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O Brasil imperial | Keila Grinberg e Ricardo Salles

Esses três volumes dividem a história da monarquia brasileira em três fases distintas: 1808-1831, 1831-1870 e 1870-1889; ou seja, da transferência da Corte portuguesa à abdicação do primeiro imperador; da Regência até o fim da Guerra do Paraguai; e deste conflito até a queda da monarquia. Cada volume é composto por onze capítulos, escritos, individualmente ou em colaboração, por 36 historiadores.

Coleções são, notoriamente, difíceis de organizar. Os colegas, com frequência, têm dificuldade de cumprir prazos ou hesitam em aceitar sugestões e correções. Os resultados, amiúde, variam consideravelmente de capítulo a capítulo. Essa coleção de três volumes é, contudo, excepcionalmente sólida, pelo alto nível geral de conhecimento que apresenta, por sua abrangência e pela clareza da escrita e, como José Murilo de Carvalho observa em sua elegante introdução, expressiva das conquistas do país na última ou nas duas últimas gerações. A coleção pode ser considerada uma celebração da maneira como a história do Brasil tem sido escrita e ensinada nesse período. As referências bastam para tornar os volumes indispensáveis, tanto para o graduado quanto para o profissional da área. O estilo e a abordagem são, muitas vezes, tão convidativos que também o leigo poderá se beneficiar. Embora fique evidente que Grinberg e Salles não exerceram uma coordenação autoritária (abordagens, extensões e graus de sucesso variados sugerem que se limitaram a selecionar colegas e tópicos), eles devem ser felicitados e reconhecidos por esse triunfo ímpar na historiografia.

São dois os precedentes desses volumes. A imprescindível série A história geral da civilização brasileira, organizada por Sérgio Buarque de Hollanda e, depois, por Boris Fausto, durante os anos 1960 e 1970; e os magistrais capítulos sobre o Brasil na Cambridge History of Latin America [CHLA], composta em grande parte na década de 1980 (sendo que as contribuições mais recentes foram feitas ainda em 2008) e organizada por Leslie Bethell. A primeira foi escrita por especialistas brasileiros e americanos como uma narrativa tanto para leigos quanto para acadêmicos, com um mínimo de referências. A segunda fornece análises densas e narrativas sintéticas, feitas por especialistas de três continentes. Sua linguagem sugere que foi escrita para acadêmicos ou graduados, e, embora careça seriamente de referências, cada capítulo é reforçado por um ensaio bibliográfico bastante útil, que abrange as pesquisas em todos os idiomas indispensáveis. A coleção em mãos difere de ambos os precedentes. Com uma exceção, Dale Tomich, todos os autores são brasileiros. Alguns dos textos são fundamentados tanto em fontes primárias quanto em bibliografia, e todas elas recebem notas (não há bibliografia no final dos capítulos). Muitos dos autores, assim como os da CHLA, sintetizam e colocam referências somente nas fontes bibliográficas; na verdade, muitos dos trabalhos citados são os mais recentes na área e estão em teses e dissertações não-publicadas. Lamentavelmente, há, reiteradas vezes, espantosas lacunas nas citações. Referências a importantes contribuições em inglês variam de autor para autor; mas, com frequência, estão ausentes ou desiguais, e, com muita frequência, trabalhos mais antigos escritos em qualquer idioma são negligenciados. Em geral, esta poderia ser definida como uma coleção feita por e para acadêmicos brasileiros dessa geração e da anterior, com ênfase na pesquisa realizada nesse período.

Dos três volumes, o primeiro e o terceiro são os mais irregulares em termos de qualidade. No primeiro, podem-se considerar problemáticos o segundo capítulo e os capítulos de quatro a sete, por várias razões. O capítulo de Iara Schiavinetto sobre o período joanino apresenta escassa narrativa sobre a época e poucas evidências para seus argumentos. Em vez disso, a autora pressupõe um público erudito e enfatiza as expressões culturais e simbólicas. O texto de Gladys Ribeiro e Vantuil Pereira sobre o Primeiro Reinado negligencia as ligações entre líderes políticos e seguidores populares, não faz distinção entre os interesses e as ações dos vários elementos que compõem as massas e, no fundo, tende a confundir pessoas de cor, libertos e filhos de escravos em argumentações que se esforçam para persuadir o leitor quanto à agência popular. O ensaio de Patrícia Sampaio sobre política indigenista é surpreendentemente decepcionante; um estudo de relatórios ministeriais que presta pouca atenção ao que aconteceu na realidade concreta. O capítulo sobre tráfico de escravos, escrito por Beatriz Mamigonian, é ambicioso, até por suas conclusões provocativas e problemáticas em um ponto ou outro. Seja como for, suas novas proposições (de que o tráfico esteve sujeito a intensos ataques jurídicos, os quais impactaram a escravatura e os próprios africanos) são apenas expostas, e não satisfatoriamente demonstradas. Por fim, o capítulo sobre rebeliões de escravos pré-1850, escrito por Keila Grinberg, Magno Borges e Ricardo Salles, fornece um estudo e uma bibliografia úteis. Ainda assim, o argumento (de que as rebeliões e a violenta resistência dos cativos eram o aspecto distintivo do regime escravista, as quais impunham temor e pânico generalizados sobre os livres) fundamenta-se em evidências problemáticas e, por vezes, contestadas por fatos comprovados (por exemplo, a primazia da resistência pela fuga e por quilombos, a reduzida dimensão e o caráter efêmero das revoltas, suas seguidas repressões e, sobretudo, o êxito e a expansão do sistema escravista em todas as regiões e classes sociais).

A maior parte do volume, contudo, é bem mais consistente. O primeiro capítulo, uma introdução de Cecília Helena Oliveira para todo o período, é uma síntese sólida, que expõe a narrativa e os argumentos com destreza. Falta-lhe apenas uma melhor análise sobre as bases regionais e socioeconômicas por trás da divisão política da época. O capítulo de Piedade Grinberg sobre arte e arquitetura é uma apresentação culta e instrutiva, com notas explicativas e referências úteis. Embora ele já seja bastante proveitoso, seria bem-vindo alguém capaz de estender sua abordagem para os possíveis paralelos com escolas literárias e outras instituições de inspiração francesa, tais como o Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, o Colégio Dom Pedro II e também o papel de mecenas do monarca. O capítulo de Lúcia Maria Bastos P. das Neves sobre o Estado e a política na época da Independência faz hábil uso de fontes coevas em um percurso muito bem sucedido pela historiografia, ao qual se segue uma análise útil e, por vezes, revisionista, da narrativa. O capítulo de Eduardo França Paiva sobre Minas no século XIX é um estudo magistral, um tour de force que utiliza as pesquisas mais recentes para ressaltar a importância racial, demográfica e de desenvolvimento da província – é uma pena que ele não aplica o mesmo esforço para fazer as relações com a história política do período. Gabriela Ferreira compensa essa negligência, tão comum nestes capítulos, em seu engenhoso texto sobre a história diplomática no Prata. A autora fornece um relato útil e necessário sobre a consolidação do Estado entre 1837 e a década de 1850 e utiliza essa análise como estrutura indispensável para sua síntese narrativa. Fundamentado tanto em clássicos quanto em trabalhos recentes, este é um estudo que não para de surpreender e informar. Por fim, o capítulo de Guilherme Pereira das Neves, sobre a religião na monarquia, conclui o volume com um estudo amplo e útil, contextualizando a história da Igreja com um uso erudito de fontes em diversos idiomas e criteriosas referências a debates parlamentares. Só se poderia desejar que o autor houvesse tido espaço para aprofundar o tema da maçonaria ou a questão dos bispos, depois de tê-los apresentado.

O segundo volume é, no geral, o mais consistente. É verdade que o capítulo introdutório de Ilmar Rohloff de Mattos não aprimora muito seu clássico estudo sobre o período. Fazendo referência a uma bibliografia ampla e seletiva, sem o benefício da pesquisa de arquivo, sua análise digressiva evoca O tempo saquarema, frequentemente citado em outras partes por seus colegas, no qual se confunde a monarquia, o Estado e as classes dirigentes, sem uma clara noção do processo, da articulação ou das distinções partidárias, tão importantes na tentativa de compreender esse complexo passado. O estudo de Magda Ricci sobre a Cabanagem pode ser mais bem recomendado, se bem que com hesitação. A autora não apresenta nenhuma pesquisa de arquivo e presume que o leitor está familiarizado com a narrativa – os que desconhecem o assunto talvez ficarão confusos. No entanto, sua síntese de uma ampla gama de trabalhos apresenta a mais devastadora das revoltas regenciais, geralmente ignorada ou desconhecida por muitos de nós, e suas citações de obras relativamente obscuras da historiografia amazônica são úteis. O capítulo de Jaime Rodrigues acerca do fim do comércio atlântico de escravos é surpreendente, devido à erudição do autor. Ele pressupõe que o debate central permanece no tema das motivações britânicas versus motivações nacionais e geralmente ignora a contenda mais atual, que aponta como causas a agência escrava e a febre amarela. Embora forneça uma fascinante história intelectual da polêmica e da crítica parlamentar ao tráfico, ele o faz sem atentar ao seu impacto sobre a decisão de terminar o tráfico, às opiniões daqueles que realmente tomaram esta decisão ou à história política, essencial para compreender o contexto desta decisão. Por fim, o capítulo de Márcia Gonçalves sobre o Romantismo pode ser considerado como uma oportunidade perdida. É um trabalho sobre os conceitos fundamentais da escola e pressupõe um interesse na análise teórica de tais conceitos e um conhecimento do período e de suas figuras literárias. Há uma excelente bibliografia sobre os temas abordados e sobre autores canônicos brasileiros. No entanto, não há preocupação em mostrar como a sensibilidade e os literatos românticos se encaixavam no meio literário, social e político da época. Na verdade, a chance de demonstrar a relação entre a alta cultura e os interesses de outros historiadores – ou até mesmo dos leitores – foi perdida.

Outros capítulos são verdadeiramente valiosos. Nenhum período é mais importante ou seminal para a história da monarquia que a Regência, e a introdução de Marcelo Basile a esse período é deveras admirável, devido à sua clareza e maestria, beneficiando-se da ótima pesquisa, tanto de fontes primárias quanto de bibliografia. Embora seja preciso notar que ele negligencia a questão crucial do impacto socioeconômico no início da formação dos partidos, deve-se recomendar este texto bastante sólido e provido de úteis notas explicativas. O texto de Sandra Pesavento sobre os farroupilhas inclui uma útil narrativa, embora a necessária análise contextual da revolta seja atrapalhada, aqui e ali, por hipóteses e conclusões equivocadas. Estas são bem menos relevantes que a provocativa investigação que a autora faz da construção literária e historiográfica da identidade e do imaginário gaúchos e de sua importância. O capítulo de K. Grinberg sobre a Sabinada também tem valor evidente. Pode-se discordar da autora em algumas passagens, quanto a fatos e interpretações, mas o texto é, em si, útil por seu caráter provocativo e pela centralidade das questões que apresenta. Ela usa essa destacada revolta para ilustrar como o debate sobre discriminação racial veio à tona e depois foi suprimido na década de 1830. Ao fazê-lo, discute explicitamente os aspectos raciais do movimento, a oposição que lhe fez Antônio Rebouças e as carreiras deste e de Sabino. Embora a autora procure se concentrar na questão da raça, sua bela pesquisa mostra que os fatores políticos, de classe e de carreira se entrelaçam com o fator racial consistentemente. De fato, as generalizações políticas e raciais que ela sugere nem sempre se ajustam com a carreira de Rebouças ou com as de Justiano José Rocha, Francisco Otaviano, Aureliano e Paula Brito. O texto de Vitor Izecksohn sobre a Guerra do Paraguai faz um sólido resumo da guerra e fornece uma excelente bibliografia. Além das várias linhas de pesquisa cuidadosamente sugeridas na conclusão, outras são indicadas pela bem elaborada análise política: qual foi o impacto da guerra na política doméstica em termos de reforma urbana e dificuldades financeiras? Qual foi a base dos temores do gabinete quanto à mobilização política entre liberais e veteranos depois de 1870? A conclusão de Ivana Lima para o volume dedica-se ao tópico aparentemente pouco auspicioso da língua nacional. Ainda assim, por mobilizar uma gama impressionante de bibliografia e textos coevos publicados, pode-se considerá-la muito útil para se pensar a formação cultural multiétnica, os aspectos culturais da sociabilização e o seu impacto político e as intenções políticas da cultura literária e o uso da língua. Por exemplo, a autora mostra a intenção senhorial de usar a língua para manter a hierarquia social, mas também demonstra os usos da língua para inclusão dos subalternos e para a mobilidade social. É uma introdução cuidadosa e atraente a um tópico que a maioria de nós ignora.

Dois capítulos deste volume são especialmente admiráveis por suas contribuições: o capítulo de Marcus Carvalho sobre movimentos sociais pernambucanos e a análise de Rafael Marquese e Dale Tomich sobre a produção cafeeira do Vale do Paraíba no contexto mundial. Nenhuma província era mais atingida pela instabilidade e pela violência que Pernambuco naquele período. Nenhuma era mais importante para compreender o significado nacional tanto da Regência quanto do Regresso. A análise de Marcus Carvalho aborda todas essas questões em uma mostra singular e impressionante do ofício do historiador. É exemplar por sua habilidosa conjugação de uma vasta gama de fontes de arquivo com bibliografia; por sua atenção à interação entre classes e cores de pele e entre a província e a Corte; e pela clareza de sua exposição. Modelo de como lidar com os complicados elementos em jogo na política e nas revoltas provinciais do início da monarquia, o artigo demonstra quão indispensável a história social é para a história política, a história política é para a social, e quão crucial a apreciação das contingências e das especificidades de tempo e lugar é para a compreensão e o encadeamento dos processos políticos. É invejável o evidente domínio de Carvalho sobre as questões no plano empírico e na historiografia; espera-se ansiosamente o dia em que forem feitas análises similares sobre todas as províncias do Império. Marquese e Tomich, em uma notável demonstração que combina um extraordinário entendimento das tendências gerais a uma atenção focada no detalhe local, colocam em contexto a emergência das plantações de café escravistas, em uma síntese magnífica, baseada em uma fundamentação historiográfica excepcionalmente extensa. Seu vigor específico provém da maneira pela qual insere as exportações do café brasileiro no contexto global, expondo, sem dificuldade, números e análises acerca do mercado do produto, da competição e da relação de ambos com o cultivo e a mão-de-obra no Brasil. Com excelentes números e preocupação com a cronologia, essa dupla ilustra, de forma ousada, os fatores vários que permitiram que o Brasil se lançasse à frente de rivais contemporâneos, como as ilhas caribenhas e Java. Mais que isso, a escrita e a organização dos autores é feita de tal modo, que aquilo que muitos de nós julgamos ser o aspecto mais desalentador da história torna-se dramático.

Como no primeiro volume, as contribuições do terceiro tendem a se agrupar em dois extremos – o dos problemáticos e o dos impressionantes. O texto introdutório de Hebe Mattos sobre raça, escravidão e política, por exemplo, focaliza as três principais leis abolicionistas de 1850, 1871 e 1888, mas se esquiva da complexidade da história política com generalizações simplificadas sobre a classe dominante e o reformismo desprezado e com a afirmação insatisfatória de que cada lei foi, em grande medida, resultado da mobilização dos escravos. O ensaio de Margarida Neves sobre o Rio é inesperado, baseado em uma considerável bibliografia sobre as exposições universais e, na maior parte, as impressões de Koseritz. A bibliografia sobre o Rio ou sobre a história urbana do final do século XIX é, em geral, ignorada, exceto pelos trabalhos de Chalhoub. Não há nada sobre assuntos como a dramática transformação demográfica da cidade, o declínio do escravismo, a nova opulência e as amenidades da era pós-1850, a economia que girava em torno da cidade, a infraestrutura que a sustentava ou os estilos arquitetônicos que a adornavam, o surgimento dos novos bairros elegantes, o impacto qualitativo e quantitativo das doenças contagiosas. O capítulo de João Klug sobre a imigração para o sul também não satisfaz. É menos uma síntese competente que uma tentativa fracassada de construir uma narrativa triunfalista. Preocupa-se quando o autor supõe que a política de Estado ou que a classe dirigente da nação não mudaram com as décadas, e, embora ele presuma que há uma lógica racial na imigração europeia, não faz qualquer tentativa de atrelar as mudanças na política de imigração às mudanças na política atinente ao tráfico de escravos africano e à escravidão. Por fim, o relato de Maria Helena Machado sobre a abolição da escravatura é igualmente decepcionante. A exemplar pesquisa de arquivo sobre eventos locais paulistas é maravilhosa, mas nota-se que a autora geralmente deixa de lado as fontes coevas abolicionistas publicadas e a tradição acadêmica sobre o movimento abolicionista para privilegiar o argumento de que as rebeliões escravas e o medo por elas espalhado impulsionaram o abolicionismo. Suas evidências são demasiado seletivas e, às vezes, podem ser lidas de modo bem diferente do que ela propõe. E, embora o próprio texto indique algo sobre a importância dos abolicionistas na fuga e na resistência dos escravos rurais, ela insiste em argumentar que os líderes abolicionistas eram marginais até 1888. Na verdade, a autora só menciona o movimento abolicionista uma única vez e, apesar de seu enfoque na desestabilização rural paulista nos anos 1880, ela se refere apenas de passagem a Antonio Bento. A agência escrava dos escravos é crucial para o entendimento tanto da escravidão quanto da abolição no Brasil, mas não há motivos para ignorar as realidades políticas nacionais ou a natureza do movimento nacional que, com êxito, se envolveu com essas realidades, promoveu e organizou a fuga e a resistência na década de 1880 e fez um uso político astuto e efetivo do impacto da agência escrava.

Há trabalhos bem mais interessantes nos outros capítulos do volume. Veja-se, por exemplo, o convincente relato de Martha Abreu e Larissa Viana sobre cultura urbana afro-brasileira. Bem escrito e envolvente, é resultado de uma persuasiva síntese da bibliografia atual e dos valiosos registros do Arquivo Geral da Cidade do Rio de Janeiro. Pode-se perguntar, devido à pesquisa das autoras, por que elas ainda se sentiram compelidas a impor uma identidade “negra” a-histórica e uma política cultural consciente sobre os afro-brasileiros pobres. Afinal, essa imposição é, muitas vezes, contrariada pela especificidade e complexidade dos fatos que eles mesmos apresentam tão bem. Identidade negra, comunidade negra e comunidades e festividades negras são concepções post-facto com que eles cobrem uma realidade muito mais complexa – as variadas etnias africanas, a crioulização, a miscigenação racial, o hibridismo cultural e as metamorfoses nas festividades, o oportunismo, além da exploração, que eles detalham tão bem. O relato de Renato Lemos sobre republicanismo e o golpe de 1889 é uma síntese bastante útil e bem organizada de uma bibliografia considerável e variada. Apenas se poderia esperar que sua hábil análise se demorasse um pouco mais na ideologia e no papel crucial dos republicanos positivistas, no fracasso do reformismo democrático e agrário dos abolicionistas e nas divisões e recuos dos partidos tradicionais. Contudo, o artigo deve ser recomendado por sua discussão acerca da dissidência, da alienação e da politização dos militares – excepcional pela minúcia e clareza.

Os capítulos restantes são ainda mais consistentes, dois deles em particular. Embora se possa discordar da compreensão de Salles sobre a história dos saquaremas e da crise de 1871, deve-se recomendar a maior parte deste capítulo sem hesitação. Bem concebido e escrito, o texto faz uso de uma criteriosa seleção de bibliografia e de fontes primárias publicadas para fornecer um sofisticado tratamento da história política de meados do século e das figuras que o dominaram, com evidente conhecimento sobre o crucial contexto socioeconômico. Talvez um estudo mais rigoroso das fontes de arquivo e dos debates de 1871 pudesse explicar como e porque os saquaremas condenaram a Conciliação e pudesse fazer a clara distinção entre as políticas e a perspectiva do imperador e as dos saquaremas. Não obstante, esse é um trabalho notável e uma excelente base para um debate proveitoso. O texto de Ângela Alonso sobre as ideias e as correntes da Geração de 1870 é indispensável por vários motivos. Baseado em uma leitura cuidadosa de bibliografia e fontes coevas publicadas, é uma análise rica e original que requer (e recompensa a) leitura atenta, pois trata, com esmero, de influências, autores e preocupações. O artigo destaca o ponto crucial da adaptação do pensamento atlântico feita pelos intelectuais brasileiros e o papel decisivo que estes desempenharam como atores políticos engajados (e não como intelectuais descompromissados). A autora também esclarece que eles deixaram um importante legado, enfatizando a missão civilizatória do pensamento social e a ideia seminal de que as massas da nação eram um singular amálgama de três raças. De modo geral, o capítulo é fortemente recomendável. Mas, devido à ênfase no ativismo político, o leitor é surpreendido pela implícita decisão da autora por separar a história política da intelectual ao tratar da primeira sem a costurar com a segunda, na maioria das vezes. Isso pode explicar alguns deslizes: o artigo não aborda de modo satisfatório a natureza ou influência duradoura do radicalismo liberal pré-1870; afirma que o regime possuía uma ideologia aristocrática e católica, em contradição com as verdadeiras ideologias e políticas da monarquia; e seu foco sobre o positivismo e seus militantes é irresoluto, apesar da importância destes sobre os republicanos, sobre a queda do regime e sobre o regime seguinte.

Os capítulos remanescentes também são altamente recomendáveis. O texto de Maria Luiza Oliveira sobre São Paulo é exemplar; escrito com grande empatia e destreza, combina um estudo magistral sobre as abordagens e tendências da historiografia com um esboço útil da natureza, do ritmo e da direção das mudanças urbanas que transformaram São Paulo de centro intelectual provincial em núcleo agroexportador emergente. As referências indicam domínio dos clássicos e selecionam textos acadêmicos inéditos; a autora emprega, engenhosamente, fontes de arquivo para provar pontos específicos. Instrutivo e inspirador em todos os aspectos, o artigo é uma realização invejável. O mesmo talvez possa ser dito sobre o agradável ensaio de Leonardo Pereira sobre a literatura do período. Bem escrito, é um texto lúcido, que se vale da literatura e do célebre dito de Machado de Assis sobre o “instinto nacional” para traçar os meios pelos quais a literatura e os literatos pós-1870 se engajaram na transformação da política e da sociedade. Aqui encontramos um hábil tratamento da teoria literária coeva, das obras literárias e do meio político e social, além de uma demonstração competente de como esses aspectos se relacionavam. O leitor pode apenas imaginar o que um acadêmico tão talentoso haveria feito se sua tarefa houvesse sido estendida até o divisor de águas literário dos anos 1850, durante os quais tanto Alencar quanto Machado se formaram. Ainda que o uso das fontes primárias seja exemplar, o leitor fica intrigado com a decisão do autor em citar apenas textos bibliográficos selecionadas e muito recentes – o que surpreende, sobretudo, quando se leva em conta a grande força da história e da interpretação literárias brasileiras e brasilianistas ao longo das gerações. Por fim, José Augusto Pádua nos fornece um estudo bem sucedido sobre a história e o pensamento ambiental do período. Dominando as fontes e a bibliografia imprescindíveis, as quais ele discute com destreza, essa é uma contribuição revigorante e provocativa que sugere, implícita ou explicitamente, inúmeras possibilidades para pesquisas ulteriores nesse campo relativamente novo. Seria desejável, por exemplo, que o autor houvesse enfatizado com maior vigor o impacto da oposição (ou da indiferença) do Estado e das classes dominantes às críticas concernentes à natureza do modelo de desenvolvimento rural do Brasil. Como no caso dos abolicionistas até a década de 1880, brasileiros que se opunham ao modelo de produção agro-exportadora insustentável eram marginalizados, não importando quão proeminente fossem pessoalmente. Tudo isso faz o leitor relembrar algo que a obra clássica de Emília Viotti da Costa sobre a abolição da escravatura deixou evidente. Não é a ausência ou a presença de ideias esclarecidas o que explica práticas ruins em um período e práticas boas em outro. Mas, sim, as alterações favoráveis nas circunstâncias materiais e políticas.

A resenha de uma coleção desse porte pode ser comparada a um convite para um bufê de amigos. É preciso provar os diversos pratos e emitir uma opinião; felizmente, está claro que a maioria dos pratos aqui degustados é excelente ou, pelo menos, que vale a pena experimentá-los, apesar de uma ou duas objeções. Talvez agora o convidado possa notar que faltaram alguns pratos que ele gostaria que houvessem sido servidos – apenas para fazer algumas sugestões de pesquisas futuras para todos nós.

Faz sentido haver capítulos sobre o Rio, a capital nacional, e sobre o café e o Vale do Paraíba; também faz sentido haver um capítulo sobre Minas, devido à sua importância política, econômica e demográfica; sobre Pernambuco, dada a sua constante importância política e econômica, e sobre São Paulo, cuja primeira emergência no cenário econômico ocorre sob a monarquia e cuja proeminência ulterior no país chama atenção. Pode-se perguntar, porém, pela ausência de capítulos sobre Salvador e a Província da Bahia, pela falta de um capítulo sobre o açúcar ou pela ausência de um capítulo sobre a Amazônia.

Afinal, Salvador foi a segunda cidade do império ao longo do período e a Bahia foi economicamente significativa e politicamente crucial durante toda a monarquia. O açúcar, mesmo que sua exportação e participação no mercado internacional tenham recuado na época, dominou as exportações no início do período que os três volumes discutem e continuou sendo um item de exportação regional muito importante no nordeste e na baixada fluminense durante a monarquia. Embora comentários sobre isso estejam espalhados pelos volumes, um capítulo sobre a ascensão e o declínio do produto, com uma análise das várias consequências, seria, por certo, útil. Quanto à Amazônia, embora o capítulo sobre a Cabanagem tenha sido uma excelente ideia, o esquecimento no qual Belém, Manaus e a Amazônia caem logo na sequência da trilogia é lamentável. Embora o mesmo possa ser dito sobre o Rio Grande do Sul depois do capítulo sobre a revolta farroupilha, a importância econômica e política da província gaúcha pelo menos é abordada no capítulo sobre a diplomacia platina. O mesmo não pode ser dito sobre o norte; a antologia negligencia sua história após o início dos anos 1840. Ainda que a política de Estado tenha focalizado e se dedicado a outras áreas, ela demonstrou um esporádico, mas crescente interesse na região pelo menos a partir de meados do século. A Província do Amazonas data desta época, quando as marcas do ciclo da borracha, que atingiu seu pico por volta do ano 1900, começaram a se definir; além disso, toda a região é um interessante campo para conflitos diplomáticos, expansão da infraestrutura, penetração econômica e política indigenista. Embora o desdobramento de grande parte desses eventos ocorra um pouco mais tarde (1890-1914), sua preparação tem atraído e deve atrair maior interesse.

Outra lacuna se refere a uma atenção séria e constante ao pensamento econômico e às políticas financeiras sob a monarquia, com ênfase em uma escrita que seja acessível àqueles que não têm noções sobre economia. Tradicionalmente, historiadores do desenvolvimento e das finanças do Brasil asseveram que o século XIX foi significativo para o que aconteceu ou não aconteceu e por quê. Mais que isso, a monarquia é a época em que foram feitos avanços cruciais na infraestrutura e na qual o dramático incremento na produção, no comércio, nas comunicações e nos investimentos da nação ocasionou a inovação e o debate na política financeira e nas instituições. De fato, dívidas internacionais, demandas e crises atlânticas modelaram a política dos gabinetes e o debate parlamentar a partir dos anos 1850, com crescente importância e impacto doméstico desde a época da Guerra do Paraguai até a era do reformismo urbano e do abolicionismo. Sem dúvidas, esses assuntos solicitam nossa atenção.

Jeffrey D. Needell – Professor de História Brasileira no Departamento de História da Universidade da Flórida (College of Liberal Arts and Sciences/ UF – Flórida/EUA) e Professor Afiliado do Centro de Estudos Latino-Americanos (UF – Flórida/EUA). E-mail: jneedell@history.ufl.edu


GRINBERG, Keila; SALLES, Ricardo (Orgs.). O Brasil imperial. 3 Vols. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2010. Resenha de: NEEDELL, Jeffrey D. Uma celebração da História Imperial do Brasil. Tradução da resenha: LUCIANI, Fernanda Trindade. Almanack, Guarulhos, n.2, p. 160-167, jul./dez., 2011.

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Fordlândia: ascensão e queda da cidade esquecida de Henry Ford na selva – GRANDIN (A)

GRANDIN, Greg. Fordlândia: ascensão e queda da cidade esquecida de Henry Ford na selva. Trad. Nivaldo Montingelli Jr. Rio de Janeiro: Rocco, 2010. Resenha de: COLACIOS, Roger Domenech. Antítese, v. 4, n. 8, jul./dez. 2011.

Lançado em português em 2010 “Fordlândia: ascensão e queda da cidade esquecida de Henry Ford na selva” do historiador norte-americano Greg Grandin pode ser considerada uma obra de fôlego. O autor utiliza a coleção de documentos dos Arquivos da Ford e uma bibliografia de apoio, num livro que conta com 23 capítulos e epilogo em pouco mais de 360 páginas. O empreendimento de Ford na Amazônia, trazendo a cultura e a tecnologia dos Estados Unidos para a floresta é retratado em vários ângulos e temas, desde aspectos sociais e políticos, até detalhes da vida cotidiana dos trabalhadores da cidade e uma extensa biografia de Henry Ford, que, aliás, toma conta de grande parte do livro. Em 1928, a Ford Motor Company inicia os trabalhos de construção da plantação de seringueiras no Brasil, marcando o começo de enormes desafios e de uma relação ambígua entre os brasileiros, a floresta e seus novos “conquistadores”: a tecnologia e os homens de Ford. O percurso de quase duas décadas girou em torno de corrupção, ignorância, desmatamentos, enganos, queimadas, lazer, trabalho, revoltas, padronização, recomeços, fungos e insetos, militares, política, e acima de tudo, quase nenhuma borracha produzida. Com o intuito de garantir a autossuficiência de borracha para os carros que produzia e se livrar das imposições de um premente cartel liderado pelos ingleses do produto, Ford deu inicio a uma plantação de seringueiras, e o local escolhido foi o berço destas árvores e décadas antes o maior produtor do mundo de látex, a Amazônia brasileira. Mais do que isto, devido a experiência de Ford nos EUA em reconstruir ou mesmo construir cidades no estilo tradicional norte-americano, o industrial pretendia trazer o progresso ao recriar a “América” na Amazônia. A crença na tecnologia, desde que útil para o ser humano, levou Ford a compreender a Amazônia como um espaço para colocar em prática sua missão civilizadora, tornando aquilo que enxergava como uma terra miserável e de gente bárbara, na origem de uma nova cultura na floresta. Ou melhor, de sua cultura, a “América” tradicional. Ao longo do livro Ford é mostrado por Grandin como um homem que não poderia ser descrito como um simples industrial. Dono de uma opinião política e social, por vezes antissemita, adepto do conservadorismo, ao mesmo tempo em que promovia a modernização do mundo, Ford era uma pessoa contraditória nos ideais, girando em torno de noções superficiais do mundo, mesmo assim movendo em sua órbita uma multidão e comandando os rumos da companhia com mão de ferro. Avesso a qualquer tipo de controle sobre as indústrias, seja de cunho governamental ou dos pares capitalistas, Ford não abriu a empresa ao capital financeiro, mantendo-a longe de Wall Street, e também não fazia parcerias com outras indústrias, não procurava o monopólio sobre determinado produto, apesar de controlar a produção de matérias-primas e peças de forma exclusiva para seus carros. Os trabalhadores das fábricas eram mantidos na linha, não somente de montagem, mas pela regularização e vigilância da vida cotidiana, como os hábitos alimentares e de higiene. Proibiu o quanto pode a formação de sindicatos, até mesmo com o uso de violência, e mesmo assim pagava os maiores salários dos EUA, o famoso “Dia de Cinco Dólares”. Manipulava gerentes e administradores, controlando as decisões e lhes dando prêmios pelo bom trabalho executado. O Fordismo significou não apenas um sistema industrial, fechado no modo de produção, mas todo um conjunto de regras de conduta e uma forma de vida, que incutia nos funcionários e que tentava transformar o mundo. Mas a Amazônia era outro mundo. Segundo a posição adotada por Greg Grandin, a Fordlândia foi o fruto de uma “conspiração” com vários atores incluídos, principalmente, Jorge Dumont Villares, sobrinho de Santos Dumont, que sabendo do interesse de Ford em montar um plantação de seringueira, tratou de organizar um esquema de corrupção, fraude e estelionato, com a intenção de vender terras, gratuitas por lei, para a companhia de Ford. O esquema de Villares envolvia políticos, diplomatas e funcionários do alto escalão da fábrica. Todos fisgaram Ford não pela lucratividade do empreendimento, mas sim por sua filosofia de levar a modernização para todo o planeta, convencendo-o que poderia mudar o quadro social e econômico da Amazônia devastada pelo fim da hegemonia como maior produtora de borracha. Ford procurava aquilo que Grandin definiu como “um novo espaço de liberdade”, onde poderia recomeçar seus sonhos e utopias. No ano de 1927 os reveses políticos e sociais no cenário norte-americano (mesmo que sua fábrica liderasse as vendas de carros e houvesse a estabilidade dos preços da borracha no mercado mundial) deu força a “conspiração” amazônica e o projeto foi autorizado, colocando toda a reputação de Ford em jogo. Villares e seus parceiros vendem as terras, com a ajuda do governo do Pará e a Companhia de Ford obtêm a concessão para a exploração total dos recursos naturais, além da borracha, e também isenção dos impostos. Um fato que viria a tona anos depois e provocaria um escândalo nacional e internacional, manchando a reputação de Ford no Brasil.

Deste momento em diante, Ford e a Fordlândia se viram em meio a diversos tipos de desafios e dificuldades, obtendo pouco sucesso e grande fracasso. Dois tipos de problemas se sobressaem na análise de Grandin, o caráter social e o natural da empreitada amazônica do industrial norte-americano. O autor expõe a origem destes problemas da seguinte maneira: a narrativa não está restrita à Amazônia, mas constantemente direciona o leitor até Michigan, na fábrica de Ford, ou nas vilas que construiu em locais estratégicos para a obtenção de matérias-primas. A relação é constante ao longo do livro, com comparações entre o ambiente amazônico e o da região de Ford, seja no aspecto natural ou então urbano. Revelando desta forma a experiência dos homens que trabalhavam para a fábrica e as expectativas daquilo que iriam encontrar no Brasil, o que se mostrou diverso e até mesmo incompreensível para eles. O maquinário, para a devastação da floresta e preparo da cidade e plantação, foi levado dos EUA para o Brasil por navios da Companhia, junto com os homens de confiança selecionados para a administração da cidade. Assim, um misto de trabalhadores brasileiros e gerentes norte-americanos formou a força de trabalho da Fordlândia. Um processo de adaptação que marcou toda a trajetória da cidade-plantação, revelando o conjunto de fragilidades. Por um lado, os norte-americanos procurava instituir entre os funcionários nativos a filosofia do fordismo, com a adequação das normas de higiene e saúde, alimentação e vestuário que agradavam a Ford. De outro lado, o caráter sazonal do trabalho na Amazônia, levava os nativos a permanecerem pouco tempo na Fordlândia, mesmo com os altos salários (em relação ao restante da Amazônia, mas longe dos cinco dólares diários pagos aos trabalhadores nos EUA), que logo voltavam para as famílias, sem contar o problema com a bebida e a prostituição que logo rondaram a cidade de Ford. Quando depois de alguns anos os gerentes conseguiram manter os trabalhadores regularmente na cidade, instruí-los quanto à dinâmica do trabalho fabril se tornou outro desafio, que gerou uma revolta em 1930, destruindo toda a cidade e expulsando momentaneamente os norte-americanos de suas casas. Ações trabalhistas e formação de sindicatos também deram a tônica das relações entre os nativos e os norte-americanos na plantação. A natureza tampouco ajudava. Promotor de uma junção entre indústria e agricultura, Ford acreditava que poderia demonstrar o uso racional da natureza e a pratica industrial na Amazônia. Porém, o desconhecimento dos norte-americanos do ambiente que os circundavam e a inexperiência em plantar seringueiras as tornou alvo das pragas e insetos, os mesmos que acabaram com a economia da borracha na região décadas antes. A ajuda de um especialista, James R. Weir, acabou por se tornar desastrosa, pois por sua sugestão abandonaram a Fordlândia, fundando outra cidade, Belterra, dando continuidade as práticas de plantação que favoreciam a disseminação dos fungos e insetos nas seringueiras. O resultado foi a baixa produtividade das árvores e até mesmo a devastação de muitos hectares. A técnica de enxerto foi utilizada e até aperfeiçoada para o fortalecimento das seringueiras, mas a forma da plantação, colocando as árvores próximas, continuava tornando o combate às pragas uma luta constante e dispendiosa. A plantação se tornou inviável, acumulando prejuízos desde sua fundação em 1928. Sendo vendida ao governo brasileiro em 1945, pelo valor das indenizações a serem pagas aos trabalhadores nativos. A missão civilizadora de Ford foi encerrada pelas mãos de seu neto Henry Ford II, que assumira a empresa, e também pela própria filosofia do industrial que cada vez mais se enterrava num passado bucólico do meio rural norte-americano. O livro de Greg Grandin tem seus méritos. Soube costurar uma trama trazendo para o leitor diversos aspectos da vida de Ford e seu ideário. O retrato do industrial no livro é de um homem marcado pelas contradições, traçando um Ford por vezes inocente e influenciável por sua própria fama. Mostrou também um fato, a possibilidade de se escrever a História do Brasil com uma bibliografia predominantemente estrangeira, utilizando poucos referenciais da historiografia brasileira. O autor coloca a Amazônia na rota do capitalismo do inicio do século XX e revela todo o jogo político e os interesses brasileiros na permanência de Ford no país. A narrativa de Grandin, porém, comete alguns excessos. O autor apresenta uma extensa biografia de Henry Ford, esquecendo-se por vezes da Fordlândia ou mesmo a tornando um objeto de segundo plano. Apesar das fontes primárias serem vastas, provenientes dos arquivos da Ford, o autor carece do olhar crítico para entender os documentos, compreendendo como verdades as informações contidas em cartas, correspondências internas e os diários dos norte-americanos, além das entrevistas com os sobreviventes em que leva ao pé da letra as palavras dos entrevistados. Em vários trechos podemos encontrar a descrição de sentimentos, sensações, beirando a ficção literária, inteiramente baseada nos diários e em obras de escritores que passaram pela região da Fordlândia, isso quando algumas passagens ficam sem referências, ou seja, deixando a dúvida se seriam frutos da imaginação de Grandin. Além disso, temos descrições de fatos e acontecimentos históricos que fogem inteiramente da proposta do livro, mas que ocupam páginas e páginas, desviando o leitor da temática. O autor apresenta algumas informações erradas, como a do escritor José Maria Ferreira de Castro, que indica ser brasileiro e, na verdade, é português, e também o nome de H. Kahn que não é Herbert, mas Hermann. Isto sem contar as repetições da mesma descrição sobre um determinado ator, como Henry Wickham que toda a vez que citado, Grandin escreve que ele roubou as sementes de seringueira do Brasil, ou Santos Dumont, que aparece algumas vezes para ser taxado em todas como o “homem que os brasileiros acreditam ser o inventor do avião”. Ford nunca veio ao Brasil conhecer as terras, apesar do apelo incessante dos brasileiros e convites de governantes. Mas ele não precisava vir para a Amazônia, sua marca e presença poderiam ser encontradas em qualquer lugar do país, nas ruas, nos carros, nos jornais ou na caixa d’agua da cidade que construiu.

Roger Domenech Colacios – Doutorando em História Social pelo Programa de Pós-Graduação do Departamento de História da Universidade de São Paulo (FFLCH/USP). Orientado pela Profa. Dra. Maria Amelia Mascarenhas Dantes. Bolsista FAPESP.

Writing and Empire in Tacitus | Dylan Sailor

Públio Cornélio Tácito é reconhecido hoje como um dos maiores historiadores do Principado. Considerando Ronald Haithwaite Martin [157] e Fábio Joly podemos afirmar que, ao pensarmos sobre vida e obra de Tácito, percebemos que sua obra histórica abarca o relato sobre as duas primeiras dinastias – dos Júlio-Claudianos e dos Flavianos – e a guerra civil de 69. Além de obras do gênero histórico, Tácito escreveu outras obras – Germânia, Agrícola e, possivelmente, Diálogo dos Oradores – e exerceu uma gama de cargos políticos dentro do Principado, entre eles estãoo de questor em Roma, no ano 81, e de procurador na Germânia, ainda no mesmo ano. Suas obras teriam sido compostas nos principados de Domiciano, Nerva e Trajano. Martin destaca ainda que os escritos de Tácito foram de grande importância e influência para os autores de século III e para os epitomadores dos séculos IV e V.

É na busca pela delimitação do estilo tacitista de escrita que Dylan Sailor compõe a obra Writing and Empire in Tacitus. Nesse livro o autor tenta mostrar como as obras e o estilo de Tácito são frutos de seu tempo e de sua carreira. Para isso , ao analisar as obras de Tácito, Sailor mostra como se desenvolvia a produção literária no Principado, não somente no tempo de Tácito, mas comparando com outros momentos da história do Principado, como quando remete a Sêneca e a outros autores citados nas próprias obras deTácito. É perceptível que, seguramente, a obra de Sailor segue a mesma linha de Sir Ronald Syme (Tacitus, 1958), em que credita o estilo de escrita de Tácito à carreira política e ao tempo em que escreveu. E que se contrapõe a O’ Gorman (Irony and Misreading in the Annals of Tacitus. Cambridge University Press, 2000) e Haynes (The history of make-believe: Tacitus on Imperial Rome. University of California Press, 2003) que creditariam o estilo taciteano a uma tradição em Roma, abalando o vínculo entre Tácito, sua obra e a realidade mais imediata. Evidentemente, para esses dois autores, Tácito estaria mais próximo de Tito Lívio, enquanto, para Syme e Sailor, um bom marco comparativo seria Salústio. Notoriamente, podemos ver que a opção tomada por Sailor parece mais adequada ao analisar a obra taciteana. Porém, ao contrário de Salústio, Tácito é envolto pelo regime imperial. Um regime que oprime por vezes a liberdade de se escrever o que pensa. A obra de Sailor aborda, de maneira muito enfática e convincente, que não é possível analisar as obras de Tácito sem conseguir enxergar o contexto de sua carreira, de sua obra literária e de sua vida social nas entre linhas de suas obras historiográficas.

O livro é dividido em seis capítulos: “Introdução”, “Autonomia, autoridade e representação do passado sob o Principado”, “Agrícola e a crise de representação”, “Os encargos de Histórias”, “Em outros lugares de Roma”, “Tácito e Cremutio” e “Conclusão: conhecendo Tácito”. O autor constrói a sua obra mostrando como podemos distinguir o autor, do político e do homem aristocrata nas obras de Tácito.

A opção de Sailor por iniciar o livro com um capítulo focando os conceitos sobre os quais ele debate ao longo de sua obra parece ser a estratégia mais adequada. Isso porque nesse capítulo o autor discute justamente o caminho pelo qual seguirão seus argumentosao longo de sua obra. O autor começa o capítulo introdutório “Autonomia, autoridade e representação do passado sob o Principado” se indagando sobre a possibilidade de Tácito ter criticado tão claramente a hipocrisia do Principado – do qual fez parte como deixa claro sua extensa carreira política. Nesse capítulo percebe-se que é indispensável, para Sailor, termos em mente que, para os romanos, era essencial a separação entre o autor e a voz narrativa da obra.

Esse primeiro capítulo nos permite entender que, para Sailor (assim como para Ronald Syme) somente foi possível a Tácito exercitar esse distanciamento entre a pessoa e a obra porque ele eraa membro de uma elite de origem provincial. Segundo Sailor, as obras no mundo romano tinham várias funções, mas a principal seria se tornar um monumentum tanto para o presente quanto para a posteridade, sendo algo perdurável, simbólico com intenção de se tornar permanente. É a obra que dava peso ao nome do autor e lhe propiciava a noção de “grande dever” cumprido. Sailor apresenta nesse capítulo a ideia, que defende em toda em sua obra, de que Tácito, por estar presente no principado, não age apenas como um simples escritor, mas também como um agente social nesse meio. Essa ideia apresentada por Sailor, de que o historiador também é um agente social é bem interessante, e também se adéqua a outras personalidades do mundo romano que também registraram seus posicionamentos sobre o poder enquanto estavam dentro das estruturas de poder.

Os demais capítulos seguem a mesma linha de raciocínio, porém, é notório que o autor não aborda as questões conceituais como abordara no primeiro, tornando assim o capítulo inicial de mais relevância à obra. No segundo capítulo, intitulado “Agrícola e a crise de representação”, o autor comenta sobre o monopólio por parte da casa imperial dos triunfos militares e sobre como era perigoso se destacar à frente do Imperador. Essa crise das representações gera um processos de exageração das vitórias ou até mesmo a fabricação dessas. A partir das narrativas de Tácito, Sailor interpreta que Agrícola teria achado uma alternativa para esse processo, reconciliando realidade e representação. De acordo com Sailor, em certa medida a obra Agrícola, de Tácito, [158] se preocupa tanto com a representação quanto com o restabelecimento da verdade, ligada à negação do triunfo à Agrícola. Desse ponto, surgem duas questões. Se é negado à elite e à não-elite as honras pelo triunfo, o que as diferenciam? Se não existe mais o mérito pela honra, o que poderia motivar os membros da sociedade romana a se esforçarem pelo Império? Um dos pontos tocados pelo autor é a questão da virtude. Nesse momento do Império, qual seria o caminho para os homens ilustres mostrarem suas virtudes? Em uma seção do capítulo, Sailor apresenta como era fácil em outros tempos apresentar as virtudes para sociedade, e como era possível produzir esta noção de representação de modo claro.

No terceiro capítulo “Os encargos de Histórias”, Sailor diferencia os objetivos e o estilo de Agrícola e das Histórias. Sailor demonstra como ambas obras trazem a tona problemas políticos, mas em Agrícola, Tácito visa a enaltecer a memória de seu sogro em contraposição ao antagonista, Domiciano. Segundo a análise de Sailor, em Histórias pode se notar um amadurecimento de Tácito ao comentar sobre a tirania que foi se formando, até culminar no desfecho de Domiciano/Agrícola. Sailor aponta como a história da escrita de Tácito se confunde com a história política de Roma por mostrar as mudanças institucionais do Império e as reviravoltas que mudaram os poderes dentro da sociedade. Ao mesmo tempo, Tácito descreve a relação entre o historiador e o príncipe. Para Sailor, Tácito realizaria uma história da historiografia para explicar os motivos da escrita de seu livro.

Primeiramente, Tácito aponta a mudança de poder quanto à escrita da história que, a partir da batalha de Actium, esteve condicionada a uma pessoa: o príncipe. E que, após isso, as histórias estiveram condicionadas a analisarem as res gestae deste homem. A partir da instauração do principado há uma troca da eloquentia e libertas, comuns na escrita da história antes da batalha de Actium, pelo servilismo que passa existir em relação ao imperador. Outro ponto que o autor levanta é que as biografias realizadas até então foram presas à adulatio. Parece sensato destacar um ponto bem abordado por Sailor: nas Histórias, Tácito se livra da relação de poder entre súditos e imperador (caracterizada por uma relação de servilismo) removendo a figura de Trajano do prefácio. Assim, pode a Tácito ser configurada uma liberdade, que a meu ver é o grande diferencial de Tácito para os demais autores da era imperial.

No quarto capítulo “Em outros lugares de Roma”, o autor discute a relação que existe entre a história escrita por Tácito, o regime do Principado, a cidade de Roma, e os demais componentes do Império. Para isso, Sailor analisa o uso da semiótica presente na obra de Tácito contrapondo, princeps a súditos, escravos a senhores, romanos a estrangeiros. O texto mostra como era a relação do princeps com a monumentalidade da cidade de Roma através de passagem que mostra obras erguidas por imperadores. Sailor mostra como Tácito trabalha com a crise da semiótica durante o período de Guerra Civil e que possibilita que os romanos matem uns aos outros. Esse, a meu ver, é o capítulo que Sailor tenta tirar Tácito de seu contexto político e o leva para o contexto social do Império. Sailor mostra nesse capítulo como o historiador latino se relacionava com os costumes dos antepassados e como os comparava com os do seu presente. É certo, pela obra de Sailor, identificar a inquietação de Tácito ao exercer uma reflexão sobre seu tempo.

No quinto capítulo “Tácito e Cremutio”, Sailor aponta para a dificuldade de recepção das obras de Tácito em seu tempo. Valendo-se de uma análise da obra Anais, de Tácito, demonstra os perigos existentes em se escrever tal tipo de obra, e os recursos utilizados para demonstrar tal fato. Para Sailor, diante de tal contexto, a obra Anais serve para nos convencer de todas as dificuldades que rondavam a escrita do historiador, e o risco destas obras despertarem desconfiança ou indiferença no contexto imperial. O que Sailor aponta é que Tácito, através do exemplo de Cremutio, expõe que escrever sobre o Principado era perigoso para o historiador, e que mesmo falando de imperadores mortos (mesmo de uma linhagem já morta!) continuava sendo perigoso tanto para a obra quanto para o autor. Esse capítulo faz um contraponto com o primeiro, quando discute a questão do mártir. Sailor chega à conclusão de que a obra Anais é perigosa porque ajuda os leitores da época a entenderem a natureza dos príncipes e os meios de tirar vantagem deles.

Em “Conclusão: conhecendo Tácito”, o autor fecha com duas ideias em torno do programático e da representação, que se cruzam constantemente na historiografia taciteana. A primeira, sobre a representação do papel do historiador e da história dentro da História, e, a segunda, das relações históricas de atores para obras do passado ou o futuro da história. Tácito, de acordo com Sailor, buscaria mostrar a finalidade de sua obra apresentando a representação do Império, da cidade ou até mesmo do julgamento de Cremutio. Por outro lado, não se abstém de uma discussão programática de seu ofício inserindo o leitor no contexto político que cerca a escrita de sua obra. O que Sailor aponta com esses dois elementos é que a obra de Tácito apresenta como escrever história poderia ser um modo de vida. A obra de Tácito teria permitido a ele se mostrar em um meio público e ao mesmo tempo indicar como o historiador latino se postava contra a ordem de poder existente.

Faço ainda duas ponderações sobre a obra de Sailor. A primeira é que, mesmo abordando grandes obras como Agrícola, Histórias e Anais o autor se abstém de uma análise de outras duas obras taciteanas: Germânia e Diálogo dos Oradores. Essas duas obras poderiam fundamentar ainda mais a tese dele, já que a primeira trata justamente do período em que Tácito esteve inserido como parte operante da política romana e que a segunda trata de uma reflexão sobre a oratória em seu tempo (ainda que sua autoria siga em debate). Nesse mesmo ponto, é visível que o autor se concentra por demais na análise de Vida de Agrícola e História, o que empobreceu a análise sobre Anais, obra com a mesma importância que as duas anteriores. A segunda ponderação, é que, em muitos momentos de sua obra, Sailor não torna possível reconhecer que um conceito usado na análise de uma obra se estende às demais. Por exemplo, se a mesma noção de virtude em Agrícola está presente em Anais. Ele consegue deixari bem clara a ideia de que todas as obras de Tácito são marcadas pela ambiguidade (porque o Principado é ambíguo), masdeixa obscuro se as demais ideias seriam percepctíveis em todas obras. Apesar disso, não vejodúvidas sobre o grande valor que a obra de Sailor traz aos pesquisadores de história antiga e de historiografia porcontribuir gerando uma bem fundada interpretação da escrita de Tácito

Notas

157. CF. MARTIN, R.H. Tacitus. In: Hornblower, Simon and Spawforth, Antony (Ed.). The Oxford classical dictionary. 3. ed. Oxford: Oxford University Press, 1996, p. 1469-1471.

158. Agrícola – obra de cunho biográfico que Tácito teria composto em louvor ao sogro ao qual o Imperador Domiciano teria o negado o triunfo pelas campanhas na Bretanha.

Willian Mancini – Mestrando pela Universidade Federal de Ouro Preto. E-mail: willianmancini@yahoo.com.br


SAILOR, Dylan. Writing and Empire in Tacitus. Cambridge: Cambridge University Press, 2008. Resenha de: MANCINI, Willian. Alétheia – Revista de Estudos sobre Antiguidade e Medievo. Jaguarão, v.2, n.2, p.129-132, jul./dez., 2011.

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Nzinga Mbandi: mulher, guerra e escravidão | Selma Pantoja

O livro Nzinga Mbandi: mulher, guerra e escravidão de Selma Pantoja, atualmente professora da Universidade de Brasília, é originário da sua dissertação de mestrado, escrita no período de 1984 a 1987. Enfocando Angola do século XVII, evidencia um pioneirismo, já que é uma das primeiras obras sobre história da África com autoria de uma intelectual brasileira, tornando-se item obrigatório nas estantes dos estudiosos sobre o assunto. Entretanto, a obra também declara o silêncio que envolve, ainda na atualidade, as temáticas sobre africanidades. É bem verdade que nos últimos vinte anos muito se fez no Brasil nesse campo de saber. O fomento aos estudos africanos é recorrente em estados como São Paulo, Rio de Janeiro, Minas Gerais e Bahia. No restante do país, os trabalhos sobre África engatinham, tendo muito ainda por fazer, tanto nos campos relacionados à história da escravidão – que, muitas vezes, enxerga o negro apenas como escravo, esquecendo que existe um universo muito maior –, quanto nos estudos culturais, muito freqüentados pelos historiadores brasileiros, mas que, por vezes, renegam nossas africanidades.

A obra de Pantoja historiciza de forma empolgante e intrigante para o leitor que, a cada capítulo, quer descobrir mais sobre a vida de uma mulher, da rainha Nzinga Mbandi, referida pela historiografia africana, segundo Marina de Mello e Souza, [1] como a primeira angolana que resiste à dominação portuguesa. Nascendo por volta de 1582 no Ndongo Oriental, filha de Jinga Mbandi Ngola Kiluanji, rei do Ndongo, e de uma escrava Imbundo, Guenguela Cacombe, Nzinga foi preparada para liderar por seu pai, recebendo os princípios de uma educação religiosa e práticas que diziam respeito aos Jagas e aos Imbundos, sendo que a parte Imbundo de sua progênie advinha de sua mãe por herança de seu tataravô. Ou seja, Nzinga não possuía matrilinhagem, [2] o que dificultava sua ascensão ao poder. Contudo, se manteve como líder principal dos reinos de Ndongo e Matamba, articulando com diferentes exércitos empreitadas bélicas contra os portugueses e possuindo traquejo diplomático para corroborar seus propósitos por, pelo menos, cinquenta anos. Essas e outras averiguações estão presentes no decorrer dos capítulos da obra. Por ora, seguimos com uma sucinta descrição dos caracteres mais importantes que compõe a obra de Selma Pantoja, para que possamos ter uma visão geral do livro.

No primeiro capítulo intitulado “A historiografia e o Universo Negro-Africano”, Selma Pantoja vai abordar de forma explicativa apontamentos sobre os estudos relacionados à África e a escravidão africana e atlântica, diferenciando-as e trazendo importantes discussões presentes na historiografia inglesa e francesa. O capítulo de número dois, “Os povos e sociedades da região da África Central Ocidental”, enfoca o predomínio dos povos de língua banto, situados ao norte do rio Zambese, na região de interesse da autora, ou na África Central-litorânea, que compreende além de outros territórios, Congo e Angola. Ainda argumenta sobre as importantes atividades na África Central inseridas pelos bantos, como a agricultura e metalurgia, além do esforço em deslindar algo por demais complexo: as linhas de parentesco e competitividade exercidas na África Central. Esse item é basilar, porém de difícil compreensão para quem recém inicia os estudos sobre África devido à abundância de informações, expostas tanto em fontes primárias quanto pelos autores que trabalham com a temática e ainda não possuem um consenso sobre essa informação, que permite compreender uma tradição e um sistema político engendrado em relações familiares, tornando o entendimento das sucessões dos chefes locais possível.

O título “Angola: aspectos do mundo natural” elucida o terceiro capítulo. Com ele conhecemos um pouco dos caminhos fluviais e oceânicos que escoavam o comércio na região de Angola. Enfatizamos que nos reinos de Ndongo e Matamba, liderados pela Nzinga Mbandi que esteve sempre na mira dos canhões portugueses, se localizava regionalmente como fundamental para que os lusos ampliassem seu domínio escravista. Congo e Luanda estavam em poder dos lusos e, sem adentrar ao território liderado por Nzinga Mbandi, o acesso a outros locais da região Central africana era muito dificultoso. Como uma continuação da temática, o capítulo quatro sugere a leitura sobre “Os Mbundo”, revelando a trajetória desse povo como ligada diretamente aos bantos, e como formadores de diversas confederações ou estados, com variadas organizações políticas. Um exemplo dessas formações é o Ndongo, onde nasceu Nzinga. Ainda no capítulo quatro temos uma descrição das diferentes funções e títulos existentes no Ndongo, Matamba e adjacências, como Ngola (rei), Ngolambole (comandante de guerra), Muenequizoile (responsável pela alimentação dos convidados), além da contextualização histórica do período de liderança de Nzinga, fator que vai embasar a leitura dos próximos capítulos.

São reservadas às análises derivadas da parte central do livro – mais precisamente, o capítulo cinco, “Africanos e portugueses no comércio e escravidão” – os primeiros contatos dos Mbundo com os portugueses, em 1540, até as investidas contra o Ndongo, que permitem entender as manobras políticas, a disseminação de um sentimento anti-português na região, além da articulação para a utilização de dupla linhagem, Mbundo e Jaga, para que Nzinga se mantivesse no poder. No capítulo seis – como o título já permite deduzir, “Nzinga Mbandi no poder” –, discute-se sobre o período de liderança dessa rainha, narrando-o com amplo respaldo documental. Pantoja vale-se de fontes documentais oriundas de arquivos portugueses e angolanos, literaturas de cronistas que estiveram na África Central Litorânea no século XVII e documentos avulsos, como cartas, alvarás, bulas papais, entre outros, para construir seus argumentos.

Por fim, o leitor se depara com a derrocada à resistência aos lusos de Ndongo e Matamba e com a morte da rainha africana. Na realidade, o que as fontes e Pantoja permitem crer é que Nzinga, já com idade avançada, estava debilitada e sem meios para resistir ao exército de Portugal. Essa rendição é associada em “A integração de Nzinga ao tráfico atlântico de escravos”, título do sétimo e último capítulo. Assim, com a velhice da rainha os portugueses finalmente conseguem adentrar em Matamba e plenamente no Ndongo. Entretanto, o nome de Nzinga Mbandi não passa despercebido pelas outras gerações que a sucedem. Ao contrário, nunca foi associado à derrota, exceto pelas fontes documentais escritas por portugueses que atrelam significados pejorativos à rainha em virtude de sua resistência às investidas que primavam pela dominação, seja comercial ou de catequização dos africanos.

Nzinga Mbandi é aclamada, ainda hoje, na África Central e está presente em diversos autos folclóricos brasileiros. Como descreve Câmara Cascudo, nas Congadas pelo nordeste do Brasil “aparece seu nome (Nzinga, Jinga ou Ginga) soberano, dispondo vidas, determinando guerras, vencendo sempre. Reaparece lembrando, não as campanhas contra os portugueses, mas as incursões militares aos sobatos vizinhos, régulos do Congo, Cariongo em Ambaca.” Selma Pantoja escreve sobre uma mulher, líder na África Centro Ocidental Litorânea, sobre uma personalidade que foi mitificada, atravessando os séculos e os oceanos, estando presente em diversas culturas.

A importância de buscar subsídios para o entendimento de quem foi essa mulher, essa rainha africana, comporta entender não só a África, mas também o Brasil. Nesse sentido se encontra a magnitude da obra de Pantoja, que persevera em lucidez intelectual escrevendo uma história que passa longe do tradicional, mobilizando fontes adequadas e ousando em analisar um objeto de estudo muito peculiar. Aproveitamos para comentar que o primeiro passo para uma maior produção intelectual no Brasil sobre a África, independente do objeto que se pretenda estudar, talvez seja admitir que os cativos não desembarcaram nas praias brasileiras sem memória. Eles trouxeram consigo um passado que continua nosso ou, como diria Roger Bastide, os “navios negreiros transportavam a bordo não somente homens, mulheres e crianças, mas ainda seus deuses, suas crenças e seu folclore.”[5]

O negro não se reinventa no Brasil, ao contrário, traz consigo elementos que aqui vão ser significados, hibridizados, construindo uma cultura. Também não reproduz no Brasil tudo que deixa nas suas terras de origem, tampouco os portugueses o fazem, mesmo estando em condição de senhores. Cerimônias, costumes e comportamentos foram modificados, re-significados, incorporando elementos dos portugueses e dos africanos que aqui já estavam. Como diria Alberto da Costa e Silva, no Brasil, “África deveria ser sinônimo de mãe-pátria”. [6] Com isso, pode-se evidenciar que o oceano Atlântico, fronteira entre Brasil e África, não é mais que um riacho, que pode ser atravessado com alguns passos.

Notas

1. SOUZA, Marina de Mello e. A Rainha Jinga – África Central, século XVII. Com ciência, 10 abr. 2008.

2. Alguns reinos africanos utilizavam para sucessão do trono quem estivesse apto por descendência, ou seja, por linhagens com uma particularidade, a linha de filiação deveria considerar a descendência pelas mulheres como ancestral comum ou matrilinhagem. Para informações mais completas sugerimos: THORNTON, John. Elite women in the kingdom of kongo: historical perspectives on women’s political power. Journal of African History, 47 (2006), p. 437–60.

4. CASCUDO, Luís da Câmara. Made in África, 5ª ed. São Paulo: Editora Global, 2003, p.39.

5. BASTIDE, Roger. As Américas negras. São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo, 1974, p. 26.

6. SILVA, Alberto da Costa e. Prefácio. In: PANTOJA, Selma. Nzinga Mbandi: mulher, guerra e escravidão. Brasília: Thesaurus, 2000, p. 13.

Priscilla Maria Weber – Graduada em História pela Universidade de Santa Cruz do Sul (UNISC). E-mail: priscilamariaweber@yahoo.com.br


PANTOJA, Selma. Nzinga Mbandi: mulher, guerra e escravidão. Brasília: Thesaurus, 2000. Resenha de: WEBER, Priscilla Maria. Nzinga Mbandi representada através da resistência ao domínio português. Cantareira. Niterói, n.15, jul./dez., 2011. Acessar publicação original [DR]

Mulher e Caribe: aproximações à problemática de gênero / Revista Brasileira do Caribe / 2011

O presente número monográfico da Revista Brasileira do Caribe incorpora uma variada e rica coletânea de artigos que oferecem reveladores aspectos sobre o Caribe desde a polêmica perspectiva do gênero. Assim, todos os artigos selecionados se encontram interconectados pelo vínculo de serem portadores de evidentes explorações sobre a temática da noção de gênero como uma concepção metodológica, epistemológica, multidefínivel, porque a realidade que estudam é ontologicamente diversa, e porque os que se aproximam a ela cognoscitivamente também o fazem com olhares diferentes. Empregar um enfoque de gênero significa aproximar-se às realidades sociais comprendendo que as mulheres e os homens não têm somente sexos biológicos, mas também estão dentro dos marcos e padrões construídos em sociedades historicamente concretas, que têm atribuído papéis determinados ao significado de ser homem e ser mulher.

Este fascículo nasce da necessidade de revelar múltiplos olhares inovadores sobre a autenticidade da construção de diferentes identidades sexuais e de gênero nos espaços caribenhos. Dessa forma, propiciamos a colaboração de especialistas de diversos âmbitos dentro das áreas, da Filologia, da História, da Sociologia, dos Estudos Culturais, com a finalidade de pesquisar e encontrar aspectos cruciais de uma organização social que sustenta este tipo de discriminação, oferecendo possíveis alternativas de ação pública para a resolução deste tipo de desigualdade. Daí deriva o valor inquestionável deste coletivo de estudos que reúne um importante grupo de autores de diferentes países e especialistas em diversas disciplinas. Estes pesquisadores oferecem novos e provocadores debates, enfoques e marcos teóricos que revelam valiosas aproximações para a historiografía, estimulando espaços inovadores em vários campos e perspectivas dos estudos caribenhos.

Os artigos se encontram organizados seguindo uma orden disciplinar e cronológica, ainda que esta não seja a única classificação possível. A primeira parte deste número especial, dedicada a Cuba, se inicia com um artigo de María Guadalupe Mercado Méndez no qual aparece uma interesante abordagem sobre o romance El siglo de las luces do escritor cubano Alejo Carpentier. No contexto histórico da Revolução Francesa, o relato centra-se em três jovens órfãos que foram prejudicados pela chegada de um comerciante francês que introduz em Havana os novos conhecimentos da ciência, da técnica e da filosofia. A personagem de Sofia, uma adolescente, revela a surpreendente construção do feminino na História, influenciada por uma forte presença de ideologias machistas.

O segundo artigo de Brígida M. Pastor, oferece uma reveladora interpretação de duas escritoras pioneiras na temática feminina e suas contribuições desde o exílio: María de las Mercedes Santa Cruz y Montalvo, Condesa de Merlín e Gertrudis Gómez de Avellaneda. Pastor expõe como no século XIX a mulher escritora enfrenta o dilema não somente de escrever, mas também de como escrever. Trata-se de um discurso que revela a ansiedade de autoria ou o grande dilema que vive na realidade, e sua necesidade de recorrer a uma série de estratégias com o propósito de construir e dar expressão a suas ideias emancipadoras.

A continuação Verena Berger presenta um estudo sobre a novela gráfica De sangre y ron mi Cuba (2010), do desenhista galego Fran Jaraba, e através de um enfoque histórico – a Guerra de Independência de Cuba (1895-1898)– faz uma revisão do fim do colonialismo espanhol no Caribe. O estudo de Berger aborda como Jaraba integra na sua novela a representação dos gêneros no médio popular que trata da violência da guerra.

Conrad James examina alguns dos assuntos políticos relacionados com a escritura de uma Cuba lésbica. Este estudo estabelece algumas das preocupações essenciais do florescente discurso lésbico forjado internamente e na diáspora, centrando-se na narrativa confessional de Sonia Rivera-Valdés, produzida nos Estados Unidos. James explora admiravelmente, desde as perspectivas das identidades lesbianas múltiplas, tanto o passado colonial de Cuba, como o governo de Castro e a reconstrução cultural dos últimos anos da década de 1990.

Carlos Uxó apresenta em seu artigo uma análise crítica da representação da mulher afro-cubana em cinco romances publicados em Cuba na primeira década do século XXI (Maldita danza de Alexis Díaz-Pimienta, 2002; Las criadas de La Habana de Pedro Pérez Sarduy, 2003; El harén de Oviedo, de Marta Rojas, 2004; Allegro de habaneras de Humberto Arenal, 2004; y Palimpsesto de José Antonio Martínez Coronel, 2008). Uxó convincentemente demonstra até que ponto estas novelas conseguem destacar a subalternidade na mais recente narrativa cubana.

O fascículo estende suas aproximações sobre a temática de gênero às regiões continentais do Caribe. O artigo de Daniel Noemí Voionmaá oferece uma abordagem sobre dois romances que acontecem na Zona do Canal, no Panamá: Canal Zone (1935), do equatoriano Demetrio Aguilera-Malta, e Luna verde (1950) do panamenho Joaquín Beleño. A análise incisiva de Voionmaa apresenta uma realidade marcada pelo cruzamento e transporte de capital, e de corpos excluídos por sua raça e gênero.

O artigo de Omar García Obregón tem sido incluído no dossiê pelas contribuições teóricas que podem ser extendidas ao Caribe. O autor oferece uma iluminadora exploração sobre a arte de narrar da escritora brasileira Nélida Piñón, em seu relato «I Love My Husband». García Obregón leva em consideração os aportes ensaísticos da escritora, para situar a mulher dentro de uma memória ancestral feminina que a autora explora para, através de atos paródicos, ir contra a normatividade de gênero num contexto patriarcal.

Outro artigo da autora Livia Maria Bastos Vivas aborda as problemáticas de gênero e de raça na Ilha Antiga, no contexto de domínio colonial com predomínio da atividade turística e do turismo sexual. O artigo desenvolve a temática a partir de A small place, romance de uma das mais destacadas narradoras do Caribe, Jamaica Kincaid. A autora-protagonista, no romance questiona, desde a segunda pessoa do singular, as práticas sexuais dos turistas homens em uma franca transgressão dos códigos sexuais atribuidos às mulheres.

Dina Comisarenco Mirkin, por sua parte, apresenta uma interessante leitura da obra mural que a artista mexicana Electa Arenal realizou na Cuba pós-revolucionária, nos primeiros anos da década de 1960. Centra-se na análise formal de algumas de suas obras e poemas, demonstrando eloquentemente que existe uma singular iconografia na qual a representação do gênero, a infância e a maternidade foram renomeados de acordo com o conteúdo político próprio do muralismo mexicano e da ideologia personal da artista.

No estudo de Julio Moracén Naranjo se explora a relação de gênero e sociedade em Cuba e Brasil a partir da análise de dois personagens femininos (Maria Antonia e Efigênia) num cenário de referência do teatro negro caribenho. Desde uma perspectiva inovadora se tomam como ponto de partida duas obras emblemáticas do teatro: Sortilégio (1957), do autor brasileiro Abdias do Nascimento e Maria Antonia (1967), do autor cubano Eugenio Hernández Espinosa. No artigo exploram-se os diferentes níveis de construção de identidade feminina numa meta_reelaboração continua de materiais simbólicos que definem culturas caribenhas transculturadas.

Por último, Georgina Flores García e Belén Benhumea Bahena visibilizam a relevante atuação de um grupo de mulheres que não tem sido registradas na história e que não aparecem nos estudos sobre o Caribe mexicano apenas por um problema espacial. Estas duas autoras escolhem um caso de estudo revelador para dar testemunho de mulheres brancas espanholas, negras e indígenas emprendedoras e progressistas no contexto do Vale de Toluca durante os séculos XVII e XVIII.

A história, a literatura e a cultura no contexto do Caribe sempre tiveram que enfrentar-se com uma arraigada tradição machista e com uma constante prática de censura. Por isso, esses discursos oscilaram em relação à liberdade de expressão, entre visões liberais e autoritárias. Durante os últimos cinquenta anos houve um despertar que tem visto nascer novas e revolucionárias expressões artísticas, entre as quais se destacam os discursos históricos, literários e artísticos, como sólidos canais dedicados à denúncia das injustiças, às vivências de construção de uma sociedade nova, surgindo assim um questionamento conflitivo de noções de identidade, gênero, nação e diáspora. Descobrem-se novos discursos transgressores e estratégicos em busca de uma formulação ideológica que gere sociedades mais justas e igualitárias.


PASTOR, Brígida. Mulher e Caribe: aproximações à problemática de gênero / Revista Brasileira do Caribe. Revista Brasileira do Caribe, São Luís, v.12, n.23, p.7-10, jul./dez., 2011. Acessar publicação original. [IF].

Acessar dossiê

 

Handbook of South American Archaeology – SILVERMAN; ISBELL (C-RAC)

HANKS Michele direita e SILVERMAN Helaine esquerda 2014 www.youtube.com
Michele Hanks (direita) e SILVERMAN Helaine Silverman (esquerda) em 2014. www.youtube.com.

SILVERMAN H S Handbook of South American ArchaeologySILVERMAN, Helaine Silverman; ISBELL, William H. (Ed.) Handbook of South American Archaeology. New York: Springer, New York, 2008, pp. 1191. Resenha de: MEGGERS, Betty J. Chungara – Revista de Antropología Chilena, Arica, v.43 n.1, p.147-157, jun. 2011.

The Handbook of South American Archaeology is a landmark not only because of its continental coverage, but because it is the first multi-authored volume in English since the 7-volume Handbook edited by Julian Steward and published by the Smithsonian Institution more than half a century ago. Two other multi-authored overviews have been published in the interim, but both are in Spanish and consequently have received minimal attention from US archeologists. All the authors in Prehistoria Sudamericana: Nuevas Perspectivas (Meggers 1992) are natives of the countries they discuss and continental coverage is even, all countries represented by one or two Chapters except for Brazil, which is represented by six. All except five of the 26 Chapters in Formativo Sudamericano: una Revaluación (Ledergerber-Crespo 1999) are SouthAmericans and national coverage is also relatively even, ranging from three to five Chapters for most countries.

In this Handbook, more than half of the authors are foreign and the geographical coverage is uneven. Although some parts of the continent provide a general overview of regional cultural development, specifically northern Chile (Chapter 48), South American pampas and campos (Chapter 14), the Guianas (Chapter 16), and Venezuela (Chapter 23), most Chapters focus on part of the local sequence, among them early occupations in the Southern Cone (Chapter 4), on the north coast of Chile (Chapter 3), and in the Peruvian highlands (Chapter 9); preceramic coastal adaptations in Peru (Chapter 10) and southern Brazil (Chapter18); the Formative period on the coast of Ecuador (Chapters 5, 24) and in the Titicaca Basin (Chapter 28); chiefdoms in Brazil (Chapter 19), Colombia (Chapters 21, 22), and highland Ecuador (Chapter 27); regional polities in Ecuador (Chapters 25, 26) and south coastal Peru (Chapter 29), and states and empires in the central Andes (Chapters 31, 36, 39, 40). Cultural development in the Amazon basin is discussed in Chapters 11, 12, 20, 33, 46, 47. Earthworks are described in lowland Bolivia (Chapter 11), on the coast of the Guianas (Chapters 13, 16, 17), and in eastern lowland Ecuador (Chapter 15). Three Chapters provide overviews of plant domestication (Chapter 7), animal domestication (Chapter 8), and the peopling of the continent (Chapter 2). Other specialized topics include the khipu (Chapter 41), ancestor images (Chapter 51), and trophy heads and human sacrifice in the Andes (Chapter 52).

Although the emphasis varies, the temporal and spatial distributions of settlements, artifacts, subsistence, burials, ritual features, and other cultural remains are described and interpreted in most of the chapters, often in the context of the impact of environmental fluctuations. Treatment is typically even-handed and objective, changes in interpretation as a result of new evidence are often described, and when experts disagree, the relative merits of their views are assessed. Interpretations of the social significance of architectural features, settlement pattern, site density, luxury goods, and other archeological remains are limited to general categories (elite, commoners, specialists). No effort is made to identify linguistic affiliations except in Amazonia. The existence of Chapters describing comparable levels of social complexity in different regions, such as the emergence of chiefdoms in the highlands of Colombia, Ecuador, and Peru, makes it possible to evaluate the impact of environmental differences on cultural adaptation.

The astute reader will notice a significant contrast between the content and interpretations in the Chapters on the Formative Period of coastal Ecuador and on Amazonia and those on the rest of the continent. In part, this reflects the fact that archeological evidence is limited primarily to pottery, both regions being characterized by warm humid climates in which stone is rare and perishable materials, including most artifacts, architectural features, human skeletal remains, and subsistence remains rarely survive. However, the discussions of these two regions also suffer from another deficiency; namely, the abandonment of traditional theoretical approaches for interpreting the archaeological record.Also, in contrast to the other chapters, these authors do not discuss the substantial evidence that disagrees with their views although it is unfamiliar to most archaeologists. Consequently, I appreciate the opportunity to explain the implications of their approach both for reconstructing prehistoric cultural development in the tropical lowlands and for the future of archaeology as a scientific discipline.

Criteria for Evaluating Cultural Similarities

Like biologists, who use genetic criteria to distinguish common ancestry from evolutionary convergence and independent development to explain morphological similarities in plants and animals in widely separated regions (such as columnar cacti in the southwestern US and northwestern Argentina), and geologists who use chemical composition to differentiate similar appearing rocks and minerals, archaeologists have traditionally used details of decoration on pottery to distinguish diffusion from independent invention. Pottery is ideal for this purpose because it can be decorated using an essentially unlimited number of techniques and motifs without affecting the utility of the vessel, making independent duplication of identical decoration unlikely. Several Chapters in this Handbook use differences in pottery to identify the origins of contemporary populations, but this criterion is ignored by James Zeidler (Chapter 24) in interpreting the origins of the Valdivia and Machalilla ceramic traditions on the coast of Ecuador and by Eduardo Neves (Chapter 20) in reconstructing the origin of pottery in Amazonia. Another widely accepted theoretical position involves identifying intrinsic environmental limitations and intermittent climatic fluctuations and estimating their impact on cultural complexity. Contrary to Sandweiss and Richardson (Chapter 6), who state that “understanding climatic change and natural disasters is critical to reconstructing cultural trajectories in the Andes” (p. 101), the authors of the Chapters on Amazonia (especially Chapters 11, 12, 33, 46, and 47) argue that “disturbance caused by human activities is a key factor in shaping biodiversity and environmental health” (p. 158). The consequences of ignoring these traditional approaches become evident when the evidence is examined.

The Origin of New World Pottery

The archeology of coastal Ecuador was essentially unknown prior to the 1950’s when Emilio Estrada began his fieldwork. He identified three Formative ceramic traditions, which he named Valdivia, Machalilla, and Chorrera. His definitions of Valdivia and Machalilla were expanded by subsequent fieldwork by Meggers and Evans and detailed descriptions were published in 1965 in Volume I of the Smithsonian Contributions to Anthropology. Although he had no archaeological training, Estrada recognized that the diagnostic decoration of the three traditions was distinct, implying different antecedents, and searched the literature for similar complexes in the Andes and Mesoamerica without finding any significant resemblances. Being brainwashed by graduate training, we did not think of looking outside the Americas, but Estrada had no such inhibitions and wrote us one day that Valdivia decoration looked to him a lot like Jomon. We were able to get funding to go to Japan in 1963 and traveled from Tokyo to southern Kyushu armed with photographs of Valdivia sherds to compare with pottery from Early and Middle Jomon sites. The closest resemblances we found were concentrated in collections from Ataka, Sobata, and Izumi on the west coast of Kyushu dating from the Early Middle Jomon Period.

Valdivia pottery appears about 6,000 BP on the coast of Ecuador with no local antecedents and the decoration is diverse in technique and motif from the beginning. The Meggers, Evans & Estrada 1965 Smithsonian monograph contains 26 plates that illustrate the same range of variation in technique and motif in broad-line incised, zoned incised, zoned punctuate, pseudo corrugated, multiple drag-and-jab, shell combed bands, overall shell scraped, finger grooved, excised, rocker stamped, drag-and-jab punctuate, and cord impressed decoration from Valdivia and Jomon sites. A photograph of a distinctive early technique consisting of a row of finger-tip impressions on the interior of the shoulder producing a low boss on the exterior, which we did not encounter during our visit to Kyushu, was sent to us recently by a Japanese colleague. In spite of the diversity and identity of the duplications between Valdivia and Jomon decoration, Zeidler asserts that “technological convergence or parallelism would seem to be a more parsimonious explanation for the beginnings ofValdivia pottery than transpacific diffusion from the Jomon culture” and that “early trade… may have spread the idea of pottery making from antecedent ceramic complexes in the Amazon basin” (p .462). In accord with his acceptance of an Amazonian origin for Valdivia pottery, Zeidler considers that “Lathrap has persuasively argued that Valdivia represents a tropical forest culture pattern… whose ultimate origins are linked to early population dispersals from the Amazon basin” (p. 462). He does not specify what these similarities are and the absence of evidence for sedentary communities earlier than Valdivia anywhere in the eastern lowlands, as well as the absence of any similarity between the environments of the two regions, make this theory unpersuasive.

These alternatives not only dismiss the significance of the duplication of multiple arbitrary features of abstract decoration for inferring cultural relationship, but fail to recognize the magnitude and diversity of other evidence supporting the Jomon origin of Valdivia pottery. Pottery was invented in Japan at least 14,000 years ago and by 6,000 BP had diversified into regional styles that differ more from one another than Kyushu Jomon does from Valdivia. A few years ago, another ceramic complex contemporary with Valdivia was discovered at San Jacinto on the north coast of Colombia that has decoration resembling the Jomon Flame Style on the west coast of Honshu, famous for its elaborate castellated rims decorated with zigzag appliqué, cord impression, and modeling. Like Zeidler, Augusto Oyuela-Caycedo (Chapter 22) denies a transpacific introduction in spite of the absence of local antecedents, the unique character of the decoration, and the contemporaneity of the Jomon and Colombian ceramic complexes (see Meggers 2005).

Since watercraft was available in Japan from at least the Paleolithic and its use for deep-sea fishing is documented by faunal remains in shell middens, why is there no earlier evidence of transpacific voyages? Given the antipathy of archaeologists to the possibility, it is likely that clues have been ignored, but the timing of the Valdivia-San Jacinto introductions can be explained by the catastrophic eruption of Kikai volcano off southern Japan about 6,300 BP, which deposited 40 cm of ash on Kyushu and lesser amounts as far north as central Honshu, causing landslides and slope erosion, decimating the population, and covering the land and the ocean with pumice. The impact of the eruption on the Jomon population is reflected in the density of one habitation site per 100 km² on Kyushu versus one site per 10 km² on the northern island of Hokkaido and one site per km² on Honshu during the Middle Jomon Period.Any fishing boats at sea would have been trapped in the pumice and swept north by the Black Current across the Pacific and down the west coast of the Americas as far as Ecuador. There, survivors would have encountered people living much as they did in Japan, but lacking pottery.

The ceramic evidence for prehistoric transpacific immigrants from Japan is also supported by epidemiological and genetic similarities between Japanese and prehistoric Andean populations that could not have evolved independently or been introduced across the Bering Strait. Among them is the human T-cell leukemia virus HTLV-1, which is transmitted between adult males and females by sexual contact and between nursing mothers and infants. The highest occurrence of carriers today is in Japan, where it reaches 6% in Kyushu; in the Americas, it is restricted to the Andean area. Jomon influence may also be reflected in the sudden adoption of permanent settlement during the Valdivia period on the coast of Ecuador and other intangible innovations, but the assumption of the independent invention of pottery discourages investigation (Raymond, Chapter 5).

In contrast to Zeidler’s denial of any relationship between the identical decoration of Jomon and Valdivia pottery, he accepts the “convincing arguments that the Machalilla ceramic style evolved directly out of the Late and Terminal Valdivia ceramic style” (p. 466), in spite of the absence of any shared characteristics. Machalilla pottery is decorated by double-line incision, embellished or nicked shoulder, black-on-white painting, fine zoned hachure, incised or punctated and red zoned, and narrow or wide red bands, none of which occur in Valdivia. Vessel shapes are also different, including bowls with angular shoulders and jars with stirrup spouts. He does not specify what “convincing arguments” favor local development and the overlap between the initial Machalilla and terminal Valdivia dates leave no space for such a drastic transformation. Nor does he mention the similarities noticed by other archaeologists between Machalilla and several highland Ecuadorian complexes.

A similar discrepancy exists in the acceptance by Zeidler and other authors of the Handbook (Neves, Oliver, Rostain, Isbell) of the pottery from the Taperinha shell midden on the middle Amazon as the earliest in the Americas, in spite of the lack of association between the pottery and the radiocarbon dates (Roosevelt et al. 1991) and the absence of any similarity between Valdivia decoration and that on the three sherds from Taperinha. The lower half of the deposit consists of amorphous shell and is separated from the upper half by a clearly defined sterile layer that implies long-term abandonment of the site. The upper half consists of irregular overlapping strata. All of the dates are from the lower half and most of the pottery is from the upper half. The few sherds encountered below the sterile layer can be attributed to intrusion via pits dug by iguanas or armadillos that frequent the mound. The eleven AMS dates obtained from below the sterile layer extend from 7,090 ± 80 to 6,300 ± 90 BP, making them a millennium earlier than the initial Valdivia and San Jacinto dates and compatible with their preceramic context.

Assuming that Taperinha pottery is earlier than Valdivia and San Jacinto, Roosevelt argues that it could not be derived from them, but she does not consider the possibility that it might be affiliated with a later complex. In fact, the decoration on the only three sherds she has illustrated, consisting of “feathered” incision, zoned parallel lines, and double-line incision, is diagnostic of the Barlovento Phase on the north coast of Colombia, which extended from about 3,600 to 2,800 BP. The most reasonable interpretation of the archaeological evidence is the migration of a few families from a Barlovento site to the central Amazon and their settlement on the abandoned shell midden of Taperinha. The absence of any other sites with similar pottery along the Amazon testifies to their failure to introduce pottery making to the indigenous population.

Whereas accepting an association between the pottery and the radiocarbon dates from Taperinha is a dead end, identification of its Colombian origin raises the question of what motivated the immigrants to leave their homeland. The ceramic sequence on the Caribbean coast of Colombia is the best documented in South America as a result of detailed investigations and publications by Gerardo Reichel-Dolmatoff (1985) and Carlos Angulo Valdez (1981) and the chronology of change in decoration is well defined. The history of climatic fluctuations is also well documented and indicates that parts of the region suffered episodes of drought during this period that affected traditional subsistence resources and stimulated dispersal to adjacent regions (Sanoja and Vargas 2007). The appearance of Barlovento-related pottery on the middle Amazon adds important evidence to the reconstruction of this event.

Amazonia: Anthropogenic Landscape or Counterfeit Paradise?

Although the unique environment of theAmazonian Basin and its limitations for the development of permanent settlements and intensive agriculture have been documented by geologists, paleoecologists, climatologists, botanists, and other natural scientists for decades, Erickson insists that “Rather than adapt to or be limited by the Amazonian environment, humans created, transformed, and managed cultural or anthropogenic (human-made) landscapes that suited their purposes ” (Chapter 11, p. 158) and that “archaeologists have demonstrated that much of Amazonia was occupied by dense populations of urbanized societies practicing intensive agriculture that significantly contributed to creating the environment that is appreciated today” (p. 161). He contrasts this approach, which he calls “historical ecology,” with cultural ecology, which he claims “treats the environment as a static, fixed, often limited resource to which humans adapt” (p. 165) and identifies me as “the main spokesperson” of the latter approach (p. 162).

The goal of historical ecology is to “carefully document and analyze the evidence within its temporal and spatial context for insights into original logic, design, engineering, and intentionality of human actions” (p. 159). The principal authorities he cites, in addition to anonymous “scholars” and “archaeologists,” are William Denevan, a geographer; William Balée, an ethnobotanist; Peter Stahl, a faunal specialist, and Donald Lathrap, an archaeologist who did his doctoral research 50 years ago on the Ucayali. Erickson’s own Amazonian experience is limited to the Llanos de Mojos in eastern Bolivia. The only Amazonian archaeologists mentioned are Eduardo Neves, Michael Heckenberger, and Anna Roosevelt.

Defining “Amazonia”. Amazonia is defined by geographers and ecologists as the portion of tropical lowland South America below 1,500 meters elevation, where the average difference in annual temperature does not exceed 5ºF, rain falls on 130 or more days of the year, and relative humidity normally exceeds 80%. Typical vegetation consists of rainforest, with small enclaves of savanna where soil conditions inhibit plant growth.

Erickson expands the definition to encompass “the entire region drained by the Amazon River and its tributaries” (p. 158). This allows him to cite any kind of archaeological evidence up to the highland headwaters of all the tributaries to support his contention thatAmazonia is a “domesticated landscape,” regardless of the characteristics of the soil, climate, elevation, topography or vegetation. The principal evidence he provides for the creation, transformation and management of domesticated, engineered, humanized landscapes is the existence of anthropogenic forests, large permanent settlements, earthworks, and Amazonian dark earth (ADE).

Anthropogenic Forests. According to Erickson, “Countering the view of Amazonian forests as pristine and natural, historical ecologists show that these forests are, to a large degree, the cultural products of human activity” (p. 175). He contends that “Rather than adapt or respond to the environment, Amazonian people created, transformed, and managed those very environments in which they lived and thrived through their culture” (p. 165); “The long-term strategy of forest management was to cull non-economic species and replace them with economic species” (p. 175); “Much of what was originally misinterpreted as natural change due to climate fluctuations is now considered anthropogenic” (p. 175) “Many game animals ofAmazonia would have a difficult time surviving without a cultural and historical landscape of human gardens, fields, orchards, and agroforestry” (p. 176). “Through the domestication of landscape, native people shaped the landscape as they wanted it and made it work for them” (p. 177).

Whereas Erickson provides neither examples nor references to support these interpretations, botanists, ecologists, and climatologists have published hundreds of articles and dozens of books linking past and present changes in the composition of rainforest vegetation to climatic fluctuations and identifying environmental factors responsible for contemporary biodiversity. For example, an inventory of patches of secondary forest visible on Landsat images across the Brazilian Amazon indicates that they are similar in origin to recent blowdowns confirmed north of Manaus, rather than remnants of cultivated fields (Nelson et al. 1994). Analysis of pollen cores in the rainforest of French Guiana where no archaeological sites have been encountered indicates that “the tropical rain forest, thought to have remained stable since the last glacial event, has in fact undergone deep modifications” (Charles-Dominique et al. 1998:296). After reviewing the paleoecological record, Bush and Silman (2007:457) conclude that “we see no evidence suggesting that large areas at a distance from rivers or in the less seasonal parts of Amazonia were substantially altered by human activity”. According to Piperno and Becker (1996:202, 207), analysis of phytoliths and macroscopic charcoal from soils near Manaus indicates that “closed forest has existed in the area since at least 4,600 yr BP. Vegetational changes and fires appear to be the result of climatic drying that may have affected large areas of the Amazon Basin over the past 5,000 to 7,000 years. Thus, it appears that this one sector of Amazonian terra firme forest was never significantly altered by humans”. Identification of fossil pollen in two sediment cores in eastern lowland Ecuador also implies the persistence of moist tropical rain forest throughout the Holocene and provides no evidence for human impacts or land use (Weng et al. 2002). Finally, cores from lake districts in eastern Peru and eastern Brazil do not support the contention that all of Amazonia is a built landscape (Bush and Silman 2007).

Large Permanent Settlements. Erickson states that “Archaeologists [unidentified] have demonstrated that much ofAmazonia was occupied by dense populations of urbanized societies practicing intensive agriculture that significantly contributed to creating the environment that is appreciated today” (p. 161). Although he asserts that “Traditional communities had large, open, clean plazas and streets along which houses were arranged in linear, grid, radial, or ring patterns” (p. 166), he mentions only Santarem and the Sangay site in eastern Ecuador, neither of which has this configuration. Based on the description of a modern Bari communal house in eastern Colombia that was constructed using 750,000 fronds from 125,000 palms, he estimates that a pre-Columbian population of 6.8 million forAmazonia would have required 1,360,000 communal houses “in a single moment,” which would have had to be replaced every 10 years. Huge additional amounts of wood would have been needed for cooking fires, palisades, watercraft, and artifacts. Even though admitting that “A community’s permanent transformation of the environment for these basic needs and infrastructure is staggering,” he asserts that “these communities were stable, long-lived, and sustainable despite this impact” (p. 166-167). He [Erickson] gives no archaeological example and the modern caboclo house and associated clearing he illustrates (Figure 11.2) bear no resemblance to traditional indigenous dwellings.

None of the other proponents of the existence of large permanent settlements has supported their interpretation by archaeological evidence. No systematic excavation has ever been done in Santarem to identify dwellings or features that might reveal how much of the area was simultaneously occupied and the estimate of a population of 100,000 is based on the dimensions of the terra preta. The only well documented investigations are on Marajó, beginning with Evans and Meggers in 19481949, followed by Roosevelt and Schaan (Chapter 19). Although Roosevelt has estimated a population of one million for the island, Schaan has reduced this substantially based on her evidence that the maximum population of the Camutins, the largest group of habitation mounds, would have been only about 2,000 (p. 347). A decade of survey and excavation on the left bank of the lower Solimões has identified several periods of occupation, but the size and permanence of each settlement are not clear (Neves, Chapter 12).

Extensive survey along the principal tributaries of the Amazon during the past 30 years by Brazilian archaeologists, which the historical ecologists do not cite, produces a very different picture of prehistoric settlement behavior. Beginning before 2,000 BP, when pottery making became sufficiently widely distributed for detecting habitation sites, the subsistence and semi-permanent settlement behavior characteristic of surviving indigenous tropical forest communities had been adopted. (see below for discussion).

Earthworks. According to Erickson, “Many Amazonian cultures were impressive mound builders” (p.168), citing constructions on the Llanos de Mojos in Bolivia, the Llanos del Orinoco in Venezuela, Marajó, Sangay in eastern Ecuador, and the Guayas Basin, none of which is rainforest and the last of which is not in Amazonia. Although he asserts that raised fields constitute the “most impressive example of landscape engineering at a regional scale,” he mentions only those in lowland Bolivia (p. 171). He also contends that “all Amazonian societies use elaborate networks of paths and trails and roads between settlements, gardens, fields, rivers, resource locations, and neighbors” and that “Some advanced Amazonian societies built impressive formal roads, causeways, and canals of monumental scale” (p. 173), but the only examples he describes are on the Llanos de Mojos.

With the exception of Marajó and the Açutuba region in the central Amazon, all the earthworks are outside the limits of Amazonia as traditionally defined. Roads, causeways, and canals are limited to the Mojos. Raised fields are also in marginal locations, among them the coast of the Guianas. Paths in the forest quickly disappear if not used regularly. Evidence that the construction of mounds, causeways, ridged fields, and other kinds of earthworks does not require a large organized labor force is provided by Erickson’s own experience. When he revisited a village on the Llanos de Mojos after several years, he found a new causeway 12 feet wide, 3 feet high, and half a mile long that had been constructed by members of the small local community in a week.

Amazonian Dark Earth (ADE). The most sensational recent discovery is the existence of patches of fertile black soil in many parts of the lowlands.According to Erickson, “Scholars believe that these soils were created specifically for permanent farming” (p. 171) and “are capable of continuous, high yields and are associated with dense populations, large permanent settlements, and complex society” (p. 163). “ADE was probably used for settlement, house gardens, and permanent fields rather than slash-and-burn agriculture, the common practice today”; “ADE is an excellent example of landscape domestication below the ground” (p. 171). Since it is assumed that slash-and-burn agriculture “depends on metal axes and machetes to efficiently clear primary forest. [and] These tools were unavailable until after 1492, Pre-Columbian farmers, using digging sticks and stone axes probably continuously cultivated fields and practiced agroforestry rather than clear primary forest” (p. 163). The allegation that slash-and-burn agriculture would have been unproductive prior to the acquisition of metal axes is invalidated by its global distribution during millennia prior to the invention of metallurgy and survival in remote regions today.

Furthermore, the assumption that Amazon Dark Earth was created intentionally and would have solved the problem of intensive agricultural production for large sedentary populations is not supported either by observation of current practices or by archaeological evidence.

Agronomic, pedological, and ethnographic research on the productivity of food plants on ADE has been conducted by Laura German (2003) among caboclos along the Rio Negro and Rio Urubú in Central Amazonia. Comparison of the yields of bitter manioc, pineapple and star nut palm with those of 10 other New World crops and 10 Old World crops on ADE and on local soil revealed higher yields for the three Amazonian crops on the natural soil. She asserts that “linkages between intentional agricultural intensification and Black Earth formation, and between Black Earth and an increase in human carrying capacity, have been insufficiently established” and concludes that “Observations on the degradation caused by continuous cultivation clearly show that in the absence of ongoing cultural amendments, the carrying capacity of these [black earth] environments would not be significantly greater than that of adjacent sites” and that “the suggestion that these richer pockets of soil made possible the transition to a more sedentary life style is as yet untenable” (German 2003:327, 313).

With regard to slash-and-burn agriculture, Weischet and Caviedes, the authors of the leading synthesis, The Persisting Ecological Constraints of Tropical Agriculture (1993) specify that “a differentiation should be made… between natural conditions that are unalterable and those that can be compensated for by man” (1993:41) and conclude that “On the basis of ecological reasoning it can be proven that this particular mode of rotating food crop and forest or bush fallow [i.e shifting cultivation] is a specialized adaptation to the environmental conditions of the tropics which not even modern agrotechnology has been able to replace” (1993:275). They also state that the “unveiling of certain persistent myths about tropical fertility […], by now widely known and dismissed” and explaining “how these myths could be perpetuated and fundamental laws that govern the tropical environments ignored for so long ” are crucial for sustainable exploitation of Amazonia (1993:281). Unfortunately, the Chapters by Erickson and others in this Handbook indicate that these myths have gained rather than lost their credibility among anthropologists.

The Unique Environment of Amazonia

Amazonia differs from all other tropical forest environments in combining great geological antiquity with abundant rainfall and constantly warm temperature. The Brazilian and Guayana shields preserve some of the most ancient terrestrial landscapes on the planet, which millions of years of chemical and physical weathering and erosion have reduced to inert granite and white sand. Whereas in temperate regions more than half of the organic carbon, some 90 percent of the nitrogen, and the most important minerals are contained in the soil where they remain available to the vegetation, in Amazonia most of the nutrients and all of the calcium are stored in the biomass. According to Weischet and Caviedes, “This is an ecologically decisive difference with far-reaching consequences” (1993:62). “The part of the forest above ground works like a filter system in that the nutrients supplied by the rain are used several times before they arrive at the soil surface… Only with the decomposition of the different members of the subcycles does a certain portion of the nutritional elements finally reach the soil surface. Here, a substantial nutrient loss is essentially prevented by another agent known as the mycorrhizas” (1993:130). The interspersed distribution of plants of the same species with different nutrient requirements and the rapid disintegration and uptake of litter rescue nutrients that reach the soil so successfully that “as long as the forest is undisturbed, no net loss of macronutrients through outwash occurs as proven by the fact that (1) the autochthonous black-and clear-water streams of the tropical lowland forests may best be likened to slightly contaminated distilled water, and, (2) the waters of small creeks in virgin forest areas contain even less macronutrients than rain-water” (1993:276).

In addition to infertile soil, Amazonia is characterized by the absence of a dormant season, which makes the vegetation continuously susceptible to decimation from pathogens. Their dispersal is minimized by the heterogeneous distribution of wild plants of the same species in the forest, which is replicated by the interdigitation of crops in indigenous fields. Only palms have the ability to maintain large uniform stands.

Archaeological Evidence of Population Density

Whereas no systematic stratigraphic excavations have been undertaken in habitation sites in any of the regions identified by Erickson as “occupied by dense populations of urbanized societies practicing intensive agriculture” (p. 161), archaeological surveys along the principal tributaries of the Amazon and ethnographic evidence demonstrate that patches of ADE are the product of intermittent occupation of habitation sites during hundreds of years, and were never cultivated prehistorically.

Archaeological survey conducted along a 240 km sector of the Rio Jamarí, a tributary of the upper Madeira in southwestern Brazil, identified 121 sites representing 16 preceramic occupations, 16 lithic workshops, 89 ceramic sites, 8 campsites with pottery, and 2 Neobrazilian sites. All the ceramic sites are terra preta (ADE). Unselected surface collections of pottery were made at 42 sites, and one to nine stratigraphic excavations in 10 cm levels were made at 22 sites. Classification and seriation identified five ceramic phases representing the same pottery tradition and permitted construction of a relative chronology that is complemented by 137 radiocarbon dates. The initial ceramic phase, the only one distributed throughout the region, was introduced ca 2,400 BP. By about 1,500 BP, it had differentiated into two phases that occupied contiguous territories characterized by differences in aquatic resources. Each of these was replaced by a later phase of the same tradition about 700 BP (Meggers and Miller 2006).

Comparison of the locations of the ceramic sites with their phase affiliations shows that only 6 were occupied during three successive phases. Seventeen were occupied during two phases and 26 were occupied intermittently during a single phase. All the phases were divided into two moieties distinguished by minor differences in the presence or relative frequency of a rare pottery type and most sites were occupied and reoccupied by the same moiety. When reoccupied by a different moiety or a different phase, the new house was adjacent to rather than on top of the earlier refuse, increasing the surface dimensions of the site. Although there is no visible stratigraphic evidence of the abandonment and reoccupation implied by the discontinuities in the seriated sequences, they are supported by large differences in the radiocarbon dates from successive levels in the same excavation. At RO-PV-35, for example, dates from consecutive 10 cm levels in four excavations distributed across the site are in chronological order but differ by 1500, 900, and 120 years and dates from the same depth in different excavations also differ by hundreds of years. Similar discrepancies between the dates from consecutive 10 cm levels have been identified at 14 other sites, contrary to what would be expected if these sites had been continuously occupied.

The number of sites allocated to each phase and their distribution within the territory provide other clues to settlement behavior. For example, the 14 sites occupied during the Jamarí Phase, which lasted ca 800 years, are widely separated giving the impression that the territory was under populated. A different interpretation is suggested by comparison with the settlement behavior of a modern Yuqui community in eastern Bolivia. Their territory is divided into a nuclear area about 10 km in diameter, where the village is located and most of the hunting is performed, and a peripheral ring about 5 km wide, which is hunted infrequently and serves as a source of replacement for game removed from the nuclear area. This allocation provided sustainable subsistence for a population of ± 100 during 22 years, but is now being compromised by the intrusion of colonists from the adjacent region into the peripheral area. Projecting the diameter of the nuclear area around the locations of the sites of the Jamarí Phase reveals that the boundaries of all but four overlap, and that three more would also overlap if the surrounding ring were included, supporting the interpretation of intermittent occupation based on the seriated sequences.

Another independent estimate of sustainable population density has been provided by biologists concerned with the growing impact of commercial hunting on the survival of preferred species of mammals. Combining age of reproduction, number of progeny, longevity, impact of other predators, and natural death rate for each species permitted estimating the maximum number of individuals per km² that could be eliminated sustainably. Converting the result into biomass and dividing the total by the nutritional requirement of a human consumer produced estimates between 0.2 and 1.0 persons per km² for sustainable hunting. The similarity between these estimates and those ranging between 0.2 and 1.5 per km² provided by ethnographers for the population densities of 12 contemporary indigenous Amazonian communities that maintain their traditional behavior is unlikely to be coincidental.

Historical Ecology Versus Environmental “Determinism”

Cultural ecologists, erroneously labeled “environmental determinists,” assume that humans, like all other biological organisms, are subject to natural selection and evolutionary drift, but that unlike other animals these affect not only their biological features but also their cultural behavior. Among the impediments to applying evolutionary theory to the interpretation of archaeological remains, especially pottery, is the absence of a standard classification. In contrast to other categories of phenomena (rocks, stars, plants, animals, soils, etc.), where evidence is ignored unless it conforms to the recognized definitions, every archeologist is free to select whatever criteria he or she prefers and interpret them at will, making comparison possible only at a very general level of similarity. The opportunity to change this situation was provided in Brazil in 1964 by the creation of the Programa Nacional de Pesquisas Arqueológicas (PRONAPA) on the coast, followed in 1976 by the Programa Nacional de PesquisasArqueológicas na Bacia Amazônica (PRONAPABA). The participants in these programs adopted standard criteria for collecting, classifying, describing, and interpreting pottery that permitted identifying endogamous communities and the temporal and spatial distributions of their constituent sites.

When the PRONAPA began, we accepted the traditional view that although the samples from surface collections and stratigraphic levels were unselected, they were not random and thus irregularities in the trends in seriated sequences were attributable to sampling error rather than to differences in behavior. As the number of seriated sequences composed of levels from excavations in multiple habitation sites increased, comparison showed that the principal undecorated types, which normally accounted for 90% or more of each sample, usually displayed consistent trends of increasing or decreasing relative frequency, whereas one or more of the decorated types often exhibited minor fluctuations throughout the seriation. On the possibility that these might have cultural significance, the levels were separated into two seriations based on the difference in relative frequency. Comparison of the locations of the sites included in each sub-seriation showed that the majority were different and when they were the same, the portion of the site occupied was different. Since the differences in relative frequency were minor (typically ± 5%), they would not have been apparent to the potters, making the most obvious explanation the impact of evolutionary drift on the products of women isolated by matrilocal residence.

The impact of evolutionary drift on cultural behavior not subject to adaptive constraints has frequently been reported by ethnologists, including minor differences in the relative frequency of the decoration on pottery made for domestic use by women in different communities and by those in the same community isolated by matrilocal residence. For example, among the Shipibo, intensive interaction among women in the same and little between those in different houses ensures that girls learn from their mothers, creating a different micro-style in each community. Among the Bororo, the village is divided among two moieties that exhibit slight differences in decoration and vessel shape. Among traditional potters in Guatemala, where the household is also the unit of production and girls learn from the oldest relative, each local group has a distinctive style. An experiment conducted decades ago, in which a sequence of potters was told to copy the preceding vessel, demonstrated minor unconscious modifications.

Other interpretations based on archaeological evidence and confirmed ethnographically include matrilocal residence, endogamous communities, permanent territorial boundaries, reoccupation of sites by the original community or moiety, avoidance of earlier sites by later communities both for settlement and cultivation, and low population density.

The assumption that ADE is the product of permanent residence is invalidated by the archaeological evidence for abandonment and reoccupation of all but the smallest habitation sites wherever systematic survey has been conducted along the tributaries of the Amazon. The avoidance of previously occupied locations by subsequent occupants of the region detected by the seriations is explained by the ethnographic evidence that prehistoric sites are neither cultivated nor reoccupied by traditional indigenous communities today because they are recognized as cemeteries and the spirits of the deceased are respected.

The existence of detailed reconstructions of settlement behavior along the principal tributaries of the Amazon since about 2,000 BC makes it possible to evaluate the credibility of the prehistoric population density and social complexity inferred by the historical ecologists not only with the archeological record, but also with independent climatic and ethnographic evidence. In the case of the Jamarí sequence, for example, comparison of the durations of the five ceramic phases with the radiocarbon dates indicates that the replacements occurred ca 1,500, and 700 BP. Examination of other well dated sequences across the lowlands shows additional discontinuities on the Llanos de Mojos and the lower Orinoco ca. 1,000 BP. The coincidence between the timing of these replacements and the impact of mega-Niño events implies that the associated episodes of aridity depleted subsistence resources sufficiently to force people to abandon their villages and revert to hunting and gathering until conditions returned to normal. Whereas the relatively brief durations of the mega-Niño events limit their identification in Amazonian pollen cores, the reduced intensity of the 1,000 BP event in Amazonia is clearly documented archaeologically by the absence of discontinuities in the tropical forest sequences.

Although minor El Niño droughts leave no archaeological imprint, the climatic record indicates that they occur at intervals of about seven years between the catastrophic events. Observations of the impact of a brief El Niño episode in 1983 on the rainforest of Barro Colorado Island in Panama indicate that their consequences can be dramatic. Thirty-three out of 37 moisture-demanding species of plants declined significantly and the abundance of small shrubs fell by 35% during the following 13 years. “The failure of many plants to flower or fruit during an abnormal weather cycle [… ] in 1970-1971 and the resultant famine and death among frugivores testify to the subsistence stress longer episodes would have inflicted on humans”. The description of the impact of the 19721973 drought on a Yanomami community in southern Venezuela is equally dramatic. Fires set to prepare new gardens spread to adjacent clearings, destroying the producing crops. Adjacent vegetation remained nonflammable, however, and the population reverted to hunting and gathering until normal rainfall returned. “Working harder than normal, they remained constantly hungry but survived” (Meggers 2007a:135, 143).

Similar brief El Niño droughts would have impacted Amazonia between major events in the past and would have stimulated the adaptive behavior among indigenous communities documented by ethnologists. Children learn at an early age to identify all wild plants from a leaf, seed, or branch, as well as their uses and the animals that pollinate or feed on them. Adults continuously search for new edible plants. They avoid some edible tubers until those usually consumed fail and possess detailed knowledge of ecological relationships among flora and fauna. Short-term and permanent taboos against consumption of deer and tapir are widespread, although they are the largest terrestrial mammals. The likelihood that caymans were tabooed at least in the lower Tapajós region is suggested by their critical role in the aquatic food chain (Fitkau 1970). It seems likely that prehistoric communities reverted to hunting and gathering, like the Yanomami, during these episodes and enhanced their knowledge of the biota and their chances for survival. The discontinuities in the archaeological record indicate that this knowledge and the cultural measures that promote sustainable exploitation of the environment were insufficient to overcome the detrimental impact of mega-Niño droughts.

Erickson’s assertion that “archaeologists have demonstrated that much of Amazonia was occupied by dense populations of urbanized societies practicing intensive agriculture that significantly contributed to creating the environment that is appreciated today” (p. 161) is being discredited not only by the archaeological evidence, but also by the increased abundance and variety of paleoclimatic evidence. For example, numerous pollen cores have produced detailed records of intermittent droughts along the Brazilian coastal strip, which correlate with human abandonment of vast areas during the Mid-Holocene there, as well as in the Guianas and Eastern Colombia (Meggers 2007b). Geological, ecological, palynological, and climatological investigations in French Guiana pro-vide a detailed reconstruction of environmental change during the past 8000 years and a marine core from the Cariaco Basin off the coast of Venezuela documents four episodes of severe drought between AD 760 and 910. Analysis of lake sediments in the Carajás region of northeastern Brazil indicates that the major cause of perturbations in the tropical forest during the Holocene was climate change that modified the water balance. The RAINFOR network of 136 permanent plots in old growth forest throughout the Amazon created 25 years ago provides daily records of temperature and rainfall that may reveal local fluctuations that will be helpful in interpreting archaeological evidence (Phillips et al. 2009). Paleoclimatologists concerned with reconstructing paleoenvironmental climatic changes in eastern Brazil during the Holocene have recently suggested that “humans might be regarded as good paleoenvironmental markers for the Holocene. In this light, we propose that archaeological data should be better explored, and regarded as a valuable basis for paleoenvironmental inferences” (Araujo et al. 2005/2006:28).

Taking advantage of these kinds of opportunities for collaboration requires that archeologists adopt standard criteria for collecting, classifying, and interpreting their data. The territorial distributions of the ceramic traditions identified by the PRONAPA on the coastal strip more than forty years ago have been expanded by more recent investigators, but their failure to classify the pottery and apply quantitative analysis and seriation has prevented the kinds of social and settlement interpretations obtained from the survey of the Jamarí and other rivers in Amazonia.Although the ceramic traditions recognized in Amazonia decades ago are criticized by several authors in the Handbook, they have not supplied the archaeological evidence necessary to suggest alternatives. Hopefully, this will change.

The Founder Effect and Evolutionary Drift

Pottery is ideal for tracing cultural contact because it can be decorated in an essentially infinite number of techniques and motifs without affecting the function of the vessel. Some similarities, such as depiction of the same birds or animals, can be attributed to independent invention, and a few duplications in a long series of abstract elements can be dismissed as accidental. Multiple independent duplications of the same combinations of techniques and abstract motifs, such as those between Jomon and Valdivia, are unknown.

The evidence that the decoration on pottery is subject to unconscious evolutionary drift, that each endogamous community develops a distinctive ceramic configuration, that members of a community will possess a slightly different proportion of the diagnostic traits, and that dispersal of a segment of the ancestral population is consequently subject to the founder effect makes it possible to demonstrate that the initial ceramic complexes in lowland SouthAmerica are derived from Valdivia-San Jacinto antecedents. The earliest offshoot identified thus far is the Monagrillo Phase, decorated with incisions ending in a punctation, small excised zones, a band of short vertical incisions, parallel incised lines, and zoned punctuate, which appeared in adjacent Panama ca 4,500 BP (Meggers 1997). The second dispersal, represented by the Waira-jirca Phase in the north highlands of Peru beginning ca 3,800 BP, exhibits a different set of the ancestral traits, including undulating and double-line incisions, rings with a central punctate, bands containing closely spaced vertical lines, and equilateral crosses. The Ananatuba Phase, which appeared at the mouth of the Amazon about 3,400 BP, contains some of the same diagnostic traits as the Waira-jica Phase, including the ring with a central punctation, undulating incisions, and the equilateral cross, as well as parallel lines and feathered incisions. The decoration of the Barrancas Phase that arrived on the lower Orinoco ca. 2,900 BP consists of small excised zones, rings with a central punctation, incisions terminating in a punctation, miniature biomorphic adornos, and small vertical handles adjacent to the rim. It is noteworthy that several of the same ancestral techniques occur in most of the regions, whereas others do not. The differences are exactly what can be predicted based on the founder effect and evolutionary drift.

The Future of Scientific Archaeology

The most notable contrast in this volume is between the theoretical perspectives of the US authors working in Ecuador and Amazonia and those working in other parts of the continent. Denial of the existence of adaptive constraints on cultural development, the impact of evolutionary drift, and the importance of cultural diffusion distorts their interpretations of the archaeological record. It also prevents archaeology from making a significant contribution to the reconstruction of climatic and environmental change in the tropical lowlands since the beginning of the Holocene, and especially during the past four millennia.

The contrast between the detailed reconstruction of settlement and social behavior along the Jamarí in southwestern Amazonia based on applying evolutionary theory to the interpretation of the archaeological evidence, especially the characteristics of the pottery, and the vague temporal and spatial correlations among habitation sites occupied during the early Formative Period on the coast of Ecuador is striking. The Jamarí data permit identifying endogamous territories, matrilocal residence, village movement, contemporary settlements, and reoccupation of sites, as well as the impact of intermittent severe droughts that leave no permanent imprint on the biota. Even when radiocarbon dates can be obtained for past climatic events, they are less precise than those from archaeological contexts, which can also provide more specific identification of the locations and severity of their impact.

The negation of the evidence for cultural diffusion, particularly obvious in the refusal to consider the Jomon origin of the earliest pottery in Ecuador and Colombia, is another remarkable rejection of traditional cultural interpretation. The fact that pottery can be decorated using hundreds of different arbitrary techniques and motifs has always made it a primary tool for differentiating independent invention from common ancestry. The probability of independent duplication of the decoration on Jomon, Valdivia, and San Jacinto pottery is nil. Similarly, the presence of several of these motifs in the initial pottery complexes in Panama, at the mouth of the Orinoco and the mouth of the Amazon, and the north highlands of Peru testifies to migrations at different times from the northwestern part of the continent attributable to otherwise invisible fluctuations in the local climate.

Its geographical isolation prior to European colonization makes prehistoric South America a unique laboratory for examining the relationship between temporary and permanent environmental conditions and cultural development. In contrast to the rest of the planet, most of which has been continuously occupied since the early Paleolithic, it remained isolated from the continuous biological and cultural interactions that affected the course of history throughout Europe and Asia. Whereas the latter regions are dominated by temperate climates and fertile soils, deserts are mild, and forests and plains blend into one another, South America has large unbroken extents of distinct environments, including barren deserts, treeless plains, dense rainforest, snow-capped mountains, highland basins, and sea coasts that extend from tropical to subarctic latitudes. Large sectors of all these regions remain free from significant disruption by cities, roads, mechanized agriculture, and other kinds of modification that have altered the original characters of the landscapes in most of the Old World and destroyed archaeological evidence of conditions in the past. Isolation from modern encroachment has also permitted indigenous populations in many parts of the continent to pursue their traditional ways of life, providing examples of tangible and intangible behavior that can be compared with the archaeological evidence.

Suddenly much of this picture is changing. Rampant globalization is attracting foreign invaders, who have the technology to make drastic modifications in topography and biota, destroying the cultural configurations that maximize sustainable exploitation of unique environmental constraints, especially in the tropical lowlands. Their impact has eliminated key species from the food chain, interrupted the closed system of nutrient transfer that protected the infertile soil from further depletion, and disrupted the rainfall regime. Unfortunately, the insistence by the historical ecologists that prehistoric humans learned to “domesticate” the landscape to suit their needs is even less true today than it was in the past. I urge readers of this Handbook to take seriously the potential of archaeology to make a significant contribution to our understanding of prehistoric cultural adaptation in this unique and fascinating part of the world.

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Betty J. Meggers – National Museum of Natural History, Smithsonian Institution, Washington DC, USA.

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O Desafio Biográfico – Escrever uma vida | François Dosse

– O historiador é capaz de fazer uma biografia?

Questão aparentemente simples, a julgar pela quantidade de produções biográficas das últimas décadas, muitas delas produzidas ou supervisionadas por historiadores. Todavia, esta mesma questão foi-me dirigida quando da defesa do meu projeto de pesquisa – uma das etapas do processo de seleção para o doutorado. Respondi de pronto e afirmativamente naquela ocasião, embora houvesse momentos de titubeação ao longo do projeto a ser “defendido” (o que, possivelmente, explica o motivo da indagação).

François Dosse, ao contrário, não titubearia frente à tal pergunta; não depois de ter escrito O Desafio Biográfico – Escrever uma vida, uma obra que contribui sobremaneira para o atual status que a empresa biográfica tem alcançado na academia. Conhecido no Brasil sobretudo pelas obras História do Estruturalismo e A História em Migalhas, este professor do Instituto Universitário de Formação de Professores de Créteil e do Instituo de Estudos Políticos de Paris que é Dosse não abre mão de seus posicionamentos acadêmicos ao construir um livro que poderia, à primeira vista, ser taxado “antologista” (suas fontes são, em sua maioria, biografias), mas que numa leitura mais atenta demonstra que seu autor acompanha (além de ser partícipe) das novas e sofisticadas discussões acerca da escrita biográfica.[1]

Localizar, aliás, esse atual status da biografia e contrapô-lo a outras formas sob as quais ela foi tomada pela academia é um dos grandes trunfos d’O Desafio Biográfico, muito embora a riqueza de tal estudo esteja justamente no alargamento que Dosse estabelece para o “ato de escrever uma vida” – que é múltiplo, trans- histórico e pode ser tomado como a construção de um perfil; de uma trajetória; de relatos de vida; de uma autobiografia ou de uma biografia psicológica; de biografemas ou de hagiografias; como a construção de uma biografia jornalística ou como um ensaio biográfico…

A palavra biografia, aliás, no moderno termo que hoje a tomamos, apareceu nos dicionários europeus somente no século XVII (!), o que só ratifica o seu “gênero híbrido”. Isto porque sabemos este “ato” remonta aos primórdios da humanidade e, mesmo se desconsiderarmos a tradição oral, encontraremos provas dele na Antiguidade (via Plutarco e suas “Vidas Paralelas”, por exemplo); na Idade Média (via hagiografias incensadas durante todo este período); na Modernidade (via perfis de heróis e dos “grandes homens” dos cursos de Moral e Cívica) e na Idade Contemporânea (via biografia de personalidades do mundo artístico) – só para continuarmos na eurocêntrica divisão quadripartite da História. Segundo François Dosse:

É hábito nosso distinguir dois gêneros: a biografia e o relato de uma vida. […] Da Antiguidade ao século XVII, seria a época do registro das Vidas, impondo-se depois, quando da ruptura moderna, a biografia. O que mudou, no fundo, foi o método de escolha dos grandes homens, dos sujeitos das biografias. [2]

Entretanto, mais do que definir suas diferentes nomeações, Dosse articula este “ato de escrever uma vida” às também diferentes “funções” que a biografia exerceu durante os séculos (e.g.: Historia Magistra Vitæ) e às diferentes interlocuções que ela manteve com as ciências humanas, de uma forma geral, e com a historiografia, em particular. Este panorama está representado pela divisão dos capítulos d’ O Desafio Biográfico: capítulo 2 (“A Idade Heroica”); [3] (“Biografia Modal”); [4] (“Idade Hermenêutica I – A unidade dominada pelo singular); [5] (“Idade Hermenêutica II – A pluralidade das identidades”) e capítulo [6] (“A biografia intelectual”).

Jogando a Rayuela de Cortázar, os leitores de língua portuguesa desta edição publicada pela Edusp em 2009 (no bojo do “Ano da França no Brasil”) podem perfeitamente pular o prólogo em que François Dosse apresenta um exaustivo panorama editorial, francês, daquilo que chamou de “febre biográfica” pois, a despeito da bem construída análise que envolve projetos editoriais, legitimação acadêmica e publicações biográficas, tal passagem pode desanimar um leitor que não esteja tão familiarizado com as especificidades daquele mercado a ponto de não considerar as disputas entre Fayard, Gallimard ou Flammarion mais do que simples informações de notas de rodapé (e não de 30 páginas, como o livro apresenta!).

Já a introdução e o primeiro capítulo (“A biografia – gênero impuro” ) fornecem excelente ponto de partida para distinguirmos as diferentes escritas biográficas e para associá-la à discussão assaz cara às ciências humanas e à historiografia: justamente a tensão entre verdade e ficção. Tais discussões serão aprofundadas nos demais capítulos, mas residem na introdução e no primeiro capítulo o “lugar de fala” de François Dosse – autor de uma obra de honestidade intelectual para com o estruturalismo (História do Estruturalismo), de algumas biografias intelectuais (sobre Michel de Certeau, o jesuíta-historiador autor de A invenção do cotidiano; e sobre o filósofo, também francês, Paul Ricœur) e de demais obras que dialogam íntima e muitas vezes criticamente com a sofisticação do conceito de verdade, da problematização do sujeito, das fontes e das múltiplas narrativas advindos com a Linguist Turn e com a 3ª Geração dos Annales, por exemplo. Todavia, especificamente com O Desafio Biográfico, Dosse avança justamente num ponto em que estruturalismo e pós-estruturalismo são muito próximos (extremos da ferradura?): a negação da biografia. Em suas palavras:

Hoje já se compreende bem que a História é um fazer levado a cabo pelo próprio historiador e, portanto, até certo ponto depende da ficção. Diga-se o mesmo do biógrafo, o qual ficcionaliza seu objeto e torna-o, por isso mesmo, inalcançável, apesar do efeito do vivido que com isto obtém. […] Em todos os domínios que dependem da transversalidade, a escrita biográfica dá um passo à frente, pois se estriba num entreleçamento de disciplinas que abre caminho para hipóteses não reducionistas.[3]

Não por acaso, residem nesta discussão entre ciências humanas (sobretudo a do século XX) e biografia o grosso das obras e dos autores analisados por François Dosse. Condensando no segundo capítulo (“A idade heroica”) toda a tradição da Historia Magistra Vitæ – que remonta da Antiguidade ao século XIX, mas que Dosse também encontra ecos na contemporaneidade, com as biografias do gênero “grandeza artística” –, O Desafio Biográfico reserva outros quatro capítulos para traçar uma espécie de história do ocaso, da “criptoexistência” e do ressurgimento do gênero biográfico frente à academia, ocorridos no último século. Isto porque, fora dos muros universitários – seja na França, seja no Brasil –, é ponto pacífico que a biografia nunca passou por grandes problemas de legitimação – e, consequentemente, de vendas.

Falar, portanto, de uma “volta” do gênero biográfico como atualmente se admite requer alguns poréns. Mesmo se conjugarmos esse “retorno” à academia (o que parece mais factível) é preciso considerar que mesmo em tempos de “déficit do sujeito” recorreu-se ao indivíduo para exprimir o quinhão demasiadamente humano de qualquer acontecimento histórico. Na “biografia modal”[4], por exemplo, em que “o singular se torna uma entrada no geral, revelando […] o comportamento médio das categorias sociais” e onde há uma verdadeira hipervalorização da estrutura frente ao indivíduo, François Dosse nos faz enxergar a presença de um gênero muito próximo à biografia, que é a prosopografia – grosso modo, e segundo o autor, “um gênero que tem por objeto reposicionar as características de um grupo esmiuçando as informações sobre todos os seus membros”[5].

Outro porém relacionado a esta “volta” da biografia (“boom”, “retorno”, “febre” são outras palavras utilizadas para descrever o fenômeno) reside em consideramos justamente seu caráter histórico, relacionando a atual legitimação conquistada junto a academia às transformações pelo qual este gênero passou nas últimas décadas. Nas palavras de Dosse, “o quadro monista, unitário da biografia foi desfeito, o espelho se quebrou para deixar aflorar mais facilmente a apreensão da unidade pela singularidade e, ao mesmo tempo, a pluralidade das identidades, o plural dos sentidos da vida”. [6]

Em outras palavras, tal legitimação está intimamente ligada ao trabalho de historiadores que avançaram no debate, em muito paralisante, da chamada “crise da história”, mas que também não abriram mão da sofisticação metodológica também fruto daquele debate, como é o caso de François Dosse.

Notas

1. A lista só tem crescido nos últimos anos, mas poderíamos citar o já clássico: BOURDIEU, Pierre. A ilusão biográfica. In: AMADO, J.; FERREIRA, M.M. (Orgs.). Usos e abusos da história oral. Rio de Janeiro: FGV Editora, 1996. O também traduzido: LORIGA, Sabrina. A biografia como problema. In: REVEL, Jacques (Org.). Jogos de escala: a experiência da microanálise. Trad. Dora Rocha. Rio de Janeiro: FGV Editora, 1998, p. 225-249. Além da coletânea: SCHMIDT, Benito B.; GOMES, Angela C. ( Org.) . Memórias e narrativas (auto)biográficas. Porto Alegre/ Rio de Janeiro: Editora da UFRGS/ Editora da FGV, 2009.

2. DOSSE, F. O Desafio Biográfico – Escrever uma vida. Trad.: Gilson César C. Souza. São Paulo: EdUSP, 2009, p. 12.

3. Id. Ibid., pp. 71 e 122.

4. Id. Ibid., p. 195.

5. Id. Ibid., p. 223.

6. Id. Ibid., p. 359.

Eduardo Gomes Silva –  Mestre em História pelo PPGH/UFF. Atualmente é doutorando em História pelo PPGH da Universidade Federal de Santa Catarina. E-mail: edugomes_sc@yahoo.com.br


DOSSE, François. O Desafio Biográfico – Escrever uma vida. Trad. Gilson César C. Souza. São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo, 2009. Resenha de: SILVA, Eduardo Gomes. A “volta” de um gênero híbrido e assaz historiográfico – Biografia. Cantareira. Niterói, n.15, jul./dez., 2011. Acessar publicação original [DR]

Teoria da História – 4 volumes | José D’Assunção Barros

BARROS, José D’Assunção. Teoria da História – 4 volumes. Petrópolis: Editora Vozes, 2011.319 p.; 246 p.; 328 p.; 447 p. Resenha de RIBEIRO, Monike. Revista do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, Rio de Janeiro, a. 172 (451) p.361-365, abr./jun. 2011.

Teoria da História, em quatro volumes, é o título da coleção que aca­ba de ser publicada por José D’Assunção Barros, autor que já é conhecido na área de Teoria e Metodologia da História por alguns artigos e, sobretu­do, por dois livros anteriormente publicados pela Editora Vozes: O Campo da História (7ª edição) e O Projeto de Pesquisa em História (7ª edição).

Assim como os livros anteriores, a nova coleção de livros pretende responder a demandas importantes do ensino de graduação e pós-gradua­ção, no que concerne à área de Teoria e Metodologia da História. Trata-se de oferecer ao público, e particularmente ao leitor especializado ao qual se dirige, textos que primem por uma linguagem clara e acessível, mas sem sacrificar a complexidade exigida pelos objetos da historiografia. A obra se organiza em quatro volumes. Pode-se dizer que os três primeiros volumes apresentam conteúdos já clássicos de Teoria da História – tais como a discussão dos conceitos pertinentes à área ou à apresentação dos grandes paradigmas historiográficos – enquanto o último volume surpre­ende pela proposta de uma nova abordagem, ainda experimental, que traz a novidade de buscar enxergar a complexidade da historiografia através de uma imaginação musical.

O primeiro volume da coleção – intitulado Teoria da História: Prin­cípios e Conceitos Fundamentais – parte da ideia de que a Teoria da His­tória e a Metodologia da História são as duas dimensões fundamentais para a formação do Historiador, bem como para a sustentação de qualquer pesquisa histórica dentro dos quadros atuais de exigências deste âmbi­to profissional e do campo disciplinar da historiografia. Neste sentido, o contraste entre Teoria e Metodologia, buscando esclarecer o que pertence a um âmbito e a outro, é um dos pontos importantes do volume, que busca também discutir o que é Teoria da História, em que aspectos as ‘teorias da história’ se diferenciam das ‘filosofias da história’, e de que elementos se constitui a ‘matriz disciplinar da História’ nos dias de hoje. Conceitos como o de ‘paradigma’, ‘escola histórica’, ‘campo histórico’ são discu­tidos em profundidade, preparando o estudo que se desdobra nos demais volumes da coleção. Ao mesmo tempo, o autor discorre sobre algumas questões fundamentais para se pensar a Teoria da História, nos dias de hoje. Quais são limites entre a ‘liberdade teórica’ e as imposições da ‘co­erência teórica’, nos atuais quadros do desenvolvimento historiográfico? Como se pode aplicar o princípio da historicidade à própria Teoria da História? Será a História uma Ciência, e exclusivamente uma Ciência, ou o conhecimento historiográfico também deve ser pensado nos termos de uma dimensão estética, discursiva, ou mesmo artística? Os volumes II e III da coleção avançam para a discussão de questões mais específicas, algumas das quais envolvendo também a própria histó­ria da historiografia. Quais os grandes paradigmas historiográficos que, ontem e hoje, se colocam à disposição dos historiadores? Quais as ca­racterísticas essenciais do Positivismo, do Historicismo, do Materialismo Histórico, dos modelos historiográficos relativistas? Uma classificação das produções historiográficas em termos de paradigmas será suficiente para compreender em toda a complexidade um pensamento historiográ­fico? Estas são algumas das questões que o autor percorre nestes dois volumes.

Trazer uma discussão atualizada acerca dos paradigmas Positivista e Historicista é a proposta do volume II – Teoria da História – os pri­meiros paradigmas: Positivismo e Historicismo. Trata-se não apenas de examinar estes paradigmas do ponto de vista de uma história da historio­ grafia, como também de dar a perceber quais podem ser as contribuições desses paradigmas para a historiografia contemporânea. Para além desta discussão historiográfica, que estabelece um contraste entre os paradig­mas Positivista e Historicista, a grande questão que atravessa o volume é a da relação entre Objetividade e Subjetividade na construção do conheci­mento histórico, de modo que também são examinadas algumas correntes relativistas da historiografia que aprofundam a reflexão sobre a relati­vidade historiográfica encaminhada por alguns setores do Historicismo. Além disso, o volume se abre com uma discussão sobre a refundação da História como conhecimento científico, na passagem do século XVIII ao século XIX, e, para tal, o autor optou por desenvolver também uma di­gressão inicial sobre os modos como se pensava a História antes de que a historiografia ocidental passasse a se revestir de uma intenção bastante clara de cientificidade.

O terceiro volume – Paradigmas Revolucionários – dedica-se a dis­correr sobre os outros dois paradigmas que surgem ainda no século XIX. Em um primeiro capítulo o autor apresenta o Materialismo Histórico, dis­cutindo nas suas várias nuanças, e através de diversos autores, questões como a dialética, o conceito de modo de produção, os posicionamentos diante da noção de determinismo histórico, as definições de ‘classe so­cial’ e sua articulação com a ‘luta de classes’. Trata-se de mostrar como o Materialismo Histórico se desenvolveu em múltiplas direções, desde o século XIX, e sobretudo no decorrer do século XX. A segunda parte do volume aborda o que o autor denominou “Paradigma da Descontinuida­de”, partindo das críticas de Nietzsche às noções de progresso e finalis­mo, e chegando às propostas de Michel Foucault.

Se os três primeiros volumes da coleção Teoria da História oferecem um conteúdo já tradicional no estudo da Teoria e Metodologia da História, já o quarto volume da série – que foi chamado de Acordes Historiográfi­cos: uma nova proposta para a Teoria da História – é francamente inova­dor. A experiência proposta por José D’Assunção Barros é a de entender a complexidade da historiografia e da teoria da história a partir de uma imaginação musical, trabalhando mais especificamente com a metáfora do “Acorde Teórico”. Partindo desta nova proposta de análise que é a de conceber a complexidade de um pensamento autoral através da metáfo­ra do acorde, o livro examina, sucessivamente, o pensamento de alguns historiadores e filósofos da história, tais como: Walter Benjamin, Ranke, Droysen, Max Weber, Paul Ricoeur, Koselleck e Karl Marx. A proposta de operacionalização do conceito de “acorde teórico” (que, segundo o au­tor, pode ser utilizado também para a análise de pensamentos filosóficos, sociológicos, antropológicos, ou autorais de modo geral) ou de “acorde historiográfico” (mais especificamente referente aos pensamentos sobre a História) é introduzida por um capítulo no qual é discutida a abordagem, e que precede as diversas análises específicas que são desenvolvidas com esta nova perspectiva.

Conforme ressalta Barros, um acorde, na Música, é um som formado por diversos outros sons (as notas musicais), que, interagindo mutuamen­te, terminam por produzir um novo resultado sonoro. A ideia básica do livro de José D’Assunção Barros é comparar a complexidade autoral de historiadores e filósofos da história a acordes musicais complexos. Um autor, mesmo que apresente uma base de pensamento bem identificada com um dos paradigmas tradicionais ou com as diversas correntes do pensamento historiográfico, pode apresentar em sua identidade teórica di­versas outras influências autorais (que o autor chama de ‘notas de influên­cia’), ou características diversas que se tornam tão importantes para a sua singularidade teórica como o pertencimento a determinado paradigma. Assim, na identidade teórica de um pensador como Karl Marx existiriam muitas notas para além daquelas que poderiam ser caracterizadas como inerentes ao paradigma do Materialismo Histórico – que ele mesmo, aliás, ajudou a fundar com Engels. Isso ajudaria a perceber o que, no pensamen­to de Marx, é desdobramento de sua inserção no campo paradigmático do Materialismo Histórico, e o que seria já específico de Marx. A utilização da metáfora do acorde para compreender pensamentos autorais também possibilita entender pensamentos autorais em movimento, através das di­versas obras ou fases de um mesmo autor.

A inovação teórica proposta por José D’Assunção Barros neste últi­mo volume de sua série – certamente produto da dupla formação do autor, que além de historiador é também músico – deve ser saudada como uma tentativa de enxergar os tradicionais objetos da historiografia de uma nova maneira, de modo a resolver impasses que aparecem quando simplesmen­te nos limitamos a situar um autor dentro deste ou daquele paradigma. A coleção, a entender pela apresentação do próprio autor, ainda não está concluída. No prefácio da série, registra-se o plano de completar a cole­ção com mais dois volumes, discutindo a historiografia contemporânea, inclusive a mais recente, através dos conceitos de “escolas históricas” e “campos históricos”. O sexto volume, conforme a planificação do autor, retornará ao âmbito dos conceitos operacionais para a historiografia, dis­cutindo temas como o Tempo, o Espaço, a Memória, bem como o uso de hipóteses na História-Problema.

Monike Garcia Ribeiro – Doutoranda e bolstista (CAPES) do Programa de Pós-graduação em História Com­parada da Universidade Federal do Rio de Janeiro.

La Arqueología y la Etnohistoria. Un Encuentro Andino – TOPIC (C-RAC)

TOPIC, John R. (Ed). La Arqueología y la Etnohistoria. Un Encuentro Andino. Lima: Instituto de Estudios Peruanos e Institute of Andean Research, 2009. 369p. Resenha de: MILLONES, Luis. Chungara – Revista de Antropología Chilena, Arica, v.43, n.2, p.323-326, dic. 2011.

John Topic nos entrega un nuevo texto guiado por la idea de presentar un retrato sobre los estudios andinos en nuestros días. En su introducción, menciona a varios autores que destaca por su capacidad de pasar por encima de las fronteras de las disciplinas comprometidas en este libro (antropología, arqueología, historia) para acercarse al objetivo de sus investigaciones. Son esas las pautas de la publicación: el estado del trabajo interdisciplinario en los estudios andinos en el primer decenio del año dos mil.

En las mismas páginas da cuenta del esfuerzo que ha tenido que desplegar hasta que la publicación llegue a nuestras manos. No lo dudamos. Convertir una reunión académica en un libro que incluya los debates grabados de los participantes es algo que pocos colegas se atreverían a hacer. No siempre el resultado refleja lo que pudo ser una controversia vivaz e interesante, con aportes que justifiquen el trabajo realizado. En este caso, el editor intenta trasmitir ese quehacer íntimo del evento, con las dificultades que menciona y las que podemos adivinar a través de experiencias parecidas.

A lo dicho se suma la ausencia del trabajo de Idilio Santillana, participante de la reunión, cuya tesis doctoral sigue esperando su turno en el editorial de su universidad, lo que decidió a Idilio a dejarnos sin su contribución, lo que lamentamos. Actuó de madrina nuestra hermanita mayor, María Rostworowski, cuya participación es siempre un lujo. El evento recordó a Craig Morris, cuya muerte en el 2006 es una pérdida notable en los estudios andinos.

Dividido en cuatro rubros, el que se dedica a Mitos y Cosmología, tiene un solo expositor, Segundo Moreno, que eligió un tema importante y complejo, el Chimborazo como ancestro. El autor nos dice al final de su artículo que carece de fuentes escritas similares a las que pueden encontrarse en las visitas de los extirpadores de idolatrías del arzobispado de Lima. Pero exprime con mucha habilidad la documentación y la tradición oral recogida en la época colonial y republicana, en las faldas del volcán. Moreno nos recuerda que el Chimborazo era una de las huacas relacionadas con los seguidores del Taki Onqoy, justamente la que se encontraba en el extremo norte de las que fueron convocadas para derribar a los dioses cristianos. Posteriormente esta visión cambia y la montaña restablece su calidad de apu (señor) exigente, al que no satisfacían los rebaños que le estaban consagrados (camélidos y posteriormente ovejas), a ellos agregaba en sus demandas el sacrificio de niños y niñas, como otros nevados a lo largo de la cordillera de los Andes. El autor nos entrega desde el folklore los relatos sobre la condición masculina del Chimborazo y los enredos de su “pareja”, Tungurahua, cerro al que se feminiza, quizás “porque su influjo climatológico es lejano”.

La Segunda Parte está dedicada a la etnicidad e identidad, y empieza con un caso paradigmático, Sechura (Departamento de Piura, al borde del Océano Pacífico) en el Norte del Perú. El conocimiento del tema está garantizado por el autor, Lorenzo Huertas, que habiendo nacido en la región, es un hurgador de documentos que ha trabajado en localidades distritales (el Perú se divide en departamentos, éstos a su vez en provincias, que están compuestas por distritos) con el apoyo de los municipios de cada jurisdicción, y es autor de un libro sobre Sechura. Esta vez prefiere viajar en el tiempo, analizando la conservación de los espacios sechuranos en manos de sus habitantes originales. Usando el nombre que se le dio en la Colonia, Huertas concluye que “San Martín de Sechura resultó en un pueblo monoétnico, de allí su uniformidad cultural y homogeneidad genética y lingüística; además tuvo una estructura política policuracal”. Si así sucedió, esto fue el resultado de diversas estrategias de sus habitantes: aun los que vivían fuera del perímetro urbano regresaban para las festividades, incluso después de muertos para ser enterrados en su cementerio. Más tarde, en el siglo XIX, se crearon “fronteras vivas”, es decir se levantaron caseríos en zonas en conflicto con hacendados u otras comunidades calificadas de invasores. Esta solidaridad con su suelo se alimentaba en un parentesco endogámico que hasta hace muy poco tiempo hacía posible descubrir a sus pobladores o descendientes por sus apellidos.

Para el mismo rubro de identidad y etnicidad, cuatro autores (Santoro, Romero, Standen y Valenzuela) eligieron el valle de Lluta, al norte de Chile como caso de estudio. Muy centrados en el viejo esquema de verticalidad, predicado por John Murra en la década del sesenta, se proponen a estudiar los cambios en la estructura económica y política en el período que va del Intermedio Tardío a la intervención del estado incaico. El espacio señalado es “una cuenca hidrográfica de más de 150 km de largo y comprende una hoya de 3.450 km2″ que ha sido objeto de interés en la bibliografía chilena desde varios años. Esta vez, los autores basan su análisis en “muestreos de superficie aleatorios y estratificados de los 29 sitios arqueológicos habitacionales y funerarios, algunos ya conocidos en inventarios regionales”. Para su estudio han clasificado el espacio en tres tipos de valles: costero, intermedio y fértil.

Su primera conclusión es que en el Intermedio Tardío “el sector del valle costero y del valle fértil fueron controlados por población de origen local”. Por el momento se desconoce el carácter de su estructura política, pero se puede decir que en el valle intermedio, el control de las tierras es compartido por poblaciones de origen altiplánico.

El tema se replantea con la irrupción del Estado incaico que se hará visible en la cerámica cuya presencia y variaciones, a decir de los autores, puede reflejar “arreglos políticos y económicos” que se constituyen “para administrar la población y los territorios de los valles”, tal sería el caso de Arica.

Buscando la colaboración del dato histórico, el artículo nos recuerda las hazañas atribuidas a Tupac Yupanqui “quien después de conquistar a los grupos altiplánicos del área circum-Titicaca, separó específicamente para los pacajes algunas tierras de cultivo de maíz… en las costas de Arica y Arequipa”. A continuación queda planteado el dilema de la articulación de la zona de los valles y costa de Arica (Lluta y Camarones) que pudo ser multiétnica, con pacajes y carangas compartiendo el control; o bien reafirmando a los pacajes como dominantes en el período incaico y a los carangas como presencia colonial.

Jorge Hidalgo se suma al tema en debate desde una perspectiva diferente, en lugar de fijar un espacio geográfico para discutir sobre su identidad, prefiere contrastar las comunidades de pescadores y agricultores que habitaron la región que María Rostworowski llamó Colesuyo (desde Camaná hasta Tarapacá).A continuación Hidalgo, basado en una copiosa documentación, trata sobre el intercambio entre estos habitantes yungas.

El punto de partida del trabajo de Hidalgo es la propuesta de Rostworowski que los habitantes del Colesuyo al carecer de un centro de poder estuvieron dominados por la gente serrana desde el período que los arqueólogos llaman Intermedio Tardío, que precedió a los Incas. Para Hidalgo, tal supremacía recién se logra en la última etapa prehispánica. Para demostrar su propuesta recurre a tres casos significativos: Ilo, Tacna y Arica. Su argumentación concluye estableciendo que Ilo era un cacicazgo de pescadores, Tacna era un escenario compartido por agricultores y pescadores y Arica (como Tacna) aun sin conclusiones definitivas, muestra una población multiétnica con territorios interdigitados.

Jorge Hidalgo utiliza la documentación que acompaña el estudio de Efraín Trelles sobre el encomendero Lucas Martínez Vegazo, cuyos tributarios pertenecían a las actuales jurisdicciones de Tarapacá, Arica, Ilo y Arequipa. A ello suma un juego comparativo entre las informaciones que proceden de las visitas de Pedro de La Gasca y de Francisco de Toledo. Como se sabe, luego del primer intento del reparto de encomiendas, bolsa de pensiones y distribución de yanaconas, el licenciado La Gasca se vio obligado, en 1548, a realizar una inspección de los repartimientos indígenas de todo el virreinato, a partir de las declaraciones de los curacas y los encomenderos de cada jurisdicción con datos específicos de población (originales y forasteros), tipo de cultivos, productos de cada región (textiles, ganados, etc.) y en especial de los tributos que proporcionaban al encomendero, e incluso antes de la Conquista a las autoridades incaicas o jefes locales. Con mucho mayor detalle dado que las circunstancias políticas eran otras, el virrey Toledo, entre 1570 y 1575, instruyó a sus funcionarios de tal forma que los propios encomenderos asegurasen la veracidad de los resultados. Esto quiere decir que los datos estadísticos obtenidos permitieron analizar desde la composición familiar hasta el nivel productivo de cada región. Además, detrás de esta propuesta demográfica y económica, estaba la necesidad de describir al imperio de los Inca como una tiranía que se redimía con la administración hispana y por supuesto, con la catequización cristiana.

El resultado está volcado en cuadros comparativos que también incluyen la información de Lucas Martínez Vegazo (1540) y que servirán de fuente para futuros estudios. Hidalgo concluye que el cacicazgo de Ilo aparece en las fuentes como una comunidad de pescadores, que además practicaba la agricultura. Al contrario, en el de Tacna no parece haber mucho contacto con la ribera marítima. Cuando aparecen quienes practican la pesca, son mitimaes que terminan siendo parte de este cacicazgo.Aun así es difícil pensar que las actividades se mantuvieron separadas. Esta división es notoria entre los aymaras, lo que contrasta con la población original. Finalmente, tenemos el caso de los caciques e indios uros en Lluta y Azapa y de los indios camanchacas con tierras de cultivo en la ciénaga de Ocurica… que se vieron obligados a vender sus tierras para satisfacer el impuesto reclamado por Toledo. En conclusión, Hidalgo propone que la ausencia de diferencias entre pescadores y agricultores, encontradas en la tradición cultural de la costa, habría tenido sus orígenes en la tradición cultural alto andina.

En su Tercera Parte el libro trata del siempre espinoso tema de las fronteras del Imperio. El primer trabajo de este rubro pertenece a Sonia Alconini que reabre el estudio de los límites con el Chaco boliviano, lo que tiene una larga historia, en especial por su relación con las tribus chiriguanas de filiación guaraní.Alconini centra su trabajo en dos zonas: Oroncota al oeste y Cuzcotuyo al este de los piedemonte del Chaco, ambas en la Cordillera Oriental de los Andes.

El artículo empieza con una provocadora cita del Inca Garcilaso de la Vega, en la que el cronista muestra el estereotipo usual que desplegaban incas y europeos con respecto a las sociedades más allá de su territorio conocido. Llega a decir: “Y no solamente comían la carne de los comarcanos que prendían, sino también la de los suyos propios cuando se morían…” También los cronistas españoles repiten sus prejuicios: “los Chiriguanas que es una nación de montaña desnudos y que comen carne humana…” a decir de Pedro Sarmiento de Gamboa. Como nos recuerda la autora, esta percepción de los “bárbaros” es común en todas las historias oficiales de los imperios que se encuentra en varios continentes. Pero si bien estas calificaciones son repetitivas, los límites físicos entre sociedades diferentes, propician opciones de investigación que suelen ser novedosas, y ayudan a comprender al propio estado expansivo, de mejor manera.

Alconini proporciona dos fórmulas fronterizas: la militar y la cultural. Al obvio despliegue de barreras y soldados de una de ellas, la otra sería el de Incanizar a las poblaciones externas (bárbaros), a través de las poblaciones que habitaban dentro de sus límites. Para ello se centra en los datos de arquitectura, prospección y distribución de cerámica incaica. A los que suma la documentación histórica, que a su juicio refleja la perspectiva incaica, en la que las tribus chiriguanas figuran como invasores, por lo que el espacio fronterizo sería una zona militarizada a partir del gobierno de Tupac Yupanqui. Esta versión no coincide con la que procede de la arqueología: el sistema de caminos, el muro en la cima de la montaña Cuzcotuyo y las colinas amuralladas adyacentes, en lo que se refiere a la arquitectura, y la distribución de la cerámica guaraní-chiriguana que también se encuentra en espacios de ocupación incaica.

Sonia Alconini concluye que la frontera debe pensarse como un espacio de interacción, no como una línea demarcatoria. Dentro de esta perspectiva pudieron existir espacios militarizados como el complejo Cuzcotuyo y también centros provinciales como Oroncota, de larga inversión de trabajo en su infraestructura. Esto nos está diciendo que al lado de la construcción de lo que sería una frontera militarizada coexistían fórmulas de jugar con los límites como espacios de interacción con los grupos étnicos locales. Esta relación era también una forma de frontera que hacía de aquellas tribus parte del Imperio.

Las contribuciones preparadas para este rubro continúan con el trabajo de Verónica I. Williams sobre la dominación incaica en el noroeste argentino (NOA). En su artículo analiza la fórmula de ocupación incaica en los espacios que comprende el valle de Calchaquí, el de Yocavil-Santa María, la quebrada de Humahuaca y en el bolsón de Andalgalá. La pregunta pendiente sigue siendo la naturaleza de esta dominación. En algunos casos, la arquitectura prueba la presencia de los especialistas imperiales para la construcción de obras de naturaleza variada, en otras ocasiones, a partir de la alfarería se puede hablar de asentamientos mixtos (incaicos y santamarianos).

Williams enfatiza la variedad de estrategias usadas por los señores del Cusco para marcar su presencia en un espacio codiciado. Un Estado en expansión necesita en primer lugar una red de caminos, que en su fase inicial pudo ser heredada de los waris, en lo que se ha llamado “primer round” del imperio. A continuación, una vez establecidos los espacios y habitantes a ser dominados, se procedía a la instalación de centros estatales a lo largo de las vías. Dichos centros, o nichos provinciales, cubrían varias urgencias, entre ellas, presencia política, áreas de intercambio económico y ceremonial, pero sobre todo tenían la función de convertir a los sorprendidos habitantes, en miembros del Tahuantinsuyu. Parte importante en este afán era la determinación de las cumbres que se convertían en santuarios incaicos, confirmados con el sacrificio de niños y jóvenes, cuyas momias cargadas de ornamentos se siguen encontrando en el sur del Imperio.

No fue tarea fácil, el territorio prehispánico del NOA fue un mosaico de etnias, muchas de ellas alojadas bajo la cómoda denominación de calchaquíes. Esta fragmentación de etnias trajo consigo que en el aspecto militar (si es que la hubo) se diera un mayor avance, mientras que en el aspecto productivo el desarrollo fue más lento y complejo. Este panorama cambió en cuanto los hijos del sol implementaron la organización social incaica.

Es interesante descubrir esta voluntad incaica de construir estos complejos habitacionales en lugares poblados y despoblados, lo que implica consideraciones geopolíticas de larga duración que ahora escapan de nuestro conocimiento. En todo caso Willliams encuentra dos patrones generales: aquellos poblados integrados por varios sectores, como podría ser un cerro con defensas, barrios residenciales y zonas públicas; un poblado al pie del cerro y conjuntos arquitectónicos dispuestos en forma aislada, vinculados a unidades domésticas, talleres artesanales y terrazas agrícolas. El otro patrón se caracteriza por centros ubicados en terrazas o mesetas altas y relativamente planas.

Para concluir Williams propone que las diferentes formas de ocupación del Estado incaico “pudieron responder a un control territorial de tipo directo o indirecto, confluyendo en los asentamientos estatales los centros de poder y de intercambio”. Aun así, es difícil saber los criterios incaicos de ocupación, que debieron variar de acuerdo a la reacción de los pobladores originales.

Culminan los trabajos en este rubro con el artículo de Ana María Lorandi, maestra de larga e importante trayectoria en las ciencias sociales argentinas. El tema de su trabajo tiene que hacer con las relaciones centro-periferia del Tahuantinsuyu, usando como ejemplo el NOA. Se interesa especialmente en la producción de bienes y servicios a favor del Estado incaico, usando como herramienta las acciones de los mitimaes o poblaciones desplazadas con ese propósito. Como en el trabajo anterior, los calchaquíes son protagonistas en este juego de intereses, su aceptación o rechazo a estos colonos forzados es el eje de las preocupaciones de Lorandi y otros especialistas.

Lorandi empieza analizando el rol de mitimaes y yanaconas en el desarrollo del Tahuantinsuyu. Estas poblaciones cuya función y estilo de vida era transformada por decisión estatal, por mucho tiempo fueron considerados como serviles, sin que se determinasen las especificidades de su accionar, lo que incluía, en algunos casos, privilegios con respecto al hatun runa. Ubicarlos en el NOA no fue fácil, Lorandi nos dice que aun bajo el gobierno español, la región fue frontera de guerra, lo que a ella le permite extrapolar la situación para épocas prehispánicas, concluyendo que “los incas controlaron más fácilmente a las jefaturas más septentrionales que a las del centro y sur de la región”.

Superada la fase guerrera, lo que se conoce en las crónicas como etapa de pacificación imperial o pax incaica, debió involucrar un cuidadoso manejo de los mitimaes. Si la distancia con sus pueblos de origen no era superior a unos días de camino, la estrategia debió ser muy diferente si los desplazados terminaban ocupando espacios a muchos kilómetros. Y por más que se guardasen sus privilegios en los pueblos de sus padres, la reubicación implicaba situaciones de adaptación para los pueblos originales y para los forzados migrantes. Concluye su trabajo con una pregunta que resume el estado actual de nuestro conocimiento sobre el tema, ¿Cuáles eran los límites de la capacidad del Estado para movilizar miles de personas a cientos o a más de mil kilómetros, sin provocar resistencias activas o pasivas, o sin provocar un agotamiento que conspirase con los objetivos políticos y económicos para los cuales se implementaban estas prácticas?”

La Cuarta Parte, en manos de Rostworowski, es una reflexión sobre la necesidad de enfatizar el carácter interdisciplinario de los estudios andinos. Temas diversos como los mitos de Huarochirí, el santuario de Pachacamac o las peregrinaciones precolombinas, etc., que corresponden a temas investigados por ella misma y que forman parte de sus obras completas, dan ejemplo a seguir en la necesaria interacción de las disciplinas. María, nuestra hermana mayor, caminó por los espacios del valle de Lurín siguiendo los pasos de las deidades de Huarochirí y de los peregrinos de Pachacamac. Su síntesis es un ejemplo de la mirada que abarca las disciplinas sociales.

Reseñado por Luis Millones – Profesor Emérito, Universidad Nacional Mayor de San Marcos, Lima, Perú.

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Almanack. Guarulhos, n.1, 2011 / n.20, 2018.

Almanack. Guarulhos, n.20, 2018.

Dossiê

Resenha


Almanack. Guarulhos, n.19, 2018.

Artigo

  • Soberanía y competición política – 1808-1830 Unos problemas y unas definiciones Artigo Annino, Antonio
  • Domingo Faustino Sarmiento: sus viajes, la modernidad y el apologismo al federalismo norteamericano | Dupré, Eduardo Hodge

Artigo

  • Ephemeral Mobility: critical appraisal of the facets of indian migration and the maistry mediation in Burma (c. 1880-1940) | Jaiswal, Ritesh Kumar
  • Demografia escrava e o impacto das leis abolicionistas no Espírito Santo (1850-1888) | Lago, Rafaela Domingos
  • Os limites da soberania régia A capitania da Paraíba do Sul entre 1727 e 1730 | Raminelli, Ronald
  • The americanism of Aureliano Cândido Tavares Bastos | Rosi, Bruno Gonçalves
  • Diretas ou indiretas? O debate sobre as eleições no Brasil (1821-1823) | Motta, Kátia Sausen da

Resenha


Almanack. Guarulhos, n.18, Publicado: 2018.

Palavras Introdutórias

  • Jurisdições, Soberanias, Administrações (Primeiras décadas do século XIX)

Dossiê

  • Jurisdições, Soberanias, Adminsitrações | Slemian, Andréa; Lopes, José Reinaldo de Lima; Agüero, Alejandro
  • La justicia excepcional en la primera mitad del XIX cubano: orden público y gobierno militar de los territorios coloniales | Rubio, Alina Castellanos
  • A Junta do Código Penal Militar de 1802: perspectivas, dilemas e resistências à reforma militar na corte de D. João* | Souza, Adriana Barreto de
  • Magistratura Eleita: administração política e judicial no Brasil (1826-1841) | Campos, Adriana Pereira
  • Os Poderes regionais e a construção política do espaço: as complexas jurisdições da administração fazendária no Brasil entre 1821-1823 |  Chaves, Claudia
  • Circulação de saberes e de práticas governativas: caminhos de articulação da política no Brasil, 1845-1860 |  Oliveira, Maria Luiza Ferreira de
  • “Confiados na justiça da sua causa, sabedoria, e incansável zelo a prol da Província”: o Conselho Geral de Minas Gerais como espaço de participação dos cidadãos (1828-1834)* |  Fernandes, Renata Silva
  • Administrar finanças e recrutar agentes Práticas de provimentos de ofícios no reinado joanino no Brasil (1808-1821) |  Stumpf, Roberta
  • O redefinir das fronteiras dos poderes políticos e religiosos após a Independência do Brasil: o Seminário de Mariana-MG como espaço de conflito | Almeida, Gabriela Berthou de
  • Machado de Assis e Silvio Romero: escravismo, “raça” e cientificismo em tempos de campanha abolicionista (década de 1880) | Schneider, Alberto Luiz
  • Os periódicos franceses na imprensa carioca oitocentista Uma leitura dos editoriais de primeira edição | Peruchi, Amanda

Resenha


Almanack. Guarulhos, n.17, 2017.

Fórum

  • Exilé(e)s et migrant(e)s transatlantiques: histoires entremêlées, historiographies parallèles | Aprile, Sylvie
  • Um olhar e muitas perguntas sobre os exilados transatlânticos, suas histórias conectadas e paralelas | Pamplona, Marco Antonio Villela
  • Emigração e exílio, novas abordagens nos estudos migratórios: considerações sobre o | ARTIGO|  de Sylvie Aprile | Sarmiento, Érica

Dossiê

Resenha

Capitalism and Second Slavery in Texas | Beamish, Ian

  • Revisiting the Transition to Capitalism Debate | Blackburn, Robin
  • Entre cativeiros: africanos livres na formação do Estado imperial e na economia-mundo oitocentista | Ferraro, Marcelo
  • Capitalismo, Estados Unidos e o tráfico internacional de escravos no século XIX | Salles, Ricardo

Almanack. Guarulhos, n.16, 2017.

Artigo

  • De “salvajes” a heroicos: la construcción de la voz y la imagen del “indio Charrúa” desde 1830 a los inicios del siglo XX | Azpiroz, Andrés
  • Latinos ‘versus’ Anglo-Saxões: projeções identitárias nos relatos de viagem de hispano-americanos pelos Estados Unidos no século XIX | Franco, Stella Maris Scatena
  • Definição de candidaturas parlamentares e relações entre chefes partidários no Brasil monárquico: o caso da participação de Zacarias de Góis e Vasconcelos em eleições na Província do Paraná (1861-1862) | Gomes, Sandro Aramis Richter
  • A sociabilidade britânica no Rio de Janeiro do século XIX: os clubes de Cricket* | Melo, Victor Andrade de
  • A biblioteca de um estadista do Império: o inventário dos livros de José Lino Coutinho (1836) | Magalhães, Pablo Iglesias; Junqueira, Lucas de Faria
  • Resultados parciais e expectativas frustradas: os Cunha Mattos sob as reformas de Lippe | Rodrigues, Neuma Brilhante

Resenha


Almanack. Guarulhos, n.15, 2017.

Fórum

  • Constitution, juridiction, codification. Le libéralisme hispano-américain au miroir du droit | Lempérière, Annick
  • História e Direito: em busca dos continentes submersos: comentário ao texto de Annick Lempériere | Costa, Wilma Peres
  • De la deconstrucción del paradigma estatalista a un estado del debate abierto: comentario al texto de Annick Lempériere | Ternavasio, Marcela

Artigo

  • Considerações sobre uma polícia preventiva: discursos políticos e a natureza da atividade policial no Brasil oitocentista | Soares, Joice de Souza
  • Ultramontanismo e protestantismo no período regencial: uma análise da crítica panfletária dos padres Perereca e Tilbury à missão metodista no Brasil | Silva, Ana Rosa Cloclet da; Carvalho, Thaís da Rocha
  • Federalismo e posturas confederativas no discurso político do Brasil independente: as concepções dos escritos de Frei Caneca | Leme, Maria Saenz
  • A quebra do paradigma “Sentido Da Colonização”: notas sobre o debate historiográfico do Brasil Colonial, Antigo Sistema Colonial e Antigo Regime nos Trópicos. | Salles, Wesley Dartagnan
  • Uma missão abolicionista britânica no Brasil e as relações entre a British and Foreign Anti-Slavery Society e a Sociedade contra o Tráfico de Africanos e Promotora da Colonização e Civilização dos Indígenas | Ré, Henrique Antonio
  • Pedro II e o império de casaca: os sentidos de poder nos trajes masculinos no Segundo Império | Monteleone, Joana Moraes

Resenha

  • Guerra Civil nos Estados Unidos: novo balanço da Reconstrução | Izecksohn, Vitor
  • O Maranhão nas primeiras décadas do Oitocentos: condições para a eclosão da Balaiada | Galves, Marcelo Cheche
  • Novas perspectivas para o estudo da abolição brasileira: cidadania e ação senhorial | Miranda, Bruno da Fonseca
  • Catolicismo, escravidão e a resistência ao Império: Um outro olhar | Barbi, Rafael José
  • O Mar que nos une: trabalho, escravos e libertos no Atlântico Moderno e Contemporâneo. | Falcão, Nuno de Pinho

Almanack. Guarulhos, n.14, 2016.

Dossiê

  • Some words about the dossier Scales of Global History1 | Pimenta, João Paulo; Marquese, Rafael
  • Shrewd Sirens of Humanity’: the changing shape of pro-slavery arguments in the Netherlands (1789-1814) | Brandon, Pepjin
  • Mule Drivers in Nineteenth-Century Lebanon: from local social history towards Global History | Chaker, Joane
  • The Global Career of Indian Opium and Local Destinies | Farooqui, Amar
  • Religious Nationalism in an Age of Globalization: The Case of Paraguay’s “Mennonite State”1 | Goossen, Benjamin W.
  • The Two Tales of Forced Labour: Katorga and Reformed Prison in Imperial Russia (1879-1905) | Popova, Zhanna
  • Global History and Latin American History: A Comment | Paz, Gustavo L.
  • Reação francesa às ameaças de Cabanos e Bonis no território litigioso entre o Brasil e a Guiana Francesa (1836-1841)1 | Alves, Débora Bendocchi
  • Não se fazem mais excomunhões que prestem nos dias de hoje: libertinos, Reformismo Ilustrado e a defesa da tolerância religiosa no mundo luso-brasileiro (1750-1803) | Rocha, Igor Tadeu Camilo

Articles

Resenha


Almanack. Guarulhos, n.13, 2016.

Fórum

  • La construcción del Estado en España: haciendo historia cultural de lo político1 | Ruiz, Juan Pro
  • (Re)pensando paradigmas: a História Cultural do Político e a construção do Estado Nacional na Espanha – comentário ao texto de Juan Pro Ruiz. | Marson, Izabel Andrade
  • À espreita do Estado: reflexões sobre sua formação a partir das Independências na América | Slemian, Andréa
  • O poder da representação: a relação entre Executivo e Legislativo na política imperial de meados do século XIX | Gregório, Vitor Marcos
  • A “pedagogia da adesão”: o papel das ordens honoríficas na promoção da “causa do Brasil” (1822-1831) | Silva, Camila Borges da
  • O caminho incerto das Luzes francesas: o abade De Pradt e a Independência brasileira1. | Morel, Marco

Artigo

  • Cartas ao Imperador: os pedidos de perdão de réus escravos e a decisão de 17 de outubro de 1872 | Pirola, Ricardo Figueiredo
  • Repensando el Estado como institución. Poder central, cultura local y relaciones centro-periferia en las interpretaciones de Juan Maiguashca y el debate Schwarz-Carvalho Franco.* | Hanna, Santiago Cabrera
  • Albergue Espanhol: A Lenda Negra sobre o comer e o beber madrileños pelo olhar de viajantes franceses (século XIX) | Camargo, Daisy de
  • Nem só de flores, votos e balas: abolicionismo, economia global e tempo histórico no Império do Brasil | Youssef, Alain El
  • O quinto baile da história do Rio | Souza, Carlos Eduardo Dias
  • Hispanoamérica e Iberoamérica: una convergencia en el ocaso del mundo colonial | B., Jaime Rosenblitt ES  ES Uma “Nação de Imigrantes” | Gonçalves, Paulo Cesar
  • Um laboratório para o Império | Stahl, Moisés

Almanack. Guarulhos, n.12, 2016.

Dossiê

  • Slavery and the Atlantic Slave Trade in Brazil and Cuba from an Afro-Atlantic Perspective | Araújo, Ana Lucia
  • Ardras, minas e jejes, ou escravos de “primeira reputação”: políticas africanas, tráfico negreiro e identidade étnica na Bahia do século XVIII | Silva, Carlos da
  • From beyond the Kwango – Tracing the Linguistic Origins of Slaves Leaving Angola, 1811-1848 | Bukas-Yakabuul, Badi; Silva, Daniel B. Domingues da
  • Os desembarques de cativos africanos e as rotinas médicas no Porto do Recife antes de 1831 | Carvalho, Marcus J. M. de; Albuquerque, Aline Emanuelle De Biase
  • “O que fará essa gente quando for decretada a completa emancipação dos escravos?” – serviço doméstico e escravidão nas plantations cafeeiras do Vale do Paraíba. |  Muaze, Mariana de Aguiar Ferreira
  • Mulheres e Mães Negras: mobilidade social e estratégias sucessórias em Minas Gerais na segunda metade do século XVIII | Dantas, Mariana L. R.
  • Na tecitura do Urbano:1 Rio de Janeiro e Havana na trama da escravidão (1816-1821) | Santos, Ynaê Lopes dos
  • Cosmopolitas del Atlántico esclavista: los “africanos” Daniel Botefeur y su esclavo de confianza Robin Botefeur en Cuba | Zeuske, Michael

Artigo

Resenha


Almanack. Guarulhos, n.11, 2015.

Fórum

  • Afrodescendentes livres e libertos e igualdade política na América portuguesa. Mudança de status, escravidão e perspectiva atlântica (1750-1840)1 | Silva, Luiz Geraldo
  • Popular War: Gauchos and the Challenge to Elite Power in Northern Rio de la Plata in the Revolutionary Period | Paz, Gustavo
  • Insurreições populares, conflitos e acomodações entre livres e libertos na América Portuguesa e no Rio da Prata (1750-1840). Comentários aos textos de Gustavo Paz e Luiz Geraldo Silva | Sá, Maria Elisa Noronha de

Articles

  • Naturaleza and citizenship in Modern Spain. From subject representation to the dawn of contemporary citizenship (17th-19th centuries) | Salvatto, Fabricio Gabriel; Carzolio, María Inés
  • Luiz Gama e a sátira racial como poesia da transgressão: poéticas diaspóricas como contranarrativa à ideia de raça1 | Santos, Eduardo Antonio Estevam
  • Lutas políticas, abolicionismo e a desagregação da ordem escravista: Bananal, 1878-1888 | Santos, Marco Aurélio
  • Ângelo Agostini e a Charge no Crepúsculo Imperial – Apontamentos Preliminares acerca da Questão Abolicionista1 | Liebel, Vinícius
  • “No obedecen a nadie, sino cada uno gobierna a su familia”. Etnicidad y política en la reducción del maniel de Bahoruco, 1785-1795 | Belmonte Postigo, José Luís
  • O que há de novo na nova história política de François-Xavier Guerra? | Ricupero, Bernardo

Resenha


Almanack. Guarulhos, n.10, 2015.

Dossiê

  • Presentación del dossier Experiencias de tiempo en los siglos XVIII y XIX iberoamericanos. Un abordaje desde la historia conceual | Wasserman, Fabio; Pimenta, João Paulo
  • Una nueva forma de pensar el tiempo, una nueva forma de pensar la historia: el siglo XIX en España 1 | González Manso, Ana Isabel
  • Café con el Anticristo Lima: el tiempo político para la Revolución Francesa (1794-1812) |  Rivera, Víctor Samuel
  • Experiences of Time and Conceual Change in the Río de La Plata Revolutionary Process (1780-1840) 1 2 | Wasserman, Fabio
  • “Ao ponto que as necessidades públicas exigem”: experiência política e reconfiguração do tempo no debate político brasileiro da década de 1830 | Pereira, Luisa Rauter
  • Modulando o tempo histórico: Bernardo Pereira de Vasconcelos e conceito de “regresso” no debate parlamentar brasileiro (1838-1840) | Lynch, Christian Edward Cyril
  • República, tiempo incierto y moral en la primera mitad del siglo XIX neogranadino | Ortega, Francisco
  • Conceos de temporalidad en la prensa conservadora y del Segundo Imperio en México, 1848 – 1867 | Fuentes, Miguel Hernández
  • A governança da justiça militar entre Lisboa e o Rio de Janeiro (1750-1820) | Souza, Adriana Barreto de

Articles

Resenha

  • La construcción de la ciudadanía católica: intersecciones históricas e historiográficas para una explicación con resonancias en el presente | Barral, María Elena
  • Fernando de Noronha e o Mundo: A Colônia Penal do Império em Perspectiva Atlântica no Século XIX | Ferraro, Marcelo Rosanova
  • Iberconceos II, 1770-1870: tempos e espaços da “atlantização” dos conceitos | Fanni, Rafael

Almanack. Guarulhos, n.9, 2015.

Fórum

  • Rites protestataires et tensions démocratiques en France à l’âge romantique (1820 – 1848) | Fureix, Emmanuel
  • Ritos políticos e politização popular no Brasil imperial | Kraay, Hendrik
  • Funerais, oposição e protesto entre a França e o Brasil do século XIX | Rodrigues, Claudia
  • Memoria e Historiografía en torno a las Instrucciones Orientales de 1813 | Ribeiro, Ana; Caetano, Gerardo
  • Entre o local e o provincial: os Conselhos Gerais de Província e as Câmaras Municipais, São Paulo e Minas Gerais (1828-1834) | Oliveira, Carlos Eduardo França de

Artigo

  • Clero y política en La Rioja en los años veinte del siglo XIX. El Teniente de cura Melchor León de la Barra, de revolucionario a “reo de alto crimen” | Gómez, Fernando; Mazzoni, María Laura
  • Ecletismo e retórica na filosofia brasileira: de Silvestre Pinheiro Ferreira (1769-1846) ao frei Francisco do Monte Alverne (1784-1858) | Duran, Maria Renata da Cruz
  • La prensa durante el período rivadaviano: El Argos de Buenos Aires (1821-1825) | Lescano, Mariana Paula
  • Religião e política: o clero nos tempos de Pombal (Maranhão, século XVIII) | Muniz, Pollyanna Mendonça
  • Nem arrancada, nem outorgada: agência, estrutura e os porquês da Lei do Ventre Livre1 | Soares, Rodrigo Goyena
  • O debate político e o pensamento econômico no Império brasileiro: centralização de poder e monopólio de emissão no segundo Banco do Brasil (1852-1853) | Gambi, Thiago Fontelas Rosado

Resenha


Almanack. Guarulhos, n.8, 2014.

Artigo

  • Entre a memória e o esquecimento: modos de compreender a história | Schiavinatto, Iara Lis
  • Sobre cultura histórica e usos do passado: a Independência do Brasil em questão1 | Gontijo, Rebeca
  • Continental Origins of Insular Proslavery: George Dawson Flinter in Curaçao, Venezuela, Britain, and Puerto Rico, 1810s-1830s* | Schmidt-Nowara, Christopher
  • Vientos de libertad a ambas orillas del Atlántico. Las Cortes de Cádiz y la Asamblea del año XIII | Lafit, Facundo
  • Crioulizações internas: processos de transculturação nos Bantu angolanos | Soares, Francisco Manuel Antunes
  • Religião, “espírito público” e patriotismo na independência do Rio da Prata* | Verdo, Geneviève
  • “Por ser Pernambuco tão chegado”: anexação, governos e mercados ultramarinos na Capitania da Paraíba (1791-1799) | Chaves, José Inaldo
  • Representaciones gráficas del Estado en formación. La tierra y los indígenas en la cartografía territorial argentina durante el siglo XIX | Yuln, Melina

Resenha


Almanack. Guarulhos, n.7, 2014.

Artigo

  • Tradiciones electivas. Cambio, continuidad y ruura en historia intelectual* | Sebastián, Javier Fernández
  • História da historiografia e temporalidades: notas sobre tradição e inovação na história intelectual | Nicolazzi, Fernando
  • Inovação, tradição, historiografia: um breve diálogo com Javier Fernández Sebastián | Franzini, Fábio
  • Guerra aos extremos: polarização política em Pernambuco e a defesa do princípio de soberania nacional (1829-1831) | Feldman, Ariel
  • A coragem de ser só: Cândido Mendes de Almeida, o arauto do ultramontanismo no Brasil | Santirocchi, Ítalo Domingos
  • Alimentação e transformações urbanas em São Paulo no século XIX1 | Silva, João Luiz Maximo da
  • As transformações políticas e econômicas da Província do Grão-Pará e a Escola Normal como instituição destinada a formar professores alinhados aos ideais modernos de ordenamento, progresso e civilização (1840 a 1871) | Malheiros, Rogério Guimarães
  • Pânico e terror: a presença da cólera na Província do Espírito Santo (1855-1856) | Franco, Sebastião Pimentel
  • Vale expandido: contrabando negreiro e a construção de uma dinâmica política nacional no Império do Brasil1 | Parron, Tâmis; Youssef, Alain El; Estefanes, Bruno Fabris

Resenha


Almanack. Guarulhos, n.6, 2013.

Artigo

  • La Iglesia católica y la formación del Estado-nación en América Latina en el siglo XIX. El caso colombiano | Mesa, Luis Javier Ortiz
  • Igreja e Estado no Brasil oitocentista: um diálogo com La Iglesia católica y la formación del Estado-nación en América Latina en el siglo XIX. El caso colombiano, de Luis Javier Ortiz Mesa | Martins, William de Souza
  • Comentários ao texto de Luis Javier Ortiz Mesa La Iglesia católica y la formación del Estado-nación en América Latina en el siglo XIX. El caso colombiano | Neves, Guilherme Pereira das
  • Os limites do reformismo bourbônico: a propósito da administração da justiça na América espanhola | Garriga, Carlos
  • Aspectos econômicos da participação paulista no processo de independência | Borges, Luiz Adriano
  • A Exploração dos rios Amazonas e Madeira no Império Brasileiro por Franz Keller-Leuzinger: imprensa e nação | Vergara, Moema de Rezende
  • Relatos imperiais: a literatura de viagem entre a política e a ciência na Espanha, França e Inglaterra (1680-1780)1 | Paredes, Rogelio C.
  • Anphitheatrical Rio!1Marítimos americanos na baía do Rio de Janeiro. Século XIX2 | Jeha, Silvana Cassab
  • Modernização esquecida, construindo pontes e estradas no Brasil Imperial: engenheiros e artífices em uma região exportadora em Minas Gerais(1850-1875) | Cravo, Télio Anísio

Resenha


Almanack. Guarulhos, n.5, 2013.

Artigo

  • A Segunda Escravidão e a Primeira República Americana | Baist, Edward E.
  • Estado e partidos na primeira república dos EUA.Comentários ao texto de Edward Baist | Izecksohn, Vitor
  • Estados Unidos, Segunda Escravidão e a Economia Cafeeira do Império do Brasil | Marquese, Rafael de Bivar
  • James Cooley Fletcher, o missionário amigo do Brasil | Rosi, Bruno Gonçalves
  • A administração fazendária na América portuguesa: a Junta da Real Fazenda e a política fiscal ultramarina nas Minas Gerais | Chaves, Cláudia Maria das Graças
  • La participación popular en las revoluciones hispanoamericanas, 1808-1816. Un ensayo sobre sus rasgos y causas | Meglio, Gabriel Di
  • A abolição do tráfico de escravos no Atlântico Sul: Portugal, o Brasil e a questão do contrabando de africanos | Guizelin, Gilberto da Silva
  • Escravos, senhores e vida marítima no Atlântico: Portugal, África e América portuguesa, c.1760 – c.1825 | Rodrigues, Jaime
  • Sobre liberalismo y religión: rentas eclesiásticas y presupuesto de culto en el Estado de Buenos Aires (1852-1862) | Stefano, Roberto Di

Resenha

  • A força da opinião: panfletos manuscritos na independência do Brasil | Fanni, Rafael
  • Identidades, guerra e limites – A independência do Uruguai revisitada | Winter, Murillo Dias
  • A obra derradeira e inacabada de Sérgio Buarque de Holanda | Nicodemo, Thiago Lima
  • Poder e jurisdição sob o episcopado de D. fr. Manuel da Cruz (1748-1764) | Feitler, Bruno

Almanack. Guarulhos, n.4, 2012.

  • O Império do Brasil no contexto do século XIX. Escravidão nacional, classe senhorial e intelectuais na formação do Estado | Salles, Ricardo Henrique

Artigo

Resenha

  • As independências ibero-americanas: transitando pelos labirintos da História | Ferreira, Fábio
  • A cor da política: carreira, identidade racial e formação do Estado nacional no Exército baiano do entre-impérios (1790-1850) | Leite, Douglas Guimarães
  • Fronteira feita por homens, cavalos e armas | Miranda, Marcia Eckert
  • Da colônia à nação: impostos e política no México, 1821-1857 | Carrara, Angelo Alves
  • A vida (e a morte) de Cláudio Manuel da Costa: poeta árcade, escravocrata e inconfidente | Schneider, Alberto Luiz

Almanack. Guarulhos, n.3, 2012.

Artigo

Resenha


Almanack. Guarulhos, n.2, 2011.

Artigo

Resenha


Almanack. Guarulhos, n.1, 2011.

Artigo

  • La ley y la sangre. La “guerra de razas” y la constitución en la América Bolivariana | Thibaud, Clément
  • Guerra, historicismo e direito | Silveira, Marco Antonio
  • Guerra, Direito e História: reflexões em torno de um discurso sobre as independências da América ibérica | Pimenta, João Paulo Garrido
  • “Desde Piso e Marcgrave que ninguém com curiosidade tolerável descreveu a natureza brasileira”: os relatos de Cook, Banks e Parkinson e a construção de imagens do Brasil colonial1 | Domingues, Ângela
  • Liberdade para os índios no Império do Brasil. A revogação das guerras justas em 1831 | Sposito, Fernanda
  • A evasão de ouro dos fundos bancários em meados do século XIX e suas consequências para a política econômica | Sáez, Hernán Enrique Lara
  • Motins políticos e a Historiografia Imperial: a inserção de um intelectual amazônico nos quadros do IHGB | Lima, Luciano Demetrius Barbosa
  • “Aderir”, “jurar” e “aclamar”: O Império no Maranhão (1823-1826)1 | Galves, Marcelo Cheche
  • Nobrezas na América portuguesa: notas sobre as estratégias de enobrecimento na capitania de Minas Gerais | Stumpf, Roberta Giannubilo
  • Dividindo o Grão-Pará: os debates para a criação da província do Rio Negro na Câmara dos Deputados, 1826-18281 | Gregório, Vitor Marcos

Resenha

Almanack | UNIFESP | 2011

ALMANACK3 2

Almanack (Guarulhos, 2011-) é uma revista acadêmica e interinstitucional especializada na história da formação dos Estados nacionais no Brasil e em todo mundo, entre os séculos XVIII e XIX.

Editada por especialistas nesta temática, ela possui pesquisadores de universidades brasileiras e estrangeiras (Argentina, EUA, Espanha, França) entre seus editores e conselheiros executivos, e opera com um amplo espectro de avaliadores de dentro e de fora do Brasil.

As universidades brasileiras que a mantém são UNIFESP (sede institucional), USP, UFF, UNIRIO, UERJ, UFJF, UFOP, UFES, UFSJ, UFRRJ e PUC-RJ. Também é apoiada pela Sociedade Brasileira de Estudos do Oitocentos (SEO).

Periodicidade trimestral

Acesso livre

ISSN 2236-4633 (Online)

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The Emergence of a Scientific Culture | Stephen Gaukroger || Nature, Empire and Nation | Jorge Cañizares-Esguerra

O objetivo da presente resenha é apresentar e discutir dois livros publicados em 2006, porém de pouca repercussão no meio acadêmico brasileiro. O primeiro é The Emergence of a Scientific Culture, do historiador britânico Stephen Gaukroger, enquanto o segundo é Nature, Empire and Nation, de Jorge Cañizares-Esguerra, estudioso da América hispânica colonial na chamada primeira modernidade ou early modern period. A pequena recepção das duas obras não deixa de ser estranha visto serem ambos os autores já conhecidos do público brasileiro; de Stephen Gaukroger se publicou em 2000, pouco após sua edição original em língua inglesa, uma biografia intelectual de René Descartes [2] , enquanto Cañizares-Esguerra é o autor de How to write the history of the New World, livro ao qual, se não se lhe pode dar a pecha de influente, não obstante encontrou seu caminho nas bibliografias de alguns artigos e importantes estudos [3] . Ao longo do texto, contudo, não procurarei entender os dois livros aqui estudados com relação às trajetórias acadêmicas dos seus autores, e sim os lerei a partir das concepções – e, por que não, projetos – acerca da história da ciência que ambos veiculam. Apresentarei, portanto, primeiro o livro de Gaukroger, apontando algumas das problemáticas em que se envolve e algumas questões que podem ser tratadas nele, para, num segundo momento, discutir a obra de Cañizares-Esguerra e algumas reflexões que podem ser feitas a partir dele, procurando pontos de contato e distanciamentos entre os dois.

The Emergence of a Scientific Culture faz parte de um projeto maior acalentado por Stephen Gaukroger visando retraçar a “transformação dos valores cognitivos e intelectuais na era moderna”, do qual este é apenas seu primeiro livro. Com relação à história da ciência, sua proposta é perceber como a ciência passou a moldar os valores sociais, culturais, políticos e/ou morais da sociedade contemporânea, constituindo-se, ao menos em sua auto- imagem, como parte intrínseca da modernidade. Com isso, procura atender à condição que coloca de escrever uma “história conceitual e cultural da emergência de uma cultura científica no Ocidente” e, embora não problematize explicitamente o que considera ser uma “cultura científica”, ela não obstante está presente no modo como redescreve seu objeto de estudos. Desse modo,

Este estudo trata a ciência no período moderno como um tipo particular de prática cognitiva e como uma espécie particular de produto cultural, e meu objetivo é mostrar que se explorarmos as conexões entre esses dois, nós podemos aprender algo acerca das preocupações e dos valores do pensamento moderno que não poderíamos aprender de ambos separadamente (GAUKROGER, 2006, p.3) [4].

Ao perceber a ciência imbricada na cultura de sua época, o autor se coloca a questão de explicar a singularidade da Revolução Científica ocidental, contrapondo-se a outras culturas e civilizações que tiveram culturas científicas avançadas, mas não conseguiram imprimir a elas o mesmo caráter de expansão e inovação constantes tampouco conseguiram remodelar suas culturas a partir da ciência. Por isso, sua caracterização da ciência, percebe o autor, é ao mesmo tempo uma confirmação e uma refutação da conceituação oferecida por Thomas Kuhn. Seu objeto quebra com a lógica kuhniana porque apesar de se articular em torno às sucessivas mudanças de paradigmas, sempre influenciadas pela sociedade, também advoga a ruptura entre os desenvolvimentos científicos ocidentais e os dos demais lugares do mundo. Sua problemática, logo, escapa da mera escrita da história da ciência e entra no domínio das discussões acerca da modernidade, metamorfoseando seu objeto no da percepção da inter-relação entre um contínuo desenvolvimento da ciência e rupturas estruturais mais profundas, as quais explicam a singularidade da ciência ocidental. Não deixa, portanto, de se incluir no mesmo programa já perseguido pelo historiador italiano Paolo Rossi, em especial em seu Naufrágios sem espectador [5], livro que também procura correlacionar – embora sem determinar um e outro de forma causal – o desenvolvimento da ciência e o de certos aspectos da modernidade. Da mesma forma, também a obra de Frances Yates, em especial os volumes sobre Giordano Bruno e sobre o movimento rosacruz, [6] são referencias para a compreensão do projeto de Gaukroger, embora se deva destacar com relação a ambos os autores tanto a atualização dos debates nos quais se inserem por este último como também o fôlego de seu projeto, que afeta o próprio estatuto da história da ciência por dedicar igual atenção às doutrinas científicas elaboradas por suas personagens e à condição social do filósofo natural – muito embora se possa questionar se a delimitação temporal de seu livro, terminando no final do século XVII, dá conta de explicar esses desenvolvimentos decisivos ou se se trata apenas de um prelúdio para uma abordagem mais direta dessas questões [7].

O livro, dividido em cinco partes, começa sua narrativa propriamente dita em sua segunda seção, a qual trata da própria colocação em cena da filosofia natural pelo encontro da tradição cristã com a filosofia aristotélica. Nesse sentido, seu segundo capítulo descreve a solução agostiniana para o problema da interpretação do mundo na esteira do fim da Antiguidade e o desafio que representou a essa solução a introdução do aristotelismo no Ocidente. O terceiro capítulo trata do desafio à nova “amálgama” aristotélica representada pelo neoplatonismo renascentista e, por fim, o quarto capítulo aborda a transformação interior à própria filosofia natural no que toca a seus critérios de validade. Se antes a leitura do mundo tentava captar o significado religioso do que nele estava presente, as transformações na leitura das Escrituras, derivadas de desenvolvimentos na filologia, na história e no direito implicaram que a própria filosofia natural sofreria mudanças. Essas mudanças, aliadas às descobertas do Novo Mundo, abrem espaço para a inserção da experiência e da observação direta nos domínios da ciência, fazendo-a deixar de ser apenas a dedução de princípios primeiros a partir da realidade sensível. Percebe-se, nessa segunda parte de seu livro, a preocupação do autor de relacionar as transformações da ciência a mudanças maiores que acontecem no âmbito da cultura, o que lhe permite sustentar seu argumento mais recorrente, o de que ao invés de uma autonomia com relação ao mundo religioso, a ciência nascente se modela e se pensa através da própria religião.

É tendo esses problemas em vista que se articula a terceira seção do livro. Os capítulos cinco, seis e sete do livro são seus capítulos centrais porque são onde mais claramente se apresenta sua proposta de perceber a ciência como parte de uma cultura mais ampla. Dessa forma, os capítulos questionam, respectivamente, a prática da filosofia natural, seu praticante e o lugar que ele ocupa na sociedade. Quanto à primeira, o autor descreve o movimento da filosofia natural de se afirmar a partir de sua relação com a verdade para sua relação com a utilidade; quanto à segunda, demonstra como são transferidas as características do filósofo moral para o filósofo natural, isto é, para aquele que virá a ser o cientista, do qual se espera agora comportamento condizente com sua ocupação. Esse comportamento, que lhe faz ocupar o papel de sábio, é modelado pelas virtudes morais e religiosas. Por fim, quanto ao lugar do filósofo natural, ele problematiza a afirmação de que as universidades eram o ambiente mais propício a estes, reconstruindo a partir, sobretudo, do exemplo de Galileu Galilei a importância do mecenato aristocrático com relação à prática científica. Concernentes à epistemologia científica, as transformações estudadas implicam, primeiro, que a preocupação com a verdade passa a ser uma preocupação com a objetividade, ou seja, da defesa de modelos de conhecimento se passa à defesa (e ao ataque) dos procedimentos científicos; em segundo lugar, que o modelo medieval do magister de um colégio de artes universitário, o qual pensava a si mesmo livre de dogmas, podendo discutir uma mesma questão de diversas maneiras, é colocado de lado em favor de um intelectual preocupado em oferecer conhecimento útil à sociedade ou, em termos da primeira modernidade, à coroa. A ciência, portanto, estava afastada de um ideal atemporal de verdade e inserida em sua época.

A quarta parte, que ocupa a maior parte do livro, e a quinta problematizam os desenvolvimentos internos à ciência. De um lado, as relações entre os diversos modelos de explicação da natureza disponíveis no século XVII – a história natural, o mecanicismo e, por fim, a aplicação prática da matemática ao estudo da natureza –, deixando em aberto a disputa em torno à compreensão dominante do mundo. Essa inconclusão com que termina o livro – embora dependa de seu caráter de ser parte de um projeto maior – visa ressaltar a inexistência de uma teleologia guiando o desenvolvimento científico, mostrando que não existia (ainda) um ordenamento consensual de suas disciplinas. Ao mesmo tempo, mostra como todos os modelos explicativos visavam apoiar-se na religião ou em alguma concepção de conhecimento revelado para assegurarem sua posição. A quinta e última parte é, por sua vez, um breve excurso sobre as tentativas de unificar a ciência e o conhecimento no século XVII, questão candente e que também é deixada em aberto.

Mesmo que se possa pensar que por vezes Stephen Gaukroger esteja demasiadamente preso a discussões e problematizações epistemológicas, uma vez que discussões acerca de doutrinas científicas ocupam a maior parte do volume, seu livro é bem-sucedido em re- situar a emergência da ciência ou, como chama, de uma cultura científica na história ocidental; também é importante por estar atento às rupturas estruturais com as quais as continuidades culturais, num contexto amplo e de grandes transformações, se relacionam. É a partir deste ponto que se pode problematizar o livro de Jorge Cañizares-Esguerra.

O livro do historiador americano compila artigos escritos num intervalo de mais de dez anos que tocam no tema da história da ciência. Seu principal objetivo é discutir as proposições que afirmam o atraso cultural e científico da Península Ibérica e de seus impérios coloniais. Segundo o autor, o desprezo da história da ciência – e aqui se pode incluir também Gaukroger, pois embora ele afirme que seu projeto partiu de algumas leituras e comparações com o mundo ibérico, ele só o trate marginalmente em seu livro – é derivado de uma auto- narrativa do Norte da Europa com relação à Revolução Científica, que percebe no Sul da Europa apenas o atraso e que, por conseguinte, reafirma apenas as ciências que a teriam encabeçado – matemática, física, astronomia –, deixando de lado os desenvolvimentos, resultado dos impérios coloniais, que os reinos da Península Ibérica fizeram com relação à cartografia, à metalurgia, à engenharia, entre outros conhecimentos, agrupados normalmente como conhecimentos técnicos.

Dessa preocupação resulta também o seu segundo problema de pesquisa. Percebendo que os reinos ibéricos não se opunham ao conhecimento científico – embora tivessem políticas que não combinam com a percepção que hoje temos de ciência, como é o tema de seu primeiro capítulo, o qual aborda a figura do cavaleiro-cientista –, ele passa a demonstrar como esse conhecimento era ressignificado pelos sujeitos coloniais, enfatizando como as elites crioulas se apropriavam do conhecimento científico para defenderem seus privilégios e imporem uma idéia de América frente às metrópoles coloniais. Tendo isso em vista, ele enfatiza os modos pelos quais essas elites crioulas percebiam o mundo, modos os quais, em sua maior parte, enquadram-se numa concepção barroca de ciência e sociedade. Os “cientistas” crioulos participavam e reafirmavam a existência de uma coletividade social, participando de seus rituais e celebrações e, principalmente, eles também procuravam defender sua posição.

Assentado nas doutrinas neoplatônicas e herméticas, o clero crioulo constantemente buscava na natureza assinaturas escondidas e subliminares com significado patriótico. Para eles, o corpo humano, a Terra, e o cosmo eram todos “teatros” barrocos (nos quais os objetos eram reduzidos a uma linguagem de imagens) com analogias micro e macroscópicas inter-relacionadas. Todos os objetos tinham significados polissêmicos e as habilidades exegéticas do clero lhes ajudavam a descobrir sua importância subliminar, revelando um cosmos pleno de desígnios providenciais que favoreciam as colônias. (CAÑIZARES-ESGUERRA, 2006, p.50) [8].

E, principalmente, no capítulo seguinte, “New World, New Stars”, onde procura demonstrar a gênese do conhecimento racial nas tipologias corporais formuladas a partir do Novo Mundo. Essas tipologias – tentativas de lidar e simplificar a heterogênea realidade americana –, criadas sobretudo pelos crioulos, procuravam defender, de um lado, a primazia da América e, de outro lado, a subserviência dos indígenas a esses mesmos crioulos.

É com relação a este segundo propósito de seu livro que Jorge Cañizares-Esguerra faz suas afirmações mais contundentes e, também, controversas. Embora não se possa rejeitar sua argumentação, pode-se questionar, por exemplo, sua percepção muitas vezes simplificada dos elementos sociais presentes na América hispânica, que percebe os mesmos crioulos, peninsulares, ameríndios e negros por toda a extensão de seu território. Um segundo elemento que pode ser problematizado é a ênfase na reapropriação pelas elites coloniais do conhecimento ibérico visando à construção de uma identidade própria – o revisionismo do autor acerca das posições normalmente aceitas da história ocidental está presente também nos últimos capítulos do livro, onde tenta demonstrar a primazia pelos pintores mexicanos da pintura de paisagens (capítulo sete) e também a origem mexicana das preocupações ecológicas de Alexander von Humboldt (capítulo seis). O revisionismo, sempre bem-vindo, não é, contudo, problemático por si só, pois a argumentação de Cañizares-Esguerra é sólida e sua discussão e revisão bibliográficas bastante bem-feitas. O problema específico que pode trazer sua obra é na consideração das rupturas existentes entre um momento onde essa ciência era formulada – a primeira modernidade trabalha por Stephen Gaukroger – e o momento que lhe é o referencial para contrapor sua visão, a Revolução Científica que tomou forma em contexto e época diferentes. Ao tratar das causas pelas quais o conhecimento racial ibero-americano não deu origem ao racismo oitocentista europeu, o autor refere apenas a motivos secundários, tais como a rejeição da tradição hipocrática-galênica de medicina ou o rechaço da filosofia aristotélica. Dessa forma, Cañizares-Esguerra, ao não conseguir dar conta das transformações estruturais pelas quais passou o conhecimento científico europeu – objeto do livro de Gaukroger – e no qual, se seu argumento pretende adquirir toda a sua importância epistemológica, também o conhecimento ibérico estava inserido, acaba por reiterar a visão que pretende questionar, pois deixa intocado o construto conceitual “Revolução Científica”. Da mesma forma, o principal mérito de sua argumentação – demonstrar que, mesmo de maneiras diferentes, espanhóis peninsulares e americanos participavam do mesmo contexto intelectual – pode ser elemento a jogar contra o autor, uma vez que para sustentar seu argumento ele frequentemente subsume a identidade dessas elites crioulas no orgulho que, frisa ele, sentiam frente à incompreensão de sua realidade por aqueles que tinham a Europa como base de onde partia seu olhar. Pensando nos debates que aconteciam na Espanha bourbônica, pode-se pensar se Cañizares-Esguerra, em seu afã de desestabilizar concepções tradicionais acerca da história iberoamericana não acaba por aceitar demasiadamente fácil a imagem que essas elites crioulas fazem de si mesmas; problema candente ao se considerar as guerras de independência que se avizinham do recorte temporal que escolhe para seus estudos.

Apesar dessas críticas, a contribuição de Cañizares-Esguerra, historiador que procura sempre novas formas de abordar velhos problemas [9], é uma importante adição a uma revisão substantiva da história da ciência. Junto com Gaukroger, ambos os autores fornecem uma reestruturação importante e significativa de seu objeto, a qual certamente servirá de base para historiadores futuros.

Notas

1. Aluno do segundo ano do curso de mestrado em História pela Universidade Federal de Ouro Preto, cuja pesquisa é feita sob orientação do Prof. Dr. Fernando Felizardo Nicolazzi e que conta com o apoio da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES). E-mail: doca.silveira@gmail.com

2. GAUKROGER, Stephen. Descartes – Uma biografia intelectual. Rio de Janeiro: Contraponto, 2000. Publicado originalmente em 1997.

3. CAÑIZARES-ESGUERRA, Jorge. How to write the history of the New World. Stanford: Stanford University Press, 2001; refiro-me, por exemplo, a Esquecidos e Renascidos, de Íris Kantor, livro seminal para o estudo recente da historiografia luso-brasileira setecentista, assim como seu estudo em Júnia FERREIRA FURTADO. Sons, formas, cores e movimentos na modernidade atlântica: Europa, Américas, África. São Paulo: Annablume; Belo Horizonte: FAPEMIG, 2008.

4. “The study treats science in the modern period as a particular kind of cognitive practice, and as a particular kind of cultural product, and my aim is to show that if we explore the connections between these two, we can learn something about hte concerns and values of modern thought that we could not learn from either of them separately” (GAUKROGER, 2006: 3; todas as traduções são do autor).

5. ROSSI, Paolo. Naufrágios sem espectador. São Paulo: UNESP, 2000; o original é de 1995.

6. YATES, Frances. Giordano Bruno e a tradição hermética. São Paulo: Cultrix, 1995; The Rosacrucian Enlightenment. Nova York: Routledge, 2004; sendo os originais, respectivamente, de 1964 e 1972.

7. O que não significa que o autor reifique as diferenças através de um estudo estrutural estanque, pelo contrário. É significativa, nesse sentido, sua crítica ao que chama de “abordagem weberiana” da história da ciência, a qual, segundo ele, ao ficar apenas no âmbito da contraposição entre epistemologias de diferentes civilizações, perde de vista “o valor das dimensões extra de análises, e logo se torna evidente que precisamos ir além do que acabam sendo distinções formais oferecidas por este tipo de abordagem” (GAUKROGER, 2006: 35). Sua abordagem, dessa forma, insere-se em debates recentes acerca do estudo da história política e da história dos discursos; em especial, parece reiterar proposição de Yves-Charles Zarka, em contraposição a Quentin Skinner, para quem a necessidade de relacionar os sujeitos a seus contextos não deve deixar de lado a discussão das idéias que – no interior da história da filosofia – eles esposam. No caso de Gaukroger, a dupla ênfase nas doutrinas científicas e nas condições sociais implica que a história da ciência não pode se resolver facilmente aceitando apenas uma dessas opções e não outra. ZARKA, Yves-Charles. “Que nous importe l’histoire de la philosophie?” in ZARKA, Yves-Charles (dir.). Comment écrire l’histoire de la philosophie? Paris: PUF, 1999, pp. 19-32.

8. “Steeped in Neoplatonic and hermetic doctrines, the Creole clergy constantly searching in nature for underlying hidden signatures with patriotic significance. For them, the human body, the Earth, and the cosmos were all baroque “theaters” (in that objects were reduced to a language of images) interlocked by micro- and macroscopic analogies. All objects held polysemic meanings, and the exegetical skills of the clergy helped discover their underlying import, revealing a cosmos suffused with providential designs that favored the colonies” (CAÑIZARES-ESGUERRA, 2006: 50).

9. Refiro-me, por exemplo, a Puritan Conquistadors, também do autor, o qual procura demonstrar as semelhanças entre o discurso puritano de conversão dos indígenas e expansão britânica nas América com a “demonologia” indígena veiculada pelos espanhóis. CAÑIZARES-ESGUERRA, Jorge. Puritan Conquistadors – Iberianizing the Atlantic, 1550-1700. Stanford: Stanford University Press, 2006.

Pedro Telles da Silveira – Aluno do segundo ano do curso de mestrado em História pela Universidade Federal de Ouro Preto, cuja pesquisa é feita sob orientação do Prof. Dr. Fernando Felizardo Nicolazzi e que conta com o apoio da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES). E-mail: doca.silveira@gmail.com


GAUKROGER, Stephen. The Emergence of a Scientific Culture – Science and the Shaping of Modernity, 1210-1685. Oxford: Clarendom Press/New York: Oxford University Press, 2006. CAÑIZARES-ESGUERRA, Jorge. Nature, Empire and Nation – Explorations of the History of Science in the Iberian World. Stanford: Stanford University Press, 2006. Resenha de: SILVEIRA, Pedro Telles da. Reescrevendo a história da ciência: The Emergence of a Scientific Culture, de Stephen Gaukroger, e Nature, Empire, and Nation, de Jorge Cañizares-Esguerra. Aedos. Porto Alegre, v.3, n.8, p.240-247, jan. / jun., 2011. Acessar publicação original [DR]

O poder global e a nova geopolítica das nações | José Luís Fiori

Em O Poder Global e a Nova Geopolítica das Nações, José Luís Fiori tem o mérito de aproximar e, em alguns pontos, integrar as abordagens histórico-materialista e estratégico-realista das Relações Internacionais. O autor maneja o encaixe das abordagens concorrentes numa “teoria da acumulação do poder e da riqueza”, base de toda elaboração posterior, que irá culminar numa “teoria do poder global”. Assim fazendo, Fiori combina explanação histórica e determinação estrutural com análise de conjuntura, estratégia e tática, preenchendo espaços vazios da Teoria das Relações Internacionais.

Fiori parte da premissa de que as dimensões política e econômica determinam- se reciprocamente, sem que haja hierarquia ou precedência entre elas. Constata isso logo no Prefácio2 da obra, onde resgata a discussão entre as escolas da Economia Política Internacional. Lá trava diálogo pontual com os principais teóricos do “sistema-mundo”: André Gunder Frank, Immanuel Wallerstein e Giovanni Arrighi; do “imperialismo”, John Hobson, Rudolf Hilferding, Nicolai Bukharin e Vladimir Lenin; e da “teoria da estabilidade hegemônica”, Charles Kindleberger, Robert Gilpin e Robert Cox. Sociólogo do desenvolvimento de inspiração estruturalista, Fiori situa-se na tradição teórica do “sistema mundial moderno”; entretanto, situa-se com reservas, diferindo, como se verá adiante, dos pensadores expoentes dessa escola em pressupostos e diagnósticos decisivos. Depois segue em retrospecto o curso do tempo da “longa duração” rumo às origens da “economia-mundo” de Fernand Braudel. Retorna até o momento em que Karl Marx identifica a passagem do “modo de produção feudal” para o “modo de produção capitalista”, quando então se formavam os primeiros Estados nacionais, no interregno que vai do século XIII ao XVI. É nesse período fulcral da história ocidental que o autor identifica o embrião da simbiose única que, criadora do “milagre europeu”, faria da Europa o centro do poder e da riqueza mundial dos séculos seguintes: a união do poder político territorial com o capital privado.

Tal simbiose dará à luz as entidades que Fiori denominou “Estados-economias nacionais”, verdadeiras máquinas de conquista militar e expansão econômica, sobre cuja potência e capacidades já haviam refletido Nicolau Maquiavel e Thomas Hobbes. Conforme o autor, serão esses Leviatãs, governados por príncipes associados às burguesias nacionais, que irão encarregar-se da tarefa de expandir as fronteiras territoriais e incrementar o comércio e as finanças das nações da Europa, num movimento expansivo e inexorável que terá abarcado o globo todo antes do fim do século XIX. Fiori constata que o impulso e o dinamismo dessa expansão vêm da competição militar e econômica entre os Estados. Dialogando com Von Clauzewitz, o autor constata, ademais, que a guerra entra na arena quando os capitais sofrem bloqueios, continuando a política “por outros meios”. Como bem observaram Charles Tilly e Norbert Elias, com quem o autor igualmente dialoga, a guerra vem a se constituir no traço característico da história do sistema internacional e em elemento dinamizador do próprio “processo civilizatório”. O dado que explica a perenidade da guerra e da competição econômica seria o que Fiori denomina “pressão competitiva”.

De acordo com Fiori, na medida em que toda relação de poder político é assimétrica e está baseada num “jogo de soma zero”, a própria relação termina por exercer “pressão competitiva” sobre si mesma. Levada ao extremo das consequências, a “pressão competitiva” entre os Estados poderosos, em busca de maiores parcelas de poder, e Estados fracos, em defesa de sua independência e sobrevivência, torna-se “pressão sistêmica”. Em decorrência da pressão do sistema, os Estados irão inevitável e incansavelmente competir pelas posições econômicas e políticas de seus contendores.

Segundo o raciocínio do autor temos que: a “manutenção do poder” leva à “acumulação de poder”, e esta, à “acumulação de riqueza”, dado que o núcleo do poder assenta-se sobre bases materiais. Essas bases poderiam ser obtidas à força ou por via da produção, do comércio e das finanças, ou de uma combinação de meios coercitivos e econômicos, o que tem sido mais comum ao longo da história, tal como o demonstram o colonialismo e o imperialismo. Nesse caso, a “pressão competitiva” faria com que as classes governantes e as classes capitalistas, ainda que motivadas por interesses distintos – e por vezes divergentes –, somassem esforços no incremento do poder nacional, projetando força e internacionalizando a economia.

Para Fiori, nos tempos modernos, a conquista militar de territórios fiscais e coloniais teria dado lugar à conquista de “territórios econômicos supranacionais”, onde os “Estados-economias nacionais” impõem suas moedas e seus capitais privados ocupam posições monopolistas que lhes rendem lucros extraordinários. Os Estados que dessa forma se conseguem impor tornam-se “Estados-economias imperiais”. O exemplo mais eloquente desse fenômeno de projeção imperial do poder nacional seria os EUA. O “poder global” desse país estaria assentado, explica-nos o autor, sobre as bases de um vasto “território econômico supranacional” que após o fim da Guerra Fria passou a abarcar todo o globo. A “globalização econômica” que vem avançando desde as últimas décadas do século XX nada mais seria, continua o autor, do que a expansão do “território econômico supranacional” dos EUA.

Isso fica claro se tivermos em conta os elementos que, conforme Fiori, constituem e possibilitam o novo surto global de internacionalização do sistema capitalista. (1) As tecnologias de comunicação, informação e logística que viabilizaram a formação de um mercado financeiro global operante em tempo real e a descentralização dos processos produtivos foram desenvolvidas nos EUA. (2) As multinacionais dos EUA foram as pioneiras do processo e continuam figurando entre os maiores e mais importantes atores da globalização. (3) A moeda que serve de referência contábil e meio de pagamento do sistema financeiro internacional é o dólar norte-americano, sob controle de autoridade monetária norte-americana. (4) Os EUA detêm poder de decisão de última instância nos principais foros e regimes internacionais que estabelecem as regras e procedimentos de acordo com os quais os mercados são abertos, desregulamentados e privatizados.

Com relação à estabilidade do sistema internacional, Fiori defende que não são as diferentes geometrias de poder (unilateral, bilateral, multilateral) que a garantem, mas a ameaça de um grande conflito entre as potências que conformam o “núcleo dominante” do sistema. Porém, ressalva que, mesmo que a potência hegemônica não tenha rival a sua altura, a estabilidade sistêmica jamais se pereniza, pois a posição de hegemonia é sempre transitória. Isso ocorre porque a potência hegemônica, no afã de aumentar o seu poder, movida pelo imperativo da “competitividade sistêmica”, acaba por se desvencilhar das regras e instituições que sustentavam sua supremacia, mas que depois se tornaram constrangimentos. Como exemplo desse comportamento “autodestrutivo”, Fiori menciona os EUA e a crise que essa potência hegemônica provocou ao invadir o Iraque em 2003, na Segunda Guerra do Golfo, à revelia da ONU. O decreto de falência do sistema de convertibilidade ouro-dólar de 1973 é outro exemplo expressivo de rompimento com compromissos internacionais inconvenientes citado pelo autor.

É nesse ponto que Fiori se afasta de Wallerstein e Arrighi, a eles se opondo diametralmente. Wallerstein e Arrighi preveem o declínio do poder dos EUA e, em sequência, o colapso do “sistema-mundo”. Por seu turno, tal como Paul Kennedy, Fiori admite que, quando perdem posições econômicas, os Estados inevitavelmente perdem parcela da capacidade de sustentar a supremacia militar. Todavia, ressalva o autor, esse fato em nada altera o funcionamento do “sistema-mundo”, um sistema de acumulação de poder e riqueza em constante expansão, dinamizado pela competição econômica e pelo conflito armado, marcado pela ascensão, queda e sucessão de impérios e hegemonias.

Fiori prossegue a construção de seu “sistema mundial moderno” com a identificação de três categorias de “Estados-economias nacionais” em posição inferior na hierarquia internacional. São elas: (1) a dos Estados que se desenvolvem sob os auspícios das potências centrais (“desenvolvimento associado”); (2) a dos Estados que adotam a estratégia do catch up (alcançar o líder); e (3) a dos Estados da “periferia”, que fornecem insumos para as potências do “centro”.

Já concluindo, identifica também cinco transformações estruturais e de longo prazo operantes no início do século XXI: (1) a expansão do sistema internacional com a integração de novos Estados soberanos; (2) o deslocamento do eixo articulador da economia mundial para a Ásia (“eixo sino-americano”); (3) o crescimento da importância da China como centro articulador e “periferizador” da economia mundial; (4) a consolidação do sistema monetário internacional do “dólar flexível”, a aceleração da globalização e a expansão do “poder global” dos EUA; e (5) o assentamento de um eixo geopolítico da competição entre EUA e China.

Num balanço geral, a teoria de Fiori, crê o resenhista, é dotada de consistência, coerência e rigor. Tem grande força explicativa, e a história contemporânea, com seus desenvolvimentos recentes, é ponto a seu favor.

Notas

2. Com 27 páginas (13-40), o Prefácio desempenha do papel de marco teórico da obra.

George Wilson dos Santos Sturaro – Mestrando Programa de Pós-Graduação em Relações Internacionais da UFRGS. Bolsista CAPES. E-mail: gesturaro@hotmail.com


FIORI, J. L. O poder global e a nova geopolítica das nações. São Paulo: Boitempo Editorial, 2007. Resenha de: STURARO, George Wilson dos Santos. Aedos. Porto Alegre, v.3, n.8, p.236-239, jan. / jun., 2011. Acessar publicação original

A concepção materialista da História do Cinema | Nildo Viana

Nas últimas décadas se alargaram no campo das Ciências Humanas e Sociais as discussões acerca da utilização do Cinema não apenas como um produto social, mas também como um produtor de sentidos sociais. A partir dessa perspectiva, muitos trabalhos vêm propondo a superação de concepções puramente formalistas, descritivas e estéticas realizadas ao longo do século XX. É nesse contexto que se situa A concepção materialista da História do Cinema, do sociólogo e filósofo Nildo Viana.

Atualmente professor da Universidade Federal de Goiás – UFG, Viana possui diversas publicações marcadas pela multidisciplinaridade. Todavia, há um elemento comum que perpassa grande parte de seus textos e que pode ser entendido como o eixo norteador de suas reflexões: a concepção materialista, pautada na idéia de totalidade e de luta de classes. No que diz respeito ao cinema, destaco também o livro Como assistir um filme?, publicado no mesmo ano de 2009 e cujo enfoque segue a mesma direção.

O livro é organizado e dividido em quatro capítulos, além de apresentação e considerações finais. O primeiro capítulo, História e Cinema, apresenta as abordagens historiográficas mais difundidas e aplicadas a uma “historiografia do cinema”. Viana dialoga, sobretudo, com os trabalhos de Marc Ferro, criticando sua (falta de) base metodológica, que teria conduzido Ferro a um “fetichismo do cinema”. Outro teórico do Cinema que também desperta a desconfiança de Viana é Siegfried Kracauer, este acusado de padecer de um psicologismo que não dá conta de explicar o fenômeno do Cinema. Ao tecer críticas aos dois teóricos, o autor discute sobre diversos pressupostos de teorias ligadas ao cinema, como, por exemplo, a teoria do reflexo, do mesmo Kracauer, e o realismo socialista de Eisenstein.

No segundo capítulo, Pseudomarxismo, formalismo e História do Cinema, o autor procura apontar por que grande parte dos pesquisadores recai numa visão elitista e esteticista do cinema, cuja origem encontrar-se-ia na ideologia leninista. Da mesma forma, critica os aportes metodológicos de orientação estruturalista (formalista), buscando exemplos na obra de Jean-Claude Bernardet.

O capítulo seguinte, História do Cinema e materialismo histórico, apresenta os pressupostos materialistas que, segundo o autor, devem nortear os estudos sobre Cinema, onde o reconhecimento da produção social do filme é o ponto de partida. Viana aponta, então, algumas determinações que regem a produção social de um filme e que deveriam ser pensadas dialeticamente em uma totalidade concreta, e não metafísica: o capital cinematográfico (sua determinação fundamental, segundo o autor), o filme como mercadoria, o cinema como instrumento político (intervenção estatal), a mensagem, a esfera cinematográfica e a produção do filme.

Por fim, Nildo Viana procura apresentar a aplicabilidade de sua metodologia no capítulo intitulado Expressionismo Alemão: Cinema e luta de classes na tela. Retomando a discussão com Kracauer e acrescentando agora Lotte Eisner, procura combater concepções formalistas, que entendem como expressionistas todos os filmes que possuem determinadas características, bem como outras análises que reafirmam lugares-comuns referentes a esse movimento artístico. Algumas críticas de Viana são, de fato, pertinentes e possivelmente encontram acolhida por parte de historiadores que trabalham com o Cinema em uma perspectiva social e historicista. Contudo, não há como deixar de observar alguns aspectos que fragilizam o texto.

A primeira constatação desconfortável no texto de Viana refere-se às omissões. Por exemplo, o fato de o autor dialogar com Marc Ferro e passar ao largo da contribuição de Pierre Sorlin – que discute exatamente os aspectos silenciados por Ferro, que não escapa da crítica de Viana por essas lacunas –, provoca certa desconfiança. Não passa despercebida, também, a ausência de alguns historiadores que notadamente procuraram pensar o cinema como um fenômeno social. Ora, desde a década de 1950, essa direção já vinha sendo apontada por estudiosos como Robert Mandrou e Robert Sklar, que também não ganham visibilidade na discussão.

Talvez mais desconfortável ainda seja o fato de Viana não dialogar com a produção historiográfica atual. Sua análise basicamente congela-se nos anos 1980 e 1990, e encolhe-se frente a estudos de grande relevância, como os de Robert Rosenstone, Douglas Kellner, Jacques Aumont, Christian Delage, Anthony Aldgate, Jeffrey Richards e Arthur Marwick.

Da mesma forma, Nildo Viana não abre espaço para as abordagens endógenas da História do Cinema. O único historiador brasileiro citado é Antônio Costa, que publica em 1987, de modo que recaímos novamente na resistência de Viana em estabelecer diálogos com a historiografia do século XXI. Autores como Ismail Xavier, Ciro Flamarion Cardoso, Eduardo Morettin, dentre outros, certamente enriqueceriam as reflexões de Viana.

No que diz respeito aos aportes teórico-metodológicos, algumas ressalvas também se impõem. Ao propor uma História do Cinema pautada na concepção materialista, o autor deixa transparecer apriorismos que desembocam numa forma nociva de fetichismo, não do Cinema, como nos historiadores que critica, mas do capital. Postula a inescapabilidade da História do Cinema ao capitalismo e de preceitos sob orientação do materialismo histórico como única saída para a até então inelutável história descritiva do Cinema. Aliás, o já mencionado caráter não dialógico de Viana, quando deixa de refletir sobre os estudos de importantes teóricos de História e Cinema e História do Cinema, pode também ser explicado por esse fetichismo do capital no qual ele recai, onde ficam à sombra quaisquer outros trabalhos que não os que levem em conta a luta de classes, o capital e a idéia de totalidade.

Contudo, através da leitura de A concepção materialista da História do Cinema, a despeito de uma série de aspectos que requerem algum cuidado, é possível vislumbrar mais do que o que fazer, como fazer. O estudo que Nildo Viana faz acerca do Expressionismo Alemão no cinema, ainda que breve, é estruturalmente coerente, principalmente no sentido de romper com algumas mitologias.

Não que se considere essa metodologia inovadora ou original. Inúmeros trabalhos anteriores ao de Viana, que procuraram abordar o Cinema como produto e, principalmente, produtor de sentidos sociais, foram significativamente mais longe em termos teóricos e metodológicos. Ora, a utilização do materialismo histórico e de seus pressupostos teóricos para se pensar o Cinema está na ordem do métier dos historiadores que buscam estabelecer relações entre os filmes e a sociedade que os produz.

Entretanto, nos tempos de hoje, a publicação de uma obra notadamente marxista me parecerá sempre um ato corajoso. O materialismo histórico vem padecendo de uma dose de desprestígio em face à História Cultural, admita-se. Nesse sentido, a obra de Viana procura recolocar e demonstrar, ainda que de modo sucinto e às vezes problemático, a potencialidade desse tipo de abordagem – mas que, evidentemente, pode ser muito mais expressiva quando se dialoga com a historiografia do século XXI, repleta de fluxos e polifonias. Viana, porém, ainda não atravessou essa avenida.

Bianca Melyna Filgueira – Mestranda do PPG em História da UFSC. E-mail: bi_hst@yahoo.com.br


VIANA, Nildo. A concepção materialista da História do Cinema. Porto Alegre: Asterisco, 2009. Resenha de: FILGUEIRA, Bianca Melyna. O fetichismo virou contra o feiticeiro. Aedos. Porto Alegre, v.3, n.8, p.232-235, jan. / jun., 2011. Acessar publicação original [DR]

Futuro Passado. Contribuição à semântica dos tempos históricos | Reinhart Koselleck

No Brasil, o nome de Reinhart Koselleck tem, cada vez mais, se tornado familiar entre os que estudam história, sobretudo para aqueles particularmente interessados nas discussões teóricas da disciplina. Nascido no ano de 1923 em Gorlitz, Alemanha, Koselleck doutorou-se em 1954 com a tese Kritik und Krise [2], publicada cinco anos depois. Foi professor nas universidades de Bochum, Heidelberg e Bielefeld e co-autor do monumental “Geschichtliche Grundbegriffe. Historisches Lexikon zur politish-zocialen Sprache in Deutschland” [Conceitos básicos de história. Um dicionário sobre os princípios da linguagem político-social na Alemanha] [3], obra em nove volumes publicados em Stuttgart entre 1972 e 1997. [4] Koselleck faleceu em 2006, aos 82 anos de idade.

Tanto a tese doutoral quanto os dicionários refletem uma preocupação do autor com a questão da semântica dos conceitos fundamentais, sobre os quais o primeiro trabalho permitiu um desenvolvimento inicial [5]. O nome de Koselleck encontra-se profundamente associado à chamada escola da “história dos conceitos” (Bregriffsgeschichte), que o autor, juntamente com seus antigos mestres, Otto Brunner e Werner Conze (que participaram da organização do monumental dicionário), iniciou em finais da década de 1960. A história dos conceitos propõe uma análise das mudanças ocorridas no conteúdo e utilização dos conceitos para um entendimento mais profundo das transformações históricas de duração mais ampla, sobretudo no período entre 1750 e 1850, que Koselleck chama de Sattelzeit e que marca, para o autor, a emergência da modernidade [6]. Discorrendo sobre a importância da história dos conceitos, Koselleck aborda a relação entre este “campo particular de estudos” (p. 104) e a história social. Para ele, a história dos conceitos não apenas contribui para a história social, como esta não pode ser praticada sem aquela, pelo menos no que se refere ao recorte cronológico trabalhado pelo autor: “Desde que a sociedade atingiu o desenvolvimento industrial, a semântica política dos conceitos envolvidos no processo fornece uma chave de compreensão sem a qual os fenômenos do passado não poderiam ser entendidos hoje” (p. 103). Por isso, conclui Koselleck, “A história social que queira proceder de maneira precisa não pode abrir mão da história dos conceitos, cujas premissas teóricas exigem proposições de caráter estrutural” (p. 118).

A proposta de uma história dos conceitos retoma, em parte, o projeto diltheyano de uma tradição hermenêutica orientada a reconstruir os significados que se sedimentam nas objetivações empíricas do sentido [7], mas esta retomada já aparece tematizada pelo “giro linguístico” [8] de Hans-George Gadamer, um dos mestres de Koselleck, para quem a linguagem é “a primeira interpretação global do mundo” que, por sua vez, “é sempre um mundo interpretado na linguagem” [9]

Em Futuro Passado, os ensaios reunidos proporcionam tanto uma síntese das perspectivas da história conceitual e da teoria da história quanto um resumo do próprio percurso historiográfico realizado por Koselleck, que a partir do estudo da linguagem buscou assinalar as transformações das quais emergiu a modernidade europeia no Sattelzeit [10]. Na argumentação de Koselleck, um dos elementos centrais que caracteriza essa modernidade diz respeito exatamente à nova percepção do tempo. De forma geral, a questão do tempo histórico, sua definição e apreensão constituem a linha que perpassa todos os ensaios que compõem este livro de Reinhart Koselleck, obra cuja primeira publicação data de 1979. Até a publicação da presente edição, o público brasileiro podia ter acesso principalmente a partir das edições francesa e espanhola [11], fato que certamente impossibilitava uma maior aproximação das contribuições teóricas de Koselleck; razão pela qual a presente edição foi (com justiça) tão bem saudada.

O livro divide-se em três partes: Sobre a relação entre passado e futuro na história moderna, Sobre a teoria e o método da determinação do tempo histórico e Sobre a semântica histórica da experiência, num total de quatorze ensaios dedicados a investigações que, se por um lado incidem sobre diversos aspectos da teoria da história, por outro guardam entre si uma questão comum: o tempo histórico. Interessa-nos apresentar esta questão e a forma como ela é tratada pelo autor. Para tanto, assumiremos uma postura dinâmica em relação ao texto, recorrendo ora a uns ensaios, ora a outros, sem, contudo, realizarmos uma apreciação detalhada de cada item especificamente. Antes, porém, situemos o autor no debate acerca do tempo na história.

Quando Marc Bloch propôs como definição do objeto da ciência histórica a fórmula “homens no tempo” [12] estava longe de simplificar a questão, como talvez possa sugerir as duas palavras concatenadas. Mesmo deixando de lado a discussão ontológica sobre o homem, cuja saída proposta pelo filósofo Ernst Cassirer é, para o historiador, bastante adequada [13], resta-nos saber, afinal, de que “tempo” está se tratando.

José Carlos Reis, comparando as noções de tempo nos Annales, Paul Ricouer e Koselleck, assinala que os conceitos de “permanência” e “simultaneidade” parecem ser centrais na perspectiva do tempo histórico dos Annales:

Os Annales, e Braudel em particular, construiriam o conceito de “longa duração”, que ao mesmo tempo incorpora e se diferencia do conceito de estrutura social das ciências sociais. A longa duração é a tradução, para a linguagem temporal dos historiadores, da estrutura atemporal dos sociólogos, antropólogos e lingüistas. [14]

Se admitirmos esta concepção como sendo a que Marc Bloch empregava em sua definição, muito embora ela seja apresentada de uma forma um tanto simplificada por José Carlos Reis, será possível percebermos a peculiaridade de Koselleck nos que diz respeito ao tratamento desta questão. Em comum, está o fato de que ambas concepções apresentavam o tempo histórico como uma alternativa aos tempos da natureza e da consciência [15]. Instaura-se um “terceiro tempo”. Não obstante esta convergência entre Ricouer, Annales e Koselleck, a definição do tempo histórico em cada um possui diferenças importantes entre si. Interessanos, contudo, indicar a definição proposta por Koselleck.

Já no prefácio do livro Koselleck expõe a hipótese central de sua argumentação. Para ele, é na relação entre o passado e o futuro, na distinção entre ambos que se constitui o tempo histórico. Partindo de uma terminologia antropológica o autor define: “… entre experiência e expectativa, constitui-se algo como um „tempo histórico‟” (p. 16). Isto é, na forma como cada geração lidou com seu passado (formando seu campo de experiência) e com seu futuro (construindo um horizonte de expectativa) surgiu uma relação com o tempo que permite que o caracterizemos como tempo histórico. A modernidade, diz Koselleck, caracteriza-se pelo progressivo afastamento entre experiência e expectativa: “só se pode conceber a modernidade como um tempo novo a partir do momento em que as expectativas passam a distanciar-se cada vez mais das experiências feitas até então” (p. 314). Este, por sua vez, é um tempo não apenas histórico, mas historicizado, de vez que a forma como cada geração operou esta relação entre passado e futuro pôde ser alterada. Assim sendo, Koselleck afirma que “à medida que o homem experimentava o tempo como um tempo sempre inédito, como um „novo tempo‟ moderno, o futuro lhe parecia cada vez mais desafiador” (p. 16). A experiência do novo, imprevisto, parece ter se acentuado no contexto da revolução francesa. Ali o tempo histórico sofreria uma mudança de orientação, e é por isso que o autor concentra-se na análise deste período, observando como esta nova consciência pôde ser expressa através da linguagem, na criação de conceitos de movimentos que pareciam emancipados do passado: ruptura radical, que marca ainda hoje nossa relação como o passado e com o futuro. Vale dizer: com o tempo histórico.

Koselleck fornece, portanto, as duas ideias centrais da nossa modernidade (inaugurada, no que diz respeito à questão do tempo histórico, pela filosofia da história): um futuro inédito e um tempo passível de aceleração (pp. 35-36). Segundo o autor, foi predominante na cristandade ocidental, até o século XVI, a expectativa do fim do mundo (p. 24), cujo adiamento constante não destruía (pelo contrário, até reforçava) sua certeza e espera. A modernidade define uma nova forma de relacionamento dos homens com o tempo e, de alguma forma, com a história.

A emancipação do futuro em relação ao passado é observada de forma muito arguta por Koselleck ao estudar as transformações conceituais por que passaram as ideias de “história” e “revolução”. O autor aponta que, no âmbito da língua alemã, o termo estrangeiro Historie “que significava predominantemente o relato, a narrativa de algo acontecido” foi sendo preterido pela palavra alemã Geschitchte, significando

originalmente o acontecimento em si ou, respectivamente, uma série de ações cometidas ou sofridas. A expressão alude antes ao acontecimento [Geschehen] em si do que a seu relato. No entanto, já há muito tempo ‘Geschichte’ vem designando também o relato, assim como ‘Historie’ designa também o acontecimento. (p. 48)

Esta substituição no seio da língua alemã acusa a superação (ou, pelo menos, o desgaste) das noções tradicionais de história, que a dotavam da capacidade pedagógica e exemplar: a história magistra vitæ. Já o conceito de “revolução”, que designava, originalmente, um movimento circular, passa a apontar – a partir da revolução francesa – para um estado de organização que não mais retornará à sua origem. Abre-se ao desconhecido, inaugura um novo horizonte de expectativa que não mais está desenhado no campo de experiência. Por fim, é necessário assinalar que o conceito traz junto de si uma ideia de aceleração do tempo (p. 68). Se hoje tal ideia nos parece normal, no advento desta modernidade de que vimos falando ela possuía um significado importantíssimo:

Quando Robespierre conclamou seus cidadãos a apressar a revolução para trazer a liberdade à força, pode-se enxergar por trás disso um processo inconsciente de secularização das expectativas apocalípticas de salvação. (p. 69)

É assim que, para o autor, pode-se inferir da disputa linguística uma nova consciência do tempo por partes dos agentes. Com isso, acreditamos que é possível obtermos uma ideia geral sobre a forma como Koselleck aborda a questão do tempo histórico: mostrando-o como uma criação histórica, por isso mesmo suscetível as modificações ao longo da própria história.

Notas

1 Mestrando em História pelo PPHR (Programa de pós-graduação em história da UFRuralRJ) – Bolsista Capes. E-mail: brunohistrural@yahoo.com.br

2 No Brasil, a obra foi publicada conjuntamente pelas editoras Contraponto e Eduerj: KOSELLECK, Reinhart. Crítica e crise: contribuição à patogênese do mundo burguês. Rio de Janeiro: Contraponto e Eduerj, 1999.

3 Seguindo a tradução fornecida por Elias Palti. PALTI, Elias. “Introdución”. In: KOSELLECK, Reinhart. Los estratos del tiempo: estudios sobre la historia. Barcelona: Ediciones Paidós, 2001. [pp. 09-32], p.09.

4 Além deste dicionário, sobre o qual há um detalhamento razoável no texto de apresentação do Professor Marcelo Jasmim para o livro Futuro Passado ora analisado, existem ainda outros dois dicionários que aparecem comentados no texto de Elias Palti: Historisches Wörterbuch der Philosophie [Dicionário de filosofia de princípios históricos], publicado na Basiléia em 1971 e Handbuch politisch-sozialer Grundbegriffe in Frnkreich, 1680 – 1820 [Manual de conceitos político-sociais na França, 1680-1820], publicado em Munich em 1985. PALTI, Elias. Op. cit., p.09 (a tradução em português segue a tradução para o castelhano proposta por Elias Palti)

5 Tal como sugere o Professor Marcelo Jasmim: JASMIM, Marcelo. “Apresentação”. In: KOSELLECK, Reinhart. Futuro Passado. Contribuição à semântica dos tempos históricos. Rio de Janeiro: Contraponto, Editora Puc-RJ, 2006. [pp.09-12], p.09. Todas as referências no corpo do texto dizem respeito a este livro.

6 PALTI, Elias. Op. cit., p.09.

7 Idem, p.14.

8 Agradeço as sugestões de Walter Luiz de A. Neves, quem me indicou a referência de Elias Palti e com quem realizei um estudo conjunto do livro de Koselleck, que serviu de base para a escrita de parte do presente texto.

9 GADAMER, apud in: PALTI, Elias. Op. cit., p.14 (tradução livre).

10 JASMIM, Marcelo. Op. cit., p.09.

11 A edição original teve como título Vergangene Zukunft. Zur Semantik geschichtlicher Zeiten. Frankfort: Suhrkamp Verlag, 1979. A edição francesa data de 1990: Le Futur Passé. Contribuition à la sémantique des temps historiques. Paris: Editions de L‟École des Hautes Études en Sciences Sociales, 1990. A edição espanhola apareceu em 1993: Futuro Pasado: para una semántica de los tiempos históricos. Barcelona: Paidós, 1993.

12 BLOCH, Marc. Apologia da História ou o Ofício de Historiador. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2002.

13 O filósofo neokantiano, ao reportar-se ao debate filosófico acerca da natureza humana, afirma, seguindo Ortega Y Gasset, a ruptura com o pensamento eleático no que se refere à teoria grega do ser. Isto é, uma libertação do naturalismo; libertação esta que afirma o caráter distintivo do homem na história, não mais na natureza. CASSIRER, Ernst. Ensaio Sobre o Homem: introdução a uma filosofia da cultura humana. São Paulo: Martins Fontes, 1994. pp. 279-280.

14 REIS, José Carlos. História & teoria: historicismo, modernidade, temporalidade e verdade. Rio de Janeiro: Editora FVG, 2006, p.198.

15 A noção de que o tempo histórico constitui um “terceiro tempo” remete inicialmente ao nome de Paul Ricouer, nos diz José Carlos Reis. Assim, o tempo histórico atua no vão entre outros dois tempos: “Se o tempo da consciência é mortal, finito, tendência do ser ao nada, e se o tempo da natureza é permanência, reversibilidade e tendência ao ser, pois o que foi retorna, ele [o historiador] deve procurar inscrever o que passa no que não passa, o irreversível no reversível…” REIS, José Carlos. Op. cit., p.183.

Referências

BLOCH, Marc. Apologia da História ou o Ofício de Historiador. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2002.

CASSIRER, Ernst. Ensaio Sobre o Homem: introdução a uma filosofia da cultura humana. São Paulo: Martins Fontes, 1994.

KOSELLECK, Reinhart. Futuro Passado. Contribuição à semântica dos tempos históricos. Rio de Janeiro: Contraponto, Editora Puc-RJ, 2006.

PALTI, Elias. “Introdución”. In KOSELLECK, Reinhart. Los estratos del tiempo: estudios sobre la historia. Introdución de Elias Palti. Barcelona: Ediciones Paidós, 2001.

REIS, José Carlos. História & teoria: historicismo, modernidade, temporalidade e verdade. Rio de Janeiro: Editora FVG, 2006.

Bruno Silva de Souza – Mestrando em História pelo PPHR (Programa de pós-graduação em história da UFRuralRJ) – Bolsista Capes. E-mail: brunohistrural@yahoo.com.br


KOSELLECK, Reinhart. Futuro Passado. Contribuição à semântica dos tempos históricos. Rio de Janeiro: Contraponto; Editora Puc-RJ, 2006. Resenha de: SOUZA, Bruno Silva de. Aedos. Porto Alegre, v.3, n.8, p.226-231, jan. / jun., 2011. Acessar publicação original [DR]

Revoluções do Poder | Eunice Ostrensky

As possibilidades de leituras e interpretações dos clássicos do pensamento político são inúmeras. No entanto, uma das formas de afirmar sua validade foi, durante muito tempo, vê-los como sujeitos que, com seus textos, rompem a própria transitoriedade da história e são capazes de responder a diferentes questões em diversos tempos e lugares. A validade de sua leitura estaria, portanto, nesta capacidade de responder não só a seus problemas e de seus contemporâneos, mas aos nossos também.

Eunice Ostrensky, professora da Ciência Política da USP, parece ir em direção contrária ao caminho exposto anteriormente. Em Revoluções do Poder, fruto de sua tese de doutorado, publicado pela Editora Alameda, a professora não só procura colocar Thomas Hobbes no contexto político da Inglaterra revolucionária no século XVII, mas, através de intensa pesquisa e leitura apurada, procura reconstruir os debates e as diversas interpretações que concorrem em ambiente inglês.

Entretanto, reconstituir o debate em tempos revolucionários, de surgimento de novas teorias e novos grupos, é tarefa árdua que requer familiaridade com a linguagem estudada e capacidade de interpretar “lances” de linguagem, para usar uma terminologia de J. Pocok (2003). Ou seja, usar certo elemento de uma forma diversa, com significados e sentidos diferentes, a fim de persuadir os possíveis leitores/ouvintes de certo discurso. No entanto, o que era óbvio para os contemporâneos de Hobbes, indiscutível para os que com ele partilhavam seu momento, já não é para nós, que nos distanciamos deles pelo abismo temporal. Por isso, as interpretações são abertas, lacunares e passíveis de crítica. Contudo, o caminho proposto pela professora é inovador em terras brasileiras e demonstra, na prática, as possibilidades abertas pelo método da Escola de Cambridge. Ou seja, entender os objetivos dos pensadores em seu momento, inseridos nos debates e diálogos de seu contexto histórico. Nas palavras de John Langshaw Austin, para escritores como Ostrensky, “as palavras também são atos” (AUSTIN, 1990), são elementos de intervenção e ação no debate político.

O livro pretende compreender o período entre 1642 e 1649, chamado pela autora de “períodos fatais” (p. 32), anos de crise da soberania em que surgem debates sobre republicanismo, limites do Estado, poder e liberdade. Esses vocábulos, complexos em sua definição mesmo fora do contexto revolucionário, ampliam suas possibilidades de definição em momentos de embate político. O ápice da “Grande Rebelião”, como era chamada então a Revolução Inglesa, se daria em 1649, com a condenação e execução de Carlos I. “Nunca antes se havia julgado, condenado e executado um rei publicamente. No passado, coroas usurpadas e reis cruéis haviam merecido execuções que se fizeram pelas costas, no escuro, porque nem mesmo os assassinos (…), pensavam em contestar a monarquia” (p. 41).

Na primeira parte do livro, Ostrensky nos apresenta os personagens que irão compor sua narrativa. Isso talvez seja um dos traços mais marcantes de seu livro: as teorias têm dono, nome e data. Os embates, reconstruídos conforme a documentação que chegou até nós são expostos em sua complexidade e dimensão, demonstrando como os que vivenciaram os períodos de tanta transformação entenderam e interpretaram o que então se passava, que significados davam para o que então ocorria e de que maneira procuraram convencer seus contemporâneos com seus argumentos. Composto por seis capítulos, o livro se divide conforme a “ordem cronológica das razões” e temática das teorias que surgiam e caíam na Inglaterra do século XVII.

Nos primeiros capítulos a autora preocupa-se em demonstrar como os realistas costumavam pensar o mundo e sua própria realidade, ou seja, o arcabouço das crenças do período pré-revolucionário a partir do qual as mudanças ocorrem. Curiosamente, tanto parlamentares como realistas costumavam reivindicar seus direitos buscando um passado mais remoto, garantindo que o oponente trazia perigosas inovações que poderiam comprometer “a ordem do mundo”. Pensados em linguagem teológica, com referências bíblicas, os sentidos dos textos sagrados eram vertidos conforme o desejo daqueles que deles se apropriavam. A Reforma, suas contradições e consequências, iriam atingir também o mundo político, suas formas de interpretação e modos de ver o mundo. Paralelo a isso estavam os discursos juristas, relacionados ao constitucionalismo inglês e a validade do commom law acima das leis escritas e da própria vontade do rei e das leis promulgadas pelo parlamento. Esse é o “pano de fundo” (p.118) dos primeiros dois capítulos, panorama conceitual primário que permite e dá as diretrizes para as inovações, que, neste período conturbado, surgiriam.

Frente às críticas ao poder realista, era necessário responder e reafirmar a necessidade do poder soberano para a manutenção da ordem e da paz social. De acordo com a autora, portanto, é necessário entender os argumentos realistas como respostas aos opositores (p. 36), de um lado os jesuítas, de outro os protestantes radicais. Para isso, linguagens diferentes são usadas, a fim de demonstrar a validade dos argumentos frente a públicos distintos, acostumados a vocábulos e sentidos diferenciados.

No capítulo III a autora procura analisar mais aprofundadamente o discurso realista, demonstrando as formas como a prática política de Carlos I aproximava-se da de Jaime I, seu pai. Contudo, nos avisa Ostrensky, embora o desejo de sistematização do pensamento régio seja necessário a fim de nos possibilitar compreensão, é indispensável percebê-los como respostas a diferentes personagens que a questionavam e a faziam justificar sua posição e pretensão. Por exemplo, enquanto Filmer, um dos maiores representantes da defesa do poder divino, escreve direcionado ao publico interno, aos juristas, Jaime I, se direciona ao público externo, formado por jesuítas e protestantes.

No IV capítulo, Ostrensky analisa os discursos e personagens do outro lado da luta: os parlamentares e os defensores desses. Frente à dificuldade em por ferio às prerrogativas régias o Parlamento lançou um argumento inovador até o momento: a separação entre o rei e a pessoa que o exerce. Segundo a autora, esse gesto, embora aparentemente tímido, abriu espaço para a afirmação da autoridade do Parlamento. Na impossibilidade de se julgar o homem, cujo cargo se tinha por sagrado, aboliu-se o cargo. Ela reconstrói e demonstra três linguagens presentes no discurso parlamentarista: o discurso da ordem, o do constitucionalismo inglês e o “populismo aristotélico”, com as noções de participação política como essências do homem. Essa colcha de retalhos que não aparece separadamente nos discursos, nos mostra as formas como a linguagem se sobrepõe, inovando e ratificando vocabulários, perceptíveis ou não aos seus personagens. No entanto, há, mesmo com as diferenças, um ponto comum: as distintas chaves discursivas afirmam que a lei assegura a deposição do monarca como tirano.

No penúltimo capítulo a autora debruça-se em um dos mais debatidos e controvertidos filósofos da modernidade: Thomas Hobbes. Se o pensador é, sem dúvida nenhuma, o grande nome do período, cujas obras chegam até nós e são debatidas com entusiasmo no mundo acadêmico, seus textos não estão “no vazio”, antes se encontram relacionados e imbricados no jogo político de seu tempo, em outras palavras, eles são veículos de intervenção. Como coloca a autora, por exemplo, Elementos da Lei é fruto do debate político das décadas de 20 e 30. Através da análise que a autora faz de um contemporâneo de Hobbes, Digges, é possível esboçar comparações entre o pensador e outras vertentes de pensamento que tiveram ou não (não é possível saber, infelizmente) contato com seu trabalho. O filósofo não firma seus argumentos em pressupostos teológicos e por essa e outras razões não foi bem recebido pelo próprio grupo que defendia a aristocracia. Embora seja possível traçar paralelos entre o pensador e seus contemporâneos, é impossível negar o caráter inovador de seus textos e afirmações, já que suas respostas à crise de soberania vão em direção a um ângulo diverso dos apresentados por seus colegas. A soberania não é direito divino, é fruto do desejo de sobrevivência do homem frente à natureza humana e seu inevitável caminho à morte prematura. Nisso centra-se também sua crítica à oratória ciceroniana, pois sendo o humano variável, é impossível se chegar a um consenso sobre certo e errado, sendo necessária a criação de uma ciência moral e política. Além disso, Hobbes inverte o termo “sedutor”, originalmente usado para os papistas, que seduziriam o rei. No sentido dado ao termo no Behemoth principalmente, sedutores são os que convencem o povo a se indispor com seu soberano. Esse é um dos exemplos da peculiaridade do pensador, que, utiliza-se de palavras usadas por seus adversários com sentido diferente, buscando, desta forma, persuadir seu leitor e mostrar os malefícios que a desobediência ao soberano poderia trazer.

No último capítulo, a autora centra sua análise naqueles que seriam os jacobinos da Revolução Inglesa: os levellers, ainda pouco estudado no Brasil. Para demonstrar como esses seriam os primeiros democratas da história moderna, a autora coloca em destaque as formas que alcançavam a ideia de representação política: tolerância religiosa e liberdade de culto, reinterpretação da lei da natureza e uma teoria dos direitos naturais. A definição de liberdade para eles será diversa da usado por Hobbes, por exemplo, já que não será no sentido de interferência dos outros na liberdade do indivíduo, mas de liberdade em atuar no espaço público. Contrários a falta de limites do poder régio, mas também do Parlamento, os levellers defendem o poder de racionalidade e decisão das multidões.

As críticas aos levellers viriam de várias frentes, principalmente devido ao radicalismo das propostas e a possibilidade de transferir o poder à multidão, vista como destituída de racionalidade. Embora autores como Hobbes não os mencionem, presume-se que seus prováveis leitores os conheceriam e estariam devidamente informados a respeito de sua argumentação, já que defende sua filosofia tendo como base elementos usados pelo grupo rival.

Em sua conclusão, intitulada A Segunda Metade do Círculo, a autora afirma que seu objetivo no livro era acompanhar a mudança da linguagem, o desgaste da visão paradigmática e a predominância da Lei Civil e Natural. Após a queda da monarquia perde sentido o constitucionalismo parlamentarista e a defesa da harmonia entre rei e Parlamento. Outras formas de entendimento, expressos através de palavras, serão usadas e terão, na mente dos leitores e ouvintes, uma entonação diversa da anterior, a base seria outra: o pensamento republicano.

A fim de concluir esta resenha, cabe dizer algumas palavras sobre este livro que é, no mínimo, instigador por sua abordagem. Diferentes dos estudos tradicionais, que buscam, através de intensa leitura, descortinar certo pensador e entender sua filosofia e principais conceitos, Eunice Ostrensky procura contrapor Hobbes com seus interlocutores. Entender o vocabulário político presentes neste momento, os debates produzidos através de um arranjo conceitual comum, mas que ao mesmo tempo esta em mutação, pode ser colocado como um de seus objetivos. Tarefa árdua que requer familiaridade com uma linguagem que se diferencia da nossa no tempo e no espaço. Lacunas existirão, assim como interpretações que certamente seriam contestadas pelos seus autores e não aceitas por eles, como é a preposição de um dos maiores defensores da proposta da autora, Quentin Skinner2 . No entanto, mostrar que filósofos colocados no Panteon pela tradição não fizeram pressuposições fora de seu tempo, mas coladas ao contexto e as possibilidades que esse lhes dava, é um dos méritos dessa proposta. Outro seria demonstrar, como já afirmou Skinner (2000, p.150), que os filósofos não respondem as nossas questões, mas as suas, cabe a nós, portanto, buscar, como eles fizeram anteriormente, respostas aos problemas de nossa sociedade.

Notas

2. Quentin Skinner afirma que um dos seus objetivos era produzir uma interpretação passível de ser aceita pelo próprio autor do texto.

Referências

AUSTIN, J. L. Quando dizer é fazer: palavras e ação. Tradução de Daniel Marcondes de Souza Filho. Porto Alegre: Artes Médias, 1990.

POCOCK, J.G.A. Linguagens do Ideário Político. Tradução de Flávio Fernandez. São Paulo: EDUSP, 2003.

SKINNER, Quentin. Significado e comprensión em La historia de las ideas. Tradução de Horacio Pons. In: Primas – Revista de História Intelectual, Quilmes, nº4, 2000, p.149-191.

Débora Regina Vogt – Licenciada e mestranda pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Trabalha com o livro de história do filósofo político Thomas Hobbes, Behemoth, e desenvolve pesquisa referente ao papel da referência aos antigos em sua obra. E-mail: debirv@hotmail.com


Ostrensky, Eunice. Revoluções do Poder. São Paulo: Alameda, 2006. Resenha de: VOGT, Débora Regina. Aedos. Porto Alegre, v.3, n.8, p.248-252, jan. / jun., 2011. Acessar publicação original.

A questão dos livros: presente, passado e futuro | Robert Darnton

VLADIMIR

Vamos esperar até estarmos completamente seguros.

ESTRAGON

Por outro lado, talvez fosse melhor malhar o ferro antes que esfrie.

VLADIMIR

Estou curioso para saber o que ele vai propor. Sem compromisso.

Samuel Beckett [2]

Da palavra impressa à digitalização, ou da impressão em um mundo a cada dia mais digital: é à longa relação dos homens com os livros, e suas recentes mutações, que se dedica o historiador Robert Darnton em seu último título traduzido no Brasil. Trata-se de uma coletânea de ensaios em sua maioria publicados, como lembra o autor na introdução, na New York Review of Books (p. 16-17). Distribuídos sob uma organização temporal tripartite, como alerta o subtítulo, talvez não seja um exagero recordar, com Paul Ricoeur (1913-2005), que devemos a Santo Agostinho (354-430) tal ordenamento cronológico há muito banalizado. A constatação desse hábito não sugere, evidentemente, qualquer desprezo pelos exames das disputas diárias que, se sabe, envolvem a temporalidade tridimensional com a qual estamos acostumados, mas o contrário. [3]

Esta ordem do tempo – tão histórica – é por Darnton apropriada de modo muito pertinente, situando seus ensaios, em certo sentido, a partir de suas próprias experiências como repórter, arguto estudioso dos meios editorais iluministas, membro dos conselhos de importantes editoras universitárias dos Estados Unidos e do corpo administrativo da Biblioteca Pública de Nova York. Desde 2007 ele atua como diretor da Biblioteca Harvard. (p. 7-9). E é neste ponto que, em A questão dos livros, ingressamos nas expectativas relativas à resistência dos livros (impressos e digitais), ao controle sobre as explorações comerciais dos periódicos científicos, à manutenção e reordenamento das bibliotecas após o advento dos meios eletrônicos de arquivamento, entre outras importantes dúvidas que hoje se impõem aos pesquisadores, de maneira geral.

“O futuro, seja ele qual for, será digital” (p. 15). Sem qualquer descuido com o passado – trata-se de um estudioso da chamada “história do livro” – ou com o presente – o assunto da coletânea é de contemporaneidade inconteste – Darnton começa por um “fim” que ainda desconhecemos. A primeira parte, “Futuro”, reúne quatro ensaios em que o historiador, tal como Vladimir e Estragon, personagens da mais conhecida e aclamada peça do dramaturgo irlandês Samuel Beckett (1906-1989), mostra-se apreensivo. Entretanto, sua ansiedade é específica: direciona-se aos rumos do guardo e acesso do conhecimento acumulado ao longo de séculos nas páginas de livros. Ainda, ao contrário daqueles, o autor expõe, já no primeiro ensaio, “O Google e o futuro do livro” (p. 21-38), indagações de natureza prática que não devem ser deixadas a esmo. O processo de digitalização em massa de livros levado a cabo pela multinacional sediada nos Estados Unidos, com o projeto ora conhecido Google Book Search, desencadeou uma ação judicial de autores e editores que se sentiram, de imediato, violados em seus direitos autorais (p. 21).

Retornando aos ideais da República das Letras setecentista e passando pela criação e posteriores adaptações do copyright e dos campos de conhecimento (estes, emergentes a partir do século XIX), Darnton oferece bons argumentos para a “prudência” sugerida no ensaio que abre o livro aqui resenhado. Ao destacar a inerente relação saber-poder então envolvida, ele convoca as críticas dos filósofos do século XVIII referentes ao monopólio no que diz respeito à difusão do conhecimento, apontando algumas lacunas deixadas nas últimas duas décadas no tocante à garantia do interesse público no assunto em questão: a incorporação da digitalização nos meios universitários nos Estados Unidos (p. 34). Sem cair em comparações infundadas entre o Iluminismo e os dias atuais, o Google é visto como de fato é: uma empresa em franca expansão que, com boas ou más intenções, visa o lucro, opera em um mercado instável e é passível de ser vendida ou extinta (p. 36).

No segundo ensaio desta primeira parte, “O panorama da informação” (p. 39-59), o que se pode encontrar é uma lúcida retrospectiva dos saltos nos suportes do conhecimento humano desde a invenção da escrita, do pergaminho ao códice, do códice à impressão, dos primeiros passos da comunicação eletrônica à web (p. 39-41). Argumenta-se que, ao contrário do que atualmente se diz, não vivemos em uma época especial de fragilidade da informação: para o historiador ela “nunca foi estável” (p. 47). Atento ao trabalho dos historiadores e seus hábitos de pesquisa, ao estatuto das bibliotecas para os mesmos e, sobretudo, aos equívocos que atravessam tudo aquilo que, enfim, permeia a informação, um dos problemas reais levantados relaciona-se com a preservação dos textos que “nasceram digitais” (p. 56).

Em “O futuro das bibliotecas” (p. 60-75), o foco concentra-se nos acervos das universidades e a empreitada digitalizadora do Google é retomada de forma profundamente crítica. O acordo judicial da empresa é trazido à baila e os perigos do monopólio são reapresentados, inclusive com prescrições sugeridas pelo historiador – lembremos que se trata de um gestor de biblioteca (p. 64-65). As particularidades dos centros e editoras universitárias são apresentadas, ao mesmo tempo em que explana sobre preocupações pragmáticas, como a conservação de mensagens eletrônicas (possíveis documentos históricos para hoje e amanhã), a composição de acervos digitais nacionais e internacionais com acesso público garantido e a disposição correta dos orçamentos agora direcionados a aquisições tanto impressas como virtuais (p. 70-75).

O último ensaio dessa primeira parte, bastante curto, “Achados e perdidos no ciberespaço” (p. 76-82), consiste em algumas reflexões do autor no que trata ao ofício do historiador agora agregado de subterfúgios eletrônicos. Datado de 1999, o breve texto elenca algumas surpresas de Darnton quando envolvido, pela primeira vez, na elaboração de um ebook. Ainda habituando-se aos novos meios, os argumentos do historiador baseiam-se sobremaneira em comparações entre o trabalho convencional com impressos – seja na leitura, seja na escrita – e os novos limites e possibilidades das produções exclusivamente virtuais. Contudo, o impacto de suas experiências permite interessantes meditações sobre o redimensionamento da pesquisa histórica possibilitado pelos e-books e outras funções da internet.

A parte II, “Presente”, de longe a mais sucinta da obra, é composta de três ensaios: “Ebooks e livros antigos” (p. 85-95), “Gutemberg-e” (p. 96-118) e “Acesso livre” (p. 119-122). O primeiro compõe um contundente panorama dos choques entre as exigências dos campos de pesquisa no que diz respeito a publicações produzidas por seus pesquisadores, à tradição do valor do material impresso (há séculos preservado como principal meio de transmissão de informações) e às disponibilidades nem sempre respeitadas do universo digital. O ensaio agrupa, na verdade, os confrontos entre os suportes, mas também entre formatos próprios da produção acadêmica. Além disso, com a inflação dos preços que as editoras comerciais de periódicos passaram a cobrar para autorizar a liberação de seus conteúdos às bibliotecas, estas se viram obrigadas a reduzir suas aquisições de monografias. Ou seja, como frisa Darnton, a nova geração de acadêmicos tende a se ver imobilizada diante da ausência de espaços para divulgação de seus trabalhos e das cobranças relativas à eficácia na publicação de resultados para que haja progressão na carreira. O mesmo mal atinge as editoras universitárias, igualmente atingidas por questões de mercado (p. 88-89). Enfim, o que se evidencia é a comum ausência de regulamentação do ciberespaço, com a mescla entre escritos com características particulares, mas que, na rede, acumulam-se como se fizessem parte de um mesmo conjunto. Os acervos de teses, neste sentido, são, para o historiador, bons exemplos: “teses não são livros” (p. 92). O trabalho de revisão e edição que envolve a formatação de um livro ultrapassa as propostas de uma tese “crua”. Novos problemas.

“Gutemberg-e” apresenta um projeto desenvolvido pelo autor quando esteve na presidência da American Historical Association (AHA), a partir de 1999. A proposta direcionava-se no sentido de organizar a publicação de teses recriadas para divulgação eletrônica, como meio de atender àqueles diversos recém-doutores que não encontravam espaço para compartilhar de suas pesquisas. Darnton expõe ao longo do texto seus percalços diante das dificuldades na conversão das teses, do universo absolutamente desconhecido para ele no tocante às especificidades de uma edição digital e, novamente, do preconceito contra as publicações on-line (p. 101). Entre erros e acertos reconhecidos pelo ex-presidente da AHA, a transcrição da proposta de financiamento por ele formulada, quando do início do projeto, e do relatório de progresso (2002) poderão, no futuro, vir a ser um ponto de partida para esforços semelhantes nos Estados Unidos e em outras partes do mundo (p. 104-118). “Acesso livre”, ensaio que encerra a segunda parte de A questão dos livros, é um texto de quatro páginas que vale como manifesto em favor do acesso garantido a publicações acadêmicas, editado no mesmo dia em que uma resolução sobre o tema foi votada em Harvard e aprovada por unanimidade (p. 119). É, também, uma retomada sintética de todos os problemas elencados em alguns dos artigos anteriores.

Por fim, chega-se ao “Passado”, terceira e última subdivisão da obra, a maior delas. Neste ponto encontra-se um conjunto de texto que em muito rememora o legado mais conhecido de Robert Darnton no Brasil e, provavelmente, em diversos outros países, qual seja, o autor de O grande massacre de gatos e O beijo de Lamourette. 4 Com exceção do primeiro dos quatro ensaios que compõem esta etapa final, “Em louvor ao papel” (p. 125- 145), os demais são modelos de excelentes investigações relacionadas à história da leitura, escrita, edição e circulação de livros na era moderna. O primeiro ensaio, supracitado, traz informações surpreendentes acerca da destruição de originais (em diversos formatos) após a incorporação do microfilme durante boa parte do século XX nas bibliotecas dos Estados Unidos. “A importância de ser bibliográfico” (p. 146-163) destaca a relevância das listas de obras que compõem um texto após a inserção de escritos na internet e as desconfianças que daí surgiram. Segundo Darnton, a falta de prestígio da bibliografia é uma marca do século XX, pois nos séculos anteriores ela teve um valor especial nos esforços de filólogos para o estabelecimento de textos clássicos (no ensaio o caso de Rei Lear é explorado). A própria noção de literatura entre os séculos XVI e XVIII, na Inglaterra, e as relações entre contextos políticos e produção literária são vislumbradas. “Os mistérios da leitura” (p. 164-188), por sua vez, coloca à vista as pesquisas do historiador relativas às possibilidades que fontes como os “livros de lugares-comuns” abrem ao exame dos hábitos de leitura no passado. Fechando a obra, “O que é a história do livro?” (p. 189-219), texto redigido há trinta anos, retorna efetivamente ao passado, alinhavando as diretrizes que, em maior ou menos medida, agrupam os três tempos da obra. Categorias que demandavam atenção desde as primeiras sistematizações de Darnton (autores, editores, gráficos, distribuidores, livreiros, leitores) podem e devem ser retomados, agora, sob efeito das perdas e ganhos do mundo digital (p. 208-216).

Ainda que cercado dos cuidados descritos pelo autor, a obra, por tratar-se de uma coletânea, em alguns momentos repete informações e argumentos (especialmente nas duas primeiras partes). Todavia, tal aspecto em nada compromete a pertinência da proposta. Por outro lado, se ela é por demais centrada no caso norte-americano – alguns problemas e vantagens do mundo universitário diferenciam-se profundamente do caso brasileiro – há diversos elementos transnacionais para os quais ainda não se atentou por aqui. Dos “três tempos” de A questão dos livros, o “Futuro” e o “Presente” abrem questões fundamentais para pesquisadores de todas as áreas do campo historiográfico, enquanto o “Passado” garante o deleite de todo e qualquer leitor, tendo em conta o profundo conhecimento do autor em sua área de estudo e a qualidade de sua escrita.

Notas

2. BECKETT, Samuel. Esperando Godot. Tradução: Fábio de Souza Andrade. São Paulo: Cosac Naify, 2005, p.37.

3. RICOEUR, Paul. A memória, a história, o esquecimento. Tradução: Alain François [et al]. Campinas, SP: Editora da Unicamp, 2007, p.364.

4. Cf. DARNTON, Robert. O grande massacre de gatos, e outros episódios da história cultural francesa. Tradução: Sonia Coutinho. Rio de Janeiro: Graal, 1986; DARNTON, Robert. O beijo de Lamourette: mídia, cultura e revolução. Tradução: Denise Bottmann. São Paulo: Companhia das Letras, 1990.

Evandro Santos – Doutorando em história na UFRGS e bolsista CAPES. E-mail: evandrus2004@yahoo.com.br


DARNTON, Robert. A questão dos livros: presente, passado e futuro. Trad. Daniel Pellizari. São Paulo: Companhia das Letras, 2010. Resenha de: SANTOS, Evandro. Aedos. Porto Alegre, v.3, n.8, p.254-259, jan. / jun., 2011. Acessar publicação original [DR]

Silence in the Land of Logos | Silvia Montiglio

Os antigos gregos possuíam uma “cultura da palavra” ─ todas as esferas da vida pública, como os debates na assembléia, os rituais e o teatro, eram marcados pelo uso dos discursos. A ascensão da Polis contribuiu para desenvolver um tipo específico de “logos” que visava a persuasão por meio de argumentos. [2] Na esteira destas constatações a escritora Silvia Montiglio com seu livro “Silence in the Land of Logos” coloca-nos o seu importante tema de pesquisa: o silêncio e as diferentes práticas do silêncio como um modo discursivo no mundo grego.

O livro é a adaptação da tese de pós-doutorado da autora, defendida em 1995 na École des Hautes Études en Sciences Sociales sob a orientação de Nicole Loraux. Montiglio dialoga então com os grandes nomes do helenismo francês, como Louis Gernet, Jean-Pierre Vernant, Marcel Detienne e Pierre Vidal-Naquet. Já a importância que Montiglio dá à noção de cultura coloca o seu trabalho em uma perspectiva de antropologia histórica.

Na introdução (pp. 3-8) a autora defende o silêncio como uma prática cultural específica que pode ter diferentes significados para variados grupos e que assim pode se transformar de acordo com as mudanças sociais: “If silence is a culturally specific notion, its meanings may be expected to change not only from civilization to civilization, but also within the same civilization across the time.”[3] (p. 4) Montiglio coloca-nos o seguinte questionamento para desenvolver o texto: “Como o silêncio ressoa neste mundo marcado pela voz?” (“How does silence resonate against this vocal background?” – p. 3) É em busca dessa especifidade do silêncio e guiada por sua interrogação que Silvia Montiglio desenvolve os seus oito capítulos que tratam do mundo arcaico ao período clássico ateniense, abarcando desde Homero aos oradores e não esquecendo a leitura dos textos trágicos.

No primeiro capítulo (pp. 9-45), “Religious Silence without an Ineffable God,” Montiglio tenta demostrar o erro em universalizar o significado do silêncio em diferentes práticas religiosas. A análise da autora parte do significado da noção de “inefável” para mostrar que no panteão grego existem graus de silêncio (degrees of silence) exigidos pelas divindades. Assim, são mostrados os silêncios ligados à “iniciação religiosa”, mistérios órficos e a relação entre silêncio, pureza e impureza.

O segundo capítulo (pp. 46-81), “A Silent Body in a Sonorous World: Silence and Heroic Values in the Iliad,” é centrado na Ilíada de Homero, sendo que a autora deseja reconhecer as diferentes representações do silêncio feitas pelo Aedo. O mundo da Ilíada é o lugar da nobreza guerreira, no qual o corpo desempenha um importante papel de diferenciação social. Com este indício, Montiglio procura reconhecer expressões corporais no momento de “estar em silêncio.” É assinalada pela autora a existência de um vocabulário homérico para o silêncio ─ basta citar como exemplo a palavra aneôi, que é usada diante do maravilhoso ou o ficar mudo diante do fantástico, e também o silêncio da concordância que é colocado junto com o verbo agamai.

No capítulo seguinte (pp. 82-115), “The Poet’s Voice against Silence,” é discutida a figura do Aedo e a sua relação com a voz, a verdade e o silêncio. Parte-se então de uma afirmação de Marcel Detienne que coloca o silêncio na poesia arcaica como equivalente ao esquecimento e a culpa e como oposição à memória, a qual é a glória e a verdade cristalizada pela voz. Montiglio desenvolve a sua análise na poesia de Píndaro, na qual ela descreve a oposição entre voz ─ memória e silêncio ─ esquecimento como um mediador poético.

O quarto capítulo (pp. 116-157), “’I Will Be Silent’: Figures of Silence and Representations of Speaking in Athenian Oratory,” concentra-se no silêncio como um artifício de retórica. A pergunta que pode ser feita ao texto de Montiglio é: Como o silêncio é explorado como argumento? Para responder a esta indagação, a autora explica alguns recursos retóricos muito usados na Antigüidade. Entre eles, um chamado praeteritio, que consiste em dizer que não falará de um tema em particular para chamar a atenção do auditório sobre este tema e a aposiopesis, que consiste em fazer um silêncio brusco ao fim de uma frase, de forma a eufemizar certas questões.

Na segunda metade do livro, nos quatro capítulos restantes, Montiglio passa a se dedicar exclusivamente à análise do silêncio na tragédia grega. A especificidade do texto trágico em relação às outras formas discursivas do mundo grego está no problema da ambiguidade. A tragédia grega é construída em sua estrutura por relações ambíguas entre as personagens, entre o coro, entre os atores e os espectadores, entre os homens e o mundo dos deuses. A linguagem do texto não escapa dessa relação na qual a dúvida é sempre intrínseca.

O helenista Jean-Pierre Vernant lembra-nos de uma “multiplicidade de nível” no vocabulário trágico, ou seja, a mesma palavra liga-se a diferentes campos semânticos, pertencendo ao vocabulário religioso, jurídico e político. Cabe retomar uma pequena citação de Vernant que expõe a complexidade da palavra no texto trágico: “As palavras trocadas no espaço cênico têm, portanto, menos a função de estabelecer a comunicação entre as personagens que a de marcar os bloqueios, as barreiras, a impermeabilidade dos espíritos, a de discernir os pontos de conflito”.[4]

A autora, consciente do desafio que é interpretar a linguagem do texto trágico, desenvolve o seu quinto capítulo (pp. 158-192), “Words Staging Silence,” mostrando ao leitor que não podemos esperar semelhanças entre o silêncio no teatro moderno e o silêncio no teatro grego. Montiglio defende a idéia de que a tragédia grega rejeita o vazio em cena e favorece a continuidade do som; por isso, não podemos imaginar longos silêncios em cena no teatro grego. A menção ao silêncio na tragédia pode ser compreendida naquilo que a autora considera uma tendência cultural no mundo grego de associar o não-dito com o não-visto.

O sexto capítulo (pp. 193-212), “Silence and Tragic Destiny,” analisa o silêncio na trama trágica e os resultados que a escolha do falar ou não falar pode dar ao texto. O silêncio é comparado ao Kairos, ou seja, o momento oportuno ─ diferente do Kairos, o silêncio no mundo dos homens pode não refletir o destino, mas um momento confuso das personagens. Montigio ressalta então a diferença entre o silêncio do profeta, o qual mostra um conhecimento superior pois este seu silencio é uma vontade dos deuses, e o dos homens, que ficam em silêncio quando não sabem o desenrolar do próprio destino. No texto são analisadas principalmente as tragédias de Ésquilo e de Eurípides, mas não podemos deixar de lembrar que o Édipo Rei escrito por Sófocles também coloca em cena as diferenças entre a sabedoria do profeta e do herói trágico.[5]

O sétimo capítulo (pp. 213-251), “Silence, a Herald of Death,” anuncia uma complexa relação entre o silêncio e a morte. Montiglio analisa-a e compara diferentes textos gregos com a tragédia, inclusive os textos hipocráticos, nos quais a autora sinaliza diferenças entre o silêncio masculino e feminino. Já o oitavo capítulo (pp. 252-288), “Silence, Ruse, and Endurance: Odysseus and Beyond,” concentra-se na figura de Ulisses e os seus diferentes silêncios dentro do pensamento grego. Inicialmente a autora nos lembra que o silêncio de Ulisses está ligado à mètis, que é um tipo de inteligência ligado ao mundo prático. Nas épicas de Homero os silêncios de Ulisses estão ligados a um jogo de segredo, enquanto que no texto trágico Ulisses aparece com um silêncio ligado à estratégia e ao engano. Cabe lembrar o emblemático Ulisses da peça Filoctetes de Sófocles, o qual é retratado como um sofista dotado de poucos escrúpulos para alcançar o seu objetivo.

Assim, o livro “Silence in the Land of Logos” de Silvia Montiglio é de grande importância para uma historiografia que se preocupa com representações, lutas de representações e práticas discursivas. O tema do silêncio, como colocado pela autora, nos inspira a reavaliarmos a “fala” e a eloquência do “não-falar”. O projeto ambicioso de fazer uma pesquisa abrangente sobre o silêncio na Grécia Arcaica e Clássica, centrada em preocupações culturais, e o caráter antropológico que Montiglio dá ao estudo da História possibilitam uma leitura da autora a partir dos pressupostos da “Nova História Cultural”.

Para terminar esta resenha cabe lembrar de um fragmento de uma tragédia de Sófocles que diz: “My son, be silent! Silence has many beauties.” [6] O livro de Montiglio ensina-nos a compreender algumas dessas belezas.

Notas

2. Para aprofundar o problema do Logos ver o livro de Michel Fattal: FATTAL, Michel. Logos, pensée et vérité dans la philosophie grecque. Paris: L’Harmattan, 2001.

3. Tradução: “Se o silêncio é uma noção culturalmente específica, é de se esperar que os seus significados mudem não só de civilização para civilização, como também dentro da mesma civilização através do tempo.”

4. VERNANT, Jean-Pierre. Mito e tragédia na Grécia Antiga. São Paulo: Perspectiva, 1999. p. 20.

5. MARSHALL, Francisco. Édipo Tirano: a tragédia do saber. Porto Alegre: Ed UFRGS, 2000.

6. SOPHOCLES. Fragments. Edited and translated by Hugh Lloyd -Jones. London: Loeb Classical Library, 2003. P. 34, fragment 81. Tradução: “Meu filho, silencia! O silêncio tem muitas belezas.”

Mateus Dagios – Mestrando em História na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (bolsista CNPq). E-mail: mateusdagios@yahoo.com.br


MONTIGLIO, Silvia. Silence in the Land of Logos. Princeton: Princeton University Press, 2000. Resenha de: DAGIOS, Mateus. Aedos. Porto Alegre, v.3, n.8, p.260-263, jan. / jun., 2011. Acessar publicação original

A ferro e fogo: a história e a devastação da Mata Atlântica brasileira | Warren Dean

Pode-se dizer que a especialidade historiográfica atualmente denominada “História Ambiental” se define a partir de um tema específico. No caso, a relação entre homens e natureza ao longo do tempo. Sendo que por “natureza” a maior parte dos historiadores ambientais compreende todo o mundo não-humano ou não-criado originalmente pelo homem. Assim, como se pode inferir, a especialidade engloba uma vasta gama de discussões e problemáticas, bem como força uma série de diálogos interdisciplinares pouco convencionais no interior das Ciências Humanas. Sobretudo, com as Ciências Naturais e Físicas, incluindo aí não só a Biologia ou a Meteorologia, mas muitas outras, inclusive as ditas “aplicadas”, tais como a Engenharia Civil ou a Genética.

Apesar da preocupação em compreender aspectos das relações entre sociedades e seus ambientes naturais não ser algo assim tão recente entre os historiadores, foi só a partir dos anos 1970 que se passou a esboçar claramente o projeto de uma história “ecológica” ou “ambiental”.

Dentre os franceses da escola dos Annales, por exemplo, os próprios Marc Bloch (1886-1944) e Lucien Febvre (1878-1956) já apontavam, entre as décadas de 1920 e 40, para a necessidade de se compreender as bases ambientais, sobretudo geográficas, sobre as quais se organizavam as diferentes sociedades humanas do passado. Mais tarde, seu maior discípulo, Fernand Braudel (1902-1985), aprofundaria essa sensibilidade em obras como O Mediterrâneo e o Mundo Mediterrâneo na Época de Felipe II (1949). Uma obra monumental na qual, entre outras coisas, o historiador chama a atenção para os cenários geológicos, hidrológicos e oceanográficos nos quais se desenvolvem os processos econômicos, sociais e políticos que analisa.

Em outros países, ainda na primeira metade do século XX, outros autores nutriram preocupações semelhantes. Nos Estados Unidos, Frederick Turner (1861-1932), bem como outros dos chamados “historiadores da fronteira”, demonstrou claro interesse no impacto representado pela expansão europeia sobre o ambiente natural da América do Norte.

Entre nós, brasileiros, autores como Euclides da Cunha (1866-1909) e, principalmente, Sérgio Buarque de Holanda (1902-1982) também podem ser tomados como precursores desse tipo de preocupação temática. Obras como Os Sertões (1902) e Caminhos e Fronteiras (1957) seriam alguns exemplos, dentre os nossos clássicos, de reflexões preocupadas, entre outras coisas, em inserir culturas e processos sociais em contextos ambientais específicos. Contextos estes de algum modo compreendidos como elementos ativos na dinâmica histórica.

Não obstante, seria na transição dos anos 1960 para os 70 que uma historiografia claramente preocupada com as relações entre processos sociais e naturais ao longo tempo passaria a ser pensada como uma área de investigação específica no interior da disciplina histórica.

Com a eclosão de novos movimentos sociais, fora do âmbito estritamente universitário, e com a revisão e ampliação de antigos pressupostos e objetos de pesquisa, no interior da academia, a História Ambiental começou a ganhar seus primeiros teóricos e praticantes. Dentro da chamada Terceira Geração dos Annales, autores como Emmanuel Le Roy Ladurie (1929), em 1973, defendiam a legitimidade do “clima” como um objeto legítimo à reflexão do historiador [2]. Não obstante, seria nos Estados Unidos – um dos principais focos do movimento ambientalista internacional – que surgiriam os primeiros e mais influentes trabalhos de História Ambiental. Foram das universidades americanas que saíram (e ainda saem) alguns dos principais textos ligados a essa especialidade. Estudos clássicos como os de Roderick Nash (Wilderness and the American Mind, de 1967), Donald Worster (Nature’s Economy: a history of ecological ideas, de 1977) e Warren Dean (Brazil and the struggle for rubber: a study in environmental history, de 1987).

E é de autoria deste último, Warren Dean, a obra que é considerada por muitos especialistas um dos primeiros e mais importantes trabalhos de História Ambiental já realizados sobre o Brasil. Estamos nos referindo ao livro With Broadax and Firebrand: the destruction of the brazilian Atlantic Forest, publicado originalmente em 1995. Texto logo traduzido para o português (a primeira impressão brasileira é de 1996) sob o título A ferro e fogo: a história e a devastação da Mata Atlântica brasileira.

Falecido em 1994, num acidente automobilístico no Chile, Dean não teve a oportunidade de acompanhar o impacto que A ferro e fogo causou em nossa comunidade acadêmica. Já bastante conhecido entre os historiadores brasileiros desde os anos 1960 e 70, por livros como A Industrialização de São Paulo (1967) e Rio Claro: um sistema brasileiro de plantation (1976), a Ferro e Fogo, superou Brazil and the struggle for rubber, como exercício de história ambiental. A originalidade e amplitude do tema, os diálogos interdisciplinares e o uso de uma vasta gama de fontes fizeram desse livro um modelo teórico-metodológico dedicado a essa modalidade historiográfica. Além, é claro, de uma referência obrigatória para toda uma geração de pesquisadores que, de algum modo, se interessam pelas relações que humanos e floresta Atlântica travaram entre si ao longo dos anos, séculos e milênios afora.

Prefaciado por outro brasialinista ilustre, Stuart Schwartz – autor de Segredos Internos: engenhos e escravos na sociedade colonial (1550-1835), de 1985 -, o livro de Warren Dean se divide em quinze capítulos. Nestes, o autor realiza um exercício incomum noutras especialidades historiográficas, mas essencial em qualquer bom trabalho de História Ambiental: a articulação entre o tempo natural (ou geológico) e o tempo social. A relação entre as grandes escalas de tempo da Geologia e da Biologia, contadas em milhões e bilhões de anos, e o tempo mais curto dos processos humanos, contados em unidades mais “modestas” como milhares, centenas ou dezenas de anos. Assim, no primeiro capítulo, somos apresentados à floresta atlântica desde a sua formação há bilhões de anos, passando pelas sucessivas eras geológicas, até a formação da biomassa que as primeiras levas de “invasores” humanos encontraram ao chegarem ao subcontinente Sul Americano há “apenas” 10 mil anos.

Warren Dean é categórico ao expressar o seu entendimento do tema proposto. Para ele uma história das florestas não deve se limitar a compreender o ambiente natural apenas do ponto de vista humano, isto é, vendo este ambiente apenas como uma simples reserva de recursos econômicos ou, ainda, como mero cenário contra o qual se desenvolveriam isoladamente as ações humanas. Em oposição a esta visão dicotômica e estática, Dean sugere um entendimento dinâmico da relação entre humanos e natureza, sobretudo se essa natureza se refere a um sistema altamente complexo como o são as florestas tropicais. Para o autor, a Mata Atlântica não foi apenas objeto da sua história, mas também sujeito. Ela atuou, impôs limites, ditou regras, ajudou a moldar atitudes e pensamentos àquelas sociedades que, um dia, se aventuraram no seu interior.

O saldo do encontro entre ambos os universos (o humano e o natural) foi, no entanto, trágico. Segundo Dean, a história da Mata Atlântica é uma história de devastação porque, de um modo geral, em todo o Planeta, a história das florestas sempre teria sido “uma história de exploração e destruição”.[3] O homem não pertenceria àquelas sociedades compostas por inúmeras espécies de plantas e animais em contínua interação. Seu equipamento natural não o possibilita viver em ambientes altamente hostis às suas necessidades como de fato é uma floresta tropical. Para permanecer lá, ela, a espécie humana, precisa alterar o mundo ao seu redor. Assim, para viver na Mata Atlântica os homens, necessariamente, precisaram destruíla. Não obstante, se algumas sociedades fizeram isto de forma mais ou menos equilibrada durante longos períodos de tempo, outras, no entanto, foram altamente prejudiciais ao equilíbrio do sistema em relação ao qual elas eram alienígenas. Foi este o caso dos invasores europeus que chegaram ao Continente Sul Americano no século XV.

Dean, portanto, não poupa ninguém no seu balanço geral da devastação da floresta atlântica. Índios, caboclos, colonos, latifundiários, grandes industriais, Estado… Para o autor, todos tiveram a sua cota de responsabilidade no resultado final do processo. A Mata Atlântica praticamente não existe mais em sua extensão e forma originais, tanto por causa dos séculos ou milênios de agricultura predatória indígena, quanto por causa das décadas de industrialização acelerada de um Estado e burguesia embriagado com a idéia de um desenvolvimento econômico rápido e irresponsável.

Seu livro, portanto, é um retrato de uma luta desigual. De um lado um dos ecossistemas mais complexos e inalterados com que a espécie humana já travou contato, de outro, a própria espécie humana com sua particular capacidade de transformar ambientes conforme as suas diversas necessidades materiais e simbólicas. O resultado deste embate, ao menos por hora, pode ser apreciado em qualquer viagem de carro ou avião ao longo do litoral brasileiro.

Narrada de forma linear e numa linguagem bastante acessível A ferro e fogo é uma obra que, por vezes, faz parecer fácil uma das modalidades historiográficas mais exigentes e sofisticadas dentro da historiografia contemporânea. Além da amplidão de seu recorte espacial (a Mata Atlântica originalmente corresponde ao que hoje abrange 14 estados brasileiros) e temporal (bilhões de anos geológicos; pelo menos, 10 mil anos de história humana não registrada em fontes escritas; e 500 anos de ocupação europeia) seu livro apresenta centenas de fontes dos mais variados tipos (relatórios técnicos, relatos de viajantes, artigos científicos, livros, manuais agrícolas, tratados de história natural, legislações ambientais, jornais, mapas, etc.) e estabelece alguns diálogos disciplinares bastante instigantes, sobretudo com a Biologia, Geografia, Arqueologia e a Antropologia. No mais, no interior da própria disciplina histórica, Warren Dean não deixa de estabelecer vínculos entre a História Ambiental e outras especialidades, em especial com a História Econômica e Social.

A despeito dos seus possíveis limites e deficiências, A ferro e fogo permanece incólume como um dos exemplos mais bem acabados de boa História Ambiental. Neste livro, parece-nos, Warren Dean consegue articular com desenvoltura aqueles três níveis, ou três grupos de perguntas, que Donald Worster definiu como centrais para a pesquisa dentro desta especialidade historiográfica. [4] A saber, Dean consegue a) dar-nos uma idéia mais ou menos objetiva do modo como a “natureza propriamente dita” se “organizou e funcionou no passado”, tantos em seus aspectos orgânicos quanto inorgânicos (incluindo aí os organismos humanos); b) demonstrar o papel ativo do meio natural no interior dos processos sociais e econômicos das diferentes sociedades que interagiram com o ambiente natural ao longo do tempo; c) abranger os diferentes significados inferidos pelos homens ao meio natural e demonstrar como essas percepções afetaram a sua relação com a floresta.

A ferro e fogo é, provavelmente, a obra-prima de Warren Dean e vai, certamente, permanecer durante muito tempo como um clássico da História Ambiental. Se não pelo peso de todas as suas conclusões e análises, ao menos pelo fato de ter conseguido concretizar o objetivo maior dessa rica vertente historiográfica: o de inserir, de maneira dinâmica, determinados processos humanos no interior de seus contextos naturais específicos. Um diálogo que, mesmo que não percebamos (ou não queiramos perceber), história e natureza sempre realizam. E isto porque, nós, antes de sermos humanos, somos criaturas vivas. Seres imersos num tempo, mas também num espaço nem sempre criado ou controlado por nós. Sujeitos e objetos de um ambiente que por vezes modelamos e que invariavelmente também nos molda.

Notas

2. LADURIE, Emmanuel Le Roy. O clima: história da chuva e do bom tempo. In.: LE GOFF, Jacques; NORA, Pierre. História: novos objetos. Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1986. p. 11-33.

3. DEAN, Warren. A ferro e fogo: a história e a devastação da Mata Atlântica brasileira. 1. ed. São Paulo: Cia. das Letras, 2004. p. 23.

4. WORSTER, Donald. Para fazer história ambiental. Estudos Históricos, Rio de Janeiro, v.4, n.8, p.198-215, 1991. p. 205.

Luiz Alberto de Souza – Bacharel e licenciado em História pela Universidade Federal de Santa Catarina. Mestrando em História Cultural pela mesma instituição. E-mail: luiz_alberto82@yahoo.com.br.


DEAN, Warren. A ferro e fogo: a história e a devastação da Mata Atlântica brasileira. São Paulo: Cia. das Letras, 2004. Resenha de: SOUZA, Luiz Alberto de. Aedos. Porto Alegre, v.3, n.8, p.264-268, jan. / jun., 2011. Acessar publicação original [DR]

Historia 396 | PUCV | 2011

Historia 396

La revista Historia 396 (Viña del Mar, 2011-) del Instituto de Historia de la Pontificia Universidad Católica de Valparaíso (Paseo Valle 396, Viña del Mar, Chile), es una publicación en papel (con soporte digital de acceso abierto) editada semestralmente, dedicada a los estudios históricos y de carácter interdisciplinario para el análisis y la comprensión del pasado, los problemas metodológicos y conceptual. […] Historia 396 contempla la publicación de investigaciones relacionados con los diversos campos de la Historia, con particular interés en la Historia de Chile, América y de Europa.

Periodicidade semestral.

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Diálogo Europa América. Passado e Presente / Antíteses / 2011

Los autores aquí reunidos muestran la necesidad de centrar el análisis en el funcionamiento de una sociedad en cambio, es decir, el paso de un territorio preindustrial y colonial al papel que tendrán nuevos grupos ligados al capitalismo. La evolución de un complejo ámbito definido como “imperial” y la transformación que tuvo la América del Sur a lo largo del siglo XIX, permite analizar la originalidad del cambio, incluyendo los lazos generacionales y la reconstrucción de las estrategias de ascenso social. La transformación de territorios de habla hispánica y portuguesa desde finales del siglo XIX otorgan disparidad. Brasil, que conservó la esclavitud hasta 1888 junto con Cuba que se mantenía bajo dominio español, encuentra sentido para buscar y comparar la diversidad. Los textos de este dossier permiten entender el funcionamiento de relaciones complejas, fuertes y polifacéticas. Los autores prefieren insistir en la reconstrucción del proceso de ascenso, de la integración social y de la reconstrucción individual y de grupo. No descuidan el hecho de que esta movilidad social pueda tener sus propias limitaciones al tomar en cuenta casos de decaimiento y hasta de fracaso. Es una manera de recordar que no todos los intentos de ascenso social son exitosos y que la historia no relata siempre a los vencedores. Los estudios de caso insisten en lo individual y lo global sin caer en lo “anecdótico”.

La reflexión propuesta por este dossier ofrece una interesante información para la historia social, cultural y económica de América Latina. Los distintos trabajos que proponemos aquí analizan el pasado y el presente de países como Portugal, España, Alemania e Inglaterra con un contexto sudamericano específico y al mismo tiempo dispar formado por Brasil y Argentina. Se profundiza la vida de algunos grupos o colectividades residentes en Argentina y Brasil, que desde finales del siglo XVIII hasta las primeras décadas del siglo XX formaron parte de un mundo diferente y en disputa en relación a los vínculos españoles y portugueses. Algunos de los artículos que incluimos aquí insisten en el periodo de la organización colonial y centran  posteriormente las relaciones sociales que se tejen durante la organización del capitalismo en América Latina. Los trabajos estimulan un importante debate sobre las múltiples conexiones que se observan entre el mundo empresarial y laboral, los intercambios culturales, y los grupos o redes familiares. Los autores muestran una enriquecedora variedad ya que oscilan entre la descripción del caso y el debate teórico, la conclusión histórica o el matiz metodológico y de esta manera abordan cinco problemas principales. En primer lugar, el origen mercantil, social o militar de grupos o familias que se radicaron en los países aludidos. En segundo lugar, los objetivos y los cambios de individuos o grupos vinculados a la migración. En tercer lugar, la diversificación de actividades regionales con frecuencia ligadas a los cambios mundiales. En cuarto lugar, la implementación de cimientos asociativos, mercantiles y financieros en la zona rioplatense. Y, finalmente, la estrategia de las redes familiares o étnicas para la consolidación, supervivencia y / o expansión de los grupos, asociaciones o individuos.

Desde esta perspectiva los artículos se plantean sesgos comparativos que acentúan el enfoque regional e incorporan elementos de larga duración. Roberto Dante Flores se centra en la singular presencia de “invasores británicos” en la incipiente sociedad de Buenos Aires en unos años singulares de la historia latinoamericana: el ataque que hacen en 1806 y 1807 y modifican las relaciones sociales de manera clara hasta el año 1810 cuando se inicia el proceso de independencia. Es perfectamente conocido en Argentina qué papel jugaron los británicos en los dos ataques dirigidos a la colonia “española”. Con gran creatividad el autor rastrea cómo modificaron su pensamiento y su forma de vida esa nueva población, y también cómo afectaron a la población residente con legitimidad desde la fundación del Virreinato del Río de la Plata. Quienes habitaban Buenos Aires, en general se dedicaban a las actividades mercantiles y a la esclavitud. Se vieron obligados a convivir, voluntaria o involuntariamente, durante un tiempo considerable. Participaron, en consecuencia, tanto de manera directa como indirecta, en la crítica que poco tiempo después de las dos invasiones se dirigiera al poderío español. La entrada bélica a la ciudad, la decadencia hispánica y el peso de esta ciudad en el marco del proceso de independencia latinoamericana, articulan la experiencia rioplatense con el Imperio español. La legalización tardía del Virreinato del Río de la Plata (año 1776) otorgó un gran poder a catalanes, gallegos y vascos, es decir, a una mayoría de “hispanos” singulares si comparamos con los otros virreinatos. El artículo ofrecido por Flores otorga una mirada original para entender la reacción hispánica y la manera en que se articuló la sociedad civil hasta el inicio del proceso de independencias.

También interesada en la vida catalana entre la Península y Buenos Aires, Gabriela Dalla-Corte Caballero explica cómo la familia catalana Alsina (de gran trascendencia económica hasta inicios del siglo XX) excluyó a finales del siglo XVIII al verdadero heredero “primogénito” y lo sustituyó por un único heredero: el “segundón”. La conservación de “la familia” durante la pérdida de las colonias del Cono Sur permite analizar el diseño de una casa catalana durante un periodo absolutamente desgarrador que son los años que van de 1790 a 1820. Una comunidad catalana beneficiada por las relaciones coloniales pero afectada por la independencia y la crisis política de España, en particular la exclusión del rey y la sustitución de los intereses franceses, merece una atención en perspectiva histórica y empresarial. El objetivo es entender la distribución de los miembros familiares ante un conflicto económico producido fuera de Cataluña. El texto reflexiona sobre la empresa económica y su capacidad de adaptación al mercado y a sus evoluciones. La “empresa” y la “familia” son realidades estrechamente ligadas entre sí para el caso catalán. Se analiza un conflicto familiar a partir del primogénito varón que fue desheredado en el marco del derecho foral catalán. Su objetivo es comprender el papel de la conservación patrimonial en las estrategias familiares, así como la constitución de la dimensión “jural” en el ámbito familiar. En lo que a las estructuras se refiere, ya sean empresariales o familiares entre finales del siglo XVIII y principios del siglo XIX, se remiten a los trabajos “familiares” con marco “patriarcal” de los que, procedentes de Cataluña, optan por América y reconstruyen la orientación de los que dirigen desde Calella.

El período histórico elegido se circunscribe a la crisis del orden colonial así como a la transición del Antiguo Régimen a la modernidad. Presenta un fragmento de historia de familia en términos microanalíticos insistiendo en su desenvolvimiento en el seno de la cultura catalana de finales del siglo XVIII y principios del XIX, aproximación puntual que le permite apreciar el juego de las estrategias utilizadas por familias incipientemente burguesas para asegurar a largo plazo el futuro de sus miembros y para garantizar a mediano plazo la reproducción del patrimonio. A través de documentación notarial y patrimonial, obtenida en archivos locales de Cataluña, la autora muestra cómo estos grupos pudieron proyectar sus empresas familiares gracias al tráfico mercantil con América durante el Antiguo Régimen, y el apoyo que obtuvieron las familias más prósperas por parte de las comunidades locales para garantizar la transmisión del patrimonio, tanto material como simbólico. Bastaría recordar que en el mundo pre-industrial la empresa comercial, agrícola o artesanal se desarrollaba siempre en base a una estructura de tipo familiar. La falta de estructuras consolidadas intentó ser reemplazada por un denso entramado de relaciones comerciales, parentelares y étnicas que funcionaron a nivel local. El desarrollo del capitalismo industrial no significó la desaparición ni inmediata ni automática de la estructura familiar de las empresas, aún cuando la concentración capitalista o la intervención del Estado contribuyeron a borrar dicha dimensión inicial. Aún así, la dimensión familiar de la empresa económica no se diluyó de manera completa a pesar del desplazamiento de su contenido. En el mundo industrial de los siglos XIX y XX se desarrolló una forma de relaciones sociales para garantizar el “paternalismo”. Fueron esas relaciones una manera distinta de expresar la dimensión familiar de la empresa económica. Por ello, más que ofrecer una reconstrucción de las estructuras, se propone identificar las dinámicas, tanto sociales como socio-económicas y culturales, que afectaron al grupo analizado.

Desplazando el estudio de Argentina, Luis Fernando Beneduzi concentra el debate en torno al blanqueamiento en Brasil, un país que ha sido singular en la construcción de la identidad a partir de la pervivencia del racismo. El sur de Brasil, analizado por Beneduzi, permite observar singulares indicaciones sobre la evolución del siglo XIX que negó a su población “negra” y diferenció los conceptos entre “noble salvaje” y “noble portugués”. En un momento muy particular de las relaciones de Brasil con los países vecinos (pensemos, por ejemplo, en Argentina y Uruguay con los que Brasil se impuso contra Paraguay en la Guerra de la Triple Alianza entre 1865-1870), recordemos que el Imperio mantuvo la esclavitud hasta el año 1888, diferenciándose de este modo de los territorios anteriormente hispánicos en América Latina.

De esta manera se muestra la vision positiva de esta migración de origen europeo frente a la inferioridad de los “negros”. La colonización fue considerada una situación positiva en el sur brasilero, conclusión que Beneduzi nos brinda en su texto sobre la rapidez del “blanqueamiento” gracias, entre otras razones, a la llegada de población italiana a Brasil. Como señala el autor, es posible analizar la inmigración italiana en Rio Grande do Sul a finales del siglo XIX y principios del siglo XX para reflexionar sugestivamente sobre temas que interesan hasta hoy día. La investigación histórica busca salir de las problemáticas convencionales y las herramientas sociológicas de la organización merece un lugar central gracias al interés de sus conceptos e instrumentos de análisis. En general, la interdisplinariedad alcanza la necesidad de identificar las convenciones mantenidas como válidas. Como demuestra con fuerza Beneduzi, las situaciones analizadas al abordar a los italianos en Brasil son el resultado de procesos en constante construcción, mecanismos sociales que interesan mucho más que las propias estructuras.

Siguiendo los procesos migratorios en los países estudiados, Bettina Alejandra Favero nos ofrece una interesante visión sobre la inmigración en Argentina, específicamente el papel de la iglesia y la beneficencia en la construcción del barrio portuario de Mar del Plata. Se trata de un espacio que se convirtió en un centro balneario y un puerto de la costa del Atlántico y necesitó la presencia migratoria. La industria portuaria y turística, la vida pesquera en el puerto, la recepción de barcos y de inmigrantes, la suerte de las tribus tehuelches, son temas que se acompañan de una iglesia activa y capaz de hacerse cargo de la inmigración como ocurrió en otras zonas del país, como el caso de Rosario.

Lucas Poy y Daniel Gaido se centran en la inmigración alemana en la Argentina de finales del siglo XIX cuando el país se encontraba aún, según los autores, en la “prehistoria” del “socialismo”. En efecto, durante el año 1890 irrumpió la clase obrera en la escena pública de Argentina con una gran presencia alemana. El año 1893 marca el punto más álgido del reflujo obrero y también del incipiente movimiento socialista. A partir de entonces, los autores demuestran que los socialistas alemanes ya no tienen una participación decisiva: fueron inmigrantes que estudiaron las oportunidades que significaba la construcción del mercado laboral pero también la organización política. El papel de la inmigración en América Latina es retomado por Reinaldo Benedito Nishikawa al centrarse en la transformación del migrante en “colono” en la provincia del Paraná en Brasil. Los diversos niveles en que se articulaba el crédito, la circulación de la tierra y el flujo de mercancías durante las primeras décadas del siglo XX son indicativos en este trabajo centrado en la colonización que transforma incluso el sentido de los inmigrantes. La red de intermediarios que iban desde las empresas locales de ventas de tierras a los abogados, notarios, empleados de banco… también indican la integración de grupos.

Ruy Farías se centra en el asociacionismo gallego en Buenos Aires y profundiza en la integración de los migrantes a partir del archivo de la Federación de Asociaciones Gallegas de la República Argentina (FAGA) vinculado al Museo de la Emigración Gallega en la Argentina (MEGA). Concentra el interés en la integración de los inmigrantes entre la segunda mitad del siglo XIX y las tres primeras décadas del XX a partir de una base: los gallegos fueron aproximadamente el 17 % de todos los europeos que llegaron a Argentina entre 1857 y 1930. El país, por ende, fue “el más importante destino americano de la emigración gallega”. Los gallegos le permiten detectar la manera en que la colectividad o la comunidad actuaron a través de la Federación de Asociaciones Gallegas de la República Argentina (nacida en 1921 como Federación de Sociedades Gallegas, Agrarias y Culturales), ha generado con el tiempo una valiosa masa de documentación, a la que se suman importantes fondos provenientes de múltiples sociedades gallegas de ámbito microterritorial y del extinto Centro Republicano Español de Buenos Aires. El texto busca describir someramente el asociacionismo gallego en Buenos Aires, para luego analizar la composición y características de los fondos del archivo de la Federación, ofreciendo, al mismo tiempo, una interpretación de su valor y de las posibilidades que ofrecen a la investigación.

Finalmente, Norberto Osvaldo Ferreras se centra en las relaciones establecidagracias a la Organización Internacional del Trabajo (OIT) en Sudamérica. Elige específicamente el momento de 1925 en que el secretario general, Albert Thomas, concentró su actuación en importantes países como Brasil, Uruguay, Chile y Argentina. Thomas cumplió con el mandato de profundizar la situación laboral de esta zona latinoamericana y nutrir de datos a la OIT. El texto se centra en el viaje de Thomas al Cono Sur e indica que la primera conferencia internacional de la OIG del año 1925 reunió a participantes de 40 países, casi el 25% de origen latinoamericano. Fue una de las tantas soluciones que se buscaron a partir del fin de la Primera Guerra Mundial y de la consolidación del Pacto de Versalles para reorganizar el mundo económico. En esa línea, este texto remite como los otros a lo “significativo” de sus contenidos pero también a la dimensión significativa de una realidad más amplia.

La diversidad temática de este dossier tiene, paralelamente, coincidencias históricas, especialmente el interés de los autores por la manera en que Brasil y Argentina resuelven en diversos momentos la independencia, la esclavitud, la presencia de inmigrantes, y tienen paralelamente las diferencias regionales. Esperamos que la lectura de estos trabajos agradezca a los lectores e impulse análisis novedosos en el estudio de las relaciones en el pasado y el presente.

Gabriela Dalla-Corte Caballero  – Doctora en Historia de América y Doctora en Antropología Social y Cultural. Profesora Titular de Historia de América del Departamento de Antropología Social, Historia de América y África, Facultat de Geografia i Història, Universitat de Barcelona. Dirección electrónica: dagapa@yahoo.es

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Representaciones en torno al territorio y las relaciones sociales en las fronteras iberoamericanas, siglos XVIII y XIX / Antíteses / 2011

Nadie ignora que el Sur empieza del otro lado de

Rivadavia. Dahlmann solía repetir que ello no es

una convención y que quien atraviesa esa calle

entra en un mundo más antiguo y más firme

(BORGES, 1999, p. 209).

[…] desde la perspectiva de los indígenas no

sometidos, los españoles ocupaban las fronteras

de las tierras que ellos controlaban, y el territorio

circundante (WEBER, 1998, p. 147).

Aunque la vida social está inscripta en el espacio y en el tiempo, son pocos aún los historiadores que ponen el énfasis de sus análisis en la dimensión espacial de los fenómenos sociales. Es más común y generalizado presentar al territorio como una de las dimensiones en la que ocurren los acontecimientos y, como corolario, la representación gráfica en mapas y cartografías cumple, en la mayor parte de los casos, la función de señalar o ubicar. Sin embargo, el territorio es percibido y valorado de manera diversa por quienes lo ocupan, lo habitan y le confieren sentido. Así, los recortes espaciales se establecen a partir de construcciones sociales y culturales, y de percepciones simbólicas, en estrecha relación con los mecanismos de poder que operan en una sociedad.

Los espacios definidos como fronteras en el contexto iberoamericano colonial y decimonónico, fueron objeto de percepciones y construcciones conceptuales que intentaban dar cuenta de realidades territoriales y sociales diferentes -y en gran medida contrapuestas- a las conocidas hasta ese momento, tanto por sus características físicas y geográficas, como por el modo de vida de las sociedades que las habitaban. Las fronteras, que se fueron conformando al calor de los procesos de conquista y colonización del continente, eran para los hombres que vinieron del otro lado de mar, zonas poco conocidas, escasamente dominadas y, en muchos casos inhabitables, que estuvieron estrechamente relacionadas con la idea de desierto, entendido en la época como un espacio vacío de población y ausente de civilización occidental, habitado por el “otro” social y cultural. Así, el avance sobre esos desiertos permitió ampliar los límites del dominio colonial, y continuó durante el proceso de construcción de los estados nacionales a través del corrimiento de las denominadas fronteras interiores sobre los territorios ocupados por las sociedades indígenas que aún resistían los embates civilizatorios y defendían sus recursos (BANDIERI; ORTELLI, 2007, p. 277-281).

Estos procesos, representados en mapas y cartografías oficiales -en su carácter de elementos en los que se manifiestan el conocimiento y la representación que una sociedad se hace del espacio (BERNABÉU ALBERT; GARCÍA REDONDO, 2011, p. 142)- fueron dando cuenta de las diversas lecturas del paisaje, de la organización del espacio y de las territorialidades, entendidas como construcciones históricas y culturales. Así, en gran parte de la cartografía de los territorios iberoamericanos en la época colonial y el siglo XIX, aparecen extensas zonas en blanco, como si estuvieran vacías, y en las cuales el proceso de poblamiento emanado desde los centros de poder se detiene y los circuitos de comercio e intercambio se interrumpen. En la América austral existen varios ejemplos paradigmáticos.

El Chaco, caracterizado en algunas crónicas coloniales como un “desierto verde”, aparece representado con frecuencia como una gran mancha, ubicada en el corazón del territorio sudamericano, rodeado de misiones, haciendas y presidios, que parecen no adentrarse más allá de unos pocos kilómetros, en una zona plagada de peligrosos indios errantes. Sin embargo, lejos de ser un espacio vacío de población y yermo de actividades económicas, residían en él varios grupos nativos que mantenían intensas y estrechas relaciones con los hispanocriollos, tanto por tierra como a través de los ríos que lo surcaban. Al mismo tiempo, albergaba a pobladores que huían del mundo colonial escapando de la justicia y de las condiciones de vida de las haciendas y los presidios o, más tarde, a quienes desertaron durante las guerras de independencia y el periodo de conformación del estado-nación (SANTAMARÍA, 1998).

En el caso de la frontera rioplatense, más allá del límite que señalaba el río Salado, al sur de la línea dibujada por las guardias de frontera que se extendían a lo largo de las pampas, todo parece definirse por el vacío: en la denominada tierra adentro las líneas que representan los circuitos de comercio e intercambio se interrumpen de manera abrupta en la cartografía y los asentamientos humanos desaparecen. Por su parte, los sertões en la América portuguesa también constituyeron espacios que fueron considerados vacíos de civilización, ajenos al resto y fuera del control de las autoridades imperiales y, más tarde, nacionales (CAPELARI NAXARA, 2011, p. 227-244). Sin embargo, cuando invertimos los términos de la ecuación, surge como nos recuerda David Weber que “Desde la perspectiva hispánica, los grupos indígenas ocupaban las fronteras del Imperio español en el Nuevo mundo y sus tierras adyacentes; desde la perspectiva de los indígenas no sometidos, los españoles ocupaban las fronteras de las tierras que ellos controlaban, y el territorio circundante” (WEBER, 1998, p. 147).

Las fronteras fueron entendidas durante mucho tiempo como límites o líneas de separación que marcaban la transición entre mundos con diferencias irreconciliables, y definidas como “fronteras de guerra” que limitaban con el territorio ocupado por “indios de guerra”. A partir de estas concepciones, en la historiografía de la frontera latinoamericana predominó por muchos años una perspectiva que enfatizó el conflicto, y dejó de lado el análisis de otras manifestaciones sociales, o las subordinó a la dinámica de las guerras por territorios. En efecto, la historiografía iberoamericana ubicó en tales espacios a las sociedades indígenas no reducidas y las entendió como separadas del mundo colonial e independiente. Sin embargo, cuando se profundiza el estudio de procesos y casos concretos, en diferentes regiones y temporalidades de las Américas hispana y portuguesa, surge una dinámica diferente, en la que los sectores socioétnicos lejos de estar aislados y separados, establecían profusas relaciones de índole diversa.

En ese marco, la frontera se desdibuja como límite, raya o término, y adquiere las características de espacio permeable y dinámico, atravesado por relaciones sociales que deben ser analizadas en términos cada vez más complejos y tratar de superar los enfoques anclados en las perspectivas étnicas, y aludir a relaciones sociales y políticas, entendiendo que lo étnico aparece como una variable sin duda relevante, pero no determinante. Al mismo tiempo, las identidades étnicas deben entenderse como construcciones históricas que se van definiendo a través de complejos procesos de apropiaciones y resignificaciones culturales, sociales y políticas, signadas por las experiencias de grupos e individuos en el tiempo. Así, las categorías y clasificaciones étnicas vienen siendo problematizadas por muchos estudios de caso que, enfocando situaciones específicas, revelan la fluidez y la complejidad de las interacciones entre diferentes grupos (RADDING, 2008; BOCCARA, 1998; GIUDICELLI, 2009, p. 27-66; FRÜHAUF GARCÍA, 2009, WILDE, 2009; KOK, 2004; ver los artículos reunidos en BOCCARA; ORTELLI, 2006).

Al mismo tiempo, la redefinición de la escala de análisis de los estudios ha permitido enfocar y visualizar realidades más concretas y específicas, sin perder de vista, por supuesto, los contextos y los procesos generales. Esto se relaciona tanto con el despliegue de nuevos enfoques y herramientas teórico-metodológicas, como con el análisis de diversas fuentes documentales, y ambas cuestiones aparecen con claridad en el caso de los espacios fronterizos iberoamericanos. Por mucho tiempo los historiadores reconstruyeron la historia de las fronteras desde la mirada metropolitana, con documentos emanados de archivos que reflejaban el punto de vista de los centros de poder. Esta reconstrucción se ha venido enriqueciendo a partir de trabajos que plantean una aproximación regional y local, que integran otro tipo de documentación y que está transformando, en varios aspectos, nuestra comprensión de los procesos del pasado y del papel que las sociedades de frontera jugaron en ellos.

La profundización de las investigaciones sobre estas áreas plantea la necesidad de revisar el lugar subordinado y periférico que se ha otorgado, en general, a las fronteras en los procesos del pasado (CRAMAUSSEL, 2006; JONES, 1998). En tal sentido, es necesario repensar los recortes espaciales, no en función del paradigma central -y teleológico- que impone la idea del proceso de establecimiento de los límites del estado nacional, sino a partir de la reconstrucción de las dinámicas espaciales coloniales y decimonónicas. De hecho, el establecimiento de los límites jurisdiccionales de los actuales estados escindió espacios que durante el periodo colonial estuvieron articulados, pero que en la época independiente pasaron a formar parte de entidades diferentes. A la vez, los transformó y reorientó, en función de las necesidades de los nuevos tiempos, que desembocaron más tarde en el proceso de construcción del estado nacional, como así también del mercado interno y de la nueva constelación de relaciones en el ámbito internacional.

A partir de estas premisas, el dossier propone incentivar el diálogo entre estudiosos de las diversas fronteras iberoamericanas para indagar acerca de las imágenes y representaciones que se han construido en torno a estos territorios y a las relaciones sociales que se desarrollaron en ellos durante los siglos XVIII y XIX. Sólo resta, entonces, agradecer a las y los colegas que se han hecho eco de esta convocatoria, y la han enriquecido a partir de los análisis, reflexiones y discusiones de sus estudios de caso.

Por último, este dossier está dedicado a la memoria del estimado colega, Dr. Pedro Navarro Floria, quien falleció el día 5 de diciembre de 2010, poco tiempo después de haber enviado su colaboración.

Referencias

BANDIERI, Susana y Sara ORTELLI. Fronteras y sociedades indígenas en el siglo XIX. En MANDRINI, Raúl, ESCOBAR OHMSTEDE, Antonio; ORTELLI, Sara (Ed.). Sociedades en movimiento: los pueblos indígenas de América Latina en el siglo XIX (Anuario del IEHS, Suplemento 1). Tandil: IEHS-UNCPBA, 2007. p. 277-281.

BERNABÉU ALBERT, Salvador; GARCÍA REDONDO, José María. Dorsal de espejismos: el inestable desierto californiano en el imaginario jesuita. En: TREJO BARAJAS, Dení (Coord.). Los desiertos en la historia de América: una mirada multidisciplinaria. México: Universidad Michoacana de San Nicolás de Hidalgo, Universidad de Coahuila, 2011. p. 137-168.

BOCCARA, Guillaume. Guerre et Ethogenèse Mapuche dans le Chili Colonial. L’invention de Soi. Paris: L’Harmattan, 1998.

BORGES, Jorge Luis. El Sur. En: ______. Ficciones. Madrid: Alianza Editorial, 1999.

CAPELARI NAXARA, Márcia Regina. Desiertos de civilización: resignificando el Brasil. En: TREJO BARAJAS, Dení (Coord.). Los desiertos en la historia de América: una mirada multidisciplinaria. México: Universidad Michoacana de San Nicolás de Hidalgo, Universidad de Coahuila, 2011. p. 227-244.

CRAMAUSSEL, Chantal. Poblar la frontera: la provincia de Santa Bárbara en Nueva Vizcaya durante los siglos XVI y XVII. Zamora: El Colegio de Michoacán, 2006.

FRÜHAUF GARCÍA, Elisa. As diversas formas de ser índio: políticas indígenas e políticas indigenistas no extremo sul da América portuguesa. Rio de Janeiro: Arquivo Nacional, 2009.

GIUDICELLI, Christophe. ¿’Naciones’ de enemigos?. la identificación de los indios rebeldes en la Nueva Vizcaya (siglo XVII). En: BERNABÉU ALBERT, Salvador (Coord.). El Gran Norte Mexicano: indios, misioneros y pobladores entre el mito y la Historia. Madrid: Consejo Superior de Investigaciones Científicas, 2009. p. 27-66. Colección Universos Americanos, v. 3.

JONES, Kristine. Comparative raiding economies. En: GUY, Donna; SHERIDAN, Thomas E. (Ed.). Contested Ground: comparative frontiers on the northern and southern edges of the Spanish empire. Tucson: The University of Arizona Press, 1998. p. 97-114.

KOK, Glória. O Sertão Itinerante Expedições da Capitania de São Paulo no Século XVIII, São Paulo, Hucitec / FAPESP, 2004.

ORTELLI, Sara. ¿Apaches hostiles, apostatas rebeldes o súbditos infidentes? estado Borbónico y clasificaciones etnopolíticas en la Nueva Vizcaya de la segunda mitad del siglo XVIII. Anuario del IEHS, Tandil, v. 21, p. 79-94, 2007.

RADDING, Cynthia. Paisajes de poder e identidad: fronteras imperiales en el Desierto de Sonora y Bosques de La Amazonia. México: CIESAS, El Colegio de Sonora, Universidad Autónoma Metropolitana, 2008.

SANTAMARÍA, Daniel. Apóstatas y forajidos. Los sectores sociales no controlados en el Chaco. Siglo XVIII. En: TERUEL, Ana; JEREZ, Omar (Comp.). Pasado y presente de un mundo postergado: estudios de antropología, historia y arqueología del Chaco y Pedemonte Surandino. San Salvador: Universidad Nacional de Jujuy, 1998. p. 15-34.

WEBER, David. Borbones y Bárbaros. Centro y periferia en la reformulación de la política de España hacia los indígenas no sometidos. Anuario del IEHS, número 13, Tandil, 1998.

WILDE, Guillermo. Religión y poder en las misiones de Guaraníes. Buenos Aires: 2009.

Sara Ortelli – Consejo Nacional de Investigaciones Científicas y Técnicas / Universidad Nacional del Centro de la Provincia de Buenos Aires.

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Liberdades Negras nas Paragens do Sul | Gabriel Aladrén; Egressos do Cativeiro, c.1798 – c.1850) | Roberto Guedes; A Remissão do Cativeiro, c.1750 – c.1830 | Márcio de Sousa Soares

A historiografia brasileira já conta com um número substantivo de pesquisas sobre alforrias e a vida de africanos e afro-descendentes no período posterior à libertação. Em se tratando do primeiro tema, as investigações versam, em especial, sobre as modalidades de manumissão e o perfil de escravos alforriados. No que tange aos libertos, as pesquisas apresentam conclusões dicotômicas, ora associando-os à pobreza e marginalidade, ora à ascensão econômica. A primeira vertente teve início em 1942, com algumas considerações feitas por Caio Prado Júnior (Formação do Brasil Contemporâneo, 1942), como a relação estabelecida entre esse segmento da população e os grupos intermediários da sociedade colonial, ou seja, aqueles que não se inseriam nas categorias de senhores nem de escravos. Os estudos subsequentes como os de Laura de Mello e Souza (Desclassificados do Ouro, 1982) e Núbia Braga Ribeiro (Cotidiano e Liberdade, 1996) adotaram essa linha interpretativa ao considerarem esse segmento social como desclassificado, temido socialmente e sujeito a políticas de controle pela administração portuguesa. Outros trabalhos, porém, negligenciaram a associação à pobreza e marginalidade e deram lugar às investigações acerca da ascensão econômica desses grupos, como Sheila de Castro Faria (A Colônia em Movimento, 2004), Eduardo França Paiva (Escravos e Libertos nas Minas Gerais, 1996 e Escravidão e Universo Cultural na Colônia, 2001), Cláudia Cristina Mól (Mulheres forras, 2002), dentre outros.

Os três livros recentes de Roberto Guedes, Márcio de Sousa Soares e Gabriel Aladrén se destacam nesse campo por procurarem integrar o estudo das alforrias ao exame das trajetórias sociais dos egressos do cativeiro durante a vigência do regime escravista. As referidas publicações são fruto de trabalhos apresentados em programas de pós-graduação: os trabalhos de Guedes e Soares foram originalmente defendidos como teses de doutoramento na UFRJ, em 2005, e na UFF, em 2006; o livro de Aladrén resultou de uma dissertação de mestrado defendida na UFF, em 2008.

Guedes e Soares priorizam a análise das famílias de libertos e seus descendentes e sua atuação na dinâmica econômica local. O primeiro estudou Porto Feliz, em São Paulo, e, o segundo, Campos dos Goytacazes, no Rio de Janeiro. Já Aladrén se deteve nas trajetórias individuais e analisou os ex-escravos a partir dos acontecimentos políticos que inquietaram a região de Porto Alegre nas três primeiras décadas do século XIX.

Esses autores atribuem importante papel aos escravos em prol da liberdade e de melhoria das condições de vida após a sua efetivação. Embora fosse um acordo entre desiguais, a alforria consistia em uma doação feita pelo proprietário, mas, acima de tudo, aceita pelos escravos. Tratava-se, portanto, de uma troca que gerava novos vínculos entre os forros e seus antigos senhores, os quais se perpetuavam para o resto de suas vidas. Os ex-senhores esperavam dos escravos alforriados (gratuitamente ou sob condição) constante respeito e subordinação. Qualquer desvio ou rompimento dessas referências colocava em risco a legitimidade do novo status.

Várias discussões já propuseram que as manumissões estariam vinculadas à negação da ordem escravista, mas os três autores as analisam como parte de um sistema composto pela tríade tráfico, escravidão e liberdade. A alforria seria parte estrutural da escravidão, amortecendo conflitos inerentes à relação existente entre escravos e seus proprietários. Outro ponto marcante desses trabalhos consiste na idéia de que, após a conquista da liberdade, os libertos buscavam melhores condições de vida. Ainda que encontrassem limitações inerentes à condição social, estiveram atentos às oportunidades que lhes eram apresentadas e conseguiram trilhar caminhos diferenciados daqueles em que se encontrava grande parcela dessa população.

A ascensão econômica não indicou necessariamente ascensão social. Em especial, Roberto Guedes e Márcio de Sousa Soares mostram que a mobilidade social era geracional, ou seja, acontecia predominantemente para gerações que descendiam dos libertos. Os casamentos com pessoas livres contribuíram fortemente para isso. Também evidenciam que as categorias de cor encontradas em registros coloniais e do período imperial eram fundamentais para a inserção de pretos e pardos na hierarquia social vigente.

Os três livros contribuem de maneira decisiva para os estudos sobre a escravidão no Brasil. Além de levantar dados sobre as alforrias em regiões pouco exploradas pelos historiadores que os antecederam, como as áreas rurais e o sul do país, ainda avançaram na análise da vida dos escravos após a libertação. Os três pesquisadores utilizaram métodos qualitativos e seriais. Recorreram à micro- história e reuniram fontes diferenciadas que permitem conhecer múltiplas experiências dos homens e mulheres investigados. Os registros referentes à justiça colonial e imperial como os processos crime e as ações cíveis forneceram importantes recursos para tal perspectiva.

O trabalho de Roberto Guedes consiste na análise de quatro gerações de famílias de Porto Feliz, compostas por libertos e seus descendentes, entre os anos de 1798 e 1850. A partir de cruzamento onomástico, o autor acompanha a dinâmica econômica e social de seus membros, com o objetivo de compreender as principais estratégias de mobilidade social em âmbito familiar. Márcio Soares fez um estudo da escravidão, priorizando a região de Campos dos Goytacazes no período que compreende a segunda metade do século XVIII e as três primeiras décadas do século XIX. Seu foco, contudo, é a investigação das complexas relações entre senhores e escravos em uma região rural. Observou principalmente as estratégias sociais que favoreciam o acesso à liberdade e a inserção social de libertos e seus descendentes.

Gabriel Aladrén trata basicamente dos padrões de alforrias encontrados nas proximidades de Porto Alegre e das experiências dos egressos do cativeiro e seus descendentes entre os anos de 1800 e 1835, período de grandes conflitos militares como as Guerras Cisplatinas e a dos Farrapos. O autor acredita que esse conturbado momento contribuiu para o recrutamento de escravos e libertos para o exército, milícias e guerrilhas, favorecendo, por sua vez, a incidência de alforrias, inserção e mobilidade social dos mesmos.

Os estudos desses autores partem de uma abordagem que relaciona as forças econômicas e sociais. As três localidades sofreram mudanças significativas na economia. Em Porto Feliz, o crescimento da produção de alimentos e de açúcar na primeira metade do século XIX foi responsável por um considerável aumento do contingente populacional na região, acompanhado também pelo crescimento de escravos. O mercado de gêneros alimentícios passou a ser controlado por pequenos proprietários. Isso implicou uma população composta por pessoas de parcos recursos em meio a uma parcela reduzida de produtores que concentravam maiores posses. Campos dos Goytacases verificou grande expansão açucareira entre os anos de 1750 a 1830, voltada para a exportação. Esse processo foi acompanhado por uma concentração de propriedade de escravos, sem impedir, contudo, que pequenos e médios proprietários tivessem acesso à sua posse. Já a região de Porto Alegre era formada pela vila e algumas freguesias como a Aldeia dos Anjos e Viamão. Caracterizada por extensa área rural, suas fazendas, chácaras e campos conjugavam a produção agrícola e agropecuária para o abastecimento interno.

O ponto de partida dessas pesquisas foi o estudo das alforrias. Os autores buscam conhecer as principais características dessa prática a partir do levantamento de fontes como registros de batismos, testamentos, cartas de liberdade e livros de notas. Analisam os perfis dos senhores, dos escravos alforriados e o significado dessas libertações para ambos. As incidências foram significativas nas três localidades, seguindo os padrões anteriormente vigentes na América Portuguesa. Eram predominantes as concessões para as mulheres e escravos nascidos na colônia, favorecidos com libertações gratuitas, condicionais ou pagas por terceiros, em detrimento dos africanos que compravam a própria liberdade.

No final da década de 1970, Jacob Gorender (O Escravismo Colonial, 1978) afirmou que as manumissões foram associadas aos interesses senhoriais, e que um escravo estaria mais propenso a receber a liberdade em momentos de crise econômica. Contudo, Aladrén, Souza e Guedes adotaram outro viés para a compreensão das alforrias, valorizando o papel que tiveram no contexto do sistema escravista. Para esses autores, as concessões em testamentos e pias batismais foram compreendidas como um reforço do paternalismo inerente à escravidão. Essa atribuição cabia unicamente ao proprietário, e seu desdobramento era a produção de dependentes, pois era fruto de um arranjo entre desiguais. Obediência, respeito e gratidão deveriam pautar as relações entre o ex-senhor e o liberto para que o mesmo pudesse manter o novo status alcançado. Salvo algumas exceções, o empenho desses homens e mulheres era sempre em função de ganhos pessoais. Seus esforços visavam a conquista da própria liberdade ou de terceiros, sem nunca questionar a instituição da escravidão.

Roberto Guedes ainda destaca a função importante que os casamentos entre escravos desempenhavam no incentivo à liberdade. No primeiro momento, os senhores acabavam adquirindo status quando incentivavam as uniões entre seus cativos. Em Porto Feliz, as alforrias eram prerrogativas mais direcionadas às escravas, que passavam a ser agregadas, enquanto seus maridos permaneciam na condição de escravos. Essas uniões eram duradouras e somente rompidas pela morte de um dos cônjuges. Predominavam as uniões exogâmicas entre os próprios crioulos e entre os africanos.

Soares destaca que as liberdades concedidas em testamentos e pias batismais, de alguma forma, se associavam a razões morais e afetivas. Do intercurso sexual entre escravas e seus senhores acabavam nascendo crianças que recebiam alforria como forma dos pais se redimirem do erro de ter gerado um filho em cativeiro. Os altos índices de ilegitimidade entre as crianças batizadas levam a crer que as alforrias em pia batismal eram formas veladas de reconhecimento da paternidade. Já o momento da morte mostrou-se propício para que os senhores concedessem a liberdade a seus cativos, ou parte deles. Em ocasiões de doenças ou mesmo velhice, alguns fiéis buscavam a salvação da alma e a remissão de suas culpas.

Tendo em vista a incidência de concessões de manumissões onerosas, esses estudos abordam os artifícios empregados pelos libertos como forma de acumularem pecúlio e até mesmo ascenderem economicamente. A idéia de que a ascensão econômica não significou necessariamente mobilidade social é comum aos três trabalhos; o que os diferencia são as metodologias utilizadas para a análise desse aspecto.

A partir do levantamento de inventários post mortem, Gabriel Aladrén busca conhecer as ocupações dos libertos da região de Porto Alegre. Os indícios apontam para o envolvimento em atividades agrícolas e o acesso à terra. Utiliza processos crime como forma de viabilizar a reconstituição de algumas trajetórias de libertos que praticaram ou sofreram algum tipo de delito. A análise de dados pessoais e de depoimentos de pessoas próximas permitiu identificar eventos marcantes na vida de ex-escravos daquelas paragens. A inserção no meio social, o estabelecimento de redes de sociabilidade, o acesso a bens materiais e até mesmo o alcance de uma posição mais favorável são alguns deles.

O método utilizado por Roberto Guedes em seu estudo é peculiar. O autor acompanha gerações de cinco famílias de egressos do cativeiro da região de Porto Feliz e se reporta a diferentes momentos de suas vidas para mostrar que a combinação entre estabilidade familiar, trabalho e boas relações contribuíam para a ascensão econômica. Encerra seu livro afirmando que os escravos contraíam matrimônio, conseguiam a liberdade, herdavam bens, tornavam-se proprietários de escravos e contribuíam para que seus descendentes deixassem de carregar o estigma da escravidão a partir da percepção social da cor.

Soares chega às mesmas conclusões; porém, seu método se baseia na análise de casos específicos, sem acompanhar registros de uma mesma família, como o fez Guedes. Mostra que as possibilidades de obterem melhores condições de vida eram condicionadas a fatores como bons casamentos, relações com pessoas influentes da sociedade, mas também às ocupações de postos militares ou em irmandades. A presença de ao menos um desses aspectos era suficiente para diferenciar um liberto de outras pessoas com a mesma condição social. Ao analisar testamentos e inventários post-mortem, verifica que eles acumularam posses e acabaram se comprometendo com a escravidão ao se tornarem proprietários de escravos. As alforrias recebidas e acompanhadas de bens que os senhores, por vezes, os deixavam, contribuíram muito nesse sentido. Para esse autor, a mudança de status favoreceu a alteração da identificação da pessoa quanto à cor. Essa atribuição era dinâmica e variava conforme as diferentes gradações da hierarquia social.

A análise das hierarquias raciais vigentes nos períodos colonial e imperial é outro ponto abordado nesses trabalhos, porém mais explorado por Aladrén. O autor lembra que a escravidão no Brasil não foi pautada em bases raciais, embora a classificação da população, sobretudo no que se referia a escravos e seus descendentes, tivesse sido estruturada a partir das categorias estamentais vigentes no Antigo Regime português. Nesse sentido, concorda com Hebe Mattos (Escravidão e cidadania no Brasil monárquico, 2000) ao considerar que, na prática social, houve uma hierarquia relativa à raça nos tempos coloniais, que foi redefinida a partir da independência da América Portuguesa e da construção da nova nação.

Em se tratando da colônia, as designações dos escravos, libertos e seus descendentes eram determinadas pela classificação de cor e origem. Fatores como riqueza, posição social e comportamento também tinham peso. Tais critérios não eram rígidos; formas diferenciadas podiam ser atribuídas de acordo com a época, região e a pessoa que os empregava. Os autores observam que a alteração ou até mesmo o desaparecimento dos designativos de cor ocorriam quando se tratava de pessoas que provinham da terceira geração de descendentes de escravos e, principalmente, no caso de ex-escravos que contraíam matrimônio com livres. O trabalho supracitado de Hebe Mattos e também o de Sheila de Castro Faria (A colônia em movimento, 1998) evidenciam ainda que o termo pardo indicava miscigenação, embora não deixasse de eximir a marca da ascendência escrava. Já o termo “pardo livre” surgiu a partir do aumento da população de egressos do cativeiro e de seus descendentes, em fins do século XVIII e início do XIX, como uma necessidade de diferenciar aqueles que não passaram pela experiência do cativeiro.

Aladrén compara ainda os designativos conferidos aos escravos no momento em que iam receber a liberdade e as assinaturas encontradas depois de libertos. Assim, verifica que os mapas de população elucidam uma linguagem oficial, porém não tão distinta daquela utilizada nas práticas cotidianas da população. Com o processo de independência e de construção da nação brasileira nas primeiras décadas do século XIX, foram observadas “formas específicas de racialização”. As expressões utilizadas acabavam delimitando socialmente as fronteiras entre pessoas brancas, libertos e seus descendentes.

Para compreender as estratégias de inserção social dos pretos e pardos no período das Guerras Cisplatinas e da Independência do Brasil, Aladrén estudou o recrutamento das tropas regulares. No final do período colonial, a convocação seguia critérios raciais. As tropas classificadas como de primeira linha admitiam somente homens brancos ou de pele bem clara. Já as de segunda aceitavam brancos, pardos e também pretos. Segundo Aladrén, os conflitos ocorridos na região de Porto Alegre e, sobretudo, a conjuntura gerada com os movimentos de emancipação da América Portuguesa contribuíram de maneira decisiva para que a composição do exército tomasse novos formatos, passando a recrutar escravos, livres e também libertos. Os escravos e libertos se alistavam voluntariamente nos batalhões visando futuramente a alforria e a melhoria das condições de vida ou a mobilidade social. Parcela considerável daqueles que lutavam ao lado de seus senhores recebiam a liberdade.

O reconhecimento social dos direitos garantidos a libertos e seus descendentes pela legislação do Império do Brasil é outro tema que chama a atenção do autor. Para conhecer esse aspecto, ele analisa alguns conflitos cotidianos por meio de processos crime. Assim, avalia o posicionamento desses e das demais pessoas envolvidas em demandas judiciais. Conclui que os brancos daquela sociedade, nas primeiras décadas do século XIX, ainda operavam de acordo com os padrões hierárquicos do Antigo Regime. Alguns continuavam desqualificando negros com discursos racialistas, provando que, mesmo conquistando postos mais elevados, acabavam sendo vistos com desconfiança.

O principal aspecto que diferencia o trabalho de Aladrén dos demais autores resenhados é o peso que ele confere às mudanças políticas como determinantes na inserção social dos libertos e seus descendentes. De maneira geral, os três livros trazem avanços notáveis para o campo de estudos sobre os ex- escravos e seus descendentes. No primeiro momento, analisam as alforrias locais sem perder de vista as características estruturais que engendravam essa prática. As modalidades, o perfil dos escravos libertados, as possibilidades de anulação de status alcançado, são fatores que ajudam a visualizar a complexidade da escravidão na América Portuguesa e no Brasil Independente. Não há como apreender esse complexo sistema sem passar pelas alforrias, pois elas são parte constitutiva do mesmo. Em um segundo passo, buscam compreender a inserção social dos egressos do cativeiro. Enquanto Guedes e Soares se baseiam no estudo de casos de famílias de libertos e suas estratégias de mobilidade social em um contexto de expansão econômica, Aladrén se detém nas trajetórias individuais em um período compreendido por profundas mudanças políticas.

A passagem da escravidão para a liberdade acarretou mudanças significativas. A aquisição de capacidade civil foi a principal delas, pois permitiu o direito à constituição de família, à mobilidade, à herança e à propriedade. Por maior que fosse a autonomia de um escravo, suas prerrogativas não se equiparavam às de um liberto. Em um momento de intensas transformações políticas como as da virada do século XVIII para o XIX e, especificamente, no contexto de independência da América Portuguesa, ocorreram mudanças significativas para a população liberta. Soares e Guedes não exploram esse contexto político; Aladrén, por sua vez, enfrenta a questão, mas valoriza basicamente a inserção social incentivada pela necessidade de novos recrutamentos para as forças militares em conflito. Em função disso, restringe-se à análise do gênero masculino, mesmo tendo em vista que as mulheres eram as mais alforriadas no período por ele abordado.

O exame da inserção de libertos e seus descendentes na América Portuguesa e no Brasil Independente é o principal fio condutor desses trabalhos. Os três autores conduzem suas pesquisas na contramão de parte da historiografia, anteriormente mencionada, que tende a considerar os ex-escravos como uma subcategoria social. Ao contrário, Guedes, Soares e Aladrén empregam métodos peculiares e revelam as diferentes estratégias por eles adotadas em função de galgarem melhores condições de vida. Mais do que discutir os caminhos para a manumissão e o perfil dos manumissos, esses historiadores mostram que homens e mulheres forras souberam alongar o horizonte da liberdade, fosse por meio da constituição de família, da inserção em irmandades e ou ordens militares.

Os referidos estudos ainda somam- se à historiografia e tornam evidente que as esferas públicas foram palco das mais variadas reivindicações iniciadas por egressos do cativeiro na passagem do século XVIII e XIX. O acesso à justiça, sobretudo no período colonial, pode indicar que ela funcionou como um importante instrumento de garantia do que hoje entendemos por direitos civis para os ex- escravos. É possível que os litígios tivessem uma conotação de luta pela afirmação das conquistas dos ex- escravos após a obtenção da liberdade. A investigação das práticas cotidianas nos contextos de inserção política nos momentos que antecederam a Constituição de 1824, enfim, ainda não foi explorada.

Renata Romualdo Diório – Doutoranda em História pela Universidade de São Paulo (FFLCH/ USP – São Paulo/Brasil). E-mail: diorio@usp.br


ALADRÉN, Gabriel. Liberdades Negras nas Paragens do Sul: alforria e inserção social dos libertos em Porto Alegre. Rio de Janeiro: Editora FGV, 2009. GUEDES, Roberto. Egressos do Cativeiro: trabalho, família e mobilidade social (Porto Feliz, São Paulo, c.1798 – c.1850). Rio de Janeiro: Mauad X/FAPERJ, 2008. SOARES, Márcio de Sousa. A Remissão do Cativeiro: a dádiva da alforria e o governo dos escravos nos Campos dos Goitacases, c.1750 – c.1830. Rio de Janeiro: Apicuri, 2009. Resenha de: DIÓRIO, Renata Romualdo. Alforria e mobilidade social nos séculos XVIII e XIX: os casos de Porto Feliz, Campos dos Goitacases e Porto Alegre. Almanack, Guarulhos, n. 1, p.155-161, jan./jun., 2011.

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Historia y Memoria | UPTC | 2011

Historia y Memoria

La Historia se refiere al diálogo permanente entre pasado y presente, cambio y permanencia, duración y acontecimiento, lo lineal y lo cíclico, lo diacrónico y lo sincrónico, al pensamiento que da cuenta de la sociedad en el tiempo. Por su parte, la memoria es uno de los campos que configuran nuestro pasado próximo en el que convergen prácticas, representaciones sociales, imaginarios colectivos y las formas como la población se identifica en un contexto.

Historia Y MEMORIA (Tunja, 2011-) se propone publicar artículos inéditos de resultados de investigaciones en cualquier campo de la historia los cuales estarán distribuidos en la sección especial y la sección zona libre, igualmente en la sección reseñas y debates se publicarían reseñas, debates, entrevistas y otro tipo de materiales que generen discusiones académicas.

Desde la creación, la revista planteó 3 sesiones: ‘sesión especial’ o temática dedicado a una temática convocada por el comité editorial que se considera central en la investigación histórica, ‘sesión zona libre’ en que se publican artículos resultados de investigación histórica que no necesariamente están en concordancia con la temática central, pero que son  resultado de investigaciones históricas. La sesión reseñas y debates está dedicada a la publicación de textos resultados de conversatorios, mesas de trabajo y otros que son de interés de la comunidad académica; las reseñas dan cuenta de publicaciones historiográficas recientes. Adicionalmente, en la revista se planteó la presentación de la revista o editorial, que se mantuvo con la denominación de “presentación” hasta el número 15, y, a partir del número 16 se le denomina “editorial”.

Periodicidade semestral.

Acesso aberto.

ISSN 2322-777X

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Visões da Monarquia. Escravos, operários e Abolicionismo na Corte | Ronaldo Pereira de Jesus

Os estudos sobre a sociedade imperial do Brasil baseados em critérios de estratificação social de classe, desde sempre, é fato, ressoavam as concepções de mundo das classes dirigentes ou “dominantes”, ou “superiores”. Tal se dava seja porque se enaltecia, num primeiro momento, a “obra virtuosa” de edificação da Nação-Estado monárquica levado a cabo por sua diligente elite política; seja, depois, devido à análise crítica do papel dessas mesmas elites imperiais e sua obra: 1) a edificação do aparato jurídico do Estado pelos homens de letra e lei imperiais, consubstanciada em seus diplomas magnos que são a Constituição de 1824, o Código Criminal de 1830, o do Processo Criminal de 1832 e o Código Comercial de 1850; 2) a construção de uma identidade nacional, costurada em ponto-cruz pelos artistas, com grande peso dos escritores, sob a luz romântica do século (aqui, de nosso romantismo indianista); e, 3) a direção política da máquina governamental, em particular durante o segundo reinado, sob a tutela da indefectível mão paternal do summa potestas imperial.

Pelo menos desde os anos 1980, porém, sob influência da recepção das diversas matrizes do que se batizou de history from Below ou history from the bottom up, em particular da história social britânica de E. P. Thompson e Eric Hobsbawm mas igualmente de outras vertentes da história cultural que têm as camadas populares como sujeitos privilegiados de análise, como a micro- história italiana, os historiadores brasileiros procuraram expandir os horizontes das concepções ou visões de mundo constitutivas dessa heterogênea sociedade brasileira do século XIX, um mosaico complexo e que se torna complexo devido à sobreposição de critérios de identidade dos indivíduos, que misturam elementos de caráter jurídico (escravos, forros, livres), de caráter político (baseada em padrões censitários como cidadãos ativos, não-ativos e não-cidadãos), de estratificação social de classe (escravos, senhores, trabalhadores livres), de estratificação social de ordem (religiosos, militares aristocratas, trabalhadores), e, como ainda acontece no Brasil errante de hoje, critérios de identidade étnica (pretos, brancos, índios, pardos (?)). Em verdade, essa historiografia renovadora que surgiu nos anos 1980 foi mais bem sucedida quando identificou seus sujeitos (não ousaria dizer aqui “objetos”) de estudo a partir de critérios de estratificação de classe, nomeadamente os escravos no século XIX. Nomes justamente conspícuos, modelares de nossa historiografia, como Kátia Mattoso, João José Reis, Eduardo Silva, Silvia Hunold Lara, Luiz Geraldo Silva, Manolo Florentino e tantos outros aqui deram e dão enorme contribuição. Porém, a rigor, não me vem à mente estudo bem sucedido quando aqueles critérios se diluem, trabalho que resta por fazer.

O livro de Ronaldo Pereira de Jesus soma-se a esse esforço coletivo de nossa historiografia no sentido do resgate dos modos de ver a instituição monárquica e a figura do imperador de uma perspectiva from below, do ponto de vistas das camadas populares. Este talvez seja um dos grandes desafios que não apenas Ronaldo Pereira, mas todos os pesquisadores que compartilham desta perspectiva enfrentam, ou seja, a definição criteriosa do que se encontra below: entre vários, o autor opera com termos como “população pobre”, “classes populares”, “camadas populares”, “gente comum”, “povo”, “setores subalternos” (no prefácio ao livro, Sidney Chalhoub fala da “gente miúda”). A composição desse segmento só pode ser abrangente, para conter “o setor mais diretamente ligado ao cativeiro, composto por escravos e libertos, negros e mulatos” (p.10). A estes se somam os “homens livres pobres (miseráveis, mendigos, ‘vadios’ ou ‘desclassificados’)”. Devem compor a “gente comum”, ainda, pequenos comerciantes, artesãos, “executores de ofícios indignos”, militares de baixa patente, funcionários públicos de baixo escalão e operários. Por certo que há subjacente um desafio metodológico. As “elites”, por mais ambíguo que seja este conceito mesmo, deixaram registros de sua experiência. O investigador pode mesmo nomear os membros das elites (sejam estas elites políticas, intelectuais, econômicas ou qualquer outro recorte); pode agrupá-los, pode resgatar sua rede de relações. Há tanto documentação como metodologia para isso (prosopografia, por exemplo). Trata-se daquela famosa metáfora brechteana: sabemos quase tudo do faraó de tal pirâmide, mas muito pouco dos escravos que a levantaram. De modo que as visões de mundo dessas classes subalternas chegam-nos muita vez enviesadas, por terem sido registradas pelos vencedores e produtores da memória oficial.

Porém subjazem aí, também, duas questões de ordem teórica: primeiramente, no que tange ao caráter generosamente inclusivo desse conceito de “pessoas comuns”. Compartilhariam todos aqueles segmentos das mesmas visões da monarquia? Em segundo lugar, não obstante o autor expressar sua opção pela análise da diferenciação social de classes e da dinâmica da relação entre elas, ao evocar a brilhante análise da “dialética da malandragem” de Antonio Candido sobre os três mundos (do trabalho, da ordem e da desordem) que justamente ordenavam o universo social das Memórias de um sargento de milícias, o autor ancora sua análise numa estrutura teórica que concebe a sociedade escravista monárquica em sua divisão em ordens e não em classes. O que, a meu ver, é efetivamente mais profícua para seus propósitos e lhe oferece bons frutos, ainda que persista a tensão conceitual.

Muito sagaz e bem realizada é a forma como Ronaldo Pereira de Jesus estruturou sua pesquisa e construiu sua narrativa. Depois de uma exaustiva recensão bibliográfica, as visões da monarquia, do monarca e do governo imperial (que muitas vezes se confundem), foram criteriosamente pesquisadas em diversos e complementares fundos documentais. Dentro do sistema paternalista em que se erigia a monarquia brasileira, os súditos recorriam à coroa para todo tipo de benefício pessoal. Num universo imenso de súplicas dirigidas ao monarca para obtenção de todo tipo de graça (prática comum desde o reinado de D. João e mesmo antes, na história da monarquia portuguesa), o autor coligiu as súplicas dirigidas ao monarca pelas pessoas comuns, lavradas cunho próprio ou por terceiros. Em seguida, procurou depurar aquelas visões da monarquia inscritas nas homenagens dirigidas à Coroa por inúmeras corporações de ofício e associações profissionais, de classe ou beneficentes (de auxílio mútuo, por categorias sócioeconômicas). Aqui, o autor sugere a existência do movimento de um proto-operariado organizado e portador de uma consciência de classe que, sábia de seus direitos, pugnava por estes direitos junto ao Estado (por isso, com Fausto, denomina-o “estatista”), desenvolvendo “práticas de contestação aliadas a uma discursividade radical ao longo da segunda metade do século XIX” (p.96).

As visões da monarquia são perscrutadas, em seguida, em três movimentos importantes do Segundo Reinado, como são a Revolta do Vintém, o Abolicionismo e os impactos da Abolição da escravidão propriamente dita sobre as visões da gente comum sobre a realeza. Um dos capítulos mais saborosos do livro, a narrativa sobre a Revolta do Vintém permite ao autor perceber uma alteração de percepção da monarquia, de protetora e paternal para sua crítica contumaz, que chega à mobilização coletiva e violenta, ao gosto dos riots estudados por Rudé e Hobsbawm. Para o autor, a Revolta do Vintém ensejou mesmo a “alteração radical e momentânea das atitudes e expectativas diante do regime político e do imperador”, mais do que “uma mudança significativa e duradoura no imaginário popular e nas representações das pessoas comuns acerca da Monarquia. A recuperação da participação popular (singela!) no movimento abolicionista, levada a cabo nas conferências realizadas na Corte nos momentos decisivos da campanha (1885-1887), nos festivais abolicionistas e na mobilização efetivamente popular consiste numa das grandes contribuições de toda a obra. Embora constatando que o Abolicionismo, como movimento formador de opinião pública, foi definitivamente um movimento de elite, o autor conclui “supondo que a profusão de imagens negativas do imperador e do regime monárquico abalou consideravelmente as percepções positivas do imperador e da monarquia entre as pessoas comuns da corte” (p.163). Porém, independentemente dessa gradação valorativa e essa é a tese recorrente do livro, para além dela subsistiria entre a gente comum da corte “o pragmatismo, a indiferença e o afastamento de sempre”. Ou seja, as pessoas comuns pouco se deixavam “contaminar” pelas visões positivas da monarquia e do monarca, como “pai dos pobres”, benevolente e justo estas sim imagens difundidas pelas camadas dominantes. Assim também, pouco alteraria o quadro a “outorga” da libertação dos escravos pela Princesa Izabel, já que todas as festas da abolição foram manifestações públicas das classes escravistas e de setores médios urbanos, expressões de “alívio e entusiasmo por não mais habitar um país escravista” (p.173). O povo, a gente comum, não foi senão espectador nessa festa. Espectador bilontra, mas espectador.

Afora pouquíssimos ruídos de edição, o texto de Ronaldo Pereira de Jesus é muito bem cuidado, bem escrito, prazeroso. Seu livro expressa mais uma contribuição séria e bem executada deste importante setor da historiografia brasileira que se dedica a escrever a história daqueles sujeitos que foram insistentemente esquecidos por ela.

Jurandir Malerba – Professor no Departamento de História da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (FFCH/PUC-RS – Porto Alegre/Brasil). E-mail: jurandir.malerba@pucrs.br


JESUS, Ronaldo Pereira de. Visões da Monarquia. Escravos, operários e Abolicionismo na Corte. Belo Horizonte: Argvmentvm, 2009. Resenha de: MALERBA, Jurandir. Vossa Alteza, vista cá debaixo. Almanack, Guarulhos, n. 1, p.162-164, jan./jun., 2011.

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Monarquía y República en la España Contemporánea | Ángeles Lario

Monarquía y República en la España contemporánea, publicação coordenada por Ángeles Lario, é o resultado de um seminário realizado em 2006 na Universidad Nacional de Educación a Distancia (Madrid), e reúne artigos de historiadores dedicados ao estudo da história do pensamento político e dos conceitos. A maior parte dos artigos são baseados em pesquisas anteriores dos autores e refletem, com freqüência, o tema trabalhado em livros próprios.

A introdução, feita por Lario, define o objetivo maior do livro:

La compreensión de las culturas y de los modelos políticos surgidos a lo largo de nuestra historia contemporánea, de los conceptos que los acompañaron, sus usos y significados, es el instrumento básico que todo ciudadano debería poder manejar actualmente, al menos se está interesado en analizar la viabilidad de nuestro modelo político actual y el sentido que pudiera tener la defensa de modelos alternativos (p.13).

Está explicitado desde o início que o livro é um estudo de história política, e mais especificamente, de sistemas políticos. Além disso, é dada a priori uma unidade histórica para a política da Espanha contemporânea: uma das mais turbulentas do mundo e que inclui monarquias de todos os tipos, repúblicas, anarquismo, ditadura, entre outras tentativas para a organização interna.

A obra também é uma confirmação do vigor que vem ganhando a nova história política desde os anos setenta. Uma história que busca abarcar conteúdos novos, com novos métodos e novas fontes, transformando-se, portanto, em uma teoria completamente diferente daquela do século XIX e começo do XX. Ela retoma a biografia e a luta pelo poder, os sistemas políticos e os intelectuais, mas também se volta a questões novas, como as culturas políticas, os imaginários, a “baixa política”, a identidade, entre outros objetos. Esta heterogeneidade está presente no livro, pois os autores são livres na escolha de temas e fontes, resultando numa agradável mistura dentro dessa abordagem política.

Monarquía y República en la España Contemporánea é dividido em seis partes: a primeira é uma apresentação geral e as outras cinco se sucedem em ordem cronológica. A primeira parte tem o objetivo de guiar a leitura dos capítulos posteriores, tratando, de forma sintética, o período ao qual os outros dedicam análises mais específicas.

Ángeles Lario, professora na UNED, esclarece no capítulo introdutório que a organização do livro busca uma articulação entre os artigos com base nas propostas da história dos conceitos de matriz koselleckiana (a autora, inclusive, integra um grupo de pesquisas com esse objetivo e que é coordenado por Javier Sebastián). Com base nessa filiação teórica, ela organizou o livro com o objetivo de definir os conceitos de monarquia e república, entendidos como antagônicos na Espanha contemporânea, e, além disso, trabalhar a formação do liberalismo como conceito chave para compreender a modernidade e, em especial, o século XIX.

Amparada nas proposições que embasam a história dos conceitos, Lario busca trabalhar a tensão entre o lingüístico e o extra- lingüístico, e esta preocupação acompanha toda a estrutura do livro. Assim, os conceitos analisados não são entendidos apenas como palavras que apreendem a realidade social e política mas, acompanhando a abordagem proposta por Koselleck, são vistos também como “seu fator”, pois nas palavras deste último autor “um conceito abre determinados horizontes, ao mesmo tempo em que atua como limitador das experiências possíveis e das teorias” (Koselleck, Futuro Passado, p.109, 2006). No interior dessa abordagem, destaca-se a idéia de que fazer história dos conceitos é tomá-los não apenas como determinados pela realidade, mas também como fator determinante.

Esse desafio sofre uma quebra, porém, já no capítulo subseqüente ao da organizadora. A autora inicia a obra procurando precisar o conceito de monarquia e cria a expectativa de que o mesmo seja feito para a república. No entanto, o artigo dedicado ao tema e escrito por Demetrio Castro, nos leva a concluir sobre a impossibilidade de fazer história do conceito de república durante o século XIX, pois, o radicalismo das classes populares teria inviabilizado a elaboração conceitual acerca dessa proposta política (Castro, p.66). Posto em comparação com o artigo sobre monarquia, o texto nos leva a pensar em uma defasagem na elaboração dos dois conceitos e em uma possível inferioridade das propostas republicanas na história da Espanha.

Seguindo esta parte introdutória, o livro se dirige ao momento de fundação da Espanha contemporânea: a revolução de 1808, a volta do rei Fernando VII em 1814 e a formação do chamado triênio liberal (1820- 1823). Os capítulos posteriores enfatizam que as Cortes de Cádiz (primeira constituinte espanhola reunida entre 1810 e 1814) estabeleceram os primeiros paradigmas constitucionais do governo espanhol e, por isso, são parte central na formação da realidade contemporânea. No entanto, não há no livro um artigo específico dedicado à Cádiz, e, talvez, o leitor necessite dessas informações.

Essa segunda parte é composta por apenas dois capítulos: um dedicado à França e outro ao México e, assim, não se refere diretamente à revolução liberal espanhola. Mas essas análises servem de patamar às duas partes subseqüentes, quando o livro fica mais harmônico e próximo do intuito enunciado na introdução. Nessas unidades, os capítulos sobre o liberalismo pós-revolucionário são pensados como complementares e conseguem aperfeiçoar o debate conceitual sobre monarquia e república durante o período. Os autores demonstram que a política espanhola da época, como em diversos lugares do mundo, estava dividida entre dois partidos – o progressista e o moderado – , cabendo o poder para o mais conservador deles.

Dois capítulos são dedicados a esses grupos políticos e apontam mais semelhanças do que diferenças entre eles porque “el punto de partida debería considerar que la monarquía constitucional no fue una concesión que los Progresistas hicieron a los moderados en aras del triunfo sobre el carlismo. El elemento monárquico formaba parte de su núcleo doctrinal” (Mateo, p.111). Ou seja, o rei não era o ponto de discórdia entre esses dois liberalismos, pois ambos estavam do lado da ordem. A defesa do princípio da soberania nacional feita pelo partido progressista aparecia como ponto de embate frente aos moderados, chocando-se com a defesa da soberania real.

Os artigos do livro sobre republicanismo insistem na falta de um projeto intelectual que acompanhe esse movimento, de forma que “la república, por su parte, se defendió más alrededor de dichos rasgos del Gobierno monárquico que a partir de sus cualidades intrínsecas como sistema político” (Peyrou, p.163). Os textos fazem ver um descompasso entre republicanos e monarquistas, em especial os conservadores, pois estes teriam um eficaz programa de governo.

No entanto, o artigo de Román Míguel Gonzáles aparece como contraponto a essa idéia, pois, ao analisar a breve experiência republicana de 1873, o autor identifica não apenas um projeto republicano, mas o embate entre vários:

Lo que ocurrió en 1873 no fue el fracaso de la primera experiencia republicana española debido a la carencia de proyecto claro por parte de un agente histórico republicano único, sino que la República Federal Española fue el marco de una lucha abíerta por la hegemonía en el proceso de construcción del Nuevo Régimen español (Gonzáles, p.248).

A harmonia conquistada nessas duas partes do livro começa a ruir, porém, quando a obra adentra o que denomina por sociedade de massas durante o final do século XIX e início do XX. Entretanto, podemos atribuir essa quebra a uma complexidade política maior do momento, a qual não foi possível apreender na mesma quantidade de páginas e capítulos das partes anteriores, forçando os autores a escolher objetos mais reduzidos de análise. Ao discutir o período isabelino (1833-1868) foi possível condensar as idéias sobre os conceitos de monarquia e república em três capítulos, divididos conforme as forças políticas correspondentes: progressistas, moderados e republicanos. No entanto, o desafio conceitual proposto pela organizadora se torna uma tarefa dificílima, porque os autores tratam de uma gama maior de opções políticas inscritas na realidade social e política posterior e concomitante à primeira república de 1873.

Os capítulos desta parte são completamente autônomos, dificultando o estabelecimento de um diálogo entre seus autores. Os temas trabalhados são exemplares da dificuldade em abordar a chamada sociedade de massas, pois tratam de dois partidos políticos que antes não existiam (o krausista e o socialista) e agregam a biografia de um rei, em uma abordagem que se distancia muito da proposta inicial baseada na história dos conceitos.

Os textos destacam a existência de krausistas e socialistas expressando uma nova relação com as idéias sobre monarquia e república, pois ambos não norteiam suas políticas para o estabelecimento dessas formas de governo e, de certa forma, utilizam as duas como instrumentos. Para os primeiros, o importante era estabelecer um estado de direito pleno, governado pela lei, e isto poderia ocorrer na monarquia ou na república. Para os socialistas espanhóis, que de início eram contra qualquer sistema político burguês, não havia necessidade de optar entre monarquia e república. Apenas com o decorrer dos fatos e com a perseguição infligida pela monarquia, esses socialistas foram forçados a uma remodelação teórica que acompanhava um movimento internacional. Passaram a apoiar a república, entendida agora como uma “superación de la monarquía” (Angosto, p.305), rumo ao fim último da humanidade, ou seja, o comunismo.

A obra nos mostra então que a sociedade espanhola de fins do século XIX “permitia” esses novos assuntos políticos, mas ainda era governada por um rei atuante. Javier Luzón demonstra que se tratava de um rei diferente – ativo e que buscava se identificar com a nação – , todavia sua conclusão, assim como outras antes no livro, faz-nos ver que a ditadura foi a etapa final da monarquia (Angosto, p.308), pois as idéias proclamadas pelo franquismo, para este autor, teriam sido gestadas durante o reinado de Alfonso XIII: “progreso económico y orden social en una España monárquica, católica, custodiada por el ejército, unida en su diversidad regional, reconocible en unas cuantas señas de identidad y con una notable presencia exterior” (Luzón, p.293).

Todos os assuntos convergem para a compreensão da segunda república (1931-1939) mas há apenas um artigo sobre esse período, o qual trata de Azaña, um dos principais líderes republicanos. O texto acaba por reforçar a figura de grande homem da época, por força da exclusividade do capítulo dentro do tema e por situar esse líder como defensor da democracia acima de tudo: “Parlamento, sufragio universal y prensa libre” (Egido, p.323).

O salto é feito, então, da segunda república para a transição da ditadura e, assim, o livro não aborda o franquismo (1939-1975). Essa é uma escolha questionável, mas talvez expresse a dificuldade em estudar uma época negra e tão recente na história espanhola e, dessa forma, o assunto é apenas tangenciado em capítulos isolados. Entretanto, o mais notável da última parte do livro é que os dois capítulos de história mais recente usam a imprensa como fonte documental primordial.

Assim, o livro reencontra o compromisso com a nova história política e apresenta um estudo sobre a imprensa, pensada não como reflexo da verdade ou como manifestação ideológica da classe dominante, mas como expressão de agentes políticos e diferentes apreensões da realidade.

O leitor de Monarquía y República deve se perguntar ao final do livro: qual projeto político venceu? O que é a Espanha contemporânea? Temos elementos para algumas conclusões. Em primeiro lugar, sabemos que o ditador Franco teve papel primordial na formação do novo regime, pois indicou seu sucessor – o rei Juan Carlos. Entretanto, constatamos também que o modelo político espanhol atual, a monarquia democrática, é diferente daquele implementado pelo regime ditatorial.

Os dois artigos que se dedicam à imprensa na transição do regime franquista confluem para uma conclusão similar: “Su papel [de la prensa] en la construcción de una imagen positiva del Rey y de una actitud social favorable hacia la monarquía es inegable” (Soro, p.346). Todavia, o capítulo de Javier Soro se diferencia por uma alusão clara ao presente e um posicionamento político definido. Talvez a questão colocada pelo autor esteja presente em todo o livro, implícita na maioria dos casos, e como posicionamentos políticos diferentes que incidem sobre o modo de escrita e o objeto historiográfico estudado.

De la transición española como modelo exportable y exitoso hemos pasado a revisar sus resultados en cuanto a la calidad de la democracia y sus silencios sobre lo que solemos llamar “memoria histórica”, mientras renace los círculos republicanos y en las manifestaciones surgen las banderas republicanas que se creía ya guardadas en los desvanes.

El recuerdo de la Segunda República supone no sólo una reivindicación histórica, ética y de justicia, sino que adquiere una intención política para el presente (Javier Soro, p.333. Grifos meus).

A organizadora, Ángeles Lario, também expõe uma posição na conclusão, conforme já havia anunciado em sua introdução. Nem monarquia e nem república, a luta política deve ser pela democracia: “Asi es que, cuando se dice que esta democracia es heredera de la republicana, tiene todo el sentido de poner en paralelo lo fundamental de ambos modelos, el fondo democrático, que es lo que nos debe preocupar para mejorarlo en su funcionamiento” (Lario, p.380).

Monarquía y República en la España contemporánea é uma leitura importante para aqueles interessados em história política, não só espanhola, pois é um importante demonstrativo das diversas tendências existentes no bojo dessa proposta historiográfica e retoma temas que remetem aos estudos constitucionais e outros aspectos de cunho cultural. Acredito que este é um grande mérito do livro, podendo ser compreendido por qualquer interessado, pois os autores se preocupam com uma certa “educação política”, patente na introdução.

Entretanto, o leitor deve ter consciência de que o desafio conceitual proposto não é esgotado e apresenta diversas lacunas. Os conceitos monarquia, república, liberalismo, constituição, entre outros, recebem relevantes abordagens iniciais, porém precisam ser mais trabalhados para adquirir a precisão desejada.

Lucas Soares – Graduando do curso de História da Universidade de São Paulo (FFLCH/USP – São Paulo/ Brasil) e bolsista da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas desta Universidade em projeto sobre a imprensa espanhola e as emancipações da América. E-mail: lderman@uol.com.br


LARIO, Ángeles. Monarquía y República en la España Contemporánea. Madrid: UNED, 2007. Resenha de: SOARES, Lucas. Monarquía y República en la España Contemporánea: Um esboço de história dos conceitos. Almanack, Guarulhos, n. 1, p. 165-169, jan./jun., 2011.

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La nación y su historia. Independencias, relato historiográfico y debates sobre la nación: América Latina, siglo XIX | Guillermo Palacios

Nessa coletânea de artigos, coordenados pelo historiador Guillermo Palacios, os autores lançam um novo olhar sobre a história da historiografia oitocentista na América Latina e a sua emergência no contexto da formação dos Estados e da construção das nações e das identidades nacionais.

A obra, a partir de uma perspectiva comparada das diversas situações historiográficas ibero-americanas, se propõe também a dar lugar a futuras indagações e pesquisas sobre o tema, e ser útil tanto a investigadores como a estudantes universitários. Neste sentido, este trabalho vem se juntar a uma série de outros estudos publicados na última década, sobre a formação de Estados e nações na América Latina. Cabe chamar a atenção para o fato de que os autores preferem usar, em seus artigos, a expressão “relato historiográfico” e não história (muito embora este termo seja utilizado em um sentido lato em diversas ocasiões no decorrer da obra), com o intuito de “diferenciar lo que parece ser un momento pre-moderno de la práctica de narrar el pasado, y su profesionalización, ya em los últimos años del siglo o en los primeros del XX” (p.09).

O livro faz alusão, em seu subtítulo, às independências ibero-americanas, pois, segundo Palacios, elas se constituem em marco histórico nas visões que as elites regionais, produtoras dos relatos históricos, projetam sobre o passado com vistas ao futuro, “mas em uma operação que busca cimentar o poder no presente” (p.12). Portanto, as guerras de independência e os processos imediatos que as seguem são o ponto de partida das “histórias nacionais” na América Latina. A relação da “história nacional” (oficial) será matéria, em muitas ocasiões, de disputa entre liberais e conservadores, em sua luta pelo poder político nos recém estados instaurados ou em torno dos projetos diferenciados de Estado e Nação. Neste sentido, a partir da produção de relatos historiográficos que se pretendem nacionais, se trata de fixar o passado, de uma vez por todas no imaginário coletivo, sempre de acordo com as representações, aspirações e interesses das elites. Por isso, a questão da “verdade” histórica é um elemento central, o fio condutor, em muitos dos relatos analisados pelos autores da coletânea. Contudo, não só a questão da “verdade”, mas também o “esquecimento” histórico é objeto de análise dos diversos autores, no que se refere à (re) elaboração de histórias nacionais.

La nación y su historia se divide em nove capítulos e, grande parte dos autores, focaliza uma ou várias obras capitais da historiografia do século XIX dos diversos países da América Latina, visando analisar os sentidos que estas obras outorgam às sociedades pós-coloniais.

Elias José Palti, em La nación argentina: entre el ser y el acontecimiento, se ocupa da obra Historia de Belgrano y la independência argentina, de Bartolomé Mitre. Visando analisar a construção de narrativas genealógicas sobre a nação, fundamenta seus argumentos em autores como Ernest Renan, José Chiaramonte e Benedict Anderson. O artigo de Palti acaba por revelar o caráter controvertido que assumiu o processo de afirmação de um estado centralizado, edificado na Argentina, na segunda metade do século XIX, e vê como problemática a concepção de uma ideia de nacionalidade anterior à formação dos estados na América Latina. Sobre a historiografía colombiana, Juan Carlos Vélez Rendón sugere, em seu ensaio Las luchas narrativas de una nación escindida, uma reflexão sobre a obra pioneira de José Manuel Restrepo, Historia de la revolución de la República de Colombia en la América Meridional, editada em Paris, em 1827, considerada o marco explicativo da revolução de independência. Em um segundo momento do ensaio, Rendón analisa as releituras realizadas sobre a obra capital de Restrepo, elaboradas por historiadores como José María Samper, Joaquim Posada Gutiérrez e José Manuel Groot, no decorrer do século XIX.

Cada uma das (re)interpretações e (re)significações da Historia de la revolución de la República de Colombia por parte de Samper, Posada e Groot, se inscreve em meio a um processo político contencioso, de cisão política que atravessava a sociedade colombiana em meados do século XIX, e que, portanto, incidiu sobre as releituras desses historiadores. Neste sentido, Rendón centra-se em alguns temas, que foram objeto de reinterpretações e polêmicas historiográficas na época, e que descortinam, no plano historiográfico, as lutas entre as elites (liberais e conservadoras) acerca da forma pela qual se devia edificar e organizar o Estado, e quais deveriam ser considerados os elementos constitutivos da futura nação colombiana.

Por sua vez, Guillermo Zermeño Padilla, em Apropiación del pasado, escritura de la historia y la construcción de la nación en México, parte dos seguintes questionamentos: em que sentido e até onde um evento jurídicopolítico, a declaração de independência do México em 1821, pode afetar a forma de escrever a história? Como a história se torna um fato natural, essencial, que passa a fazer parte da linguagem de uma coletividade com a tomada do poder por uma elite ou grupo? Como os “novos mexicanos” se apropriaram do passado e converteram, de forma anacrônica, os cronistas espanhóis do período colonial em “historiadores mexicanos”? Para responder a tais perguntas, Padilla se vale da análise dos escritos históricos do jesuíta Francisco Javier Clavijero e das obras de historiadores como Lucas Alamán, José Justo Gómez de la Cortina, Carlos Bustamante, Garcia Icazbalceta, Vicente Riva Palacio e Justo Serra, buscando compreender os vínculos entre a formação do discurso histórico nacional e a formação política da nação no México.

No caso peruano, Mark Thurner, professor da Universidade da Flórida, no capítulo intitulado La invención de la historia nacional en el Perú decimonónico, a partir de uma perspectiva iconográfica, discorre sobre a historiografia e suas relações com a história nacional. Embasado em teóricos como Hayden White e Jacques Rancière, o autor centra-se no papel motriz que desempenha o nome próprio na narrativa histórica a partir da análise dos discursos históricos e iconográficos sobre o país realizados pelo filósofo e historiador espanhol Sebastián Lorente (1813-1884), considerado o fundador da história peruana. Segundo o autor, Lorente inventou a “história peruana” como o “relato completo” de todas as coisas memoráveis jamais alcançadas pelos “peruanos”, em um território literário ou imaginado, projetado de forma retroativa, mas com vistas ao futuro. O fez com um estilo inspirador e ameno, e com a aprovação do sistema educativo do Estado (p.114). Thurner analisa ainda as obras e ideias principais dos historiadores sociais do século XX peruano, como José de la Riva Aguero e Víctor Andrés Belaúnde, críticos da historiografia de Lorente. Cabe salientar que o aspecto central no artigo de Thurner é seu estudo sobre os elementos literários e conceituais que tornaram possível pensar, até a atualidade, que o Perú é, ao mesmo tempo, um sujeito coletivo e singular.

Fundamentar a existência histórica de uma nação, fruto de um mosaico de pertenças, foi o desafio encontrado pela historiografia equatoriana, no século XIX, analisada pela historiadora Ana Buriano no capítulo La construcción historiográfica de la nación equatoriana en los textos tempranos. Em realidade, conforme Buriano, tudo era complexo e desconcertante na realidade do país daquela época: o sentimento de pertenças múltiplas, o problema da fragmentação territorial-administrativa, o regionalismo e a superação das identidades regionais/locais, dentre outras dificuldades para promover uma só nação, um só Estado. Neste sentido, Ana Buriano analisa o papel de destaque dos historiadores (e da História oficial), na forja do amálgama nacional equatoriano no século XIX. Historiadores, como Velasco e Gabriel García Moreno que, apelando ao passado, desde o presente marcado por conflitos, buscaram selecionar elementos que dessem coesão e sentido de pertencimento ao coletivo social após a independência do país, e no contexto de instauração do regime republicano.

No sexto capítulo, El pueblo soberano versus la plebe proselitista, Marta Irurozqui parte da candidatura presidencial de Evo Morales, em dezembro de 2005, e dos comentários dicotômicos dos diversos meios de comunicação sobre a população indígena e sua vinculação com a política nacional, para analisar as relações entre discurso historiográfico e etnização política na Bolívia, no período compreendido entre 1825 e 1922. Irurozqui divide o tema em três partes, nos quais aborda: a origem dos males nacionais, os problemas enfrentados pelo regime republicano após a independência, e o processo narrativo de etnização. A autora enfatiza em seu estudo não os possíveis problemas ocasionados pela elaboração de estereótipos, mas a negação do indígena e do mestiço como sujeitos e agentes históricos, negação essa legitimada pelas “verdades” históricas e, na atualidade, pela reedição de essencialismos identitários que justificam novas exclusões dos agentes históricos. Contribuição importante para a reflexão acerca de outras realidades latino-americanas, nas quais a dubiedade existente entre preconceito social e racial obscurece a análise dos mais lúcidos teóricos e intelectuais.

O Brasil também é contemplado em La nación y su historia, com o esclarecedor texto de Maria Ligia Coelho Prado, intitulado Emblemas de Brasil en la historiografia del siglo XIX: monarquia, unidade territorial e evolución natural. Nele, a autora, a partir de uma perspectiva historiográfica, literária e iconográfica, analisa algumas questões relativas à concepção e à elaboração dos primeiros textos da “história nacional”. Segundo Maria Ligia Prado, a historiografia oficial brasileira nasceu da convergência de ideias e vontades políticas, com coerência de objetivos, repetição de imagens e ampla permanência de algumas de suas ideias cardeais, dentre elas, a da transição política não violenta. Assim sendo, a autora analisa o papel do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro (IHGB) na configuração de um perfil da futura nação e na produção de uma visão homogênea do Brasil no interior das elites regionais. Além dos vínculos entre o Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro e o nascimento da historiografia nacional oficial, a autora menciona a importância da Academia Imperial de Belas Artes no conjunto produtor de imagens fundacionais do Brasil. Destaca a relevância da pintura histórica na construção da nação e de um sentimento de identidade no cenário político brasileiro do século XIX. Dentre os pintores, a autora privilegia a análise de alguns artistas e seus quadros, como o de Victor Meirelles, “A Primeira Missa no Brasil”, de 1861, mas também Pedro Américo e seu monumental “Independência ou Morte” e, ainda, Modesto Brocos, com “A Redenção de Cam”, de 1895. Um dos objetivos principais de Maria Ligia Prado é o de entender a construção de temas e a formulação de interpretações da História do Brasil pelos integrantes do IHGB. É, neste sentido, que a autora analisa as interpretações de Karl Friedrich Von Martius, de Adolfo Varnhagen, de Capistrano de Abreu, de Silvio Romero, de Manuel de Oliveira Lima e de Joaquim Manuel de Macedo, entre outros.

Prado examina três questões centrais alojadas no cerne da construção historiográfica nacional e que marcaram as gerações posteriores de historiadores como poderosas visões e concepções formadoras do imaginário social e como integrantes de mitologias políticas brasileiras (p.290). São elas: a elaboração da ideia de monarquia como garantia da unidade do território e da grandeza nacional, por oposição aos regimes republicanos das ex-colônias espanholas; a ideia de Brasil como uma sociedade única, resultado de mesclas raciais e culturais entre índios, brancos e negros; a construção da visão de História do Brasil como uma evolução suave e continua em que se destaca a ausência de rupturas violentas.

Rafael Sagredo Baeza, no oitavo capítulo da obra, proporciona ao leitor um estudo sobre a história nacional do Chile e sua relação com a História Natural. Baeza, através da análise de História Física e Política de Chile, do naturalista francês Claudio Gay, considerada a primeira narração histórica sobre o passado desse país, elaborada no período republicano. Portanto, neste texto original, Rafael Baeza destaca o papel determinante que os naturalistas tiveram no reconhecimento científico dos países que exploraram; mas também no papel igualmente significativo que tiveram na conformação de nacionalidades, no desenvolvimento de identidades regionais, na integração de povos e sociedades ou na identificação de um destino comum proposto pelos estados que se pretendem nacionais na América Latina oitocentista.

Por fim, Ezio Serrano Páez, no último capítulo da obra, contribui com uma discussão sobre os discursos e intervenções dos deputados liberais e conservadores que participaram em dois congressos constituintes: o Congresso de Valência (1830) e outro, também na mesma cidade, em julho de 1858. Discursos e intervenções essas carregadas de valor historiográfico, o que fez com que Serrano Páez buscasse determinar dentro da percepção do histórico, o lugar ocupado pelos conceitos de pátria, nação e estado nos contextos mencionados e elaborados pelas elites desse país.

Em suma, La nación y su historia, escrita em linguagem agradável por diversos autores ibero-americanos, e estruturada de forma coerente com a sua proposta inicial, alcançando a diversidade e o equilíbrio entre os diferentes estudos, trata-se de uma obra de crucial importância para todos os que compartilham de uma mesma inquietude: a compreensão das relações entre historiografia e a formação de nações, identidades e estados na América Latina no século XIX.

Janete Silveira Abrão – Doutora em História Contemporânea pela Universitat de Barcelona (UB-Barcelona/Espanha) e professora no Departamento de História da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (FFCH/PUC-RS-Porto Alegre/Brasil). E-mail: janete.abrao@pucrs.br


PALACIOS, Guillermo (Coord.). La nación y su historia. Independencias, relato historiográfico y debates sobre la nación: América Latina, siglo XIX. México: El Colegio de México/ Centro de Estudios Históricos, 2009. Resenha de: ABRÃO, Janete Silveira. Independências, relatos historiográficos e debates sobre a nação na América Latina. Almanack, Guarulhos, n. 1, p. 170-173, jan./jun., 2011.

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Buenos Aires en armas. La revolución de 1880 | Hilda Sabato

O livro Buenos Aires en armas da historiadora Hilda Sabato analisa um acontecimento decisivo na história da Argentina, a chamada Revolução de 1880, ocorrida na província de Buenos Aires, quando esta se levantou em armas contra as autoridades nacionais mobilizando milhares de homens e mulheres em duros combates que produziram centenas de vítimas. Na madrugada de 21 de junho, dois exércitos de uns 5.000 homens cada um se enfrentaram no que então eram as margens da cidade. As forças nacionais, lideradas pelo general Julio Roca, e as das milícias da província de Buenos Aires, com o governador Tejedor à frente, lutaram por mais de dez horas e ao final, ambos os grupos reivindicaram a vitória. Poucos dias depois a paz foi firmada, confirmando a derrota dos rebeldes portenhos. A província sofreu intervenção, a capital foi federalizada e as milícias colocadas sob o comando nacional. O caminho estava aberto para que o general Roca assumisse o cargo de presidente da república para o qual havia sido eleito meses antes.

Hilda Sabato parte da constatação de que este episódio de confrontação violenta não foi uma exceção na vida política argentina do século XIX, marcada por muitas sublevações, rebeliões e guerras civis, para interrogar o porquê desta recorrência às armas na vida política nacional. A pergunta sobre o sentido da violência é central neste livro e, para tentar respondê-la, a autora elege a Revolução de 1880, episódio sempre analisado mais pelos seus resultados do que pelas suas causas e características.

Ao centrar-se no problema da violência, Hilda Sabato problematiza a já tão conhecida e propalada questão da disputa entre as províncias e Buenos Aires no período de formação do estado nacional na Argentina. Mais que isso, a autora contribui substancialmente para a importante revisão historiográfica ocorrida nas últimas décadas, que vem questionando o papel central conferido à nação por uma historiografia nacionalista que durante muito tempo analisou a história da América no século XIX unicamente a partir deste viés. Com freqüência, esta historiografia considerou episódios como este de 1880 como interrupções no caminho progressivo que devia desembocar na consolidação do Estado nacional, o que deveria implicar, necessariamente, na concentração dos meios coercitivos e do monopólio do uso da força por parte de uma autoridade central, assim como na expropriação da violência da sociedade civil vista como um território sem conflitos. Sob esta perspectiva, os constantes levantamentos armados ocorridos ao longo do século XIX foram entendidos como obstáculos naquele caminho inexorável de construção do Estado nacional, conduzidos por uma elite bonaerense que não havia sido capaz de consolidar seu poder e o estava perdendo para uma nova constelação política com base nos governadores do interior e centro do próprio Estado.

Buenos Aires en armas avança sobre esta interpretação, interrogando pelo fato revolucionário mesmo e pelo uso das armas para resolver os conflitos que se colocaram em 1880. Hilda Sabato trata-o como um acontecimento singular, no qual se cruzaram e se encadearam de maneira única condicionamentos estruturais e contingências conjunturais, movimentos coletivos e ações individuais, tradições e inovações políticas, que deram lugar a um desenlace inesperado e desconhecido na origem do movimento, gerado no próprio desenrolar dos acontecimentos e produto das ações humanas. Neste sentido, compreende-se a utilização pela autora do conceito de revolução para referir-se aos acontecimentos de 1880, recuperando inclusive os usos e significados dados ao termo pelos seus próprios atores.

Apesar da constante recorrência às armas e à violência na vida política argentina do século XIX, Sabato chama a atenção para o fato de que este é um tema pouco tratado pela historiografia, e quando o é, as análises são superficiais e quase sempre preconceituosas. Para explicá-lo, lança-se constantemente mão de uma suposta tendência latino-americana à anarquia e à desordem política, causada por sua imaturidade ou por uma herança política. Neste contexto, guerras civis, revoluções, golpes de Estado e crimes políticos são evocados como evidências de uma trajetória traumática para a governabilidade e para a consolidação de formas civilizadas de convivência política. A origem dessa interpretação estaria, por exemplo, numa suposta natureza ou “cultura autoritária” que teria raízes na herança da colonização ibérica.

Predominam também interpretações tautológicas, que explicam as rebeliões como resistências de uma sociedade tradicional aos inevitáveis processos de modernização vivenciados pelas sociedades latino-americanas na segunda metade do século XIX. No que diz respeito a este aspecto, há uma forte tendência na América Latina a pensar sua história como um caminho ideal ou canônico, que haveria de levar uma sociedade tradicional a transformar-se em uma sociedade moderna. A essa transformação deveria corresponder o trânsito em direção à domesticação da violência, ou melhor, à apropriação e monopolização por parte do novo Estado moderno do uso legítimo da força. Neste esquema, o fato de que após as revoluções de independência tenha se iniciado um longo período de conflitos e experiências de formação de nações – durante os quais não parece ter havido um poder estatal que tenha conseguido monopolizar o uso da força -, foi interpretado como obstáculo ou resistência anárquica à modernidade liberal, ou como simples caos que demonstrava a incapacidade da região de transitar civilizadamente em direção ao progresso.

Essas interpretações mais generalizantes predominaram na historiografia argentina e só ultimamente ganharam mais espaço, indagações voltadas para a história particular de algumas guerras e rebeliões e para o estudo das diferentes formas de violência no marco das transformações mais gerais experimentadas na vida política daquele país ao longo do século XIX. Estas novas indagações questionam o senso comum acerca do caráter especialmente violento da história latino americana, demonstrando que a região não foi mais ou menos violenta que outras do mundo. Além disso, mostram que mais importante do que tratar de medir a violência política a partir de algum padrão universal, é analisá-la no contexto e tratar de entender suas características específicas e as razões de sua ocorrência. Nesse sentido, o livro Buenos Aires en armas, que dá continuidade às pesquisas da historiadora sobre a história política da Argentina no século XIX, resulta numa das mais importantes contribuições para a renovação historiográfica deste campo ocorrida na Argentina nas ultimas décadas.

Para contar a história deste episódio decisivo, Hilda Sabato utiliza-se de textos de atores e observadores da época, de escritores e ensaístas contemporâneos e também de análises e interpretações de historiadores. Por trás de uma impressionante narrativa que reconstrói os acontecimentos de maneira viva e detalhada, está presente uma profunda reflexão sobre os temas da violência política na modernidade e das revoluções, trazidos para o contexto argentino do século XIX. O interesse por estes temas é justificado também pela autora a partir da experiência política de sua geração que, segundo ela, acreditou profundamente na violência como “parteira da história” e sofreu de maneira devastadora seus efeitos quando esta foi exercida tanto por um terrorismo de Estado, como também como um meio de ação política cuja confrontação acabou em guerra. Essa experiência traumática levou uma boa parte de sua geração a reagir fortemente ao uso da violência, entendendo-o como antipolítico ou como substituto da política. Mas ela mesma ressalta que esta convicção não deve impedir o questionamento da relação entre política e violência, talvez o maior objetivo desta sua obra.

A inovadora estrutura do livro mostra-se muito apropriada para o desenvolvimento das questões apresentadas. Hilda Sabato alterna oito capítulos nos quais os acontecimentos são narrados detalhadamente mês a mês, às vezes dia a dia, através de narrativas cronológicas marcadas por um ritmo que busca “recriar os tempos da política”, com outros capítulos chamados “Entreatos”. Nestes últimos, a historiadora desenvolve aspectos importantes para a compreensão e interpretação daqueles eventos numa perspectiva mais analítica.

A narrativa começa no ano de 1879, véspera da revolução, com foco na campanha para a escolha dos candidatos que sucederiam Nicolás Avellaneda e que deu origem ao conflito. Seguem-se capítulos que se referem ao ano de 1880, a períodos cada vez mais breves no sentido cronológico – meses, semanas ou dias -, mas intensos em acontecimentos, passando pelo dia 21 de junho, ponto culminante para os contemporâneos e para a autora, até chegar ao desenlace do conflito, com a derrota definitiva dos portenhos.

No primeiro e um dos mais interessantes dos Entreatos intitulado “Fuerzas Armadas”, Sabato analisa a organização militar da Argentina do século XIX, dividida entre as milícias da Guarda Nacional e o Exército Nacional, questão central para a compreensão do episódio de 1880. Esta organização havia sido consagrada pela Constituição de 1853 e apoiava-se sobre dois pilares principais: o Exército de Linha e a Guarda Nacional, que juntos conformavam o Exército Nacional. O primeiro era de índole profissional e operava sob o comando supremo do presidente da República. Já a Guarda Nacional recrutava cidadãos e, ainda que em última instância devesse responder ao mesmo comando nacional, esteve em geral controlada pelos governos provinciais. Ambas as instituições tinham funções diferentes e, sobretudo, representavam formas distintas de entender o poder de coerção do Estado. Na Argentina do século XIX, como na América Latina em geral, muitas vezes se recorreu a uma combinação dos dois sistemas, dando lugar a uma coexistência geralmente conflituosa. Somente no final do século XIX o predomínio das posições centralistas levou ao fortalecimento do exército regular em detrimento das milícias, com o objetivo de assegurar ao estado o monopólio do uso da força.

Na contramão de uma história nacional que sempre privilegiou o processo de consolidação do exército como instituição chave no decurso da modernização do Estado, Sabato dispensa especial atenção às formas milicianas de organização militar. Recupera a história das milícias, desde sua criação no período colonial, passando por sua fundamental participação em episódios cruciais como a expulsão dos ingleses de Buenos Aires nos anos de 1806 e 1807 e as jornadas revolucionárias de maio de 1810, até sua subsistência no período posterior quando, com a instauração da forma republicana de governo, a instituição passou a considerar-se um pilar da comunidade política fundada sobre a soberania popular. A partir de 1853, Urquiza tenta dar forma a uma organização militar em escala nacional ao criar a Guarda Nacional sobre o mesmo princípio da cidadania em armas e ao propor a formação de um exército regular para a confederação que então se formava.

As milícias constituíam a cidadania em armas e eram integradas pelos mesmos cidadãos que formavam o eleitorado. As redes militares e políticas tecidas em torno delas desempenhavam assim papel destacado nas lutas pelo poder, tanto em tempos eleitorais como de revolução, tornando-as um âmbito chave na vida política argentina. A “virtuosa” milícia era formada por cidadãos livres com a obrigação de portar armas em defesa de sua pátria, uma obrigação que era por sua vez um direito e um privilégio. Tal retórica de ressonâncias republicanas em torno das milícias e, mais tarde, da Guarda Nacional era, assim, parte do imaginário coletivo de amplos setores da população que se identificavam com o papel de cidadão armado e conheciam as diferenças entre essa figura e a do soldado de linha.

As milícias também funcionavam como redes concretas de organização política. Elas se constituíam numa força parcialmente descentralizada que fragmentava o poder militar. Para Hilda Sabato, as disputas de 1880 mostram de forma clara até que ponto essa fragmentação resultou problemática e como foi necessário o uso da força para dirimí-la.

No Entreato 3 – “Voluntarios” – a historiadora se aproxima do mundo dos “cidadãos em armas” ao analisar como se dava o recrutamento para formar os batalhões de voluntários. A mobilização era promovida por dirigentes políticos com trajetória partidária e com experiências nas milícias, na Guarda Nacional e no exército de linha. A maior parte deles tinha prática na organização de forças partidárias, na mobilização de bases eleitorais e na direção de “cidadãos armados”. Estas bases eram recrutadas entre um amplo espectro da população da cidade de Buenos Aires que incluía desde jovens das classes proprietárias com aspirações políticas ou espírito de aventura, até homens provenientes dos setores mais baixos das classes populares. O êxito no recrutamento de voluntários logo transcendeu os limites dos que já militavam na vida partidária para estender-se a setores da população habitualmente pouco envolvidos nestas questões. Deste modo, quando chegou o momento dos enfrentamentos, a mobilização militar alcançava a todos os grupos sociais e não se limitava à população nativa incluindo uma boa parcela dos imigrantes que viviam na cidade de Buenos Aires.

Em “Viva Buenos Aires!”, o Entreato 4, Hilda Sabato reflete sobre o papel central que a cidade de Buenos Aires assumiu nos debates políticos que alimentaram os enfrentamentos revolucionários. O conflito político de 1880 começou com uma querela em torno de candidaturas, mas foi rapidamente mudando de caráter, até converter-se em uma confrontação entre o governo portenho e o nacional. Na visão dos contemporâneos esta oposição se deslocou com frequência para outra polarização que opunha a cidade de Buenos Aires ao resto das províncias argentinas. Isto não era novidade na vida do país e já fazia parte de suas tradições políticas. Até os anos 1880, esta rivalidade foi sendo acirrada por outra oposição, resultado do processo de consolidação do Estado, entre um governo nacional cada vez mais centralizador e os governos provinciais, incluído o de Buenos Aires, com aspirações autônomas.

Nesse cenário de antagonismos superpostos e em redefinição, os portenhos conformaram uma imagem de sua província e construíram um lugar simbólico para Buenos Aires que serviu de fundamento para a política de resistência. Os apoios oficiais à candidatura de Roca, somados ao centralismo na questão das milícias, serviram ao governador Tejedor e a seus seguidores para denunciar as ações do governo nacional como uma imposição à província e um ataque a suas liberdades, assim como para erigirem-se como representantes da “causa de Buenos Aires” e convocar para a resistência.

Com esta retórica, Tejedor recorria a uma figura central na linguagem e no imaginário coletivo da época, a do “povo de Buenos Aires”. Invocava-se a memória da participação deste povo nas jornadas revolucionárias de 1810, para reforçar a idéia de continuidade e do comprometimento. Além disso, desde a vitória de Mitre nos anos 1860, havia sido gestado e posto em prática um conjunto de práticas e representações que conferiam um lugar central à figura do povo de Buenos Aires como portador de virtudes cívicas e defensor das liberdades, unido em seu heroísmo e em seu compromisso com a República. Frente às ambições dos déspotas e aos males do caudilhismo que afetavam sobretudo as demais províncias, Buenos Aires se apresentava como a salvadora da pátria. A dinâmica dos fatos foi dando cada vez mais espaço a essa retórica que provou sua capacidade de mobilização sobre uma grande parte da população provincial, contribuindo substancialmente para a eclosão da revolução em 1880.

O Entreato 5 – “Revoluciones” – discute o conceito de revolução e sua centralidade para a análise do episódio de 1880, novamente na contramão de uma historiografia nacionalista que costumava interpretar as revoluções no continente como movimentos anacrônicos que interrompiam o caminho em direção à consolidação do Estado ou à modernização. Para ela, este conceito teve um lugar central na linguagem política da época e os acontecimentos associados a ele foram parte constitutiva da vida política daquela região. Em seu sentido mais difundido na época, a revolução se referia ao direito à resistência frente ao despotismo e se vinculava à figura da cidadania armada. Quando os governantes abusavam do poder, o povo tinha não só o direito como a obrigação, o dever cívico, de fazer uso da força para restaurar as liberdades perdidas e a ordem presumivelmente violada pelo déspota. Ao contrário do significado moderno do conceito que o relaciona a uma transformação das estruturas, naquele contexto seu uso estava referido à restauração de uma ordem anterior, identificada na América do século XIX a concepções pactistas e de cunho jusnaturalista. Estas concepções eram resignificadas em novas combinações com idéias provenientes das matrizes liberal e republicana e articuladas com outros conceitos-chave como os de representação e opinião pública. No plano das práticas políticas, a ação revolucionária formava parte do emaranhado da vida política argentina da época em suas diferentes dimensões.

Em todos os levantamentos armados ocorridos na segunda metade do século XIX que tiveram Buenos Aires como epicentro, seus protagonistas falavam em revoluções do povo desta província que se levantava em nome da liberdade e de seus direitos, cumprindo um dever cívico, contra um governo despótico. Mas Hilda Sabato observa que no caso dos episódios de 1880 houve uma mudança na retórica local. Nesta ocasião os portenhos usaram pouco o termo “revolução” preferindo falar em “resistência”, com sentido equivalente. Ela ressalta a importância dessa mudança e mostra como na história deste acontecimento o conceito de revolução e outros conceitos políticos foram questionados e resignificados por aqueles que buscavam introduzir mudanças importantes nas formas de se fazer política e de entender o Estado.

No último dos Entreatos, a antiga questão da capital, em especial a capitalização da cidade de Buenos Aires é retomada. Sabato nos lembra a longa história de disputas em torno deste problema e o insere na perspectiva mais ampla das diferentes maneiras de se conceber a organização política da república federal Argentina. Uma organização que supunha um compromisso entre o poder central e as soberanias provinciais, com a necessidade de definir uma sede para o primeiro. O centro da questão estava no grau de fortalecimento do poder central e isto vai aparecer com toda a força nos conflitos de 1880. Como havia ocorrido com o tema das milícias, a capitalização de Buenos Aires dividiu antigos aliados: os partidários de Roca levaram adiante a ofensiva centralizadora, enquanto no interior das fileiras do autonomismo houve grandes resistências à concentração de poder que a capitalização traria.

Como conclui a autora, se em junho o triunfo das armas nacionais no campo de batalha não conseguiu selar a unidade dos vencedores e impor sua vontade sobre os rebeldes, a ação política que se seguiu definiu o desenlace nos termos impostos por Roca e seus aliados políticos. O portenismo foi derrotado, a província de Buenos Aires perdeu em autonomia e a cidade foi federalizada. O que veio depois é bastante conhecido: Roca assumiu a presidência da República, o Partido Autonomista se impôs nas eleições da província de Buenos Aires que teve uma legislatura e um governador autonomista, e a cidade ficou sem governo próprio. Para além desses resultados imediatos, duas medidas coroaram a proposta centralizadora de Roca e mudaram o panorama político argentino para sempre: a federalização do município de Buenos Aires, separado da província e convertido em capital, e a lei que proibia às províncias a convocação das milícias, afirmando assim o monopólio estatal da força e sua concentração em uma única instituição, o Exército Nacional.

Sem dúvida a história contada por Hilda Sabato neste imperdível livro sugere novas e importantes chaves para responder à questão central sobre o recurso à violência no episódio da Revolução de 1880. As explicações dadas são de distintas ordens e estão vinculadas tanto ao plano das representações quanto ao das práticas políticas. De sua análise podemos concluir que o que ocorreu em 1880 foi o resultado de tendências de longo prazo e de tensões e disputas conjunturais, assim como da dinâmica própria dos acontecimentos, das decisões e indecisões de cada um dos atores, e dos efeitos e derivações, muitas vezes acidentais de suas ações. O que resultou não estava necessariamente inscrito na origem ou no cruzamento de tendências iniciais, mas foi o produto do desenrolar desse crucial acontecimento que foi a Revolução de 1880.

Maria Elisa Noronha de Sá Mäder – Professora no Departamento de História da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (HIS/ PUC-RJ – Rio de Janeiro/Brasil). E-mail: maisa@puc-rio.br


SABATO, Hilda. Buenos Aires en armas. La revolución de 1880. Buenos Aires: Siglo XXI Editores, 2008. Resenha de: MÄDER, Maria Elisa Noronha de Sá. Almanack, Guarulhos, n. 1, p. 174-179, jan./jun., 2011.

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Itinerantes | UNSTA | 2011

Itinerantes

Itinerantes (Tucumán, 2011-) es una publicación científica cuyo tema central es la historia religiosa en sus diferentes variables: cuestiones teóricas sobre el hecho religioso; iglesia católica e iglesias cristianas; tradiciones religiosas; actores, prácticas e instituciones religiosas; mística; ritualidad y prácticas devocionales. Difunde trabajos originales de investigación en español, portugués e inglés, buscando promover el intercambio y debate entre los estudiosos de la temática. Incorpora artículos, reseñas y entrevistas.

Los originales recibidos son examinados por el Consejo de Redacción para decidir si los mismos cumplen con los requisitos formales y los criterios de calidad académica de la publicación. Los artículos aceptados son sometidos a evaluación por especialistas externos mediante el sistema de “doble ciego”, que preserva el anonimato de autores y evaluadores. El artículo evaluado puede ser aceptado sin modificaciones para su publicación, aceptado con modificaciones o rechazado. El comité editorial puede luego realizar otras correcciones de estilo que crea justificadas.

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ISSN 2525-2178

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Moche. Cosmología y Sociedad: Una Interpretación Iconográfica – GOLTE (C-RAC)

GOLTE, Jürgen. Moche. Cosmología y Sociedad: Una Interpretación Iconográfica. Lima-Cusco: Instituto de Estudios Peruanos-Centro Bartolomé de Las Casas, 2009. 472p. Resenha de: LOZA, Carmen Beatriz. Chungara – Revista de Antropología Chilena, Arica, v.43, n.especial, 607-608,  2011.

El interés del libro del antropólogo alemán Jürgen Golte y su importancia son evidentes, tanto por el tema como por la manera de abordar la iconografía y cultura moche. Después de un trabajo sostenido y de largo aliento, el autor se impone como uno de los mejores conocedores de la iconografía moche, pues escudriñó pinturas, esculturas y cerámicas para aproximarse a la cosmovisión de los artesanos que elaboraron para su sociedad hermosas y significativas piezas. Y, como un historiador, desplegó todo su conocimiento al servicio de las narraciones plasmadas en imágenes, la mayoría de las cuales provienen de colecciones, privadas y estatales, tanto alemanas, egipcias, chilenas como también estadounidenses y peruanas. Pero resulta que si bien son miles de piezas arqueológicas las que tuvo entre manos para estudiar, son aproximadamente 50.000 imágenes identificadas y analizadas con el apoyo de cientos de referencias bibliográficas consultadas para la elaboración de la obra. Sin lugar a dudas, todo ello fue posible gracias al importante apoyo brindado por la Frei Universtät Berlin, donde ofrece cátedra y el respaldo de una de las mayores financiadoras de la investigación en Alemania, la Deutsche Forschungsgemeinschaft. No debe dejar de mencionarse la ayuda prestada por los curadores de los museos, quienes pusieron en sus manos los ceramios, lo cual no es banal de mencionar, pues como él mismo lo señala “la mayoría de los que hablan e investigan sobre el arte moche no han visto los originales, muchas veces de difícil acceso en colecciones o en depósitos de museos públicos diseminados por el mundo, o no les prestan la atención debida” (Golte 2009:38). La conjunción de ambas limitaciones es superada por el autor para ofrecernos una obra muy documentada, en vista de los últimos y grandes descubrimientos realizados en la costa del Perú.

El libro se abre con una extensa, profunda y pertinente introducción sobre los procesos formativos iniciales que dieron nacimiento a la sociedad moche. Allí, se sostiene que los cambios radicales y revolucionarios deben haberse generalizado con bastante lentitud y que las nuevas formas quizás fueron desarrolladas a partir del fondo simbólico socializado y difundido con anterioridad. El proceso de identificación está destinado a marcar las fronteras y las particularidades del grupo expresado en un lenguaje comprensible a todos. Desde la introducción, el autor tiene la intención de marcar la distancia con el objeto de estudio y dejar claro el alejamiento cultural que lo separa (por extensión a nosotros) de los artesanos y artistas mochicas, quienes eran hábiles comunicadores de ideas cosmológicas y de comprensión de su mundo, de ahí que tanto los “productores como los receptores estaban familiarizados a esas reglas porque pertenecían a una tradición cultural común” (Golte 2009:18). Insiste en aproximarnos a las imágenes alejándose de la comprensión ingenua proveniente de nuestras propias categorías. Se busca con ello mostrar, reiterativamente, la tensión que conoce el investigador al evitar que su imaginario invada su análisis de las imágenes. En ese sentido, el libro entrama, desde el principio hasta el final, una doble inquietud: dotarnos de una metodología para la comprensión de la iconografía y la cultura moche desechando las ideas etnocéntricas que han imperado en gran parte de la literatura producida con anterioridad a su libro. Su propuesta, entonces, es planteada como un modelo para entender la cosmovisión y las culturas de los Andes Centrales.

La principal tesis apunta a demostrar que “La cerámica mochica es un medio que construye sentido con objetos tridimensionales” (Golte 2009:20). De este planteamiento resulta una doble enseñanza: si no reconocemos la parte bidimensional del ícono y la dimensión tridimensional de una efigie o escultura adolecemos de una falla inicial al relacionar la temática y las expresiones iconográficas. Sólo así reconocemos que los personajes representados son identificados por los atributos que poseen. Este procedimiento, paradójicamente, no fue problematizado por los arqueólogos e historiadores del arte debido a su familiaridad con el arte europeo ampliamente difundido en los estudios iconográficos. En este punto, parece pertinente subrayar su postura de tomar en cuenta y en serio la condición de los ceramios moche como objetos tridimensionales. Tan en serio lo asume, que la totalidad del libro abunda en infinidad de ejemplos para convencernos de su utilidad. Pero resulta que, si bien este aspecto es central, no es menos importante su demostración acerca del manejo que tenían los artesanos mochicas del tiempo y del espacio para establecer un lazo entre vivos y muertos bien representados en los ceramios. En esta brecha, Golte ahonda en consideraciones teóricas acerca de la historia, la cual es capital para situar las imágenes mochicas, pues estas tienen un lugar en la larga historia de desarrollo de convenciones y representaciones. De ahí que enfáticamente afirme que los moches “no son creadores ex-nihilo”, razón por la cual es imprescindible no aislar las piezas del contexto y universo de la cultura moche (Golte 2009:25).

Entre los hallazgos destaca la ubicación del lugar desde el cual se debe iniciar la lectura de las imágenes dibujadas en los ceramios (principalmente botellas). Esta identificación tiene trascendencia en la medida que sólo a partir de ello es posible restituir el panel representado en la botella de acuerdo a un orden lógico. Gracias a ese procedimiento, al parecer sencillo, son recuperadas las imágenes en su totalidad para poder comprender su narrativa. Restitución íntegra que ayuda a identificar y entender la secuencia de escenas para poder ir entendiendo, paulatinamente, sus mensajes. En esa línea, Golte presta una especial atención a los lugares que ocupan cada una de las imágenes, sin descuidar por ejemplo los lugares menos expectantes como la base o las asas. No deja de mencionar los lugares vacíos cuyo papel es necesario para la transmisión de sentido, lo que significa que se los debe tener presentes porque son parte del panel y juegan un rol significativo. Y este aspecto deja establecida la idea de que los pintores moche no cubrían las superficies con pinturas sin un propósito bien definido. Se detectó que en algunos ceramios se quiso connotar un encuentro de contrarios complementarios en un juego entre imágenes de arriba frente a imágenes de abajo. Para explicar esta oposición de contrario, el autor se sumerge en los principios andinos de los cuales extrae la explicación de que se trataría de una especie de tinku, es decir, el interface que se produce en el encuentro de opuestos. Golte establece la relación estrecha entre forma del ceramio y narrativa desplegada en imágenes. Son aspectos que podrían parecer evidentes, pero son difíciles de manejar. Ahí es donde Golte abre un gran debate con los estudiosos de la cultura moche, Donna McClelland y Christopher Donnan, porque en sus trabajos las representaciones de los paneles que presentan son incompletas, tal como el autor lo demuestra. En realidad, la totalidad del libro apunta a mostrar las grandes fallas metodológicas en los estudios a lo largo del tiempo. En particular, cuando revisita los temas y las piezas moche utilizadas por otros investigadores estadounidenses con quienes tiene varios desacuerdos fundados en lecturas opuestas de las representaciones realizadas por los artesanos moches.

En suma, se trata de una obra muy útil por su propuesta metodológica para abordar un estudio iconográfico en los Andes. La fuerza radica en la articulación de cada una de las partes como un todo donde la sucesión de imágenes dibujadas y las reflexiones forman una unidad y no simplemente elementos yuxtapuestos. Hubiera sido interesante, dada la enorme cantidad de imágenes utilizadas, un complemento cuantitativo con el análisis de algunas variables, lo cual sin lugar a dudas también habría ofrecido muchas luces sobre esa base de datos que ha reunido más de 50.000 imágenes. En todo caso, el acercamiento individualizado, detallado y reflexivo propuesto en esta importante obra deja abiertas numerosas vetas a explorar. Al mismo tiempo, habría sido importante la edición con excelentes fotografías que si bien han sido reproducidas en innumerables libros de arte prehispánico, cobrarían otro sentido a la luz de la densa e inteligente propuesta de Golte para entender los mensajes de los artesanos mochicas.

Beatriz Loza – Directora de Investigación del Instituto Boliviano de Medicina Tradicional Kallawaya. La Paz, Bolivia. E-mail: lozaquipu@yahoo.es

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Develando Órdenes y Desatando Sentidos. Un Atado de Remedios de la Cultura Tiwanaku – LOZA (C-RAC)

LOZA, Carmen Beatriz. Develando Órdenes y Desatando Sentidos. Un Atado de Remedios de la Cultura Tiwanaku. La Paz: Instituto Boliviano de Medicina Tradicional Kallawaya, 2007. 153p. Resenha de: BISONARD, Rosana Patricia. Chungara – Revista de Antropología Chilena, Arica, v.43, n.especial, 609-610, 2011.

Las investigaciones sobre atados medicinales prehispánicos son escasas, de tal suerte que el libro de Carmen Beatriz Loza sobre un atado del período Tiwanaku viene a enriquecer la literatura especializada en etnomedicina andina desde su vertiente arqueológica. La historiadora y demógrafa-médica boliviana, a través del Instituto Boliviano de Medicina Tradicional Kallawaya, realizó un notable esfuerzo editorial por ofrecer a los lectores un texto en castellano e inglés, sobre el análisis detenido de un atado de remedios encontrado fortuitamente en Pallqa, provincia Larecaja del Departamento de La Paz. Se trata de un pequeño fardo envuelto en cueros de ciervo que contenía pequeños objetos utilizados por un religioso/ médico de la época de Tiwanaku, aproximadamente del año 900 de nuestra era.

La autora inmersa en la cultura Kallawaya pudo realizar una catalogación completa y un desciframiento del significado de cada uno de los objetos por muy extraños que se presenten ante nuestros ojos. En realidad, esto se consiguió gracias a un proceso basado en la contrastación de resultados de numerosas investigaciones arqueológicas y etnográficas andinas con los testimonios de los herbolarios y médicos Kallawayas y K’awayus en un “intrincado proceso de elucidar la antigua ciencia de sanar que era practicada por los tiwanakotas”. Dicho proceso lo desarrolla a través de cinco capítulos documentados por hermosas fotografías que dan sustento a un primer capítulo destinado a la “descripción y evaluación de estudios sobre atados en contextos andinos”. Este tema permite abordar las circunstancias históricas del descubrimiento; las características en términos andinos para describir la evidencia arqueológica y la aprehensión del modelo cognitivo que prima en el orden del atado. El segundo capítulo trata de la “distribución jerárquica de contenidos” a través de la comprensión de la organización, almacenamiento y ordenación de los remedios, lo cual derivó en el planteo del modelo cognitivo que lo sustenta. Mientras que el “análisis de los cordajes finos” forma parte de un tercer capítulo donde se presentan como componentes claves para la comprensión de las actividades curativas del religioso/médico de Pallqa. Se realza en este capítulo la relación existente entre los cordajes y algunos aspectos del funcionamiento de los quipus. El cuarto capítulo trata de “la jerarquía de objetos animados e inanimados” mostrando una coincidencia con la propuesta teórica del antropólogo y filósofo francés Phillipe Descola sobre la ausencia de división tajante entre naturaleza y cultura (cf., Descola, 1993, 2005). Finalmente, el quinto capítulo acerca del “contexto del ajuar inhalatorio” (microcontextos) enfatiza en los aspectos desechados precedentemente por otros estudiosos para describir la parafernalia inhalatoria la cual no era necesariamente para consumir psicotrópicos.

Los cinco capítulos completan la visión panorámica amplia del contenido y su relevancia arqueológica, a pesar de la existencia de un trabajo preliminar incompleto sobre esas mismas evidencias arqueológicas (Capriles Flores, 2002: 23-50). De ahí que se hizo necesario “complejizarlo”, para lo cual trabajó desde el enfoque “etno-arqueológico”, debido a la distancia cultural y temporal que nos separa del atado. La analogía etnográfica utilizada a lo largo del texto apunta hacia el “reconstruccionismo arqueológico”, privilegiada como metodología empleada por la autora. Metodología que además permite el acercamiento a las evidencias arqueológicas del período Tiwanaku y su relación a las culturas Kallawaya y K’awayu mediante el estudio de los restos materiales de la cultura médica prehispánica. En esa línea, reúne elementos para la mejor comprensión de la tumba multifuncional de Niñokorin recogida parcialmente por el etnólogo Henry Wassén en (1971) (cf., Wassén 1972). La autora, siempre retomando en el marco conceptual desarrollado por Philippe Descola, se adentra en la comprensión del empleo de los cueros y sus funciones medicinales, desechando parcialmente la idea de que sólo servían como recipientes. De hecho, la propuesta de una clasificación de los cueros por parte de los Kallawayas y K’awayus contribuye a comprender los sistemas de pensamiento andino, mediante el análisis de la ordenación de una diversidad de objetos de diferente naturaleza correspondientes a la cultura Tiwanaku, estableciendo la matriz ontológica que la sustenta.

En suma, del análisis se desprende, que el “modelo cognitivo de organización simbólica de pensamiento secuencial”, utilizado por Carmen Beatriz Loza, permite afirmar que el atado de Pallqa responde a una estructura de pensamiento secuencial, eficaz y operativo, basado en un modelo cognitivo de organización simbólica llamado también modelo simbólico de representación del conocimiento. Esto nos lleva a encuadrarnos en un paradigma que permite ver entre los médicos/religiosos de Tiwanaku una forma particular de ensamblaje y sistema de organización de almacenamiento de las medicinas. Todas ellas ordenadas acorde a una jerarquía de cueros y a una asociación de elementos de distintos materiales y de peculiar naturaleza animal, destinados a la fabricación de remedios. Este paradigma representa un modelo simbólico de representación de conocimiento, ya que entraña un valor, en tanto significación de un acto de codificación de la información a través de símbolos externos. Los mismos no pueden ser comprendidos al margen del marco de las operaciones simbólicas, ya que los diferentes tipos de cueros no son sólo reservorios, sino que tienen funcionalidad específica. En el atado moran los espíritus de los animales domésticos y silvestres, de los que provienen los cueros, que eran activados por el religioso/médico de Pallqa, quien los manipulaba, para las curaciones, reproduciendo atributos de poder inherentes a las especies. En otros términos, el atado se metamorfoseaba convirtiéndose en sujeto animal, entramando esta metamorfosis a diversas escalas de organización de los cueros/contenedores estudiados por la autora.

El proceso de investigación científica que utilizó Carmen Beatriz Loza representa un desafío digno de destacar. En primer lugar, planteando una relación intrínseca entre epistemología y metodología, no reducidas ambas a un simple tecnicismo, sino a una reflexión sobre la teoría del descubrimiento. La autora en cada momento del proceso de investigación estableció y desarrolló áreas temáticas con selección específica del campo de trabajo, lo que le permitió establecer en cada aproximación el objeto de investigación, planteando claramente problemas e interrogantes resueltos durante el proceso de investigación y otros planteados para un posterior trabajo. Además, en el momento lógico-epistemológico precisó correctamente el objeto, por lo cual se abocó a la construcción del marco teórico, reflexionando sobre las categorías teóricas que le permitieron el abordaje del objeto, delimitando clara y específicamente los propósitos de la investigación. En esa línea, el modelo etno-metodológico le permitió abordar el estudio del fenómeno social que rodeaba al atado de Pallqa, reforzando así las interacciones de los individuos con su medio, y las ideas que el mundo social está compuesto de significado y puntos de vista compartidos. Considero que el aporte del libro evidenció, por primera vez, que los remedios/cueros/contenedores, del atado del período Tiwanaku, intervinieron en el proceso curativo porque son portadores de poderes en sí mismos. Aporte que sólo fue posible por el conocimiento cercano del mundo de los especialista médicos Kallawayas y K’awayus con quienes ha sabido compartir, discutir y descubrir los secretos de un atado del período Tiwanaku.

Referencias

Capriles, J.M. 2002. Intercambio y uso de fauna por Tiwanaku. Análisis de pelos y fibras de los conjuntos arqueológicos de Amaguaya, Bolivia. Estudios Atacameños 23:33-50.         [ Links ]

Descola, P. 1993. Les Lances du Crépuscule: Relations Jivaros. Haute-Amazonie. Plon, Paris.         [ Links ]

—2005. Par-delà Nature et Culture. Éditions Gallimard, Paris.         [ Links ]

Wassén, S.H. 1972. A Medicine-man’s Implements and Plants a Tihuanacoid Tomb in Highland Bolivia. Göteborgs Etnografiska Museum, Goteborg.         [ Links ]

Rosana Patricia Bisonard – Programa “Doctorado en Cultura y Sociedad”, CONICET, Salta, Argentina. E-mail: rosanabiso@yahoo.com.ar

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Conhecimento histórico e internet / Aedos / 2011

É com grande satisfação que apresentamos a edição n° 8 da Revista Aedos, tratando de um assunto cada vez mais presente na atividade de pesquisa histórica: a Internet. O meio digital, ao qual essa mesma revista deve sua existência e circulação, permite ao historiador trocar e produzir dados que elevam o conhecimento a um novo patamar, seja pela digitalização de documentos e acervos, seja através de projetos institucionais de recuperação de fontes, ou ainda a elaboração estatística de dados informatizados. Revolucionando as comunicações e formas de armazenamento e indexação de informações, que tipo de consequências esse processo gera no campo da História? Como a pesquisa vem sendo transformada por esse acesso antes impensado à informação?

A proposta do dossiê é refletir sobre a utilização desse instrumento, uma vez que, através dele, o acesso ao conhecimento histórico foi massificado, revolucionando também o ensino e as práticas escolares, sobretudo pela riqueza de material audiovisual ao alcance de poucos cliques. A notável defasagem entre o uso da Internet na produção e reprodução do saber historiográfico e a pouca problematização feita sobre o assunto torna-se interessante campo de debates e é nesse sentido que os artigos que compõem o dossiê são apresentados. Abrindo a discussão proposta, Fábio Chang de Almeida, em “O historiador e as fontes digitais: uma visão acerca da internet como fonte primária para pesquisas históricas”, aborda a utilização desse tipo de fonte no ofício do historiador, especialmente daqueles voltados para o estudo do Tempo Presente que, com o advento da Internet, passaram a contar com inesgotável aporte de fontes. Em “Reflexões sobre a modernidade, a tecnologia e a educação: o legado iluminista na Era da Wikipédia”, Israel Aquino analisa o impacto das novas tecnologias sobre a produção e disseminação do conhecimento, sobretudo através da popular experiência da Wikipédia, a enciclopédia virtual e colaborativa da Internet, trazendo relato de experiências desenvolvidas sobre a temática. Uma aplicação do tema à pesquisa histórica pode ser observada em “Akira: porque o pesadelo já começou”, no qual Vitor Batalhone Junior estabelece uma descrição iconográfica e um estudo iconológico do animê Akira a partir de fontes virtuais, disponíveis na Internet.

A seção de artigos diversos conta com publicações das mais variadas temáticas e debates historiográficos. Rosemere Olimpio Santana, em “Pérfida ou ingênua – a visibilidade da mulher paraibana através dos jornais e de casos de rapto – 1880-1910”, apresenta a construção de um discurso que deu visibilidade às práticas amorosas e a identidade feminina no período, sobretudo através da análise dos casos de raptos consentidos. Em “Gandhi e a verdade: reflexões entre autobiografia e história”, Sinuê Neckel Miguel tece relações entre a produção histórica acadêmica e a vida de Gandhi, procurando entender a importância do método de luta política não-violenta. A partir do estudo de um amplo conjunto documental, Veronica de Jesus Gomes, analisa e traça o perfil socioeconômico e intelectual de padres que teriam praticado abusos sexuais na Bahia durante os séculos XVI e XVII em “Nas malhas da Inquisição de Lisboa: um perfil dos sodomitas da Igreja e de seus amantes”.

Abordando a escrita da História da Política Externa Independente do governo João Goulart e o contexto da Guerra Fria, Charles Sidarta Machado Domingos, em “As relações internacionais do Brasil no governo João Goulart (1961-1964): leituras sobre a Política Externa Independente”, realiza uma análise historiográfica de trabalhos que privilegiaram as relações internacionais do Brasil durante esse período. Fabiano Farias de Souza, em “Operação Condor: Terrorismo de Estado no Cone Sul das Américas” analisa a literatura baseada no Arquivo del Horror, descoberto no Paraguai no início da década de 90 e que confirmou ações promovidas por governos militares baseadas em constantes violações dos Direitos Humanos. O artigo “O 15 de Novembro na Imprensa Carioca”, de Camila de Freitas Silva, mostra como a Proclamação da República repercutiu em jornais de grande circulação no Rio de Janeiro em 1889, mostrando a construção de discursos acerca do processo de mudança de governo.

Na seção Mesa Redonda desta edição, apresentamos o comentário crítico de Ana Paula Squinelo ao texto de André Átila Fertig e Tassiana Maria Parcianello Saccol, “A Guerra do Paraguai nos livros didáticos de História do Brasil”, publicado no nº6 da revista. Muito embora tenha havido impossibilidade dos autores responderem às críticas colocadas, Aedos coloca-se a disposição para dar prosseguimento ao debate.

Na seção das resenhas, dentre outros, George Zeidan Araújo trata da obra de Salvador Neves e Alejandro Pérez Coutubre, “Pólvora y tinta: Andanzas de bandoleros anarquistas”, trazendo ao conhecimento do público brasileiro uma obra da pouco estudada produção historiográfica uruguaia. Bruno Silva de Souza traz apontamentos sobre o livro de Reinhart Koselleck, “Futuro Passado. Contribuição à semântica dos tempos históricos”, cada vez mais presente nas discussões históricas. Abordando a utilização do cinema nas Ciências Humanas e Sociais, Bianca Melyna Filgueira trata da obra de Nildo Viana, “A concepção materialista da História do Cinema”. George Wilson dos Santos Sturaro traz uma visão das Relações Internacionais com a obra de José Luís Fiori, “O Poder Global e a Nova Geopolítica das Nações”. Evandro dos Santos apresenta “A questão dos livros: presente, passado e futuro”, de Robert Darnton e Mateus Dagios traz a discussão sobre o silêncio e suas diferentes práticas como modo discursivo no mundo grego na obra de Silvia Montiglio, “Silence in the Land of Logos”.

Nas resenhas de clássicos, Luiz Alberto de Souza discute questões teóricas sobre a historiografia contidas na obra de Dean Warren, “A ferro e fogo: a história e a devastação da Mata Atlântica brasileira.”

Finalizando nossa edição, apresentamos a entrevista com o historiador italiano Carlo Ginzburg, que esteve em Porto Alegre para realizar uma conferência no seminário internacional Fronteiras do Pensamento. Célebre por seu trabalho com crenças populares europeias do século XVI, a conferência realizada teve como tema História na Era Google. Em uma conversa com Dênis Renan Corrêa e Marcos Schulz, Ginzburg falou sobre suas percepções sobre o impacto da revolução tecnológica na História e a forma como ele próprio se apropria desses recursos, não deixando de falar da importância dos livros para o conhecimento. Uma conversa que, de certa forma, retoma o tema de nosso dossiê, deixando claro que História e Internet ainda deverão render muitas discussões e reflexões.

Por fim, agradecemos a todos aqueles que contribuíram para o nosso trabalho: autores, pareceristas, funcionários e professores do PPG, equipe da Propesq / UFRGS e todos aqueles que, de alguma forma, colaboram para manutenção desse espaço como local sério e qualificado para a discussão historiográfica.

Boa Leitura a todos!

Conselho Editorial

Gestão 2010-2011


Conselho Editorial. Editorial. Aedos, Porto Alegre, v.3, n.8, janeiro-junho, 2011. Acessar publicação original [DR]

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Trilhas da História | UFMS | 2011

Trilhas de Historia2

Trilhas da História (Três Lagoas, 2011-) foi pensada e elaborada com o objetivo de promover o debate acadêmico, tendo o propósito de enriquecer as pesquisas em andamento, tal como agregar produções de outros lugares, instituições e sujeitos.

Com esse objetivo, esperamos alcançar, além de professores da universidade e da rede pública e privada de ensino, alunos graduandos de nosso curso [de História – Três Lagoas/MS] e de outras universidades, tendo por intuito incentivar novas pesquisas e a busca por conhecimentos produzidos pela História e áreas afins.

Se a proposta é interdisciplinar, disciplinas como a Filosofia, Geografia, Ciências Sociais, Antropologia, Arqueologia, entre outras, encontrarão espaço para veicular as suas produções, desde que concernentes aos temas sugeridos pela Revista. A Revista se constitui de Dossiês; Artigos livres; Ensaios de Graduação; Resenhas e Fontes.

Periodicidade semestral.

Acesso livre.

ISSN 2238 1651

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Contraponto | UFPI | 2011

Contraponto UFPI

A Revista Contraponto (Teresina, 2011-) é uma publicação do Departamento de História e Programa de Pós Graduação em História do Brasil da Universidade Federal do Piauí. A linha editorial desta revista tem o objetivo de contemplar uma dupla demanda. Por um lado pretende-se abrir espaço para a necessária difusão da produção acadêmica desenvolvida no âmbito da História no estado do Piauí.

Nesse sentido, vale destacar que a UFPI já conta com um programa de pós-graduação consolidado na área de História do Brasil. Dezenas de dissertações de mestrado já foram elaboradas nos últimos anos e pretende abrir espaço para levar ao conhecimento de um público mais amplo essa produção acadêmica. Da mesma forma, a revista está franqueada aos demais professores e pesquisadores que atuam na Universidade Estadual do Piauí e também em outras instituições. Esta publicação especializada na área de história é um instrumento através do qual a produção acadêmica piauiense será veiculada e compartilhada com o público interessado nesse campo de estudos.

Por outro lado, a Revista Contraponto é espaço de interlocução que extrapola as fronteiras do Piauí e acolhe artigos e contribuições de pesquisadores de todo o Brasil e do exterior. Desta forma, a revista representa uma ponte entre a pesquisa acadêmica realizada na região – mas não apenas aquela que aborda temas específicos sobre o estado e o nordeste – e a produção historiográfica mais recente desenvolvida em outros estados e também em outros países.

Vale destacar que o esforço ora empreendido é especialmente revelador do interesse dos pesquisadores em História da UFPI no sentido de se inserir no campo da produção historiográfica e participar dos debates contemporâneos deste vasto campo de estudos.

Periodicidade semestral

Acesso livre

ISSN 2236 6822

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A cidade como objeto de reflexão interdisciplinar (II) / Albuquerque: Revista de História / 2011

Mesmo enfrentando as dificuldades inerentes à publicação de um periódico acadêmico e superando o descrédito de alguns que não acreditam que os cursos de história da UFMS podem ter uma vitrine de pesquisas, não somente de seus docentes mas também dos pesquisadores de outras instituições, a Revista Albuquerque chega ao seu terceiro ano. Assim, consolida-se cada vez mais este projeto editorial e também mostra a relevância das atividades desenvolvidas pela Base de Pesquisas Históricas e Culturais das Bacias dos Rios Aquidauana e Miranda / BPRAM / DHI / CPAQ / UFMS.

Neste número estão incluídos na seção “Artigos” dois textos inovadores, frutos de pesquisas dos professores Bruno Torquato Silva, Luciene Lemos de Campos e Luciano Rodrigues. O artigo “Acerca dos problemas enfrentados pela burocracia do Exército na introdução do sorteio militar no Estado de Mato Grosso (1916-1945)”, insere-se no terreno da chamada Nova História Militar e contempla um problema central enfrentado pelo Exército Brasileiro, em Mato Grosso, no tocante à reposição de seus quadros efetivos. Ao mesmo tempo aponta fontes que possibilitem discussões sobre as implicações estratégicas da presença militar na região, sobretudo no concernente à defesa das fronteiras ocidentais, à manutenção da coesão nacional e da ordem social.

A seção é encerrada com “Migrantes e migrações: entre a história e a literatura”, texto no qual, a partir da interface da História com a Literatura, os autores discutem o fenômeno da migração, enfatizando os significados contidos nos fluxos populacionais, bem como o papel que os migrantes exerceram e exercem na formação sócio-cultural de diversas etnias.

A Revista Albuquerque, neste número, também dá continuidade na seção “Dossiê” ao assunto “A cidade como objeto de reflexão interdisciplinar”, iniciado no número anterior. Assim, os textos selecionados para este dossiê, produzidos por especialistas vinculados a variadas áreas do conhecimento, as problemáticas da cidade são delineadas como questões significativas, nas quais emergem temáticas variadas que vão desde representações urbanas sobre a modernidade, até a presença de um léxico urbano para nomear e dar significados aos lugares e às gentes.

Finalmente, na seção “Caderno Especial” está inserido um precioso documento, raro e inédito, do frei Mariano de Bagnaia, que vivenciou um momento difícil em sua passagem pela fronteira sul de Mato Grosso, quando foi prisioneiro dos paraguaios durante a Guerra com o Paraguai. Este documento faz parte do acervo histórico do arquivo do Instituto Histórico e Geográfico de Mato Grosso do Sul e foi gentilmente cedido para a sua reprodução nesta revista. São importantes informações sobre as consequências da guerra que retratam os danos financeiros e materiais das igrejas de Corumbá, Miranda, Nioaque, Albuquerque e da Missão Bom Conselho.

Com certeza, a Revista Albuquerque, mais uma vez, contribui como um veículo apropriado à divulgação da produção científica na área da história, para uma profícua reflexão sobre temas históricos e culturais.


Editores. Apresentação. Albuquerque: revista de história, Mato Grosso do Sul, v.3, n.5, 2011. Acessar publicação original [DR]

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Guerra com o Paraguai / Albuquerque: Revista de História / 2011

O ano de 2011 teve um significado especial para os estudos históricos pela comemoração do centenário de nascimento de Nelson Werneck Sodré, historiador, professor e ideólogo que influenciou gerações de estudantes e professores de história, pesquisadores e historiadores. A festiva programação foi intensa, com discussões, simpósios, reedições e publicações de seus livros que enriqueceram a historiografia brasileira. A Revista Albuquerque não poderia ficar alheia a estes eventos. Assim, honrosamente, traz aos seus leitores um interessante artigo de Olga Sodré, sua filha. Este texto enfoca a participação do historiador Nelson Werneck Sodré no polêmico Instituto Superior de Estudos Brasileiros – ISEB, e conta a sua luta pelo desenvolvimento de uma cultura nacional, popular e democrática.

As questões relativas á historiografia regional , um dos objetivos de divulgação da Albuquerque, encontram-se representadas nos artigos de Marcos Hanemann, Valmir Batista Corrêa, Lúcia Salsa Corrêa e Alvaro Neder. O primeiro enfoca a criação do Tribunal de Relação em Mato Grosso e a fragilidade da aplicação da justiça, motivada pela falta de pessoas formadas que quisessem servir na região. O segundo traça um perfil da historiografia mato-grossense, a partir da segunda metade do século XIX, e a marcante influência de Augusto Leverger na formação dos historiadores regionais. O terceiro enfatiza a importância dos documentos históricos para o estudo das epidemias recorrentes em Corumbá, no período de 1856 e 1922. O quarto texto produz uma instigante reflexão sobre a canção popular urbana, tendo como cenário a cidade de Campo Grande – MS.

Na seção “Dossiê”, a Revista Albuquerque abriu espaço ao III Encontro Internacional de História sobre as Operações Bélicas da Guerra da Tríplice Aliança, promovido pelo Instituto Histórico e Geográfico de Mato Grosso do Sul, em parceria com o Comando Militar do Oeste. Foi uma rara e instigante oportunidade de reunir pesquisadores e interessados sobre este conflito bélico, nacionais e estrangeiros. Neste dossiê são apresentados três trabalhos: no primeiro, Bruno Mendes Tulux discute a gênese da formação do espaço fronteiriço e os entendimentos que mantiveram as partes litigiosas, representando os interesses coloniais de Portugal e de Espanha, em diversos momentos, até a eclosão do conflito com os paraguaios em 1864; no segundo, Edgley Pereira de Paula, estuda o uso de caricaturas publicadas na imprensa da época como estratégia de guerra, tanto da parte brasileira como da paraguaia; o texto de Maria Teresa Garritano Dourado propõe-se a analisar as questões relativas a fome, as doenças e as penalidades durante a guerra, vistas sobre o olhar de um soldado comum. Sem dúvida, são trabalhos que contribuem para a compreensão da história da guerra com o Paraguai, abrindo um painel para a releitura crítica do episódio, de suas fontes e de seus desdobramentos.

O encerramento do sexto número dá-se, como nos números anteriores, com o Caderno Especial. Nesta oportunidade, esta seção traz dois textos, também apresentados no III Encontro Internacional de História sobre as Operações Bélicas da Guerra da Tríplice Aliança. O texto de abertura desta seção, de Hildebrando Campestrini, é a apresentação do evento, revelando uma visão peculiar da Guerra da Tríplice Aliança, acrescido de um Referencial Teórico apresentado como indicador aos participantes do evento. O propósito, neste caso, é resguardar o espaço do Instituto Histórico e Geográfico de Mato Grosso do Sul na historiografia regional, proporcionado um saudável diálogo entre historiadores acadêmicos e diletantes.

Para fechar a sua seção especial, a Revista Albuquerque edita, prazeirosamente, uma entrevista com o ex-governador e político Wilson Barbosa Martins.

A Revista Albuquerque em seu sexto número e terceiro ano, em última instância, simboliza o esforço, misto de teimosia e de quixotismo de seus coordenadores e colaboradores, tendo por princípio divulgar e estimular a produção historiográfica em nossa região, mediante os critérios de relevância e de qualidade. Modestamente, acredita-se que estes princípios seguem contemplados nesta edição.


Editores. Apresentação. Albuquerque: revista de história, Mato Grosso do Sul, v.3, n.6, 2011. Acessar publicação original [DR]

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Territorialidades e Influências Afro-Caribenhas nas Américas / Revista Brasileira do Caribe / 2011

VIDIGAL, Leonardo Alvares; SILVA, Carlos Benedito Rodrigues da. Territorialidades e Influências Afro-Caribenhas nas Américas. Revista Brasileira do Caribe, São Luís, v.11, n.22, jan./jun. 2011. Arquivo indisponível na publicação original. [IF].

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Coisas de Cidade: diálogos culturais e interdisciplinares / Caminhos da História / 2011

SILVA, Marcia Pereira da; MARTINS JUNIOR, Carlos. Apresentação. Caminhos da História, Montes Claros, v.16, n.2, 2011. Acesso apenas pelo link original [DR]

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Recôncavo | UNIABEU | 2011

Reconcavo Revista de Historia2

Recôncavo – Revista de História da UNIABEU (Belford Roxo, 2011-)tem como objetivo principal contribuir para a expansão da experiência historiográfica. Neste sentido, o periódico apresentará entre espaços centrais e periféricos do discurso historiográfico um caminho possível entre ambos. Transversalizar diferentes campos  e dessa maneira abrir o canal de troca de experiências e aprendizado entre pesquisadores, professores e alunos.

Fundado em uma instituição privada de ensino localizada na Baixada Fluminense, o periódico terá uma missão importante. Esta que longe de ficar à margem das necessidades ainda correntes de uma região fértil como a Baixada, contribuirá para a pluralidade de uma historiografia que serve a todos.

Assim, a Recôncavo objetiva não somente o acesso ao circuito acadêmico de pesquisas e reflexões geridas no âmbito da Baixada, como atuar de maneira profícua nos diversos campos da História.

Periodicidade semestral.

Acesso livre.

ISSN 2238 2127

Acesso livre

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Perspectiva Histórica | CEBEP | 2011

Perspectiva Historica CEBEP

A Revista Perspectiva Histórica (Salvador, 2011-) é uma revista semestral, cujo objetivo é discutir criticamente temas relevantes para a sociedade brasileira, funcionando como um canal de diálogo entre a produção acadêmica e um público mais amplo.

Procuramos, também, articular diferentes espaços de produção de conhecimento, contando com a participação de autores renomados e novos pesquisadores que apresentem uma produção de qualidade em seus respectivos campos de estudos.

A revista Perspectiva Histórica é publicada pelo Centro Brasileiro de Estudos e Pesquisas (CEBEP). Rua Pedra da Marca, nº 13, Federação, Salvador-Ba. CEP: 40225-260.

Periodicidade semestral.

Acesso livre.

ISSN 2237-3195 (Impresso)

ISSN 446-9459 (Online)

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Minas do ouro, Minas indígena / Revista do Arquivo Público Mineiro / 2011

“Minas do ouro, Minas dos cataguás.” Com esse epíteto, batizou-se o território mineiro, reconhecendo-se, desde os primeiros contatos, os índios como os senhores de todas as Gerais. O que se sabe é que a presença dos colonos se estendia pouco além dos povoados, e tudo o mais era, então, domínio das populações nativas. “Infestando” o território, índios de diversas nações – caiapó, botocudo, puri, coroado, malali, maxacali e pataxó, entre outros – ocupavam todo o cenário até que colonos, avançando pelo interior e desbravando sertões inóspitos, imprimiriam uma nova paisagem ao transpor as fronteiras sob domínio das populações nativas.

No entanto, os trabalhos sobre as Minas dos cataguases, prenúncio de uma História marcada pelo encontro com os índios, pouco contribuíram para o conhecimento do processo histórico a que esses povos foram submetidos com o avanço das frentes de expansão colonizadora. Mesmo que a presença dos povos indígenas tenha sido, reiteradas vezes, tema das discussões administrativas e eclesiásticas, foram ignorados por parte expressiva da historiografia mineira. Ainda que uns poucos historiadores admitissem sua presença nesse cenário, antecipavam suas ressalvas, ao reduzirem a atuação dos índios aos primeiros contatos, sem os tomar sequer como agentes da História e da formação sociocultural de Minas. E, mesmo quando assim foram considerados, eram tidos como meros apêndices dos estudos, prestando-se, quase sempre, a penduricalhos à ação colonizadora e ao protagonismo português, como testemunham as obras clássicas da historiografia que apenas tangenciaram a questão. Leia Mais

Pólvora y tinta: Andanzas de bandoleros anarquistas | Salvador Neves e Alejandro Pérez Coutubre

Em uma época de aprofundamento da integração econômica, geopolítica e cultural entre os países da América do Sul, chama a atenção como os estudos historiográficos sobre os países hispano-americanos ainda são bastante desconhecidos no Brasil. A produção historiográfica uruguaia, por exemplo, é praticamente ignorada no país e a imensa maioria dos trabalhos não possui tradução para o português. Dessa forma, uma quantidade razoável de obras de qualidade dificilmente chegam à comunidade acadêmica brasileira e a potenciais leitores. Um dos muitos casos do tipo é o trabalho de Salvador Neves e Alejandro Pérez Coutubre. Publicado no Uruguai pela primeira vez em 1993 e reeditado em 2006, Pólvora y tinta: Andanzas de bandoleros anarquistas descreve o famoso assalto ao Câmbio Messina, ocorrido em Montevidéu no ano de 1928.

A história, na verdade, inicia-se em outubro de 1927, na capital argentina, Buenos Aires. O Comité Pro Presos y Deportados argentino, carente de recursos para pagar advogados de defesa para os processados, ajudar economicamente às famílias dos presos e, por vezes, construir túneis para auxiliar a fuga dos detidos, decide assaltar o Hospital Rawson no dia do pagamento de seus funcionários. Os assaltantes – em sua maioria imigrantes provenientes da Catalunha – conseguem uma boa soma de dinheiro com a operação, mas acabam matando um policial no tiroteio, o que faz com que a polícia arme um grande operativo para capturá-los. Contudo, os dias passam e a imprensa porteña veicula a possibilidade dos “terríveis bandidos” já não se encontrarem em território argentino. De fato, eles haviam atravessado clandestinamente o rio da Prata com destino ao Uruguai, alcançando, posteriormente a capital do país, Montevidéu.

Montevidéu, palco da maior parte dos acontecimentos descritos no livro, era uma tranquila cidade de aproximadamente 350.000 habitantes, que conservava ainda muitos hábitos provincianos, como a siesta. Contudo, tinha fama de ser um porto seguro para fugitivos e exilados políticos e lá os assaltantes do Hospital Rawson puderam contar com o apoio de militantes anarquistas que viviam em Montevidéu para sobreviverem na clandestinidade. Com efeito, o trânsito de militantes sociais e de foragidos políticos era intenso entre a Argentina e o Uruguai, existindo diversas redes de solidariedade entre os ácratas de ambas as margens do rio da Prata. Contudo, já se faziam sentir os efeitos do freio que os setores conservadores da sociedade buscavam impor às reformas políticas, econômicas e sociais levadas a cabo a partir de 1903, durante o primeiro mandato presidencial do político colorado José Battle y Ordóñez.

Durante a estadia em Montevidéu os anarquistas planejaram cuidadosamente o assalto ao Câmbio Messina. Porém, durante a execução houve imprevistos e falhas, o que fez com que além de não terem conseguido uma soma vultosa, ainda matassem três pessoas e ferissem várias outras durante a fuga. A sociedade ficou chocada com os acontecimentos e os editoriais dos diários conservadores exigiam da polícia e do governo a imediata prisão e deportação dos responsáveis. Era preciso “livrar o país de todos os anarquistas assassinos”. Trabalhando em conjunto com a polícia argentina, os oficiais uruguaios investigaram, descobriram e desmantelaram algumas das referidas redes de solidariedade existentes entre eles, conseguindo capturar alguns dos envolvidos nos dois assaltos.

Para reconstruir a história os autores recorreram principalmente aos jornais da grande imprensa que circulavam no período (El Día, El Diario, Tribuna Popular, etc.) e aos testemunhos dos processos judiciais que se seguiram. Estruturado como uma espécie de romance policial, a narrativa do livro é bastante envolvente e faz com que o leitor se veja quase como uma testemunha dos acontecimentos. Para isso contribuem a linguagem utilizada na reconstrução das falas dos personagens e as referências a fatos importantes da historia do país.

Apesar dos méritos do livro, há alguns pontos negativos. O principal deles é a nítida carência de uma análise de maior profundidade sobre o contexto histórico uruguaio e rioplatense no qual a ação se passou. Poderia ter sido dado um destaque maior às relações políticas entre Uruguai e Argentina e às temáticas referentes à “questão social” no contexto da reação conservadora ao battlismo. Além disso, os autores poderiam ter feito considerações sobre o anarquismo na América Latina, a influência libertária sobre o movimento operário- social uruguaio e caracterizado de maneira clara a vertente conhecida como anarquismo expropriador, à qual se filiavam os assaltantes. A ausência de um mapa de Montevidéu e de imagens na obra (principalmente fotos dos locais dos acontecimentos) prejudica a compreensão e visualização dos fatos – especialmente para os que não conhecem os locais em questão.

Contudo, essas falhas não tiram o valor do livro, que continua figurando como uma interessante leitura não apenas para os interessados na história do país vizinho, mas também para os que se dedicam à história do movimento operário-social latino-americano e do anarquismo na América Latina.

George Zeidan Araújo –  Mestrando em História pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). E-mail: geoaraujo@ymail.com.


NEVES, Salvador; PÉREZ COUTUBRE, Alejandro. Pólvora y tinta: Andanzas de bandoleros anarquistas. Montevidéu: Editorial Sudamericana Uruguaya; Fin de siglo, 2006. Resenha de: ARAÚJO, George Zeidan. Aedos. Porto Alegre, v.3, n.8, p. 223-225, jan. / jun., 2011.

Población Andina de las Provincias de Arica y Tarapacá. El Censo Inédito 1866 – RUZ et. al (C-RAC)

RUZ, Rodrigo; DÍAZ, Alberto; GALDAMES, Luis. Población Andina de las Provincias de Arica y Tarapacá. El Censo Inédito 1866. Arica: Ediciones Universidad de Tarapacá, 2008, pp. 426, Arica. Resenha de: CONTRERAS, Carlos. Chungara – Revista de Antropología Chilena, Arica, v.42, no.2, p.541-542, dic. 2010.

El libro de Ruz, Díaz y Galdames pone a disposición de los estudiosos un documento importante para la historia de una frontera tan convulsionada como la que separan a Bolivia, Chile y Perú. Representa también un producto del trabajo que desde hace varios años ellos llevan adelante acerca del estudio de las poblaciones andinas de una región que ha sido un permanente terreno -ora de olvidos, ora de disputas- entre las élites políticas que controlan los gobiernos nacionales de las repúblicas de Chile, Perú y Bolivia. Estos investigadores, junto con otros colegas, como Jorge Hidalgo, Sergio González, Luis Miguel Glave, Tristan Platt y Mark Thurner (por nombrar a algunos), han tenido el mérito de mostrar cómo paralelamente a las “historias nacionales” construidas bajo el canon académico del romanticismo y el positivismo europeos, fluyeron las historias de otras comunidades, que en cierta forma trascendieron los moldes nacionales modernos. Los pueblos andinos de las provincias de Arica y Tarapacá han debido mutar de “incas”, en “españoles”, “peruanos” y “chilenos”, buscando acomodarse a su cambiante filiación.

El mapa de la carátula del libro recuerda que Arica y Tarapacá correspondieron en el siglo XIX al departamento peruano de Moquegua, que a su vez nació de una escisión de lo que fuera la antigua intendencia de Arequipa en la tardía época colonial. Tensionada entre sus relaciones con el sur peruano (Arequipa) y el altiplano boliviano (la región minera de Potosí), y escasa de agua, la región se caracterizó por su especialización en la minería. Tras la era de la plata, llegó la del salitre, que terminó provocando la Guerra del Pacífico de 1879 y la anexión a Chile de dichos territorios. Pero mientras en los mapas los nombres de letras grandes cambiaron con el tiempo, los de los pueblos, de letras pequeñas, permanecieron, representando con su persistencia la continuidad de una historia, en medio de las turbulencias desatadas por la política de diplomacia y cañonazos de las élites reinantes en las lejanas capitales nacionales.

Tal como mencionan los autores, el censo peruano de 1876 fue el primer censo de esta república organizado según cánones modernos, aunque oficialmente el Estado peruano reconoce tres censos nacionales anteriores, a saber: los de 1836, 1850 y 1862. Con la finalidad de levantar la contribución de indígenas y castas (junto con otras contribuciones, que afectaban a los habitantes no indios) las autoridades políticas de cada provincia peruana debían realizar censos o “matrículas” de los habitantes de sus circunscripciones cada cinco años. Algunas de estas matrículas existen en el Archivo General de la Nación de Lima, para fechas dispersas. Sobre la base de los informes de los subprefectos, las Guías de Forasteros y el diario oficial “El Peruano” publicaban periódicamente cifras de población de los departamentos del Perú, que luego se consolidaban en un total nacional. Desde luego, los subprefectos, que estaban al mando de las provincias, no fueron capaces de mantener el ritmo quinquenal de los empadronamientos y los apoderados fiscales que contrataban para estos menesteres, a veces se contentaban con cotejar los registros de bautizos y defunciones de las parroquias para presentar las nuevas cifras de contribuyentes.

La abolición de la contribución de indígenas y castas en 1854 terminó con la necesidad de tales recuentos para fines fiscales, pero en los años siguientes se discutieron en el Congreso varios proyectos encaminados a reintroducir algún tipo de impuesto general a la población económicamente activa, que reemplazase al abolido “tributo”. Ninguno de ellos llegó a ser aprobado -y cuando llegó a serlo, no alcanzó a ser aplicado-, hasta que en 1865 una revolución estallada en el marco de la crisis del conflicto con España llevó al gobierno al coronel Mariano Ignacio Prado. Su Ministro de Hacienda fue Manuel Pardo y Lavalle. Sin Congreso que se le opusiera, éste consiguió instaurar un impuesto universal al que se denominó “contribución del jornal”, por estar basado en el pago al Estado de doce días de jornal al año. Probablemente el censo de Arica y Tarapacá ubicado por Ruz, Díaz y Galdames conesponda a los esfuerzos de las autoridades nacionales y locales por actualizar las cifras de tributarios con vistas a la nueva contribución. Esta imponía un pago anual al Estado de acuerdo al nivel del jornal prevaleciente en cada provincia, por lo que se requería un “estado” de la población activa de cada una de ellas, con los datos de ocupación económica y oficio, que permitan deducir su nivel de ingresos.

La Guía Política, Económica y Militar de 1858 estimó para el departamento de Moquegua la cantidad de ochenta mil habitantes, con esta anotación: “Su población, según los censos practicados en el año 1858, pasa de 80.000 almas, lo que no puede dudarse desde que es tan considerable la inmigración que hay de bolivianos, chilenos y europeos sobre las provincias de Tacna, Arica y Tarapacá, estimulados por el subido jornal que se paga y facilidades para adquirirlo” (p. 245).

La historiografía peruana sobre el siglo XIX ha sido una buena muestra de ese silencio sobre la población indígena que refieren los autores en su texto introductorio del libro. Falta de fuentes sobre la población indígena, una vez que la crisis del Estado colonial dejó paso a una república que se pretendía más criolla que andina; falta de rebeliones que despertasen la atención de los historiadores; falta de interés del propio Estado por la población andina, desde que la riqueza del guano hizo prescindible su contribución fiscal; todo se confabuló para alejar a los historiadores de los avatares de una población que componía tres quintas partes de la población nacional. Sólo recientemente, gracias al trabajo de los autores antes citados, a los que cabría añadir a otros como Jean Piel, Florencia Mallon, Nelson Manrique y Cecilia Méndez, que desarrollan una historiografía menos étnica pero igualmente preocupada en el “rescate” del papel de los campesinos, ese olvido ha comenzado a corregirse.

En medio de tales esfuerzos es que ubico el trabajo de Rodrigo Ruz, Alberto Díaz y Luis Galdames. Y por supuesto lo saludo y encomio como digno de todo apoyo, allá y acá. Con frecuencia sus autores tropezaron con la incomprensión y los recelos nacionalistas del personal de los repositorios, y nunca fueron considerados por las comisiones binacionales de historiadores, que se reunían en las antiguas capitales virreinales a tratar de curar las heridas de las guerras en la conciencia de los pueblos. Me alegro de que no hayan desmayado frente a los obstáculos y de que ahora podamos tener en las manos este estupendo documento que ayudará a reconstruir un pasado que realmente une a nuestros pueblos.

Lima, julio de 2009

Carlos Contreras – Departamento de Economía, Pontificia Universidad Católica del Perú, Lima, Perú. ccontre@pucp.edu.pe

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Roberto Gerstmann. Fotografías, Paisajes y Territorios Latinoamericanos – ALVARADO (C-RAC)

ALVARADO, Margarita; MATTHEWS, Mariana; MÖLLER, Carla Möller. Roberto Gerstmann. Fotografías, Paisajes y Territorios Latinoamericanos. Santiago: Pehuén, 2009. 179p. Resenha de: MIRANDA, Pablo. Chungara – Revista de Antropología Chilena, Arica, v.41, n.2, p.317-318, dic. 2009.

La percepción de lo inalcanzable que pueden evocar las fotografías se suministra directamente a los sentimientos eróticos de quienes ven en la distancia un acicate del deseo… todos los usos talismánicos de la fotografía expresan una actitud sentimental y explícitamente mágica: son tentativas de alcanzar o apropiarse de otra realidad, Susan Sontag.

Roberto Gerstmann: El pasado en blanco y negro. Ver un álbum fotográfico es una labor arqueológica: hojeamos sus páginas una a una, avanzando cuidadosamente y a medida que avanzamos penetramos cada vez más en las profundidades de nuestra memoria, es decir, de nuestros recuerdos, de nuestros olvidos, de nuestra imaginación, abriendo lo representado, lo fotografiado, hacia nuevas dimensiones, ordenándolo para una lectura, porque siempre hay algo que decir sobre una imagen, sobre una serie de ellas. Siempre hay una realidad que construir, una historia que contar.

La emoción suscitada por este ritual será más profunda en la medida que aquello representado esté más íntimamente relacionado con la vida personal del observador; un extremo de la experiencia transforma al espectador en vidente, el otro, en turista, viajero en un mundo que no le pertenece.

Ciertos álbumes de viajes logran equilibrar ambas dimensiones: tiempos y espacios diversos que nos permiten configurar nuestro propio relato, entrever, interpretar. Vernos.

Acceder a un tiempo que no es el nuestro, pues “no existíamos”, pero paralelamente ingresar a espacios familiares, aunque transformados: hemos estado allí y a la vez nunca lo hemos hecho.

Porque ciertamente yo he estado y no he estado en esa quieta estación de trenes en Bolivia, en esas calles de un Santiago todavía provinciano; he visto y no he visto los ojos de ese niño chipaya que mira intrigado la cámara. He estado y no en el inmenso desierto.

A través de las imágenes de Gerstmann, el pasado irrumpe y transforma el presente, habitándolo de la nostalgia de un mundo que jamás conocimos, pero que tal vez al observarlo fijo por toda la eternidad, en su imposible quietud, lejos de generar una lectura única, nos instan a traducir, interpretar y traicionar estas fotografías, y en ese sentido se vuelven inagotables en su productividad, por lo que se desarrolla un fenómeno de creación y recreación permanente, elaborando nuevos sentidos, rutas y comprensiones.

Esto es justamente lo que transforma este recorrido visual en una experiencia siempre contingente y no en un mero ejercicio estético, ya que releer las fotografías y animarlas es también una de las rutas de la mirada humana: volver sobre la casa que ya no está, sobre el paisaje desaparecido y preguntarse cómo, quién o por qué es entrar en el juego del relato, pues así como las fotografías son fragmentos y jirones de historia, los hombres son también seres fragmentados que sólo hablan desde los límites de sus experiencias en un intento de constituirse como unidad.

Ver estos rostros, ver estos parajes es emocionarse viendo la propia historia. Lo que quedó sin habla logra voz desde la imagen de este álbum, penetrando la experiencia personal de cada observador y traspasándola con la memoria de lo propio (el acto fotográfico perfecto es esencialmente un ritual solitario, Gerstmann lo sabía).

Así, nos interpelan gentes que ya no existen, pueblos que han desaparecido, formas de vida que han caducado, paisajes que se han transformado; hablan para, por y con nosotros, desmintiendo de alguna manera su muerte a través de la imagen y la reflexión que ésta suscita, del recuerdo que revive.

Acicateado por el deseo, elijo una fotografía, una sola de todas aquellas que detienen mi mirada: la Iglesia de Los Dominicos, año 1924, levantándose solitaria a los pies de una Cordillera de los Andes seminevada con un cielo transparente de fondo; un carretero y su caballo dormitan al atardecer (eso lo dicen las sombras), ofreciendo una imagen al futuro que es imposible mirar desde el presente sin nostalgia.

Yo he estado ahí. Yo nunca he estado ni podré estar ahí. Hay cierto sentimiento ominoso en toda gran fotografía y el álbum de Gerstmann está repleto de ellas. Todos podrán tener la suya. En blanco y negro. Porque ese es el color de la memoria.

Pablo Miranda – Escuela de Arte, Pontificia Universidad Católica de Chile, Santiago, Chile. E-mail: pmirandb@uc.cl

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Pueblos Nómades en un Estado Colonial – NACUZZI et al (C-RAC)

NACUZZI, Lidia R.; LUCAIOLI, Carina P.; NESIS, Florencia S. Pueblos Nómades en un Estado Colonial. Chaco, Pampa, Patagonia, Siglo XVIII. Buenos Aires: Editorial Antropofagia, 2008. 112p. Resenha de: ZAPATA, Horacio Miguel Hernán. Chungara – Revista de Antropología Chilena, Arica, v.42 n.2, p.535-538, dic. 2010.

En 1924 iniciaba su recorrido esa obra que Marc Bloch tituló Los reyes taumaturgos, texto que invitaba a recorrer la historia de las creencias colectivas del milagro real y que instaba a adoptar una novel modalidad para elaborar y resignificar los problemas históricos al sostener que no habría conocimiento verdadero si no se tenía una escala de comparación. A través de sus páginas, este insigne historiador proponía comparar sociedades cercanas en el tiempo y en el espacio que se influían mutuamente, es decir, sociedades sujetas por su proximidad a la acción de los mismos grandes fenómenos y a la presencia de rasgos originarios comunes. Esta perspectiva de análisis trae aparejadas varias consecuencias importantes, tales como percibir las influencias mutuas que permiten avanzar más allá de una explicación estrictamente atada a los fenómenos internos de los distintos problemas, encontrar vínculos antiguos y perdurables entre las sociedades y proveer numerosas líneas posibles para nuevas investigaciones. Es evidente que la perspectiva comparada es una de las grandes promesas incumplidas de la historiografía occidental durante el siglo XX, y eso se debe, justamente, a las dificultades que implica su ejercicio, en especial en el caso de las investigaciones regionales. El libro Pueblos Nómades en un Estado Colonial. Chaco, Pampa, Patagonia, siglo XVIII, elaborado por Lidia R. Nacuzzi, Carina P. Lucaioli y Florencia S. Nesis recupera -por así decirlo- la tradición historiográfica iniciada por Bloch pero desde la clave de la etnohistoria. Él mismo explora las posibilidades de una reflexión comparativa que ponga en diálogo diversos estudios realizados en los últimos años sobre los grupos indígenas nómades que, hacia la segunda mitad del siglo XVIII, habitaban la Pampa, el norte de la Patagonia y el Chaco austral, en la región que en 1776 conformó el Virreinato del Río de la Plata, ocupada también por poblaciones sedentarias. En este último término, las autoras incluyen a aquellos grupos que lo eran siguiendo sus tradiciones ancestrales, otros que habían sido reducidos en pueblos bajo la tutela de misioneros jesuítas y los propios hispanocriollos que se establecían en ciudades y fortines.

La delimitación de estas áreas en el escenario de una macrorregión y la elección del tipo de sociedades obedecen a dos razones. En primer lugar, dar prioridad a un conjunto de temáticas que han sido objeto de las propias inquietudes y, por ende, de las trayectorias de especialización investigativa de las autoras. Los recortes temáticos y los escenarios abordados se vinculan a los propios antecedentes de las mismas, suficientemente trabajados, argumentados y documentados en libros, artículos, capítulos, ponencias y comunicaciones. En efecto, el libro da muestras de una fructífera convivencia de la reciente producción de dos jóvenes investigadoras con la reconocida trayectoria interpretativa de una experimentada académica, así como de la significación que los estudios etnohistóricos encierran para la comprensión de un mundo indígena complejo, heterogéneo, dinámico y contrastante. De la misma manera, el ejercicio de síntesis se ve beneficiado con la utilización crítica y la discusión explícita de ciertas obras publicadas en los últimos años, referidas al área rioplatense o al sur sudamericano, que han contribuido, en igual sentido que estas investigadoras, a la comprensión de algunos de los fenómenos que ocurrieron en la vida social, política, económica y simbólica de las sociedades indígenas latinoamericanas del siglo XVIII. A partir de estos esfuerzos mancomunados, se observa una obra madura, rica en aristas y que puede continuar creciendo y afianzándose a partir de nuevas preguntas y síntesis. En segundo lugar, el recorte temático obedece a la contemplación de un proceso sociohistórico común que opera como contexto de problematización: en aquella coyuntura de estructuración del nuevo Virreinato y como resultado del contacto con los europeos en la larga duración, esas poblaciones originarias nómadas habían experimentado transformaciones radicales en sus formas habituales de intercambio, movilidad, adquisición de recursos económicos y explotación de los productos naturales autóctonos. A ello se sumaban las mutaciones percibidas en sus configuraciones sociopolíticas y sus nuevas estrategias de relación con los hispanocriollos que, si bien comenzaban a andar en este momento, ratificarían su tendencia y consolidarían su carácter unas décadas más tarde.

El volumen, dividido en una introducción, ocho capítulos y un apartado con bibliografía especializada, procura discutir las ideas de la semejanza cultural entre los grupos indígenas que habitaban estas regiones hasta la llegada de los europeos y de la univocidad de las estrategias en relación con los agentes colonizadores. El libro se sumerge de lleno en estas cuestiones asumiendo uno de los principales riesgos que ello implica: la abundancia de preconceptos y de apriori. De este modo, su segundo objetivo es mucho más ambicioso: repasar algunas de acciones y las actitudes, tanto de las poblaciones originarias como de sus colonizadores, con el ánimo de compararlas y explicar de una manera diferente, pero sobre todo más compleja, diversos temas y problemas que por muy conocidos -o tal vez sólo por muy mencionados- parecen no requerir un análisis crítico. En lo que al basamento de fuentes de primera y segunda mano se refiere, no es para nada ocioso insistir aquí en que las autoras se apartan de cualquier enfoque histórico positivista que ampare una lectura con pobreza de rigor. Todos los documentos que se citan, que por cierto son muy profusos y diversos en orígenes (relatos, cartas, informes, descripciones elaborados por los funcionarios, sacerdotes y viajeros, u otro tipo de personajes), más allá de estar viciados de antemano por la intencionalidad de los mismos, son leídos y enmarcados con mucha atención y cuidado. De esta forma, la interpretación acerca de la documentación logra ir más allá del polvoriento mundo de los papeles, indefectiblemente mediado por lenguajes, formas narrativas y códigos de inteligibilidad de la sociedad hispanocriolla, para ir al encuentro de las propias voces y acciones de los indígenas en proposiciones referidas a sus prácticas y experiencias. El primer capítulo, “Algunos conceptos instrumentales para el estudio de los pueblos nómades”, como bien indica su título, ahonda en aquellos aspectos clave del marco teórico y conceptual, repasando las categorías que se han empleado y que continúan manejándose todavía hoy para describir y analizar el proceso de conocimiento de los grupos indígenas americanos nómades por la sociedad europea. Deconstruyendo los prejuicios, sentidos comunes y problemas en los cuales se incurría por la mirada etnocéntrica y evolutiva de los primeros observadores, historiadores y etnógrafos que analizaron los pueblos nómades, las autoras son conscientes que algunos de tales conceptos son útiles como instrumento de análisis. Se presentan de este modo algunas formulaciones en torno a categorías de frontera, etnogénesis, middle ground, mestizajes, tribu, cacicazgos y jefaturas, al mismo tiempo que las desbroza críticamente para poder plantear un nuevo diálogo con los registros empíricos, complejizar las múltiples estrategias sociales, políticas y económicas que se pusieron en acción y, en definitiva, modificar la idea generalizada de un contacto cultural basado sólo en la violencia entre las sociedades aborígenes y los hispanocriollos.

El segundo capítulo enseña un minucioso examen del “espacio geográfico y político” en el cual habitan los grupos analizados, detallando las características fundamentales desde el punto de vista espacial y ambiental de las áreas pampeano-patagónica y chaqueña. También se explaya en las formas de equipamiento político, administrativo y social que tienen lugar en tales territorios a partir de la instalación del sistema colonial. El mapa en esta sección permite una rápida visualización de los establecimientos españoles en dichos espacios (ciudades, fuertes y reducciones) al mismo tiempo que traza cartográficamente los resultados, avances y retrocesos territoriales efectivos de la política llevada a cabo por la Corona hispánica para poblar, dominar y evangelizar a los indígenas. En efecto, en todas estas regiones no colonizadas se ensayaron alternativamente los mismos tipos de dispositivos de control: los fuertes y las reducciones se ubicaban dentro de un proyecto más global que tenía por objetivos avanzar sobre los territorios indígenas, sentar precedentes del dominio español en determinados lugares y mediar los conflictos entre hispanocriollos y poblaciones nativas. Uno y otro asentamiento pusieron a la vista otros dos caracteres que los asemejaban en función estratégica y en su dinámica: ambos escenarios constituyeron verdaderos enclaves fronterizos antes que una efectiva presencia política del dominio colonial, mientras que la fundación y permanencia de los enclaves en el tiempo, ya fueran reducciones o fuertes, fue posible en la medida que allí se dio una confluencia de intereses de los grupos indígenas y de las autoridades coloniales implicadas. Las autoras, no obstante, son prudentes al destacar que la conformación geopolítica propia de estos espacios no colonizados y los grupos involucrados imprimieron perfiles especiales a cada uno de los movimientos hispanocriollos. Así lo demuestra, a guisa de ejemplo, el proceso de evangelización: mientras que en el Chaco la política reduccional estableció espacios de interacción más visibles y duraderos donde la existencia de centros urbanos cercanos habría posibilitado el acceso a nuevos recursos, la facilidad de entablar diálogos y canalizar ciertas necesidades a partir de una relación asidua, constante y directa con los funcionarios eclesiásticos y gubernamentales, en la zona de Pampa-Patagonia, simultáneamente, el territorio controlado por los pueblos nómades era mucho más vasto y no existía el tipo de poblamiento colonial que hubiera representado barreras políticas o geográficas que los contuviera, por lo que la política reduccional fracasó o no tuvo el éxito esperado. En este último caso, las reducciones no fueron por así decirlo la “punta de lanza” de la conquista, por lo cual españoles y criollos se valieron de los fuertes para ocupar estas fronteras. Los fuertes se volvieron rápidamente arenas donde operaron novedosos y complejos vínculos sociales, políticos, comerciales y culturales con los aborígenes de la zona.

En el tercer capítulo, “Los grupos indígenas”, las autoras presentan un recorrido por las diferentes menciones y descripciones que han realizado, desde el siglo XVIII, misioneros, funcionarios coloniales, viajeros y primeros etnógrafos sobre aquellos grupos que habitaron las regiones. De esta manera, se aprecia tanto la exagerada, aunque siempre constante, diversidad de criterios para su caracterización como las múltiples nomenclaturas que recibieron estas poblaciones, recapituladas de manera clara y precisa al final de la sección a partir de dos cuadros de síntesis. Ello permite mostrar cómo, tanto para la región pampeano-patagónica como para la chaqueña, los estudios etnográficos que se realizaron hasta la década de 1980 identificaron a numerosos conjuntos, aunque muchas veces se trató de una precisión meramente nominal, a la vez que reconocieron la biparticipación clasificatoria que señala a las mismas sociedades como nómades por un lado (como los tehuelches, abipones, tobas mocovíes) y, por el otro, a comunidades más sedentarias con prácticas agrícolas (como los mapuches, lides vuelas). Este aspecto lleva a las autoras a plantear otros dos paralelismos en las investigaciones realizadas sobre las zonas propuestas. En primer lugar que, en el devenir de los estudios etnográficos hacia los estudios históricos o etnohistóricos, en ambas regiones se pasó de la mencionada enumeración de una gran cantidad de nombres étnicos -aunque con escasas diferencias formales entre unos y otros a la hora de describir a los grupos- a evitar mencionar esas subdivisiones en trabajos más recientes que se ocupaban de aspectos económicos, políticos, ceremoniales o sociales, donde la adscripción étnica parece no pesar tanto. En segundo lugar, que en esos mismos estudios de etnografía clásica anteriores a 1980, hubo una tendencia -en principio solamente para la región patagónica, pero que luego se reproduce con fuerza en el caso chaqueño- a considerar datos que brindaban fuentes de diversos periodos y lugares como válidos para describir a las poblaciones étnicas de cualquier momento del período de contacto y de cualquier lugar de los extensos paisajes considerados.El capítulo cuarto se detiene en los territorios y los movimientos de estos grupos indígenas. Las autoras no se limitan por supuesto a mostrarnos estos movimientos, de por sí interesantes, sino a tratar de explicar sus causas, estructuras, condiciones y sus efectos sobre la economía de los mercados coloniales. Muchos lectores se sorprenderán -como quien reseña y gusta observar las dinámicas sociales cartografiadas en algún formato- del hecho de que no encontraremos mapas, planos o intentos de croquis en este capítulo que sitúen tales movimientos. Pero la exposición amena y sencilla permite bosquejar históricamente la ubicación y diferenciación de cada uno de los grupos como así también los ciclos que les permitían explotar diferentes recursos desplazándose por diversos territorios a lo largo de todo el año o reuniéndose en espacios acordados previamente para intercambiar bienes, dedicarse a ciertas actividades económicas y atender ciertas cuestiones políticas y sociales, como las alianzas o los matrimonios. Las autoras, siempre atentas a las peculiaridades de las sociedades trabajadas, discuten en su análisis algunas de las teorías comúnmente aceptadas en los trabajos de este tipo. Así, por ejemplo, las nociones acerca de que los pueblos nómades del Chaco y la Patagonia eran exclusivamente cazadores o cazadores-recolectores o viceversa y que, por ende, la actividad predominante era la caza de grandes presas (siendo la recolección una mera actividad adicional irrelevante), que sus movimientos estaban condicionados por el medio ambiente, que limitaban sus prácticas económicas a la subsistencia, que eran “salvajes por no practicar la agricultura ni formar pueblos o que no programaban sus movimientos ni su vida cotidiana”.

A su turno, el quinto capítulo considera la “adopción del ganado” y las “nuevas estrategias económicas”, repasando los contextos económicos de los grupos que recibieron o adoptaron el caballo y los debates asociados a la crítica de la noción de complejo ecuestre o “horse complex”. Aquí las autoras recuperan la noción de complementariedad para entender las relaciones económicas y enmarcan la incorporación del caballo, luego de una completa muestra de los diferentes usos y de las consecuencias (sociales, ceremoniales, políticas y económicas) que ocasionó su adopción, en un proceso histórico que involucró no sólo la anexión de otros bienes que aparecieron por el contacto con los europeos, sino también, y desde otra dirección, cambios importantes en las relaciones interétnicas, las configuraciones identitarias y las estrategias políticas, tema que será abordado en el siguiente capítulo. En efecto, el último capítulo estudia, en su primera sección, las dinámicas operadas en las formas de autoridad política que existían entre las poblaciones indígenas de Chaco, Pampa y Patagonia. A los fines de dar cuenta de la complejidad de los liderazgos y de las múltiples instancias en la que era necesaria su agencia y se daba cita su rol mediador, las autoras distinguen los diversos rasgos que tuvo la figura del cacique en cada uno de las etnias, teniendo en cuenta distintas variables, como, por ejemplo, la participación de tales personajes en la conformación de las reducciones en el área del Chaco, la existencia de cacicazgos duales en el área patagónica o su vinculaciones de diversa índole con los fuertes de la región.

La sensibilidad comprensiva de las autoras a los problemas peculiares de las regiones y de los grupos que estudian se refleja en la otra sección del capítulo seis: las interacciones étnicas. En el cuadro de relaciones interétnicas complejas, la guerra y la diplomacia conformaron algunas de las tantas siluetas significativas de esas relaciones, resultado de los roces que la mayor proximidad generaba y de la creciente competencia por los recursos. Ante dicha situación, las autoridades procedieron de diferentes formas: trataron de obtener la amistad de algunos caciques con regalos y dádivas para oponerlos a los más agresivos, aprovechando para ello las rivalidades intertribales; intentaron instaurar misiones, tarea que estuvo a cargo de religiosos y que tuvieron corta existencia; buscaron fortalecer la frontera creando una organización militar basada en un sistema de fuertes, fortines y guardias y en un cuerpo de militares permanente. Guerra, alianza y reducción, entonces, fueron tres modalidades de vinculación interétnica que los diferentes actores de la sociedad hispanocriolla estimaron debían ir de la mano en tanto dispositivos centrales y concomitantes de la estrategia de sujeción sobre la población autóctona. Pero más allá los reveses de estas políticas, las etnohistoriadoras encuentran que tanto en la reducción (como manera de sujeción pacífica), en los tratados (como acuerdos de sosiego coyuntural) e inclusive en la guerra (como punición a los excesos), los caciques fueron siempre los interlocutores buscados por los agentes coloniales ya que, a cambio de la obtención de bienes y de exigir ciertos servicios y prerrogativas, facilitaban el acceso a los grupos, el conocimiento de sus políticas, las negociaciones económicas, la devolución de cautivos y los acuerdos de paz. Por supuesto, estas condiciones dependieron tanto de las aptitudes y estrategias grupales de los pueblos no sometidos aún al control del estado colonial como de las necesidades de la población blanca, ambos resortes emplazados en ámbitos regionales y locales que le otorgaban su impronta específica.La manera magistral con que se abordan las problemáticas muestra al enfoque comparativo como una excelente herramienta para poner a prueba la comodidad y la pertinencia de muchos de los supuestos que parecían demostrados para estos grupos, para desbrozar las similitudes y diferencias de las dinámicas sociohis-tóricas que involucraron a los mismos, para producir nuevas respuestas a problemas ya planteados y nuevos interrogantes que permitieron revisar los siguientes tópicos: la identificación de grupos étnicos y sus nombres-rótulos, los prejuicios en torno al nomadismo y su verdadera dimensión (en regiones ora poco exploradas por los hispanocriollos, ora en donde se habían establecido un número considerable de reducciones), las nociones de territorialidad de los grupos, la existencia de cacicazgos duales, las pautas económicas de estos cazadores-recolectores, el rol de los caciques en las relaciones interétnicas, el papel de los bienes europeos en su economía, los procesos de especialización para responder a la demanda de los mercados coloniales y la complementariedad -principalmente en los aspectos económicos, pero también de otros tipos- entre grupos nómades y grupos sedentarios.

Sin duda, como todo intento de síntesis, éste ofrecerá en el futuro algunos caminos novedosos e hipótesis a confirmar o a rectificar que estimularán nuevas investigaciones. Pero además, redundará en una experiencia más que significativa para el lector, ya que obtendrá una imagen más nítida de cómo los pueblos aborígenes del norte de la Patagonia y la Pampa como los del Chaco austral, aun reducidos, desarrollaron una manera de vivir en esa condición que se adaptaba a sus pautas anteriores -sobre todo en cuanto a movimientos- y les permitía flexibilizar la inmovilidad que hubiera supuesto la vida en un pueblo de reducción y de cómo aquellas sociedades que no ingresaron en este tipo de situaciones y permanecieron autónomas fueron protagonistas muy activas de los contactos interétnicos, desarrollando espacios de acción y comunicación con los europeos, entrecruzando sus prácticas socioculturales e improvisando formas originales de actuar e intervenir en diversas esferas de la vida social y política, lo que los transformó en agentes no secundarios en la historia de dichas interacciones sociales. En el esfuerzo de dejar atrás viejas concepciones, de no crear nuevos mitos y de confrontar las agencias indígenas en la realidad rioplatense, Pueblos Nómades en un Estado Colonial… constituye un excelente comienzo. Y eso es ya decir mucho.

Horacio Miguel Hernán Zapata – Escuela de Historia-Centro Interdisciplinario de Estudios Sociales (CIESo), Facultad de Humanidades y Artes, Universidad Nacional de Rosario, Rosario, Argentina. E-mail: horazapatajotinsky@hotmail.com

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Monuments, Empires, and Resistance: The Araucanian Polity and Ritual Narratives – DILLEHAY (C-RAC)

DILLEHAY, Tom D. Monuments, Empires, and Resistance: The Araucanian Polity and Ritual Narratives. Nueva York: Cambridge University Press, 2007. 484P. Resenha de: Chungara – Revista de Antropología Chilena, Arica, v.42 n.2, p.539-540, dic. 2010.

Este libro ofrece una nueva mirada sobre la organización sociopolítica y religiosa de los Araucanos en la región central sur de Chile entre 1550 y 1850, a través del análisis arqueológico de paisajes sagrados, fuentes etnohistóricas y las narrativas rituales de chamanes (machi) contemporáneos. Dillehay aborda los amplios contextos regionales, intelectuales y materiales del monumentalismo araucano desde diferentes ángulos, incluyendo la economía política, la historia cultural, el materialismo cultural, la ideología, la teoría de la práctica, el simbolismo y el significado. Los montículos de tierra ceremoniales (kuel) son monumentos estéticos, líneas temporales, monumentos conmemorativos, identidades e ideologías arquitectónicas. Ilustran cómo se desarrollaron los paisajes sociales como parte de una nueva organización política, muestran cómo los líderes políticos tradicionales y los chamanes sacerdotales habitaban espacios sagrados y cómo les conferían valor a estos espacios para articular sistemas ideológicos dentro de la sociedad en general. El mapa araucano de rutas y lugares sagrados conecta los kuel con el mundo espiritual, cosmológico y natural así como con la historia de estos lugares en un recorrido topográfico sagrado. La articulación del poder ritual, social y del conocimiento era, por lo tanto, esencial para la construcción y expansión de la organización política regional araucana. Esta organización resistió eficazmente el avance extranjero durante tres siglos -primero de los españoles y luego de los chilenos-, hasta su derrota definitiva en 1884. Dillehay demuestra cómo los Araucanos manipulaban los conceptos de espacio, tiempo, memoria y pertenencia para oponerse a los intrusos y expandir su poder geopo-lítico en una organización política unificada, a medida que cambiaban las relaciones interétnicas a lo largo de la frontera española.

Dillehay cuestiona las percepciones anteriores de los Araucanos como grupos patrilineales descentralizados de cazadores y recolectores enfrentados unos con otros. Muestra que los valles de Purén y Lumaco utilizaron modelos andinos de autoridad estatal y su propio esquema cosmológico para desarrollar una organización política agrícola regional compuesta por patrilinajes dinásticos confederados con un alto grado de complejidad social y poder político. Esta confederación de organizaciones geopolíticas cada vez más amplias se constituyó en primera instancia en el nivel local de multipatrilinaje (ayllarehue) y, finalmente, en el nivel interregional (butanmapu). Dillehay sostiene que la organización política era jerárquica, aunque al servicio de un sistema religioso y sociopolítico heterárquico horizontal en el que los líderes compartían posiciones de poder y autoridad. Dillehay cuestiona la idea de que el control político esté ligado a la acumulación de riqueza material y poder ritual. Los Araucanos apreciaban y rivalizaban en gran medida por el prestigio y el respeto y el control del pueblo, pero existían muy pocas diferencias materiales entre los distintos líderes araucanos hasta fines del siglo XVIII. El período de uso del kuel dependía de la capacidad de liderazgo y de la sucesión de linajes dinásticos. Hoy en día las alianzas entre los kuel establecidas a través del matrimonio y su distribución en los valles de Purén y Lumaco emulan la organización espacial y de parentesco de los linajes que habitan el valle.

Los montículos interactivos de aspecto humano construidos por los Araucanos entre 1500 y 1850 requerían rituales para apaciguar, ofrendas de chicha y sangre de oveja, y obediencia a la ideología panaraucana a cambio de bienestar, protección, fertilidad agrícola y predicciones futuras. Los montículos, volcanes y montañas son equivalentes conceptuales y están asociados con las necesidades araucanas de defensa, territorio, refugio, contención e identidad relacional con volcanes y espíritus ancestrales. Los kuel son parientes vivos que unen a los Araucanos de diferentes regiones y promueven la soberanía étnica. Los kuel eran enterratorios de chamanes y jefes, monumentos conmemorativos de ancestros y genealogía, señales de estatus para líderes de linaje y lugares de ceremonias, festividades y poder político. Los sacerdotes chamanes (machi) realizaban rituales colectivos en los kuel para obtener consuelo, curación y bienestar. Los líderes políticos y militares (Ulmén, longko toqui) utilizaban los kuel para sus discursos políticos. Estas performancias públicas reorganizaban los conceptos araucanos de culto a los ancestros, religión e ideología comunitarios en un marco más amplio y complejo para brindar apoyo a la organización política, y servían para reclutar mano de obra y soldados.

Si bien con Dillehay hemos documentado anteriormente y en forma independiente la práctica de los chamanes sacerdotales araucanos en los valles centrales del sur de Chile en el siglo XVII y en contextos contemporáneos, este libro es el primero en vincular las prácticas rituales sacerdotales de las machi con los montículos sagrados. El libro detalla cómo las machi contemporáneas se comunican con los montículos a través de ñauchi (alfabetización de montículos) y ofician de mediadores entre el montículo, la comunidad y otras deidades y espíritus. Los montículos son espíritus parientes que interactúan con machi contemporáneos, lugares de conocimiento donde las comunidades recuerdan su historia y expresiones materiales de la cosmología araucana. Los Araucanos contemporáneos de los valles de Purén y Lumaco continúan utilizando montículos para mantener relaciones entre pratilinajes y entre los vivos y muertos, el pasado, el presente y el futuro. Queda por ver el rol que los montículos y sus marcos sociopolíticos desempeñan en los movimientos contemporáneos de resistencia panaraucana.

Monuments, Empires and Resistance es un texto importante para arqueólogos y antropólogos interesados en los procesos demográficos, ideológicos y sociopolíticos asociados con el monumentalismo.

Ana Mariella Bacigalupo – State University of New York En Buffalo, USA. E-mail: anab@buffalo.edu

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Salud e Interculturalidad en América Latina. Antropología de la Salud y Crítica Intercultural – JUÁREZ (C-RAC)

JUÁREZ, Gerardo Fernández (Coordinador). Salud e Interculturalidad en América Latina. Antropología de la Salud y Crítica Intercultural. Quito: Agencia Española de Cooperación Internacional, Servicio de la Universidad de Castilla-La Mancha, Fundación para la Cooperación y Salud Internacional Carlos III y Junta de Comunidades de Castilla-La Mancha, Ediciones Abya-Yala, 2006. 450p. Chungara – Revista de Antropología Chilena, Arica, v.42 no.2, p.543-547, dic. 2010.

La aparición de la antología Salud e Interculturalidad en América Latina. Antropología de la Salud y Crítica Intercultural ha sido una nueva hazaña de corte académico por la que hay que felicitarle, antes que a nadie, al coordinador español Gerardo Fernández Juárez, a los treinta y seis colaboradores europeos y latinoamericanos, quienes ofrecieron información, novedosas reflexiones críticas y variadas aproximaciones metodológicas acerca del nuevo paradigma: la interculturalidad y sus posibles aplicaciones en el ámbito de la salud1. Tal obviedad es aparente, pues cualquiera que haya ojeado el volumen de gran formato y ahondado en cada uno de los veintiocho artículos se da cuenta del esfuerzo de agrupar una narrativa heterogénea y desigual. En efecto, no toda la información pertenece a académicos del medio universitario, como es el grupo de antropólogos de la Universidad Castilla-La Mancha decididos a “evitar malentendidos en la aplicación de políticas interculturales de salud en Latinoamérica, particularmente Bolivia” (Fernández Juárez 2006a:11).

También se incorpora la narrativa de los gestores de las políticas públicas en interculturalidad y salud que se aplican actualmente en Bolivia, aunque no lo explicitan ni lo justifican en la presentación, lo cual se debió mencionar porque permitiría al lector leer con mayor precaución sus argumentos considerando el lugar de enunciación, escudriñar en el manejo de la información y la construcción de su narrativa a lo largo de un libro (p.ej. Baxeiras Divar 2006; Zalles Asin 2006). La diversidad de temas abordados y perspectivas metodológicas y teóricas empleadas por los autores se justifica en el destinatario, aunque el mismo debería ser universal; el libro está consignado a: “servir de reflexión a los cuadros formativos y a los alumnos (médicos, enfermeras y trabajadores sociales, especialmente) de los diferentes cursos y especialidades que de esta temática están en pleno desarrollo en los medios académicos de América Latina” (Fernández Juárez 2006a: 12).

A partir de tres grandes ejes se organizan las treinta y seis contribuciones de esta voluminosa antología. El primer eje, dedicado a la dimensión teórica de la interculturalidad aplicada a la salud; el segundo eje centrado en los procesos interculturales producidos en contextos migratorios en España con énfasis en la política sanitaria y, finalmente, el tercer eje destinado a recuperar relatos etnográficos sobre concepciones de salud, enfermedad, así como su relación con procedimientos asistenciales y terapias biomédicas. En efecto, un importante grupo de textos tratan acerca de la llamada “medicina intercultural” planteada a la luz de la historia del manejo categorial institucional internacional y de las políticas públicas que se plantean a nivel mundial (Knipper 2006). En realidad este texto es central porque nos diseña el escenario donde se plantean los ejes temáticos de la interculturalidad que son desarrollados a lo largo de los artículos temáticos. Así, se reflexiona acerca del pluralismo médico porque “no habría corrido pareja con su importancia real en la población desde diversas entradas”, razón por la cual se reflexiona sobre los modelos de estudio del pluralismo asistencial (Perdiguero 2006). De manera complementaria, por ejemplo, se ahonda en la interculturalidad en tanto que noción en construcción en América Latina remontando a sus orígenes en una perspectiva antropológica (Menéndez 2006), mientras que una pluralidad de textos, a su manera, aportan casos específicos y ahondan en una vasta información etnográfica recogida en diversos espacios de América Latina.

En esa línea, uno de los temas candentes es la migración latinoamericana hacia Europa, siendo abordado desde la perspectiva de la salud, más precisamente desde un ángulo denominado “mito del encuentro”, a partir del cual se evalúan las consultas de los migrantes en el marco del sistema de salud español y destacando las “aportaciones” al mencionado sistema (Uribe 2006). Junto con éste, quizá uno de los textos más atractivos y novedosos, por su construcción narrativa, sea el dedicado al envío de medicamentos en familias inmigrantes ecuatorianas. A partir del mismo se puede comprender la articulación existente entre la medicina pública/medicina privada/sistema de salud español/sistema de salud ecuatoriano, este último mucho más cercano a los inmigrantes de acuerdo a sus criterios valorativos (Meñaca 2006). Desde otro ángulo, más bien jurídico, se compulsa el cumplimiento de la Ley 14/1986 sobre el Sistema Nacional de Salud Español, a través del punteo de las dificultades que viven los inmigrantes para acceder al mismo (Caramés García 2006). Completando todo lo anterior, se realiza un balance agudo sobre la inmigración en la literatura biomédica en España mostrando un verdadero “diagnóstico” de sensibilidad a la diversidad cultural del que resalta el vocabulario (Gijón Sánchez et al. 2006).

Uno de los temas emblemáticos del libro es la operacionalización de la interculturalidad a través de la adecuación de los hospitales, incorporando a los establecimientos de atención a los médicos tradicionales con el propósito de alcanzar mayores coberturas. De ahí la visión global desde su origen hasta el funcionamiento del hospital intercultural de Curva presentado en detalle (Baxeiras Divar 2006; Callahan 2006; González Guardiola 2006). Justamente este tema sirve de entrada para ilustrar los desencuentros que se suceden en los hospitales en el proceso de articulación de las dos medicinas (Fernández Juárez 2006b).

Un importante tema es el de los vendedores de salud en Iberoamérica desde una perspectiva comparativa entre Perú, Bolivia y México (Rodríguez González 2006). En esta línea de contrastar información se presenta un balance de los procesos de legalización e interculturalidad en las medicinas indígenas entre Bolivia y México (Campos Navarro 2006), contribución que se complementa con una presentación acerca de la exclusión de los médicos tradicionales, naturistas y otros desde más antiguo (Zalles Asin 2006).

Del conjunto de artículos resalta aquel avocado a la construcción de la interculturalidad para hacer notar que fue construida y aplicada sin todos sus agentes sociales (Ramírez Hita 2006). De tal suerte que este texto es significativo porque interpela a su manera a las contribuciones que de una u otra manera exaltan la interculturalidad en el campo de la salud ofreciendo algunos ejemplos. Justamente por ello vale la pena profundizar en algunos puntos de la antología y aclarar algunas informaciones, porque se trata de un libro de formación destinado a los “diferentes cursos y especialidades” en salud intercultural. Empecemos señalando que para realizar un análisis de las políticas públicas en salud abordando la implementación de la interculturalidad es esencial una contextualización y confrontación de la información recurriendo a una diversidad de fuentes y una pluralidad de voces, incluidas aquellas que están en desacuerdo acerca de la manera vertical con la que se aplican actualmente la interculturalidad en salud en Bolivia. Este procedimiento metodológico, por ejemplo, está ausente en la contribución del biomédico y antropólogo mexicano Roberto Campos Navarro (2006) acerca de la legalización e interculturalidad de las medicinas indígenas de México y Bolivia entre 1996 y 2006. El análisis de este tema a lo largo de un decenio requiere de una reflexión, a partir de diversas escalas, fuentes y entradas, pues solo así es posible aclarar las dinámicas sociopolíticas que han permitido el afianzamiento de interculturalidad como política de Estado. Tomar en cuenta estos elementos le habría ahorrado al autor comunicar una visión triunfalista acerca de la implementación de la interculturalidad en salud durante el postneoliberalismo, uno de los períodos de la historia boliviana más controversial, justamente de mayor desestructuración y debilitamiento del Estado. Al mismo tiempo, le habría permitido ser más objetivo para dar cuenta de las causas de la “fragmentación” de la Sociedad Boliviana de Medicina Tradicional (en adelante, SOBOMETRA), la institución más antigua de América Latina en su género, pero también la aglutinadora de mayor pluralidad y diversidad de los terapeutas en el país. Podemos afirmar que existe una multiplicidad de factores, tanto internos como externos, para que se haya producido tal fenómeno. De hecho, ese proceso no es exclusivo de SOBOMETRA, sino que también es muy frecuente en los partidos políticos y la institucionalidad boliviana en general. Por ejemplo, a nivel interno Campos Navarro no menciona la intervención directa de miembros de la Sociedad que pertenecen a diversas asociaciones religiosas no católicas, empeñadas en desterrar del seno de SOBOMETRA a los médicos y herbolarios Kallawayas Amawt’as y Yatiris, acusados de brujos. La tensión confesional en el seno de SOBOMETRA es esencial y debió tomársela en cuenta en sus explicaciones. Más aún, este proceso, que tendría en Santa Cruz su eje articulador, en ningún momento se lo explica como consecuencia del creciente regionalismo en Bolivia, cuya expresión más reciente es el proceso autonómico para dar vida a la llamada “Media Luna”, la cual está conduciendo a una franca confrontación entre bolivianos de oriente y occidente. Asimismo, el autor guarda silencio sobre los factores externos directamente relacionados con la burocracia biomédica conservadora empeñada en eliminar a SOBOMETRA del escenario nacional. Se olvida de mencionar que la llamada “burocracia biomédica-interculturalista” se reorganizó en torno a valores tan conservadores que al ver reconocida la medicina tradicional como parte del Sistema Único de Salud boliviano, es la encargada de controlar gran parte de las dependencias y programas dedicados a la inter-culturalidad que financia la Cooperación Internacional, influyendo en la disgregación de las instituciones de terapeutas tradicionales para que no cuestionen su gestión pública. De igual manera, se entremete en la nominación de Viceministros de Medicina Tradicional e Interculturalidad sin dar paso a los legítimos terapeutas tradicionales para que puedan planificar y decidir sobre su materia. Téngase presente que se ha llegado al extremo de que un biomédico, un enfermero y muchos naturistas con adscripción confesional han llegado a esa cartera de Estado. La ausencia de referencias sobre el tema es posible que se deba a la consulta exclusiva de fuentes producidas por el Ministerio de Salud y Deportes o la Cooperación Internacional (española e italiana); sin duda que la compulsa y la complementación con otras fuentes y bibliografía le habría dado la posibilidad de acceder a nuevos datos, menos sesgados, que le habrían ayudado a matizar la visión triunfalista acerca de la aplicación de una política intercultural en salud en Bolivia. Téngase presente que desde la perspectiva de algunos autores el concepto de interculturalidad en este país no deja de ser un concepto importado “que no ha influido en mejorar la calidad de atención, en negociar la calidad de atención en los centros [de salud] y los hospitales y en producir cambios epidemiológicos” (cf. Loza 2008; Ramírez Hita 2008:60).

El problema en el manejo de las fuentes en otras contribuciones de la obra también es evidente en el texto del biomédico español José Luis Baxeiras Divar (2006), quien como funcionario de la Cooperación Española en América Latina elabora una narrativa compleja acerca de un programa del cual es gestor, pero sin mencionarlo. Este dato es clave, sin duda, para comprender la estructura de su texto que presenta la Relación de la medicina Kallawaya con el Sistema de Salud Público en San Pedro de Curva. De acuerdo con Baxeiras Divar, esta relación sería excepcional porque estaría cimentada en la voluntad de los Kallawayas de trabajar en el hospital. Empero, los artículos dedicados al mismo terreno -incorporados en la antología- dan cuenta de una diversidad de problemas estructurales que matizan la imagen ofrecida por este autor (cf. Callahan 2006).

De manera específica, cuando realza la declaratoria de la cosmovisión Kallawaya como Obra Maestra del Patrimonio Oral e Intangible de la Humanidad (UNESCO 2003), desarrolla una relación del evento que no condice con lo sucedido en ese proceso ampliamente documentado con fuentes de archivo (cf. Loza 2004). Por ejemplo, altera los nombres de los personajes Kallawayas y bolivianos que elaboraron la carpeta de postulación a la UNESCO, incorporando a Toribio Tapia Valencia, quien no tomó parte en ninguna etapa de ese proceso, como lo muestran los archivos bolivianos, parisinos y las publicaciones internacionales disponibles sobre el tema (Baxeiras Divar 2006:45). Dilucidar este tipo de datos no es banal, pues fueron los Kallawayas Walter Álvarez Quispe, Víctor Quina y luán Vila (t) los que han jugado un rol esencial para dar visibilidad a su pueblo a nivel mundial.

En suma, el libro habría ganado con una síntesis final contrastando los enfoques, los datos y las metodologías utilizadas por los treinta y seis autores a partir de los tres ejes de reflexión planteados. Tal síntesis era también necesaria porque la construcción de la interculturalidad en algunos países no es un proceso armónico, lineal y consensuado. Se trata de un proceso que está tensionando las entrañas de las sociedades donde se están reforzando relaciones de dominación, gracias a la cooptación del poder, las instituciones y los recursos económicos por parte de los biomédicos aliados con los naturistas que se están encargando de la salud intercultural (cf. Loza 2008). Es decir, estos grupos están marginando a los terapeutas tradicionales en la toma de decisiones en las políticas públicas de salud intercultural. Actualmente, Bolivia es la mejor ilustración en los países andinos.

Notas

1 El 2004 Gerardo Fernández Juárez coordinó Salud e lnterculturalidad en América Latina. Perspectivas antropológicas. Editorial: Ediciones Abya-Yala (Quito-Ecuador); Agencia BOLHISPANA (La Paz-Bolivia) y Universidad de Castilla-La Mancha (Ciudad Real-España).

Referências

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Carmen Beatriz Loza – Directora de Investigación del INBOMETRAKA, La Paz, Bolivia. E-mail: lozaquipu@yahoo.escbloza@gmail.com

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A Queda de Roma e o Fim da Civilização – WARD-PERKINS (AN)

WARD-PERKINS, Bryan. A Queda de Roma e o Fim da Civilização. Tradução de Inês Castro. Lisboa: Alêtheia Editores, 2006. Resenha de: DEGAN, Alex. Anos 90, Porto Alegre, v. 17, n. 32, p. 321-326, dez. 2010.

Originalmente publicado em língua inglesa em 2005 (The Fall of Rome and the End of Civilization), a tradução portuguesa do polêmico livro do professor de Oxford Bryan Ward-Perkins deve ser recebida com grande entusiasmo, particularmente porque cresce entre os estudiosos brasileiros o interesse pelo período investigado no livro.

A contribuição de Ward-Perkins se dá na abordagem original e clara de um tema clássico entre historiadores: a queda do Império Romano. Questão polêmica e controversa, destacada desde o Renascimento com a noção de inclination desenvolvida pelo pensador italiano Flavio Biondo e que recebeu o tratamento clássico de Edward Gibbon em Decline and Fall of the Roman Empire, nunca abandonou o horizonte dos historiadores que se dedicaram a estudar a transição da civilização romana para o Medievo Europeu Ocidental. É neste riquíssimo debate que Ward-Perkins se insere, destacando as contribuições da documentação arqueológica com uma leitura voltada ao universo das trocas, produção e consumo de bens materiais nos anos finais do Império.

O livro pode ser dividido entre duas discussões contemporâneas sustentadas pela historiografia, ambas entrelaçadas. A primeira contenda se dá com o historiador canadense Walter Goffart (Barbarians and Romans), defensor de uma leitura mais integradora das relações entre romanos e germanos. Para Goffart, as várias populações germanas que habitavam as fronteiras ocidentais do Norte se beneficiaram de uma modificação na política militar romana, que deixou de repelir as invasões para construir um complexo sistema de acomodação destas levas migratórias germânicas. Segundo o historiador canadense, aos germanos foram concedidas benesses, como o direito de se fixarem em terras dentro dos limites do Império e a possibilidade de receberem parte da tributação destas áreas, em troca de uma aliança militar e de uma trégua. De ameaçadores invasores os germanos se converteram em sócios na defesa do Império.

A segunda interpretação do período com qual Ward-Perkins debate foi desenvolvida pelo historiador irlandês Peter Brown (The World of Late Antiquity). Brown, juntamente com o francês Henri- Irénée Marrou (Décadence Romaine ou Antiquité Tardive?), foi o grande divulgador da idéia de uma Antiguidade Tardia, solapando a tradicional periodização do Baixo Império e recusando a caracterização do período como uma síntese de decadência e confusão. Embora Brown não negue o desmonte institucional de uma ordem romana, sua atenção se volta ao universo cultural visto como profundamente criativo e original, caracterizado por um furioso debate religioso e intelectual embalado pelo Cristianismo. Assim, a antiga percepção de declínio foi substituída por uma visão positiva do período, claramente marcada por revoluções criativas nos campos da cultura, das artes e da religiosidade. Neste sentido, é importante notar a crescente aceitação da interpretação de Brown entre os medievalistas franceses contemporâneos, militantes de uma periodização mais alargada e colorida da Idade Média. Tal periodização defendida por Jacques Le Goff (Pour un long Moyen Âge), investe numa antropologia histórica que dialogando com o conceito braudeliano de “longa duração” joga luzes nos estudos das lentas transformações nos hábitos, costumes, estruturas e representações culturais do Ocidente Medieval, formulando-se uma “Longa Idade Média” nascida da Antiguidade Tardia e esgotada no século XIX, fruto das convulsões revolucionárias e da Revolução Industrial.

A tese defendida por Bryan Ward-Perkins não enveredou exclusivamente pelos domínios de uma História Social da Cultura. Pelo contrário, sua concepção da civilização romana e da sua extensão é muito material, o que torna seu livro interessante por considerar questões que hoje não estão entre as mais populares na historiografia.

Como arqueólogo e historiador econômico, Ward-Perkins entende que a experiência romana conferiu unidades política e econômica às sociedades que habitavam o Império. Neste sentido, seu livro observa os processos de integração e acomodação promovidos pelo Império e a perda destas unidades com a derrocada da ordem mantida por Roma.

Em sua interpretação, a ação política de Roma produziu, em larga escala, uma economia integrada pelo Estado. Talvez seja esta a maior contribuição interpretativa e documental do texto de Ward- Perkins: seu Império Romano se caracteriza pela grandiosidade qualitativa e quantitativa das trocas materiais. Como arqueólogo, observou o colossal volume de peças de cerâmicas de uso quotidiano produzidas, consumidas e descartadas durante o Império Romano.

Vai além, notando que este consumo transbordou a “casca mediterrânea”, se consolidando em regiões como a distante Britânia, que também produziu e consumiu cerâmica banal, mas de alta qualidade.

Em outras palavras, a grande estabilidade produzida pela Pax Romana se encontrava na economia, que aproveitou os benefícios de uma ordem imperial para atingir um nível sofisticado e especializado na produção, circulação e consumo. Antes de tudo, o Império Romano consolidou uma espécie de civilização do conforto que disseminou e vulgarizou o consumo de louças para uso diário, ânforas preenchidas com vinho e azeite, moedas, tijolos e telhas.

Com uma visão altamente modernizante da economia antiga, Ward- Perkins assinalou que a estabilidade romana promoveu o auge desta sofisticada cultura material.

Bryan Ward-Perkins entende que a destruição provocada pelas guerras contra os germanos desestruturou de forma tão profunda a ordem romana que esfacelou as unidades política e econômica do Império, impossibilitando a sociedade de se recompor. Ao contrário de Walter Goffart, que insiste em uma leitura voltada ao longo processo de acomodação e integração entre germanos e romanos, Ward-Perkins demonstrou que este encontro se deu em torno de ciclos de violência sofridos por ambos os lados. Por mais que a longa convivência entre romanos e germanos tenha levado à integração, não podemos deixar de notar a violência deste processo.

Não adotando uma leitura simplista do momento, que insiste no contraponto entre selvagens bárbaros e angustiados romanos, Ward- Perkins revelou como a documentação escrita e material registrou um longo fracionamento do equilíbrio político e militar romano, importando as agruras dos limites do Império para seu interior.

Esta fragmentação política, seguida do caos militar, liquidou a unidade econômica e, progressivamente, detonou a sofisticação e a especialização da cultura material, dando lugar a uma simplicidade muito maior. A sociedade romana, acostumada com um conforto e com um padrão de consumo, não conseguiu se recuperar das destruições dos germanos e da perda de sua unidade. Neste sentido, concordamos com Bryan Ward-Perkins quando este afirma que uma civilização antiga, marcada pela sofisticação econômica, entrou em colapso e submergiu.

Ainda atento ao sofisticado patamar da economia romana antiga, Ward-Perkins refl etiu também sobre a difusão da cultura escrita, denominada como Literacia, registrando suas várias dimensões com especial atenção aos usos populares. A diferença com Peter Brown aqui se torna evidente. O historiador irlandês conferiu muita energia a esta questão, apontando para uma pujante e original produção literária embalada pelo Cristianismo. Ward-Perkins não discorda totalmente de Brown, mas aponta que as análises do irlandês registraram muito mais o que ocorreu entre as aristocracias políticas e religiosas do Baixo Império, com grande destaque aos documentos da porção Oriental de Roma, exatamente aquela que sofreu menos com as destruições germânicas.

Na leitura proposta por Bryan interessa mais observar os padrões de consumo material e de conhecimento da escrita entre as classes médias e baixas do que se ater aos documentos produzidos pelas aristocracias. Mesmo quando ele pensa a existência de uma cultura escrita em suas várias dimensões, sua preocupação se volta aos padrões disseminados de consumo desta Literacia. Sem desprezar a impressionante literatura produzida no período, sobretudo entre os membros da Igreja, Ward-Perkins observou que usos populares da escrita, como os recibos de impostos encontrados no Egito, os grafites em paredes de cidades e os rabiscos em cerâmicas, progressivamente se extinguiram após a perda da unidade romana. A cultura escrita não desapareceu do Ocidente pós-romano, mas perdeu seu uso corriqueiro, elementar e banal que gozava no Império.

Novamente a importância das unidades política e econômica da experiência romana foi analisada. A unidade política permitiu uma enorme organização burocrática do exército em todas as áreas do mundo romano. A escrita era o suporte que permitia a circulação de tropas, de mercadorias e estratégias. Mais que um instrumento de debate teológico e filosófico restrito à elite, tinha seu uso consagrado enquanto ferramenta de logística. A própria sofisticação econômica defendida pelo autor utilizou de noções elementares de escrita como fundamentos de sua organização, registrando a ação fiscal e administrativa do Estado, como também técnica e comercial dos centros produtores de cerâmica. Tais usos populares da escrita, segundo o arqueólogo inglês, desapareceram no Ocidente pós-romano.

Por fim, sem medo de utilizar termos controversos, como “declínio”, “crise” e “civilização”, mas preocupado em defini-los com precisão, Ward-Perkins se afastou das armadilhas morais que estes termos sugerem e traçou uma análise bastante dinâmica do Ocidente pós-romano. Ao contrário das interpretações postuladas por Goffart e Brown, de grande sucesso entre historiadores franceses, estadunidenses e brasileiros, Bryan conferiu destaque a todas as complicações, desafios e dificuldades do período. Seus séculos pós-romanos experimentaram um agudo declínio na sofisticação e prosperidade econômicas, repercutindo em todas as sociedades que compunham o mosaico imperial romano. Aceitar isto não significa ler o período como um momento maldito e negativo da história da Europa Ocidental, mas reconhecer suas contradições e impasses mais profundos. Em sua interpretação, o maior equívoco dos entusiastas da Antiguidade Tardia se encontra exatamente neste ponto: ao amortizar e suavizar os impactos que os choques entre romanos e germanos produziram na antiga ordem imperial, as perdas sofridas e as originais respostas produzidas pela sociedade pós-romana acabam por perder parte significativa de seu brilho. Reconhecer que o século V assistiu uma profunda crise econômica, política e militar, provocada pela violenta tomada de poder e de muita riqueza pelos germanos não é o mesmo que aprisionar o período em uma espécie de Index Librorum Prohibitorum histórico.

Alex DeganProfessor Assistente da Universidade Federal do Triângulo Mineiro. Mestre em História Econômica e doutorando em História Social pela Universidade de São Paulo. E-mail: alexdegan@yahoo.com.br Avenida Dr. Odilon Fernades, n.420, Apto 501, Bloco B Uberaba – MG. CEP: 38017-030.

Soldados da Pátria – História do Exército Brasi leiro (1889-1937) – McCANN (AN)

McCANN, Frank D. Soldados da Pátria – História do Exército Brasi leiro (1889-1937). Tradução de Laura Teixeira Motta. São Paulo: Companhia das Letras, 2007. Resenha de: FERREIRA, Bruno Torquato. Anos 90, Porto Alegre, v. 17, n. 32, p. 327-333, dez. 2010.

Frank D. McCann é professor do Departamento de História da Universidade de New Hampshire e, nos anos 1960, como oficial da reserva do Exército americano, foi professor na Academia Militar de West Point. É autor de livros como Aliança Brasil-Estados Unidos (1937-1945) e A Nação Armada: ensaios sobre a história do Exército brasileiro.

Teve passagens por universidades brasileiras como professor visitante, tendo sido também agraciado pelo governo brasileiro com alguns títulos. McCann vem se debruçando sobre os problemas concernentes à atuação política dos militares há mais de trinta anos e a sua produção acadêmica nesse período, ao que tudo indica, também se concentra nessa temática. Ultimamente vem se engajando em um projeto de desenvolvimento de uma base de dados biográficos sobre os oficiais do Exército brasileiro no século XX (Brazilian Army Officers Project) e na elaboração de uma biografia de Pedro Aurélio de Góes Monteiro (p. 621). Soldados da Pátria faz parte de um projeto maior cuja intenção é investigar a história da instituição militar terrestre brasileira até o começo da década de 1990 (p. 10).

Dois aspectos importantes da obra, no tocante ao processo de pesquisa e redação, merecem ser mencionados. A primeira diz respeito ao uso abundante e original dos registros burocráticos produzidos pelo comando militar no período, já que, no seu modo de ver, um estudo sobre a formação da oficialidade do Exército deveria incluir a estrutura, a doutrina, os equipamentos e o treinamento dos homens dessa instituição como objetos de análise1, material este ainda pouco explorado pelos pesquisadores brasileiros. Sobre os estudos relacionadas à década de 1920 no Brasil, o próprio McCann é quem alerta aos interessados: A história de um Exército, dada a complexidade da instituição, requer um enfoque amplo. Além disso, não deve se ocupar apenas dos vencedores; precisa também falar de quem perdeu e por quê. Apesar da importância das rebeliões, há mais na história do Exército (p. 290) As rebeliões em si revelam muito das características culturais dos brasileiros naquela época; as amizades foram fatores não desprezíveis para a aderência ou não a um lado (revoltado) ou outro (legalista) nas vésperas dos sucessivos movimentos. Muitas vezes, era o posicionamento da maioria da guarnição o que determinava o comportamento dos oficiais (p. 361-362). Por outro lado, mesmo os legalistas, não delatavam os seus colegas conspiradores quando convidados a tomar parte nos movimentos (p. 622). Portanto, “conversar, escrever e até mesmo tramar eram tolerados até que alguma ação ocorresse” (p. 410). Além disso, muitos simpatizantes das conspirações deixavam de tomar parte nos movimentos sediciosos por lealdade aos seus comandantes legalistas: “Cabe ressaltar que os oficiais brasileiros não juravam obediência à Constituição, e sim a seus superiores, de modo que os laços pessoais tinham papel importante na manutenção da disciplina” pois tratava-se de um sistema “acentuadamente paternalista, influenciado pelas ligações pessoais de amizade” (p. 373). De fato, a pátria estava acima da Constituição, do Gabinete, do imperador ou do presidente: “O Exército brasileiro foi e ainda é, um baluarte contra as forças centrífugas regionalistas” (p. 11).

Talvez refletindo sobre suas próprias limitações analíticas a esse respeito o autor comentou: “Muitos estrangeiros tinham dificuldade para perceber, e ainda mais para aceitar, a importância da amizade na vida política pública brasileira” (p. 649). Contudo, essa tradição de conciliação chegou ao fim a partir da segunda metade da década de 1930, sobretudo após 1935, quando os sargentos e demais praças passaram a ser alvo de brutal repressão, sem falar dos constantes expurgos e ameaças de expurgos tornados constantes a partir de 1937, utilizados para chantagear e manter na linha os ocupantes da base hierárquica da instituição.

Alguns comentários são reveladores acerca da maneira como alguns americanos compreendem a realidade brasileira, em que pesem os incômodos que podem causar aos brasileiros mais ciosos ou mesmo aos padrões nacionais de cientificidade no tocante às humanidades. O episódio de 15 de Novembro, por ser pouco conhecido e investigado, foi descrito como um dos “aspectos bizarros da história brasileira moderna” (p. 28) ou “A história do Exército brasileiro é mais bem compreendida como um refl exo da complexa, intrincada e às vezes contraditória cultura nacional” (p. 9). O autor parece supor que não existe cultura “contraditória”2.

Em segundo lugar, chama a atenção do leitor mais atento a bibliografia utilizada, que demonstra existir nos Estados Unidos uma historiografia brasileira à parte, com a qual, diga-se de passagem e salvo exceções, a historiografia produzida no Brasil parece manter muito pouco contato, embora a recíproca não seja verdadeira. Temas como a proclamação da República, o conflito de Canudos, a Revolta da Vacina, o conflito do Contestado, a Revolução de 1930, a economia brasileira nas primeiras décadas do século XX entre outros assuntos foram e são largamente debatidos em universidades americanas e, em alguns casos, as pesquisas resultantes desses debates apresentam dados inteiramente originais3.

O autor, desde o começo, anuncia seu rompimento com as análises que interpretam as rebeliões militares como reflexos da política civil ou mesmo de determinismos classistas. Nesse sentido segue a trilha já palmilhada por autores brasileiros e brasilianistas como Edmundo Campos Coelho, José Murilo de Carvalho, John Schulz e Alfred Stepan. Seguindo os rastros desses mesmos autores também indica, que seu intuito inicial de entender o comportamento dos militares brasileiros no período de 1964-1985 levou-o “constantemente” de volta ao período 1889-1937, o qual começou a ver como “a sementeira de acontecimentos posteriores” (p. 10).

Não concorda, por outro lado, com a tese do “poder moderador” de Alfred Stepan (p. 14-15) e, neste ponto, se aproxima mais uma vez das abordagens de Carvalho e Coelho. Conclusão do autor: “O Exército não se tornou o moderador na década de 1890; seu poder era muito precário e muito cooptado. Antes da década de 1930, o Exército não possuía vontade institucional, a doutrina ou a capacidade para tal papel” (p. 14). A unidade doutrinária na formação dos oficiais seria alcançada apenas décadas depois, com a homogeneização da sua formação (p. 251). Acontece que na década de 1920, muitos sargentos foram comissionados em postos de oficiais, o que parece ter dificultado essa propalada unificação doutrinária. Sem unificação doutrinária como esperar que agissem de forma ordenada, coesa e coerente? Nesse sentido, o autor aponta a importância da ESAO e da ECEME4 na unificação doutrinária do Exército nos escalões médios e altos da organização no decorrer do século XX (p. 270). Por outro lado, na década de 1920 essa unidade ainda era incipiente, razão pela qual o autor atribui à falta de unidade doutrinária uma das principais causas da “disposição [dos jovens oficiais] de desrespeitar a hierarquia e rebelar-se (p. 276). Para McCann o Exército começou a se tornar moderador apenas a partir de 1937: “Vargas abriu a porta, e os generais entraram” (p. 547).

O grande caráter instrumental do Exército se revelou quando ele foi acionado para “manter na linha as massas, ou pessoas comuns” (p. 19). Assim podem ser compreendidos episódios como Canudos e Contestado, além da própria repressão aos comunistas e esquerdistas na década de 1930. Além disso, foi o principal instrumento de projeção política do Estado-nacional brasileiro. Esta leitura se estende para além dos limites cronológicos do Estado Novo, não obstante a autonomia institucional alcançada pelo Exército, que lhe potencializou um intervencionismo mais atuante (p. 552-553).

O Exército brasileiro, nesse último período, trilhou um caminho institucional que o transformou, de uma força miliciana, em uma organização de caráter nacional e relativamente ramificada pelo território brasileiro. Desempenhou importante papel civilizador – no sentido eliasiano – e constituiu uma espécie de ponta-de-lança do Estado no que diz respeito às necessidades de integração territorial e desenvolvimento de valores identitários relacionados a esse espaço, principalmente após o advento do serviço militar obrigatório. A esse respeito destaca-se a importância de intelectuais militares da estirpe de Alfredo Taunay e Euclides da Cunha como grandes formuladores da identidade nacional.

Do etno-historiador (?) Anthony F. C. Wallace McCann incorporou as categorias analíticas política dos apetites e política da identidade para se referir aos dois pólos que basilaram a conduta política da oficialidade brasileira nos 30 primeiros anos da República (p. 17).

A última se refere aos movimentos sociais e suas reivindicações, que podem colocar em xeque o domínio oligárquico e a primeira, por sua tonalidade clientelística, contribuía para a manutenção do status quo (p. 17-18). Nem mesmo o eterno legalista Estevão Leitão de Carvalho teria se mostrado imune aos apetites (p. 373). Com efeito, de acordo com McCann, o tenentismo foi um misto de política das identidades e dos apetites (p. 18). No entanto, reconhece que a principal luta dos tenentes nos anos 1920 era mais pelo controle do Exército do que por qualquer outro motivo (p. 339).

Foi uma época de fortes dissensões internas: clivagens horizontais e verticais opunham oficiais entre si e contra praças. Desse modo, o autor se propõe a explicar as razões internas das explosões de violência corriqueiras na evolução institucional do Exército, sobre tudo nas décadas de 1910, 1920 e 1930. São acontecimentos que revelam profundidades estruturais e, por isso, sua explicação não é auto-evidente, como foi o episódio das cartas atribuídas a Arthur Bernardes contra Hermes da Fonseca (p. 279). Entre as razões do descontentamento da oficialidade estavam questões profissionais vinculadas à insatisfação com a organização política do país, como promoções atrasadas, atrasos nos soldos, falta de equipamentos, inade quação dos armamentos, a estrutura política excludente, confl itos latentes com os membros da Missão Militar Francesa entre outros.

Assim sendo, McCann demonstra percepção acurada ao relacionar a explosão das rebeliões no período focado por suas investigações aos conflitos e problemas intra-organizacionais, alguns por razões comezinhas. Nesse sentido, reconhece, por exemplo, que a principal luta dos tenentes nos anos 1920 era mais pelo controle do Exército do que por qualquer outro motivo (p. 339)5. Tratava-se de um confl ito geracional, que tinha seus fundamentos nos bloqueios à progressão profissional dos mais jovens e nas diferenças de formação. Dessa maneira consegue iluminar e oferecer uma explicação plausível acerca da linha de experiência política que se iniciou com a crise conhecida como Questão Militar e que atravessou todo o primeiro terço do século XX até a crise dos anos 1930, que redundou na inauguração do Estado Novo em 1937. Ao mesmo tempo, a análise da experiência política da oficialidade do Exército nas décadas de 1920 e 1930 é usada como fator explicativo das condições que levaram ao regime de 1964-1985 (p. 12).

Muito ainda precisa ser respondido sobre o envolvimento militar na política brasileira, mas essa obra se revela salutar, instigante e incontornável para quem se interessa pelo entendimento do papel desempenhado pela oficialidade do Exército na construção do Estado nacional e da própria nacionalidade, entre outros aspectos. Sua obra merece atenção dos historiadores brasileiros, sobretudo porque, em que pesem as irresponsabilidades dos relativismos atual mente em voga, essa obra constitui um alento motivador para aqueles que ainda se ocupam com a história de verdade, e não com representações oníricas.

Notas

1 Ainda resta saber até que ponto o Exército foi uma instituição controlada de alto a baixo pela oficialidade. Chama atenção também o uso expressivo e constante de relatórios diplomáticos e de adidos militares para alcançar compreensão a respeito de aspectos da socialização, das condições de vida, da profissionalização e do ambiente político no interior do Exército.

2 Do mesmo modo, McCann revelou inocência metodológica ao expor sua intuição de que Vargas pretendia reconstitucionalizar o país em 1932 e só não colocou em prática esse projeto em função do movimento paulista ocorrido em julho daquele mesmo ano baseado unicamente nas evidências contidas no diário “secreto” do político brasileiro, publicado apenas em 1995, pois, de acordo com o Autor, “agora sabemos o que ele estava dizendo a si mesmo naquela época” (p. 419).

3 A respeito do conflito ocorrido em Canudos no final do século XIX merece destaque a informação de que o beato Antônio Conselheiro mantinha estreitas relações clientelísticas com alguns coronéis locais, membros do clero e inclusive com o próprio governador da Bahia na época (p. 64, verificar especialmente a nota 66).

4 Escola de Aperfeiçoamento de Oficiais e Escola de Comando e Estado-Maior do Exército respectivamente. Atualmente constituem cursos de pós-graduação equiparados aos níveis de mestrado e doutorado pelo Ministério da Educação.

5 O Autor parece acompanhar, nesse aspecto, a diferenciação proposta por Edmundo Campos Coelho que admitia a existência de um tenentismo político nas décadas de 1920 e 1930 em oposição ao tenentismo profissional, protagonizado pelos jovens turcos na década de 1910. O primeiro apresentava uma maior disposição para a luta contra a cúpula do Exército e a camada dirigente da República do que o segundo.

Bruno Torquato FerreiraAtualmente é discente do Programa de Pós-graduação em História da Universidade Federal do Paraná em nível de doutorado e professor do Ensino Fundamental no Colégio Militar de Campo Grande (CMCG). E-mail: brunotferreira@ig.com.br.

História Militar | [?] | 2010

Historia Militar

A Revista Brasileira de História Militar (Rio de Janeiro, 2010-) é uma publicação eletrônica, independente, com periodicidade quadrimestral, destinada à divulgação de artigos de historiografia militar, produzidos por pesquisadores brasileiros ou estrangeiros, elaborados dentro dos padrões de produção científica reconhecidos pelos meios acadêmicos.

Destina-se também a publicação de trabalhos de pesquisa e de metodologia, além da divulgação de eventos acadêmicos, desde que relacionados à História Militar e aprovados por seu conselho editorial.

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ISSN 2176-6452

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Breve história do século XX – BLAINEY (CTP)

BLAINEY, Geoffrey. Breve história do século XX. [?]: Fundamento Educacional, 2008. Resenha de: DAMASCENO, Natália Abreu. Uma Breve História do Século XX: Entre os Perigos e as Benesses da Síntese. Cadernos do Tempo Presente, São Cristóvão, n. 01 – Outubro de 2010.

Após o sucesso do bestseller Uma Breve História do Mundo publicado em 2000, o australiano Geoffrey Blainey, professor em Melbourne e em Harvard, apostou novamente na síntese de períodos de longa duração. Em 2005, lançou o livro Uma Breve História do Século XX, cuja primeira edição brasileira só foi lançada pela editora Fundamento Educacional em 2008. Esta obra narra, mais que os grandes acontecimentos do século, o extenso processo de transformação vivenciado pela humanidade ao longo dos novecentos.

Evidentemente, ao tentar abarcar todo o século XX, incluindo seus diversos conflitos e dilemas políticos, econômicos e sociais, a narrativa de Blainey revela um previsível grau de superficialidade. Afinal, trata-se de um século descrito em 309 páginas. Porém, ao optar por abandonar muitos dos jargões e reflexões densas, típicas das obras historiográficas, o autor produz uma narrativa leve e acessível aos aficionados de diversas áreas do conhecimento.

Deste modo, a isenção de uma análise robusta dos acontecimentos, do número excessivo de datas, nomes e dados científicos afasta esta obra do mundo acadêmico e coloca-a nas mãos do grande público. Vale lembrar que as freqüentes inferências do autor sobre o cotidiano, seu recurso a conceitos como “mentalidade” e “espírito de época”- explorando curiosidades e por vezes adentrando na história da vida privada – despertam o interesse de um público mais heterogêneo e distanciam a obra das frias narrativas dos livros didáticos.

Uma Breve História do Século XX foca-se nos três grandes conflitos mundiais ocorridos neste século: a Primeira e a Segunda Guerra Mundial, e a Guerra Fria. A Primeira, descrita como as demais com vivacidade jornalística, é entendida por Blainey como uma ruptura no otimismo que vinha se estabelecendo nas civilizações devido aos avanços conquistados no fim do século anterior. O século XX era um século promissor: a Europa era o lar de vastos impérios e de poderosas nações consolidadas, os Estados Unidos eram a terra da inventividade e do rápido crescimento econômico. A democracia e a liberdade começavam a invadir os territórios ainda que apenas em uma parte do mundo. Tudo levava a crer que, nas regiões não atingidas pela prosperidade, os ventos da mudança chegariam mais cedo ou mais tarde.

Geoffrey Blainey chama de “segunda era inventiva” o período que vai de 1850 até a Primeira Guerra Mundial. Nesse período, segundo ele, as diversas inovações tecnológicas como o telefone, o gramofone, a câmera e o avião, tornavam o mundo menor, mas “O fato de o mundo estar se tornando menor não significava que necessariamente ficava mais amigável” (BLAINEY, p. 41, 2008). Os crescentes gastos com armas, navios de guerra e com o exército foram o prenúncio de que as batalhas de pequena escala freqüentes no início do século, período que até então era considerado pacífico entre as grandes potências, culminariam num estrondoso conflito mundial.

A Europa, até então leito das grandes economias e acontecimentos, é retratada como palco de diversos conflitos étnicos, econômicos, políticos, religiosos e ideológicos há muito iniciados, mas que se acentuaram neste século. Assim, eventos como a Revolução Russa, a crise de 1929, as tensões do tratado de Versalhes, a criação da Liga das Nações, a ascensão de regimes totalitários autoritários e fascistas nos anos 20 e 30 e o nascimento de uma Turquia independente do islamismo são abordados sob um ponto de vista que enxerga o século XX como um período de intensificação das diferenças através da supressão do espaço.

Já a Segunda Guerra Mundial, que contou com armas e estratégias mais avançadas, aparece nesta obra de Blainey como um atestado temporário de colapso das democracias, agravado pela tomada da França pelos nazistas em 1941. O massacre de judeus, ciganos, homossexuais, a invenção de armas letais sofisticadas, a voraz expansão do império japonês na Ásia Oriental e o mistério da vida na União Soviética compuseram o cenário de terror e incertezas que assolou o mundo durante este conflito. O fim da guerra trouxe mais dúvidas que explicações. As nações européias deixam de ser as grandes potências e o mundo polarizou entre os Estados Unidos e a União Soviética. O mapa europeu mudou novamente e grandes investimentos científicos começara a ser feitos. Iniciara a chamada Guerra Fria.

Ao tratar da segunda metade do século XX, que o autor entende como o momento de triunfo e consolidação da verdadeira democracia, Blainey não desenha somente um panorama das batalhas, dos acordos e dos impasses políticos e militares que ocorreram durante a Guerra Fria. Evidencia também, nesse período, a emergência de movimentos ecológicos, pacifistas, musicais e feministas enquanto partes de um processo de mudanças que configurariam mais tarde os valores, o comportamento e a moral da sociedade do século XXI. Delineia este processo inclusive, englobando diversos âmbitos como o dos esportes, das línguas globais e da urbanização das cidades.

Deste modo, Uma Breve História do Século XX é repleto de escolhas feitas pelo autor (umas louváveis, outras nem tanto). Afinal de contas, ao mesmo tempo em que fornece um painel dinâmico dos principais acontecimentos históricos ocorridos no referido século, falha na problematização de alguns e até no esquecimento de outros, como por exemplo, da política do Apartheid (1948-1990), relevante problema na história dos novecentos que não é sequer mencionado na obra. Por fim, Geoffrey Blainey possui o mérito da boa síntese, em uma obra relevante que compila informações históricas de diversas naturezas. Porém, a crítica que por vezes é ausente no livro, não deve faltar ao leitor.

Referências

DAMASCENO, Natália Abreu. Uma Breve História do Século XX: Entre os perigos e as benesses da síntese Revista Eletrônica Boletim do TEMPO, Ano 5, Nº08, Rio, 2010.

Natália Abreu Damasceno – Graduanda em História pela Universidade Federal de Sergipe. Bolsista do Programa de Educação Tutorial (PET)/UFS. Grupo de Estudos do Tempo Presente/CNPq/UFS. natalia.abreu.d@gmail.comnatalia.abreu.d@gmail.com.

Consultar publicação original

Web History – BRÜGGER (A)

BRÜGGER, Niels (Ed.). Web History. Nueva York: Peter Lang, 2010. Resenha de: QUIROGA, Nicolás. Antíteses, v. 3, n. 6, jul./dez. 2010.

Hace unos años la debilidad que muchos entreveían en las herramientas satánico-tecnológicas contra el libro era la incómoda actividad de leer en un monitor parpadeante; en la actualidad la crítica que uno de esos críticos tiene para hacerle al Ipad es que aún no logra emular el contraste del papel y la tinta. Mientras tanto, Amazon ya vende más ebooks para su Kindle que hardcovers.

Un día, sin que sepamos bien cómo, nos acostumbraremos a otros soportes para la lectura, y vendrá otro Agustín a contarnos sobre los que leen con implantes visuales o con pantallas que dejan caer unos grafos a velocidad constante, como en cualquiera de las Matrix (el ejemplo destaca la absoluta dependencia de los dispositivos tecnológicos con el libro, al menos como metáfora).1 Los cambios ligados a las llamadas nuevas tecnologías de la comunicación no obedecen sólo al avance tecnológico y a la creación de consumidores. A veces, las tecnologías se incorporan a la vida cotidiana de tal modo que, en poco tiempo, nadie las culpa de los males del mundo.

En lo que respecta al campo historiográfico debido al fortalecimiento de áreas de investigación histórica ligadas a historia reciente, algunos materiales audiovisuales ganaron legitimidad. El aura de lo viejo se hizo menos conmovedora, el dominio del saber historiador se hizo más amplio. ¿Qué pasará cuando haya que usar a Google como nuestro bibliotecario? ¿Será realmente necesario incorporar la información de la web al archivo del historiador o historiadora? Y si es así, ¿es necesario historizar los documentos digitales?, ¿dónde fueron a parar las páginas web que hoy ya no están online?, ¿Cómo recuperar las versiones de las páginas que sí están hoy en funcionamiento pero que ya no están estructuradas como hace dos, tres, diez años? , ¿Podremos concebir una serie estable de balizas en torno a la documentación digital tal como ha sido concebido el control académico sobre, por ejemplo, los documentos inquisitoriales? Preguntas de esa naturaleza impulsan la escritura de Web History, un libro que antes fue congreso (“Web_Site Histories: Theories, Methods, Analysis”, Dinamarca, octubre de 2008).2 Se trata de uno de esos libros que debe perdonar a sus lectores.

Debe disculpar a quienes, intrigados por las preguntas, buscan en él un manual o una introducción a la web. En efecto, de un libro que hizo de la web su foco de investigación, y esto significa que no va más atrás de los años noventa (el protocolo http funciona desde 1991; el web browser Mosaic surgió unos años después, en 1993), y significa que si bien no aborda otros dominios de internet, debe “tocar” algunas cuestiones ligadas a ese objeto, internet, ya demasiado general. Pero en sus páginas no hay definiciones básicas, referencias introductorias. El libro considera una vasta literatura preexistente y filia sus escritos en torno a cinco estratos analíticos –revisitados en la introducción firmada por el editor–: la historia de la web como un todo (análisis de nivel infraestructural: redes, protocolos, instituciones, etc.); la historia de la web sphere (redes y comunidades alrededor de un evento o práctica específicos); la historia de un website en particular; la historia de una página y, finalmente, la historia de elementos específicos como la publicidad o el uso de las imágenes.

Pese al énfasis analítico y al impulso clasificador que sobrevuela muchos artículos, a lo largo del libro esos cincos estratos se harán borrosos y convendría concebirlos más bien como “ventanas” o focos. El libro debió desentenderse de la multiplicidad de áreas que recurren a ese campo naciente denominado “digital history” o “digital humanities”. Sin duda, como ocurrió con otras tecnologías como la fotografía o la televisión, los acentos demasiado cargados sobre su condición de práctica o bien sobre su condición de documento o bien sobre su historia como tecnología propiamente dicha ensombrecen los abordajes liminales como los de Web History. La estrategia para aliviar las lecturas demasiado ancladas en áreas vinculadas pero con sus propios cuestionarios ha sido la de estructurar el volumen en cuatro partes.

La primera de ellas es una “teórica”, en la que dos artículos presentan dos enfoques no antagónicos sobre los modos de abordar el objeto de estudio. En esa sección reina una clave “textual” para el análisis de web, que sin duda se discute y se discutirá aún más. Acaso demasiado formales, los textos de Niels Brügger (“Website History: An Analytical Grid”) y de Kirsten Foot y Steven Schneider (“Object-Oriented Web Historiography”) intentan reconducir los esfuerzos de las investigaciones hacia zonas más estables y capaces de incluir las diversas energías que se concentran en la construcción y lecturas de un sitio web. Brügger las concibe como “fuerzas motrices” y Foot y Schneider intentan contenerlas en la doble grilla de análisis sobre su objeto (como “motivo” y como “artefacto”), a través del ejemplo de su propio trabajo en el proyecto de webArchivist.org (http://webarchivist.org), september11.archive.org (http://september11.archive.org). Resulta evidente que de todas ellas los autores se inclinaron por indagar sobre las que refieren a la producción de contenidos.

La segunda sección del libro trata sobre web cultures. La palabra “cultura” allí, sin embargo, sólo conserva su vaga referencia a una totalidad dada, a una red de sentido. No se desarrolla, en ese apartado, líneas de análisis fecundas como las que se ensayaron desde la media ethnography (un abordaje que tendencialmente se desmediatiza, que considera los usos de los nuevos medios de comunicación como parte de la vida cotidiana de las personas –vida esta que se piensa no como “contexto”, sino como el “texto” mismo). Hay que desplazarse hasta investigaciones como las de Tufte, Miler y Slater o Pearce y Artemesia para indagar sobre esas formas de tratamiento de las “culturas” o las “subculturas” o más apropiadamente con la cita inevitable de Janice Radway, de las “comunidades” online.3 Los cuatros trabajos de la segunda sección de Web 3 TUFTE, Thomas. Gauchos Going Global. A Critical Assessment of Cultural Globalization. In: KIVIKURU, Ullamaija (ed.). Contesting the Frontiers. Media and dimensions of Identity.

Suecia: Nordicom, 2001; MILLER, Daniel y SLATER, Don. The Internet. An Ethnographic History arrojan luz sobre ciertas comunidades a través de un análisis histórico, aunque en algunos casos esa perspectiva es más bien una arqueológica que alimenta abordajes que remiten al Goffman de Presentación del yo en la vida cotidiana… Dos de esos trabajos (los de Ken Hillis y Dominika Szope) revisitan comunidades con webcams. Esos textos hacen referencia a dos telepresencias míticas como son, por un lado, la webcam que apuntaba a la máquina de café – la primera cámara, que les permitió a los miembros de la red chequear la existencia de café antes de iniciar una caminata inútil (http://en.wikipedia.org/wiki/Trojan_Room_coffee_pot)–; y por el otro, la de Jennifer Ringley, una flaca que decidió vivir con la cámara encendida, dando origen a lo que se hoy se conoce como lifecasting. En el caso de Hillis, la comunidad de referencia es un grupo de queer/gays angloparlantes que hacia fines de los noventa comenzaron a usar la cámara web para comunicarse. La construcción de las identidades, la performatividad de la práctica del lifecasting y la fetichización de una tecnología ya fetichizada remiten a una serie de debates que en los estudios sobre género encontraron tempranamente en el campo de lo virtual y sus inextricables vínculos con el cuerpo y el self un espacio de reflexión animado y creativo. Por otro lado, Dominika Szope, con el examen de la experiencia de GreenTeaGirlie y la comparación con el mencionado de Jennifer Ringley, reflexiona sobre el autorretrato online. Pesadas categorías como “mirada”, “voyeurismo”, “exhibicionismo” se mezclan en su artículo con el débil pero sutil sintagma “ventana”, para pensar la producción de sentidos sobre nuestras máscaras y cotidianidad. Luego de leer esos capítulos, las webcams y el software social devienen parte de la “cosa política”, como bien apunta Szope.

Los otros dos capítulos de la sección analizan sobre los modos en los que la web afecta a comunidades que desde el sentido común no nos inclinaríamos a pensar que pudieran ser atravesadas por la comunicación virtual. Así, Alexander Halavais indaga sobre las redes del nacionalismo blanco norteamericano, entre 1996 y 2006, y Albrecht Hofheinz lo hace sobre allah.com, un website en la urdimbre global, y diversa de las interpretaciones de textos sagrados del Islam.

En ambos casos, Internet no puede retener el término “red” en su definición puesto que los “terroristas”, por un lado, y los lectores y promotores de textos islámicos, por el otro, ya están densamente enredados en la vida “real”. Aparecen en estos textos problemas reconocidos en la investigación histórica.

Halavais hace hincapié en las prácticas terroristas del racismo antes que en el racismo y, al hacerlo, modifica las redes que analizará: aleja a los racistas norteamericanos de las redes racistas europeas y los pone cerca de los sitios web de los partidarios del EZLN (según su percepción del terrorismo). Hofheinz, quien se propone ensayar una “descripción densa” de un sitio web, finaliza su artículo argumentando que “la historia del sitio no comienza en la web”. Sin embargo, entre la etnografía geertziana frente a otros mundos de significación y el conocimiento exhaustivo de Hofheinz sobre los conflictos de poder en el interior del mundo islámico, existe la misma y consistente distancia que entre el extrañamiento y la verificación. Pese a ello, el texto sobre allah.com es uno de los más importantes de la compilación por su combinación de conocimientos históricos y su integración con nuevos documentos y nuevas preguntas.

La tercera sección, “Web Industries and Media Institutions”, está integrada por cuatro textos que tratan sobre empresas y desarrollos online. El análisis de las estrategias institucionales –negocios y comunicación– pone a esta sección más cerca de algunas líneas de investigación que provienen de la “historia de la empresa”. Un artículo que intenta una periodización del auge y caída del período dot.com; otro que evalúa diversas estrategias de empresas finlandesas ligadas a la comunicación, frente a la convergencia entre los nuevos medios y los tradicionales; un tercero sobre la evolución de un área de la BBC (BBC Online News, http://www.bbc.co.uk/news/); y un último sobre la “mediamorfosis” en los diarios de Dinamarca. Es sin dudas la sección más experimental de Web History y a eso se debe, tal vez, sus por momentos rígidas relaciones entre conceptos y casos. Sin embargo, al construir cuestionarios que periodicen de distinta manera lo que suele ser una cadena de tecnologías cada vez más rápidas, baratas y calientes, el estudio sobre los modos de enfrentar cambios tecnológicos y prácticas culturales, desde el punto de vista de la producción de contenidos, se hace fuerte y nos provee de otra ventana a la historia de la web.

La cuarta sección se denomina “Preserving and Presenting” y con cuatro artículos aspira a discutir aspectos relacionados con la preservación de materiales de la web y con la presentación online de esos materiales. También Nicolás Quiroga en esta sección dos artículos son estudios de caso (el que trata acerca del sitio sobre la masacre de Virginia Tech, http://april16archive.org/, y el que se ocupa de un “museo” de la web dinamarqués: webmuseum.dk, http://webmuseum.dk/). Los otros dos textos son transversales: uno reflexiona sobre la historia de las publicidades online y el otro trata sobre la construcción de un mejor sistema vivo para la web y su pasado, a partir de una revisión de los trabajos de Paul Otlet en las primeras décadas del siglo XX. Este capítulo es importante porque la pregunta sobre las fuentes puede rastrearse en todas las secciones del libro. Pero el tema ha sido sólo en parte atacado: un capítulo específico sobre el sitio archive.org y la WayBack Machine (http://archive.org) se revela necesario luego de revisar los cuatro textos de la última sección y de leer el epílogo de Brügger (“The future of Web History”) que aspira a trazar las primeras líneas de un futuro programa de investigación sobre la web. En ese último trabajo, el compilador de Web History hace hincapié en tres problemáticas y precisamente una de ellas es sobre el archivo de la web (las otras dos hacen referencia a la cuestión de la infraestructura y los límites nacionales que padecen los proyectos en este campo). Archive.org es el lugar donde se guardan parte de los sitios webs tomadas en distintos momentos de la existencia de esos sitios. Una suerte de álbum del pasado de la web. Un estudio histórico a nivel de sitios web necesariamente comenzará con preguntas para y sobre archive.org.

Finalmente el libro debe disculpar a su propio prologuista (Charles Ess) quien le reclama una perspectiva más inclusiva, es decir, la incorporación de aproximaciones a otras realidades nacionales. En verdad eso sería muy interesante en los casos en los que investigadores e investigadoras de regiones “no desarrolladas” tramiten del mismo modo problemáticas generales que este libro aborda. Pero si se trata de compilar las líneas hegemónicas entre los emprendimientos culturales que conciben a la web como una opción secundaria para el trabajo en papel, entonces no, no es tan interesante: para una visión tradicional del hacer histórico y el uso instrumental de la web mejor hacer otro libro, un libro de sentido común (del que también puede existir una versión “global”).

Web History es uno de los libros de “Digital Formations”, la colección de la editorial Peter Lang que se ocupa de la investigación en internet (aún si el sintagma “digital research” todavía es ambiguo). El libro es heterogéneo, toca tema no centrales de la investigación histórica y algunas de sus entradas son aún demasiado parecidas a las ponencias que le dieron origen; sin embargo es un libro que desde sus secciones presenta muy bien las problemáticas que en algunos centros de producción del conocimiento comienzan a estabilizarse como áreas. Para aquellos investigadores e investigadoras que empiezan a intuir que, desde un tiempo a esta parte, la web está ocupando un poco más de tiempo en su trabajo, este es un libro que vale la pena hojear.

Notas

1 Sobre estos temas puede leerse la producción de Jakob Nielsen, uno de los más grandes expertos en usabilidad. Disponible en: <http://www.useit.com/alertbox/>. Acceso en: 13/08/2010.

2 El programa del evento puede consultarse en: <http://cfi.au.dk/en/events/conferences/wsh08/program/>. Acceso en: 13/08/2010.

Approach, Reino Unido, 2001; PEARCE, Celia y ARTEMESIA. Communities of Play. Emergent Cultures in Multiplayer Games and Virtual Worlds. EEUU, MIT, 2009.

Nicolás Quiroga – Doutor em História e Professor da Universidad Nacional de Mar del Plata (UNMP) e pesquisador do Consejo Nacional de Investigaciones Científicas y Teconológicas (CONICET) / Argentina.

A hidra de muitas cabeças: marinheiros, escravos, plebeus e a história oculta do Atlântico revolucionário – LINEBAUGH; REDIKER (A)

LINEBAUGH, Peter; REDIKER, Marcus. A hidra de muitas cabeças: marinheiros, escravos, plebeus e a história oculta do Atlântico revolucionário. São Paulo: Companhia das Letras, 2008. Resenha de: GONZÁLEZ, Martín P. Antítese, v. 3, n. 6, jul./dez. 2010.

Si bien tanto Peter Linebaugh como Markus Rediker realizaron otras publicaciones antes y después de La Hidra de la Revolución, 1 nunca lograron alcanzar el reconocimiento que les valió este libro. En la presente reseña crítica nos proponemos, entonces, recuperar las diversas dimensiones que hacen del presente trabajo una innovación dentro de un escenario historiográfico un tanto hostil a los nuevos abordajes y las propuestas analíticas novedosas. Para facilitar la lectura, estructuraremos nuestro análisis en seis apartados diferenciados, para así dar cuenta de la riqueza y los matices que posee el libro. El primero estará centrado en analizar los debates historiográficos, metodológicos y teóricos en los cuales La Hidra se posiciona, buscando así establecer vínculos y relaciones con otros autores. Los siguientes cuatro apartados se centrarán en comentar el libro a partir de su propia estructura, buscando ir más allá de una mera enumeración de capítulos, indagando en las aristas problemáticas que pueda presentar el abordaje de los autores. Finalmente, el último apartado presentará una conclusión crítica. Existe también una publicación en español La Hidra de la Revolución. Marineros, esclavos y campesinos en la historia oculta del Atlántico, publicada por Crítica en Barcelona durante 2005.

Galardonado con el “International Labor History Association Book Prize”, el presente trabajo de Linebaugh y Rediker generó grandes controversias en los círculos académicos, a partir no sólo de su novedosa interpretación de la historia atlántica entre los siglos XVII y XIX, sino también de la forma en que utilizan ciertas categorías de la tradición analítica propia de la historiografía marxista inglesa, estableciendo diálogos con la teoría antropológica y sociológica. Así, si bien el libro está claramente orientado hacia problemáticas analizadas por historiadores de la talla de Rodney Hilton, Edward Palmer Thompson o Christopher Hill2 –como por ejemplo las resistencias campesinas y esclavas, las ideologías radicales de las multitudes sin voz, los conflictos y resistencias en el proceso de trabajo, o la constitución de clases sociales a partir de la experiencia de los sujetos–, podemos notar en el análisis de Linebaugh y Rediker la intención de trascender los límites nacionales –específicamente ingleses– de esos procesos. En este sentido, La Hidra retoma algunas de las hipótesis que guiaron los trabajos tempranos de George Rudé y Eric Hobsbawm,3 quienes buscaron traspasar las barreras de la historia inglesa, analizando ideologías y movimientos populares más allá de los límites geográficos de los Estados nacionales. Nos encontramos entonces con una propuesta temática y un recorte espacial, cronológico y temático más amplio: el espacio del Atlántico, cuyas corrientes y mareas determinaron una serie de experiencias comunes a un proletariado atlántico compuesto de marineros, labradores, criminales, mujeres, radicales religiosos y esclavos africanos, desde el comienzo de la expansión colonial inglesa en el siglo XVII hasta la industrialización metropolitana de inicios del XIX. En este sentido, “los gobernadores recurrieron al mito de Hércules y la hidra para simbolizar la dificultad de imponer orden en unos sistemas laborales cada vez más globales” (p. 16): es precisamente sobre el origen, características, accionar y devenir de las múltiples cabezas de esa hidra, que está centrado el análisis de Linebaugh y Rediker. Entonces, en lugar de centrarse en analizar la constitución de una clase obrera industrial, las características de los piratas, el tráfico esclavista o las ideologías religiosas radicales como elementos independientes, los autores buscan rescatar –a partir de una mirada “desde abajo”- esta multiplicidad de experiencias de opresión, violencia y dominación en función de un abordaje holístico que recupere las conexiones existentes entre estos fenómenos aparentemente dispersos. Así, si bien estos conflictos tendrán diversos escenarios (principalmente los terrenos comunales, la plantación, el barco y la fábrica), el eje de análisis pasa por las relaciones, los quiebres, y las continuidades entre esta diversidad de espacios. Como los procedimientos de análisis de los autores presentan variaciones de capítulo en capítulo, consideramos oportuno abordar a continuación una descripción de los mismos, en función del recorte temático-temporal que realizan, estructurado en cuatro momentos en el desarrollo de este conflicto entre la globalización capitalista hercúlea y las resistencias planteadas por esa compleja hidra policéfala. Los dos primeros capítulos del libro se ocupan de la primera fase de este proceso de dominación hercúleo, que ocurre en los años de 1600 a 1640, signado por el crecimiento y desarrollo del capitalismo comercial inglés y la colonización del espacio atlántico. Estos años de expropiación serían fundamentales, entonces, para la conformación de una estructura económica de exclusión y transformación de las relaciones sociales existentes hasta el momento. El primer capítulo, “El naufragio del Sea-Venture”, sienta las bases de la metodología analítica de los autores. La misma parte de reconstruir casos concretos –como en este caso, el del naufragio de un barco inglés– para indagar en cuestiones estructurales de la época. Así, a partir de este suceso, se abordan cuestiones esenciales del naciente capitalismo atlántico de principios del siglo XVII: la expropiación –mediante la reconstrucción del contexto de competencia imperialista y desarrollo capitalista del cuál la Virginia Company fue uno de sus motores esenciales, a partir de las estrategias de colonización de tierras americanas trasladando poblaciones campesinas–, la lucha por crear modos de vida alternativos a esa expropiación –retomando así la tradición de uso de terrenos comunales, que llegó al territorio americano de la mano de los marineros–, las formas de cooperación y resistencia –fundamentalmente entre los mismos marineros, que, ante los peligros de altamar, iban más allá de sus condiciones de artesanos, proscriptos, campesinos pauperizados, o peones, uniéndose en pos de lograr objetivos comunes– y la imposición de una disciplina clasista –a partir de la respuesta que los funcionarios de la Virginia Company tuvieron frente a esas resistencias, imponiendo el terror de la horca y una disciplina laboral estricta. Este primer capítulo es también representativo en términos de los procedimientos de análisis que los autores realizan de los documentos. En este punto podemos observar un claro interés por hacer dialogar la teoría marxista – especialmente La ideología alemana y el capítulo veinticuatro (sobre la acumulación originaria) de El Capital de Marx–, con la historiografía inglesa – si bien el interlocutor privilegiado lo constituye el marxismo británico de Hill y Thompson, también se cuestionan otras interpretaciones, como podría ser la Hugh Trevor Ropper– y un extenso y detallado corpus documental del período, compuesto principalmente por relatos de viajes, documentos administrativos de la Virginia Company y obras literarias como La Tempestad de Shakespeare. Así, en el segundo capítulo, “Leñadores y aguadores”, los autores retoman los argumentos de algunos de los principales intelectuales de la primer parte del siglo XVII inglés, como Francis Bacon o Walter Raleigh, y cómo caracterizaban a los enemigos de ese Hércules explorador, colonizador y comerciante, a partir de la monstruosidad de esas multitudes variopintas. Centrándose entonces en los leñadores y aguadores, que desempeñaron funciones esenciales para el avance de este proceso globalizante –a saber, realizaron las tareas de expropiación mediante la tala de bosques y destrucción del hábitat de los terrenos comunales, construían los puertos y barcos, y desarrollaban las actividades domésticas cotidianas–, los autores reconstruyen el proceso de constitución de la “infraestructura” necesaria para la expansión del capitalismo comercial, así como la consolidación de un aparato represivo orientado a controlar estas poblaciones: el terror, la prisión, los correccionales, la horca, las campañas militares y los trabajos forzados en ultramar. Sin embargo, a partir de los vínculos de solidaridad y resistencia, estos grupos de “leñadores y aguadores” comenzaron a formar iglesias, regimientos politizados al interior del ejército y comunas rurales y urbanas. “La hidra, formada por marineros, obreros, aguadores, aprendices, es decir, las clases humildes y más bajas –o, por decirlo de otra manera, el proletariado urbano revolucionario– estaba emprendiendo acciones de un modo independiente” (p. 87). Estas cuestiones constituyen el transfondo de la segunda fase de este proceso. Los siguientes dos capítulos están centrados en la segunda fase de este proceso, que iría de 1640 a 1680, y que estaría signada por los levantamientos de esas múltiples cabezas de la hidra, mediante la revolución en la metrópolis y los levantamientos en las colonias. El interlocutor privilegiado de estos capítulos es Christopher Hill, ya que el contenido de los mismos está orientado hacia los mismos problemas y tópicos teóricos tratados por él, aunque con ciertas variaciones que enriquecen el análisis. El tercer capítulo, “Una ‘morita negra’ llamada Francis” constituye acaso la forma más acabada de aplicación de la metodología de estos autores. Como decíamos más arriba, Linebaugh y Rediker parten de casos concretos para reflexionar sobre la totalidad de un proceso, explotando los documentos al máximo e indagando en las condiciones estructurales a partir de coyunturas específicas. Pues bien, en este caso los autores analizan un único documento, un informe de Edward Terrill, dirigente eclesiástico de la Iglesia de Broadmead, en Bristol, sobre “una criada morita y negra llamada Francis”. Lo interesante es cómo, a partir de esta somera descripción de una carilla, los autores analizan la confluencia entre dinámicas sociales como la raza, la clase y el género en el contexto de la revolución puritana inglesa. Así, la reconstrucción de la posible trayectoria de Francis, lejos de centrarse en un abordaje biográfico, da cuenta de las diversas problemáticas del período. “La bifurcación de los debates de Putney”, el cuarto capítulo, está centrado específicamente en las ramificaciones que dichas polémicas tuvieron. Durante el otoño de 1647 tuvieron lugar, en el pequeño pueblo de Putney, una serie de debates de radical importancia para el futuro de Inglaterra –y del capitalismo.

Notas

1 Entre los numerosos trabajos realizados pos los autores, vale la pena resaltar: Marcus Rediker. Between the devil and the deep blue sea: merchant seamen, pirates, and the AngloAmerican maritime world, 1670-1750. Cambridge: Cambridge University Press, 1993; Peter Linebaugh. The London Hanged: Crime and Civil Society in the Eighteenth-Century. Cambridge: Cambridge University Press, 1992; y Douglas Hay, Peter Linebaugh, John G. Rule, Edward P. Thompson y Cal (eds.) Albion’s Fatal Tree. Crime and Society in Eighteenth-Century England. London: Penguin Books, 1988. Martín P. González Peter Linebaugh e Marcus Rediker.

2 Entre la numerosísima bibliografía de estos autores, resaltamos: Christopher Hill. Antichrist in Seventeenth-century England. Londres: Verso, 1990; El mundo trastornado. El ideario popular extremista en la Revolución inglesa del siglo XVII. Madrid: Siglo XXI España, 1983; y Los orígenes intelectuales de la revolución inglesa, Crítica, Madrid, 1996; de Edgard P. Thompson. Costumbres en común. Barcelona: Crítica, 1984 y Tradición, revuelta y consciencia de clase. Estudios de la crisis de la sociedad industrial. Barcelona: Crítica, 1984; y Rodney Hilton. (ed.) La transición del feudalismo al capitalismo. Barcelona: Crítica, 1982; y Hilton, Rodney. Siervos liberados. Madrid: Siglo XXI, 1978.

3 Hacemos referencia, principalmente, a trabajos como: George Rudé. La multitud en la historia. Madrid: Siglo XXI, 1971; y Eric Hobsbawm. Revolución industrial y revuelta agraria. El capitán Swing. Madrid: Siglo XXI, 1978; y Rebeldes primitivos. Estudio sobre las formas arcaicas de los movimientos sociales en los siglos XIX y XX. Madrid: Crítica, 2001.

Martín P. González – Professor da Universidad de Buenos Aires (UBA) / Argentina.

Ciudades Portuarias en la gran cuenca del Caribe – VIDAL; CARO (M-RDHAC)

VIDAL, Antonino Vidal; CARO, Jorge Enrique Elias (Editores). Ciudades Portuarias en la gran cuenca del Caribe. Resenha de: LÁZARO, Julián. Resena de: Memorias – Revista Digital de Historia y Arqueología desde el Caribe, Barranquilla, n.13 Barranquilla jul./dez. 2010.

Si bien es cierto que en la actualidad la dinámica del capitalismo ha impuesto un modelo de organización en el que las redes a escala global constituyen la esencia misma de las relaciones entre los distintos puntos del planeta, ya sean corporaciones, ciudades, regiones o países, dando con ello vida a lo que conocemos como “Globalización”, tampoco lo es menos que desde hace ya muchos siglos los hombres se han preocupado por establecer nexos entre las distintas comunidades que han conformado. En este sentido, las comunicaciones entre grupos humanos, en ocasiones muy distintos y muy distantes, han fluido a través de los diferentes entornos naturales, superando incluso las adversidades naturales a través de la organización de sus recursos, tanto materiales como humanos. En el mar, desde la antigüedad, esos notables navegantes que fueron los fenicios supieron -así como muchas otras civilizaciones que tuvieron como espacio de desarrollo al océano-, adquirir la destreza suficiente para utilizar a su favor dicho entorno. Siguiendo la senda marítima, que es la que nos interesa para efectos de esta reseña, es preciso destacar que la complejidad que adquirieron los sistemas de navegación, como consecuencia de los requerimientos también complejos de las sociedades, hicieron necesaria la implementación de una infraestructura cada vez más elaborada que correspondiera al ritmo de las actividades y exigencia de la navegación marítima.

Un componente central de la estructura general de los sistemas de navegación es el de los puertos. Para seguir con el ejemplo de la antigüedad, se pasó de la utilización de sencillas pero óptimas bahías que requerían unas condiciones mínimas (protección contra vientos desfavorables, poca profundidad para embarcaciones de poco calado, etc.) a obras de ingeniería mucho más elaboradas, como el célebre puerto de Cartago, que en su momento satisfizo de manera adecuada las necesidades de dicha potencia marítima.

Para los cartagineses el puerto encarnaba la esencia misma de su ethos, pues era el espacio a partir del cual se desarrollaba y expandía su civilización, tanto a través del mar Mediterráneo como en el Atlántico. En este mismo sentido, aunque ya mucho más adelante en el tiempo, para ser más preciso a partir del siglo XVI y en el Caribe, los puertos se convirtieron en el entorno natural de desarrollo de muchas comunidades (y también de regiones enteras), las cuales vivieron un proceso de crecimiento cultural y económico (y también, en no pocos casos, de posterior retroceso y debacle) que ha motivado el estudio y despertado el interés de numerosos investigadores desde las distintas áreas del conocimiento humanístico.

La obra que me propongo presentar de manera breve titulada Ciudades portuarias en la Gran Cuenca del Caribe: Visión histórica, que tiene como editores a dos estudiosos de los temas relacionados con la historia del Caribe, Antonino Vidal y Jorge Enrique Elias Caro, consiste en un conjunto de 17 textos elaborados por 17 autores distintos sobre diversos ámbitos de la historia de los puertos caribeños, como la economía, la cultura y la sociedad. Entre los autores que hacen sus aportes en esta obra, que incluye trabajos tanto de los puertos de Tierra Firme como de algunas Antillas están: Franklin W. Knight, Sergio Paolo Solano, Christian Cwik, Rosario Marquez y Raul Roman Romero.

Ya entrando en detalle acerca de la composición del texto en algunos de sus capítulos, es preciso señalar que inicia con el trabajo de Franklin Knigth, profesor de la John Hopkins University, titulado “La construcción social de las ciudades portuarias en las Antillas del Caribe antes de 1850”, en el que se aborda la forma como se llevó a cabo la construcción y desarrollo de las sociedades de puertos de Jamaica, Cuba, Haiti y Guadalupe, teniendo en cuenta el rol que en el ya mencionado desarrollo tuvieron ámbitos como la economía y la cultura.

Otro de los trabajos incluidos en el texto es el de Rosario Márquez, de la Universidad de Huelva, que lleva como título “La actividad cultural de los puertos del Caribe en el siglo XVIII. El caso del comercio de libros.”, en el que la autora hace una descripción de las principales características de los libros que, partiendo desde España, llegaban al Caribe, señalando por ejemplo los lugares de envío, quienes los traían y los temas que algunos de estos textos abordaban, con lo que la profesora Márquez logra trazar en líneas generales una imagen de este interesante aspecto de la historia cultural del Caribe.

Integra también la obra reseñada un trabajo de la profesora Mayabel Ranero Castro, de la Facultad de Sociología de la Universidad Veracruzana, titulado “Políticas nosológicas en dos puertos caribeños: Veracruz y La Habana”, en el cual la autora se ocupa describir y analizar los procesos médicos y sanitarios implementados en los dos puertos durante el periodo colonial, en gran parte como consecuencia de su importancia estratégica para efectos económicos y militares en el Caribe, lo que los convertía en puntos neurálgicos del sistema administrativo español con una permanente presencia de peninsulares que requerían de unas condiciones médicas y de salubridad óptimas.

Por su parte, el historiador Germán Cardozo Galue, de la Universidad del Zulia, en un capitulo de su autoría titulado “Maracaibo: génesis y desarrollo de un puerto caribeño”, hace un análisis del proceso de desarrollo que tuvo uno de los principales centros comerciales del Caribe durante gran parte del periodo colonial. La ubicación geográfica de Maracaibo, señala el autor, fue fundamental para su constitución como gran puerto a través del cual eran exportados los productos de la actividad agrícola de la “región marabina”, la cual ya antes de la llegada de los españoles había contado en sus costas con núcleos de población aborigen dedicados al intercambio, sentando un precedente para los posteriores centros urbanos erigidos por los españoles que les sirvieron para controlar económica y administrativamente el occidente venezolano.

Otro de los temas desarrollados en las páginas de Ciudades portuarias en la Gran Cuenca del Caribe: Visión histórica, es el del contrabando. El historiador Christian Cwik, en el capitulo “Curazao y Riohacha en el marco del contrabando judío (1650-1750)”, analiza el comercio ilegal llevado a cabo, entre otros, por judíos holandeses y conversos provenientes de Portugal, quienes establecieron su base principal de operaciones en la isla de Curazao, desde donde ampliaron su radio de acción por el Caribe y llevaron sus actividades comerciales hasta Riohacha, punto de penetración a territorio de la Nueva Granada.

Además de los anteriores y de acuerdo a lo que se señaló al inicio de esta breve descripción de la obra Ciudades portuarias en la Gran Cuenca del Caribe: Visión histórica, otros tantos autores se ocupan de las más diversas temáticas, entre ellos: Bernardo Díaz, de la Universidad Veracruzana, con el capitulo “El puerto de Veracruz en la mirada de viajeros extranjeros”; Mercedes García es autora de “La Real Compañía de Comercio de La Habana. Su actividad por el puerto de Carenas”; Raúl Román Romero realiza su aporte a la historia del Caribe a través del trabajo “La crisis del puerto de Cartagena de Indias: Conflictos y fracasos de sus proyectos de desarrollo (1830-1848)”; Sergio Paolo Solano lo hace con “Un problema de escala: La configuración social del puerto en las ciudades del Caribe colombiano (1850-1930)”; y Elizet Payne presenta “Inmigración y capital: familias y empresas en el puerto de Trujillo, Honduras (1890-1930)”.

El conjunto de capítulos que componen el texto presentado en esta reseña lo integran también los trabajos “El puerto de La Habana: de principal enclave del comercio indiano a cabecera de una economía de plantación”, “La conformación del circuito mercantil trasatlántico entre Cádiz, Tenerife, La Habana y Veracruz (1750-1850)” y “El puerto de Veracruz: de garganta de los reinos a circuito caribeño privilegiado”, de los autores Arturo Sorhegui (Universidad de La Habana) Abel Juárez Martínez y Feliciano García Aguirre (ambos de la Universidad Veracruzana), respectivamente.

Los editores del texto, Antonino Vidal y Jorge Elias Caro, contribuyen con dos trabajos, “Cartagena de Indias la ciudad-puerto y los hombres entre 1600 y 1650” y “El puerto de Santa Marta: determinantes de crecimiento y desarrollo de una ciudad caribeña (1818-1860).

El texto, en su parte final, presenta trabajos que se ocupan de procesos mucho más cercanos en el tiempo y que constituyen ejercicios de análisis sobre temas y problemas de actualidad: “Del mar a la montaña, de la montaña al mar: breve historia de las conexiones del puerto caribeño de Turbo, Golfo de Urabá (1831-2009)”, del profesor de la Universidad del Magdalena Juan Ricardo Gaviria, y “Los puertos del Caribe occidental: del mare nostrum al al mare clausum”, de Francisco Avella Esquivel.

Como puede apreciarse en esta descripción general del texto Ciudades portuarias en la Gran Cuenca del Caribe: Visión histórica, éste trabajo contiene una notable variedad de temas desde los cuales el lector puede acercarse a los procesos sociales, culturales y económicos de varias de las principales ciudades portuarias de la región, en un periodo de tiempo que va desde la Colonia hasta la actualidad, permitiendo apreciar, por una parte, procesos específicos de cada puerto, pero también procesos generales de la región.

Todos estos esfuerzos por estudiar una región específica, como es el Gran Caribe, a pesar de la controversia entre las diferentes posturas que aducen argumentos en contra y a favor de la existencia de la misma, resultan especialmente relevantes en el marco de la dinámica globalizadora actual que se ha encaminado hacia la formación de bloques regionales de países con intereses económicos, culturales y políticos en común. En este sentido, la comprensión de los procesos históricos es solo una parte del proceso de construcción de una identidad como región, pero una parte fundamental para consolidar un proyecto regional fuerte de cara a la competencia que desde otras latitudes se impone.

Julián Lázaro – Historiador

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Conexões Atlânticas: temas, abordagens, conceitos / Revista Brasileira do Caribe / 2010

CABRERA, Olga. Conexões Atlânticas: temas, abordagens, conceitos. Revista Brasileira do Caribe, São Luís, v.11, n.21, jul./dez. 2010. Arquivo indisponível na publicação original. [IF].

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Mapas das Minas / Revista do Arquivo Público Mineiro / 2010

Como nos apontam os diversos estudos reunidos neste Dossiê, a história da exploração, ocupação e consolidação territorial das Minas Gerais, sob o signo da América portuguesa e / ou do processo de formação da jovem nação brasileira, confunde-se com a própria necessidade de conhecer e delimitar esse espaço, o que se expressa em documentos diversos de natureza cartográfica: são roteiros, relações, mapas, esboços, plantas, borrões, desenhos.

Os primeiros mapas realizados da Capitania das Minas vão se configurar como um momento de inflexão da arte cartográfica. Por um lado, revelam o contínuo conhecimento do interior do Brasil e o desvelamento de sua geografia; por outro, inserem-se na tradição medieval de preencher os espaços desconhecidos com elementos que lembram o onírico e o maravilhoso. Mas, à medida que os portugueses adentram pelo Novo Mundo, a geografia imaginária vai aos poucos sendo abandonada, substituída progressivamente por outra, resultante da experiência concreta de penetração no território da América. A cartografia da Capitania de Minas Gerais vai então ocupar nesse contexto importante papel. Assim, a partir do século XVIII, os espaços das cartas, que antes configuravam áreas de representação pictórica, vão sendo preenchidos por rios, montanhas, acidentes naturais do terreno, bem como por arraiais, vilas, caminhos e roças, estes frutos da ocupação humana. Leia Mais

Acervos digitais e preservação da memória / Revista do Arquivo Público Mineiro / 2010

Os desafios da revolução digital

O presente Dossiê é o resultado das reflexões de historiadores e arquivistas elaboradas a partir de suas experiências de pesquisa e / ou do trato com técnicas, procedimentos e planejamento que envolvem a concepção e execução de projetos e programas de digitalização de acervos arquivísticos. Estão aqui reunidos textos de seis autores que ilustram, com seus trabalhos, o “novo mundo” de acesso à informação, sem fronteiras, criado pela revolução provocada pela informática e seus contínuos avanços tecnológicos. Esses trabalhos são orientados pela ótica de seus impactos na pesquisa histórica e na revisão dos conceitos aplicados à documentação prevalecentes no campo da arquivologia. Leia Mais

Antropologia Brasiliana: Ciência e Educação na obra de Edgard Roquette-Pinto – LIMA (RIHGB)

LIMA, Nísia Trindade; SÁ, Dominichi Miranda de (Orgs). Antropologia Brasiliana: Ciência e Educação na obra de Edgard Roquette-Pinto.Nísia Belo Horizonte, UFMG e Rio de Janeiro, FIOCRUZ, 2008. Resenha de RIOS: José Arthur. Revista do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, Rio de Janeiro, a. 171 (447) p.291-298, abr./jun. 2010.R. IHGB, Rio de Janeiro, a. 171 (447) p.291-298, abr./jun 2010.

O título do livro deriva da expressão cunhada por Edgard Roquette-Pinto, tema principal dessa coletânea de ensaios. As organizadoras, téc­nicas e professoras da Casa de Oswaldo Cruz, uma, socióloga (Nísia), outra, historiadora (Dominichi), ambas se completam na interpretação e na análise documental dos dados e informações colhidos em obras, cor­respondências e arquivos, sobre essa curiosa figura de sábio e pioneiro.

Robert Wegner assina erudito Prefácio completado por uma Apre­sentação das organizadoras que associam a trajetória intelectual de Ro­quette-Pinto à própria história da República na primeira metade do século XX e, mais que isso, à historia das ideias e do pensamento científico naquelas décadas.

Valiosa a transcrição de uma palestra de Roquette sobre “Ciência e Cientistas do Brasil”, proferida em 1939, onde nos dá, com a autoridade de protagonista, o estado da questão, uma visão panorâmica dos avan­ços e atrasos das ciências físico-naturais no Brasil da época. Duas ideias transparecem (Dominichi) nesse texto: – a influência do Positivismo e a preocupação dominante na legitimação da ciência, sobretudo de uma “ciência pura” face a uma “ciência aplicada”.

Na mesma perspectiva interpretativa, Alberto Venâncio Filho analisa a obra de Roquette-Pinto como expressão de humanismo, assinalando a importância da formação positivista, bebida desde tempos escolares, na gênese do pensamento do autor de Rondônia; bem como sua tentativa de conciliar ciência e técnica com as melhores fontes do humanismo do século XIX, sobretudo com a obra de Goethe, de declarada influência na obra de Roquette.

Central, no livro, o ensaio de Nísia Trindade Lima situando o cien­tista na sua geração, no papel renovador e contestatário que esta desem­penhou face à sociedade patriarcal e à cultura que produziu, baseada na inteligentsia bacharelesca, na aversão das elites ao trabalho manual e na retórica romântica.  Nessa perspectiva – do amplo processo de desagregação do regime escravista e da sociedade patriarcal, e a demorada extinção de suas mar­cas – as autoras situam a obra de Roquette. Seria esta mais um capítulo na busca de identidade do povo brasileiro. Escreve em momento de tran­sição social e cultural em que antigas categorias explicativas como “raça” e “mestiçagem” vão cedendo lugar a traços culturais persistentes como analfabetismo, doença e atraso. Tudo isso se prende à ascendência das camadas médias urbanas na sociedade brasileira, ansiosas por abraçar, na nova República, uma ideologia justificadora. Nesse cenário avulta o papel inspirador – e formatizador – do que João Cruz Costa chamou “po­sitivismo difuso”, de remota, mas certa raiz na doutrina de Comte.  Esse Positivismo sui generis é tema do ensaio de Luiz Otávio Fer­reira (“Ethos positivista e a institucionalização das ciências no Brazil”) onde salienta a função do arcabouço institucional então criado, institutos, centros de pesquisas e laboratórios, sem o que as ideias renovadoras dessa nova geração careceriam de uma caixa de ressonância. Como demonstra o autor, mediatizaram essas instituições as inovações intelectuais trazidas pelos cientistas, articulando sua atividade com um sistema de ensino su­perior, criando campo de prova para as primeiras reformas universitárias. Sob esse aspecto, a obra de Fernando de Azevedo, companheiro de gera­ção de Roquette-Pinto, é bastante característica dessas vocações. Nesses avanços científicos, – caruncho no tronco – brota o cientificismo, no qual capitulam os melhores espíritos – Alberto Torres, Oliveira Vianna, Eucli­des, que pagaram preço alto à pseudociência dos tempos.

Essa institucionalização se prende a amplo projeto nacional. É o grande tema de Rondônia, como evidenciam, em outro ensaio, a mãos juntas, Nísia Trindade Lima, Ricardo Ventura Santos e Carlos E. A Coim­bra Junior. A obra de Roquette resultou de um projeto caro à nova Re­pública – a expedição Rondon e a implantação das linhas telegráficas no extremo Oeste. Graças a Rondon, a ciência não se legitimava apenas pe­las elocubrações e descobertas de gabinete, mas por propiciar a extensão do Estado às regiões inóspitas, aos “sertões” do Brasil; e a incorporação das populações indígenas à proteção paternalista do Governo. O “sertão” é assim anexado à cultura urbana e o sertanejo – o homem forte, mas abandonado, de Euclides, – é agora associado à obra coletiva da criação nacional. Em Rondônia, como os autores vêm a obra mestra de Roquette, ocorre a transição da antropologia física de Broca, Bertillon e outros – a antropologia das medidas antropométricas – para uma redefinição do “primitivo” que só poderá se processar em termos culturais.

Ricardo Ventura Santos aborda o mesmo tema sob o ângulo da mes­tiçagem, objeto de acalorados, às vezes transviados, debates na sociologia e na medicina da época e que levaram Roquette, admirador de Euclides, a separar-se, nesse ponto, do cientificismo do autor dos Sertões. Na discus­são o autor exalta, com acerto, a importância da componente nacionalista que vai dominar a polêmica nos anos 20 e 30.

É justamente o momento em que o debate passa do domínio cientifico – ou cientificista – para o campo político e avulta, no cenário internacional do após Primeira Guerra, – cortado de redefinições de fronteiras e movi­mentação de povos, – o problema das migrações. É este objeto do denso, pesquisado e fundamentado ensaio de Giralda Seyferth (“Roquette-Pinto e o debate sobre raça e imigração no Brasil”). Demonstra os obstáculos ideológicos que atravancavam o caminho para uma solução racional e despreconceituosa do problema. Ditadas por uma teorização equivocada e lacunosa, surgem, no cenário brasileiro, propostas que, hoje, nos fazem rir, assinadas por figuras respeitáveis, alguns médicos, de renome.

Típica é a reação de muitos à imigração japonesa, tida como ameaça à nossa pureza racial, a ponto de merecer a denúncia de “perigo amarelo”. Assim também a repulsa à mera possibilidade de uma imigração chinesa acalentada por alguns líderes desde o tempo do Império, como substitu­ta no latifúndio cafeeiro, à escravidão africana – e até considerada nos anos 30 “repugnante”. Obedece aos mesmos preconceitos a sugestão de adoção do sistema de quotas, cópia do modelo americano. Essas ideias, como verifica a autora, resultaram em políticas, ditaram critérios restriti­vos quando não proibitivos, contra correntes imigratórias que nos teriam trazido, como algumas de fato trouxeram, progresso social, tecnologia e prosperidade. Eram todas sustentadas em nome da pureza da raça, concei­to de problemática definição.

A confusão, muitas vezes ciente e consciente, entre raça, etnia, povo e nacionalidade, sobretudo depois da Segunda Guerra Mundial e durante o Estado Novo, resultou de fato em políticas anti-imigrantistas. É o tema de Jair de Souza Ramos (“Como classificar os indesejáveis?”). O autor, no entanto, usa o termo “racialização”, “medidas racialistas”, quando na verdade está falando de racismo, tout court, agravado no período da Se­gunda Guerra, pela entrada do Brasil na luta contra o Eixo e que atingiu, por motivações diversas, os descendentes de italianos, alemães e japone­ses no Sul do Brasil, e também judeus que tentavam fugir à perseguição nazista – como fartamente documentado. Roquette-Pinto prestou-se, no caso, a interpretações nacionalistas, quando afirmou que o brasileiro não precisava de substituto – nivelando-se a outro contemporâneo que ficou célebre pela afirmação “o brasileiro é o melhor imigrante”.

A preocupação da Eugenia, generalizada na época e importada dos círculos científicos europeus e norte-americanos, constituiu tropeço no pensamento de Roquette, como demonstra Vanderlei Sebastião de Souza (“As leis da eugenia na antropologia de Roquette-Pinto”). A Eugenia an­dou muito associada às teorias racistas, tornou-se, na Alemanha nazista, instrumento e desculpa para a eliminação de “indesejáveis” – leiam-se minorias, os chamados “quistos” – termo usado no Brasil para designar as colônias alemãs no Sul – por serem, segundo os autores dessas teorias, inassimiláveis, irredutíveis ao melting pot brasileiro. Assim também fo­ram considerados os “amarelos”, os orientais de várias procedências, cuja assimilação e docilidade à miscigenação tornaram-se hoje evidentes, a olho nu, para quem transita nas ruas de São Paulo, onde se misturam gos­tosamente com os descendentes dos bandeirantes, arianos e não – arianos, caros a Oliveira Vianna.

Os últimos ensaios do livro dedicam-se à descrição do enorme papel desempenhado pelo autor de Rondônia na criação da nossa radiofonia educativa. E, paradoxalmente, na elaboração das normas de censura a esse novo meio de comunicação. Ildeu de Castro Moreira, Luisa Mas­sarani e Jaime Aranha descrevem a importância de Roquette na nossa primeira divulgação científica, enquanto Regina Horta Duarte compõe um retrato do Roquette viajante e Sheila Schwartzman realça sua contri­buição ao uso educativo do cinema.

Enriquece o livro farto material fotográfico e cartográfico e a trans­crição de textos de Roquette-Pinto, alguns inéditos. É de lamentar a falta de um índice onomástico, indispensável face à riqueza das fontes consul­tadas e citadas.  Nenhum praticante das ciências humanas está isento da contamina­ção com teorias espúrias, ranço de seu pensamento cientificismo, seja o darwinismo de seu pensamento social, o positivismo, o marxismo de pacotilha ou a psicanálise de bolso. O livro, de titulo elusivo, mas de lei­tura essencial, é indispensável para uma visão dos caminhos e descami­nhos da antropologia brasileira – ainda que não brasiliana – nas primeiras décadas do século passado; e mais, para uma compreensão dos problemas epistemológicos e metodológicos que enfrentou na transição, ou acomo­dação, entre uma ciência biológica e uma ciência da cultura. Nesse sentido, a obra de Roquette-Pinto, como nos demonstram os ensaios coligidos no livro, é paradigmática. Não se abalançaram as orga­nizadoras a uma síntese conclusiva sobre o ideário de Roquette-Pinto, seu legado às novas gerações, talvez porque a riqueza do material reunido em ensaios tão variados e a vivência do cotidiano institucional na Fiocruz – à qual Roquette esteve tão associado – lhes dificultassem a distância e a perspectiva necessárias.

Que era, afinal, a “antropologia brasiliana”, alem de um modismo?Que resta desse empreendimento, uma vez despido das aderências ideo­lógicas de seu tempo?  O livro mereceria um capitulo sobre o administrador de instituições que foi Roquette – como diretor do Museu Nacional; quando, em mo­mento crítico – a gripe espanhola, – assumiu a direção de uma enfermaria do Hospital Deodoro; ou quando esteve à frente da primeira emissora de radiodifusão do Brasil, depois mutado na Rádio MEC que, em 1937, ele doou generosamente ao Ministério da Educação e Saúde. E quando, ain­da, em 1936, dirigiu o Instituto Nacional de Cinema Educativo (INCE).

Essa intensa, importante atividade institucional é mencionada, mas não devidamente descrita e analisada para a compreensão necessária do que seria, naqueles anos, um administrador institucional do porte criativo de Roquette.

Como convivia o cientista, o humanista, com o clima autoritário, depois totalitário do Estado Novo? Como teria disciplinado a censura cinematográfica?Que censura era essa?Qual teria sido o convívio de Roquette com a Ditadura, de origem positivista e constituição salazarista, que iria formalizar-se na carta de 1937 e esterilizou, com o peso de suas burocracias, tanta iniciativa fecunda na educação e na saúde? De um a outro capítulo, delineia-se o perfil de Roquette-Pinto educa­dor. Merecia capítulo à parte. Difícil, também neste passo, compreender como o signatário do “Manifesto dos Pioneiros da Educação Nova” – com Anísio Teixeira, Fernando de Azevedo, Francisco Venâncio Filho e  tantos outros – documento de tempera liberal, veio a filiar-se ao Partido Socialista Brasileiro, no qual chegou a candidatar-se em 1954 a deputado à Câmara Federal. Que socialismo era esse?O de Proudhon ou o de Saint-Simon? Não seria certamente o de Marx.

Outro ponto que mereceria análise, nessa personalidade – de tão ri­cas e instigantes contradições – era sua religiosidade. Chegou a articular, nos idos de 1935, um curioso Credo (sic), onde parece transitar do Positi­vismo, doutrina conservadora, para um Socialismo reformista.

Não há dúvida que essas tensões eram as de sua geração, alimentada pelas ideias de Darwin, de Spencer, de Comte, e animada por um Roman­tismo fundamental. Nascidos poucos anos depois da Abolição da escra­vatura, esses pensadores cresceram nos padrões e comportamentos per­sistentes de uma sociedade patrimonialista e de uma cultura bacharelesca. Sem a prática do método científico e sem as disciplinas da Universidade esses cientistas formam-se ao acaso do encontro, da viagem, do livro ou da experiência estrangeira, ainda apegados, malgie soi, ao discurso, ao culto da palavra, ao individualismo decorativo – menos ao laboratório, ao trabalho técnico e manual à pesquisa de equipe. Admirável, tenham conseguido produzir uma ciência e uma estrutura institucional, pagan­do alto preço ao ufanismo que os levaria às aberrações nacionalistas dos anos 30, à Ditadura de 37, às restrições criminosas à imigração – enfim, até ao Racismo.

Livrou-se Roquette dessa maleita e do racismo arianista pelo concei­to problemático de uma raça brasileira – ou brasiliana – encontrada por Euclides no sertanejo, por Roquette nos nhambicuaras. Bastante cientista, no entanto, Roquette percebeu que esse brasiliano não podia ser “antes de tudo um forte” e continuasse analfabeto, verminótico, tuberculoso, en­quanto exercesse práticas agrícolas destrutivas – e que era preciso tratá-lo, dar-lhe hospital, vacina, arado. Essa a grande missão que destinava ao Estado e às elites do seu tempo. Nessas esperanças, de alguma forma, comungamos, indivíduos ou instituições. Desse idealismo, não no sentido de Oliveira Vianna, mas no comum, Roquette, como o livro assaz demonstra, foi exemplo egrégio e continua mestre e inspirador.

José Arthur Rios – Sócio emérito do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro.

Tempo Presente | UFS | 2010

Tempo Presente UFS3

O Grupo de Estudos do Tempo Presente – GET, ligado ao Departamento de História da Universidade Federal de Sergipe, responsável pela revista eletrônica semestral dos Cadernos do Tempo Presente (São Cristóvão, 2010-), informa a todos os interessados em apresentar artigos e resenhas para publicação que continua recebendo artigos e resenhas em fluxo contínuo e de acesso aberto.

Seguindo a própria composição do GET, serão bem-vindas produções de historiadores, geógrafos, cientistas sociais, filósofos, jornalistas, economistas, psicólogos, estudiosos das relações internacionais, dos meios de comunicação e demais áreas das ciências humanas.

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ISSN 2179-2143

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Caderno de Diretrizes Museológicas 2. Mediação em museus: curadorias, exposições, ação educativa – JULIÃO; BITTENCOURT (BMPEG-CH)

JULIÃO, Letícia; BITTENCOURT, José Neves (Orgs.). Caderno de Diretrizes Museológicas 2. Mediação em museus: curadorias, exposições, ação educativa. Belo Horizonte: Secretaria de Estado de Cultura de Minas Gerais/Superintendência de Museus, 2008. 180p. Resenha de:  RANGEL, Marcio. Curadoria em museus: múltiplos olhares. Boletim do Museu Paraense Emílio Goeldi. Ciências Humanas, Belém, v.5, n.1, jan./abr. 2010.

O “Caderno de Diretrizes Museológicas 2 – Mediação em museus: curadorias, exposições, ação educativa”, publicado pela Secretaria de Cultura de Minas Gerais através da Superintendência de Museus, tem por objetivo promover, a partir de uma perspectiva multidisciplinar, um debate sobre as diferentes abordagens relacionadas com a mediação museológica, com especial ênfase nos processos curatoriais desenvolvidos pelos museus. Os artigos reunidos no livro propõem novas reflexões e interpretações para este tema, que, com a complexidade de sua natureza, tem sido objeto de variadas discussões.

A principal intenção dos organizadores e autores que compõem o livro é dar visibilidade às múltiplas possibilidades da curadoria, neste caso, por meio de artigos que apresentam diferentes perspectivas de compreensão do tema e, em outros momentos, evidenciam percepções convergentes.

Além de um texto introdutório de José Neves Bittencourt, que analisa a etimologia da palavra curadoria e apresenta a estrutura da obra, os trabalhos foram organizados em três partes, sendo a primeira composta por três artigos, a segunda por oito artigos e a terceira por um vídeo.

O trabalho de abertura é de autoria de Cristina Bruno, que inicia sua discussão com a análise do percurso conceitual do termo curadoria, tendo como referencial um olhar sobre os “diferentes tempos históricos, distintos campos de conhecimento e múltiplos usos” (p. 15). Após indicar a difícil tarefa de mapear a trajetória do conceito de curadoria, Bruno estrutura seu artigo pontuando algumas perspectivas: os aspectos do percurso histórico do conceito de curadoria que geraram heranças relevantes para a atual proposta de definição; os matizes de sua ampliação contemporânea e os reflexos desta herança; o delineamento do perfil profissional do curador e o desenvolvimento do processo curatorial dentro dos museus. Bruno afirma que sua análise tem como base uma perspectiva museológica.

No artigo seguinte, Nelson Sanjad e Carlos Brandão definem curadoria “como o ciclo completo de atividades relativas aos acervos, compreendendo a execução ou a orientação da formação e desenvolvimento de coleções, segundo uma racionalidade pré-definida por uma política de acervos…” (p. 25). Podemos perceber nesta definição a influência da experiência profissional dos autores, ambos vinculados a museus com forte tradição na formação de coleções de história natural: Museu Paraense Emílio Goeldi e Museu de Zoologia da Universidade de São Paulo. O eixo central do artigo trata da relação da comunicação museológica com a política curatorial dos museus, priorizando os processos expositivos. Nesta análise, Sanjad e Brandão estruturam seus argumentos em três partes: a primeira apresenta a relação entre a história dos museus e o desenvolvimento dos acervos; nas seguintes, abordam a exposição como processo de comunicação, produtora de um discurso específico, incluindo neste processo a recepção do discurso pelos diferentes públicos.

Concluindo esta primeira parte da publicação, o artigo de Tereza Scheiner afirma que “não é possível tratar dos processos curatoriais sem, entretanto, definir que ideia de museu lhes serve de fundamento” (p. 36). Para Scheiner, a análise da trajetória do museu no quadro simbólico das diferentes sociedades é uma tarefa da Museologia, disciplina que, segundo a autora, “não tem como objeto de estudo os museus, ou a instituição museu, mas sim a ideia de museu desenvolvida em cada sociedade, em cada momento de sua história” (p. 40). De acordo com a autora, cabe à Museologia analisar as diferentes tipologias de museus atualmente existentes, “tratando de compreender em profundidade quais os contextos, razões e propósitos que as fundamentam, e buscando identificar como algumas delas se realizam hoje na sociedade contemporânea” (p. 43). Neste cenário, os processos curatoriais são compreendidos como “dispositivos técnicos, segundo os quais se realizam as funções intrínsecas a cada um destes tipos de museu” (p. 46).

A segunda parte da obra é aberta por Aline Montenegro e Francisco Régis, que analisam a curadoria de exposições em museus de história, mais especificamente no Museu Histórico Nacional e no Museu do Ceará. Os autores discutem os processos expositivos destas instituições e apresentam as diferentes possibilidades de abordagem de um tema histórico. Ressaltando a importância dos “indícios do passado”, apontam para a importância da “elaboração de problemáticas históricas sobre as relações entre passado, presente e futuro” (p. 49). Montenegro e Régis problematizam a combinação de imagens, objetos, textos e outros recursos na elaboração das exposições, tendo em vista que, segundo os autores, “tudo indica que há uma dependência da escrita para se chegar a certos sentidos do objeto” (p. 68). Além das múltiplas possibilidades e desafios do processo curatorial em museus de história, o artigo também ressalta a importância do caráter educacional neste processo.

A partir do campo da arte, Roberto Condurú discute os principais traços característicos do fazer artístico e problematiza as formas de comunicação adotadas pelos salões, bienais e museus. Percebendo os curadores como intermediários nas relações entre as obras, os artistas e os públicos, o autor aponta para o papel de destaque deste personagem na estratificação dos agentes do campo artístico. De acordo com Condurú, uma característica marcante dos tempos atuais é a percepção da exposição de arte como “uma obra em si, com autorias, teorias, práticas e histórias” (p. 76). Sendo assim, torna-se fundamental o equilíbrio entre a exposição como obra e as obras de arte exibidas entre o curador e os demais autores envolvidos.

Em um outro campo e tendo como referencial as exposições de ciência e tecnologia, Cátia Rodrigues Barbosa reflete sobre a capacidade comunicativa desta tipologia de acervo e o papel exercido pelo curador neste processo de comunicação. Para Barbosa, o curador é um comunicador que cria elos entre o visitante e o objeto.

Ao descrever a implantação do Museu Municipal de Pains, Gilmar Henrique, Pablo de Oliveira Lima e Márcio Castro destacam o caráter multidisciplinar do projeto curatorial da instituição. Tendo o acervo arqueológico como eixo central de todas as discussões, os autores apresentam as diferentes categorias estabelecidas pelo projeto que orientaram a formação do acervo e a organização expositiva do museu: “artefatos líticos polidos; artefatos líticos lascados; artefatos de cerâmica; restos humanos e artefatos fabricados sobre material orgânico” (p. 97). Deve-se destacar que neste artigo os autores discutem um processo curatorial amplo, ou seja, da criação de um museu, considerando neste processo a formação de seu acervo, sua missão, sua exposição permanente/longa duração; sua estrutura física e organizacional.

No artigo seguinte, Cláudia Penha e Marcus Granato, ambos do Museu de Astronomia e Ciências Afins, optam por discutir o conceito de curadoria de acervos museológicos. Os autores definem esta curadoria como um processo que se inicia com a coleta e culmina com a divulgação e disseminação dos acervos. Ao longo do artigo, Santos e Granato, além de apresentarem “opiniões formuladas por diversos autores sobre o papel do curador e da curadoria de acervos” (p. 124), afirmam que “o que precisamos é uma abordagem do trabalho curatorial que reconheça o inter-relacionamento dos objetos, pessoas e sociedades, e expressem essa relação em contextos sociais e culturais” (p. 113).

Ao analisar o Museu Histórico Abílio Barreto, Thaís Velloso e Thiago Costa problematizam o papel das exposições como produto final dos museus. De acordo com os autores, mesmo que reconheçamos o papel de destaque exercido por este modelo de comunicação, devemos tornar evidente a “articulação solidária” (p. 129) existente entre todas as ações desenvolvidas pela instituição. Entre as atribuições do curador, os autores destacam a pesquisa como parte integrante de suas responsabilidades, pois esta possibilita o adensamento do tema ou conceito que irá nortear a estruturação da exposição.

Em uma outra perspectiva, mas com o mesmo objeto de análise, ou seja, o Museu Histórico Abílio Barreto, Célia Regina Alves e Nila Rodrigues discutem “as atividades práticas de avaliação, organização e tratamento técnico das informações de acervos formados por documentos cujo suporte é o papel, observando também a conservação física dos mesmos” (p. 145). No processo curatorial de documentos textuais e iconográficos, Alves e Rodrigues destacam três aspectos básicos: a compreensão do processo de formação da coleção em si; a obtenção das informações contidas nas unidades documentais; e a elaboração da documentação museológica.

O último artigo do “Caderno de Diretrizes Museológicas 2”, de autoria de Magaly Cabral e Aparecida Rangel, aborda o tema da educação. Podemos afirmar que, de forma direta e indireta, esta questão transpassa todos os trabalhos desta publicação. Localizando a “curadoria educativa” dentro dos processos educativos definidos pelas instituições, as autoras afirmam que, assim como as demais curadorias abordadas nos artigos anteriores, a curadoria educativa também deve fazer parte do Plano Museológico (p. 165). De acordo com Cabral e Rangel, esta ação não estaria somente relacionada ao desenvolvimento de materiais complementares destinados a segmentos específicos de público, estendendo-se também aos processos de avaliação. Para as autoras, “a exposição deve ser um ponto de partida e não de chegada, na forma de comunicação com o público” (p. 168).

Com imagens de museus de diferentes regiões e variadas tipologias, o DVD que acompanha o livro apresenta de forma dinâmica e ilustrativa o depoimento de profissionais sobre curadoria. Apesar de ser estruturado em outra mídia e em outra linguagem, José Neves Bittencourt chama a atenção para o fato de que “o vídeo não é um complemento do livro” (p. 8). O mesmo deve ser considerado a terceira e última parte da publicação.

Finalizando, desejo destacar a contribuição desta obra para a prática curatorial desenvolvida nas instituições museológicas brasileiras. Os trabalhos apresentados nesta publicação enfatizam a necessidade de reinterpretar continuamente o próprio fazer expositivo e todas as ações derivadas desta prática. O “Caderno de Diretrizes Museológicas 2” é um convite reflexivo sobre um dos principais meios de comunicação dos museus.

Marcio Rangel – Doutor em História das Ciências e da Sa úde pela Fundação Oswaldo Cruz. Pesquisador do Museu de Astronomia e Ci ências Afins/MCT. E-mail: marciorangel@mast.br

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[MLPDB]

 

Mare Nostrum | USP | 2010

Mare Nostrum

A Revista Mare Nostrum – Estudos Sobre o Mediterrâneo Antigo (São Paulo, 2010) é uma publicação organizada pelo Laboratório de Estudos Sobre o Império Romano e Mediterrâneo Antigo da Universidade de São Paulo (LEIR-MA/USP), grupo que congrega classicistas de diversas áreas (história, arqueologia, literatura, entre outros) cujas pesquisas se enquadram dentro de quase dezoito séculos da Antiguidade, aproximadamente do século XII a.C. ao VI d.C. (da cerâmica ática aos papiros alexandrinos, de Atenas à Gália, de Homero e Heródoto a Estrabão e Plínio, das termas pompeianas às revoltas judaicas ou às imagens de Alexandre…). Não obstante a diversidade dos temas, metodologias, regiões e períodos estudados nas pesquisas individuais, um elemento une a todos: a indagação e a problematização dos processos de integração e desintegração social na Antiguidade. De maneiras diferentes, as pesquisas do laboratório, “como formigas ou sapos ao redor de uma poça” (Platão, Fédon, 109b), se voltam para o Mediterrâneo, que aparece como um eixo espacial para esses processos.

A Revista se propõe como um núcleo de reflexão e debates a respeito dos vários aspectos da Antiguidade (econômicos, sociais, políticos e culturais) que operaram principalmente no espaço hoje conhecido como Mediterrâneo, mas também no universo das sociedades não mediterrâneas antigas que direta ou indiretamente se relacionavam com ele. Nesse sentido, a Mare Nostrum está aberta para textos científicos de cunho variado, desde publicações de resultados conclusivos de pesquisas até pequenos ensaios teóricos e metodológicos, ou mesmo exercícios de reflexão out-of-the-box, uma vez que a necessidade de lidar com a ideia de integração e desintegração das diferentes sociedades antigas de forma a não reificar ou teleologizar o Mediterrâneo como uma totalidade fechada exige certa ousadia experimental. Nesse espírito, a Revista também busca contribuições das mais variadas áreas do conhecimento, tendo em vista a construção de um debate franco e aberto no que diz respeito ao cenário intelectual atual de estudos sobre a Antiguidade.

Periodicidade semestral.

Acesso livre.

ISSN 2177-4218

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Manifestações Culturais: perspectivas da diversidade / Antíteses / 2010

Ao ler o conjunto de textos que compõem este dossiê intitulado Manifestações Culturais: perspectivas da diversidade, lembrei-me de Machado de Assis. Quando reuniu uma série de contos num volume que foi publicado por B. L. Garnier em 1882, ao qual denominou Papéis Avulsos, Machado acrescentou uma advertência à edição. Nela, ele lembrava a seus leitores que o título da obra poderia levar à idéia de que o livro carecia de uma unidade, por reunir escritos de ordem diversa, concluindo: “Avulsos são eles, mas não vieram parar aqui como passageiros que aceitam entrar na mesma hospedaria. São pessoas de uma mesma família, que a obrigação do pai fez sentar à mesa”.1

As palavras de Machado bem poderiam servir de epígrafe a este dossiê cujo subtítulo nos remete a uma imagem de fragmentação que pode sugerir ausência de unidade a um conjunto de artigos que abordam temas diversos ligados a diferentes temporalidades, espaços geográficos e vieses teóricos. Mas esta falta de unidade é apenas aparente, pois os textos nele presentes fazem parte de uma mesma “família” que agrega historiadores os quais trabalham com a intenção partilhada de procurar traduzir o mundo a partir da cultura através de manifestações tais como discursos, palavras, práticas, representações e imagens. De uma “família”, poderíamos acrescentar, muito parecida com uma família de carne e osso, na qual existem discussões e desentendimentos constantes, uma vez que a História Cultural é capaz de abrigar pesquisas de naturezas diversas associadas a diferentes (e por vezes antagônicos) modos de conceber o fazer historiográfico, de formular questões e de abordar a documentação, ligados a tradições historiográficas distintas, sem que isto as impeça de “sentar à [mesma] mesa”.

Sem dúvida que esta diversidade tem sido, dentre outros fatores, um dos pontos polêmicos que a ela tem atribuído o fato de a História Cultural ter ido longe demais, do que decorreria sua fragilidade e um patente “ecletismo e inconsistência teóricos” cujos desdobramentos seriam “uma série de desacertos e incongruências” tais como generalizações imprecisas e insustentáveis construídas a partir de relações conjecturais que seriam menos analíticas e mais descritivas.2 Como decorrência, e ainda a partir deste ponto de vista, a História Cultural seria um rótulo opaco e sem significado consistente, que acabaria por abrigar, “tal qual as mentalidades, histórias pitorescas, de grande apelo público, porém supérfluas, sem qualquer chance de desvendar as forças propulsoras, explicativas do movimento da História”,3 dela podendo-se esperar um desgaste definitivo e um fim próximo.

Cultura é uma palavra que ganhou espaço significativo em estudos elaborados por historiadores nas últimas duas décadas, na maior parte das vezes querendo dizer coisas diferentes. No Brasil, particularmente, cultura é uma palavra recorrente em estudos, pesquisas e análises históricas, sem contar que em vários títulos de cursos de graduação, linhas de pesquisa de pós graduação de diferentes universidades, núcleos, centros de pesquisas revistas acadêmicas e… dossiês! Esta presença aponta para a vitalidade da História Cultural sugerindo que seu fim parece não estar tão próximo assim, ainda que para alguns tal vitalidade seja vista como um sinal da propagação de certos “modismos” que de tempos em tempos assaltam a comunidade de historiadores.4

Não vou me ater a estas e outras críticas, uma vez que melhores penas já se incumbiram de respondê-las com propriedade e competência, e também porque seria evidentemente impossível aprofundar nas poucas páginas de uma apresentação todas as questões levantadas em torno da História Cultural nos últimos tempos.5 Para nossos objetivos, creio ser mais importante sublinharmos que o leitor terá oportunidade de constatar, nos trabalhos aqui reunidos, que esta tão propalada diversidade não é neles sintoma de fragilidade nem tampouco explicitação de “modismos”. Ainda que voltados para preocupações múltiplas, que são a de cada autor, estes artigos baseiam-se em pesquisas empíricas sólidas que objetivam compreender as marcas e as mudanças permeadas por conflitos e tensões construídas no campo de debates e embates culturais travados pelos homens em outras épocas. Deste movimento configura-se um rico painel em que a cultura é vista como algo dinâmico e em constante mutação e reconfiguração reconhecendo-se, simultaneamente, a diversidade como uma característica positiva de um campo de estudos que, apesar dos limites e problemas que apresenta, tem trazido uma contribuição imprescindível para a historiografia mundial.

Estes são alguns dos pontos que os artigos que compõem este número da Antíteses apresentam, os quais evitamos resumir para com isto não diminuir o prazer do leitor na sua jornada. Com este número a revista procura mostrar, mais uma vez, graças à colaboração de autores, pareceristas e de todos os envolvidos em sua produção e edição, seu desejo de abordar com qualidade algumas das facetas dos recentes debates travados na historiografia. A todos que participaram deste processo ficam, aqui, nossos sinceros agradecimentos. E de você, caro leitor, despedimo-nos desejando que a viagem proporcionada por esta leitura faça jus às suas expectativas e que a partir dela você possa criar sua própria leitura dos temas enfocados, pois, afinal, esta capacidade autoral pertence a todos que se acercam de um texto.

Silvia Cristina Martins de Souza e Silva.

Coordenadora do Dossiê

Londrina, junho de 2010

Notas

1 ASSIS, Machado de. Obra Completa. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 2008, p. 236.

2 PESAVENTO, Sandra J. Em busca de uma outra história: imaginando o imaginário, Revista Brasileira de História, vol. 15, nº 29 (1995), pp. 9-27.

3 Apud AZEVEDO, Cecília. Identidades compartilhadas: a identidade nacional em questão. IN: ABREU, Martha e SHOIET, Rachel (orgs). Ensino de História: conceitos, temáticas e metodologia. Rio de Janeiro: Casa da Palavra, 2003, p. 40.

4 VAINFAS, Ronaldo. História Cultural e Historiografia Brasileira, História: Questões e Debates, Curitiba, nº 50, 2009, p. 233

5 Ver para tais críticas, dentre outros, VAINFAS, Ronaldo, op. cit. ; PESAVENTO, Sandra J. História e História Cultural. Belo Horizonte: Autêntica, 2008; BURKE, Peter, O que é História Cultural? Rio de Janeiro: Zahar, 2005 e LARA, Silvia Hunold. História Social e História Cultural, Diálogos, UEM, vol. 1, nº 1, 1997.

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[DR]

 

História e ensino. Teorias e metodologias / Antíteses / 2010

Para pensarmos qualquer questão relacionada ao ensino de história hoje em dia, é fundamental levar em conta o caminho traçado nos últimos vinte e cinco anos, pelo menos, em especial no Brasil. Pois consideramos que o processo que vivemos atualmente ainda é um desdobramento das primeiras discussões realizadas na década de 1980. Entendemos que as mesmas fundamentaram e também dão a diferença para aquilo que propomos atualmente, em especial quando pensamos a questão da possibilidade da produção do conhecimento na sala de aula.

Na década de 1980, autores como Marcos Silva e Dea Fenelon procuravam demarcar algumas questões extremamente importantes para se pensar a História como disciplina e, particularmente, a relação da academia com o ensino de História. Questões como a possibilidade de produção de conhecimento no então 1º e 2º graus, ganhavam grande destaque nas discussões daquele momento.

A partir das inovações das tendências historiográficas que despontavam naquele período e aliado à tentativa de se provar que a sala de aula era um lugar onde seria possível produzir conhecimento, foram muito comuns naqueles anos de 1980 os “relatos” de experiência de professores que utilizavam em suas práticas em sala de aula aquilo que se convencionou chamar de “novas linguagens” nas salas de aulas.

É expressivo deste momento dossiês de revistas sobre ensino de história ou seções dentro das revistas, destinadas a estes relatos. Deste período podemos destacar, entre outros, o livro Repensando a História, organizado por Marcos Silva .1

Neste livro, no clássico artigo “A vida e o cemitério dos vivos”, Marcos Silva fazia um alerta para o que ele chamava de paralisia crítica no trabalho em sala de aula e que seria utilizado como álibi para não se tentar nenhuma mudança em sala de aula. O decorrer do livro aponta para várias possibilidades de ações contra esta situação dentro daquilo que Heloisa de Faria Cruz entendia como ir para “além das margens”, pensando a possibilidade de construção de conhecimento em sala de aula. E mais do que isto, praticamente todo o livro questiona o entendimento da escola apenas como espaço de “reprodução de conhecimento”.

Da mesma forma, vários números da Revista Brasileira de História passaram também a dedicar a mesma atenção à fala dos professores inaugurando um espaço que se tornou comum durante alguma tempo.2

Tal preocupação se desdobrou, na década seguinte, em publicações e em dossiês da mesma Revista Brasileira de História, exclusivamente dedicados ao ensino de história, indicando que este tema estava, já naquele momento, se transformava em um lugar de investigação no campo da História.

Entretanto, grande parte destes relatos de experiência, em especial aqueles que tratavam da utilização de novas fontes documentais em aulas de história para o ensino de formação básica, ainda abordavam o seu uso na perspectiva da “novidade”. Ou seja, era uma tentativa de, primeiramente, provar que a sala de aula era também um lugar de produção do conhecimento e, igualmente, que o professor tinha condições de superar a utilização do livro didático como única fonte documental.

Em especial em relação ao uso das novas metodologias, a preocupação se direcionava na perspectiva de demonstrar familiaridade por parte do professor no domínio do conhecimento que essas fontes requeriam e os cuidados com o seu uso. Todavia, no que dizia respeito ao ensino de história e às preocupações com a aprendizagem, as discussões ainda “tateavam”, mas “tentavam” inovar.

Neste sentido, devemos dizer que já no final da década de 1990, as preocupações no campo do ensino de História começavam a se voltar para pensar a produção do conhecimento e o ensino de história focando o olhar em um sujeito fundamental deste processo: o aluno.

No final do século XX aparecem várias discussões no ensino de história a partir da linha de investigação denominada “educação histórica” que tem como intuito investigar as idéias que as crianças possuem sobre determinados conceitos em História.

Neste sentido, podemos perceber que essas preocupações se desdobram em outros trabalhos mais recentes que repensam a questão da produção do conhecimento em sala de aula. Estas pesquisas estão preocupadas essencialmente com a questão de como o aluno aprende conceitos em História. Estas observações podem ser constatadas através, por exemplo, de algumas dissertações de mestrado da Linha de Pesquisa História e Ensino do Programa de Mestrado em História Social da Universidade Estadual de Londrina.

Tais estudos podem atestar algumas questões levantadas em recente artigo de Flávia Caimi. Segundo a autora, atualmente, podemos dizer que os estudos atuais sobre os processos do pensar e do aprender, em suas diversas vertentes, acentuam o papel ativo dos sujeitos / alunos em seus percursos de aprendizagem. Da mesma forma, estes trabalhos apontam o protagonismo do professor na promoção de situações educativas que favoreçam o desenvolvimento de habilidades de pensamento, traduzidas na construção de competências cognitivas para o “aprender a aprender”. E que, ao mesmo tempo, para autora, possam educar os jovens com base nos valores contemporâneos 3.

E mais, para Caimi, as pesquisas nesta área sobre o fenômeno da aprendizagem, podem ser traduzidas em duas principais linhas de investigação: os estudos da cognição e educação histórica. As duas linhas de investigação teriam muitos pontos em comum e pelo menos duas diferenças. Para a autora, os estudos da cognição, embora se situem em zona fronteiriça entre a epistemologia da história e a psicologia cognitiva, tendem mais para a segunda, ao passo que a educação histórica dialoga mais estreitamente com os referenciais da epistemologia da história. E, ao investirem mais fortemente nos fundamentos da psicologia cognitiva, os estudos da cognição acabam por dar maior ênfase aos processos de construção do conhecimento em detrimento dos conteúdos da aprendizagem. A educação histórica, em contraposição, focaliza prioritariamente suas investigações nos produtos da aprendizagem escolar, buscando compreender as idéias substantivas dos estudantes sobre o conhecimento e a conceituação histórica.

Contudo, de acordo com Caimi, considerando-se o caráter ainda lacunar das pesquisas no campo da investigação histórica, em virtude de haver poucos pesquisadores debruçados sobre ele, podemos afirmar que as duas vertentes são fundamentais e se complementam: em especial na tarefa de explicitar os meandros do pensamento histórico das crianças e jovens que freqüentam a educação básica.

Concluindo, podemos dizer que atualmente está posto para os pesquisadores do ensino de história que é possível a produção do conhecimento em sala de aula, que existe, segundo Chervel, um saber histórico próprio, chamado por ele de saber escolar.

Diferentemente das décadas anteriores, a questão apontada agora é outra, como salientamos no início deste texto. Ela pode ser resumida em: como se dá este processo de produção de conhecimento e como os alunos podem apreender conceitos específicos do campo de história.

Assim, os artigos apresentados neste número da revista Antíteses, dedicada a pensar questões sobre o ensino de história a partir de pesquisas atuais, se apresentam na confluência dessas discussões, não só no Brasil. Esperamos que a leitura deste número permita contribuir para ampliar as reflexões desenvolvidas por todos que atuam na área do ensino de história.

Maria de Fátima da Cunha –  Coordenadora do Dossiê

Londrina, dezembro de 2010

Notas

1. No livro existia um tópico à parte intitulado “experiências” onde se destacam artigos de professores da rede pública, em sua maioria, narrando as suas experiências em sala de aula utilizando-se de materiais, abordagens e temas diferenciados. Cf. SILVA, Marcos (org.) Repensando a História. SP, ANPUH / Marco Zero: 1984, pp. 95-135.

2. Podemos citar outras publicações que se tornaram referência deste período: O ensino de História e a Criação do Fato de Jayme Pinsky, em 1988; O Ensino de história: revisão urgente de Conceição Cabrini, em 1986 e, já na década de 1990, o livro O saber Histórico na sala de aula organizado por Circe Bittencourt, em 1997, bem como o número 19 da Revista Brasileira de História “História em Quadro-Negro”, organizado por Marcos Silva, em 1990, e o número 25 / 26 da mesma revista que trazia o “Dossiê ensino de História”, em 1992

3. Cf. CAIMI, Flávia Eloísa. História escolar e memória coletiva: como se ensina? Como se aprende? IN: ROCHA, Helenice e outros (orgs.). A Escrita da História Escolar – memória e historiografia. Rio de Janeiro: Ed. FGV, 2009.

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Cem anos da Revolta da Chibata / Antíteses / 2010

“Revolta da Chibata -100 anos: história e historiografia” Seminário internacional realizado na UERJ, setembro de 2010

O presente dossiê reúne, agora em textos, resultados de reflexões dos principais pesquisadores da atualidade que se aventuraram a navegar pelas águas, nem sempre calmas, da Revolta da Chibata – como se tornou conhecido na historiografia o levante de marinheiros brasileiros de novembro e dezembro de 1910. Os trabalhos aqui publicados foram apresentados no quadro do seminário internacional “Revolta da Chibata – 100 anos: história e historiografia”, organizado por Marco Morel, Sílvia Capanema P. de Almeida e Tania T. Bessone da Cruz Ferreira e ocorrido na Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ) nos dias 10 e 11 de setembro de 2010 1. O objetivo do encontro era reunir, no ano do centenário da revolta dos marujos contra os castigos corporais e por melhores condições de trabalho na Marinha de Guerra do Brasil, pesquisadores nacionais e internacionais que proporcionaram, nos últimos anos, diversas abordagens sobre o movimento, a partir de diferentes perspectivas metodológicas, epistemológicas e até mesmo institucionais. mseminário significou um encontro inédito: pela primeira vez, historiadores, que em muitos casos somente se conheciam através de textos ou graças a uma esbarrada ou outra em um evento acadêmico, tiveram a oportunidade de discutir juntos sobre a Revolta dos Marinheiros de 1910.

O dossiê que publicamos coletivamente a quatro mãos, com a participação, além dos organizadores do evento, de José Miguel Arias Neto, busca registrar essas diferentes visões em torno de um mesmo “tema historiográfico” e propor, de uma certa maneira, um parâmetro do estado atual da reflexão sobre o assunto. Alguns artigos apresentam resultados de pesquisas recentes, como os trabalhos de Joseph Love (Universidade de Illinois), Sílvia Capanema (Universidade de Paris 13-Nord) e Tânia Bessone (Universidade do Estado do Rio de Janeiro). Outros são fruto de reflexões atualizadas ou de natureza ensaística apresentadas por historiadores experimentados no assunto, como Álvaro Pereira do Nascimento (Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro), Hélio Leôncio Martins (Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro), Mário Maestri (Universidade de Passo Fundo) e José Miguel Arias Neto (Universidade Estadual de Londrina)2.

A obra de Edmar Morel (A revolta da chibata, 1959), trabalho, aliás, que nomeia a revolta dos marujos, é citada como referência, direta ou indiretamente, em todos os artigos aqui publicados. Nessa perspectiva, o ensaio do historiador Mário Maestri destaca a importância desse trabalho na sua própria formação intelectual e política de orientação marxista. O autor discute o caráter polifônico da obra e, analisando os trabalhos existentes sobre o assunto até meados dos anos 1990, põe em perspectiva a sua reflexão pessoal à medida que sintetiza seus principais argumentos: a analogia feita ao grupo de marinheiros como “proletariado embarcado”, o papel da dimensão racial num país profundamente marcado pela escravidão e a necessidade de uma escrita da história compromissada com a transformação da sociedade e o combate às injustiças. Num sentido oposto, surge o artigo de Hélio Leôncio Martins, historiador militar e vice-almirante da Marinha do Brasil, que atualiza parte dos argumentos já apresentados em seu livro de 1988 (A Revolta dos marinheiros – 1910). No artigo, através de uma análise documental rigorosa, o autor combate a criação de uma imagem heróica do marujo João Cândido, principal líder da rebelião. Segundo o historiador naval, construiu-se uma figura mítica em torno do personagem que não condiz com as verdadeiras e profundas características do marujo: pouco preparado; representante de uma geração de marinheiros mais habituados à dinâmica de trabalho do navio a vela e nada aptos para acompanhar as mudanças da modernização técnica da Marinha da virada do século; pertencente a um meio de praças violentos, miseráveis e delinquentes. Assim, para Hélio L. Martins, a revolta se explica pela contradição entre o aspecto material – sobrevalorizado pelos governos e em plena transformação – e pessoal – subestimado e sem preparo. A substituição do material sem a consequente mudança de pessoal é a razão do levante, que não revela heroísmo, consciência ou coragem da marujada.

Assumindo uma outra direção, o historiador José Miguel Arias Neto propõe pensar, através da análise dos discursos emitidos pelos rebeldes – em especial a partir do manifesto dos marinheiros -, a revolta da chibata como uma verdadeira revolução, que se insere, como acontecimento histórico, no quadro mais amplo das transformações, ainda em curso, pela aquisição da cidadania no Brasil (“a longa revolução republicana”). O autor atribui à revolta um caráter definitivamente político, destaca a violência subjacente ao acontecimento e o poder dos marinheiros como fatores de ruptura com as formas de governo instauradas. Em oposição a um discurso frequente no meio dos oficiais visando à “regeneração” dos quadros da Armada, os marujos de 1910 começavam a se ver como cidadãos e, nesse sentido, como possuidores do direito de reivindicar mudanças e uma nova organização social, na qual encontrariam plenamente um lugar.

O historiador Álvaro Pereira do Nascimento também retoma a sua relação “pessoal” de historiador com a revolta, tema principal de sua produção. Recompõe o ambiente acadêmico que o acolheu quando começou suas pesquisas, no final dos anos 1980 e início dos 1990, quando uma renovação do conhecimento sobre a escravidão ganhava terreno, em grande parte em razão dos debates decorridos com o centenário da abolição, das discussões em torno da cidadania no período de redemocratização (que despertaram novo interesse pela Revolta da Vacina) e do impacto, no meio universitário campinense sobretudo, da obra de Edward P. Thompson. A oposição social – classes populares versus classes dominantes – assume em seu trabalho o paralelo dicotômico entre “oficiais” e “marinheiros” e o autor passa a se interrogar sobre o processo de construção da revolta, particularmente através da documentação do Tribunal Militar presente no Arquivo Nacional que revela um sistema complexo de regras e condutas, bem como transformações nas formas de pensar que se tornaram mais acentuadas com a chegada da República. O autor assinala os novos caminhos que sua abordagem assumiu, incluindo reflexões sobre a cultura dos marinheiros e a dimensão racial, num contexto de produção em que os militares e a sociedade civil brasileira também buscavam reconstruir seus lugares sociais.

O artigo de Joseph Love lança novas luzes sobre a revolta, trazendo à tona sua dimensão internacional através da imprensa estrangeira, mas também da presença da Marinha do Brasil no exterior em período anterior ao levante, e discute os sentidos da revolta de dezembro a partir das mesmas fontes. Assim, o brasilianista americano especialista em Primeira República revela em que medida a viagem do encouraçado São Paulo a Lisboa, no momento da proclamação da República portuguesa e poucos dias antes da eclosão da Revolta da Chibata, foi bastante significativa para o movimento dos marujos brasileiros, bem como para a desconfiança do presidente Hermes da Fonseca, também presente em Portugal. A visão externa sobre o movimento de dezembro ocorrido no Batalhão Naval indica novas contradições nas organizações das forças armadas no Brasil e esse olhar estrangeiro ajuda a compreender o sentido do levante dos marujos que, na percepção do autor, buscavam os direitos do cidadão já previstos na Constituição de 1891.

A imprensa é também o objeto central do artigo de Tânia Bessone, que põe em relevo não somente a recepção do levante pelos jornais cariocas, mas também em que medida estudar o acontecimento através da imprensa pode dizer bastante sobre o contexto mais amplo em que ele se insere. Nesses termos, os jornais cariocas foram verdadeiros vetores das reações populares diante dos problemas urbanos da cidade do Rio de Janeiro – e das soluções encontradas pelas autoridades – em particular, e da exclusão no Brasil, de maneira geral. A imprensa teve um papel fundamental na divulgação de material sobre a revolta, seja ele textual ou iconográfico (fotografias e caricaturas), que serviram de fonte para os historiadores em diferentes momentos. Nas páginas dos periódicos, tecia-se também a manifestação de diversas formas de estereótipos sobre os marujos e o poder público, compartilhavam-se imaginários sobre esses “homens do mar”, ao mesmo tempo em que a imprensa tornava-se um espaço de popularização dos rebeldes e seus líderes. Tania Bessone discute ainda a produção historiográfica sobre os protestos populares no contexto da Primeira República e insere a própria produção sobre a revolta nesse quadro, ainda em construção.

Por fim, Sílvia Capanema busca entender quem, de fato, eram os marujos de 1910. Através de um estudo das identidades coletivas e de alguns traços biográficos das principais lideranças, revela tanto a complexidade de percursos quanto a possibilidade de se pensar em um perfil comum do marinheiro de 1910. A partir de documentos inéditos encontrados nos arquivos da Marinha sobretudo, reconstitui dados como as origens geográficas e familiares dos marujos, faixa etária, níveis de instrução, discutindo as estatísticas de cor e os discursos raciais referentes a essa população de marujos e evocando ainda os significados embutidos nas marcas corporais, como bigodes e tatuagens. Apoiando-se também na leitura do histórico de algumas lideranças e outras informações biográficas, demonstra como o nascimento de uma identidade comum – a de marinheiro nacional – e a comunicação escrita foram elementos importantes para o sucesso do levante.

No entanto, a versão impressa das comunicações apresentadas neste dossiê tem como limite não conseguir mostrar ao público leitor o ambiente de debates, por vezes emocionados e emocionantes, que tomou conta do auditório 33 da UERJ nos dias do seminário internacional. Estavam presentes estudantes e pesquisadores de diferentes níveis, áreas e instituições, mestrandos e doutorandos que trabalham sobre questões e militares da Marinha, cineastas e outros profissionais das comunicações, oficiais, marujos e funcionários da Marinha ligados aos serviços de documentação e história e antigos marinheiros, hoje anistiados e aposentados pela Marinha, que participaram do movimento de 1964 e se organizaram em duas entidades associativas, a UMNA (União pela Mobilização Nacional pela Anistia) e o MODAC (Movimento Democrático pela Anistia e Cidadania). A participação de todos esses atores nos permite pensar num prolongamento e continuidade da questão, que, mesmo contendo propriedades do meio militar e corporativo, suscita ainda hoje polêmicas e paixões. Mais do que isso, o tema remete à formação contínua da luta pela cidadania, ligando diferentes parcelas sociais e múltiplas temporalidades, estabelecendo conexões entre herdeiros do movimento, intelectuais e outros atores sociais que buscam compreender as origens e os processos que nos levaram a nossos lugares atuais e como poderemos nos projetar no futuro.

Notas

1 O seminário foi realizado com o apoio das agências de financiamento CAPES e FAPERJ.

2 Lamentamos a ausência neste dossiê do texto de Zachary Ross Morgan (Boston College), que apresentou uma comunicação intitulada “Radicalismo transatlântico e as raízes britânicas da Revolta da Chibata” no seminário na UERJ, mas não nos enviou texto para publicação.

Marco Morel – UERJ

Sílvia Capanema P. de Almeida – Universidade de Paris 13 – Nord

Tania Maria Tavares Bessone da Cruz Ferreira – UERJ

José Miguel Arias Neto – UEL

Os organizadores

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Clio | UFPR | 2010

Cadernos de Clio1 2

Cadernos de Clio (Curitiba, 2010-) é um espaço de publicação que objetiva divulgar a produção de conhecimento histórico/historiográfico realizado pelo alunos de graduação dos cursos superiores de História.

Periodicidade semestral

Acesso livre

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Crítica Histórica | UFAL | 2010

Critica Historica 2

A Revista Crítica Histórica  (Maceió, 2010-) é uma publicação semestral do Programa de Pós-Graduação em História – Mestrado da Universidade Federal de Alagoas. Seu objetivo principal é divulgar a produção historiográfica em geral com ênfase em pesquisas originais e articular a troca de informações junto a outros pesquisadores da região e do país. Com isso, quer-se criar um veículo democrático para o debate e a reflexão crítica sobre os temas históricos de interesse regional e nacional.

Compreende-se que através dos estudos históricos é possível buscar o conhecimento dos processos dinâmicos da sociedade no tempo e no espaço com as perspectivas de transformação e melhoria da vida social como um todo.

Periodicidade semestral.

Acesso livre.

ISSN 2177-9961

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Mnemosine | UFCG | 2010

Mnemosine

Mnemosine (Campina Grande, 2010-) é uma revista eletrônica cientifica do campo da história, que pertence ao Programa de Pós-Graduação em História da Universidade Federal de Campina Grande publicada semestralmente.

Desde a sua criação em 2010, estruturou-se com o objetivo de refletir sobre questões relativas às dimensões do campo da história ,especialmente levando em consideração as temáticas Cultura, Poder e Identidade e Cultura e Cidade.

Com o passar dos anos tivemos diferentes temas nos dossiês propostos para os editores da Mnemosine Revista e diferentes temporalidades com artigos resultantes de pesquisadores do campo das Ciências Humanas e Sociais especialmente da Ciência Histórica.

Destacáveis dossiês compostos por artigos de pesquisadores que colaboraram com temas  originais e inéditos sempre em uma perspectiva interdisciplinar. ​

Seguindo a sua Linha Editorial de constituir-se em um espaço facultado a todos os campos disciplinares, especialidades, temporalidades e problemáticas históricas, tem oferecido ao público geral e especializado uma diversidade de abordagens em seus dossiês temáticos.

Destarte propomos a criação da MNEMOSINE REVISTA, veículo eletrônico de periodicidade semestral, sob a forma de artigo científico, resenhas, publicação de documentos inéditos e entrevistas com historiadores enquanto produto das pesquisas desenvolvidas por alunos e professores dos Programas de Pós-Graduação no Brasil e no Exterior.

Salientamos que a principal finalidade da nossa revista é constituir um espaço democrático de acessibilidade virtual de debate, de discussões que resultem em ideias originais e iniciativas teóricas, metodológicas e de pesquisa documental que venham propiciar o enriquecimento do conhecimento histórico no caminho do diálogo interdisciplinar.

Periodicidade semestral.

Acesso livre.

ISSN 2237 3217

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Embornal | UECE/ANPU-CE | 2010-2017

EMBORNAL

Embornal (2010-) é a revista eletrônica da ANPUH-CE, fundada em 2010. Recebe artigos de profissionais de História, além de estudantes de graduação e pós-graduação. Nosso propósito é dar espaços para textos acadêmicos e de experiências didáticas em História no ensino fundamental, médio e universitário.

Embornal é uma sacola a tiracolo que os agricultores usam para carregar sementes durante o cultivo de suas terras. Essa é a intenção da publicação. Um espaço de guarda das sementes de ideias e diálogos frutíferos dentro e, principalmente, fora da academia.

Periodicidade semestral.

Acesso livre.

ISSN: 2177-160X

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Lugares do fazer: instituições de pesquisa e / ou ensino de história / Aedos / 2010

É com imensa satisfação que apresentamos a edição n° 6 da Revista Aedos. Este número ganha um significado especial para esta revista e para a presente gestão, já que é a última edição apresentada pela gestão 2009-2010, marcando a passagem para o terceiro grupo de discentes. Este modelo de trabalho, adotado até o momento, mostrou-se capaz de manter a qualidade da revista ao mesmo tempo em que propicia aos jovens pesquisadores um campo de atuação, tanto na divulgação de suas pesquisas como no trabalho administrativo de editoração da revista eletrônica. Alegra-nos sobremaneira esse momento, mantendo assim o caráter de trabalho em equipe e atuação dos discentes deste PPG.

No nosso dossiê “Lugares do fazer: instituições de pesquisa e / ou ensino de história”, apresentamos dois artigos que versam sobre instituições de ensino e memória histórica. No primeiro deles intitulado “O papel dos cursos de graduação em História – uma discussão sobre a formação dos profissionais de História”, Aryana Lima Costa retoma, através de um trajeto que percorre os 70 anos do ensino de História em nível superior, uma discussão atual sobre a formação do historiador, por vezes compartimentada entre as tarefas de ensinar ou pesquisar. Em nosso segundo artigo, “Memória e história do ensino superior comunitário no Rio Grande do Sul – o Centro Universitário Feevale”, de autoria de Claudia Schemes, Cristina Ennes da Silva e Cleber Cristiano Prodanov, identificamos a preocupação com a reconstrução da memória de uma entidade comunitária de ensino superior. Nele, convergem o uso de diferentes vestígios do passado, como a história oral, a documentação da instituição e a memória dos agentes ligados à trajetória do estabelecimento de ensino, elementos caros ao debate histórico contemporâneo. Lamentamos somente que a temática proposta no nosso edital não tenha recebido nenhuma contribuição, a saber, os 90 anos do Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Sul (IHGRS).

A seção de artigos diversos conta com sete publicações, das mais variadas temáticas e debates historiográficos. Daniel Oliveira, em seu texto “Entre Prazeres e Doenças: enfermos venéreos na sociedade porto-alegrense de fins do século XIX”, apresenta parte dos resultados de uma pesquisa que buscou identificar o perfil dos enfermos acometidos por doenças venéreas que receberam assistência médica na Santa Casa de Misericórdia e no Hospital da Sociedade de Beneficência Portuguesa, ambos de Porto Alegre, durante os anos de 1881 a 1892. O artigo “Sobre os trilhos do progresso: Porto Alegre despede-se dos bondes (1970)”, de Renata Andreoni, contribui para a discussão de um tema ainda pouco discutido em termos de historiografia, a história do transporte e sua relação com a cidade. Através da análise dos textos presentes no jornal Correio do Povo, a autora se propõe a demonstrar algumas das representações do bonde presentes na memória dos porto-alegrenses. Hugo Duarte, através de seu artigo “Em busca da Revolução Brasileira: um debate crítico sobre as teses históricas e a linha política do PCB” procura realizar uma leitura crítica das matrizes teóricas fundamentais para a construção do Partido Comunista no Brasil. Esta análise ocorre por meio da interpretação da linha teórica do partido, assim como da Declaração de Março de 1958, elementos fundamentais que embasariam, posteriormente, as ações dos militantes do partido.

Rafael Kasper, em seu estudo “Conquistando corações e mentes: um estudo da repercussão do „Dia de Anchieta‟ na mídia impressa (1965-1968)” busca analisar a repercussão que o “Dia de Anchieta”, instituído em 1965, teve na grande imprensa brasileira dos anos de 1965 a 1968, percebendo em tal celebração a busca dos católicos por apoio dos militares no poder. O artigo “Construção e afirmação da identidade nacional palestina: da consciência de nação à luta pelo Estado”, de Luiz Salgado Neto, analisa, no quadro das transformações pelas quais passou o Oriente Médio durante o século XX, a construção da identidade nacional palestina, como reação ao movimento sionista e como processo de diferenciação da comunidade palestina em relação ao mundo árabe. Leno José Barata Souza, em “A “Cidade Flutuante” de Manaus: rediscutindo conceitos”, busca repensar alguns conceitos sobre o tema “cidade”, focando sua análise na experiência cultural, urbana e econômica da “cidade flutuante” de Manaus. O último texto dessa seção, apresentado por André Fertig e Tassiana Saccol, ”A Guerra do Paraguai nos livros didáticos de história do Brasil: uma análise de obras publicadas entre 1900-1960”, elabora uma relação pertinente entre a abordagem de livros didáticos e as posições historiográficas sobre a Guerra do Paraguai. Para a próxima edição são aguardados comentários críticos sobre o artigo de André Fertig e Tassiana Saccol, com o objetivo de estimular o debate acadêmico, visando à discussão sobre as contribuições trazidas pelo mesmo.

Na seção Mesa Redonda desta edição, apresentamos o debate travado em torno do texto de Vicente Neves da Silva Ribeiro, Mestre em História pela UFRGS e professor da UFFS, “Populismo radical e processo bolivariano: o conceito de populismo de Ernesto Laclau e as análises da Venezuela contemporânea”. O artigo retoma a discussão acerca do conceito de populismo, pensando a sua aplicação no caso da Venezuela contemporânea. Participaram como comentadores o Prof. Dr. Dagmar Manieri, da UFT, o Prof. Dr. Rafael Rossotto Ioris, da University Of Denver, e a Prof. Drª Lívia Cotrim, do Centro Universitário Fundação Santo André. Por fim, Vicente apresenta sua resposta aos apontamentos produzidos pelos especialistas convidados.

Na seção das resenhas, José Knust trata da obra de Aldo Schiavone, “Uma História Rompida: Roma Antiga e Ocidente Moderno”, que é inserida nas discussões sobre o declínio do Império Romano, voltando-se fundamentalmente para as análises de viés econômico e social. Já nas resenhas de clássicos, Carlos Eduardo da Costa Campos, à luz da análise de Certeau da História enquanto prática social, discute questões teóricas e implicações institucionais sobre a historiografia contidas no capítulo “Operação Historiográfica”, que compõe a obra “A Escrita da História”

Finalizando nossa edição, apresentamos a entrevista com a historiadora Mônica Pimenta Velloso, pesquisadora da área de História Cultural que realiza estágio de pós-doutorado na EHESS, sob a direção de Jacques Lenhardt. A autora dedica-se à temática dos modernismos no final do século XIX e início do século XX, pesquisando as percepções do moderno entre 1890-1914, a partir da ligação entre intelectuais franceses e brasileiros. Em uma conversa com Igor Salomão Teixeira (membro da primeira gestão da Revista Aedos), Mônica falou sobre suas percepções de Paris, suas pesquisas, a relação com a professora Sandra Pesavento, bem como sua trajetória e até mesmo sobre a regulamentação da profissão do historiador.

Por fim, estendemos nossos agradecimentos a todos aqueles que contribuíram com nossos trabalhos ao longo deste ano: autores, pareceristas, funcionários e professores do PPG, equipe da Propesq / UFRGS e todos aqueles que colaboraram de alguma forma com nossas atividades. Este período, de trabalho intenso, porém gratificante, nos estimula a desejar o melhor à nova gestão, e que os colegas possam fazer deste espaço um lugar cada vez mais qualificado para a discussão historiográfica.

Boa Leitura a todos!

Conselho Editorial

Gestão 2009-2010


Conselho Editorial. Editorial. Aedos, Porto Alegre, v.3, n.6, janeiro-junho, 2010. Acessar publicação original [DR]

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Caminhos da historiografia brasileira / Revista de Teoria da História / 2010

No dia 19 de agosto de 2010, a Revista de Teoria da História fechou um ciclo de um ano de estimulo ao debate teórico-metodológico na produção do conhecimento histórico. Para efetivar tal acontecimento foi realizado o II Seminário de Teoria da História contando com a presença dos conferencistas Prof. Dr. Julio Bentivoglio e Prof. Dr. Rafael Saddi, e várias apresentações de comunicações orais voltadas para as áreas as quais a Revista deseja incentivar.

Dando continuidade aos projetos da Revista, juntamente com os esforços da Faculdade de História da UFG, do GT de Teoria da História e da Sociedade Brasileira de Teoria da História e Historiografia (Presidida pelo Prof. Dr. Estevão de Rezende Martins), tivemos o prazer de contar com a presença do Prof. Dr. Jörn Rüsen proferindo palestras sobre os preceitos fundamentais da Teoria da história enquanto uma metahistória (fundamentos e princípios da pesquisa científica em história), e as roupagens atuais do Humanismo enquanto diretriz de pesquisa histórica. Leia Mais

História, Cultura e Linguagens / Albuquerque: Revista de História / 2010

Manter um periódico no Brasil não é tarefa das mais fáceis, especialmente no que se refere a publicações no campo das Ciências Humanas. Apesar de todas as dificuldades impostas aos cursos de história da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul, materializadas, sobretudo, na sua pulverização em seis dos dez campi mantidos por essa instituição no interior do estado, o que vem inclusive obstando a construção de um Programa de Pós-Graduação na área, a Revista Albuquerque, graças ao empenho de seus colaboradores, dos membros de seu Conselho Consultivo e de seus editores, tem sustentado o desafio de apresentar à comunidade acadêmica os resultados de estudos de profissionais vinculados ao campo da História e áreas correlatas, do país e do exterior.

O saldo desse empenho revela-se na profícua troca de experiências que os profissionais da área de História da UFMS têm estabelecido entre si, bem como com professores e pesquisadores de diferentes áreas das Ciências Humanas que atuam nas mais diversas instituições de ensino e pesquisa nacionais e internacionais, permitindo não só a abertura de novas possibilidades de estudos, mas a constante ampliação do debate acadêmico, tido pelos editores da Revista Albuquerque como elemento essencial para o amadurecimento do conhecimento histórico.

Exatamente por isso, o periódico, dirigido e organizado por docentes dos cursos de graduação em História da UFMS, tem merecido o apoio de professores das várias instituições que compõem o Conselho Consultivo. Também a coordenação e os pesquisadores atrelados à Base de Pesquisas Históricas e Culturais das Bacias dos Rios Aquidauana e Miranda (BPRAM) assumem, a partir desta edição, papel importante para a manutenção da revista. Criada em março de 2009 como uma Unidade Técnica de Apoio ligada ao Departamento de História do Campus de Aquidauana da UFMS, a BPRAM é hoje um dos órgãos responsáveis pelas atividades científicas e culturais de interesse da UFMS. Entre as suas diversas atribuições constam o estímulo à pesquisa de caráter teórico e empírico visando ao aprofundamento e avanço do conhecimento da ciência histórica e de seus campos correlatos, o apoio e fortalecimento dos grupos e linhas de pesquisa, o estimulo e o apoio aos pesquisadores no tocante à publicação e divulgação de suas produções científicas. Nascidas ao mesmo tempo e agora juntas, a Revista Albuquerque e a BPRAM constituem-se em elementos fundamentais para a expansão da pesquisa histórica na UFMS.

Procurando manter e consolidar sua trajetória de instrumento de divulgação e debate acadêmico entre professores, pesquisadores e pessoas ligadas à produção do conhecimento, e seguindo uma proposta mais específica de sua linha editorial, a seção Artigos deste terceiro número da Revista Albuquerque acolhe importantes trabalhos referentes às regiões platinas e mato-grossenses. Os desdobramentos do encontro entre as cosmovisões do colonizador espanhol e dos indígenas americanos são examinadas por Raúl Prada Alcoreza no artigo Poder, Saber y Subjetividad en los Movimientos Indígenas. Já a memória e cultura das Comitivas, bem como o registro do cotidiano do peão pantaneiro, é tema abordado por Eron Brum em Cenários do Pantanal: o Gado, os Peões e as Comitivas. A seguir, um artigo de Ely Carneiro de Paiva contempla as expedições do explorador alemão Karl Von den Steinen, considerado o iniciador da investigação científica dos povos indígenas da América do Sul no final do século XIX. A seção se encerra com texto Charqueadas: uma alternativa na economia pecuária do sul de Mato Grosso (1880-1930 / 40), no qual Valmir Batista Corrêa e Lúcia Salsa Corrêa analisam papel das charqueadas na economia regional do sul de Mato Grosso.

Trilhando o caminho aberto no número anterior, esta edição da Revista Albuquerque apresenta o dossiê “História, Cultura e Linguagens”, que traz, em sua abertura, o artigo de José D’Assunção Barros intitulado Um caminho percorrido e perspectivas sobre os novos tempos. Nele, seu autor busca compreender a tarefa do historiador no tratamento que dá às fontes polifônicas, baseado no dialogismo inerente à própria forma contemporânea assumida pela narrativa histórica. D’Assunção Barros aponta para as transformações na historiografia a partir de meados do século XIX e, sobretudo, a partir da aproximação entre a História e outras disciplinas do campo das Humanidades no segundo quartel do século XX. Importa ao autor a constituição de uma historiografia dialógica incrementada a partir da absorção das linguagens artísticas como fontes possíveis para a interpretação dos historiadores.

Se este dossiê é inaugurado por uma reflexão de caráter teórico metodológico, ele segue com o estudo de caso apresentado por Marcos Antonio de Menezes em Baudelaire, a mulher e “o amor que não ousa dizer seu nome”. Tal reflexão baseia-se na interpretação de alguns dos poemas de As Flores do Mal, de Charles Baudelaire, especialmente naqueles que apresentam temas antes não atingidos pela leitura do historiador, como o erotismo lésbico. Ali, o historiador se encontra com o crítico literário e a junção de ambos oferece ao leitor uma visão pormenorizada da maneira como a sociedade parisiense de meados do século XIX interpretava os desejos que figuram além da heteronormatividade.

Se a margem social experimentada pelas discípulas de Safo nos é apresentada por Marcos Antonio Menezes, a composição de outra margem acadêmica é proposta por Peterson José de Oliveira. No artigo intitulado Novela: um gênero polêmico, o autor aponta para uma crítica literária canônica que negligenciou tal gênero em seus estudos, considerando-o menor. Para além desta constatação advinda da revisão da bibliografia especializada, Peterson José de Oliveira nos leva para outro campo, aquele do esfacelamento dos gêneros literários na contemporaneidade, ao mesmo tempo em que as convenções nominativas dos gêneros permanecem.

A sessão é finalizada com o artigo Movimento Divisionista e as diversas interpretações na historiografia: análise do Movimento Guaicuru, de Thaís Leão Vieira e Aline Xavier Cana Verde. As autoras se voltam para o Movimento Cultural Guaicuru e a reconstrução que tal movimento – posteriormente à divisão do Estado de Mato Grosso e o surgimento do Estado de Mato Grosso do Sul – faz da memória do indígena Guaicuru e sua distribuição espacial que, em última análise, apontaria para a existência de uma unidade espacial autônoma bem antes da divisão do Estado. Se outros suportes já foram utilizados para construir / compreender uma possível identidade sul-mato-grossense, para Vieira e Cana Verde importam o pensamento e a produção artística aqui estabelecidas nos anos 1980 e seguintes.

O dossiê “História, Cultura e Linguagens” constitui-se, portanto, de trabalhos das áreas de História e Crítica Literária, bem como do encontro das duas áreas, e, ainda, de historiadores que assimilam, em sua produção, as linguagens artísticas como fonte privilegiada de análise, no que se irmanam a um esforço da historiografia brasileira das duas últimas décadas, renovando o campo de interpretação das ações humanas no tempo e no espaço.

Finalmente, a seção Caderno Especial traz o documento intitulado Viagens a Mato Grosso (1887 / 88). Segunda Expedição ao Xingu, por Peter Vogel, traduzido pela Professora Doutora Maria Alvina Krähenbühl.

Esperamos que essa nova edição da Revista Albuquerque contribua para que o espaço por ela conquistado até aqui seja mantido e mesmo expandido.


Editores. Apresentação. Albuquerque: revista de história, Mato Grosso do Sul, v.2, n.3, 2010. Acessar publicação original [DR]

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A cidade como objeto de reflexão interdisciplinar (I) / Albuquerque: Revista de História / 2010

Com o lançamento do quarto número, a Revista Albuquerque completa seu segundo ano de existência. Possibilitando aos pesquisadores a divulgação dos resultados de suas pesquisas, propiciando aos estudantes e professores o amplo acesso a informações e à produção acadêmica mais recente, acreditamos que nesse período desempenhamos um papel fundamental, não só para o processo de socialização do conhecimento, mas também para o desenvolvimento científico da área de história, das humanidades e de áreas afins, em Mato Grosso do Sul e no restante do país. Por isso, o número que ora vem a público assume um significado especial, pois representa o momento de consolidação deste periódico, que reafirma seu compromisso de publicar textos de qualidade e relevância científica.

Neste quarto número da Revista Albuquerque, a seção “Artigos” se abre com três textos de suma importância para a compreensão do processo de ocupação colonial dos territórios situados ao longo do rio Paraguai, a rigor uma extensa área de fronteiras indefinidas até praticamente o século XIX, da qual fazem parte os estados de Mato Grosso e Mato Grosso do Sul.

Partindo da constatação de que o controle daquele território fazia parte dos projetos expansionistas portugueses e espanhóis, no texto intitulado “Mato Grosso e Concepción, uma experiência de fronteira no período colonial (século XVIII)”, Ney Iared Reynaldo debruça-se sobre as estratégias adotadas pelas monarquias ibéricas para ocupar e salvaguardar suas áreas de domínio na região platina, então povoada por diferentes populações indígenas.

Em “Curumaí: uma povoação no caminho de Xerez”, Paulo Cezar Vargas Freire coloca em evidência a povoação de Curumiaí, um pueblo colonial espanhol formado por indígenas guaranis e fundado por religiosos franciscanos na década de 1580, cuja localização ainda é desconhecida. Partindo da proposição de que as escolhas dos locais de moradia, nesta parte da América do Sul, estão imbricadas com os traçados dos caminhos pré-coloniais, que durante os séculos XVI e XVII foram utilizados nos deslocamentos com igual ou maior constância que as vias fluviais, o autor objetiva, de um lado, contribuir para a localização do sítio da povoação de Curumiaí e, de outro, analisar a importância de considerar os caminhos pré-coloniais como um dos elementos para compreender a sucessão de deslocamentos das aldeias, dos pueblos ou das villas numa região em que as transmigrações das populações coloniais foram acentuadas.

A temática de Xerez é retomada por Sandra Nara da Silva Novais e Aguinaldo Rodrigues Gomes em “Campos de Xerez: palco de lutas e conflitos pela exploração da mão-de-obra indígena”, texto no qual os autores propõem apresentar os fatores históricos que inviabilizaram a perpetuação do projeto assuncenho- -castelhano no atual território sul-mato-grossense, abrangendo especificamente a região que na toponímia colonial foi denominada “Campos de Xerez”.

Seguindo a trajetória iniciada com a publicação de seu segundo número, o presente volume da Revista Albuquerque traz o Dossiê “A cidade como objeto de reflexão interdisciplinar”. Dado o volume de artigos apresentados, os editores resolveram dividí-los em duas partes, uma no presente volume e a segunda no volume seguinte. Reconhecendo as cidades como elementos constitutivos da trama cultural e histórica, podendo, portanto, ser observadas como espaços que condicionam múltiplas experiências pessoais e coletivas, tecidos de memórias do passado e de impressões recolhidas ao longo das diversas experiências urbanas, nos textos selecionados para este dossiê, produzidos por especialistas vinculados a variadas áreas do conhecimento, as problemáticas da cidade são delineadas como questões significativas, nas quais emergem temáticas variadas que vão desde representações urbanas sobre a modernidade, até a presença de um léxico urbano para nomear e dar significados aos lugares e às gentes.

Por fim, a seção “Caderno Especial” apresenta dois documentos importantes como contribuição para a compreensão histórica da fronteira oeste. O primeiro, “A retomada de Corumbá vista pelos paraguayos”, é um extrato do Album Graphico de la Republica del Paraguay, de Arsenio Lopez Decoud, e que traz uma visão diferente deste fato importante da Guerra com o Paraguai. O outro, “Repressão ao contrabando no Apa. Instruções. 1917”, demonstrou a preocupação das autoridades alfandegárias em legislar o combate aos descaminhos característicos da região fronteiriça.

Assim, a Revista Albuquerque segue superando os obstáculos comuns de um veículo de divulgação de produção histórica, matendo a sua regularidade e a qualidade de seus artigos.


Editores. Apresentação. Albuquerque: revista de história, Mato Grosso do Sul, v.2, n.4, 2010. Acessar publicação original [DR]

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Tempo Espaço e Linguagem | UNICENTRO | 2010

Revista TEL

Tempo, Espaço e Linguagem – TEL (Irati, 2010-) é um periódico eletrônico do Programa de Pós-graduação em História da Universidade Estadual do Centro-Oeste do Paraná (UNICENTRO, Campus Irati), fundada em 2010. A revista tem periodicidade semestral e possui como eixo central publicar artigos, ensaios, resenhas, entrevistas e dossiês referentes ao campo da História.

Embora o PPGH-UNICENTRO esteja situado na área de concentração “História e Regiões”, a revista tem como norte estabelecer um espaço de debate historiográfico que contemple a produção cientifica atual em sua diversidade teórico-metodológica e temática. São bem-vindas, também, contribuições de alguma forma alinhadas como o conhecimento histórico, a exemplo da Sociologia, Antropologia, Educação e Ciência Política.

São aceitos trabalhos em coautoria, exceto aqueles que envolvam parceria entre orientador(a) e orientando(a). Destaca-se ainda, que a TEL tem como política limitar o número de publicações de professores oriundos da UNICENTRO.

Periodicidade semestral.

Acesso livre.

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Caminhos da História | Unimontes | 2010

CAminhos da Historia2

Caminhos da História (Montes Claros, 2010-) é uma publicação do Programa de Pós-Graduação em História (PPGH)  da Universidade Estadual de Montes Claros (Unimontes).

Sua ênfase está na difusão do conhecimento na História, especialmente de pesquisas originais. Contudo, é aberta para contribuições de outras áreas do conhecimento, sempre que os artigos submetidos apresentarem vínculos explícitos com a História.

Periodicidade semestral

Acesso livre

ISSN 1517-3771 (Impresso)

ISSN 23050875 (Online)

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Signum | ABREM | 2010

Signum

Signum – Revista da ABREM (Londrina, 2010) é o periódico da Associação Brasileira de Estudos Medievais, fundada em 22 de março de 1996 como entidade civil, sem fins lucrativos, com sede nacional no município em que estiver instalada a Diretoria. Entre 1996 a 2010, a Signum foi publicada em formato impresso, após o que adotou-se o formato digital para todos os seus números. É um periódico semestral que tem por finalidade divulgar a produção científica sobre o período Medieval nas mais diversas áreas de especialidade, como os Estudos Literários, a História, a Filosofia, as Artes e o Direito.

A revista, por ser vinculada à Associação Brasileira de Estudos Medievais, não possui uma área de especialidade predominante ou exclusiva, pois procura incluir, inter e transdisciplinarmente, as diversas áreas de estudos que se interessam pela temática medieval, dentro e fora do Brasil.

Periodicidade semestral.

Acesso livre.

ISSN 2177-7306

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Historiae | FURG | 2010

HISTORIAE FURG

Historiæ (Rio Grande, 2010-) é uma publicação semestral da Universidade Federal do Rio Grande (FURG), aceitando trabalhos inéditos de professores, pesquisadores, acadêmicos na área de História.

Ela é uma das mais antigas publicações científicas da FURG (Rio Grande-RS), tendo sua gênese em 1978 como Revista do Departamento de Biblioteconomia e História, título ao qual, posteriormente, foi acrescido o nome Biblos – Revista do Departamento de Biblioteconomia e História, para finalmente, em 2010, tendo em vista as próprias mudanças institucionais no seio da Universidade, passar a denominar-se Historiæ.

Periodicidade semestral.

Acesso livre.

ISSN 1519 08502

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Oficina do Historiador | PUC-RS | 2010

Oficina do Historiador

Oficina do Historiador (Porto Alegre, 2010-) é um periódico de publicação semestral editado pelo Programa de Pós-Graduação em História da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS).

A revista define-se como um espaço de veiculação de produção científica e pesquisas desenvolvidas por docentes e, principalmente, por alunos dos diversos Programas de Pós-Graduação em História do Brasil, bem como recém titulados com resultados finais ou parciais de suas pesquisas.

Seu caráter exclusivamente virtual responde ao intuito de divulgar a produção acadêmica para um público mais amplo de interessados em estudos sobre diversas temáticas e contextos históricos. Dessa forma, a Oficina do Historiador pretende fomentar a investigação e a divulgação de resultados de pesquisas e promover o debate historiográfico.

Periodicidade semestral.

Acesso livre.

ISSN 2178-3748 (Online)

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Pergaminho | UNIPAM | 2010

Pergaminho

A Pergaminho (Patos de Minas, 2010-), em seu primeiro número, veio inicialmente substituir a revista Fazendo História que, durante muitos anos, foi o periódico discente do curso de História do Centro Universitário de Patos de Minas (UNIPAM). Portanto, a Pergaminho nasceu por iniciativa do colegiado de curso como um espaço para divulgação de artigos científicos dos discentes e egressos dos cursos de História.

A partir de 2011, o quadro de interesses da revista ampliou-se e a Pergaminho também se tornou uma revista de estudos pedagógicos. Assim, passou a constituir-se de uma coletânea de artigos, versando sobre múltiplos temas no campo do conhecimento histórico e pedagógico, das metodologias e práticas educacionais em História e Pedagogia e do debate historiográfico.

Sua periodicidade é anual e a revista é aberta a acadêmicos das áreas de História e de Pedagogia ou de áreas afins (Sociologia, Antropologia, Ciências Políticas), de qualquer instituição. Esperamos contribuir no sentido de incentivar a pesquisa nos cursos de graduação, apontando para a necessidade dos discentes de galgar novas etapas da vida acadêmica. O alcance, a visibilidade e a agilidade de uma produção acadêmica online, além de contar com a abnegação de conselheiros indiscutivelmente credenciados, nos moveu a apostar nessa aventura.

[Periodicidade anual].

Acesso livre.

ISSN 2178-7654 (Online)

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Escuela de Historia Virtual | UNC | 2010

Anuario UNC

Anuario de la Escuela de Historia Virtual (Córdoba, 2010-): órgano de divulgación científica de circulación semestral de la Escuela de Historia de la Facultad de Filosofía y Humanidades (Universidad Nacional de Córdoba).

Publica contribuciones originales e inéditas resultados de investigaciones sobre temas referidos a la problemática histórica (en cualquiera de sus áreas: arqueología, antigua, medieval, moderna, contemporánea).

El Anuario de la Escuela de Historia Virtual intenta ser un órgano de difusión de los resultados de investigación, metodologías y propuestas teóricas así como de debates académicos desarrollados por docentes y alumnos tanto de la Escuela de Historia como de cualquier parte del mundo.

Periodicidade semestral.

Acesso livre.

ISSN 1853-7049

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História, narrativa e viagem /Canoa do Tempo / 2009-2010

A revista Canoa do Tempo, em seu terceiro volume, tem como elemento central de seus diversos artigos as relações estabelecidas entre as representações textuais e as realidades históricas, trazendo assim à superfície o papel decisivo das maneiras de conceber e perceber o mundo em toda e qualquer experiência humana. A historicidade dos termos envolvidos nessas relações poderá ser apreendida, por sua vez, através da diversidade dos tempos e dos espaços em que os artigos oferecidos ao leitor revelam a sua presença.

As concepções de mundo formuladas pelas sociedades ao longo do tempo constituem, evidentemente, uma das dimensões de seu imaginário, cujas relações com as imagens são evidentes. Assim, o texto de abertura de nossa Canoa do Tempo reproduz uma conferência de Jean-Claude Schmitt, um dos mais importantes medievalistas contemporâneos, em que são analisadas as maneiras pelas quais certos manuscritos medievais representaram a história e o tempo em suas miniaturas.

Os relatos de viagem, fonte privilegiada nos estudos de nosso dossiê, pertencem a outra categoria discursiva propícia para a prospecção das representações da realidade histórica, tema que se coloca sob diversas formas nos artigos aqui publicados. Nos relatos abordados no artigo de Maria Eugênia Bertarelli a própria noção de realidade parece desaparecer diante do objeto narrado, o além. Ela retorna, porém, no texto de Auxiliomar Ugarte que, em outro espaço e tempo, o da Amazônia do século XVI, expõe as interferências do imaginário herdado na apreensão de uma realidade desconhecida. No texto de Lígia Ferreira, o imaginário, agora sob a forma da busca do Eldorado, retorna como fator impulsionador da trágica expedição de Pedro de Úrsua, enquanto Beatriz Bíssio revela e analisa os elementos propulsores das viagens no contexto árabe-islâmico medieval. Carla de Oliveira Lima encerra este dossiê abordando a narrativa do viajante inglês Alfred Russel Wallace, tomando como fio condutor o impacto transformador de suas viagens pelos rios Amazonas e Negro.

A seção de artigos abre com uma análise do cruzamento de gêneros nas tragédias de Sêneca, onde o latinista José Eduardo Lohner mostra como a atenção aos aspectos formais de um texto é essencial para a apreensão de seus significados. A mesma atenção para com a construção discursiva está na base do artigo de Marina Soares, sobre um tratado erótico proveniente do universo árabe-islâmico medieval, e no de Edmar Checon, acerca das Histórias do bispo Gregório de Tours, texto fundamental para o estudo da Gália merovíngia.

O rico universo de possibilidades oferecidas pelos textos narrativos para uma abordagem renovada da História Política evidencia-se nos artigos de Miriam Cabral e Roberto Fabri, ambos dedicados à construção da imagem da dinastia de Avis. Para uma edição que privilegiou as narrativas e os relatos de viagem, nada mais natural do que terminar pelo texto de Lenora Mendes, que parte do contexto medieval ibérico, atravessa o Atlântico e vem reencontrar no nordeste brasileiro temas e motivos provenientes de suas canções.

Aos leitores dessa Canoa, desejamos uma boa viagem.

Sínval Carlos Mello Gonçalves –  Professor do Programa de Pós-Graduação em História da Universidade Federal do Amazonas.

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Escuela de Historia | UNR | 2010

Anuario UNR

El Anuario de la Escuela de Historia (Rosario, 2010-) es una publicación científica de la Escuela de Historia de la Facultad de Humanidades y Artes de la Universidad Nacional de Rosario (Argentina). Con periodicidad semestral, apunta a un público especializado constituido por investigadores y docentes en el campo de las Humanidades y las Ciencias Sociales con especial referencia a la Historia.

Está pensada para dar cabida a trabajos de investigación original, donde predomine la síntesis, la interpretación novedosa y los debates historiográficos, haciendo énfasis tanto en las perspectivas estrictamente disciplinares como interdisciplinares.

Periodicidade [Semestral].

Acesso livre

ISSN 1853-8835

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A Escrita da História | Michel de Certeau

Nesta resenha almejamos abordar os pensamentos de Michel de Certeau, os quais estão contidos no capítulo referente à Operação Historiográfica, na obra A Escrita da História. O autor argumenta que a História seria ao mesmo tempo uma disciplina, uma prática e uma escrita (CERTEAU,1982, p.66). Através destes pontos nós veremos ao longo desta análise quais seriam as concepções de Certeau sobre a História e o historiador.

Vamos neste primeiro momento efetuar uma breve apresentação do autor, segundo os pensamentos da historiadora Leila Maria Massarão. No artigo Michel de Certeau e a Pós-Modernidade: Ensaio sobre pós-modernidade, História e impacto acadêmico, Massarão destaca que Certeau fez parte da Terceira Geração dos Annales [2]. Massarão aponta para o fato de que Michel de Certeau ter sido um estudioso da religiosidade francesa dos séculos XVI e XVIII [3]. As suas reflexões sobre a multiplicidade cultural, as práticas sociais e as teorias da História foram grandes contribuições do autor para a historiografia.

No capítulo introdutório sobre a operação historiográfica podemos perceber que o historiador possui como sua função dar voz ao não – dito. Através do campo teórico-metodológico o profissional da História constrói e confere sentido a um determinado acontecimento ou artefato, o qual sendo visto fora do seu contexto não nos apresentaria uma informação relevante.

Ao analisarmos a História como uma disciplina se poderia pensar que ela faz parte de um lugar social. Segundo Certeau: “A escrita da história se constrói em função de uma instituição” (CERTEAU,1982, p. 66). O autor baseia sua argumentação no fato de que é através dos interesses da instituição que a História enquanto uma disciplina vai se organizar. Os desejos institucionais vão atuar desde a metodologia empregada, ou até mesmo na seleção das fontes, para as pesquisas a serem elaboradas. Certeau frisa em seus estudos que é necessária a utilização de uma teoria para as produções historiográficas, assim se evitando a construção de dogmas. O pensamento do autor é importante, para relativizarmos as nossas idéias sobre os nossos objetos de estudo e não criarmos em nossa escrita histórica uma tendência à produção de verdades.

Certeau nos precisa que o discurso acadêmico possui um conjunto de regras a serem utilizadas, mesmo estando essa imposição no silêncio (CERTEAU,1982, pp. 70-1). As regras são expressões da instituição e da ordem social na qual a disciplina de História está inserida. A validade de um discurso acadêmico depende da aprovação de outros historiadores (CERTEAU,1982, p. 72). A não aceitação das leis acadêmicas acaba por levar um historiador a ser marginalizado da comunidade científica, o que demonstra um ordenamento de pensamentos científicos, os quais não se devem ser negligenciados.

O autor no término da sua exposição sobre o lugar social ressalta a atividade de pesquisa. Michel de Certeau afirma que a atividade de pesquisa histórica está inserida em um lugar, no qual de acordo com os seus interesses definirá o que pode vir a ser feito e o que não é permitido ser realizado. Através destes apontamentos Certeau nos deixa claro sobre o peso que a instituição e o lugar social dos indivíduos possuem sobre a construção do discurso do historiador. Além disso, o que podemos ver seria a necessidade dos usos de técnicas e métodos científicos, para legitimarem a História como disciplina e o que nela vem a ser produzido.

Ao pensarmos sobre a História como uma prática, a argumentação de Certeau começa calcada na necessidade de uma técnica para a realização da produção historiográfica (CERTEAU,1982, p. 78). O pensamento de Certeau é ratificado através da referência, que o mesmo faz a Serge Moscovici. Para o intelectual Moscovici a história seria mediatizada pela técnica (CERTEAU,1982, p. 78). As idéias de ambos convergem na visão de que a técnica faz parte da prática do historiador. O nosso historiador realça que as maneiras de se fazer História e as técnicas por ela empregadas vão variar devido aos distintos contextos culturais, que cada sociedade poderia vir a possuir (CERTEAU,1982, p. 78).

A prática do historiador se centraria em transformar um objeto em histórico, em historicizar um elemento, o qual não sendo analisado dentro de um contexto possivelmente ficaria no espaço do não – dito. Através de Certeau vemos que a prática do historiador se assemelha a de um operário. Assim ele declara que o historiador trabalha sobre um material, o que teria como objetivo transformar ele em História. O processo de manuseio do material deve obedecer a regras estabelecidas pela academia, e por último caberia ao historiador realizar o transporte do seu produto do campo cultural para o histórico. A descrição da prática muito se assemelharia à ação de um metalúrgico, como Certeau comparou em seus escritos (CERTEAU,1982, p. 79).

Em linhas gerais caberia à pratica do historiador a articulação entre o natural e o cultural e a seleção de suas fontes com as quais ele pretende trabalhar. Contudo, é importante pensar que o próprio recorte da documentação está sujeito às ações do lugar social onde o individuo está inserido (CERTEAU,1982, p. 81-2).

Na visão de Michel de Certeau a História como disciplina necessitaria de adotar uma perspectiva interdisciplinar. A História buscaria segundo o autor por modelos e conceitos de outras áreas, criticando-os, experimentando-os e assim controlando o que poderia estar coerente e o que estaria equivocado (CERTEAU,1982, pp. 88-9). Assim, através da ação das instituições a prática do historiador também possui um limite dado pela disponibilização de documentos e métodos para os seus estudos.

A História como uma escrita depende da passagem do que o historiador realizou em sua prática, para uma elaboração de um texto histórico. Esse processo ocorreria pela própria relação com o limite, a qual a atividade histórica possui. Para Michel de Certeau a história enquanto uma escrita está submetida a uma ordem cronológica do discurso, a uma arquitetura harmoniosa do texto e ao fechamento do artigo ou livro, mesmo que se acredite em uma pesquisa histórica, a qual nunca se esgote em suas possibilidades de estudo (CERTEAU,1982, p. 94).

A escrita da História faz parte de uma prática social, pelos pensamentos de Certeau. Para o autor ela está controlada pelas práticas, as quais são frutos de diversos interesses do lugar social. Assim, uma das funções da História enquanto uma escrita estaria na sua função de passar valores e assumir um caráter didático. Certeau argumenta que a escrita acaba por fazer a história, como também por contar histórias, sendo assim de interesse ao caráter de ensinamento, para a sociedade (CERTEAU,1982, p. 95).

O autor reflete sobre as várias formas de discurso existentes: o literário, o lógico e do historiador. Michel de Certeau frisa que o discurso histórico pretende possuir um conteúdo verdadeiro (verificável), na forma de uma narração, para se ter validade (CERTEAU,1982, p. 101). Uma das formas de conferir uma legitimação a um argumento seria através da citação. Esta modalidade indicada anteriormente leva o citado à categoria de referencial, para dar credibilidade as suas idéias. Não podemos esquecer que há um comprometimento nos estudos históricos, com aquilo que pode ser verificado e atestado cientificamente.

A escrita da História, na visão de Certeau, seria a ação do: “conteúdo” sobre “a forma” (CERTEAU,1982, p. 105). A visão se baseia na construção e desconstrução, a qual faz parte do cotidiano da operação historiográfica, na qual o conceitual vem dar um amparo a exposição do conteúdo, que é hegemônico na maioria dos textos. Logo, o texto é o lugar do discurso histórico, da delimitação de um recorte espacial e temporal, para ser analisado.

Vemos que a escrita histórica não é feita unilateralmente pelo historiador, mas sim em coletivo, já que é fruto da validação acadêmica e das relações com as idéias de nossos pares. Além disso, a escrita histórica é fruto das vivencias do profissional da História, as quais suas idéias perpassam ao texto devido às escolhas existentes dele e do lugar social no qual está inserido.

Podemos concluir que como disciplina a História está submetida ao contexto social na qual está situada. Sendo vista como prática, ela possuiria um conjunto de técnicas, que normatizariam a operação historiográfica. Ao seguirmos as normas estabelecidas, daríamos credibilidade à produção de uma pesquisa histórica. Assim como a prática, vemos que a escrita possui leis, para legitimarem a sua validade acadêmica. Após as leituras sobre Certeau podemos perceber que a escrita da História não pode ser fruto de apenas desejos pessoais sem uma relação com o lugar social onde estamos inseridos. Nossos escritos necessitam possuir uma relevância para a sociedade, se for almejado receber um reconhecimento de nossos pares, pela nossa produção do saber.

Notas

2. Ver parágrafo 12 do artigo: Michel de Certeau e a Pós-Modernidade: Ensaio sobre pós-modernidade, História e impacto acadêmico. Acessado: 04/05/09. Capturado do site: http://www.klepsidra.net/klepsidra24/certeau.htm

3. Ibidem, parágrafo 15.

Referências

CERTEAU, Michel de. A Escrita da História. Rio de Janeiro: Forense-Universitária, 1982.

Referências de site

MASSARÃO, Leila. Michel de Certeau e a Pós-Modernidade: Ensaio sobre pós-modernidade, História e impacto acadêmico. In: Klepsidra. Publicado Originalmente em 1999. Acessado: 04/05/09. Capturado do site: http://www.klepsidra.net/klepsidra24/certeau.htm

Carlos Eduardo da Costa Campos – Licenciando em História pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro e pesquisador PIBIC/CNPQ do Núcleo de Estudos da Antiguidade – UERJ, sendo orientado pela Prof.ª Dr.ª Maria Regina Candido NEA/PPGH/UERJ. O referido investigador atua na linha de pesquisa Religião, Mito e Magia no Mediterrâneo Antigo.


DE CERTEAU, Michel. A Operação Historiográfica. In: A Escrita da História. Rio de Janeiro: Forense-Universitária, 1982. Resenha de: CAMPOS, Carlos Eduardo da Costa. Aedos. Porto Alegre, v.3, n.6, p. 211-214, jan. / jun., 2010.

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Uma História Rompida: Roma Antiga e Ocidente Moderno | Aldo Schiavone

A tradução pela Edusp de Uma História Rompida, livro do renomado acadêmico italiano Aldo Schiavone, deve ser comemorada por todos aqueles interessados no desenvolvimento dos estudos do mundo antigo em nosso país. Schiavone é um dos mais importantes membros do renomado grupo de historiadores da antiguidade e arqueólogos ligados, entre 1974 e 1980, ao Seminário de Estudos Clássicos do Instituto Gramsci, na Itália. A produção dos membros de tal grupo é das mais importantes para os estudos da história social e econômica da Roma Antiga, sendo muito influente, inclusive, nos programas de pósgraduação em História no Brasil. Porém, pela ausência de traduções para o português (ou mesmo espanhol ou inglês) de suas obras, tais autores continuam distantes dos estudantes da graduação. Portanto, essa tradução é um excelente início para a solução deste problema. Ademais, Uma História Rompida é um livro com todos os ingredientes para se tornar um clássico, pois possui uma tese inovadora, inteligente e potencialmente polêmica.

A origem do argumento do livro está na antiga discussão acerca da crise e do fim do Império Romano – tão antiga quanto o fascínio que mundo mediterrânico clássico exerce sobre estudiosos e diletantes na área. Não é mera coincidência que a primeira grande obra da moderna historiografia ocidental seja uma monumental tentativa de resolução desta questão, História da Decadência e Queda do Império Romano, de Edward Gibbon.

Entretanto, o questionamento acerca do fim do mundo antigo tem sofrido metamorfoses ao longo dos últimos cem anos de rupturas e transformações historiográficas. A concepção modernista de que o a Idade Média teria sido um longo intervalo entre épocas de desenvolvimento simétrico, a Antiguidade e Modernidade, ruiu. Por um lado, a antropologia econômica, principalmente a partir de Karl Polanyi, mostrou a diversidade da realidade econômica entre as diferentes sociedades humanas. Por outro, a partir de Moses Finley, boa parte da historiografia anglo-saxã dedicada à história econômica e social do mundo romano rechaçou veemente a possibilidade de comparação quantitativa ou qualitativa entre as economias modernas e a economia romana.

Além disso, a própria idéia de ruptura entre o mundo antigo e o início do mundo medieval foi severamente questionada por estudiosos especialistas na Antiguidade Tardia, como Peter Brown. Schiavone não é insensível a tais problematizações. Contudo, acredita que a antiga questão mantém sua validade. Se realmente as economias antiga e moderna são incomparavelmente distintas, isso não significa que, dentro de sua própria lógica, a economia romana não possa ter conhecido um desenvolvimento significativo. Se realmente a antiguidade tardia demonstra linhas de continuidade importantes com o mundo romano, isso não significa que o colapso do mundo romano não seja uma realidade sensível e uma catástrofe histórica de dimensões monumentais.

Schiavone inicia a obra demonstrando uma sensibilidade ambígua entre os membros elite imperial no século II d.C.: percebia-se o presente como uma época de ouro nunca antes alcançada, ao mesmo tempo em que não se tinha maiores perspectivas de desenvolvimento para o futuro – o qual seria na melhor das hipóteses um presente continuado. Isto é, o apogeu do Império Romano foi vivido como tal por sua elite, e inexistia qualquer perspectiva de progresso, de expansão de tal desenvolvimento. Esta é, para Schiavone, a questão central: mais do que entender o fim do mundo romano, Schiavone pretende entender o momento anterior, o momento da estagnação deste mundo. Seu questionamento se centra no porquê de o mundo romano não ter se desenvolvido em outro sentido que não o da estagnação, no porquê de o mundo romano não ter tomado seu próprio caminho rumo ao desenvolvimento econômico, social e tecnológico e no porquê de apenas após a catástrofe de sua queda, a Europa, a partir da Baixa Idade Média, tomou tal caminho. Com estas questões como foco, Schiavone traça uma longa trajetória argumentativa.

Sua primeira preocupação é com a caracterização da economia romana. Schiavone concorda com a percepção de Finley de que a economia no mundo antigo está “invisível”, e acredita que duas hipóteses podem explicar isto: o fato de o trabalho no mundo antigo estar associado a uma realidade oprimida e discriminada, já que associada ao trabalho compulsório; e o fato de que a economia não existia enquanto campo autônomo da realidade. Porém, ressalta Schiavone, a distância da realidade econômica romana para suas congêneres modernas não invalida a possibilidade de estudo econômico da antiguidade. O sistema romano também tem suas regras de funcionamento e podemos tentar encontrar seus códigos descritivos. Com esta afirmação, Schiavone pretende, ao mesmo tempo em que concorda em aspectos fundamentais com Finley, distanciar-se da ortodoxia finleyriana. Certamente a economia romana não pode ser descrita em termos modernistas, mas isto não significa que ela dever ser descrita em termos minimalistas (isto é, destacando-se as ausências e os limites de tal economia).

Schiavone, para fugir da dicotomia entre as posturas primitivista e modernista, propõe uma abordagem interessantíssima para a economia romana: caracterizá-la como uma economia dual. Dois setores interdependentes, mas autônomos, conviviam: um setor ligado à economia camponesa e outro ligado aos grandes circuitos mercantis. É neste segundo setor que Schiavone identifica um desenvolvimento a partir do século III a.C., que encontrará seu apogeu entre os séculos I a.C. e II d.C. Este desenvolvimento está intimamente ligado à conquista imperial. A guerra, segundo Schiavone, constitui-se uma atividade produtiva para o sistema romano, a mais eficiente das atividades produtivas. As novas oportunidades de enriquecimento estimularam mudanças na mentalidade econômica das elites romanas. Porém, este desenvolvimento e esta transformação na mentalidade econômica não tiveram as mesmas características das transformações similares na Europa moderna que deram origem à Revolução Industrial. Isto por que Capital Comercial e Capital Industrial nunca se associaram decisivamente no mundo romano. O desenvolvimento mercantil nunca estimulou uma transformação qualitativa de grande envergadura na produção. Esta cisão determinava que todo crescimento que a economia romana pudesse experimentar seria portadora de uma deficiência genética. A economia romana só poderia experimentar o que Schiavone chama de “desenvolvimento fechado” ou “crescimento sem modernização”.

Mas qual seria a razão para tal cisão? Schiavone acredita que a relação entre três aspectos estruturais da realidade antiga nos dão a explicação: a difusão da escravidão-mercadoria, a desvalorização do trabalho e da materialidade transformadora e o déficit mecânico (tecnológico) nos processos produtivos. Schiavone se preocupa em mostrar a interrelação entre os três aspectos evitando determinações unilaterais entre eles. Desta forma, a inexistência de desenvolvimento tecnológico produtivo não é conseqüência da expansão da escravidão. Da mesma forma, a desvalorização do trabalho não é a causa do desenvolvimento da escravidão, nem vice-versa. Porém, estes três processos certamente se retro-alimentam. Schiavone acredita que a origem destes aspectos fundamentais, que cingiram o desenvolvimento filosófico, cultural e social do desenvolvimento econômico e tecnológico no mediterrâneo antigo, foram os resultados particulares, na longa duração, desta região para as conseqüências da Revolução Neolítica. Ao se verem desobrigados do trabalho cotidiano para garantirem sua subsistência, os membros da elite social desta região voltaram às costas para o mundo da produção. “A nova civilização formava-se no seio do primado do eu interior e do laço político em detrimento dos aspectos materiais da vida” (p.228). O mundo material era relegado ao plano da condição servil, sendo a liberdade constituída na socialização da polis. A vida da elite era política e não econômica. A difusão da escravidão, a recusa do trabalho e ausência de máquinas criaram, a partir desta condição, um ciclo vicioso dificilmente rompível sem uma verdadeira ruptura de época.

Porém, Schiavone não acredita que tal ruptura fosse impossível. Em sua opinião, os romanos poderiam ter encaminhado sua história por uma via diferente desta do crescimento sem modernização que acabaram por tomar. O momento de expansão imperial e consequente crescimento econômico, nos séculos finais da era antes de Cristo, teria sido um “raro momento de criatividade” na história, no qual as limitações estruturais da sociedade romana poderiam ter sido superadas por importantes transformações históricas. Muitos historiadores “modernistas” identificaram os grupos médios italianos em ascensão no século final da República como burgueses. Esta identificação certamente é incômoda por seu teor anacronizante, mas Schiavone crê que tais grupos possuíam um caráter progressista (mesmo que não similar ao das futuras burguesias européias). Uma possível “revolução municipal” poderia ter levado estes grupos a uma posição dirigente, o que poderia ter levado a história romana para caminhos bem diversos. Porém, estes grupos nunca chegaram a se organizar em torno de um programa efetivo. No momento em que esta possibilidade parecia mais próxima, no século I a.C., as grandiosas conquistas imperiais deslocaram o eixo do império para fora da Itália. A vitória de Augusto e suas soluções para a reorganização imperial tiveram, para Schiavone, um caráter de “revolução passiva” contra os grupos médios que poderiam ter assumido um caráter progressista. “Perdida a ocasião de uma virada, o sistema romano chegou, no espaço de poucos séculos, ao ponto extremo que podia atingir” (p.282).

Alguns meandros da trajetória argumentativa de Uma História Rompida merecem alguma atenção e crítica. Schiavone aborda três elementos fundamentais de interpretação da economia mediterrânica clássica, a escravidão-mercadoria, a desvalorização do trabalho e o déficit tecnológico de uma maneira inteligente: negando determinações unilaterais. Estes três elementos, portanto, se fortaleceram historicamente através de uma retro-alimentação e possuem suas origens nas conseqüências tipicamente mediterrânicas da Revolução Neolítica. De certa forma, Schiavone está ecoando, aqui, a ideia de Marx e Engels de que a divisão do trabalho surge com a divisão entre trabalho material e trabalho espiritual, que permite à consciência “emancipar-se do mundo e lançar-se à construção da teoria, da teologia, da filosofia, da moral etc. ‘puras’ ”[2]. No entanto, é impossível não interrogar as razões deste desenvolvimento específico da história mediterrânica frente às novas condições materiais impostas pela Revolução Neolítica. Por que, ao se ver livre do trabalho cotidiano, a elite desta região voltou às costas aos aspectos materiais da vida e se focaou nos laços políticos? Schiavone não levanta tal questão. Talvez o caminho para a resposta desta pergunta esteja em pensar justamente a relação do campesinato com o corpo político da cidade-estado, em um primeiro momento (como Ellen Wood ressalta), e as potencialidades da expansão e exploração imperial enquanto atividade econômica, em um segundo momento (aspecto presente mas pouco explorado em um capítulo anterior ao desta discussão, em Uma História Rompida).

Outro ponto que merece destaque no livro é o uso do conceito gramsciano de “Revolução Passiva”. Não devemos, certamente, criticar a utilização de conceitos pelo simples fato de não terem sido forjados para a realidade para o qual foram cunhados. A crítica ao uso de conceitos deve ser feita pela análise concreta deste uso pelo historiador, e é isso que pretendo. Schiavone descreve um processo no qual o grupo dominante tradicional, em crise, amplia suas bases (inclusive espacialmente, com a inclusão de elementos provinciais em suas fileiras) e reconstrói o sistema político, freando assim a ascensão de um grupo fortalecido com as transformações e que era o elemento “progressista”, modernizante daquela sociedade. As revoluções passivas são, para Gramsci, uma ferramenta da modernização capitalista. Desta maneira, a utilização do conceito por Schiavone vai de encontro frontal ao pensamento gramsciano, pois a revolução passiva augustana que ele descreve teria na verdade exatamente impedido um processo de modernização que o próprio Schiavone arrisca chamar de protocapitalista. A Revolução Passiva é um conceito útil para pensarmos realidades nas quais o grupo “progressista”, modernizante, se alia às classes dominantes tradicionais a fim de implementar transformações necessárias ao seu pleno desenvolvimento sem necessitar de uma perigosa aliança com os elementos populares. Nada disso acontece no modelo de explicação de Schiavone para a crise da República, muito pelo contrário.

De qualquer forma, a tese de Schiavone é tão inovadora quanto polêmica – e, acima de tudo, intrigante. Esta é a grande qualidade de Uma História Rompida: é um livro que estimula novas perguntas e, portanto, novas pesquisas. Não é preciso concordar com o argumento central do livro para reconhecer esta qualidade na obra e sua “candidatura” a futuro clássico tanto no tema da queda do Império Romano quanto da historiografia econômico-social do mundo antigo.

Notas

2. Karl Marx e Friedrich Engels. A Ideologia Alemã. São Paulo: Boitempo, 2007, p.35-36.

José Ernesto Moura Knust – Mestrando no Programa de Pós-Graduação de História da Universidade Federal Fluminense.


SCHIAVONE, Aldo. Uma História Rompida: Roma Antiga e Ocidente Moderno. Tradução de Fábio Duarte Joly e revisão técnica de Norberto Luiz Guarinello. São Paulo: Edusp, 2005. Resenha de: KNUST, José Ernesto Moura. Aedos. Porto Alegre, v.3, n.6, p. 205-210, jan. / jun., 2010.

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Diccionario Enciclopédico de la Medicina Tradicional Andina. Del Noroeste Argentino al Conurbano Bonaerense – PALMA et al (C-RAC)

PALMA, Néstor Homero (Director); TORRES, Graciela F.; SANTONI, Mirta E.; FONTÁN, Liliana Madrid de Zito. Diccionario Enciclopédico de la Medicina Tradicional Andina. Del Noroeste Argentino al Conurbano Bonaerense. Salta: Instituto de Investigaciones en Antropología Médica y Nutricional, 2006. 279p. Resenha de: LOZA, Carmen Beatriz. Chungara – Revista de Antropología Chilena, Arica, v.41, n.2, p.313-315, dic. 2009.

Un notable vacío sobre medicina tradicional sudamericana se reconoce y completa en el Diccionario Enciclopédico de la Medicina Tradicional Andina del Noroeste Argentino al Conurbano Bonaerense. Desde la Argentina, dos biomédicos y un grupo de estudiosos nos ofrecen un importante catálogo de 476 entradas con noticias sobre materiales minerales, animales y recursos humanos; además de especies vegetales empleadas con fines medicinales por los terapeutas indígenas, particularmente los médicos itinerantes kallawayas, en el Noroeste de la Argentina (cf. Palma et al. 2006:33-270).

El diccionario está compuesto por tres cuerpos distintos pero complementarios, para aportar a la antropología y suministrar información histórica del fenómeno cultural de la medicina tradicional, a pesar de la ausencia de reconocimiento en los medios académicos oficiales argentinos. El primer cuerpo es una presentación y una introducción para exponer los lugares donde se recogió la información; además, entrega elementos explicativos sobre las “teorías” etiológicas presentes en la nosología médica tradicional andina, a partir de una terminología exclusivamente biomédica. El segundo cuerpo, de mayor volumen, está compuesto por un total de 476 entradas que no sólo son noticias sobre recursos medicinales, sino también sobre patologías (p.ej., alseduras, quedao, mala fuerza); patologías culturales (p.ej. ojeadura, ojeo, sopladura, susto); expertos (p.ej. kallawaya, curandero, curandero particular, camposino) y otros conceptos (p.ej. flechado de la casa). Algunas de las entradas se caracterizan por presentar un sentido unívoco, lo cual es signo de simplificación. Así, sahumerio no sólo es el “conjunto de elementos vegetales, animales, minerales y biológicos de carácter terapéutico que se queman en el acto terapéutico” (Homero Palma et al. 2006:193). Habría que agregar que sahumerio es la designación genérica de todos aquellos expertos que muñidos de un brasero realizan curaciones en el ámbito de las enfermedades, los padecimientos y los infortunios. Ahondar en la diversidad de sentidos, en los matices y en los contrastes del espacio geográfico de estudio habría enriquecido este cuerpo del diccionario. En esa línea, era necesario eliminar la categorización de cada noticia. Por ejemplo, la coca no sólo puede ser categorizada en farmacología, pues sus usos rituales y alimenticios son amplísimos en el mundo andino. Al mismo tiempo, los autores debieron ponerse de acuerdo en el tipo de noción conceptual que primaría a lo largo de la obra. La ambigüedad radica en el empleo simultáneo de sistema médico (cuyo paradigma está en crisis a pesar de su funcionalidad) y medicina folklórica (ampliamente superada en los estudios andinos).

Un anexo documental es el tercer cuerpo, conteniendo 193 noticias extractadas de la Historia del Nuevo Mundo (1653) del jesuíta Bernabé Cobo (1580-1657)1 (Cobo 1964 [1653]. Sin lugar a dudas, el extracto cumple varios objetivos: En primer lugar, facilitar a los estudiosos un compendio de la voluminosa obra de Cobo, cuya edición es antigua y de difícil acceso, a pesar de las reediciones que le sucedieron después del siglo XIX. En segundo lugar, se documenta que ciertos materiales habrían “caído en desuso o no han sido introducidos en el Noroeste Argentino”. Tal documentación se hace veladamente, pues es el lector quien debe constatar y confrontar el listado de los autores con el de Cobo, en vista de la ausencia concreta de especificaciones sobre los cambios operados en el empleo de productos medicinales (cf. Palma et al. 2006:227-270).

La comprobación de que en el Noroeste Argentino existe un vigoroso sistema médico no oficial de raigambre andino, que sería una opción al Sistema Nacional de Salud Argentino, da nacimiento al Diccionario Enciclopédico. Por esa razón, los estudiosos indagan en el vasto territorio de la puna jujeña, salteña y catamarqueña; en los valles Calchaquíes en jurisdicción de las provincias de Salta, Tucumán, Catamarca y la selva Tucumano-Oranense (desde el norte de la provincia de Salta, Jujuy y norte de la provincia de Tucumán), localidades del conurbano bonaerense y el Departamento de La Paz en Bolivia (Palma et al. 2006:20).

Según los autores, es necesario comprender un “complejo sistema de ideas de naturaleza heterogénea”, para entender los sistemas médicos andinos tradicionales. Tales sistemas corresponderían a la concepción mítica del número, al poder de la palabra, pues las prácticas terapéuticas están intrínsecamente relacionadas con los signos, los objetos potentes y la magia. Más aún, no deja de estar vigente el concepto topográfico de la enfermedad, las patologías cuya etiología puede adscribirse a la teoría de las emanaciones (p.ej. Pilladura de la tierra2 y la aicadura3). Obsérvese, entonces, que las enfermedades mentales tanto la locura (psicosis y neurosis) como el retraso mental (oligofrenias endógenas y exógenas) son la derivación secundaria de otra patología: consecuencia de un susto, de lapilladura de la tierra, del robo del alma por el Diablo o de una brujería (Palma et al. 2006:26).

La distinción entre aquellos principios que rigen a los sistemas médicos constituye el motivo principal de la introducción del libro. Quizá la centralidad otorgada a ese tema permita explicar la carencia de especificaciones concretas acerca de dos cuestiones fundamentales: la unidad de estudio y las unidades de análisis. Son escasas las infomaciones sobre los límites no sólo conceptuales sino también empíricos de su tarea. Explorando cada una de las noticias se deduce que alguna información proviene de entrevistas y de observaciones de campo, pero la gran mayoría de los datos son transcripciones de estudios secundarios provenientes de una bibliografía antropológica, etnográfica y médica andina.

En ese sentido, habría sido de mucha utilidad la consulta de varias obras, por ejemplo, la obra fundacional del antropólogo francés Louis Girault: Kallawaya: guéris-seurs itinérants des Andes; recherches sur les pratiques medicinales etmagiques ([1984], 1987), pues es lamas ambiciosa recolección publicada sobre vegetales, materiales animales, minerales y recursos humanos utilizados por los kallawayas entre 1956y 1965.Las 1.134 noticias recogidas por Girault habrían, por un lado, alimentado el diccionario con relación a los usos de esos elementos para la prevención y curación de las enfermedades; por otro lado, habrían permitido a los autores realizar comparaciones acerca de las aplicaciones específicas verificadas en los contextos culturales de la actual Argentina y, sobre todo, aprovechar de los elementos que ofrece Girault para identificarlos. Destaco este aspecto, porque la descripción material de los elementos en cada noticia es un componente omitido en el Diccionario enciclopédico donde únicamente presentan el identi-ficador nominal, enfatizando después en los empleos terapéuticos generales (Girault 1984)4. Por ejemplo, la Jaientilla conocida popularmente como piedra bezoar es presentada como si se tratara de un material homogéneo. Mientras que los especialistas indígenas la diferencian, según su propia taxonomía, entre masculinas y femeninas por su forma, coloración y tamaño, de tal suerte que los elementos descriptivos son esenciales para comprender su función preventiva y curativa (Loza 2007).

Reproducir una parte del texto de Cobo es una elección que debió justificarse y explicarse de manera contundente. El lector no tiene información para comprender que las 193 noticias extraídas de la Historia del Nuevo Mundo (1653) no reproducen la totalidad de los recursos de uso medicinal señalados por el jesuíta. Las noticias que aparecen en el diccionario apenas significan el 36,8% de un total de 524.

Además, el lector carece de elementos para entender que Cobo no es el único autor que realizó una recolección en las Indias de los siglos XVI y XVII. Es importante aclarar que la publicación de la Historia del Nuevo Mundo, de difusión europea a fines del siglo XIX, no incentivó de manera contundente los estudios de farmacopea. Es más, a nivel local los estudiosos se dedicaron a trabajar sobre la materia, de manera independiente y solitaria, a medida que sentaban presencia las grandes expediciones oficiales y que éstas se convertían en el centro de intereses públicos, políticos y comerciales de las élites europeas. No se olvide que la historia natural y la medicina formaban parte de múltiples intereses para controlar tanto la naturaleza como la sociedad.

Igualmente, está ausente de la bibliografía el texto del siglo XVIII de un médico criollo, Gregorio de Losa Ávila y Palomares ([1783], 1983), que ejerció en Potosí. Esta fuente hubiera sido de mucha utilidad no sólo para cotejar con la información que ofrece Cobo, sino también para conocer los productos que circulaban desde la Argentina hacia Potosí y que De Loza tuvo la oportunidad de conocer. Recuérdese que este autor ofrece una colecta de 206 noticias (Losa Ávila y Palomares 1983 [1727-1780]). De igual manera, habría sido útil la publicación de un autor anónimo que en Charcas escribió entre 1790 y 1815, sobre productos medicinales, muchos de los cuales se utilizaban en Argentina, quien también acopió noticias, sumando un total de 290 elementos para la curación de 268 enfermedades citadas (Anónimo 1989 [1790-1815]).

El aporte del Diccionario Enciclopédico es esencial, pues ofrece explicaciones de las particularidades locales en los usos preventivos y curativos de los remedios que los médicos tradicionales utilizan en la Argentina. La terminología local volcada en el diccionario es prueba de la riqueza de los aportes de varias tradiciones médicas. Esta contribución es una invitación para realizar una colecta sistemática a nivel andino, en el marco de una presentación dentro de las lógicas tradicionales que no necesariamente fuercen una traducción conceptual o terminológica. Labor que es urgente ante la acelerada desaparición de los terapeutas tradicionales, en una época en que asistimos a una arremetida de la biomedicina que empieza a hegemo-nizar en materia de políticas públicas; que intenta, por así decirlo, desplazar la esencia por el signo.

Notas

1 cf. Luís Millones-Figueroa (2003).

2Agarrar la tierra, pilladura de la tierra: concepto patológico que comprende el mal denominado “agarrar la tierra”, tiene como fundamento la separación del alma del cuerpo. No obstante, constituye una patología diferente del susto (Palma et al. 2006:37).

3 Acción y efecto de aikar o k’aikar. El término hace referencia a la violación de un tabú o prohibición, y descubre una patología de neta implicancia pediátrica, ya que se involucra en ella a los niños. La gravedad de esta patología radica no sólo en los signos clínicos, sino también en la interpretación que hacen los adultos respecto de las causas mágicas que les atribuyen (Palma et. al. 2006:37).

4 Texto que es reproducido en 1987 bajo el título Kallawaya: Curanderos Itinerantes de los Andes; Investigación sobre Prácticas Medicinales y Mágicas. Louis GiraultfTvaducido por Carmen Bustillos; Rene Alcocer. Institut Francaise de Recherche Scientifique pour le Développement en Coopération, 670 p., La Paz.

Referencias

Anónimo 1989 [1790-1815] De la Naturaleza, Calidades y Grados de Arboles, Plantas, Flores, Animales y otras cosas Exquisitas y Varas del Nuevo Orbe del Perú y para más Claridad por el Orden de A.B.C./Transcripciónpaleográficay estudio por Gregorio Loza-Balsa; epílogo por Alberto Laguna Meave. Sociedad Geográfica de La Paz, La Paz.        [ Links ]

Cobo, B. 1964 [1653] Historia del Nuevo Mundo/Estudio preliminar del Padre Francisco Mateo de la Compañía de Jesús. 2 tomos. Biblioteca de Autores Españoles desde la Formación del Lenguaje hasta Nuestros Días. Atlas, Madrid.        [ Links ]

Girault, L. 1984 Kallawaya: Guérisseurs Itinérants des Andes; Recherches sur les Pratiques Medicinales et Magiques. Institut Francaise de Recherche Scientifique pour le Développement en Coopération (Mémoires de l’Orstom), París.        [ Links ]

Losa Ávila y Palomares, G. de 1983 [1727-1780] De los Árboles; Frutos; Plantas; Aves y de otras cosas Medicinalestiene este Reyno [versión paleográfica, estudios y análisis por Gregorio Loza-Balsa]. Sociedad Geográfica de La Paz, La Paz.         [ Links ]

Loza, C.B. 2007 Develando Ordenes y Desatando Sentidos. Un Atado de Remedios de la Cultura Tiwanaku. Imprenta Sagitario, La Paz. }        [ Links ]

Millones-Figueroa, L. 2003 La historia natural del padre Bernabé Cobo. Algunas claves para su lectura. Colonial Latin American Review 12:85-97.         [ Links ]

Palma, N.H., G.F Torres, M.E. Santoni y L Madrid de Zito Fontán 2006 Diccionario Enciclopédico de la Medicina Tradicional Andina del Noroeste Argentino al Conurbano Bonaerense. Instituto de Investigaciones en Antropología Médica y Nutricional, Salta.        [ Links ]

Carmen Beatriz Loza – Directora de Investigación del INBOMETRAKA, La Paz, Bolivia. E-mail: lozaquipu@yahoo.es

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Qaraqara-Charka. Mallku, Inka y Rey en la Provincia de Charcas (Siglos XV-XVII) – PLATT et al (C-RAC)

PLATT, Tristan; BOUYSSE-CASSAGNE, Thérèse; HARIS, Olivia. Qaraqara-Charka. Mallku, Inka y Rey en la Provincia de Charcas (Siglos XV-XVII). Historia Antropológica de una Confederación Aymara. La Paz: Instituto Francés de Estudios Andinos, Plural Editores, University of St. Andrews, University of London, ínter American Foundation, Fundación Cultural del Banco Central de Bolivia, 2006. 1088p. Resenha de: ORÍAS, Paola Revilla. Chungara – Revista de Antropología Chilena, Arica, v.41, n.2, p.309-311, dic. 2009.

En abril del año 2006 apareció: Qaraqara-Charka. Mallku, Inka y Rey en la provincia de Charcas (siglos XV-XVII). Historia antropológica de una confederación aymara [en adelante QQCH]. Se trata de la cristalización de un proyecto de investigación emprendido por Tristan Platt, Thérése Bouysse-Casagne y Olivia Harris [en adelante TTO], antropólogos e historiadores comprometidos en la indagación del pasado andino, quienes durante años recopilaron, estudiaron e interpretaron el material que presentan en este volumen.

El sólido análisis crítico propuesto se centra en las manifestaciones políticas, económicas, sociales y culturales del territorio Qaraqara-Charka -confederación de etnias regionales y señoríos prehispánicos de América del Sur que se fue constituyendo en conjunto político después del eclipse de Tiwanaku (Platt et al. 2006:25)-, durante las épocas prehispánica y colonial, atendiendo particularmente al papel y desenvolvimiento de los señores naturales en los diferentes contextos en que ejercieron su autoridad. La idea parece haber sido gestada en Sucre (Bolivia) en los años ochenta, con el aliento de intelectuales como John Murra, Thierry Saig-nes y Gunnar Mendoza.

En el propósito colaboraron estudiosos como Thomas Abercrombie, Mercedes del Río, Roger Ras-nake, Carlos S. Assadourian, Teresa Gisbert, Rossana Barragán, Jorge Hidalgo, Martti Parssinen, Ana María Presta y Nathan Wachtel entre otros, lo que junto a la amplia covertura institucional internacional de que fue objeto la publicación, nos señala la envergadura del proyecto acometido. Hasta aquí, ningún investigador o grupo de investigadores se había enfrentado a un reto historiográfico de tal magnitud sobre las raíces profundas de Charcas.

Tres son los momentos y escenarios cuyos pormenores analiza este libro: el mundo prehispánico, la incorporación de la Confederación Qaraqara-Charka al Estado Inca y posteriormente al Imperio español sobre la base de una alianza de intercambio recíproco.

Al inicio encontramos un rico, puntual y breve ensayo de interpretación antropológica de conjunto, pero no estamos aquí ante una historia monográfica concluyente sobre Charcas, sino ante una mirada indagatoria y reflexiva en torno a las manifestaciones socio-culturales, similitudes, diferencias, trato e interacción que se estableció entre los señoríos Qaraqara y Charka, de éstos con las demás federaciones de Charcas y con otras regiones.

La obra está dividida en cinco capítulos principales: Culto, Encomienda, Tasa, Tierra y Mallku, cada uno con un conciso ensayo de interpretación que introduce el contexto específico de la documentación transcrita en extenso al final del libro. Muchos de los documentos presentados, hasta aquí inéditos, nos llegan por primera vez reunidos y con un sólido aparato crítico.

Atendiendo a la subjetividad inmanente a cada texto y los criterios de verdad de la época, el análisis crítico documental le da especial relieve a la indagación en las condiciones de producción, en lo que dicen y parecen callar las voces interactuantes, sumergiendo la atención del lector en diferentes procesos de construcción de la memoria. No olvidemos que hay historiadores y antropólogos envueltos en una empresa que combina técnica y método de archivo con trabajo de campo, además de algunos acercamientos arqueológicos e incluso climatológicos. La práctica interdisciplinaria ciertamente enriquece el trabajo y suscita interrogantes desde diferentes ángulos. Estamos ante una moderna exégesis de fuentes que deja entrever formas alternativas de integración y análisis de datos, y que permite la (deReconstrucción de la vida prehispánica y colonial en Charcas. Diferentes lecturas parecen posibles. No podía ser de otra manera al tratarse de la historia de una sociedad en esencia polifónica y multicultural, donde las voces de los sujetos históricos parecen yuxtaponerse.

El capítulo “Culto” presenta dos probanzas de méritos, una de un cura vasco de la diócesis de Charcas y otra de un párroco de Chayanta. El valor de estos textos está en relación con la poca documentación que hay al respecto para Charcas. En el capítulo “Encomienda”, encontramos tres cédulas bastante tempranas que permiten entender la organización de Qaraqara y de Charka, así como la constitución de los centros de poder de la zona. “Tasa” por su parte remite a documentos sobre pleitos entre indios y encomenderos, así como a cálculos oficiales que, elaborados en diferentes momentos, proporcionan valiosos datos sobre contabilidad y monetización colonial, aclarando el panorama tributario. En “Tierra”, los autores seleccionan y abordan el estudio de algunos casos individuales documentados, los mismos que, ampliando el lente analítico, permiten comprender la realidad política local y regional de las fronteras entre ayllus.

Dada la variedad de los problemas planteados y la dinámica de su estructura, los capítulos suelen entrecruzarse y complementarse en su contenido, lo que a su vez indica que diferentes recorridos son posibles dependiendo del interés del lector.

El marco temporal abarca a grandes rasgos los siglos XV-XVII, aunque hay documentos que sobrepasan estos límites. Por otro lado, algunos textos podrían pasar como piezas de microhistoria, ya que, si bien toman en cuenta la coyuntura individual, con un cambio de lente permiten identificar un contexto más amplio. En otros casos, en un mismo texto se entrecruzan varias temporalidades relacionadas por cierto lugar común, el mismo que permite reconocer elementos de larga duración dentro de una visión braudeliana. Y es que, antes que buscar huellas prehispánicas en el tiempo diacrónico, el afán de contextualización de TTO busca entender cómo prácticas culturales concretas lograron ir cobrando nuevos sentidos por medio de la interacción de los actores.

El territorio de la Confederación Qaraqara-Charka se presenta como un espacio diferenciado -política y culturalmente hablando- del Collao, cuya tendencia hegemónica en la zona antes de la llegada de los Inca se debió a su privilegiada posición económica, política y geográfica estratégica dentro del Qullasuyu (Platt et al. 2006:28). No obstante, fuera de todo presentismo concluyente, los mapas presentados se anuncian sólo referenciales, dando prioridad al estudio de las personas en relación al de los territorios. Así, los autores nos dejan sospechar el dinámico contacto que hubo entre grupos de puna y de valle, sobre la base de obligaciones de reciprocidad política, religiosa y militar entre comunidades, trayéndonos a la mente aquel modelo de autosuficiencia estudiado por Murra y Condarco Morales para la zona andina (Condarco Morales y Murra 1987). La postura es más cautelosa a la hora de reflexionar sobre la posible tradición dual de gobierno, pero llega a proponer que se trató de una confederación formada por Charka vila y Charka hanco: “Así se justificaría que, más tarde, los Qaraqara siguiesen clasificándosejunto con los Charka” (Platt et al. 2006:47).

Una de las reflexiones más interesantes que nos ofrece QQCH gira en torno al estudio de la autoridad indígena en Charcas. Esta es presentada como una fuerza dinámica y transformadora de sí y de su entorno en el contacto y la convivencia diaria en el escenario colonial. Precisamente, el último capítulo “Mallku”, presenta probanzas de méritos y servicios de señores naturales, relatos personales sobre el linaje de algunas familias que, en la larga duración, permiten descubrir ciertos objetivos de encumbramiento y de poder escondidos entre líneas dentro de un escenario más amplio que el individual. En este sentido una pieza clave es el “Memorial de Charcas”, pronunciamiento de los mallku de la zona en que instan al Rey a proveer los remedios necesarios en diferentes aspectos concernientes a la situación del indígena después de las reformas toledanas; pero, particularmente, buscando el restablecimiento de sus derechos y estatus de altas autoridades prehispánicas, enumerando los servicios hechos a los Inca y al Rey y pidiendo ser tratados como nobles españoles. Resalta aquí el acusioso análisis del papel y estrategias de los mallku de Charcas para acomodarse en contexto colonial. Este documento reúne los puntos esenciales abordados en los diferentes capítulos, y cuya preocupación de transcripción y reedición parece haber sido una de las motivaciones principales de la gestación de QQCH.

En pos de comprender mejor la posición, relación e influencia de los señores naturales de Qaraqara y Charka, así como la transformación diacrónica de las sociedades andinas, TTO proponen una aproximación rigurosa a dos momentos ineludibles: La llegada del Inca Wayna Qhapaq, y el posterior reordenamiento del Estado Inca por Gonzalo y Hernando Pizarro en 1538.

Por los datos expuestos evidenciamos que lejos de rebelarse, los aymarás habrían optado por una política de alianzas con Pachakuti y Wayna Qhapaq, la misma que les ayudó a garantizar ciertos privilegios y una notable autonomía dentro de su territorio. Teniendo en cuenta que los Inca dependían bastante de Charcas en su empresa de conquista, el sometimiento habría sido más bien una especié de pacto de intercambios recíprocos (Murra 1975:IV). Bouysse-Casagne sostiene incluso que los Inca no sólo dejaron su impronta en Charcas, sino que éstos tomaron muchos elementos sociales y culturales de esta región del Sur para el gobierno del Estado multiétnico.

A pesar de la innegable dificultad que implica reconocer la superposición de derechos y obligaciones en este escenario de reciprocidad y rivalidades entre mallku, la perspectiva antropológica de este estudio nos muestra la importancia que conservaron los señoríos de Charcas en la vida política del Tawantinsuyu o Estado multiétnico andino, a partir de la relación de sus autoridades con el Inca.

En lo que a la imposición del dominio hispano se refiere, éste no habría sido el resultado del enfrentamiento entre dos bandos opuestos, pero de un combate desde varios frentes rivales (dos Inca, dos sacerdotes, varios mallku, los españoles). Para TTO, la capacidad de negociación del príncipe Pawllu con los señores naturales locales lo convierten sin duda en: “el que conquistó el Qullasuyu para el Rey de España” (Platt et al. 2007:111).

Sea como fuere, QQCH muestra mediante estas reflexiones cómo desde los primeros años de convivencia entre españoles e indígenas, pero particularmente después de 1569, se puso en marcha todo un proceso de desestructuración que sufrieron las sociedades andinas, en el que el Virrey Toledo dejó una fuerte impronta. La documentación expuesta y la lectura propuesta traza el desarrollo de las interacciones entre los actores, las mismas que llevaron a la organización paulatina de una nueva sociedad en Charcas. TTO sugieren incluso que en este período se habría ido organizando poco a poco en Potosí un “archipiélago colonial”, con una lógica radial en torno al mercado naciente integrado por la minería, la agricultura, el trabajo artesanal y una serie de nuevas tareas dentro de una red comercial inédita en la zona1. La coyuntura política posterior a la llegada del Virrey, así como el accionar de los señores naturales, habrían sido desde esta perspectiva fundamentales para consolidar los cambios. Toledo habría motivado por ejemplo que el mallku tradicional se convirtiera intermediario entre el indígena y la Corona, intentando dar fin a la antigua organización dual, y distanciándose sustancialmente de la autoridad tradicional.

No obstante, y considerando que la historia está llena de matices, como bien muestran TTO es necesario destacar que muchos de los documentos presentados en esta obra dejan ver que ciertas reglas internas de sociabilidad andina tradicional perduraron -aunque no intactas- en diferentes aspectos dentro de celebraciones o en muestras de generosidad (Platt et al. 2006:659). El interés de este libro radica precisamente en ver cómo, en qué medida y bajo qué circunstancias fueron cambiando estas prácticas y sus referentes dentro del imaginario cultural de Charcas, para articularse dentro de la nueva sociedad colonial.

La contribución de este volumen a la historiografía andina es sin duda sumamente rica y sólida. Su lectura es absolutamente recomendable y necesaria para los estudiosos del pasado andino.

Agradecimientos: Comprometo especialmente mi gratitud el Doctor Jorge Hidalgo L. cuyas acertadas recomendaciones fueron de gran ayuda. Asimismo, agradezco los valiosos comentarios de los evaluadores que ayudaron a mejorar la calidad de este trabajo.

Notas

1 Aunque hubo algunos lugares como Macha, donde Platt argumenta que la organización vertical logró subsistir marcando una continuidad en la larga duración (cf. Platt et al. 2006:538).

Referencias

Condarco Morales, R. y J. Murra 1987 La Teoría de la Complementariedad Vertical Eco-Simbiótica. HISBOL, La Paz.         [ Links ]

Murra, J. 1975 Formaciones Económicas y Políticas del Mundo Andino. IEP, Lima.        [ Links ]

Platt, T., T. Bouysse-Cassagne y O. Harris 2006 Qaraqara-Charka Mallku, Inka y Rey en la Provincia de Charcas (siglos XV-XVII) Historia Antropológica de una Confederación Aymara. IFEA, Plural, University of St. Andrews, University of London, ínter AmericanFoundation, Fundación Cultural del Banco Central de Bolivia, La Paz.        [ Links ]

Paola Revilla Orías – Magíster Historia. Mención América, Departamento de Ciencias Históricas, Universidad de Chile, Santiago. E-mail: paorevi@gmail.com

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História Antiga e usos do passado: um estudo de apropriações da Antiguidade sob o regime de Vichy (1940-1944) – SILVA (AN)

SILVA, Glaydson José da. História Antiga e usos do passado: um estudo de apropriações da Antiguidade sob o regime de Vichy (1940-1944). São Paulo: Annablume; Fapesp, 2007, 222p. Resenha de: ROIZ, Diogo da Silva. Os usos e abusos do passado na França durante o regime de Vichy. Anos 90, Porto Alegre, v. 16, n. 30, p. 301-309, dez. 2009.

[…] todos os fatos e personagens de grande importância na história do mundo ocorrem, por assim dizer, duas vêzes […] a primeira como tragédia, a segunda como farsa (MARX, 1969, p. 17).

Nestes termos, Karl Marx (1818-1883), na década de 1850, resumiria sua análise de uma das obras de Hegel. Ao expor o que definiu como a ‘farsa’ (do Dezoito Brumário) de Napoleão III, Marx constataria que: Doutorando em História pela UFPR, bolsista CNPq. Mestre em História pela Unesp, Campus de Franca. Professor do Departamento de História da Universidade Estadual de Mato Grosso do Sul, na unidade de Amambaí.

Os homens fazem sua própria história, mas não a fazem como querem; não a fazem sob circunstâncias de sua escolha e sim sob aquelas com que se defrontam diretamente, legadas e transmitidas pelo passado. A tradição de todas as gerações mortas oprime como um pesadelo o cérebro dos vivos. E justamente quando parecem empenhados em revolucionar-se a si e às coisas, em criar algo que jamais existiu, precisamente nesses períodos de crise revolucionária, os homens conjuram os espíritos do passado, tomando- lhes emprestado os nomes, os gritos de guerra e as roupagens, a fim de [se] apresentar[em] e nessa linguagem emprestada (1969, p. 17-8).

Sob circunstâncias diferentes, mas com idéias semelhantes, Jean Chesneaux (1995) destacaria, na década de 1970, em sua análise da história e dos historiadores, tomando de empréstimo o debate do Le Monde de 26 de julho de 1974, que: “Tem-se sempre necessidade de ancestrais quando o presente vai mal” (1995, p.23). Ainda na década de 1970, Georges Duby (1993), com seu livro O domingo de Bouvines, 27 de julho de 1214 (de 1973), demonstraria como aquela batalha seria recriada e adequada às circunstâncias de cada momento histórico, ao ponto de indicar os ‘choques franco-prussianos’. “Em outras palavras, o autor trabalha como um fato concreto, o enfrentamento entre Filipe Augusto da França e o Imperador Oto IV, a 27 de julho de 1214, foi adaptado a novas situações políticas” (2007, p. 15), dirá Leandro Karnal, ao apresentar a obra de Glaydson José da Silva, História Antiga e usos do passado.

Nos anos 80, Raoul Girardet, ao estudar os mitos e as mitologias políticas, lembrará que: “(…) a cada momento de sensibilidade (…) corresponde (…) uma leitura da História, com seus esquecimentos, suas rejeições e suas lacunas, mas também com suas fidelidades e suas devoções” (1987, p. 98). Neste mesmo período, Eric Hobsbawm (1997), ao enfatizar a maneira pela qual são ‘inventadas certas tradições’, ressaltará que:

(…) por ‘tradição inventada’ entende-se um conjunto de práticas, normalmente reguladas por regras tácitas ou abertamente aceitas; tais práticas, de natureza ritual ou simbólica, visam a inculcar certos valores e normas de comportamento através da repetição, o que implica, automaticamente, uma continuidade em relação ao passado. Aliás, sempre que possível, tenta-se estabelecer continuidade com um passado histórico apropriado (…). Contudo, na medida em que há referência a um passado histórico, as tradições ‘inventadas’ caracterizam-se por estabelecer com ele uma continuidade bastante artificial. Em poucas palavras, elas são reações a situações novas que ou assumem a forma de referência a situações anteriores, ou estabelecem seu próprio passado através da repetição quase que obrigatória. (1997, p. 9-10)

Discordando de tais argumentos, Stephen Bann (1994) propôs pensar as representações que foram (e são) criadas sobre o passado (europeu do século XIX), com vistas a enfatizar o papel exercido pelos historiadores e pelos lugares de produção da ‘memória social’ como os museus, os arquivos e as universidades, ao serem elaboradas certas leituras sobre o passado.

Usar o ‘passado’ para dar ‘sentido’ às ações no ‘presente’, desse modo, não é algo novo nem na História (dos homens e das mulheres do passado), nem na historiografia (HARTOG, 2003).

Mas a maneira com que o passado é usado para demarcar as ações e as reflexões no presente, de cada momento histórico, senão é ‘nova’ em todos os instantes, ao menos é múltipla. Foi esta direção que os trabalhos de François Hartog acabaram seguindo desde os anos de 1980, quando demonstrou em seu livro O espelho de Heródoto (1999) as diferentes formas de apropriação deste autor ao longo do tempo. Nesse sentido, com seu conceito de ‘regimes de historicidade’, Hartog se preocupou em teorizar de que modo os grupos e as sociedades do passado se apropriavam da história para fazerem diferentes usos do tempo e da relação passado-presente- futuro.

Foi tendo em vista essas questões que Glaydson José da Silva, em seu livro História Antiga e usos do passado (que é uma versão revista de sua tese de doutorado, intitulada Antiguidade, Arqueologia e a França de Vichy: usos do passado, defendida em 14 de março de 2005, no programa de pós-graduação em História da Unicamp, sob a orientação do Prof. Dr. Pedro Paulo Abreu Funari), preocupou-se em apresentar uma análise pormenorizada das formas com que a Antiguidade e o passado gaulês, romano e galo-romano haviam sido apropriadas na França durante o Regime de Vichy, que durou entre 1940 e 1944.

Para demonstrar essa questão, o autor estudou e evidenciou a relação de diferentes temporalidades (a da Antiguidade, a do regime de Vichy na década de 1940, e a ação da direita francesa nos anos 80 e 90), para circunstanciar de que modo os passados gauleses, romanos e galo-romano estavam sendo apropriados e usados politicamente, em diferentes momentos, para justificar a ação de grupos e partidos políticos na França durante o século XX. Com isso, o autor revela, de modo didático e inovador, as relações, nem sempre lineares, entre passado e presente, e a maneira pela qual o passado é apropriado para justificar as ações de grupos e indivíduos no presente histórico. Mais detidamente, tenta descortinar a importância da Antiguidade Clássica, para se elaborar um conhecimento mais balizado sobre a História Contemporânea. Em suas palavras: O saber histórico é tomado mais como um espaço de desconstruções que de construções e reconstruções. Busca- se neste trabalho uma compreensão dos meandros, dos escaninhos de um domínio em que a memória e a sua destruição são recorrentes na reconstrução dos acontecimentos históricos, em que memória e esquecimento se ligam e tomam forma atendendo a imperativos circunscritos do tempo presente. (p. 17-8) Com isso, a obra foi dividida em quatro capítulos. Em cada um deles o autor escreveu um pequeno prólogo para apresentar ao leitor o que discutiria no capítulo. Cada capítulo foi dividido em duas partes.

No primeiro capítulo, O caráter moderno da Antiguidade: considerações teóricas e análises documentais acerca da instrumentalização do passado, há uma descrição de como a Antiguidade foi pesquisada nos anos 80 e 90, e a maneira com que o passado é usado em diferentes momentos. Detém-se na forma pela qual o Fascismo e o Nazismo se apropriaram da Antiguidade para justificarem seus projetos nacionais e suas propostas políticas para a Europa nos anos 30 e 40 do século passado.

Essas diferentes antiguidades, ou melhor, essas diferentes leituras da Antiguidade, apontam sempre para o presentismo do pensamento antigo na elaboração das práticas políticas, das doutrinas, dos jogos identitários, enfim, das visões de homem e de mundo no Ocidente. (p. 30) Nesse sentido, evidencia como o regime Vichy, nesse mesmo período, se apoiou no passado gaulês, romano e galoromano, e, em especial, na figura de Vercingetórix, para empreender suas ações políticas. Vale notar que a França não foi o único país Europeu que sucumbiu às ações do Nazismo e do Fascismo durante a Segunda Guerra Mundial (1939-1945), e se apoiou no passado para justificar suas ações no presente. Mesmo fora da Europa, esses regimes tiveram forte influência sobre a maneira com que o passado era usado e estudado, e a propaganda política era uma das estratégias para impor o consenso. No Brasil, Getúlio Vargas é um exemplo emblemático de como o Fascismo e o Nazismo serviram de base para que este desenvolvesse estratégias semelhantes de usar o passado e a propaganda política como formas de construir o consenso (GOMES, 1996).

No segundo capítulo, A Antiguidade a serviço da colaboração: nas trilhas da memória, a reescrita da História na França dominada (1940- 1944), o autor demonstra como a História e a Arqueologia romana e galo-romana francesas se moveram e foram usadas durante o período de ocupação alemã no país. Ao discutir a historiografia sobre o Regime de Vichy, o autor mostra como o período é pouco conhecido, mesmo em parte significativa do povo francês. Além disso, ao se ocupar da questão nacional, enfatiza como após a Revolução Francesa os usos do passado romano, gaulês e galoromano foram cada vez mais frequentes na história francesa contemporânea. A partir da análise de manuais de História, artigos de jornal e discursos, o autor reconstitui os diferentes usos que foram feitos, durantes esse período, da figura de Vercingetórix e dos gauleses “pela Révolution National – termo designado pelo Marechal Philipe Pétain para referir-se à retomada à ordem no país após a derrota militar” (p. 20). Destaca ainda como a História e a Arqueologia serviram de base na construção de um consenso, ao serem utilizadas como instrumentos de afirmação e legitimação, quando o regime procurou declaradamente romper com as tradições republicanas do passado francês.

No terceiro capítulo, Jérôme Carcopino – um historiador da Antiguidade sob Vichy, indica a importância deste intelectual com sua obra, e seus estudos sobre a Antiguidade e a maneira com que foi legada à posteridade, em função de sua participação direta no regime de Vichy como ministro da educação. “Durante o Regime Vichy, no período compreendido entre 23 de fevereiro de 1941 e 16 de abril de 1942, Jérôme Carcopino, já à época consagrado historiador, arqueólogo e epigrafista do mundo romano, exerce a função de secretário de Estado, com estatuto de ministro na área de Educação” (p. 127). Para evidenciar essa questão, o autor reconstitui a participação de Jérôme Carcopino no interior do regime e a forma como os estudos clássicos eram produzidos durante esse período.

Ministro de Vichy, Carcopino é o intelectual chamado à ação. Suas posturas face ao Regime se inscrevem na sua trajetória acadêmica, nas interfaces de múltiplas e contraditórias ideologias, diante das quais sempre teve claras as suas opções. Desejoso de ser visto como intelectual e não como político (…), é o intelectual a serviço da política. Sua atuação política não se dissocia de sua obra acadêmica; esta possibilita a compreensão daquela e se apresenta, a um só tempo, como continuidade e ruptura da mesma. O estudo do Regime de Vichy e do papel de Carcopino no mesmo período conduz, inelutavelmente, à atestação do envolvimento do historiador com o colaboracionismo de Estado, com tudo que implica esse colaboracionismo. Mas conduz, também, à necessidade de reflexão acerca da História e do papel do historiador, bem como à irrefutável relação que este mantém com os poderes. (p. 151) Por esse motivo, mesmo os estudos recentes sobre esse importante romanista, na França, levam em consideração, antes de ser analisada sua produção, a sua participação no Regime.

No quarto capítulo, História da Antiguidade e as extremas direitas francesas, a pesada herança de Vichy, revela-se que não apenas as obras de Carcopino foram lidas e interpretadas pela posteridade, de acordo com a sua participação no Regime de Vichy, mas o próprio regime deixou suas marcas na produção histórica francesa, em especial nas extremas direitas. O autor demonstra como os grupos que surgiram no imediato pós-guerra na França, a Nouvelle Droite, a Europe Acton, o GRECE e o Club de l’Horloge, acabaram sendo as matrizes ideológicas dos grupos de direita que foram se formando a partir da década de 1970. Nesse sentido, ressalta-se a participação do Front National na luta contra a imigração, os imigrantes e a Gália, e o papel exercido pela Antiguidade em Terre et Peuple para demarcar e justificar a ‘guerra étnica’, pois a “Antiguidade é, aqui, mais uma vez, um dos principais veículos da ideologia direitista” (p. 21). E: É na França de Vichy, com suas leis racistas que retiram direitos tendo como pretexto a origem dos cidadãos (…) que se inspira o F. N. [o Front National]. (…) A identidade nacional ancorada no mito gaulês permite, assim, o reencontro com o passado ideal, distante e que tem na tradição gaulesa, em sua longevidade, a resposta para os dramas atuais da sociedade francesa. (p. 178-9)

Assim, nessa mesma linha, ainda que com suas peculiaridades, defensor “de uma espécie de enraizamento cultural e de uma fidelidade identitária, o circulo T. P. [de Terre et Peuple] tem a História, desde os gregos e romanos, como testemunha dos fracassos e das derrocadas das sociedades multiculturais” (p. 190). E sobre esse aspecto, o grupo procuraria justificar sua ‘guerra total’, com ênfase nas questões étnicas.

Por suas qualidades, essa obra traz uma bela contribuição para um melhor entendimento de como a História, e certos grupos e sociedades do passado, são utilizados, em diferentes momentos, para justificar as ações no presente. Demonstrando como se utilizou, e também se abusou, do passado gaulês, romano e galo-romano na França durante o Regime de Vichy, e a herança que essas estratégias políticas e intelectuais deixaram para os partidos e grupos de extrema direita no país nos anos 80 e 90, o autor apresenta pormenorizadamente as relações entre História Antiga e História Contemporânea, e destaca que nem sempre as relações entre passado e presente são somente (ou completamente) ‘lineares’, mas sim dependem diretamente das especificidades e circunstâncias de cada momento histórico.

Referências

BANN, S. As invenções da História: ensaios sobre a representação do passado. Tradução de Flávia Vilas Boas. São Paulo: Edunesp, 1994.

CHESNEAUX, J. Devemos fazer tabula rasa do passado? Sobre a história e os historiadores.

Tradução de Marcos A. da Silva. São Paulo: Ática, 1995.

DUBY, G. O domingo de Bouvines, 27 de julho de 1214. Tradução de Maria Cristina Frias.

Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1993.

GIRARDET, R. Mitos e mitologias políticas. São Paulo: Companhia das Letras, 1987.

GOMES, A. C. História e historiadores. A política cultural do estado novo. Rio de Janeiro: FGV, 1996.

HARTOG, F. Régimes d’historicité. Présentisme et expériences du temps. Paris: Le Seuil, 2003.

___________. O espelho de Heródoto: ensaios sobre a representação do outro. Tradução de Jacyntho Lins Brandão. Belo Horizonte: Ed. UFMG, 1999.

HOBSBAWM, E. & RANGER, T. (org.) A invenção das tradições. Tradução de Celina Cardim Cavalcante – 2ª edição – Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1997.

MARX, K. O Dezoito Brumário e cartas a Kugelmann. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1969.

Diogo da Silva Roiz – Doutorando em História pela UFPR, bolsista CNPq. Mestre em História pela Unesp, Campus de Franca. Professor do Departamento de História da Universidade Estadual de Mato Grosso do Sul, na unidade de Amambaí.

Movimientos y poder indígena em Bolivia, Ecuador y Peru – ALBÓ (AN)

ALBÓ, Xavier. Movimientos y poder indígena em Bolivia, Ecuador y Peru. La Paz: CIPCA, 2008, 294 p. Resenha de: CHAVES, Daniel Santiago. Anos 90, Porto Alegre, v. 16, n. 29, p. 365-369, jul. 2009.

Linguista e antropólogo espanhol, Xavier Albó é radicado na Bolívia desde os anos ’70, quando co-fundou o Centro de Investigación y promoción del Campesinado (CIPCA), uma instituição que se tornou bastante influente no país e em toda a região andina no tratamento sofisticado à questão indígeno-camponesa, tanto na sua essência teórico-analítica, quanto no próprio acompanhamento do desenvolvimento histórico do conceito.

Mas qual é o ponto central do trabalho de Albó? Ao historicizar os movimentos sociais (sejam autônomos ou ligados aos partidos políticos), relacionando-os com a questão indígena no Peru, Bolívia e Equador, Albó age como um topógrafo e faz um mapeamento detalhado destes movimentos, captando as suas semelhanças, regularidades e dessemelhanças. A sua chave de compreensão enfatiza as transições históricas das bases – outrora esquecidas, sendo hoje o motor das transformações no chamado “arco andino” – através de uma avançada e sofisticada análise política, cultural e sociológica, sem esquecer as relações com as diversas turbulências econômicas dos três países.

E o que há de relevante nessa obra? Albó entende que os indígenas – ou melhor, pueblos originarios (“povos originais”) – representam a maioria pujante da população nestes países, não só em termos quantitativos, como na sua relação diversa com os processos nacionais e continentais e, consequentemente, na sua luta por uma posição que represente a sua importância nestes termos. O autor elabora um crescendo que toma referências históricas da conquista espanhola, passando pela repartição da sua forma de organização política autóctone (o Tawantinsuyu, “Império Inca”) e pela submissão aparentemente completa ao jugo do colonizador para explicar que o indígena originário não pode ser considerado somente mais um elemento dessas sociedades. Pelo contrário, ele representa o pilar central desse desenrolar de fatos, cuja trajetória nos últimos 500 anos deve estar diretamente relacionada ao tempo presente e aos próximos anos.

Apesar disso, Albó retrata um passado recente de sofrimento, paúra, pobreza e esquecimento nos três países, cada qual revelando uma dinâmica diferenciada. Enquanto o Equador é notado como a matriz das atuais formas de organização dos chamados movimentos sociais, o Peru se encontra em um lento despertar após anos de Sendero Luminoso e a Bolívia despontou com a sua diversidade pujante para a conquista do poder instituído. Nos três países, igualmente, a busca por maior participação e representação política está diretamente relacionada a uma repressão (ou omissão) histórica aos direitos destes grupos identitários, por vezes locais, mas que emergem no século XXI sobre o processo da glocalização, termo que ele toma emprestado do sociólogo Roland Robertson (1995) para definir a ascensão e relação mútua entre pequenos núcleos/ instâncias locais e a dinâmica global. Ou seja, a comunidade local começa a pensar – e agir – em escalas diferenciadas e entrepostas sobre termos globais, transcendendo por vias diferenciadas a sua condição restrita. Think global, act local, para “outro mundo possível”.

Dessa maneira, emerge uma intensa identidade regional, assumindo francos tons anti-imperialistas (clara resposta aos extremos dos ‘ajustes estruturais’ dos últimos 20 anos) e nacionalistas de esquerda, optando pela defesa integral da soberania nacional no Pós-Guerra Fria. Porém, mais profundo que isso, subsiste uma franca liberação irrompendo-se nas bases destas sociedades: dos povos indígenas a uma condição de índio alzado (índio alçado), não mais convivendo e agindo como o índio permitido. Ou seja, a rigor, a maioria não seria mais tutelada por instituições, leis e lideranças brancas (ou brancóides), mas legitimamente identificadas e nascidas no seio deste enorme caldeirão cultural, político e societário.

O autóctone, assim, emancipa-se paulatinamente na atualidade da sua busca pelo poder instituído. Evidentemente, deixando de lado formas ocidentalizadas de organização sociopolíticas como Partidos Políticos clássicos, verticais e hierarquizados que, em grande medida, são incompatíveis com esse mosaico dinâmico. É possível relacionar essa transformação com um caráter reticular inovador, objetivamente assumido nessa nova dinâmica organizacional: estes partidos têm grande aderência junto a estes grupos identitários justamente por possibilitarem a sua participação mais ampliada, e mais, por se relacionarem com as entranhas do comunitário sem negar o nacional e o regional. Mas voltemos ao Peru, Equador e Bolívia, ou melhor, ao núcleo duro deste Arco Andino, visto que o verdadeiramente interessante é acompanhar o desenrolar dos fatos nestes países através de um nexo conjunto, não de forma separada.

É imperioso relatar que Albó trata esses movimentos sociais andinos de forma muito delicada, sem encará-los de forma monolítica e inflexível; pelo contrário, lança mão de precisa apreciação para compreender a diversidade específica de cada localidade nas novas reivindicações políticas (gênero, recursos naturais, participação política, autoidentificação e afirmação cultural, entre outras diversas) dos povos se afirmando na unidade paulatina das “nações originarias”, última etapa do deslocamento histórico-existencial destes grupos. E é precisamente nesse ponto em que nos detemos, em um presente sacudido pela emersão dessas nacionalidades como elementos centrais para a definição do futuro regional, quiçá da Integração Sul-Americana como processo maior.

Se levarmos em consideração que a conquista desse poder instituído – sejam congressos, assembleias constituintes ou cargos de alto poder decisório – pela via democrática foi forjado por uma longa experiência histórica e assim solidificou a hegemonia destes grupos nos países relacionados a esse arco andino, e mais, que essa ascensão tem fortes conteúdos nacionalistas pan-andinos, é impossível não situar os discursos fraternais como um impulso comum, ensejando a reunificação em alguns casos.

Deve-se comentar, entretanto, que esta não se especula na leitura do autor por vias de um só corpo jurídico-legal constitucionalizado, cuja expectativa de ligação estreita entre nação e estado – e assim, reunificação territorial – é advertida inclusive por Albó como uma limitação analítica dos cientistas políticos. Sem comungar da mesma leitura que Albó, é possível entrever questões por um prisma pragmático, posicionado sobre os temas mais sensíveis da integração regional sul-americana, relacionados à região que aferrolha geopoliticamente a Amazônia Brasileira.

A parcela do referido “Arco Andino”, tratada por Albó O que resta como substrato são a pertinência e a potencialidade destes conteúdos (anti-imperialismo, nacionalismo pan-andino de esquerda, questões energéticas comuns, reação antirracista, entre outros) derivando em mais um comportamento nacional/regional influente e decisivo sobre um projeto de Integração Sul-Americana, que possivelmente concorre na esteira do processo de regionalização em curso. Na medida em que este projeto não se encontra mais em um campo meramente seminal, persiste uma série de demandas significantes ainda a serem tratadas pelos países unidos em torno da América do Sul – seguridade jurídica, planejamento energético regional, monitoramento de fluxos ilícitos e migratórios, defesa e segurança militar, entre outros – que são fundamentais para a solução das controvérsias regionais que porventura surjam. Em tempo: já é possível nomear alguns casos: Petrobrás (Bolívia, 2006), Odebrecht/ Furnas (Equador, 2008), brasileiros proprietários de terra no Paraguai, os ‘Brasiguaios’, além da questão tarifária em Itaipu (Paraguai, 2008).

Nesse sentido, é imperioso considerar pragmaticamente os tons multifacetados dessas conjunturas nacionais andinas, na medida em que com elas coexiste a ascensão de lideranças nacionalistas inclinadas à esquerda. A pluralidade de tais conjunturas – por vezes conflitivas – faz com que elas se revelem determinantes processos para o futuro das suas nações devido à própria integração multilateral destas com projeções sólidas de hegemonia para gerar desenvolvimento nas suas economias nacionais e transformação política do ordenamento jurídico, democrático e estatutário dos Estados – ainda que essa transformação não necessariamente objetive estabilidade. Um discurso pan-andino comum baseado em identidade, oposição antissistêmica ao capitalismo e a toda potência “imperialista” (incluindo-se aí o Brasil, por vezes) tem suas raízes e forças-motrizes perfeitamente assinaladas por Albó, que ata os seus cabos em um raio-X preciso da constelação milenar constitutiva do “homem andino”.

Daniel Santiago ChavesÉ pesquisador do Laboratório de Estudos do Tempo Presente/UFRJ e mestrando do Programa de Pós-Graduação em História Comparada. E-mail: daniel@tempopresente.org.

Salvar la Nación. Intelectuales, cultura y política en los años veinte latinoamericanos – FUNES et. al (AN)

FUNES, Patricia. Salvar la Nación. Intelectuales, cultura y política en los años veinte latinoamericanos. Buenos Aires: Prometeo Libros, 2006, 440 p. Resenha de: MANSILLA, María Liz; ZAPATAT, M. H.; SIMONETTA, Leonardo C. Anos 90, Porto Alegre, v. 16, n. 29, p. 357-364, jul. 2009.

La década abierta en 1920 es sumamente rica en lo que respecta a procesos y problemas de singular relevancia que no sólo merecen ser estudiados por su importancia coyuntural sino también porque su fuerte impronta repercutirá en etapas posteriores a lo largo de la centuria. Es esta, además, una década prolífica en lo que a debates y generación de nuevas propuestas se refiere. Así, la doctora Patricia Funes ha decidido transitar estos diez años eligiendo uno de los tantos senderos posibles.

Salvar la Nación. Intelectuales, cultura y política en los años veinte latinoamericanos es fruto de una ardua y profunda labor investigativa concebida inicialmente bajo las características y el formato propio de una tesis de doctorado, desarrollado en la Universidad Nacional de La Plata. Ahora, devenido en libro, tienen la posibilidad de circular con mayor libertad y de invitar a sus potenciales lectores a centrar la atención en torno a los contenidos e intenciones que adoptó la reflexión acerca de la Nación entre los intelectuales latinoamericanos por aquellas épocas.

En la primera parte de las tres secciones que componen la obra, la autora asienta las premisas de su trabajo, sus ejes problemáticos y el modo de abordar los mismos, mientras se va introduciendo en el análisis de los elementos y categorías generales a partir de los cuales gravita la investigación: años veinte, intelectuales y nación.

De acuerdo a Funes, se trata de una coyuntura que, comúnmente, ha quedado subsumida e invisibilizada en periodizaciones más amplias del tipo clásico como “1880-1930” o “período de entreguerras” – que invalidan cualquier reflexión de los procesos de cambios y continuidades – pero que, no obstante, posee una entidad propia que permite dotarla de nuevos significados que hacen posible individualizarla. Desde su perspectiva, los años 20 poseen un carácter coloidal y fundacional, en el que se originan múltiples tradiciones de pensamiento culturales y políticas que atravesarían el siglo XX latinoamericano.

La segunda parte del libro se detiene en el tratamiento y desarrollo de los argumentos centrales. Y un tercer apartado contempla las reflexiones finales. El libro también cuenta con un apartado con bibliografía seleccionada que evidencia un intento de síntesis de lo producido acerca del período y de incorporación de diversos enfoques y disciplinas que tienen por objeto de estudio a la sociedad latinoamericana del siglo XX – con especial referencia a la década de 1920 –, lo que permite proseguir con el estudio en profundidad de las problemáticas planteadas.

En efecto, la crisis de la Gran Guerra, la relativización de Europa como faro de la cultura y la creciente oposición a las agresivas políticas militares de Estados Unidos sobre la región fueron generando dudas, rumbos significativos y un novel continente de sentidos en el mundo de las representaciones, recortando la silueta de problemas e inquietudes comunes a un grupo de hombres de distintos países de América Latina que comenzaban a construir el colectivo específico de los intelectuales. La revolución, el socialismo, el comunismo, el antiimperialismo, el corporativismo, la democracia y la ubicación de esta parte del orbe en la cartografía de la modernidad fueron tópicos que recorrieron la reflexión de estos actores que se ubicaron desde el campo de la cultura y la sociedad. Pero, especialmente, recayó sobre ellos la tarea de pensar y crear interpretaciones y lecturas en torno a la Nación, entidad de sentido conformada desde múltiples visiones y ambivalentes significados al calor de una discusión que atravesaba tanto el plano filosófico-cultural como el político.

Apelando a un registro de análisis que podría caracterizarse como político-cultural, la historiadora entrelaza con soltura y fluidez la reflexión en función de dos grandes universos semánticos. Por un lado, los contenidos y significados inherentes de los discursos y representaciones que pujan por definir qué es la nación en la arena filosófica-cultural. Y por otra parte, se hace presente la intención en el plano político de los intelectuales de cristalizar solidaridades colectivas y (re)crear una “comunidad imaginada” vinculada a la determinación de precisar inclusiones y exclusiones. A ello se suman los enfoques específicos de la historia social, incorporando sobresalientes aproximaciones sobre las sociedades y los contextos que sostienen el accionar de dichos agentes.

En concordancia con su propuesta de análisis, no se contemplan sólo la producción de los intelectuales que se autodefinen abiertamente como pertenecientes a los diversos nacionalismos y como productores de acepciones más o menos felices sobre la Nación.

Por el contrario, el elenco de hombres visitados se amplia de manera sorprendente y, a la vez, sus postulados van siendo cruzados y confrontados no en función de países o de biografías sino a partir de un conjunto de problemas que permitan un acercamiento más explicativo al conjunto de debates antes aludido. En este sentido, la ponderación hermenéutica y metodológica de tres ámbitos específicos (México, Perú y Argentina) y de los personajes escogidos (Víctor A. Belaúnde, Jorge Luis Borges, Manuel Gálvez, Manuel Gamio, Francisco García Calderón, Manuel González Prada, Víctor Raúl Haya de la Torre, Pedro Henríquez Ureña, José Ingenieros, Vicente Lombardo Toledano, Leopoldo Lugones, José Carlos Mariátegui, Andrés Molina Enríquez, Alfonso Reyes, José E. Rodó, Ricardo Rojas, Luis Alberto Sánchez, Manuel Ugarte, Luis Valcárcel, José Vasconcelos, Alberto Zum Felde, entre otros), no sólo ofrece la oportunidad para tensar al máximo las dificultades para pensar América Latina en clave regional y brindar el andamiaje necesario para ver cómo cada uno de estos tópicos son tratados en realidades nacionales bien disímiles, sino también permite romper con aquellas visiones endógenas, ufanistas y cerradamente nacionalistas que coadyuvaron a configurar los imaginarios y resortes sobre los que reposaban las historiografías nacionales y abrir canales de diálogo entre distintas tradiciones. Cabe aclarar que la preeminencia dada a estos tres espacios dominantes, que se subordinan a los ejes sobre los que se ha configurado la interpretación, no obtura la peripecia de hacer referencia a otras realidades a lo largo de la obra, recurriendo a un método comparativo que enriquece de forma significativa los planteos a través del muestreo de diferentes tramas de producción intelectual.

La segunda parte del libro se detiene en el tratamiento y desarrollo pormenorizado de los nudos centrales, desplegados en torno a cinco acápites temáticos. En un primer momento se indagan las disímiles y complejas relaciones entre Nación, crisis y modernidad. Bajo el rótulo de “Salvar la Nación” – frase que emerge con insistencia en las más heterogéneas interpretaciones de comienzos de la década –, se piensa en los ejes de cada una de las interpretaciones de la Nación (el Inkario, las mayorías nacionales, la vida civil, la fuerza o la potencia, la religión católica, la historia en común) en función de dos tradiciones clásicas de los tiempos modernos: una idiosincrásica, y la otra constructivista. La hipótesis fuerte de Funes es que la Nación ya no es considerada como un atributo o un perímetro que acompaña o completa al Estado, sino que es tomada como el espacio de condensación de las complejidades y contradicciones sociales en el contexto de una modernidad esquiva y ecléctica pero advertible a todas luces.

En “La Nación y sus otros”, se pone de manifiesto el desplazamiento de una concepción intelectual de nación a partir de las categorías que imponían la tradición liberal (cuyo énfasis recaía en la noción de ciudadanía) y la tradición positivista (acentuando la idea de morfología racial) a una concepción que abrevaba en las consideraciones sociales y culturales. La tesis central de esta sección es que en esta década, el pensamiento latinoamericano buscó una hermenéutica que no clausurara ni el pasado ni el futuro y que contuviera fórmulas para ensanchar la Nación a partir de dos variables: en el tiempo (apelando al pasado, a las tradiciones y a los orígenes) y en el volumen social (al considerar al “otro” antes excluido, encarnado en las figuras del indígena y del inmigrante).

Por ende, el desafío radicó en conciliar en el proceso de incorporación a un conjunto de alteridades complejas y de distinta entidad: étnicas, culturales, religiosas, sociales y regionales.

En tercer lugar, la autora remarca la importancia que el pensamiento antiimperialista de posguerra tuvo en la medida en que constituyó un dilema que configuró un perímetro inclusivo a escala regional y señaló destinos y estrategias comunes para América Latina. Ya no sólo eran las otredades internas los “problemas” a resolver, sino que se sumaron las fronteras culturales y económicas que se recortaron frente al “otro” externo que obligaba a tomar posiciones frente o contra la dominación imperialista pergeñada desde Estados Unidos. A lo largo de “Antiimperialismo, latinoamericanismo y Nación”, se analiza el modo en que categorías como autonomía, autodeterminación, soberanía, independencia, patriotismo y nacionalismo eran puestas en jaque al tiempo que incitaban a reforzar el pensamiento de los intelectuales frente a los desafíos de un “afuera” imperialista.

En el capítulo “Lengua y Literatura: arcanos de la Nación”, se examinan las polémicas en torno del idioma, la presencia de la literatura nacional y la edificación de un canon literario, temas que muestran los sentidos que se imprimieron sobre la Nación. En esta línea, la consideración en los años veinte de los binomios culto/popular, moral/escrito, español (o castellano)/lenguas indígenas, entrelazados con la reevaluación del canon literario, la designación de precursores de la literatura nacional, la ampliación de autoridades y precedencias, las formas de datar y compendiar las historias se conjugan en implícitos y fuertes pilares sobre los que se apoya el discurso y los fundacionales imaginarios nacionales de la década.

Finalmente, en el quinto apartado, “Ser salvados por la Nación. Las búsquedas de una nueva legitimidad”, las protagonistas del debate son las ideologías políticas. Para Funes, la problemática de la definición de la Nación se consolida en el terreno intelectual paralelamente al proceso de debilitamiento o superación del orden oligárquico como correlato de la creciente complejización social y la aparición de actores sociales en la escena pública. Esto condujo a repensar los vínculos entre Sociedad y Estado, en una línea donde nociones como república, democracia, revolución, socialismo, corporativismo son leídos en otra clave, para hallar nuevos y alternativos principios de legitimidad bajo premisa de que es posible “ser salvados” por la misma Nación que se está discutiendo.

Más allá de la unidad en la coherencia y rigurosidad desplegadas para tratar cada problema, se suma otro elemento del orden metodológico que atraviesa los capítulos reseñados: la forma de organización interna. Invirtiendo el orden clásico de la exposición, cada apartado inicia con una clara explicitación de las conclusiones para luego desandar el camino que llevó a ellas. De igual modo, cada capítulo se halla encuadrado en el abordaje de distintos materiales: históricos propiamente dichos, que sirven de soporte material para rescatar la información empírica que configura, en criterios cronológicos, un proceso; teóricos, que colaboran para la comprensión, delimitación y evaluación de los problemas presentados; y fuentes, que son de gran utilidad puesto que permiten una aproximación más estrecha a lo producido por los diferentes actores y posibilitan contar con cierto número de documentos que ofrecen un margen de evidencia de las visiones y perspectivas en la coyuntura. El libro también cuenta con un apartado con bibliografía seleccionada que evidencia un intento de síntesis de lo producido acerca del período y de incorporación de diversos enfoques y disciplinas que tienen por objeto de estudio a la sociedad latinoamericana del siglo XX – con especial referencia a la década de 1920 –, lo que permite proseguir con el estudio en profundidad de las problemáticas planteadas.

La cuidadosa reconstrucción sistemática de las lógicas de configuración de los imaginarios nacionales en América latina durante los años 20 ha sido un desafío y al afrontarlo, la autora ha realizado una muy importante contribución al conocimiento de nuestra historia latinoamericana, manifiesta en una prosa ágil y bajo un tono que es capaz de ir y venir con soltura entre los diferentes aspectos del debate intelectual sin contradecir la lógica narrativa que pretende. Convergencias e integraciones de este tenor son, por cierto, estimulantes y una vez más, se ponen de manifiesto en la aplicación del método comparativo, estableciendo similitudes y diferencias que ese proceso global presenta cuando se lo aborda a escala de cada sociedad nacional. La tarea de repensar nuestros intelectuales ha operado aquí como una excusa para desandar las peripecias de la construcción compleja de la Nación. En este sentido, otra virtud que reviste el trabajo es que ha logrado superar por un lado, los postulados esencialistas y las naturalizaciones ahistóricas y, por otro, las interpretaciones funcionales y fatalistas.

En síntesis, se trata de una obra que se escribe desde la pluma de la innovación y de la imperiosa necesidad de transitar nuevos caminos y formas de escritura histórica acordes a los tiempos que corren, conjugando en su prosa la rigurosidad científica en el sentido “tradicional” – la utilización de la documentación más diver sa y exhaustiva posible, la severidad de la crítica, la teorización apropiada y operativa y la sólida claridad interpretativa, producto de años de investigaciones en historia latinoamericana del siglo XX – y la lectura amena – propia de quien domina el oficio de escribir de manera atractiva, seductora y provocadora –, con el laudable objetivo de “repensar” cuestiones que refieren a nuestros problemas más actuales, como el hecho de que “(…) la historia no sólo no finaliza sino que en nuestros países, hace mucho que recién comienza”. Y en ese transitar, es necesario sentarse a discutir a Latinoamérica y a la Nación sin tapujos y encorsetamientos, en diálogo abierto y plural, como balance y como proyecto.

María Liz Mansilla, Horacio M. H. Zapata e Leonardo C. SimonettaEscuela de Historia – Centro Interdisciplinarios de Estudios Sociales (CIESo) – Facultad de Humanidades y Artes – Universidad Nacional de Rosario, Argentina.

A história do conceito de Latin America nos Estados Unidos – FERES JR (AN)

FERES JR., João. A história do conceito de Latin America nos Estados Unidos. Bauru: Edusc, 2005, 317 p. Resenha de: BOVO, Cláudia Regina. Anos 90, Porto Alegre, v. 16, n. 29, p. 351-355, jul. 2009.

Nos últimos dois séculos, os debates em torno do significado de ser americano não possibilitaram a edificação de uma definição comum que fosse aceita e partilhada pelas três partes do continente Americano. A partir de uma mesma origem cultural ibérica, as porções centro e sul desenvolveram uma complexa relação de aproximação que, ao cabo, legou-lhes a designação integradora e, às vezes, generalizante de latino-americanos. Enquanto isso, devido a uma maior aproximação com os referenciais do velho mundo, a porção norte construiu sua autodefinição, tolhendo-se de qualquer vinculação identificadora com o centro-sul americano.

Diante deste quadro, a obra A história do conceito de Latin America nos Estados Unidos, do cientista político João Feres Jr., traz à cena um exercício laborioso de reflexão sobre a construção histórica do conceito de Latin America. A partir da tentativa de entender os contornos apreciativos e pejorativos que Latin America adquire nos Estados Unidos, o autor dedica-se à pesquisa dos contornos semânticos que o conceito adquiriu tanto entre os textos acadêmicos, quanto no uso da linguagem cotidiana. Feres parte do princípio que a expressão

Latin America empregada pelos norte-americanos foi, e continua sendo, definida como uma imagem antagônica da America do Norte gloriosa.

Neste exercício histórico e também filosófico, Feres Jr. retoma ícones da Teoria do Reconhecimento, como Hegel, Charles Taylor e Axel Honneth, na tentativa de encontrar respaldo entre as ideias de constituição reflexiva da identidade e a negação radical do reconhecimento, promovida pelos norte-americanos, quando se comparam aos americanos do centro-sul. De acordo com as palavras do próprio Feres Jr., sua obra define-se por um “paradigma hegeliano de etnicidade em direção a uma moral negativa, quase kantiana”.

A divergência entre Feres Jr. e os teóricos do Reconhecimento reside no seu interesse pelo estudo das expressões linguísticas e, substancialmente, por conceber que a construção conceitual da expressão Latin America nega qualquer possibilidade de reconhecimento entre o “Eu” americano e o “Outro” latino-americano.

Atento à questão metodológica, Feres Jr. dialoga com outras referências a fim de evitar a sobreposição pura e simples de teorias.

Neste sentido, a partir da crítica à tipologia das formas de desrespeito de Axel Honneth e, com o auxílio da teoria semântica dos contraconceitos assimétricos de Reinhart Koselleck, Feres Jr. desenvolve uma nova categoria de análise que tipifica as formas de desrespeito praticadas pelos usos linguísticos norte-americanos.

Posto isso, torna-se possível a identificação de uma mesma expressão linguística, como Latin America, com os vários tipos de oposições assimétricas usadas no cotidiano. “O termo rural, ou mesmo o termo católico, dependendo do contexto onde é usado pode sugerir atraso” (oposição assimétrica temporal) “e inferioridade” (oposição assimétrica cultural ou até racial). Como a intenção de Feres Jr. é verificar as consequências ético-morais da linguagem de identificação praticada pelos americanos no ato de designar os latino-americanos, ele precisa resguardar a pluralidade de formas de denegrir a imagem do outro, as quais se encontram presentes nesses usos linguísticos.

Ao longo do capítulo dois, Feres demonstra que as referências pejorativas destinadas à identificação dos americanos das porções centro-sul aparecem em dicionários, jornais e até em discursos presidenciais desde o final do século XIX. Tais menções apresentam a expressão Latin America como herdeira de um conjunto de características que os norte-americanos julgavam negativas, como a religião católica, a mestiçagem étnica, o tradicionalismo das instituições político-sociais, o machismo, a acomodação em relação ao trabalho, entre outras. Latin America sedimenta-se como um território sem organização e ordem, seja esta cultural, política ou mesmo econômica.

A produção acadêmica do Latin American Studies também não se eximiu de colaborar com a extensão e a divulgação de visões pré-concebidas sobre a Latin America. Dialogando com as obras de Samuel Huntington, Lyle Maclister e Teodore Wyckoff, Feres apresenta no terceiro e quarto capítulos as análises acadêmicas sobre a modernização da Latin America e a literatura da estabilidade política latino-americana, reconhecendo-a como promotora dos interesses da política externa norte-americana durante os anos 60.

De acordo com Feres, estes cientistas sociais colaboraram para justificar, junto à opinião pública dos EUA, a intervenção e o treinamento militares em projetos de coibição do desenvolvimento do comunismo no continente. Atrás do discurso da estabilidade política e da modernização latino-americana, eles sustentaram a fraqueza política, militar e econômica da região. Segundo o argumento de Feres, “salvar a Latin America do comunismo representava também um meio de garantir a continuação da influência e rentabilidade do capitalismo na região”. É importante destacar que, muitas vezes, devido a interesses econômicos e territoriais na região centrosul americana, os norte-americanos supervalorizavam as depreciações como forma de justificar o seu domínio natural na condução do progresso continental.

Até mesmo a produção de livros-textos para a introdução ao estudo de Latin America nas universidades dos EUA, ainda hoje, contribuem com a reprodução de estereótipos negativos sobre a cultura latino-americana. Feres finaliza sua construção argumentativa, apresentando alguns best-sellers utilizados nas graduações americanas: dentre os principais estão Modern Latin America, History of Latin America, Latin America: a concise interpretative history e Latin American politics and development. O que se percebe, ao longo da leitura do sétimo capítulo, é a preocupação de Feres em destacar, por meio das capas das referidas obras, a questão da depreciação racial que aparece velada no texto escrito. Em tais capas, obras de artistas sul-americanos são apresentadas fora do seu contexto de produção, sendo utilizadas para corroborar duas visões bem preocupantes sobre a Latin America: “um objeto a ser apropriado ou usado, ou um perigo a ser gerenciado ou evitado”.

Ao longo de mais de trezentas páginas, Feres Jr. nos conduz a um universo de hostilidade justificada, que nos choca num primeiro momento, enfurece-nos em seguida e, finalmente, sensibiliza- nos. Choca-nos, pois, diante da construção conceitual de mais de um século, fomos diminuídos e identificados, sob os mais diversos aspectos, como homens fora do tempo da prosperidade do Novo Mundo. Enfurece-nos, porque, através da medida de valor norte-americana, incorporamos uma incapacidade natural de superar nossos próprios desafios, deixando aparentar que nascemos e crescemos tortos por nos desviarmos da ajuda e, principalmente por invejarmos o estilo de vida americano (American way of life). E, finalmente, sensibiliza-nos, pois não queremos ter para com eles a mesma atitude de desprezo, receio ou preconceito.

Porém, o trabalho de Feres merece duas ressalvas. A primeira diz respeito à ideia de que os Estados Unidos manipularam o continente Americano livremente, como se agissem isoladamente, sem o apoio e mesmo a cumplicidade das autoridades políticas latinoamericanas.

Na realidade, muitos eventos se desenrolaram seguindo interesses de grupos políticos e financeiros pertencentes aos próprios países latino-americanos.

A segunda ressalva refere-se ao perigo do leitor, munido das análises oferecidas por Feres Jr., tornar os Estados Unidos o algoz latino-americano, como o Caliban de Rodó, culpando-o por nossos próprios tropeços.

Apesar dessas observações, não podemos deixar de salientar o cuidado de João Feres Jr. em situar claramente suas referências teóricas, desenvolvendo seus argumentos de modo a não tornar absoluto o discurso da alteridade, justificando o enaltecimento do “outro” americano (latino-americanos). Além disso, A história do conceito de Latin America nos Estados Unidos nos permite mais uma indagação a respeito de como concebemos nossa própria identidade e o pertencimento ao continente Americano.

Em certa medida, o norte construiu sua identificação como americanos, enquanto ao centro-sul coube, ora de forma imposta, ora de maneira endógena, a designação de latino-americanos. Fica difícil não reconhecer que o norte soube construir sua herança derivada diretamente do nome continental; ao passo que o centro-sul recebeu um nome adjetivado a partir do designativo étnico “latino”, cuja procedência é externa ao continente Americano. Dentro dessa perspectiva, eles seriam os americanos, “filhos legítimos” do Novo Mundo, enquanto os outros povos que vivem no continente se transformariam em “filhos bastardos”, frutos de uma mistura mal identificada e, portanto, mal resolvida.

Assim, enquanto a América Latina não conseguir estabelecer sua identidade a partir do que ela realmente quer ser, continuará sendo alvo de estereótipos e definições generalizantes como aqueles apresentados pela obra de João Feres Jr.

Cláudia Regina BovoProfessora do Departamento de História da Universidade Federal do Mato Grosso, doutoranda em História/Unicamp. Endereço Eletrônico: claubovo@yahoo.com.

Uma antropologia dos militares – Reflexões sobre pesquisas de Campo CASTRO; LEIRNER (A)

CASTRO, Celso; LEIRNER, Piero. Uma antropologia dos militares – Reflexões sobre pesquisas de Campo. Rio de Janeiro: FGV, 2009. Resenha de:  ARIAS NETO, José Miguel. Nos caminhos da fé: história, religião e religiosidade da Antiguidade ao mundo contemporâneo. Antítese, v. 2, n. 4, p. 1137-1144, jul./dez. 2009.

Há uma “Antropologia dos Militares”? O livro organizado por Celso Castro e Pierre Leirner procura responder positivamente à questão. A obra divide-se em apresentação e onze capítulos, alguns mais teóricos, outros apresentando estudos de caso. Há estudos sobre as cadetes pioneiras da Academia da Força Aérea (AFA) por Emilia Takahashi, o serviço de comunicação do Exército por Lauriani Porto Albertini, mulheres de militares por Fernanda Chinelli, o mundo do quartel, por Cristina Rodrigues da Silva, rituais militares por Juliana Cavilha, formação de praças do Exército por Aline Prado Atassio. Ao lado destes, alguns textos que desenvolvem reflexões mais teóricas como os de Celso Castro, Piero Leirner, Alexandre Colli de Souza e Máximo Badaró. O único texto de um historiador é a bela reflexão que faz Adriana Barreto de Souza sobre a pesquisa em Arquivos Militares.

Outra característica que de imediato chama a atenção é o fato de que as mulheres são maioria neste grupo de pesquisadores que estuda predominantemente o Exército, com a exceção dos textos sobre as Cadetes Pioneiras da AFA e em parte o que explora o “mundo do quartel”, no qual Cristina Rodrigues da Silva relata a pesquisa que realizou também na AFA. Não há um texto sobre a Marinha do Brasil. É fato que este silêncio é significativo e deve-se refletir sobre ele, contudo, este não é o espaço pertinente. Também esta marcante presença feminina no campo dos estudos militares é alvissareira para a academia.

O livro, como qualquer obra coletiva, apresenta textos de diferentes níveis. Alguns, fruto de acurada reflexão teórica, apontam problemáticas bastante relevantes para os estudos militares na área de antropologia, ou melhor dizendo, para a constituição do que seria uma antropologia dos militares, ou seja, relativa aos militares como bem destaca Leirner à página 31. Outros se debruçam mais sobre a experiência realizada, apoiando-se nas reflexões desenvolvidas pelos pesquisadores seniores.

O subtítulo reflexões sobre pesquisa de campo indica o fio condutor, ou seja, a problemática que articula todos os textos da obra, da qual, derivam as questões apresentadas pelos autores.

Em outras palavras, é o importante momento em que o pesquisador reflete sobre a trajetória da sua pesquisa e como esta influenciou decisivamente nos resultados obtidos e nas conclusões apresentadas. Neste sentido, é o pensamento que se volta sobre si e se desdobra na indagação que todos nós devemos fazer: O que é esta pesquisa que eu faço? Como a faço? E de que maneira o modo como a faço influencia o que estou enunciando ao mundo sobre meu objeto. É, na linguagem dos historiadores, a busca do posicionamento do pesquisador, do lugar social da pesquisa: De onde falo? Para quem falo?, questões de há muito postas por vários pensadores, dentre os quais Claude Lefort no importante livro As formas da História e Michel de Certeau no belo A Escrita da História.

Assim, o movimento dos autores em seu exercício de reflexão sobre o processo de produção do conhecimento é aquele que descreve a formulação da problemática, a pesquisa, no caso em questão, a já tradicional observação antropológica participante e os resultados, mediados pelo contato com o “objeto” ou, como este grupo de pesquisadores se referem aos militares, “com seus nativos”. Estas experiências, embora, marcadas pelo traço comum do estudo de militares, são diferentes em cada caso e, por isto mesmo, narradas em diferentes registros do sensível, isto é, alguns com mais esperança e otimismo, outros nem tanto.

Este registro do sensível é importante, pois, ele revela um aspecto fundamental da pesquisa do etnólogo: o envolvimento direto e pessoal com o seu “objeto”. E causa ao historiador certa surpresa a perplexidade que estes antropólogos revelam quando diante de “seus nativos”.

E que perplexidade é esta? E por que ela causa surpresa? Para iniciar retomo as formulações, por demais conhecidas, de Bacon sobre as relações entre saber e poder, retomadas contemporaneamente por Foucault.

Estas formulações enunciam que não só o conhecimento, mas principalmente sua produção é sempre fruto de relações de poder. Disto também já sabiam, no século XVI, nossos primeiros etnólogos, como Bernardino de Sahagún que ao longo de quarenta anos escreveu junto com os caciques astecas a Historia General de las cosas de Nueva España. Buscava ele, inicialmente, conhecer a cultura asteca para extirpar o pecado da idolatria. Isto porque logo os espanhóis perceberam que os nativos adoravam seus “falsos deuses” no interior dos rituais e dos templos cristãos.

Assim, para esses missionários-etnólogos o conhecimento adquirido, a partir da sua posição de conquistadores, permitiria uma real cristianização dos nativos. Sabemos que o resultado, como bem destacou Tzvetan Todorov em A conquista da América, a questão do outro, não foi o esperado pelos próprios missionários, que passaram, especialmente no caso de Bernardino a admirar e amar a cultura de “seus nativos”, numa espécie de reverso da conquista que constitui um dos mais ricos processos de mestiçagem cultural no período.

No caso do livro organizado por Celso Castro, esta questão é quase que enunciada como uma novidade. Em seu texto, no qual narra sua experiência na Academia Militar das Agulhas Negras (AMAN), relata que a pesquisa foi vista como “inusitada” por oficiais e cadetes da escola. Um diálogo particularmente interessante ocorre quando chegando à Academia pela primeira vez, o major que chefiava o serviço de relações públicas, lendo sua carta de apresentação exclamou: “Já sei! Já entendi o que você quer! Agora entendi tudo! Você quer fazer uma coisa tipo aquele trabalho do Gertz sobre a briga de galos em Bali!”.

Ao que Celso Castro observa: Inusitado por inusitado, não sei o que era mais: se minha pesquisa, o se me ver diante de um “nativo” que fazia esta afirmação. Pior que isso, ele passou a perguntar qual a minha “tendência”: se era a do Lévi-Strauss, a do Gertz, a do Malinowski… Confesso que, do alto dos meus 23 anos de idade e apenas um semestre de curso de mestrado, fiquei aterrorizado com a perspectiva de ter que discutir teoria antropológica com meus nativos, desde o primeiro dia da pesquisa de campo. (p. 23-24).

Esse tipo de “leitura do real” remete à questão de como o pesquisador “pensa” o seu sujeito, no caso em questão, como Celso e seu grupo pensam “seus nativos”, os militares. E aqui é importante demonstrar as características específicas do grupo a ser estudado.

Celso Castro começa a estudar militares, ele mesmo vindo de família de militares, no ano de 1987, isto é, no momento de democratização do país após quase vinte anos de regime militar. Assim, as instituições militares e os militares, eram amaldiçoados pela tradição de “esquerda” bastante forte nas faculdades de Filosofia, onde se encontravam os cursos de Ciências Sociais e História. Por outro lado, a visão do mundo universitário que tinham os militares também não era, por assim dizer, muito alvissareira. Querer estudar militares neste período e mesmo em períodos posteriores –como bem mostra o livro– era e, em certo sentido, ainda é um desafio. Pode-se dizer que atualmente a situação é bastante diferente quer de um lado, como de outro. Mas as mudanças na situação política não alteraram a natureza de instituições como as Militares ou como a Universidade, dotadas de suas hierarquias ritualizadas, processos disciplinares e procedimentos próprios.

Assim, o pesquisador que se debruça sobre temas militares vai se deparar com instituições totalizantes, cujos eixos centrais são a hierarquia e a disciplina.

E é esta realidade que vai marcar o andamento e desdobramentos de seu trabalho. Assim, antes de começar uma pesquisa ele pode, atualmente, através do livro organizado por Castro e Leirner ter uma idéia da realidade com a qual vai se deparar, e neste sentido o livro é importantíssimo, pois inserir-se como observador em uma estrutura totalizante requer um conhecimento prévio de suas características básicas e de seu funcionamento.

E é este o fundamento da perplexidade do antropólogo. Como testemunha o próprio Celso Castro: A maior parte da antropologia foi e até hoje continua sendo feita com grupos de alguma forma socialmente subalternos em relação ao antropólogo, ou que não dominam a linguagem acadêmica. A pesquisa com camadas médias ou elite pode, todavia inverter o sentido desta relação de dominação/subordinação. Em muitos momentos da pesquisa , ficou evidente que alguns de meus nativos sentiam-se numa posição intelectual, social ou moral superior à minha (p.24).

A fonte deste sentimento prossegue Celso Castro, é coletiva, não individual. Ela repousa nas características dos militares, que de acordo com ele e os demais autores, tem uma visão de mundo fundada em jogos de oposições: mundo civil/mundo militar, amigo/inimigo. É a partir, portanto, destas categorias, que o pesquisador que adentra uma instituição militar vai ser analisado e julgado e deste julgamento depende o sucesso ou fracasso de seu trabalho ou, pelo menos, da impossibilidade de realização deste como observador participante na instituição.

Assim, no momento em que estão desbravando e inaugurando um novo campo de abordagem da antropologia, os pesquisadores depararam-se com duas contingências estruturantes de seus trabalhos e de sua visão sobre os mesmos: o histórico –a democratização brasileira e o sociológico– a natureza de uma instituição militar. E ficam perplexos diante da recusa de seu “objeto”, ou de “seus nativos” em serem elementos apenas “observáveis” – como se isto fosse possível e algum dia tivesse realmente acontecido– e daí o sentimento de horror quando um militar, não apenas quer discutir antropologia, mas quando a instituição militar controla e limita as condições em que o trabalho etnográfico ocorre, pois, não apenas no contexto da democratização, os militares querem garantir a transmissão ao mundo de determinada memória do passado (remoto e próximo), mas também fixar uma imagem no presente e projetá-la no futuro como continuidade, no caso em questão, de um grupo que se sacrifica em benefício da pátria, isto é, de todos nós.

Esta operação de construção e transmissão de uma imagem do passadopresente e futuro como uma continuidade, isto é o controle da memória e da representação do grupo no universo público, é de fato uma característica específica das Instituições Militares, ou é comum aos vários grupos sociais contemporâneos? Faço a questão pensando, por exemplo, em trabalhos como o de Michael Pollak que demonstra o controle da memória exercido pelos alsacianos, cujo território foi ocupado e dominado sucessivamente ora por franceses, ora por alemães. O que o livro Antropologia dos Militares demonstra é que há, dadas as características dos militares, modos específicos de controle da memória na engenharia do poder que se instaura no interior das instituições e que tem por objetivo não apenas reificar a visão “oficial”, por assim dizer, para “os de dentro”, mas também conquistar ou, numa linguagem mais política, cooptar “os de fora” fazendo com que todos compartilhem da mesma visão, sobre si mesmos e sobre suas instituições. Por isto, o antropólogo sempre deve estar em campo, como bem ressalta Castro, isto é, sempre atento para não ser apanhado nesta rede.

Uma segunda questão, diz respeito ao discurso mais ou menos homogêneo do grupo de antropólogos e da historiadora que participam do livro acerca da “epopéia” para conseguir realizar uma pesquisa em uma Instituição Militar. Este discurso funciona como uma espécie de “narrativa fundadora” do próprio grupo de pesquisadores de modo a valorizar o empreendimento realizado. E este valor é sempre correlacionado às dificuldades existentes, isto é, quanto maiores forem os obstáculos vencidos, maior é o valor do que se realiza. Esta é uma operação fundadora bastante comum, por exemplo, em grupos migrantes em áreas novas de colonização, mas também, por exemplo, para nos situarmos na academia, da História Oral. Fundada por Heródoto, desvalorizada e repudiada pelos “positivistas”, a Historia Oral contemporânea ganha força, vitalidade e legitimidade como campo novo no âmbito da História. Mas para isto, que dificuldades enormes tiveram os historiadores orais que vencer!, que tradições assentadas no texto escrito tiveram que questionar e superar até provarem o seu valor! Este tipo de narrativa fundadora é uma operação fundamental na constituição da legitimidade do campo, e seu público, no caso dos antropólogos é duplo: a academia e o quartel. O discurso dirigido para a acadêmica visa demonstrar que é possível, apesar das dificuldades, trabalhar com os militares sem passar a amá-los, isto é, sem ser “cooptado”. Já para o quartel, a mensagem é: somos capazes de estudá-los e compreendê-los objetivamente, sem aceitar esta categorização amigo/inimigo na qual vocês procuram nos enquadrar. Nosso trabalho transcende esta categorização e conseqüentemente ultrapassa os limites do mundo pensado por vocês como divisão entre civis e militares.

O que me remete à minha última questão. O tratamento dado aos militares como “meus nativos”. Este tratamento, usado sistematicamente por todos os autores do livro, parece ser uma espécie de reação à perplexidade que o antropólogo sente diante do seu “objeto participante”. Na medida em que se descobre em uma relação de poder na qual se encontra em “desvantagem”, ou em uma posição “subordinada” à autoridade, poder e rito das Instituições Militares o pesquisador acaba por usar uma “categoria nativa” dos antropólogos para “enquadrar” os militares dentro de sua própria visão de mundo de modo a inverter esta relação de desvantagem em que se encontra. A contrapartida, portanto, à designação de “paisano” ou “civil” dada pelos militares é tratar a estes como “seus nativos”.

Confesso que esta categorização, como modo de operar um distanciamento em relação ao “objeto” de estudo me causa surpresa. Isto porque, em parte, o termo “nativo” contraria a idéia do livro de que o militar é um constructo histórico-cultural, como tudo o mais que existe neste mundo criado pela humanidade. Em segundo lugar, os cientistas sociais são treinados para identificar as estratégias narrativas que o induzem ao comprometimento com a visão de seu interlocutor, esteja ele morto ou vivo, especialmente no caso dos Historiadores.

Por exemplo, o ambiente familiar criado por Joaquim Nabuco no seu magnífico livro O Estadista do Império, visa, entre outras questões, glorificar a monarquia e os liberais monarquistas. A leitura do livro de Nabuco introduz o leitor em uma experiência de familiaridade. É como se o leitor participasse do diálogo que Joaquim trava com Thomaz e com os políticos imperiais. Esta sensação de “familiaridade” criada por Nabuco tem por objetivo criar uma empatia do leitor com a sua visão e mobilizá-lo para sua causa. Esta é a operação historiográfica que fazem os historicistas como bem observou Walter Benjamin: trata-se de criar uma empatia com os vencedores e perpetuá-los como tais. Por outro lado, dado à sua enorme erudição e profundo conhecimento das fontes, Sérgio Buarque de Holanda em seu livro Do Império à República cria também um ambiente familiar ao fazer com que o leitor participe da conversa que estabelece com a elite política imperial. O mecanismo operacional e o estilo são opostos aos de Nabuco. Também oposta é a finalidade desta operação, pois Sérgio Buarque, que não tem nenhuma simpatia, quer pela monarquia, quer pelo imperador, visa com esta familiaridade destruir por dentro a representação da monarquia criada pelos monarquistas pós-queda do regime e perpetuada por intelectuais, como Oliveira Viana. Não é possível estabelecer uma empatia com o regime monárquico após a leitura do livro de Sérgio Buarque.

No caso do livro Antropologia dos Militares o termo “nativo” com o qual os militares são tratados denota a vontade de criar um afastamento, por todas as razões já aqui apresentadas, como forma de evitar a construção ou a demonstração de uma empatia. A terminologia, entretanto, soa bastante artificial, quando se verifica que os pesquisadores possuem uma familiaridade com seus temas e um conhecimento de sua pesquisa realizada por meio de uma intensa “observação participante” através da qual estabelece relações e vínculos bastante fortes e significativos com os militares. Esta familiaridade não resulta de modo algum em empatia, ou em outras palavras, como já observou Tzvetan Todorov no seu livro Em face do Extremo, compreender não é justificar. Ele se refere no caso, à compreensão dos regimes totalitários. Diria, portanto, que a familiaridade é fundamental para o trabalho do cientista social, mas o desenvolvimento de uma empatia com seu objeto ou não, é uma questão política de primeira grandeza, pois se refere a uma opção que deve ser assumida publicamente.

Assim, a experiência da leitura de Antropologia dos Militares é fundamental para os iniciantes no campo dos estudos militares perceberem a intensa relação de poder que se estabelece no processo de construção da compreensão de determinado fenômeno e como esta relação caracteriza o conhecimento que temos dos “outros” e de “nós” mesmos.

BRÜGGER, Niels (ed.). Web History, Nueva York, Peter Lang, 2010, 362 p.

José Miguel Arias Neto – Doutor em História pela Universidade de São Paulo (USP) e Professor Associado da Universidade Estadual de Londrina (UEL) / Brasil.

Arquivos pessoais / Revista do Arquivo Público Mineiro / 2009

A escolha do tema deste Dossiê da Revista do Arquivo Público Mineiro é, em si mesma, um acontecimento a ser registrado, por algumas razões que merecem destaque logo no início desta apresentação – que se quer breve e modesta. A primeira é remarcar que a questão dos arquivos pessoais está sendo ressaltada por um periódico editado por um arquivo público de grande prestígio e visibilidade nacional. A segunda, e talvez mais importante, embora possa parecer óbvia a muitos leitores, é tratar de arquivos pessoais como um tema nobre e estratégico para se pensar o campo arquivístico e historiográfico, não só no Brasil.

Essas razões / observações já nos remetem diretamente ao conjunto de textos aqui apresentado, que, a meu ver, tem como objetivo principal realizar uma afirmação tão simples como polêmica: os arquivos pessoais precisam ser reconhecidos como legítimos arquivos pela teoria arquivística e, de posse de seu lugar, merecem e exigem reflexões teóricas que se beneficiem de um diálogo interdisciplinar crescente na área das ciências humanas e sociais, em particular. Aliás, apenas com tal perspectiva, seria possível entender que os responsáveis pela revista convidassem uma historiadora de ofício para a empreitada de organização do Dossiê. Nesse sentido, entendo que o resultado dá uma contribuição fundamental ao oferecer subsídios bibliográficos à esfera do conhecimento em que a produção é, ainda, bastante escassa e fragmentada. Leia Mais

Production of Presence: What Meaning Cannot Convey | Hans Ulrich Gumbrecht

Interpretar o mundo é desencantá-lo. Desencantá-lo é afastar sua presença. Essa foi a tarefa das “ciências humanas” [2] desde a sua disciplinarização: quebrar toda e qualquer “magia”, explicando a relação dos homens com o real através de conceitos racionalmente desenvolvidos. Hans Ulrich Gumbrecht, “Albert Guérard Professor” no Departamento de Literatura Comparada da Universidade de Stanford, é mais conhecido no Brasil pelo livro Em 1926: Vivendo no Limite do Tempo, publicado em português no final do século passado [3]. Sua obra teórica – Production of Presence: What Meaning Cannot Convey – no entanto aprofunda e esclarece muito dos objetivos de seu trabalho anterior.

Gumbrecht volta-se contra aquilo que chama de “centralidade inconteste da interpretação”, sequela de um legado metafísico e cartesiano que, ao desprivilegiar a “presença” [4] das coisas, foca-se excessivamente no “sentido” do mundo social. O resultado, argumenta o autor, é um crescente desejo de presença nas sociedades ocidentais, expresso nas artes, na cultura de massas e no fascínio pelo passado. O objetivo principal de seu texto, ressalta, é defender “uma relação com as coisas do mundo que possa oscilar entre efeitos de presença e efeitos de sentido” (p. XV). Não se trata, pois, de abandonar todas as prerrogativas científicas das humanidades, mas de criticar frontalmente a proeminência hermenêutica de seus mais variados campos disciplinares, reintroduzindo neles uma reflexão sobre o papel da experiência estética. O ponto de partida dessa reflexão deve ser a ideia heideggeriana de ser-no-mundo, contrária à oposição cartesiana entre sujeito e objeto, qual deseja superar.

É possível mapear, em diferentes períodos da história, momentos nos quais se estabeleceram “culturas de sentido” e momentos nos quais prevaleceram “culturas de presença”. Através desses tipos ideais (de claro sabor weberiano) o professor de Stanford identifica o processo pelo qual o ocidente transformou-se numa cultura baseada no sentido [5]. No pensamento medieval, acreditava-se que espírito e matéria fossem inseparáveis, tanto em seres humanos quanto em todos os outros elementos da criação divina (p. 25). O catolicismo, expressão cultural arquetípica do período, é marcado por rituais de produção de presença divina, como a transubstanciação, enquanto que o conhecimento tipicamente considerado legítimo era revelado à (e não produzido pela) humanidade (p. 80-81). A ação humana não possuía ingerência nem no mundo, nem em sua ordem do tempo, a qual se expressava independentemente num movimento escatológico. O tempo andava; os homens eram carregados por ele (p. 118-119).

A introdução do conceito de cogito permitiu traduzir o humano como “excêntrico”, único, numa relação puramente intelectual com o mundo. É com o lento estabelecimento do papel ativo do self que a capacidade de produzir conhecimento e, por fim, acumulá-lo ou mesmo superá-lo, tornou-se pensável. De um mundo em estado de envelhecimento, obcecado com a ameaça e o medo de perda do saber, como era o medieval, passava-se à possibilidade da agência humana e, com ela, a compreensão da mudança não mais como algo moralmente ilegítimo. “Finalmente, um sujeito que acreditava produzir conhecimento também se sentia capaz de esconder e manipular conhecimento” (p. 27). Os homens agora poderiam fazer história.

Com René Descartes, o primeiro a tratar a existência humana ontologicamente como res cogitans, subordinam-se não apenas a materialidade dos homens, seus corpos, mas todas as coisas do mundo enquanto res extensae da mente. A cultura ocidental, a partir dessa tradição, pode ser compreendida como a “perseguição do corpo e a repressão de todos os efeitos de presença relacionados a ele” (p. 33). Por volta de 1700, a Querelle des anciens et des modernes começou a institucionalizar a prioridade da dimensão do tempo sobre a do espaço, numa cultura já não mais baseada na presença real, como fazia o medievo, mas na predominância do cogito. O espaço, extensão que existe entre os corpos, não se constitui então como dimensão primordial (p. 83); o tempo, numa cultura baseada no sentido, oferece esse papel [6].

Visto dessa maneira, o iluminismo foi o processo pelo qual a distinção entre material e espiritual – permitindo a associação inevitável entre consciência e tempo – institucionalizou o que o Gumbrecht denomina “visão metafísica de mundo” (p. 34-49). Com ela, o espaço público representado pela política parlamentar torna-se, para a modernidade, tão central e emblemático quanto o ritual da Eucaristia para as culturas medievais (p. 85). De uma cultura baseada na presença, navegamos para uma terra sob o império do sentido. O efeito final, explica-nos, é a consolidação da “interpretação-mundo” como componente central do pensamento do ocidente.

Essa “visão de mundo metafísica”, esse querer ir além, produziu, no entanto, um sentimento de “perda do mundo” (p. 49) responsável por cavar sulcos no edifício moderno que o constituiu. No final do século XIX, essas fissuras já eram mais do que visíveis na literatura, na arte e na filosofia ocidentais. Para um homem agora condenado, por sua visão metafísica, a observar a si mesmo no ato de observação (p. 39), parecia impossível mediar duas instâncias fundamentais da existência: a primeira delas, a “experiência” ou apropriação do mundo pelos conceitos; a segunda, a “percepção” ou apropriação do mundo pelos sentidos.

Wilhelm Dilthey acreditou que – excluindo das ciências humanas (Geisteswissenschaften) a dimensão perceptiva – poderia submeter a experiência vivida à interpretação e, com ela, à atribuição de sentido. De modo paradoxal, ensina Gumbrecht, a crise da metafísica e do campo hermenêutico provocou o entronamento da filosofia interpretativa no centro das recém formadas Geisteswissenschaften. “O preço que as humanidades tiveram de pagar com essa manobra foi óbvio: a perda de todo tipo de referência não cartesiana ou não empírica” (p. 43). Transformamonos ao passo de nosso desenvolvimento disciplinar, como a história da história do século XX demonstra, nos representantes mais bem acabados da perda do mundo, do cansaço provocado pelo império do sentido e do mal estar da não-presença.

A crítica de Gumbrecht ao estado de coisas nas ciências humanas – pese o fato de que ele reedita muito das respostas do Romantismo às concepções iluministas de saber [7] – diz respeito direto a diversos desafios da historiografia e do ensino da história. Como fazer eco às demandas pelo passado? De que maneira podemos escrever com densidade e, ao mesmo tempo, atingir um grande público? Como, enfim, narrar esse passado sem sufocar nossa audiência com múltiplas atribuições de sentido? O autor não nos dá respostas específicas, como uma espécie de mapa a ser seguido, mas oferece alguns insights portentosos.

Ao escrever sobre os futuros possíveis para as ciências humanas, Gumbrecht defende a possibilidade de redesenhar as fronteiras de suas disciplinas, em especial as “da estética, da história e da pedagogia” (p. 93). Um cuidado estético, por um lado, pode possibilitar à historiografia a presentificação de mundos passados, com “a aplicação de técnicas que produzam a impressão (ou, de fato, a ilusão) de que esses mundos passados podem se tornar tangíveis novamente” (p. 94). Dessa forma, a história ganha por sua vez contornos pedagógicos mais apurados, dentro da “tarefa proeminente de confrontar estudantes com a complexidade intelectual, o que significa que gestos dêiticos – ou seja, amostras da condensação ocasional dessa complexidade – são no que devemos realmente nos focar” (p. 95).

Para atingir esse tipo de experiência estética precisamos lançar mão de estratégias literárias que endossem efeitos sinestésicos, que apelem para os sentidos, para o entendimento do mundo através da percepção. Nestes momentos efêmeros em que o passado parece se tornar presente podemos captar, subitamente, uma articulação espacial com aquilo que não mais aqui está. Gumbrecht chama a isso de “epifania”, um resultado direto da coexistência sempre tensa entre efeitos de sentido e efeitos de presença (p. 111).

Esse tipo de fenômeno busca corroborar um “desejo de presença”. Está em concordância com a experiência contemporânea do tempo, sua assimetria entre “espaço de experiência” e “horizonte de expectativa” [8] , típica de um “cronótopo” que não mais aceita o historicismo (e a idéia de que se pode “aprender com a história”) como referência epistemológica. “O desejo de presentificação”, escreve o professor de Stanford, “pode ser associado com a estrutura de um presente largo dentro do qual queremos reter o passado e no qual o futuro está bloqueado” (p. 121). Ao contrário da maioria dos acadêmicos, Gumbrecht parece não ver nada de errado em ceder a essas demandas: de fato, elas proporcionariam uma oportunidade de “estar em sincronia (sync) com as coisas desse mundo”.

As técnicas de presentificação, aplicadas em conformidade a um novo e inacessível futuro e a um passado que já não mais queremos deixar escapulir, tendem, sem dúvida, a enfatizar a dimensão do espaço. É apenas através do espaço que podemos ter a ilusão de tocar, experimentar e sentir objetos que estão associados com um tempo que já se foi. A tendência à espacialização (spatial turn?) demonstra, para Gumbrecht, as limitações da historiografia como meio textual no “business de fazer o passado presente” (p. 123). Neste sentido, podemos compreender seu livro anterior, Em 1926, como uma experiência que visava testar esses limites.

Caberia ao historiador presentista diminuir os efeitos de sentido – aprender a “ficar quieto por um momento” (p. 136) – e, assim, investir em formas literárias que promovam uma experiência de imersão em seus leitores. Conjurar o passado, esboçar o “clima” de outro tempo, oferecer a alteridade como modo de administrar novos elementos ao espaço de experiência – estas viriam a ser algumas das propostas desse novo tipo de historiografia [9].

Não seria o apelo de Gumbrecht um mero reflexo intelectual do presente perpétuo e invasor, do qual nos fala François Hartog? O “cronótopo pós-historicista” não pode ser pensado como nada mais do que um regime de historicidade presentista10? Não corremos o risco de, fascinados pela presença do passado, sem problematizarmos a noção de memória (noção que Gumbrecht parece de fato evitar), tornarmo-nos, como Ireneo Funes, incapazes de pensar? É realmente possível “ficar quieto”, isto é, tentar não atribuir sentido, sem, através do silêncio, comunicar alguma coisa? Por fim, hesitando em atribuir sentido ao passado não perderíamos também a possibilidade de articular qualquer sentido de futuro? Como dizia Oscar Wilde, a beleza, a verdadeira beleza, some ao primeiro contato com a expressão intelectual. A tarefa de explicar o mundo e, ao mesmo tempo, manter o seu encantamento, continua, como há duzentos anos, à nossa frente.

Enquanto isso, o endurantismo inerente às tentativas de presentificação não deixa de, no silêncio de perguntas não postadas, insistir em comunicar uma resposta, mesmo que poética…

Though they go mad they shall be sane,

Though they sink through the sea they shall rise again;

Though lovers be lost love shall not;

And death shall have no dominion.

Dylan Thomas

Notas

2. Gumbrecht utiliza aqui o termo anglo-saxão “humanities and arts”, que ele relaciona diretamente ao equivalente germânico Geisteswissenschaften. Traduzi ambas as expressões para o português como “ciências humanas”.

3. GUMBRECHT, Hans Ulrich. Em 1926: Vivendo no Limite do Tempo. Editora Record, Rio de Janeiro. 1999.

4. De acordo com o autor: “a palavra „presença‟ não se refere (pelo menos não na maioria das vezes) a um relacionamento temporal, mas espacial, do mundo com seus objetos. Algo que é „presente‟ é tangível às mãos humanas, o que implica que, inversamente, possa ter um impacto imediato em corpos humanos.” (p. XIII)

5. Ou, no vocabulário do autor, desenvolveu uma atitude “metafísica” – isto é, uma atitude (tanto pessoal quanto acadêmica) que “atribui um valor superior ao sentido de um fenômeno do que a sua presença material”. (p. XIV)

6. Como no conceito de “fluxo de consciência”, criado pelo psicólogo William James, operado narrativamente por James Joyce, Dostoievsky e Marcel Proust (dentre outros clássicos) e teorizado fenomenologicamente por Husserl.

7. Ver a crítica de KRAMER, Lloyd. Searching for something that is here and there and also gone. History and Theory. 48. Fevereiro de 2009. pp 85-97.

8. Gumbrecht foi aluno de Reinhard Koselleck e aqui utiliza as categorias esboçadas em KOSELLECK, Reinhard. Futuro Passado: contribuição à semântica dos tempos históricos. Contraponto/PUC-Rio.

9. Como explica na sua experiência literária Em 1926: “O livro pergunta em que medida e a que custo é possível fazer presentes novamente, em um texto, mundos que existiram antes de o autor nascer – e o autor está perfeitamente consciente de que esta tarefa é impossível”. GUMBRECHT. 1999. p 14.

10. Ver HARTOG, François. Régimes d´historicité. Présentisme et expérience du temps. Paris: Seuil, 2003.

Rodrigo Bragio Bonaldo – Mestrando em História na Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Bolsista CNPq. E-mail: rodrigobonaldo@yahoo.com.br.


GUMBRECHT, Hans Ulrich. Production of Presence: What Meaning Cannot Convey. Stanford: Stanford University Press, 2004. Resenha de: BONALDO, Rodrigo Bragio. Aedos. Porto Alegre, v.2, n.5, p. 132- 140, jul. / dez., 2009.

Acessar publicação original [DR]

The Fall of Rome and the end of civilization | Bryan Ward-Perkins

O Império Romano caiu? A pergunta, feita para uma pessoa educada que não fosse ligada à área de História, receberia, hoje, um inequívoco “sim”, talvez mesmo um “mas é claro!”. Não apenas isso, mas a queda do Império Romano teria nítidas implicações catastróficas: seria a vitória do barbarismo sobre a civilização, que lançaria um mundo inteiro em uma Idade das Trevas.

Provavelmente, essa pessoa educada acabaria por se surpreender ao saber de um dos momentos historiográficos mais significativos das últimas décadas do século XX, a “revolução da Antiguidade Tardia”, detonada pela obra do historiador irlandês Peter Brown, que abandonou totalmente a “visão negra” do colapso da civilização romana durante o século V (o termo “Antiguidade Tardia” designa, grosso modo, um período histórico que vai de c. 250 até c. 800). Para Brown e seus seguidores, que operam em âmbito quase que exclusivamente anglo-saxão, a Antiguidade Tardia não é uma “Idade das Trevas”, mas sim uma época de novos, interessantes e criativos começos – do cristianismo, do judaísmo rabínico, do islamismo, do Império Bizantino, do reino dos Francos, da historiografia eclesiástica.

A nossa pessoa educada surpreenderia- se ainda mais com o trabalho de outros historiadores, como o canadense Walter Goffart. André Piganiol, historiador francês, escreveria, pouco depois da Segunda Guerra Mundial, sobre a queda do Império Romano: “A civilização romana não morreu de forma natural. Foi assassinada” (p. 173). Goffart, em 1980: “o que nós chamamos de „queda do Império Romano‟ foi um experimento imaginativo que saiu um pouco dos eixos‟ (p. 9). Dito de outra forma: os invasores e conquistadores de Roma não foram assassinos de uma civilização, mas – tirando um ou outro episódio lamentável – foram cooptados pelo sistema imperial romano, que preservaram na medida do possível.

Ninguém discute a importância do fenômeno historiográfico da Antiguidade Tardia, nem a competência de Peter Brown. Mas a ótica proposta por ele para a interpretação deste período pode ser questionada, e assim o é, embora apenas em um período recente tais críticas sejam mais evidentes – e tais críticas acabam por revelar um certo mal-estar de alguns historiadores que participaram de tal movimento, sob uma certa ótica (no entanto, cabe ressaltar que a obra de Goffart não recebeu a aceitação que a de Brown teve).

Um marco tão bom quanto qualquer outro para designar o momento em que o “paradigma da Antiguidade Tardia” foi questionado de maneira decisiva é o lançamento do premiado livro de Bryan Ward-Perkins em 2005: “A Queda de Roma e o fim da civilização”, que será tema da presente resenha.

Ward-Perkins é um arqueólogo, especializado na história urbana da Itália a partir do século IV até a ascensão de Carlos Magno. Crescendo em Roma (seu pai, John Ward-Perkins, também arqueólogo, era diretor da Escola Britânica de Roma), observava os impressionantes feitos técnicos da civilização imperial, feitos que seriam impossíveis de ser imitados por séculos a fio, graças a uma ruptura econômica e social brutal. Ele é, segundo suas próprias palavras, “alguém que está convencido que a vinda dos povos germânicos foi deveras desagradável para a população romana, e que os efeitos a longo prazo da dissolução do Império foram dramáticos” (p. 10.). Neste livro, ele pretende comprovar a justeza de sua visão.

O livro se divide em duas partes: na primeira (composta por três capítulos), “a queda de Roma”, o autor elabora uma pequena história narrativa das invasões bárbaras (Por “bárbaros”, designa-se aqui os povos germânicos, sem conotação de valor). dos séculos IV e V; na segunda (composta por quatro), “o fim de uma civilização”, Ward-Perkins elenca evidências materiais para comprovar o terremoto econômico e social que o fim político do Império Romano causou.

De certa forma, na primeira parte o autor viaja por mares já navegados – aliás, navegados à exaustão, como ele não deixa de ressaltar, mencionando a lista, elaborada por A. Demandt em 1984, de 210 motivos para a queda do Império Romano propostos através dos séculos (aliás, divertidíssima: entre os motivos, encontram-se “invasões bárbaras” e “declínio econômico”, mas também “feminismo”, “capitalismo”, “comunismo”, “prostituição” e “neurose cultural”). Na verdade, Ward-Perkins pouco traz de inovador aqui. A equivalência material dos exércitos germânicos e romanos, a série de guerras civis que enfraqueceu, de maneira decisiva, o Império Romano do Ocidente, as invasões bárbaras, a resistência e sobrevivência do Império Romano do Oriente, as revoltas camponesas ocorridas no norte da Gália no começo do século V: todos são temas de pesquisa bastante recorrentes, e que foram tratados de maneira mais extensa e aprofundada em outros contextos.

Contudo, a primeira parte é necessária, posto que, na segunda parte, Ward-Perkins trata dos resultados da queda política do Império Romano no Ocidente, que para ele são catastróficos. O tom aqui passa a ser marcadamente polêmico: “Atualmente, está profundamente fora de moda afirmar que qualquer coisa parecida a uma ‘crise’ ou ‘declínio’ ocorreu no final do Império Romano, que dirá dizer que uma ‘civilização’ entrou em colapso e seguiu-se uma ‘idade das trevas’. A nova ortodoxia é que o mundo romano, tanto no Oriente quanto no Ocidente, foi lentamente transformado, de uma forma essencialmente indolor” (p. 87).

Para se contrapor a esta ortodoxia, Ward-Perkins apresenta um rico conjunto de fontes materiais do período, que iluminam cantos inesperados da sociedade romana. O principal conjunto de fontes com que Ward-Perkins trabalha é a cerâmica, por uma razão bastante pragmática: os potes sobrevivem em grande quantidade, relativamente intactos, e mesmo fragmentos podem apresentar uma quantidade de dados que permitem ao estudioso chegar a conclusões bastante sofisticadas sobre a sociedade que criou tal artefato.

Comparando a cerâmica da Inglaterra romana com a da Inglaterra anglo-saxã (admitidamente um caso extremo, tendo em vista que tal província se situava na periferia do mundo econômico romano, centrado no Mediterrâneo), o resultado é bastante surpreendente: a cerâmica romana é de alta qualidade, estandardizada, produzida em enorme quantidade (quantidade essa que só vai ser superada no final da Idade Média), tendo centros produtores em todas as provinciais imperiais e, principalmente, mesmo o mais miserável camponês tinha acesso a estes potes. No começo do século sete, um pequeno lorde anglo-saxão foi enterrado em Sutton Hoo, em meio a todas as suas riquezas. O conjunto é bastante extraordinário, mas um achado é bastante banal, tanto que pouco atrai atenção: uma garrafa de cerâmica, de alta qualidade, importada do continente. A simples existência dessa garrafa traz duas implicações bastante graves: 1) Uma cerâmica de alta qualidade, artigo comum na época romana, tornara-se um artefato tão precioso que acompanhava o seu dono para o túmulo; 2) A Inglaterra anglo-saxã não possuía um centro de produção de cerâmica sofisticada no século VII.

Tal colapso econômico pode ser medido, segundo o autor, não apenas pelo impacto sofrido pelos homens, mas – de forma tão divertida quanto significativa – pelas consequências enfrentadas pelas vacas. O colapso econômico na Inglaterra, derivado do colapso político, também causou prejuízos para a população bovina da província. A partir de ossos de vaca encontrados em sítios da Inglaterra pré-romana, romana e pós-romana, Ward-Perkins verifica que as vacas do primeiro período tinham uma altura média de 1,15 m, do segundo de 1,20 m e do terceiro 1,12 m; o que aconteceu depois da queda do Império Romano, ao menos na Inglaterra, não foi uma mera recessão, mas uma verdadeira regressão a um estado econômico mais precário até do que o existente antes da conquista romana.

Culturalmente, o impacto não foi menor. A antiga Catedral de São Pedro de Roma, erguida no séc. IV, tinha mais de 10.000 metros quadrados de área; no século VI, a S. Agnese fuori-le-mura tinha apenas 2.500 metros quadrados (Deus possuía acomodamentos notavelmente mais espartanos depois do fim do Império Romano do Ocidente). Diversos objetos encontrados em vários sítios arqueológicos demonstram, juntamente com os inúmeros grafites de Pompéia – amiúde pornográficos – que a população romana era, em grande parte, alfabetizada; pedras de catapulta recuperadas em Perugia, local de um cerco na época das guerras civis de Augusto e Marco Antônio, são repletas de mensagens curtas elaboradas por várias mãos, na esperança de não apenas esmagar a cabeça dos oponentes, como também desmoralizá-los. O exemplo mais pornográfico, citado por Ward-Perkins, é de um onde está escrito “Lúcio Antônio [líder da guarnição de Perugia], seu careca, e Fúlvia [esposa de Marco Antônio e presente no cerco], mostrem-nos seus traseiros” (p. 158). Esta atitude implica que um número significativo de soldados, e não apenas Lucio Antônio e Fúlvia, eram capazes de ler tal educada missiva, e que o conhecimento da escrita era suficientemente difundido na sociedade romana que acabava se tornando banal. Comparar-se-á tal situação com a educação no século VI: a maioria dos soberanos dos primórdios da Idade Média, incluindo o próprio Carlos Magno, eram totalmente iletrados, que se dirá do grosso da população (p. 166-167).

Vacas esfomeadas, soberanos analfabetos, apetrechos miseráveis, igrejas apertadas: tal compêndio de evidências permite a Ward-Perkins afirmar, tranqüilamente, que o final do Império Romano trouxe consigo o final de uma civilização, tal qual Ward-Perkins concebe o termo, isto é, “sociedades complexas e o que elas produzem (p. 167.)”.

Segue-se um capítulo de discussão historiográfica, na qual Ward-Perkins dialoga com a escola da Antiguidade Tardia. Ward-Perkins constata as duas principais características desta escola: uma nítida preferência pela abordagem do oriente do mundo romano (incluindo-se aí o Império Persa e as sociedades do Cáucaso e da Arábia) e uma preocupação central com o fato religioso da sociedade. Embora o autor veja importantes conquistas provindas desse movimento, ele manifesta uma preocupação que tal foco acabe distorcendo a visão que temos da sociedade romana nos séculos IV-VI de uma forma semelhante à que acabava impondo um declínio econômico às províncias orientais do Império, mas com sinal trocado: agora, o período seria de um crescimento social e cultural em todas as regiões imperiais, o que não é o caso. Da mesma forma, ele manifesta uma preocupação com os rumos que a historiografia da Antiguidade Tardia acaba tomando: no recente Guia da Antiguidade Tardia, Ward-Perkins procurou, em vão, por um verbete sobre o “prefeito pretoriano”, o mais alto posto civil do Império Romano nesse período, mas não achou nada entre “pornografia” e “reza (prayer, no original)”.

Ward-Perkins conclui seu livro defendendo o direito do historiador de usar termos difíceis, como “civilização” e “declínio” – cabe lembrar aqui que os historiadores brasileiros que estudam esse período não precisam fazer uma defesa desse direito: Norma Musco Mendes escreveu uma obra intitulada “Sistema político do Império Romano do Ocidente: um modelo de colapso”. O autor levanta a hipótese que a não-utilização do termo “declínio” seja por um receio de acabar realizando um julgamento moral, mas é possível fazer a objeção de que a palavra “declínio” não necessariamente implica uma opinião quase que metafísica acerca de uma dada sociedade (coisa que não acontece com o termo “decadência”).

Com essa obra, Ward-Perkins realizou algo muito importante: desafiando uma nova ortodoxia acadêmica, abre novos caminhos de pesquisa e faz rever conceitos arraigados no ambiente universitário. Tão polêmico quanto valioso, é uma obra-prima.

Gabriel Requia Gabbardo – Mestrando em História da UFRGS. E-mail: gabrielgabbardo@hotmail.com.


WARD-PERKINS, Bryan. The Fall of Rome and the end of civilization. Oxford: Oxford University Press, 2005. Resenha de: GABBARDO, Gabriel Requia. Aedos. Porto Alegre, v.2, n.5, p. 141- 145, jul. / dez., 2009.

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América Latina: identidades em construção – das sociedades tradicionais à globalização | Maria T. T. Lemos

O livro América Latina: identidades em construção – das sociedades tradicionais à globalização, organizado por Maria T. Toríbio Lemos (Professora da UERJ), tem o objetivo central de realizar um amplo estudo sobre a cultura latino-americana. Fruto das pesquisas realizadas pelo Núcleo de Estudos das Américas (NUCLEAS) e pelo Laboratório de Estudos das Américas (LEPAS) do Programa de Pós Graduação em História da Universidade do Estado do Rio de Janeiro, coordenados pela Professora Toríbio Lemos e pelo Professor Paulo Seda, reúne oito artigos de diferentes pesquisadores e de distintas abordagens da história da América Latina, unidos entre si pela preocupação com as questões atinentes à identidade latino-americana. Em síntese, os textos revelam a inquietude e a particularidade de cada pesquisador ao debruçar-se sobre as adversidades e problemas presentes nas sociedades sulamericana e caribenha “como a violência, a pobreza, a educação, a exclusão social, as grandes diferenças sociais entre ricos e pobres, além dos problemas políticos e econômicos dos diversos países” (p.7).

A obra se desdobra em dois blocos, Sociedades tradicionais e Modernidade e globalização, que dão ao leitor a dimensão espaço-temporal sobre a qual os estudos se lançam. O primeiro bloco, constituído por três artigos, transita “pelas práticas culturais e representações das sociedades tradicionais”, trazendo à luz discussões acerca da alteridade, exercício do poder, mitologia, cerimônias e festividades; já o segundo bloco, composto por cinco textos, transcende os aspectos primários das sociedades ditas “tradicionais”, atingindo “a complexidade das estruturas modernas das sociedades ocidentais” (p.7), abordando as relações da religião e do poder, a efemeridade do tempo presente, a educação e a pluralidade cultural, a economia global e, por fim, o contexto da América Latina no processo das migrações internacionais.

Após essa concisa apresentação da obra, antes de olhar minuciosamente cada artigo, convém lembrar que a questão da identidade mostra-se fundamental nos estudos culturais, na medida em que examinam os contextos dentro e por meio dos quais tanto os indivíduos quanto os grupos constroem, negociam e protegem sua identidade. Desse modo, os estudos culturais valem-se das interpretações que defendem a identidade como uma resposta para algo externo e diferente dela, a alteridade. Notadamente, o reconhecimento dessa identidade como algo que não é somente construído, mas também dependente da existência de um outro, abriu um lócus para grupos marginalizados e oprimidos historicamente objetarem e renegociarem as identidades que lhes foram impostas no processo de dominação. Este entendimento de identidade é a chave para a leitura da obra ora resenhada.

Ao longo do primeiro capítulo, Mundo Novo e Paraíso Terrestre: O Transe dos Viajantes na Conquista da América, Alexandre Belmonte expõe os encontros e confrontos entre culturas a partir de fontes como os registros dos viajantes (exploradores e conquistadores), da cartografia européia do século XV e de obras literárias. Destarte, contextualiza o período, discorrendo sobre a complexidade e as dificuldades em se realizar uma viagem de longo curso para o “Mundo Novo”, sobretudo pela onerosidade de cada aventura e pela necessidade de se conseguir financiamentos que, em geral, provinham do Estado, do clero ou da ascendente burguesia, quando não por todos ao mesmo tempo. Além disso, segundo o autor, havia no imaginário europeu a herança da mentalidade medieval que fomentaria uma perspectiva pessimista em relação às viagens, representada pelos mitos do além-mar.

Todavia, o eixo central deste capítulo começa a ser delineado a partir do retorno dos viajantes para a Europa, visto que “o retorno evocava uma „operação escrituraria‟ […] em que a alteridade era definida por um corte que marcava a diferença” (p.16). Eis o ponto. Para Belmonte não interessa tanto os modos de ser e viver dos ameríndios, pois “são muito mais interessantes as próprias possibilidades discursivas dos europeus sobre a alteridade representada pelos indígenas do Mundo Novo do que o modus vivendi destes” (p.17). Assim, o olhar europeu transcrito nos relatos e narrativas dos viajantes, permite ao pesquisador observar as cosmovisões e os imaginários que colocaram o europeu em contato com a alteridade cultural de forma abrupta e total.

A constatação do alto grau de organização e desenvolvimento dos Astecas, feita pelos espanhóis quando da chegada ao México, é explorada pelo professor Paulo Roberto Gomes Seda. Este os ordena a partir da influência da religião praticada pelos Astecas do período arcaico e pelos remanescentes da civilização Tolteca. Guerra, religião e poder entre os Astecas, assim chama-se o segundo capítulo, no qual o autor mostra com muita perspicácia que o contato, o conflito e a conjugação de costumes, tradições, ritos e mitos, ocorridos na peregrinação dos “bárbaros” Astecas para as regiões das cidades do lago, onde aconteceu o choque com as tribos que ali viviam, transformaria definitivamente a história desses povos, alçando os Astecas à condição de herdeiros das brilhantes civilizações do México central, tornando-os senhores de um vasto império.

O cerne do trabalho de Seda imperiosamente se coloca na exposição da organização e do exercício do poder entre os Astecas, ocorrida progressivamente a partir da religião e de uma dualidade por ela forjada que, em menos de dois séculos, intensificou-se e espraiou-se para todos os âmbitos da vida pública e privada deste povo, altamente ritualístico e crente. De um lado, o culto aos deuses guerreiros Huitzilopochtl e Tezcatlipoca, respectivamente, o grande deus solar e o deus do céu noturno, das trevas e do vento da noite; de outro, a incorporação dos deuses da terra e da água das civilizações sedentárias: Tláloc, deus camponês; e Quetzalcoatl, deus padroeiro dos sacerdotes. O paradoxo assinalado pelo autor incide justamente na questão da religião, pois esta mesma construção identitária, religiosa, dicotômica, que elevou os Astecas à hegemonia do Altiplano central, também foi, segundo ele, um dos fatores capitais para a derrocada dos Astecas frente aos conquistadores espanhóis, uma vez que essa religiosidade “contribuiu para modificar profundamente a hierarquia de valores reconhecidos por uma civilização dividida em si mesma pela dualidade de suas origens. […] dualidade presente, inclusive, diante dos conquistadores (deuses ou humanos), levando à posição vacilante do imperador e da própria sociedade” (p.53).

Dando continuidade às questões religiosas, mitológicas e ritualísticas das sociedades tradicionais, o estudo de caso intitulado Mitos e ritos andinos – Wana kawri Waka – Percursos entre as tradições orais e a contextualização dramatizada da história, apresentado pela professora Maria Teresa Toríbio B. Lemos, encerra o primeiro bloco do livro. Neste terceiro capítulo, a autora descreve aspectos das práticas culturais e representações simbólicas da antiga sociedade quéchua em homenagem ao deus Wana Kawri, considerado pelos camponeses da região andina “um deus protetor e reprodutor, que fertiliza o solo e multiplica a produção naquela região árida dos Andes” (p.56). Nesta parte, Lemos acentua a importância dos mitos para essas sociedades, distinguindo-os do rito e da cerimônia, e busca no relato de Felipe Guaman Poma de Ayala – um dos principais cronistas do Vice-Reino do Peru no século XVII – a recuperação histórica das narrativas míticas e ritualísticas quéchuas, fontes valiosas para “o conhecimento desses dois universos em confronto, o da sociedade nativa quéchua e o do dominador espanhol na América” (p.59). Ao fim e ao cabo, Maria Lemos discorre sobre a estratégia praticada pelos espanhóis na conquista da região andina e aponta para a importância do cristianismo, da evangelização mediada pela aproximação e identificação das divindades indígenas, como poderoso mecanismo de aculturação desses povos. Dessa forma, à medida que se desqualificavam os deuses indígenas, impunha-se legitimamente o Deus cristão e, por conseguinte, a cultura européia. Para além destas questões, o estudo se justifica pela tenacidade desses mitos que, ainda hoje, são reproduzidos, ressignificados e reelaborados pelo imaginário e pela memória coletiva dessas comunidades durante as festas agrícolas e folclóricas na região andina do Peru, Bolívia e Equador.

O quarto capítulo inaugura o segundo bloco e traz como principal discussão as relações de poder, expressadas, neste caso, pela instituição religiosa e/ou pelas “autoridades” religiosas. Sob o título Religião e Poder na América Latina: Um breve estudo sobre a religião como forma de controle social no Brasil, Gilberto Angellozi recorda que as relações de poder se estabelecem em todos os níveis, formal ou informal, por um determinado período ou perpetuamente. Igualmente, enfatiza que violenta ou não, a coerção não deixa de existir e aquele que a exerce ou faz uso dos seus mecanismos adquire poder sobre o outro e isso lhe dá prazer. Ocorre que, para o autor, o poder religioso passa por esse mesmo princípio e “o exercício do poder se estabelece ainda hoje como forma de libertação, especialmente nos meios religiosos, onde os fundamentalismos, sejam de direita ou de esquerda, tendem a reproduzir estruturas de dominação” (p.70). Nesse momento, o leitor tem a falsa impressão de que determinados segmentos religiosos, menos radicais, não estariam submetidos aos mecanismos do poder e aos sistemas de coerção anteriormente descritos como presentes “em todos os níveis” da vida social. É possível que essa afirmação derive da própria influência religiosa do autor que, entre outras formações, é teólogo. Talvez por isso acredite internamente em alguma forma de religião não dominadora. Afora esta crítica pontual, o estudo revela-se desvelado de uma ideologia cristã. Aliás, notoriamente, Angellozi apresenta a religião como fonte de poder e dominação, assinalando no desrespeito ao próximo, ao diferente, um dos principais causadores dos problemas sociais do passado e do presente, pois “sempre que alguém usa alguém para garantir o alicerce de um projeto pessoal, a figura do outro desaparece. Ocorre assim o desrespeito pela vida, que se traduz em destruição da natureza e das relações sociais e políticas” (p.80).

No quinto capítulo intitulado Pós Modernidade – O Sólido se Desmancha – O Eterno é Provisório e o Futuro é Presente, Raimundo Lopes Matos propõe uma análise prospectiva da Pós-Modernidade e ressalta a importância da mudança de paradigma ao observar as suas influências e conseqüências na vida do homem nos seus múltiplos domínios. Antes de tudo, o autor conceitua e situa historicamente a Pós-Modernidade, tarefa que lhe ocupa boa parte do texto. Também utiliza outros conceitos fundamentais para o entendimento deste tempo presente como, por exemplo, a globalização e a desterritorialização. Conclui afirmando que todos, em todos os âmbitos, estão envolvidos na cultura do consumismo, do veloz, do instantâneo e do on-line, “celebrando uma nova época”, “resultando em uma pluralidade de fragmentos complexos e um fluir de uma presentidade inarredável” (p.94).

Luiz Henrique Nunes Bahia, Maria Cristina Leal e Célia Linhares, escrevem conjuntamente o sexto capítulo denominado Debate sobre o pluriculturalismo na Gestão da Educação Pública: Estado do Rio de Janeiro e Rede Municipal de Nova Iguaçu. Dentro da conjuntura atual, os autores entendem que há uma pluralização da cultura urbana como resultado direto do confronto de múltiplas mensagens e ideais dispersos na sociedade globalizada. Essa dinâmica é projetada para as relações de poder e dominação de grupos e instituições, onde os pesquisadores exploram “os contrastes e tensões entre culturas políticas manifestas nos depoimentos de professores e demais segmentos da comunidade escolar” (p.99). Especificamente, nesta pesquisa, fez-se a análise comparativa entre duas regiões e contextos distintos: a rede pública estadual de ensino (RJ) e a rede pública municipal (Nova Iguaçu/RJ). Analiticamente, observaram que a pluralidade cultural encontrada hoje nas cidades mantém as hegemonias do centro decisor maior, mas conserva lugares ainda de natureza local que permitem entender as formas hegemônicas de poder.

O sétimo capítulo, As negociações no âmbito da Organização Mundial do Comércio e o papel do Mercosul, de Aléxis Toríbio Dantas, esboça sucintamente a evolução do Mercosul e suas ações nas negociações recentes, de maneira especial, frente à OMC, sublinhando a importância dos acordos regionais para os países emergentes, garantia de maior poder de barganha destes países perante os Estados Unidos e à União Européia. Já no último capítulo, intitulado Movimentos sociais da América Latina e a construção de novas identidades, Maria Luzia Landim trata da questão imigratória no nordeste do Brasil e reflete sobre as dinâmicas geradas nos processos de adaptação e estabelecimento físico destas pessoas, especialmente, no que concerne aos sentimentos de perda de identidade, imediatamente compensados pela procura ou criação de novos contextos e retóricas identitárias.

Finalmente, se, pelo exposto, pode-se ter uma noção sobre a questão identitária na América Latina, o conjunto de artigos apresentados mostra a amplitude e a pluralidade de temas que emergem desse recorte temático, bem como deixa muito claro que este não é um debate estanque, inexorável, mas sim uma discussão que se renova e se amplia a cada dia. Portanto, o principal mérito do livro reside na proposta abrangente e aberta dos autores de trazerem à luz assuntos polêmicos sem a pretensão de oferecer respostas definitivas, sem dúvida, instigando o leitor mais inquieto a buscar suas próprias conclusões.

Fábio Bastos Rufino – Licenciado em História pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Mestrando em História pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul – Bolsista CAPES.


LEMOS, Maria Teresa Toríbio (org.). América Latina: identidades em construção – das sociedades tradicionais à globalização. Rio de Janeiro: 7 Letras, 2008. Resenha de: RUFINO, Fábio Bastos. Aedos. Porto Alegre, v.2, n.5, p. 146- 151, jul. / dez., 2009.

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1759-2009: duzentos e cinquenta anos da expulsão dos jesuítas das Américas / Revista do IHGB / 2009

Em 2009 realizamos, no IHGB, vários cursos, seminários e encontros sob a coordenação da professora doutora Mary Del Priore. Dois encontros foram selecionados, pela presidência e comissão da Revista, para serem publicados: o Seminário França- Brasil cujos textos se encontram na revista 444, no prelo, e o Curso 1759-2009, duzentos e cinquenta anos da expulsão dos jesuítas das Américas, realizado entre 4 e 8 de maio de 2009.

Os textos dos palestrantes do Curso sobre os jesuítas formaram um expressivo dossiê organizado pelas professoras Marcia Amantino e Eliane Cristina Deckmann Fleck. A Direção da Revista publica integralmente os textos recebidos, após o julgamento dos pareceristas, para evitar um comprometimento acadêmico embora alguns tenham um número de páginas que ultrapassa normas da própria Revista. Isso significou o corte de artigos diversos que haviam nos chegado em 2009 mas estamos confiantes que, nesse caso, os meios justificam os fins: ter um dossiê expressivo, fechado e de muito bom nível.

Inicialmente temos o trabalho síntese do professor Francisco José Calazans Falcon intitulado Pombal e a Companhia de Jesus. Seguem-se:

Renato Pereira Brandão estudando A Companhia, Gusmão e Pombal do Tratado de MAdri; Maria Cristina Bohn Martins com o estudo José Cardiel, trajetória de viagem; Maria Luisa Nabinger com Capuchinhos e Jesuítas: emissários do poder político europeu (século XVI-XVII); Eliane Cristina Deckman Fleck com A expulsão da Companhia de Jesus do Brasil na visão de um escritor romântico e nacionalista do século XIX; Beatriz Helena Domingues com Antonio Vieira entre o púlpito e a tribuna: algumas reflexões sobre O Sermão do Bom Ladrão e o Papel Forte; Magno Moraes Mello sobre Retórica e persuasão na arte barroca: a pintura do teto da nave da igreja do Seminário Jesuítico em Santarém; Marcia Amantino com A expulsão dos jesuítas da Capitania do Rio de Janeiro e o confisco de seus bens; Luiz Fernando Medeiros Rodrigues com A Recuperação econômica da Amazônia e a expulsão dos jesuítas do Grão-Pará e Maranhão.

Na sessão Inéditos dentre vários artigos recebidos, lidos e aprovados incluímos apenas dois. O trabalho de José Luis Cardoso, da Universidade de Lisboa intitulado A Transferência da Corte para o Brasil, 200 anos depois. Balanço Comemorativo e Historiográfico e o de Teresa Cristina de Novaes Marques da Universidade de Brasília intitulado Famílias e conspiradores em Pernambuco, 1817. Na sessão Comunicações apresentamos o trabalho de Frederico Lustosa da Costa (et alii) 1808-2008 Por uma nova história da administração pública brasileira e o trabalho de Vasco Mariz Um grande personagem do século XVII Salvador Corrêa de Sá e Benevides.

Miridan Britto Falci – Sócia titular – Diretora da Revista Pós-Doutora em História – Professora Adjunto da UFRJ.


FALCI, Miridan Britto. Apresentação. Revista do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro. Rio de Janeiro, v.170, n.4443, p.9-10, abr./jun., 2009. Acesso apenas pelo link origina [DR].

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