Literatura infantil brasileira: uma nova / outra história – LAJOLO; ZILBEREMAN (EA)

LAJOLO, Marisa; ZILBERMAN, Regina. Literatura infantil brasileira: uma nova / outra história. Curitiba: PUCPress; FTD, 2017. 152 p. Resenha de: SILVA, Raquel Souza da; CAMPOS, Cleide de Araúo. Revisitando a história da literatura infantil e juvenil brasileira. Em Aberto, Brasília, v. 32, n. 105, p.199-203, maio/ago. 2019.

A leitura do livro Literatura infantil brasileira: uma nova / outra história, de Marisa Lajolo e Regina Zilberman, traz à tona outros olhares para o universo da literatura infantil e juvenil brasileira, centralizando uma produção diferenciada nos últimos trinta anos. A obra possui caráter de continuidade da história literária já registrada, entretanto, com uma perspectiva que ultrapassa a menção cronológica de obras e de autores, objetivando ampliar os conhecimentos sobre esse gênero literário em contexto nacional de modo mais analítico. Estruturalmente, o livro está dividido em quatro grandes eixos. O primeiro deles diz respeito à natureza da literatura infantil e juvenil além-livro impresso: há o detalhamento das discussões sobre o futuro do texto literário em papel, o que é o livro, o que constitui a arte literária, as novas perspectivas e os nomes representativos da produção para crianças e jovens na era digital e sobre as relações entre o tradicional e a novidade, entre o impresso e o digital. O segundo eixo trata da força que as instituições têm sobre a literatura infantil: são discutidas as influências do mercado editorial sobre esse gênero literário, bem como a adequação e a capacitação das figuras que compõem uma obra – como o escritor, o ilustrador, o designer gráfico etc.; faz-se ainda debate sobre a intervenção da escola e do Estado no processo de formação leitora de crianças e jovens. No terceiro eixo, há um grande arcabouço de exemplos e breves análises de autores e obras que caminham sob um novo viés estético da criação literária, em que novas temáticas são pensadas, como a figura  não estereotipada do indígena, havendo também o destaque para a linguagem não verbal nas obras destinadas a crianças e jovens. Por fim, o último eixo está relacionado à questão da possibilidade de haver livro e leitura além-universo escolar, com discussões e menção a autores que estão à margem das paredes escolares, mas que se revelam muito próximos do gosto do público mirim.

De maneira geral, as autoras trazem reflexões e questionamentos especialmente para pensar o futuro do livro, o mercado editorial, o avanço das técnicas oferecidas pelo mundo digital, a função da escola e o papel do Estado nesse processo. Elas apontam possíveis explicações para a disseminação de obras cada vez mais interativas e de materialidades diversas nas produções para o público infantil e juvenil, como a corrida da indústria do livro, em que a lógica neoliberal predomina.

Para as pesquisadoras, é “nesse cenário globalizado e economicamente vicejante que escritores e ilustradores têm produzido muitos e belos livros” (Lajolo; Zilberman, 2017, p. 77). Seja ela impressa ou em ambiente virtual, os profissionais que produzem a obra literária procuram atender os diferentes gostos do público leitor ao qual ela se destina e têm forte reconhecimento quando recebem prêmios, distribuídos nacional e internacionalmente. Além disso, a proximidade com o público tem se solidificado cada vez mais, se pensarmos que os autores frequentam as mesmas feiras literárias que os consumidores, visitam escolas, promovem encontros de diversas naturezas, a fim de estreitar essa relação. Tais movimentos permitem conhecer e entender as crianças e os jovens mais de perto, fato que há poucas décadas não era visto como tão importante.

Diante das dinâmicas e das múltiplas alternativas para ler livros de literatura infantil e juvenil, as autoras convidam o leitor a adotar “uma nova e uma outra” posturas em relação à leitura literária nos dias atuais, que são definidas conforme a necessidade do público e das rápidas mudanças que um mundo globalizado impõe a ele. Assim, o suporte e o destino do livro ultrapassam a tradição, saltando do patamar do impresso e da linguagem uniformizada para as hipermídias e para as múltiplas formas de expressão, bem como rompendo cada vez mais com paradigmas que estigmatizam as histórias ficcionais ao longo da tradição literária.

Nesse contexto, é compreensível que constituir um arcabouço da novíssima história da literatura endereçada ao público infantil e juvenil siga uma linha cronológica e restrita a nomes específicos. O movimento que o grupo produtor e receptor dessa literatura realiza é tão acelerado, que torna efêmera qualquer proposição de listagem de autores e de obras, por isso destacamos a escolha e a justificativa das autoras logo na introdução do livro aqui discutido. As estudiosas seguem, portanto, analisando alguns títulos de nomes representativos para falar do tema proposto, mostrando que conhecer autores e suas obras é importante, mas que entender o contexto de produção e de recepção deles também é essencial. Tudo isso pode minimizar o risco de se continuar a pensar em gêneros literários apresentados de uma única maneira, como se o leitor também fosse uniforme, quando na verdade sabemos que sua diversidade é imensa e considerar sua subjetividade é indispensável.

Levando em consideração alguns dos desafios impostos pela contemporaneidade, a literatura infantil e juvenil vem se reinventando na busca por mercados e leitores nascidos em plena era digital. Nesse sentido, procurando estabelecer algumas considerações acerca dos últimos trinta anos de produção para o público mirim, são apresentados alguns autores que ocupam o cenário das plataformas virtuais. Há, ainda, menção a autores que abordam a temática indígena sob um olhar diferenciado do que comumente se propagou até agora. Também recebem destaque reflexões sobre a linguagem visual, com sua importância cada vez mais reconhecida.

Em relação às obras multimidiáticas, as pesquisadoras atentam para a possibilidade de autores menos visados circularem por gêneros que ainda encontram resistência para serem publicados, como o texto poético. Sobre “um novo indianismo”, mencionado na obra, é possível realçar que todos os autores apresentados por Marisa Lajolo e Regina Zilberman prezam pelo reconhecimento próprio da cultura narrada, afirmando as identidades locais e rompendo com os estereótipos fortemente marcados sobre a figura do indígena ao longo da tradição literária como um todo, não só da infantil e juvenil. No que diz respeito ao texto não verbal, o diferencial são as inovações proporcionadas pelo universo virtual, em que, transgredindo “as técnicas sugeridas pelos meios de comunicação do mundo do impresso, a tecnologia digital suscitou novas possibilidades de expressão que repercutem positivamente na produção de livros para crianças” (Lajolo; Zilberman, 2017, p. 101-102). Assim, reconhecemos a importância de diálogo entre os suportes, lembrando que diversificálos pode possibilitar o interesse e a ampliação de repertório leitor para crianças e jovens.

Como mencionado anteriormente, as autoras também se preocupam em discorrer sobre em que medida a escola atual (não) realiza a mediação das novidades da produção literária destinadas a crianças e a adolescentes. Além do mais, a intervenção estatal, que gerencia o movimento escolar, também é apresentada como forte influenciadora sobre como se entende a produção literária infantil e juvenil.

Elas problematizam essa força institucional, por vezes negativa, pontuando que, no Brasil do século 21, “livros para crianças e jovens continuam, salvo em fugidios momentos de intervenção e vanguarda, gerenciados pelo discurso didático e ideológico de órgãos centrais da Educação e da Cultura” (Lajolo; Zilberman, 2017, p. 68).

Percebendo o cenário exposto, ainda que ações exitosas aconteçam, a figura do Estado sobre a escola caminha contramão quando, por exemplo, ele ainda mantém a prática de destinar para as instituições de ensino obras encomendadas ao seu gosto pragmático e distante das possibilidades de constituição de sujeitos que repensem seu papel social. Muitas editoras, nesse caso, não ficam para trás, priorizando sua lógica mercadológica e atendendo à demanda estatal, sem necessariamente prezar as obras que centralizem a natureza estética como indispensável na formação de leitores. Sabemos que isso não acontece por acaso, pois os encaminhamentos dessas instituições são pensados com vistas à tentativa de formar um público que não questione a sua hegemonia.

Feito esse contexto, voltamos à proposição inicial das autoras e destacamos que, de acordo com o prefácio escrito por Roger Chartier, desde o século 18, a definição do objeto livro é associada à ideia de “originalidade da escritura” e de “propriedade literária de seu autor”. Diante dos excertos, constatamos que o objeto livro ainda mantém a sua especificidade inicial, mas que vem se reformulando a cada época. É por isso que uma das propostas discutidas na obra é a relação entre o impresso e o digital, pois, no mercado editorial do livro, é evidente o cenário de mudanças de suportes que a literatura infantil e juvenil vem passando. Tais desdobramentos não poderiam ser muito diferentes, afinal, as crianças e os jovens estão cada vez mais imersos na era tecnológica desde muito cedo, e negar o contexto sociocultural do público ao qual uma obra se destina é também negar a matéria viva que constitui a literatura: o tempo, o espaço e as vivências de seus autores e de seus receptores. Logo, quando a proposta maior é formar leitores, o menos ideal a se fazer é restringir ao público a diversidade de linguagens em que, cada vez mais acelerada, caminha a produção literária infantil e juvenil.

O suporte, a materialidade do livro, vem resistindo e se ressignificando perante as diversas possibilidades de funcionalidades e de expansão tecnológica. Marisa Lajolo e Regina Zilberman pontuam em suas análises que escritores e editoras acompanham uma diminuição da cultura impressa e investem na modernização de suas produções literárias para crianças e jovens. Estes são os pontos cruciais para as autoras quando elas conceituam o que é o livro, suas implicações e suas pluralidades. Ao longo de toda a obra aqui discutida, reforça-se a constituição da literatura infantil e juvenil brasileira nas três últimas décadas, pontuando as evoluções mais significativas ocorridas no decorrer dos últimos tempos.

As estudiosas salientam que as obras infantis são produzidas em múltipla autoria (escritores, ilustradores, designers gráficos, editores e outros). Elas chamam atenção para o Ciberespaço, definido como um ambiente virtual que pode servir de suporte para a criação e a circulação das obras literárias. Esse espaço torna as fontes de informação cada vez mais acessíveis e mais rápidas, facilitando o digital, mas sem negar o suporte impresso, podendo, inclusive, dialogar com ele.

Em virtude do acesso às tecnologias digitais de informação e das múltiplas plataformas, os textos que circulam na sociedade são cada vez mais multimodais, favorecendo as variadas formas de leituras entre crianças e jovens. Assim, o modo de ler um livro digital é diferente, tanto pelo fato do público ser diversificado quanto pelas inúmeras formas de comunicação, que inevitavelmente a era tecnológica proporcionou.

Por fim, realçamos o diferencial que Marisa Lajolo e Regina Zilberman deram ao tratar da história da literatura infantil nas últimas décadas. Desta vez, elas nos convidam a atentar para o fenômeno das rápidas mudanças em relação às obras destinadas para crianças e jovens, justificando que essa aceleração decorre principalmente por conta do avanço das tecnologias, da corrida do mercado editorial e da própria sociedade, que anseia por novidade e está cada vez mais dinâmica no processo leitor. Nesse sentido, cabe reforçar que mais vale um diálogo entre o impresso e o digital do que uma disputa entre os dois, pois, como mostrado pelas autoras, essa pode ser uma maneira exitosa para formar leitores de literatura infantil e juvenil.

Raquel Souza da Silva – Mestranda em Educação na Universidade Estadual Paulista (Unesp), Faculdade de Ciências e Tecnologia, Presidente Prudente. E-mail: raquelsousadasilva02@gmail.com.

Cleide de Araújo Campos – Doutoranda em Educação na Universidade Estadual Paulista (Unesp), Faculdade de Ciências e Tecnologia, Presidente Prudente. E-mail: emaildacleide6@gmail.com Recebido em 21 de junho de 2019

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Nietzsche et le relativisme – STELLINO; TINLAND (V-RIF)

STELLINO, Paolo; TINLAND, Olivier (Org.) Nietzsche et le relativisme. Bruxelles: Éditions OUSIA, 2019. Resenha de: NASSER, Eduardo. Voluntas – Revista Internacional de Filosofia, Santa Maria, v.10, n 2, maio/ago., p, 158-161, 2019.

Relativismo não constitui realmente uma corrente ou escola filosófica. E não obstante prestigiados pensadores, como Galileu ou Comte, falarem em princípio da relatividade ou relativo, com um sólido lastro teórico, o termo é muito frequentemente utilizado no ambiente intelectual contemporâneo com a intenção de desmoralizar ou expor falhas latentes de sistemas e doutrinas. Contudo, a fim de enfrentar desafios de nosso tempo, como inclusão social e cultural, é também preciso destacar a emergência de um interesse renovado pelo relativismo, agora movido pela convicção de que o conceito dispõe de uma gama de frutíferos e pouco conhecidos significados que passam ao largo da percepção vulgar, como vem revelando, especialmente, Maria Baghramian.

É no interior desse cenário filosoficamente mais estimulante que Nietzsche et le relativisme é concebido. Organizado por Paolo Stellino e Olivier Tinland, e dividido em três partes, o livro consiste na reunião de artigos apresentados por reputados estudiosos no colóquio internacional com título homônimo, realizado em 2016 na Université Paul Valéry – Montpellier III. De forma geral, o propósito é confrontar a atribuição largamente difundida, de viés injurioso, de relativismo ao pensamento nietzschiano, sem, contudo, deixar de examinar possíveis contribuições de Nietzsche para uma melhor compreensão dos debates mais atilados sobre o tema (e vice-versa).

Redigido por Olivier Tinland, o texto introdutório confere estruturação ao livro. Seguindo a linha dos estudos mais recentes sobre relativismo, Tinland polemiza com as visões trivializadas de modo a evidenciar a complexa teia de conceitos que enseja a adequada interrogação de teses relativistas. “Simplificando ao extremo, pode-se distinguir três maneiras de caracterizá-las, segundo o objeto de relativização, o contexto de relativização, e o modo de relativização” (p. 17). E esses domínios estão sujeitos a divisões e subdivisões: os objetos relativizáveis estão separados em campos de saber (cognitivo, moral, jurídico, político, estético, religioso, etc.) que, por sua vez, possuem ramificações internas (relativismo cognitivo, por exemplo, pode se fragmentar em relativismo epistêmico, alético, racional e conceitual); os contextos de relativização dividem-se em subjetivo e cultural e/ou histórico; os modos de relativismo, atinentes aos tipos de enunciação, distinguem-se pelo enfoque moderado e forte, e pelas enunciações relativistas mesmas, que podem ser restrita (ou de primeira ordem) e total (ou de segunda ordem).

De posse desses instrumentos conceituais, os textos tangenciam pelo menos três objetos de relativização (cognitivo, moral e estético), oferecendo apreciações nem sempre congruentes sobre o contexto e o modo de relativização constatáveis em Nietzsche.

No decurso do livro, é manifesta certa prevalência de discussões de cunho epistemológico. Englobam a primeira e segunda parte, e são abalizadas por duas linhas de leitura: (i) Nietzsche enquanto um relativista antirrealista, filiado a Kant e ao neokantismo, que radicaliza a modernidade, pavimentando o caminho para o pensamento pós-moderno; (ii) Nietzsche como um relativista realista que promove uma reforma da ontologia substancialista.

A primeira propensão interpretativa pode ser observada nos trabalhos de Helmut Heit, João Constâncio, Luca Lupo e Pietro Gori. No artigo que inicia o livro, “Nietzsche et « le relativisme épistémique »”, Heit almeja mostrar de que modo é possível enxergar em Nietzsche um relativismo epistêmico oriundo de sua frequentação de autores ligados à tradição kantiana. Não obstante a irrelevância do termo relativismo para o filósofo – cuja única ocorrência está localizada na terceira Consideração extemporânea –, e apesar de seu desinteresse por debates mais técnicos sobre epistemologia, é razoável afirmar que “Nietzsche propõe uma versão específica do relativismo, entendido como virtude epistêmica” (p. 41). Após travar contato com Schopenhauer e, sobretudo, Lange, ele desenvolve uma teoria do conhecimento construtivista, movido pelo objetivo mais audacioso de delinear condições para a elevação da cultura. Em “« La vérité relative ». Remarques sur la négation langéenne et postkantienne de la vérité absolue chez Nietzsche”, Constâncio propõe demonstrar que “desde o início, e em numerosas passagens decisivas de seus escritos, Nietzsche subscreve uma concepção de « verdade » que Friedrich Albert Lange retirou de sua leitura da Crítica da razão pura de Kant, a saber, a concepção de « verdade relativa »” (p. 69). Guiando-se por cinco teses basilares daquilo que denomina de póskantismo de Nietzsche (1- caráter transcendental das categorias; 2- mundo estruturado por conceitos e juízos; 3- incognoscibilidade da coisa-em-si; 4- rejeição da verdade no sentido metafísico; 5- impossibilidade da metafísica após Kant), conta apontar de que forma a filosofia nietzschiana está alinhada ao neokantismo naturalista e psicologista de Lange, culminando na concepção de verdade relativa, restringida à experiência, e emancipada de qualquer finalidade prescritiva. Para Lupo, em “Pour une généalogie du relativisme nietzschéen: Schopenhauer”, é “no quadro de uma triangulação com Kant e Schopenhauer que se pode identificar uma possível inclinação do pensamento nietzschiano em direção a posições relativistas” (p. 126). Nietzsche utiliza o termo Relativismus na terceira Consideração extemporânea tendo em conta os impasses éticos e existenciais decorrentes da interdição kantiana e schopenhaueriana do acesso epistêmico à verdade absoluta. Por fim, Gori, em “Le pragmatisme et la pensée perspectiviste: des programmes comportementaux pour faire face au relativisme”, entende que Nietzsche, assim como William James, redefine o significado da verdade – que passa, então, a possuir valor operatório, condizente com um tipo de relativismo –, à medida que se ampara nos resultados da epistemologia moderna. Antirrealista, Nietzsche deve ser acolhido como um representante do fenomenalismo que, por seu turno, “se apresenta como um desenvolvimento do kantismo no sentido antimetafísico” (p. 158).

Num outro extremo, deparamo-nos com as abordagens de Yannick Souladié e Dorian Astor. Em “Un scepticisme de la force contre le relativisme”, Souladié traz à baila um Nietzsche envolvido com uma forma branda de relativismo (conhecimento condicionado pela educação, alimentação, saúde, etc.) que não se dedica a anular o valor do conhecimento ou “a possibilidade de um conhecimento autêntico, de uma « verdade »” (p. 95). O perspectivismo nietzschiano não incorre na defesa da igualização alética das perspectivas – que, a propósito, deve ser tratada como um sinal de declínio –, pois vislumbra a vontade de potência enquanto referente último. Com efeito, o nível do conhecimento exprime uma forma mais superficial de relativismo que é antecedido por uma ontologia relacional: “a vontade de potência apreendida em seu interior, fora de toda perspectiva relativa (exterior), é relação” (p. 97). Essa subsunção da epistemologia à ontologia é também aventada por Astor em “Relativisme ou relationnisme? Le concept de réalité chez Nietzsche et Whitehead”. Ao propor uma comparação oportuna entre as concepções de realidade em Nietzsche e Whitehead, Astor pretende exibir de que maneira esses filósofos, em oposição à atitude preponderante na ciência e na metafísica, estão empenhados na defesa de uma realidade relativa; consiste numa “ontologia da relação fundada sobre o caráter processual do Ser, quer dizer, do Devir” (p. 172).

A tendência predominante nas discussões epistêmicas se estende para os artigos que se ocupam do relativismo ético e estético em Nietzsche; reproduz-se a disputa entre realismo e antirrealismo no campo dos valores. Contudo, o problema adquire uma feição manifestamente distinta do quadro apresentado acima. Trata-se, fundamentalmente, de aclarar se Nietzsche suprime total ou parcialmente o relativismo quando se serve de expedientes realistas para efetuar uma crítica dos valores.

Essa segunda espécie de problematização é preparada pelo texto de Scarlett Marton, “De Foucault à Nietzsche: pluralité d’interprétations et importance des critères”. A proposta de Marton é defender a tese de que Foucault imprime uma deformação no pensamento nietzschiano quando nele reconhece o marco de uma nova hermenêutica. Para Foucault, Nietzsche não estaria preocupado em inquirir o significado, mantendo-se na superfície das interpretações. Visto por este prisma, somos levados à enganosa suposição de que Nietzsche promove uma equivalência de interpretações, ou um relativismo, quando, a bem da verdade, a sua meta é acomodar criticamente as interpretações em disposições hierárquicas; mediante a eleição de um critério – a vida ou a constante luta de forças –, pretende-se entabular um processo judicativo com a finalidade de apartar boas e más interpretações. O critério de avaliação deveria ser fixo, apesar de exprimir o vir-a-ser, e transcendente ao nível interpretativo (e, se assim é, imune aos relativismos identificados nos debates epistêmicos?). Em razão de não ter considerado esse intento mais genuíno que Foucault enseja a introdução de “um certo relativismo na filosofia nietzschiana” (p. 225). O desacordo entre o caráter inclusivo do relativismo e o intuito hierarquizante de Nietzsche é também tratado por Isabelle Wienand e Janske Hermens em “Nietzsche et le relativisme: la conception nietzschéenne de la santé”. Inserindo-se no sinuoso terreno da filosofia da medicina, o artigo coloca a hipótese de que “a concepção nietzschiana de saúde ilustra de maneira eloquente a posição nuançada ante a questão do relativismo” (p. 244). Malgrado ser um relativista ontológico, visto que se recusa a oferecer uma definição de saúde, Nietzsche não pode ser designado um relativista axiológico. Quando alude à grande saúde, ele admite que se trata de um estado subordinado ao vir-a-ser, sem, no entanto, deixar de se servir do conceito com pretensões avaliativas e normativas. Ainda que os autores não considerem ser um resultado inconsequente, assinalam que “Nietzsche defende duas posições diferentes ou mesmo contrárias” (p. 245). Na mesma esteira, Paolo Stellino, em “Projectivisme et relativisme moral chez Nietzsche”, considera que Nietzsche apoia um tipo de relativismo moderado na esfera dos valores; a filosofia nietzschiana pode ser aproximada de um projetivismo moral sem redundar num relativismo total. Beneficiando-se de recursos da ética contemporânea, Stellino salienta que apesar de ser um relativista moral descritivo, Nietzsche seguramente não pode ser chamado de um relativista moral meta-ético – pois exige um critério de avaliação dos valores extrínseco às perspectivas – ou um relativista moral normativo – pois estimula que o indivíduo crie a sua própria tábua de valores. Destarte, não se pode acolher “o perspectivismo moral nietzschiano no sentido de um relativismo radical” (p. 275). Contestando igualmente a atribuição precipitada de relativismo a Nietzsche, mas no âmbito da estética, temos o artigo de Maria João Mayer Branco, que encerra o livro, “La tâche du joueur. Jeu et crise des valeurs chez Nietzsche”. Branco revela que o concepção nietzschiana de jogo, subtraída de valor e de incumbências prescritivas, “suspende os efeitos da relativização geral dos critérios de validade que regulam, não somente a criação artística, mas a totalidade da vida humana até a modernidade” (p. 278). Atento aos perigos produzidos pela autonomização da arte na modernidade, Nietzsche fala em jogo, uma concepção autorreferida que viabiliza, tanto para a arte, como também para a filosofia, a criação do novo.

Como foi possível constatar, a virtude de Nietzsche et le relativisme é fornecer um mapeamento escrupuloso dos desafios que cercam a compreensão da natureza e do alcance do relativismo nietzschiano e, no limite, indagar se de fato é legítimo classificar Nietzsche como um filósofo relativista.

Eduardo Nasser – Doutor em Filosofia pela Universidade de São Paulo e pela Ernst-Moritz-Arndt-Universität Greifswald. Professor na Universidade Federal do ABC. E-mail: eduardo.nasser@philosophie.uni-freiburg.de

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[DR]

Expressões do Nazismo no Brasil: partido, ideias, práticas e reflexos – CARVALHO; LUCAS (RTA)

CARVALHO, Bruno Leal Pastor de; LUCAS, Taís Campelo (orgs.). Expressões do Nazismo no Brasil: partido, ideias, práticas e reflexos. Salvador: Saga, 2018, 220 p. Resenha de: OLIVEIRA NETO, Wilson de. A suástica sobre o Brasil. Revista Tempo e Argumento, Florianópolis, v.11, n.27, p.517-522. maio/ago., 2019.

“O debate acerca do estatuto da Segunda Guerra Mundial no campo historiográfico tem se mostrado incessante e com bastante abertura tanto no âmbito teórico quanto metodológico”, afirmou Karl Schurster (2015, p. 257), em uma resenha a respeito de um livro sobre a propaganda antissemita nazista durante a Segunda Guerra Mundial (1939 – 1945).

Quatro anos após sua publicação, a citação continua válida, pois, o Nazismo e a Segunda Guerra Mundial continuam a ser temas estudados por pesquisadores brasileiros e estrangeiros, dentro e fora da universidade, por meio de diferentes fontes e métodos, com resultados variados, a exemplo dos trabalhos recentes produzidos por Denise Rollemberg (2017) e Richard J. Evans (2018).

O livro Expressões do Nazismo no Brasil reforça essa tendência de renovação dos estudos históricos sobre o Nazismo, pois reúne trabalhos inéditos acerca da experiência nacional-socialista no país, a partir de recortes temáticos inéditos, a exemplo das interferências da ideologia nazista na escolha e no envio de professores universitários alemães ao Brasil, ou, de fontes primárias e secundárias consultadas em arquivos e bibliotecas alemãs, tais como os documentos relativos à Organização para o Exterior do partido nazista.

A obra é formada por nove capítulos, assinados por Luis Edmundo de Souza Moraes, Taís Campelo Lucas, Rafael Athaides, Vinícius Liebel, Priscila Perazzo, Mariana Lins Prado, Sergio Luiz Marlow, Igor Gak, Bruno Leal Pastor de Carvalho e René Gertz. Os capítulos foram divididos em três partes que conferem coerência e coesão aos textos, respectivamente: “O Partido”; “Ideias e Práticas”; “Reflexos”. Há também uma apresentação redigida pelos organizadores e um prefácio de João Fábio Bertonha, segundo o qual a experiência histórica nazista continua a ser um tema atraente para a indústria cultural, além dos seus usos políticos ao longo do tempo. Ainda no prefácio, foi destacada a relevância dos trabalhos nacionais e a necessidade de sua internacionalização.

As origens dos estudos sobre o Nazismo no Brasil estão situadas nas décadas de 1970 e 1980. Com a liberação de arquivos nacionais e alemães, a partir do fim de década de 1990, a exemplo do material do extinto Departamento de Ordem Política e Social do Estado de São Paulo, o tema ganhou novo impulso, o que permitiu a revisão e ampliação da bibliografia produzida, além da formulação de novos problemas de pesquisa, como por exemplo, a complexa relação entre o governo alemão e os núcleos do NSDAP no Brasil.

No capítulo de abertura, Luis Edmundo de Souza Moraes explica que as atividades do Partido Nacional-Socialista dos Trabalhadores Alemães1 no exterior foram orientadas pela Auslandorganisation – AO, a organização do NSDAP para os cidadãos alemães residentes no estrangeiro. As origens da AO estão situadas em 1931, quando o líder nazista Gregor Strasser criou o Departamento para o Exterior do NSDAP, sob a direção do então deputado Hans Nieland. Em fevereiro de 1934, após avanços e retrocessos, a organização foi consolidada através do status de Gau, além de receber a denominação pela qual ficou historicamente conhecida, informa Moraes.

Em seguida, Taís Campelo Lucas narra a trajetória do Landesgruppe Brasilien, a maior seção partidária do NSDAP no exterior, com 2.903 membros registrados, além de ser o Landesgruppe mais antigo, que funcionou entre os anos de 1928 e 1937. O Landesgruppe foi dividido em grupos locais (Ortsgruppen) espalhados pelos estados da federação. Porém, a filiação ao NSDAP era somente para os cidadãos alemães residentes no exterior, fato este que deixou de fora os descendentes de alemães nascidos no Brasil. Segundo Lucas, a adesão formal ao NSDAP foi ínfima, 1 em cada 26, um percentual de 3,87%, entre 75 mil pessoas.

Ainda no capítulo de Lucas, o primeiro grupo local do NSDAP no Brasil foi fundado em 1928, no município de Timbó, em Santa Catarina. Os primeiros militantes nazistas no país eram agressivos e despertaram grande antipatia. Embora o NSDAP, dentro e fora da Alemanha, adotasse o “princípio de liderança”, nem sempre as diretrizes e as orientações de Berlim, através da AO, foram seguidas pelos seus militantes residentes no Brasil. Durante seus nove anos de existência, o Landesgruppen Brasilien promoveu diversas atividades de propaganda do Nazismo e do regime nacional-socialista, especialmente entre as comunidades de origem alemã localizadas nas regiões Sudeste e Sul do país. Além disso, seus militantes mantiveram relações ambíguas e complexas com a Ação Integralista Brasileira – AIB, o poder público e a Igreja Luterana.

No Brasil, a propaganda nazista foi veiculada através de diferentes tipos de publicações impressas, a exemplo do guia oficial da Semana Alemã de 1937, na cidade de Curitiba, cujos textos foram organizados pelo grupo local do NSDAP. Em seu capítulo, Vinícius Liebel examinou essa publicação, na qual constatou a veiculação de propaganda nazista através de escritos sobre “raça”, “sangue” e outros conceitos relevantes para ideologia nacional-socialista.

Outro alvo da propaganda nazista nas regiões de colonização alemã foram as “escolas alemãs”. Segundo o estudo feito por Priscila Perazzo e Mariana Lins Padro, durante a década de 1930, as escolas alemãs localizadas na microrregião do ABC Paulista foram abastecidas de brochuras, livros, partituras e panfletos nazificados, destinados a alunos, pais e professores.

Ao estudar as relações entre os militantes nazistas e a AIB no Paraná, Rafael Athaides explica que, até o fim da década de 1930, em um contexto de aproximação diplomática e econômica entre Brasil e Alemanha, o NSDAP não foi incomodado pelo poder público. Inclusive, o então interventor federal no estado, Manoel Ribas (1873 – 1946), prestigiou celebrações nazistas, assim como outro interventor, Flores da Cunha (1880 – 1959), no Rio Grande do Sul. No tocante às relações com a AIB, Athaides (2018, p. 83) constatou a existência de “certas zonas de interface entre a NSDAP e a AIB”. Porém, nada igual ao que foi denunciado pelos órgãos de segurança do regime estadonovista (1937-1945) como uma conspiração nazi-integralista, cujas denúncias foram recorrentes na imprensa brasileira da época.

Contudo, a situação do NSDAP, dos cidadãos alemães e das comunidades teuto-brasileiras mudou radicalmente após a instalação do Estado Novo, em novembro de 1937. Governando como um autocrata, Getúlio Vargas outorgou uma Constituição nova e aboliu os partidos políticos no país, entre os quais o NSDAP. O desencadeamento da Campanha de Nacionalização, em 1938, o início da Segunda Guerra Mundial, em 1939, e a deterioração das relações diplomáticas entre Brasil e Alemanha transformaram alemães e teuto-brasileiros em nazistas, sendo considerados ameaças à segurança do país, especialmente, com base na retórica do “perigo alemão”. Nesse contexto, instituições de origem alemã, a exemplo da Igreja Luterana, foram perseguidas pelas autoridades públicas civis e militares, conforme mostra o capítulo escrito por Sergio Luiz Marlow.

A obra é encerrada com dois capítulos que abordam alguns dos reflexos da experiência nazista no Brasil, a partir do pós-guerra. O primeiro, escrito por Bruno Leal Pastor de Carvalho, examina a repercussão na imprensa brasileira dos casos de criminosos de guerra do Eixo descobertos no Brasil, a exemplo de Herberts Cukurs (1900-1965). Já o segundo, de autoria de René Gertz, discute as formas com as quais comunidades de origem alemã no Rio Grande do Sul procuraram superar a associação ao Nazismo e as perseguições sofridas durante a Campanha de Nacionalização e a Segunda Guerra Mundial. Segundo Gertz, a partir do pós-guerra, foi iniciada uma operação de produção de memórias que valorizaram as contribuições dos imigrantes alemães para o país e de tentativas de apurar e punir os abusos cometidos pelas autoridades públicas rio-grandenses durante o período.

Os efeitos do Nazismo e da Segunda Guerra Mundial afetaram de forma incisiva as comunidades teuto-brasileiras do Rio Grande do Sul. Nessas comunidades, a cicatrização das feridas abertas durante as décadas de 1930 e 1940 ocorreu ao longo da segunda metade do século passado, tendo na memória e na história dois dos seus meios.

Ao encerrar uma conferência denominada “O Fascismo eterno”, realizada nos Estados Unidos, em 1995, Umberto Eco (2018, p. 56-57) afirmou que, em nosso futuro, “desenha-se um populismo qualitativo de TV ou internet, no qual a resposta emocional de um grupo selecionado de cidadãos pode ser apresentada e aceita como a ‘voz do povo’”, como nas experiências históricas da Itália (Fascismo) e da Alemanha (Nazismo). No Brasil contemporâneo, os “salvadores da pátria”, o apelo à emoção e a hostilidade contra os intelectuais estão na ordem do dia, características estas que lembram os fascismos históricos.

Esta resenha não tem o objetivo de avaliar o risco do país em sofrer uma “fascistização”, embora o problema já faça parte do repertório de discussões acadêmicas em cursos universitários e periódicos, conforme sugere o artigo assinado por Eduardo Rebuá (2019). O livro Expressões do Nazismo no Brasil examina a experiência histórica do Nazismo em terras brasileiras durante a década de 1930 com inegável relevância historiográfica. Ademais, seus capítulos também contribuem para o entendimento do nosso tempo presente e os riscos que ele envolve. Afinal, como certa vez escreveu o historiador Caio Boschi (2004), estudamos a história para conhecer e transformar a vida, motivados pelas indagações e perplexidades do presente.

Referências

BOSCHI, Caio. História: por que e para quê? Nossa história, Rio de Janeiro, v. 1, n. 11, p. 98, set. 2004.

ECO, Umberto. O Fascismo eterno. Rio de Janeiro: Record, 2018.

EVANS, Richard J. Terceiro Reich na história e na memória: novas perspectivas sobre o nazismo, seu poder político, sua intrincada economia e seus efeitos na Alemanha do pós-guerra. São Paulo: Crítica, 2018.

REBUÁ, Eduardo. Fascistização no Brasil do tempo-de-agora. Le Monde Diplomatique Brasil, São Paulo, v. 12, n. 138, p. 22-23, jan. 2019.

ROLLEMBERG, Denise. Revoluções de direita na Europa do Entre-guerras: o Fascismo e o Nazismo. Estudos históricos, Rio de Janeiro, v. 30, n. 61, p. 355 – 378, maio/ago. 2017.

SCHURSTER, Karl. A construção do inimigo judeu: uma análise da obra de Jeffrey Herf. Revista Tempo e Argumento, Florianópolis, v. 7, n.15, p. 256 – 261, maio/ago. 2015.

1 Doravante, identificado através da sigla NSDAP, do alemão Nationalsozialistische Deutsche Arbeiterpartei.

Wilson de Oliveira Neto Doutorando em Comunicação e Cultura na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Professor da Universidade da Região de Joinville (Univille). Joinville, SC – BRASIL. E-maio: wilson.o@univille.br.

História, memória e violência de Estado: tempo e justiça | Berber Bevernage

“Por que é tão difícil entender o passado assombroso e irrevogável na perspectiva da historiografia acadêmica e do pensamento histórico moderno ocidental em geral?” A pergunta que guia História, Memória e Violência de Estado: tempo e justiça, de Berber Bevernage (2018), pressupõe a angústia da incompletude e do inacabamento (MBEMBE, 2014), da indeterminação e instabilidade do objeto “tempo presente” (DELACROIX, 2018). O autor nos oferece um mergulho na história da crítica à noção de tempo construída pela modernidade para mostrar toda a sua potência e enraizamento enquanto engenhosa forma de “não ver” certos mundos, grandemente incorporada pela disciplina histórica. Por entre as brechas desse olhar pretensamente universal, América Latina e África emergem como que alçadas à categoria de experiências (i)morais – porque marcadas pela violência e injustiça –, da luta política que marca o século XXI periférico: o direito ao tempo.

Entre as referências mais conhecidas pelo universo acadêmico brasileiro dedicado à História do Tempo Presente e que constituem a base da argumentação de Tempo e Justiça estão o crítico literário alemão Hans Gumbrecht e o historiador francês François Hartog. Por caminhos diferentes, ambos chamam atenção para o crescimento ao longo do século XX de uma nova sensibilidade temporal marcada por uma assimétrica concentração na esfera de um presente repleto de simultaneidades (GUMBRECHT, 2014), demarcando a emergência de um novo “regime de historicidade” chamado presentista (HARTOG, 2013). No interior dessa discussão, o livro apresenta os anos de 1980 como período de evidência dos embates entre formas distintas de experienciar o tempo (com suas diferentes articulações entre passado, presente e futuro), expressas pelo desaparecimento da linguagem do esquecimento e da anistia do vocabulário político global. Leia Mais

A violência de gênero nos espaços do Direito: Narrativas sobre ensino e aplicação do direito em uma sociedade machista – SCHINKE (RTA)

SCHINKE, Vanessa Dorneles (Org.). A violência de gênero nos espaços do Direito: Narrativas sobre ensino e aplicação do direito em uma sociedade machista. Rio de Janeiro: Lumen Juris, 2017. 388 p. Resenha de: REIS, Jade. Relações de Gênero nos espaços do Direito: experiências compartilhadas. Revista Tempo e Argumento, Florianópolis, v.11, n.27, p.523-529, maio/ago., 2019.

Diversos relatos de mulheres advogadas sobre o seu ofício diário mostram que durante sua trajetória jurídica lhes são apresentados empecilhos e violências simbólicas que envolvem as relações de gênero. Não coincidentemente, a coletânea de artigos organizada pela professora e doutora em Direito Vanessa Dorneles Schinke, objeto desta resenha, aborda experiências de mulheres da área do Direito, em carreiras absolutamente marcadas pelos estereótipos historicamente construídos nas relações de gênero.

O livro, lançado no ano de 2017, é dividido em três partes, sendo a primeira delas o “Prelúdio”, na qual estudantes de Direito narram suas trajetórias e experiências da vida universitária, bem como expressam as relações complexas de poder que permeiam estes espaços. O exercício de questionar e historicizar a situação das mulheres está presente nesta parte, assim como em todo o livro, bem como o de refletir sobre o papel de educadoras e operadoras do Direito em uma sociedade machista. Para as autoras, partindo da perspectiva de que, por muito tempo, este campo científico foi essencialmente masculino em termos de representatividade, e tendo em vista a luta das mulheres pela democratização do ensino superior e do mercado de trabalho, sua presença nestes espaços e no espaço público de maneira geral, estudando, profissionalizando-se, adentrando carreiras e cargos públicos, se apresenta como um avanço no que se refere ao árduo processo de ocupação dos espaços considerados pela norma patriarcal como “masculinos”.

A segunda parte, intitulada “Andante”, conta com doze artigos escritos por professoras, estudantes de graduação, pós-graduação e operadoras do Direito. Esta tem como foco temático questões que, como afirmam, não encontram espaço na circulação acadêmica do campo do Direito, mas fazem parte das experiências e cotidianos destas mulheres no âmbito universitário, como, por exemplo, nas salas de aula e instâncias politicamente deliberativas do meio universitário. As autoras buscam, por meio da narrativa de suas experiências, problematizar a naturalização de práticas violentas e machistas no ensino do Direito.

Segundo estas autoras, a condição de gênero expressa nas relações sociais no campo do ensino do Direito é definida historicamente a partir da socialização e das definições impostas pela sociedade patriarcal, gerando assim o problema da ausência de reconhecimento e a descrença no seu potencial de desenvolvimento na área jurídica. Roberta Baggio, professora do curso de Direito da UFRGS relatou em seu artigo que, na banca de um concurso público que prestou, ouviu de um membro a seguinte frase “como pode você ser mulher e ter um currículo com tantas experiências acadêmicas ao mesmo tempo?” (BAGGIO, 2017, p. 66), demonstrando assim o grau de incapacitação destinado às mulheres em suas avaliações de emprego, o que é por vezes um fator determinante em suas trajetórias profissionais. A autora afirma que na medida em que o ensino do Direito contribui para tais práticas, formam-se juristas que naturalizam as violências de gênero, culpabilizam e responsabilizam as mulheres pela cultura machista em casos de opressão.

As violências físicas e simbólicas existentes nos “trotes” nos cursos de Direito são, também, tema de abordagem nesta parte do livro. Violências estas que, muitas vezes advindas dos professores, envolvem provocações e incitações machistas, homofóbicas, transfóbicas e racistas, nas quais os corpos femininos são objetificados. Estudantes e professoras se organizam em ações contra os episódios de extremo machismo e preconceitos na universidade através de cartas de repúdio, escrachos, atos e movimentações, criação de coletivos e meios de solidariedade e articulações via internet e redes sociais. No entanto, denunciam as poucas oportunidades de debater gênero e violência nos cursos de Direito, bem como nos demais cursos de graduação e pós-graduação. A pesquisa realizada pela advogada Luana Pereira com estudantes da faculdade de Direito da UFRGS revela que 69% destas afirmaram já ter sido vítimas de práticas machistas na academia, 52% afirmaram ter passado por situações de assédio moral e 19,4% assédio sexual (PEREIRA, 2017, p. 94). Muitos dos casos de extrema violência de gênero que ocorrem nestes espaços têm repercussão em nível público, atingindo assim um maior número de mulheres, formando uma rede de sociabilidades e luta contra tais práticas. Todavia, o silenciamento dos assédios continua sendo uma realidade para as mulheres, professoras, estudantes e funcionárias técnicas e terceirizadas. Segundo a advogada Alice Abelar, na PUCRS, dentre 126 professores de graduação, 26% são mulheres. Apenas 20% na Pós-graduação em Direito e 10% na Pós-graduação em Ciências Criminais. Estes dados evidenciam a dificuldade do acesso das mulheres ao cargo de professora universitária, enquanto que não há discussão e questionamento sobre o assunto que não sejam impulsionados pelas mulheres, e daí a importância de sua representatividade.

A partir da leitura da obra é possível observar que entre as décadas de 1970 e 1990, com a crescente expansão das universidades, as mulheres passam a ter maior expressão neste campo, ainda que com as demarcações de classe e raça. Problematizar a violência de gênero nestes espaços deve considerar a gritante ausência de mulheres negras, indígenas e deficientes no ensino superior, que tem se democratizado processualmente a partir das lutas dos Movimentos Sociais e dos incentivos governamentais, como, por exemplo, a Lei n.º 12.711 de 2012 (Lei de Cotas).

O machismo dentro da militância do movimento estudantil também é apontado pelas autoras, na medida em que os estudantes homens ocupam cargos de representatividade, interrompem as falas de companheiras do movimento, não levam em consideração suas boas ideias, considerando-as apenas auxiliares de determinadas funções dentro das organizações.

As mulheres encontram-se em árduo combate político na academia, espaço que durante muito tempo fora homogeneizado pela presença masculina. Por isso a importância dada às professoras e militantes deste espaço na construção de diferentes futuros para estas mulheres. A terceira parte da coletânea, intitulada “Adagio”, reúne o total de onze artigos que apresentam criticamente a disputa de gênero no interior do judiciário, no qual a presença das violências simbólicas se destaca sobremaneira. Nesta parte da obra em questão, são narrados diversos casos que apresentam a naturalização e o descaso com as violências de gênero expressas no campo.

Marta Machado e Fernanda Matsuda, em seu estudo sobre a representação das mulheres nos processos judiciais no Sistema de Justiça Criminal, apontam que o discurso sobre as mulheres apresenta figuras dicotômicas idealizadas de mulher, sendo a “boa mulher” de família, boa esposa, dedicada, trabalhadeira, e a “mulher desafiadora, festeira, nervosa” (MACHADO e MATSUDA, 2017, p. 196), enquanto que os homens são sempre representados como pais de família, honestos e trabalhadores. As violências cometidas por estes, segundo as autoras, são rotineiramente justificadas nas salas de audiência pelo “mau comportamento” das mulheres, e apontadas como comportamento isolado dos homens. Estas demarcações interferem sobremaneira nos desfechos processuais das ações, legitimando, por vezes, danos irreparáveis às vidas de mulheres que são vítimas das violências de gênero, raça, etnicidade e demais preconceitos.

Segundo as autoras, os órgãos do Sistema Judiciário não reconhecem tais violências, e portanto não incidem os dispositivos legais específicos para os respectivos casos. Neste sentido, percebemos a desigualdade de gênero do exercício de poder nas instâncias do Judiciário brasileiro, o que está expresso, também, na baixa representatividade das mulheres nas esferas de decisão das organizações jurídicas, igualmente abordadas nesta parte do livro. Da mesma forma, ocorre nos escritórios de advocacia, nos quais a pesquisadora Patrícia Bertolin observou alto número de evasão de mulheres, ainda que nas entrevistas realizadas com os advogados homens que trabalham nestes espaços tenha sido frequente a negação de qualquer tipo de discriminação de gênero. A maternidade nesta profissão parece ser um dos principais problemas aparentes que obstacularizam a ascensão das mulheres no meio, como um “problema a ser resolvido”. Nesse sentido, é consenso entre as autoras que a advocacia é uma profissão que vem se femilinizando, mas ainda nos padrões machistas excludentes, obrigando as mulheres a afirmar e provar o tempo todo sua competência e eficiência profissional.

O livro “A violência de gênero nos espaços do Direito” é uma obra sobre experiências cotidianas. Um manifesto de mulheres feministas. Mulheres que lutam pela igualdade e promoção de direitos. Trata-se de pesquisadoras guiadas pela epistemologia feminista, que buscam problematizar seus posicionamentos e lugares de fala de forma interseccional, considerando os diferentes tipos de opressão decorrentes dos diversos marcadores sociais historicamente constituídos em nossa sociedade. Suas narrativas expressam uma série de subjetividades, com as quais se identificam o tempo todo as mulheres que as leem. Estas narrativas, como afirmam diversas vezes as autoras, saem da posição estritamente acadêmica, na medida em que tratam de experiências de mulheres que vivenciam as violências e demarcações de gênero não apenas nos espaços do Direito, mas na sociedade como um todo. A pesquisadora e organizadora da obra, Vanessa Dorneles Schinke, apontou ao encerrar as discussões realizadas no livro: “Aqui não há linha clara entre sujeito e objeto, empiria e teoria. O resultado é uma complexa composição que se retroalimenta da colaboração entre diversas pessoas – verbais e de carne e osso” (SCHINKE, 2017, p. 367) São diversos os arcabouços teóricos sobre Relações de Gênero e Teoria Feminista, específicos de cada temática abordada, utilizados nos 23 artigos que compõem a obra. Dentre eles, estão os que possibilitam articular as categorias como gênero e poder, através dos escritos de Michel Foucault e Joann Scott, por exemplo, gênero, raça e interseccionalidade, através dos estudos das teóricas Kimberlé Crenshaw e Helena Hirata, por exemplo, gênero e classe social, utilizando como referencial teórico os escritos da socióloga Heleieth Saffioti, dentre outras. Bem como referenciais teóricos clássicos dos estudos de gênero, como Simone de Beauvoir, Judith Butler e Bell Hooks, por exemplo. As autoras partem, em comum, da já mencionada epistemologia feminista, na medida em que têm como proposta a mudança do paradigma referencial das experiências compartilhadas pelos sujeitos e abordadas nas pesquisas científicas. A lógica da narrativa de suas experiências vivenciadas no campo alinha-se na epistemologia feminista, na medida em que justamente descola a figura masculina como detentora principal das discussões acerca das relações no meio jurídico.

A universidade e os demais campos do Judiciário são entendidos por estas pesquisadoras como espaços privilegiados da reprodução de uma cultura machista e sexista, mas são também expressos como espaços de luta e resistência de mulheres pela democratização dos espaços do Direito.

Jade Liz Almeida dos Reis – Mestranda em História na Universidade do Estado de Santa Catarina (UDESC). Florianópolis, SC – BRASIL. E-mail: jjadeliz@gmail.com.

O palácio da memória – DIMEO (Topoi)

DiMEO, Nate. O palácio da memória. Galindo, Caetano W.. 1. edição. São Paulo: Todavia, 2017. 256 pp. Resenha de: SANTOS. O palácio da memória, ou: da arte de contar histórias. Topoi v.20 n.41 Rio de Janeiro May/Aug. 2019.

O palácio da memória, de Nate DiMeo (Todavia, 2017), pode ser descrito como uma obra de caráter transdisciplinar, no âmbito acadêmico-escolar – como leitura obrigatória em aulas relacionadas à História e/ou ao Ensino de História, bem como à escrita ou processos de escrita, tanto no ensino superior como na educação básica – e para além dele – como uma leitura não obrigatória, selecionada sem uma finalidade pedagógica específica.

O fato de se enquadrar de modo peculiar nesses dois espaços formativos que muitas vezes parecem tão distantes um do outro (o acadêmico-escolar, com suas normas e saberes sistematizados, e o do cotidiano, que não estabelece uma rotina tão rígida e apresenta outra relação com os saberes, na sua transmissão e recepção) possibilita ao livro de DiMeo algo que poucas obras conseguem: articular o saber histórico formal com o saber histórico do dia a dia.

Seja para amantes da História ou de histórias, O palácio da memória traz registros históricos contundentes, utilizando uma narrativa autoral que faz da leitura uma experiência no mínimo singular e recomendável.

Nate DiMeo, natural de Providence, em Rhode Island, nos Estados Unidos, é um ex-músico que trabalhou como repórter de rádio por mais de dez décadas, segundo relata Fernanda Ezabella (2017), que realizou uma entrevista com o autor antes de a obra chegar às livrarias brasileiras.1 Nessa entrevista ele explica seu interesse por temas relacionados ao século XIX, ou, mais especificamente, aos anos entre 1880 e 1920, período em que “a vida moderna estava sendo inventada”, como afirma.

É diante do excesso de informação de nossa cultura contemporânea – descrito desde a primeira metade do século passado por Walter Benjamin,2 salientado por Ítalo Calvino3 na metade da década de 1980 e também por Georges Balandier4 no final daquela época – que DiMeo encontra seus personagens e constrói (ou tenta reconstruir, a partir da perspectiva histórica) suas histórias. Diante desse excesso algo sempre surge lhe chamando a atenção, fazendo-o voltar posteriormente para checar a veracidade e pesquisar em museus e arquivos de jornais, para em seguida pensar sobre a forma de contar mais uma de suas histórias.

O que impressiona em seu trabalho, realizado desde 2008, quando estreou o podcast “The Memory Palace”,5 é a sua capacidade de contar histórias e de demonstrar suas potencialidades, bem como a força dessa prática por vezes tão esquecida em nossa era digital-informativa, em que muitas vezes a multiplicidade midiática retira nosso tempo de reflexão sobre determinado conteúdo, nos privando da “riqueza de significados possíveis”, como expressou Ítalo Calvino, pois a superabundância de imagens e de informações muitas vezes “se dissolve imediatamente como os sonhos que não deixam traços na memória”.6

Mas é da adversidade que conseguimos enxergar e criar alternativas, como analisa Marcelo Yuka.7 Nesse sentido, Nate utiliza desse excesso de informação para pegar aquilo que lhe toca e trabalhar em cima do que foi selecionado com a prudência e o cuidado de um historiador de ofício, dando o seu devido tempo e atenção. Desse modo, ele consegue deixar muitos traços das memórias que narra em nossas mentes-corpos – uma vez que estes são elementos indissociáveis de nossa percepção sensorial do mundo -, nos atingindo física e emocionalmente diante de seus relatos.

Se Georges Balandier (1999) ressaltava sobre o processo de banalização e de sobrecarga do imaginário social por meio da constante repetição de imagens e informações sem uma orientação crítica de seus usos, temos em O palácio da memória uma experiência muito diferente. Experiência, a propósito do ato de narrar, de contar histórias surpreendentes, que Walter Benjamim afirmava, em 1936, ser uma arte em vias de extinção.8 Segundo o filósofo alemão:

São cada vez mais raras as pessoas que sabem narrar devidamente. É cada vez mais frequente que, quando o desejo de ouvir uma história é manifestado, o embaraço se generalize. É como se estivéssemos sendo privados de uma faculdade que nos parecia totalmente segura e inalienável: a faculdade de intercambiar experiências.9

Essa crise no ato de contar histórias, de intercambiar experiências significativas, é justificada por Benjamin ao afirmar que os fatos reportados em sua época, vindos de todas as partes do mundo, não favoreciam a narrativa – a experiência da narrativa -, pois vinham impregnados de explicações sem a necessidade da escuta atenta e sensível, do processo de efetuar relações e de refletir sobre o ocorrido; em contrapartida, isso favorecia o excesso de informação, que ainda hoje é um dos temas mais abordados por pesquisadores em diferentes áreas e campos do saber, como História, Educação, Sociologia, Comunicação, Mídia, Filosofia, Cinema, entre outros.

E por que a leitura de O palácio da memória é uma experiência narrativa diferenciada? Justamente porque Nate DiMeo consegue manifestar nosso desejo de ler/ouvir histórias, servindo como antídoto a todo o excedente informativo que permeia nossos dispositivos móveis e nossas vidas. Não obstante, ele demonstra que a História, deveras considerada um peso sem significado aparente na vida de muitos jovens estudantes, pode sim ser mais atrativa e carregada dos mais diversos significados.

Este é outro grande mérito desse artista estadunidense, de nos instigar -professores/formadores da educação básica ou do ensino superior – a rever nossos métodos e nossas próprias práticas pedagógicas, a ponto de podermos utilizar O palácio da memória em nossas aulas como um ponto de partida, um meio para elaborar novas possibilidades de ensino, de envolver nossos alunos com os conteúdos curriculares prescritos institucionalmente.

Não há outro meio de se conhecer mais a História e seus acontecimentos se não mergulhando naquilo que ela tem a nos oferecer. DiMeo faz isso, ele mergulha nas histórias que nos conta de modo a se aproximar das práticas relativas aos historiadores que atuam no campo da História Oral, contribuindo nesse terreno do “estudo da subjetividade e das representações do passado tomados como dados objetivos, capazes de incidir (de agir, portanto), sobre a realidade e sobre nosso entendimento do passado”, como sintetiza Verena Alberti10 a respeito dessa metodologia e abordagem historiográfica.

Essa aproximação com a História Oral está presente ao longo de toda obra, quando Nate toma como protagonistas de muitas de suas histórias sujeitos/personagens “comuns”, de “carne e osso” como todos nós, que não fazem parte daquela História seletiva e oficial – ou por muito tempo oficializada – que costumamos aprender nos bancos escolares, mas que, de acordo com Lucília Delgado,11 “anônima ou publicamente deixam sua marca, visível ou invisível, no tempo em que vivem, no cotidiano de seus paí ses e também na história da humanidade”.

Há também algumas grandes figuras conhecidas da História, sobretudo da história estadunidense, onde se passam as narrativas; mas nem por isso perdem seu valor, pois, quando contextualizados com a história social e coletiva da humanidade, conseguimos identificar sua importância e até mesmo relacionar a equivalentes de nossa própria esfera sociocultural.

Alguns desses nomes são de indivíduos que se consagraram em seus respectivos campos de atuação. Todavia, não se busca enaltecer e divinizar, nem tampouco condenar e demonizar tais sujeitos. Suas histórias são transcritas a partir de um contexto histórico-cultural maior, no qual o que importa, no fim das contas, não é reconhecer aqueles considerados e tratados como protagonistas, e sim ter consciência de que a história contada, por si só, teve (e, de certa maneira, continua tendo) uma relevância suficientemente expressiva em determinado tempo e espaço onde elas aconteceram – na verdade para além disso, uma vez que muitas delas cruzaram oceanos e continentes, inscrevendo-se na narrativa da história humana.

O palácio da memória está estruturado em 50 breves narrativas que abordam desde as desventuras de Samuel Finley Breese Morse – que, após perder a esposa e sequer conseguir estar presente ao seu funeral, “passou os quarenta e cinco anos seguintes inventando o telégrafo. […] E desenvolvendo o código Morse” (Distância, p. 9-10), na tentativa de que mais ninguém passasse por aquilo que ele viveu -, ao dia em que muitos nova-iorquinos quase enlouqueceram quando em uma manhã de novembro de 1874 uma alarmante notícia – inventada e publicada pelo jornal New York Herald – trouxe à tona muitos “monstros imaginários”, dando uma lição “que vale a pena recordar de vez em quando” (Enlouquecidos, p. 245-248), sobretudo diante de uma época em que as fake news estão ganhando cada vez mais destaque.

Entre as duas histórias, há muitas outras que emocionam, que chocam, que nos atingem de modo peculiar, nos fazendo pensar sobre o ocorrido ou sobre situações semelhantes que aconteceram também em tempos remotos e em outros lugares, distintos daquele que DiMeo descreve, ou que aconteceram recentemente; ou que acontecem ainda hoje, perto de nós, às vezes conosco, nessa sociedade em que muitos governos gostam de se autoproclamar democráticos, ainda que a democracia seja conhecida por poucos e distante de muitos.

Dentre alguns desses casos, que podem se relacionar de uma forma ou de outra, podemos trazer como exemplo o caso dos meninos de 9 anos que morriam simplesmente por serem crianças e por efetuarem um trabalho perigoso demais (Nipper, p. 17-18). De Minik Wallace, um inuíte de 7 anos de idade que vivia em um pequeno vilarejo na Groenlândia e viu o pai e outros conterrâneos morrerem quando saíram pela primeira vez de seu lugar de origem, convencidos por homens brancos a partirem para a cidade de Nova York, onde foram apresentados como artefatos e atração exótica, e que seriam estudados por cientistas do Museu de História Natural. Após a morte do pai, ele quis realizar um enterro conforme as tradições de sua cultura, descobrindo anos depois que fizera uma cerimônia sagrada inuíte para um saco de pedras, pois o corpo do pai havia sido mantido no museu, onde cientistas o dissecaram, fizeram estudos com o cérebro e deixaram os ossos em exposição (Algumas palavras para os responsáveis, p. 44-47). Das cobaias utilizadas durante o período da corrida espacial entre os Estados Unidos e a União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (Cobaias, p. 103-105). De James Powell e sua mãe, bem como de Odessa Bradford, de Perfecto Bandalan, de Eugene Williams, de Robert Bandy e de outros afro-americanos ou imigrantes esquecidos (Esquecemos, p. 120-122). Da coragem de amar de Charlie Zulu e Anita Corsini (Zulu Charlie Romeu, p. 150-155). Da trágica história de Lucy Bakewell (Um pintor na paisagem, p. 173-181). Do filhote de leão capturado no deserto da Núbia para ser transformado numa das mais conhecidas imagens do cinema – ainda que a imagem não descreva as situações pelas quais ele teve que passar (Vulgo: Leo, p. 198-202). Do simbolismo para a comunidade LGBT do White Horse, o mais antigo bar gay dos Estados Unidos (Um cavalo branco, p. 206-210). Das 77 pessoas que se tornaram mais de 8 mil, numa jornada de 500 quilômetros, na busca dos trabalhadores do campo pelo direito de se organizarem em sindicatos para que pudessem exigir dignidade humana (Peregrinar, p. 233-237). Entre tantas outras…

São histórias inspiradoras que nos levam a rever o momento presente por outra perspectiva, a repensar certos conceitos e a valorizar as potencialidades contidas nas ações humanas, sejam elas realizadas por grandes nomes ou por desconhecidos/as, pessoas que se inscrevem na e escrevem a História, tanto quanto aqueles a quem os livros oficiais mais costumam demarcar como os nomes a serem lembrados (ou, como muitas vezes acontece, decorados) para a realização de uma prova, para a escrita de uma redação ou para a encenação de uma peça teatral escolar.

Nesse contexto, O palácio da memória insere-se como uma importante e necessária ferramenta educativa, ao desmistificar acontecimentos históricos e ao contribuir, no âmbito historiográfico, a dar “inteligibilidade ao vivido e ao narrado”, como destaca Carla Rodeghero.12

O principal ponto de ligação do trabalho de Nate DiMeo com a História Oral se dá por ele trabalhar com memórias, o que Alessandro Portelli13 destaca – neste trabalho entre a História Oral e a Memória – como um “campo de possibilidades compartilhadas, reais ou imaginárias” (1996, p. 72), ajudando-nos a compreender cada fragmento (cada pessoa, cada ação) desse mosaico que compõe a sociedade humana.

“Dizem que a memória pode ser um parque de diversões estranho e tortuoso, cheio de viagens em montanha-russa e salas de espelhos deformadores”, recorda o cineasta Michael Moore.14 Nesse parque de diversões que ilustra a memória, a força narrativa presente nos casos que DiMeo menciona nos prende na leitura do livro (ou na audição dos podcasts) de modo bastante satisfatório; como se ganhássemos as entradas para uma diversão previamente garantida – diversão que não se traduz somente em entretenimento, mas que faz pensar para além do habitual, promovendo reflexão.

Destarte, esse é o tipo de obra que eu recomendaria para os historiadores de ofício, profissionais, acadêmicos e para aqueles que não são, porém apreciam uma boa narrativa literária e gostam de ler/ouvir histórias. “Tudo que dizemos tem um ‘antes’ e um ‘depois’ – uma ‘margem’ na qual outras pessoas podem escrever”, acentuou Stuart Hall.15 Essa margem é onde Nate se ancora, utilizando-a com esmero.

Gostaria de finalizar este texto destacando duas questões: primeiro, parabenizar a editora Todavia pela publicação. Olhando em perspectiva, do ponto de vista qualitativo e deixando de lado os dados referentes ao número de exemplares vendidos – que no mercado editorial muitas vezes equivale a dizer se a obra foi ou está sendo um sucesso ou um fracasso -, posso afirmar que essa foi uma aposta significativa, pois permite que diferentes indivíduos (historiadores em formação, profissionais e leigos da área) reconheçam o valor contido nas histórias e no ato de narrar, na experiência que ela possibilita, naquele que talvez seja, como descreve Caetano W. Galindo ao final do livro, “o maior de todos os mecanismos de geração de empatia, de interesse, de comunidade e compaixão. Histórias. Narrativas” (p. 252).

Em segundo lugar, e não menos importante, convém destacar o trabalho de Caetano W. Galindo, responsável por traduzir a obra direto do áudio e apresentar o trabalho aos editores da Todavia. Até o momento, ela está em sua primeira edição impressa em nível mundial – nem em seu país de origem ela foi publicada, pois segundo DiMeo, na entrevista a Fernanda Ezabella mencionada no início do texto, os editores que lhe procuram têm interesse em um livro temático, enquanto ele prefere o formato curto de suas histórias, como faz em seu podcast.

Nate DiMeo, esse colecionador de memórias,16 vai encontrando novos fatos e personagens históricos para continuar compondo seu palácio da memória, compartilhando conosco os feitos de pessoas extraordinárias em tempos conturbados. Até o momento, o último podcast, o do episódio 144, foi publicado no dia 21 de junho de 2019. Se considerarmos que Nate continua realizando seu trabalho e que a edição da obra impressa reúne 50 de suas histórias, ainda há um bom número de casos a serem trabalhados e, quem sabe, publicados em edições futuras. Que as portas do palácio se mantenham abertas para nós!

1 EZABELLA, Fernanda. Ex-repórter de rádio, Nate Dimeo cria podcast que vai virar livro no Brasil. Folha, Los Angeles, 30 de julho de 2017. Disponível em: http://www1.folha.uol.com.br/serafina/2017/08/1904465-ex-reporter-de-radio-nate-dimeo-cria-podcast-que-vai-virar-livro-no-brasil.shtml. Acesso em: abril 2018.

2 BENJAMIN, WalterMagia e técnica, arte e política: ensaios sobre literatura e história da cultura. São Paulo: Brasiliense, 2012. (Obras Escolhidas, v. 1)

3 CALVINO, ItaloSeis propostas para o próximo milênio: lições americanas. São Paulo: Companhia das Letras, 1990.

4 BALANDIER, GeorgesO dédalo: para finalizar o século XX. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1999.

5Que pode ser conferido em: http://thememorypalace.us/.

6 CALVINO, ItaloSeis propostas para o próximo milênio: lições americanas. op. cit. p. 73.

7 YUKA, Marcelo. Sua relação especial com o corpo. TEDxSudeste, 30 out. 2010. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=WLlN_Xf4CFk. Acesso em: abril 2018.

8É importante situar que o contexto histórico em que Benjamin escreve sobre experiência é o do perío do entre guerras (Primeira e Segunda Guerra Mundial), quando os soldados voltavam dos campos de batalhas sem conseguir narrar sobre o que acontecera, afetando-os de modo permanente.

9 BENJAMIN, WalterMagia e técnica, arte e política: ensaios sobre literatura e história da cultura, op. cit., p. 213.

10 ALBERTI, Verena. O lugar da história oral: o fascínio do vivido e as possibilidades de pesquisa. In: ALBERTI, Verena. Ouvir contar: textos em história oral. Rio de Janeiro: Editora FGV, 2004. p. 13-43. p. 10.

11 DELGADO, Lucília de Almeida Neves. Memória e história: multiplicidade e singularidade na construção do documento oral. Cadernos CERU, série 2, n. 12, p. 23-30, 2001. p. 24. Disponível em: https://www.revistas.usp.br/ceru/article/view/75083/78649. Acesso em: março 2018.

12 RODEGHERO, Carla Simone. História oral e história recente do Brasil: desafios para a pesquisa e para o ensino. In: RODEGHERO, Carla Simone; GRINBERG, Lúcia; FROTSCHER, Méri (Orgs.). História oral e práticas educacionais. Porto Alegre: Editora da UFRGS, 2016. p. 61-84. p. 80.

13 PORTELLI, Alessandro. A filosofia e os fatos. Narração, interpretação e significado nas memórias e nas fontes orais. Tempo, Rio de Janeiro, v. 1, n. 2, p. 59-72, 1996.

14 MOORE, MichaelAdoro problemas: histórias da minha vida. São Paulo: Lua de Papel, 2011.

15 HALL, StuartA identidade cultural na pós-modernidade. 10. ed. Rio de Janeiro: DP&A, 2005. p. 41.

16Como a revista Piauí o retratou na edição 129, de junho de 2017, na seção Vozes da América.

Referências

ALBERTI, Verena. O lugar da história oral: o fascínio do vivido e as possibilidades de pesquisa. In: ALBERTI, Verena. Ouvir contar: textos em história oral. Rio de Janeiro: Editora FGV, 2004. p. 13-43. [ Links ]

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YUKA, Marcelo. Sua relação especial com o corpo. TEDxSudeste, 30 out. 2010. Disponível em: Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=WLlN_Xf4CFk . Acesso em: abril 2018. [ Links ]

José Douglas Alves dos Santos – Doutorando da Universidade Federal de Santa Catarina/Centro de Ciências da Educação, Programa de Pós-Graduação em Educação, Florianópolis/SC – Brasil. E-mail: jdneo@hotmail.com. ORCID: https://orcid.org/0000-0002-7263-4657.

Entre a religião e a política: Eurípedes e a Guerra do Peloponeso – MOERBECK (Topoi)

MOERBECK, Guilherme. Entre a religião e a política: Eurípedes e a Guerra do Peloponeso. Curitiba: Prismas, 2017. Resenha de: SILVA, Uiran Gebara. Conflito social, política e culto na Atenas de Eurípedes. Topoi v.20 n.41 Rio de Janeiro May/Aug. 2019.

O livro Entre a religião e a política: Eurípedes e a Guerra do Peloponeso é um importante trabalho sobre a relação da tragédia com a dimensão política e religiosa da sociedade ateniense do V a.C. Há no Brasil uma grande quantidade de estudos dedicados à poética da tragédia, mas poucos voltados para a investigação histórica por meio das tragédias, não sendo incomum que muitos dos estudantes só possam recorrer ao clássico conjunto de estudos sobre essa intersecção de Jean Pierre Venant e Pierre Vidal-Naquet.1 O autor do livro, Guilherme Moerbeck, já tem um conjunto respeitável de estudos que lida com a intersecção entre política e tragédia na Grécia Antiga. Esse conjunto de investigações se expressa em vários artigos e no livro Guerra, política e tragédia na Atenas Clássica.2 Enquanto no trabalho anterior o propósito foi perseguir a hipótese de que a relação entre política, guerra e a tragédia seria mais bem compreendida por meio da noção de “gerações”, nesta nova obra há um estudo mais interessado em Eurípedes, que põe no centro de suas preocupações a hipótese de que a dinâmica da participação política em Atenas no século V a.C. pode ser entendida como a configuração de um campo político, noção tomada de Pierre Bourdieu.

Para desenvolver essa ideia, na primeira parte do livro Moerbeck articula de maneira bastante competente uma série de questões teóricas. No primeiro capítulo, “Poder simbólico e habitus: aproximações teóricas para a análise das tragédias nas Grandes Dioni síacas”, o autor apresenta e delimita o emprego que faz da teoria dos campos (pensando a distribuição de bens simbólicos, distinções sociais e poder simbólico) e da noção de habitus (produção e reprodução e práticas no interior dos campos), ambas de Bourdieu. Seu ponto de partida é o teatro ateniense como uma prática engastada ou incrustada (seguindo a terminologia de Moses Finley), isto é, uma prática social integrada em outras práticas sociais. Como o teatro está incrustrado tanto na política quanto na religião, no segundo capítulo, “Espaço, ritual e performance na cidade das Grandes Dionisíacas”, o autor busca, por um lado, compreender a dimensão ritual do teatro em sua espacialidade na cidade de Atenas na sua relação com o festival das Grandes Dionisíacas, e, por outro, apreender as conexões com o desenvolvimento das práticas políticas atenienses entre a sua constituição democrática e sua vocação imperial. Isso resulta em intuições significativas no que diz respeito à hipótese da formação de um campo político (e talvez até mesmo de um campo artístico, associado) na Atenas do século V a.C. e ao papel do conflito social como elemento constitutivo da formação desse campo. A contraparte dessa perspectiva atenta à existência integrada das práticas sociais está nas dificuldades oferecidas pelas práticas religiosas na Antiguidade para com as interpretações modernas. O instrumental intelectual desencantado da modernidade3 tem muita dificuldade em compreender adequadamente o lugar do conflito dentro das práticas religiosas (em geral pensadas como homogeneizantes), em lidar com o grau de integração da religião com outras práticas sociais, e em pensar a força do religioso em relação ao político.

Na segunda parte do livro, Moerbeck analisa de modo sistemático duas tragédias de Eurípedes, As suplicantes e As fenícias. Aqui, ao se observar a relação do teatro ora com o campo político, ora com as práticas religiosas (um campo? O autor não o articula nesses termos), aquelas dificuldades se fazem presentes. No terceiro capítulo, “Política, posição social e guerra em As suplicantes de Eurípedes”, o autor demonstra como a recriação de Eurípedes do episódio mítico em que Teseu interfere no ciclo tebano se articula com temáticas políticas e religiosas prementes para a Atenas do V a.C. Do ponto de vista das relações da tragédia com a política, a interferência remete ao próprio debate ateniense sobre a guerra contra a Liga do Peloponeso, ainda em sua primeira fase. Aqui Moerbeck dá destaque aos significados da representação dramática do caráter democrático do governo de Teseu, com especial destaque para a configuração de um discurso de oposição à tirania e para a elaboração da voz do camponês como o representante do bom senso do conjunto dos cidadãos. Já ao observar a relação da tragédia com as práticas religiosas, a análise de Moerbeck adentra o território dos costumes enraizados em um passado distante, o pressuposto religioso por trás do tabu desrespeitado por Creonte ao não permitir o sepultamento devido dos invasores mortos no conflito entre Etéocles e Polinices. Há um conflito de contornos religiosos servindo de motivação para a ação de Atenas em Tebas, uma vez que o estatuto de Atenas e seu rei como responsáveis por zelar por esse costume na Ática é um dos elementos que entram no debate na assembleia presente na tragédia

Já no quarto capítulo, “Ambição, poder e política em As fenícias”, a tragédia que é analisada tem como conteúdo mítico episódios cronologicamente anteriores, mas foi composta posteriormente a As suplicantes. Aqui, Moerbeck reflete sobre como o conflito aristocrático entre Polinices e Etéocles, nela representado, também pode ser articulado com temáticas políticas e religiosas associadas a uma fase tardia da Guerra do Peloponeso. Por um lado, o das conexões com as temáticas políticas, o debate sobre a rotatividade de governantes e a invasão de Tebas por estrangeiros é remetido aos conflitos entre os legisladores e estrategos atenienses da última década do século V, com um papel de destaque para Alcebíades. Essa operação ilumina a dimensão sofística e demagógica dos discursos de Etéocles em favor da tirania na tragédia. Por outro, no que diz respeito às relações da tragédia com as práticas religiosas, o contexto de guerra e o imperialismo ateniense colocam em relevo os vários juramentos quebrados em As fenícias, que Moerbeck remete à problemática da recente destruição de Melos pelos atenienses e a justificativa do poder pelo poder.

Ao abordar nesses dois últimos capítulos a articulação entre esses três conjuntos de práticas sociais, Moerbeck se preocupa em não reduzir uma coisa à outra, buscando integrar da melhor maneira possível tanto as posições de Julian Gallego4 quanto as de Christiane Sorvinou-Inwood.5 O resultado da sua investigação não é transformar a tragédia em metáfora da política, nem reduzi-la a uma forma racionalizada de rituais dionisíacos, mas mostrar como essa tríplice articulação permite ver a formação do campo político em Atenas. E, por isso, o conflito social tem um papel muito importante na sua economia argumentativa. É, porém, exatamente essa centralidade do conflito social que nos reenvia às previamente mencionadas dificuldades da interpretação moderna no que tange às práticas religiosas.

Quando se trata de analisar o conflito social em termos políticos, as ciências humanas têm um instrumental teórico bastante apurado. A História, em particular, uma vez que a observação do conflito social sempre está associada às temáticas da permanência e da transformação de uma sociedade. Na investigação de Guilherme Moerbeck o conflito social com contornos políticos é, sem nenhuma surpresa, definido de várias maneiras em relação às cidades, à polis: há conflito dentro das cidades, fora das cidades, entre cidades. Nesse sentido, na análise de Moerbeck das relações entre o teatro e o campo político em formação, adentra-se numa esfera de observações que a hermenêutica moderna tende a ver como mais dinâmico no que diz respeito à observação dos conflitos sociais. Enquanto o autor busca resguardar a autonomia relativa da prática dramática, há também um esforço de interpretação da relação e do desvelamento das conexões com o conflito. Há uma dificuldade de fundo que se apresenta a interpretações desse tipo, que é o estatuto do mito recriado em cada tragédia específica, de modo que a investigação pode resultar em leituras redutoras que tratam o mito como metáfora ou alegoria do conflito social, da história. A solução de Moerbeck é pensar a própria historicidade da produção do mito (recusando tacitamente visões unitaristas do mito), preocupando-se em incluir na sua análise a diversidade de interpretações concorrentes e as reescritas do mito. Isto é feito por meio da análise tanto intra quanto extradiscursiva das duas tragédias de Eurípedes, principalmente no que diz respeito à observação dos contextos de encenação e as ambiguidades do conceito de performance (e suas implicações em termos de reprodução e criação do mito e das próprias tragédias). Assim, o conflito não é encontrado na metáfora, mas no contrapelo do texto.

A relação do teatro com as práticas religiosas cria dificuldades diferentes, pois, como já dissemos, aquela hermenêutica moderna configura o religioso como um campo mais estático: os ritos são primariamente pensados como tradição e permanência (uma derivação teórica persistente da atenção durkheimiana para com a coesão social). Aqui o risco é a redução do teatro à alegoria moral do costume tradicional, agora como rito que encena o costume. Nesse contexto interpretativo, a associação das tragédias de Eurípedes com uma moralidade pan-helênica pode levar a uma visão a-histórica dessa moralidade, ou tornar certas passagens incompreensíveis, como é o caso da nossa dificuldade em decifrar o sentido do ritual que leva ao sacrifício de Meneceu. A solução de Moerbeck é novamente pensar a produção histórica dos fenômenos, isto é, historicizar o rito.6 O tratamento dado pelo autor à dimensão espacial da produção e reprodução das relações sociais das Grandes Dionisíacas na Atenas do século V a.C. tem como resultado explicitar a interpenetração do político, do econômico e do religioso nos festivais. Outro importante resultado é que aquela moralidade pan-helênica com a qual as tragédias dialogam é vista como algo que é criado, transformado, que se consolida ou se enfraquece, isto é, em termos propriamente históricos. As tragédias de Eurípedes se revelam como um território de observação da contestação constante que se ofereceu a essa moralidade no contexto da Guerra do Peloponeso.

O lugar do religioso em meio às guerras contra os persas e à Guerra do Peloponeso remete necessariamente às regras de comportamento entre as cidades gregas nesse contexto belicoso. Do mesmo modo, a efetividade dessas regras conecta-se à efetividade da dimensão religiosa que lhes dá suporte. A análise de Moerbeck demonstra que tanto as tragédias de Eurípedes quanto a narrativa histórica tucidideana (como no caso de Mitilene e Melos) denunciam a falha sistemática em se cumprir tais regras. E, nesse sentido, uma das poucas lacunas que se pode apontar ao trabalho de Moerbeck é a de não ter explorado mais o quanto sua abordagem de historicizar essa moralidade permite colocar em questão a homogeneidade da identidade pan-helênica, uma homogeneidade que até pouco tempo era tida como consolidada nesse momento da história das cidades da Grécia. Ainda assim, seu estudo é um excelente ponto de partida para os futuros pesquisadores interessados em desenvolver essa linha de investigação.

1 VERNANT, Jean-Pierre, & VIDAL-NAQUET, Pierre. Mito e tragédia na Grécia Antiga. São Paulo: Perspectiva, 2005.

2 MOERBECK, GuilhermeGuerra, política e tragédia na Atenas Clássica. Jundiaí: Paco Editorial, 2014.

3Cf. PIERUCCI, Antônio FlávioO desencantamento do mundo: todos os passos do conceito em Max Weber. São Paulo: Editora 34, 2013.

4 GALEGO, Julian. La democracia em tiempos de tragédia: asamblea ateniense y subjetividad política. Buenos Aires: Miño y Davila, 2005.

5 SOURVINOU-INWOOD. ChristianeTragedy and Athenian religion. Lanham, MD: Lexington Books, 2003.

6Para uma colocação precisa destes problemas, cf. VERSNELL, H. S.Inconsistencies in Greek and roman Religion 2. Transition and Reversal in Myth & Ritual. Leiden: Brill, 1994.

Referências

GALEGO, Julian. La democracia em tiempos de tragédia: asamblea ateniense y subjetividad política. Buenos Aires: Miño y Davila, 2005. [ Links ]

MOERBECK, Guilherme. Guerra, política e tragédia na Atenas Clássica. Jundiaí: Paco Editorial, 2014. [ Links ]

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PIERUCCI, Antônio Flávio. O desencantamento do mundo: todos os passos do conceito em Max Weber. São Paulo: Editora 34, 2013. [ Links ]

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VERSNELL, H. S. Inconsistencies in Greek and roman Religion 2. Transition and Reversal in Myth & Ritual. Leiden: Brill, 1994. [ Links ]

Uiran Gebara da Silva – Professor da Universidade Federal Rural de Pernambuco/Instituto de História, Programa de Pós-Graduação em História, Recife/PE – Brasil. E-mail: uirangs@hotmail.com.

Armed in America: A History of Gun Rights from Colonial Militias to Concealed Carry – CHARLES (THT)

CHARLES, Patrick J. Armed in America: A History of Gun Rights from Colonial Militias to Concealed Carry. New York: Prometheus Books, 2019. 558p. Resenha de: BABITZKE, Cari S. The History Teacher, v.52, n.3, p.524-526, may., 2019.

Patrick J. Charles opens this new synthesis of the history of firearms rights and advocacy with a warning to scholars: if historians of firearms and gun rights politics in the U.S. adhere to the accepted principles of scholarly inquiry, the contours of the debate and the field must shift. According to Charles, far too much historical work on firearms has been “principled on legal advocacy, political activism,” and “expanding the meaning and the scope of the Second Amendment as broadly as possible” (p. 15). Rather than abandon the field to these alternative histories, Charles draws on his own lengthy career in legal history alongside new research into source materials such as hunting and shooting magazines, newspapers, and manuscript collections to understand the evolution of gun rights politics and rhetoric and the rise of the “Standard Model” interpretation of the Second Amendment.

Charles begins by narrowing the temporal boundaries of the debate over the Second Amendment. After the Civil War, the majority of Americans reached a consensus regarding access to arms—namely, that “state and local governments maintained broad police powers to regulate dangerous weapons in the interest of public safety…so long as they did not utterly destroy the armed citizenry model of the Second Amendment,” without encroaching on the individual’s right to armed self-defense in “extreme cases” (p. 313). This consensus fractured during the second half of the twentieth century, as firearms advocates—notably in organizations like the National Rifle Association (NRA)—pushed for a more expansive reading of the Second Amendment. According to Charles, from 1970 to 1980, a substantial amount of this advocacy included the active recruitment of academic scholars to develop and promote a literature reworking the historical meaning of the Second Amendment. This academic push culminated in a new “Standard Model” of the amendment, claiming protection for personal firearms ownership uncoupled from its longstanding connections to militia service and civic republicanism. From 1980 to 1999, Charles argues, studies funded by the NRA and other gun rights organizations effectively revised the field, substituting the Standard Model for the militia-centric understanding of the Second Amendment (p. 280).

At the turn of the twenty-first century, proponents of the Standard Model received a major boost when Attorney General—and NRA member—John Ashcroft modified the Department of Justice’s longstanding position on the Second Amendment.

According to Charles, once the DOJ shifted its position on the Second Amendment, the Standard Model became accepted in federal courts. In United States v. Emerson (2001), the Fifth Circuit Court of Appeals became the first appellate court to adopt the Standard Model. In 2008, the Supreme Court waded into the debate, taking up District of Columbia v. Heller. In its majority opinion, the Court sided with the Standard Model, interpreting the Second Amendment as protecting an individual right to own firearms. And finally, in McDonald v. City of Chicago (2010), the Supreme Court applied the Standard Model of the Second Amendment to the states.

Armed in America makes two important contributions to scholarship and teaching on the gun rights debate. In his chapter, “The Birth of the Gun-Rights Golden Age,” Charles examines the late twentieth-century rise in advocacy, offering a concise yet thorough timeline for the interpretive shift in the Second Amendment and important changes in the national legal structure regarding individual firearms ownership. This chapter provides integral information to students interested in the evolution of the legal right to arms in the United States.

But Charles offers a second teaching tool. While presenting this history, he keeps the process of scholarly inquiry front and center. To educators engaged in scholarly training, this book serves as a keen example for budding scholars.

Charles’ research project is front and center—developing a research question; understanding the state of the field and his place therein; locating and using primary sources—and he acknowledges his challenges in working with such a contentious subject and the ever-present reality of today’s gun politics.

Cari S. Babitzke – Boston University.  Acessar publicação original

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In the Shadow of Authoritarianism: American Education in the Twentieth Century – FALLACE (THT)

FALLACE, Thomas D.  In the Shadow of Authoritarianism: American Education in the Twentieth Century. New York: Teachers College Press, 2018. 215p. Resenha de: OROMANER, Mark. The History Teacher, v.52, n.3, p.525-526, may., 2019.

In the Shadow of Authoritarianism is a timely contribution to the understanding of how American primary and secondary elite educational thinkers responded to perceived threats from approximately World War I to the 1980s. These perceived internal and external threats (the “Other” against which American educational philosophy evolved) are: Prussianism, propaganda, collectivism, dictatorship, totalitarianism, the space race, mind control, and moral relativity. A chapter is devoted to each of these chronologically ordered episodes. Thomas D. Fallace covers this almost century-long period in a clearly presented and well-documented 149 pages of text. The book is suited as an overview in undergraduate and graduate courses in the History of Twentieth-Century American Educational Philosophy and in other courses in education, sociology, political science, and history that focus on the relationship between politics and education. For students who wish to pursue a particular thinker, time period, school of thought, or social/political movement, Fallace has provided thirty-two pages of Notes and eighteen pages of Bibliography.

During the twentieth century, authoritarianism was used “to depict the outlook… characterized by social hierarchy, ideological homogeneity, and intolerance for dissent” (p. 1). Schools were central for the transmission of authoritarian ideology and values to young people. Under such a system, students were taught to be docile, obedient, intolerant, and compliant. In contrast, under a democratic system (e.g., the United States), students were taught to be open-minded, balanced, and skeptical. These contrasts are, of course, ideal types—however, they are “what most U.S. educators told themselves and one another repeatedly between World War I and the 1980s” (p. 1). Regardless of the changing geopolitical realities, listed above, the reaction of “most leading American educators remained constant” (p.1). That is, to teach students how to think, not what to think. Thus, the avoidance of propaganda and indoctrination in the classroom.

The general agreement that the emphasis in schools should be on the how rather than the what to think left U.S. intellectuals to debate the meaning of this phrase and to adjust to the various challenges the American system faced. Should the curriculum be based on liberal arts, on social issues, on discipline inquiry, on exploration of students’ values and morals? Fallace is well aware that the Constitution of the United States delegates authority over education to the states, and that it is an error to assume that the rhetoric of reform of educational leaders “reflected what was actually going on in the majority of U.S. classrooms at any given time” (p. 3). Throughout most of the twentieth century, the most prominent and influential educational thinker was the Teachers College, Columbia Universitybased philosopher John Dewey. In a 1916 address, Dewey argued that the U.S.

should no longer emulate the German system of education (Prussianism) with its emphasis on bureaucracy, centralization, and regulation. Rather, the American system should emphasize persuasion, expert knowledge, and a student-centered philosophy and pedagogy that stressed how to think. World War I also gave rise to a perceived domestic threat to democratic education; government propaganda to gain support for the war. Given current and recent fears over the contents of textbooks, social media, “fake news” in the traditional media, and the concentration of media channels, Chapter 2, “In the Shadow of Propaganda,” is of particular relevance today.

The reactions of educational leaders to Prussianism and propaganda set the stage for later reactions to fascism, Nazism, and communism, and to post-World War II threats from mind control and technological challenges symbolized by Sputnik. Limitations of space prevent me from describing the nuanced job that Fallace does in presenting the often conflicting views of anthropologists, psychologists, sociologists, and philosophers in attempting to ensure that the American educational system is student-oriented and continues to emphasize the how rather than the what to think. In the final chapter (Chapter 8), Fallace argues that the liberal consensus after World War II “collapsed under the weight of domestic turmoil brought on by the Civil Rights Movement and the Vietnam War” (p. 136). One influential reaction was the emergence of Lawrence Kohlberg’s developmental framework as a guide to moral growth in a democracy. The pressing question now was: How do we teach values and morality and still say that in a democratic society, education will stress how to think and not what to think? The answer appears to be that the importance of schools as sites building free-thinking citizens has been marginalized by a view of the schools as sites that prepare students for college and careers. I know of no better source to engage students in analyses of where American educational philosophy has been during the past century, and where it may be in the near future than In the Shadow of Authoritarianism: American Education in the Twentieth Century.

Mark Oromaner – New York City

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The Mongols and the Islamic World: From Conquest to Conversion – JACKSON (THT)

JACKSON, Peter. The Mongols and the Islamic World: From Conquest to Conversion. New Haven, CT: Yale University Press, 2017. p. Resenha de: IGMEN, Ali. The History Teacher, v.52, n.3, p.527-529, may., 2019.

It is an intimidating if not impossible task to review Peter Jackson’s book, The Mongols and the Islamic World: From Conquest to Conversion. First and foremost, Jackson is one of the founders of the study of the Mongol, and Central Eurasian history in general. The second reason is the encyclopedic breadth of this book, which may be regarded as is an extensive accompaniment to his seminal 2005 book, recently published in second edition, The Mongols and the West. Jackson begins his book by referring to the new corrective scholarship that does not focus solely on the destructive force of the Mongol invasions with a clear statement that he is “concerned equally to avoid minimizing the shock of the Mongol conquest” (p. 6). He also acknowledges the superior siege technology of these “infidel nomads” as opposed to the urbanized societies of Central Eurasia (p. 6). His book tells the story of these infidel masters over the Muslim subjects, mostly from the view of the latter, especially because Jackson examines the role of Muslim allies, or client rulers of the Mongols. One of the main goals of this book is its emphasis on the Mongol territories in Central Asia as opposed to more extensively studied Jochid lands (the Qipchaq khanate or the Golden Horde) and the Ilkhanate. Despite this particular goal, Jackson makes sure we do not forget about Chinggis Khan’s offspring such as Qubilai Khan, who ruled lands as far away as China.

Jackson’s book investigates how the Mongols came to rule such large Islamized territories in such a short time. It also examines the sources, including the wars between Mongol khanates and the extent of destruction of the Mongol conquest, while describing their relationships between the subjugated Muslim rulers and their subjects. The introductory chapter on Jackson’s sources provides detailed information on the writings of mostly medieval Sunni Muslim authors along with two Shī’īs, refreshingly relying on those who mostly wrote in Persian and Arabic, including the newly discovered Akhbār-i mughūlan by Qutb al-Din Shīrāzī (p.145), as opposed to Christian and European travel accounts.

The book is divided into two parts: the first part explores the Mongol conquest to ca. 1260, and the second covers the period of divided successor states with an epilogue that elaborates on the long-term Mongol impact on the Muslim societies of Central Eurasia as late as to the nineteenth century. Although the intricate if occasionally dense first part on the conquest is necessary, educators like myself will find it most useful. It is intriguing to learn about the extent of interconnectedness of the conquered Muslim societies in Eurasia and their Mongol rulers, while understanding the limitations of commercial, artistic, and religious exchanges.

We also learn about the strategic regional Muslim leaders’ relations with the Mongol conquerors. The account of the evolution of the linguistic conversions makes the story even more fascinating. The negotiations between those local rulers who kept their thrones and the Mongol victors tell a more interesting story than the existing accounts of Mongol despotism. The case in point is Jackson’s discussion of the potential of Muslim women in gaining agency under the Mongol rule. Jackson’s analysis of the extent of the repressive laws and taxes provide possible new explanations of the Mongol rule. Furthermore, his analysis of the relationship between the Tājīk bureaucrats and the Mongol military seemed particularly enlightening to me, who is interested in the dynamics of civilian and military interactions. Jackson points out that “the fact that civilian and military affairs were not clearly differentiated added to the instability,” referring to the late thirteenth-century Ilkhanate era (p. 412). The final two chapters complicate the Islamization processes in the Mongol successor states, explaining the lengthy and sporadic nature of conversions.

Without giving away Jackson’s conclusions on Islamization, I can say that he provides a highly nuanced history that challenges any linear and teleological accounts of the Mongol conquest of the Islamic lands. In addition to the breadth and wealth of information, Jackson’s book is generous to the scholars of the Mongols, including younger scholars such as Timothy May. The mostly thematic character of the book results in a shifting chronology, which assumes that the readers possess some previous knowledge of this complex history. Most of the book provides an insight to the intricate history of Mongol politics in conquered lands. The exquisite maps, images, chronologies, and glossary make the book more legible to those readers who may pick it up without prior knowledge of this history. The particular military strategies, coupled with the political intrigue of the Mongols led to a fusion of Muslim, Mongol, and other indigenous cultures, not always destroying what existed before the conquest. Peter Jackson’s book is a worthy reflection of this sophisticated history that is suitable for advanced and graduate students and scholars who possess the basic knowledge of the Mongol conquest and Islamic societies and cultures of the region.

Ali Igmen – California State University, Long Beach.

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The Crime of Nationalism: Britain, Palestine, and Nation-Building on the Fringe of Empire – KELLY (THT)

KELLY, Matthew Kraig. The Crime of Nationalism: Britain, Palestine, and Nation-Building on the Fringe of Empire. Oakland, CA: University of California Press, 2017. 264p. Resenha de: SCHONK JR., Kenneth. The History Teacher, v.52, n.3, p.529-530, may., 2019.

Matthew Kraig Kelly argues that the long-held conception that Palestinian nationalism is equal to criminality was a conscious construct by British and Zionist (“Zionist” is used here to represent Israeli nationalists) agents to marginalize and negate Arab agency in the Middle East. At its core, The Crime of Nationalism is the story of how ideas, opinions, and biases become discourse. Specifically, Kelly reconstructs the evolution of what he calls the construction of a “crimino-national” narrative of the Great Revolt of 1936 and its immediate and long-term aftermath (p. 2). At the onset of this era, Palestinian insurgency was taken by the British at face-value: a burgeoning nationalist movement seeking political agency in the years after Sykes-Picot, when British interests in southwest Asia were increasingly influenced by Zionist leaders. As tensions flared in 1936, the British began to categorize Palestinian action as criminal and terrorist, thereby associating any and all action by the latter as irrationally violent and dissolute. Within a period of just a few years, Arab transgression—whether it was conducted through political negotiation or in public protest—was defined as violence intent on undermining the ascendant Anglo-Zionist social order.

Kelly queries as to who has the right to use force. Through the use of letters, political missives, and newspaper accounts of all sides involved in this conflict, he convincingly argues that the British came to undermine Palestinian efforts to utilize violent—and peaceful—tactics in their nationalist endeavors. Such efforts yielded myriad results for the British. Primarily was that Arab action in Palestine was saddled with a discourse of violence, thereby negating any nationalist outcome.

Relatedly, such a discourse has had the effect of creating a global consensus that Palestinian nationalism was—and is—tantamount to criminal and terrorist activity.

Moreover, this direct involvement by the British in defining Palestinian action helped to justify any violent actions by the British and Zionists as being done in the name of justice and the maintenance of social order. In sum, these actions enabled the British and Zionists to self-justify their own use of force against Palestinians. This narrative transgresses both the historiography and conventional wisdom of the era that, Kelly argues, has been constructed by the British and has been incorrectly reified in scholarly works on the history of Palestine. As such, Kelly serves to correct this historiography, shedding light on how an ahistorical narrative becomes cemented.

This book has many applications for syllabi in myriad undergraduate and graduate courses on the modern Middle East, as well as those on the British Empire.

Adopters should not be dissuaded by the relatively brief time period covered in The Crime of Nationalism, as the implications of the events in question have relevance up through the present day. Less obvious is the teaching applicability in global history courses on nationalism, crime and criminality, and historical theory. Kelly consistently and effectively demonstrates how events in Palestine were influenced by and had connections to historical events and agents abroad. One such example regards the specter of recent events in Ireland, and how this shaped Britain’s response to the Great Revolt of 1936 and the events that followed in its wake. Thus, the book has a transnational aspect that provides a point of entry—and value—for those who may not be experts in the history of the Middle East. Moreover, Kelly’s arguments regarding the discursive construct of criminality will be of great interest and use for courses on the history of law and order. Additionally, the book has applicability in courses on historiography and historical methods. How Kelly corrects the narrative of the Great Revolt demonstrates the value of an applied empiricism that employs a post-modern analysis of the construction of historical discourse. As noted above, Kelly rightfully intends this as a work that corrects a historiography that has long perpetuated mistruths about the events of 1936. In this regard, The Crime of Nationalism teaches to transgress—that is, how to skillfully and tactfully provide voice to the historically marginalized.

Kenneth Schonk Jr. – University of Wisconsin–La Crosse.

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The Injustice Never Leaves You: Anti-Mexican Violence in Texas – MARTINEZ (THT)

MARTINEZ, Monica Muñoz. The Injustice Never Leaves You: Anti-Mexican Violence in Texas. Cambridge, MA: Harvard University Press, 2018. 400p. Resenha de: WEBER, John. The History Teacher, v.52, n.3, p.530-532, may., 2019.

In her remarkable book, The Injustice Never Leaves You, Monica Muñoz Martinez examines the prevalence of anti-Mexican violence in Texas in the early twentieth century, and the importance of the lingering memories and scars created by those campaigns of violence on those who survived. Beyond highlighting episodes of racialized violence in the 1910s and their importance in solidifying a segregated society in the Texas-Mexico border region, this book also focuses on the efforts by those affected by racial violence to understand and record their own version of this history that has long been denied by both officials and academics in Texas.

Martinez has produced an enormously important history of extralegal violence that demands its readers confront past crimes and their continued resonance today.

The book’s first three chapters examine three infamous episodes of anti-Mexican violence and the struggles by survivors to challenge the presumption that wanton killing of Mexicans was justified. The lynching of Antonio Rodríguez in 1910, the murder of Jesus Bazán and Antonio Longoria by Texas Rangers in 1915, and the killing of fifteen ethnic Mexicans at Porvenir by a separate group of Texas Rangers in 1918 yielded no criminal convictions or punishments. They were all justified by state officials and local law enforcement as appropriate, if brutal, punishment for bandits or people deemed inherently criminal. Beyond these justifications that shielded Texas Rangers or lynch mob members from facing any punishment for their crimes, the families of the murdered and community members in each of these places fought against official versions of the past with a determined effort to maintain and cultivate their own understanding of history based in preserved community memories. In these alternate portrayals of the past that still circulate near the sites of these century-old murders, the Texas Rangers and white vigilantes were the criminals, preying on innocent, law-abiding locals. “Preserving memories,” writes Martinez, “became a strategy of resistance against historical inaccuracies and social amnesias” (p. 126).

Beyond just recounting these moments of violence, in other words, Martinez shows the continued resonance of these extralegal murders and the efforts by those affected to “insist that the state and cultural institutions stop disavowing this history and instead participate in the long process of reckoning” (p. 29).

The book’s next two chapters delve into efforts by the state of Texas and generations of historians to hide the brutal reality of racist violence and the Texas Rangers in the early twentieth century. Martinez shows that in 1919, the Texas government held off two efforts to punish state violence and mob violence. State Representative José Tomas Canales held a much-publicized investigation of the Texas Rangers in an attempt to both record their misdeeds and force their reform.

While the investigation produced thousands of pages of testimony and revealed the racist violence that animated Ranger activities in the border region, the state legislature, the adjutant general’s office, and the governor all resisted efforts to condemn past actions or reform the Rangers. Instead, Ranger activities were justified by Anglo state officials as necessary protections against endemic and inevitable banditry in the border region. As Martinez points out, the governor and the legislature also rejected efforts by civil rights advocates to pass anti-lynching legislation after a particularly brutal and public lynching in Hillsboro in early 1919. These simultaneous failures to confront both state and mob violence were, the author argues, clear proof that these forms of extralegal violence were selfreinforcing and “had a state-building function” (p. 6).

Martinez closes the book with an examination of recent efforts to use public history as a means to tell this more violent and complicated history. The author and other historians of the Texas-Mexico border region have worked to tell the true history of the Texas Rangers and vigilante violence through historical markers and, most ambitiously, through an exhibit at the Bullock Texas State History Museum in Austin in 2016 that revealed the history of racial violence that the state had tried to justify and then hide a century earlier.

The Injustice Never Leaves You is an important and timely book that should be read and taught widely. Martinez not only reveals the centrality of racial violence in Texas history, but also makes clear that the events of the past continue to bleed into the present through memory and through the unhealed wounds of contested history.

John Weber – Old Dominion University.

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From Asylum to Prison: Deinstitutionalization and the Rise of Mass Incarceration after 1945 – PARSONS (THT)

PARSONS, Anne E.. From Asylum to Prison: Deinstitutionalization and the Rise of Mass Incarceration after 1945. Chapel Hill, NC: The University of North Carolina Press, 2018. 240p. Resenha de: HALL JR., Clarence Jefferson. The History Teacher, v.52, n.3, p.532-533, may., 2019.

In From Asylum to Prison: Deinstitutionalization and the Rise of Mass Incarceration after 1945, Anne Parsons shows how a renewed commitment to human rights and individual liberty after the horrors of World War II helped spur a movement against the long-term confinement of individuals diagnosed with mental illness. Using the state of Pennsylvania as a case study, Parsons highlights how pressure from mental hospital residents and employees, investigative journalists, civil rights attorneys, and progressive advocacy groups yielded significant improvements in the treatment, care, and living conditions of people with mental illnesses both inside institutions and in new, community-based settings. Inadequate funding and political support for these initiatives, however, quickly imperiled the newly won freedoms of many formerly institutionalized men and women. Sadly, as Parsons demonstrates, the convergence of increasing national crime rates, the violence and uprisings of the Civil Rights Era, and the growing public visibility of individuals diagnosed with mental illness fueled a bipartisan politics of fear. With involuntary hospitalization no longer a readily available option, many men and women exhibiting behaviors associated with mental illness—regardless of diagnosis—often found themselves arrested, jailed, and imprisoned in order to calm the anxieties of white, middleclass voters. In this way, Parsons argues, the post-war deinstitutionalization of mental health care aided in driving the late twentieth-century growth of mass incarceration, both in Pennsylvania and across the United States.

From Asylum to Prison joins a rich and growing literature on the history of the American carceral state. By centering the post-World War II expansion of the U.S. prison system squarely within the history of deinstitutionalization, Parsons reminds readers that mass incarceration, far from being a distinct historical phenomenon, has deep historical roots outside the halls of the criminal legal system. In this case, efforts to improve the care and treatment of those with mental illnesses in non-institutional settings ultimately drove many former patients back into institutional settings (and in some cases, as Parsons shows, into prisons that had once served as mental hospitals). At the same time, however, as Parsons is contending with an ongoing social and political problem in the U.S., From Asylum to Prison demonstrates—if policy makers and elected officials care to pay attention—the potentially life-changing value of historical research for the present and future. As Parsons writes, “History can be a great healer. I write about the deinstitutionalization of mental hospitals and the rise of prisons in order to learn from these cycles of confinement and to work to create a more inclusive and equitable society” (p. 19). Accordingly, each chapter is replete with lessons on the countless dangers of viewing involuntary, long-term confinement in institutional settings as a remedy for the nation’s social ills. Thus, Parsons has made an important historiographical contribution that simultaneously serves as a valuable cautionary tale for public officials now and into the future.

The clear, linear narrative of From Asylum to Prison makes it an ideal text for teaching the history of deinstitutionalization and mass incarceration in the seven decades since World War II. Though Parsons focuses her study on communities and institutions across Pennsylvania, she does so without sacrificing the context that is crucial to understanding how the experiences of one state can be representative of the entire nation. Further, Parsons’ research—combining a thorough assemblage of government documents, popular literature and film, academic research studies, journalistic accounts, patient correspondence, and advocacy organizations’ records—reinforces the value of rigorous interdisciplinary scholarship. Finally, Parsons underscores the importance of understanding past choices and developments for making improvements to a criminal legal system that, at least in the case of From Asylum to Prison, remains in bad need of improvement. For these reasons, Parsons’s book would be appropriate for use with students. However, as the book does at times assume some pre-existing knowledge of broad historical context, From Asylum to Prison would best be used in either upper-division undergraduate history courses or in graduate-level seminars. Nevertheless, teachers of undergraduate survey courses in U.S. history, and possibly even Advanced Placement high school history teachers, may find particular portions of the book useful for constructing their own lessons on the tangled politics of mental health care and imprisonment in post-war America.

Clarence Jefferson Hall Jr. – Queensborough Community College / CUNY.

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Raza Sí, Migra No: Chicano Movement Struggles for Immigrant Rights in San Diego – PATIÑO (THT)

PATIÑO, Jimmy. Raza Sí, Migra No: Chicano Movement Struggles for Immigrant Rights in San Diego. Chapel Hill, NC: The University of North Carolina Press, 2017. 356p. Resenha de: RODRÍGUEZ, Elvia. The History Teacher, v.52, n.3, p.533-535, may., 2019.

In his book, Jimmy Patiño analyzes how the United States’ immigration policies became a focal point for Chicano Movement activists, particularly in San Diego.

San Diego, being a borderland region, emerges as a site of unity between Chicanos and Mexican nationals, as both groups were often victims of brutality from Border Patrol agents and/or experienced the negative effects of immigration laws (family separations, wage suppression, etc.). This unity is a “raza sí, migra no” stance that propels social and political action.

Part I of the book addresses activism around immigration through the 1930s-1950s with groups like El Congreso del Pueblo que Habla Español (Congress of Spanish-Speaking People) and Hermandad Mexicana (Mexican Brotherhood). Chicanos’ activism in the 1960s and 1970s is the focus of Part II.

Here, readers learn about the efforts of organizations such as CASA Justicia and La Raza Unida Party to resist what Patiño calls the “deportation regime” and how individuals in these organizations bring about a shift in the Chicano Movement’s agenda, not only by taking on the issue of immigration, but in so doing, adopting a transnational identity that unites Chicanos and Mexicans. “Raza sí, migra no” activists then focused on appealing to both the United States and Mexico to address the root causes of illegal immigration. The final chapter in Part II momentarily moves away from immigration to look at another form of persecution that people of color encountered—police brutality. Part III deals with San Diego organizations, especially the Committee on Chicano Rights (CCR), protesting the Carter and Reagan administrations’ oppressive immigration procedures. Patiño uses Herman Baca, who headed many of those efforts, as a connecting thread throughout the narrative. For decades, Baca and his print shop served as the center of resistance against the deportation regime.

Raza Sí, Migra No is a book that could be assigned in an upper-division course dealing with American, immigration, or Chicano history. A discussion on labor history would also benefit from the information presented by Patiño. Chapter 2, one of the strongest sections of the book, would be a valuable addition to any women’s history class. Here, Patiño discusses how white Border Patrol agents asserted their dominance over the Mexican/Chicano community by sexually harassing and/or assaulting women of Mexican ancestry. Patiño also demonstrates the patriarchal norms of Mexican culture as women were usually seen only as wives and mothers. Due to its very specific scope, the best place for this book, however, may be in a graduate seminar. Students would certainly receive greater insights into the debates and aims of the Chicano Movement, such as organizations’ diverging stance on support for amnesty or who is a member of la raza and who is not (many Chicano individuals excluded Mexicans from this community). Raza Sí, Migra No could also be used in a seminar on social movements, as Patiño does a masterful job at tracing the evolution and sometimes collapse of organizations seeking rights for minorities. Aside from students, educators may also find the book useful, especially when discussing the Carter administration as well as immigration policies of the late twentieth century.

Patiño’s critical look at Chicano activism makes his book a fine addition to the field. He does not shy away from presenting fractures and even failures within the Chicano movement. Moreover, Patiño’s examination of the coalition between Chicanos and African Americans (against police brutality in San Diego) is not typically found in this scholarship, but is a welcome contribution. While Raza Sí, Migra No presents fascinating issues, in some instances, the reader is left wanting more. For example, in Chapter 7, Patiño brings up the Ku Klux Klan’s plan to start a patrolling program on the U.S.-Mexico border, and he goes on to discuss the press coverage the Klan received over their plan, but then readers do not get more information on this very intriguing matter. Similarly, Patiño raises the idea that “the amnesty provisions of [the Reagan administration’s] IRCA co-opted social movement forces that could have focused on uprooting the deportation regime” (p. 265), but does so in the conclusion and devotes only a few sentences to this assertion. These exceptions aside, Raza Sí, Migra No absolutely furthers the scholarship of Chicano activism, but in addressing immigration policies, this book also sheds light on a matter that is at the forefront of today’s political climate.

Elvia Rodríguez – California State University, Fresno.

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Object Lessons: How Nineteenth-Century Americans Learned to Make Sense of the Material World – CARTER (THT)

CARTER, Sarah Anne. Object Lessons: How Nineteenth-Century Americans Learned to Make Sense of the Material World. New York: Oxford University Press, 2018. 216p. Resenha de: BICKFORD III, John. The History Teacher, v.52, n.3, p.523-524, may., 2019.

Imagine a class exploring and classifying objects like archivists in a museum. Students’ thinking shifts from observation to inference as items are considered and reconsidered; the teacher guides attention towards concealed, unnoticed, or misunderstood aspects. Sarah Anne Carter’s Object Lessons details how nineteenthcentury American teachers used common items as catalysts for learning.

Object lessons, in their simplest form, appear as the teacher positions students to analyze and organize. Heuristics were taught and scaffolded, with the intent to teach how to think, not what to remember. Students scrutinized the minutiae for meaning and systematized their findings: natural or assembled, animal or plant, organic or inorganic, to list a few. Learners’ abstract thinking generated multifaceted understandings about the origins and avenues of familiar, overlooked objects (Chapters 1 and 2). The history and iterations of this interdisciplinary, inquirybased pedagogy are traced from Old World Europe to antebellum New York and the postbellum South; the reader follows the evolution of object lessons from classrooms into fictional stories and the trade cards, magazine advertisements, and street posters of political campaigns and business adverts (Chapter 3). Carter’s book is accessible, evocative, and engaging, much like the objects that form the book’s footing.

Object Lessons has import for scholars and teachers of distinct disciplines. Carter’s work contributes to the fields of American Studies, American history, and the history and foundations of American education. Education foundations researchers will recognize the ingenuity of having students interrogate windows, ladders, chairs, granite, tin, and other everyday objects for interconnections and manifest labor in their construction and relocation. Educational philosophy scholars will appreciate the epistemological and ontological assumptions in an ancestor of cognitive constructivism and sociocultural theory—prior knowledge impacts interpretations of new information; understandings are contextually contingent and emergent; evocative catalysts coupled with age-appropriate scaffolding sparks criticality; and through observation and reflection, teachers can better understand how students construct, organize, and articulate understandings. English teachers will identify a myriad of critical thinking and literacy opportunities, like close readings, text-based writing, and intertextual connections between diverse sources. Early childhood experts will spot the elicitation of curiosity in the hands-on, minds-on inquiry of a forebear of the Reggio Emilia approach and Montessori education. Educational psychologists will identify the cognitive tasks—analysis, synthesis, and evaluation— as students’ schema is refined with new experiences and understandings. Teachers will be reminded of education’s cyclical nature: inquiry, criticality, disciplinary literacy, interdisciplinary themes, and a relevant curricula that refine students’ prior knowledge all appeared within nineteenth-century object lessons and in twentyfirst- century educational initiatives. History teachers, especially, will likely find a treasury of new ideas. History students can engage in object lessons to experience the novelty, to recognize the austerity of nineteenth-century American schooling, and to illumine nineteenth-century America’s racial and social hierarchy (Chapter 4).

To highlight one example, the book features a detail-laden photograph of a white teacher leading a class of African American students examining a Native American. Carter unpacks this living object lesson to consider the accompanying ethical considerations along with a myriad of misrepresentations and anachronisms (pp. 113-114). Modeling how teachers were to guide scrutiny through interjection of obscure yet important details at opportune times, Carter points out how the school name of Hampton Institute, located in the photograph’s title, would mean little to students. The Hampton Institute was founded to train newly freed African Americans for service for which its most famous alumnus, Booker T.

Washington, would later be synonymous. Not grounded in literacy, object lessons complemented Hampton students’ training in gardening, farming, washing, and ironing. Photographs of Hampton’s newly freed African Americans learning to labor can offer an aperture through which twenty-first-century inhabitants can view America’s nineteenth-century past.

Object lessons ebbed, as Carter details, towards the nineteenth century’s end as new trends with differing emphases emerged. Traces of object lessons have remained or have reemerged at times. As Carter argues, “That some nineteenthcentury Americans learned and believed that things and pictures could stabilize or even crystallize ideas, however simple, should be part of the history of ideas in the United States” (p. 137).

John H. Bickford IIIEastern Illinois University

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As Primeiras-damas de Roma: as mulheres por trás dos Césares | Annelise Freisenbruch

As Primeiras-damas de Roma é o primeiro livro da autora inglesa Annelise Freisenbruch, doutora em Antiguidade Clássica pela Universidade de Cambridge e pesquisadora assistente na produção de livros e filmes populares sobre o mundo antigo. Publicado no Brasil em 2015 pela Editora Record, o livro é fruto de um estudo inglês homônimo lançado pela autora em 2010. Em sua obra, de caráter historiográfico, Freisenbruch analisa a importância das primeiras-damas romanas na ascensão e construção do Império Romano.

Para auxiliar e situar o leitor acerca do tema a ser discutido, Annelise divide o livro em nove capítulos, além de utilizar árvores genealógicas, fontes literárias e arqueológicas, mapas do Império Romano, obras literárias contemporâneas, filmes e séries do século XX que abordam o assunto. Leia Mais

Formes urbaines, de l’îlot à la barre | Philippe Panerai, Jean Castex e Jean-Charles DePaule

De acordo com Chico Mendes, Francisco Veríssimo e William Bittar (1), “em história, todos os acontecimentos são consequência de um processo e, naturalmente, exercem influência sobre vários outros [processos]”. Considerando a história da cidade, o conjunto de fatores que contribuiu para o surgimento e desenvolvimento da cidade industrial foi a semente que mais tarde germinaria como a alteração radical da forma urbana no século 20. Essa alteração, segundo Christian de Portzamparc (2), correspondeu à “Segunda Era da cidade”, caracterizada pela “explosão do tecido urbano” (3) na qual os vazios urbanos predominam sobre os cheios, rompendo com a densidade construída da cidade tradicional. Neste sentido, a obra aqui resenhada Formes Urbaines: de l’îlot à la Barre, cujo título da versão em português é “Formas urbanas: a dissolução da quadra” busca investigar a relação edifício-quadra-cidade e compreender criticamente os ideais urbanísticos que conformaram a ideologia de cidade proposta pelo Movimento Moderno. Leia Mais

Red Light City. Montreal/Amsterdã: The Architecture Observer | Tsaiher Cheng

Neste livro a arquiteta e urbanista taiwanesa Tsaiher Cheng (1) apresenta como discussão central a relação entre a prostituição – trabalho sexual – e o espaço urbano. Parte-se do entendimento que isto é uma via de mão dupla, ou seja, não apenas a indústria do sexo é afetada pelas políticas urbanas como também desempenha um papel importante para a forma urbana, a organização espacial e dinâmica das cidades. Dividido em oito capítulos, o livro dedica cinco deles à análise de cidades específicas: Hong Kong, Taipei, Montreal, Antuérpia e Amsterdã e cada uma delas é analisada por um estudioso local. Assim, apesar de Tsaiher Cheng ser a principal autora do livro, a publicação conta ainda com os textos de Jung-Che Chang, Magdalena Sabat, Maarten Loopmans e Manuel Aalbers e Hans Ibelings, autor do prefácio. Ainda, Cheng também apresenta uma análise da tipologia dos bordéis do red light district de Amsterdã e sintetiza os modelos de organização da indústria do sexo nas cidades.

No primeiro capítulo, “An intense struggle in urban renew processes”, Cheng explica que os red light districts são áreas voltadas ao sexo, cujas atividades costumam ser conhecidas para além de seus limites. Contudo, cada zona é diferente, pois sua organização depende de vários aspectos, entre eles a morfologia urbana, a localização e o enquadramento legal do trabalho sexual. Com relação a este último aspecto, a autora esclarece que há quatro tipos de sistemas de regulação do trabalho sexual: a) quando o trabalho sexual é legal e regulado; b) quando o trabalho sexual é legal, mas estabelecimentos como bordéis são ilegais; c) quando o trabalho sexual é ilegal, mas o/a trabalhador/a sexual não é considerado criminoso/a; d) quando o trabalho sexual é ilegal. Leia Mais

Instantâneos de Rui: fotografias das campanhas presidenciais de Rui Barbosa (1910-1919) | Luís Guilherme Sodré Teixeira, Pedro Krause Ribeiro, Silvana Maria da Silva Telles

Na virada de 1909 para 1910, o Brasil chegou a conhecer uma corrida presidencial que entrou na história como campanha “civilista”. Pela primeira vez no país surgiu uma disputa pública e democrática por votos, encabeçada pelo então candidato Rui Barbosa (1849- 1923). Até esse momento, nos pleitos anteriores ao cargo de presidente, os eleitos Prudente de Morais, Campos Sales, Rodrigues Alves e Afonso Penna sequer viram-se compelidos a se empenhar ativamente em campanhas eleitorais. O resultado das eleições já tinha sido negociado no meio da elite política através de conversas de bastidores, entre muros fechados. Leia Mais

O idiota | Fiódor Dostoiévski

“bem vistas as coisas, um arquiduque, um rei, um imperador não são mais do que cornacas montados num elefante”

José Saramago, A viagem do elefante

Fiodor Dostoiévski leva muito tempo para escrever seu magnífico livro O idiota. Ele o concebe em sintonia com as condições sociais que impõem ao povo russo a necessidade histórica de determinação de uma nova civilização. Até primeira metade do século 19, a Rússia é um reino agrário fundado na servidão e governado por imperadores. Coube ao Czar Alexandre II, em 1861, abolir o estatuto da servidão e, desse modo, criar condições ao processo de industrialização do Império russo.

O avanço do capitalismo na Rússia – que leva à extinção da servidão –, se constitui por meio de uma aliança política entre nobres e capitalistas. Os servos repentinamente separados da possibilidade de produzirem sua existência, tal como antes, são compelidos à migração, à busca de trabalho pago fora de suas aldeias e ao assalariamento nas cidades. Nobres também passam a viver nas cidades. Nestas, dedicam-se além do ócio, ao luxo, aos prazeres e devassidões proporcionados por uma riqueza secularmente acumulada. Assim existirão até que sociedade seja subvertida de modo a configurar uma nova ordem de relações humanas. Leia Mais

Il giovane Schopenhauer. L’origine della metafisica della volontà – NOVEMBRE (V-RIF)

NOVEMBRE, Alessandro. Il giovane Schopenhauer. L’origine della metafisica della volontà. Milão/Udine: Mimesis, 2018. Resenha de: RAMOS, Flamarion Caldeira. Voluntas – Revista Internacional de Filosofia, Santa Maria, v.10, n 2, maio/ago., p, 162-167, 2019.

Embora a pesquisa acadêmica sobre a filosofia de Schopenhauer já tenha oferecido ótimos frutos, principalmente nos últimos trinta anos (por ocasião do seu segundo centenário em 1988, quando surgiu o volume mais extenso do tradicional Schopenhauer Jahrbuch), ainda faltava um trabalho de fôlego que conseguisse reconstruir em todos os seus aspectos a gênese de sua “metafísica da vontade”. Com a publicação do livro Il giovane Schopenhauer. L’origine della metafisica della volontà (Milão, Udine: Mimesis, 2018, 624 p.) de Alessandro Novembre essa lacuna foi preenchida com grande êxito. Trata-se de uma obra riquíssima que promete e realiza uma leitura profunda e sistemática de todas as fontes ora disponíveis para a pesquisa sobre a origem da filosofia de Schopenhauer.

É verdade que alguns passos na direção dessa tarefa já haviam sido dados e nesse sentido podemos citar trabalhos como o seminal livro de Arthur Hübscher, Denker gegen den Strom (Bonn: Bouvier, 1973), que contém importantes contribuições para o estudo do “jovem Schopenhauer”; o livro de Yasuo Kamata Der junge Schopenhauer: Genese der Grundgedankens der Welt als Wille und Vorstellung (Freiburg/München, Verlag Karl Aber, 1988), que faz uma perspicaz leitura dos Manuscritos Póstumos e oferece uma interpretação original da primeira edição de O mundo como vontade e representação; a biografia de Rüdiger Safranski (Schopenhauer und die wilden Jahre der Philosophie, Carl Hanser Verlag, Munique-Viena, 1987; Schopenhauer e os anos mais selvagens da filosofia. Tradução Willian Lagos. São Paulo: Geração Editorial, 2011), que, partindo da leitura dos escritos póstumos e da correspondência reconstrói os dados biográficos de Schopenhauer. Nos últimos anos surgiram algumas importantes contribuições para a compreensão da presença de Schelling na gênese da metafísica de Schopenhauer, como os trabalhos de Jair Barboza Infinitude Subjetiva e Estética: Natureza e Arte em Schelling e Schopenhauer (São Paulo: Unesp, 2015) e de R. Jan Berg Objektiver Idealismus und Voluntarismus in der Metaphysik Schellings und Schopenhauers (Würzburg, K & N, 2003). É possível encontrar, além disso, contribuições sobre a presença do “pensamento oriental” na origem da filosofia de Schopenhauer, a saber no período que vai do início de seus estudos (1803-1804) até a redação de O mundo como Vontade e Representação (1814-1818). Nos últimos anos, além de estudos que versam sobre as primeiras leituras que Schopenhauer empreendeu das obras de Platão e Kant, têm surgido pesquisas sobre a importância de Schulze e Fichte na gênese de algumas concepções fundamentais da filosofia de Schopenhauer. O livro em questão surgiu justamente da tese de doutorado de Alessandro Novembre sobre a presença de Fichte no pensamento do jovem Schopenhauer: Il giovane Schopenhauer e Fichte. La duplicità della coscienza (Lecce/Mainz, 2011). Mas o êxito alcançado com a presente publicação, que justifica a ampliação do título, se dá pelo fato de que não se trata mais “apenas” (como se fosse pouco) de rastrear os traços fichtianos do jovem Schopenhauer. Novembre conseguiu desdobrar todos os laços da gênese da metafísica da vontade de Schopenhauer. Não apenas a relação do jovem filósofo com Fichte, Schelling, ou o impacto de Schulze em sua formação filosófica. O autor reconstruiu com grande apuro filológico todos os passos do jovem Schopenhauer, da sua formação petista ao encontro com o pensamento oriental; da leitura dos românticos ao confronto com “o divino Platão e o assombroso Kant”, e ainda mais.

O livro percorre em ordem cronológica os manuscritos do jovem Schopenhauer, desde as primeiras linhas do primeiro volume que contém as anotações dos anos 18041811, passa pelas anotações das aulas de Schulze e Fichte, a descoberta do pensamento oriental, acompanha a elaboração da dissertação de 1813 e desemboca nos primeiros esboços (a partir de 1814) da obra magna O mundo como vontade e representação (obra que, como se sabe, foi publicada no final de 1818 já com a data de 1819). Para dar conta da amplitude desta temática, o livro foi estruturado em quatro grandes partes: a primeira delas tem como título “Os manuscritos dos anos 184-1811: da formação petista ao estudo da filosofia”. Nela, o autor persegue a “pré-compreensão do mundo” do joveníssimo Schopenhauer e o dualismo entre o temporal e o eterno (capítulo 1). Constituinte da primeira visão de mundo que Schopenhauer desenvolve nesses primeiros escritos é a contraposição entre a ordem do tempo e a ordem das coisas eternas, a partir da qual surgem as questões metafísicas sobre a distinção entre o sensível e o suprassensível, o mundo corpóreo e o mundo dos espíritos e, na esfera da moralidade, entre o bem e o mal. Ao final deste primeiro capítulo, Novembre analisa a distinção entre duas concepções de vontade, que surge dessa visão dualista do mundo. Assim, “em relação ao problema do mal, Schopenhauer admite, como os maniqueístas, a possibilidade de que uma potência divina que quer o bem (cuja vontade é “boa”) coexista com uma potência divina que quer o mal (cuja vontade é “má”)”(p.61). A partir desse dualismo, Novembre reconstrói os dois sentidos de vontade na história da filosofia, a primeira enquanto boúlesis, que é a vontade moral orientada para o bem, tal como elaborada e desenvolvida na tradição da filosofia moral antiga, nomeadamente Platão e Aristóteles até a recepção estóica de Cícero que a traduz como voluntas e a concebe como “quae quid cum ratione desiderat” (p. 64). A tradição judaico-cristã, por sua vez, conceberá a possibilidade de um querer que se dirige não apenas para o bem, mas conscientemente ao mal (thélema). Será principalmente com Agostinho que essa possibilidade será inteiramente desdobrada a fim de explicar o “pecado original” e, exatamente por isso, o bispo de Hipona é considerado o “inventor da vontade” nesse sentido dualista que permitiria pensar num querer voltado não só para o bem, mas também para o mal (Ibid, p. 64-5). Como comprovam os textos posteriores de Schopenhauer, sua concepção de vontade deve ser compreendida antes como thélema do que como boúlesis.

Após esse primeiro passo, o segundo percorre as anotações das aulas de Schulze em Göttingen, cujos cursos de metafísica e psicologia, o jovem Schopenhauer acompanha a partir do semestre de inverno de 1810-1811. De modo paralelo, o autor rastreia as primeiras leituras que Schopenhauer empreendeu de Platão, Schelling e Kant. Como se sabe, Schopenhauer seguirá o conselho de Schulze de dedicar-se antes de tudo e exclusivamente à leitura de Platão e Kant. O que se nota menos, e essa é uma importante contribuição da investigação de Novembre, é que a leitura da Geschichte der Philosophie de Tennemann foi determinante na leitura que Schopenhauer fez dos dois filósofos: desde então o filósofo lia Platão e Kant como complementares e identifica phainomenon e Erscheinung, por um lado, e coisa em si e Ideia, por outro. Com a análise desses elementos, Novembre conclui a primeira parte de seu livro afirmando que “todo o desenvolvimento sucessivo do pensamento de Schopenhauer, até o fim da primeira elaboração de seu sistema maduro, é a resultante problemática destas duas forças contrastantes: o vetor (em sentido amplo) platônico – afirmação da possibilidade, da parte do homem, de conhecer a realidade absoluta – e o vetor (em sentido estrito) kantiano – afirmação dos limites da faculdade humana cognoscente, ou seja, da impossibilidade, da parte do homem, de conhecer a realidade absoluta” (p. 102).

A segunda parte do livro tem como título: “O confronto com Fichte e Schelling (1811/12): do entusiasmo inicial à definitiva aversão”. Trata-se agora de investigar a estadia de Schopenhauer em Berlim, para onde ele se transfere “na esperança de encontrar em Fichte um verdadeiro filósofo e um grande espírito” (p. 102, Cf. GB, p. 261). De fato, Schopenhauer acompanha em Berlim pelo menos três cursos de Fichte entre 1811 e 1812: um curso introdutório chamado “Sobre o estudo da filosofia”, o curso “Sobre os fatos da consciência” e o curso “Sobre a Doutrina-da-Ciência”. É pela transcrição de Schopenhauer que se conhecem tais cursos (HN II, p. 16-216). Como nota Kossler, “pode-se dizer que Schopenhauer, que mais tarde em seus escritos publicados insultou Fichte chamando-o sobretudo de “fanfarrão”, foi um ouvinte extremamente atento e sério, que, no entanto, logo traduzia o que ouvia para o seu pensamento intuitivo, ligando- o a uma ordem de ideias já existente. (…) Não obstante, Schopenhauer assistiu ao curso inteiro e jamais deixou de justificar a ausência de um registro”1. De fato, ainda que rejeite boa parte do que absorve desses cursos fichtianos, o confronto com o autor da Wissenschaftslehre foi de fundamental importância para o desenvolvimento intelectual de Schopenhauer. Novembre se detém principalmente na reflexão de Schopenhauer, a partir das aulas de Fichte, sobre o conhecimento do absoluto, e para isso desempenha papel central a discussão sobre a noção de intuição e o conhecimento para além dos limites da filosofia crítica kantiana. É nesse contexto que a relação entre gênio e loucura, como dois modos de conhecimento fora da circunscrição do saber fenomênico surge no pensamento de Schopenhauer. Novembre não deixa de fazer uma digressão sobre o modo como o pensamento romântico (em Jean Paul e E. T. A Hoffmann) tratou a questão. Ainda mais essencial, porém, é nesse contexto a tematização sobre o conceito de Besonnenheit2. Esse conceito, central para a compreensão da filosofia de Schopenhauer como um todo, surge a partir dos cursos de Fichte. Para este, a Besonnenheit é compreendida como a “consciência superior” constitutiva da filosofia definida como “saber do saber”. É a consciência da consciência, contraposta à mera consciência empírica. Enquanto a consciência comum está voltada para as coisas, a absolute Besonnenheit volta-se para a consciência da consciência das coisas, para o saber, a percepção. De fato, se quase todos os comentários de Schopenhauer sobre o curso de Fichte são críticos, pelo menos um ponto parece encontrar a concordância do jovem filósofo: a existência de um ponto de vista superior ao do senso comum, da consciência empírica. Daí o significado do termo Besonnenheit – que encontrará todo um desenvolvimento em O Mundo como Vontade e Representação.

Paralelamente aos cursos de Fichte, Schopenhauer empreendeu a leitura de diversas obras de Schelling. O interesse por Schelling pode ser explicado por sua admissão da cognoscibilidade da coisa em si, o que estava em conformidade com as lições que Schulze oferecia de sua filosofia. Portanto, foi com grande expectativa que o jovem Arthur se interessou pelos dois filósofos: havia a promessa de uma nova metafísica que, não obstante pretenda estar legitimada diante do criticismo, pudesse resgatar o conhecimento e, de certa forma, contornar o “pesadelo” da crítica kantiana. Em seu intuito de unificar Kant e Platão, Schopenhauer estava em busca justamente dessa nova metafísica. O entusiasmo, porém, cedeu lugar à decepção e, no final das contas, o jovem Schopenhauer considerou fraudulenta a promessa de Fichte e Schelling (o assim chamado “idealismo alemão”): ambos fazem um “uso transcendente do intelecto”, o que torna suas filosofias ilegítimas do ponto de vista do criticismo kantiano (capítulo 6). Nessa parte do trabalho, Novembre reconstrói a crítica de Schopenhauer às filosofias de Fichte e Schelling, prescindindo do sarcasmo e do rancor com que ele quase sempre se exprime, e focalizando, antes, as razões propriamente teóricas de suas críticas. “No fundo, permanece sempre a mesma objeção: o uso transcendente do intelecto” (p. 215). Concepções tais como a de “intuição intelectual” e “absoluto”, fundamentais para Fichte e Schelling (e também para Hegel) são rejeitadas e suas filosofias rebaixadas ao nível da filosofia pré-crítica. Por isso, afirma Schopenhauer, a “doutrina de Schelling deve rejeitar-se pelo mesmo motivo pelo qual deve rejeitar-se a dogmática de Wolff: pelo uso transcendente das categorias e das leis da sensibilidade pura” (HN, II, p. 328, citado por Novembre, p. 210).

A partir da terceira parte do livro, chamada “Uma primeira tentativa de metafísica pós-kantiana: a teoria da ‘consciência melhor’”, Novembre passa a detalhar a concepção própria que Schopenhuaer começa a esboçar em 1812. Essa empresa é desdobrada em dois momentos. Num primeiro (capítulo 7), trata-se de investigar o surgimento de um pensamento autônomo no projeto de um “verdadeiro criticismo” e na figura da “consciência melhor”. Num segundo momento (capítulo 8), são analisados os manuscritos de 1813 em que a teoria da consciência melhor é desenvolvida sistematicamente. Nessa parte da obra, portanto, trata-se de acompanhar, desde suas origens até seu desaparecimento, a teoria de Schopenhauer sobre a “consciência melhor” (besseres Bewußtsein), constitutiva do primeiro esboço de sistema que o jovem filósofo desenvolveu entre 1812 e 1813. Novembre investiga a gênese dessa teoria, rastreia suas origens, visíveis já nas anotações das aulas de Fichte, seu apogeu em certo momento dos escritos juvenis, até seu desaparecimento, por conta do resultado da tensão constitutiva da experiência intelectual do jovem Schopenhauer: a tensão entre a “alma platônica” e a “alma kantiana”. Ao fim desse tensionamento, resultará que a noção de “consciência melhor” não será apta para desenvolver uma metafísica que estivesse à altura de um “verdadeiro e completo criticismo” e nem cumprirá os requisitos especulativos para a “decifração do enigma do mundo” – a noção de “sujeito puro do conhecimento” elaborada a partir de 1814 assumirá o protagonismo e cumprirá aquilo que era visado pela noção juvenil de “consciência melhor”. Com isso, vê-se que, ainda que tenha sido fundamental a reflexão sobre a filosofia de Fichte no período berlinense, a filosofia madura de Schopenhauer se constitui à medida que sua contraposição ao autor da Doutrina-da-Ciência fica mais evidente. O mesmo pode ser dito sobre sua relação com Schelling: se ainda na Dissertação sobre a quadrúplice raiz do princípio de razão suficiente3 de 1813 é possível encontrar traços de Schelling no conceito de “vontade” e de “caráter inteligível”, da mesma forma, a concepção madura de Schopenhauer sobre a “vontade de viver” como “coisa em si” se constitui em seu afastamento da filosofia do autor das Investigações filosóficas sobre a essência da liberdade humana.

Com isso, chegamos à parte quarta e final da obra, chamada “O abandono da teoria da consciência melhor e a origem da metafísica da vontade”. No nono capítulo, Novembre analisa os conceitos de vontade e caráter inteligível na Dissertação de 1813. À luz do que foi visto até aqui, ou seja, após a análise sistemática dos manuscritos de Schopenhauer até 1813, sua visão da filosofia kantiana – bastante influenciada pela leitura cética de Schulze, seu impulso platônico em direção ao conhecimento da “verdade” que ele identifica com o âmbito do “suprassensível”, Novembre interpreta a primeira edição da Dissertação de 1813 como resultante de uma leitura crítica de duas obras seminais do “idealismo alemão”: o System der Sittenlehre de Fichte e o Freihetsschrift4 de Schelling. Com isso, fica mais ainda mais claro o sentido da passagem aludida acima, do jovem Schopenhauer se contrapondo à via seguida pela filosofia do idealismo alemão – sobretudo Fichte e Schelling, cujo conhecimento profundo Schopenhauer desde então já possuía, como a pesquisa historiográfica vem demonstrando há algum tempo,– e amadurecendo seu próprio pensamento rumo ao “sistema” que vem à luz em 1818 com O mundo como vontade e representação.

Concluído esse movimento, Novembre passa então a dedicar sua investigação aos “pródromos da metafísica da vontade”, no décimo capítulo volta-se para os manuscritos de 1814 centralizando sua análise no desenvolvimento da doutrina do caráter inteligível. Em seguinda, no décimo primeiro capítulo, tematiza o estudo do Oupnek´hat e o encontro com a sabedoria indiana. É nesse mesmo contexto que o conceito de uma universal “vontade de viver” é elaborado, o que dará as condições de possibilidade de nascimento do “sistema” na mesma medida em que a teoria da “consciência melhor” é definitivamente abandonada. Com essa reconstrução genética da filosofia de Schopenhauer, o autor encontra-se em condições de fornecer “uma chave explicativa particularmente fecunda” para resolver alguns pontos problemáticos da obra magna do filósofo. À análise desses pontos e ao desenvolvimento dessa chave interpretativa é dedicado o último capítulo do livro, intitulado “Dos manuscritos juvenis a O mundo como vontade e representação”. Com esse último passo, percebe-se que a contribuição oferecida pela obra de Novembre vai além de uma investigação doxográfica sobre as fontes do pensamento de Schopenhauer, sua interpretação de outros filósofos e a aparição de alguns conceitos chaves em seus manuscritos. Tem-se em vista uma reconstrução da filosofia de Schopenhauer que tornaria possível lidar com suas aporias ao menos de modo diverso daquele que muitas vezes aparece na literatura crítica: ao invés de desconsiderar o momento aporético na filosofia de Schopenhauer, ou de enfatizá-lo ao ponto de tornar o sistema contraditório e, portanto, inconsistente, ou ainda esboçar interpretações ou soluções que, por mais engenhosas e refinadas que sejam, se fundam em uma conceitualidade ou numa terminologia estranha ao pensamento de Schopenhauer, o que se propõe é, mesmo reconhecendo a presença e a efetividade do “momento aporético”, “uma explicação conceitual e terminologicamente intrínseca ao pensamento de Schopenhauer, considerado não apenas ‘sincronicamente’, mas em todo o processo de sua evolução” (p. 27). O leitor que acompanhar o percurso de Novembre nessa reconstrução genética da filosofia de Schopenhauer até o fim descobrirá que a chave interpretativa proposta está na doutrina do caráter inteligível: seu papel silenciosamente fundador será destacado na interpretação do momento crucial da metafísica da vontade, a saber, o argumento de analogia e a passagem da vontade como fenômeno à vontade como coisa em si. Não é o caso, nesta breve resenha, de desdobrar os termos do problema e nem mesmo resumir a argumentação de Novembre em favor da centralidade da teoria do caráter inteligível5 na metafísica da vontade de Schopenhauer. Faço questão apenas de indicar esse passo como exemplo das muitas contribuições que essa obra monumental oferece ao estudo da filosofia de Schopenhauer. Embora não se possa dizer do trabalho de Novembre – e nem de nenhum outro – que ele tenha conseguido dar conta de toda a riqueza intrínseca à experiência intelectual de Schopenhauer na elaboração de sua metafísica da vontade (em sua primeira versão), é certo que todo estudioso da gênese de sua filosofia terá que necessariamente se remeter a esse trabalho. Certo é, também que o material presente nos escritos póstumos de Schopenhauer é constituído de uma riqueza inesgotável, o que nos deve manter atentos para as novas edições que estão sendo publicadas agora. Enfim, com sua obra Novembre certamente não disse tudo que era possível dizer sobre o pensamento do jovem Schopenhauer, mas o pesquisador que quiser desbravar esse período da filosofia do autor de O mundo como vontade e representação terá a partir de agora esse estudo precioso no mínimo como incontornável ponto de partida.

Notas

1 Kossler, M. “A única intuição – o único pensamento: Sobre a questão do sistema em Fichte e em Schopenhauer”. Revista Dois Pontos: Curitiba, São Carlos, vol. 4, n. 1, p. 153-173, abril, 2007, p. 158.f

2 Ao traduzir o artigo “Sobre o papel do discernimento [Besonnenheit] na estética de Arthur Schopenhauer de Mathias Kossler (In Debona, Vilmar et al. (Orgs.). Dogmatismo e antidogmatismo: filosofia crítica, vontade e liberdade. Uma homenagem a Maria Lúcia Mello e Oliveira Cacciola. Curitiba: Editora UFPR, 2015, pp. 19-35), optamos por traduzir Besonnenheit por “discernimento”, ao invés de “lucidez” ou “reflexão”, ou mesmo “clarividência” ou “clareza de consciência” tal como essa palavra foi traduzida por Jair Barboza em sua tradução de O mundo como vontade e representação (São Paulo: Unesp, segunda edição, 2015, 2 vols). A tradução por “discernimento” é de fato contestável e hoje eu reveria essa opção. Como me alertou sobretudo o Professor Oswaldo Giacoia Jr, “discernimento” caracteriza sobretudo uma operação do entendimento contrária ao que tenta expressar a Besonnenheit. De qualquer forma, por conta da polissemia dessa palavra e pelo fato de que o próprio Novembre a menciona sempre no original e apresenta uma miríade de traduções possíveis, deixarei a mesma aqui sem tradução.

3 Acaba de ser publicada pela Editora Unicamp a tradução da dissertação de Schopenhauer (a partir da segunda edição de 1847) com o título Sobre a quadrúplice raiz do princípio de razão suficiente – Uma dissertação filosófica. Trad. Oswaldo Giacoia Jr. e Gabriel Valladão Silva.

4 Philosophischen Untersuchungen über das Wesen der menschlichen Freiheit und die damit zusammenhängenden Gegenstände (1809).

5 A interpretação de Novembre se alinha a algumas interpretações recentes que destacam o papel central da teoria do caráter na filosofia de Schopenhauer, como John E. Atwell, Schopenhauer on the Character of the World, The Metaphysics of Will, Berkeley u. a., 1995; e Matthias Kosler, “Die Philosophie Schopenhauers als Erfahrung des Charakters, in: Birnbacher (Hg.): Schopenhauer im Kontext, Deutsch-polnisches SchopenhauerSymposion 2000, Wurzburg, 2002, 91-112.

Flamarion Caldeira Ramos – Doutor em Filosofia pela Universidade de São Paulo com estágio na Johannes Gutemberg Universität Mainz. Professor na Universidade Federal do ABC. E-mail: flamarioncr@yahoo.com.br

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[DR]

 

Machado de Assis: permanências – GUIMARÃES; SENNA (MAEL)

GUIMARÃES, Hélio de Seixas; SENNA, Marta de. Machado de Assis: permanências. Rio de Janeiro: Fundação Casa de Rui Barbosa; 7Letras, 2018. 324 pp. Resenha de: SALOMÃO NETTO, Sônia. Machado Assis Linha v.12 n.27 São Paulo May/Aug. 2019  Epub July 29, 2019.

Machado de Assis: permanências é uma abrangente coletânea de dezessete ensaios, organizada por Hélio de Seixas Guimarães e Marta de Senna, estudiosos machadianos e promotores de algumas importantes iniciativas, como a revista eletrônica Machado de Assis em linha, da qual são editores, e Machado de Assis em hipertexto, com o patrocínio da Casa de Rui Barbosa.

É impossível, no espaço de uma resenha, comentar tal número de trabalhos especializados com a profundidade que merecem. Vamos buscar, por isso, ressaltar algumas linhas que sobressaem no todo, evitando a mera descrição dos estudos. Como sugere o título, a coletânea trabalha com a ideia da “permanência”, atualizando os dois sentidos principais do termo: o de legado ou transmissão e o de presença ou continuidade no que se refere à obra machadiana.

No eixo do legado as abordagens enfatizam o tema da memória: da fruição à incorporação do cânone literário até a ressonância, conforme nos indica Paul Dixon (2018, p. 239) a partir de uma análise do narrador problemático em Machado e Wood Allen, o qual precisa o conceito de permanência: “It’s not that it influenced me; it resonated with me”. No diapasão memorialístico do legado, portanto, Ana Maria Machado – leitora e escritora – vai se encarregar de mostrar-nos como caiu “na copa do chapéu de um homem que passava”, eficaz início machadiano de um conto despretensiosamente denominado “História comum”, de 1883, utilizado com efeito duplo no artigo que comentamos. Os fios da intertextualidade, ou da memória literária, entrelaçam-se com muitas outras obras pertencentes a uma tão variada quanto harmônica linhagem da qual nos interessa pinçar a relação de Capitu com a Emília de Monteiro Lobato ou com a “mulher do tenente francês”, de John Fowles, para chegarmos a A audácia desta mulher ou a Infâmia, mas também a muitos dos personagens femininos corajosos da literatura de Ana Maria Machado para leitores mirins.

Já Alfredo Bosi, em “Augusto Meyer: crítica machadiana e memória”, contextualiza o discurso do crítico gaúcho, revisitando um dos mais agudos intérpretes da máscara machadiana transposta a seus personagens. Vai buscar, desse modo, o homem do subterrâneo no próprio processo memorialístico do grande crítico para comentar a diferença da fruição da memória da infância – lírica em Meyer – e praticamente ausente em Machado de Assis, autor guiado por uma “lucidez extrema” que Augusto Meyer, com suma penetração e perspicácia, revela como uma das molas do niilismo machadiano. Para Bosi, a distância existencial entre os dois escritores propiciou a fecunda leitura crítica.

Até aqui o legado é fruição e ressonância. Em Hélder Macedo ele será um pouco mais, já que programaticamente trabalhado como cânone, como ilustra a análise de Cristina Cerdeira sobre Pedro e Paula, em que a gêmea, agora uma mulher, consegue ter voz própria para escolher o seu destino e narrar a sua história, ao contrário não só de Capitu, mas também da Flora amada por ambos os gêmeos de Esaú e Jacó. As “cousas futuras” vão se realizar numa outra perspectiva histórica, num outro contexto que, inclusive, joga luz sobre a passagem da Monarquia para a República, no Brasil, bem exemplificada pelo falso dilema da tabuleta do Custódio e da impossibilidade de escolha dos gêmeos entre os partidos liberal e conservador.

Lúcia Helena, em “‘Somente a antropofagia nos une’: Machado de Assis e Oswald de Andrade. Uma lição levada adiante”, apresentará uma síntese dos diversos mecanismos da narrativa machadiana a partir do tema da ruína e da corrosão, principalmente, chamando a atenção para o fato de que estamos relendo esta obra no âmbito do capitalismo globalizado em que se delineiam as questões das fronteiras, dos limites e das passagens. Oswald de Andrade, talvez com menor densidade reflexiva, seguiu o mestre na denúncia etnocêntrica, criando a riquíssima metáfora antropofágica que, como eu também penso, o ruminador Machado já havia preparado no final do século precedente.

Hélio de Seixas Guimarães e Pedro Meira Monteiro problematizam a presença machadiana a partir de leituras pontuais do debate modernista. Guimarães, no seu “Presença inquietante: sobre a incorporação de Machado de Assis ao cânone literário brasileiro (1908-1958)”, reconstrói o percurso da absorção da herança machadiana – do encômio fúnebre, realizado na Academia Brasileira de Letras por Rui Barbosa, às primeiras comemorações acadêmicas, logo a seguir, por conta de Euclides da Cunha e Olavo Bilac -, aprofundando um dos temas principais do debate na correspondência entre Carlos Drummond de Andrade e Mário de Andrade: a controvérsia sobre o conceito de tradição na literatura brasileira. Guimarães indica as ambiguidades de Mário – com o seu Machado mais para “admirar” do que para “amar” – e a evolução de Drummond, considerado o principal herdeiro do legado machadiano. De fato, poderíamos dizer que só o filho que refaz a viagem do pai, como Telêmaco na Odisseia, é digno da sua herança. Já Meira Monteiro, no mesmo diapasão, – “Machado de Assis: uma flor desajeitada no jardim modernista”  lembra a questão das “raízes do Brasil”, na cabeça da geração de 1930, cujo ímpeto construtivo buscava abandonar o passado em prol de um futuro vigorosamente forjado. O que fazer, então com esta “flor de estufa” que era Machado de Assis? Afinal, nas palavras de Mário de Andrade, ele “não profetizou nada, não combateu nada, não ultrapassou nenhum limite infecundo”. Seguindo, desta vez, a evolução do pensamento de Sérgio Buarque de Holanda, Meira Monteiro sublinha como Machado passa da imagem de um escritor isolado, diverso, uma “estátua incômoda”, ao de esfinge. Mas aqui eu perguntaria: podemos considerar verdadeira a ideia de um Machado estático, híbrido e mero contemplador da realidade presente, como avaliavam os modernistas da primeira hora? O estudo de Meira Monteiro nos auxilia nesta resposta.

Outros dois artigos que realizam importantes mergulhos na correspondência e, portanto, na memória “privada” de uma época, são o de Marisa Lajolo (“Monteiro Lobato: assíduo, dedicado e amoroso leitor de Machado de Assis”) e o de Sandra Guardini Vasconcelos (“Rosa, leitor de Machado”). Marisa Lajolo revela o percurso de Monteiro Lobato ao longo das avaliações machadianas, principalmente em cartas a Godofredo Rangel, seu fiel amigo. O estusiasmo com a filiação machadiana dos autores publicados pelo Lobato editor se estende a Leo Vaz (O professor Jeremias, 1920) e ao próprio Godofredo Rangel (Vida ociosa, 1917). Como revela a autora, no ano da comemoração do centenário de nascimento de Machado, 1939, Monteiro Lobato é convidado a escrever sobre o escritor carioca no jornal argentino La Prensa. O artigo ressalta a origem humilde, afro-brasileira, e uma certa “predestinação” que se tempera pelo esforço pessoal e pelo autodidatismo. Mas os comentários lobatianos também revelam o cuidado com a institucionalização literária, marco que iguala os dois autores, grandes profissionais da escrita, através de jornais, do teatro, da tradução. Machado cria a Academia Brasileira de Letras; Lobato compra a Revista do Brasil e a seguir funda a Companhia Editora Nacional. Quanto ao estudo de Sandra Guardini, temos a confirmação do trabalho de bastidores que o autor de Grande sertão: veredas realizava em sua própria obra e que já conhecíamos da correspondência com os seus tradutores. A estratégia se estende agora ao exame realizado sobre as obras dos grandes autores que o precederam. Analisando o Fundo João Guimarães Rosa do arquivo do IEB-USP, Guardini nos revela que Rosa, por exemplo, estava forjando o seu estilo, a sua língua, o seu projeto, anotando tudo o que poderia servir-lhe. No Diário de Hamburgo, escrito pelo então jovem diplomata, Machado de Assis parece ser o modelo a ser desenhado, desafiado e superado. Curiosa é a análise aparentemente apressada da obra machadiana que surge numa espécie de “lista” a ser estudada.

A outra importante presença machadiana está no teatro, ao qual Machado se dedicou durante muitos anos como dramaturgo e crítico teatral, além de ter escrito óperas e ter seguido o rico movimento operístico do seu tempo. Na verdade, o teatro está presente na sua poética e integra o seu cânone estilístico. No entanto, essa parte de sua obra foi por muito tempo relegada a produção menor. João Roberto Faria (Machado de Assis encenado por Ziembinski e Ruggero Jacobbi) recupera a história desse juízo crítico negativo, que tem como origem a opinião do amigo Quintino Bocaiuva em carta a Machado. Faria centra-se na encenação de Lição de botânica – realizada por Ruggero Jacobbi em São Paulo, em 1954, e a seguir no Rio de Janeiro, em 1956 – e na de O protocolo, em 1958, com direção de Ziembinski, no Teatro Dulcina, no Rio de Janeiro, recolhendo a crítica positiva e mais articulada em torno dessas duas montagens. No âmbito da modernização do teatro brasileiro, os dramaturgos e cenógrafos estrangeiros – italianos na sua maior parte -, homens de teatro que eram, souberam apreciar o estilo enxuto de Machado e a sua filosofia teatral inspirada em Musset. Nesta perspectiva, Machado é considerado por especialistas, inclusive pelos críticos brasileiros Gilda de Mello e Souza, Décio de Almeida Prado e Bárbara Heliodora, entre outros, que não comparam as suas peças com os romances. Cabe acrescentar, à longa lista de preciosas citações que nos traz Faria, a apreciação consagradora que Ruggero Jacobbi (1961, p. 74-76) nos deixa no seu Teatro in Brasile sobre Machado.

A busca da permanência machadiana será realizada também através de um trabalho comparativo, em que Marta de Senna (“Dom Casmurro e São Bernardo: vozes na solidão”) aprofunda as semelhanças entre os dois romances segundo a situação do narrador memorialista que escreve a partir da própria ruína e solidão. Os narradores realizam, segundo a autora, uma “tentativa de entender, ao narrar, aquilo que não conseguiram compreender ao viver” (SENNA, 2018, p. 228). Simultaneamente, tratando-se do específico terreno memorialístico, em que a realidade do acontecido se mistura com a subjetividade do vivenciado, podem escolher, ainda por cima, o que e como narrar. Não resta dúvida de que a memória é mais psicossocial em Machado e mais tragicamente sociológica em Graciliano. De qualquer modo, e esta parece ser a conclusão de Marta de Senna, tanto Capitu quanto Madalena eram luvas muito finas para as mãos desajeitadas de Bentinho e Paulo Honório.

Nesta linha comparativa coloca-se também o estudo de Lúcia Granja. No seu caso, trata-se de uma investigação dos mecanismos de poder nas relações interpessoais e, mais especificamente, do processo de silenciamento feminino em Dom Casmurro e em Um copo de cólera, de Raduan Nassar, a partir da relação erótico-amorosa. Naturalmente, esses mecanismos são reveladores de um contexto histórico-social específico que a autora não deixa de indicar na sua análise. Em relação aos mecanismos de representação e às pulsões que se expressam através de uma forma narrativa específica, os trabalhos de Bluma Waddington Vilar (“O caloteiro e o cobrador ou como deixar de pagar segundo Machado de Assis e Rubem Fonseca”) e de Marcelo Diego (“Machado e Nelson, matrizes da perversão”) podem ser associados ao de Lúcia Granja e aos demais artigos que se inscrevem na linha comparativa. Assim, a relação entre moral e dívida, através da obra de Machado de Assis e de Rubem Fonseca, ganham espaço e jogam luz recíproca sobre o problema da dívida social. Tema, aliás, de grande interesse no mundo globalizado de hoje, cujas franjas de algodão da pobreza apresentam uma conta muito alta a ser paga – fome e miséria, imigração desordenada, guerrilhas e terrorismo – em relação ao manto de veludo do progresso e da acumulação de capital. Nesse sentido, o grande moralista e o estupendo investigador das causas secretas que foi Machado de Assis se coaduna com outro grande inquiridor ou delegado das causas perdidas, dos crimes e da marginalidade urbana que é Rubem Fonseca no seu conto-paradigma: “O cobrador”.

Já Marcelo Diego, partindo do tema da perversão, investiga em Nelson Rodrigues as raízes submersas na obra do Bruxo do Cosme Velho; principalmente em contos como “A causa secreta”, “Singular ocorrência”, “O enfermeiro”, “O caso da vara”, “Conto alexandrino” e “Pai contra mãe”. O universo micropolítico de Nelson Rodrigues, concentrando-se na família, por sua vez, descreve os mecanismos macropolíticos da sociedade brasileira das décadas de 1950-1960, numa implosão de culpa, mutilação, crime ou suicídio. Ambos os autores souberam captar as dinâmicas intestinas de uma cidade, o Rio de Janeiro, a partir das nuances, das falhas e das usuras que escondem o bas fond de uma cidade. Na obra de Machado de Assis aparecem, como bem indica o autor, na casinha de Dona Plácida na Gamboa, ou na rótula de Genoveva no conto “Noite de almirante”. Mas há muitas outras, como a loja de Marcela, corroída pelas bexigas, em plena rua dos Ourives, no Memórias póstumas. Poderíamos aqui chamar em causa também o tema do grotesco na literatura brasileira urbana.

Outra contribuição do volume é a de Regina Zilberman. Na linha comparatista que estamos indicando, seu texto apresenta sugestiva possibilidade de leitura, a partir da ideia de “plágio antecipado” de Pierre Bayard. Através de um articulado percurso que envolve A mulher que escreveu a Bíblia, de Moacyr Scliar, e Memórias póstumas de Brás Cubas, a autora mostra como ambos os romances lidam com a tradição e o próprio modo de narrar. Se o modelo bíblico nutriu as Memórias póstumas, este joga luz sobre a narrativa de Scliar, e ambos discutem literariamente o problema da autoria, através de uma hipótese do crítico norte-americano Harold Bloom de que uma mulher teria sido a autora da primeira versão da Bíblia, escrita no século X a.C..

Na mesma linha, ainda, o trabalho de Ieda Lebensztayn, desta vez sobre um herdeiro falido: Léo Vaz (O professor Jeremias), ao qual Monteiro Lobato vaticinara um lugar futuro na literatura brasileira. Curiosamente, o próprio Machado que o sufocou – com a peja da imitação – o está trazendo à tona, no âmbito de uma necessária revisão crítica de estereótipos tantas vezes repetidos e que o trabalho de Ieda Lebensztayn vem resgatar e contextualizar.

Que homenagem maior poderia ser dedicada ao legado machadiano, no seu duplo sentido de transmissão e permanência, senão a experiência da reescrita de “Missa do galo” (Missa do galo – variações sobre o mesmo tema, 1977) por um grupo de peso capitaneado por Osman Lins? Juracy Assman Saraiva, no seu “Leitores nas margens de ‘Missa do Galo'”, repercorre as várias versões que, em última análise, são fruto de leituras provocadas por um conto voluntariamente ambíguo como os olhos de Capitu.

Como balanço final, a coletânea cumpre o seu objetivo, mobilizando um grupo composto por variadas formações críticas e profissionais. Todos nós, e aqui me incluo, lidamos com um autor que, para formar o seu próprio cânone, não poupou esforços nem leituras (SALOMÃO, 2016). Um autor que construiu e fecundou mais do que os modernistas da primeira hora pudessem admitir e que, como pensava de Garrett, “só por si valia uma literatura” (ASSIS, 1979, p. 931).

Referências

ASSIS, Machado de. Obras completas. Organização de A. Coutinho. Rio de Janeiro: José Aguilar Editora, 1979. v. 3. [ Links ]

DIXON, Paul. Machado de Assis, Wood Allen e o narrador problemático. In: GUIMARÃES, Hélio de Seixas; SENNA, Marta de (Orgs.). Machado de Assis: permanências. Rio de Janeiro: Fundação Casa de Rui Barbosa; 7Letras, 2018. p. 238-252. [ Links ]

JACOBBI, Ruggero. Teatro in Brasile. Bolonha: Cappelli Editore, 1961. [ Links ]

SALOMÃO, Sonia Netto. Machado de Assis e o cânone ocidental: itinerários de leitura. Rio de Janeiro: EdUerj, 2016. [ Links ]

SENNA, Marta de. Dom Casmurro e São Bernardo: vozes na solidão. In: GUIMARÃES, Hélio de Seixas; SENNA, Marta de (Orgs.). Machado de Assis: permanências. Rio de Janeiro: Fundação Casa de Rui Barbosa; 7Letras , 2018. p. 225-237. [ Links ]

Sonia Salomão Netto – É ex-professora da UFRJ e da UERJ, ensina atualmente na Sapienza, Universidade de Roma, e já publicou diversos ensaios e estudos sobre a história da língua portuguesa, entre os quais, os volumes Da palavra ao texto, estudos de linguística, filologia, literatura (Viterbo, Sette Città, 2007, com reedições) e A língua portuguesa nos seus percursos multiculturais (Roma, Nuova Cultura, 2012). Além disso, coordenou a tradução de Quincas Borba, de Machado de Assis (Viterbo, Sette Città, 2009), e integra o conselho editorial da Coleção Brasil-Itália, da Editora da UERJ. http://orcid.org/0000-0002-2929-6701. E-mail: sonia.nettosalomao@uniroma1.it

Historiadores pela Democracia – O golpe de 2016: a força do passado | T. Bessone, B. G. Mamigonian e H. Mattos

RC Destaque post 2 11 Golpe de 2016

“A humanidade caminha Atropelando os sinais A história vai repetindo Os erros que o homem traz O mundo segue girando Carente de amor e paz Se cada cabeça é um mundo Cada um é muito mais”.

(Lenine, 2010) Dois mil e dezesseis. Ano marcado por muitas disputas narrativas acerca dos eventos históricos que ganharam relevo nos cenários brasileiro e mundial. Esses eventos se difundiram pela política, pela economia, pela educação, pela cultura; puseram em destaque as tensões que envolvem os três Poderes da República, que se tornaram o epicentro das disputas; expuseram as fragilidades institucionais e de conduta de vários segmentos de nossa sociedade; suas ressonâncias reverberaram no cotidiano de cada um de nós. Fantasmas de diferentes tempos evidenciam sua fertilidade e passam a amedrontar o presente; traumas e lacerações de nossa história irrompem novamente e insistem em doer. A história – ah, a história! Mais uma vez passa a ser responsabilizada pela instabilidade humana! Mas ela própria sabe-se fruto dessa ação e, como tal, traz consigo o germe da luta entre o instável e o perene; entre as tradições e o novo; entre o provisório e o eterno. Isso, por si só, a absolve de qualquer peso que a sobrecarregue.

Essa efervescência, contudo, traduz a inquietude gerada pela onda reacionária que insiste em se alastrar pelo nosso país e pelo planeta. Essa guinada retrógrada parece querer varrer nossa lucidez! A intolerância manifesta-se em diferentes territórios e sob variadas formas. Diferentes posições; variadas narrativas para descrever um enredo de tensões, para traduzir as fraturas na maneira de perceber a história recente. Afinal, a diversidade dos testemunhos acerca da história é quase infinita. Mas há elementos na história que se subvertem contra qualquer amarra ou controle que pretenda direcioná-la para uma interpretação que ameace contradizê-la em sua incontingência. Racionalidade e irracionalidade flertam entre si; ora enamoram-se, ora dilaceram-se em explícito combate. Leia Mais

An Economic and Demographic History of São Paulo – 1850-1950 – LUNA; KLEIN (RBH)

Este livro é continuação do volume anterior, que tratava dos períodos colonial e imperial. Nesta nova obra, os autores estabelecem como balizas temporais os anos de 1850 e 1950. Juntos, os dois volumes buscam analisar as histórias econômica e social de São Paulo, desde o período colonial até a primeira metade do século XX. Leia Mais

State Building in Boom Times: Commodities and Coalitions in Latin America and Africa – SAYLOR (RBH)

Os fatores históricos relacionados à construção de instituições públicas mais fortes têm sido sistematicamente estudados em muitas disciplinas. No entanto, as condições e os processos históricos que fortaleceram certas instituições públicas em alguns países, mas não em outros, permanecem pouco compreendidas. State Building in Boom Times suscita novo interesse por esse tema ao analisar as condições para a construção do Estado para além da Europa. Com esse objetivo, o livro destaca o papel dos setores exportadores de matérias-primas no fortalecimento das instituições públicas durante períodos de forte crescimento econômico. Leia Mais

Imprensa estrangeira publicada no Brasil: primeiras incursões | Tania Regina de Luca e Valéria Guimarães

A internet proporciona a interessante experiência de romper as barreiras espaciais e estar, mesmo que de maneira virtual, em mais de um lugar ao mesmo tempo. Portanto, permite o rápido acesso a notícias de países estrangeiros tanto no seu idioma original quanto na quase imediata tradução compartilhada por outros sites. Essa é uma conjuntura diferente daquela experimentada pelas comunidades imigrantes dos séculos XIX e XX, que, antes da agilidade e do alto alcance dos meios digitais, tinham na imprensa periódica uma importante ferramenta de comunicação e integração com seu país de origem, sem estar indiferentes às vivências numa nova comunidade. Assim, jornais e revistas publicados em língua estrangeira no país imigrante atuavam como um “entre-lugar” de povos em movimento entre experiências e culturas (LUCA; GUIMARÃES, 2017, p. 9).

Tendo como foco as particularidades dessa imprensa que se comunica em outro idioma, exceto o português, o livro Imprensa Estrangeira Publicada no Brasil, sob organização das historiadoras Tania Regina de Luca e Valéria Guimarães, contribui para a composição de um quadro da história da imigração no Brasil por meio da análise de impressos em língua estrangeira que circularam no país e, ao mesmo tempo, proporciona um avanço nos estudos sobre o espaço da cultura midiática em perspectiva transnacional – debates proporcionados pela abordagem da história cultural que pensa conceitos de transferências culturais, agentes e mediadores. Leia Mais

Vila Rica em sátiras: produção e circulação de pasquins em Minas Gerais, 1732 – ROMEIRO (RBH)

O trabalho de interpretação documental é sempre um desafio para historiadores competentes, ainda mais quando envolve formas textuais e mídias peculiares. Adriana Romeiro está entre os mais talentosos pesquisadores dedicados à cultura política no Brasil da Época Moderna, com grande potencial de argumentação associado a uma bela escrita. Nesse livro que conta com a colaboração valorosa de Tiago C. P. dos Reis Miranda, a historiadora se lança ao estudo de peças de perfil satírico produzidas sobre o governo de Lourenço de Almeida na capitania de Minas Gerais, de 1721 a 1732. Leia Mais

Detrás de la cortina. El sexo en España (1790-1950) – GUEREÑA (VH)

GUEREÑA, Jean-Louis. Detrás de la cortina. El sexo en España (1790-1950). Madrid: Cátedra, 2018. 630 p. MIRANDA, Marisa. Mirar/tocar/sentir (detrás de la cortina): Una cuestión de historia global de la sexualidade. Varia História. Belo Horizonte, v. 35, no. 68, Mai./ Ago. 2019. 

Mirar/tocar/sentir (detrás de la cortina): Una cuestión de historia global de la sexualidad

Quienes estamos interesados en la(s) historia(s) de la sexualidad(es) nos hemos visto complacidos con la publicación, en 2018, de Detrás de la cortina. El sexo en España (1790-1950). El voluminoso libro, que cuenta con más de 600 páginas constituye, en realidad, una edición española, revisada y actualizada, del texto – también de autoría del catedrático francés, Jean-Louis Guereña – publicado bajo el título Les Espagnols et le sexe, XIXe-XXe siècles (2013). No obstante, en Detrás de la cortina encontramos, además de la cuidadísima traducción del francés de la versión original (realizada por Marisa Guereña Mercier), la incorporación de nuevas fuentes historiográficas que vieron la luz en el lapso 2013-2018 y el abordaje de algunas cuestiones entonces ausentes.

Adentrándonos sobre la temática de esta excelente producción debemos señalar que las indagaciones sobre la historia de la sexualidad constituyen un campo del saber si bien presidido por la mirada foucaultiana, son aquí aggiornadas y ampliadas. Y siendo el poder (en cualquiera de sus formas, y en todas ellas) quien se arroga la definición compulsiva de las categorías que definen y, a la vez, distancian la sexualidad “normal” de la “patológica”; la “legítima” de la “ilegítima”; la “permitida” de la “prohibida”, la disponibilidad de las fuentes constituye un desafío de difícil logro. Así, la obra comentada denota un profuso y minucioso trabajo recopilatorio; advirtiéndose, en todo el recorrido del libro, una presentación lógica coherente con lo prometido en el índice.

A su vez, sagazmente, nos avisa el autor que una historia “social” de la sexualidad debe ser concebida, al mismo tiempo, como una historia “cultural” de la sexualidad (Guereña, 2018, p.40); afirmación digna de elogio y que, a la vez, permite abrir el debate e integrar múltiples problemáticas, posibilitando el acercamiento al actualísimo abordaje de la sexualidad desde una perspectiva de género.

Ahora bien, en los diez capítulos que componen el libro, nos encontramos en su primera parte con una profundización de “El descubrimiento del sexo”, donde Guereña se aboca a la divulgación de la sexualidad “por escrito”. Y, en este marco, se introduce en las tensiones habidas en España en torno al condón, en su doble función de preservativo antivenéreo y de método anticonceptivo.

La segunda parte, titulada “La prostitución, ¿un mal necesario?”, se ocupa del conflictivo tema del reglamentarismo en la prostitución. La purulencia del enfrentamiento entre reglamentarismo y abolicionismo ha sido leída para España a partir de señalar el espacio de sociabilidad y ocio que involucraba al burdel. Desde esa perspectiva, se ocupa de la recepción del abolicionismo, en particular a partir de las ideas de Josephine Butler. Una recepción tortuosa puesto que, siguiendo a la malograda intelectual española Hildegart Rodríguez (también trabajada en Detrás…), el abolicionismo era censurado en su país por creerse que “se lanzarían a la calle irremediablemente centenares de prostitutas” (Hildegart, 1933, p.48).

La tercera parte del libro permite apreciar una particular síntesis entre la expertisse historiográfica del autor y su incansable búsqueda de fuentes inéditas. En efecto, si bien es imponente la valía de todos los recursos aquí utilizados, sean editos o inéditos, cabe señalar las enormes dificultades para hallarlas, atento a que, muchas de ellas fueron, o bien publicaciones prohibidas por la censura inquisitorial (capítulo 6) o bien producciones eróticas clandestinas (capítulo 7). Se ahonda, además, sobre cierta “democratización” del acceso al erotismo y la pornografía, en la España de los años veinte y treinta del siglo XX. Esta parte concluye con interesantísimas exhumaciones vinculadas al erotismo gráfico y sus mercados de imágenes, sin perder de vista la tradicional consideración de la erótica del cuerpo femenino como objeto estético.

El epílogo, que, en realidad, bien podría ser considerado un capítulo más, visibiliza al sexo en cuanto objeto de debate, valiéndose para esto de desgranar una polémica habida en 1933 entre el húngaro Oliver Brachfeld y el español Gregorio Marañón respecto a las teorías sexuales de este último, en especial respecto a los estados intersexuales. Así, Guereña, analiza el volumen publicado durante ese año titulado por Brachfeld, Polémica contra Marañón, y que tuviera como objetivo destruir el “mito” Marañón (Guereña, 2018), aunque yendo más allá de ello.

La conclusión general se concentra en tres aspectos (“Pensar la sexualidad en la historia”; “¿Culturas sexuales específicas?” y “Fuentes y archivos”). En ella queda resumida una idea sobre la cual no cabe sino aplaudir: la concepción de una historia de las sexualidades integrada en un “conjunto de contextos ideológicos, políticos, sociales y culturales en donde se sitúa y cobra todo su significado” (Guereña, 2018, p.577); aun cuando nuestro hispanista tiene bien en claro las dificultades que se deben afrontar para lograrlo.

Un frondoso y atinado aparato erudito que refuerza las afirmaciones del autor denota, una vez más, la rigurosidad metodológica a la que nos tiene acostumbrados Guereña. El ítem denominado “Orientaciones bibliográficas”, incluye menciones de suma utilidad tanto para investigadores expertos en la temática como para nóveles lectores interesados en ella.

En definitiva, Detrás de la cortina. El sexo en España (1790-1950) constituye, pues, otro libro en extremo recomendable del prolífico historiador especializado en cuestiones vinculadas a la sexualidad en España, cuya producción bibliográfica es imponente. Por tan sólo mencionar una, es editor de La sexualidad en la España contemporánea (1808-1950) (Guereña, 2011), libro sobre el que también hemos tenido el placer de realizar una reseña (Miranda, 2014).

Para finalizar, debemos advertir que esta obra excede el marco de una investigación situada. En efecto, el carácter universal de la problemática y la perspectiva desde donde es abordada, invitan a reflexionar sobre un asunto medular en la materia: la gestión pública de las privadísimas cuestiones de alcoba. O, lo que es lo mismo, la intrusión del (bio) poder en la sexualidad.

Referências

GUEREÑA, Jean Louis (ed.). La sexualidad en la España contemporánea (1808-1950). Cádiz: Universidad de Cádiz, 2011. [ Links ]

GUEREÑA, Jean Louis. Les Espagnols et le sexe, XIXe-XXe siècles. Rennes: Universidad de Rennes, 2013. [ Links ]

HILDEGART. Venus ante el derecho. Madrid: Castro, 1933. [ Links ]

MIRANDA, Marisa. Hacia una historia global de la sexualidad en España. História, Ciências, Saúde – Manguinhos, vol. 21, n. 1, p.349-352, 2014. [ Links ]

Marisa Miranda – Instituto de Cultura Jurídica Universidad Nacional de la Plata/ CONICET 48 Nº 582, 3º piso, La Plata, 1.900, Argentina mmiranda2804@gmail.com.

Olga Benario Prestes: uma comunista nos arquivos da Gestapo | Anita Leocadia Prestes

Publicado em abril de 2017, quando completam 75 anos da morte de Olga Benário, o livro Olga Benário Prestes: uma comunista nos arquivos da Gestapo não é o primeiro trabalho em que a historiadora Anita Leocadia Prestes se dedica ao reconhecimento da história de luta que é herdeira, possuindo sólida bibliografia publicada sobre o trabalho e a vida política de Luiz Carlos Prestes, com quem dividiu por décadas, para além dos laços de sangue, a trajetória de luta pela causa comunista.

Nesse novo trabalho a autora se dedica à história de sua mãe, Olga Benário, militante comunista assassinada pelo governo nazista, após sofrer anos de prisão e trabalho forçado em campos de concentração. Anita Prestes nos apresenta a história de luta e resistência da jovem Olga, acessível por meio da documentação organizada em oito dossiês da Gestapo, que somam cerca de duas mil páginas sobre a prisioneira Olga Benario (Processo Benario). O dossiê em questão abarca o período de cerca de seis anos em que Olga esteve sob custódia da Polícia Secreta Alemã. A obra de Anita Prestes é resultado da pesquisa a essa documentação, digitalizada e disponibilizada para consulta pública desde 2015 por meio do Projeto Russo-Alemão para digitalização de documentos alemães nos arquivos da Federação Russa. Leia Mais

Tierras, leyes, história: estudios sobre “La gran obra de la propiedad” | Rosa Congost

A pesquisadora Rosa Congost, em Tierras, leyes, história: estudiossobre “La gran obra de la propiedad”, realiza uma compreensão distinta acerca dos direitos de propriedade. Sua abordagem consiste em uma perspectiva analítica comparada, que contrasta a realidade sóciohistórica espanhola à francesa e à inglesa. Nesse livro, a autora situa os leitores sobre as diferentes possibilidades de se compreender a propriedade, denunciando entendimentos eminentemente abstratos e apresentando uma análise sobre as condições de realização da propriedade a partir da dinâmica das relações sociais.

Catedrática de História Econômica na Universidade de Girono (Catalunha), Rosa Congost tem investigado, em suas pesquisas, problemas relacionados a temáticas dos direitos de propriedade, transformações agrárias, relações sociais e desigualdades. Seus estudos têm uma interdisciplinaridade com outras áreas do conhecimento social, dentre as quais se destacam o direito e a sociologia. É autora de diversas publicações que congregam questões relacionadas à dinâmica de interesse do campo historiográfico do mundo rural e valoriza o enfoque de pesquisa regional. Leia Mais

Crer em História | François Hartog

Lançado em 2017 no Brasil pela Editora Autêntica, o livro Crer em História é a produção de François Hartog lançada em Paris com o título Croire en l’histoire. O historiador, membro de importantes instituições como o Centre Louis-Gernet de Recherches Comparées sur les Sociétés Anciennes e o Centre de Recherches Historiques discorre sobre o crer e o fazer história em diferentes tempos, lugares e perspectivas para, por fim, indagar: ainda cremos em História?

Em quatro capítulos, além de introdução, intermédio e conclusão, Hartog descreve e comenta as diferentes tarefas atribuídas à história, bem como seus diferentes conceitos e interpretações. Nomes como Aristóteles, Halbwachs, Ricœur, Tolstoi, Sartre são evocados para colocar em debate a problemática das experiências de tempo e as formas de escrever – e talvez fazer – história para que se tente dar conta das questões que parecem cada vez mais apelar para a resolução dos impasses próprios da historiografia. Leia Mais

The Cause of All Nations. An International History of the American Civil War | Don H. Doyle

“You cannot see, because

it is your everyday life, (…) the

magnitude of the events through

which you are passing in the

light of their influence on the rest of the world”.

We are now sufficiently familiar with the idea of a global and transatlantic history to understand the importance of The Cause of All Nations to this field in general history and U.S. history in particular. What we still might not be completely familiar with is the idea that the American Civil War was an event of international proportions in many senses: economic, social, political, and ideological. Therefore, its outcomes can no longer be constricted to U.S. formation, reinforcing the idea that this was a “fratricide” accident within the narrative of national formation in the United States, but that its influence has reached places far beyond the U.S. and can also be considered a breaking point in a global scope. And, although the question of how to produce a transatlantic, Atlantic, or global history is still object of debate and questioning by its own scholars, in this book we will find that the author masters it: he is able to use local, regional, national and transnational lens throughout his narrative, making it look like an easy enterprise.

The importance of the Civil War as an international event of great proportions is what the American historian Don Doyle, the McCausland Professor of History at the University of South Carolina, demonstrates in his book. He has developed the theme of secession in a comparative perspective for many years (Nations Divided: America, Italy, and the Southern Question; Nationalism in the New World, co-edited with Marco Pamplona; Secession as an International Phenomenon, a collection of essays) and teaches American history, nationalism, and Southern History. With broad experience in the U.S. and other countries such as Italy and Brazil, he has demonstrated American and non-American historians that, far from being an event “as American as apple pie”,the American Civil War not only can be seen from an international and Atlantic perspective, but that this outlook is necessary, especially from the point of viewof the American continent.

Parting from the idea that the Civil War is inserted in a much broader moment of history, “the crisis of the 1860s”, we are able to understand international reactions, fears, expectancies and politics that surrounded one of the most, if not the most studied theme in American history. Don H. Doyle’s main thesis is that the Civil War mattered a great deal to the Western world in the second half of the nineteenth century. And it mattered because it was not simply an intestinal war, fought only by American soldiers on American soil, but it represented a struggle over fundamental themes of the time, such as republicanism, freedom, national sovereignty, and slavery. It is in that sense that the Civil War can be perceived as “the cause of all nations”. And, although we all acknowledge the outcomes of the war, and the growth of the United States as a world potency, the future of the war was not defined at the time, and the international community of states and nations in the nineteenth century had a close eye on what was going on in the U.S.

Thus, rather than imposing an international framingof the conflict, Doyle asserts that this work actually “retrieves a commonplace understanding of the time”. This idea has already been brought by other historians that have affirmed the importance of the issues at stake in the “Civil War Era”, such as nationalism, democracy, liberty, equality, race, majority rule and minority rights, central authority and local self-government, the use and abuse of power, and the horrors of an all-out-war – are as alive in the early twenty-first century as they were in the mid-nineteenth century.

This is demonstrated in a fluid, exciting, and coherent narrative that follows the chronological events of the war engaged through different topics, characters and diplomatic disputes distributed throughout 12 chapters and based on an extensive variety of sources: diplomatic and personal correspondences, newspapers, pamphlets, translations, images, posters, and official documents from several nations.

One of the main issues pointed out by Prof. Doyle is that the United States was not only viewed as a nation growing in size and importance, but it virtually represented the major successful republican experiment to the world. In face of the failure of the republican movements of 1848 in Europe, it is not surprising that a government of the people and by the people, and a republic of such large dimensions (the only other example was Switzerland) was seen as doomed to failure. Conservatives in Europe expected this failure to assert that Monarchy was, as it had always been, the best method of government. On the other hand, the remains of the republican and liberal movements in Europe and the successfully republican, but very troubled governments, in Latin America looked at the U.S. with the hope they would one day thrive as theirneighbor, and counted on its protection from European incursions, in thesis guaranteed by the Monroe doctrine.

We are reminded of the great power that the press had gained by the 1860s, especially due to “print technology and the expansion of literacy, which made cheap publications and mass-audience possible” (p.3), which contributed to the understanding of the war and to the debates over it. As an event that has been analyzed from so many perspectives, the author chooses here to demonstrate that not only it mattered economically to the world (the relationship of the western world with the American cotton has been very well stablished), but its struggle over republicanism, freedom, and slavery was a central issue, especially through the eyes of the world and the need of international recognition from both the Union and the Confederate sides. The author also affirms that in its need of diplomacy and international support, the American Civil War pioneered what we now call public diplomacy, “the first, deliberate, sustained, state-sponsored programs aimed at influencing the public mind abroad” (p.3). From that perspective he sets himself apart from a strictly diplomatic history of the Civil War, building his arguments upon how an international public opinion was built over the war, and how it influenced and was influenced by the events, debates, and particular matters in their own nations.

Divided in three parts, “Only a Civil War”, “The American Question”, and “Liberty’s War”, we are guidedthrough the definition of the Civil War on both sides, its international scope and outcomes. In the first part, composed of 3 chapters, we are drawn to understand onemain question: what was the United States fighting for?The question issued by Garibaldi about whether the war was being fought over slavery or not, expressed the “moral confusion over just what the Union was fighting for” (p.24).How the Union and the Confederacy placed themselves internationally to guarantee, on one side, that governments did not recognize the CSA (Confederate States of America), and, on the other, to be recognized as a belligerent state is the main question in this part of the book. That is, the ideological and discursive dispute based on the idea of a “right” to secession in the realm of international law and within the American Constitution. Doyle affirms, nonetheless that this “legal quarrel (…) obscured a far more salient question as to the reason for secession” (p.29). That reason was being questioned by the international community and it was being answered through public diplomacy as Union and CSA struggled for support. And, although both sides initially tried to elude it, “every one of South Carolina’s grievances centered on slavery” (p.30). British, Spanish, and French declarations of neutrality threatened the Union and gave strength to the Confederacy, a diplomatic battle that would be stretched by the military victories of the CSA. Lincoln’s inaugural address in 1861 sought to place the Civil War as an international conflict, based on the principle of international law and the perpetuity of the union, and placed, once again, the extinction of slavery as a secondary matter: “the main issue before the public was already ‘Union or Disunion’, not slavery or abolition” (p.65). Apparently, however, Europeans were not at all concerned with local politics and the rights to secession. In that sense, it would be better to place the war upon “a higher moral basis”, and Europeans from different social sectors began to answer Garibaldi’s questions for themselves.

The second part of the book – The American Question – shows how the conflict was growing in the minds of the world as a global struggle, particularly as a crisis of life and death to the republican experiment “within the context of alternating swells of revolutionary hope and reactionary oppression that radiated through the Atlantic world in the Age of Revolution” (p.85). Republicanism, democracy, natural rights, and slavery, social change and structure, the delights of the conservatives in Europe and the fears of the liberals in view of the War:all that came to earth in the eyes of international observers of the conflict. Extreme democracy was at its death bed and the Empire powers, Britain, Spain, and France resurged and believed it possible to restore their authority. The imbrications of European politics concerning the Americas and their old colonies, as well as the role of foreign views on the conflict, which made their way to the U.S. through important translations of books and pamphlets, demonstrated how intellectuals were elaborating their own meaning of the conflict, helping to place the Civil War as an ideological conflict between slavery and freedom, monarchy and republicanism. It became definitely a global matter. The last chapter of Part II demonstrates how the Civil War became an internationalized conflict not only intellectually, but also in the battle front. Don H. Doyle brings to light the “Foreign Legions” that added up the military layers of the Union army, constituting among immigrants and sons of immigrants “well over 40 percent of the Union’s foreign-born soldiers” (p.159). Although this is not an unprecedented theme in the studies of the Civil War, Don H. Doyle is able to place their participation in a broad understanding of why these immigrants were so willing to fight for America within the international understanding of the Civil War and the construction of the American nation.

In the final part of the book, “Liberty’s War”, the author demonstrates how the war was defined not only as a war over slavery, but also as a struggle between democratic and monarchical governments and ideals, that is, the struggle for the people’s freedom. In that sense, he unveils the “Confederacy’s shift to the right” (p.186), referring to the support from the French sought by the CSA. This meant that not only was the South fighting for slavery, but to do so it was willing to support and negotiate with conservative European governments and to accept their interference in the American continent, including by offering what “can only be described as a magnificent bribe” (p.203) in the form of a very advantageous and long-term commercial treaty, in exchange for Napoleon III’s declared support of the South. The year of 1862 represented the greatest threat of foreign intervention in the Americas, and in that sense, a threat to all republican governments. The Union’s soft power was also directed at broadening the idea of “national preservation” to all governments by the people in the world, “the outcome of the American contest would decide nothing less than the fate of democracy” (p.215).

How the Union and CSA continuously fought in the field of public diplomacy for this narrative is one of the main points placed by DonH. Doyle, arguing that, considering all the military and political world powers engaged and interested in the outcomes of the American conflict, this diplomatic war was as important as the battlefields in American soil. Throughout the last part of the book, the author is able to discuss the significant changes occurring in Europe, not only towards the American Civil War and slavery, but also towards republicanism, particularly in face of the movement for national consolidation in Italy, leaded by Garibaldi and Mazzini, up to what he calls a “Republican Risorgimento”, which again altered the ideological frames of Europe and the Americas.

This book is not an attempt to account for the Civil War in its totality, it is not a new book on what was the Civil War, its causes and consequences, or how its main events and battles developed. Rather, it offers the opportunity to envision it as an international event that was part of a much broader crisis, which carried beneath it fundamental struggles, problems, and dilemmas that regarded the Western world at the second half of the nineteenth century. The American Civil War had a profound impact on the international relations of the early 1860s and high economic, social and ideological issues were at stake: a “struggle that shook the Atlantic world and decided the fate of slavery and democracy” (p.313). This book places the U.S. among other nations that, to survive as a unified national state, depended upon the support and approval of European and American nations. In this sense, it relates the future of the United States to that of other transatlantic relations and vice-versa. In doing this, not only he helps to give one step further towards the rupture with the idea of exceptionalism in American history, he also goes past its traditional links with Europe, including Latin America as part of the world being built in the 1860s, with its own contradictions and expectations. For Brazilian historians, it gives the opportunity to also step back from our own ideas of exceptionalism in the history of Brazil, understanding the political, economic, and ideological interconnections among the American continent, and that transatlantic history is a possible and fruitful path to do so.

Referência

DOYLE, Don H. The Cause of All Nations.An International History of the American Civil War. New York: Basic Books, a member of the Perseus Books Group, 2015.

Juliana Jardim de Oliveira – Universidade Federal de Ouro Preto. Ouro Preto – Minas Gerais – Brasil. Licenciada e bacharel em História pela Universidade Federal de Viçosa (2007), mestre em História pela Universidade Federal de Ouro Preto (2010), doutoranda do programa de Pós-Graduação em História da Universidade Federal de Ouro Preto. Ênfase em História da construção dos Estados Nacionais na América, particularmente Argentina, Brasil e Estados Unidos. Atualmente pesquisa a Guerra Civil dos EUA como evento internacional e seu impacto nos debates parlamentares brasileiros.


DOYLE, Don H. The Cause of All Nations.An International History of the American Civil War. New York: Basic Books, a member of the Perseus Books Group, 2015. Resenha de: OLIVEIRA, Juliana Jardim de. The war of brothers that changed the world: the U.S. civil war and the 1860s. Almanack, Guarulhos, n.21, p. 609-616, jan./abr., 2019. Acessar publicação original [DR]

The Cultural Revolution of the Nineteenth Century: Theatre – the Book-Trade and Reading in the Transatlantic World. I. B. | Márcia Abreu e Ana Cláudia S. Silva

É recorrente a ideia, trazida especialmente pelos clássicos estudos sociológicos, de que a intensa conexão entre as nações ocorreu devido aos avanços técnicos e informacionais desenvolvidos durante o século XX, sobretudo em seu último quartel. Graças à rede mundial de computadores, os fluxos de deslocamentos de pessoas e a comunicação online favorecem a troca de informações e conhecimentos entre os vários países do globo, além de promover a ampliação das fronteiras no campo econômico e despertar novas modalidades de conflitos políticos. E se parte desses processos de fluxos mundiais já estivessem – para usar uma metáfora da época – a pleno vapor no século 19? Foi com base em indagações como essa que Márcia Abreu (Universidade Estadual de Campinas) e Ana Cláudia Suriani (University College London) organizaram The Cultural Revolution of the Nineteenth Century: Theatre, the Book-Trade and Reading in the Transatlantic World. Sua ideia central é que ao longo do século XIX havia fortes indícios da formação de uma “Aldeia Global” como conhecemos hoje.

Segundo o argumento geral do livro, as decisivas transformações socioculturais do Oitocentos puderam correr o mundo graças às Revoluções Atlânticas do final do século XVIII, ao crescimento demográfico sem precedentes na história humana e ao avanço tecnológico visível nas chamadas linhas de conexão (estradas de ferro, navios a vapor, cabos telegráficos). O encurtamento da distância e o maior contingente populacional aceleraram a circulação de símbolos e ideais culturais, entre eles o dos impressos. Circulando com muito maior liberdade e alcance através do Atlântico, jornais, livros, magazines, circulares, panfletos e folhas volantes se tornaram mercadorias internacionais e vetores das trocas culturais entre as nações. No século XIX era possível a manutenção do que, hoje, intitula-se globalização cultural.

The Cultural Revolution é resultado do projeto temático “A circulação transatlântica de impressos: a globalização da cultura no século XIX”, que reúne uma série de pesquisas, inseridas no campo da micro-história, que pretendem compreender a “revolução cultural silenciosa”, para utilizar a noção de Jean-Yves Mollier (Université Saint-Quentin Yvelines). O objetivo do grupo foi o de analisar os impressos e a circulação de ideias entre Brasil e demais países da Europa entre 1789 e 1914, intervalo inspirado no clássico de Eric Hobsbawm, A Era dos Impérios. Com características transnacionais, The Cultural Revolution reúne trabalhos de cientistas nacionais e estrangeiros de diversas áreas como a história, a sociologia, a antropologia e a literatura. Tal ponto denota a intenção de interdisciplinarizar as Ciências Humanas, passo fundamental para responder à questão que motivou a pesquisa: como se deram as transferências culturais entre a Europa e a América do Sul no século 19?

O livro possui quatro partes, e a primeira delas, Methodology Issues, como o próprio nome indica, consiste em analisar as questões metodológicas. Os três capítulos dessa parte tratam da análise dos agentes, do suporte, da materialidade e dos textos a partir das perspectivas da história do livro, ou da imprensa periódica, e da história da leitura. O primeiro capítulo, de Roger Chartier (École des Hautes Études en Sciences Sociales), analisa simultaneamente o texto para publicação e a fabricação do livro, dado que os escritos estariam sujeitos a mudanças de acordo com a produção editorial. “What is at stake here is not only the production of the book, but of the text itself in its material and graphic forms” (p. 17). Tal noção já se encontra em trabalhos anteriores do autor. Entretanto, a questão amplia-se agora às mercadorias ideológicas transnacionais, uma vez que é possível abordar como ocorreram as apropriações de livros e impressos confeccionados em determinado espaço e adaptadas para outra realidade.

No segundo capítulo, Jean-Yves Mollier (Université de Versailles Saint-Quentin-en-Yvelines) preocupa-se com a história da formação da casa editorial e da profissionalização do editor, analisados segundo aspectos socioeconômicos, ideológicos e políticos. Além da construção cultural dos objetos, Mollier considera o aspecto material e lucrativo da elaboração dos impressos. Esse espaço de produção e concorrência gerou o início da profissionalização do editor, que, não apenas empenhado em disseminar a cultura, também almejou a obtenção de lucros quando adequou conteúdos, fossem textos ou gravuras, para livros e outros suportes impressos, a fim de fazer circular as obras dentro de um espaço transnacional.

Após abordagens sobre o livro, a leitura e o editor, encontra-se o trabalho de Tania Regina de Luca (Universidade Estadual Paulista). A autora debruçou-se sobre o gênero impresso periódico, principalmente jornais e revistas. O texto abordou dois aspectos do fazer historiográfico em torno dessas publicações. O primeiro disserta sobre o universo mais amplo do uso de documentos para a pesquisa histórica que surgiu, sobretudo, com a renovação teórica e metodológica. O segundo ocupa-se com a metodologia aplicada ao estudo da imprensa, em particular a revista, como forma de analisar os problemas históricos de uma época que vão além das transferências culturais.

Com a primeira parte dedicada ao tratamento metodológico dos livros, editores e periódicos, as demais partes de The Cultural Revolution discorrem sobre os três seguimentos inseridos em contextos históricos específicos. A segunda, intitulada “Editing, selling and reading books between Europe and Brazil”, aborda pesquisas em torno de suportes de impressos, livros e periódicos, com foco nas casas editoriais e “editores” em formação.

À luz da abordagem de Mollier, João Luís Lisboa (Universidade Nova de Lisboa) tratou da profissionalização do editor em Portugal. Se num primeiro momento a elaboração de impressos tinha o intuito de informar sobre a política ou disseminar entretenimento, a partir da segunda metade do século 19 iniciou-se o processo de vulgarização de conteúdos variados, principalmente por meio de revistas. Tal mudança necessitou de maior demanda de trabalho e maior agilidade, o que ocasionou o início da profissão de editor na virada para o século XX. Por sua vez, Lúcia Granja (Universidade Estadual Paulista) versou sobre a expansão do mercado livreiro e do desenvolvimento da impressão de livros no Brasil do Oitocentos. Assim como Lisboa, Granja também observou com atenção os agentes em torno do comércio de livros e suas vinculações políticas com os episódios do país. Sua análise destaca Baptiste-Louis Garnier (1823-1893), elo crucial na corrente de circulação de impressos entre Europa e América do Sul. A segunda parte da obra encerra-se com o artigo de Claudie Ponciani (Université Sorbonne Nouvelle), dedicado à figura do engenheiro francês Louis-Léger Vauthier (1815-1901). Vauthier fora pela reforma infraestrutural de Pernambuco, além de vendedor de livros franceses sobre questões técnicas de engenharia e sobre ideais do “socialismo romântico”. O texto inseriu Vauthier na legenda passeur (mediador), noção discutida por Michel de Espagne, que também trouxe à tona a problemática das transferências culturais. Atualmente, a noção de mediação tem sido trabalhada pela historiadora Diana Cooper-Richet, integrante do projeto Transfopress que visa à análise de periódicos em língua estrangeira publicados na França.

Com o título “Cultural exchanges through periodicals”, a terceira parte do livro dedica-se à investigação dos periódicos pela perspectiva das trocas culturais. Eliana de Freitas Dutra (Universidade Federal de Minas Gerais) analisou, sob o ponto de vista da materialidade, como sugere Tania de Luca, a Revue des Deux Mondes (1829-), editada na Cidade Luz e, a título de curiosidade, a preferida de D. Pedro II. Recortando sua análise entre os anos 1870 e 1930, a autora observou o aumento de colaboradores e uma maior discussão sobre diversos países. Na época, o Brasil figurou em várias páginas como alvo de debates que o exibiam como país não desenvolvido por possuir natureza tropical abundante. Os textos de Ana Claudia Suriani da Silva, bem como de Adelaide Machado (Universidade Nova de Lisboa) e Júlio Rodrigues da Silva (Universidade Nova de Lisboa), tomaram os periódicos como fonte de pesquisa. Suriani trabalhou com a moda francesa difundida por impressos franceses e pelos brasileiros Correio das ModasNovo Correio das Modas e A Estação; e Adelaide Machado e Júlio Silva, com problemáticas mais amplas resultantes da integração cultural, como a imigração entre Brasil e Portugal, ponto discutido nas folhas ilustradas Jornal do Brasil (1897-8) e Portugal-Brasil (1899-1914), ambos de Lisboa.

A quarta e última parte do livro, “Plays and novel between Europe and Brazil”, volta-se para a análise ideológica dos teatros e romances modernos, difundidos no século XIX pelos autores ingleses Ann Radcliffe (1767-1823) e Sir Walter Scott (1771-1832). Com o objetivo de comparar e intersectar os diversos interesses de leitores do Brasil, França e Portugal, Márcia Abreu analisou trabalhos de ficção que circularam entre o Rio de Janeiro e Paris. Daniel Melo (Universidade Nova de Lisboa) também se debruçou sobre o gosto dos novos públicos-leitores brasileiro e português, porém com o intuito de examinar o desenvolvimento da leitura em distintos grupos sociais. Por fim, dois artigos examinaram a difusão da produção teatral francesa (tanto a dramática como a lírica). Jean-Claude Yon (Université de Versailles Saint-Quentin-en-Yvelines) abordou a disseminação dos espetáculos em diversos espaços nacionais ao longo do século XIX, a fim de demonstrar o apogeu do teatro francês no início do século e o seu declínio no desfecho do Oitocentos. Orna Messer Levin (Universidade Estadual de Campinas) associou as peças teatrais no Brasil aos impressos periódicos com a finalidade de demonstrar que ambos revelaram a predominância da cultura francesa no país. Levin ainda chamou a atenção para a produção de outras nacionalidades em convívio com a francesa, pois, apesar da hegemonia da língua de Voltaire, a competitividade teria aberto espaço para a expansão do mercado e a profissionalização de editores e de profissionais do teatro no início do século XX.

Ao abordar a circulação de objetos e ideias através de um mercado em expansão entre o Brasil e a Europa, a obra The Cultural Revolution of the Nineteenth Century evidenciou encontros culturais transatlânticos de primeira grandeza. Do ponto de vista da escrita da história, o livro é um contraponto à historiografia nacionalista-desenvolvimentista que suprimiu documentos e fontes de origem estrangeira em detrimento de produções vernaculares. Graças à história do livro e da leitura, em consonância com a história cultural, os historiadores e outros estudiosos das Ciências Sociais vêm demonstrando que a flexibilização das fronteiras nacionais é muito mais antiga do que se pensa. A “Aldeia Global” de hoje teve suas próprias formas de existir antes da internet, seus bits e bytes.

Referência

ABREU, Márcia; SILVA, Ana Cláudia Suriani. The Cultural Revolution of the Nineteenth Century: Theatre, the Book-Trade and Reading in the Transatlantic World. I. B. Tauris: London, New York, 2016.

Helen de Oliveira Silva – Universidade Estadual de São Paulo (UNESP). Assis – São Paulo – Brasil. Graduada em História e Mestranda no Programa de Pós-Graduação em História da Universidade Estadual Paulista (Unesp), Campus de Assis. Bolsista Fapesp, processo nº 2017-20828-4. E-mail: hdeosilva@gmail.com


ABREU, Márcia; SILVA, Ana Cláudia Suriani. The Cultural Revolution of the Nineteenth Century: Theatre, the Book-Trade and Reading in the Transatlantic World. I. B. London, New York: Tauris, 2016. Resenha de: SILVA, Helen de Oliveira. Entre Brasil e Europa: a Revolução Cultural do século XIX. Almanack, Guarulhos, n.21, p. 617-622, jan./abr., 2019. Acessar publicação original [DR]

Cuando la enfermedad se silencia: sida y toxicidad en el oriente boliviano | Susana Ramirez Hita

Este nuevo estudio de Ramírez Hita (2016) presenta un doble interés para la antropología médica. Por un lado, el valor académico del trabajo con material de campo y fuentes secundarias. Por el otro, el interés de salud pública de problematizar la toxicidad y la relación con el padecimiento del sida.

El estudio, producto de dos consultorías que Ramírez Hita realizó sobre el sida en Bolivia entre 2009 a 2011 y del 2013 al 2015, fue editado en el 2016 y consta de dos partes. La primera sobre la construcción del concepto del sida y la segunda, sobre las condiciones de los servicios de salud y de las personas viviendo con sida. Leia Mais

High Hitler: como o uso de drogas pelo Führer e pelos nazistas ditou o ritmo do Terceiro Reich | Norman Ohler

O livro High Hitler: como o uso de drogas pelo Führer e pelos nazistas ditou o ritmo do Terceiro Reich foi lançado em 2015, pelo romancista, roteirista e jornalista alemão Norman Ohler, e tornou-se imediatamente um bestseller na Alemanha, EUA e Grã-Bretanha, sendo traduzido até o momento para mais de 25 países. Essa é a primeira obra não ficcional do autor, que assume no prólogo que não pretende conceber um ensaio historiográfico, mas sim “uma perspectiva inconvencional e distorcida” ( Ohler, 2017 , p.13).

Embora Ohler tenha se valido de fontes documentais inéditas e valiosas, ao não adotar um procedimento teórico-metodológico mínimo, acaba por fazer afirmativas sem respaldo empírico. A polêmica obra descreve em tons fortes e com linguagem jornalística a necessidade crescente da utilização de estimulantes sintéticos pela sociedade alemã em geral e pela cúpula do Terceiro Reich em particular no período de 1933 a 1945. Além disso, o autor apresenta um amplo panorama no qual aborda historiograficamente a grande importância do segmento industrial químico-farmacêutico alemão na síntese de anfetaminas e “narcóticos que marcaram os acontecimentos no Estado nazista e nos campos de batalha da Segunda Guerra Mundial” ( Ohler, 2017 , p.12). Leia Mais

La medicina popular peruana (Contribución al folklore médico peruano) | Hermilio Valdizán e Ángel Maldonado

La casi centenaria Medicina popular peruana demanda mucho a sus lectores, no solo por su extensión, sino por la riqueza y la densidad de las informaciones recogidas y sintetizadas por el doctor en medicina y psiquiatra Hermilio Valdizán (1885-1929) y por el doctor en ciencias Ángel Maldonado (1890-1955). Esta edición de la Universidad del Altiplano de Puno es el mayor esfuerzo editorial planteado desde la aparición de la primera edición limeña en 1922. En efecto, entregan al lector dos volúmenes con todas las abreviaturas desarrolladas en el cuerpo del texto además de una reconstrucción de la bibliografía, que originalmente era mínima, ya que la investigación actual arroja 257 referencias de autores y obras citadas, las cuales sirven de insumo a la traducción de todas las citas que estaban en idiomas extranjeros y que ahora disponemos paralelamente en castellano. Suman índices y vocabularios, tales como un glosario de 135 palabras quechuas y populares; un vocabulario popular con 427 entradas de nombres de uso corriente sobre remedios, enfermedades, medidas para los preparados medicinales entre otras empleadas por los estudiosos de la farmacopea entre los siglos XVIII y XX, y un vocabulario médico occidental con 112 entradas cuya fuente son los tesauros especializados. Este extenso aparato de referencias es un instrumento de lectura que implica importantes consecuencias para la investigación actual. Finalmente, el lector tiene nuevas referencias para penetrar en una obra clásica del folklore médico y, a su vez, acalla la crítica de quienes consideraban que el principal defecto era “el poco análisis y sistematización realizado por los autores” ( Devoto Bazán, 2016 , p.79). Leia Mais

Eugenics: a very short introduction | Philippa Levine

Eugenics: a very short introduction, de Philippa Levine, publicado pela Oxford University Press em 2017, tem dimensões modestas, mas presta um belo serviço ao tratar de assunto tão controverso e espinhoso. Os recentes estudos sobre o tema no Brasil e a constante associação entre eugenia e nazismo fazem com que o debate não seja novidade e a publicação de livros que abordem os movimentos eugênicos não seja uma surpresa. Mas, em tempos de radicalismos, intolerância de gênero, racial, social, posições políticas exacerbadas, polarizações e extremismos, a eugenia, toda a rede construída ao redor de seu movimento, seus usos, sua aplicação, suas conseqüências e suas permanências, torna-se assunto de extremo interesse e é essencial que seja sempre revisitado e discutido.

O livro faz parte da coleção “A very short introduction”, publicada desde 1995; atualmente com cerca de 450 títulos, tem como proposta a apresentação dos mais variados temas, de forma “acessível e estimulante”, bastante semelhante à série “O que é” publicada no Brasil pela Editora Brasiliense. Philippa Levine é professora do departamento de História da Universidade do Texas, com vasto currículo e experiência em pesquisa sobre eugenia e temas correlatos.1 Leia Mais

Los pacientes del Manicomio La Castañeda y sus diagnósticos: una historia de la clínica psiquiátrica en México, 1910-1968 | Andrés Ríos Molina

Los pacientes del Manicomio La Castañeda y sus diagnósticos: una historia de la clínica psiquiátrica en México, 1910-1968 (Ríos Molina, 2017) traz boas contribuições não somente para o campo dos estudos sobre a história da psiquiatria, mas para o conjunto de pesquisas que enfoca a trajetória dos pacientes psiquiátricos, os diagnósticos e as instituições asilares a partir da análise de documentos clínicos.

Fruto do trabalho coletivo de ampla rede de pesquisadores, a obra organizada por Andrés Ríos Molina, publicada em 2017, confirma a importância da concretização do longo e audacioso projeto de elaboração de uma base de dados que abriga mais de 12 mil registros pertencentes a indivíduos internados no Manicomio General de La Castañeda durante todo seu período de funcionamento (1910-1968). A cifra corresponde a apenas 20% de todos os documentos encontrados, por meio dos quais foi possível recuperar informações sobre aproximadamente 15 variáveis, entre elas sexo, idade, estado civil, profissão e diagnóstico. Leia Mais

Philosophy of Mathematics – LINNEBO (M)

LINNEBO, Ø. Philosophy of Mathematics. Princeton Universisty Press, 2017. 216p. Resenha de: ALBARELLI, Felipe. Manuscrito, Campinas, v.42 n.2 Apr./June 2019.

The present volume is a contribution to the book series Princeton Foundations of Contemporary Philosophy, and offers a self-contained presentation of fundamental topics of the contemporary philosophy of mathematics. Notwithstanding the intrinsic difficulties of the subject, the book is enjoyable and very well-written and Linnebo succeeds in giving a clear presentation of intricate debates and concepts. The focus of the text is on problems and consequently history is presented only to clear the origin of the various topics. For this reason this book perfectly complements the classic textbook by Shapiro [1], offering a more updated and problem driven introduction to the philosophy of mathematics.

The book is divided in twelve chapters, roughly grouped in two parts: the first seven chapters are devoted to the classic themes from which originate the contemporary debate, while the last five offer a selection of contemporary trends in the philosophy of mathematics. The content-and to some extent the structure-of the book reflects the division in sections of the evergreen anthology by Benacerraf and Putnam [2]: the presentation of the big three schools and the corresponding views on the foundations of mathematics, the ontological problem for mathematical objects, the epistemological problem for mathematical knowledge, and a discussion of the philosophy of set theory.

The book does not intend to be complete neither with respect to the contemporary debates, nor with respect to the history of the discipline. Nonetheless, Linnebo succeeds in giving a broad perspective which introduces some of the most interesting problems of the subject and that, therefore, can profitably be used as an introduction for both philosophers and mathematicians.

This is another merit of this book. It is explicitly structured to build a bridge between the two disciplines, being palatable for people with backgrounds from both philosophy and mathematics. Without diluting the beauty of the subject in shallow waters easy to explore, this book presents the classical ontological and epistemological problems in such a clear way to make them interesting and puzzling from both a philosophical and a mathematical perspective.

We therefore highly recommend this book as an introduction to the philosophy of mathematics; one that will surely convince the readers to investigate further this vast and intriguing domain. We conclude by surveying the content of each of the twelve chapters.

In Chapter One Mathematics as Philosophical Challange, Linnebo introduces the main themes of the book. Initially, the author presents the integration challenge: the attempt to reconcile on a philosophical ground the ontology of abstract mathematical objects with priori knowledge. Next, a section is dedicated to a brief presentation of Kant’s philosophy of mathematics. Here the analytical/synthetic and the a priori/a posteriori distinction are presented. Finally, Linnebo ends the chapter describing the main philosophical positions with respect to mathematics, on the base of Kant’s distinctions.

Chapter two Frege’s Logicism is about Frege’s philosophy of mathematics. Linnebo starts by outlining both Frege’s logicism and his platonism about mathematical objects. Frege’s argument for logicism is presented as an attempt to reduce sentences about arithmetic to sentences about cardinality, while the argument for platonism is introduced by considerations on the semantics of natural language. Subsequently, Frege’s response to the integration challenge is presented. Towards the end, the author shows how Cesar’s problem and Russell’s Paradox undermine Frege’s logicist project.

Chapter three Formalism and Deductivism addresses the two positions named in the title, explaining the motivations for each as well as the main problems that they face. Initially, game formalism is presented, this is the thesis according to which mathematics is the study of arbitrary formal systems, like a game of symbolic manipulation. Next, Linnebo presents term formalism, according to which mathematical objects are the symbols used by mathematicians. Finally, the chapter ends with a discussion on deductivism, the position that sees mathematics as the study of the the formal deductions from arbitrary axioms.

Chapter four Hilbert’s Program is about Hilbert’s formalistic project. This type of formalism differs from the previous ones in that it distinguishes between two types of mathematics: finitary, which deals only with arbitrarily large and finite collections, and infinitary, which deals with complete infinite collections. Linnebo argues that Hilbert assimilates finitary mathematics to term formalism, and infinitary mathematics to deductivism. Hilbert Program is presented as making use of finitary mathematics, which has few suppositions but limited applications, to justify the use of infinitary mathematics, that is epistemically problematic but without limits of application. The chapter ends with a discussion of how the discovery of Gödel’s incompleteness theorems showed the impossibility of completing Hilbert Program.

Chapter five Intuitionism deals with the philosophical thesis bearing the same name, which stands out from those already presented by criticizing certain mathematical practices. Initially, Linnebo explains that intuitionists argue that proofs that use non-constructive methods implicitly presuppose platonism; thus the proposal to abandon principles like the law of the excluded middle. Next, the chapter discusses the intuitionist alternative ontology of mathematics in terms of mental constructions. A subsection is devoted to present intuitionist logic. The chapter ends by showing how the intuitionist view on infinity and proof can influence arithmetic and analysis.

Chapter six Mathematics Empiricism provides an initial section on Mill’s philosophy of mathematics and then focuses on Quine’s empiricism and the indispensability arguments. Initially, Linnebo presents Mill’s argument in defense of the thesis that the principles of mathematics are empirical truths. Then, in discussing Quine, Linnebo presents the main arguments against the synthetic/analytical distinction and his holistic empiricism, together with the criticism that these positions received in the literature. The chapter ends with a presentation and discussion of Quine’s famous indispensability argument, which defends mathematical platonism on the basis of the unavoidable use of mathematics in science.

Chapter seven Nominalism discusses the thesis that no abstract mathematical objects exist. Linnebo explains that the difficulty of explaining how we could have knowledge of abstract objects, given that they have no causal relationship, serves as a basis for nominalism. Then, Field’s project to nominalize science is presented, which consists in showing that it is possible to do science with a language that is not committed to the existence of abstract entities. To this aim, Filed needs to reformulate scientific theories without impacting on their deductive capacities. Towards the end Linnebo also presents a form of nominalism that is not reconstructive.

Chapter Eight Mathematical Intuition is devoted to mathematical intuition. Here we face directly the difficult problem of the justification of mathematical knowledge. After having cleared that intuition is not an univocal notion and that intuitive knowledge may come in degrees, Linnebo proceeds in presenting the recent debate on the relevance of intuition in mathematics. We are briefly recalled that intuition is fundamental in the work of Hilbert, Russell, and Gödel and then the chapter goes on presenting recent defenses of mathematical intuition: the realist use that Maddy made of this notion, the position of Parsons which extends the line of Kant and Hilbert, and finally the phenomenological perspective of Føllesdal. The extent to which intuition can be used to justify higher mathematics is then referred to chapters ten and twelve.

Chapter Nine Abstraction Reconsidered goes back to the notion of abstraction, connecting Frege’s work with the neo-logicist position inaugurated by Hale and Wright. Abstraction principles are presented as a form of access to abstract mathematical objects. The discussion starts from Russell’s paradox and the consequent collapse of Frege’s logicist program. After briefly presenting Russell and Whitehead proposal to avoid the paradoxes by means of type theory, Linnebo presents the neo-logicist prosopal: the attempt to derive arithmetic from safe abstraction principles. After a discussion of the logicality of Hume’s Principle and after presenting the problem of distinguishing the good abstractions from the bad ones, the chapter ends with a discussion on a form of abstraction called dynamic, which better fits the iterative conception of sets.

Chapter Ten The Iterative Conception of Sets is meant to introduce the reader to the problems of the philosophy of set theory. After briefly recalling the definition of the cumulative hierarchy of the Vα, which form the intended interpretation of the axioms of set theory, Linnebo presents and discusses the axioms of ZFC. The chapter continues explaining the similarities between ZFC and type theory and then proceeds in addressing Boolos’ stage theory-i.e. the philosophical counterpart of the formal presentation of a cumulative hierarchy-and the way in which this theory is used to justify a great amount of ZFC axioms. Linnebo then warns the reader from the difficulties of a literal understanding of the generative vocabulary and towards the end of the chapter he introduces the debate between actualists and the potentialists with respect to existence of the universe of all sets.

Chapter Eleven Structuralism presents the main tenants and problems of a view of mathematics centered around mathematical structures. Following the standard terminology, Linnebo divides structuralist positions between eliminative and noneliminative structuralism, according to the commitments to the existence or nonexistence of structures or patterns. By exemplifying these position Linnebo presents the case of arithmetic, discussing the origins of structuralist positions in the work of Dedekind. An interesting section then is devoted to the view according to which structures result from a process of abstraction. The chapter ends by outlining the connection between structuralism and the foundations of mathematics offered by category theory.

Chapter Twelve The Quest for New Axioms brings back the discussion to the philosophy of set theory. The starting point of the discussion is found in the widespread presence of independence in set theory, discovered after the proof of independence of the Continuum Hypothesis (CH) from ZFC. Linnebo then proceeds in discussing the main philosophical arguments offered to justify extensions of ZFC able to overcome independence: intrinsic reasons, connected to the use of intuition, and extrinsic reasons, based on the success of new set-theoretical principles. The chapter ends with a discussion on two common views on set theory: pluralism, that equally accepts different interpretations of ZFC, and a monist view, that has its roots on the quasicategoricity argument of Zermelo for second order ZFC.

References

  1. SHAPIRO. Thinking about Mathematics. Oxford University Press, 2000. [ Links]
  2. BENACERRAF AND H. PUTNAM. Philosophy of Mathematics. Selected Readings. Cambridge University Press, 1967. [ Links]

Giorgio Venturi – University of Campinas. Department of Philosophyv. Brazil. gio.venturi@gmail.com

Felipe Albarelli – University of Campinas. Department of Philosophy. Brazil. felipesalbarelli@gmail.com

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Priority Nominalism – IMAGUIRE (M)

IMAGUIRE, G.. Priority Nominalism. Springer Verlag, 2018. 171p. Resenha de: CICCARELLI, Vicenzo. Manuscrito, Campinas, v.42 n.2 Apr./June 2019.

In his most recent book ‘Priority Nominalism’ (2018, Springer Verlag), Guido Imaguire presents a new sort of nominalism considered both as a development and an enrichment of Quine’s view on universals notoriously labeled by Armstrong Ostrich Nominalism: like the Ostrich that buries his head under the ground, the Quinean nominalist gets rid of universals by not taking predicates with the adequate ontological seriousness.

The basic idea of the book is that questions of existence must be answered by applying what Imaguire calls the criterion of Grounded Ontological Commitment. According to this criterion, Quine’s criterion of ontological commitment must be applied not to all sentences composing the theories that we are open to accept as true, but only to sentences of the same theories – or suitable paraphrases – expressing fundamental facts, i.e. facts that are not grounded in any other fact. This criterion combined with the view that predication is fundamental, i.e. not grounded in any other fact about properties, classes, platonic forms, etc… – results in a strengthened version of Ostrich Nominalism: there are no universals for there are no sentences expressing fundamental facts in which expressions allegedly standing for universals occur in a position into which we may quantify. Thus the notion of metaphysical grounding represents the additional and crucial ingredient of Priority Nominalism that makes it a strengthened version of Quine’s Ostrich Nominalism. Moreover, Priority Nominalism besides gaining more argumentative strength than Ostrich Nominalism is also wider in scope: not just properties, but also entities like classes, numbers, meanings, and word types can be explained away using the same strategy.

The book has also another purpose: to show that the attitude of the Ostrich Nominalist is not dismissive regarding ontological questions about universals when he is endowed with the theoretical tool of the notion of grounding. The ostrich nominalist does not reject the problem of the grounds of predication: he simply argues that predication is not grounded in anything else, that is fundamental, and thus he does have an answer. Moreover, Imaguire argues that even Quine’s Ostrich Nominalism is not dismissive and consequently the label Ostrich is unfair: according to Imaguire, what is achieved with the introduction of the notion of metaphysical grounding is a way of making explicit some aspects of Quine’s nominalism that many times are justified by appealing to ontological intuitions.

In the first chapter, Imaguire presents the Problem of Universals. According to him, the expression ‘Problem of Universals’ has been traditionally used to denote different issues and formulations. Imaguire lists five formulations: (1) The existence question, (2) The grounding of predication, (3) The One-Over-Many Problem, (4) The Many-Over-One Problem, and (5) the Similar-But-Different Problem. (1) is summarized by the question “Do universals exist?”; (2) is the problem of explaining predication, i.e. of specifying in virtue of what a certain particular a is F. Formulations (3), (4), and (5) are deeply related and amount to answering questions introduced by the “how is it possible” clause: (3) “How is it possible that two different particulars a and b are both F?”; (4) “How is it possible that the same particular a is both F and G?”; (5) “How is it possible that two distinct particulars a and b are similar – insofar as they are both F – and different at the same time?”. As the author remarks, many traditional solutions to the Problem of Universals deal with one particular formulation, while his proposal has the ambition of providing answers to all formulations (1)-(5). The author defends that the logical core of the Problem of Universals is the type-token problem: the problem of accepting the existence of types just because there are tokens of the same type. The type-token problem represents a generalization of the Problem of Universals, for it extends the problem of existence to other suspicious abstract entities that are not properties. In another section, Imaguire argues that the type-token problem is often confused with the sparse-abundant problem. The sparse-abundant problem in spite of being connected with the problem of universals (existence of universal is defended on the ground of non-arbitrary special sorts of similarities, properties, classes) is not its logical core.

The chapter ends with a list of the main solutions to the Problem of Universals so far proposed:

  • Trascendental realism
  • Immanent realism
  • Class nominalism
  • Predicate/concept nominalism
  • Trope theory
  • Priority nominalism

In chapter 2 friends and foes of Ostrich Nominalism are considered. Concerning the foes, after examining the main objections in the literature, the author concludes that the Ostrich nominalist is subject to four main charges: 1) he does not take the Problem of Universals as a genuine metaphysical problem, 2) he does not take predicates with ontological seriousness, 3) he does not offer an analysis of predication, 3) he does not offer an explanation for commonality of properties. On the other hand, the Ostrich has friends, namely authors that partially agree with some crucial aspects of Ostrich Nominalism: e.g. the fact that predication is fundamental (Van Cleve, Summerford) and the fact that not just properties are suspicious entities but also other abstract entities (Melia, Azzouni).

In chapter 3 it is discussed what kind of explanation the Problem of Universals demands. Three main candidates for the role of explanans are considered:

  • Ontological commitment
  • Grounding
  • Truthmaking

The priority nominalist offers a complex explanation based on the combination of ontological commitment and grounding.

Given that the Problem of Universals is an ontological problem, ontological commitment seems at first glance the best candidate. Moreover, the One-Over-Many Problem, when framed as an argument, is based on the criterion of ontological commitment. The argument may be briefly resumed as follows: from the fact that a is F and b is F we deduce that a and b have something in common; thus there is something that a and b have in common. Hence, the fact that a is F and b is F is committed to an entity that a and b have in common.

The Priority Nominalist does not frame his explanation in terms of the truthmaking relation for several reasons. Truthmaking is a relation from reality to language while ontological commitment goes in the opposite direction. Yet the problem of universals is the problem of accounting for the truth of predication, thus it goes from language to reality. In this sense ontological commitment seems to be a more adequate explanans than truthmaking.

Another problem of the truthmaking relation is that – differently from ontological commitment – it is non-factive: the fact that a sentence S is made true by something does not ensure that there is a unique truth-maker and does not say anything at all on what sort of entities all possible truth-makers of S might be. Thus from the fact that ‘Fa‘ is true, we cannot conclude by invoking the truthmaking relation that there is a universal for which F stands.

Grounding also seems to be more adequate than truthmaking. The main reason the author offers is that to construct the ontological hierarchy that is required for the formulation of the problem by the Priority Nominalist, the transitivity of the relation between different ontological categories is required. Truthmaking is not transitive whereas grounding is.

The final part of the chapter is dedicated to introduce the notions that are crucial to the explanation offered by the Priority Nominalist. The notion of ontological categories as the most general categories of reality is introduced and ontological categories are divided into fundamental and derivative. A metaphysical theory is considered as a System of Ontological Categories. Four important claims are made regarding ontological categories:

  • Categories of the same level are pairwise disjoint.
  • To accept a range of entities as ontological category does not mean to accept it as a fundamental ontological category
  • The mere existence of instances of an ontological category does not imply that the category is fundamental
  • When at least one entity eof a category C is fundamental, then C is fundamental

With this conception of ontological category in mind the Priority Nominalist may state his position: properties, states of affairs, tropes are instantiated ontological categories, yet they are only derivative. The only fundamental ontological category is the category of concrete particulars.

In chapter 4 the author deals with the Problem of Predication, i.e. the problem of explaining in virtue of what a particular a is F. A solution to this problem is necessary to deal with the One-Over-Many Problem, for the One-Over-Many Problem is formulated in terms of multiple predications. The chapter has a negative purpose: to show that any view so far proposed according to which predication is not fundamental and thus any attempt to ground predication irremediably falls into an infinite regress.

The author starts by listing how the so-called Bradley’s regress occurs with the main approaches to the Problem of Predication: Transcendental Realism, Immanent Realism, Class Nominalism, Concept Nominalism, Predicate Nominalism, Resemblance Nominalism, and Trope Theory. Exception made for Trope Theory, the structure of the reasoning that gives rise to the regress is almost the same.

Successively, Imaguire passes to consider some possible strategies to block Bradley’s regress that have been proposed and points out their main flaws:

  • Identity of levels strategy: all levels of explanation are only apparently different. However, the author objects that each level amounts to the introduction of a different relation (e.g. relation of different order, different linguistic level) thus different levels of grounding correspond to different facts.
  • Quantificational Strategy:this is a strategy available only for the nominalist. The idea is that there is no need to quantify over the relation introduced to ground predication, thus there is no effective ontological commitment to such a relation. The Priority Nominalist replies that it is unclear why we should not take with ontological seriousness the relation introduced to ground predication while we should do the opposite with the property appearing at the initial level.
  • Formal Relations:the relation appearing at each level of explanation is a mere formal ontological relation, thus we are not ontologically committed to it. Yet – as the author remarks – which criterion do we have to distinguish between properties and relations that need to be grounded and a formal ontological relation?
  • Internal Relations:the relation between a particular and a universal (whatever it may taken to be) is an internal relation, and internal relations are given as ontological free lunch whenever the relata are given. However – the author objects – the notion of internal relation cannot be strictly defined without appealing to intrinsic features of the relata. As a consequence, the internal relation of e.g. instantiantion is grounded on the fact that a certain particular has certain properties. How could it possibly ground predication without begging the question?
  • Truthmakers:Armstrong proposed an argument to block the regress based on the notion of truthmaker. As Armstrong argues, all steps of explanation in Bradley’s regress have the same truthmaker, thus the explanation may arrest at the first step. The author objects that in Armstrong’s argument there is an illegitimate switch between the relation of truthmaking and that of grounding: why at the first level, i.e. the level of predication, we must ask for grounding and at the following levels we must ask for a truthmaker?

The conclusion Imaguire draws is that all attempts to ground predication so far proposed are unsatisfactory; albeit this fact does not represent a knock-down argument against the view that predication may be grounded, it supports the hypothesis that predication is fundamental. And precisely this is the position of the Priority Nominalist. Moreover, the author stresses that such a position does not amount to refuse to deal with the Problem of Predication, yet it corresponds just to a particular answer to this problem, i.e. that predication is not grounded in anything else.

In Chapter 5 a solution is offered to the One-Over-Many Problem and its variations (i.e. the Many-Over-One and the Similar-But-Different Problems). As previously mentioned, the One-Over-Many Problem may be formulated as an argument whose crucial point is the criterion of ontological commitment: the existence of universals is justified by the fact that we are allowed to quantify over what two particulars being both F have in common. Imaguire highlights that the principle of ontological commitment presents a fundamental difficulty which he calls the Paraphrase Symmetry Problem:

“suppose that sentence S commits us to the existence of entity E, but its paraphrase S* does not. Why should we conclude that the commitment of S to E is only apparent? What reason could we have to prefer S to S*? Since ‘is a paraphrase of’ is plausibly a symmetrical relation between sentences, one could also conclude that the non-commitment of S* to E is only apparent.” Imaguire (2018), p. 87

According to the Priority Nominalism, such a difficulty may be overcome by combining the criterion of ontological commitment with the notion of metaphysical grounding. In other words, given the two sentences S and S* of the quoted passage, the criterion of ontological commitment must be applied to the sentence (if any) that expresses a fundamental fact. The combination of ontological commitment with grounding results in the Criterion of Grounded Ontological Commitment which may be summarized by the motto:

“To be is to be a value of a bound variable of a fundamental truth.” Imaguire (2018), p. 89

The Criterion of Grounded Ontological Commitment is firstly used to analyze the One-Over-Many Problem. Imaguire considers a battery of sentences and the corresponding paraphrases that are relevant to the issue: for instance, he considers both the sentence ‘a is F‘ and the sentence ‘a has the property F”. The Priority Nominalist is willing to say that ‘a is F‘ expresses a fact that is more fundamental than that expressed by the sentence ‘a has the property F‘, and thus, given that in ‘a is F‘ there is no expression allegedly standing for a universal that occurs in a position over which we may perform a first-order quantification, there is no grounded ontological commitment to universals. To achieve this goal Imaguire uses Fine’s logical theory of the grounding relation and in particular Fine’s treatment of two lambda operators: the predicate abstraction and the property abstraction operator. Thus Imaguire formalizes the aforementioned battery of sentences and their paraphrases using Fine’s rules for the lambda operators and the immediate result is that ‘a is F‘ (formalized using the predicate abstraction operator) grounds ‘a has the property F‘ (formalized using the property abstraction operator). The same strategy is used to dissolve the apparent ontological commitment to universals in the Many-Over-One Problem and the Similar-But-Different Problem.

The remaining part of the chapter is dedicated to two important issues: the status of sentences apparently committed to abstract entities and the specification of a truthmaker for sentences of the form ‘a is F‘. Concerning sentences like ‘a has the property F ‘, ‘a and b have the property F in common’, etc… the priority nominalist has a position that notably differs from many nominalistic views: many nominalists would say that the sentence ‘a has the property F‘ is false or truthvalueless at best, for there are no such entities as properties; the priority nominalist holds that ‘a has the property F ‘ is “a common but misleading manner of saying that things are in a certain way” (Imaguire (2018), p. 100), i.e that a is in the F-way. The same applies to other abstract terms, as in the case of numbers: sentences containing number terms are not false, they are true even if they do not express fundamental facts; they are just ontologically misleading insofar as they suggests that there are numbers. By proposing a hierarchical structure of reality in which derivative facts are included with a thin notion of existence, the Priority Nominalist does not have to pay the price of avoiding property talk, or number talk, or meaning talk, etc…

Concerning the problem of specifying a truthmaker for ‘a is F’, the Priority Nominalism invokes the notion of thick particular: what makes true ‘a is F‘ is precisely the thick particular a with its being in a particular way expressed by the predicate F. In other words, the state of affairs corresponding to ‘a is F‘ has as only constituent the thick particular a.

Chapter 6 is about second-order quantification. Imaguire distinguishes two different senses of second-order quantification: the metaphysical sense and the logical sense. A metaphysical second-order quantification is a quantification over properties that may be instantiated by particulars: ‘There is a property that Napoleon and Julius Caesar have in common’ is an example of this sort of quantification. Notice that from a strictly logical point of view, this sort of quantification corresponds to a first-order quantification, for expressions allegedly standing for properties are nominalized: ‘There is an x such that x is a property and Napoleon and Julius Caesar have x in common’. A logical second-order quantification is a quantification into the position of first-order predicates, e.g. ‘ There is something that both Napoleon and Julius Caesar are’. It is crucial for the priority nominalist to explain away both logical and metaphysical second-order quantification, for if second-order existential quantified sentences were as fundamental as first-order ones, then there would be an unavoidable (grounded) ontological commitment to type entities.

The author considers three contexts of abstract reference to properties that allow for metaphysical second-order quantification: exemplification, intensional, and classificatory contexts. Exemplification and intensional contexts are easily dismissed, thus he concentrates on classificatory contexts and in particular to two examples: the sentences `Humility is a virtue’ and ‘Red is more similar to orange than blue’. The strategy Imaguire uses to paraphrase away abstract reference is based on the following guiding principle: every time we talk about a property F we are not really talking about F-ness but about F things. The one of the simplest examples of this kind is when we paraphrase the sentence ‘the concept F is a subconcept of the concept G‘ as ‘For every x, if x is F, then x is G‘. Clearly, cases like ‘Humility is a virtue’ are far more complex and require additional theoretical tools. Imaguire uses the method of grounded paraphrases, i.e. a method of paraphrasing second-order sentences based on both Fine’s logic of grounding (including the relation of partial grounding) and a sort of negative form of grounding that he calls despite operator.

The case of logical second-order quantification is treated differently. Imaguire argues that logical second-order quantification is not intelligible, for every attempted construction of a grammatical sentence in ordinary language translating the formal second-order quantification ends up altering the syntactic category of the quantified expressions. Moreover, even if an intelligible reading of second-order quantification were available, it could not result in an ontological commitment, for there would still be a difference between second and first-order quantification based on the different semantic behaviors between naming expressions and predicative expressions. Such a difference is explained in terms of Dudman’s distinction between the representational and the semantic role conceptions of reference. Predicative expressions have reference in the sense that they fulfill a certain semantic role in the determination of the truth-value of an entire sentence and not in the sense that they stand for existing entities. On the contrary, proper names have reference in the sense that they stand for an existing possibly extra-linguistic entity: according to Imaguire’s terminology, proper names have referents, predicates have references. The conclusion of the chapter is that provided that both metaphysical and logical second-order quantification may be respectively explained away and dismissed, intelligible second-order sentences express facts that are not fundamental for they are grounded in facts expressed by the correspondent first-order grounded paraphrases. As a consequence, according to the criterion of grounded ontological commitment, second-order sentences do not have any additional ontological import compared to their first-order paraphrases.

In the last chapter the author resumes his position by presenting the big picture of reality resulting from Priority Nominalism. Not just properties are dismissed as non-fundamental entities, but also word types, meaning, sets, numbers, etc… Even concrete particulars like mereological aggregates do not exist insofar as they are not fundamental: Priority Nominalism entails a form of mereological atomism. The chapter is also concerned with the contextualization of Priority Nominalism in the theoretical debate on the status of universals. Imaguire considers traditional realist and nominalist approaches to the Problem of Universals and remarks that most of them do not make explicit the distinctive features of Priority Nominalism, for the proposal of the book besides offering a new solution to the Problem of Universals, represents a relatively new way of understanding and formulating the problem itself. He argues that the approach the priority nominalist favors is what he calls the hierarchical approach. According to this approach, realists and nominalists disagree about the hierarchical structure of reality. The realist holds that properties are treated like objects, while the nominalist holds that they belong to a different level and only the level zero (i.e. the level at which we are allowed to quantify over in fundamental truths) is the level of existing entities. Thus the realist is accused of confusing different levels of the hierarchical structure, by reifying what does not belong to the level zero.

Finally the author lists the main advantages of Priority Nominalism:

  • Agreement with pre-theoretical intuitions: the apple is red is a fundamental fact, is not grounded in the existence of properties or classes, or mysterious relations of resemblance.
  • Few metaphysical assumptions: does not need modal realism, does not need universals, does not need sets.
  • Qualitatively and quantitatively economical: there is just one category of existence, i.e. particulars.
  • Provides an objectivist solution to the problem of universals: there are no abstract entities, yet there are objective truths about them.

Priority Nominalism‘ is an excellent example of how a book may be concerned with vexed problems and vast topics in a relatively small number of pages. The author goes constantly straight to the point and avoids as much as possible any sort of digression; moreover, the purpose of book and the general view of the author on the matter are frequently resumed and re-proposed, so that the reader should not get lost in the dialectic of the arguments. At every crucial point of the book, a long list of examples facilitates the understanding; the style of writing is simple, direct, and pleasant.

The book is an original and interesting work in two senses: it contains a new solution to the Problem of Universals and represents a new formulation and understanding of the problem itself. For instance, in chapter 1 the reader may find a remarkably clear exposition of the Problem of Universals that is re-formulated in many versions according to fine and profound philosophical distinctions; even the reader who is not so familiar with the relevant literature may read the introductory parts of the book without big efforts.

The basic idea of the proposed view – the combination of grounding with ontological commitment – is simple and at first glance seems to be fruitful. However, the fact that complex arguments and notions are often resumed in the space of few pages may give the false impression that notions such as that of metaphysical grounding are less controversial than they actually are. Perhaps such an impression is given by the fact that while the author is extremely clear regarding the main difficulties and objections to Quine’s criterion of ontogical commitment, he does not seem to do the same with the notion of metaphysical grounding which is definitely a controversial notion; in recent times almost any aspect of grounding has been questioned and put under debate: its modal status (Trogdon 2013), the formal properties of the grounding relation (Rodriguez-Pereyra 2015), its theoretical role and indispensability (Wilson 2014). Given that it is not clear from the book what is the author’s position regarding the main problems of the notion of grounding, possible difficulties for Priority Nominalism may arise if grounding is understood in one way or the other. For the sake of clarity, I will try to sketch a problem for the priority nominalist that may arise from the controversial nature of the notion of grounding. The priority nominalist may be in a predicament engendered by the very strategy he uses to dismiss universals, i.e. the principle of grounded ontological commitment. Consider the sentences ‘a is F‘ and ‘a has the property F‘; let A be the fact expressed by the former and B the fact the latter expresses. Consider now the sentence ‘A grounds B’: the priority nominalist is happy to say that ‘A grounds B’ is true. Let C be the fact expressed by ‘A grounds B’. For the priority nominalist to say that C is a fundamental fact is not an option: for given that B is a fact included in C and given that C is fundamental, then B must also be fundamental (this is a version of what has been known as the collapse problem (Sider 2011)). Yet if B is fundamental, then by the criterion of grounded ontological commitment there are properties. Thus the priority nominalist owes us an argument to the effect that C is not a fundamental fact and is grounded in another fact D not including B. Perhaps C is grounded on A (as suggested by adapting deRosset’s strategy to avoid the collapse problem to the present case (deRosset 2013)); nevertheless, the author does not say anything in the book about facts expressed by sentences of the form ‘X grounds Y’.

In spite of possible controversies regarding Imaguire’s proposal, ‘Priority Nominalist‘ is a highly recommended reading for everyone who is interested in contemporary metaphysics. It is at the same time an excellent introduction to the Problem of Universals, a capillary survey of the recent literature on the issue, and an extremely interesting attempt of vindicating some ontological intuitions that are implicit in Quine’s nominalism.

References

DEROSSET, L. Grounding Explanations, Philosophers’ Imprint 13, 2013. [ Links ]

IMAGUIRE, G. Priority Nominalism, Springer Verlag, 2018. [ Links ]

RODRIGUEZ-PEREYRA, G. Grounding is not a Strict Order, Journal of the American Philosophical Association 1 (3):517-534, 2015. [ Links ]

SIDER, T. Writing the Book of the World, Oxford University Press, 2011. [ Links ]

WILSON, J. No Work for a Theory of Grounding, Inquiry: An Interdisciplinary Journal of Philosophy 57 (5-6):535-579, 2014. [ Links ]

Vincenzo Ciccarelli – University of Campinas, Department of Philosophy, Campinas, SP, Brazil. E-mail: ciccarelli.vin@gmail.com

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Neurociencia para educadores – BUENO (I-DCSGH)

BUENO, D. Neurociencia para educadores. Barcelona: Octaedro, 2017. Resenha de: GARCÍA ANDRÉS, Joaquín. Íber – Didáctica de las Ciencias Sociales, Geografía e Historia, n.95, p.84-85, abr., 2019.

David Bueno, investigador en genética de la Universidad de Barcelona, aborda en este libro un amplio repertorio de cuestiones sobre el cerebro de los alumnos y alumnas a través de diecisiete preguntas que, partiendo de la premisa de que este órgano que dirige, gestiona y rige las múltiples actividades que realiza nuestro cuerpo es el que, a partir del comportamiento, nos permite adaptarnos al ambiente al mismo tiempo que lo transformamos. En tal sentido, la educación –la profesión más antigua del mundo, como él la denomina– incide de una forma sustancial en el funcionamiento del cerebro. Por ello, esta obra pretende definir cuál ha de ser el objetivo consciente de la educación, desde un punto de vista social, familiar y, por supuesto, pedagógico, ya que, según sea la respuesta así serán las estrategias educativas a adoptar.

A su juicio, ese objetivo ha de ser ayudar a las personas a crecer con –pero sobre todo en– dignidad. El autor asegura que «la educación ha de ser un elemento de satisfacción que surja de la utilidad que estimula nuestra imaginación», a través principalmente del insustituible papel de las emociones y del trabajo cooperativo. Y las páginas del libro van desgranando respuestas que explican aquello que busca el cerebro cuando aprende algo y, en consecuencia, qué se le puede y se le debe ofrecer al estudiantado.

Cuestiones como ¿las capacidades cognitivas dependen de nuestros genes? ¿cómo funciona el cerebro? o ¿existen las inteligencias múltiples? encabezan esta nómina de interrogantes que gradualmente van concretándose en aspectos más puntuales referidos a los motivos por los que se aburren los niños en clase, cómo se puede desaprender o por qué a los adolescentes les gusta saltarse las normas. Las páginas finales atienden a inquietudes vinculadas a la motivación, la creatividad, la influencia del ambiente social o la «utilidad» de las materias consideradas marías.

A modo de conclusiones, incluye una relación de once «aspectos clave del cerebro» relacionados con la práctica educativa que aluden al hecho de que el cerebro es un órgano muy plástico, en continua reconstrucción, en el que las conexiones neuronales más sólidas son las que se nutren de las emociones, aunque solo fuera porque se vinculan con la supervivencia.

Un imperativo vital no solo del individuo, sino también de la sociedad; de ahí que los aprendizajes cooperativos y colaborativos resulten más significativos y activen muchas más redes neuronales que otros. De modo análogo, El autor destaca el hecho de que las novedades y las sorpresas facilitan la captación de la atención del alumnado de un modo automático, lo que las convierte en resortes motivadores de primer orden, un incentivo para el aprendizaje que también estimula el optimismo.

Otro aspecto que se señala es el relacionado con las actitudes, cuya adquisición se hace en gran medida por imitación, en un proceso en el que las neuronas espejo son fundamentales a su vez para lograr estimular ese otro gran objetivo educativo que es el de dar alas a la creatividad. Un propósito que lleva a resituar a determinadas asignaturas en un lugar de preeminencia junto con las denominadas materias «instrumentales», en el seno de un funcionamiento integrado y no parcelado de las funciones cerebrales, como habitualmente se hace en el marco académico.

En sintonía con esta línea argumental también se tienen en cuenta a los enemigos del cerebro, el aprendizaje y la educación, entre los que destaca el estrés cuando este es crónico, dado que altera las conexiones neurales de determinadas zonas del cerebro, en particular las vinculadas con la reflexión, el control de las emociones, la toma de decisiones y el control ejecutivo.

De ahí su trascendencia, más aún en la medida en que deja una huella imborrable en el cerebro que puede afectar a la conducta de las personas para toda la vida.

En suma, una obra tan interesante como útil que acerca la neurociencia al lector de un modo comprensible, riguroso, ameno y estimulante, hasta el punto de introducir referencias y ejemplos muy ilustrativos, así como un original bonus track que, a modo de recompensa, vincula muchas de las ideas primordiales que desliza a través de sus páginas con ese oscuro objeto de deseo que es el placer.

Muchas de las enseñanzas que se pueden adquirir con la lectura de este libro permiten reivindicar el valor de los aspectos formales del aprendizaje, situando estos en el mismo nivel que los contenidos teóricos, tantas veces «idolatrados» por los docentes. No en vano, en palabras del autor, «las emociones siguen siendo el elemento multiplicador de la ecuación del aprendizaje».

Joaquín García Andrés – E-mail: joagarand@gmail.com

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Vozes em fragmentos na poesia de Chico: uma arquitetura polifônica? – KOGAWA (B-RED)

KOGAWA, João. Vozes em fragmentos na poesia de Chico: uma arquitetura polifônica? Rio de Janeiro: Editora Multifoco, 2018, 170p. Resenha de: MAGALHÃES, Anderson Salvaterra. Bakhtiniana, Revista de Estudos do Discurso, v.14 n.2, São Paulo Apr./June, 2019.

Fragmentação e reconceituação nuclear são duas características distintivas dos tempos atuais se estes tempos são considerados emoldurados pela condição (ou condições) pós-moderna(s). Seja essa moldura pós-moderna desenhada pelo fim das metanarrativas, como discutido pelo filósofo francês Jean-François Lyotard (2000) 1, ou entendida como uma liberação de símbolos culturais, de acordo com o também filósofo francês Danny-Robert Dufour (2005)2, ou como tempos líquidos, de acordo com o sociólogo e filósofo polonês Zygmunt Bauman (2007) 3, entre outras formas de tentar capturar o que tem acontecido com as organizações sociais especialmente na cultura ocidental, parece consenso que valores nucleares têm sido revistos. E essa revisão de valores leva à reconceituação de relações e instituições em geral. Não apenas relações e identidades sociais têm sido repensadas, como também modos de teorizar, o que geralmente leva a um relativismo de valores uma vez aceitos como absolutos ou, pelo menos, sólidos e estáveis. Então, um leitor contemporâneo pode pegar um par de óculos pós-modernos para simplesmente dar uma olhada ou para escrutinizar cuidadosamente o livro de Kogawa e se perguntar o que efetivamente está em jogo ali.

Bem, em Vozes em fragmentos na poesia de Chico, como indicado na pergunta posta no subtítulo do livro – uma arquitetura polifônica? -, o leitor encontra um contundente exercício teórico em torno do conceito bakhtiniano de polifonia que contribui para o entendimento de uma luta política flagrante no e pelo trabalho ético e estético com a linguagem num período da história brasileira que tem sido objeto de disputa conceitual: a ditadura militar. Porém, a fim de se engajar na discussão de Kogawa e tirar proveito de sua riqueza, o relativismo que pode derivar de uma posição pós-moderna deve dar lugar a um questionamento fundamentado em valores modernos. De outro modo, corre-se o risco de perder a questão. Como assim? Uma breve análise da estrutura do livro deve responder a esta pergunta.

Professor de Análise do Discurso na Universidade Federal de São Paulo, autor também de Linguística & Marxismo: condições de emergência para uma teoria do discurso francesa no Brasil (KOGAWA, 2015), Kogawa tem se ocupado há algum tempo do modo como se teoriza o discurso no âmbito acadêmico brasileiro, e esta nova obra só corrobora sua trajetória de reflexão. Logo após os agradecimentos usuais, há um prefácio bem informativo escrito por Renata Coelho Marchezan, que destaca a relevância do livro no conjunto de trabalhos em torno do Círculo de Bakhtin que enfrentam o desafio de lidar com um produtivo e difundido pensamento – o pensamento dialógico – sem cair na banalização. Dentre os conceitos vulgarizados, polifonia é sem dúvida um dos conceitos de mais difícil abordagem, e Marchezan antecipa que Kogawa identifica e problematiza a homogeneização dos conceitos de polifonia, dialogismo e heterodiscursividade. Esta é a primeira pista de que em Vozes em fragmentos na poesia de Chico: uma arquitetura polifônica? não há relativismo conceitual, e sim refinamento.

Na introdução, Kogawa afirma claramente o objetivo do livro: propor “uma leitura do conceito de polifonia em Bakhtin” (p.17) e anuncia que faz tal leitura perseguindo as bases filosóficas do conceito e analisando a relação autor-herói em letras de algumas canções compostas por Chico Buarque de Holanda durante a ditadura militar no Brasil. Ele antecipa que mobiliza polifonia pela negativa, isto é, identificando um modo não-polifônico de (se) enunciar. Letras de canções em que as vozes de grupos socioeconomicamente marginalizados são personificadas num sambista, numa prostituta, num pedreiro, dentre outros, são selecionadas para compor uma cadeia discursiva em que não se encontram múltiplas vozes sociais equipolentes, mas diferentes modos de sustentar uma postura. Ele deixa para o terceiro capítulo os detalhes que corroboram essa afirmação.

É no primeiro capítulo que Kogawa efetivamente lança os fundamentos modernos de sua discussão. Isso não quer dizer que a discussão seja ultrapassada. Pelo contrário, mostra-se altamente relevante em tempos em que conceitos básicos e nucleares, como o de ditadura, têm sido relativizados e consequentemente esvaziados. No livro, o autor dá especial atenção ao conceito de polifonia e, através da análise de uma cadeia discursiva particular da poesia de Chico, procede a um refinamento conceitual indicando que se trata de um fenômeno discursivo bastante raro. Por causa disso, não deve haver depreciação de modos não-polifônicos de (se) enunciar. Debaixo do guarda-chuva do dialogismo, é a responsabilidade ética que garante a relevância histórica e cultural do engajamento na cadeia discursiva.

Esse trabalho conceitual é desenvolvido no primeiro capítulo em quatro etapas. Primeiro, a natureza dialógica da linguagem é definida a partir da visitação de importantes obras do Círculo, como Marxismo e filosofia da linguagem, de Volóchinov (1986) 4. Dessa grande obra, Kogawa recupera a ideia de que a linguagem não é um sistema abstrato, nem uma produção solipsista individual, mas uma realidade viva resultante das relações estabelecidas nos e pelos grupos sociais. Por isso, argumenta, a linguagem tem uma natureza dialógica, social e histórica, e as instâncias singulares de sua atualização apresentam manifestação material que faz sentido num enquadre sociocultural. Isso é crucial para entender, por um lado, a discussão conceitual sobre polifonia e, por outro, para entender o processamento semântico da cadeia discursiva selecionada da poesia de Chico. A natureza dialógica, social e histórica da linguagem atualiza e dá visibilidade àquilo que é posto em questão na relação autor-herói nas letras de canções analisadas.

Em segundo lugar, a relação autor-herói propriamente dita é escrutinizada não apenas, mas principalmente, pelo exame do ensaio O autor e a personagem na atividade estética (BAKHTIN 1990)5. Kogawa é cauteloso em fazer referência a traduções recentes para o português dos ensaios e livros do mestre russo. Isso lhe permite discutir questões da recente história brasileira em sintonia com a agenda dos estudos bakhtinianos no Brasil. Então, encontra-se no livro uma proveitosa discussão sobre como as posições estéticas de autor e herói revelam a responsabilidade ética implicada na cadeia discursiva das letras de Chico.

Em terceiro lugar, a ideia de cadeia discursiva propriamente dita é discutida. Kogawa demonstra que, no pensamento dialógico a realidade da linguagem é necessariamente interacional, e que se pode distinguir monologismo de dialogismo no modo como o autor se relaciona com o herói. Se a linguagem é preponderantemente dialógica, o modo como as relações estéticas são construídas pode variar, e essa variação pode mostrar uma tendência monológica ou dialógica. Embora não mencione explicitamente os recentemente divulgados ensaios intitulados Diálogo I: a questão do discurso dialógico (BAKHTIN 2016a) e Diálogo II (BAKHTIN 2016b), Kogawa faz referência à edição em que esses ensaios são publicados em português, e sua composição retórica da leitura do trabalho de Bakhtin indica a coerência que se encontra no conjunto de ensaios do pensador russo, a despeito do modo não-linear que seus pensamentos foram distribuídos na Rússia e alhures.

Em quarto lugar, Kogawa coloca a questão: quando um discurso é polifônico? Então, fecha a discussão conceitual insistindo que a condição polifônica, isto é, a equipolência de diferentes vozes sociais na relação que o autor estabelece com o herói, é um arranjo estético bem peculiar e bastante pitoresco. Por isso, não é eticamente apropriado para toda e qualquer condição histórica de (se) enunciar.

No segundo capítulo, são identificados e descritos os elementos que disparam a cadeia poética a ser analisada. O cenário político é retratado em suas consonâncias e dissonâncias. A ditadura militar não é negada nem mitificada. É descrita como um tempo de coerções com múltiplas tendências, mas também como um tempo de respostas criativas. Baseado especialmente no trabalho do jornalista Elio Gaspari, Kogawa descreve a posição política militar como segmentada em duas tendências em tensão interna: as chamadas linha dura e não-dura. Nesse sentido, o governo ditatorial é apresentado não como um bloco político coerente, mas como uma instância histórica dinâmica e controversa. É este dinamismo que constitui terreno fértil para a produção de respostas criativas e responsáveis.

No terceiro e último capítulo, Kogawa analisa os tipos heroicos que Chico desenha, especialmente nas letras de quatro canções: Geni e o Zepelim, O malandro nº 2, Construção e Pedro, pedreiro. O autor mostra que as canções constituem modos responsáveis de (se) enunciar naquele momento histórico específico e, dessa perspectiva, consistem respostas críticas cujo objetivo envolve o apagamento das vozes dos heróis tornando-os construções imagéticas. Desse modo, a relação autor-herói instanciada é não-polifônica. Em suas próprias palavras, “O autor-criador constrói um ambiente hostil para as personagens e isso implica um mundo permeado por disparidades […] Sob essa ótica, neste capítulo, esses mundos artísticos servem como concretização desse discurso crítico que se configura como anti-conservador” (p.118). Kogawa demonstra, então, que essa posição crítica se realiza pela mobilização de três dimensões axiológicas: (i) religiosa, (ii) política e (iii) econômica. E continua: “A voz autoral, ao mobilizar sua crítica, coloca-se, direta ou indiretamente, ao lado dos despossuídos como forma de denunciar certas insensibilidades cotidianas que têm as parcelas menos prestigiadas da sociedade burguesa como alvo” (p.118).

A dimensão axiológica religiosa, por exemplo, é decisiva para processar a crítica flagrante em Geni e o Zepelim. Na canção, a redenção da cidade é efetuada pela prostituta que, a despeito de qualquer orgulho ou autopreservação, sacrifica-se para salvar os cidadãos que, no final, esquecem seu feito e a apedrejam cruel e covardemente. Enunciativamente, isso é construído pelo contraste entre os valores projetados sobre Geni, a prostituta que é apresentada em terceira pessoa do discurso, e os valores sustentados pelo coro, cuja voz mostrada em citação direta dá sentido a um tom moralista hipócrita.

Assim, a canção é um embate de vozes em que, de um lado, situa-se a voz do coro representante da moral e dos ‘bons costumes;’ de outro lado, há o posicionamento autoral – excedente da visão estética – como configurador de um universo que questiona os valores dogmáticos da cidade (p.145).

Emoldurando as canções por tais dimensões axiológicas, Kogawa mostra dialogicamente a estratificação sociolinguística flagrante na poética da cadeia selecionada. Demonstra que o modo como Chico Buarque, na condição de autor-criador, se relaciona com os tipos heroicos nas letras das canções constitui uma resposta válida ao contexto ditatorial em que a cadeia foi disparada. Embora essa resposta tenha se realizado por uma arquitetura não-polifônica, seu comprometimento ético justifica e valoriza a poesia. Então, as vozes em fragmentos que se escutam no livro não correspondem aos estilhaços de sentidos líquidos com os quais se pode deparar no funcionamento pós-moderno. Pelo contrário, esses fragmentos revelam a contundência de uma posição firme e brava em tempos ferozes.

1LYOTARD, J-F. A condição pós-moderna. Trad. Ricardo Corrêa Barbosa. 6.ed. Rio de Janeiro: José Olympio, 2000.

2DUFOUR, D-R. A arte de reduzir as cabeças: sobre a nova servidão na sociedade ultraliberal. Trad. Sandra Regina Felgueiras. Rio de Janeiro: Companhia de Freud, 2005.

3BAUMAN, Z. Tempos líquidos. Trad. Carlos Alberto Medeiros. Rio de Janeiro: Editora Zahar, 2007.

4VOLÓCHINOV, V. Marxismo e filosofia da linguagem: Problemas fundamentais do método sociológico na Ciência da Linguagem. Tradução, notas e glossário Sheila Grillo e Ekaterina Volkova Américo. São Paulo: Editora 34, 2017.

5BAKHTIN, M. O autor e a personagem na atividade estética. In: ______. Estética da criação verbal. Trad. Paulo Bezerra. 4. ed. São Paulo: Martins Fontes, 2003, p.3-194.Traduzido pelo autor.

Referências

BAKHTIN, M. Author and Hero in Aesthetic Activity. In: BAKHTIN, M. Art and Answerability: Early Philosophical Essays by M. M. Bakhtin. Edited by Michael Holquist and Vadim Liapunov. Translated by Vadim Liapunov. Austin, TX: University of Texas Press, 1990, p.4-256. [ Links ]

BAKHTIN, M. Diálogo I. A questão do discurso dialógico. In: Os gêneros do discurso. Organização, tradução, posfácio e notas Paulo Bezerra. São Paulo: Editora 34, 2016a, p.113-124. [ Links ]

BAKHTIN, M. Diálogo II. In: Os gêneros do discurso. Organização, tradução, posfácio e notas Paulo Bezerra. São Paulo: Editora 34, 2016b, p.125-150. [ Links ]

BAUMAN, Z. Liquid Times: Living in an Age of Uncertainty. Cambridge, UK: Polity Press, 2007. [ Links ]

DUFOUR, D-R. The Art of Shrinking Heads. Cambridge, UK: Polity Press, 2008. [ Links ]

KOGAWA, J. Linguística e Marxismo: condições de emergência para uma teoria do discurso francesa no Brasil. São Paulo: Editora Fap-Unifesp, 2015. [ Links ]

LYOTARD, J-F. The Postmodern Condition: A Report on Knowledge. Translated by Geoff Bennington and Brian Massumi. Minneapolis: University of Minnesota, 1984. [ Links ]

VOLOŠINOV, V. Marxism and the Philosophy of Language. Translated by Ladislav Matejka and I. R. Titunik. Cambridge, London: Harvard University Press, 1986. [ Links ]

Anderson Salvaterra Magalhães – Universidade Federal de São Paulo – UNIFESP, Programa de Pós-Graduação em Letras/Estudos Linguísticos, Guarulhos, SP, Brasil; https://orcid.org/0000-0003-3183-1192; asmagalhaes@unifesp.br

Teoria do romance II – BAKHTIN (B-RED)

BAKHTIN, Mikhail. Teoria do romance II: As formas do tempo e do cronotopo. São Paulo: Editora 34, 2018. 272pp. Tradução de Paulo Bezerra, Serguei Botcharov, Vadim Kójinov. Resenha de: QUEIJO, Maria Elizabeth da Silva. Bakhtiniana – Revista de Estudos do Discurso, v.14 n.2, São Paulo, Apr./June 2019.

O lançamento de Teoria do romance II: As formas do tempo e do cronotopo dá sequência à publicação da obra Teoria do romance (Teória romana) de Mikhail Bakhtin (1895-1975). No Brasil, a coletânea de ensaios vertida por Paulo Bezerra e publicada pela Editora 34 foi dividida em três tomos1. O primeiro volume, intitulado Teoria do romance I: A estilística, inaugura a série de publicações e encontra-se disponível ao leitor desde 20152.

O segundo volume, como indica o subtítulo, se destina à introdução e ao desenvolvimento do conceito de cronotopo literário, compreendido como espaço-tempo real assimilado pela literatura no decorrer da história. Nas palavras do autor, “o cronotopo determina a unidade artística de uma obra literária em sua relação com a autêntica realidade” (p.217). O texto, que se dedica ao gênero romance europeu, é ainda fundamental como precedente à tese de Bakhtin acerca da obra de François Rabelais, conforme anuncia Bakhtin, ele mesmo, ao final do oitavo capítulo (p.191) e na nota de rodapé 59 (p.210).

O ensaio foi escrito originalmente entre 1937 e 1939, em Saviólovo, durante os expurgos stalinistas que levaram Bakhtin ao exílio. Em 1973, dois anos antes de morrer e já em Moscou, Bakhtin dedicou-se à revisão do manuscrito. Parte desse esforço resultou no acréscimo do Capítulo 10, intitulado “Observações finais” – como bem situa a “Nota à edição brasileira”, que abre o livro, relembrada pela nota de rodapé 64 (p.217), referente ao título do capítulo. E, embora um fragmento em que trata do tempo e do espaço no romance tenha se tornado público em 1974, na então União Soviética, por meio do terceiro número do periódico Questões de literatura (Voprosy literatury), a primeira publicação do texto integral ocorreu somente alguns meses após o falecimento do autor, em 1975, pela editora Khudozhestvennaia literature, junto aos demais ensaios de a Teoria do romance.

A versão de 1975 já é conhecida pelo leitor brasileiro através da tradução direta do russo para o português de Aurora Fornoni Bernardini e outros quatro tradutores, sob o título Questões de literatura e de estética: a teoria do romance (Voprosy literatury i estetichi), publicada pela Unesp/Hucitec em 1988. O tempo e a reconhecida importância dada ao texto no Brasil desde a valorosa tradução anterior justificam uma resenha cujas linhas se atenham ao cotejamento das duas versões, compreendidas por nós como acontecimentos, e, principalmente, às contribuições dadas pela nova tradução.

Assim, embora igualmente vertida diretamente do russo, a tradução realizada por Paulo Bezerra parte da edição crítica publicada na Rússia em 2012, pela editora Iazyki Slaviánskikh Kultúry. O texto integral, que incorpora correções realizadas por Bakhtin nos manuscritos e cópias datiloscritas, compõe o conjunto de Obras reunidas – organizado por Botcharov e Vadim Kójinov (1930-2001) em sete tomos, cujo primeiro foi publicado em 1997.

Das novidades proporcionadas pela recente tradução, ressaltamos o acréscimo de “Folhas esparsas para As formas do tempo e do cronotopo“, conjunto de anotações sobre ideias desenvolvidas no décimo capítulo do livro, inéditas em português, encontradas no arquivo do autor. Material precioso, no qual podemos observar facetas do processo de reflexão e construção do texto bakhtiniano em seu trabalho de revisão, trinta anos após o primeiro texto.

De tal modo, a partir da obra publicada, ainda que revisada e acrescida do décimo capítulo e das ideias esboçadas nas dez folhas de rascunhos, parece possível pensar, por exemplo, a respeito de questões que envolvem movimentos e percursos do e no pensamento bakhtiniano. Pequenas pistas de como o autor reflete acerca de seus primeiros escritos, rastreáveis no corpo do texto preparado para publicação e que emergem das anotações em trechos como este, no qual Bakhtin afirma que seu trabalho trata “do cronotopo do universo representado no romance, dos acontecimentos representados”, mas que “ainda há o cronotopo representador do autor […], e o cronotopo do ouvinte ou leitor, os cronotopos dos acontecimentos da representação e da audição-leitura” (p.238).

Ou quanto ao fragmento: “É necessário distinguir o tempo arquitetônico (o cronotopo) e o tempo composicional da narração ou da representação” (p.241), que permite pensar a discussão no conjunto da obra bakhtiniana. A relação entre a noção de arquitetônica, pensada pelo jovem Bakhtin, e a ideia de cronotopo é retomada por Paulo Bezerra no posfácio do livro. Nas palavras do pesquisador: “é aí que a antiga arquitetônica dá lugar a essa categoria como um amalgama de ‘espaço-tempo'” (p.253).

A respeito do novo sumário, destacamos a supressão do texto entre parênteses, precisamente “(Ensaios de poética histórica)” (BAKHTIN, 2002), após o título “Formas de Tempo e de Cronotopo no Romance” – “As formas do tempo e do cronotopo no romance”, na versão mais recente. No texto introdutório de Bakhtin, no entanto, “poética histórica” está presente nos subtítulos de ambas versões. A diferença fica pelo uso do plural na publicação anterior, “Ensaios de poética histórica” (BAKHTIN, 2002, p.211), em comparação ao uso do singular, “Um ensaio de poética histórica” (p.11), na publicação mais recente. De qualquer forma, a supressão no sumário não diminui a importância da poética histórica de Bakhtin para o tradutor, que a discute em “A poética histórica” (p.261), parte de seu posfácio.

A respeito da diferença entre os títulos dos capítulos, no título do Capítulo 6, onde se lia “trapaceiro” agora se lê “pícaro”, assim como no decorrer do texto. O título do Capítulo 7 difere, de “O cronotopo de Rabelais” para “O cronotopo rabelaisiano”; “de Rabelais” é igualmente substituído por “rabelaisiano” no título do Capítulo 8. No texto, nota-se também a estabilização de alguns termos que, mais que palavras, operam como conceitos-chave no pensamento bakhtiniano. É o caso da substituição de “autor em pessoa” (BAKHTIN, 2002, p.276 – na versão anterior) por “autor pessoa” (p.111 – na mais recente).

Em relação às notas de rodapé, a tradução anterior conta com oitenta e oito – entre notas de rodapé do autor, do tradutor, do editor e notas não especificadas. Sobre essas últimas, veja-se, por exemplo, os créditos à primeira nota constante nas duas traduções (BAKHTIN, 2002, p.211 – na versão anterior; p.11 – na mais recente), referentes ambas a uma palestra ministrada por Aleksei Ukhtómski sobre cronotopo na biologia e sobre questões de estética. Na versão anterior, não há qualquer indicação a respeito do autor da nota como há, por exemplo, na nota de rodapé 61 dessa mesma versão (BAKHTIN, 2002, p.316). Através da nova tradução, tornou-se possível identificá-la como nota do autor, tendo sido ainda complementada por uma esclarecedora nota do tradutor a respeito do palestrante. Ao mesmo tempo, a opção pela unificação da numeração referente às notas de rodapé, que antes era feita por capítulos, facilita a leitura e possíveis retomadas que se façam necessárias. Assim, embora o texto principal da presente tradução apresente menos notas de rodapé, ao todo setenta e cinco notas, destaca-se a forma como estão organizadas.

Além da primeira nota já mencionada (dividida entre autor e tradutor), há outras quatorze notas do autor e sessenta notas do tradutor. As notas de rodapé do tradutor vão além de explicações sobre o emprego de uma palavra ou de outra, ou sobre a tradução utilizada como fonte, oferecendo subsídios primorosos que contextualizam e detalham diversos aspectos da obra.

Os cuidados do tradutor, cujos conhecimentos não deixam de fora a teoria bakhtiniana, longe de serem meros preciosismos, visam assegurar que o texto vertido esteja em consonância com a perspectiva dialógica. Nesse sentido, um ganho importante da nova tradução diz respeito aos trechos de outros autores citados por Bakhtin no decorrer do livro, sobretudo os que compõem sua análise3. A começar pelas eventuais adaptações em relação às traduções em língua portuguesa consultadas – conforme a nota de rodapé 33 (p.125), referente ao Gargântua e Pantagruel de François Rabelais, por exemplo, bem como a nota 13 (p.56), referente ao Asno de ouro de Apuleio. Na nota referente à obra de Apuleio, o tradutor acrescenta que tais modificações visam acomodar a análise proposta por Bakhtin, adequando e atendo o texto citado aos propósitos do autor russo, sem com isso deturpá-lo de seus sentidos originais.

Quanto à análise de Gargântua e Pantagruel, aqueles que já leram Questões de literatura e de estética: a teoria do romance devem notar que em Teoria do romance II: As formas do tempo e do cronotopo, os trechos da obra de Rabelais encontram-se não mais em francês, mas em português, o que torna o texto mais acessível ao público brasileiro, em especial aos que não dominam a língua francesa. Além disso, as diferenças em relação às citações abrem uma porta de diálogo entre os próprios trechos citados, isto é, entre os conservados no original e os recolhidos por Paulo Bezerra na versão traduzida diretamente do francês para o português4.

No prefácio da edição revista de Problemas da Poética de Dostoiévski, outra importante obra de Bakhtin também vertida por Paulo Bezerra, o tradutor discute implicações para a compreensão do pensamento bakhtiniano decorrentes de excertos de Dostoiévski retirados de traduções indiretas do russo. Nesse sentido, as traduções indiretas deram margem a equívocos e imprecisões, justificando a necessidade de substituí-las na ocasião de revisão. Paulo Bezerra ainda afirma nesse prefácio que a tradução direta permite “recriar o espírito da obra na linguagem mais próxima possível do original”, ao mesmo tempo que possibilita “uma compreensão muitíssimo mais ampla e profunda das peculiaridades da teoria bakhtiniana” (BEZERRA, 2010, p.VI). Assim, o rigoroso trabalho empreendido pelo tradutor nos garante uma melhor compreensão da teoria bakhtiniana, agora também através de Teoria do romance II: As formas do tempo e do cronotopo.

Ao final do volume, acrescenta-se valioso posfácio já referido, intitulado “Uma teoria antropológica da literatura”, em que Paulo Bezerra nos oferece quinze páginas nas quais emoldura o texto que as precede. O título do posfácio, per se, instiga o leitor a pensar sobre o texto que acaba de ler (ou que pretende ler, nos casos em que o leitor folheia as páginas do volume antes de mergulhar no texto).

Bezerra, em sua discussão, nos recorda as influências de Einstein e Kant para o conceito de cronotopo bakhtiniano, mas também dá os devidos créditos ao biólogo russo Aleksei Ukhtómski – aquele palestrante mencionado pelo próprio Bakhtin em sua primeira nota (p.11) – pela aproximação da noção de cronotopo às questões de estética. Na primeira parte, intitulada “A construção de um conceito”, o tradutor nos brinda com a citação traduzida de um trecho transcrito da palestra do biólogo e aponta as diferenças entre os pensamentos desenvolvidos por Bakhtin e Ukhtómski.

Paulo Bezerra, ainda na primeira parte, situa a ideia de cronotopo no conjunto da obra bakhtiniana anterior e posterior às reflexões constitutivas de tal conceito, como a referida relação entre a noção de cronotopo e de arquitetônica, enquanto na segunda parte do posfácio, “Lapidando o conceito: ‘Observações finais'”, discute o décimo capítulo da obra. Na também já aludida terceira parte do estudo posfacial, “A poética histórica”, o autor trata das mudanças do tempo num determinado espaço, retomando outra noção cara a Bakhtin, a de grande tempo, a partir da qual podemos refletir sobre “a evolução, as mudanças e alternâncias dos diversos cronotopos à luz das novas realidades históricas e culturais que se alternam nos diferentes enredos literários” (p.262), sem que tais passagens signifiquem mera sequencialidade, linearidade ou progressismo.

A quarta e última parte, intitulada “O cronotopo além da literatura”, ressalta as diferentes áreas que hoje mobilizam o conceito bakhtiniano de cronotopo na Rússia, demonstrando a riqueza do conceito. Nas orelhas do livro, Samuel Titan Júnior, professor de Teoria Literária e Literatura Comparada na Universidade de São Paulo – USP, além de nos proporcionar uma bela metáfora fluvial a respeito da obra, reitera a ideia de estarmos diante de “um livro absolutamente singular, que ultrapassa qualquer categoria predefinida”.

Paulo Bezerra, além de tradutor, é docente, pesquisador e crítico. Em sua carreira foi professor na Universidade de São Paulo – USP, Universidade do Estado do Rio de Janeiro – UERJ e Universidade Federal Fluminense – UFF, instituição na qual se aposentou e onde ainda hoje leciona como professor de teoria literária. Seu vasto trabalho de tradução compreende mais de quarenta obras em diferentes campos das ciências humanas, incluindo respeitáveis traduções de títulos como Crime e Castigo e Irmãos Karamázov de Dostoiévski, igualmente publicados pela Editora 34.

De Bakhtin, verteu os já apontados Problemas da Poética de Dostoiévski e Teoria do romance I: A estilística, bem como Estética da criação verbalOs gêneros do discurso e Notas sobre literatura, cultura e ciências humanas. Além de O freudismo: um esboço crítico, publicado no Brasil sob a assinatura de Bakhtin, mas cuja autoria é atribuída a Volochínov. Assim, o leitor de Teoria do romance II: As formas do tempo e do cronotopo conta com um trabalho cujo tradutor é, além de professor de teoria literária e profundo conhecedor da cultura e língua russa, um pesquisador comprometido com a teoria bakhtiniana.

Desde 2013, a Editora 34 – que vem desempenhando papel fundamental no campo editorial, contribuindo muito aos estudos bakhtinianos – já publicou outras cinco obras do Círculo com o mesmo rigor com que apresenta o volume em questão. A atualidade das traduções, consonantes com as discussões internacionais, tornam cada nova obra uma necessária referência. Além disso, muitos autores mobilizados por Bakhtin, inclusive nos seus estudos acerca do cronotopo, são dados a conhecer ou melhor conhecidos pelo público brasileiro através da Coleção Leste. Da mesma editora, a coleção reúne obras traduzidas diretamente do russo de escritores como Dostoiévski, Gógol, Tolstói, Púchkin, Turguêniev e Tchekhov, vertidos para o português por tradutores renomados como Paulo Bezerra, mas também Boris Schnaiderman.

Quando se trata do Círculo, e em especial desse volume em que Bakhtin se dedica ao conceito de cronotopo, não podemos ignorar todos os espaços-tempos reais envolvidos nos anos e lugares que separam o escrito original das diferentes versões e publicações na antiga União Soviética e, mais recentemente, na Rússia. Tampouco desconsiderar as questões espaço-temporais compreendidas pelas duas traduções brasileiras, que diferem nos textos utilizados como fontes e escolhas tradutórias, entre outros aspectos. Pensamos, assim (e ao menos), nos diferentes contextos de produção e recepção, bem como nos anos, quilômetros, limitações, possibilidades, processos históricos e culturas que separam cada um dos diferentes textos.

Além de todos esses aspectos, buscamos não perder de vista as tantas mudanças desses espaços no decorrer do tempo, bem como tudo o que se conheceu e produziu a respeito de Bakhtin e do Círculo nas últimas décadas – quando se trata das traduções brasileiras, estamos falando de um intervalo de exatos trinta anos entre a versão coordenada por Aurora Fornoni Bernardini e a de Paulo Bezerra. Afinal, como discute Bakhtin, “a nós se apresenta um texto, que ocupa um lugar definido no espaço, ou seja, é localizado, mas a sua criação, o conhecimento que adquirimos dele fluem no tempo” (p.229-230), pois ele é aberto, voltado para o exterior. Portanto, “o material da obra não é morto, mas falante, significante (ou sígnico), não só o vemos e tateamos como sempre ouvimos vozes nele” (p.229).

Nesse sentido, a publicação de Teoria do romance II: As formas do tempo e do cronotopo é, sem dúvida, um acontecimento, indispensável nesse diálogo alçado ao grande tempo. No mais, acreditamos que muitas são as contribuições a partir das distâncias e aproximações entre versões, o que, se bem conduzido, enriquece dialogicamente o próprio campo de estudos bakhtinianos, sobretudo se as diferentes traduções disponíveis ao público brasileiro forem postas em relação como em um metafórico encontro e sob diferentes pontos de vista.

1Em razão de uma decisão editorial e de tradução, com anuência de Serguei Botcharov (1929), herdeiro vivo dos direitos autorais de Bakhtin.

2Sobre o primeiro volume, ver a resenha de Adriana Pucci Penteado de Faria e Silva (2015).

3Cabe realçar que a preferência pelo uso de traduções diretas do original para o português em relação aos trechos citados por Bakhtin vai além das obras analisadas, como é o caso das linhas referentes à Cursos de estética de Hegel, retiradas da tradução feita diretamente do alemão para o português.

4Ou ainda, diferenças quanto aos trechos citados que independem da língua. A título de exemplo, em comparação com a versão coordenada por Aurora Fornoni Bernardini, a tradução de Paulo Bezerra inclui um trecho que expande a citação sobre o espancamento dado pelo monge Jean (frei Jean, na versão anterior).

Referências

BAKHTIN, M. Formas de tempo e de cronotopo no romance (ensaios de poética histórica). In: BAKHTIN, M. Questões de literatura e de estética: a teoria do romance. Trad. Aurora F. Bernadini et al. São Paulo: Hucitec; Annablume, 2002, p.211-362. [ Links ]

BEZERRA, P. Prefácio. In: BAKHTIN, M. Problemas da poética de Dostoiévski. Tradução por Paulo Bezerra. 5. ed. revista. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2010. [ Links ]

FARIA E SILVA, A. BAKHTIN, M. Teoria do romance I. A estilística. Tradução, prefácio, notas e glossário de Paulo Bezerra; organização da edição russa de Serguei Botcharov e Vadim Kójinov. São Paulo: Editora 34, 2015. 256p. Bakhtiniana. Revista de Estudos do Discurso, v.11, n.1, p.234-239, Jan./Abr. 2016. Disponível em: [http://revistas.pucsp.br/bakhtiniana/article/view/24424/18223]. Acesso em: 05 dez. 2018. [ Links ]

Maria Elizabeth da Silva Queijo – Pontifícia Universidade Católica de São Paulo – PUC/SP, Programa de Estudos Pós-Graduados em Linguística Aplicada e Estudos da Linguagem – LAEL, São Paulo, SP, Brasil; CNPq n. 168996/2018-9; https://orcid.org/0000-0002-7459-0360; elizabeth.queijo@gmail.com.

Norte e Sul | Elizabeth Gaskell

É muito conhecida nas ciências sociais a obra de Friedrich Engels chamada A situação da classe operária inglesa publicada em 1845, quando o autor, nascido em 1820, tinha apenas 25 anos. De origem prussiana, Engels viajou para a Inglaterra – então a oficina do mundo – em novembro de 1842 e lá ficou por 21 meses, estagiando na empresa de sua família abastada. Depois, em 1844, via Paris, retornou para a casa dos pais, e passou a escrever aquele livro que é, na verdade, um relatório e uma denúncia. Uma obra-prima, dirá Eric Hobsbawm, de leitura obrigatória.

No entanto, não muitos talvez saberão que há um romance de autora vitoriana, moradora de Manchester por toda a vida a partir de 1832, que retrata a mesma situação terrível da classe operária inglesa e foi publicado apenas dez anos depois do livro de Engels. É Norte e Sul, de Elizabeth Gaskell (1810-1865), importante autora inglesa do século 19, amiga de Charles Dickens e de Charlotte Brontë e admirada por pessoas como John Ruskin e Charles Darwin. Mrs. Gaskell é autora de outros romances sociais a partir de Mary Barton, sua estréia literária, de 1848, já publicado no Brasil, em 2017 e que também se passa em Manchester. Leia Mais

Da cidade e do urbano. Experiências, sensibilidades, projetos | Stella Bresciani

As questões urbanas, isto é, aquelas que dizem respeito às cidades e à vida de seus habitantes, são apenas um dos muitos assuntos urgentes que as sociedades contemporâneas enfrentam. Isso deriva de uma razão quantitativa: o século 21, como evidenciado pelos resultados do programa das Nações Unidas sobre assentamentos humanos, é o século das cidades. Decorre também do fato de que as cidades desempenham papéis centrais na vida dos seres humanos do ponto de vista simbólico, político, cultural, social, econômico e pessoal/individual. Este livro/coletânea que reúne textos da historiadora Maria Stella Bresciani introduz o estudo das principais teorias e linhas de interpretação da cidade, apresentando experiências, exemplos e oferecendo descrições que vêm da História e de outras disciplinas que lidam com o fenômeno urbano.

O objeto de estudo, como explicita o título do livro, é a reflexão Da cidade e do urbano, a partir de dezessete textos selecionados. Inicialmente, há uma preferência explícita por parte da curadoria em examinar os textos da autora levando em consideração suas reflexões a partir de uma vertente temática por sedimentação: Leia Mais

Pedro Paulo de Melo Saraiva, arquiteto | Luis Espallargas Gimenez

Um livro sobre a produção de um arquiteto é publicação que encerra necessariamente dois autores. O primeiro, arquiteto, autor de obra construída reconhecida, com suficiente interesse artístico para constituir necessária documentação iconográfica e literária e merecer integrar, de algum modo, a história da arquitetura. O segundo, escritor, autor do livro, com olhar cultivado para apresentar tal legado arquitetônico ao leitor, inaugurar percurso para a apreciação da obra edificada entre interessados e pares de profissão. Das relações e convergências entre estes dois autores surgem os livros monográficos de arquitetura. Dentre os volumes que tecem a história dos artefatos, diversos enfoques podem orientar a narrativa: a maior importância ao percurso biográfico, a descrição de contextos históricos ou a ênfase em aspectos culturais relacionados à produção. Sob este aspecto, o livro Pedro Paulo de Melo Saraiva, arquiteto é obra singular, ao arriscar conferir aos edifícios relevância suficiente para conduzir a narrativa.

O lançamento do livro sobre Pedro Paulo de Melo Saraiva é um fato a celebrar. O livro, que recebeu menção honrosa na premiação do Instituto de Arquitetos do Brasil departamento São Paulo – IABsp de 2018, é o primeiro número de uma coleção de livros monográficos de arquitetura brasileira produzida e editada pela Romano Guerra. Para além de reunir e apresentar o conjunto da obra de um arquiteto com edifícios de grande relevância na produção nacional, define a opção pela qualidade da arquitetura a ser publicada. É ainda pequena a quantidade de publicações sobre arquitetos brasileiros, sobretudo aqueles que estiveram longamente compromissados com a atividade profissional, atendendo às demandas comerciais e comuns da arquitetura, que constrói a maior parte das cidades. Leia Mais

Epígrafes e diálogos na poesia de Machado de Assis – MIASSO (MAEL)

MIASSO, Audrey Ludmilla do Nascimento. Epígrafes e diálogos na poesia de Machado de Assis. São Carlos: EdUFSCar, 2017. 505 pp. Resenha de: RIBAS, Maria Cristina Cardoso. Machado Assis Linha v.12 n.26 São Paulo Jan./Apr. 2019.

O título deste livro, circunscrito a epígrafes machadianas, pode suscitar uma curiosidade mais imediata: como epígrafes, tidas pelo senso comum (do qual, em alguns momentos, somos todos partícipes) como adorno ou ateste de erudição, justificam a existência de um trabalho dessas proporções?

A questão provavelmente advém de uma tendência contemporânea: o automatismo de determinados olhares compromete a percepção das sutilezas discursivas, o que torna quase invisível – a este modo de ver – a presença de textualidades interligadas e justapostas, tidas como acessório do elemento principal. Neste distúrbio de refração ocular, utilizando lentes adequadas para refocalizar o objeto e neutralizar a miopia discursiva, tenazmente instalada no delicado espaço entre a citação e o poema, lado à “paixão pelo gesto arcaico de recortar-colar” (COMPAGNON, 1996, p. 12), Audrey Ludmilla do Nascimento Miasso percebeu a distorção do foco, traduzida em aparente desinteresse, a qual redundou na escassez de estudos sobre o tema.

A pesquisadora estuda o projeto poético machadiano desde 2008, tendo publicado vários trabalhos sobre o tema (MIASSO, 2016). Sua dissertação de mestrado – defendida junto ao Programa de Pós-graduação em Estudos de Literatura (PPGLit) da UFSCar e orientada por Wilton Marques, professor do Departamento de Letras dessa Universidade -, foi transformada, com apoio da Fapesp, no livro que ora temos em mãos.

Na apresentação do volume, Hélio de Seixas Guimarães refere-se à leitura em espiral das epígrafes machadianas, imagem bastante adequada ao livro de Audrey, justamente por sinalizar a importância da dinâmica de um retorno que, passando pelos mesmos lugares, vai também além deles, formulando novas possibilidades significativas. Para o crítico e pesquisador da USP, a autora busca “examinar um problema aparentemente periférico e menor em seus mais variados aspectos, ampliando seu alcance e tirando dele consequências que extrapolam em muito a delimitação de seu ponto de partida” (GUIMARÃES, 2017, p. 11). E mais: diante da constatação de que as epígrafes vão diminuindo ao longo da obra poética, Hélio Guimarães retoma a imagem da autora em sua hipótese: como se elas escorressem pelos versos e estrofes, misturando-se a elas.

Vale dizer que o livro de Audrey sobre as epígrafes machadianas traz também uma epígrafe quase autoexplicativa, de Jean Michel Massa (1971) – forte presença no livro organizado por Jobim (MASSA, 2001) sobre a biblioteca de Machado de Assis. Pinçada com precisão pela autora, a citação de Massa ilustra a estratégia de citação machadiana, o seu modo de “recorta-cola” tão milimetricamente descrito no livro. Escrita encadeada, a autora trabalha as epígrafes de Machado formulando uma composição epigráfica, desenhando as citações dentro das citações, trazendo à cena a montagem da montagem de Machado, hábil operador que copia, refaz, suprime, traduz, deforma, esquece, modifica, ilumina, erra.

Passando a apresentação espiralada de Hélio Guimarães e a epígrafe de Massa, adentramos o primeiro capítulo. Em tom de convite, a autora nos convoca: “De início, vamos ao encontro de Machado adolescente, contando com seus quinze anos e já poeta” (MIASSO, 2017, p. 37). E segue historiando as primeiras publicações, inclusive aquelas anteriores à fama do bruxo do Cosme Velho e ao seu (re)conhecimento pelo público. Gentilmente, a autora vai pincelando informações consensuais, como o dado de que o periódico de Paula Brito fora o principal meio em que ele publicaria seus versos até 1858. Lançando mão do “nós” – “vamos”… “notamos”… salta aos “nossos” olhos… – na autorreferência da própria voz, vai obtendo um efeito inclusivo e afeito ao leitor, dispersando informações em doses homeopáticas. Curiosamente, a dispersão dos dados atravessa a organização sequencial dos poemas, mobilizando intertextos que se justapõem, segundo a acurada pesquisa da autora, no modo composicional das epígrafes machadianas.

Dentre os inúmeros exemplos que se desdobram ao longo dos capítulos, vão sendo compartilhados os efeitos dessas epígrafes sobre a leitura, inclusive quando rareiam ou deixam de aparecer. Pelas minuciosas descrições apresentadas, não soam como aleatórias. Ao falar de Crisálidas, Audrey ressalta a epígrafe traduzida para o português e extraída das Méditations poétiques (1820), de Alphonse de Lamartine, ainda que, conforme a autora, no Inventário proposto por Jean-Michel Massa não seja citada a obra de Lamartine. A primeira conclusão resultante neste trecho é o efeito da tomada de um poeta romântico francês. Nas palavras da autora, “[…] alerta o leitor de qual será a visão que o jovem crítico apresentará da poesia”. Citando aqui a epígrafe, antecedida pela questão “o que é a poesia?”, lê-se: “uma palavra que o anjo das harmonias segreda no mais íntimo d’alma” (MIASSO, 2017, p. 39).

Nas linhas seguintes (MIASSO, 2017, p. 41), ela faz reverberar, no leitor, o seu propósito: “Tentar encontrar aquilo que saltava aos olhos de Machado no início de sua carreira”. Ao mesmo tempo, vai instalando a dúvida na estratégia machadiana de captação das epígrafes: a proveniência é direto da fonte, ou colhida à epígrafe de outrem, citação da citação, fragmento em segundo ou terceiro grau – como, por exemplo, relata acerca dos versos de Dumas pai no poema “Vem!” (publicado em O Paraíba, 11/4/1858): “se teriam sido retirados de sua fonte primeira, a peça ‘Teresa’ (1832), ou teriam sido reaproveitados da epígrafe de Álvares de Azevedo” (MIASSO, 2017, p. 44). Seguem informações minuciosas acerca deste procedimento – que a autora chama, sem lastro pejorativo, na expressão de Genette (2009), de “aproveitamento de segunda mão” -, bem como de suas repercussões no sentido e no teor composicional dos versos. Deste exemplo bastante detalhado, algumas conclusões merecem realce. Nas palavras da autora: 1. Decorre o possível equívoco de pensar “que a epígrafe funciona da mesma maneira nos diferentes poemas que dela se apropriam”; 2. Urge, portanto, o entendimento de que “A epígrafe não é um corpo extático e não tem seu sentido definido”, mas [a autora cita Compagnon (1996, p. 48)], “muda de sentido segundo a força que se apropria dela: ela tem tantos sentidos quantas são as forças suscetíveis de se apoderar dela” (MIASSO, 2017, p. 45). Com isso, Audrey ativa o diálogo intertextual e intersubjetivo da grafia poética, ressaltando a potência não de sua precisão, mas de sua instabilidade e incompletude.

Ao mencionar outro poema dentre os dispersos que escolhe destacar – “Teu canto” (publicado em A Marmota Fluminense, 15/7/1855) -, a pesquisadora ressalta o fato de a epígrafe ser assinada “pelo próprio Machado”. Em sua análise, conclui que a predileção machadiana em fase inicial de carreira poderia ser pela própria epígrafe, em lugar de considerá-la apenas um meio para reafirmar suas leituras; ou seja, reitera o procedimento como tática para dar pistas ao leitor sobre o que viria ler e produzir. E arremata seu entendimento, aproximando-o do que Genette (2009) chamou de efeito-epígrafe.

A seguir, e em vários outros momentos, a autora sinaliza o quanto as epígrafes sugerem a conexão dos primeiros poemas machadianos com o romantismo francês, relatando que, até 1864, algumas delas são colhidas a Victor Hugo, Alexandre Dumas, Alfred Musset, Gautier e La Rochefoucauld; com o romantismo português de Almeida Garrett e o romantismo brasileiro de Magalhães, Gonçalves Dias e Álvares de Azevedo. Importante lembrar as fortes conexões anteriores ao Romantismo como a ligação visceral com Shakespeare, com a Bíblia – Machado era fã do Eclesiastes – e, em menor escala, com textos históricos dos livros da Crônica da Companhia de Jesus e da História dos índios cavaleiros.

A autora traz, ainda, o apoio do discurso cronístico machadiano, sobretudo a parte publicada em A SemanaO Cruzeiro e A Marmota. Interessante observar que Machado imita e ressignifica passagens e imagens bíblicas presentes no imaginário ocidental, através da aparente repetição da fonte. A diferença se instala justamente na repetição do evento ou forma imagética, ancorada na suposta fidelidade que a crescente respeitabilidade conferida a Machado garantia junto ao público leitor.

A autora investe tenazmente nas pistas que desentranha às epígrafes machadianas e as rastreia com precisão de escavadora. Movimento propulsor da pesquisa, no início ela aposta na veracidade dos indícios. Sabiamente abre, porém, espaço para a ambiguidade. Onde há fumaça pode haver não apenas fogo, mas lentes embaçadas que impedem a percepção de que indícios podem representar despistes ou funcionar como deflagradores de um turning point na leitura. Machado trabalhou as epígrafes e as respectivas referências com omissão, erro ou detalhamento nem sempre explícitos dos lugares de captação.

Nas palavras da autora, sobre a leitura dos poemas epigrafados incide um “momento de interpretação”, não bastando a percepção da intertextualidade ou o reconhecimento da fonte. Com esta perspectiva, as epígrafes se desdobram e deixam ver o lado informativo sobre os contextos de produção, os dados objetivos circunscritos à publicação pelas editoras, os contratos materiais e pactos de leitura implícitos assinados por Machado, os projetos dos poemas, e a problematização de hipóteses e efeitos de sentido que interseccionam tais esferas no momento da leitura. Por um viés visto até então como menor, o trabalho de Audrey é primoroso e acessa, pelo detalhe, no desfiar da bainha, a complexidade da escrita de Machado em suas eternas e humanas contradi(c)ções. “As capas de algodão têm agora franjas de seda, como as de veludo tiveram franjas de algodão […]” (ASSIS, 1884, p. 15). Este livro abre, pelas bordas, um espaço interessantíssimo para os leitores e estudiosos de Machado. Vale a convocação.

Referências

ASSIS, Machado de. A igreja do diabo. In: ______. Histórias sem data. Rio de Janeiro: Garnier, 1884. [ Links ]

COMPAGNON, Antoine. O trabalho da citação. Belo Horizonte: UFMG, 1996. [ Links ]

GENETTE, Gérard. Epígrafes. In: ______. Paratextos editoriais. São Paulo: Ateliê Editorial, 2009. [ Links ]

GUIMARÃES, Hélio de Seixas. Apresentação. In: MIASSO, Audrey Ludmilla do Nascimento . Epígrafes e diálogos na poesia de Machado de Assis. São Carlos: EdUFSCar, 2017. [ Links ]

MASSA, Jean Michel. A biblioteca de Machado de Assis: quarenta anos depois. In: JOBIM, José Luís. A biblioteca de Machado de Assis. Rio de Janeiro: ABL; Topbooks, 2001. p. 21-91. [ Links ]

______. A juventude de Machado de Assis. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1971. [ Links ]

MIASSO, Audrey Ludmilla do Nascimento . Epígrafes e diálogos na poesia de Machado de Assis. São Carlos: EdUFSCar , 2017. [ Links ]

______. O diálogo bíblico em “A cristã nova”, de Machado de Assis. In: ALMEIDA, Kenia Maria de; PEREIRA, João Paulo; SILVA, Ayub Glenda (Orgs.). A poesia e a bíblia: entre a reverência e a paródia. Uberlândia: Edibrás, 2016. [ Links ]

Recebido: 25 de Janeiro de 2019; Aceito: 01 de Março de 2019

Maria Cristina Cardoso Ribas – É Professora Associada da Universidade do Estado do Rio de Janeiro, Procientista Uerj/Faperj e membro efetivo do Programa de Pós-graduação em Letras no Instituto de Letras, Uerj e do Programa de Pós-graduação em Letras e Linguística da Faculdade de Formação de Professores da Uerj. A área de concentração é Literatura, Teoria e História e as linhas de pesquisa são Teoria Literária, Literatura Comparada, Literatura Brasileira e Estudos de Intermidialidade. Concluiu o Pós-doutorado na Universidade Federal Fluminense. Publicou, entre outros trabalhos, Onze anos de correspondência: os machados de Assis, pela 7Letras e PUC-Rio; “Re-reading Literature in Contemporary Cinema: Intermediality in Machado de Assis’ Story “Father Against Mother” (1906) and Sergio Bianchi’s film How much is it worth or is it per kilo?” (In: Brigitte Le Juez; Nina Shiel; Mark Wallace (Orgs.). (Re)writing without borders: contemporary intermedial perspectives on literature and the visual arts, 2005); “O tempo na narrativa machadiana ou quando a ficção refaz a ciência” (Rivista di Studi Portoghesi e Brasiliani); Estudo a O Alienista: a ciência da loucura e a loucura da ciência, pela EdUerj. E-mail: marycrisribas@gmail.com.

Creazione e anarchia. L’opera nell’età della religione capitalista / Giorgio

Pubblicato nel 2017, Creazione e anarchia è una raccolta di cinque conferenze tenute dall’Accademia di Agamben nella Accademia di Architettura di Mendrisio, Università della Svizzera Italiana, tra ottobre 2012 e aprile 2013. Quella considerata nel volume non è, quindi, una tematica inesplorata o non correlata al suo pensiero ma un asse centrale di articolazione e di confronto con idee espresse in opere precedenti, qui attraverso le categorie di creazione e anarchia, in vista o concezione del lavoro in prospettiva della “religione capitalista” debitrice degli scritti di Walter Benjamin. I cinque contributi analizzano la connessione tra i concetti di principio, creazione e comando. In Archeologia dell’opera d’arte, primo testo del volume, Agamben avverte che l’archeologia è “la sola via di accesso al presente” (p.9). Ereditando da Foucault il metodo che usa il passato come lanterna per alleggerire il presente, Agamben indica la crisi dell’Europa in relazione al suo passato, nella considerazione odierna dell’opera d’arte. Seguendo le orme di Wittgenstein, egli afferma che i problemi filosofici sono in fondo domande sul “significato delle parole” (p. 11), e che quindi bisogna capire se il significato di “opera” sia qualcosa di fatto dall’arte e appartenente ad essa, o qualcosa che dipende dall’arte e dal suo significato.

Agamben si interroga sulla situazione dell’opera d’arte in tre momenti storici. Il primo è individuato nella Grecia classica: i greci non hanno distinto “il lavoro e l’attività produttiva dall’opera, perché, ai loro occhi, l’attività produttiva risiede nell’opera e non nell’artista che l’ha prodotta” (p. 14).

Nel libro Theta della Metafisica, Aristotele si concentra sul problema del potere (dynamis) e dell’atto (energeia), affermando che l’opera d’arte appartiene “costitutivamente alla sfera dell’energeia, la quale, d’altra parte rimanda nel suo stesso nome a un essere-inopera” (p. 15). Quindi l’opera d’arte risiede nell’opera, e non nell’idea dell’artista.

Il cambio di prospettiva sorge nel Medioevo, quando l’opera d’arte risiede nell’idea dell’artista. L’ipotesi di Agamben è che ergon ed energeia “sono nozioni complementari e, tuttavia, incomunicanti, che formano, con l’artista come loro medio, quella che propongo di chiamare la ‘macchina artistica’ della modernità” (p. 20), punto nodale che unisce opera, artista e operazione. Riferendosi al monaco tedesco Odo Casel come figura decisiva per il movimento liturgico nel suo paese, recupera la genesi della liturgia come un evento in sé. Stabilisce quindi un’analogia tra la sacra azione liturgica e quella delle avanguardie artistiche contemporanee, che sembrano esercitare un vero rituale nell’esecuzione delle loro opere.

Agamben menziona il ready-made di Duchamp, che era consapevole di non agire come un artista: i suoi interventi potevano essere considerati una sorta di profanazione della macchina “opera-artista-operazione’, come l’esposizione di un orinale in un museo – un’esplosione dell’arte senza un artista che rivela il conflitto tra arte e opera, energeia ed ergon. Il punto che l’arte contemporanea prende come oggetto di analisi è come i viventi sperimentano se stessi e diventano uno stile di vita (p. 28).

Le idee esposte nel secondo capitolo, Che cos’è l’atto di creazione?, vengono alla luce in Il fuoco e il racconto, ispirate all’intervento di Deleuze nel 1987, quando si avvicina all’atto di creazione quello di resistenza. Agamben riflette sul fatto che la potenza prodotta dall’atto della creazione deve essere inerente a quello stesso atto, e che in qualche modo questo è l’atto di resistere.

Ancora una volta ritorna il riferimento al pensiero aristotelico, nel recupero, da parte di Agamben, della nozione di hexis: non una potenza generica, ma una potenza che può essere messa in atto e sospesa mantenendola intatta.

L’aporia aristotelica consiste nel fatto che il potere è definito dal suo nonesercizio (p. 36), e quindi ogni potere è anche l’impotenza dello stesso in relazione a sé stesso. In questo caso l’impotenza (adynamia) è potere-di-non, non mancanza di potere, inoperosità piena di potenziale creativo.

Agamben propone che in ogni atto di creazione resiste qualcosa che non è espresso: il potere è ambiguo perché contiene in sé la capacità di agire, ma una resistenza rimane (p. 38). Il termine “inoperosità” appare nelle riflessioni sull’atto della creazione, e Agamben evoca “una politica – dell’inoperosità” (p. 47). Tornando all’Etica Nicomachea, si chiarisce che ergon definisce l’energeia, cioè quell’attività dell’essere-in-atto che è propria del e che si riferisce all’uomo (p.47-48). In Aristotele, l’essere non possiede un argos, una vocazione che lo definisce, un’idea che Agamben accetta e riprende attraverso Kazimir Malevic in L’inoperosità come verità effettiva dell’uomo. L’inoperosità è un potere di tipo speciale, un atto di creazione (p.49-50), in cui si contempla il potere dell’azione stessa. Le categorie di contemplazione e inoperosità sono “gli operatori metafisici dell’antropogenesi, che, liberando il vivente uomo da ogni destino biologico o sociale e da ogni compito predeterminato, lo rendono disponibili per quella particolare assenza di opera che siamo abituati a chiamare ‘politica’ e ‘arte’” (p.50-51).

Il terzo saggio, L’inappropriabile, discute il concetto della rinuncia alla proprietà, già esaminato in Altissima povertà con riferimento al movimento francescano (p. 56). In questo caso, il paradigma di uso è quello che ha dato la forma-di-vita di questo ordine monastico. La proposta è di pensare alla povertà oltre a questo contesto, in una prospettiva filosofica e ontologica, “in relazione all’avere, ma anche soprattutto in relazione all’essere” (p.59). In questa direzione l’autore si riferisce a una conferenza di Heidegger, Die Armut, del 1934, e a un frammento di Benjamin, del 1916. Nell’analisi dell’intervento di Heidegger, Agamben si sofferma sulla comprensione della povertà nella sua essenza. Non solo un “non avere” e una mancanza del necessario, ma molto di più: si tratta di sentire una mancanza” si consiglia di mettere un punto qui e iniziare una nuova frase “Poi si considera la prossimità di tale nozione con le considerazioni francescane (p. 62). Vengono anche esaminati i corsi heideggeriani del 1929-30 e del 1941-42: nella prima si considera la relazione tra uomo e animale e nel secondo la povertà come rinuncia alla ricchezza. Nella conferenza del 1945, Heidegger specula sulla ricchezza spirituale riprendendo l’idea di Hölderlin che nel momento in cui si diventa poveri si diventa ricchi, perché saremmo nella sovrabbondanza dell’essere (p. 65). Questo riavvicinamento tra l’animale e la sua povertà di mondo ha per oggetto “il rovesciamento dialettico della povertà in ricchezza, della necessità materiale in superfluità spirituale” (p. 65). Agamben critica la dipendenza di Heidegger da una definizione negativa di povertà e analizza il testo benjaminiano Appunti per un lavoro sulla categoria di giustizia, evidenziando come non si usi qui il concetto di povertà, e come si usi invece al suo posto una definizione di giustizia come un bene che non si può possedere. La giustizia è pensata da Benjamin al di fuori di una sfera di doveri e virtù e acquisisce “il significato ontologico di uno stato del mondo” (p. 67), considerato inappopriabile e “povero”. Sulla scorta di queste considerazioni Agamben riflette che “essere povero significa: tenersi in relazione con un bene inappropriabile” (p. 68). L’esempio dei francescani è quello di uno stile di vita in cui i poveri si relazionano con un mondo inappropriabile, i cui strumenti sono corpo, lingua e paesaggio (p. 69).

Nel quarto contributo, Che cos’è un comando?, Agamben sottolinea che nella nostra cultura l’archè è sinonimo di comando (p. 93) e che ci sono due ontologie: l’affermazione apofantica, espressa dall’indicativo, e il comando, dall’imperativo (p. 103). Ciò vuol dire che l’ontologia occidentale può essere considerata una macchina bipolare, “in cui il polo del comando, rimasto per secoli nell’età classica all’ombra dell’ontologia apofantica, a partire dall’età cristiana comincia ad acquisire progressivamente una rilevanza sempre più decisiva” (p. 104). Come esempio di questa inversione di posizioni Agamben ricorre all’ipotesi che sotto il velo “dell’invito, dell’avvertimento dati in nome della sicurezza” (p.106) il comando sia eseguito dal soggetto stesso. Come una sorta di “compagno clandestino” per l’investigazione del comando, sorge il filo della volontà, e così in questa considerazione è richiamata una delle tesi fondamentali del pensiero nietzscheano, per cui la volontà è in realtà desiderio di comando (p. 107), di dare una direzione al potere della natura. L’autore sottolinea che il concetto di volontà non esisteva nel mondo classico e che invece appare solo con lo stoicismo romano, raggiungendo il suo apice con la teologia cristiana (p. 107). Tuttavia, Agamben nota come il concetto di volontà derivi in realtà da un altro concetto di filosofia greca: la potenza (dynamis). In questo modo “mentre la filosofia greca aveva al suo centro la potenza e la possibilità, la teologia cristiana – e al suo seguito la filosofia moderna – pongono al proprio centro la volontà” (p. 108). Agamben riprende un’idea presentata in Karman affermando che mentre l’uomo antico è quell’essere del potere che può, quello moderno è un essere di volontà, che vuole, che rappresenta la rottura in cui il verbo volere ha luogo di potere.

Esponendo la discussione sull’onnipotenza divina nel contesto della teologia cristiana, l’autore si sofferma sulla strategia degli scolastici, che ricorrono alla divisione aristotelica della potentia absoluta e potentia ordinata per risolvere l’impasse in cui si erano trovati i primi Padri. Il potere absoluto è quello attraverso cui Dio può fare tutto, mentre la potentia ordinata, responsabile per l’economia divina nel mondo, opera attraverso la volontà che sottomette il potere, limitando l’azione divina.

Questo dispositivo “imbriglia” il potere. Agamben riprende la concezione nietzscheana secondo la quale volere significa comandare e si riferisce a Bartleby, protagonista della celebre novella di Herman Melville, colui che “sembra ostinatamente indugiare all’incrocio fra la volontà e la potenza” (p. 112). Il dispositivo della volontà è quindi, secondo l’autore, la forma trovata dalla macchina bipolare occidentale cristiana per comandare il potere. Poiché il potere in Nietzsche appartiene all’ordine della natura, e non a quello della volontà, Agamben concorda con il filosofo tedesco che il potere è sinonimo di comando. Questa è una lettura agambeniana di Nietzsche, perché per il filosofo italiano il potere è quello della matrice aristotelica, aperta alla contingenza attraverso il potere-di-non, diverso dalla volontà di potenza, che opera invece a livello fisiologico.

Nel quinto contributo, Il capitalismo come religione, Agamben riprende la matrice benjaminiana. Esponendo le radici della decisione sovrana di Nixon di sospendere la convertibilità del dollaro in oro, egli considera lo svuotamento del valore del denaro, che ha assunto un carattere autoreferenziale.

Dopo aver esposto le caratteristiche che resero il capitalismo una sorta di religione della modernità sviluppata “in modo parassitario a partire dal cristianesimo” (p. 117), egli asserisce che questo sistema non è mai finalizzato alla redenzione, ma alla colpa, alla disperazione e alla distruzione. Cita “i tre grandi profeti della modernità (Nietzsche, Marx e Freud)” (p. 118), che per Benjamin sono solidali con questa religione della disperazione. Uno dei problemi della lettura offerta da Agamben è il fatto che la considerazione benjaminiana del superuomo come colui che per primo realizza il capitalismo non è però fedele al significato attribuito a questa figura negli scritti di Nietzsche. Questo perché il superuomo rappresenta la capacità di superare il tipo decadente e aggrappato alla logica del risentimento, caratteristiche intrinseche di colui che perpetua il culto del capitale. Non è chiaro quindi in che senso sottomettersi alla logica del capitalismo sarebbe una condizione necessaria per il superuomo per affermarsi nel suo divenire. In ogni caso, il riferimento di Agamben al superuomo rischia di apparire contraddittorio: l’ultimo uomo, e non il superuomo, è quello più vicino allo spirito di gravità dell’apparato capitalista.”

Referências

AGAMBEN, Giorgio. Altissima povertà. Regole monastiche e forma di vita.  Vicenza: Neri Pozza, 2011.

AGAMBEN, Giorgio. Karman. Breve trattato sull’azione, la colpa e il gesto, Torino: Bollati Boringhieri, 2017.

AGAMBEN, Giorgio. La potenza del pensiero, Vicenza: Neri Pozza 2010.

ARISTOTELES. Metafísica. 2. ed. São Paulo: Edipro, 2012.

BENJAMIN, Walter. Gesammelte Schriften. Org. R. Tiedemann und H. Schweppenhauser. Frankfurt: Suhrkamp, 1974. (Suhrkamp-Taschenbuch Wissenschaft, v. 1).

COLLI, Giorgio; MONTINARI, Mazzino (hrsg). Friedrich Nietzsche: Samtliche Werke: Kritische Studienausgabe. Berlin: Neuausgabe, 1999. Walter de Gruyter, 1967-77 und 1988.

Notas

1 A presente resenha foi publicada pela autora originalmente na Universa. Recensioni di filosofia Rivista del Corso di Dottorato di Ricerca in Filosofia dell’Università degli Studi di Padova – Università degli Studi di Padova – UNIPD, Itália. Disponível em: http://universa.padovauniversitypress.it/2018/2/2.

Márcia Rosane Junges – Doutora em Filosofia Política pela Universidade do Vale do Rio dos Sinos – UNISINOS, e pela Università degli Studi di Padova – UNIPD, Itália, em cotutela através do Programa de Doutorado Sanduíche no Exterior – PDSE, da CAPES, de março a setembro de 2017. Professora tutora na UNISINOS, São Leopoldo, RS, Brasil. http://orcid.org/0000-0001-9224-2071. E-mail: mjunges@unisinos.br Giorgio Agamben , Crea zione | Márcia Rosane JungesUniversidade do Vale do Rio dos Sinos (UNISINOS), São Leopoldo, RS, Brasil. Endereço postal: Universidade do Vale do Rio dos Sinos – Campus São Leopoldo Av. Unisinos, 950 – Bairro Cristo Rei, São Leopoldo – RS, CEP 93020-190.

AGAMBEN, Giorgio. Creazione e anarchia. L’opera nell’età della religione capitalista. Vicenza: Neri Pozza, 2017. 140 p. Resenha de: JUNGES, Márcia Rosane. Veritas, Porto Alegre, v. 64, n. 2, Abr. – Jun. 2019. Acessar publicação original

O velho Marx: uma biografia de seus últimos anos de vida (1881-1883) – MUSTO (VH)

MUSTO, Marcello. O velho Marx: uma biografia de seus últimos anos de vida (1881-1883). São Paulo: Boitempo, 2018. 158 p. BRITO, Leonardo Octavio Belinelli de. Outro olhar sobre Marx. Varia História. Belo Horizonte, v. 35, no. 67, Jan./ Abr. 2019.

No ano em que são comemorados duzentos anos do nascimento de Karl Marx, é compreensível que a efeméride agite debates políticos e teóricos que envolvam seu legado, bem como o mercado editorial local. Entre seus resultados, está a publicação de O velho Marx, de Marcello Musto, autor ligado à fase mais recente do ambicioso projeto editorial das obras completas de Marx e Friedrich Engels, conhecido como MEGA (Marx-Engels-Gesamtausgabe), cuja história é longa e cheia de percalços indissociáveis das desventuras sofridas pelo uso soviético dos pensamentos dos filósofos alemães (Marxhausen, 2014).

Munido pelo aparato documental mobilizado nesse projeto editorial, no qual se destacam os manuscritos/rascunhos e as cartas, frequentemente muito reveladoras, trocadas por Marx com seus correspondentes, o curto livro tem um objetivo restrito, mas nem por isso menor: realizar uma apresentação dos principais acontecimentos da vida pessoal e intelectual de Marx no triênio 1881-1883. Seu principal alvo é a interpretação, rotineira entre seus seguidores, como entre seus críticos, de que os últimos anos do filósofo alemão foram marcados pela confusão de propósitos, fragilidade física e emocional e insegurança teórica. Musto quer nos mostrar justamente o contrário: como Marx, ainda que em condições de saúde frágeis, possuía energia e disposição para perseguir obsessivamente os temas de seu interesse.

Estruturado sob um movimento sempre dúplice, o qual envolve momentos alternados ligados à biografia de Marx com análises da própria evolução de seu pensamento, o livro de Musto conta com quatro capítulos: o primeiro apresenta o estado no qual se encontrava Marx em 1881, ano em que o livro começa sua narrativa; o segundo analisa o debate sobre o destino das comunas agrárias russas e sua relação com o socialismo e a posição de Marx a seu respeito; o terceiro foca na recepção europeia de O capital e o complicado momento familiar pelo qual a família do filósofo alemão passava no segundo semestre de 1881; e o último capítulo expõe a viagem de Marx à Argélia, único momento de sua vida em que saiu do continente europeu, e suas reflexões sobre a situação dos países árabes.

Como se vê, o primeiro mérito do livro de Musto é apresentar os acontecimentos da vida de seu biografado que mesmo o público acadêmico desconhece, como exemplifica o caso da viagem de Marx à Argélia. Nesse plano, vale destacar duas questões delicadas, decisivas para o sucesso do livro, com as quais Musto parece ter se debatido: em primeiro lugar, como selecionar os fatos narrados e articulá-los com uma interpretação a respeito de seus sentidos? Em segundo lugar: como conferir uma narrativa vívida de Marx sem cair numa abordagem excessivamente engrandecedora de sua figura, como se as dificuldades da vida fossem questão menor para espírito tão altivo e brilhante?

No caso da primeira pergunta, Musto teve a ideia inteligente de destacar que o fio vermelho que conecta os empreendimentos intelectuais tardios de Marx – entre os quais se sobressaem, sem dúvida, seu contato com a antropologia por meio da obra de Lewis Morgan e o seu estudo sobre a situação sociopolítica russa – é a recusa do pensamento dogmático, no que Marx contrariava os determinismos variados então em voga. Ao descrever a fusão de Marx com seu gabinete e sua devoção à pesquisa, Musto parece atingir o segundo alvo de seu livro: a noção restrita de “marxismo”, como um conjunto de fórmulas axiomáticas que teve seu primeiro momento de formulação na pena de Karl Kautstky, ele mesmo um tributário das formas de pensar deterministas vigentes no fin de siécle (Haupt, 1979). Com isso, Musto coloca em xeque a construção ideológica mais poderosa das esquerdas do século XX.

E aqui passamos à segunda questão. Em contraste com o procedimento ideológico que alça a figura de Marx à dimensão sobre-humana, o Marx que emerge do livro de Musto não é a figura monolítica, supra-histórica, que os regimes nascidos sob a sua suposta influência pintaram ao longo do século XX. Além de demonstrar como seus pensamentos foram alterados pelas descobertas que realizava, O velho Marx destaca a inserção do filósofo alemão numa rede de militantes e familiares com os quais dividia angústias e alegrias, embora sempre orientado pelas suas preocupações teórico-práticas. Nesse sentido, o esforço do biógrafo não é demonstrar como a dimensão pública das atividades de Marx se sobrepunha à sua vida privada, mas, ao contrário, frisar como sua vida privada e pública se fundiam em uma só – a vida do sujeito Marx – e que, como não poderia deixar de ser, era carregada de contradições, dilemas e escolhas.

Por razões compreensíveis, um livro sintético sobre tema tão complexo traz o risco de algumas limitações. Embora muito bem sucedido, talvez houvesse necessidade de explorar um pouco mais a fundo as descobertas/reformulações teóricas de Marx no período delimitado pela pesquisa. Em que pese observação do autor sobre o fato de esse ser um livro de “biografia intelectual” e indicar a preparação de outro “exclusivamente teórico” (Musto, 2018, p.10), isso não altera a fato de que poderia ter havido discussões teóricas mais profundas no livro atual, especialmente porque, como o próprio autor demonstrou, a biografia de Marx não é separada de suas formulações teóricas.

Pelo seu assunto e pela sua forma expositiva – clara, concisa e livre de jargões -, o livro de Musto certamente interessará aos pesquisadores brasileiros do pensamento de Marx, bem como ao público não acadêmico, mas interessado em discussões políticas. É possível, inclusive, que incomode aqueles que se identifiquem com o “mito Marx” que transcorreu o século XX. Se o fizer, o livro terá cumprido seu objetivo (Musto, 2018, p.11). É que Musto apresenta um caminho para outro Marx, talvez um Marx do século XXI, mais aberto, mais plural e, quem sabe, ainda mais poderoso. Um Marx, portanto, em construção.

Referências

HAPUT, George. Marx e o marxismo. In: HOBSBAWN, Eric (org). História do marxismo (vol.1 – O marxismo no tempo de Marx). Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1979. [ Links ]

MARXHAUSEN, Thomas. História crítica das Obras completas de Marx e Engels (MEGA). Crítica Marxista, Campinas, n.39, p.95-124, 2014. [ Links ]

MUSTO, Marcello. O velho Marx – uma biografia de seus últimos anos de vida (1881-1883). São Paulo: Boitempo, 2018. [ Links ]

Leonardo Octavio Belinelli de Brito – Programa de Pós-Graduação em Ciência Política, Universidade de São Paulo, Avenida Professor Luciano Gualberto, 315, São Paulo, SP, 05.508-900, Brasil. belinelli.leonardo@gmail.com.

Magnífica e Miserável: Angola desde a guerra civil | Ricardo Soares Oliveira

Magnifica e Miserável: Angola desde a guerra civil é um livro de autoria do investigador português Ricardo Soares de Oliveira, publicado originalmente em língua inglesa (Magnificent and Beggar Land: Angola since the civil war) e seis meses mais tarde dado à estampa pela editora portuguesa Tinta-da-China. A publicação desse livro provocou em certo entusiasmo incontido em alguns meios jornalísticos e acadêmicos em Portugal e o Reino Unido, que se manifestaram nos comentários qualificativos sobre o autor e a obra constantes na contracapa da versão inglesa, assim como da versão portuguesa tais como: “lúcido, brilhante” e “fascinante, provocativo”, por um lado, “profundo conhecedor da política do petróleo em Angola” e “melhor estudo sobre Angola em inglês”, por outro. Salvo engano, o livro mereceu algumas de resenhas críticas à versão inglesa1 que ampliam e levantaram a discussão sem que a mesma fosse sentida no meio acadêmico angolano e de língua portuguesa.

Magnífica e Miserável apresenta-nos uma capa que ilustra o pôr do sol da costa de Luanda e os escombros do mausoléu, obra quase abandonada, infraestrutura imponente à soviética onde repousa os restos mortais do primeiro presidente de Angola independente, António Agostinho Neto. Esta ilustração sinaliza o que entendemos ser o início da representação caricatural, – da magnificência – que se pode encontrar reforçada no texto. Leia Mais

Jinga de Angola: A rainha guerreira da África | Linda M. Heywood

Muito se fala sobre a Rainha Jinga1: os adjetivos utilizados para mencioná-la não lhe poupam as características marcadamente de poder e ousadia. “Jinga de Angola: A rainha guerreira da África”, recente trabalho da historiadora Linda Heywood, lançado em língua inglesa no de 2018 e publicado no Brasil em 2019, não foge a esta regra. Dividida em sete partes, que acompanham cronologicamente a vida de Jinga, e com um posfácio assinado por Luís Felipe de Alencastro, a obra ressalta a perspectiva da liderança feminina e astúcia da rainha africana que é conhecida por muitos e cuja atuação histórica é relembrada em cantos de congado e cantos populares pelo Brasil.

Jinga Mbande Gambole, Ana de Sousa, Ngola Kiluanje e Ngola Jinga Ngombe e Nga — estes são todos os nomes adotados por Jinga em diferentes circunstâncias, de sua longa vida, na qual testemunhou e vivenciou ativamente, mudanças profundas, de origem externas, mas também internas. Essa adoção de diferentes nomes revelavam a busca por identidade e também apontavam para sua destreza, em circular por mundos e culturas diferentes e ainda assim, registrar sua marca e presença. Leia Mais

As voltas do passado. A Guerra Colonial e as lutas de libertação | Miguel Cardina

Existem livros que surpreendem pela originalidade do título; outros surpreendem pela qualidade do conteúdo ou pela lógica de organização dos textos. A obra organizada por Miguel Cardina e Bruno Sena Martins surpreende nos três aspectos. Na obra intitulada “As voltas do passado: a Guerra Colonial as lutas de libertação”, Cardina e Martins reúnem um expressivo conjunto de 51 pesquisadores de diferentes nacionalidades e apresentam aos leitores um livro fracionado em 46 textos. Acionando uma ampla rede de pesquisadores e de instituições acadêmicas da África e da Europa, os organizadores apresentam ao leitor uma amostra qualificada das interpretações que a Guerra Colonial produziu na historiografia portuguesa e na historiografia dos países africanos que outrora foram colônias de Portugal.

Neste sentido, o livro pode ser considerado um projeto editorial ousado, por dois motivos: primeiro porque buscou incorporar os significados da Guerra Colonial para Portugal e para os povos africanos que desafiaram a política colonial lusitana; e, segundo, porque transitou entre os fatos da Guerra Colonial e as memórias construídas a partir destes fatos. Na Introdução os organizadores ressaltam que a problematização da memória é um dos objetivos da obra e afirmam que As voltas do passado é um livro que se preocupa com “o regresso da guerra aos sucessivos presentes, em combinações irregulares entre a evocação de um passado constitutivo e os usos seletivos da memória.” Leia Mais

Marx, Espinosa e Darwin: pensadores da imanência | Maurício Vieira Martins

Ser imortal é insignificante; exceto o homem, todas as criaturas o são, pois ignoram a morte … Israelitas, cristãos e muçulmanos professam a imortalidade, mas a veneração que tributam ao primeiro século mostra que somente creem nele, uma vez que destinam todos os demais, em número infinito, a premiá-lo ou castigá-lo ( Borges, 2008 , p.19).

Pela parte do fogo 1 é que se reconhece um filósofo. Se o pensador tem a coragem para se entreter exclusivamente com a busca de causas que devem ser procuradas nesse mundo físico e material e na atividade humana; ou se apela, ou se submete, a causas transcendentais, religiosas, produtos de Deus ou de deuses. Marx, Espinosa, Darwin: pensadores da imanência , primeiro livro do sociólogo e filósofo Maurício Vieira Martins, demonstra que o conceito de imanência é central ao filósofo holandês Baruch Espinosa (1632-1677), ao sociólogo (ou economista) alemão Karl Marx (1818-1883) e ao naturalista (evolucionista) inglês Charles Darwin (1809-1882). E que esse conceito, mobilizado nas obras desses pensadores, permite que a filosofia e a ciência contribuam na luta contra a ignorância, o conservadorismo e o obscurantismo, que levam à violência, física e mental. Desde o prefácio, Martins (2017 , p.9) nos alerta para o “crescimento exponencial de movimentos religiosos pelo planeta afora”. O livro não é um libelo contra as religiões, mas desenvolve um argumento que nos leva a considerar crises atuais de uma perspectiva mais progressista e política. Leia Mais

São Paulo. Uma biografia gráfica | Felipe Correa

São Paulo, uma biografia gráfica é um novo volume que propõe uma análise complexa da cidade metropolitana de São Paulo, oferecendo também instrumentos para um desenvolvimento futuro mais sustentável.

Fruto do trabalho de um grupo de pesquisadores coordenado por Felipe Correa, o livro – com excelente qualidade gráfica e impressão – é uma narrativa visual e de textos, que coloca em questão o não-desenho urbano de São Paulo durante a transição rápida de uma cidade com pouco mais de trinta mil habitantes (1870) para os atuais 20 milhões da área metropolitana. A análise – cujo ponto de partida é a leitura das bases de orografia e hidrografia – aborda uma visão sistêmica de outras “camadas” e temas, tais como áreas abandonadas. Leia Mais

Roteiro para construir no Nordeste. Arquitetura como lugar ameno nos trópicos ensolarados | Armando de Holanda Cavalcanti

Logo ao entrar no curso de arquitetura, em 1985, fui apresentado ao Roteiro para Construir no Nordeste de Armando de Holanda, um pequeno livro que era uma leitura essencial para os estudantes de arquitetura da Universidade Federal de Pernambuco – UFPE desde seu lançamento em 1976. Por meio de algumas estratégias – criar uma sombra, recuar as paredes, vazar os muros, proteger as janelas, abrir as portas, continuar os espaços, construir com pouco, conviver com a natureza – o autor buscava ajudar estudantes e arquitetos a projetar no Nordeste do Brasil. Só tempos depois é que pude compreender a real significância deste livro. Mais do que algumas estratégias para se chegar a um bom projeto, ele nos fala muito mais da relação entre arquitetura e natureza e do real significado da arquitetura moderna.

Os princípios propostos por Armando de Holanda eram compartilhados por vários arquitetos locais, tanto em suas práticas profissionais como no ensino da escola de arquitetura da UFPE, onde Armando se formou em 1962 e ensinou entre 1974 e 1979. Essa escola de arquitetura, que teve origem na década de 1930 na Escola de Belas Artes de Pernambuco, adquiriu uma orientação moderna a partir do estabelecimento no Recife do italiano Mario Russo, do carioca Acácio Gil Borsoi e do português Delfim Amorim, entre 1949 e 1951. Leia Mais

La palabra y el dibujo | Jua Luis Trillo de Leyva e ángel Martínez García-Posada

“Me censuraban el hecho de que teniendo, supuestamente, esa obligación no indicase caminos claros a los estudiantes, a lo que yo respondía claro que no, porque los caminos no son claros”.
Álvaro Siza. Fragmentos de una experiência

Con este volumen, que además bautiza a toda la colección, la editorial madrileña Lampreave inauguró, en 2012, una serie de libros sobre temas de arquitectura y creatividad: La palabra y el dibujo.

En esencia, podríamos decir que esta obra es un tributo a los bocetos del arquitecto portugués Álvaro Siza Vieira (Matosinhos, 1933). El texto introductorio de Ángel Martínez García-Posada nos revela que la colección lleva, en realidad, el título de una conferencia impartida en 1998 por el profesor Juan Luis Trillo de Leyva, catedrático de la Escuela Técnica Superior de Arquitectura de Sevilla. Su disertación consistía en un intento de desvelar los secretos de los bosquejos de Álvaro Siza. Leia Mais

Utopia, Dystopia. A Paradigma Shift in Art e Architecture | Pedro Gadanho, João Laia e Susana Ventura

No segundo semestre de 2016, paralelamente à 4ª edição da Trienal de Arquitetura (1), inaugurou-se em Lisboa o MAAT, o museu de arte, arquitetura e tecnologia de Lisboa, causando polêmica ao introduzir a capital lusitana no pulsante circuito global de arquiteturas espetaculares.

Entretanto, não é a arquitetura do MAAT, projetado pela arquiteta inglesa Amanda Levete, que proponho apresentar nesta resenha, tampouco as obras de sua exposição inaugural: “Utopia/Dystopia, A paradigma Shift in Art e Architecture”O destaque aqui é a publicação do livro homônimo, lançado em março de 2017 (2), que por sua vez não é um mero catálogo da exposição, mas uma ambiciosa coletânea de ensaios inéditos, focados em refletir os impulsos utópicos e distópicos que dominam o homem desde o inicio da modernidade. Há um evidente tom de manifesto, fortalecido pela publicação em edição bilíngue. Livro e exposição trabalham como entidades complementares, ainda que autônomas, tornando-se o primeiro compêndio a explorar as diferentes abordagens de artistas contemporâneos, arquitetos e teóricos sobre as dualidades e tensões em torno do par utopia/distopia. Leia Mais

Fonologia – Fonologias: uma introdução – HORA et. al. (A-RL)

HORA, Dermeval da; MATZENAUER, Carmen (Org). Fonologia, fonologias: uma introdução [ Phonology, Phonologies: An Introduction] São Paulo: Contexto, 2017. Resenha de: CANGEMI, Ana Carolina. Um passo a passo para estudos linguísticos em teorias fonológicas. Alfa – Revista de Linguística, São José Rio Preto, v.63, n.1, São Paulo, Jan./Mar. 2019.

Fonologia, fonologias: uma introdução (2017) [ Phonology, Phonologies: An Introduction , edited by Dermeval da Hora and Carmen Lúcia Matzenauer, comprises studies on Phonological Theories. The work is dedicated to Gisela Collischonn (in memoriam), admirable phonologist, who so prematurely left us. In the Introduction the editors promise to take the reader to the “world of sounds”, understood both as the substance of human languages as well as a unit of their respective grammar. The eleven chapters that make up the book are structured around six questions 1:

  1. What is _ _ _ _ _ _ _ _ Phonology 2 ?
  2. What does _ _ _ _ _ _ _ _ Phonology study?
  3. How to analyze linguistic phenomena using _ _ _ _ _ _ _ _ Phonology?
  4. Could you give me an example?
  5. What are the main research lines?
  6. What should I read to know more?

In the first chapter, Fonologia Estruturalista [ Structuralist Phonology ], by Juliene Pedrosa and Rubens Lucena, the Saussurean concept of langue is seen as a foundation for later formalizations of phonological theories. Specifically, regarding Structuralist Phonology, the authors introduce the founding theorists and the fundamental aspects of the study of a language. When analyzing phenomena of the language, the authorsrefer especially to Brazilian linguist Joaquim Mattoso Camara Jr. and, consequently, bring as examples phenomena involving consonant and vowel sounds of Portuguese.

The second chapter, Fonologia Gerativa [ Generative Phonology ], by Seung Hwa Lee, starts with a presentation of the main theoretical assumptions of Generative Phonology (a branch of Generative Grammar). In it, the author discusses topics such as 1) the major theorists in the field of Generative Phonology, 2) the definition of what it is and 3) the scope of its study. The author emphasizes the main objective of the theory (to make explicit the linguistic knowledge/faculty of the speaker-listener of each language) as well as its product (the construction of a phonological grammar of a language that could describe the phonological knowledge of the speaker-listener of that language in terms of the system of rules). In order to exemplify a linguistic phenomenon in the light of the theory, Lee discusses the idea and the rules involving a conspiracy process, by using the sound alternations of Portuguese archiphoneme / S /. Finally, there is a systematic elaboration on Generative Phonology. Therefore, the chapter is a valuable contribution towards the description and explanation of the phonological knowledge of the speaker/listener.

The third chapter, Teoria dos Traços [ Distinctive Features Theory ], was produced in partnership between Carmen Lúcia Matzenauer and Ana Ruth Moresco Miranda. The authors initially provide a historical overview of theory and subsequently (in a very objective and clear way) familiarize the reader with the minimum units forming the internal structure of segments as well as the two approaches to features: i) attributes of segments, and ii) autosegments. It should be emphasized that such perspectives are originally linked to different theoretical models, the first referring to the Classical Generative Model, the second to the Autosegmental Model. By fulfilling data produced by Brazilian children, the authors offer examples that illustrate the dynamics of the phonological grammar of Brazilian Portuguese. It is finally stressed that distinctive features have an important descriptive and explanatory power. Hence the importance of theoretical knowledge for the advancement of studies of the phonological component of linguistic systems. Carefully written and reader-friendly, this chapter harmonizes the transition from linear to nonlinear models, 3 which will be fully approached in the five chapters following it.

The fourth chapter, by Dermeval da Hora and Ana Vogeley, introduces Fonologia Autossegmental [ Autosegmental Phonology ]. This nonlinear approach provides the basics for a multidimensional understanding of phonological processes. The way the reader can benefit from the descriptions, with multi-layered arrangements of phonological representations with respect to the suprasegmental aspects, for example, is remarkable. Thus, the authors devote a part of the chapter to prosodic phenomena. Although Autosegmental Phonology is considered a theory and not just a descriptive model, it is important to understand its mode of representation (tree diagrams), the conditions under which phonological rules and processes are established, and the principles of its functioning. The authors, then, assign another part of the chapter also to these topics. Finally, the coordination of the components of the articulatory apparatus during the production of sounds in speech is dealt with using data extracted from Portuguese.

The fifth chapter, Teoria Lexical [ Lexical Theory ], written by Leda Bisol, addresses phonological theory concerning words as regards to two types of components, i) the lexical component and ii) the postlexical component. This theory, which is grounded on generative models of analysis, integrates phonology and morphology in the lexical component. Therefore, prosodic entities, the syllable, enunciation, the processes of word formation and the elements of a word are examined in a singular way. The author also highlights the key aspects of lexical theory, the ordering of rules and their effect on the serial model. Finally, there is a cyclical analysis of a Portuguese word composed by a root and a thematic vowel.

The sixth chapter, Fonologia Métrica [ Metrical Phonology ], by José Magalhães and Elisa Battisti, is aimed at the organization and formalization of relations of prominence (ranging from the smallest, such as the syllable, to larger ones, such as clauses) in the phonological domain). Although Metrical Phonology studies the system of relative prominence of a language as a whole or in terms of its accentual pattern, some theoretical assumptions, objects and processes of investigation are given special attention. For example, the formation of a structure with binary components by means of relative prominence hierarchically organized is one of the issues of application of the theory. In order to exemplify the models of analysis described in the chapter, the authors work with Latin, Portuguese and other natural languages.

The seventh chapter, Fonologia Prosódica [ Prosodic Phonology ], by Luciani Tenani, highlights the interface between Phonology and other components of grammar. The author points out that Prosodic Phonology stands as a formal theory about prosodic structures, which can be defined by the identification of information on the syntactic or morphological qualities which are relevant to characterize the domains of application of phonological rules. After showing that there can be no necessary isomorphism among the constituents, the author calls attention to the plurality of proposals for prosodic hierarchies. Regardless of the various proposals, it is possible to adopt a set of procedures for analysis in the light of Prosodic Phonology. By using data drawn from Portuguese, the author exemplifies such procedures and reflects especially on accentual shock in the language.

The eighth chapter, written by Ubiratã Kickhöfel Alves, deals with Teoria da Sílaba [ The Syllable Theory ]. The chapter begins with a discussion of the challenge of characterizing the syllable. The author extends the difficulty to the representational level, to the formal mechanisms of analysis of the syllabication process in a language as well as to universal constraints on syllabication. Specifically, in relation to the representational structure in Syllable Theory, three sets of proposals are presented for its characterization: i) the autosegmental structure, ii) the tree-diagram structure and iii) the moraic structure. Linguistic phenomena can be analysed by adopting more than one approach. Some analyses may be carried out, for example, taking a rule-based approach, or a syllabic-model approach or a constraint-based approach. It should be emphasized that, in addition to the different approaches, it is necessary to consider the distribution segments into the syllable, following universal principles of syllabification. A set of principles is presented in the chapter. Finally, the author points out that studies that look into the syllabic structure of the system are still an inexhaustible source of investigation. This chapter also marks the end of the section on non-linear theories in the book, which now turn to the model created in the 1990s: Teoria da Otim(al)idade. [ Optim(al)ity Theory ].

In the ninth chapter, entitled Teoria da Otimidade [ Optimality Theory ], by Luiz Carlos Schwindt and Gisela Collischonn, the theory that had a major impact especially on phonological studies is introduced. According to the authors, this theory can be considered a development of the Generative Theory, in terms of formal descriptions and the search for universals. However, a methodological differentiation can be noticed when it is compared to the generative models that preceded it. From the beginning of the chapter, the authors fulfil examples to initially elucidate the theory. The first example is within the scope of the syllabic structure of Portuguese. As the analysis of the syllabic structure is prioritized in this chapter, the essential properties of the phonological model are highlighted. It is important to emphasize that the task of the Optimality Theory is to promote the mapping of linguistic forms which have been effectively realized together with their underlying forms. Undoubtedly, the theory brings advances to phonological analysis, but there are problems, too. At the end of the chapter, the authors reflect on some of these problems.

The tenth chapter, Teoria de Exemplares [ Exemplar Theory ], written by Thaïs Cristófaro Silva and Christina Abreu Gomes, introduces a representational model formulated, a priori , for the study of visual perception and categorization in the realm of Psychology. According to the authors, three aspects are within the scope of Exemplar Theory: i) phonetic detail, ii) the effects of frequency on mental representations, and iii) emergence and grammatical management of abstract representations. Experimental methodologies are grounded on the expectation of presenting empirical evidence so as to corroborate tendencies of generalization in abstract grammatical representations. In the context of the phenomenological analysis there is the examination of the effects of frequency and lexical similarity by means of research into the corpora of the language under study.

The eleventh and last chapter, Fonologia de Laboratório [ Laboratory Phonology ], by Eleonora Cavalcante Albano, addresses a methodological position which can be applicable to any phonological theory. It is considered that the association between Phonetics and Phonology should be sufficiently clear to support experimental hypotheses. The method, which was developed at LabPhon Association4 , is intended for the scientific study of the elements of a spoken or signed language as well as of its organization, grammatical function and role in communication. According to the author, in this respect, the method shares the same objects of traditional Phonology (in terms of its system and phonic processes), but in a more particular way. Thus, phonetic detail plays an essential part in shedding new light on the the nature of phonic contrasts, for example.

Fonologia, Fonologias: uma Introdução (2017) fulfills its promise to offer the theoretical tools for the reflection on the phonological components of languages (especially Portuguese), as it describes the main phonological theories. Moreover, the book stands as a broad and dense study that allows for the understanding of phonological theories and methods, fostering debates and further developments. With the contribution of renowned Brazilian scholars and researchers, the book is reader-friendly from beginning to end, objectively offering more than the answers to the six questions around which its chapters are organised. Theoretical frameworks, issues and results are gathered together in this useful work, which certainly leads the reader to the “world of sounds.”

References

CHOMSKY, N. The sound pattern of English. New York : Holt, Rinehart and Winston, 1968. [ Links ]

GOLDSMITH, J. (ed.) Phonological theory: the essential readings. Malden: Blackwell Publishers, 1999. [ Links ]

HORA, D.; MATZENAUER, C. Fonologia, fonologias: uma introdução. São Paulo: Contexto, 2017. [ Links ]

NESPOR, M.; VOGEL, I. Prosodic Phonology. Dordrecht: Foris Publications, 2007. Obra original de 1986. [ Links ]

SELKIRK, E. Phonology and syntax. Cambridge, Mass.: MIT Press, 1984. [ Links ]

1Also including notes and references pertaining to each chapter.

2The underscored blank spaces preceding “Phonology” indicate the type of Phonology dealt with in the chapters, for example, Generative Phonology, Lexical Phonology, Prosodic Phonology, and so forth.

3The theoretical models of linguistic phonology are commonly divided into two groups: i) linear models ( CHOMSKY, 1968 ) and ii) nonlinear models ( SELKIRK, 1984 ; NESPOR;VOGEL, 2007 ; GOLDSMITH, 1999 ). Linear models regard speech as a linear combination of segments or distinctive features, that is, there is a one-to-one relationship between the segments and the matrices of feature values. Nonlinear models understand the phonology of a language as an organization in layers (tiers). In this model, the one-to-one relationship is reviewed. Features can extrapolate (or not) a segment and they can also be linked to more than one unit, function alone or in association with them.

4From https://www.labphon.org/ . Access on: 27 Feb. 2018

Ana Carolina Cangemi Universidade Estadual Paulista, (Unesp), Faculdade Ciências e Letras, Araraquara – São Paulo – Brasil. Professora do Departamento de Linguística. ana.cangemi@unesp.br

Decolonialidade e pensamento afrodiaspórico | Joaze Bernardino Costa, Nelson Maldonado-Torres e Ramón Grosfoguel

[…] Emancipe-se da escravidão mental

Ninguém além de nós mesmo pode

Libertar nossas mentes.

Canção da Liberdade – Bob Marley

Para problematizar decolonialidade, fazem-se necessárias reflexões sobre o conhecimento. Assim como, interrogar as resistências impostas pelas lógicas econômicas, políticas, culturais, estéticas e da natureza produzidas em um longo processo colonial. Na obra em pauta, os autores compreendem decolonialidade e pensamento afrodiaspórico como um sentido mais amplo que se interroga e se dispõe apresentar debates que podem ser inspiradores de estratégias para se transformar as realidades em que a colonialidade do ser, do saber, do poder e da natureza se perpetuam.

A obra Decolonialidade e pensamento afrodiaspórico, organizada pelos professores Bernardino-Costa, Nelson Maldonado-Torres e Ramón Grosfoguel em um esforço horizontal de dialogo junto a outros 13 autores/as que são igualmente professores/pesquisadores, feministas negras, intelectuais/ativistas antirracistas e negros(as); os quais partem da premissa que o conhecimento está ligado ao poder, além de asseverar que a raça é um principio estruturante para se problematizar o sistema-mundo moderno/colonial. Leia Mais

Formação das fronteiras latino-americanas | Fábio Aristimunho Vargas

As fronteiras são um tema conceitualmente polissêmico e um objeto multidisciplinar, cujos estudos são de interesse acadêmico diverso, abarcando os campos da Geografia, Relações Internacionais, Direito, História, entre outros. Estudos que procuram contribuir para o entendimento dos processos que levaram à definição dos limites territoriais entre os Estados são de grande valia nessa temática. É nessa perspectiva que o livro Formação das Fronteiras Latino-Americanas, publicado pela Fundação Alexandre de Gusmão em 2017 (640 páginas), insere-se como uma importante contribuição.

O autor é mestre em Direito Internacional, possui doutorado em Integração da América Latina e atua como professor em cursos de Direito e de Relações Internacionais em universidades da região da Tríplice Fronteira (Argentina-Brasil-Paraguai) onde vive. Sua produção intelectual segue a mesma lógica da temática de seu livro, de sua formação e de sua vivência, com viés inclinado ao Direito Internacional, tratando questões de fronteira. Leia Mais

Improving Educational Gender Equality in Religious Societies – AL-KOHLANI (SEH)

AL-KOHLANI, S. A.. Improving Educational Gender Equality in Religious Societies. United Arab Emirates: Palgrave Macmillan, 2018. Resenha de: CUEVAS, Sara Gómez. Social and Education History, v.9, n.1, p.124-126, feb. 2019.

l libro presenta una investigación interdisciplinaria realizada en base a 29 países musulmanes y 26 no musulmanes dentro del periodo de tiempo de 1960 a 2010, con el fin de dar respuesta a la “Teoría de la religión” que relaciona ciertas religiones con la desigualdad de género y la “Teoría de la modernización”, que resta importancia al papel de la religión en la desigualdad de género y asocia la desigualdad de género con factores socioeconómicos.

El estudio está compuesto por seis partes. Primero hace una introducción donde cuestiona la relación entre la equidad de género y religión. Plantea que ni el laicismo es la solución, ni el islam es la solución, y que cualquier aportación radical no será útil ya que no incluirá todas las voces de la sociedad.

Fundamenta que el derecho de las mujeres al acceso a la educación se ha cumplido en gran cantidad de países occidentales, y, sin embargo, aún queda recorrido por hacer en otros países no occidentales para que este derecho se logre. En la indagación de las posibles causas de esto, Al-Kohlani expone que en una buena parte del mundo árabe, el progreso ha sido frenado por el rechazo gubernamental.

Esta reivindicación que llevan años exigiendo, parte de liderar el cambio religioso, educativo y social sin dañar a los hombres ni a su propia imagen como mujeres musulmanas. Dentro de las contradicciones que se plantean en las diferentes posturas de los autores y autoras académicos, como los debates más amplios del mundo de la vida sobre el papel de la religión en el Estado, el trayecto que parece discernir, es el diálogo entre los diversos resultados de las investigaciones y muy diversos grupos feministas para llegar a acuerdos que logren el derecho al acceso a la educación de todas las mujeres del mundo árabe.

Durante los siguientes capítulos, intenta traer la relación entre la igualdad de género en el acceso a la educación, la religión y la modernización.

Para ello, presenta un método con el que categoriza el nivel de conservación religiosa de los gobiernos para analizar los 55 países musulmanes y no musulmanes en los 50 años. Muestra los datos y el método que se ha utilizado para este análisis, dónde desarrolla cómo se eligieron los países que han sido objetos de este estudio y la justificación para cada variable aportada. Asimismo, argumenta cómo se realizó el Índice de religiosidad de la Constitución de Al-Kohlani y las carencias que éste presenta.

En el siguiente capítulo, indaga en la relación entre las constituciones religiosamente conservadoras y de la modernización, y la posible influencia de varios factores como la urbanización y la fertilidad. Examina si las religiones tienen relación con el acceso igualitario a la educación, indagando en las posibilidades de que la modernización disminuya este efecto.

A continuación, se presenta un estudio de caso donde se expone la historia religiosa de Turquía e Irán en el siglo XX y por qué hoy se considera Turquía como un país secular e Irán como un país conservador, así como la buena situación educativa y laboral de ambos países de las mujeres. El debate entre las personas que han defendido el laicismo y aquellas personas que han mantenido sus creencias tradicionales es más rígido en Turquía que en Irán. De este modo, Al-Kohlani plantea que podría ser una razón más por la cual en Irán, la ciudadanía se ha mostrado menos resistente al cambio que en Turquía.

Finalmente, el capítulo 6 concluye el libro con recomendaciones para los responsables de las políticas e ideas para futuros estudios de investigación.

Entre otras conclusiones, destacar que cada aportación, desde su perspectiva, busca lograr este derecho para todas las mujeres, por ejemplo, algunos grupos feministas religiosos han argumentado que la educación de las mujeres es requerida por la religión musulmana, por lo que este debate sobre el desigual acceso de las mujeres a la educación no puede explicarse mediante la religión. Tanto el feminismo religioso como el no religioso busca la igualdad y la justicia para y con todas las mujeres. Hallar ese encuentro de diálogo e interacción entre los diferentes feminismos, es clave para el futuro libre de todas las mujeres.

Sara Gómez Cuevas – Universidad de Barcelona. E-mail: sara.gomez@ub.edu.

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Excepcionalidade do modernismo brasileiro | Fernando Luiz Lara

Eisenman em seu livro Ten canonical buildings 1950-2000, de 2008, subverteu o significado do termo canônico com o objetivo de explicar um conjunto de edifícios exemplares. Para o arquiteto e crítico estadunidense os dez edifícios canônicos analisados são aqueles que antecederam, pelo caráter experimental e antecipatório, outros que se transformaram em cânones.

A estratégia de Fernando Lara se aproxima da utilizada por Eisenman ao inverter o significado comumente atribuído ao termo excepcional quando usado como adjetivo da arquitetura moderna produzida no Brasil. Para Lara o excepcional não é a graça das formas concebidas por Oscar Niemeyer, a sofisticação dos elementos de proteção climática desenhados pelos irmãos Roberto ou o domínio e controle da estrutura portante projetada por Vilanova Artigas e Paulo Mendes da Rocha. Tampouco o termo é explicado pela natureza inusitada da obra de arquitetos como Sergio Bernardes e Lina Bo Bardi. Para Lara a excepcionalidade da arquitetura no Brasil é sua disseminação: rápida, certeira, eficaz e eficiente. Talvez, como em nenhum outro lugar do planeta, certa corrente da arquitetura moderna tenha se tornado corriqueira, comum, cotidiana, portanto um feito excepcional. A excepcionalidade, neste caso, tem relação com velocidade e territorialidade; com a formação de uma cultura arquitetônica como aponta Carlos Martins (1). Leia Mais

Só quem não leu ou não entendeu livros de Lobato pode julgá-los racistas | Jorge Coli

No último domingo, Jorge Coli publicou em sua coluna na Ilustríssima o texto intitulado “Viva Lobato!” (1) O artigo festeja a boa notícia de que as obras de Monteiro Lobato estão agora em domínio público. Coli retoma um debate que eu havia acompanhado com interesse em 2010, provocado pela denúncia de conteúdo racista do livro Caçadas de Pedrinho protocolada pela Secretaria de Políticas de Promoção da Igualdade Racial, no Conselho Nacional de Educação. Da denúncia resultou um parecer técnico solicitado pelo próprio MEC, que recomendou a permanência do livro no Programa Nacional de Biblioteca da Escola com a seguinte advertência: “A obra Caçadas de Pedrinho só deve ser utilizada no contexto da educação escolar quando o professor tiver a compreensão dos processos históricos que geram o racismo no Brasil”.

A recomendação deu publicidade ao assunto e levou a polêmica ao grande público. Escritores de prestígio como Ziraldo e Ana Maria Gonçalves se manifestaram publicamente. O primeiro defendendo a importância da obra de Lobato para sua e outras gerações de brasileiros; a segunda explicitando o conteúdo racista e alertando para seus efeitos danosos nas crianças negras. Leia Mais

Crítica da razão negra | Achille Mbembe

Tomemos de empréstimo ao texto de Achille Mbembe uma passagem que nos servirá de ponto de partida para este comentário sobre sua obra Crítica da razão negra, recém-publicada no Brasil:

Há nomes que carregamos como um insulto permanente e outros que carregamos por hábito. O nome “negro” deriva de ambos. Por fim, mesmo que determinados nomes possam ser lisonjeiros, o nome “negro” foi, desde sempre, uma forma de coisificação e de degradação. Seu poder era extraído da capacidade de sufocar e estrangular, de amputar e de castrar. Aconteceu com esse nome o mesmo que com a morte. Uma íntima relação sempre vinculou o nome “negro” à morte, ao assassinato e ao sepultamento.1 Leia Mais

Éloge de la corruption | Marie-Laure Susini

Um costume de intelectuais, hoje sumido, reside na visita semanal às livrarias. Com o aumento dos textos eletrônicos e a crise dos impressos, a mais que agradável inspeção às prateleiras das lojas rareia. Não há mais tempo e lazer para conversas com os intelectuais (de variados setores acadêmicos ou mundanos) que traziam informações bibliográficas úteis ao passear olhos e mãos pelos volumes expostos. Recordo a excelente Livraria Duas Cidades, comandada por um discípulo do Padre Lebret, fundador do movimento Economia e Humanismo. Frei Benevenuto de Santa Cruz oferecia aos leitores de todas as crenças e ideologias as mais recentes e profundas análises sobre o mundo político, cultural, religioso, além de um diálogo seguro acerca de fonte e autores. No seu espaço pequeno, galáxias de saber tinham encontro marcado com pensadores ortodoxos ou heterodoxos, como Antonio Candido e outros.

Se andássemos um pouco mais na direção da Biblioteca Mário de Andrade (ela própria celeiro de intelectuais que marcaram a vida nacional, entre eles Mauricio Tragtemberg) entrávamos na Livraria Italiana, onde milhares de volumes traziam ar fresco para a pesquisa artística, histórica, filosófica. A viagem poderia terminar no Sebo do Brandão e outros estabelecimentos similares, próximos ao Largo de São Francisco. Ali, coleções inteiras de clássicos, românticos, modernistas e demais etiquetas do espírito eram oferecidas a preço acessível. O costume de frequentar os sebos marca o intelectual efetivo. Aqui mesmo, em Barão Geraldo, acompanhei um grande escritor em excursões rumo às prateleiras. O nome daquele precioso ensaísta é conhecido de toda a Unicamp: Eustáquio Gomes. Leia Mais

Machado de Assis – Antes do livro, o jornal: suporte, mídia e ficção – GRANJA (MAEL)

GRANJA, Lúcia. Machado de Assis – Antes do livro, o jornal: suporte, mídia e ficção. São Paulo: Editora Unesp Digital, 2018. 111 pp. Resenha de: SALA, Thiago Mio. Machado em meio à civilização do jornal. Machado Assis Linha v.12 n.26 São Paulo Jan./Apr. 2019.

Em Machado de Assis – Antes do livro, o jornal: suporte, mídia e ficção, Lúcia Granja retoma alguns de seus trabalhos relativos à produção cronística e ficcional do célebre autor de Quincas Borba e à história literária do século XIX, mas, diferentemente do que se poderia pensar num primeiro momento, não se trata da simples compilação de artigos, capítulos de livros ou trechos de teses. A obra consiste, na verdade, no reexame da produção recente da distinta pesquisadora à luz de novas ideias, reflexões e, sobretudo, de um pressuposto que confere ao livro em questão um sabor original quando se consideram as relações entre letras e comunicação: o papel do suporte editorial na produção do sentido. Em conformidade com tal perspectiva, Lúcia Granja procura examinar o fazer jornalístico e literário de Machado tendo em vista, para além da dimensão de artefato verbal do texto, a forma midiática na qual o escritor se fixou e se manteve durante grande parte de sua trajetória, isto é, o jornal.

Matriz importante para tal proposta analítica são os trabalhos do historiador francês Roger Chartier, com destaque para os estudos por ele conduzidos em torno do conceito de “mediação editorial”. Segundo Chartier (2002, p. 61-62), os escritos não existiriam “fora dos suportes materiais por meio dos quais foram veiculados, pois a construção de seus significados estaria diretamente ligada às formas que permitiriam sua leitura, audição ou visão”. Em outras palavras, para além do aparente truísmo, aquilo que costuma ser tratado como exterior e apartado da história do livro e da literatura, isto é, a análise das condições técnicas e materiais de produção ou de difusão dos objetos impressos e a dos conteúdos que eles transmitem (CHARTIER, 2002, p. 62), ganha importância quando se tem em vista, em perspectiva ampliada, os efeitos de sentido produzidos por um texto. Seguindo os passos de Chartier, mas caminhando por conta própria e com desenvoltura pela produção de Machado e por nosso jornalismo oitocentista, Granja se detém no exame das formas particulares e sucessivas de transmissão dos textos do autor em oposição a uma leitura abstrata, que desconsidera a poética do suporte periódico.

Todavia, para além de uma compreensão reduzida do papel da imprensa diária ou de uma descrição instrumental do espaço ocupado pelo texto machadiano nas diferentes folhas, Lúcia procura entender o suporte jornalístico enquanto peça-chave de um sistema midiático e civilizacional que floresce no século XIX. Para tanto, vale-se, em chave crítica, da produção de uma plêiade de autores franceses dedicados ao estudo do periódico do Oitocentos em conformidade com tal enquadramento: Dominique Kalifa, Marie-Ève Thérenty, Allain Vaillant e Marie-Françoise Melmoux-Montaubin, entre outros. Em linhas gerais, tais pesquisadores procuram examinar o intercâmbio entre formas literárias e jornalísticas, bem como o novo regime de comunicação instituído: se o jornal, por um lado, emprestava à literatura atributos como o ritmo da vida moderna, coletivização da escrita (numa única página de jornal passam a conviver diferentes rubricas com espaços delimitados), remissões internas e externas, fragmentação, periodicidade, ficção da atualidade (assuntos na ordem do dia passam a oferecer temas para a produção artística) etc., por outro, recebia dela esquemas narrativos e retóricos que permitiam seu desenvolvimento.

Mais especificamente, observa-se que o livro se divide em apenas duas partes. Na primeira, Granja trata, sobretudo, das características plásticas e estruturais dos rodapés dos jornais no século XIX, promovendo o devido contraponto entre Brasil e França. Ao abordar a crônica machadiana e, em chave comparatista, a produção folhetinesca do escritor francês Théophile Gautier, a pesquisadora examina não apenas a textualidade das realizações de ambos os autores, mas a materialidade destas, ou seja, o fato de elas terem sido publicadas em suportes editoriais e em enquadramentos históricos específicos. Assim, sem prescindir da análise intrínseca (linguística e literária) dos escritos de Machado e Gautier, também ganha destaque, na pena da pesquisadora, o estudo dos significados a eles agregados no processo de sua transmissão e difusão. Além disso, ela ressalta como os escritores-jornalistas em questão, enquanto artistas dotados de consciência tipográfica e concepção metarreflexiva do texto, integraram a lógica da materialidade do jornal na própria construção de suas obras.

Estabelecidas tais bases, a segunda parte do livro dedica-se a uma análise mais vertical de um corpus reduzido, com destaque para o exame de um conto, uma crônica e aspectos de um romance. Trata-se, mais especificamente, de “Conto alexandrino” (publicado de início em 13 de maio de 1883, na Gazeta de Notícias, e, um ano depois, recolhido em Histórias sem data); crônica de 7 de julho de 1878 (estampada na série “Notas semanais” do jornal O Cruzeiro, na qual ganha atenção o caso bizarro de um homem que teria expelido um feto natimorto); e Memórias póstumas de Brás Cubas. Em chave metonímica, tal conjunto cuidadosamente selecionado permite divisar com mais clareza o modo como “as revoluções ideológicas e reconfigurações sociais operadas pelo jornal em nível mundial teriam resultado em transformações estéticas para um escritor carioca daquele século, afastado dez mil quilômetros da ‘capital do século XIX’, mas completamente inserido naquela civilização do jornal e do impresso” (GRANJA, 2018, p. 15).

De acordo com tal perspectiva, que toma as folhas periódicas não apenas como espelhos do mundo exterior, mas como espécies de substitutos dele, Lúcia procura entender os cruzamentos entre realidade (recriada pelo imaginário jornalístico) e ficção na prosa machadiana. Assim, os movimentos trepidantes da modernidade espacializados nas páginas dos jornais se tornam motivos da própria produção literária de Machado. Nesse processo, ao recuperar a divisão e a disposição da primeira versão de Memórias póstumas de Brás Cubas publicada em periódico, a autora revela a forma por meio da qual o escritor desconstrói os modos de leitura ligados ao romance-folhetim. Prosseguindo na análise da correspondência entre os efeitos produzidos pelo referido romance em jornal e no livro, Granja (2018, p. 99) caracteriza a novidade literária da narrativa concebida por um defunto autor como “uma transposição de uma manobra retórica da crônica jornalística e da própria poética da escrita dos jornais”, elevando o jornal a protagonista da originalidade e do impacto da referida obra que ganhará perenidade no suporte livresco.

Para a construção de tal percurso argumentativo em torno do papel do suporte e do fazer jornalístico-literário de Machado, Granja se vale não só de seu trabalho como professora e pesquisadora, mas também como editora. Em parceria, respectivamente, com Jefferson Cano e com John Gledson, ela esteve à frente da edição anotada, em livro, das séries cronísticas Comentários da semana e Notas semanais, ambos os volumes publicados pela editora da Unicamp em 2008. Tais experiências lhe possibilitaram o contato íntimo com o texto de Machado ambientado em seu suporte primeiro, bem como lhe conferiram a percepção in loco dos gêneros textuais nos quais o escritor investia. Desse modo, pôde articular as relações existentes entre crônicas, contos e romances com a materialidade das páginas onde tais produções foram originalmente estampadas.

A ênfase no particular permite que Granja lance um novo olhar sobre as respostas que a obra literária de Machado de Assis propõe a questões estéticas e contextuais do tempo em que circulou quer em periódico, quer, posteriormente, em livro. Nesse sentido, sem questionar o talento individual do artista, a pesquisadora interpreta a singularidade dele de acordo com as demandas da “civilização do jornal” (KALIFA et al, 2011, p. 7-21). Segundo tal perspectiva, portanto, o autor de Dom Casmurro passa a ser encarado, em sentido mais amplo, como um “escritor-jornalista” (MELMOUX-MONTAUBIN, 2003), isto é, como um intelectual e artista de seu tempo que não apenas se revelava consciente do lugar da imprensa enquanto universo textual responsável pela ampla e contínua difusão de conteúdos, mas que também se valeu das formas forjadas nesse novo e pulsante sistema de escrita para conferir à sua literatura o ritmo da vida moderna.

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Por fim, em consonância com a orientação seguida por Lúcia Granja a respeito da importância dos diferentes suportes e das dinâmicas particulares de produção e circulação dos escritos estampados nestes, convém destacar que o livro da autora, em seu formato eletrônico e-pub, pode ser baixado gratuitamente no site da editora da Unesp (disponível em <http://editoraunesp.com.br/catalogo/9788595462816,machado-de-assis-antes-do-livro-o-jornal>). Todavia, para os desejosos em ter o livro em mãos e efetuar uma leitura mais detida dele, é ainda possível, no mesmo endereço, encomendar a impressão da obra sob demanda. Se o novo procura se impor, a materialidade, a verticalidade e a contiguidade do impresso tradicional felizmente, neste caso, também estão ao alcance dos leitores.

Referências

CHARTIER, Roger. A mediação editorial. In: ______. Os desafios da escrita. São Paulo: Editora Unesp, 2002. [ Links ]

GRANJA, Lúcia. Machado de Assis – Antes do livro, o jornal: suporte, mídia e ficção. São Paulo: Editora Unesp Digital, 2018. [ Links ]

KALIFA, Dominique; RÉGNIER, Philippe; THÉRENTY, Marie-Ève; VAILLANT, Alain. La civilisation du journal: une histoire de la presse française au XIXe siècle. Paris: Nouveau Monde, 2011. [ Links ]

MELMOUX-MONTAUBIN, Marie-Françoise. L’écrivain-journaliste au XIXe siècle: un mutant des lettres. Saint-Étienne: Éditions des Cahiers Intempestifs, 2003 (Collection Lieux Littéraires 6). [ Links ]

Thiago Mio Salla – É doutor em ciências da comunicação e em letras pela Universidade de São Paulo. Enquanto docente e pesquisador da Escola de Comunicações e Artes da USP e do Programa de Pós-graduação em Estudos Comparados de Literaturas de Língua Portuguesa da FFLCH/USP, dedica-se às áreas de Literatura Brasileira, Teorias e Práticas da Leitura e Editoração. E-mail: thiagosalla@usp.br.

“Maps in Newspaper: Approaches to Study and Practices in Portrayin War since the 19th Century” | André Novaes

Fazer a leitura de Maps in newspapers: approaches to study and practices in portraying war since the 19th century é, sem dúvida, percorrer uma obra ímpar. Primeiramente, por seu formato não tão comum na produção acadêmica do Brasil, trata-se de uma monografia que compõe o primeiro volume da coleção Brill Research Perspectives in Map History, da editora holandesa Brill, que propõe trabalhos aprofundados sobre uma determinada perspectiva da história da cartografia e suas abordagens.1 Em segundo, mas não menos importante, também se destaca a particular riqueza das abordagens metodológicas que o texto explora para a pesquisa e compreensão das construções cartográficas, particularmente aquelas da imprensa.

De ímpar, torna-se também uma obra necessária no sentido de colocar em diálogo as diversas abordagens para o estudo dos mapas em sua pluralidade de formas. Mais da metade de suas páginas são destinadas a essa densa discussão, que o autor desenvolve com fluidez, aportado em uma variedade de autores que nos faz sentir viajando entre ideias. Trata-se de uma espécie de confluência de todo trabalho que André Novaes vem construindo sobre o universo dos mapas na imprensa, desde seu mestrado, passando pelo doutorado, até seus mais recentes projetos de pesquisa. Leia Mais

Recepción histórica y política de las Historias de Tucídides. Algunos casos en lengua hispana | Paulo Dnoso Johnson

El libro de Paulo Donoso Johnson podría definirse, en primer término, como un estudio monográfico sobre recepción clásica de una de las obras más representativas de la historiografía griega: la Historia de la Guerra del Peloponeso de Tucídides. Pero esta misma condición hace de este texto un estudio mucho más complejo, que puede ser leído, en parte, como una historia de la lectura, una historia de la traducción, la historia de una historia y el relato cuasi-biográfico de una comunidad de lectores y de autores (o de lectores-autores), cuyo vínculo común ha sido y es, más allá de los límites cronológicos y geográficos, la pasión por el mundo griego antiguo y, en particular, por la obra de Tucídides.

El libro se inicia con un prólogo de Raúl Buono-Core, quien define la originalidad de la cultura griega por su carácter heroico y político, condiciones que precisamente dan razón de la trascendencia de una obra como la de Tucídides. Luego, el estudio en sí se estructura por una introducción y tres capítulos, ordenados según las etapas de traducción y recepción de la obra de Tucídides al español, que son objeto de análisis: una traducción aragonesa del siglo XIV; una traducción castellana del siglo XVI; y las lecturas y traducciones que se han realizado en Chile desde época colonial hasta el presente. Leia Mais

Ciudad de voces impresas. Historia cultural de Santiago de Chile, 1880- 1910 | Tomás Cornejo

Las repercusiones de un asesinato, ocurrido en 1896, son la excusa que Tomás Cornejo utiliza como plataforma de observación histórica para analizar el surgimiento de nuevos circuitos culturales en la capital chilena entre 1890 y 1910. La muerte de Sara Bell (y las implicancias de su pareja, de la empleada doméstica y amante del asesino, del juez del caso, de la Policía, etc.) permite estudiar las formaciones discursivas, los distintos géneros escriturales, sus autores y productores y, especialmente, los receptores de esas publicaciones que caracterizaron a la cultura santiaguina a fines del siglo XIX y en la primera década del XX. Sin embargo, no se trata de un trabajo de historia cultural cerrado, es decir, donde los objetos de investigación son autosustentables y se explican por sí mismos; por el contrario, el autor da cuenta de qué forma el asesinato que origina la investigación, solo se entiende en el contexto posterior a la guerra civil de 1891, que fue el escenario que ambientó la discusión sobre esa muerte trágica.

El primer capítulo aborda la situación de Chile en el cambio de siglo, con particular énfasis en el clima político y las transformaciones sociales que vivió la sociedad del período. Esta parte del libro, que se podría decir oficia de introducción, cumple con lo que se señaló más arriba y es la necesaria relación entre un contexto y los artefactos culturales a trabajar, para plantear que es imposible entender la aparición de estos últimos sin tomar en cuenta la coyuntura. Leia Mais

Tempos conservadores. Estudos críticos sobre as direitas. Volume 2: Direitas no Cone Sul. | Rodrigo Jurecê Mattos Gonçalves

El libro es la segunda entrega del equipo de trabajo también denominado Tiempos conservadores, conformado principalmente por investigadores brasileños.1 Los integrantes comparten una militancia marxista lo que los llevó a emprender un trabajo conjunto a partir de los años 2015 y 2016 para analizar críticamente el ascenso de las derechas brasileñas y latinoamericanas. Los compiladores identifican un auge de lo que denominan “ola conservadora”, con acontecimientos como la destitución de Dilma Rousseff, el encarcelamiento de “Lula” Da Silva y el aumento de la popularidad y aceptación entre los electores de Jair Bolsonaro, quien finalmente llegaría a la presidencia en el año 2018.

Enmarcado en el crecimiento del campo historiográfico sobre las derechas en América Latina, el segundo volumen de Tempos conservadores nace en buena medida de la preocupación por emprender un estudio crítico de las derechas, sus instituciones, proyectos, intelectuales y conexiones que permitieron su ascenso y, según declaran los compiladores, del peligro que representan como destructoras de los derechos de los trabajadores. En este tomo, se sumó la participación de investigadores de Argentina y Uruguay, cuyos aportes resultan fundamentales para mirar el fenómeno a escala regional. Si bien, el libro propone recorrer el siglo XX y la primera década del XXI para identificar a sujetos o grupos vinculados a las derechas, las investigaciones presentadas se concentran en la segunda mitad del siglo pasado. El libro se compone de ocho artículos, los cuales propongo leer a partir de tres ejes temáticos que pueden brindar al lector una guía sobre qué o quiénes son las derechas para los editores. Leia Mais

Dibujar la nación. La Comisión Corográfica en la Colombia del siglo XIX | Nancy P. Appelbaum

Este libro fue originalmente publicado en inglés con un título diferente, Mapping the Country of Regions. The Chorographic Commission of NineteenthCentury Colombia (The University of North Carolina Press, 2016), y recibió en 2017 el Premio Iberoamericano al Libro Académico sobre el siglo XIX de la Latin American Studies Association (LASA). Reflejo de una política editorial que procura una mayor circulación para un libro importante, el nuevo título refiere a una práctica que fue común a varias de las nacientes repúblicas latinoamericanas: cartografiar el territorio sobre el que pretendían ejercer soberanía. lo cual, con el fin de prestigiar esa labor y justificar el alto costo que esas expediciones exigían, se contrataron muchas veces expertos extranjeros para dirigirlas, como fue el caso de Claudio Gay (1830-1841) en Chile, o del propio Agustín Codazzi, primero en Venezuela (1830-1840) y luego en la República de Nueva Granada (1850- 1859). Leia Mais

Los historiadores colombianos y su oficio: reflexiones desde el taller de la historia | José DAvid Cortés, Helwar Hernando Figueroa e Jorge Enrique Salcedo

Dos críticas han aparecido con mediana frecuencia en los trabajos de algunos historiadores colombianos durante los últimos años. La primera, está relacionada con la indiferencia del gremio frente a la divulgación del conocimiento histórico, y la segunda, con la mercantilización de las publicaciones indexadas que se genera por la implementación del sistema de puntos salariales en las universidades públicas y privadas. Siguiendo esta línea de argumentación, considero que el libro Los Historiadores Colombianos y su oficio: reflexiones desde el taller de la historia, publicado en 2017 por la Universidad Javeriana de Bogotá, puede incluirse dentro de esta corriente de críticas que buscan replantear el rol de los académicos, las universidades y el gobierno, este último representado en órganos como Colciencias, frente a la valoración del conocimiento. En palabras de sus coordinadores, José David Cortés, Helwar Figueroa y Jorge Salcedo, “es cada vez más notorio que la producción histórica e historiográfica ha caído en el mecanismo de la producción industrial, en donde se escribe y se publica no por el bien de la disciplina”. Leia Mais

Thinking through the body: Archaeologies of corporeality – HAMILAKIS (CA)

HAMILAKIS, Yannis; PLUCIENNIK, Mark; TARLOW, Sarah. Thinking through the body: Archaeologies of corporeality. New York: Kluwer Academic / Plenum Publishers, 2002, 262 p. Resenha de: SILVA, Sergio Francisco Serafim Monteiro da. Clio Arqueológica, Recife, v.34, n1, p.194-201, 2019.

Conforme os editores, o livro está baseado na oficina Thinking through the Body, ministrada na Universidade de Wales, Lampeter, em junho de 1998. Com o mesmo nome da oficina, este volume apresenta o potencial de novas contribuições interdisciplinares para o estudo do corpo e da corporeidade, ilustradas pelos estudos teóricos e filosóficos reunidos nas “arqueologias do corpo”, similarmente ao que ocorreu com a antropologia e a história nos seus vieses de “antropologia do corpo” e “história do corpo”, que dispensam apresentações neste espaço de resenha. Pensar através do corpo pode ser similar ao pensar através dos objetos de cultura material, dentro da produção do conhecimento arqueológico.

O livro trata do “corpo”, considerado aqui como um tópico ou tema que tem dispendido debates e discussões nas humanidades e nas ciências sociais, contando com a influência de expressivos teóricos, como Bourdieu, Merleau-Ponty, Foucault, Douglas e Butler, entre outros. Os capítulos apresentam diferentes (mas relacionáveis) abordagens sobre o corpo, como por exemplo, o significado cultural do corpo humano, como um símbolo, artefato, meio ou uma metáfora.

Este volume apresenta três seções. A primeira seção, Bodies, subjects and selves, apresenta exemplos voltados ao significado do corpo e sua relação com o [eu], o self, sujeito ou, mais especificamente, com o indivíduo – já que estas são ideias relacionadas ao conceito de pessoa. O corpo, como proposto por Sarah Tarlow em Bodies, selves and individuals, pode ser compreendido de variadas formas. No caso dos corpos dos mortos, estes providenciam aos arqueólogos uma aparente fundamentação para interpretar as sociedades antigas.

O tratamento dado ao corpo do morto por sociedades do passado pode ter sido análogo ao tratamento dispensado ao mesmo em vida, representando um ‘status terminal fossilizado’ de um indivíduo. O tratamento do cadáver contém elementos relacionados ao status, saúde ou religião do morto, sobre identidade e enculturação do corpo. De várias maneiras, nesta seção, busca-se desfamiliarizar e problematizar o corpo quanto a sua constituição, seus limites e suas capacidades.

Uma dessas problematizações pode ser encontradas no texto de Foucault, ‘Neitzsche, genealogy, history’, de 1971, p. 153: nada no homem, nem mesmo o seu próprio corpo, é suficientemente estável para servir como base para o autoreconhecimento ou para compreender outro homem. O passado e os corpos do passado, estudados pelos arqueólogos, diferem das ideias modernas que temos sobre os corpos.

Torna-se um desafio aos arqueólogos pensar que a decomposição do corpo possa ter sido mais perturbadora em alguns contextos históricos que em outros.

Provenientes de tempos muito antigos, os corpos não aparentam ser mais pessoas, de algum modo, familiares a nós. O corpo humano, dentro da arqueologia, o ser humano, tem sido sinônimo de ‘pessoa’, ‘indivíduo’, ‘sujeito’ e ‘self’, termos utilizados de forma intercambiável. Mas estes termos podem ser discutidos de forma adequada na arqueologia, em consonância mínima com os pressupostos do antropólogo e sociólogo francês Marcel Mauss e da antropóloga britânica Jean Sybil La Fontaine sobre as noções de pessoa e self e de pessoa e indivíduo.

Nesta primeira seção, as arqueologias interpretativas, pós-processuais, são entendidas como incapazes de se livrar do legado do humanismo, sob o argumento de que isso é violentar a humanidade e as pessoas do passado e do presente. Nesse aspecto, Julian Thomas trata das arqueologias humanistas – pós-processuais, do anti-humanismo e os corpos neolíticos. As partes corporais, segundo Chris Fowler, funcionam como indicadoras de personalidade e de materialidade, simultaneamente, durante o neolítico de Manx. As vestimentas são tratadas como detentoras de moralidades e as usadas pelos mortos na Europa medieval são objeto de estudo de Jos Bazelmans. Ainda, a estética corporal durante o século XIX na Grã-Bretanha é estudada por Sarah Tarlow.

O alarido em torno do corpo nas várias disciplinas do conhecimento refere-se à ideia moderna de corpo como projeto dentro dos estudos sociológicos – o corpo instrumentalizado; do desenvolvimento significativos na filosofia, humanidades e ciência sociais da crítica feminista e dos estudos de gênero – a historicização do corpo, o corpo sexual; do interesse pelo corpo dentro da significância dos aspectos experimentais do passado humano, como a alimentação observada como forma de subsistência dentro de um dado contexto ecológico, como a significância social e política do consumo de alimentos.

Na arqueologia, o estudo do corpo humano se dá mediante a) a antropologia física – situada dentro do guarda-chuva paradigmático da atual bioarqueologia – voltada desde o séc. XIX ao estudo da evolução humana, das categorizações dos “tipos raciais humanos”, aspectos demográficos, de “saúde”, modificações corporais ao longo da pré-história e os estudos em paleopatologia, incluindo traumas, violência e desnutrição; b) representações das formas visuais humanas: nesse sentido, o primeiro texto, mais simples, sobre o corpo humano na arqueologia deriva de uma conferência sobre gênero e arqueologia – Reading the body: Representations and Remians in the Archaeological Record, de Rautman (2000) – , com influência do feminismo e das representações e remanescentes de corpos humanos; c) a fenomenologia aplicada ao estudo do corpo – a arqueologia fenomenológica, arqueologia dos sentidos – com os estudos de experiências rituais em paisagens monumentais a partir de dispositivos corporais sensoriais e do estudo de aspectos integrativos da experiência humana, como a emoção, memória, identidade e experiências corporais particulares como beber, comer, dar a luz, fazer sexo, praticar violência e a guerra.

A segunda parte trata da experiência e corporeidade. O gesto é estudado na arqueologia como um meio de compreender o sentir através do corpo e isso é apresentado por Christine Morris e Alan Peatfield nos estudos sobre a Idade do Bronze em Creta. Ainda a arqueologia dos sentidos relaciona o passado com a história oral no estudo de Yannis Hamilakis. Os modos de comer e de ser no epipaleolítico de Natufian foram discutidos por Brian Boyd. Um estudo de John Robb sobre o tempo e a biografia traz em discussão a osteobiografia da vida útil – vida cotidiana – dos italianos neolíticos.

Na última seção do volume, os corpos são discutidos na e como cultura material. Objetos de cultura material em folhas de ouro da Idade do Ouro na Escandinávia, associados a um gênero específico, podem ser questionados, conforme Ing-Marie Danielsson. A cova de Oseberg, em Vestfold, um dos mais conhecidos casos da Escandinávia, cuja escavação resultou na recuperação de esqueletos femininos, posteriormente reinumados, foi apresentado e discutido por Elisabeth Arwill- Nordbladh. Mark Pluciennik relaciona arte, artefato e metáfora na análise de registros rupestres da Grotta Addaura II (10.000 a 12.000 anos atrás) e cenas da Grotta dela Cala dei Genovesi, em Levanzo. Trata de estética e representação de corpos humanos e não humanos e artefatos no epipaleolítico e neolítico do sul da Itália. Em Marking the body, marking the land, Paul Rainbird estuda similaridades e continuidades temporais nas tatuagens, pinturas nas cerâmicas e gravuras rupestres na Oceania, Pacífico.

Seus modos de interação entre as comunidades insulares incluíam as tatuagens corporais e tatuagens nas rochas e nos artefatos. As futuras agendas sobre o corpo incluem a ideia da sua incorporação à arqueologia, pela historicização do corpo: este passou por mudanças e reconfigurações ao longo da história humana, incluindo a formulação de certos códigos e normas de comportamentos e performances corporais, nos espaços públicos e privados, certos hábitos de alimentação, as várias genealogias da formação do corpo e sua instrumentalização.

As fenomenologias do corpo na arqueologia são desenvolvidas pelas noções de Heidegger de habitação e de ser no mundo, da Fenomenologia da Percepção de Merleau-Ponty ou o desenvolvimento no âmbito da geografia: incluem-se, também as categorias culturalmente influenciadas ou determinadas pelos espaços perceptivo, existencial, arquitetônico e cognitivo dos seres humanos. O biopoder e as biopolíticas do corpo, cujos conceitos são provenientes de Foucault, são importantes para o desenvolvimento das arqueologias da corporeidade. Práticas e processos concretos e materiais atuam sobre o corpo humano: práticas biopolíticas, tecnologias e instituições instrumentalizam os movimentos, a forma de alimentação e a visão dos seres humanos, por meio de gastropolíticas, por exemplo. Também, o corpo fisiológico, como simbolismo e metáfora, pode ser usado para compreender as várias características do mundo natural e cultural: os corpos compreendidos como ‘cultura material’. Os corpos de pessoas vivas podem ser mercantilizados e objetivados em trabalho, materiais, arte, prazer sexual.

Corpos inteiros ou suas partes podem ser mais artefatos do que indivíduos, podem ser fetichizados, como os corpos preservados nos museus, relíquias de santos. Produtos corporais e suas partes podem ser segregados, tabu, usados em magias, trocados, consumidos ou empregados em tratamentos de beleza.

As ‘deformações’ corporais incluem aqui a deformação do crânio e dos pés, avulsões, tatuagens, escarificações: corpos como veículos de identidade e expressão. Os remanescentes humanos, conforme as crenças religiosas, podem ser extensivamente tratados e manipulados post-mortem. Nesse sentido, os corpos e os outros aspectos da personae podem sofrer mudanças nas suas biografias quanto ao poder e suas referências simbólicas. As figuras femininas paleolíticas e os registros rupestres são exemplos de como os corpos humanos ─ suas representações ─ tem sido claramente importantes referências em vários períodos e em várias sociedades.

Existiriam numerosas formas pelas quais os arqueólogos poderiam pensar sobre o passado através do corpo. Essas formas estão representadas pelas novas oportunidades de integração por meio de recentes desenvolvimentos teóricos sobre a corporalidade e a sua importância para as interpretações sobre o passado e os modos de vida. Sobre esse aspecto, o livro editado por Robert Schmidt e Barbara Voss, Archaeologies of Sexuality, em 2000, estabelece relação profícua com Thinking through the Body. Indica parâmetros que direcionam os estudos sobre sexo e sexualidade – e sua linguagem e conceitos – na produção do conhecimento arqueológico vinculado à solução de problemas científicos voltados ao corpo, em primeiro lugar.

Sergio Francisco Serafim Monteiro da Silva – Departamento de Arqueologia, UFPE. E-mail: sergioarqueologiaforense@gmail.com

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Assim caminhou a humanidade – NEVES et al (CA)

NEVES, Walter Alves; RANGEL JUNIOR, Miguel José; MURRIETA, Rui Sergio (Orgs.). Assim caminhou a humanidade. São Paulo: Palas Athena, 2015, 318 p. Resenha de: SILVA, Sergio Francisco Serafim Monteira da. Clio Arqueológica, Recife, v.34, n3, p.171-193, 2019.

Conforme os organizadores de Assim Caminhou a Humanidade, o Laboratório de Estudos Evolutivos Humanos do Instituto de Biociências da Universidade de São Paulo seria o único no Brasil, em 2015, capaz de sanar a carência de publicações em português mais atualizadas sobre o tema da evolução humana. O ensino da Biologia, Antropologia, Arqueologia no nível da graduação e a divulgação científica ao grande público, seriam o foco desta publicação. A partir de um curso de pós-graduação e da disponibilidade de réplicas de hominínios da coleção Thomas Van der Lann, foi proposto o plano deste livro, onde os alunos também protagonizaram seus subtemas.

Entre algumas das publicações internacionais inacessíveis a esse ‘grande público’ brasileiro estariam, por exemplo, o The Human Lineage, de Cartmill e Smith; o The Human Career, de Richard Klein; o Handbook of Human Symbolic Evolution, de Lock e Peters; Human Evolution, Trails from the Past, de Cela- Conde e Ayala; The Human Evolution Source Book, de Ciochon e Fleagle; ou o Handbook of Paleoanthropology, em três volumes, editados por Winfried Henke e Ian Tattersall, por exemplo2. Outras, assemelhadas ao Assim caminhou a humanidade, em português, estão o Como nos tornámos humanos, de Eugénia Cunha e duas traduções, Evolução Humana, de Roger Lewin e O despertar da cultura: a polêmica teoria sobre a origem da criatividade humana, de Richard G.Klein e Blake Edgar3. Este último apresenta alguns rudimentos do The Human Career.

Sobre o mesmo tema, de uso para o ensino e a aprendizagem nas universidades e escolas nos EUA, está o Our Origins (Discovering Physical Anthropology), de Clark Spencer Larsen, do Departamento de Antropologia, da The Ohio State University e as três primeiras partes do Anthropology, de Willian A. Haviland, da University of Vermont. Também, de uso em sala de aula, destaca-se o livro Exploring Physical Anthropology, capítulos 1, 10 a 14, de Suzanne Walker- Pacheco, da Missouri State University4. Esta autora também utiliza réplicas de hominínios fósseis para ilustrar seu texto e as atividades propostas para os alunos. Nas livrarias menos acessíveis ao ‘grande público’, também disponibilizaram no Brasil, a custos módicos, o Evolution, the human story, livro ricamente ilustrado, de autoria de Alice Roberts5.

Retornando ao nosso livro em português sobre evolução humana, Assim caminhou a humanidade, vamos localizar algumas autodescrições, feitas na apresentação e na introdução. Reinaldo José Lopes, repórter e colunista da Folha de S. Paulo, acrescenta que este livro perfaz, provavelmente, o relato mais completo em língua portuguesa sobre o conhecimento que temos dos nossos parentes, também primatas e da nossa própria história como espécie. O livro trata da gênese dos primatas (incluindo aqui, a do homem anatomicamente moderno) e de forma sucinta e clara, foca nos métodos e formulações de hipóteses que caracterizam toda forma de ‘boa ciência’. Os ‘decentemente alfabetizados’ poderão ler e entender este livro. O passado remoto, para ser reconstruído, gera perguntas à ciência, que nem sempre são trivialmente respondidas, como a questão de como nos tornamos bípedes ou o que teria ocasionado a extinção dos neandertais. Reinaldo agradece os organizadores pelo lançamento do livro, com crítica a uma demora pelo seu lançamento e considera a importância do livro para o desenvolvimento e fundamentação mais adequados dos textos jornalísticos sobre evolução humana.

Na Introdução, os organizadores adiantam que o livro é uma forma de divulgar em linguagem acessível, aquilo que há demais importante e atual sobre o estudo da evolução humana, área do conhecimento científico que progride rapidamente e na qual as informações podem se tornar ultrapassadas em questão de meses. Assim, no final de cada capítulo, propõem um tema para discussão em um quadro que denominaram ‘O que há de novo no front’, para minimizar a velocidade e o atraso que caracterizam o estudo da evolução humana. Talvez esse atraso possa ser minimizado pelo poder da ditadura Genômica (comparativa) e os avanços inquestionáveis da Bioinformática (e possivelmente da Proteômica) aplicada à própria Genômica. Observar a morfologia (plausível no contexto da arqueologia, paleoantropologia, em fósseis e fragmentos de ossos e dentes) ou observar o genoma inteiro (plausíveis no contexto da genética médica, em contextos clínicos ou hígidos): compreender o todo da evolução.

Assim, os livros citados nos primeiros parágrafos desta resenha já estariam, de certo modo, ‘atrasados’ em relação ao desenvolvimento líquido da evolução humana (teoria evolutiva moderna). Esse ato retroativo, o voltar ao passado e compreender o avanço do presente e o futuro é absolutamente líquido. As novidades estariam – pois já não estão mais, obviamente – nos artigos científicos publicados entre 2013 e 2014 na área da evolução humana. A atualização é uma prerrogativa do livro e uma forma de presumivelmente mantê-la está na previsibilidade de novas hipóteses a serem verificadas no futuro. Nessa linha, os conceitos sobre espécie, especiação e gênero não são imutáveis e estão sempre em processo de construção. Desse modo, o livro está segmentado em sete capítulos relacionáveis ou sinergeticamente vinculados, sempre contendo um campo para temas novos e sugestões para leitura.

O primeiro capítulo, Nós primatas, apresenta as características físicas gerais dos primatas, sua classificação (anatômica e molecular) e diversidade; o campo especial do estudo da primatologia; o comportamento social dos primatas em sociedades complexas, variáveis e estáveis (sociobiologia dos primatas); a competição e a cooperação entre os primatas, em especial em relação as hierarquias de sexo; elementos de uma ‘cultura’ primata associados à vocalização e uso de ferramentas; os riscos de extinção dos primatas e formas de preservação de suas populações no nível global. O ‘nós’ inclui, obviamente, o Homo sapiens.

A história evolutiva dos primatas é desenvolvida no segundo capítulo. Os aspectos biológicos estão amalgamados aos estratos, à geomorfologia, ao tempo e à mudança. É traçado um panorama do cenário para a origem dos primatas, com registros paleontológicos de cerca de 56 milhões de anos atrás, no Eoceno. Neste capítulo, um texto selecionado trata da cladística para a classificação dos seres vivos e outro sobre anatomia do esqueleto. Na sequência, são discutidas a deriva continental e as mudanças climáticas; a causa do aparecimento dos primatas; os primatas ‘arcaicos’; os euprimatas do Eoceno; o surgimento dos primeiros antropoides; a origem e diversidade das famílias dos antropoides na África, Europa e América; as questões ambientais relacionadas a evolução dos antropoides; questões sobre a origem dos proconsulídeos (o conhecido Proconsul africanus, por exemplo); os hominoides (o Dryopithecus e o Sivapithecus), a origem dos mais antigos tarsiiformes e os paleoambientes dos primeiros dos primeiros hominoides.

Uma descrição sintética das principais pesquisas e descobertas dos fósseis de australopitecíneos, pré-australopitecíneos e os primeiros Homo desenvolve-se em Primeiros Bípedes, o terceiro capítulo. O surgimento da nodopedalia e da bipedia como características dos hominínios; o aparato mastigatório dos hominínios; a diversidade dos pré-australopitecíneos. Neste capítulo são apresentadas as características de três gêneros de pré-australopitecíneos que viveram entre 7 e 4,4 milhões de anos atrás (Sahelanthropous, Orrorin e Ardipithecus). Um texto incluso apresenta as técnicas de datação dos registros fósseis. O capítulo segue apresentando as origens, diversificação e morfologia dos australopitecíneos, incluindo os australopitecíneos gráceis entre 4,5 e 1,78 milhão de anos atrás (Australopithecus anamensis, A. afarensis, A. africanus, A. garhi, Kenyanthropus platyops e A. sediba) e australopitecíneos robustos, entre 2,7 e 1 milhão de anos atrás (Paranthropus aethiopicus, P. boisei e P. robustus). Quanto a diversidade  dos primeiros primatas bípedes, consideram-se 4 espécies de préaustralopitecíneos e 10 de australopitecíneos, aí incluindo o A. bahrelghazali e a coabitação entre eles durante o Mioceno, Plioceno e Pleistoceno, entre 7 e 1 milhão de anos atrás. Hipóteses menos controversas indicam a relação de especiação entre A. afarensis, A. africanus, A. sediba e Homo sp. São apresentadas questões sobre o Orrorin e a sua relação ancestral com humanos e chimpanzés, a evolução da dieta dos australopitecíneos e a bipedia diversificada entre os autralopitecíneos a partir de análise de ossos dos membros inferiores de um A. sediba.

No capítulo IV é introduzida a questão da origem e dispersão do gênero Homo. A nomeação do ‘homem habilidoso’, o Homo habilis é dada por Louis Leakey aos registros fósseis anatomicamente semelhantes aos australopitecíneos e associados a artefatos líticos encontrados em Olduvai, na África, sendo este continente considerado o centro de dispersão do gênero Homo. O H. habilis estaria situado em cerca de 2,4 a 1,4 milhão de anos e produziu artefatos líticos associados a indústria lítica Olduvaiense, representados por talhadores do tipo ‘choppers’ e lascas simples. Entre eles destacam-se no capítulo o fóssil KMN-ER 1813 (H.habilis) e o KMN-ER 1470 (H. rudolfensis ou Kenyanthropus rudolfensis). Sobre o Homo erectus, foi citado o fóssil KMN-ER 3733, de 1,8 milhão de anos, encontrado no Lago Turkana, Quênia, África e o D2700 (variação de H. erectus ou de H. habilis), encontrado a 1,8 milhão de anos em Dmanisi, na República da Geórgia, no Cáucaso fora da África. A questão do H. habilis ou formas transicionais ou erectíneas fora da África, com cérebros menores e industrias líticas reduzidas é consolidada.

No mesmo capítulo, o Homo erectus aparece no registro fóssil na África há 1,6 milhão de anos e se expande até a Indonésia por volta de 27 a 70 mil anos. O fóssil LB1, crânio de Homo floresiensis, espécie com nanismo insular, teria habitado a Ilha de Flores entre 74 e 17 mil anos. Sua indústria lítica moderna contrasta com a pequena capacidade craniana de 385 a 417cm3. Este constituiria mais uma variação do Homo, para além do H. habilis e do H. erectus (ou uma de suas variações). Na China o H. erectus foi datado em 700 mil anos. Possuía estatura inferior a 1,60m. Na Europa, o H. erectus aparece entre 1,2 milhão de anos (Atapuerca, Espanha) a 450 mil anos (Ceprano, Itália).

O capítulo possui uma seção destinada à descrição da morfologia do H. erectus (incluindo o caso do ‘garoto de Turkana’, o WT-15000, COM 1,6 milhão de anos e com idade biológica estimada entre 8 e 12 anos e com estatura de 1,70m). Produziam artefatos Olduvaienses e Acheulenses (Modo 2, retocados dos dois lados). As marcas de cortes em ossos indicam descarnamento de carniças e de carcaças de animais também recém-abatidos pelo H. erectus. Entre 1,5 e 1 milhão de anos, o H. erectus utilizou o fogo. Neste capítulo é feita uma introdução ao estudo do Homo heidelbergensis , cujo holótipo teria sido encontrado nos depósitos fluviais do rio Neckar, a cerca de 10km a sudoeste de Heidelberg, na Alemanha, em 1907 e datado entre cerca de 569 a 609 mil anos. A este novo Homo, seguiram-se os de Petralona e Arago (Europa), Bodo, Ndutu, Kabwe e Elandsfontein (África) e Kocabas, Hathnora , Dali e Maba (Ásia), todos com definição de espécie um tanto complexa. Produziram artefatos líticos de indústrias Acheulenses e Musterienses e abrigos de rochas e galhos por volta de 380 mil anos. No quadro referente ao algo novo no front, os autores do capítulo apresentam evidência favorável a presença do H. erectus em Dmanisi; o H. erectus é associado ao surgimento da indústria lítica Acheulense e ao uso controlado do fogo entre 790 mil (Israel) e 1 milhão de anos atrás (África do Sul).

O capítulo V trata do tema Os Neandertais. Esta espécie de Homo teria se originado, juntamente com os denisovanos, há cerca de 500 mil anos a partir da população de Homo heidelbergensis que habitava a região da Eurásia. Na África, a população de H. heidelbergensis originou há 200 mil anos o Homo sapiens. Esta espécie de homem anatomicamente moderno dispersou-se pela região de Israel há 120 mil anos e para os demais continentes por volta de 50 mil anos. O H. neanderthalensis na Europa foi substituído pelo sapiens em um período de 10 mil anos aproximadamente. Essa dinâmica de extinções e especiação é descrita neste capítulo. O holótipo do H. neanderthalensis é a calota craniana do Neandertal 1, descoberta na caverna de Feldhofer, vale do rio Neander, Alemanha, em 1856. O artigo faz referência a produção de cerca de 250 artigos sobre o Homo piltdownensis (classificado assim por Arthur Keith), um fóssil criado por volta de 1908 (fragmentos de neurocrânio humano, mandíbula de Pongo e dentes de um Pan fóssil) e cuja fraude foi descoberta em 1953. A encefalização nesse caso teria  ocorrido antes da mudança na dieta. A descoberta da fraude, do pseudofóssil, denota, segundo os autores, a autocorreção da ciência. Sobre os neandertais, ocuparam a Europa Ocidental, Oriente Médio, Rússia (Sibéria), sem, contudo, aparecerem no registro fóssil africano ou do sul da Ásia. Habitaram essas regiões entre as eras glacial e interglacial, no Pleistoceno Superior, entre 170 mil e 30 mil anos. Seus crânios são menos neotênicos que os do H. sapiens, com tórus supraorbitário característico, face projetada para a frente, abertura nasal ampla, capacidade craniana e volume craniano elevados, neurocrânio longo e baixo, dentes volumosos (taurodontia) e incisivos em forma de pá, occipital proeminente (occipital bun, ou coque occipital), ausência de queixo e espaço retromolar. Sua morfologia e volume corporal associava-se a adaptação a ambientes frios. Teriam deficiência no balanço corporal, denotada pelas características da cóclea no ouvido interno em corridas e ênfase no sistema visual, pelas dimensões orbitárias; antebraços e pernas mais curtos que os do H. sapiens; estaturas variando de 1,69m a 1,60m; tórax em forma de tonel; pelve larga. Essas características apontam adaptação a ambientes frios. Pesquisas com mtDNA de um H. neanderthalensis de 38 mil anos possibilitaram identificar um ancestral comum com o H. sapiens a cerca de 600 + 140 mil anos. Em pesquisas com DNA nuclear o gene FOXP2, relacionado à fala, está presente no neandertal e no sapiens. Em 2010, segundo pesquisadores do Instituto Max Planck, um novo sequenciamento de DNA de neandertal indicou compartilhamento de 99,84 por cento entre esta espécie e o H.sapiens. A origem do H. neanderthalensis estaria relacionada ao Homo antecessor, espécie derivada do Homo erectus na região mediterrânica. O capítulo salienta, para fins de síntese, considerar os H. neanderthalensis como uma variante do H. heidelbergensis na Europa e o H. sapiens uma variante do H. heidelbergensis na África. A árvore filogenética do gênero Homo torna-se complexa com a introdução dos denisovanos, geneticamente mais próximos do H.heidelbergensis.

Na árvore filogenética proposta no capítulo V indica que possivelmente em diferentes regiões da Eurásia, populações de H. sapiens, H. neanderthalensis, H.floresiensis, H. erectus, denisovanos teriam coexistido por um breve período de tempo, entre 20 mil e 30 mil anos, ou pouco mais. O capítulo trata da tecnologia lítica e domesticação do fogo entre as várias espécies. Estima que os neandertais, em relação ao comportamento, viviam em grupos pequenos, resultando em baixa diversidade genética. Vivendo em regiões de clima glacial, sua expectativa de vida não chegava aos 40 anos, possuíam deficiências nutricionais severas, traumas e injúrias constantes e que eram alvo de cuidados por longos períodos. Análises dos esqueletos e dentes dos neandertais indicaram que possuíam alto nível de atividade física e demandavam elevado consumo de calorias, com dieta onívora.

Deveriam organizar estratégias de subsistência (caça, pesca, coleta, cozimento dos alimentos, consumo, usos e processamento de plantas) e convivência complexas e cooperativas. O capítulo ilustra possibilidades para o desenvolvimento do pensamento simbólico entre os neandertais, pelo uso de pigmentos e conchas perfuradas. Entretanto, os autores do capítulo afirmam que existe dificuldade em aceitar a ideia de que os neandertais realizavam sepultamentos pela ‘ausência de artefatos claramente simbólicos’ no local da inumação. Trata-se de um problema, visto que a deposição mortuária de La Chapelle-aux-Saints possuía ossos de um mamífero em associação. Entretanto, a necessidade da presença de ‘artefatos claramente simbólicos’ para caracterizar deposições funerárias em qualquer população humana não é uma regra.

Ainda neste capítulo, de novo no front há a possibilidade de formas híbridas resultantes de intercruzamentos entre neandertais e sapiens; as expressões diferenciadas de mesmos genes em humanos modernos e neandertais; indicadores de possíveis intercruzamentos entre neandertais e H. sapiens arcaico.

No capítulo VI, Origem e dispersão dos humanos modernos, os autores retomam a história geral dos estudos da origem do ser humano e do pensamento simbólico e representações resultantes. Em formato linear e cronológico, o Histórico neste capítulo cita vários eventos relacionados ao estudo das origens do ser humano: antes do séc. XVIII, com viés religioso, com a criação das espécies por divindade sua explicação e repetição continuada por centenas de anos (e mesmo na história do presente): no séc. XIX, com a divulgação de ‘A Origem das Espécies’, de Charles Darwin, com a formulação da evolução das espécies e o mecanismo da seleção natural; o foco no registro fóssil, desde a primeira metade do séc. XIX, seguindo-se ao achado fortuito da calota do vale do rio Neander em 1856, holótipo do H. neanderthalensis; de remanescentes de H. sapiens (Cro-Magnon 1, 2 e 3) de Les Eyzies, na França, em 1868, de Chancelade, em 1880 e de Combe-Capelle, em 1909, na França; em toda a Europa o homem anatomicamente moderno estava presente por volta de 35 mil anos; em 1897 surge a caverna de Altamira, na Espanha e entre 1871 e 1901 as cavernas de Grimaldi, na Itália são escavadas; os sítios com artefatos líticos e em osso da República Checa, escavados entre 1881 e 1904; em Java foram localizados remanescentes de H.sapiens de 6 mil anos entre 1888 e 1890; em 1912, foram descobertas as cavernas de Les Trois Frères, em Ariège, com registros rupestres e artefatos líticos e em osso; surgem as importantes cavernas de Lascaux e Chauvet, na França, ambas com registros rupestres.

Este capítulo cita e associa o desenvolvimento do método arqueológico no início do século XX a Gordon Childe e Mortimer Wheeler e as novas direções técnicas nas pesquisas que se seguiram. A origem e dispersão do H. sapiens puderam ser estudadas a partir das descobertas de outros sítios que incluíram, entre outros, Singa, Sudão (1924); Skhul V, Israel (1932); Qafzeh 6, Israel (1933); Hofmeyer, na África do Sul (1952); Liujiang, China (1958); Omo I, Etiópia (1967); Kow Swamp, Austrália (1967); Laetoli, Tanzânia (1976); e Oase 2, na Romênia (2003).

São descritas as características anatômicas cranianas e ‘pós-cranianas’ do H.sapiens. A morfologia do nosso crânio e ‘pós-crânio’ pode ser caracterizada pela capacidade cefálica elevada (acima de 1300cc), neurocrânio alto, escama do occipital arredondada e sem tórus, dimorfismo sexual relativo, face ortognata ou mais retraída, presença de fossas caninas, presença de queixo, arco superciliar e  bordas supraorbitárias substituem o tórus supraorbitário, ausência de espaço retromolar, antebraço e pernas mais longos (em relação aos neandertais), abertura nasal anterior mais estreita que nos neandertais, quadril e tronco mais estreitos (em relação aos neandertais e H. erectus), entre outras. Associados a essa análise morfológica comparada, os estudos moleculares têm sido mais intensivos e modificam paradigmas antigos a cada semana. As inferências genéticas caracterizam os fósseis de uma forma que as análises morfológicas diretas dos fósseis (mesmo a morfometria geométrica comparada e a análise epigenética) não possibilitariam alcançar: seus resultados são mais contundentes.

A reconstrução das relações entre populações pré-históricas cada vez mais prescinde das análises de mtDNA e do cromossomo Y, usados para reconstituir longas linhagens de descendência (feminina). Arvores que expressem relações evolutivas entre populações podem ser construídas considerando-se a similaridade observada entre variantes novas existentes entre as populações, fixadas pela deriva genética, ou a mudança aleatória da frequência gênica em populações de diferentes tamanhos. Nesse sentido, o mtDNA e o cromossomo Y (sua contraparte masculina), são adequados para verificar a extensão da relação entre ancestralidade e descendência entre populações humanas que compartilham um único ancestral (‘Eva mitocondrial’). Tanto o mtDNA, quanto o cromossomo Y, indicam que o ser humano teve origem na África e depois se dispersou (pelos haplogrupos M e N e os seus haplogrupos diversificados, A, B, C, D e X, presentes nos grupos humanos americanos). As técnicas de extração do DNA em  ossos antigos consideram a abundância do mtDNA em relação ao DNA nuclear. É evidente que o controle ineficaz de agentes contaminantes por gerenciamentos laboratoriais deficientes prejudica e inviabiliza quaisquer análises biomoleculares.

Ainda, no penúltimo capítulo, as contribuições da arqueologia podem gerar explicações diferentes sobre um certo fenômeno evolutivo e de mudança comportamental. A origem do H. sapiens pode ser explicada mediante as hipóteses da origem multirregional ou trellis model (anos 1970); pela saída da África ou Out of África e pela hibridização. Esses modelos são explicados e consideradas as suas limitações e alcances explanatórios para a nossa origem.

Todos levam em consideração a origem africana do H. erectus, sua dispersão pelo Velho Mundo a partir de 1,8 milhão de anos. As variações nos modelos surgem em relação à forma de evolução da espécie humana moderna: no primeiro caso, do trellis model, os humanos evoluíram em um continuum a partir de um ancestral (H. erectus), ocupando os 4 continentes; no Out of África, os humanos originaram-se de populações africanas de H. heidelbergensis e foram substituindo as outras espécies de hominínios existentes; no terceiro modelo, os humanos originaram-se do H. heidelbergensis, na África, com expansão para os 4 continentes caracterizada por trocas gênicas com as outras espécies de hominínios existentes.

Sobre a antiguidade do H. sapiens, o capítulo cita os achados do sítio Omo, na Etiópia, com remanescentes de 200 mil anos; no sítio Herto, também na Etiópia,   com 154 a 160 mil anos; nos sítios Qafzeh e Skhul, em Israel, com fósseis datados entre 130 mil e 90 mil anos, já em área de transição entre África, Ásia e Europa.

Assim, os humanos saíram da África pelo Oriente Médio, antes de chegar à Europa e Ásia. Outros registros fósseis indicam a presença na Europa de neandertais entre 150 mil e 30 mil anos e de H. sapiens após 40 mil anos. Na Romênia, República Checa e na França (Cro-Magnon), as datações para o H. sapiens alcançam 35 mil, 31 mil e 27 mil anos, respectivamente. Na China, em Zhoukoudien, Tianyuan e Liujiang, as datações indicam 30 mil, 40 mil e 68 mil anos para a presença do H. sapiens moderno. Na Indonésia, em Niah, foram datados entre 39 mil e 45 mil anos. Em Laetoli, Tanzânia, África, o crânio Ngaloba LH 18 foi datado em 120 mil anos. Um fóssil de H. sapiens encontrado em Singa, Sudão, apresentou idade entre 120 mil e 150 mil anos. Na perspectiva genética, com o emprego de métodos moleculares (análise de mtDNA, n DNA e cromossomo Y) o H. sapiens originou-se na África entre 220 mil e 120 mil anos. Então, o H. sapiens teria surgido a cerca de 200 mil anos, no nordeste da África.

As rotas de dispersão do H. sapiens perfazem um dos temas tratados neste capítulo. São sugeridas algumas das rotas de dispersão humana a partir da África, que levam em consideração a presença de registros fósseis humanos nos continentes e as suas relações, ‘movimentos migratórios’, ‘ondas migratórias’, ‘recolonizações’, ‘contatos’, ‘dispersões’, ‘hipóteses de colonização’. São consideradas as datações, morfologia comparada do registro fóssil e dados de modelos genéticos. O continente americano teria sido o último a ser ‘colonizado’ Entre 30 mil e 13 mil anos, o nível do mar possibilitava a passagem de hominínios entre o Alasca e a Sibéria e nesse caso, remanescentes da sua presença foram datados entre 15 mil e 13 mil anos.

Outro aspecto tratado no capítulo VI é a ‘explosão criativa do Paleolítico Superior’, caracterizado pela presença de vestígios representativos das formas de pensamentos simbólicos ou expressões simbólicas do pensamento, sob a forma de objetos de cultura material (e imaterial). Nesse subtema, a questão está na ‘evolução do comportamento simbólico’, uma ‘especificidade humana’ do H.sapiens. Essa ‘revolução’ teria ocorrido no Paleolítico Superior, por volta de 50 mil anos. Para os autores do capítulo, a palavra ‘cultura’ somente poderia ser empregada ‘em todo o seu potencial’ a partir de 50 mil anos. Existiria um ‘antes’ e um ‘depois’ de uma ‘explosão criativa’, que teria gerado inúmeros registros arqueológicos da sua ocorrência e que ‘evolui’ até os dias atuais. A identificação de uma mudança cognitiva há 50 mil anos caracteriza o modelo explicativo (especulativo) de Richard Klein, o modelo neuronal. Existiriam ‘genes’ ligados ao ‘desenvolvimento cerebral’ e a sua ‘evolução abrupta’ teria levado a essa ‘revolução cultural’. Esta perspectiva merece uma refinada revisão que não cabe nesta resenha. A palavra cultura (e não o conceito de cultura) é aclamado, sem aspas e sem restrições. Antes – de 50 mil anos – deve ser usada como ‘cultura’, com ‘restrições’.

Um dos pontos apresentados em defesa de uma ‘verdadeira cultura humana’ está na variabilidade ou substituição da matéria prima (lítica) escolhida para a construção dos artefatos; ferramentas cada vez ‘melhor trabalhadas’; substituição das lascas por lâminas; uso do fogo para queima controlada da argila, outra matéria prima da revolução cultural; construção de ferramentas compostas por mais de uma matéria prima; pontas ósseas elaboradas com propósitos específicos (abater, sangrar, agarrar, transpassar, amortecer); propulsores; uso de recursos marinhos para alimentação e adorno; construção de embarcações e instrumentos próprios para a pesca; uso de pigmentos e elaboração de tintas (a partir do momento no qual os neandertais podem ter feito uso de pigmentos, esta prática não está mais associada ao comportamento simbólico complexo do H. sapiens, exclusivamente); as formas de ‘arte’ expressas pelas representações antropomorfas tridimensionais e pelos registros rupestres de cenas diversificadas da vida cotidiana e dos outros animais e objetos. ‘Arte’ significa a demonstração de algum ‘grau de simbolismo’, com ‘complexidade significativamente maior’. As pinturas rupestres ‘bem acabadas’, esculturas que sugerem ‘xamanismo’ e as ‘pequenas esculturas simbolizando a figura feminina com traços de fertilidade exagerados’ (vênus de Brasseimpouy, de Willendorf I, de Lespugne), as figuras de animais esculpidas ou gravadas em osso e marfim (cabeça de cavalo de Mas de A’ zil, hiena de Madeleine-Dordogne e um mamute de Madeleine-Dordogne) e e os primeiros registros de ‘atividade religiosa’.

Os sepultamentos humanos são um componente social importante da revolução criativa pós 50 mil anos. Mesmo não sendo exclusivos desse período, somente nele é que passaram a ocorrer em grande número e aumentar sua incidência no registro arqueológico. Em Cro-Magnon ocorrem nos sepultamentos, conchas e dentes perfurados, com ocre abundante. Os sepultamentos foram denominados pelos autores de ‘sepultamentos ritualísticos’, numericamente expressivos no Paleolítico Superior. Outra característica da ‘revolução’ (ou ‘mutação’, no sentido genético) estaria no aumento da complexificação da organização social. Recursos ambientais escassos implicavam em grupos sociais pequenos, com menos de 30 pessoas. Recursos abundantes, grupos sociais expandidos a mais de 200 pessoas.

Instituem-se áreas específicas nos assentamentos para a elaboração de certos artefatos e práticas. O capítulo considera a ‘explosão cultural’ do Paleolítico Superior como ‘avassaladora’ em relação as suas evidências no registro arqueológico. Distinguem-se comportamento moderno de comportamento não-moderno, mediante a explicação do modelo neuronal de Klein. Entretanto, objeções à cronologia fixa dos 50 mil anos existem. Na África do Sul, os sítios de Blombos e de Pinnacle Point apresentaram conchas perfuradas, com ocre, artefatos em osso, uso controlado do fogo para a construção de objetos e caça especializada de moluscos entre 76 mil anos e 164 mil anos. Portanto, 50 mil seria pouco para a ‘explosão criativa’. Um modelo não-neural associa a origem da expressão simbólica ao surgimento gradativo e cumulativo dos comportamentos simbólicos  no período de aproximadamente 150 mil anos. Para justificar essa hipótese, considerou-se a presença de oferendas e adornos em sepultamentos e uso de pigmentos encontrados em Qafzeh, Israel, com 100 mil anos, como sinônimos de comportamento simbólico complexo. A acumulação lenta de hábitos complexos pode estar relacionada a concentração de pessoas em grandes assentamentos e sua relação com outros assentamentos, propiciando o comportamento simbólico. O comportamento simbólico complexo depende, então, de uma condição demográfica favorável. Poderia existir sempre, dentro do H. sapiens, entretanto, nem sempre em condições de ser impulsionado. Funciona como uma hélice do DNA ou um cromossomo Y: seria biocultural, sociobiologicamente determinado.

Sim, a ‘evolução da capacidade cultural do ser humano é um dos temas mais intrigantes do estudo da história do H. sapiens’ e pode ser ‘datada’ com instrumentos da arqueologia, paleoantropologia, da genética e da linguística, dentro de um ‘arcabouço filogenético’. Pronto: 170 mil anos. Somente depois a quantidade de ‘cultura’ aumentaria.

Finalmente, no capítulo VII, o Neolítico: domesticação e origem da complexidade social, acredita-se que somente as novas descobertas arqueológicas e paleoantropológicas poderão ser capazes de alimentar o amplo e dinâmico debate sobre a evolução humana. Trata do homem ‘herói’, já morfologicamente moderno e capacitado culturalmente. Os modos diversos e as cronologias sobre a manipulação e domesticação de plantas, animais e a criação de novos materiais a partir do processamento da matéria prima pelo calor interessam. O manejo dos  ciclos reprodutivos de plantas e animais deve satisfazer as necessidades do novo humano moderno. As privações anteriores a 170 mil ou a 50 mil anos são suplantadas pelo aparecimento da ‘complexidade social’. Entre as feições principais do Neolítico estão a domesticação de plantas e animais e o surgimento de vilas e cidades. A emergência da complexidade implica em desdobramentos sociopolíticos, culturais e ecológicos. A narrativa apresentada, segundo os autores deste capítulo, restringe-se a domesticação e a complexidade social.

Domesticação refere-se a mudanças genéticas e fenotípicas, ao manejo humano, a ação humana. Distinguem-se a não-domesticação, a pré-domesticação e a domesticação propriamente dita. Pode ser considerada como processo evolutivo, com contingências biológicas e ambientais seletivas que transformam uma população em um momento da sua história evolutiva. Assim iniciam-se os pressupostos ou aspectos elementares da domesticação neste capítulo. A complexidade social é tratada a partir da possibilidade de reuso condicional do discurso de Elman R. Service (a sequência bando-tribo-chefias-estados), de Gary M. Feinman, com a presença de elites gerenciadoras da sociedade, em estruturas hierárquicas estáveis que funcione como um nexo organizacional e estruturante do coletivo. Nesse sentido, sociedades caçadoras-coletoras, sem clãs, não seriam complexas, mas igualitárias, com tarefas generalistas, sem hierarquização social.

A complexificação (vertical e a horizontal) está associada a compartimentação, especialização, diferenciações funcionais, hierarquização dentro da estrutura social. O capítulo ainda trata da chamada “Revolução Neolítica” no âmbito do  surgimento da agricultura, considerando e descrevendo as características de zonas específicas (Crescente Fértil, Egito, Bacias dos rios Yangtzé e Amarelo, Planalto na Nova Guiné, África Subsaariana, Amazônia, Norte da América do Sul, Mesoamérica e Leste dos Estados Unidos). Os debates apresentados no capítulo referem-se ao porque do aparecimento da Revolução Neolítica, relacionando-o a teoria da sociedade afluente original, do antropólogo Marshall D. Sahlins, da Uinversidade de Chicago.

Nos primórdios da agricultura, a caça e a coleta também deveriam coexistir, antes do processo de aumento crescente da produção de alimentos por muitas sociedades humanas. As primeiras domesticações teriam se originado em ambientes plenos em recursos da natureza e não em ambientes estressantes, bem mais tardios, representados pelo sedentarismo crescente, surgimento de epidemias nos períodos mais recentes, associadas ao convívio com os animais domesticados.

Os autores vislumbram, segundo o arqueólogo Brian D. Hayden, a possibilidade da projeção de informações etnográficas nos contextos pré-históricos para a compreensão das reuniões entre grupos humanos para a realização de banquetes (a partir de 50 mil anos), tocas, distribuições ou mesmo a destruição de alimentos e bens relacionados a posições de prestígio social. Alcançava-se prestígio entre os líderes locais e estímulo à produção e acúmulo de excedentes. Pelo menos, entre 10 mil e 2 mil anos, teria ocorrido um rompimento, justaposição ou sobreposição do modo de vida nômade dos caçadores-coletores ao das populações agricultoras.

A alta concentração demográfica associada a domesticação de plantas e animais  passa a caracterizar a ‘complexidade social’ em várias regiões do planeta. Entre 9.500 anos e 5.000 anos, mudanças climáticas teriam favorecido a domesticação de plantas e de animais. Neste contexto estariam Jericó e ÇatalHoyuk. O livro é, minimamente, imprescindível nas escolas e universidades brasileiras.

Notas

2 CARTMILL, Matt; SMITH, Fred H. (Eds.) The Human Lineage.New Jersey: Wiley-Blackwell, 2009; KLEIN, Richard G. The Human Career. Human Biological and Cultural Origins. Chicago: The University of Chicago, 2009; CELA-CONDE, Camilo J.; AYALA, Francisco J. Human Evolution. Trails from the Past.

Oxford: Oxford University Press, 2010; LOCK, Andrew; PETERS, Charles R. (Eds.) Handbook of Human Symbolic Evolution. Oxford: Blackwell, 1999; HENKE, Winfried; CIOCHON, Russell L.; FLEAGLE, John G. (Eds.) The Human Evolution Source Book. 2ed.New Jersey: Pearson, 2006; TATTERSALL, Ian (Eds.) Handbook of Paleoanthropology. New York: Springer, 2007, 3 vols.

3 CUNHA, Eugénia. Como nos tornámos humanos. Coimbra: Imprensa da Universidade de Coimbra, 2010; LEWIN, Roger. Evolução Humana. Tradução de Danusa Munford. São Paulo: Atheneu, 1999; KLEIN, Richard G.; EDGAR, Blake. O despertar da cultura. A polêmica teoria sobre a origem da criatividade humana. Tradução de Ana Lúcia Vieira de Andrade. Rio de Janeiro: Zahar Editor, 2005.

4 LARSEN, Clark Spencer. Our Origins. Discovering Physical Anthropology. New York: W.W.Norton & Company, 2008; HAVILAND, Willian A. Anthropology. 7 ed. New York: Harcourt Brace Colege Publishers, partes I a III, 1994; WALKER-PACHECO, Suzanne E. Exploring Physical Anthropology. 2 ed. Englewwood: Morton Publishing Company, 2010.

5 ROBERTS, Alice.Evolution. The human story. New York: DK Dorling Kindersley, 2011.

Sergio Francisco Serafim Monteiro da SilvaDepartamento de Arqueologia, UFPE. E-mail: sergioarqueologiaforense@gmail.com

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[MLPDB]

Cultura, politecnia e imagem – ALBUQUERQUE et al (TES)

ALBURQUERQUE, Gregorio G. de; VELASQUES, Muza C. C; BATISTELLA, Renata Reis C. Cultura, politecnia e imagem. Rio de Janeiro: EPSJV, 2017. 318 pp. Resenha de: GOMES, Luiz Augusto de Oliveira. A materialidade da cultura: uma nova forma de ler o mundo. Revista Trabalho, Educação e Saúde, v.17, n.2, Rio de Janeiro,  2019.

O livro Cultura, politecnia e imagem,organizado por Gregorio Galvão de Albuquerque, Muza Clara Chaves Velasques e Renata Reis C. Batistella, publicado pela Escola Politécnica de Saúde Joaquim Venâncio/Fundação Oswaldo Cruz, apresenta um panorama ampliado do conceito de cultura a partir de três eixos de análise que se complementam: (1) Cultura, educação, trabalho e saúde; (2) Cultura, educação e imagem; e, (3) Cultura e cinema. Os 20 autores que assinam os 15 artigos do livro apresentam importantes contribuições para compreender a materialidade da cultura nos tempos atuais.

No eixo “Cultura, educação, trabalho e saúde”, ao debater cultura, os autores se fundamentam especialmente no materialismo histórico dialético para refletir sobre o conceito ampliado do termo. É interessante observar a defesa de uma concepção de cultura imbricada dialeticamente com todas as instâncias dos processos de produção da vida social, refutando a tradição idealista que busca na cultura algo puro e apartado do “reino dos conflitos e contradições” (p. 25). Além da crítica ao idealismo, é crucial destacar as reflexões acerca das obras de Eduard Palmer Thompson e Raymond Willians, pensadores da chamada nova esquerda britânica, para desconstruir a leitura de um marxismo dogmático e fundado no reducionismo econômico, que hierarquiza base/superestrutura e plasma a cultura no plano da ‘superestrutura’, desvinculada das relações sociais de produção (infraestrutura). Quanto às relações dialéticas entre estrutura e superestrutura, assim como Thompson (1979, p. 315) podemos dizer que “o que há são duas coisas que constituem as duas faces de uma mesma moeda”. Ao ter em conta os nexos entre economia e cultura, podemos perceber que a “dimensão cultural das sociedades são espaços dinâmicos permeados por conflitos de interesses” (p. 88), espaços onde estão presentes tanto o consenso quanto disputas por uma nova hegemonia. Essa constatação vai ao encontro das palavras de Thompson (1981, p. 190) de que “toda luta de classes é ao mesmo tempo uma luta acerca de valores”, valores esses que constituem a cultura, cuja base material deve ser investigada e considerada na análise do movimento do real.

É um desafio compreender o conceito de cultura não apenas como campo de consenso. Como nos informa o eixo “Cultura, educação, trabalho e saúde”, a cultura pode ser entendida como resultado das ações dos homens e mulheres sobre o mundo. Em última instância, “ela se torna o próprio ambiente do ser humano no qual ele é formado, apropriando-se de valores, crenças, objetos, conhecimentos” (p. 99).

A obra de Clifford Geertz, trabalhada em um dos artigos do livro, também contribui para o debate sobre cultura, principalmente por abordar os modos de vida e discursos dos grupos vulneráveis ou excluídos. A noção de comportamento humano de Geertz é uma ótima ponte para aproximar a antropologia da discussão a respeito da compreensão do processo saúde-doença. A autora do artigo afirma que a contribuição de Geertz e a sua antropologia “é muito favorável para a inclusão do ponto de vista dos pacientes e usuários dos serviços na análise das questões de saúde, principalmente no atual contexto, no qual o discurso médico é dominante” (p. 114).

No segundo eixo, intitulado “Cultura, educação e imagem”, os autores tratam da construção de conhecimento por meio das imagens. Esse eixo, em especial, nos favorece a compreensão das imagens como mediação em espaços formativos, sejam eles institucional (como a escola) ou qualquer outro espaço de educação dos sujeitos coletivos. Para isso, os autores buscam principalmente nas experiências em sala de aula mostrar como, por intermédio da cultura (em especial, da imagem), é possível outra leitura do mundo.

Com isso, concordamos com Kosik (1976) quando entende que compreender a vida para além da sociedade fetichizada − que toma a coisas no seu isolamento, adota a essência pelo fenômeno, a mediação pelo imediatismo−, é um exercício de apreensão da totalidade do cotidiano. Por isso, tendo em conta a pseudoconcreticidade com que o mundo se apresenta, os autores indicam que na sociedade capitalista, onde “o urbano passa a ser uma sucessão de imagens e sensações produzidas e reproduzidas pelos indivíduos que criam uma condição fragmentada da vida moderna” (p. 88), crianças, jovens e adultos buscam nas imagens divulgadas nas mídias (televisão e redes sociais) a construção de si mesmos e do mundo.

Na lógica do capital, a imagem exerce um papel importante na manutenção da hegemonia, impondo valores e transferindo os desejos da burguesia para a classe trabalhadora. Como constata um dos artigos, a “dissolução da forma burguesa mantém-se no contínuo da passividade dos sujeitos sociais, arraigando assim uma violência subjetiva terrorista, como reconhecer e alterar este mundo […] a colonização estética dos sentidos é perversa” (p. 160).

Sabemos que a educação é apropriada pelo capitalismo como formadora de consenso: “forma-mercadoria e forma estatal como princípio de organização da vida social, impregnando a subjetividade humana de práticas autorrepressivas no que diz respeito aos seus impulsos de felicidade e liberdade” (p. 170). A leitura do eixo “Cultura, educação e imagem” reforça que o “viés questionador, transformador e revolucionário da reflexão e da produção cultural podem possibilitar uma nova forma de ler do mundo” (p. 143). Os artigos nos ajudam a compreender que a imagem é uma potente ferramenta, constituindo-se como mediação tanto revolucionária quanto para manter o status quoda classe econômica e culturalmente dominante.

Por fim, no último eixo, “Cultura e cinema”, os autores nos convidam a conhecer a discussão acerca da cultura e da imagem com base em consistentes formulações teóricas que envolvem a produção do cinema e os seus nexos com as práticas escolares. Neste eixo, podemos destacar que é de grande importância a crítica direcionada às produções acadêmicas que corroboram para que a “análise de filmes seja percebida ainda como uma forma acessória de se atingir uma compreensão sobre a realidade social” (p. 231), ou seja, esse tipo de análise trata a produção do cinema como uma mera fonte de registro e que para compor uma análise da sociedade necessitam de outros tipos de fontes.

Em seus quatro artigos, o eixo “Cultura e cinema” procura demonstrar como a produção fílmica é uma fonte histórica de grande relevância para analisar a sociedade a partir de uma “concepção estético-política” (p. 232). Busca na interpretação do filme “Terra em Transe”, do diretor Glauber Rocha, elementos importantes para a leitura dos acontecimentos do golpe empresarial-militar de 1964 e as variadas interpretações do seu sentido nos dias atuais. O filme é “uma síntese devastadora do processo de luta de classes no Brasil e na América Latina dos anos 1960 como núcleo duro permeando todas as relações sociais reais, demole todos os discursos de legitimação dos projetos colonizadores” (p. 254). A produção em questão nos ajuda a compreender a potência do cinema na captação do real e de como a organização formal e estética em imagem e som nos auxilia na percepção das disputas de classe ocorridas no período.

A concepção de romper com um olhar naturalizado sobre a sociedade de classes é um dos intuitos das produções fílmicas alternativas, em especial na conturbada América Latina do século XX. Assim, o Nuevo Cine Latinoamericanomarcou o cinema latino-americano, buscando em produções militantes, conscientizar trabalhadores e trabalhadoras a sair das suas ‘zonas de conforto’. Essa concepção de cinema buscou possibilitar, como nos indica um dos artigos, “uma nova leitura do mundo, e uma nova forma de pensar a nossa realidade, características fundamentais para a transformação social” (p. 287).

Assim como os longas-metragens, os documentários também contribuem para narrar os conflitos de classe. Como sinaliza uma das autoras, o documentário tem o poder de relacionar a antropologia, a arte visual e a produção cinematográfica para contar uma história. Com isso, os documentários sustentam o “mito de origem de falarem a verdade” (p. 258). Todavia, o eixo nos leva a refletir: Qual verdade? Verdade para quem? O livro nos convida a encarar o documentário como um gênero de grande importância para a pesquisa social.

O rico debate teórico com base na materialidade da cultura alicerçada nas pesquisas dos autores, seja em sala de aula ou na análise de imagens e filmes, ajuda-nos a entender a profundidade do conceito de cultura e a sua potência como agente da transformação social. O livro nos elucida quanto à necessidade de que a classe trabalhadora se aproprie e interprete sua própria cultura, descolonizando-se da hegemonia cultural da burguesia, para assim buscar a sua emancipação plena.

O livro Cultura, politecnia e imagemé um prato cheio para quem busca superar a concepção idealista de cultura, compreendendo-a na sua totalidade, em diversos espaços-tempos históricos, tendo em conta as relações dialéticas entre economia, cultura e outras determinações sociais, e em especial as experiências coletivas da classe trabalhadora. Nos três eixos temáticos, o conjunto de autores desenvolve formulações teóricas com evidências empíricas de que a cultura e os processos educativos que a elegem como objeto de estudo e de compreensão da realidade podem fermentar os germes de projetos de transformação social.

Referências

KOSIK, Karel. Dialética do concreto. 2. ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1976. [ Links ]

THOMPSON, Edward P. Tradición, revuelta y cons- ciência de classe. Barcelona: Crítica, 1979. [ Links ]

THOMPSON, Edward P. A miséria da teoria ou um planetário de erros. Rio de Janeiro: Zahar, 1981. [ Links ]

Luiz Augusto de Oliveira Gomes – Universidade Federal Fluminense, Faculdade de Educação, Niterói, RJ, Brasil. E-mail: luiz.augusto1201@gmail.com

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Trabalho docente sob fogo cruzado – MAGALHÃES et al (TES)

MAGALHÃES, Jonas E. P.; AFFONSO, Claudia R. A.; NEPOMUCENO, Vera Lucia da C.. Trabalho docente sob fogo cruzado. Rio de Janeiro: Gramma, 2018. 268 pp. Resenha de:  BOMFIM, Maria Inês. Precarização estrutural do trabalho docente: o fim do professor intelectual? Revista Trabalho, Educação e Saúde, v.17, n.3, Rio de Janeiro, 2019.

Trabalho docente sob fogo cruzado é uma coletânea organizada por Jonas Magalhães, Cláudia Affonso e Vera Nepomuceno, reunindo 12 capítulos que analisam, de forma crítica e sob perspectivas diversas, a desvalorização do trabalho docente, em tempos de precarização estrutural do trabalho (Antunes, 2018).

Com prefácio e apresentação de Gaudêncio Frigotto e Marise Ramos, respectivamente, o livro reúne estudos de pesquisadores membros do Grupo de Estudos Trabalho, Práxis e Formação Docente vinculado ao Grupo de Pesquisa THESE-Projetos Integrados de Pesquisas em História, Educação e Saúde (UFF/UERJ/EPSJV/FIOCRUZ) e de outros autores convidados, abordando ‘questões de natureza política, socioeconômica e ideológica’ sobre o trabalho docente. Dentre elas, assegurando a especificidade que o tema requer, a mecanização do trabalho na escola e a expropriação da subjetividade docente, em especial desde a década de 1990.

No Capítulo 1 da coletânea, “Trabalho de professor no fio da navalha: reengenharia das escolas e reestruturação produtiva em tempos de Escola Sem Partido”, Cláudia Affonso articula três dimensões centrais que estarão, também, presentes em outros capítulos: “a reestruturação produtiva das escolas, a Reforma do Ensino Médio e o avanço do Movimento Escola Sem Partido” (p. 4). Retomando o rico debate sobre a natureza do trabalho, analisa os sentidos conferidos à profissionalização docente nas últimas décadas por autores de matrizes teóricas diversas, e problematiza os limites da autonomia docente na atualidade. A participação docente desqualificada, que restringe a condição de intelectual dos professores no processo de ensino aprendizagem, articulada às implicações trazidas pela Reforma do Ensino Médio (2017) e, ainda, ao fortalecimento de ideologias de criminalização sinalizam duas preocupantes tendências: o esvaziamento da prática docente e o desemprego de professores.

Valéria Moreira é a autora do Capítulo 2, “A organização do trabalho do professor e a qualidade do ensino”. A autora busca apreender a “inviabilização da incorporação do trabalho ao objeto do trabalho” (p. 28), processo vivido pelos professores de Sociologia, em virtude da redução da carga horária da disciplina na proposta curricular do Ensino Médio do Estado do Rio de Janeiro. Discutindo o processo de trabalho, em geral, o processo de trabalho no século XX e o trabalho docente na atualidade, toma como objeto de estudo a emblemática materialidade fluminense, na qual os professores da rede estadual resistem às condições de trabalho severamente precarizadas.

“Carrera profesional docente en Chile: la construcción de un nuevo modo de ser profesor” é o terceiro capítulo da coletânea, escrito por Paulina Cavieres. O Chile, precursor do ciclo neoliberal que atingiu boa parte do mundo, possui uma legislação extremamente hierarquizada em relação à carreira docente, na qual os professores são permanentemente avaliados e certificados, o que estimula a promoção de certo tipo de subjetividade docente ‘assujeitada’. Diante desse quadro, a autora defende a potencialidade das chamadas ‘linhas de fuga’ (Miranda, 2000), que explicitam a resistência dos professores chilenos às novas formas de controle docente.

O quarto capítulo, “História da docência e autonomia profissional: notas sobre experiências em Portugal, Quebec (de língua francesa) e Canadá”, de Danielle Ribeiro, destaca a atualidade do movimento pela profissionalização docente. Recuperando, historicamente, avanços e retrocessos na constituição da profissionalização docente, problematiza os limites impostos à conquista da autonomia docente, aspecto central na luta pela ‘profissionalidade’. Na contemporaneidade, analisa os debates sobre autonomia docente em Portugal, Quebec e no restante do Canadá, evidenciado suas ambivalências, singularidades e conflitos.

Vera Nepomuceno é a autora do Capítulo 5, cujo título é “Reforma do Ensino Médio: uma estratégia do capital?”. O estudo sublinha os nexos históricos entre a dualidade estrutural na educação, os interesses da burguesia brasileira e a intensificação da escala e da profundidade da associação entre o público e o privado, com destaque para o protagonismo de fundações e instituições empresariais nas decisões do Estado, ignorando as condições concretas das escolas e dos jovens.

“Da ‘desnecessidade’ da educação à ‘desnecessidade’ do trabalho docente no Ensino Médio” é o título do Capítulo 6, escrito por Cláudio Fernandes. O tema é, igualmente, a Reforma do Ensino Médio e suas implicações para o trabalho docente, mas sob outra perspectiva.

Para o autor, a reforma de 2017 revelou-se como a continuidade e o aprofundamento da reforma realizada nos anos 1990, ambas marcadas pelas demandas da empresa flexível. Os efeitos dessa flexibilização configuram, na atualidade, a ‘desnecessidade’ tanto da educação como do trabalho docente, ainda que de forma contraditória. Buscando a materialidade que a reflexão requer, o estudo analisa a proposta implementada no Rio de Janeiro, produzida pelo Instituto Ayrton Senna (IAS), denominada de ‘Solução Educativa para o Ensino Médio’.

Amanda da Silva é a autora do Capítulo 7, intitulado “A presença de frações da classe burguesa na educação pública brasileira e as interferências no trabalho docente”. A análise parte da teoria de Estado como uma relação permeada de contradições. O conceito de ‘bloco no poder’ (Poulantzas, 1977), ganha centralidade na investigação sobre as ações empresariais no âmbito do Estado, mediante parcerias público-privadas. O trabalhador docente, nesse projeto da burguesia, tem sua autonomia severamente ameaçada.

O Capítulo 8 da coletânea é “Qual escola? Para que sociedade? Desafios da formação docente em um contexto de contrarreforma e retrocessos na gestão da educação pública brasileira”, de autoria de Maria Aparecida Ribeiro. Com base em um estudo de caso que retrata o percurso formativo de um aluno de licenciatura em Filosofia, suas conquistas, desafios e descobertas, a autora traz uma inquietante indagação: “como atuar na formação docente neste contexto de severa intervenção político-governamental nos processos de escolarização?” (p. 151).

Francisca Oliveira, por sua vez, aborda políticas regulatórias para o magistério no Capítulo 9, cujo título é “O Fundeb e a Política Nacional de Formação de Professores da Educação Básica: uma nova regulação para a valorização do trabalho docente?” A autora prioriza as políticas sancionadas no segundo mandato do presidente Lula da Silva (2003-2010), sendo o recorte empírico o estado do Ceará. A Política Nacional de Formação de Professores para o Magistério da Educação Básica, com suas ambivalências e o Fundeb, com suas contradições, são os alvos da análise apresentada no capítulo.

O Capítulo 10, escrito por Maria da Conceição Freitas, tem como título “Trabalho docente no ideário do materialismo histórico- dialético- Redecentro: 2010 a 2014”. A Redecentro é uma rede de pesquisadores do Centro-Oeste brasileiro, com a participação de sete universidades, em busca da qualidade nas produções acadêmicas, considerando duas lógicas: a mercadológica e a que, com base na ética e na relevância social, inclui a emancipação e a formação crítica e integral dos pesquisadores. A autora recupera diferentes tendências presentes na literatura internacional sobre trabalho docente e profissionalismo, apresentando dados referentes à produção acadêmica do Programa de Pós-Graduação em Educação da Universidade de Brasília no período de 2010 a 2014.

Fechando o conjunto de textos da coletânea, Jonas Emanuel Magalhães é o autor do Capítulo 11: “Saberes docentes e epistemologia da prática: apontamentos críticos e possibilidades de investigação a partir do materialismo histórico-dialético”. Trata-se de estudo sobre conceitos que ganharam expressiva importância nos processos de formação inicial e continuada de professores nas últimas décadas, com base nas produções de vários autores, particularmente Maurice Tardif, principal referência sobre o tema no Brasil.

Uma primeira vertente de análise questiona se a ‘epistemologia da prática’ proposta por Tardif não estaria promovendo a secundarização da base científica necessária à formação docente, visto que “a produção de saberes da prática e pela experiência não implica necessariamente a compreensão efetiva dos fenômenos” (p. 204). Tendo em mente as categorias saber, ‘ação, interação, cultura e experiência’ propostas por Tardif (2002), o autor propõe o conceito de ‘consciência socioprofissional’, no qual o saber analítico sobre o trabalho se destaca, na sua historicidade, diferenciando-se do conceito de ‘consciência profissional’, proposto por Tardif.

Por fim, o Capítulo 12 traz a entrevista realizada com o historiador Fernando Penna, da Faculdade de Educação da Universidade Federal Fluminense, intitulada “Projeto Escola sem Partido: a ofensiva ultraconservadora contra o professor”.

As origens do movimento e sua ascensão nos últimos anos, particularmente quando se articulou a outros grupos reacionários, permitiram a Fernando Penna, destacar um aspecto de extrema relevância, isto é, o ódio direcionado à figura do professor, com fortes implicações para o esvaziamento da função docente. No plano legal, modelos de projetos de lei foram replicados pelo movimento, sendo aprovada a Lei Escola Livre, em Alagoas, alvo de ação de inconstitucionalidade no Supremo Tribunal Federal. A disputa, porém, não ocorre apenas no plano legal, mas, também, no plano ideológico, marcado por uma determinada concepção de ética profissional docente contrária à autonomia do professor. Diante disso, em tempos de trabalho docente sob fogo cruzado, a resistência precisará ser ativa, articulada e permanente.

Referências

ANTUNES, Ricardo. O privilégio da servidão: o novo proletariado de serviços na era digital. São Paulo: Boitempo, 2018. 325p. [ Links ]

MIRANDA, Luciana L. Subjetividade: a (des) construção de um conceito. In: SOUZA, Solange J. (org.) Subjetividade em questão: a infância como crítica da cultura. Rio de Janeiro: 7 Letras, 2000, p. 29-45. [ Links ]

POULANTZAS, Nicos. Poder político e classes sociais. São Paulo: Martins Fontes, 1977. [ Links ]

TARDIF, Maurice. Saberes docentes e formação profissional. Petrópolis: Vozes, 2002. [ Links ]

Maria Inês Bomfim – Universidade Federal Fluminense, Faculdade de Educação, Niterói, Rio de Janeiro, Brasil. E-mail: mariaines.uff@gmail.com

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History Education and (Post)Colonialism. International Case Studies – POPP et al (IJRHD)

POPP Susanne1 Golpe de 2016
Susanne Popp. www.researchgate.net /

POPP S History Education and post colonialism Golpe de 2016POPP, Susanne; GORBAHN, Katja; GRINDEL, Susanne (eds). History Education and (Post)Colonialism. International Case Studies. Peter Lang, 2019. Resenha de: HAUE, Harry. International Journal of Research on History Didactics, n.40, p.245-252, 2019.

This anthology on colonialism discusses the reasons for its upcoming in different parts of the world as a fundamental contribution to the development of modern times, and the substantial impact the decolonization process has on the new modern era after World War II. In the introduction the editors make an overview of the content of the book, which has the following structure: Part 1: Two essays, Part 2: Three narratives, Part 3: Five debate contributions and Part 4: Three approaches.

The editors also present the fundamental problems in the study of colonialism and postcolonialism, and quote UN resolution 1514 from 1960: All peoples have the right to self-determination; by virtue of that right they freely determine their political status and freely pursue their economic, social and cultural development. Consequently, one of the questions raised in education is to what extent actual history teaching in schools represents and communicates the items of colonization and decolonization as well in the former colonies and in the countries of colonizers. The process of globalization has in the last decades made this question urgently relevant and moreover inspired to formulate the question of culpability.

In the wake of decolonization and globalization, especially Europe and the US have experienced a migration movement, which inspire classes to reflect on questions of inequality, and the former subordinates right to travel to high developed countries. This challenge to the national history might lead to fundamental changes in syllabus and teaching, which prompt a focus more on global history and postcolonial studies. As the editors point out: history educationalists need to take the issue of the ‘decolonization of historical thinking’ seriously as an important task facing their profession.

It is not possible in this review to refer and comment all 13 contributions in detail. However, I will present a thematic discussion of the four parts.

In part 1 Jörg Fisch, professor of History, University of Zürich, Switzerland, discusses the concepts of colonization and colonialism. He presents and reflect on the conceptual development on from the Latin idea of ‘colere and colonus’, in the late renaissance changed into ‘colonialist and colonialism’. The last concept is ‘aimed at making political, economic, cultural and other gains at the cost of his competitors and is often consolidated into colonial rule.’ Whereas the colonus occupied contiguous territory, the colonialist thanks to his technological superiority conquered land distant from the colonizer’s own country. The result was foreign rule, which required a new theoretical basis: Francisco de Vitoria postulated in 1539 that all peoples had the right to free settlement, trade and free colonization.

Another theory was that the indigenous populations had the right to be fully sovereign. Above those two theories, raw power was to decide to what extent the one or the other should be respected, if any of them. When the national state in the 19th century came into being in Europe and when ideas from the French Revolution gained impact in the Americas, independence was the answer. But this was not the end of colonialism which developed in the same period in the not yet unoccupied areas of Asia and Africa. Colonies became in the period from 1850 to 1914 part of European based empires divided between the big powers at the conference in Berlin in 1884-85. The process was called imperialism. World War I changed this development fundamentally, Germany lost all its colonies and the indigenous elite in the colonies began to question their subaltern status. After World War II the process of decolonization began, and the concept of anticolonization gained momentum in the aforementioned UN declaration form 1960. As Fisch underlines, the postcolonial world was not synonymous with a just world. In ‘Colonialism: Before and After’ Jörg Fisch has written a well-structured presentation of the main lines of this complex phenomenon and the conceptual development. His article is an appropriate opening to the following chapters in the anthology.

Jacob Emmanuel Mabe, born and raised in Cameroon, now a permanent visiting scholar at the French Center of the Free University of Berlin, has written a chapter on: ‘An African Discourse on Colonialism and Memory Work in Germany’. His aim is to demonstrate the significance of the concept of colonialism in intellectual discourse of Africans and to show how the colonial question is discussed in Germany.

It was the intellectuals among the colonial peoples who formed the critical discourse against European colonial rule in Africa, which Mabe calls a ‘ruthless territorial occupation’. The first materialization of this opposition to European rule was the formation of the ‘Pan- African Movement’ maybe inspired by the US-based initiative: ‘Back to Africa Movement’, which culminated in the founding of the Republic Liberia in 1879. On African soil, however in the interwar years a new concept was developed by especially Leopold Sédar Senghor, who was to become one of the most dominant voices among African intellectuals. He and his followers used the concept ‘Negritude’ and the aim was to create a philosophical platform for the promotion of the African consciousness by means of a literary current, a cultural theory and a political ideology. Mabe gives a short description of the reasons for the many barriers for the fulfilment of Senghor’s program.

Mabe ends his article with a discussion of the German attitudes to its colonial past. When the decolonizing process took off after World War II, the Germans were mentally occupied with the Nazi-guilt complex, which in comparison to the regret of the brutal treatment of the Africans, was much more insistent. Nonetheless, Mabe indicates that researchers of the humanistic tradition in the two latest decades have ‘presented some brilliant and value-neutral studies which do justice do (to) both European and, in part African epistemic interest. However, a true discipline of remembering which is intended to do justice to its ethics and its historical task can only be the product of egalitarian cooperation between African and European researchers.’ Florian Wagner, assistant professor in Erfurt, ends his chapter with a presentation of African writers in modern post-colonial studies. In competition with the USSR Western historians invited African writers to contribute to a comprehensive UNESCO publication on the development of colonialism. Wagner’s aim is to underline that transnational historiography of colonization is not, as often has been thought, a modern phenomenon, but has been practiced by European historians over the last century. His main point is that although nationalism and colonialism went hand in hand, transnational cooperation in the colonial discourse has been significant. It is an interesting contribution, which partly is a supplement to the chapter of Fisch according to use of concepts about the colonial development. It brings a strong argument for the existents of a theoretical cooperation between the European colonial masters, notwithstanding their competitive relations in other fields.

This statement can give the history teacher a new didactical perspective, as Wagner emphasizes in his conclusion: ‘Colonialism can provide a basis of teaching a veritable global history – a history that shows how globality can create inequality and how inequality can create globality.’ Elize van Eeden, professor at the South West University, South Africa, has written a chapter on: ‘Reviewing South Africa’s colonial historiography’. For more than 300 years South Africa has had shifting colonial positions, and consequently the black and colored people had to live as subalterns. The change of government in 1994 also gave historians in South Africa new possibilities, although the long colonial impact was difficult to overcome. For a deeper understanding of this post-colonial realities it is important to know African historiography in its African continental context. Elize van Eeden’s research shows that the teaching in the different stages of colonialism plays a minor role in university teaching. Therefore, new research is needed, exploiting the oral traditions of the subaltern people, and relating the local and regional development to the global trends. As van Eeden points out: ‘A critical, inclusive, comprehensive and diverse view of the historiography on Africa by an African is yet to be produced.’ Van Eeden’s contribution gives participant observers insight into especially South Africa’s historiography and university teaching and provide a solid argument for the credibility of the former quotation.

In the third chapter on narratives, written by three Chinese historians: Shen Chencheng, Zhongjie Meng and Yuan Xiaoqing: ‘Is Synchronicity Possible? Narratives on a Global Event between the Perspectives of Colonist and Colony: The Example of the Boxer Movement (1898-1900)’, the aim is to discuss the didactical option partly by including multi-perspectivity in teaching colonialism and multiple perspectives held by former colonies and colonizers, instead of one-sided national narratives, partly teaching changing perspectives, instead of holding a stationary standpoint. Another aim is to observe ‘synchronicity of the non-synchronous’ inspired by the thinking of the German philosopher Reinhard Koselleck. The chapter starts with a short description of the Boxer War, which forms the basis for an analysis of the presentation of the war in textbooks produced in China and Germany, i.e. colony and colonizer. Then the authors provide an example to improve synchronicity in teaching colonialism, followed by didactic proposals.

The Boxer War ended when a coalition of European countries conquered the Chinese rebellions and all parties signed a treaty. Germany in particular demanded conditions which humiliated the Chinese. This treaty is of course important, however at the same time, one of the Boxer-rebels formulated an unofficial suggestion for another treaty, which had the same form and structure as the real treaty, however, the conditions war turned 180 degrees around, for example, it forbade all foreign trade in China. The two treaties were in intertextual correspondence and expressed the demands of the colonizer and the colonized. The question is whether the xenophobic Boxers in fact were influenced by western and modern factors or whether the imperialistic colonizers were affected by local impacts of China? The ‘false’ treaty was used as a document in the history examination in Shanghai in 2010, with the intention of giving the students an opportunity to think in a multi-perspective way, and to link the local Chinese development to a global connection. Nonetheless, the didactical approaches in history teaching in schools are far behind the academic state of the art. It is an interesting contribution to colonialism, but it is remarkable that the authors do not use the concept of historical thinking.

In the third part of the anthology, there are five contributions. Raid Nasser, professor of Sociology, Fairleigh Dickinson University, discusses the formation of national identity in general and its relations to cosmopolitanism. The idea of a global citizenship conflicts with nationalism and the differentiations according to social, economic and ethnic divisions, and Kant is challenged by Fanon.

Nasser’s own research concerns the history textbooks in the three counties where the state has a decisive say in determining the content of those books and therefore it might have a decisive influence on the identity formation of the pupils, in this case from the year four to twelve. How much room is there for cosmopolitanism? This is a question which Nasser has thoroughly addressed in this chapter.

Kang Sun Joo, professor of Education, Gyeongin National University South Korea, discusses the problems with the focus on nation-building in the history teaching in former colonies and the need for new ‘conceptual frames as cultural mixing, selective adoption and appropriation.’ She gives an interesting view on the conformity of western impact on Korean history education.

Markus Furrer, professor of History and History Didactics, teacher training college Luzern, examines post-colonial impact on history teaching in Switzerland after World War II. He has the opinion that we all live in a post-colonial world, including countries with no or only a minor role in colonial development. He emphasizes that there are ‘two central functions of post-colonial theory with relevance to teaching: (1) Post-colonial approaches are raising awareness of the ongoing impact and powerful influence of colonial interpretive patterns in everyday life as well as in systems of knowledge. (2) In addition, they enable us to perceive more clearly the impact of neo-colonial economic and power structures.’ He analyzes six Swiss textbooks and concludes that there is a need in this regard for teaching materials which enable students to understand and interpret the construction and formation process which eventually end with ‘Europe and its others’.

Marianne Nagy, associate professor of History, Karoli Gáspar University, Budapest, has made an examination of history textbooks used in Hungary in 1948-1991 on the period between 1750 and 1914 when Hungary was under Austrian rule. This is an examination of Hungary’ s colonial status seen from a USSR- and communistinfluenced point of view. In the communist period only one textbook was accepted, and in this book, Austria was perceived as a kind of colonial power which controlled Hungary for its own benefit. The communist party had the intention to present Habsburg rule in a negative light, with the wish to describe Hungary’s relation to USSR as a positive contrast. Today the Orbán-led country uses the term colony in relation to the EU.

Terry Haydn, professor of Education, University of East Anglia, has made an explorative examination of how ‘empire’ is taught in English schools. His findings are somewhat surprising. In the history classes of the former leading colonizing country, most schools taught ‘empire’ as a topic, however with emphasis on the formative process of colonization and not ‘the decline and fall’. Haydn has with this short study focused on an item which should be the target of more comprehensive research.

The last three chapters concern the teaching of colonialism in a post-colonial western world. Philipp Bernard, research assistant at Augsburg University in Germany, discusses the perspectives in teaching post- against colonial theory and history from below. His basic assumption is that: ‘No region on the earth can evade the consequences of colonialism’, therefore, ‘A post-colonial approach emphasizes the reciprocal creation of the colonized and the colonizers through processes of hybridization and transculturation.’ The aim of teaching, in this case in the Bavarian school, is to achieve decolonization of knowledge. The author gives interesting reflections from his teaching which could be of inspiration in the schools both of colonized and colonizing countries.

Dennis Röder, teacher of History and English in Germany, writes about ‘visual history’ in relation to the visual representation of Africa and Africans during the age of imperialism. The invention of the KODAK camera in 1888 brought good and cheap pictures, which could be printed and studied world-wide. Soon those pictures could be used in education, and thereby history teaching got a new dimension, and a basis for critique of the white man’s brutal treatment of the natives. These photos were used in the protests against Belgian policy in Congo. Röder emphasises that the precondition for the use of photos as teaching material is the need for some methodological insight both on behalf of the pupils and students. Moreover, it is important to select a diverse collection of photos so that all sides of life in the colonies are represented. Then it would be possible to make a ‘step toward the visual emancipation and decolonization of Africans in German textbooks.’

Karl P. Benziger, professor of History, State University of New York, College at Fredonia, in the last chapter of the anthology has reflected on the interplay between the war in Vietnam as a neocolonial enterprise and the fight for civil rights in the US. Benziger discusses different approaches to teaching those items in high schoolclassrooms. An interesting course was staged as a role play on the theme: The American war in Vietnam. The purpose of the exercise was ‘to develop students’ historical skills through formulating interpretations and analyses based on multiple perspectives and competing narratives in order to understand the intersection between United States foreign and domestic policy from a global perspective.’

The editorial team should be acknowledged for its initiative. The anthology could be perceived as a didactical patchwork which gives inspiration to new research in the subject matter as well as innovations in history didactics. The current migration moveme would prompt to include colonialism and post-colonialism in history teaching and moreover these aspects are part of any pupil’s/student’s everyday life.

Harry Haue

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Women as Foreign Policy Leaders: National Security and Gender Politics in Superpower America – BASHEVKIN (REF)

BASHEVKIN, Sylvia. Women as Foreign Policy Leaders: National Security and Gender Politics in Superpower America. Oxford: Oxford University Press, 2018. Resenha de: SALOMÓN, Mónica. La política exterior ya no es cosa de hombres. Revista Etudos Feministas, Florianópolis, v.27, n.2, 2019.

¿En qué medida las mujeres que ocupan altos cargos en el poder ejecutivo representan a las mujeres como un todo o categorías específicas de mujeres? ¿Qué nos dice el desempeño de mujeres con responsabilidad en la conducción de la política exterior y de seguridad de sus países – y, específicamente, de los Estados Unidos – en relación a la discusión sobre la supuesta mayor disposición al pacifismo de las mujeres en comparación con los hombres? ¿Las decisiones de esas mujeres son evaluadas con los mismos criterios habitualmente empleados para juzgar a sus homólogos masculinos?

Women as Foreign Policy Leaders avanza en las respuestas a esas y a otras instigadoras preguntas centrales en las discusiones del campo de conocimiento de género y política y en sus intersecciones con otras áreas, como los estudios sobre seguridad internacional, la historia diplomática o el análisis de política exterior. Lo hace a través del estudio de las trayectorias vitales y políticas de cuatro mujeres que ocuparon altos puestos diplomáticos en los Estados Unidos: Jeane Kirkpatrick, embajadora ante la ONU durante la administración Reagan; Madeleine Albright, primera embajadora ante la ONU y luego secretaria de estado con Bill Clinton; Condolezza Rice, consejera de seguridad nacional en el primer mandato de George W. Bush y secretaria de estado en el segundo mandato y por último Hillary Clinton, secretaria de estado en el gobierno Obama. Leia Mais

Pedagogías y políticas – KOROL (RES)

KOROL, Claudia. Feminismos populares: Pedagogías y políticas. Ciudad Autónoma de Buenos Aires: El Colectivo; Editorial Chirimbote; America Libre, 2016. Resenha de: PAULA, Thaís Vieira de; GALHERA, Katiuscia Morena. Feminismos plurais: a América Latina e a construção de um novo feminismo. Revista Estudos Feministas, Florianópolis, v.27, n.2, 2019.

Lançado em 2016, na Argentina, com o apoio da Fundación Rosa Luxemburgo e com fundos do Ministério Federal de Cooperação Econômica e Desenvolvimento da Alemanha, o livro é resultado de diversos âmbitos de esforços coletivos. Pautado no feminismo latino-americano, expresso livremente e a partir de experiências plurais concretas, a obra compila escritos organizados por Claudia Korol a partir de diversas organizações de base. Em comum, o livro e as organizações de base têm a preocupação com a vocalização de experiência de mulheres do Sul Global. A partir de feminismos populares na América Latina e, em menor medida, de outros países do Sul, vozes subalternizadas de movimentos de mulheres locais, comunitárias, populares, bolivarianistas, indígenas e de luta pela terra, dentre outras pautas, são mobilizadas.

São diversas as correntes feministas que permeiam o livro: há, por exemplo, tanto o feminismo liberal que percebe na aprovação de leis pelo Congresso o processo acertado de conquista de direitos, quanto o feminismo construtivista que pauta a necessidade do entendimento do contexto cultural e como influencia na construção social do objeto. Há, ainda, feministas que bebem de diversas correntes para montar sua ação: o caso da feminista marxista que se apoiou no Congresso para o avanço de direitos de pessoas transexuais, ou seja, a militante se apoiou em repertórios políticos dos feminismos liberais e dos transfeminismos, embora se identifique como marxista. Leia Mais

Linguagens pajubeyras: re(ex)istência cultural e subversão da heteronormatividade – LIMA (REF)

LIMA, Carlos Henrique Lucas. Linguagens pajubeyras: re(ex)istência cultural e subversão da heteronormatividade. Salvador: Devires, 2017. Resenha de: OLIVEIRA, João Manuel de. Performatividade Pajubá. Revista Estudos Feministas, Florianópolis, v.27, n.2, Florianópolis, 2019.

Este livro, editado pela Devires, que no panorama editorial brasileiro tem sido vital para sustentar e fomentar uma cultura de literatura e ensaio queer, é um marco no pensamento sobre subversão da heteronormatividade que poderíamos chamar de kuir/queer. Carlos Henrique Lucas Lima, autor da obra, recorre ao termo queer, sem o manter acriticamente. Toda a obra é precisamente uma celebração, de formas de resistir culturalmente, de torcer a norma e ressignificá-la, de produzir uma teoria e prática torcidas.

Carlos Henrique Lucas Lima é professor na Universidade Federal do Oeste da Bahia e escreveu este livro como resultado do seu doutoramento em Cultura e Sociedade na Universidade Federal da Bahia e fez esse trabalho no CuS, Cultura e Sexualidades, recentemente constituído como núcleo de pesquisa. Com formação inicial em Letras e História da Literatura, o seu olhar simultaneamente interdisciplinar e indisciplinar ajuda a entender algumas das propostas intrincadas deste texto híbrido que a editora Devires publicou. Leia Mais

Neoliberalismo sexual: el mito de la libre elección – MIGUEL (REF)

MIGUEL, Ana de. Neoliberalismo sexual: el mito de la libre elección. Madrid: Ediciones Cátedra/Universidad de Valencia, 2016. Resenha de: ALVES, Ismael Gonçalves. Neoliberalismo sexual: o mito e a sedução da liberdade nas sociedades formalmente igualitárias. Revista Estudos Feministas, Florianópolis, v.27, n.2, 2019.

Nas últimas décadas temos presenciado no mundo ocidental a proliferação de um conjunto sincrônico de discursos afirmando que as desigualdades e a falta de liberdade das mulheres seriam condições já superadas. Tal realidade teria sido alcançada pela ratificação de legislações que supostamente garantiriam em diversos âmbitos da vida pública, e também privada, a paridade social, econômica, política e cultural entre os sexos. Baseadas nesse axioma, as mulheres estariam aptas a adentrar sem restrições nos mundos do trabalho, a controlar livremente seus corpos e suas sexualidades, além de dividir de forma equânime com os homens as tarefas domésticas e de cuidados. Para os artífices de tais prédicas, as sociedades democráticas contemporâneas teriam chegado a tal nível de igualdade formal que o movimento feminista, como teoria e práxis, já não justificaria mais sua existência, tornando-se, assim, uma peça obsoleta e antiquária, digna apenas de um velho gabinete de curiosidades do século XIX.

Dessa forma, tocadas pelas luzes da liberdade neoliberal, as mulheres do século XXI seriam suficientemente autônomas para fazer suas escolhas e desbravar um mundo totalmente igualitário. De acordo com Nancy Fraser (2015), o discurso neoliberal que atualmente enreda nossas vidas ancora-se na premissa de que as relações sociais contemporâneas estão fundamentadas na livre escolha, nas trocas entre iguais e, sobretudo, nas conquistas meritocráticas, fechando os olhos para as desigualdades estruturantes que cuidadosamente foram questionadas por grupos subalternos. Nesse cenário de suposta autodeterminação, patriarcado e neoliberalismo se retroalimentam por meio de mecanismos em que a violência já não se exerce mais na forma legislações discriminatórias, mas é também fomentada por uma poderosa indústria cultural, que transforma tudo em mercadoria, inclusive os corpos e as sexualidades das mulheres. Leia Mais

Género y cuidado: teorías, escenarios y políticas – ARANGO GAVIRIA et al (REF)

ARANGO GAVIRIA, Luz Gabriela; AMAYA URQUIJO, Adira; PÉREZ BUSTOS, Tania; PINEDA DUQUE, Javier. Género y cuidado: teorías, escenarios y políticas. Bogotá: Universidad Nacional de Colombia, Pontificia Universidad Javeriana, Universidad de los Andes, 2018. Resenha de: GASCA, Ells Natalia Galeano. La dimensión política del cuidado Revista Estudos Feministas, Florianópolis, v.27, n.2, 2019.

El libro Género y cuidado: teorías, escenarios y políticas contiene reflexiones sobre la interrelación entre las categorías de género y cuidado desde diferentes perspectivas. La edición académica a cargo de Luz Gabriela Arango, Adira Amauya, Tania Pérez Bustos y Javier Pineda Duque resulta de un esfuerzo interinstitucional entre la Universidad Nacional de Colombia, la Universidad Javeriana y la Universidad de los Andes de Bogotá. Se abordan debates teóricos y aportes empíricos derivados de investigaciones de autoras/es adscritas/os a distintas instituciones alrededor del mundo, lo que permite vislumbrar cómo el fenómeno del cuidado mantiene ciertas continuidades en el nivel doméstico, local y global. Las aportaciones contribuyen a entender cómo la categoría de cuidado tiene un potencial político de importancia, sobre todo en lo referente a la necesidad de encontrar formas de relación más justas y equitativas, desde los espacios micro sociológicos que afectan la vida cotidiana, hasta los macro sociales que afectan a los colectivos.

El libro se encuentra divido en tres secciones: “Ética y ethos del cuidado”, “Escenarios y significados del trabajo del cuidado” y “Organización social del cuidado y política pública”. El primer capítulo, de autoría de Joan Tronto, es titulado “Economía, ética y democracia: tres lenguajes en torno al cuidado”. La autora hace una reflexión ética desde la óptica del cuidado, vinculando aspectos relativos a la democracia. Igualmente, reflexiona sobre las atribuciones inequitativas de responsabilidades de cuidado y las asocia con las desigualdades de poder, expresadas en la clase social, la raza, la etnicidad, la sexualidad, entre otras diferencias. Aquí, la autora tipifica diversas formas de exención de las responsabilidades. Su enfoque intenta evitar que, al considerar la dimensión ética, se dejen de lado las preocupaciones sociales y estructurales, intentando tener presentes las dimensiones morales y las asociadas a la economía del cuidado. En este sentido, considera que es importante enmarcar el cuidado de manera que nadie se entienda ni totalmente dependiente, ni totalmente autónomo. Leia Mais

Ambulare – PRADO (REF)

PRADO, Marco Aurélio Máximo. Ambulare. Belo Horizonte: PPGCOM UFMG, 2018. Resenha de: COACCI, Thiago. Como funciona a despatologização na prática? Revista Etudos Feministas, v.27, n.2, Florianópolis,  2019.

Muita tinta tem sido gasta sobre a (des)patologização das transexualidades (Guilherme ALMEIDA; Daniela MURTA, 2013; Berenice BENTO; Larissa PELÚCIO, 2012; Daniela MURTA, 2011; Amets SUESS, 2016). O assunto já foi tema de reuniões no Ministério da Saúde, de debates em várias universidades e foi discutido também na Organização Mundial de Saúde (OMS). Desde 2008, a OMS iniciou o processo de reformulação de sua Classificação Internacional de Doenças, a CID. Esse documento orienta as práticas e as políticas de saúde em todo o mundo. Até a décima revisão, publicada em 1990, as formas de vida trans eram classificadas como uma patologia mental e traduzidas no diagnóstico F64.0 – transexualismo, dentre outros códigos similares. É essa classificação, em conjunto ao DSM, que tem orientado os documentos oficiais da política pública brasileira do processo transexualizador1.

Uma das principais demandas dos movimentos internacionais de pessoas trans era justamente a despatologização dessas experiências, isto é, sua retirada desses manuais e, principalmente, sua retirada do capítulo relativo aos transtornos mentais. Diversos grupos como o GATE* e a TGEU2 se mobilizaram para influir nesse processo. Participaram das reuniões, fizeram campanhas e mobilizações internacionais para sensibilizar as/os pesquisadoras/es e profissionais envolvidas no Grupo de Trabalho responsável por repensar as práticas de cuidado com essas pessoas. O desejo sempre foi pela despatologização, todavia, como Guilherme Almeida e Daniela Murta (2013) já chamavam atenção, fazendo coro a algumas organizações do movimento social, despatologizar não pode ser sinônimo de descuidar ou desassistir. A despatologização não poderia, nem deveria implicar perda de direito para essa população. Leia Mais

Feminismo em Comum: Para Todas, Todes e Todos – TIBURI (REF)

TIBURI, Marcia. Feminismo em Comum: Para Todas, Todes e Todos. Rio de Janeiro: Rosa dos Tempos, 2018. 125pp. Resenha de: LUCENA, Srah Catão. Da teoria às práticas: a epistemologia cotidiana de um feminismo em comunhão. Revista Estudos Feministas, Florianópolis, v.27, n.3, 2019.

Filósofa de formação, a também escritora, artista plástica, professora e militante associada ao Partido dos Trabalhadores Marcia Tiburi publicou seu oitavo livro de ensaios, o qual vem avultar uma produção já robusta desta intelectual que também escreve romances, livros infantis, além de participar de antologias em coautoria com outras autoras de referência no campo da filosofia, como Suzana Albornoz e Jeanne Marie Gagnebin. De maneira geral, Feminismo em Comum amplia o projeto intelectual de Marcia Tiburi ao alinhavar recortes da sua biografia profissional à sua produção escrita, dotada de um estilo perspicaz, porque sabe traduzir filosofia, política e arte em linguagem acessível. Neste volume, a escritora reúne em um total de 125 páginas um debate que conecta seus temas predominantes, filosofia e política, à problemática de gênero. Ao elaborar como a estrutura opressora do patriarcado sistematiza a ordem social e mental brasileiras de maneira a cingir a vida das mulheres, a autora propõe, através de uma dicção prática e por vezes pungente, a perspectiva feminista como uma alternativa à recuperação da democracia para todas, todes e todos.

Organizado em dezessete capítulos, o ensaio inicia com uma chamada, “Feminismo já!”, convocando leitoras e leitores a compreenderem os extremos em que se encontra a questão feminista, separada, de um lado, pelo grupo que teme e rejeita o feminismo e, do outro, pelo que se entrega ao conceito com muita esperança, mas sem necessariamente pensá-lo como prática e, portanto, modo de vivência e atuação na sociedade. A questão da transfiguração da teoria feminista em exercício social é uma preocupação atual do campo de estudos e encontra-se presente em trabalhos de referência do pensamento feminista, a exemplo de Sara Ahmed no seu Living a Feminist Life (2017). Nesse sentido, propor o feminismo como ferramenta de trabalho e modo de estar no mundo é um ponto forte do livro de Tiburi, já que sintoniza a sua discussão a um contexto amplo e universal, mas sem perder de vista a especificidade brasileira que serve como referência direta para quem tem seu livro em mãos. Leia Mais

Debates feministas. Um intercâmbio filosófico – BENHABIB et al (REF)

BENHABIB, Seyla; BUTLER, Judith; CORNELL, Drucilla; FRASER, Nancy. Debates feministas. Um intercâmbio filosófico. Trad. de Fernanda Veríssimo, São Paulo: Editora Unesp, 2018. Resenha de: SANTOS, Patrícia da Silva. Feminismo, filosofia e teoria social: mulheres em debate. Revista Estududos Feministas, Florianópolis, v.27, n.3 2019.

O discurso filosófico e teórico nas sociedades ocidentais estabeleceu-se, por muito tempo, como território predominantemente masculino. O debate acerca da boa vida e as concepções em torno de suas instituições subjacentes à filosofia e à teoria social eram, até há pouco, protagonizados por homens que se apresentavam como as vozes “neutras” e “objetivas” de nossas formulações teóricas. O que acontece quando quatro feministas se reúnem para debater suas questões em profundo diálogo com algumas das mais relevantes tendências teóricas contemporâneas – como a teoria crítica, o pós-estruturalismo e a psicanálise? É claro que não se poderia exigir dessa empreitada a homogeneidade e o consenso próprios da suposta “universalidade” com que se disfarçou a moderna racionalidade ocidental.

Debates feministas, publicado originalmente no início dos anos 1990 e só agora disponível em edição brasileira, não é somente um livro sobre teoria feminista (uma das lições implícitas é justamente a impossibilidade de se pensar tal concepção no singular). É um testemunho de que o abalo geral provocado pelo pensamento contemporâneo em concepções basilares como identidade, normas e cultura exige que sejam autorizados sujeitos de discurso até então silenciados para que a filosofia e a teoria social se dispam da falsa neutralidade e incorporem os ruídos do não-idêntico, da subversão e da diferença. Em seus debates, Seyla Benhabib, Judith Butler, Drucilla Cornell e Nancy Fraser buscam apontar o lugar dos discursos feministas nessa tarefa de reelaboração do pensamento filosófico e teórico – as quatro pensadoras já apareciam, juntamente a outras, em volume publicado no Brasil há um bom tempo (Seyla BENHABIB; Drucilla CORNELL, 1987). Leia Mais

Narradoras del Caribe hispano – CENTENO AÑESES (REF)

CENTENO AÑESES, Carmen. Narradoras del Caribe hispano. Río Piedras, Puerto Rico: Publicaciones Gaviota, 2018. 134 p. Resenha de: ORSANIC, Lúcia. Voces feministas y disidentes en el Caribe hispano. Revista Estududos Feministas, Florianópolis, v.27, n.2, 2019.

Los aportes intelectuales de Carmen Centeno Añeses han sido muy relevantes para la inserción de Puerto Rico en el mapa de la crítica literaria. Su fluidez tanto en el campo académico como de divulgación científica queda demostrada por una serie de publicaciones en terrenos diversos, que van desde libros de carácter académico y artículos en revistas especializadas hasta trabajos de índole ensayístico, mayormente publicados en periódicos puertorriqueños y cubanos. Pese a la variedad de los temas que ha abarcado a lo largo de su vasta trayectoria, la escritura de Centeno Añeses es coherente en cuanto a sus intereses: los derechos humanos en general y los derechos de las mujeres en particular, la descolonización de Puerto Rico, la importancia del ensayo puertorriqueño en materia de independencia, el lugar de las mujeres en la tradición ensayística local, los discursos patriarcales que han dominado la historia de la literatura y la crítica literaria, la educación, entre otros temas.

Su más reciente libro, Narradoras del Caribe hispano, dialoga en cierta medida con una publicación inmediatamente anterior, Intelectuales y ensayo (2017). En este sentido, Narradoras… podría ser visto como una continuación de su labor interpretativa desde una perspectiva feminista. Si entre los intelectuales que trataba en su obra anterior, Centeno Añeses había hecho hincapié en la importancia del ensayo femenino y feminista en Puerto Rico – a través de figuras como Nilita Vientós Gascón, Áurea María Sotomayor y Marta Ponte Alsina -, ahora se adentra en el análisis narratológico de una serie de escritoras caribeñas, extendiendo el hilo feminista que las (nos) une y reúne en torno a una serie de prácticas contrahegemónicas. Y aunque no aparece explícitamente el término sororidad en las páginas de las Narradoras…, Centeno Añeses deja entrever que eso es lo que la mueve, dando lugar a una polifonía femenina pero sobre todo feminista. Leia Mais

The Fetish Revisited: Marx/Freud/and the Gods Black People Make | J. Lorand Matory

A centralidade da obra de James Lorand Matory nos estudos afro-americanos não pode ser desconsiderada. Não apenas a textura teórica revela um joeiramento crítico profundo, com uma capacidade de reflexão eclética e hermenêutica, como a riqueza do seu conhecimento particular e diversificado das religiões do chamado Atlântico Negro tornam suas obras de leitura obrigatória a todos que se dedicam ao estudo das religiões dessa geografia. Em uma obra anterior, Matory já havia expressado a importância do espaço circum-atlântico na emergência do nacionalismo iorubano (Lagosian Renaissance).1 Nela evidencia o papel de determinadas famílias da elite afro-atlântica na constituição de um conjunto de valores, bens e serviços que promoveram a consolidação daquilo que a literatura designa por “supremacia nagô” ou “nagôcracia”, ao mesmo tempo que questiona a tradição cristalizada por Ruth Landes do matriarcado como padrão ortopráxico. Leia Mais

Um papel para a história: o problema da historicidade da ciência | Mauro Lúcio Leitão Condé

A produção acadêmica mostra a importância de que as teorias e as práticas científicas sejam investigadas à luz de seu desenvolvimento desde o passado, motivo pelo qual a história da ciência se instituiu como domínio autônomo do conhecimento. Construída em debate (e também embate) disciplinar com a história, a filosofia e a sociologia, a história da ciência tem proposto questionamentos teóricos, alguns respondidos de diferentes maneiras ao longo do tempo, outros ainda não totalmente solucionados. Produzir uma narrativa em história da ciência suscita problemas metodológicos e epistemológicos para o pesquisador. De um lado, a escolha das fontes e a adoção do referencial teórico podem gerar dificuldades práticas para o trabalho investigativo; de outro, o caráter histórico da constituição da ciência interroga a escrita da história da ciência. É nesse cenário que se insere o livro Um papel para a história: o problema da historicidade da ciência ( Condé, 2017 ). Leia Mais

Chronic disease in the twentieth century: a history | George Weisz

 

Resenhista

Luiz Alves Araújo Neto – Doutorando. Programa de Pós-graduação em História das Ciências e da Saúde/Fiocruz. orcid.org/0000-0001-7965-2957 E-mail: luizalvesan@hotmail.com


Referências desta Resenha

WEISZ, George. Chronic disease in the twentieth century: a history. Baltimore: Johns Hopkins University Press, 2014. Resenha de: ARAÚJO NETO, Luiz Alves. Muito além da transição epidemiológica: doenças crônicas no século XX. História, Ciência, Saúde-Manguinhos. Rio de Janeiro, v.26, n.1, jan./mar. 2019. Acessar publicação original [DR]

 

El estado de la ciencia: principales indicadores de ciencia y tecnología iberoamericanas/ interamericanas 2017 | Red de Indicadores de Ciencia y Tecnología – Iberoamericana e Interamericana

No ano em que completou 22 anos de trabalho, a Red de Indicadores de Ciencia y Tecnología – Iberoamericana e Interamericana (Ricyt) publicou a edição de 2017 de El estado de la ciencia . Editado em espanhol, o relatório é publicado anualmente desde 2000 e representa o esforço conjunto dos países em compilar e sistematizar os dados da ciência e tecnologia (C&T) da região. Inclui indicadores comparativos de investimentos, recursos humanos, publicações e patentes, além de estudos sobre a ciência regional. Publicado em formato eletrônico, está disponível para acesso livre em: <www.ricyt.org/publicaciones>.

A edição de 2017 reúne informações estatísticas de 2006 a 2015 e estudos sobre a situação atual e tendências da ciência, tecnologia e inovação na Ibero-América. Os indicadores são apresentados no primeiro capítulo, “O estado da ciência em imagens”, já tradicional no relatório. Elaborados com base em dados de organismos nacionais, da Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico (OCDE) e do Instituto de Estatísticas da Unesco, os indicadores revelam as dinâmicas da C&T na região em relação ao contexto global. Compreendem dados econômicos, de investimentos e recursos humanos, além de contagens da produção científica dos países. Leia Mais

Escritos de liberdade: literatos negros/racismo e cidadania no Brasil oitocentista | Ana Flávia Magalhães Pinto

Anualmente, o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) divulga dados a respeito das desigualdades por cor no país. Em tempos de “pós-verdade”, de ataque às instituições de pesquisa, de fake news divulgadas por fontes duvidosas, de convicções rápidas e não fundamentadas, mas que recebem status de verdades absolutas, é sempre bom lembrar que a desinformação oculta a forma como as desigualdades de hoje se vinculam às de ontem. De acordo com os dados disponibilizados pelo IBGE em 2019, os negros (soma de pretos e pardos) tornaram-se 55,8% da população brasileira. Entretanto, as pessoas brancas permanecem recebendo os salários mais elevados, continuam sendo majoritárias entre o ocupantes dos cargos gerenciais e seguem tendo as taxas mais elevadas de frequência escolar em todas as idades.1 Leia Mais

O reino do encruzo: história e memória das práticas de pajelança no Maranhão (1946-1988) | Raimundo Inácio Souza Araújo

O livro de autoria de Raimundo Inácio Souza Araújo, professor do Colégio de Aplicação da Universidade Federal do Maranhão, apresenta-nos, de uma maneira sensível e respeitosa, as práticas culturais associadas à pajelança no Maranhão, dando visibilidade às transformações ocorridas com a intensificação do êxodo rural e com a pluralização do campo religioso, principalmente com a chegada da prelazia católica e dos evangélicos de viés neopentecostal no município de Pinheiro e em outros municípios maranhenses, avessos aos entrecruzamentos e trânsitos culturais que marcavam as religiosidades locais. Com uma narrativa rica de significados, o livro é um convite à reflexão sobre (in)tolerância religiosa no contexto contemporâneo e ao ato de narrar o outro a partir da negatividade, a exemplo do catolicismo e do (neo)pentecostalismo, interpretações cristãs que viam nas práticas de pajelança crenças e costumes que deveriam ser abandonados.

A pajelança emerge nas 288 páginas do livro como uma manifestação cultural que integra o complexo religioso afro-maranhense, marcado por um regime de entrecruzamentos que dialoga com o tambor de mina, o catolicismo popular, o espiritismo e as práticas curativas. O pajé insurge textualmente como uma autoridade no plano dos cuidados terapêuticos, incluindo a realização de partos no meio rural, num período histórico marcado pela ausência de médicos na cidade e no campo, territórios pontilhados pela presença de curandeiros e seus unguentos, permeando as sensibilidades e sociabilidades do tecido rural-urbano e sua interface com os ritos lúdico-religiosos. A gramática musical está por toda parte, desde os sons dos tambores, as ladainhas, as cantigas e as doutrinas que convocam os encantados, incorporando-se inicialmente no pajé e, depois, nos demais filhos do terreiro. O estado de transe, a voz alterada e a performance desenham o corpo dos incorporados e contribuem para a construção da teatralidade da festa. Leia Mais

Laborers and Enslaved Workers: Experiences in Common in the Making of Rio de Janeiro’s Working Class/1850–1920 | Marcelo Badaró Mattos

A versão em inglês do livro de Marcelo Badaró Mattos é um feito da história social brasileira em seu notável esforço de reconhecimento de excelência internacional.1 Debruçado sobre contexto específico – a cidade do Rio de Janeiro entre a segunda metade do século XIX e as primeiras décadas do século XX –, o livro prossegue com a proposta de E. P. Thompson de derrubar as muralhas separadoras da história da agitação da classe trabalhadora da história cultural e intelectual do resto da nação (como está afirmado na Formação da classe trabalhadora inglesa, em seu prefácio). Como resultado, Mattos protagoniza um momento característico da historiografia brasileira, que é o foco na coexistência de trabalhadores livres e libertos, trabalhadores escravizados, ou não-livres. (Ou, simplesmente, trabalhadores.) Ao considerar a classe como processo e como uma relação – e não como um dado da estrutura social –, Mattos esclarece ser infrutífero voltar atrás no tempo apenas em busca de experiências de trabalhadores livres. Leia Mais

Formas de liberdade: gratidão/condicionalidade e incertezas no mundo escravista nas Américas | Jonis Freire, María Verónica Secreto

O livro aqui resenhado reúne textos de especialistas de diferentes países a respeito da experiência da escravidão e da liberdade na América Latina e Caribe. Com alguma variação de abordagem, estilo e perspectiva, os trabalhos transitam entre a história social e a micro-história, explorando uma rica documentação de natureza administrativa, eclesiástica, legislativa, judiciária e notarial. O livro é composto por nove capítulos que se estendem espacialmente pelo Caribe francês, por diferentes regiões da América hispânica, de norte a sul do continente, e pelo Brasil, concentrando-se de modo preponderante nos séculos XVIII e XIX. Alguns são escritos em espanhol, outros em português. Leia Mais

The War Within: new perspectives on the civil war in Mozambique/1976-1992 | Eric Mourier-Genoud, Michel Cahen, Domingos M. Rosário

Uma característica trágica compartilhada pela história nacional de alguns países africanos é a emergência de conflitos militares dentro de suas próprias fronteiras que, via de regra, estão marcados por uma combinação variável de fatores e atores internos e externos – de um lado, a explosão de tensões e clivagens sociais que o regime político implantado após a independência não foi capaz de resolver, e em alguns casos agravou; de outro, a incidência de interesses econômicos e geoestratégicos que condicionaram a participação de outros Estados, empresas multinacionais e órgãos multilaterais. Na década de 1960, essa dinâmica alimentou conflagrações sangrentas no Congo-Léopoldville, nos Camarões e na Nigéria; após a independência dos territórios africanos submetidos à dominação portuguesa, Angola e Moçambique viram seus nomes incluídos nessa malfadada lista. Em Moçambique, diferente de Angola, a hegemonia política e militar do novo regime demorou alguns anos a ser seriamente desafiada. Embora tenha havido uma resistência armada localizada na Zambézia desde 1976, foi a partir do início da década seguinte que uma situação de guerra interna se generalizou, prolongando-se até 1992, quando foi assinado o Acordo Geral de Paz. Leia Mais

Working the System: a Political Ethnography of the New Angola | Jon Schubert

A produção etnográfica publicada sobre Angola, já pouco expressiva durante o período colonial,1 declinou nas últimas décadas do século XX devido à situação política do país. Após sua independência em novembro de 1975, Angola enfrentou uma guerra civil até 2002. Esta findou com a morte de Jonas Savimbi, líder da UNITA (União Nacional para a Independência Total de Angola), movimento de guerrilha que questionou durante quase três décadas a legitimidade do governo exercido pelo MPLA (Movimento Popular de Libertação de Angola) a partir de Luanda. Ao contexto de guerra somou-se a (auto)censura no que diz respeito à discussão pública de questões políticas e sociais, mais um empecilho à realização de trabalhos de campo no país.2 Finda a guerra, o desafio da “reconstrução nacional” deu-se em meio às expectativas de melhoria de vida colocadas pela paz, visto Angola ter-se tornado, com Nigéria e África do Sul, uma das três principais economias da África Subsaariana. Foi nesse cenário de expansão econômica ancorada na exploração do petróleo, mas com poucos benefícios para a população em geral, que se realizaram as etnografias mais recentes sobre Angola, a maioria sobre Luanda. Contudo, embora alguns artigos tenham resultado desse esforço, poucas investigações etnográficas extensivas foram publicadas nos últimos anos.3 Working the System: a Political Ethnography of the New Angola, de Jon Schubert, é, portanto, uma importante contribuição para o campo de estudos angolanista. Leia Mais

Efemérides Cariocas | Neusa Fernandes e Olínio Gomes Coelho

Os Editores

A resenha do livro Efemérides Cariocas, de autoria de Neusa Fernandes e Olínio Gomes P. Coelho (Rio de Janeiro: Edição dos Autores, 2016), publicada por Adelto Gonçalves em seu blogue, a 7 de fevereiro de 2019, sob o título “Para se conhecer a história do Rio de Janeiro”, é reproduzida a seguir com autorização do autor dada a Neusa Fernandes, por e-mail, em 7 de março de 2019.

Efemérides Cariocas, dos historiadores Neusa Fernandes e Olinio Gomes P. Coelho, reúne principais fatos que ocorreram ao longo dos 451 anos da Cidade Maravilhosa e que merecem ser conhecidos. Leia Mais

História do Rio de Janeiro em 45 objetos | Paul Knauss, Isabel Lenzi e Mariz Malta

Com o advento do universo digital, a história dos objetos materiais, também metaforicamente designada como história tangível, é uma das muitas áreas, entre tantas, cada vez mais desprezadas das Humanidades. Como fonte de conhecimento, a história tangível apresenta vantagens e desvantagens. A principal virtude dos artefatos do passado é a relativa ausência de preconceito intencional e o seu maior grau de autenticidade. Por outro lado, o passado que se descortina nos objetos e fragmentos é de âmbito restrito e não têm vida própria, eles precisam dos relatos, das reminiscências e principalmente, das narrativas dos historiadores. Relíquias e artefatos materiais do passado também sofrem maior desgaste do que fontes impressas. Impressos podem disseminar- -se de modo irrestrito, mas artefatos físicos sofrem desgaste constante, logo se tornam irreconhecíveis nos tempos presentes e, não raro – reforçando aquela nossa crescente vocação pelo descarte – acabam no limbo dos refugos da história. Leia Mais

O Rio de Janeiro entre conquistadores e comerciantes: Manoel Nascentes Pinto (1672-1731) e a fundação da freguesia de Santa Rita | João Carlos Nara Júnior

O novo livro escrito pelo historiador, arqueólogo, arquiteto e urbanista João Carlos Nara Júnior é o resultado de uma brilhante e inédita investigação, que traz à luz uma história do Rio de Janeiro setecentista ainda esquecida: a da fundação da freguesia de Santa Rita. Sobre essa lacuna na historiografia do Rio de Janeiro colonial, o também historiador Carlos Eugênio Líbano Soares adverte, em texto de sua autoria publicado na quarta capa da obra, que “a academia preguiçosamente reluta em iluminar”. Entretanto, ao contrário do recorrente esquecimento acadêmico, o pesquisador e especialista nos estudos sobre a igreja de Santa Rita, João Carlos Nara Jr., com a competência que lhe é característica, reluta para que a história dessa freguesia não siga silenciada nas gavetas dos arquivos. O mérito do autor é incontestável. Essa publicação, portanto, representa um avanço para que essa grave falha historiográfica seja, finalmente, compensada.

Em vista disso, o autor dotado da perspicácia do bom historiador, da sensibilidade do arquiteto, da habilidade do urbanista e da intuição do arqueólogo, reabilita uma história fascinante, que percorre desde os primórdios históricos da criação do antigo bairro da Vila Verde, ainda nas primeiras décadas do século XVII, até alcançar a fundação da freguesia de Santa Rita em meados do século XVIII. A fim de realizar essa investigação de fôlego, João Carlos Nara Jr. constrói sua pesquisa a partir de um surpreendente conjunto de fontes, que permite recuperar os traços biográficos da família Nascentes Pinto e do seu fundador, o patriarca, fidalgo português e oficial alfandegário Manoel Nascentes Pinto (1672-1731). Dessa forma, respaldado por expressivo corpus documental, alude sobre outros aspectos que foram igualmente relevantes no contexto histórico daquele século. Leia Mais

O Reino/ a Colônia e o Poder: o governo Lorena na capitania de São Paulo – 1788- 1797 | Adelto Gonçalves

I

O Reino, a Colônia e o Poder: o governo Lorena na capitania de São Paulo – 1788-1797, recente livro de Adelto Gonçalves – editado em 2019, pela Imprensa Oficial do Estado de São Paulo –, já nasceu como importante marco da historiografia colonial brasileira e, especialmente, da paulista.

Adelto, como bom paulista e bandeirante intelectual, fincou seu marco de puro cristalino no território histórico colonial de São Paulo. O autor exibe sua peculiar habilidade de escrever com clareza um texto profundamente rico de conteúdo, baseado em vasta pesquisa documental e de leitura de textos consagrados de outros autores que trataram do tema desse livro. Leia Mais