’une histoire scolaire, en France, qui prétend dire la réalité du monde en évitant de laisser planer le doute et les incertitudes. Enfin, les deux dernières contributions de l’ouvrage, dues à Théodora Cavoura et Nicole Lautier, portent sur la pensée historique, notamment autour du raisonnement analogique. Mais comment passe-t-on de l’analogie spontanée à l’analogie scientifiquement raisonnée? Selon quels critères peut-on sortir du sens commun et entrer réellement dans une pensée historique? C’est tout le problème de la pensée et de la conscience historiques qu’affronte désormais la recherche didactique pour développer une construction lucide de l’histoire scolaire par ses acteurs.

Ce volume, décidément, est d’une très grande richesse!

Charles Heimberg – Institut de Formation des Maîtres (IFMES), Genève.

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Développer des compétences en classe d’histoire – JADOULLE (CC)

JADOULLE, Jean-Louis; BOUHON, Mathieu. Développer des compétences en classe d’histoire. Unité de Didactique de l’Histoire de l’Université catholique de Louvain, 2001.  264p. BOUHON, Mathieu; DAMBROISE, Catherine. Évaluer des compétences en classe d’histoire. Unité de Didactique de l’Histoire de l’Université catholique de Louvain, 2002.  215p. Resenha de: AUDIGIER, François. Le cartable de Clio – Revue romande et tessinoise sur les didactiques de l’histoire, Lausanne, n.3, p.323-325, 2003.

Dans une production d’ouvrages de didactique, malheureusement peu abondante, voici deux ouvrages à la fois fort utiles et très intéressants. Utiles parce qu’ils proposent de nombreux exemples et intéressants par l’orientation qu’ils proposent et mettent en œuvre ainsi que par les débats qu’ils ne manqueront pas de susciter. Chacun connaît le développement actuel de la réflexion sur les compétences ; quelque opinion que l’on en ait, aucune réflexion sur l’enseignement de l’histoire ne peut aujourd’hui l’ignorer. Ces deux ouvrages sont une contribution théorique et pratique en faveur d’un profond renouvellement de cet enseignement. Ils accompagnent la réforme de l’enseignement dans la Communauté française de Belgique; un décret voté en 1999 par le Parlement de cette Communauté définit les compétences terminales et les savoirs requis en histoire. Soulignons d’emblée, pour ne pas avoir à revenir sur ce qui est un faux débat, qu’il y a bien les deux termes de compétences et de savoirs et que les unes et les autres sont indissolublement liés. Un des intérêts majeurs des compétences est de nous inviter à raisonner autrement que par l’accumulation d’objets d’histoire, le plus souvent distribués dans un ordre chronologique lui-même peu rigoureux. En effet, cet ordre n’évite nullement les recouvrements lorsque les objets changent, plus encore, il est plein de trous. Raisonner les curriculums et autres plans d’étude en termes de compétences demande d’insister sur le fait que les savoirs et les savoir-faire prennent tout leur sens lorsqu’ils sont mobilisés par l’individu en situation. Ce sont dès lors, dans le cadre scolaire, les situations d’enseignement et d’apprentissage, leurs définitions, leurs intentions, leurs contenus et leurs mises en œuvre, qui sont au cœur de la réflexion didactique. Mettre en avant l’intérêt d’une telle approche ne signifie nullement que celle-ci résout tous les problèmes de l’enseignement de l’histoire aujourd’hui, mais qu’il convient de les identifier clairement et de dépasser les querelles de croyances.

Le premier ouvrage comporte trois parties d’inégale importance. La première, la plus ramassée, donne la parole à Jean-Marie de Ketele pour définir le terme de compétences et situer son intérêt aujourd’hui, puis à Britt-Mari Barth pour traiter de la conceptualisation. Elle s’achève par un texte des auteurs sur les compétences en histoire, texte dans lequel ils proposent plusieurs outils permettant d’opérationnaliser l’approche par compétences.

Les deux parties suivantes fournissent de nombreuses situations avec commentaires, appareillages documentaires, outils de réflexion, tous construits et expérimentés avec une équipe d’enseignants. Le premier ensemble présente des « scénarios didactiques » à propos de cinq objets d’histoire. Ils sont tous bâtis selon un canevas commun qui articule: « l’étude d’un moment-clé ou d’une vision panoramique » au cours de laquelle « les élèves s’approprient des savoirs… et des savoir-faire et développent un certain nombre d’attitudes »; une situation d’intégration au cours de laquelle les élèves mobilisent les ressources précédemment construites ; une situation d’évaluation. Cette évaluation, essentiellement formative tient une grande place dans la réflexion et dans la construction des scénarios. Des propositions en ce sens occupent la dernière partie de l’ouvrage et en constituent à elle seule plus de la moitié. Chaque situation comporte une analyse des compétences évaluées, les documents fournis aux élèves et les outils d’évaluation à la fois critériés et quantifiés, en particulier les outils d’autoévaluation. Compte tenu de la logique de cette approche, ces situations sont aussi des ressources pour construire les situations d’intégration. Dès lors qu’un travail plus autonome est mis en place, ces situations et l’évaluation formative entretiennent de très fortes connivences.

Cette importance de l’évaluation s’affirme dans le second volume. Le titre est quelque peu trompeur puisque les exemples proposés décrivent et analysent en fait l’ensemble du dispositif et présentent les situations d’intégration avec leurs supports documentaires. Les outils d’évaluation, qui sont ici aussi des outils d’autoévaluation, portent sur les productions des élèves pendant les situations d’intégration. Des exemples de ces productions accompagnent ces outils. Comme dans l’ouvrage précédent issu de la même équipe, les divers matériaux ont été expérimentés avant d’être publiés. L’ouvrage est organisé autour des deux compétences générales définies pour l’histoire – « se poser des questions », « communiquer» –, dans deux niveaux de classe 4e et 5e années; les deux autres compétences sont « critiquer» et « synthétiser». Les objets traités concernent l’histoire depuis le Moyen Âge.

L’intérêt de ces ouvrages rappelé, cette courte note s’achève par quelques thèmes de travail et de débat que leur lecture soulève. Au risque d’être redondant, j’insiste sur le fait que ces thèmes sont « au-delà » de cette approche ; autrement dit, ils n’arrivent en aucun cas comme des invitations à revenir en arrière ou comme des critiques qui délégitimeraient cette orientation. En fait, les questions que soulèvent ces thèmes sont largement présentes dans les approches traditionnelles de l’enseignement de l’histoire, mais les coutumes didactiques, la force du modèle disciplinaire, plus encore les croyances où beaucoup sont de voir les intentions et les finalités si nobles accordées à notre discipline se traduire dans les faits, les masquent le plus souvent. L’approche par compétences, en déplaçant notre regard, nous invite à les réexaminer et à les (re)travailler. J’en formule quatre: du point de vue des objets d’histoire retenus et étudiés, l’ensemble laisse un sentiment de juxtaposition dans lequel il est difficile de lire une cohérence. Il est vrai que lorsqu’on lit de l’histoire, notamment de l’histoire scolaire, l’attente spontanée est celle d’une certaine continuité chronologique, laquelle nous délivre un message de cohérence. J’ai dit précédemment l’illusion que les approches traditionnelles imposent de ce point de vue. Les propositions qui sont faites ici ont le mérite de placer ce problème au-devant de la scène. Plus profondément, c’est l’idée même de cohérence qu’il faudrait reprendre totalement. Le nombre d’objets historiques intéressants pour la formation des élèves est sans fin. Le choix de ces objets, leur succession et la cohérence de l’ensemble ont longtemps été assurés par les finalités politiques attribuées à la discipline. La définition des compétences et leur mise en réseau avec les savoirs, savoir-faire et attitudes retenus suffisent-elles à construire une nouvelle cohérence? Mais la cohérence en histoire, plus largement dans les sciences sociales estelle autre chose qu’une Weltanschauung et par là-même autre chose qu’une construction culturelle et idéologique1? D’ailleurs, avonsnous vraiment besoin de cohérence? lorsque l’on examine les documents proposés aux élèves, le sentiment de juxtaposition vient à nouveau et le constat d’une grande hétérogénéité s’impose. Hétérogénéité de forme notamment puisque tout ou presque est mis sur le même plan et que l’on trouve pêle-mêle des morceaux de sources contemporaines à la période étudiée, eux-mêmes découpés, traduits, réécrits…, des cartes, plans et schémas élaborés postérieurement dans des conditions variées et non précisées, des mises au point d’historiens, etc. Avec un tel patchwork et un travail souvent très encadré par les consignes même s’il est autonome dans sa mise en œuvre, on peut s’interroger sur la part prise par la formation critique. Si l’histoire se construit avec des sources, encore faut-il être précis sur ce que ce terme recouvre. Il me semble là que les contraintes scolaires conduisent à marginaliser ce qui s’affirme comme exigence au moins dans les discours et les références faites à l’épistémologie de l’histoire ; dans le prolongement de cette remarque, les documents proposés sont très univoques, tendus par la nécessité de construire des compétences et des savoirs dans le temps scolaire. La pluralité des points de vue, si constamment affirmée comme une préoccupation, voire un objectif de l’enseignement de l’histoire, n’apparaît guère ; le rapport passé-présent est formulé, notamment dans le titre du texte de B.-M. Barth, de manière doublement univoque ; il y a « un» passé et « une» orientation dans le temps. Le premier singulier est une habitude de langage largement répandue. Peut-être pourrionsnous faire évoluer cette habitude et mettre régulièrement un S à passé. Cette marque du pluriel est nécessaire, d’une part pour bien marquer, notamment chez nos élèves, qu’il n’y a pas aujourd’hui d’un côté et le grand magma du « temps d’avant » de l’autre, d’autre part pour nous inviter à construire le plus souvent possible des comparaisons entre des passés et le présent (voire d’ailleurs aussi les présents), surtout lorsque notre intention est dans la conceptualisation. Tous les chercheurs qui ont travaillé sur cet objectif de conceptualisation soulignent qu’un concept renvoie à un ensemble de situations dans lequel le concept est valide, ensemble non fini en histoire et plus généralement dans les sciences sociales. La diversité des situations est ainsi nécessaire à la conceptualisation. Le second singulier, cette orientation unique du temps au nom de laquelle « le passé sert à comprendre le présent », fait partie des évidences. Cette affirmation posée, il serait intéressant de disposer de recherches précises sur les manières dont se tissent, en classe, ces relations. Ainsi, par exemple et pour n’en prendre qu’un seul aspect, plusieurs recherches, reposant sur des observations de classe (voir l’article dans le Cartable n° 2), mettent en évidence le fait que les enseignants font souvent appel aux connaissances que les élèves sont supposés avoir sur la société dans laquelle les uns et les autres vivent ensemble. Ils procèdent comme si ces connaissances étaient suffisantes et qu’ils pouvaient les mobiliser pour construire le passé par comparaison, rapprochement, différenciation. Or, ces mêmes recherches observent, d’une part que les élèves sont en fait très ignorants de leur propre société et que ces appels au « vécu » fonctionnent dès lors à vide, d’autre part que les relations passés/présent sont alors inversées, puisque c’est la connaissance du présent qui est supposée aider à comprendre le passé. J’ajoute que ces appels sont très rarement l’objet d’un travail approfondi. Avec la formule « le passé aide ou sert à comprendre le présent », nous avons encore à faire à un rite rhétorique qu’il convient d’examiner plus à fond.

Engageons et prolongeons le débat. Là encore, je plaide avec insistance pour le développement de recherches dans les classes, auprès et avec des élèves et des enseignants.

Sans aucune connotation négative de ce terme, qu’il conviendrait, comme quelques autres déconsidérés aujourd’hui, de réintroduire comme outils de pensée.

François Audigier – Université de Genève.

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La terra abitata dagli uomini – BRUSA et al (CC)

BRUSA, Antonio; BRUSA,  Anna; CECALUPO, Marco. La terra abitata dagli uomini. Bari, Irrsae Puglia: Progedit, 2000, 205p. Resenha de: HEIMBERG, Charles. Le cartable de Clio – Revue romande et tessinoise sur les didactiques de l’histoire, Lausanne, n.3, p.326, 2003.

Cet ouvrage traite de l’histoire enseignée sous l’angle de l’éducation interculturelle. La réalité du fait migratoire dans les écoles italiennes est relativement récente et n’a pas manqué de provoquer une large réflexion du monde de l’éducation sur la manière de s’adresser à tous les élèves qui sont désormais présents dans les classes. Mais le rôle de l’histoire scolaire pour les processus interculturels, dans un premier temps, est demeuré occulté. Dans son introduction, Antonio Brusa explique en quoi il est pourtant essentiel, et évoque ce qui a été fait depuis lors en la matière. L’ajout de nouvelles thématiques dans les programmes a d’abord provoque une telle surcharge qu’il a bien fallu se résigner à repenser l’ ensembre du curriculum. La réflexions est malheureusement déroulée em dehors des structures universitaires, mais elle a permis de remettre enfin en cause un récit linéaire et seulement européen de l’histoire humaine. De fait, le dépassement d’une histoire ethnocentrique et le développement d’une histoire qui tienne bien compte de la dimension mondiale sont équivalents, dans le domaine de l’histoire, à ce que représente l’antiracisme dans l’espace public.

Le schéma traditionnel et linéaire de l’histoire ne comprend aucune donnée spatiale, il se déroule à partir d’un lieu donné sans prendre suffisamment en considération des tableaux synchroniques du monde, sans interroger l’altérité dans la contemporanéité. En outre, ce grand récit pourrait être repensé autour des trois modèles d’organisation sociale que séparent les deux grands changements ayant marqué l’histoire de l’humanité, la révolution néolithique et l’industrialisation. La reconstruction de l’histoire enseignée par des synthèses globales et des récits qui les donnent à voir permet aussi de faire construire une grammaire de l’histoire et d’exercer des activités dans ce sens. Une typologie des exercices que l’on peut développer en classe d’histoire est ainsi proposée. De même que des exemples de jeux de rôles ou de simulation qui permettent aux élèves de construire des connaissances d’histoire sur des thèmes très variés.

Ce volume, avec les nombreux exemples didactiques qu’il présente, concerne avant tout la scolarité obligatoire, soit l’enseignement primaire et l’école moyenne. Sa dernière partie suggère toute une série d’activités scolaires qui peuvent être développées dans le cadre du « laboratoire d’histoire ». Il dégage ainsi de nouvelles perspectives pour l’histoire enseignée qui sont vraiment très stimulantes.

Charles Heimberg –  Institut de Formation des Maîtres (IFMES), Genève.

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Cinéma-École: aller-retour – NOURRISSON (CC)

NOURRISSON, Didier; JEUNET, Paul. Cinéma-École: aller-retour. SaintÉtienne: Publications de l’Université de SaintÉtienne, 2001. 280p. Resenha de: HEIMBERG, Heimberg. Le cartable de Clio – Revue romande et tessinoise sur les didactiques de l’histoire, Lausanne, n.3, p.326-327, 2003.

Les Actes du colloque « Cinéma-École: allerretour », qui s’est tenu à Saint-Étienne du 23 au 25 novembre 2000, évoquent à la fois les images de l’école au cinéma et le cinéma dans l’enseignement. La manière dont les films ont représenté l’école a souvent été négative ; c’était un lieu à éviter où se développait la délinquance. Mais si le cinéma a d’abord été un moyen pédagogique au potentiel énorme, il est aujourd’hui devenu un moyen de communication, mais aussi une partie nouvelle de ce monde que les élèves doivent apprendre à lire pour pouvoir mettre à distance ce qu’ils constatent et ce qu’ils ressentent.

L’un des éléments originaux de ce cinéma scolaire est constitué par les films fixes, des images dont la succession peut rythmer une séquence d’enseignement. Une collection disloquée de ces films a été retrouvée fortuitement dans les anciennes douches d’une école primaire stéphanoise. Mais le cinéma scolaire n’est pas seulement un moyen pédagogique. L’histoire scolaire, notamment, a dû intégrer l’apport des œuvres cinématographiques pour l’évocation de certains événements. Évelyne Hery a cependant souligné l’ampleur de la méfiance des maîtres d’histoires à l’égard des films, au moins jusqu’aux années 70.

La ville de Saint-Étienne manifeste de l’intérêt pour l’histoire du cinéma, scolaire en particulier. C’est aussi dans cette ville qu’a été retrouvé, un peu miraculeusement, un film muet que l’on croyait perdu: Le tour de France par deux enfants de Louis de Carbonnat, tourné en 1923 à partir du livre écrit en 1877 par G. Bruno (en réalité Augustine Tuillerie). Ainsi a-t-il pu être projeté pendant ce colloque.

Charles Heimberg – Institut de Formation des Maîtres (IFMES), Genève.

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Éducation à la santé. XIXe-XXe siècle – NOURISSON (CC)

NOURISSON, Didier. Éducation à la santé. XIXe-XXe siècle. Rennes: Éditions de l’École nationale de la Santé publique, 2002. 158p. Resenha de: HEIMBERG, Charles. Le cartable de Clio – Revue romande et tessinoise sur les didactiques de l’histoire, Lausanne, n.3, p.327, 2003.

Ce volume rassemble des conférences qui ont été prononcées à l’IUFM de Saint-Étienne entre 1995 et 1997. Elles portent sur l’émergence de la santé publique dans le projet éducatif et les pratiques scolaires. Les concepts de santé publique sont nés au fil des deux hygiénismes qui ont successivement prévalu de la fin du XVIIIe siècle à 1870, puis de 1880 à 1940. C’est dans ce contexte que la propreté de l’enfant est devenue une exigence et a même fait l’objet d’un contrôle social. La leçon d’hygiène est ainsi apparue dans les écoles dans une perspective qu’on devine particulièrement normative. Cette propagande pour l’hygiène et la santé a bien sûr recouru aux images, affiches publicitaires, et plus tard à la magie des films. Dans les écoles, l’apparition de l’éducation physique est intervenue dans une perspective de promotion de la santé, comme cela a aussi été le cas avec la natation (on peut toutefois se demander si le facteur militaire, pour les garçons, ne jouait pas aussi un rôle important). Au tournant des XIXe-XXe siècle, l’enseignement antialcoolique à l’école était prescriptif, et souvent caricatural, mais il ne s’est pas révélé très efficace. Voilà de quoi nourrir une réflexion sur l’école d’aujourd’hui, son rôle effectif et la manière de répondre aux diverses injonctions, aux demandes sociales multiplex et Nouvelles, dont elle fait encore l’objet en matière d’éducation à la santé.

Charles Heimberg – Institut de Formation des Maîtres (IFMES), Genève.

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Éducation et formation à la citoyenneté. Guide de références – APEIQ (CC)

ASSOCIATION pour l’Éducation Interculturelle du Québec (Dir.). Éducation et formation à la citoyenneté. Guide de références. Montréal: APEIQ, 2002. 193p. Resenha de: HEIMBERG, Charles. Le cartable de Clio – Revue romande et tessinoise sur les didactiques de l’histoire, Lausanne, n.3, p.328, 2003.

Ce guide de l’éducation à la citoyenneté, destiné à tous les professionnels de la formation et de l’éducation, a été conçu dans la perspective d’une dimension interculturelle, sans doute particulièrement sensible dans le contexte du Québec. Il comprend quatre volets suivis de la présentation succincte d’ouvrages ou de références consacrés à l’éducation à la citoyenneté, puis d’une série de propositions didactiques. Robert Martineau présente le chapitre le plus convaincant, celui qui interroge la relation entre l’histoire et la dimension civique. Son exposé théorique synthétise très efficacement sa conception de la pensée historique et la nature de l’histoire scolaire qu’il appelle de ses vœux. « La conscience historique, nous dit-il, autorise à penser la réalité en terme de projet, de possibilité de la changer, d’influencer la réalité sociale, d’en contrôler le destin politique ». Sans perspective ni recul, en effet, il n’y a pas de possibilité de rencontrer l’Autre, il n’y a pas de vie sociale envisageable. C’est dans cet esprit que l’histoire et la citoyenneté ne peuvent qu’être associées ; ce qui implique alors qu’il s’agisse bien d’une histoire ouverte à la pluralité des possibles et aux mises en relation à travers le temps. De son côté, l’éducation aux droits de la personne, évoquée par Nicole Pothier, poursuit à la fois des objectifs cognitifs, sur la nature et l’histoire de ces droits, et comportementaux – elle vise par exemple à promouvoir des attitudes de tolérance. Il en va de même avec la reconnaissance des identités, introduite par André Jacob, pour qui l’éducation à la citoyenneté et à la tolérance « constitue les deux faces d’une même pierre d’assise de l’éducation aux droits humains ». Reste pourtant à se demander quel doit être le poids effectif des visées portant sur des attitudes et dans quelle mesure une telle posture est compatible avec l’idée d’une citoyenneté consciente, construite dans um cadre qui ne soit ni prescriptif, ni moralisateur. La participation, enfin, joue un rôle essentiel pour la citoyenneté, pour autant bien sûr qu’elle soit librement consentie et pratiquée. « Guide de références », le sous-titre de cet ouvrage n’est pas abusif. Certes, les activités didactiques qu’il propose, un peu rapidement, ne parviennent pas toujours à concrétiser de manière suffisamment convaincante les réflexions théoriques qui les ont précédées. Mais c’est un instrument très utile pour introduire la question de l’éducation à la citoyenneté et se poser des questions sur sa nature et sa place dans le projet éducatif d’une société démocratique.

Charles Heimberg –  Institut de Formation des Maîtres (IFMES), Genève.

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A Utopia Arpada – rebeliões de pobres nas matas do Tombo Real (1832-1850) | Dirceu Lindoso

LINDOSO, Dirceu. A Utopia Arpada – rebeliões de pobres nas matas do Tombo Real (1832-1850). Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1983. Resenha de: FERRAZ, Maria do Socorro. CLIO – Revista de pesquisa histórica. Recife, v.21, n.1, p. 333-336, jan./dez. 2003.

Acesso apenas pelo link original [DR]

Figuras do Pensável – As Encruzilhadas do Labirinto VI | Cornelius Castoriadis

CASTORIADIS, Cornelius. Figuras do Pensável – As Encruzilhadas do Labirinto VI. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2004. Resenha de: REZENDE, Antônio Paulo. CLIO – Revista de pesquisa histórica. Recife, v.21, n.1, p.327-331, jan./dez. 2003.

Acesso apenas pelo link original [DR]

What Makes a Good Primary School Teacher? Expert Classroom Strategies – GIPPS et al (CSS)

GIPPS, Caroline; McCALLUM, Bet; HARGREAVES, Eleanore. What Makes a Good Primary School Teacher? Expert Classroom Strategies. London: RoutledgeFalmer, 2000. 178p. Resenha de: Canadian Social Studies, v.37, n.2, 2003.

To turn a research report into a good read, was the challenge taken up by the three British authors of the book, What Makes a Good Primary School Teacher?. By painstakingly examining the teaching practices of nearly two dozen expert elementary educators of Year 2 and Year 6 students, and combining numerous classroom observations with interviews and activities that probed these teachers’ value commitments and philosophical positions, Gipps, McCallum and Hargreaves have provided an insightful set of answers to their guiding question.

We all know that teaching is a highly complex enterprise. Most often, experienced teachers are less able to articulate what they know and to explain what they do than novice and preservice teachers would like (and need) to hear. Planning, strategizing, presenting, explaining, questioning, reinforcing, reviewing and assessing are all instructionally related activities that look seamless, natural, and sometimes nearly effortless in the hands of experienced teachers. Yet these activities form successful practice only to the extent that they are built on solid foundations of content and pedagogical knowledge, ethical principles related to the treatment of others who are under one’s guidance, and commitments to careful observation, clear communication, and continual reflection. The book, What Makes a Good Primary School Teacher?, takes what are often implicit foundations and makes them explicit and therefore examinable. This is the book’s strength as a teaching tool and the main reason I would recommend it to teacher educators at the elementary level, with two cautions that I will mention shortly.

The book is divided into seven parts that focus on various aspects of teaching from planning through evaluation. Classroom vignettes are freshly presented and at the same time represent instantly recognizable events and familiar conversations. Analysis and commentary follow each scenario. The researchers identify popular lesson patterns, highlight successful teacher-student interactions, and describe in vivid detail the ways in which these expert teachers communicate their expectations, respond to individual needs, and keep lessons dynamic and purposeful. One of the potentially useful sections for aspiring teachers concerns formative assessments, those minute-by-minute on the ground judgments, that teachers continually need to make about students’ progress and understandings.

In the main, the book serves as a good example of the role that responsible educational research can play in improving practice. The British educational philosopher, John Chambers, has repeatedly called for just this kind of close and fine-grained study of actual classrooms and teachers in order to make sense of our educational ideals and the realization of them in particular contexts. But here is where my two cautions come in. The first relates to something I wanted to see and did not, and that is an adequate and fully developed synthesis of the many findings; a synthesis that goes beyond commonplace truisms about learners and subject matter. The research itself revealed more nuanced and subtle discoveries than those that are brought together in the final chapter. The second thing I missed was a humble acknowledgement of the limitations of this sort of research into teaching. As painstaking as the researchers’ efforts were to dissect and examine aspects of practice, there is an element of magic and mystery in the best teacher-student relationships, an ineffable quality referred to by writers as diverse as Martin Buber and Maxine Greene. Though teachers’ intentions and motivating reasons for action can and should be probed, in the final analysis the practice of a truly inspiring teacher is even more than the sum of its parts.

Linda Farr Darling – Department of Curriculum Studies. University of British Columbia. Vancouver, British Columbia.

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Canada: A Nation Unfolding – NEWMAN et al (CSS)

NEWMAN, Garfield; AITKEN, Bob; EATON, Dianne; HOLLAND, Dick; MONTGOMERY, John; RIDDOCK, Sonia Riddock. Canada: A Nation Unfolding (Ontario Edition). Toronto: McGraw-Hill Ryerson, 2000. 428p. Resenha de: DANNETTA, Vincent. Canadian Social Studies, v.37, n.2, 2003.

Of the seven textbooks that were produced for the new Ontario Grade Ten Canada in the Twentieth Century course, Canada: A Nation Unfolding is the best organized, the most visually appealing-from the perspective of a student-and the text that has the best accompanying unit and chapter activities.

What I found enticing at first sight, while looking at the table of contents, is the manner in which the units are organized. Unlike most of the other efforts, in which the first unit covers 1891 to 1928 (way too much terrain to be covered in one unit), the first unit in Canada: A Nation Unfolding begins at 1896 and ends at 1914 with the beginning of the First World War. The second unit encompasses the First World War and then the third unit covers the 1920s and 1930s. These time periods are a much more logical manner in which to structure the first three units. This not only makes the most sense but it is how teachers have been teaching the curriculum for years in this course. The themes that are intelligently woven throughout the text also strike a familiar chord. They are in a chronological format and include macro-level themes such as French/English Relations, Canadian/American Relations, International Relations, and Multiculturalism, and micro-level themes such as technology through the years in Canada.

What I call the second table of contents showcases Garfield Newman’s strength as a textbook writer. He entitles this section Tour of the Book. Put simply, it is a visual road map of the special features that are contained within each of the units. Humour in History, for example, attempts to highlight one of Canada’s strengths in character, the ability to laugh at itself throughout the years. With feature spots on Wayne and Shuster and comedy characters Bob and Doug MacKenzie, one also starts to think of the exports in humour that we have had (e.g. John Candy, Martin Short, Mike Myers, etc.). I only wish that the authors had included the gang from This Hour Has 22 Minutes to set us further apart from Americans-a theme that is recurring throughout the text-as this is intelligent humour at another level, the political.

There are other features that make the text unique such as pieces on technology and the sections on Methods of Historical Inquiry. The feature that I personally like that sets this book apart from other efforts is the photo essay in each of the units. These essays symbolically and literally capture the essence of being Canadian in each of the historical eras in the text. My personal favourite photo essay is the last one that focuses on the symbols of Canada from 1968 to 2000. In it the reader sees the standard symbols like the beaver, the mountains, the maple leaf and maple syrup. However, the symbols which brilliantly capture the essence of Canada are the photos of canoeing on a lake in cottage country, kids playing road hockey, a mother and child tobogganing down a hill, and the doughnut.

I think the one big criticism I have of Canada: A Nation Unfolding is the writing in certain time periods. For novice teachers, it certainly leaves some unanswered questions that they may have to grapple with when they have a particularly inquisitive student. An example of this is the manner in which the Schlieffen Plan is handled. Readers learn that the plan was actually developed nine years before the war actually broke out, so why was it not executed in 1905? There is no answer in the text. Equally disturbing is the fact that the authors neglect to tell us why the plan failed and who finally executed it. For such an important turning point in the war, this was really botched. The answer that the French rallied their troops and defeated the Germans at the Battle of Marne is offensive to any historian. How could the French beat such a formidable opponent? My comments about the Schlieffen Plan are included only to serve as an example of that which is prevalent in many textbook efforts. Many teachers who use textbooks, use them as a foundation and supplement the text with other resources. The only problem with this approach is that errors such as the one mentioned above are sometimes hard to detect.

I think that this is symptomatic of how textbooks are written for the history curriculum and is a flaw that is not insurmountable. I never think the strength of any textbook is the history content that is being given. The strength of this textbook, therefore, is not the history content that it contains but rather the supporting learning activities that are firmly grounded in Gardner’s theory of multiple intelligences.

Vincent Dannetta – Markham District High School. Markham, Ontario.

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Eminent Educators Studies in Intellectual Influence – BERUBE (CSS)

BERUBE, Maurice R. Eminent Educators Studies in Intellectual Influence. Westport, Connecticut: Greenwood Press, 2000. 176p. Resenha de: Canadian Social Studies, v.37, n.2, 2003.

Based on comments included in both the preface and introductory chapter of this book, it appears that the author of Eminent Educators intends to explore the ways in which selected intellectuals have impacted public school education in the United States. Specifically, the first line of the first chapter reads, This study seeks to flesh out the turning points in American public school education through biographical portraits of the major change agents combined with a policy analysis of their impact (p. 1). While this statement indicates a clear purpose, the book rapidly loses focus and coherence. Although Berube does examine the thought of John Dewey, Howard Gardner, Carol Gilligan, and John Ogbu and does attempt to demonstrate that these individuals did help to shape American education, several major problems undermine the author’s ability to achieve his stated purpose.

Problems emerge immediately. In the first chapter of the book, titled In Search of Leadership, Berube launches a discussion of the notion of leadership, presumably in the effort to clarify the ways in which he considers the individuals he has selected for examination to be leaders. The discussion begins by claiming that there actually is no clear definition of what constitutes leadership (p. 2). While this is not a surprising claim, the author does not provide a direct and clear argument explaining the qualities of leadership that will be used in this study. Rather, the discussion that follows examines such issues as whether leadership can be taught, the history of the idea of leadership (which includes an unsubstantiated claim that the word ‘leader’ does not enter the vocabulary of Europeans until the 14th century), and a nine page diatribe about the popularization of leadership (which includes a overly detailed and ahistorical trashing of ‘how-to-manuals’ and their authors from Dale Carnegie’s How to Win Friends and Influence People to Bob Briner’s The Management Methods of Jesus).

While the attempt to elucidate a definition of leadership is obscure, a more serious problem is embedded in this chapter and is repeated throughout the book – that is, the serious lack of support for stated claims. For example, in this first chapter the author claims that leadership must have a moral component. To support this claim he strings together long quotations drawn from the work of James MacGregor Burns and then attempts to support Burns’ position by indicating a list of people (including Tomas J. Sergiovanni, Warren Bennis, Burt Nanus, Howard Gardner, and Stephen Covey) who claim to have been influenced by Burns (p. 5). This approach does not substantiate the claim. Further, the claim that leaders must be moral is seriously challenged when individuals such as Hitler and Stalin are considered. Berube does not ignore the challenge, but again he attempts to support his contention that such people are not leaders by quoting statements made by other writers. Specifically, the author poses the questions Must true leadership transform society for the good as Burns argued? Or are the Hitlers of the world also leaders since they had goals shared by followers? (pp. 5-6). These questions are immediately followed by these statements:

Wills confronted the Hitler problem. Wills’s [sic] ‘aim is to destroy Hitler’ as a leader, although ‘Hitler’s followers shared, at some level, his goals.’ ‘Hitler’s enormities’, he concluded, ‘arouse hatred in me.’ For Wills, then, Hitler is not a true leader.
Similarly, Covey dismissed Hitler as being an authentic leader. According to Covey, Hitler lacked a ‘moral compass’ and ‘violated compass principles.’ In short, Covey agreed with Burns that leadership must be moral (p. 6).

In the judgement of this reader, the simple reiteration of statements made by others does not provide a substantive or convincing argument to support the claim that leadership requires a moral component. Similarly the problems of incoherent narrative style and incoherent organization of arguments plague the rest of the book. An examination of the main chapters demonstrates the difficulty.

Berube devotes two chapters to an examination of John Dewey. Chapter 2, titled ‘John Dewey: American Genius,’ includes a brief discussion of Dewey’s life experiences and a rehashing of some of Dewey’s educational philosophy. Although this chapter does not illuminate any unique ideas about Dewey’s stature as an educational leader and includes some peculiar details with little explanation as to their importance a description of Dewey’s mystical experience, for example this section appears to be generally coherent with the originally stated purpose of the book. However, Chapter 3, titled John Dewey and Abstract Expressionists, has virtually nothing to do with an exploration of the ways in which Dewey impacted American public schooling. Although the author eventually does include a few comments about Dewey’s influence on art education, the chapter focuses on the argument that Dewey’s theories about art had a direct influence on the work of American abstract expressionist painters.

Chapter 4, titled Howard Gardner and the Theory of Multiple Intelligences, is the most coherent section of this book. Again, both Gardner’s life experiences and his intellectual theories are explored and some direct links are made between Gardner’s theories and school reform movements. However, Berube diverges from core arguments to explore Gardner’s interest in the arts and, in particular, Gardner’s theories about spatial intelligence. This section of the chapter has more to do with the author’s effort to create links between the chapter on Dewey and the expressionists, than with the exploration of Gardner’s influence on public schooling. In addition, at the end of this chapter, Berube includes several curious, confusing, ill-written, unembellished and unsubstantiated statements that leave the impression that Gardner may be a neoconservative who supports people with racist tendencies (pp. 87-88).

Based on the title Carol Gilligan and Moral Development, it appears that Chapter 5, co-authored with Clair T. Newbold, is intended to explore the life experiences and theories of feminist scholar Carol Gilligan. Although the authors include a discussion of Gilligan’s discoveries about the inner voices of women, particularly with respect to identity and moral development, the irony of the chapter is that Gilligan’s personal ‘voice’ is subsumed due to the inclusion of several other topics in the chapter. These topics include a generic discussion of feminism and education, an explanation of Lawrence Kohlberg’s theory of moral development, and a discussion of Kohlberg’s relationship with Gilligan. Further, in what seems a rather odd addition to this book, co-author Newbold describes an experiment she conducted to test Gilligan’s hypotheses. Newbold describes how she asked her daughter, her son, and her daughter’s friend the same set of questions used by Gilligan in a study of adolescent girls. Newbold discusses her findings and analysis, concluding: These personal case studies confirmed Carol Gilligan’s theses (p. 115). The addition of this case study not only subsumes Gilligan’s voice and story but is totally out of context considering the stated purpose of the book.

Chapter 6 titled, John Ogbu and the Theory of Caste, is fairly tightly focused on the life and work of cultural anthropologist, John Ogbu. Although there is some diversion into a generic description of the c.1960s civil rights movement and scholars associated with this movement, the incoherence in this chapter comes from the author’s claims that Ogbu’s work has changed the education landscape for minority youth and caused a major paradigm shift in American education (p. 147) while also implying that there was little attention paid by black educators and other scholars to Ogbu’s theory (p. 140). In fact, Berube sends mixed messages about the significance of Ogbu’s work in that it seems he spends as much time exploring critiques of caste theory as he spends exploring Ogbu’s theory and its impact in education.

Ultimately, the lack of coherence in both narrative and argument means that Berube is unable to substantiate claims. As it does not provide well-argued insights into the ways in which the selected intellectuals have influenced education, Eminent Educators has little scholarly value for post-secondary readers and no practical value for classroom teachers.

Lynn Speer Lemisko – University of Saskatchewan. Saskatoon, Saskatchewan.

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Disposable People: New Slavery in the Global Economy – BALES (CSS)

BALES, Kevin. Disposable People: New Slavery in the Global Economy. Berkeley: University of California Press, 1999. 289p. Resenha de: LEWIS, Magda. Canadian Social Studies, v.37, n.2, 2003.

Reading the book Disposable People: New Slavery in the Global Economy by Kevin Bales is like lifting the covers off what we already know about the seamy side of globalization, but would rather not look at. From his comprehensive introduction to the concluding chapter that calls the reader to action, Bales insists that we look the effects of our western/northern privilege in the eye and hold it in our gaze long enough to be appropriately horrified without being numbed. As we look on, the global economy runs rampant, touching down in the lives of communities and individuals just long enough to grab the efforts of their labour, leaving poverty and human devastation in its wake. Each chapter of Disposable People stops the frame and puts flesh on the bones and runs blood through the veins of the statistics on global poverty and human misery wrought by corporate profits and EuroWestern self-satisfaction with our standard of living.

Bales offers the term new slavery as the conceptual framing for the relationship between power and human indenturement, between profits and poverty, and between violence and economic dependence. In this passionately conceived work, Bales defines new slavery as the lived relationship between big profits and cheap lives (p. 4), in a context where efficiency is allowed to override responsibility and decency on a global scale. And in so doing, Bales invokes an appropriate sense of horror at the uses and abuses of power, wealth and privilege. Indeed, in holding up to view new slavery as the other side of globalization, each chapter in this well written book disabuses the reader from believing that this fresh century’s view of development and progress are as global as the economy that drives it.

The statistics on global poverty, destitution and hunger are not news. For most of the twentieth century it has been evident that the conditions of suffering of the world’s poor are not primarily a function of the lack of capacity of the planet to sustain life, but of the ever-increasing distance between the resources of the rich and of the poor. This is not to say that the world’s resources are limitless and infinitely supportive of an ever-increasing population oblivious to conservation. However, it is the case that inequitable life circumstances and commodity production for profit create and exacerbate the unequal sharing and protecting of what resources there are. These, Bales points out, are not natural conditions of inequality but, rather, constructed relations of power.

I found this book difficult to read, not because it lacks style or grace in its prose, nor because it lacks passion in its intentions. I found this book difficult to read because the descriptions, as Bales provides them, of the daily lives of people in five different countries (Thailand, Mauritania, Brazil, Pakistan and India), enslaved by the circuitous and complex web of the global economy, cannot be read as separate from the commodification of human lives that is the basis of advanced global capitalism. It was also difficult to read because, in exposing the template-magnified so we can see it better-of the workings of power, Disposable People illuminates both how narrow self-interest can turn human beings into fearsome monsters as well as the extent to which the corporate language and ideology of globalization has entered our shared discourse and our collective consciousness inviting us to myopia.

While Bales uses examples of particular places it would be a mistake to exoticize the economic relations he describes as peculiar to those places. He continually reminds us that those enforcing and benefiting from the free and indentured labour of others are not more monstrous than what we collectively are willing to bear. This is a point to which Kevin Bales returns again and again. In this regard, he is not pointing fingers but, rather, imploring all of us in northern and western nations, to take cognizance of the human cost of the consumerism we so often take for granted.

As hard as it is to read, more than anyone, young people, as young as senior high school students, need to read this book with the help of teachers committed to teaching for social justice. There is no question that it is only a change in ideology and practice that will turn cultures and nations toward a commitment to equity and humanity. Kevin Bales’ book gives us good reason to take this commitment seriously.

Magda Lewis, Ph.D. – Queen’s University. Kingston, Ontario.

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English Immigrant Voices: Labourer’s Letters from Upper Canada in the 1830s – CAMERON et al (CSS)

CAMERON, Wendy; HAINES, Sheila; MAUDE, Mary McDougall (Eds.). English Immigrant Voices: Labourer’s Letters from Upper Canada in the 1830s. Montreal & Kingston: McGill-Queen’s University Press, 2000. 527p. Resenha de: Canadian Social Studies, v.37, n.2, 2003.

Nearly one million people emigrated from Great Britain to British North America between 1815 and 1850. Most were refugees from a changing economy in which they had been marginalized. Most were small landowners or tenants but not paupers. Moreover, most came with families or as members of extended families with relatives already in North America. Some came through the assistance of the state or private philanthropy. They came from every corner of the British Isles though nearly one-half came from Ireland and one-quarter from Scotland. The story of Selkirk’s promotion of Scots settlement in Prince Edward Island, Upper Canada, and Red River is generally well known but Scotland provided a different context from England for Victorian emigration. English Immigrant Voices, for example, could be employed for a small study of English Poor Laws circa 1830.

This book is the second concerned with the immigration scheme devised by Thomas Sockett, rector of Petworth, to send English agricultural labourers and their families to Upper Canada. The project grew out of the tumult in rural England in the early 1830s during which rural labourers protested wages, working conditions and employment through incendiary attacks on farms and the destruction of machinery. Sockett persuaded Lord Egremont, lord lieutenant of Sussex, to support the project. During the years 1832-37, approximately 1,800 emigrants – men, women and children – made their way to Canada from Petworth. An account of this project, Assisting Emigration to Upper Canada: The Petworth Project, 1832-1837, was written by Wendy Cameron and Mary McDougall Maude and published by McGill-Queen’s University Press. English Immigrant Voices – Labourer’s Letters from Upper Canada in the 1830s, a worthwhile publication, is a companion volume to this earlier study.

English Immigrant Voices contains correspondence from participants in the Petworth assisted immigration project. This correspondence provides historical evidence germane to a number of historical themes. The editors explain that

As social history these letters document the daily lives and working conditions of labouring people – they reflect a shared heritage at home and they carry precise information back to family members and friends who were thinking of emigrating. As personal records, they reveal hopes, aspirations, fears, loneliness, excitement, and wonder (pp. xii-xiii).

English Immigrant Voices contains a fine introduction to the letters and details the history of the correspondence contained in the book. The letters, dating from 1832 to 1838, fill 260 pages and are organized chronologically. They are carefully and thoroughly annotated to assist the reader with historical references contained within the letters. There are also pertinent illustrations throughout to break up the text.

The letters were written mostly by rural, working-class emigrants from the south of England who ventured to Upper Canada in the early 1830s. Most ended their travels in counties west of Toronto including Home, Grey, Niagara, London or the Western Districts. Detailed maps of Sussex, southern England and the Niagara Peninsula allow the reader to follow the progress and settlement of the subjects and authors of these letters.

The editors suggest that this correspondence should be viewed as part of the immigrant literature associated with the period of enthusiastic ‘discovery’ of Upper Canada. Many of the letters were published in pamphlet collections and in newspapers in the 1830s to encourage emigration to Canada. Even the London based Canada Land Company made some use of them.

A small number of the letters survive in manuscript form, but most exist only as part of a published record. Yes, they were edited for spelling, repetition and punctuation. English Immigrant Voices contains the edited versions even when a manuscript copy was available. It should be noted that a few letters in manuscript form without editing have been included in an appendix to give the flavour of the unedited correspondence available to the editors. Cameron, Haines, and McDougall Maude have done a substantial amount of work to prepare the letters for the eyes of readers. The result: the interaction of readers with this correspondence will be both pleasurable and rewarding.

How might they be used in the classroom? In recent years, some historians have turned to the task of opening up the past through a close reading of historical documents. Carlo Ginzburg’s micro-history, The Cheese and the Worms: The Cosmos of a Sixteenth-Century Miller, is now a classic in this genre. Such approaches have illuminated just how much is lost when documents-literary and otherwise-are used only as evidence of larger historical patterns. While these letters do suggest larger historical patterns they might be used even more effectively to explore human subjectivity. How did the emigrants frame their encounter with Canada’s agricultural frontier? What narratives did they use to structure their accounts of travel from the old to the new? How do these letters convey notions of social identity, class and ethnic relations that were at the centre of the culture of these emigrants? The 1830s were an era of tumult and popular movements of reform in both Britain and Canada. Do the letters contain evidence of social protest or do they suggest that the Petworth letter writers embraced orthodox social and economic views? The letters in English Immigrant Voices might also be usefully compared with immigration literature from other eras and locations in Canadian history. Here a search might be undertaken for texts on immigration made available through Early Canadiana Online. This is a service provided free of charge by the Canadian Institute for Historical Microreproductions (CIHM). A search on the internet will take interested parties to the collection at http://www.canadiana.org/eco/english/about.html.

Tom Mitchell – Brandon University. Brandon, Manitoba.

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Knowing Teaching & Learning History – STEARNS et al (CSS)

STEARNS, Peter N.; SEIXAS, Peter; WINEBURG, Sam. Editors. Knowing Teaching & Learning History. New York: New York University Press, 2000. 482p. Resenha de: BRADLEY, Jon G. Canadian Social Studies, v.37, n.2, 2003.

So much a comma can imply. The front cover of this marvelous compilation boldly proclaims a title written as: Knowing Teaching Learning History. The inside fore pieces, on the other hand, perhaps more conventionally, dictate the title as: Knowing, Teaching, and Learning History. How do these little commas challenge the first impressions of what might be contained within the pages?

Often linguistically defined as separating inseparables, the comma is a powerful stop within the English language. Connoting a definite pause, commas draw attention to the separated and un-separated words/phrases and, consequently, focus attention and make clear inferences. Therefore, is the title actually Knowing Teaching as the cover proclaims or Knowing, Teaching as the fore pieces maintain? To some, this may seem akin to debating how many angels dance on the head of a pin; to others, thankfully, this is a major linguistic issue that grounds the main thrust and orientation of the volume.

Mindful of English academic Francis Macdonald Cornford’s (1874-1943) protestations, one has to be extremely careful when engaging in what he playfully terms the comma hunt. While commenting on the place and power of academic meetings, he sarcastically notes that another sport which wastes unlimited time is comma-hunting. Once start a comma and the whole pack will be off, full cry, especially if they have had a literary training (Cornford, 1922, p. 21).

Published in conjunction with the American Historical Association, this book emanates in large measure from what the authors categorize as the American congressional History Wars of the mid-1990’s (for but one example, consult History on Trial, 1997). As so often happens in matters related to curriculum, politicians – and those ever so plentiful outside experts – debated the kind and degree of history that should be taught in the schools of the United States. Knowing Teaching and Learning History seeks to establish a sort of contemporary pedagogical playing field on which this continuing educational and philosophical struggle may take place.

Canada, like many other countries caught up in the immediacy of the current technological revolution, is not immune from similar gigantic contests. The public reaction to various cross-Canada and widely reported surveys that generally show Canadian youngsters to be quite ignorant of their Country’s history often leads to short bursts of parliamentary indignation and tabloid media sentiments of the need to revitalize low-key Canadian nationalism(s).

More recently, Granatstein’s small polemic, Who Killed Canadian History? (1998), has likewise produced a less strident but equally rough ground-swell in Canadian academic and educational circles regarding the manner and way that history, as a separate and distinct discipline, is taught at various levels of the Canadian educational system. Political debate has followed and various foundations and other organizations espousing various points-of-view have established themselves in the interest of finding the true route to historical comprehension.

Cries have been raised across North America, for example, regarding the kind of history that is taught, the orientation of history and its purported goals, the place of history within the overall curriculum package and even that most dreadful of all terms, standards, for the teaching – and evaluating – of history. Some alarmists have even suggested that the teachers (of course, classroom teachers are usually blamed for all of society’s ills at one time or another) are the main culprits and it is their general lack of training that contributes to poor student showing on various tests and skills dealing with historical knowledge.

For academics and educators who reside north of that geographically invisible but intellectually physical forty-ninth parallel, the book’s subtitle of National and International Perspectives is immediately appealing. Notwithstanding the commonalties amongst children and adolescents as well as the difficulties inherent in the teaching and learning of history in this day and age of immediate gratification and ten second sound bites, the joy of seeing a touch of Canadian content in this essentially American tome is most pleasurable.

Ever mindful of English dramatist Alan Bennett’s (1985) pithy remark that Standards always are out of date. That is what makes them standards (Act II), one can view the almost five hundred pages of Knowing as a most compelling, eclectic, and wide ranging view of the teaching and learning of history in elementary and secondary classrooms. The chapters are arranged into four clumps aptly noted as: (1) Current Issues in History Education; (2) Changes Needed to Advance Good History Teaching; (3) Research on Teaching and Learning in History; and, (4) Models for Teaching. The twenty-two chapters in Knowing touch upon just about every facet connected to the teaching and the knowing of history. Far from being an exercise in American navel gazing, the editors have done a fine job in bringing a variety of other world and professional views to the issues at hand. As well as cogent pieces by Peter Seixas of UBC and Desmond Morton of McGill, there are a number of relevant articles by authors from England as well as Europe.

While this geographic sprinkling does indeed provide for differing views, the editors have not shied away from internal professional debates either. Although unpopular in some academic circles, Diane Ravitch does raise concerns about the training of classroom teachers. Furthermore, the place and role of elementary education in laying the foundation to future scholastic endeavors is clearly evident as there are a number of articles which address the need for historical themes as well as a sense of history to be honoured and strengthened with younger learners. Finally, there is a wonderful collection of articles concluding the volume that deal with research implications and the most effective mediums for the teaching of history.

Knowing Teaching and Learning History is definitely required reading by anyone who is interested in the manner in which history (at whatever level) is taught. True, there are some particular geographic situations and specific examples that may or may not be directly or immediately applicable to the broad Canadian scene but, on the whole, each and every article in Knowing explores a unique dimension on the wide landscape that is history. In my view, there was not a single chapter that did not resonate with a conviction and a desire to see the teaching and the knowing of history rejuvenated.

Unfortunately, many people (and that may well include elementary and secondary teachers) contend that history is somehow settled. Too many classroom practitioners believe that it is an old story that cannot be added to and needs no new interpretations. Notwithstanding the forceful assurances of conservative commentator Rush Limbaugh, the teaching and learning of history at all levels of the educational system is complex and layered. Wouldn’t it be nice if

History is real simple. You know what history is? It’s what happened. History is what happened, and history ought to be nothing more than the quest to find out what happened (Limbaugh cited in Nash, Crabtree, and Dunn, 1997, page 6).

Knowing Teaching and Learning History explores the complexity of teaching and knowing and learning history at a myriad of levels. This is not a static voyage; rather, it is one that will take the interested reader on a wonderful journey of discovery and reexamination. In many ways, this is a very positive and uplifting volume. While difficulties and problems are accurately noted and contextualized, the overarching sense that emanates from the book is that history is alive and well in classrooms around the world. Captured within its pages, Knowing provides an educational framework that anchors the discipline and centers its impact upon society.

References

Bennett, A. (1985). Forty Years On and Other Plays. London: Faber and Faber.

Cornford, F.M. (1922). Microcosmographia Academica. Cambridge: Bowes and Bowes Publishers.

Granatstein, J. L. (1998). Who Killed Canadian History? Toronto: HarperCollins.

Nash, G.B., Crabtree, C. Dunn, R.E. (1997). History on Trial: Culture Wars and the Teaching of the Past. New York: Alfred A. Knopf.

Jon G. Bradley – Faculty of Education. McGill University. Montreal, Quebec.

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Hyper Texts: The Language and Culture of Educational Computing – ROSE (CSS)

ROSE, Ellen. Hyper Texts: The Language and Culture of Educational Computing. London, ON: The Althouse Press, 2000. 210p. Resenha de: GRIFFITH, Bryant. Canadian Social Studies, v.37, n.2, 2003.

The last decade has seen a number of books on the subject of the use and benefit of computers in education. Ellen Rose’s Hyper Texts attempts to fill the much needed gap between Dan Tapscott’s Growing up Digital and Clifford Stoll’s Silicon Snake Oil. By focusing on language, Rose hopes to enable a serious consideration of what it really means to learn with a computer or to think about learning in terms of digital technology(p. xi); but does she succeed? The answer for this reviewer is both yes and no.

Although Rose cuts through the hyperbole she criticizes, she creates her own set to replace it with her use of poststructural language which is often even more dense than the arguments she rightly criticizes. Too often Hyper Texts reads like a religious tract to support Foucault’s insights and this is a pity because there is much good clear thinking buried beneath the metaphors. I also take issue with the planning of this book. If Rose intends her audience to be those educators and parents she addresses on her first page, I then wonder not only why she relies so heavily on poststructuralist language, as I have mentioned above, but also why she includes an in-depth study of ‘The McKenna Experiment’? I think the issue of linkage should have been addressed in the Preface. As a result, Hyper Texts attempts to do too much. It addresses a very important educational issue by using a complex, but appropriate epistemological lens. It also offers a case study, not uninterestingly, but one which becomes a diversion from the central argument. My guess is that the educators and parents who buy this book would have preferred a shorter and more accessible book on the former while the latter, the McKenna chapter, would have been a nice journal article.

Having said all that, let me present some of the well-made points in the book. First, and perhaps most importantly, Rose is correct in trying to find a way between the extreme positions, to try getting beyond the hype by not focusing upon the computerized classroom, but between the linesthat is, the discourse of educational computing itself, as found in cultural texts(p. 4). She is also correct, in my estimation, in pointing out the contrast in language claims between the modernist and poststructuralist positions for her intended readers because they need her to be clear about what these opposing views bring to the table for both her and them. Although not new, Rose’s claim that poststructural analysis involves recognizing that language is far more complicated than the neutral conduit of modernism, but is indeed constituted of multiple, continually shifting meanings in which power, truth, and knowledge are inextricably entangled(p. 7), is very much to the point. It is a pity that in far too much of this book this clear point is often obscured by language often found in doctoral dissertations.

Rose is also right in claiming that her task is all the more important because of the extent to which IT has, to use her modernist adjective, infiltrated our world. This task is not a new one. Certainly since the introduction of technology in European society, thinkers have tried to make sense of it by using a variety of different models. It might have strengthened Rose’s argument to point out that poststructuralism is just another lens to make sense of this on-going process.

I think that one of the real strengths of this book is the claim that IT offers itself as the virtual site in which our utopian dream will be realized(p. 28) and a good discussion follows on this point, drawing nicely on the literature. This is a good segue for the much argued points of whether technology equates to progress and who controls it. It is true, as Rose argues, that modernists tend toward a single authoritative perspective and that wiring the world helps that cause. What is not clear to me, and I expect for many of Rose’s intended audience, is how the multifaceted and extremely complex poststructuralist world is an improvement. One could argue, after all, that the modernist position is so easy to state that one could simply subvert it when it is inappropriate. A poststructuralist world is full of ‘as if’ multifaceted and complex contexts. That may be the way it really is, but Rose needs to use language in a manner to convince us of this.

Rose’s great contribution is the discussion of the issue of control. One wishes that this book was half the length and that this discussion was far more prominent. On page 58 she makes the insightful comment that The way in which one believes computers should be used in the classroom in turn has much to do with personal understandings of what constitutes knowledge and learning. If we believe that what we can do in the classroom is limited and defined by the limits of technology then we are in trouble. Rose suggests that the IT revolution privileges the stories of technocrats over those of other individuals (p. 73) and that we must be clear to distinguish between the desire to use computers from the desire to learn (p. 75). She says: the child may be drawn to computers in the first place because they offer an entertaining alternative to books and school-learning, in which case computer use constitutes an implicit rejection of scholarship (p. 75). This is an important point, and one addressed recently by Robert Hassan in his article Net results: knowledge, information and learning on the Internet. We really know far too little about how children learn in computer rich contexts and Western society is making some massive assumptions about unknown outcomes. Rose is correct in arguing that individual learner needs, not the limits of technology, must drive our use of technology in the classroom. In the end it is the teachers and parents who must participate in the construction of the meaning of information technology and educational computing(p. 177). She correctly argues that we must confront our own individual responsibilities as members of a society increasingly given over to the imperatives of technology (p. 177). The new intellectual which Rose describes in her last chapter is one who welcomes the challenges of our complex world and actively participates as an equal in the decision making about the place of technology in our lives. This too is not a new argument, and one not the sole prerogative of the poststructuralist, but it is one worth making again and again.

Let me end this review with a quote from the President’s Information Technology Advisory Committee (PITAC) in the Federal Republic of Germany:

Information technology is already changing how we teach, learn and conduct research, but important research challenges in the field of education remain. We know too little about the best ways to use computing and communications technology for effective teaching and learning. We need to better understand what aspects of learning can be effectively facilitated by technology and which aspects require traditional classroom interactions. We also need to determine the best ways to teach our citizens the powers and limitations of the new technologies and how to use these technologies effectively in their personal and professional lives (PITAC 1999).

References

Hassan, R. (2001). Net results: Knowledge, information and learning on the Internet. Journal of Educational Enquiry, 2(2), 45-57.

PITAC report (1999). Ten critical national challenge transformations.
http://www.ccic.gov/ac/report/

Stoll, C. (1999). High-tech heretic: Why computers don’t belong in the classroom and other reflections by a computer contrarian. New York: Doubleday.

Tapscott, D. (1998). Growing up digital: The rise of the net generation. New York: McGraw-Hill.

Bryant Griffith – Faculty of Education. Acadia University. Wolfville, Nova Scotia.

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Sharing the Good Times: A History of Prairie Women’s Joys and Pleasures – HOLT (CSS)

HOLT, Faye Reineberg. Sharing the Good Times: A History of Prairie Women’s Joys and Pleasures. Calgary: Detselig Enterprises Ltd. 2000. 232p. Resenha de: HOFFMAN, George. Canadian Social Studies, v.37, n.2, 2003.

Sharing the Good Times is an interesting and useful contribution to prairie history for three reasons. Material from primary sources is presented on a number of topics related to the social history of prairie women. The photographs in the book are excellent. Sharing the Good Times is, in part, a photo history and, as the author notes in the introduction, photos do tell stories and catch a moment of truth. There is also an extensive list of secondary and archival sources at the end of the book which includes many references not found in standard bibliographical guides. This bibliography will be of considerable value to students of both western Canadian and women’s history.

The book contains ten chapters, and a particular theme is developed in each. In some instances the author identifies an individual and shows how aspects of her life relate to the theme. In other cases voices from the past address the theme directly through lengthy excerpts from memoirs, diaries, letters or interviews. For example, in the chapter entitled What About the Outer?, which concerns dress, fashion and hairstyle, readers are introduced to Dorothy Clark, who moved to Alberta in 1924 from Minneapolis where she had been trained in beauty culture. Clark became a hairdresser in Lethbridge and was soon using a marcelling iron for the short hair and waves which were popular hairstyles in the 1920s and 1930s. The author then refers to The Perfect Woman, a book which circulated in the Canadian west in the early 1900s. Several paragraphs recommending home remedies to women to help them attain what was considered the ideal of physical beauty at the time are quoted directly.

Most of Sharing the Good Times follows a similar pattern. Love Lights Shining, Women’s Culture, Women’s Lives and Sisterhood are examples of other chapter titles. Some of the events and the characters are well known, such as Nellie McClung, Ethel Catherwood, the Edmonton Grads and the All-American Girls’ Professional Baseball League; but most are ordinary people living normal lives at various times during western Canada’s past. The result is a considerable body of entertaining, interesting and historically significant information which can be used to think perceptively about western Canada’s cultural history.

There is, however, at least one problem with the book, and it relates to its central purpose. Faye Reineberg Holt argues in the introduction that too often in the past histories of prairie women concentrated on the difficulties of their lives, which she refers to as the negative part of life. Holt contends that the happy side also deserves to be told and that this book, as its title suggests, was written with that purpose in mind. From the perspective of the historian this is a curious and even dubious view. It raises a number of questions. Why did previous writers emphasize the hardships and sacrifices of women? Can the negative and positive sides of life be separated? Is it not possible to argue that many of the recollections of the women in Sharing the Good Times can be used to show the difficulties of life as easily as its joys? There are, for example, references to life on the frontier, pioneer experiences, depression and war in the book.

It seems to this reviewer that the author should simply have let the women tell their stories. These interesting accounts stand on their own; let the reader judge whether they are joyful or not. In the end what the women have to say is more complicated and difficult to interpret than the author suggests by her approach. When it was said that mothers of drought-stricken families in the prairie dust bowl of the 1930s maintained their senses of humour and enjoyed life, a wise person replied: yes, but sometimes it was necessary to laugh to keep from crying.

Sharing the Good Times could be used by high school teachers in History and Social Studies courses. It is written at a level which makes it readable for high school students. The nature of its subjects love, dating, honeymoons, fashions, sports undoubtedly interest teenagers. I recommend that teachers select women from these pages and use their words to bring the past alive and make it interesting for young students. Great historical events remain important, and many are referred to in this book, including the fur trade, the Riel Rebellions, the settlement of the west, the two world wars, the 1920s and the Great Depression. There is material in Sharing the Good Times which shows how the lives of ordinary prairie women were a part of those times. For many students that realization can give history personal meaning.

George Hoffman – History Department. University of Regina. Regina, Saskatchewan.

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Transformative Learning: Educational Vision for the 21st Century – O’SULLIVAN (CSS)

O’SULLIVAN, Edmund. Transformative Learning: Educational Vision for the 21st Century. Toronto: University of Toronto Press, 1999. 304p. Resenha de: LEMISKO, Lynn Speer. Canadian Social Studies, v.37, n.2, 2003.

In his book Transformative Learning, Edmund O’Sullivan has brought a deeply moving and deeply thoughtful vision to the discourse of educational reform. Rather than simply offering a critique of the modernist meta-narratives that have shaped education since the Enlightenment, O’Sullivan offers up a new grand narrative, or mythic vision, which he argues is necessary if we are to educate for the survival and sustainability of our planet. In so doing, he bravely ventures along a pathway that many postmodern and critical theorist angels fear to tread.

Drawing upon scholarship from an exceptional variety of disciplines including history, metaphysics, anthropology, biology, eco-philosophy, cosmology, political theory, feminist theory, psychology, chaos theory, and physics, O’Sullivan describes and critiques modernity and the current mantras of globalization. He then shapes a narrative vision which he hopes will be of sufficient power and complexity to orient people for effective action to overcome environmental problems, to address the multiple problems presented by environmental destruction, to reveal what the possibilities are for transforming these and to reveal to people the role that they can play in this project (p. 182). In shaping this comprehensive cosmology, O’Sullivan does not offer particular and specific suggestions for educational practice. Instead he invites readers to reflect deeply upon the personal and cultural perspectives that have and are driving educational efforts and to envision the shape of education if the cosmology he elucidates were to become our guiding narrative.

While postmodernist critiques are typically deconstructive and express grave concerns about the construction of new grand narratives to replace the old, O’Sullivan posits that without a comprehensive reconstructive cosmology humans are left without a positive transformative vision to guide future action. In his narrative, the universe story, O’Sullivan proposes that three interrelated basic tendencies operate in the universe at all levels and all the time. These tendencies are: differentiation, which is a creative force that brings with it the burden of being and becoming, different from everything else in the universe (p. 223); subjectivity, which includes the idea that all things in the universe have, at least in latent form, the capacity for sentience and, therefore, should be considered as living, spontaneous and sentient [entities] that can be addressed in intimate terms (p. 192); and, communion, which embraces the notion of the deep and relational quality of all reality (p. 192). O’Sullivan’s grand narrative, then, encompasses a vision that not only includes all humans in all their wonderful diversity and uniqueness but also includes all of the natural world and universe. This is a compelling narrative because it is framed by ideas that enable us to honour and encourage both the individual and the collective, the human and not human.

Although O’Sullivan’s tracing of the historical roots of the present age is somewhat linear and simplistic, his analysis of present trends and dominant ways of thinking is both comprehensive and insightful. Using a plethora of recent scholarly studies he develops a well-documented and fascinating synthesis of ideas. Although the density and abstractness of the metaphysical ideas is challenging, this rich and complex work should be on the reading list of all educators, including practising teachers, administrators, graduate students, and university professors. In fact, this book offers intriguing insights for all who ponder the future of humanity and our planet.

Lynn Speer Lemisko – Faculty of Education. University of Saskatchewan. Saskatoon, Saskatchewan.

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Canada: the culture – KALMAN (CSS)

KALMAN, Bobbie. Canada: the culture. New York: Crabtree Publishing Company, 2002. 32p. KALMAN, Bobbie. Canada: the land. New York: Crabtree Publishing Company, 2002. 32p. KALMAN, Bobbie. Canada: the people. New York: Crabtree Publishing Company, 2002. 32p. Resenha de: BRADLEY, Jon G. Canadian Social Studies, v.37, n.2, 2003.

The Land, Peoples and Culture Series consists of a colourful collection of volumes aimed directly at what might be termed the elementary/young adolescent coffee-table/library market. Published by Crabtree, and slightly oversized at 21 cm by 28 cm, the glossy coloured pages and hardbound volumes are visually appealing as well as physically durable.

Twenty-two countries are currently represented in the series and the selection of the specific countries deserves a comment. The two unique continents of Antarctica and Australia are not represented at all. At first glance, this is a surprising omission. However, as the criteria appears to be a three-volume set for each country (a single volume for each interconnected theme of the land, the people, and the culture) one can perhaps understand these omissions. Nonetheless, while Antarctica certainly does not have a culture or human inhabitants within the parameters of the series framework, the omission of Australia does offer a moment’s pause. The selection of representative countries for the remaining five continents is quite diverse and certainly does provide for a wide and varied selection. Africa is represented by Egypt, Nigeria and South Africa; Asia by China, India, Japan, Tibet, The Philippines and Vietnam; Europe is heavily favoured with France, Germany, Greece, Ireland, Israel, Italy, Spain and Russia; North America’s sole representative is Canada; while Argentina, El Salvador, Mexico and Peru showcase South and Central America. In total, then, Crabtree has undertaken a somewhat ambitious project by producing sixty-six high quality books!

Neatly packaged within a common physical arrangement, the books are bright and colourful, and clearly would appeal to both a non-reading and early reading clientele. With some deviations, most pages are evenly split between short snippets of written text and visuals. While the majority of the visuals are coloured photographs of people and/or geographic locations and scenes, there is a smattering of art reproductions as well as the odd black and white rendition. The books appear to follow a set, if somewhat monotonous, pattern of a two page (or even multiples) spread for each topic or item within the theme. Canada: the people, for example, has the following chapter titles: ‘Faces of Canada’, ‘The first people’ (4 pages), ‘History and heritage’ (4 pages), ‘From around the world’, ‘Canadian families’, ‘City life’, ‘Country life’, ‘School’, ‘Haley’s skating lesson’, ‘Canadian cuisine’, ‘Sports and leisure’, and ‘Canada’s future’.

As there is no introduction or letter to parents or other such directional statement, the reader has to sort of guess the target audience envisioned by the publisher. There are no activities to do, no follow-up or research questions, no referenced web sites, and no bibliography of additional readings. The volumes are self-contained and inclusive and, interestingly, do not even direct the reader to the other books within the three volume subset of the same country.

From a readability point of view, the vocabulary seems straightforward with short and direct sentences. There is a small and select glossary at the back of each book along with a brief index. Certain key words are sometimes highlighted within the text and each visual has its own captioned notation.

As my maiden aunt used to muse, I am torn betwixt and between. I really, really like some aspects of the series (glossy paper, strong colour, short narratives) and, at the same time, I quite strongly detest other features (overly simplistic, tendency towards characterization). My personal dilemma is to attempt to take a reasonable professional stance and to offer an informed educational opinion.

While there is much that is positive within the series, there are comments as well as omissions that cause one to pause. In Canada: the people, for example, the description of elementary education (p. 22) is clearly of an Ontario model that is not applicable to the rest of the country and, furthermore, why is such a big fuss made of children wearing a school uniform? Additionally, while the story of Haley and her figure skating lesson (pp. 24-25) has much to recommend it as a blended family story, the picture accompanying the story does not reflect the facts as described. In Canada: the culture, no mention is made of either Pierre Berton or Farley Mowat as children’s authors although Margaret Atwood (pp. 16-19) gets prime billing for The Handmaid’s Tale. I am not at all sure of the relevance of a black and white photograph of Mary Pickford or a coloured picture of a very young Jim Carrey (pp. 20-21) as being of any interest to anyone. Canada: the land refers to Nova Scotia as Scenic, Quebec as Unique, Ontario as Bustling and British Columbia as Beautiful. I am a tad surprised that the other provinces were unworthy of a snappy qualifier. Is Montreal still the second largest French-speaking city in the world? Notwithstanding that choices are always difficult, the ‘Canadian places’ four page spread could have been far more creative and representative than brief descriptions of Toronto, Montreal, Vancouver, Ottawa, Historic Quebec City, Head-Smashed-In Buffalo Jump, and Dawson City along with a full-page view of the Chateau Frontenac overlooking the St. Lawrence River.

On balance and in the interests of reaching a decision (no sitting on the proverbial Canadian fence, eh?), I guess that I should not be too critical and more positively side with the opinion that something in print is better than nothing at all. After all, the books are very, very colourful and do attempt to do what some might well view as impossible in the first place; that is, describe this country historically, culturally, and geographically in less than 100 pages! Notwithstanding my own reservations and even though Kalman may only be able to present a somewhat simplistic view of this broad and complex society, I feel that these books would do well in a community children’s library, the junior section of a school library, and perhaps even be appropriate for children’s anniversary gifts if for no other reason than the wonderful visuals and pictures.

Jon G. Bradley – Faculty of Education. McGill University. Montreal, Quebec.

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Stardust and Shadows: Canadians in Early Hollywood- FOSTER (CSS)

FOSTER, Charles. Stardust and Shadows: Canadians in Early Hollywood. Toronto: Dundurn Press, 2000. 408p. Resenha de: BRILEY, Ron. Canadian Social Studies, v.37, n.2, 2003.

In Stardust and Shadows, Charles Foster argues that Canadians made an important contribution to the development of early Hollywood. To support this thesis, he includes eighteen portraits of Canadians who were active in the formative years of the film industry in both New York and Hollywood. In addition to brief biographies of well known film figures such as Mary Pickford, Louis B. Mayer, Mack Sennett, and Norma Shearer, Foster examines lesser known individuals such as Florence La Badie, Al and Charles Christie, and Joe and Sam De Grasse. The sketches are well written and based upon interviews conducted by Foster, an author who is obviously enamoured with his subject. A careful reader will find some real gems in this volume, such as the fact that when the Pickfair estate (home of Mary Pickford and Douglas Fairbanks) was renovated, its new owners were shocked to find what they assumed was some type of torture chamber. Instead, they had discovered a dentist chair and equipment which was installed by Fairbanks so that Canadian actor Sam De Grasse, whose original training was in the field of dentistry, could attend to Fairbanks in the comfort of his own home.

Foster primarily uses anecdotal evidence to bolster his case for the Canadian influence within Hollywood. However, Foster is not a professional historian, and he offers little analysis as to why Canadians played such a pivotal role in the film capital’s formative years. In fact, Foster offers little explanation as to why he has selected these eighteen Canadians for inclusion in his volume. The assumption is that these are the individuals about whom Foster was able to gain the greatest amount of information during his interviews.

Foster began this project during the Second World War when he was a pilot for the British Royal Air Force and spent two weeks of leave in Hollywood. He was invited to stay at the home of fellow Canadian and director Sidney Olcott, who was instrumental in opening the doors of the film industry to Foster. The Canadian connection in Hollywood became a passion for Foster, who returned to the film industry as often as possible over the next fifty years. His work in the field of public relations in both the United States and England, however, made it difficult for Foster to turn his interviews into a manuscript. Upon retirement in the early 1990s, Foster vowed to complete his labor of love which is contained within the pages of Stardust and Shadows. The author concludes, The result is this tribute to eighteen talented Canadians. It will, I hope, make a lot of people wonder whatever would show business have done without them (p. 10).

Foster is obviously enamored with the glamour of early Hollywood, but what will modern readers make of this volume? Individuals such as Mary Pickford and Norma Shearer are hardly any longer household names. In eulogy to the way Hollywood used to be, it is worth considering that film today is in many ways a more democratic and accessible enterprise with new technologies and the inclusion of racial and ethnic groups once excluded from the mainstream. Also, it is not necessary simply to consider the Canadian contribution to Hollywood, for Canada has a rich film industry and culture which is worthy of celebration.

Accordingly, while Foster’s book is often quite entertaining, it is also rather antiquated. It is difficult to perceive of this volume being of great interest in the schools, however, students might learn something about the value of doing oral history and pursuing one’s dreams. Some of the portraits might be of use in the classroom to demonstrate that Hollywood was not simply an American creation. Many nationalities, including Canadians, played a significant role in Hollywood’s formative years. While Stardust and Shadows may be of greater interest to older readers, it is worth noting that there is a rich Canadian cinematic history on which contemporary filmmakers continue to build.

Ron Briley – Sandia Preparatory School. Albuquerque, New Mexico.

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Fragmentos da História Intelectual: entre questionamentos e perspectivas – SILVA (VH)

SILVA, Helenice Rodrigues da. Fragmentos da História Intelectual: entre questionamentos e perspectivas. Campinas: Papirus, 2002. Resenha de: LOPES, Marcos Antônio. O mapa de um labirinto: a História Intelectual, seus problemas, seus métodos e incertezas. Varia História, Belo Horizonte, v.18, n.28, p. 225-229, dez., 2002.

Em Fragmentos da História Intelectual Helenice Rodrigues da Silva apresenta ao leitor brasileiro campos temáticos e domínios teóricos em relação aos quais ainda não há “fronteiras” bem definidas. Como campo de pesquisa relativamente recente na França, as temáticas e os métodos de abordagem da História Intelectual ainda estão por ser fixadas. Segundo a autora, isto faz da História Intelectual um campo de estudos marcado pela indeterminação dos objetos e à procura de uma verdadeira identidade.

Gênero historiográfico forte na Inglaterra e nos Estados Unidos, países nos quais a expressão História Intelectual possui sentidos muitos diferentes, a variante francesa apresenta diferenciais que a particularizam, tornando-a um “desvio” fecundo e revelador de aspectos novos que as obras de pensamento podem propiciar. Mesmo que aguarde por uma definição de seus estatutos e pela conquista de seus direitos de cidade, a História Intelectual francesa, a julgar por este livro, não se afigura como um passo em falso, como uma disciplina que se desloca em terreno movediço.

Os oito textos densos e instigantes reunidos sob a marca despretensiosa de “fragmentos” demonstram que o gênero pode não possuir as suas cartas de nobreza, principalmente quando comparado à grande tradição de outros ramos da pesquisa histórica no país de Michelet. Mas esses “fragmentos” de Helenice Rodrigues demonstram, com um excesso espantoso de evidências, que a História Intelectual francesa já conseguiu definir traços bem pronunciados de identidade. Neste sentido, ela não pode ser confundida com a Intelectual History norte-americana de Martin Jay e de Dominique LaCapra como também não pode ser aproximada, sem reservas, da História Intelectual inglesa praticada pelo círculo de Cambridge, apesar de alguns elementos compartilhados com esta última vertente.

Certamente, ao fazer alianças teóricas ou ao recusá-las, nota-se que a História Intelectual francesa já entrou em seus anos de maioridade. Sem dúvida, os temas, os problemas e os métodos da História intelectual aparecem, neste livro, formulados com muito vigor e sofisticação. Não há nada que lembre uma narrativa empírica ao acaso das evidências. Pelo contrário, a autora vai tecendo a sua complexa tapeçaria matizando-a com um aparato teórico que impressiona. Assim é que, por “fragmentos da história intelectual” devemos compreender, muito antes, um conjunto multifacetado de nuanças do que um agrupamento de objetos dispersos.

Entretanto, riqueza temática e sofisticação teórica podem apresentar um peso excessivo, cobrando preço elevado ao leitor. Curto mas denso, rápido porém complexo, o livro de Helenice Rodrigues é uma panorâmica na qual se justapõem, por uma opção autoral lúcida e muito apropriada, o movimento das idéias e a dinâmica da história efetiva francesa em cinco décadas de embates dos intelectuais entre si e em meio às lutas de seu tempo. À diversificação temática do livro, que devemos compreender por riqueza de nuanças, alia-se a simplicidade e a elegância da escrita da autora. Certamente que a sua editora poderia ter se esmerado um pouco mais na revisão dos originais, pois as sucessões de gralhas ao longo do texto hão de provocar algum desconforto nos leitores que apreciam conteúdo e forma. A ausência de hifenização, as grafias incorretas dos nomes de autores e uma série de pequenos problemas de tradução, como é o caso do livro do filósofo francês Julien Benda — A traição dos clérigos, quando o mais razoável seria A traição dos letrados ou mesmo A traição dos intelectuais — poderiam ter merecido uma maior atenção.

Em seu texto, a autora dá mostras de se esforçar em não elidir a trajetória dos intelectuais do mundo histórico e das circunstâncias sobre as quais viveram e atuaram. Ao destacar a importância da produção, da recepção dos textos e das intervenções públicas dos intelectuais franceses, ela revela toda a sua preocupação em distinguir a História Intelectual de uma história de sistemas formais de pensamento, esta última desenraizada da vida social e sem conexões com a realidade às vezes cruel e selvagem da história efetiva do mundo contemporâneo. Este é particularmente o caso dos capítulos sobre Hannah Arendt e Jean-Paul Sartre, em que a barbárie do nazismo e a opressão do colonialismo revelam a face negra da civilizada Europa.

Esta orientação teórica, ou antes, esta opção de foco, definida com ênfase no ensaio de abertura “História Intelectual: condições de possibilidades e espaços possíveis” pode parecer um esforço preventivo elementar, mas na prática não o é. Ora, quando movimentadas pelos historiadores, muitas vezes, as idéias tendem a ganhar uma força centrífuga que, em geral, guiam-nas para áreas de escape sem base consistente de apoio. São as derrapagens comuns dos historiadores que acabam centrando suas abordagens em circuitos analíticos que se esgotam no próprio sistema de idéias e na arte pedregosa de sua interpretação. É o que se tem denominado por internalismo, com um fraco impulso para a integração do texto ao mundo histórico que o gerou e uma quase total carência de indagações pertinentes à pesquisa histórica.

Creio que a autora tenciona deixar uma mensagem não completamente explicitada: o mundo da pesquisa histórica está cheio de boas intenções para estabelecer a perfeita síntese entre teoria e objeto. Isto pode significar que as tais boas intenções criteriosamente expostas em páginas e páginas em que o plano teórico certo e seguro é celebrado como instrumento eficaz de conexão das idéias com a realidade histórica que as gerou, nem sempre é seguido à risca por aqueles que as costumam enunciar. Desse modo, a História Intelectual pode fazer com que as idéias desfilem nuas por um longo tempo, quando despidas de sua armadura natural, ou seja, quando separadas de seu contexto. E por contexto não devemos compreender apenas o chamado circuito da tradição interpretativa dos textos, mas preocuparmos com os problemas reais do mundo histórico do autor. Além disso, é preciso cercar as análises dos textos de uma teoria da ação.

Sem dúvida, este esforço de enraizamento, de contextualização, pode ser uma virtude real da História Intelectual francesa. E tanto mais ainda se a compararmos às tendências pós-estruturalistas, em que o apego à análise textual é a nota forte. Tudo é texto, ou melhor, discurso, parece ser o principal argumento dessa história de extração internalista. Ora, hoje há consenso de que a História é um tipo específico de discurso. Mas um tipo específico de discurso sobre o quê? Ora, sempre houve ou existirá uma realidade fora do texto que requer a parcela mais substancial da atenção dos historiadores. Cabe distinguir, então, que se um documento histórico, de qualquer natureza, deve ser apreendido pelo historiador como algo que nunca representa a verdade — é apenas uma representação de realidades contingentes e, portanto, um “monumento” da capacidade de representação humana — o discurso define algo como a “alma” do texto: uma matéria opaca que apenas tornar-se-á legível pelo esforço da operação interpretativa. Como afirma Ricoeur, o estruturalismo tende a estudar a linguagem poupando o sujeito, a ação, os eventos. A História Intelectual, segundo a defesa de Helenice Rodrigues, investe na capacidade do locutor, na força ilocucionária dos discursos, na capacidade do sujeito em situar-se como ator no mundo, como um agente ativo que se opõe a interlocutores reais, como um coeficiente de força que quer atingir um alvo em sua existência histórica concreta.

Outro mérito destes Fragmentos… é que, além de retratar a complexidade do universo de relações dos intelectuais em meio aos escombros do pós-guerra e dos dilemas das três décadas gloriosas da retomada econômica da França (1945-75), o livro é também uma bem fundamentada exposição de teoria e metodologia da história. Nesse sentido, constitui-se num elenco de abordagens de autores que, apesar de não serem historiadores de ofício, prestaram um grande contributo ao desenvolvimento da história-disciplina: Bourdieu, Elias, Cassirer, etc.

Surpreendente pelas tramas e tensões que revela ao leitor, e, sobretudo, pela novidade e originalidade das análises, é preciso confessar a sensação de perplexidade diante de um conjunto temático tão rico e, consequentemente, tão difícil de devassar. Sempre explorando temas candentes da história francesa contemporânea, questões geradoras de intensos debates e grandes mobilizações sociais (reflexos do nazismo, a revolta de 68, a independência da Argélia, a divisão identitária da Revolução Francesa), Helenice Rodrigues se aproxima bastante de uma história social das idéias, ao destacar as correntes intelectuais que influenciaram e contribuíram para dar “forma” às representações coletivas dos franceses na segunda metade do século XX.

Inegavelmente, há um grande esforço em levar a bom termo uma História Intelectual empenhada em demonstrar a gênese e a difusão das idéias e da influência exercida por alguns intelectuais em determinadas conjunturas. A autora demonstra como os acontecimentos políticos, econômicos, sociais e culturais foram influenciados pelo movimento das idéias (e vice-versa), por certos “climas” intelectuais que lhes antecedem no tempo e que, em certa medida, lhes preparam o terreno. Mas, não tendo a intenção de enfocar as idéias sob o ângulo de uma história dos intelectuais, a autora não explora qual foi a real força transformadora do intelectual interventor (caso de Sartre) que brande a pena como uma espada afiada. E não demonstra, por exemplo, como as idéias de Sartre agiram como uma espécie de “doutrina preparatória” (caso da guerra de independência da Argélia) que, combinadas à linhagem de marxismo adotada pelo intelectual engajado, atuaram como uma força desagregadora do autoritarismo e da opressão colonial.

Em a Traição dos intelectuais, o filósofo francês Julien Benda demonstrou como estas doutrinas preparatórias atingem um potencial de transformação a partir do momento em que os vulgarizadores de idéias entram em cena. É o que Benda chamou por “expressão derivada” da obra intelectual, que os intelectuais engajados “digerem”, reformulam e difundem. A título de ilustração, trata-se, por exemplo, do uso pragmático que o leninismo e mais tarde o stalinismo fizeram da obra de Marx, deformando algumas de suas idéias originais para melhor empregá-las no processo de convencimento de seus adeptos. As idéias, assim reapropriadas, e, em certa medida, transformadas em sua natureza original por uma confraria de discípulos, se difundem entre as massas, podendo levar a transformações. Mas aqui vale a regra de que não se pode esperar do autor o que ele não prometeu levar a cabo. Identificar todos os nós de uma rede, para usarmos um termo tomado de empréstimo a Foucault, talvez seja mesmo extrapolar os limites impostos à problemática da obra: “questionamentos e perspectivas”.

Em síntese, os problemas formulados por esta História Intelectual, da forma como a pratica Helenice Rodrigues, são todos legítimos e pertinentes de pesquisa e de reflexão. O único equívoco será mesmo o de continuar dissertando sobre o livro, de cuja energia galvanizadora extraímos estas tortas linhas. Insistir nisto é algo assim como fazer a autêntica obra do “escavador de precipícios”, para recordarmos a irônica expressão que Voltaire gostava de empregar ao caracterizar os personagens mais equivocados de seus textos históricos e de seus contos filosóficos.

Marcos Antônio Lopes – Departamento de Ciências Sociais/Universidade Estadual de Londrina.

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O objeto de estudo da Museologia – MENSCH (C-RMAX)

MENSCH, Peter van. O objeto de estudo da Museologia. Tradução de Débora Bolsanello e Vânia Dolores Estevam de Oliveira. Rio de Janeiro: Uni-Rio/UFG, 1994. 22p. Resenha de: SANTOS, Fabrícia de Oliveira. Canindé – Revista do Museu de Arqueologia de Xingó, Xingó, n.2, dez. 2002.

Fabrícia de Oliveira Santos – Mestranda em Geografia na Área de Concentração II – Formas e Processos Tradicionais de Ocupação Territorial – Estudos Arqueológicos.

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Historia Contemporánea de Chile. Tomo V | Gabriel Salazar e Julio Pinto

El tomo cinco de la Historia Contemporánea de Chile es dedicado íntegramente a los niños y los jóvenes, sujetos que, como sustenta la publicación “no figuran normalmente en las páginas de la historia”. Pero sabemos que los sujetos no son lo que son por el hecho de ser considerados por historiografías, sino porque actúan históricamente, construyen apuestas existenciales y dejan huella de sus proyecciones.

Aunque es notorio que niños y jóvenes no han sido valorados como constructores de historia, esto no ha impedido que hayan sido enarbolados en términos de imagen para la construcción de ésta. Y es que a esta invisibilidad como sujetos se contrapone la enorme visibilidad que han tenido como imágenes, representaciones ideológicas ocupadas por tantas apuestas históricas que han apelado a ciertas proyecciones de niñez y juventud. Leia Mais

Revista de Historia Indígena

El número 5 de la Revista de Historia Indígena, correspondiente al año 2001, prueba que ya es una publicación consolidada que, además, va creciendo en volumen. Su contenido es variado, aunque muy irregular en calidad.

En forma entusiasta, el director de la publicación, José Luis Martínez, señala cómo se ha ido enriqueciendo la etnohistoria y ha avanzado cronológicamente al período propiamente histórico, aun hasta el siglo XX. Este hecho justificaría la designación de “historia indígena”, en un sentido abarcador digno de ser tenido en cuenta 1. Leia Mais

História do ensino da história no Brasil – MATTOS (HE)

MATTOS, Ilmar Rohloff (org.). História do ensino da história no Brasil. Rio de Janeiro: Acess, 1998. Resenha de: CERRI, Luis Fernando. História & Ensino, Londrina, v. 8, p. 151-156, out. 2002.

Afirmamos continuamente que não há assunto que não possa ser melhor compreendido com o recurso à História. Este é um dos argumentos centrais para a manutenção da História como disciplina escolar, e das graduações em História; por que não deveria valer também para o próprio estudo da disciplina? Com esta perspectiva, Ilmar de Mattos organiza a apresentação de trabalhos de pesquisa de profissionais com diferentes formações e diferentes situações na carreira acadêmica, o que não desiguala o nível da contribuição de cada um dis trabalhos elencados (produzidos por profissionais ligados ao Departamento de História da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro). Com isso, a principal contribuição coletânea é uma reflexão séria e empenhada sobre o que foi o ensino de História no Brasil durante o império e até meados do século vinte, que possibilita pensar as teorias, metodologias e práticas que hoje se discute e que se no normatiza, debate acadêmico e na legislação.

A obra dá seqüência a uma perspectiva de retomada da História da disciplina, que tem expoentes nos nomes de Elza Nadai, Kátia Abud e Circe Bittencourt, entre outros(as). Mas a coletânea organizada por Mattos distingue-se e avança, pois traz ao público trabalhos que aprofundam os contextos competentemente reconstituídos pelas pesquisas anteriores, esmiuçando obras, autores, instituições e influências que pesaram sobre o quadro atual da disciplina escolar em questão.

A coletânea é aberta por Kaori Kodama, que retoma as variadas considerações da historiografia sobre o texto de Von Martius (“Como se deve escrever a história do Brasil”) c sobre o papel do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro no processo de constituição e de viabilização do ensino da história nacional na primeira metade do século XIX, com especial destaque para os preconceitos raciais que aí se inscrevem e que até hoje demandam combate incessante, não por serem explicitamente assumidos, mas por Imiscuírem-se em informações, explicações e posturas consagradas no ensino da história nacional.

Selma Rinaldi de Mattos abre uma importante seara, analisando os manuais de história produzidos pelo consagrado escritor Joaquim Manoel de Macedo. estabelecendo uma ponte necessária entre a literatura e a história mergulhadas no mesmo ambiente do nacionalismo romântico que esteve presente na constituição cultural da nação, concomitante à sua construção em outras áreas como a diplomática, política e econômica, protagonizada pelo Estado surgido em 1822. A autora dá destaque ao componente aristocrático presente no projeto político e conseqüentemente na obra pedagógica de Macedo, que para a autora é o primeiro que dá a feição de manual didático à história lida por Varnhagen no clássico “História Geral do Brasil”.

O texto de Patrícia Santos Hansen traz um recorte cronológico posterior, que enfoca a reconstrução da disciplina sob novos princípios político, na implantação da República, por meio da análise da obra de João Ribeiro, autor de livro didático adotado pelo Colégio Pedro 11 no período. Para Hansen, João Ribeiro indica, em sua obra, uma ruptura com “a concepção de história vigente”, isto é, aquela consagrada durante o império, colocando-nos diante de um caso importante para a compreensão dos processos de confronto de perspectivas historiográficas e pedagógicas no ensino da história, do qual podem ser levantadas algumas reflexões, sobretudo referentes às permanências e às continuidades entre propostas que se confrontam.

Luiz Rcsnik narra e discute um outro processo de confronto de concepções sobre o ensino de História, num outro momento político nacional. Trata-se do debate sobre a autonomização ou não da História do Brasil em relação à História Geral ou da Civilização, que teve lugar no início da década de 1930. Neste momento permanecem as afirmações, nas obras de autores consagrados e nas orientações legais ou oficiais, sobre o papel central do ensino de História na formação do sentimento patriótico do cidadão. O diferencial neste momento é o debate sobre o método e sobre o tratamento do conteúdo (memorização dos fatos x compreensão e raciocínio sobre a História), colocado principalmente pela influência da Escola Nova. Para os partidários desta vertente educacional, grosso modo, o ensino da história nacional o reforço das diferenças e das rivalidades internacionais; para o IHGB, entretanto, esse ensino era imprescindível para garantir aos brasileiros o assumir da vocação de cidadãos de um país destinado à grandeza. Sustentada no governo federal, esta proposta sai vitoriosa, e acaba transformando-se numa importante ferramenta política do Estado Novo.

Neste ponto da coletânea é que podemos começar a reconhecer mais claramente alguns traços das propostas contemporâneas, que equivocada e apressadamente acabamos por chamar de “novas”, referentes por exemplo ao papel ativo do aluno no processo pedagógico, ao espaço para outras abordagens da história para além do político e do factuaL Essas “novidades” são contemporâneas à criação da Revista Annales, do que se deduz a inadequação das abordagens que lêem na influência desta vertente sobre a historiografia e o ensino de história no Brasil a raiz das propostas alternativas atuais.

Essas reflexões podem ser continuadas para os dois textos seguintes, que tratam do período que precede e inclui os primeiros tempos do regime militar. Neles, Daniel Mesquita Pereira (utilizando como fonte o Boletim de História Faculdade Nacional de Filosofia) e Francisco José Calazans Falcon (num depoimento na condição de docente da mesma faculdade neste período) dotam o leitor de informações e considerações sobre o debate da História e seu ensino neste momento e nesta instituição.

Ao final da leitura, a impressão que se tem lembra a tese de Amo Mayer (em A Força da Tradição, Cia. Das Letras), para o qual, os antigos regimes europeus mantêm sua força e disposição de determinar a história pelo menos até a Primeira Guerra Mundial, permanecendo, resistindo com sucesso às forças burguesas, urbanizantes, republicanas. Mayer destaca a sedução exercida pela nobreza sobre a burguesia, destacando que, mais que suprimir a primeira, a segunda almejava atingir o seu status, o que levou a uma simbiose entre ambas na maior parte da Europa, ao contrário do que se pensa ao reduzir a análise a nações às quais historicamente se deu maior destaque.

Esta impressão impõe-se pela similaridade que é possíve1 encontrar entre as afirmaçôes que se faz  incansavelmente hoje sobre os parâmetros hodiernos de qualidade do ensino da história, cujos princípios estavam delineados na década de 20, sendo suprimidos no Estado Novo, reafirmados na democratização nos anos 50 e 60, novamente suprimidos pelas reformas educacionais do regime militar, e novamente afirmados na redemocratização nos anos 80 e 90, desta vez aparecendo como “novo” ou “renovado”. Para usar estes termos, mostra-nos a obra, é preciso considerar a tradição quase secular do “novo” (uma contradição em termos), em relacionamento de longa data de confronto com o “tradicional”, o arcaico, muitas vezes incorretamente chamado de positivista. A conclusão, enfim, é que o ensino de História hoje tem diante de si alternativas que não podem ser tratadas a partir de um critério temporal (novo, inovador x tradicional), mas que precisam ser recuperadas em sua longa duração, em seu embasamento teórico e filosófico que atravessa o tempo e engloba vários séculos.

Por Luis Fernando Cerri – Doutor em Educação (Metodologia do Ensino), professor do DEHIS Universidade Estadual de Ponta Grossa -lfcerri@uepg.br

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Festa: cultura e sociabilidade na América portuguesa – JANCSÓ; KANTOR (HE)

JANCSÓ, István; KANTOR, Íris. (orgs.). Festa: cultura e sociabilidade na América portuguesa. São Paulo: Imprensa Oficial; Hucitec; Edusp; Fapesp, 2001. 2v. 992p. (Coleção Estante USP – Brasil 500 anos, 3). Resenha de: RODRIGUES, André Figueiredo. História & Ensino, Londrina, v.8, p. 157-160, out. 2002.

A ligeira mulata, em trajes de homem

Dança o quente hmdu e o vil batuque;

E aos cantos do passeio inda se fazem

Ações mais feias, que a modéstia oculta.1

o poeta e jurista Tomás Antônio Gonzaga em suas Cartas Chilenas aludiu ao lundu e ao batuque, respectivamente, canto e dança, muito populares nas festas mineiras do século ‘I’11 como ele, alguns historiadores observam as festas, ou melhor, as manifestações da cultura popular como um lugar de subversão, de transgressão à norma disciplinadora do poder. Gonzaga, por ser aristocrata e moralista, vê a festa como uma grande promiscuidade, onde se misturam brancos, negros e mulatos, chegando mesmo a comparar Vila Rica em festas (atual Ouro Preto) às cidades bíblicas de Sodoma e Gomorra.

Ao historiador, seguindo uma tradição herdada da Sociologia e da Antropologia, ficou a percepção que as manifestações populares nos dão acesso às experiências cotidianas de segmentos da população que ficaram por muito tempo silenciados. Daí o fascínio pela festa, um cenário privilegiado para observação do universo cultural dominante e, também, ambiente onde se encontra mesclado elementos próprios da cultura popular, com suas tradições, seus símbolos e suas práticas, constituindo-se num espaço de grande sociabilidade.

Assim, entender esse espaço, mostrar pesquisas que estão em andamento e fazer um balanço da produção recente sobre as festividades na América portuguesa e, conseqüentemente, suas implicações na formação da nacionalidade e da cultura nacionais, são os objetivos da edição da coletânea Festa: cultura e sociabilidade na América portuguesa, organizada pelos professores e historiadores István Jancsó e lris Kantor.

O livro, fruto de um seminário internacional realizado na USP em 1999, reúne 49 artigos escritos por pesquisadores brasileiros e portugueses, que se preocuparam em compreender as manifestações coletivas (festas, cerimônias, ritos, atos de sociabilidade, etc.) que influenciaram na construção de nossa identidade nacional. Segundo os organizadores, as festas são um dos pontos principais da imagem que o brasileiro faz de si mesmo e do estrangeiro sobre o país. Para grande parte da população, elas significavam um instrumento fuga ao controle exercido pelo Estado absolutista, com o qual sempre tivemos uma relação de sofrimento e de antagonismo. O Estado criado por nossas elites nunca foi um instrumento de harmonia, mas sim de desagrega1ção, pois jamais ele foi utilizado como mecanismo de identificação e de libertação.

Comu as festas coloniais nem sempre tinham a mesma dinâmica nem os mesmos objetos de pesquisa e, portanto, não podiam ser abordadas da mesma forma e através dos mesmos instrumentos analíticos, a obra pode ser dividida em três grandes momentos: um primeiro que trata das festas religiosas ligadas aos jesuítas e a catequese dos indígenas; um segundo período ligado ao processo de consolidação da sociedade urbana desde fins do século XVII e durante a centúria seguinte, notadamente em Minas Gerais. Isso se explica devido à urbanização ocorrida ao longo do setecentos, resultado de uma extensa rede de centros urbanos, e à diversificação da economia através do comércio, do artesanato, da mineração (do ouro e de diamantes), da agricultura e da pecuária. Somam-se a esses dados ainda o contingente populacional, a estrutura administrativa e a constituição de um mercado consumidor interno.

Nas sociedades urbanas, muitas festas, seguindo o modelo ditado pela metrópole, cultuavam o rei e/ou se dedicavam aos ritos processuais católicos, como as celebrações da Semana Santa, do Triunfo Eucarístico e do atual “Corpus Christi”. Mas, ao lado destas festividades, tínhamos também a existência de um número quase que incontável de festas de caráter popular.

Nas interessantes “subversões e inversões da ordem festiva”, uma das divisões do livro que pode ser incluída nesse segundo momento, nota-se que conhecemos muito pouco das festas de caráter político não oficial que integravam o cotidiano das vilas coloniais. Um exemplo dessas curiosas celebrações jocosas que utilizavam signos de poder ocorreu em 1732, quando desafetos do governador dom Lourenço de Almeida promoveram-lhe enterro simbólico, por ocasião de sua partida da capitania de Minas Gerais, enquanto outros celebraram uma missa paródica pela sua alma que, julgava-se, ardia no inferno.

Outras formas de resistência à ordem festiva e social vieram através da circulação de cartas e sátiras anônimas que insuflavam a população à rebeldia, ou ainda através da existência de representações teatrais, como a “Serração da Velha” -cerimônia caricata que ocorria na época da Quaresma, onde um grupo de foliões serrava uma tábua, aos gritos estridentes e prantos intermináveis, fingindo serrar uma velha que, representada, ou não por algum dos vadios da banda, lamentava-se num berreiro. A Velha representava uma entidade maléfica (3 morte) ou algo grotesco que perturbava a felicidade ou dificultava a conquista legítima de alguma coisa. Nesses casos, a festa era um “lugar por excelência capaz de tornar realidade uma das exigências básicas dos protestos: a mobilização popular, que constituiu recurso imprescindível da prática amotinadora a fim de garantir poder de pressão às suas exigências” (p. O terceiro momento é o das “festas na corte portuguesa”, período que se inicia com a transmigração da família real lusitana para o Brasil e vai até a nossa Independência. Nesse instante, as festas tornaram-se mais seletivas e as músicas se apresentaram com novos elementos funcionais, técnicos e estéticos, devido à importação de novos instrumentos musicais e a enriada de novos ritmos na corte dom João Além dos dois volumes que compõe a obra, encontra-se encartado no primeiro exemplar um belo CD com 26 músicas que acnrnpanharam o universo sonoro festas na América portuguesa, desde as tradiçôes medievais, no século XIII, até as práticas indígenas, religiosas e afro-americanas do século XVIII. A apresentação coube ao historiador e músico Maurício Monteiro c a direção artística à Ana Maria Kieffer.

Referências

GONZAGA, Tomás Antônio. Carta 6ª: Em que se conta o resto dos festejos. In: Cartas Chilenas. Edição organizada por Pereira Furtado. São Paulo: Companhia das Letras, 1995, p.143.

André Figueiredo Rodrigues – Mestre em História Social / FFLCH-USP.

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Espaços da ciência no Brasil: 1800-1930 | Maria Amélia M. Dantes

Organizado pela professora Maria Amélia M. Dantes, docente do programa de pós-graduação em história social da Universidade de São Paulo (USP), a presente publicação abrange sete estudos que integraram um amplo projeto, financiado parcialmente pelo CNPq, no qual foram analisadas a constituição de diferentes instituições científicas brasileiras, seus modelos organizacionais e práticas estabelecidas.

Como resultado deste projeto, além dos trabalhos de pós-graduação relacionados, surge esta publicação que deverá ocupar lugar importante na historiografia sobre as atividades científicas realizadas no país. Leia Mais

A revolução científica | Steven Chapin

“As imagens tradicionais da ciência estão a ser atacadas.” Esta frase ousada bem poderia descrever o ímpeto revolucionário dos filósofos naturais do século XVII, analisados por Steven Shapin em A revolução científica, obra de 1996 recentemente surgida em tradução para a língua portuguesa. Mas não. Quem a proferiu foi um nosso contemporâneo, o sociólogo Donald Mackenzie (1981, p. ix), ao introduzir o seu trabalho sobre a emergência das teorias estatísticas na viragem para o século XX.1 Com essa expressão, Mackenzie estava a captar o ataque aos modos “tradicionais” de fazer história e sociologia da ciência lançado desde meados da década de 1970 pela auto-intitulada sociology of scientific knowledge (mais conhecida por SSK), em particular pelo grupo reunido na Science Studies Unit da Universidade de Edimburgo, na Escócia. Shapin, então companheiro de Mackenzie em Edimburgo, iniciava a sua carreira intelectual na crista desse ataque revisionista. Apresentar Steven Shapin como autor implica, pois, vê-lo como actor deste esforço para reformar os estudos sociais da ciência. Um esforço que compreende igualmente A revolução científica, trabalho de síntese que possibilita numa narrativa acessível um encontro com o programa sociológico que Shapin lançou como impulso de reforma da história da ciência. Leia Mais

Da revolução científica à Big (bussiness) Science | Luiz Carlos Soares

Tradicionalmente, a história das ciências era um domínio de filósofos e epistemólogos ou de cientistas dedicados a registrar a memória de suas disciplinas. Canguilhem (1970, p. 10) conta-nos que Bernhard Sticker, diretor do Instituto de História da Ciência de Hamburgo, via uma contradição entre a destinação e o método desta disciplina, pois, segundo sua finalidade, ela deveria se localizar na Faculdade de Ciências, mas, se utilizado o critério metodológico, na Faculdade de Filosofia. Na prática, a maior parte dos historiadores cuidava de seus assuntos, ignorando o papel da ciência nos processos históricos. Numa perspectiva que procura romper com este estado de coisas, o livro organizado por Luiz Carlos Soares apresenta ao público brasileiro recentes pesquisas no campo da história social da ciência e da tecnologia. Nesta abordagem, representativa de um novo capítulo historiográfico da história da ciência, esta passa a ser vista como uma instituição social (Pestre, 1998, pp. 53-68), perdendo seu caráter de saber “desinteressado” acima do bem e do mal. Dessa forma, um diálogo mais intenso com as outras ciências sociais tornou-se premente para analisar as práticas sociais e discursivas presentes na atividade científica. Daí contar a coletânea com a presença não só de trabalhos de história social, mas também de filosofia e de história econômica. Leia Mais

Race/ Place/ and Medicine:The Idea of the Tropics in Nineteenth-Century Brazilian Medicine | Julyan G. Peard

Esse livro oportuno e bem escrito ilumina partes da ciência brasileira que até recentemente haviam permanecido esquecidas — tal como a Escola Tropicalista Bahiana que constitui o centro da pesquisa —, apesar mesmo da considerável bibliografia já produzida sobre a ciência e a medicina coloniais, quase sempre sinônimo de medicina tropical, que entretanto raramente consideraram os países latino-americanos pois já eram nações independentes nos períodos focalizados por essa historiografia.

Julyan Peard rejeita a antiga interpretação de que a ciência no Brasil era inexistente ou pouco significativa anteriormente ao século XX. Com uma respeitável coleção de fontes primárias e secundárias, ela conta aos leitores uma história diferente e agradável sobre a Escola Tropicalista Bahiana, que se iniciou previamente à revolução bacteriológica e à grande expansão colonial européia. Em suas palavras: “um grupo de médicos no século XIX no Brasil, visando adaptar a medicina ocidental para melhor atacar questões específicas desse país tropical, buscaram novas respostas para a velha questão de se as doenças de climas quentes seriam ou não distintas daquelas da Europa temperada. Em sua busca, usaram os instrumentos da própria medicina ocidental para se contrapor às idéias a respeito da fatalidade dos trópicos e de seus povos, e reivindicaram a competência brasileira”. Leia Mais

A vida cotidiana no Brasil moderno: a energia elétrica e a sociedade brasileira (1880-1930) | Centro de Memória da Eletricidade no Brasil

O Centro de Memória da Eletricidade no Brasil, criado em 1986 com o objetivo de promover a preservação do patrimônio histórico da energia elétrica no Brasil, dedica-se, entre outras atividades, à produção de uma historiografia voltada para a compreensão do processo de implantação da energia elétrica e de seu desenvolvimento no país. Essa produção tem chamado a atenção pela qualidade em termos de informações iconográficas e textuais sobre o tema; citando como exemplos mais recentes: Cidade em movimento: energia elétrica e meios de transporte na cidade do Rio de Janeiro (2001); Energia elétrica no Brasil ¾ 500 anos (2000); e Reflexos da cidade: a iluminação pública na cidade do Rio de Janeiro (1565-1930) (1999).

Em outubro de 2001, comemorando o seu 15º aniversário, a instituição lançou A vida cotidiana no Brasil moderno: a energia elétrica e a sociedade brasileira (1880-1930). Esse último lançamento realizado “no apagar das luzes”, num momento em que a ordem do dia era o racionamento de energia elétrica como conseqüência da crise no setor, explicita a atualidade do tema. Vale ressaltar a formação da equipe de autores da obra, constituída em grande parte por historiadores e museólogos. Leia Mais

Os delírios da razão: médicos/ loucos e hospícios — Rio de Janeiro/ 1830-1930 | Magali Gouveia Engel

As reflexões sobre o campo médico-psiquiátrico no Brasil servem de instrumento para trazer à baila questões que envolvem dispositivos de poder e disciplina, na constituição de um saber que acabou por monopolizar a ‘verdade’ sobre a doença mental; além disso, tais considerações podem incidir sobre outros discursos, de modo a permitir verificar e, mesmo, desconstruir estratégias desenvolvidas ao longo de diferentes processos históricos. Afinal, “O discurso não é simplesmente o que traduz as lutas ou os sistemas de dominação, mas este porque, este por meio de que luta, o poder de que se busca apoderar-se” (Michel Foucault, A ordem do discurso, Paris, Gallimard, 1971, p. 12).

Desse modo, cada vez mais despontam historiadores e outros pensadores da cultura que se debruçam sobre a história das disciplinas que tratam do mental. O Império, por exemplo, passou a ser objeto de interesse para aqueles que indagam a respeito dos processos de consolidação do campo psi — campo que abarca as disciplinas que se debruçam sobre o psiquismo — e das abordagens sobre a loucura. Do mesmo modo, os períodos pós-colonial e as repúblicas são objeto de crescente atenção, como via de acesso às temáticas acerca do papel crítico que as novas metrópoles tiveram para a delimitação do campo psi, e o papel das políticas de saúde do Estado, das universidades etc. daí decorrentes. As atuais discussões antimanicomiais, as questões estabelecidas pela hipermedicalização do mal-estar psíquico, bem como as mais novas teorias genéticas, entre tantos outros objetos que confrontam o campo psi hoje, exigem uma realocação da arquitetura da saúde mental, assim como um novo tracejamento das disciplinas que tratam do irracional, da desrazão, do destempero, da vesânia, do delírio, das intensidades, do inconsciente e da pulsão em nossas bandas.   Dando um rumo singular a essas questões, Os delírios da razão: médicos, loucos e hospícios — Rio de Janeiro, 1830-1930, de Magali Gouveia Engel, é extremamente bem-vindo. Constitui material precioso para os que se interessam pela pesquisa genealógica e/ou os que intentam pensar o que se convencionou chamar de campo psi  as diversas disciplinas que trabalham com os fenômenos psíquicos hoje no Brasil. Leia Mais

Arthur et la Table ronde. La force d’une légende | Anne Berthelot

Arthur et la Table ronde, escrito por Anne Berthelot, é uma obra de divulgação sobre o mito e a literatura arturianos que se inscreve nos objetivos da coleção “Découvertes Gallimard”. Nele, a autora, professora de literatura francesa medieval da Universidade de Connecticut e especialista nos romances em prosa do século XIII, procura apresentar uma visão recente sobre o tema.

O livro é composto de cinco capítulos, ao longo dos quais são abordados aspectos relativos aos significados histórico e literário do personagem. Ao assinalar a provável existência histórica de Artur, a autora faz referência aos primeiros documentos literários, tais como De excidio Britanniae, de Gildas e Vie de saint Colomban, manuscrito latino no qual o nome do rei Artur apareceu pela primeira vez, e cujo excerto é reproduzido na página em questão.

Segundo a autora, é possível encontrar coerência nos relatos sobre a vida de Artur. Embora construída a partir de elementos mínimos, sua biografia relata desde a concepção, decorrente da magia de Merlin, até sua morte perto da Ilhas Afortunadas, de onde retornará para libertar o povo bretão do jugo dos invasores. Quanto às lendas, a figura de Artur se apresenta como uma combinação de tradições e culturas variadas, tais como a mitologia celta, a herança antiga, o modelo feudal e a tradição cristã. Contudo, apesar da existência de elementos heterogêneos, as lendas se apresentam como narrativas relativamente organizadas, abordando temas como a Távola Redonda, a feudalidade, a cortesia, o verdadeiro amor, o triângulo amoroso e o Graal.

Quanto à criação da lenda, ela é situada a partir do domínio normando sobre a Inglaterra, em especial no século XII. A Historia regum Britanniae – escrita por Geoffrey de Monmouth durante o reinado de Henrique I -, identifica Artur como o mais admirável entre todos os reis que governaram a Bretanha. Contudo, foi a partir da dinastia plantageneta, na pessoa de Henrique II, que a figura de Artur ascendeu na cena literária. Visando afirmar seu poder diante da rival dinastia capetíngia – que se apresentava como descendente de Carlos Magno -, Henrique II incentivou a criação de toda uma literatura protagonizada pelo herói bretão. Os propósitos de Henrique II eram claros: ao se apropriar da lenda de Artur, o soberano se apresentava como legítimo herdeiro do ancestral bretão.

Tal literatura, escrita no vernáculo e inaugurada por Wace no Roman de Brut, encontrou na Historia regum Britanniae sua principal fonte de inspiração. Wace, ao recuperar os feitos de Artur descritos na obra, lançou os elementos que serviram de base aos relatos posteriores da lenda. Com efeito, a carreira de Artur na literatura foi muito bem sucedida: durante cerca de um século e meio, o romance arturiano foi um dos gêneros mais ricos da Idade Média francesa. O sucesso de tal literatura atravessou fronteiras, uma vez que todos os países da Europa tomaram emprestado seus temas e, às vezes, as próprias narrativas, que foram traduzidas ou adaptadas de acordo com as características locais.

Obedecendo à proposta da coleção, o livro inclui um apêndice denominado “Testemunhos e Documentos”. Nele, são reproduzidos excertos de fontes variadas sobre Artur, e que vão desde a literatura do século XII até a do século XX, passando pelos registros fotográficos dos vestígios de Artur em Tintagel, Camelot, Mount-Badon e Glastonbury, e culminando com referências a algumas versões cinematográficas da lenda.

Se a obra não acrescenta muito quanto aos atuais conhecimentos acerca de Artur, o mesmo não pode ser afirmado quanto às ilustrações que o acompanham. O livro é uma verdadeira mina iconográfica, tanto em quantidade como em qualidade. São cerca de cento e cinqüenta ilustrações, que incluem mapas e iluminuras medievais, fotos de locais relativos à lenda, reproduções de pinturas e de representações teatrais realizadas no século XIX, todas com os respectivos créditos no final da obra. Numa época em que a imagem ganha uma importância cada vez maior, e que as fontes iconográficas vêm ocupando um lugar de relevo, inclusive nos estudos medievais, a obra constitui uma excelente contribuição nesse sentido, como pode ser exemplificado pela capa do livro aqui reproduzida.

Finalmente, quanto à bibliografia utilizada, a autora lançou mão de textos medievais e modernos, estudos críticos, obras gerais sobre literatura, história e civilização – estas últimas incluindo Georges Duby e Jacques Le Goff -, bem como obras de referência, periódicas e sites na Internet.

Resta esperar que a Editora Objetiva, que já começou a publicar alguns dos mais de trezentos títulos da coleção, inclua Arthur et la Table ronde entre seus próximos lançamentos, permitindo tornar a obra mais acessível aos estudiosos e ao público em geral.

Maria de Nazareth Accioli Lobato– Mestre em História – UFRJ. E-mail: nazareth@novanet.com.br


BERTHELOT, Anne. Arthur et la Table ronde. La force d’une légende. Paris: Gallimard, 1996. Resenha de: LOBATO, Maria de Nazareth Accioli. Brathair – Revista de Estudos Celtas e Germânicos. São Luís, v.2, n.2, p.45-46, 2002. Acessar publicação original [DR]

História da Galiza | Ramón Villares

Rámon Villares é diretor do Departamento de História Contemporânea da Universidade de Santiago de Compostela e publicou em 1984 uma obra intitulada História da Galiza, que foi lançada em Portugal no ano de 1991. Nesta obra, o autor faz uma síntese global da história da Galiza, região situada no extremo norte da Espanha e que até o século XII estava unida ao Norte de Portugal. A meio caminho entre a Espanha e Portugal, essa região é importante para o autor devido à sua especificidade cultural, que deu origem a movimentos políticos no início do século XX como o galeguismo. Neste sentido, a retomada histórica realizada pelo autor nesta obra tem a finalidade de demonstrar historicamente as peculiaridades que formam a identidade galega.

O autor inicia sua busca pela identidade galega na pré-história, um período que se estenderá dos primeiros povoadores até a conquista romana. A identificação dos primeiros povoadores, ressalta o autor, é complicada em virtude da escassez de fontes e vestígios antropológicos e arqueológicos, somada a uma imprecisão dos testemunhos literários. Ao trabalhar com a pré-história galega, o autor fornece alguns indicativos da multiplicidade de povos que se situaram nesta região, chegando à verificação de ondas migratórias de povos celtas provenientes da Europa central, que teriam modificado consideravelmente o cenário galego. As principais fontes utilizadas pelo autor para a investigação das diferentes constituições sociais da Galiza são as necrópoles, pois, segundo Rámon, o estudo das formas de enterramento possibilita a compreensão da configuração social, econômica, cultural e das relações sociais desenvolvidas na sociedade.

Assim, para o período anterior à chegada dos celtas no noroeste peninsular, o autor constata, pela disposição dos dólmãs, ou seja, dos monumentos funerários, que a sociedade era pouco hierarquizada e encontrava-se dispersa pelo território, uma vez que os enterramentos eram coletivos, sem acompanhamento de jóias ou objetos pessoais e os monumentos estão situados em diferentes partes do território. Com a chegada dos povos de origem celta (c. VI a.C) ocorre uma hierarquização da sociedade verificada por meio do enterramento individualizado com as jóias e objetos pessoais. Também se desenvolve uma sociedade centrada ao redor de habitações denominadas castros, que serviam também como centros de defesa. A hierarquização da sociedade aconteceu a partir do momento em que esses povos, provenientes da Europa central, trouxeram para a Galiza o conhecimento da utilização do ferro, o que ressaltou o caráter metalúrgico da região, antes voltada para o trabalho com bronze, cobre, chumbo e estanho. Essa introdução de um novo sistema produtivo pode ter modificado sensivelmente as relações sociais dos habitantes da Galiza, a começar pela diferenciação social em dois grupos, os autóctones e os celtas.

A investigação da presença celta na Galiza não é destituída de significado. Segundo o autor, houve na produção historiográfica espanhola uma exaltação dos elementos celtas na cultura galega como fator comprovador da peculiaridade dessa cultura em detrimento da espanhola. O celtismo teve um grande desenvolvimento no decorrer do século XIX, cujo expoente foi o historiador Manoel Murguía, para quem “muitos poucos povos como o galego souberam conservar através dos tempos de forma mais pura, constante e indeclinável a sua fisionomia. Não é possível duvidar disso. Tudo nele é tradicional e está mais no costume que na lei escrita; na literatura oral, que na erudita; no seu coração e não nas manifestações exteriores” (VILLARES, 1991, epígrafe). O forte caráter nacionalista desta idéia é confirmado pela busca incessante do diferencial galego, que se enraíza em seu passado e em sua constituição. A partir daí, tem-se um “mito fundador da nação galega” (VILLARES, 1991: 25), cuja origem seria celta e comprovaria a superioridade e a autenticidade dessa cultura.

Com a romanização do território, que passa a se chamar Gallaecia, há a sua incorporação nos quadros jurídicos do Império, que resultou na divisão espacial do território em conventus: o bracarense, o lucense e o asturiense. Braga, Lugo e Astúria formavam o circuito urbano e intelectual da região e eram centros administrativos, religiosos e jurídicos. Foi a partir desses locais que o cristianismo se difundiu no restante do território galego através da presença das sedes episcopais, que contavam com importantes nomes como Idácio de Chaves, Paulo Orósio e Martinho de Braga. Ao tratar da romanização e da Idade Média, o autor continua disseminando velhos preconceitos como, por exemplo, a consideração de uma cultura superior – a romana – e uma cultura inferior – a pré-histórica –. Isso causa espanto, quando considerado o brilhantismo da exposição acerca da cultura castreja e pré-histórica galega, realizada pelo autor nos capítulos anteriores. Essa superioridade cultural estava pautada no contato e conhecimento da escrita pelos romanos, que latinizaram a região em detrimento da oralidade dos povos autóctones.

Os demais períodos da história galega demonstram o esforço interpretativo do autor para desvendar as características políticas, sociais e econômicas da região com ênfase na interferência da Igreja nas decisões políticas e de uma sociedade agrária até as portas do século XX. Entre os séculos XI e XIII, com a delimitação do território português, houve o período de reconquista do território espanhol ocupado pelos árabes e de movimentação e peregrinação a Santiago de Compostela. Essa cidade foi um importante local de afirmação da religiosidade cristã e do território frente a outros centros religiosos como Braga e Toledo. Novamente, há a exaltação da região frente à portuguesa e espanhola, o que se enquadra nos propósitos do autor. Durante o Absolutismo, o autor ressalta a sua atipicidade na Galiza, uma vez que a incorporação da região ao reino de Castela fez com que ela permanecesse à margem do processo de centralização monárquica. O século XIX é caracterizado pelas constantes migrações dos galegos para outras partes do mundo, como resultante da crise deflagrada a partir das primeiras tentativas de modernização do território e sua incapacidade para tal. Essa modernização será brutal a partir do século XX e resultará na quebra das antigas relações sociais e na economia agrária. Assim, “durante o século XX, se produz uma intensa onda de privatizações da terra, depois de séculos de organização partilhada, sob a forma foral ou comunal, da propriedade da mesma. É o momento histórico em que se desarticulam estes elementos tão centrais na configuração de uma sociedade agrária tradicional, pilotada por camponeses independentes com fortes solidariedades comunitárias” (VILLARES, 1991:134). O movimento mais importante que ocorreu no século XX foi o galeguismo, que levou para a esfera política a defesa do nacionalismo galego. Esse movimento iniciou-se com o Manifesto da Asamblea Nazonalista de Lugo, que tinha por metas, além da defesa do nacionalismo, o republicanismo, o federalismo e do iberismo.

A preocupação fundamental do autor com a identidade galega e sua especificidade em relação tanto a Portugal quanto ao restante da Espanha tem suas raízes na atual situação vivenciada pela Europa de um modo geral. A globalização e a União Européia trazem à tona a discussão a respeito das peculiaridades regionais que formam essa nova realidade econômica que vem se estruturando paulatinamente. Neste contexto, fica evidente a necessidade de acentuar a peculiaridade da identidade galega que, como quis demonstrar Manoel Murguía e outros depois dele, é decorrente da própria história da Galiza e encontra-se fincada em tempos dos mais imemoriais.

Rossana Alves Baptista Pinheiro – Universidade Estadual Paulista/Franca Bolsista FAPESP/Mestrado. Membro do grupo Memória e Parentesco na Idade Média.


VILLARES, Ramón. História da Galiza. Lisboa: Horizonte, 1991. Resenha de: PINHEIRO, Rossana Alves Baptista. Brathair – Revista de Estudos Celtas e Germânicos. São Luís, v.2, n.2, p.47-49, 2002. Acessar publicação original [DR]

Recherches archéologiques Franco-Tunisiennes à Bulla Regia, II, Les architectures, 1. Les thermes memmiens – BROISE; THÉBERT (RHAA)

BROISE, Henri; THÉBERT, Yvon. Recherches archéologiques Franco-Tunisiennes à Bulla Regia, II, Les architectures, 1. Les thermes memmiens. Tunis: Institute National d’Archéologie et d’Art de Tunis; ROME: École Française de Rome, 1993. 386p. Resenha de: MIERSE, Willian. Revista de História da Arte e Arqueologia, Campinas, n.4, p.127-129, ago., 2000.

William E. Mierse – Department of Art – University of Vermont. Burligton, VT 05405.

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Os Eurobrasileiros e o Espaço Colonial: migrações no Oeste do Paraná (1940/70) | Valdir Gregory

Resultado de tese de doutoramento defendida em 1997 na Universidade Federal Fluminense – UFF, o livro Os Eurobrasileiros e o Espaço Colonial é um estudo de fôlego a respeito da história social do Oeste Paranaense. Trata-se de uma abordagem que prioriza a experiência de comerciantes, caixeiros viajantes, colonos e colonas que por simples aventura, sonhos ou necessidades, migraram em busca de um novo espaço: a região Oeste do Paraná entre os anos 40 e 70 do século XX.

O argumento central de Valdir Gregory é de que os eurobrasileiros ligados à lide na terra moldaram o espaço colonial do Brasil Meridional ao mesmo tempo em que foram se moldando por ele. Resistindo às mudanças, se adaptando a elas, migraram para novas fronteiras agrícolas, onde preservaram e inovaram seus hábitos culturais. À época das inovações tecnológicas, estando sob a ameaça de deixarem de ser colonos, tiveram de reestruturar o modo-de-ser do colono.

Para sustentar essa tese, o autor apoiou-se em um considerável arcabouço documental e bibliográfico: relatórios e planos de ação de empresas colonizadoras, documentos oficiais (IBGE, INCRA e SUDESUL), documentos cartoriais, fontes jornalísticas (jornais e revistas), textos de época e depoimentos orais. A natureza variada das fontes, demonstra por si mesma, mérito do autor em conseguir “amarrá-las”, extraindo delas semelhanças e contradições, principalmente no que se refere à (re) organização espacial e social da região Oeste do Paraná em meados do século XX.

Para construir seu objeto de análise, Valdir Gregory começa o texto discorrendo sobre a colonização da região Sul do Brasil (Rio Grande do Sul, Santa Catarina e Paraná) por imigrantes europeus (alemães, italianos, ucranianos e poloneses), iniciada no décimo nono século. O contexto europeu da época, as migrações para a América e a dinâmica colonial implantada pelos imigrantes também são trabalhados, utilizando-se dos estudos de Leo Waibel, Emílio Wilhems, Maria Tereza Schörer Petrone, Lúcio Kreutz, Ruy Christovam Wachowicz, José Vicente Tavares dos Santos, entre outros. “Os eurobrasileiros puderam constituir uma sociedade colonial na qual a herança cultural, no seu sentido amplo, européia, mesclou-se com a realidade encontrada e constituída pelos colonos para formar o espaço colonial dinâmico e instável”. (p.53) Instável porque a estrutura fundiária das regiões coloniais gaúchas e catarinenses, em princípios do século XX, não mais suportava o crescente aumento populacional e a limitada disponibilidade de terras cultiváveis, fazendo com que os eurobrasileiros se deslocassem para as cidades ou para novas fronteiras agrícolas. “O Paraná foi o estado receptor por excelência”. (p.55)

A partir dos discursos dos governadores Moysés Lupion (1948/52; 1957/61) e Bento Munhoz da Rocha Neto (1953/57) sobre a colonização do território paranaense, bem como de relatórios e planos de ação de algumas empresas colonizadoras e madeireiras que atuaram no Oeste do Paraná entre as décadas de 1940 a 60, o autor percebe uma série de interesses comuns em torno da colonização das terras situadas próximas à fronteira internacional com outros países (Argentina e Paraguay). “A visão geopolítica federal via na colonização a consolidação territorial brasileria assegurada por colonos pequenos proprietários. Os empreendedores de empresas colonizadoras e madeireiras vislumbravam novas possibilidades de investimentos em negócios madeireiros e de mercantilização de terras. Os colonos se dispunham a migrar para reconstruírem espaços coloniais” (p. 70). Controle, direcionamento e presença constante e efetivas dos homens do Estado e das estratégias de atuação das colonizadoras fizeram com que se estabelecesse um novo espaço colonial aos moldes do antigo espaço colonial, isto é, uma estrutura baseada na pequena propriedade rural (em média 25 hectares) ocupada por colonos gaúchos ou catarinenses acostumados à lide na policultura.

Esses são alguns itens explorados por Valdir Gregory na documentação, por exemplo, da Industrial Madeireira e Colonizadora Rio Paraná – MARIPÁ, organizada em Porto Alegre no ano de 1946: “Na medida em que a colonização avançava, os administradores adotavam novas formas de atuação e de investimentos em atividades industriais, comerciais e de serviços, criando novas empresas e participando da estruturação das infra-estruturas necessárias para o desenvolvimento das atividades religiosas, educacionais, recreativas e outras” (pp.151-152).

Uma ênfase especial é dada pelo autor no que se refere às estratégias adotadas pelas empresas colonizadoras na seleção do colono “ideal”: divulgação restrita a grupos específicos de colonos, cuja preferência era dada àqueles descendentes de imigrantes alemães e italianos; a localidade de origem, a língua e a religião tiveram grande influência na escolha dos locais tanto para a escolha dos colonos como para o estabelecimento das famílias no novo espaço colonial: “Os teuto-brasileiros, os ítalo-brasileiros, os eurobrasileiros, enfim, já tinham, pois, acumulado experiências agrícola e de vida rural nas colônias do Sul do Brasil durante mais de um século. Estavam acostumados ao trabalho árduo em pequenos lotes de terra. Tinham a fama de serem econômicos, evitando gastos para alimentar seus espíritos de poupança e de provedores do futuro próprio, dos filhos e dos netos. Nessas colônias, os empreendedores buscaram o modelo de sua estruturação espacial e dessas colônias atraíram os colonos ideais para atingirem seus intentos” (p. 176).

Para os colonos, a mudança do antigo espaço colonial para a construção de um novo espaço se constituiu numa situação de crise, de incertezas, manifestando-se de formas variadas no cotidiano e na memória dos eurobrasileiros, afetando seu estilo de viver e de ser. A riqueza de detalhes apresentado por Valdir Gregory impressiona mesmo aqueles que pouco sabem ou leram sobre a relação homem-terra. Aliada à modernização das técnicas agrícolas, iniciada em fins da década de 1960, os eurobrasileiros foram obrigados a assumir novos papéis, se adaptar e resistir às mudanças.

Para analisar esse processo de mudança e resistência a ela, o autor fez uso de depoimentos orais, do relatório final de um projeto denominado PERSAGRI II, desenvolvido pelo Ministério da Agricultura e pela Fundação Getúlio Vargas e, de uma extensa bibliografia sobre a temática. Nesta documentação foi possível perceber o conflito entre a pressão pela mudança, provocada pela modernização, e a resistência para a manutenção da situação de colonos. “A migração continuou sendo uma forma de resistir à inovação […] Querer ter terra, querer reconstruir um espaço colonial conflitava com as exigências de um programa, de uma política de modernização do campo que potencializavam desejos de ascensão social, desejos de competição, enfim, desejos anti-coloniais” (p. 235).

Creio que Valdir Gregory poderia ter apresentado mais detalhes a respeito da atuação dos órgãos criados pelo Governo Paranaense para realizar e coordenar a colonização “oficial” ou “pública” de parte considerável do território paranaense. Os conflitos de terra, ocorridos de forma intensa na região Oeste do Paraná durante a colonização, é outro ponto que também merecia mais atenção. No mais, apreciei muito a maneira como Valdir Gregory escreve: sem floreios, rodeios e divagação teórica. A argumentação teórica quase passa despercebida, mas está lá, de forma coesa. As informações a respeito das fontes documentais e a forma como foram exploradas revelam, ainda mais, o faro deste historiador. Enfim, os méritos são diversos.

Antonio Marcos Myskiw – Professor de História do Paraná na UNIOESTE. Mestre em História Social pela UFF. E-mail: antoniocdf@bol.com.br


GREGORY, Valdir. Os Eurobrasileiros e o Espaço Colonial: migrações no Oeste do Paraná (1940/70). Cascavel: EDUNIOESTE, 2002. Resenha de: MYSKIW, Antonio Marcos. Cantareira. Niterói, n.2, 2002. Acessar publicação original [DR]

O Brasil descobre a pesquisa científica: os museus de ciências naturais no século XIX – LOPES (VH)

LOPES, Maria Margaret. O Brasil descobre a pesquisa científica: os museus de ciências naturais no século XIX. São Paulo, Hucitec, 1997. Resenha de: FIGUEIREDO, Betânia Gonçalves. Os Museus e a pesquisa.  Varia História, Belo Horizonte, v.18, n.27, p. 161-162, jul., 2002.

Os museus têm despertado interesse crescente enquanto objeto de pesquisa e intervenção de vários campos profissionais. Afinal, hoje, reconhece-se que estes espaços podem movimentar alguns milhões de dólares. Mas independente do fator econômico, os museus estão se tornando importantes enquanto objeto de pesquisa, mais especificamente os museus de ciência, criados no Brasil no século XIX, podem ser compreendidos como espaços privilegiados para analisar aspectos dos primórdios do desenvolvimento da pesquisa científica no País.

Podemos citar dois títulos que contemplam este objeto de estudo, respeitando as especificidades dos recortes temáticos e teóricos de cada um. São eles “O espetáculo das raças” de Lilia M. Schwarcz e “O Brasil descobre a pesquisa científica” de Maria Margaret Lopes, respectivamente publicados em 1993 e 1997. O primeiro recebeu ampla divulgação, mas o objetivo maior do texto não estava centrado nos museus e sim nas instituições e na questão racial no Brasil no século XIX. Mesmo assim, entre as instituições estudadas, os museus são contemplados. Ambas autoras escolheram como tema de análise para o entendimento do século XIX uma passagem pelo mundo dos museus brasileiros, especialmente os chamados museus de ciência.

De modo mais direto, este é o objeto de pesquisa de Maria Margaret Lopes em “O Brasil descobre a pesquisa científica”. A grande novidade do texto é a mescla entre a pesquisa histórica propriamente dita, especificamente no campo da história da ciência, com a literatura especializada em museologia. Mesmo tendo formação básica em geologia, a autora, ao desenvolver pesquisa histórica para fins do seu doutoramento, incorporou, não apenas o método histórico, ou parafraseando E. P. Thompson a “lógica da história”, como também dominou com destreza os meandros da discussão sobre museus nos tempos atuais. Desta forma foi possível realizar uma análise histórica, tendo como parâmetro um entendimento de museu extremamente contemporâneo. O pressuposto básico deste entendimento moderno de museus pressupõe que os objetos (exemplares da fauna, da flora, artefatos etc), ao serem recolhidos (retirados do contexto original) para tornarem-se objetos pertencentes ao acervo do museu, perdem seu valor primeiro, transformam o valor original, agregam novos valores. Esta metamorfose sofrida pelos objetos agregados aos acervos museológicos trata-se da formação/criação de novos semióforos, de acordo com Pomian1.

Outro ponto alto do texto em questão é ter privilegiado uma abordagem de história da ciência para se investigar as origens dos museus de ciência no Brasil. Se por um lado é possível identificar bons trabalhos de pesquisa sobre os primórdios da ciência no Brasil, por outro lado não havia uma preocupação em compreender os museus de ciência como espaços privilegiados de se produzir ciência. O texto em questão, O Brasil descobre a pesquisa científica, vem romper esta barreira e tabu, elegendo como tema central os próprios museus de história natural.

Os museus são espaços propícios às intervenções e análises interdisciplinares. Podem ser abordados do ponto de vista da comunicação com o público, da organização do acervo, da estrutura das exposições, das políticas de comunicação e intercâmbios com instituições afins para citarmos alguns exemplos. Mas os museus também podem ser estudados e analisados a partir da sua origem e das relações estabelecidas para viabilizar sua existência. Dentro deste ponto de vista o estudo dos museus insere-se no espaço da história da ciência.

No final do livro encontram-se algumas ilustrações que sem dúvida ganhariam se estivessem apresentadas ao longo do texto.

Nota

1 pomian, k. coleção. enciclopédia einaudi, 1. memória – história. porto: imprensa nacional/casa da moeda, 1984.

Betânia Gonçalves Figueiredo – Professora do Departamento de História – UFMG – Grupo Scientia & Technica.

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História do Rio Grande do Sul dos dois primeiros séculos | Carls Teschauer

A reedição da historiografia colonial há muito esgotada é um dos desafios do presente para o setor editorial acadêmico brasileiro, pois a maioria das bibliotecas não possui acervos completos. Esse é um dos fatores que influenciam no desequilíbrio entre as pesquisas realizadas sobre cada um dos períodos em que tradicionalmente é dividida a História do Brasil (colônia, império e república), na qual os estudos coloniais detêm um percentual médio de 14% nas últimas duas décadas. Certamente, com bibliotecas bem abastecidas, existiria mais incentivo para atrair novos talentos e aumentar a produção da historiografia colonial, cuja renovação e construção são muito necessárias.

Contribuindo para superar os limites da escassez de obras antigas, a Editora da Unisinos presta mais um grande serviço ao publicar a segunda edição da obra magna de Carlos Teschauer, considerado o pai da história gaúcha pela historiografia tradicional. Publicada originalmente no intervalo de 5 anos, veio ao lume em 1918 (406 p.), 1921 (446 p.) e 1922 (509 p.), sendo um marco editorial no Rio Grande do Sul e mesmo no Brasil, onde poucas obras dessa envergadura haviam sido publicadas. Sua importância, além do conteúdo, foi a criação de uma narrativa baseada em vasta quantidade de documentos inéditos, muitos publicados ali pela primeira vez, levantados em diversos arquivos do Brasil, Argentina e Uruguai. Também pelo uso das principais obras sobre o tema, as quais foram tratadas com uma perspectiva bastante crítica e rara para a época, conforme declara Teschauer na introdução da obra: “Grande parte dos nossos historiadores ainda está – o que parece incrível e não tem razão de ser – sob a influência e pressão da historiografia do século XVIII. Esta levantou, no correr dos tempos, uma espécie de muralha de inverdades, inexatidões e prevenções e criou uma tradição falseada quase insuperável, que se alteia entre o nosso tempo e a verdade histórica”. Leia Mais

História do Rio Grande do Sul dos dois primeiros séculos | Carlos Teschauer

A reedição da historiografia colonial há muito esgotada é um dos desafios do presente para o setor editorial acadêmico brasileiro, pois a maioria das bibliotecas não possui acervos completos. Esse é um dos fatores que influenciam no desequilíbrio entre as pesquisas realizadas sobre cada um dos períodos em que tradicionalmente é dividida a História do Brasil (colônia, império e república), na qual os estudos coloniais detêm um percentual médio de 14% nas últimas duas décadas. Certamente, com bibliotecas bem abastecidas, existiria mais incentivo para atrair novos talentos e aumentar a produção da historiografia colonial, cuja renovação e construção são muito necessárias.

Contribuindo para superar os limites da escassez de obras antigas, a Editora da Unisinos presta mais um grande serviço ao publicar a segunda edição da obra magna de Carlos Teschauer, considerado o pai da história gaúcha pela historiografia tradicional. Publicada originalmente no intervalo de 5 anos, veio ao lume em 1918 (406 p.), 1921 (446 p.) e 1922 (509 p.), sendo um marco editorial no Rio Grande do Sul e mesmo no Brasil, onde poucas obras dessa envergadura haviam sido publicadas. Sua importância, além do conteúdo, foi a criação de uma narrativa baseada em vasta quantidade de documentos inéditos, muitos publicados ali pela primeira vez, levantados em diversos arquivos do Brasil, Argentina e Uruguai. Também pelo uso das principais obras sobre o tema, as quais foram tratadas com uma perspectiva bastante crítica e rara para a época, conforme declara Teschauer na introdução da obra: “Grande parte dos nossos historiadores ainda está – o que parece incrível e não tem razão de ser – sob a influência e pressão da historiografia do século XVIII. Esta levantou, no correr dos tempos, uma espécie de muralha de inverdades, inexatidões e prevenções e criou uma tradição falseada quase insuperável, que se alteia entre o nosso tempo e a verdade histórica”. Leia Mais

Ser médico no Brasil: o presente no passado | André Faria de Pereira Neto

O livro Ser médico no Brasil: o presente no passado, de André de Faria Pereira Neto, examina de forma muito original como elites médicas se mobilizaram no início do século XX, com o objetivo de avançar o processo de profissionalização dessas carreiras no país.

Esmiuçando os debates ocorridos entre participantes de um congresso de médicos realizado em 1922, o autor destaca no passado vários aspectos que continuam marcando a prática médica nos dias de hoje, dando novo significado às situações que presenciamos no cotidiano da medicina. Seu primeiro achado foi destacar o Congresso Nacional dos Práticos como o evento relevante a ser analisado. Esta opção, entre vários outros caminhos que ele poderia ter tomado para pesquisar o tema, abordou com criatividade o mundo dos médicos às voltas com o profissionalismo. Assim, escolheu a dedo um evento que melhor lhe permitiria pesquisar as preocupações dos médicos com a profissão em um contexto de mudanças nas formas de se exercer a atividade. Leia Mais

Ciência e arte: Euclides da Cunha e as ciências naturais | José Carlos Barreto de Santana

Monumentos textuais costumam dificultar a entrada em cena de novos olhares críticos, pois a repetição do já dito, que sobre eles recai, geralmente obstrui a visão dessas obras e impede a passagem da luz que vivifica a permanência dos textos na tradição cultural em que eles se inserem. Às vezes, somente um olhar de fora, alheio ao consagrado espaço crítico do texto, pode ser capaz de desobstruir os pontos de vista e colocar de novo em circulação a potência das obras. Este é o caso de Ciência e arte: Euclides da Cunha e as ciências naturais, de José Carlos Barreto de Santana, o qual, debruçando-se sobre a obra e o percurso intelectual de Euclides da Cunha, e em especial sobre Os sertões, enfoca o conjunto por um viés alheio àquele construído durante décadas por críticos literários, historiadores sociais, antropólogos e sociólogos.

Barreto de Santana é geólogo por formação. Seu olhar, definido pelas ciências naturais, busca iluminar o texto de Euclides a partir da presença do discurso científico, do trabalho de campo e das redes de pesquisadores das ciências naturais no percurso intelectual e nos textos do autor de Os sertões. Como historiador da ciência, Santana alinha-se a uma vertente historiográfica que privilegia a inserção da prática científica no âmbito da cultura, e se recusa a ver as ciências como um saber isolado das relações históricas e políticas. Esse duplo estatuto – de geólogo e historiador cultural das ciências naturais – habilita o autor a caminhar por sendas críticas antes pouco exploradas em relação às obras de Euclides da Cunha. Assim fazendo, Santana enriquece os dois vetores que se cruzam em seu trabalho: por um lado, o autor submete à reflexão da história das ciências um texto não estritamente científico, tal como Os sertões, num procedimento heterodoxo que só amplia os horizontes da historiografia das ciências no Brasil; por outro, a crítica literária, a história e a sociologia que se debruçam sobre o cronista de Canudos dispõem, a partir de agora, de largo arsenal de novos argumentos sobre o texto, advindos da pena de um geólogo. Leia Mais

Homeopatia: medicina interativa/ história lógica da arte de cuidar | Paulo Rosembaum

O livro de Paulo Rosembaum, Homeopatia: medicina interativa, história lógica da arte de cuidar, apresenta uma análise desta prática médica, abordada através de suas questões epistemológicas, com a qual visa identificar suas bases, mapear suas necessidades e estabelecer propostas de fundamentação empírica, considerando para tal as diversas alternativas hoje disponíveis. Aponta este levantamento como pré-requisito à elaboração de um programa de pesquisas que seja apto a suportar as características da racionalidade, garantindo-lhe desenvolvimento e validação científica.

O presente trabalho é resultado da dissertação de mestrado apresentada à Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo no Departamento de Medicina Preventiva, defendida em junho de 1999 sob a orientação do prof. José Ricardo C. M. Ayres. Este assinala no prefácio as questões que lhe provocaram a experiência de lidar com este campo do saber e os pontos de vista invocados pelo autor. Leia Mais

Diálogos brasileiros: uma análise da obra de Roger Bastide | Fernanda Arêas Peixoto

Je leur donnai le feu,la flamme et tous les artsdont une flamme est l’aliment.André Gide (1925)

Os estudos do pensamento social no Brasil têm um lugar já consolidado na formação das ciências sociais no país. Com a institucionalização dos centros de pesquisa e pós-graduação, a partir da década de 1960, cristalizaram-se grupos polarizados nos principais centros universitários. O livro Diálogos brasileiros, da antropóloga e professora da Unesp/Araraquara Fernanda Arêas Peixoto, trata de uma trajetória intrinsecamente relacionada à formação da vertente paulista, notadamente no Departamento de Ciências Sociais da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da Universidade de São Paulo (USP), com a análise da fase brasileira do sociólogo e ensaísta francês Roger Bastide (1898-1974).

Mesmo para quem não se interessa especificamente sobre os temas particulares focalizados por este autor, a leitura de sua obra é relevante sobretudo no que se refere à reflexão sobre as relações entre teoria, metodologia e prática social, consubstanciadas em sua obra Antropologia aplicada, publicada na França e no Brasil em 1971, 17 anos depois que ele passou a ocupar o cargo de professor e pesquisador em prestigiadas universidades francesas, como a École Pratique des Hautes Études, a Sorbonne e o Institut de Hautes Études de L’Amérique Latine (Queiroz, 1978, p. 223). As constantes referências nessa obra às suas interlocuções brasileiras são uma demonstração da relevância de sua estada no Brasil para redefinir seu referencial teórico e constituir um lugar de indagação sobre a verdade e sobre a importância da experimentação para a análise em ciências sociais. Na sua fase brasileira, em contato direto com os professores, pesquisadores, produtores de cultura e outros interlocutores, ele colocou em prática o que chamou seu papel de “questionador” à procura dos caminhos para “entender a resposta dos fatos” (Bastide, 1971, p. 193), deixando como legado não uma receita metodológica única, mas investidas dentro da prática sociológica e antropológica que ainda hoje servem como parâmetro para a pesquisa inter e intradisciplinar. Leia Mais

Guia de Fontes para a História Franco-Brasileira: Brasil Colônia, Vice-Reino e Reino Unido – acervos de manuscritos em arquivos franceses – MACHADO (RIHGB)

MACHADO, Marco Antonio Gonçalves (org.). Guia de Fontes para a História Franco-Brasileira: Brasil Colônia, Vice-Reino e Reino Unido – acervos de manuscritos em arquivos franceses. Apresentação: Francisco Corrêa Weffort; estudo introdutório: Vasco Mariz. Recife: L. Dantas Silva: Brasília: MinC; Banco Santos, 2002. Resenha de: KNAUSS, Paulo. Revista do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, Rio de Janeiro, v.164, n.419, p.291-293, abr./jun., 2003.

Paulo Knauss – Professor do Departamento de História da Universidade Federal Fluminense e autor do livro Rio de Janeiro da pacificação: franceses e portugueses na disputa colonial.

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Dressel 20 Inscriptions from Britain and the Consumption of Spanisch Olive Oil with a Catalogue of Stamps – FUNARI (RHAA)

FUNARI, Pedro Paulo A. Dressel 20 Inscriptions from Britain and the Consumption of Spanisch Olive Oil with a Catalogue of Stamps. Oxford: BAR British Series 205, 2006. Resenha de: MIERSE, Willian. Revista de História da Arte e Arqueologia, Campinas, n.3, p.139-140, fev., 2000.

Willian Mierse – Universidade Federal de Alagoas.

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Born to Die: Diease and New World Conquest / Noble D. Cook

COOK, Noble David. Born to Die: Diease and New World Conquest, 1492-1650. Cambridge: Cambridge University Presss, 1998. 248p. Resenha de: NOELLI, Francisco Silva. Revista de História da Arte e Arqueologia, Campinas, n.3, p.140-141, fev., 2000.

Francisco Silva Noelli – Universidade Estadual de Marigá.

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Global Systems – REES; JONES (CSS)

REES, David J.; JONES, Michael G. Global Systems. Edmonton: Arnold Publishing Ltd. 1999. 486p. Resenha de: BOYD, Kenneth. Canadian Social Studies, v.37, n.1, 2002.

As an educator I believe that students need to better understand the world they live in. In order to do this they have to be able to critically examine the political and economic systems that have brought about 20th century societies. If you are looking for a textbook to help students do this, then Global Systems is the one. Right from the beginning, Rees and Jones set out to explain the book’s purposes and make it very easy for the reader to understand what things they want to bring out.

Global Systems examines four political and economic issues with which 20th century societies are confronted. Part I traces the development of contemporary political and economic systems in theory. It accomplishes this by examining the values, beliefs, ideologies and thoughts upon which they are based. Models are used to assist in the understanding of these interrelationships and simple charts visually show the relationships between ideas. Part II looks at 20th century political and economic systems using case studies. These apply the theory and models used for understanding political and economic systems to case studies of different real-world democratic and non-democratic systems. The eight case studies deal with Canada, the United States, Sweden, Japan, Nazi Germany, the Soviet Union, the Russian Federation and China. After reading any one of these case studies the reader will have a very good understanding of all the issues. Interestingly, when certain points are raised in one case study they are compared to similar points in Canada. Models are used again, relating ideologies to political systems and economic systems and then relating political and economic systems to political economies. Part III deals with the challenges of the 21st century. The authors look at some contemporary issues and ideas including the examination of concepts such as nationalism, globalization, technology and information, global disparities, population growth and aging along with environmental protection.

Throughout the textbook the reader will find supplemental information, in the form of model icons, charts and related curriculum content, in the margins. The titles are coded by size, type and colour. This enables the reader to easily identify how the content is organized. Teachers will be able to easily create topic outlines of chapter content simply by following the hierarchy of headings. Review pages at the end of each chapter include a chapter summary along with questions and activities to assist learning. There are four pages of summary material inside the front and back covers for quick reference.

The Appendix provides the reader with a variety of ideas for studying, making notes, critical thinking, analyzing sources, essay writing and preparing for and writing exams. Some graphic organizers are provided as sample formats for organizing and learning new material. This textbook even has a web site dedicated to parts of it; readers simply key in a code supplied with the textbook. Overall the textbook is well written and the layout is exceptional with full colour. I highly recommend Global Systems for use as a classroom textbook or for one’s own reference.

Kenneth Boyd – Rosetown Central High School. Rosetown, Saskatchewan.

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Los Jóvenes ante el reto europeo. Conocimientos y expectativas del alumnado de Educación Secundaria – PRATS et al (ECS)

PRATS, Joaquim (Director); PEÑA, Tòfol A. Trepat José Vte.; VALLS, Rafael; URGELL, Ferran (Coordinador). Los Jóvenes ante el reto europeo. Conocimientos y expectativas del alumnado de Educación Secundaria. Barcelona: Fundación “la Caixa”, 2001. (Col. Estudios sociales, núm. 7), 284 p. Resenha de: GONZÁLEZ, Isidoro. Enseñanza de las Ciencias Sociales, v.1, p.111-113, 2002.

Este libro ha sido elaborado por un equipo de investigación dirigido por Prats, catedrático de Didáctica de las Ciencias Sociales de la Universidad de Barcelona, integrado por Trepat, que actuó como coordinador y es también profesor de la Universidad de Barcelona, por el sociólogo de la educación, Peña, de la Universidad de Oviedo, por Valls, de la Universidad de Valencia y por Urgell, sociólogo investigador del Grupo DIGHES.

Se trata de un ambicioso estudio que incorpora diversas metodologías y técnicas de investigación en didáctica de las ciencias sociales y en sociología. Es una buena prueba del alto nivel que puede alcanzarse. Está publicado en una prestigiosa colección de libros que edita la Fundación «La Caixa» y que pueden verse en internet en la dirección www.estudios.la caixa.com. La investigación ha tratado de indagar en cuatro aspectos fundamentales sobre cómo se vive la dimensión europea en las aulas de la ESO, y qué peso parece tener en estas vivencias la instrucción recibida y construida por el alumnado.

Todas las comunidades españolas han sido estudiadas, tanto en lo que se refiere al estudiantado como en lo relativo al uso de los libros de texto que, en su mayoría, están homologados por las diferentes administraciones.

La generación de alumnado elegido tiene especial interés como población para ser estudiada, ya que los estudiantes de 4.o de ESO se encuentran en su último año de educación obligatoria y no están condicionados por experiencias profesionales o por trayectorias escolares diversificadas.

Es una generación que ha estudiado siguiendo los programas escolares de la reforma educativa que estableció la LOGSE, programas que incorporan el estudio de Europa y la dimensión europea en los términos más actuales. Al tiempo, esta generación de escolares es la última que asistirá a una etapa de educación obligatoria sin la experiencia de utilizar el euro, hecho que producirá consecuencias, aún por determinar, en el imaginario y la vida de los ciudadanos europeos de la Unión.

Según los autores, los resultados de la investigación demuestran un deficiente conocimiento sobre la historia y la geografía de Europa en un grupo muy numeroso del alumnado que acaba esta etapa educativa; y más si tenemos en cuenta que la prueba de conocimientos que se realizó incluía solamente contenidos muy básicos.

Solamente algo más de la mitad de los estudiantes obtienen unos resultados aceptables. Los porcentajes concretan más esta afirmación: un 59% aprobaría frente a un 41%, que suspendería; aunque de los que aprueban, ninguno obtiene una calificación excelente. En este terreno de los conocimientos, los alumnos de los centros privados concertados superan en casi un punto de nota media a los de los centros de titularidad pública.

Pero la investigación demuestra que no es éste el factor fundamental que determina el nivel de conocimientos. El componente familiar (socioprofesional y el llamado capital cultural) es, según las conclusiones de este estudio, el factor más influyente a la hora de explicar el mayor o menor rendimiento académico del alumnado, al menos en los temas que se han estudiado. De esta manera, los estudiantes que obtienen una calificación más destacada son los que pertenecen a familias de clase alta o clase media alta con padres que poseen estudios superiores o secundarios. Dentro de esta tendencia, pesa mucho más lo que se denomina capital cultural que la pertenencia a un determinado grupo socioprofesional.

En conocimientos sobre Europa, los chicos alcanzan casi medio punto de nota media más que las chicas. En el presente estudio, esta diferencia se aprecia no sólo en los conocimientos, sino también en el mayor grado de interés que muestran los chicos sobre otros aspectos más concretos, como son la política europea, la valoración del proceso que está siguiendo la Unión, o sobre las cuestiones ligadas a las posibilidades políticas, económicas o de otro tipo que supone la pertenencia a la Unión Europea. Se alcanzan mejores resultados en los temas de geografía que en los de historia.

Los autores del estudio se preguntan: ¿Son europeístas nuestros jóvenes de 16 y 17 años? La respuesta a la que llegan es que los jóvenes españoles, al término de los estudios obligatorios (ESO), se sienten mayoritariamente europeos (así se manifiestan tres de cada cuatro, mientras que sólo uno no se siente europeo). Pero la excelente matización que tiene cada una de las afirmaciones de esta investigación nos aclara que esta afirmación general contiene muchos matices. Las razones que esgrimen los jóvenes a favor de su pertenencia a Europa son de carácter fundamentalmente geográfico y hay pocas menciones a otro tipo de argumentos ligados a factores culturales, políticos o históricos.

Cuando afirman que se sienten europeos se refieren a una impresión muy general, en muchos aspectos imprecisa y bastante ambigua en su definición.

Como señala el libro, el sentirse europeo no implica necesariamente que los jóvenes reconozcan en esta filiación su identidad principal. Solamente lo han hecho así un 5%. Como era de esperar el sentimiento más fuerte de identidad se produce con España compatibilizándolo con el de su pueblo o ciudad, el de su comunidad autónoma o con otros ámbitos más próximos y cercanos. Así, de cada diez, seis jóvenes se declararían españoles, uno de su pueblo o ciudad, uno de su comunidad y uno no contestaría; del resto, la mitad (5’3%) se declararía de la Unión Europea.

El que no se declaren de la Unión no descarta que se sientan de ella, pero se trata de una identidad bastante tenue y lejana.

Aunque debe señalarse que los jóvenes españoles esperan más cambios e influencia en sus vidas, de la pertenencia a la Unión, que la mayoría de los otros jóvenes europeos.

A pesar de la importancia que en la concepción de Europa tiene la Unión Europea, lo cierto es que la información que manejan sobre ésta es muy escasa. El trabajo nos ofrece multitud de ejemplos: un alto porcentaje de escolares no sabe distinguir los estados que forman la Unión y confunden los países miembros con los que no lo son. Igualmente hay países europeos que, sin formar parte de la Unión, son considerados también como miembros de ella, como es el caso de Suiza, Eslovaquia, Rumania e incluso Rusia.

Para los autores tiene un especial interés el saber cómo se relacionan los conocimientos con expectativas, sentimientos y actitudes ante Europa y el proceso de que está llevando la Unión Europea. Los resultados de la investigación nos indican que, pese al desconocimiento medio que se aprecia en los temas relacionados con Europa y, más en concreto, con la Unión Europea, los jóvenes adolescentes españoles creen que la pertenencia de España a esta organización es positiva. Casi nadie cree que el ingreso de España en la UE haya sido negativo. Además, la mayoría aprueba el proceso de unión y piensa que este paso será positivo. Casi la totalidad de los encuestados no desearía que se detuviese o se cancelase el proceso de unión y la mayoría lamentaría que desapareciese la Unión Europea.

Para los jóvenes adolescentes, Italia y Francia son los países que más atraen, y los italianos son los europeos que se ven con más simpatía y los que reciben una mejor valoración. Después de los citados, Gran Bretaña, Alemania o Portugal serían países apetecibles para ir a vivir, independientemente de que sus ciudadanos no susciten, en un porcentaje elevado, demasiadas simpatías, especialmente los alemanes y británicos, que son vistos con recelo e incluso con una relativa hostilidad. El resto de países europeos y sus ciudadanos reciben valoraciones más variadas. Así, por ejemplo, los holandeses son valorados muy bien y los rusos muy mal, aunque también es cierto que, a más lejanía, el grado de indefinición es mucho más alto.

En el estudio dirigido por Prats se introduce una valoración de contraste que lleva a descubrirnos que los jóvenes españoles muestran una gran aceptación e identificación por los estadounidenses, a pesar de que sus sentimientos hacia ellos son contradictorios. En conjunto, los jóvenes españoles les otorgan una valoración más alta que a muchos de sus conciudadanos europeos (alemanes, franceses, portugueses y holandeses). Esta actitud contrasta con la poca aceptación que les suscitan los marroquíes. Para los estudiantes, los estadounidenses son ricos y poderosos; seguramente estas características los hacen más atractivos. Otros, los marroquíes, son percibidos como pobres, tienen una lengua, cultura y religión muy distintas y ello, probablemente, los hace menos deseables; incluso se han percibido algunos rasgos que recuerdan posturas hostiles a estos ciudadanos con indicios de una incipiente xenofobia. Y, finalmente, es digno de mención que ven con mucha más normalidad la llegada de europeos de la Unión a ocupar puestos de trabajo que la de otros extranjeros no comunitarios; incluso aceptan que un comunitario ocupe un puesto de trabajo en España si está más preparado que el español.

Por último, una parte especialmente interesante es el estudio de los libros de texto. Los autores han analizado los textos que utilizan más del 80% del alumnado español. La primera conclusión a la que llegan es que los libros de ciencias sociales de la etapa educativa secundaria obligatoria (ESO) son, sin duda, los que mayor espacio y atención han dedicado a los temas europeos en la historia de la educación española. También es constatable que los estereotipos negativos respecto de los países europeos han desaparecido de los manuales. Se puede afirmar, en este sentido, que los textos escolares españoles actuales son los más europeístas que han existido hasta el presente.

Pese a esta presencia de contenidos europeos, los libros ofrecen algunas incoherencias, cuando no errores o distorsiones.

La dificultad de definir con suficiente precisión el concepto de Europa hace que los manuales escolares reflejen esta situación y que éstos no propongan realmente ninguna definición correcta, ni se atrevan normalmente a plantear el problema existente o las diversas posibilidades de su definición. Además de ser confusos a la hora de delimitar qué es Europa en sus elementos definidores (historia, cultura, religión, etc.), los manuales escolares también lo son en otros aspectos más sencillos como, por ejemplo, al hablar de los límites geográficos. Otro problema no menos importante es que la mayor parte de los libros de texto ofrece una visión excesivamente occidentalista dentro del ámbito europeo.

El libro introduce un apartado de recomendaciones que pueden ser consideradas poco interesantes en su conjunto y un apéndice metodológico. Conviene comentar que este apartado es una extraordinaria muestra de cómo el rigor, la calidad técnica y el acierto en la elección de caminos metodológicos hace posible un auténtico camino de investigación en el área de didáctica de las ciencias sociales.

En resumen, una interesante aportación como las que ya son habituales en el potente departamento de Didáctica de las Ciencias Sociales de la Universidad de Barcelona y, en concreto, del grupo de investigación DIGHES (Didáctica de la Geografía e Historia en la Educación Secundaria) que dirige con acierto Prats y cuenta con investigadores tan solventes como, entre otros, Trepat. En este trabajo los investigadores del grupo se han ayudado de dos buenos especialistas como son Peña y Valls.

Isidoro González – Universidad de Valladolid.

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Knowing, teaching and learning History: National and international perspectives – STEARNS et al (ECS)

STEARNS, Peter N.; SEIXAS, Peter; WINEBURG, Sam (eds.). Knowing, teaching and learning History: National and international perspectives. New York: University Press. 2000. 475p. Resenha de: RODRÍGUEZ, A. Ernesto Gómez. Enseñanza de las Ciencias Sociales, v.1, p.113-114, 2002.

Pronunciarse sobre los requisitos que confieren calidad a la enseñanza de la historia es, sin duda alguna, una complicada cuestión que precisa de la concurrencia de múltiples y variadas opiniones; pues bien, ésta es una de las características a destacar de la obra que comentamos: la confluencia de autores procedentes de campos tan dispares –psicólogos e investigadores de la educación, historiadores, didactas y profesores de historia– que aportan numerosas e interesantes ideas sobre cómo ha de entenderse su enseñanza en unos momentos de cambios sociales y culturales tan profundos.

Las aportaciones se debatieron en la conferencia de la American Historical Association celebrada en Pittsburgh en 1997 y más tarde fueron recogidas en un texto que se estructura en cuatro partes y en el que se hace una reflexión sobre la enseñanza de la historia, entendida ésta como una asignatura independiente en el currículo escolar. A pesar de la distancia, es una obra perfectamente adecuada para abordar su enseñanza tanto en nuestra ESO como en la secundaria postobligatoria, una etapa bastante abandonada por las editoriales españolas, quizás porque los pasados debates se centraron, sobre todo, en torno a la cuestión de ciencias sociales o geografía e historia.

En la primera parte, titulada «Cuestiones actuales de la enseñanza de la historia» se aborda, desde siete colaboraciones pertenecientes a diferentes contextos –Canadá, EEUU, Gran Bretaña, Estonia–, las cuestiones de qué es la historia y cómo debería enseñarse. Entre ellas destacan la de Seixas, que analiza la naturaleza del conocimiento histórico, sopesando los pros y los contras de tres corrientes a través de las cuales el profesorado maneja conflictivas interpretaciones de los acontecimientos históricos: la memoria colectiva, la orientación disciplinar y la orientación postmoderna. Por su parte, James Wertsch analiza las diferencias entre los conceptos de maestría y apropiación, al objeto de responder a la cuestión de si se pueden simultanear valores y conocimientos en la enseñanza de la historia. Desde la experiencia escolar canadiense, Morton, plantea la necesidad de reflexionar profundamente antes de aplicar soluciones simplistas que abogan por una explotación del pasado para solucionar los problemas políticos contemporáneos.

Ante la incapacidad del alumnado inglés para construir un mapa coherente del pasado, Shemilt no tiene más remedio que reconocer cierto fracaso del Schools History Project, a pesar de que su currículo se articulaba y estructuraba, esencialmente, para lograr esa orientación.

Como conclusión general de esta sección, hay que reconocer que, a pesar de la profundidad de las reflexiones, resulta imposible establecer el consenso entre ellas.

La segunda parte ofrece menos utilidad para el caso español, al centrarse en problemas y cuestiones específicamente norteamericanos; en líneas generales, argumenta la necesidad de introducir cambios en la enseñanza de la historia. La historiadora Ravith, muy implicada en las conservadoras reformas curriculares de los años noventa, responsabiliza de la mala calidad de la historia que se enseña a la mala formación histórica del profesorado, sin entrar en otras circunstancias. Otro capítulo analiza un programa piloto universitario destinado a la formación del profesorado de historia, subrayando la necesaria e imprescindible colaboración entre los departamentos de Historia y de Educación. El tercero versa sobre la reforma de la enseñanza de la historia emprendida en un distrito escolar californiano, cuyo éxito se justifica en que se basa en el desarrollo profesional de los docentes y en la intervención activa y coordinada de departamententos universitarios de contenidos y de educación.

La tercera parte se dedica a «La investigación sobre la enseñanza y el aprendizaje de la historia» y la integran siete colaboraciones de conocidos didactas y psicólogos educativos, aunque algunas de ellas –las de Leinhart y von Borries– parecen fuera de contexto. Los británicos Lee y Ashby exponen los resultados de un proyecto curricular destinado a incrementar la comprensión de la historia entre el alumnado de 7 a 14 años, y sus conclusiones confirman que el aprendizaje histórico resulta mucho más complicado y variado de lo que tradicionalmente se creía. Por su parte, la didacta Levstik establece comparaciones entre la forma de percibir la historia por unos alumnos y la distinta percepción de sus profesores y de profesores en formación. La cuestión más interesante es que, mientras que los primeros se muestran bastante sensibilizados por abordar las cuestiones conflictivas de la historia del país, los segundos muestran una marcada tendencia a dejar aparcados los aspectos más candentes de la historia y reflejan una profunda despreocupación hacia aquellos temas que realmente suscitan la participación cívica. Finalmente, Wineburg destaca, a través de los datos proporcionados por un estudio longitudinal, que en la actualidad la escuela no es más que uno de los muchos espacios donde se puede enseñar y aprender la historia en la sociedad moderna.

Los seis capítulos de la quinta y última parte tratan la cuestión de «los modelos de enseñanza» mediante informes de experiencias destinadas a mejorar el rendimiento del alumnado; unas experiencias que parten desde distintas interpretaciones de lo que constituiría el conocimiento y la comprensión histórica y que pretenden constatar la viabilidad y la eficacia de las técnicas educativas que se aplican.

Las tres aportaciones más interesantes son las de Gutiérrez que, narra su experiencia en una high school californiana con elevada población «marginal». Básicamente, esta autora percibe la comprensión histórica en términos de desarrollo personal y de capacitación del alumnado para participar de manera efectiva en la comunidad democrática. Bain desarrolla un planteamiento más academicista y expone su experiencia docente centrada en la adquisición de estrategias cognitivas dirigidas a desarrollar la habilidad del alumnado en el manejo de recursos históricos variados. Por último, Boix-Mansilla relata una experiencia encaminada a revisar algunas cuestiones sociales problemáticas actuales a la luz de acontecimientos ya históricos, pretendiendo y fomentando una interpretación e intervención valorativa del alumnado. En síntesis, estos modelos de enseñanza pueden servir para animar al profesorado en la búsqueda de nuevas fórmulas educativas.

En general, pese a los desequilibrios que se aprecian en ella, podemos valorar positivamente esta obra que, como señalan sus editores, en un campo acosado por serios problemas e incertidumbres, sugiere nuevas vías para discutir sobre cuál y cómo debería ser la aportación de la historia a la educación.

Ernesto Gómez RodríguezUMA.

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Historia del Arte, Enseñanza y Profesores – ÁVILA (ECS)

ÁVILA, R. M. Historia del Arte, Enseñanza y Profesores. Sevilla: Díada, 2001. Resenha de: GIMÉNEZ, Jesús Estepa. Enseñanza de las Ciencias Sociales, v.1, p.110-111, 2002.

Cuando el nuevo Decreto de Enseñanzas Mínimas de Bachillerato ha cerrado el currículo de Historia del Arte, como el de otras disciplinas sociales, y lo ha orientado hacia la más rancia tradición formalista y academicista e, igualmente, en la etapa de la ESO, la presencia del arte en el reciente currículo oficial no sólo continúa siendo escasa, sino aún más encaminada a convertirse en una mera ilustración en imágenes de cada uno de los períodos históricos en los que se reparte el currículo de ciencias sociales, geografía e historia, se publica esta monografía didáctica cargada de propuestas innovadoras, a contracorriente de estas nuevas prescripciones curriculares. Ello pone de manifiesto la autonomía científica de la didáctica específica, que analiza y reflexiona sobre los procesos de enseñanzaaprendizaje elaborando propuestas coherentes con su marco teórico y con su perspectiva de análisis sobre la práctica profesional, sean estas propuestas coincidentes o no con las que se desprenden del currículo oficial.

En este sentido, la obra que analizamos parte de que en la actualidad existe una falta de acercamiento al arte, debido a no haber aprendido a «mirar»; muchos de nuestros alumnos contemplan las obras de arte sin saber qué observar. Su sensibilidad no tiene el nivel necesario para comprender; existe una falta de predisposición favorable al arte y, en especial, hacia el arte contemporáneo, diríamos nosotros.

Para intentar cambiar este panorama, la autora presenta en este libro una propuesta de innovación educativa que se fundamenta en los presupuestos del Proyecto Curricular Investigación y Renovación Escolar (Proyecto IRES), con independencia de los vaivenes reformistas- contrarreformistas del currículo oficial, pretendiendo facilitar, al profesorado de ciencias sociales arte, la construcción de un conocimiento práctico profesional deseable sobre los contenidos escolares histórico-artísticos que le capacite para resolver mejor los problemas que la práctica le plantea.

Bajo estos presupuestos, el libro se organiza en tres capítulos. En el primero, se describen y analizan básicamente las concepciones que los profesores de ciencias sociales de educación secundaria tienen sobre la historia del arte y su enseñanza- aprendizaje, así como sobre los saberes didácticos y curriculares que hacen referencia a la enseñanza en general, como punto de partida sobre el que construir el conocimiento profesional deseable.

En este capítulo se recogen las conclusiones del estudio empírico que la autora realizó en su tesis doctoral, sin gran parte del aparato crítico y metodológico, lo que, si bien facilita su lectura, puede al mismo tiempo dar lugar a una visión excesivamente simplista de los obstáculos que dificultan el cambio profesional del profesorado. En este sentido, debe tenerse presente que el estudio no incluye a los maestros de educación primaria y que la formación del profesorado de educación secundaria es exclusivamente academicista y carente de un enfoque profesional, de una perspectiva didáctica, si exceptuamos el insuficiente CAP.

Esta formación, junto a la socialización profesional, la propia práctica de la didáctica como disciplina, los valores y actitudes dominantes en nuestra sociedad, el esfuerzo personal que supone cualquier proceso de formación continua, los condicionantes del marco institucional y político en el que está inmersa la propia enseñanza de las ciencias sociales, y en particular de la historia del arte, entre otros factores, han propiciado el desarrollo de unos sistemas de ideas, entre este profesorado, muy resistentes a la innovación educativa y a la consideración de la enseñanza de las ciencias sociales como una tarea compleja que requiere una reflexión permanente en sus concepciones y su práctica.

En el segundo capítulo, se lleva a cabo una amplia y profunda revisión histórica y epistemológica sobre la historia del arte como disciplina científica enfocada –y es aquí donde radica su principal aportación– a establecer un marco alternativo, integrado, complejo y crítico que permita convertir el conocimiento disciplinar científico en conocimiento disciplinar profesionalizado, es decir, que posibilite un conocimiento didáctico del contenido, una lectura didáctica de una de las fuentes para la determinación del conocimiento escolar. Desde este planteamiento se postula, como conocimiento profesional deseable en relación con esta disciplina, una visión integradora de la obra de arte de carácter histórico-sociológico, haciéndose una propuesta de tramas conceptuales específicas que servirán de referencia, tanto para la formulación y secuenciación del conocimiento escolar deseable como para la progresión posible en el desarrollo profesional de los profesores. Tales tramas están jerarquizadas y organizadas en función de la capacidad de describir (primer nivel de formulación), explicar (segundo nivel de formulación) e interpretar (tercer nivel de formulación) los fenómenos artísticos, tomando como referencia, progresivamente, el enfoque formalista, el iconológico y el sociológico.

En el tercer y último capítulo, se elabora una propuesta de conocimiento escolar para lo que la autora denomina la educación histórico-artística. Para ello, comienza analizando los procesos básicos de aprendizaje del alumnado en relación con la obra de arte, lo que le permite formular una hipótesis de progresión de las ideas de los alumnos en cuatro niveles (sincrético, aditivo simple, aditivo complejo y sistémico) y, con posterioridad, lleva a cabo un análisis del currículo oficial de la ESO y el bachillerato en España y de los currículos de otros países (Gran Bretaña, Italia y Estados Unidos), así como de otras propuestas curriculares.

Concluye, tras estos análisis, formulando una propuesta alternativa de conocimiento escolar sobre los fenómenos histórico-artísticos y señalando sus finalidades y la selección y secuenciación de contenidos, que se concreta también en tres niveles de formulación (desde la educación primaria hasta el bachillerato), que van desde la progresiva capacidad para leer los fenómenos histórico-artísticos, en un primer nivel, hacia la capacidad para explicarlos y, finalmente, adquirir una visión compleja de los mismos.

Termina este capítulo con un estudio de los enfoques metodológicos empleados en la enseñanza de la historia del arte mediante el análisis de materiales curriculares y la elaboración de una propuesta en relación al cómo enseñar de carácter investigativo.

En suma, una obra densa, con un índice muy poco desglosado por criterio editorial, que no permite percibir de forma sumaria los numerosos estudios y propuestas que en la misma se realizan. Es un libro que puede ayudar, a aquellos grupos de maestros y profesores insatisfechos con su práctica, a orientar su desarrollo profesional desde la reflexión sobre sus concepciones y la experimentación curricular.

También es de extraordinario interés para el profesorado de didáctica de las ciencias sociales por lo que aporta para el diseño de procesos formativos que faciliten la superación de los obstáculos que dificultan la construcción de un conocimiento profesional del profesorado que permita a éste enseñar a mirar el arte a su alumnado.

Jesús Estepa Giménez

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Breve painel etno-histórico de Mato Grosso do Sul | Gilson Rodolfo Martins

A década de 1990 testemunhou o florescimento de obras de divulgação sobre povos indígenas no Brasil, feitas por antropólogos, historiadores e arqueólogos profissionais. Em grande medida, esses livros levaram ao grande público informações básicas e corretas, suplantando uma série de erros e má interpretações perpetradas e reproduzidas pela maioria dos livros didáticos do Ensino Fundamental e do Ensino Médio. Outra contribuição importante desses trabalhos é a difusão de conteúdos politicamente orientados, visando levar ao público conhecimentos que auxiliem na formação de opiniões humanitárias e democráticas baseadas na ética e na justiça social, tanto para reduzir o preconceito e etnocentrismo arraigados contra os povos indígenas, quanto para que se possa ponderar adequadamente sobre os diversos conflitos interétnicos, especialmente em relação à luta pela manutenção e/ou reconquista de territórios tradicionais. Leia Mais

Discurso da Dissidência / Noam Chomsky

Talvez Chomsky seja mais lembrado por sua rica produção acadêmica na área da lingüística. Lecionando esta disciplina no Instituto de Tecnologia de Massachusetts (EUA), desde 1955, tornou-se seguramente uma das maiores expressões no campo da lingüística. Hoje, através de seus inúmeros discursos políticos se credencia como uma das mais importantes vozes contra o establishment. Trata-se portanto de um especialista no estudo da linguagem com reconhecimento internacional que ora contribui com seus escritos e palestras para diminuir as injustiças sociais através de contundentes análises sobre a conjuntura mundial, particularmente sobre as conseqüências das políticas externas estadunidense e européia. Levando-se em conta o alcance que têm seus estudos face à problemática política atual pode-se dizer que é um autor relativamente pouco conhecido do grande público e, no caso brasileiro, também do público intelectual. Tendo em vista o seu indiscutível comprometimento em todas as situações que envolvem disputas internacionais e também a competência em tratar temas contemporâneos, mereceria maior atenção destes diferentes públicos.

O livro que escolhemos para comentar aqui é uma coletânea de diferentes artigos e entrevistas que apresentam um Chomsky ativista de direitos humanos e desmistificador da propaganda que objetiva controlar as pessoas nas mais diversas situações de exploração política e social.

Um exemplo do seu vanguardismo no tratamento de questões internacionais e do pragmatismo do seu trabalho pode ser ilustrado através da forma como abordou fatos da história recente do Timor Leste. Há quase três décadas não se via qualquer perspectiva de solução para os conflitos naquela região, tampouco qualquer voz entre os intelectuais que os denunciasse. Foi exatamente Noam Chomsky quem mais uma vez entrou em cena, denunciando a falta de comprometimento internacional para resolver problemas desta natureza. O silêncio jornalístico e literário mantido face aos desmandos indonésios no Timor foi quebrado através das palavras do nomeado autor. Para ele este terrível crime do século, pois: “…o assalto indonésio a Timor está nos lugares cimeiros, não só pela sua dimensão de holocausto – talvez o mais elevado número de mortes da população civil – mas porque poderia ter sido facilmente previnido ou pelo menos interrompido a tempo”, é um exemplo de como um pacto estabelecido entre governos e imprensa termina por beneficiar os agressores, colocando as vítimas na escuridão do esquecimento deliberado.

Nesta coletânea de textos pode-se portanto apreender muito da sua forma de pensar questões sóciopolíticas em perspectivas novas, que trazem às vezes consigo certo valor de previsão. Dizemos isso porque Chomsky escreve para intelectuais sem esquecer daqueles que estão fora de tal grupo, uma vez se tratar aqui também de pessoas interessadas em compreender o que de fato está acontecendo nas circunstâncias e regiões abordadas.

O autor afirmava já nos idos de 1996 que, ao contrário de outros conflitos como na Bósnia, Angola, Ruanda e Iraque-Kuwait, no caso do Timor, não havia ambigüidade nem complicações sobre a solução apropriada e nem necessidade da ameaça do uso de força para alcançá-la, nem mesmo a necessidade de sanções.

Fazia-se necessário, portanto, apenas o reconhecimento da mea culpa e a desistência dos cúmplices daquele crime. Certamente hoje se vê após toda a humilhação e sofrimento pelo qual passou o povo timorense, que aquelas nações outrora coniventes com a situação se viram acuadas pela opinião pública, cedendo espaço para a força de resistência da pequena população local. Mas o livro de Chomsky não se reduz ao problema do Timor. Há pois uma explanação de seus posicionamentos seguros face à política externa das nações ricas, em especial da norteamericana, encontrando novos paradígmas para analisar ações criminosas contra populações, muitas vezes esquecidas pela mídia. Os posicionamentos diferenciados “rebeldes e independentes” nos seus escritos e na sua fala mostram a distância que cultiva da maioria dos seus pares norte-americanos, o que não poderia deixar de lhe render grandes dificuldades no mercado editorial de peso daquele país e venha a justificar inclusive a dificuldade de difundir suas obras em língua portuguesa.

Além da reportagem onde mostrou à imprensa inglêsa a farsa dos países ricos envolvidos no genocídio de Timor Leste, alertando para a iminente extinção de um povo, caso países como os Estados Unidos, Inglaterra, Austrália continuassem cúmplices das investidas indonésias, Chomsky nos traz nesta obra outros critérios para compreender diversas problemáticas emergentes das relações internacionais como por exemplo, a investida das forças da OTAN no Kosovo ou do NAFTA na América Latina. Um tratamento detalhado é dado à reestruturação do livre mercado imposta pelas potências industriais cusadora de uma contínua deteriorização sócio-econômica dos países latino-americanos. Aborda os falaciosos benefícios da grande vitória do capitalismo mostrando suas verdadeiras conseqüências: (…) a porção dos bens do mundo controlada pelos países pobres e de rendimento médio desceu de 23 para 18 por cento entre 1980 e 1988. O informe do Banco Mundial de 1990 acrescentava que, em 1989, os recursos transferidos dos ‘países em vias de desenvolvimento’ para o mundo industrializado alcançaram um novo recorde. Calcula-se que o pagamento do serviço da dívida ultrapassou os novos caudais de fundos em 49,2 mil milhões de dólares, um aumento de cinco mil milhões de dólares desde 1988, e os novos fundos fornecidos pelos credores caíram ao nível mais baixo da década.

As imensas oportunidades do “novo mundo” pós Guerra Fria para a expansão e consolidação da democracia de mercado e vitória dos mercados abertos foi parte da retórica do governo Clinton no início da década de noventa e encontram uma análise no capítulo do livro intitulado de “Democracia e Mercados na nova Ordem Mundial.” A idéia da Guerra Fria como bloqueadora da política externa americana de dominação é contraposta ao fato de que no mesmo período nada impediu a continuidade e manutenção desta política.

No texto sobre “O acordo de Paz Para o Kosovo” busca esclarecer os denominados efeitos colaterais dos bombardeamentos americanos e da OTAN que se disseram vitoriosos após 10 semanas de luta com a rendição de Milosevic. Foi com esta ação bélica que os auto-proclamados “Estados esclarecidos” (Estados Unidos, GrãBretanha e alguns outros associados) afirmaram ter dado início a uma nova era na história da humanidade, guiados por ‘um novo internacionalismo, em que a repressão brutal de grupos étnicos não voltará a ser tolerada.'” Outros temas menos específicos, porém de igual intensidade, importância e atualidade no que tange às relações desiguais entre os denominados países ricos com aqueles do hemisfério sul e Europa Oriental encontram espaço no livro. O estrangulamento destas nações pelo rápido crescimento da dívida externa; os interesses de elementos de dominação interna naquilo que a Organização Mundial do Comércio defende; a política antidrogas norte-americana e sua relação com o terceiro mundo encontram análises à luz de novas vertentes. O livro é concluído com uma entrevista sobre “O Poder das Elites e a Responsabilidade dos Intelectuais” que concedeu a David Barsamian em fevereiro de 1988. Barsamian compilou posteriormente (no ano de 1993) três entrevistas por ele feitas com o autor em um trabalho intitulado “A minoria próspera e a Multidão Inquieta” traduzido por Mary Grace Figheira Perpétuo, editado no Brasil pela Universidade de Brasília (2a. edição, 1999). Trata-se de idéias complementares àquelas presentes no livro ora comentado e em especial às de seu último capítulo versando sobre temas diversos como o das minorias, do sionismo, da religião, dos limites da responsabilidade intelectual, do controle da informação pelas elites, dentre outros de semelhante envergadura.

As entrevistas, os artigos acadêmicos e as reportagens que formam o conjunto de textos interagem e se complementam. Anarquista confesso, Chomsky pode ser lido inclusive por não-anarquistas, pois sua linguagem é universal e não por menos é hoje considerado um dos mais conhecidos e influentes pensadores norteamericanos, apesar do ceticismo com que o trata a grande imprensa de seu país. Não por menos encontra o autor uma audiência cada vez maior e mais fiel para suas palestras sobre temas políticos, sejam elas proferidas nos Estados Unidos ou noutros países. Encontra-se ainda em anexo ao livro uma lista com os principais trabalhos de cunho político do autor, embora muitos deles acessíveis apenas em seu idioma de origem.

Antonio Caubi Ribeiro Tupinambá – Universidade Federal do Ceará.


CHOMSKY, Noam. Discurso da Dissidência. Tradução de Ana Barradas e Isabel Palha. Lisboa: Edições Dinossauro, 2000. Resenha de: Revista Trajetos, Fortaleza, v.1, n.2, 2002. Acessar publicação original. [IF].

Revistas em revista – imprensa e práticas culturais em tempos de República, São Paulo (1890-1922) / Ana L. Martins

A utilização de jornais e revistas como fontes no trabalho de pesquisa é algo corriqueiro no fazer historiográfico. Vez por outra recorremos a eles para verificar dados, analisar discursos, relacionar idéias dominantes de um período ou personagem que buscamos conhecer. Poucas vezes, no entanto, vemos esses veículos de comunicação no centro da cena. A busca dos significados de sua criação e dos detalhes de suas relações com a cultura e sociedade da época não é tratada com o rigor necessário, sendo subdimensionada na pesquisa.

A historiadora Ana Luíza Martins resolveu inverter essa lógica. Centrando foco na imprensa periódica das quatro primeiras décadas da República, através do estudo específico das revistas, a pesquisadora acabou compondo um verdadeiro painel da cultura e dos meios literários e jornalísticos paulistanos entre os anos de 1890 e 1922. O resultado pode ser conferido em Revistas em revista – imprensa e práticas culturais em tempos de República, São Paulo (1890-1922), produto de sua tese de doutorado na USP.

Utilizando-se de uma narrativa prazerosa, a autora busca recompor para nós, como num quadro, as condições conjunturais que permitiriam o florescimento e consolidação das revistas. Um dos méritos do trabalho, aliás, é essa recomposição, pela riqueza em detalhes. O que vemos é uma São Paulo, em plena virada do século, no compasso do desenvolvimento de sua agricultura movida pelo café e de uma indústria e comércio emergentes. A velocidade das transformações no espaço urbano corria no ritmo de trens e vapores e, mais tarde, no das rotativas, de onde surgiriam, em cores, as páginas de dezenas de títulos de revistas.

Estas traziam em seus textos e ilustrações a idéia de progresso e “civilidade”, profundamente inspiradas pelo periodismo francês. Muitos dos títulos, nos primeiros tempos, eram produzidos por brasileiros da elite agrária em seus escritórios em Paris. Essa relação foi fundamental para a divulgação de hábitos e produtos em voga na França, através da publicidade. A realidade das casas reais européias, o embevecimento com os hábitos aristocráticos e a vida elegante e refinada da nobreza, em permanente lazer, serviam como alimento para o panorama Belle Époque vivido em São Paulo. A cidade era assim vendida como a “Capital Artística”, a “Paulicéia”. O papel couché e a arte, presente nas riquíssimas gravuras, procuravam dissipar os rastros de tensão entre as classes e os conflitos urbanos em um espaço que se pretendia saneado e ordenado.

Num país onde 80% da população ainda era analfabeta, São Paulo destacava-se pelos investimentos públicos na esfera escolar, embora para a maioria da população, isso não representasse mais que aprender a ler, escrever e contar. O “saber ler” era chave para a participação do “cidadão” nas decisões políticas e no mundo da informação. Sem a presença de uma indústria livreira e com a dificuldade de acesso e entendimento dos jornais, “paladinos da verdade”, a revista com seus textos leves, ligeiros e profusão de ilustrações e gravuras, depois fotografias, seduzia pelo encanto da leitura facilitada e atraente, feita para entreter. Não era à toa que as revistas eram chamadas de “sorriso da sociedade”.

Do ponto de vista da história da imprensa brasileira, a pesquisa de Martins é de fundamental importância por recuperar um momento de transformações no fazer jornalístico. Isso se dá tanto no plano das condições estruturais para o desenvolvimento industrial – produção de papel, formação de pessoal qualificado para o trabalho em oficinas gráficas, estratégias de divulgação e venda dos produtos – como também no campo das representações ideológicas sobre esse fazer.

As contendas entre literatos e jornalistas são situadas nesse contexto de mudanças. O trabalho nas redações feito, em grande parte, por escritores, exigia a adaptação a um regime mais rígido de horários e novas formas de texto. A figura do jornalista boêmio dava lugar ao profissional disciplinado, apto a responder às necessidades de produção de um mercado competitivo e, a partir dali, remunerado.

O debate estimulante entre jornalismo e literatura no Brasil pode encontrar ali o seu elo perdido, uma vez que estamos tão acostumados a pensar essa questão, através da bibliografia norte-americana. A autora relata como a mercantilização imposta aos jornais vai gerar um mal-estar entre os literatos.

Subjugados em sua arte pelo “vil metal”, estes vão procurar nas revistas a maneira de se expressarem com integridade, obtendo a qualificação e o reconhecimento desejados como artistas e não como “operários da notícia”.

O trabalho de Ana Luíza Martins também nos fornece pistas para pensar a questão da linguagem jornalística propriamente dita, a partir da contribuição literária das revistas aos campos da reportagem e opinião. Mas a forte presença dos escritores e poetas nas revistas não estava retratada apenas nos contos, crônicas e sonetos publicados pelas ilustradas. Está também na publicidade e propaganda que estabelecia relação direta do comércio e indústria com essas publicações, afinal “o reclame é a vida do comércio”.

Quem imaginaria Olavo Bilac como um dos nossos primeiros publicitários, divulgando em sonetos as vantagens do xarope Bromil? A revista era a embalagem ideal para a divulgação de bebidas, medicamentos e novidades tecnológicas da indústria em seu começo.

O papel das revistas como formadoras e mesmo educadoras da sociedade paulistana pode ser depreendida do escrutínio feito pela autora nas bibliotecas de três importantes colaboradores das revistas e agitadores culturais nesse momento: Eduardo Prado, Lima Barreto e Mário de Andrade. Imbuída dos instrumentos da história da leitura, ela esmiúça e analisa as várias formas de consumo e utilização dessas publicações para os interesses de grupos culturais diversos na cidade de São Paulo, nos dando uma idéia do ecletismo desse veículo de comunicação. Ficamos sabendo que, para muitos dos intelectuais da época, as revistas ocuparam um papel tão importante quanto os livros.

As várias imagens de São Paulo, unificadas pela idéia do progresso e modernidade, nas publicações destinadas à agricultura, ciência, comércio, agremiações literárias, ligas de operários e ao público feminino, são cuidadosamente analisadas na pesquisa. O livro nos brinda ainda com ilustrações de capas, anúncios e gravuras, retirados de algumas das publicações estudadas. Estes elementos gráficos e artísticos só vêm somar informações ao texto denso e bem trabalhado de Ana Luíza Martins nessa que, sem dúvida, pode ser considerada obra de referência na história da imprensa brasileira.

Ana Rita Fonteles Duarte – Universidade Federal do Ceará.


MARTINS, Ana Luíza. Revistas em revista – imprensa e práticas culturais em tempos de República, São Paulo (1890-1922). São Paulo: Edusp / Fapesp / Imprensa Oficial do Estado, 2001. Resenha de: DUARTE, Ana Rita Fonteles. Revista Trajetos, Fortaleza, v.1, n.2, 2002. Acessar publicação original. [IF].

Lajja – Shame / Taslima Nasrin

Os problemas que ora se agudizam na denominada região da Caxemira remontam ao período imediatamente posterior à separação das regiões noroeste e nordeste da Índia, respectivamente no dia 15 de agosto de 1947, quando os ingleses deixaram a Índia e foi criado o Estado do Paquistão, e em 26 de março de 1971, quando o Paquistão oriental ganhou sua independência, tornando-se o país Bangladesh. Houve um tempo em que povos de crenças distintas conviviam com relativa harmonia naquelas terras hoje divididas e rebatizadas. Com a formação dos Estados do Paquistão e de Bangladesh em conseqüência dessa partilha do território indiano, iniciou-se o reordenamento de fundamentalistas religiosos em busca de novas causas. O desastre do domínio imperial britânico na região resultou no que hoje conhecemos de Bangladesh ou da região de Bengala (atual Bangladesh, Calcutá e arredores). O que era antes um dos lugares mais ricos do mundo tornou-se um abrigo da miséria humana: Não resta dúvida de que o domínio imperial tenha sido um desastre. Veja a Índia por exemplo. Quando os britânicos chegaram pela primeira vez, Bengala era um dos lugares mais ricos do mundo. Os primeiros mercadores britânicos descreveram-na como um paraíso. Essa é, atualmente, a área de Bangladesh e Calcutá, um símbolo de desespero e pobreza (Chomsky, 1999 p. 84).[1] O Mahatma Gandhi, líder indiano da revolução pela não-violência, buscou liberdade para seu povo. Mas nem tudo gerou benefícios. Um dos conflitos oriundos dessa história nasceu com a reestruturação das fronteiras internacionais e a criação de novos países a partir da Índia. Falamos, portanto, de um conflito que se estende por mais de meio século. Não fazia parte dos desejos do Mahatma a divisão da Índia depois de sua libertação do jugo britânico. Para o líder indiano, problemas de convivência entre as diferentes religiões no subcontinente asiático não deveriam ser motivo para separar seus irmãos, fossem eles hindus ou muçulmanos. Mas essa visão romântica durou pouco. Após menos de um ano da independência, em 30 de janeiro de 1948, Gandhi foi assassinado por um extremista hindu. Os problemas na região estavam apenas por começar.

Primeiro veio a independência da Índia seguida pela criação do Paquistão cujo território compreendia parte do noroeste e do nordeste do subcontinente asiático. O Paquistão oriental deu origem ao que hoje conhecemos por Bangladesh, como resultado de uma guerra sangrenta na qual hindus e muçulmanos lutaram juntos em nome de uma nova pátria para os bengaleses. Os conflitos se somaram ao longo dos anos. A paz cultivada e almejada pelo Mahatma não foi duradoura. Mesmo os hindus e muçulmanos de Bangladesh, combatentes comuns contra a tirania do Estado do Paquistão ocidental, que corresponde ao atual Paquistão, voltaram a se dividir.

Posteriormente à criação da nova pátria bengali, surgiram diversos conflitos de cunho religioso. Um dos maiores ocorreu a 6 de dezembro de 1992, quando a mesquita de Babri Masjid em Ayodhya, cidade do norte da Índia, foi destruída por fundamentalistas hindus, levando os dois grupos religiosos em Bangladesh a entrar em uma nova fase de discórdia e sublevações. Ainda hoje, a minoria hindu vê-se acuada pela hegemonia muçulmana daquele país.

Por ocasião da tragédia de Ayodhya, causando conflitos intermináveis em Bangladesh, antigos camaradas da guerra libertária se tornaram, por força do fanatismo religioso local, inimigos sanguinários. Nesse cenário a autora do livro que ora comentamos viveu as agruras de uma apátrida em sua própria casa. Taslima Nasrin descreve as jornadas de então em um diário “psicológico”, que se apropria de sentimentos e nuanças das relações interpessoais metamorfoseadas em função das mudanças sociopolíticas em Mymensingh, o seu habitat. O amálgama afetivo oriundo do sentimento de pertinência nacional entre os dois grupos religiosos foi sendo progressivamente substituído pelo ódio elaborado e recriado a partir dos novos conceitos de povos e nações construídos sobre uma base de preconceito e intolerância.

O livro em forma de diário descreve apenas 13 dias em um crescente bélico, iniciando em 7 de dezembro de 1992, dia fatídico, depois que a mesquita de 450 anos foi posta ao chão por fanáticos hindus. Os problemas da família Dutta-Sudhamay que povoa o romance autobiográfico da sra. Nasrin apenas começavam. O dr. Sukumar Dutta, patriarca e médico respeitado, vivia com a família em um Bangladesh de maioria muçulmana, mas que até então ainda tinha na memória a libertação de seu país pela força da união de todos os seus filhos. A autora descreve o dilema do povo hindu em Bangladesh por meio da saga da nomeada família Dutta, que se recusa a deixar seu país em conseqüência da intolerância religiosa de outrora amigos muçulmanos, acreditando na vitória da razão e no retorno aos tempos em que Bangladesh emergiu como uma república secular, democrática e socialista. A longa trajetória iniciada nos idos da década de 60 do século passado, quando juntos conseguiram se libertar da tirania do Estado paquistanês, parecia não terminar. Continuava para além daqueles tempos, só que dessa vez a guerra se fazia entre irmãos: os hindus por serem minoria eram preteridos em seus direitos de concidadãos. Com sua históriaromance a autora informa-nos ao mesmo tempo que nos sensibiliza para um trecho da história da humanidade geralmente negligenciado e esquecido. A linguagem é simples, mas rica em detalhes psicológicos captados a partir das experiências pessoais relatadas pela autora-narradora. Daí poder-se compartilhar sentimentos os mais diversos de quem se vê abduzido de seu meio e tem roubados seus projetos de vida por motivos irracionais. Motivos esses que culminaram com a verdadeira ameaça dos extremistas em Bangladesh, decretando o Fatwa (punição de cunho religioso) sobre a autora, tendo esta que se ausentar de fato do seu país para não sofrer retaliações. No seu livro, como na sua vida, a religião termina sendo, à sua revelia, o ponto de partida para o bem ou mal (con)viver: Suranjan got up. The sense of pain and suffering which had already found root in his heart was now growing… He left Palashi behind and headed in the direction of Tikatuli. He decided against taking a rickshaw, because he had only five takas with him. He bought a cigarette at Palashi crossing. When he asked for a Bangla Five, the shopkeeper gave him a strange look.

Suranjan’s heart sank. Did the shopkeeper guess he was a Hindu? And did he know that ever since the breaking of the Babri Masjid, every Hindu could be beaten up with impunity? He quickly paid for the cigarette and moved on. He was surprised by the way he felt, especially as he had never really felt this way before. To think he had left the shop without lighting his cigarette, just because he thought they would make out that he was a Hindu! (p. 82).

Taslima Nasrin tem origem em uma família de classe média de Bangladesh, médica e escritora de outros trabalhos de repercussão local, conseguiu por meio do seu livro Lajja – Shame informar o mundo sobre as mulheres e os seus destinos, sobre a impossibilidade do seu devir em uma sociedade na qual o fanatismo sobrepõe-se à razão. Impossibilitada de viver em seu próprio país, encontra abrigo, como outras vítimas de violências político-religiosas naquela região, na Índia. É um erro absurdo o mundo virar as costas e não tratar diferencialmente uma das maiores democracias do mundo e a única da região. A Índia pode refletir num grande círculo geográfico uma tendência oposta ao totalitarismo religioso e político característico das nações que a cercam.

Apesar do caráter ficcional de seu trabalho, a autora é fiel a aspectos históricos, tendo sido fonte de informação as publicações regionais sobre os eventos que subsidiam sua trama. Por motivos óbvios a questão da delicada relação entre os Estados do Paquistão e da Índia que se complica nos dias de hoje não é abordadada diretamente em seu trabalho, mas Taslima Nasrin aborda os seus antecedentes e pressupostos ideológicos. Pode-se, portanto, acompanhar em segundo plano a problemática atual, muito relacionada com aqueles fatos que deram origem ao seu trabalho literário. É por isso que vimos, com ajuda de sua compreensão da cultura local, que o modelo sociopolítico indiano poderia promover uma convivência melhor e mais humanizada para os diferentes povos da região em se comparando com outros modelos políticos vizinhos. Pois desde que conquistou sua independência, a Índia tem provado ser o único país da região com uma certa vocação democrática. A despeito dos problemas que enfrenta com as desigualdades sociais em quase todo o seu território, vem sendo reconhecida internacionalmente como um celeiro de talentos nos mais diversos campos da ciência e pelo respeito à sua integridade nacional. Ao contrário de muitos países do Terceiro Mundo, a Índia não se deixou encantar pelas falsas promessas da globalização. Pode-se falar, portanto, da maior democracia no globo, com seus 35 estados, mais de cinco mil cidades, 18 idiomas reconhecidos oficialmente e uma população de cerca de 1 bilhão de pessoas que se confessam majoritariamente como hindus. Margareth Tatcher, a dama de ferro do Reino Unido, conhecida por sua fria política em relação ao Terceiro Mundo, não pôde deixar de reconhecer na Índia uma veia democrática que a fazia preferi-la à poderosa Alemanha em pleitos de novos membros para o Conselho de Segurança da ONU.

A Caxemira é na atualidade diferenciada por ser a única região da Índia com maioria muçulmana. Essa característica termina por aproximá-la da região de mesmo nome em território paquistanês, tornando-se solo fértil para a propagação da Jihad (guerra santa). As autoridades indianas acusam os grupos terroristas de atrapalharem o restabelecimento da paz na Caxemira e de disseminarem a miséria entre a população da região. Trata-se, portanto, na lógica da ação indiana, de uma luta contra um terrorismo subsidiado pela ditadura militar paquistanesa. Por meio desses métodos, Islamabad pode vir a pagar um alto preço por suas incursões além-fronteiras em vez de reprimir as ações terroristas dos grupos extremistas islâmicos que agem sob diferentes denominações. Levando-se em conta os modelos políticos dos dois países, é mais presumível que haja liberdade no mosaico multicultural e religioso da democracia indiana do que em países liderados por extremistas religiosos.

Conflitos religiosos como o que moveu a autora para escrever seu livro ainda fazem parte da ordem do dia naquela região. Tais conflitos têm se intensificado após o ataque contra o Parlamento indiano em Nova Délhi, no dia 13 de dezembro de 2001, que causou a morte de 14 pessoas. Segundo os indianos, esse ataque foi perpetrado por grupos separatistas apoiados pelos paquistaneses, em uma espécie de terrorismo de estado. As dificuldades para o premier indiano Atal Bihari Vajpayee e o líder paquistanês Pervez Musharraf negociarem uma solução para o problema na sua versão atual terminaram por dominar a pauta da reunião dos países que formam a Cúpula da Ásia do Sul, realizada em Katmandu (Nepal), em 6 de janeiro de 2002, sob os auspícios da Associação da Ásia do Sul para a Cooperação Regional (Saarc). A Saarc foi criada em 1985 e é formada pela Índia, Paquistão, Sri Lanka, Nepal, Bhutan e as Maldivas. O problema da pobreza que atinge 40% de 1,5 bilhão de habitantes do sul da Ásia deveria dominar as preocupações do encontro, mas foi tirado de cena pelos conflitos indo-paquistaneses.

No quadro atual de caça às bruxas não há como Musharraf querer se deixar associar ao patrocínio de terrorismo internacional, mesmo que as ações terroristas se limitem aos seus vizinhos. Para o governo da Índia, grupos muçulmanos extremistas com base na Caxemira se fortalecem com o apoio financeiro e estratégico oriundo de solo paquistanês. Nos altos e baixos das negociações entre Paquistão e Índia, foram algumas vezes proferidas palavras bonitas expressando boas intenções dos líderes locais sem, contudo, lograr êxito na diminuição do fosso entre os inimigos declarados. As guerras que vêm ocorrendo desde a independência dos dois países, que só na última década deixou cerca de 30 mil mortos, se repetidas, podem virar tragédia, pois neste caso estamos falando de inimigos com armas atômicas. Espera-se que o aperto de mão dos dois líderes no final da reunião de Cúpula da Saarc signifique a intenção de fazer valer as palavras de Musharaf, proferidas em maio de 2001, em reação à proposta do premier indiano de negociar o fim da violência na região. Naquela altura parecia haver mais esperança de se encontrar uma saída para a crise por vias diplomáticas, como pode ser percebido na afirmação do líder paquistanês: “No início do novo século, nossos dois países devem fazer seu melhor para superar esse legado de falta de confiança e hostilidade, para que possamos construir um futuro melhor para nossos povos”.

Como relata a autora, desde que a Índia foi dividida em dois “Paquistãos” e uma “Índia”, muitos hindus tiveram que abandonar suas casas em busca de um porto seguro no qual o extremismo religioso não fosse a tônica da convivência humana. Talvez Taslima Nasrin sonhe muito ao querer secularizar nações governadas por tiranos religiosos, mas, sem dúvida, todo o seu livro está impregnado de certo otimismo em meio ao caos anunciado nos piores dias de seu personagem Suranjan: Suranjan explodiu em risos, como Goon. Ele tinha senso de humor e a capacidade de se sentir em casa onde quer que estivesse. Ele jogaria confortavelmente em um cassino em Las Vegas como, da mesma forma, ficaria nas favelas de Palashi sendo picado por mosquitos. Parecia que não ligava pra nada, nunca se irritava. Demonstrava ser feliz no seu pequeno quarto, passando seus dias com pequenos prazeres insignificantes. Suranjan se admirava como ele podia viver tão feliz? Era sua felicidade de fato uma fachada para todas as mágoas que ele tinha escondidas em seu coração? Esteve ele se obrigando a ser feliz por que não havia qualquer chance de fugir da cruel realidade da vida? [2]

Notas

1 CHOMSKY, Noam. A minoria próspera e a mutidão inquieta. Brasília: Editora da UnB, 1999, p.82.

2 Traduzido pelo autor a partir da versão inglesa de Tutul Gupta: “Suranjan burst out laughing, as did Goon. He had a good sense of humor and the ability to be at home anywhere. He would be equally comfortable gambling in a casino in Las Vegas as he would be in the slums of Palashi getting bitten by mosquitoes. He never seemed to mind anything, never showed his irritation. He was quite happy in his tiny room, spending his days enjoying small insignificant pleasures. Suranjan wondered how he could live so happily? Was his happiness in fact a facade for all the sorrows that he was hiding in his heart? Was he compelling himself to be happy because there was no getting away from the grim realities of life?” (p. 82).

Antônio Caubi Ribeiro Tupinambá – Universidade Federal do Ceará.


NASRIN, Taslima. Lajja – Shame. (Tradução do bengali para o inglês: Tutul Gupta.) Nova Délhi, Índia: Penguin Books, 1994. Resenha de: TUPINAMBÁ, Antônio Caubi Ribeiro. Revista Trajetos, Fortaleza, v.2, n.3, 2002. Acessar publicação original. [IF].

O Trabalhador Gráfico (Edição fac-similar) / Adelaide Gonçalves e Allyson Bruno

A História sempre teve incontáveis narradores, em quaisquer épocas e lugares. Sabese, porém, que nem todas as narrativas se prestam à construção da História dita “oficial”. Por isto, em seu laborioso trabalho de fabricar mitos e heróis, os escribas da Corte se esmeram em filtrar informações, descartando aquelas que antagonizam a autoridade de plantão e alijando para os bastidores personagens que eventualmente desagradam, incomodam ou – suprema ousadia – afrontam as forças dominantes.

Preciosas versões dos acontecimentos acabam, dessa forma, desaparecendo nos desvãos do tempo. O que é lamentável, pois muitas vezes a face oculta dos conflitos, dos pactos e celebrações, dos pequenos e grandes inventos e descobertas, guarda informações imprescindíveis: a crônica do soldado revela-se mais rica e colorida que a do general; a do peão, mais contundente e esclarecedora que a do patrão.

Felizmente, vem-se disseminando a consciência de que há essa outra História para ser contada e, sobretudo no ambiente acadêmico, os pesquisadores têm-se dedicando ao resgate de uma memória que, por conta do descaso – quando não, da destruição consciente – ameaçava perder-se para sempre. Na Universidade Federal do Ceará, a Profª Adelaide Gonçalves, do Curso de História, lidera um trabalho de extraordinário alcance, voltado em especial para o restauro da crônica operária. Fragmentos representados por jornais, panfletos, manifestos, programas partidários, hinos, fotografias, revistas e outras peças ligadas ao mundo do trabalho têm sido pacientemente recolhidos, resultando em contribuição inestimável para o patrimônio imaterial de nossa gente.

Em “A imprensa libertária do Ceará – 1908-1922”, lançado pelas Edições UFC e Sindicato dos Jornalistas, em 2001, Adelaide reproduz alguns jornais que difundiram as teses libertárias no início do Século XX. Ao analisar esse período, ela se reporta à violência policial exercida contra aquelas folhas. Revela, como exemplo do arbítrio, a invasão da tipografia de O Operário, de Camocim, em 1928, e a prisão de seu editor, Francisco Theodoro Rodrigues.

Trabalho do mesmo alcance e significado é “Ceará Socialista – Anno 1919”, também apresentado ao público no ano passado, sob a mesma chancela editorial. Aqui é mostrada, em fac-símiles, a coleção completa daquele semanário, reunida ao longo de laboriosa busca em arquivos públicos e particulares.Agora, em parceria com Allyson Bruno, e sempre com o selo das Edições UFC e apoio do Sindicato dos Jornalistas, a Profª Adelaide entrega ao público “O Trabalhador Gráfico”, onde reproduz a coleção inteira desse jornal, preservada pelo Sindicato dos Trabalhadores nas Indústrias Gráficas no Estado do Ceará.

Realça, em todo o trabalho desenvolvido a partir do Curso de História da UFC, a preocupação em socializar resultados. A publicação dos dados coletados, em edição facsimilar, amplia o sentido da pesquisa, na medida em que facilita o acesso a um material que jazia nas gavetas do esquecimento e, assim, pedagogicamente, contribui para disseminar a consciência da preservação da memória. Enriquece ainda mais a iniciativa o estudo preliminar inserido nessas publicações, onde os pesquisadores analisam o material coletado, lançam um olhar crítico sobre seu conteúdo, interpretam tendências e sublinham pormenores que não poderiam passar despercebidos.

Em sua maioria de pequeno formato e duração efêmera, parcos de recursos técnicos e beirando a indigência em termos financeiros, os jornais operários que circularam no Ceará no Século XIX e início do Século XX enquadram-se na tradição dessa imprensa, que se voltava para a defesa do emergente movimento dos trabalhadores e que, heroicamente, procurava evidenciar as contradições do sistema vigente. Como acontecia no resto do País, os periódicos da província empenhavam-se na denúncia das condições gerais de trabalho, sem dispensar as intervenções de caráter doutrinário. Antes de mais nada, procuravam mobilizar o trabalhador para a luta, destacando-se pelo vigor dos seus editoriais, inspirados tanto nas questões locais quanto nos princípios do internacionalismo proletário.

O papel desses periódicos na sociedade seria reconhecido pelos profissionais presentes ao 1º Congresso Brasileiro de Jornalismo, realizado no Rio, em setembro de 1918. Entre as recomendações emitidas, ao final do evento, contemplavam-se temas ainda atuais nos dias de hoje, como a imprescindibilidade da ética jornalística, a necessidade da escola de jornalismo e o cuidado que deveriam ter os editores diante da publicidade nociva e do noticiário policial.

Com relação à imprensa operária, o documento recomendava às classes trabalhadoras fundar e manter órgãos de comunicação ligados às suas corporações, “pelos quais sejam afirmados os seus intuitos e os seus propósitos, com a elevação da linguagem indispensável à defesa de todas as causas justas”.

Protótipo desse gênero de periodismo, o Trabalhador Gráfico é entendido, pelos pesquisadores da UFC, como “uma das expressões da luta e do ascenso do movimento dos trabalhadores no Ceará, nos anos de 1920”. Órgão do Sindicato dos Trabalhadores Gráficos, recém-fundado, reunia não apenas dirigentes da categoria, mas também militantes de outros ofícios, alguns deles ligados ao Bloco Operário e Camponês (BOC). Seus artigos e editoriais, seções e colunas são um rico manancial de informações sobre os personagens e temas que aqueciam o movimento operário cearense naquela época. Circulou entre abril e outubro de 1930 e, no primeiro número, ao apresentar suas credenciais, descarta a idéia de ser “uma tribuna em que se discutem assuntos políticos ou religiosos, científicos ou literários”. Queria, talvez, exorcizar-se com relação à pasmaceira e mediocridade imperantes nos pasquins da intelectualidade burguesa. Preferia ser uma “bigorna onde muitos malhos rebatam, produzindo um só ruído – o de despertar a classe de operários gráficos do Ceará dessa modorra letárgica em que se acha”.

O projeto do jornal era, pois, tornar-se uma ferramenta da conscientização e mobilização de toda uma categoria profissional, que parecia, na época, indiferente ao próprio destino. A poderosa simbologia da bigorna e do malho sugere o propósito de ter a organização sindical um instrumento forte para fazer ressoar uma nova mensagem, aguilhoar os sonolentos gráficos, que, segundo o editorialista, se mostravam apáticos diante dos ideais que então agitavam outros segmentos dos trabalhadores. “É este o único motivo que nos trouxe à arena”, arremata o texto de primeira página.

Bigorna, malho, arena… Fica patenteada a disposição para a luta. E as armas são vigorosos instrumentos de trabalho que, metaforicamente, deveriam traduzir o poder da palavra escrita. Assim era o Trabalhador Gráfico. Assim se comportava a imprensa operária naqueles tempos de medo e arbítrio, quando, malgrado o tacão dos poderosos, começavam a disseminar-se idéias renovadoras, no mesmo ritmo em que se forjava a consciência de classe e se aglutinavam, em sindicatos, as hostes dos oprimidos. Ao reconstituir a memória da imprensa operária, os pesquisadores do Curso de História fazem pulsar de novo as manchetes e textos flamejantes que incitavam o trabalhador a defender os seus direitos. Para os que não se contentam em conhecer apenas a transcrição oficial da história – ou seja, a narrativa produzida sob encomenda, inspiração e com total aprovo das elites – a leitura de “O Trabalhador Gráfico” é um convite à reflexão sobre o nosso passado recente e, quem sabe, um guia para os embates futuros.

Italo Gurgel – Universidade Federal do Ceará


GONÇALVES, Adelaide; BRUNO, Allyson (Orgs.) O Trabalhador Gráfico (Edição fac-similar) Fortaleza: Edições UFC, 2002. Resenha de: GURGEL, Italo. Revista Trajetos, Fortaleza, v.2, n.3, 2002. Acessar publicação original. [IF].

Erário Mineral – FERREIRA (VH)

FERREIRA, Luís Gomes. Erário Mineral.  Organização de Júnia Ferreira Furtado. Belo Horizonte: Fundação João Pinheiro/Centro de Estudos Históricos e Culturais. Rio de Janeiro: Fundação Oswaldo Cruz, 2002, 2 Vol. ilustr. (Coleção Mineiriana, Série Clássica). Resenha de: MIRANDA, Tiago C. P. dos Reis. Óleo de ouro: as Minas e seus tesouros médicos e minerais. Varia História, Belo Horizonte, v.18, n.26, p. 156-163, jan., 2002.

Em 1735, Luís Gomes Ferreira, natural de São Pedro de Rates, na Província do Minho, fez estampar em Lisboa um grosso volume com o relato de mais de vinte anos de experiência a combater as doenças dos novos sertões da América Portuguesa. Denominou-o Erario Mineral dividido em doze Tratados, dedicado e offerecido á Purissima, e Serenissima Virgem Nossa Senhora da Conceyçaõ: título digno, alto e elegante embora engenhoso, logo à partida, e equivocamente alusivo às virtudes do ouro. Dele houve notícia Diogo Barbosa Machado, que o registou de forma sucinta no tomo terceiro da Bibliotheca, enobrecendo as circunstâncias do seu autor (“cirurgiaõ approvado”), em “professor de Chirurgia”.

Outros letrados da altura parecem haver acolhido com mostras de estima o lançamento desse trabalho de vulto. A começar pelos censores, que lhe gabaram a utilidade, e pelos poetas que compuseram versos encomiásticos, também publicados antes do texto de Gomes Ferreira. Estudos recentes de história do livro indicam que ele figurou com alguma freqüência em coleções coloniais, sobretudo na zona das Minas (José Maurício de Carvalho, “O que se lia no Brasil Colonial”, Cultura, Vol. XIV, 2002, p. 44). Chegou-se a notar, inclusive, ser o Erario o único título constante em várias listagens de impressos setecentistas da região de Sabará (cf. texto introdutório de Júnia Ferreira Furtado, p. 26). Estranhamente, porém, ao fim de umas décadas, tornar-se-ia muito difícil conseguir encontrá-lo.

Inocêncio Francisco da Silva, no início dos anos de 1860, dizia ter visto somente um exemplar, em poder de João José Barbosa Marreca, conservador da Biblioteca Nacional de Lisboa. Nada, de resto, aduzia de novo sobre o formato da obra, nem a respeito da origem de quem a escrevera. Num curto verbete do Diccionario, o que se acha é um juízo bastante severo sobre o valor das doutrinas de Gomes Ferreira, que sofreriam de uma aflitiva falta de “precisão, methodo, ordem, e conhecimento dos termos facultativos”, como se via de suas receitas para tratar a gafeira das bestas (sarna ou morrinha) ou os “sonhos medonhos e tristes”. A esse respeito, merecedora de referência seria também uma breve passagem em que o autor aludia à maneira como utilizava “os seus segredos nos enfermos encarregados a seus collegas, mas occultamente, porque elles lhos costumavão impugnar, de certo com boa razão”. Aos olhos severos de Inocêncio, os preciosos saberes de Gomes Ferreira, por não guardarem qualquer paralelo com “formulas e dimensões pharmaceuticas”, só soavam apenas “disparatados”.

O vagaroso processo subseqüente de reabilitação processou-se sobretudo no campo da história da medicina, e no Brasil. Ainda em meados da década de 1880, pôde o Erario assegurar a sua presença numa importante iniciativa universitária para valorizar o patrimônio bibliográfico nacional (v. Carlos António de Paula Costa, Catálogo da exposição medica brasileira…, Rio de Janeiro, Typografia Nacional, 1884). Anos depois, seria citado num estudo de Álvaro A. de Sousa Reis (“História da literatura médica brasileira”, Revista do Instituto Histórico e Geografico Brasileiro, Vol. 9, 1922, pp. 501-549), basicamente com o mesmo propósito de enumeração que ainda se havia de observar num pequeno apanhado sobre práticas médicas coloniais que em 1960 Lycurgo Santos Filho redigiu para o volume segundo da História Geral da Civilização Brasileira (p. 157), dirigida por Sérgio Buarque de Holanda. Este foi, aliás, um dos raros autores que, até ao final da década de 1950, parece ter lido Gomes Ferreira em busca de dados originais: com a espantosa familiaridade de quem freqüentava os títulos mais obscuros, no seu ensaio “Metais e pedras preciosas” Sérgio Buarque de Holanda recorreu ao Erario para aduzir um efêmero exemplo individual em favor da idéia da probabilidade de um ingresso significativo de estrangeiros na região das Gerais, no início do século XVIII (Ibidem, p. 289).

Muito menos contido se veio a mostrar, logo em seguida, o erudito e historiador anglo-saxônico Charles Ralph Boxer. Vários parágrafos de um dos capítulos centrais de A Idade do Ouro do Brasil (1962) assentam sobre passagens de Gomes Ferreira. Dele são, entre outros, alguns testemunhos das condições inumanas a que se viam submetidos os negros faiscadores, das diferentes categorias em que na altura os próprios colonos os classificavam, e das doenças ou ferimentos que afligiam tanto os escravos, como os senhores da zona das Minas. Na pena de Boxer, as qualidades profissionais de Gomes Ferreira merecem leitura compreensiva: pelo cuidado em prescrever o banho diário e pelo empenho com que evitava o recurso à sangria e ao purgante, “nosso cirurgião estava muitos anos à frente de sua época” e sua obra constituiria “fascinante prólogo para um moderno Manual de Medicina Tropical”.

Tamanho encanto foi o de Boxer, que, após alguns anos, foi ele outra vez quem teve o cuidado de assinalar a obtenção para o acervo da Lilly Library de um espantoso novo espécime bibliográfico: Erario mineral, utilissimo, não só para os professores de cirurgia que residem na America Portugueza, a cujo beneficio particularmente se escreveo, mas universalmente para todos, os que professão a mesma faculdade… Agora novamente impresso, e augmentado com hum copioso numero de exquisitas, e admiraveis receitas… Lisboa, 1755. Dois volumes in-quarto (“A Rare Luso-Brazilian Medical Treatise and its Author: Luís Gomes Ferreira and his Erario Mineral of 1735 and 1755”, Indiana University Bookmark, Vol. 10 [Nov., 1969], pp. 48-70, in Opera Minora, Edição de Diogo Ramada Curto, Vol. II [Orientalismo], Lisboa, Fundação Oriente, 2002, pp. 221-234). Até ao momento, essa segunda edição nunca fora devidamente descrita. Voltando portanto a insistir no interesse da obra, Charles Boxer soube agarrar a ocasião para alargar os seus comentários na Idade do Ouro, debater um recente trabalho de Ivolino de Vasconcelos sobre o trajeto de vida de Gomes Ferreira (“Notícia histórica sobre Luís Gomes Ferreira e sua obra, o Erario Mineral”, Anais do Congresso Comemorativo do Bicentenário da transferência da sêde do governo do Brasil da cidade do Salvador para o Rio de Janeiro, 1763-1963, Vol. III, Rio de Janeiro, Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, 1967, pp. 375412) e sugerir a existência de algumas passagens revistas e ampliadas no Tratado Terceiro do exemplar recém-descoberto. A apurada comparação das duas versões demoraria mais de três anos a efetuar-se, por causa da dificuldade de acesso ao texto de ‘35. Quando por sorte, em Indiana, se adquiriu um exemplar da primeira impressão, Charles Boxer pôde afinal confirmar a validade de suas hipóteses (“A Footnote to Luís Gomes Ferreira, Erario Mineral, 1735 and 1755”, Indiana Universty Bookmark, Vol. 11 [Nov., 1973], pp. 89-92 in Opera Minora [Supra cit.], pp. 235-237).

Atualmente, parece não haver notícia de outro qualquer conjunto completo de 1755. Ao que se sabe, apenas existe o registro de uma cópia do segundo volume na Biblioteca da Faculdade de Medicina de Lisboa (Catálogo das obras da Colecção Portugueza anteriores à fundação das Régias Escolas de Cirurgia em 1825, Lisboa, 1942, p. 138). Rubens Borba de Moraes limita-se a informar que se trata de edição ainda mais rara que a primeira (Bibliographia Brasiliana, Rio de Janeiro, Livraria Kôsmos Editora, [1983], Vol. I, p. 307).

Quanto ao tomo de ’35, Charles Ralph Boxer referiu a existência de oito exemplares; quatro, no Brasil. Infelizmente, pouco mais disse a esse respeito, além de que um deles estava na posse de familiares de Gomes Ferreira, no Rio de Janeiro. Sabe-se agora que, ainda no Rio, se acha também um exemplar na Fundação da Biblioteca Nacional, e um segundo, na FIOCRUZ. Em Belo Horizonte, o Centro de Memória da Medicina da UFMG possui uma cópia em que falta uma folha. Por fim, em Sabará, encontra-se outra a necessitar de restauro na coleção da Biblioteca Borba Gato.

As indicações bibliográficas das “Bases de dados sobre história da ciência, da medicina e da técnica em Portugal e Brasil, do Renascimento até 1900” (Lusodat), do Grupo de História e Teoria da Ciência da Universidade de Campinas (http://www.ifi.unicamp.br/~ghtc/lusodat.htm), permitem a localização de um bom exemplar na Biblioteca da Faculdade de Medicina da Universidade do Porto. Os Reservados da Biblioteca Nacional de Lisboa têm uma cópia em estado satisfatório, originária da livraria de D. Francisco de Melo Manuel da Câmara (Cabrinha); possivelmente, a que leu Inocêncio. É, no entanto, na Biblioteca de Mafra que parecem estar dois dos mais soberbos espécimes da rara edição de 1735: encadernados em inteiras de pele e com lombadas marcadas a ferros de ouro, praticamente não apresentam indícios de uso. Foram descritos em 1963 no catálogo datilografado de Guilherme José Ferreira de Assunção, “O Brasil nas obras da Biblioteca do Palácio Nacional de Mafra”, que nos últimos anos de vai ampliando (muito agradeço as informações facultadas a este respeito pela bibliotecária, Dr.ª Teresa Amaral).

Cabe agora ao Centro de Estudos Históricos e Culturais da Fundação João Pinheiro a importante iniciativa de facilitar o acesso ao texto do Erario, lançando-o na Série de Clássicos da sua já longa “Mineiriana”. Trata-se de edição acadêmica em dois volumes fartamente ilustrados. Logo a abrir, vê-se a imagem do frontispício do exemplar da Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro, singularizado por marcas de traça marginais. Não aparece aí o carimbo de posse “Da Real Bibliotheca”, porque o puseram na folha de rosto da dedicatória “Á Puríssima Virgem Maria Nossa Senhora da Conceyção”. Quem o quiser conferir, encontrará igualmente na folha de guarda um pequeno lembrete em caligrafia cursiva setecentista: “Este Livro entregou/ o Pe Fr Antº de S Martinho/ da Provª da Solede pª q lho goar/dassem”.

Do dossiê iconográfico, também fazem parte algumas dezenas de reproduções de ex-votos do século XVIII, cenas de práticas médicas, interiores de hospitais, instrumentos de cirurgiões, utensílios de farmácia e plantas curativas. O quotidiano das Minas do Ouro surge em imagens de catas e negros. Algumas delas, oitocentistas. De interesse especial é um retrato de um homem maduro, de condição mediana, que, segundo se crê, representa Gomes Ferreira.

Esta nova publicação atualiza a ortografia do texto de ’35, mesmo nos versos encomiásticos introdutórios. Preserva, porém, as regências verbais, as contrações de preposição e artigo, e a maior parte das letras maiúsculas. Realça, além disso, em tipos de itálico, os nomes das obras e dos autores citados e as palavras e construções em latim. Graficamente, conservam-se ainda os pequenos resumos de colocação lateral e a disposição do índice de “coisas notáveis”, no fim do volume. Capitulares da “Officina do Impressor do Senhor Patriarca”, Miguel Rodrigues, rematam, por vezes, o termo das páginas.

Mais de uma dúzia de profissionais colaboraram neste projeto. Só para os glossários, contam-se sete. Escrevem ensaios temáticos cinco outros estudiosos: Eliane Scotti Muzzi, Ronaldo Simões Coelho, Maria Cristina Cortez Wissenbach, Maria Odila Leite da Silva Dias e a organizadora, Júnia Ferreira Furtado. É esta que abre o primeiro volume, com um trabalho em que procura reconstituir o percurso do autor, valorizando uma série de dados que ele próprio fornece, pelo cotejo com informações de caráter geral. Merece destaque a bem-sucedida reconstrução dos laços sangue e afinidade dos Gomes Ferreiras em diferentes paragens da arquidiocese de Mariana. Mesmo o leitor menos atento à história das Minas há de encontrar interesse nos vários indícios de proximidade do cirurgião e seu sobrinho José ao negociante João Fernandes de Oliveira, titular do primeiro contrato de diamantes na região do Tejuco e pai do senhor de Chica da Silva (pp. 20-23).

Maria Odila Leite da Silva Dias parte também do pormenor biográfico, para propor uma nova visita a todo o “Sertão do Rio das Velhas e das Gerais”, como “frente de povoamento”. As desventuras de Gomes Ferreira e os relatos de suas curas permitem rever a constituição dos grupos humanos que se encontraram no território, e observar as modalidades de interação que entre eles se foram tecendo, muitas vezes à margem da lei. Em Sabará, por exemplo, a autoridade dos governadores apenas chegou anos depois do surgimento de várias fazendas e arraiais. Ainda assim, por muito tempo, a maioria das “vilas” da zona das Minas conservaria feições bastante precárias, com suas casas de pau e taquara cobertas de barro, que a força da chuva trazia para as ruas, em forma de lama. A capacidade de reunir testemunhos escritos que hoje permitem rememorar vizinhanças inteiras de núcleos urbanos tão frágeis (pp. 91-95) não deixa de ser espantosa.

Os quinze poemas que antecedem o “Índex dos Tratados e Capítulos” existentes no Erario têm direito a um ensaio em separado. Ciente da relativa estranheza que o leitor atual deve sentir diante dos “protocolos que codificavam os gêneros do discurso nos século XVII e XVIII”, Eliane Scotti Muzzi dedica-se a apresentar em linhas gerais a estrutura do sistema de ensino neoescolástico e a esclarecer a importância que, na altura, se atribuía ao retórico. Especificamente sobre a origem das obras poéticas da edição de ‘35, que se supõem compostas por indivíduos “participantes da realidade das Minas”, parece assumir-se uma certa dificuldade em descobrir elementos de comparação inteiramente operativos no patrimônio setecentista da literatura colonial (p. 34). A referência (quase canônica) à atividade das academias provinciais, como a do Aureo Throno Episcopal (1748), sugere a hipótese de que um tão grande conjunto de versos talvez também se pudesse haver concebido, “precocemente”, para ofertar ao autor do Erario, em ato público. Nele teriam, portanto, participado Tomás Barroso Tinoco, Tomás Pinto Brandão, João Bernardes e dois ou três outros “poetas de circunstância” (ibidem), amigos de Gomes Ferreira – que, por suposta modéstia, se não assinaram.

Dessa seqüência de nomes, ressalta o de Pinto Brandão. Embora ainda não se conheçam em pormenor as circunstâncias da sua vida, sabe-se há muito que escreveu em Lisboa poemas satíricos e joco-sérios durante a maior parte do longo reinado de D. João V (Diogo Barbosa Macado, Opus cit., Vol. III, pp. 747-748). Tem-se tido por certo que visitou o Brasil por mais de uma vez, chegando a travar amizade com Gregório de Matos. No Rio de Janeiro, parece haver conseguido ajustar matrimônio com uma certa Josefa de Melo, antes de retornar ao mundo da corte, no início da Guerra da Sucessão Espanhola (v. Tomás Pinto Brandão, Antologia. Este é o Bom Governo de Portugal, Prefácio, leitura de texto e notas de João Palma-Ferreira, [Mem Martins], Publicações Europa América, 1976, pp. 5-7, Alberto Dines, Vínculos do Fogo, 2ª edição, [São Paulo], Companhia das Letras, [1992], pp. 508-509, Jair Rattner, Verdades pobres de Tomás Pinto Brandão. Edição crítica e estudo, Lisboa, Dissertação apresentada à Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa, 1993, pp. 21-29, e Adriano Espínola, As Artes de Enganar. Um estudo das máscaras poéticas e biográficas de Gregório de Matos, [Rio de Janeiro], Topbooks, [2000], pp. 203 e ss.). Ao publicar a mais volumosa das suas obras (Pinto renascido empenado, e desempenado. Primeiro Voo, Lisboa, Officina da Musica, 1732), morava na rua do Picadeiro, ao Bairro Alto (cf. Júlio de Castilho, Lisboa Antiga. O Bairro Alto, 3ª ed., Vol. II, Lisboa, Oficinas Gráficas da Câmara Municipal de Lisboa, p. 209). Não é improvável que conhecesse e cultivasse o convívio com indivíduos que, tal como ele, tinham passado uma parte importante das suas vidas em territórios coloniais; mais de uma vez, já se mostrou uma efetiva tendência para a conservação desse tipo de laços (v., por exemplo, Jaime Cortesão, Alexandre de Gusmão e o Tratado de Madrid, T. I, Vol. I, Rio de Janeiro, Ministério das Relações Exteriores, [1952], pp. 107-119, e Alberto Dines, Opus cit., passim), praticamente inevitável em alguns grupos, como o dos grandes comerciantes (v. Jorge Pedreira, “Brasil, fronteira de Portugal. Negócio, emigração e mobilidade social”, in Mafalda Soares da Cunha [coord.], Do Brasil à Metrópole. Efeitos Sociais, séculos XVII-XVIII, [Évora], Universidade de Évora, 2001, pp. 63-69). De qualquer modo, nada comprova que Tomás Pinto tenha, de fato, “participado da realidade das Minas” em condições equiparáveis às do autor do Erario.

Os dois derradeiros ensaios da série de cinco tratam do tema da inserção social dos cirurgiões da colônia e do saber e experiência acumulados por Gomes Ferreira. Maria Cristina Cortez Wissenbach reúne com desenvoltura as trajetórias de mais de uma dezena de profissionais, mostrando a disparidade de suas origens e estatutos. Ao discorrer sobre o Erario, mostra também a existência de um intrincado convívio entre a “ciência” colhida nos livros e as tradições forjadas na prática: na expressão de Pedro Nava, “amálgama inseparável na obra dos mestres portugueses” até ao final do XVIII (p. 132). Se algo se encontra, a este propósito, que singularize Gomes Ferreira é o cuidado com que descreve as condições específicas do interior do Brasil e as receitas aí adoptadas, com largo recurso às riquezas nativas. Botânicas e minerais.

Mesmo no centro do livro, há um tratado “da rara virtude” de um dos mais nobres medicamentos que na altura se utilizava: o “óleo de ouro”. Diz o autor que “assim como o ouro é o soberano de todos os metais, assim também o seu óleo é o mais soberano remédio que até o dia de hoje se tem descoberto […]” (p. 489). Formulação grandiloquente, mas acadêmica e assisada; pois, nesses tempos, não falta quem creia que o ouro “[…] conforta o coração, & as faculdades vitaes […]”, podendo inclusive ser consumido como “ouro potável”, na esperança de reduzir os achaques e prolongar os anos de vida (Raphael de Bluteau, Vocabulario Portuguez e Latino, Vol. VI, pp.148-152 e 651-652). Gomes Ferreira resiste a deixar que o brilho das Minas o leve tão longe: sempre que trata do uso do ouro, mantém-se restrito à consagrada receita do “óleo”. A abundância com que depara permite, porém, empregá-lo nas mais variadas patologias, que ele enumera pelo relato de casos concretos, com um orgulho de pioneiro: gangrenas, furúnculos, carbúnculos, fleumões, antrazes, panarícios, apóstemas, cirros, cancros, feridas de peito e carnes supérfluas. Todo o senhor que possa pagá-lo, deve deter uma pequena porção de óleo de ouro em sua casa. Não só para si, ou para a sua família, mas, igualmente, em benefício dos pobres (p. 513). Como resume Ronaldo Coelho, o alegado sucesso de Gomes Ferreira se assenta de fato num amplo conjunto de qualidades (pp. 151-154 e 167-168).

Fica o desejo de que esta última iniciativa do Centro de Estudos Históricos e Culturais da Fundação João Pinheiro possa ser divulgada como merece e, se possível, que incentive outros trabalhos de reedição de textos setecentistas pouco comuns.

Tiago C. P. dos Reis Miranda– Centro de História da Cultura/ Universidade Nova de Lisboa.

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Entre mitos, utopia e razão: os olhares franceses sobre o Brasil (século XVI-XVIII) – PALAZZO (VH)

PALAZZO, Carmen Lícia. Entre mitos, utopia e razão: os olhares franceses sobre o Brasil (século XVI-XVIII). Coleção Nova Vetera. Porto Alegre: EDIPUCRS, 2002. Resenha de: PIERONI, Geraldo. Varia História, Belo Horizonte, v.18, n.26, p. 153-155, jan., 2002.

André Thevet, Jean de Léry, Claude d’Abbeville, Yves d’Evreux… Voilà les français! Estes são apenas alguns dos Messieurs que atravessaram o mar oceano e, deslumbrados, desembarcaram na costa brasileira. O que procuravam nesta imensa Terra Brasilis estes nossos cultos viajantes? Talvez poderíamos arriscar uma resposta comum a todos eles: conhecer o Novo Mundo: exótico, diferente, antítese da Europa civilizada.

Relatar o que eles observaram não é o objetivo primeiro de Carmen Lícia Palazzo ao escrever Entre mitos, utopia e razão: os olhares franceses sobre o Brasil (séculos XVI a XVIII). Sua intenção vai muito além do evidente. A autora, historiadora experiente, doutora em História pela Universidade de Brasília, com muita competência e domínio da historiografia, apresenta ao leitor um excelente trabalho. Sua investigação é criteriosa acerca dos múltiplos e matizados olhares que os viajantes franceses lançaram sobre o Brasil, desconhecido em muitos aspectos, porém fascinantemente atraente.

Os documentos utilizados foram, sobretudo, os registros de viagens e obras eruditas de pensadores que debruçaram, embora muitas vezes sem o contato direto, sobre estas novas terras d’além mar.

Com relação à idéia sobre o Brasil, há interrupção ou prosseguimento nos olhares dos franceses? Problematizou a autora! Sua conclusão foi que estes viajantes e pensadores dos séculos XVI ao XVIII deixaram registrados inúmeros comentários e obras onde se pode perceber pontos de vista que foram se transformando. Este movimento de mudanças, no entanto, não se dá no ritmo dos cortes cronológicos tradicionais. Uma leitura cuidadosa dos escritos e, a título complementar, da iconografia de cada época, permitiu à historiadora detectar continuidades relevantes inseridas no universo mental dos viajantes – continuidades estas que se mantêm até quase o final do século XVII. Somente a partir do século XVIII, particularmente com o iluminista La Condamine, é que se pode verificar uma efetiva mudança nas visões francesas do Brasil.

Recorrendo aos recursos da história comparativa, a historiadora aborda e confronta dois momentos específicos: o das permanências (séculos XVI-XVIII) e o da ruptura capturada pelas visões da modernidade (século XVIII).

A exemplo de Jacques Le Goff, defensor, entre outros, de uma “longa Idade Média” que se prolonga até quase às portas da Revolução Industrial, a autora utiliza semelhantes conceitos fixando-os no contexto das grandes viagens e mentalidades culturais dos séculos XVI e XVII. A própria iconografia corroborou a idéia das permanências. Gravuras e telas da época evidenciaram elementos que remetiam ao imaginário medieval. As narrativas e ilustrações dos viajantes assimilaram abundantemente figuras extraordinárias, demônios e monstros. Seus discursos são destoantes das características culturais e políticas da Idade Moderna. Neles prevalecem os componentes ainda amarrados ao imaginário Medievo. O espaço dedicado aos mitos e utopias é enorme: o fantástico predomina. Só a partir do século XVIII, com a razão iluminista, é que se evidenciam as rupturas da assim chamada modernidade. Daí para frente ciência e razão são os principais instrumentos para a leitura do Outro – distante e diferente – para buscar entendê-lo e, sobretudo, explicá-lo. E como conclui a autora: “Com o abandono de mitos e maravilhas, é o espaço do sonho que se retrai”.

O trabalho de base contido no livro permite melhor compreender os mecanismos das transformações que se tornam visíveis somente se inseridas no tempo longo. Foi exatamente este recurso teórico que Carmen Lícia utilizou para confeccionar a textura do seu livro. No prudente labor de perceber as mutações na longa duração, como já referido acima, foram estudadas iconografias da época e escritos de pensadores, como o abade Raynal, Voltaire e Buffon. Neste conjunto de representações é possível desvelar perfis de comportamentos e imagens que, prolongando ou alterando-se gradativamente no tempo, resultam novas e movediças nuanças das representações do Brasil.

Entre mitos, utopia e razão: os olhares franceses sobre o Brasil (século XVI a XVIII) é uma obra profundamente instrutiva e sua cronologia é primorosa. Rupturas ou continuidades? Permanências medievais ou triunfo das Luzes? Neste caso a razão iluminista não foi mais aberta à alteridade do que o foram os viajantes anteriores que aceitaram o mítico e o maravilhoso como explicações para a diferença.

Geraldo Pieroni – Doutor em História pela Université Paris-Sorbonne (Paris IV). Professor na Universidade Tuiuti do Paraná (UTP). Autor, entre outros, dos livros: Os Excluídos do Reino, editora UnB, Brasília: 2000 e Vadios, Ciganos, Heréticos e Bruxas: os degredados no Brasil colônia. Editora Bertrand do Brasil, Rio de Janeiro: 2000.

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A herança imaterial. Trajetória de um exorcista no Piemonte do século XVII | Giovanni Levi

A Herança Imaterial, do historiador italiano Giovanni Levi, chegou ao Brasil quinze anos após sua publicação pela editora Einaudi, em 1985, conservando o seu título original, (L’eridità immateriale. Carriera di un esorcista nel Piemonte del seicento. Torino: Einaudi, 1985) uma vez que na França tinha sido publicada como Le pouvoir au village. A tradução, sim, manteve o prefácio de Jacques Revel entitulado “A história ao rés-do-chão”, publicada pela primeira vez na edição francesa (Paris: Gallimard, 1989). Esse prefácio oferece numerosas pistas que facilitam a leitura deste livro que já foi consagrado como um clássico da micro-história por parte da crítica especializada. Ora, nesta breve resenha pretendo entrar na análise, não tanto do conteúdo, mas sobretudo do método desta produção historiográfica, em especial naquilo que caracteriza a micro-história italiana, ou seja, a redução da escala de análise no seu método de pesquisa e, em seguida, o jogo entre a dimensão detalhada do enfoque e a escala ampliada do contexto social que lhe atribui sentido e que é enriquecido com as novidades provenientes da microanálise. Leia Mais