Polémicas intelectuales en América Latina: del “meridiano intelectual” al caso Padilla (1927-1971) – CROCE (VH)

CROCE, Marcela (Org.). Polémicas intelectuales en América Latina: del “meridiano intelectual” al caso Padilla (1927-1971). Buenos Aires: Simurg, 2006. Resenha de: COSTA, Adriane A. Vidal. Varia História, Belo Horizonte, v.23, n.38, p. 643-648, jul./dez., 2007.

A coletânea organizada por Marcela Croce inclui um conjunto de textos que contemplam quatro importantes debates político-intelectuais do século XX na América Latina, marcados por questões polêmicas e por uma intensa “belicosidade discursiva”. O primeiro desses debates, envolvendo espanhóis e hispano-americanos, ocorre no contexto vanguardista dos anos 20, com a publicação do artigo do espanhol Guillermo de Torre, Madrid, meridiano intelectual de Hispanoamérica, na revista madrilena La Gazeta Literária, em abril de 1927, no qual o autor, como o próprio título indica, propõe Madri como o meridiano intelectual da América Hispânica. O segundo debate também ocorre nos anos 20 e gira em torno das discussões entre os peruanos José Carlos Mariátegui e Víctor Raúl Haya de la Torre sobre a teoria e a prática do marxismo. O terceiro debate constitui a polêmica discussão entre o argentino Julio Cortázar e o peruano José María Arguedas sobre o indigenismo na literatura, que ocorre entre 1968 e 1971. E, por fim, o “caso Padilla” (1971), que suscitou um polêmico debate em torno do regime de Fidel Castro e sua relação com os intelectuais.

No conjunto, a obra reúne correspondências, poesias, manifestos e artigos que alimentam o debate intelectual com dúvidas profícuas e polêmicas fecundas. Além dessa documentação, o livro traz textos de vários autores que analisam, separadamente, os principais matizes dos quatro debates supracitados.

A introdução é de Marcela Croce, intitulada Polémicas, entredichos y disidencias en América Latina, na qual a autora afirma que, de um modo geral, o que dá o tom polêmico a esses debates é a vontade de criar uma verdade, ou seja, cada intelectual exprime suas razões como definitivas, mesmo quando simula certas concessões ao oponente para terminar desclassificando-o por sua ignorância, seu descuido, sua incapacidade ou sua má fé. O embate acontece quando as “verdades” são questionadas, e, na maioria das vezes, transforma-se no enfrentamento do bem e do mal, do verdadeiro e do falso, do claro e do confuso. Quando esse ocorre, no afã de defender posições, as acusações ao oponente vêm à tona: incongruente, iconoclasta, ortodoxo, contraditório. São polêmicas, mal-entendidos, questionamentos que marcam o território da “belicosidade discursiva” no campo intelectual latino-americano. É a partir desses argumentos que Marcela Croce organiza a coletânea, ou melhor, uma “antologia de discursos polêmicos na América Latina”.

A primeira parte do livro é dedicada à polêmica do “meridiano intelectual” e traz, na íntegra, o texto de Guillermo de Torre, Madrid, meridiano intelectual de Hispanoamérica. Além disso, apresenta dois pequenos artigos que discutem a questão. No primeiro, Del lado de allá, Pablo Valle analisa um dos pontos mais polêmicos do texto de Guillermo de Torre, qual seja: Madri como o grande meridiano literário para os hispano-americanos, em substituição, principalmente, a Paris. E no segundo, Del lado de acá, Gabriela G. Cedro analisa a reação e o enfrentamento, quase que imediatos, de vários intelectuais hispano-americanos, que proclamam uma relativa autonomia intelectual em relação à Espanha. Além disso, a polêmica sobre o “meridiano intelectual” propicia o debate sobre questões estéticas, artísticas e culturais. Grande parte desse debate está nas páginas da revista ultraista e portenha Martín Fierro (n°.42, junho-julho de 1927), que contém as primeiras declarações belicosas contrárias à proposta do “meridiano”. O tom das declarações dos martinfierristas varia entre a ironia, a zombaria, a seriedade, o desprezo, mas sempre mantendo a coerência dos argumentos. Segundo Cedro, as respostas dos martinfierristas são vistas na Espanha como despropositadas e injuriosas.

O livro traz o número 42 da revista Martín Fierro, que contém os textos/ respostas de Ortelli y Gasset (Jorge Luis Borges e Carlos Mastronardi), A un meridiano encontrao en una fiambrera; Pablo Rojas, Imperialismo baldío; Raúl Scalabrini Ortiz, La implantación de un meridiano anotaciones de sextante; Jorge Luis Borges, Sobre el meridiano de una gaceta; Lisardo Zía, Para Martín Fierro; Ildefonso Pereda Valdés, Madrid, meridiano etc.; Ricardo Molinari, Una carta.

Na seqüência estão organizados os textos com as respostas de vários intelectuais espanhóis às declarações do martinfierristas, que são acusados, entre outras coisas, de arcaicos, retrógrados e desdenhosos. Os textos são publicados na revista La Gaceta Literária, Madri, 1°. de setembro de 1927, n°.17, com o sugestivo título Un debate apasionado; abaixo do título a inscrição: “campeonato para un meridiano intelectual. La selección argentina Martín Fierro (Buenos Aires) reta a la española Gaceta Literaria (Madrid). Gaceta Literaria no acepta por golpes sucios de Martín Fierro que lo descalifican. Opiniones y arbitrajes”.1 Os autores que assinam os textos são: Giménez Caballero, Guillermo de Torre, Ramón Gómez de la Serna, Benjamin Jarnés, Gerardo Diego, Antonio Espinosa, entre outros.

Como a intenção do volume é mostrar as polêmicas e os enfrentamentos nesse debate, foram compiladas também as réplicas dos martinfierristas aos intelectuais espanhóis. A réplica está no número 44/45 de Martín Fierro (ago/nov de 1927), nos seguintes artigos: Buenos Aires, metrópoli, de Santiago Ganduglia; Croquis, de Vizconde de Lascano Tegui; El pez por su boca muere, de M.F. (hijo); Carta a los españoles de la ‘Gaceta Literaria’, de Pablo Rojas Paz; Extrangulemos al meridiano, de Nicolas Olivari. Todo esse debate repercutiu em outras revistas hispano-americanas como Avance, de Havana, e Variedades, de Lima, mas não foi tão intenso como na revista Martín Fierro.

A segunda parte do livro traz o polêmico debate entre José Carlos Mariátegui e Víctor Raúl Haya de la Torre em torno da teoria e da prática do marxismo. O artigo é de Susana Santos, intitulado Polémicas de la ‘pátria nueva’ (1919-1930): ¿peruanizar el marxismo o marxistizar el Peru?, que mostra os principais pontos da polêmica entre os dois peruanos. A autora faz uma boa síntese e procura compreender a polêmica dentro da história peruana, mostrando o contexto político da Pátria Nueva, as lutas camponesas e a “Geração de 20”. Em contrapartida, os documentos anexados são escassos, ou seja, apenas um texto de Mariátegui, Aniversario y balance (Amauta, n°.17, 1928); uma breve síntese do programa da Aliança Popular Revolucionária Americana (APRA); e uma carta de Haya de la Torre para Mariátegui, escrita no México em 1928, que não são suficientes para expressar a intensidade da polêmica.

A terceira parte do livro é dedicada à polêmica Arguedas-Cortázar, que girou em torno do indigenismo na literatura.2 O artigo Entre la tierra originaria y la ciudad de las luces: un problema de ubicación: arriba o debajo de la torre del marfil, de Mariana Bendahan, esclarece a origem da polêmica e os canais nos quais ocorrem o enfrentamento e a “belicosidade discursiva”. Enfim, a autora faz um breve resumo do panorama textual e contextual em que se inscreve a polêmica, com o intuito de mostrar que o debate em torno do indigenismo canaliza outros temas centrais: a relação entre cultura e política, a natureza da função do intelectual na América Latina após a Revolução Cubana, a tensão entre localismo e cosmopolitismo, as posições polares de ambos a respeito do “boom” da literatura latino-americana(Córtazar no centro e Arguedas na periferia).3

A origem da polêmica é uma carta que Cortázar escreve, de Paris, a Roberto Fernández Retamar, em maio de 1967, publicada na revista cubana Casa de las Américas, na qual argumenta que a distância territorial promove benefícios em prol de uma melhor contemplação e entendimento da realidade intelectual latino-americana, e que, por isso, sua literatura possui uma raiz nacional e regional potenciada por uma experiência mais aberta e mais complexa. Arguedas, que não concorda com os argumentos de Cortázar, publica um artigo na revista peruana Amaru (abril-junho de 1968), expondo sua convicção em torno da tarefa do escritor: escrever novelas não é uma profissão, o escritor escreve novelas por amor, necessidade, prazer e não por ofício, ao mesmo tempo em que coloca em evidência a lógica mercantilista do boom na literatura latino-americana.

O livro recolhe, além das cartas, outros textos importantes da polêmica, como a entrevista de Cortázar, concedida à jornalista Rita Guibert para a revista norte-americana Life, em sua versão para o espanhol, em 1969, intitulada Julio Cortázar: fragmentos de las declaraciones recogidas en la nota Creador Solitário; o artigo que Arguedas publica na revista Amaru, nesse mesmo ano, com o título de Inevitables comentários a unas idéias de Julio Cortázar; e os fragmentos do Tercer diário, do livro de Arguedas, El zorro de arriba el zorro de abajo, publicado postumamente em 1971. Em todos os textos selecionados pela autora, fica claro o ponto central que gera e alimenta a “belicosidade discursiva”: o nacional e o cosmopolita como determinantes da prática literária do escritor latino-americano na década de 60.

A quarta parte do livro recupera o debate suscitado pelo “caso Padilla”,4 em 1971, que, segundo Marcela Croce, revela, ao mesmo tempo, um corporativismo intelectual e uma ruptura definitiva de parte da intelligentzia latino-americana com o governo cubano e suas instituições culturais.

A organização dessa parte do livro é a mesma das anteriores, ou seja, artigos breves, que situam o leitor no debate e, em seguida, os textos dos intelectuais envolvidos na polêmica. O artigo de Martín Chadad, Testimonio de partes, o quién es quién, mostra como Padilla deixa de ser um sujeito para tornar-se um caso, um caso que impunha, para muitos, uma nova forma de avaliar e compreender a Revolução Cubana. No outro artigo, El difícil ofício de calcular, o donde me pongo, Verônica Lombardo mostra a dimensão que adquire o “caso Padilla”, em 1971, desde a prisão do poeta até a sua autocrítica. Segundo a autora, o campo intelectual polariza-se e pauperiza-se, anulando qualquer possibilidade de dialética para circunscrever-se na oposição entre o melhor modelo intelectual a ser seguido: ou se é um intelectual crítico ou um intelectual revolucionário.

O “caso Padilla”, segundo Lombardo, permite polemizar não só os caminhos da Revolução Cubana e as formas estéticas da arte, mas também coloca em jogo um debate muito profundo sobre os valores, os alcances e os limites do intelectual, no que diz respeito à sua responsabilidade estrutural na esfera de transformações políticas e sociais. Dessa polêmica participam importantes intelectuais latino-americanos: a lúcida crítica de Ángel Rama, publicada em Cuadernos de Marcha; a posição inicialmente oscilante de Julio Cortázar até sua firme adesão à revolução; a postura esquiva e conciliatória de García Márquez, que permanece fiel a Fidel Castro; a posição controvertida de Mario Vargas Llosa, que culmina com sua renúncia do Comitê da Casa de las Américas e sua ruptura drástica com Cuba.

A resposta dos intelectuais latino-americanos radicados na Europa, e de muitos intelectuais europeus, ao “caso Padilla”, é imediata. A primeira (re) ação é uma carta aberta, Declaración de los 54, endereçada ao “Comandante Fidel Castro”, na qual expressam a preocupação com a detenção de Heberto Padilla. Assinam a missiva Carlos Barral, Simone de Beauvoir, Ítalo Calvino, Fernando Claudín, Julio Cortázar, Marguerite Duras, Hans-Magnus Enzensberger, Carlos Franqui, Carlos Fuentes, Maurice Nadeau, Octavio Paz, Jean-Paul Sartre, Susan Sontag, Mario Vargas Llosa, entre outros. Uma outra carta, Declaración de los 62, é endereçada a Fidel Castro em 1971, após a autocrítica de Padilla, que, segundo os intelectuais, havia sido forçada. Essa carta não conta com a adesão de Julio Cortázar, que declara posição favorável a Cuba.

Além de compilar as duas cartas citadas acima, o livro reúne também outros documentos sobre o debate em torno do “caso Padilla”: os fragmentos do poema de Padilla, Final del Juego (1968), e o texto com a sua autocrítica (1971); os fragmentos do discurso de Fidel Castro no Primeiro Congresso Nacional de Educação e Cultura (1971); a carta de Mario Vargas Llosa a Haydée Santamaría (1971) e a resposta de Haydée Santamaría; as declarações de García Márquez à imprensa colombiana (1971); a carta de Julio Cortázar a Haydée Santamaría; a opinião de Rodolfo Walsh em Cuadernos de Marcha (n°.49, Montevidéu, 1971); a carta aberta de David Viñas a Roberto Fernández Retamar; e o artigo de Ángel Rama, Una nueva política cultural en Cuba, publicado em Cuadernos de Marcha, n°49.

Enfim, pode-se concluir que o panorama traçado pelos autores da coletânea esboça a história dos intelectuais em quatro momentos diferentes da história latino-americana, amarrados por uma questão recorrente no discurso intelectual: a polêmica. Polemizar significa, entre outras coisas, tentar compreender e traduzir uma época e, ao mesmo tempo, os caminhos do futuro.

Notas

1 CROCE, Marcela (comp.) Polémicas intelectuales en América Latina: del “meridiano intelectual” al caso Padilla (1927-1971). Buenos Aires: Simurg, 2006, p.86.

2 Em termos gerais, o indigenismo, como prática discursiva, tem como referencial a representação do mundo indígena, ou seja, da realidade social, política, econômica e cultural dos povos indígenas da América Latina. Tem seu início em fins do século XIX, com ampla vigência até meados da década de 1960. Para uma concepção crítica do indigenismo na literatura ver CORNEJO POLAR, Antonio. O condor voa: literatura e cultura latino-americanas. Belo Horizonte: UFMG, 2000.

3 Na década de 1960, assistimos ao surgimento do “boom” da literatura latino-americana, em especial dos romances. Nesse período, são produzidos vários livros de grande valor literário, que ganham projeção internacional. O “boom” traduz-se em uma produção bastante original nas letras latino-americanas, tem seu limite temporal circunscrito em torno de figuras como Julio Cortázar, Gabriel García Márquez, Carlos Fuentes, Mario Vargas Llosa e José Donoso. Em apenas seis anos aparecem obras como Rayuela, Cien años de soledad, Sobre héroes y tumbas, La ciudad y los perros, entre outras. O que motiva o “boom”, a nível comercial, além da qualidade literária das obras, é o impulso das editoras (sobretudo européias) e a irrupção da Revolução Cubana, que motiva inúmeros leitores, pelo mundo afora, a conhecerem a literatura, a cultura e a história latino-americana. Ver DONOSO, José. História personal del “boom”. Barcelona: Anagrama, 1972.

4 Heberto Padilla foi perseguido por causa de suas opiniões sobre a Revolução Cubana. Em 1971, Padilla foi preso e fez, ou, como muitos afirmaram, foi coagido a fazer, uma autocrítica, negando tudo que havia dito anteriormente. Isso desencadeou uma onda de protestos da parte de antigos aliados de Cuba, de Jean-Paul Sartre a Mario Vargas Llosa.

Adriane A. Vidal Costa – Mestre e doutoranda em História pela Universidade Federal de Minas Gerais – Belo Horizonte – MG. E-mail: adrianevidal@oi.com.br

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Semear horizontes: uma história da formação de leitores na Argentina e no Brasil, 1915-1954 – SOARES (VH)

SOARES, Gabriela Pellegrino. Semear horizontes: uma história da formação de leitores na Argentina e no Brasil, 1915-1954. Belo Horizonte: Editora UFMG/ FAPESP, 2007. Resenha de: MISKULIN, Sílvia Cezar. Varia História, Belo Horizonte, v.23, n.38, p. 639-642, jul./dez., 2007.

Semear horizontes: uma história da formação de leitores na Argentina e no Brasil, 1915-1954 analisa com rigor o surgimento da literatura infantil no Brasil e na Argentina, na primeira metade do século XX. O trabalho que agora temos o prazer de ler é fruto da Tese de Doutorado de Gabriela Pellegrino Soares, defendida no Departamento de História da USP, sob orientação da Profa. Dra. Maria Ligia Coelho Prado.

A autora debruça-se sobre a formação da literatura infantil, destacando as semelhanças e diferenças entre os escritores argentinos e brasileiros. Diferenciando-se da literatura produzida para a escola, a literatura infantil constituiu-se em um campo próprio, no qual se buscava a ampliação do público leitor e a democratização do conhecimento por meio das produções e traduções de obras voltadas para o público infantil. O objetivo da pesquisa é compreender os esforços realizados no Brasil e na Argentina para promover a prática de leituras não escolares entre as crianças. As diferenças entre os dois países foram mostradas pelo panorama que Gabriela Pellegrino Soares traçou da rede de ensino primário e de bibliotecas escolares e populares presentes na Argentina desde fins do século XIX, enquanto no Brasil as políticas públicas voltadas à difusão da leitura foram bem mais restritas e efetivaram-se somente no século XX.

Além desta diferença de contexto, Gabriela soube muito bem enfocar o repertório nacional que compunha a literatura infantil em cada um dos países. Na Argentina, muitos escritores se dedicaram a temas nacionalistas e trabalharam em suas obras elementos da história da nação, do folclore e da natureza. Dentro deste grupo a autora apresenta as obras infantis de Ada María Elflein, Alvaro Yunke, Hugo Wast, Rafael Jijena Sánchez, Horacio Quiroga, Guillermo Enrique Hudson e Ana Maria Berry.

Entretanto, o trabalho destaca um outro horizonte na literatura infantil argentina, conformado pela revista Biliken e seu criador Constancio C. Vigil. O objetivo da publicação era a formação da bagagem cultural da criança, que se tornaria no futuro o homem moderno, self-made man. Na revista, ecoavam as idéias da escola nova, que buscava uma progressiva autonomia da criança. Além disso, Biliken era irreverente, jogava com o humor, a imaginação e a estética para valorizar o esforço e a inteligência como forma de ascensão social.

A morte de Constancio C. Vigil em 1954 encerrou uma época na literatura infantil argentina e marcou o recorte cronológico final da pesquisa. Já o recorte inicial do trabalho, 1915, refere-se ao ano de surgimento da coleção “Biblioteca Infantil”, da editora Melhoramentos, a pioneira no Brasil no campo da literatura infantil, que será estudada na segunda parte do livro.

Outro destaque dado por Gabriela Pellegrino Soares à literatura infantil argentina passou pela trajetória de Javier Villafañe, criador do teatro de títeres. Villafañe trabalhava com as dimensões lúdicas, imaginativas e poéticas através da narrativa oral, dialogando também com os princípios da renovação educacional da escola nova. Muitas de suas histórias também acabaram editadas.

No Brasil, o livro enfocou detalhadamente a produção dos escritores Monteiro Lobato e Tales de Andrade. As obras de Tales de Andrade tinham balizas ideológicas, cívicas e educacionais muito bem definidas. A maioria de suas histórias tinha como protagonista uma criança do campo que conseguia, graças aos estudos, tornar-se um “arauto das luzes” em seu meio. Neste caso, o saber letrado significava o progresso para a população rural.

Monteiro Lobato foi um marco no surgimento da literatura infantil brasileira. Ele primou pela elaboração artística nos livros infantis, pois seu objetivo era conquistar novos leitores. Gabriela relaciona as concepções educacionais de Monteiro Lobato com as idéias de Anísio Teixeira, já que Lobato via na escola uma parceira da literatura no projeto de modernização da sociedade brasileira. Anísio Teixeira, por sua vez, foi o introdutor da filosofia de John Dewey no Brasil, que propunha a integração da aprendizagem escolar com as experiências sociais.

Lobato e Teixeira acreditavam que a educação infantil deveria se dar em um “meio purificado”, em que se eliminariam os aspectos nocivos do ambiente social, sem nenhum tipo de violência física ou psicológica. O alvo era incentivar a busca pela melhoria de vida e a integração social das crianças. Em sua minuciosa pesquisa, Gabriela Pellegrino Soares mostrou como as obras de Monteiro Lobato criaram situações de aprendizagem em que se exemplificaram as práticas educacionais de Anísio Teixeira.

A autora também ressalta que os elementos críticos, ateus e irreverentes da obra de Monteiro Lobato encontraram resistências entre certos mediadores culturais, por exemplo, os censores católicos, as autoridades governamentais e até entre certos expoentes da escola nova, como Lourenço Filho e Cecília Meireles.

A segunda parte de Semear horizontes: uma história da formação de leitores na Argentina e no Brasil enfoca sobretudo as mediações e os mediadores culturais, ou seja, indivíduos e instituições que se dedicaram a criar, divulgar ou circular a literatura infantil. Duas mediadoras foram selecionadas pela autora: Gabriela Mistral, escritora chilena, mas com uma importante atuação no campo educacional argentino e mexicano e, no caso do Brasil, a escritora Cecília Meireles. Gabriela Mistral foi professora no ensino público do Chile por duas décadas e atuou nas reformas educacionais de José Vasconcelos no México. Difundiram-se na Argentina suas perspectivas de educação infantil, muito afinadas com as idéias da escola nova. Além disso, em suas obras criou poesias voltadas às crianças, trabalhando com elementos do folclore, do campo e da cultura popular.

Cecília Meireles participou do movimento escolanovista, além de assumir a direção do Instituto de Pesquisas Educacionais no Rio de Janeiro. Fundou a Biblioteca Popular Infantil em 1934, que se tornou o Centro de Cultura Infantil no Rio de Janeiro, com a promoção de inúmeras atividades culturais. Entretanto, em 1937, foi invadido e fechado por ordem do interventor sob o pretexto de possuir em seu acervo um livro de “conotação comunista”: As aventuras de Tom Sawyer, de Mark Twain.

Gabriela Pellegrino Soares também nos presenteia com a apresentação das produções infantis de Cecília Meireles e aproxima sua obra daquela elaborada por Mistral: as duas escritoras valorizavam a sensibilidade e a vivacidade infantis, ao acreditarem que o amor, a alegria e a harmonia estariam no cerne das atitudes voltadas às crianças. O livro não deixa de apontar as diferenças entre elas, já que Cecília Meireles combatia o ensino religioso nas escolas brasileiras, enquanto que Gabriela Mistral tinha uma formação cristã.

Ao destacar instituições culturais que foram mediadoras das leituras infantis, Gabriela Pellegrino Soares elegeu duas bibliotecas modelares: a Biblioteca Nacional de Maestros, de Buenos Aires, cuja seção infantil foi fundada em 1916 por Leopoldo Lugones, e a Biblioteca Infantil de São Paulo, criada em 1935, durante a gestão de Mário de Andrade no Departamento de Cultura de São Paulo, e dirigida por Lenyra Fracarolli.

Ao analisar o acervo, os funcionários e o ambiente das bibliotecas, além da freqüência das crianças às mesmas, o objetivo do trabalho foi constatar como as bibliotecas participaram da criação de repertórios culturais e da construção de atividades sociais junto ao público infantil, ao visar sua formação moral e intelectual e a democratização do acesso aos livros. Na visão da autora, as duas Bibliotecas foram formas de realização de ações de modernização cultural por parte do Estado, perante a sociedade da época, já que divulgaram um determinado repertório e também contribuíram para a internalização de atitudes e de princípios morais e estéticos nas crianças.

Por último, analisa as concepções editorais da Melhoramentos, cuja coleção “Biblioteca Infantil” foi dirigida por Lourenço Filho. Por meio da análise de seus pareceres, Gabriela Pellegrino Soares pode ricamente nos mostrar o papel de destaque que a literatura infantil ocupou nesta editora, já que Lourenço Filho acreditava que as obras infantis deveriam complementar o papel da escola. A autora destacou como o diretor da coleção tinha restrições aos contos de fadas e também as depurações que fazia com os contos da tradição oral popular. Como as obras infantis sempre passavam pela leitura de um educador antes de chegar nas mãos das crianças, o objetivo de Lourenço Filho era conquistar a confiança dos mediadores culturais, para finalmente chegar às crianças de forma criativa e recreativa.

Ao realizar uma extensa e exaustiva pesquisa em diferentes tipos de fontes raramente examinadas,1 o livro de Gabriela Pellegrino Soares proporciona aos leitores do início do século XXI um olhar esclarecedor das concepções intelectuais, educacionais e literárias que guiaram os diversos agentes e instituições que buscaram conformar um campo da literatura infantil no Brasil e na Argentina na primeira metade do século XX. Trata-se de uma contribuição fundamental para pensar as diferenças e semelhanças que certas vezes distanciaram e muitas outras aproximaram a história dos dois países vizinhos na América Latina.

Nota

1 Walter Benjamin dedicou-se em alguns trabalhos a analisar livros infantis. Veja: BENJAMIN, Walter. Reflexões sobre a criança, o brinquedo e a educação. Trad. de Marcus Vinicius Mazzari. São Paulo: Duas Cidades/Editora 34, 2004.

Sílvia Cezar Miskulin – Doutora em História pela Universidade de São Paulo – USP. Pós-doutoranda em História/ Universidade de São Paulo/ bolsa FAPESP. E-mail:  silmiskulin@uol.com.br

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A escravidão na Roma Antiga: política, economia e cultura | Fábio Duarte Joly

Resenhista

Rafael da Costa Campos – Mestrando em História na Universidade Federal de Goiás.

Referências desta Resenha

JOLY, Fábio Duarte. A escravidão na Roma Antiga: política, economia e cultura. São Paulo: Alameda, 2005. Resenha de: CAMPOS, Rafael da Costa. Os escravos na antiguidade. História Revista. Goiânia, v.12, n.2, p. 395-399, jul./dez.2007. Acesso apenas pelo link original [DR]

Emerging Johannesburg: perspectives on the pos-Apartheid city | Richard Tomlinson et al.

Resenhista

Jó Klanovicz


Referências desta Resenha

TOMLINSON, Richard et al (Org.). Emerging Johannesburg: perspectives on the pos-Apartheid city. London: Routledge, 2006. Resenha de: KLANOVICZ, Jó. História Debates e Tendências. Passo Fundo, v. 7, n. 2, p. 265-271, jul./dez. 2007. Acesso apenas pelo link original [DR]

Embedded Autonomy. States & Industrial Transformation | Peter Evans

Passada a “onda” neoliberal que determinava a prevalência do mercado sobre o Estado e a diminuição das funções deste apenas àquelas que garantem os contratos e exercem o monopólio da violência, novas discussões e perspectivas se abrem em busca do desenvolvimento.

Para tanto foi preciso – e aqui um reconhecimento da coerência dos argumentos neoliberais – que aquele Estado que exercia funções cada vez mais capitais no desenvolvimento econômico perdesse sua capacidade de agir. O “Welfare State” consolidado como alternativa ao modelo liberal do pós-Guerra se mostrou sem fôlego diante dos desafios cujas soluções eram mais urgentes e necessárias. Leia Mais

Economia Contemporânea em Moçambique: sociedade linhageira, colonialismo, socialismo, liberalismo | Beluce Belucci

O livro, elaborado por um pesquisador que trabalhou por mais de uma década com projetos de desenvolvimento em Moçambique, apresenta um panorama da formação da economia contemporânea do país, cuja inserção na divisão internacional do trabalho, desde a exploração colonial portuguesa, até a guerra de libertação do regime salazarista, passando pela experiência socialista do governo da Frelimo, hoje encontra-se frente ao impasse das exigências de uma “globalização” que possui todas as características de mais uma rodada espoliativa dos países centrais junto à periferia e índices de desenvolvimento humano que revelam que a opção pela liberalização da economia, feita sob a chantagem do Banco Mundial e do F.M.I. na década de 1980, deu-se muito mais como opção política ― inclusive da classe dirigente de Moçambique ― do que uma questão de julgar-se a eficiência ou viabilidade da economia planificada socialista. Leia Mais

Octávio Augusto Dias Carneiro, um pioneiro da diplomacia econômica | Teresa Dias Carneiro || Paulo Nogueira Batista: o diplomata através de seu arquivo | Suely Braga da Silva

O indivíduo não é uma entidade amorfa, figura que atua ao sabor do ambiente operacional que o circunda. Sua capacidade de ação é constrangida, sim, mas está longe de refletir os predicados deterministas simplórios que periodicamente varrem a academia. Essa é uma tese controversa, mas, no fundo, apelativa. Até Karl Marx, reputado por alguns como pensador determinista, traz a lição de que são “os homens fazem a história”, mesmo não o fazendo ao seu modo, muito menos em circunstâncias escolhidas por eles próprios.1 Esse relevante ensinamento é um alerta para qualquer pesquisador que estude a sociedade e suas instituições: por mais que seja constrangido por forças estruturais, o homem importa.2

Quando partimos para o campo específico da análise da política externa dos Estados, essa lição é ainda mais importante. Antes, ainda no clássico Concerto Europeu, as ações estatais pareciam ser derivadas, em última instância, de monarcas absolutos ou de pequenas elites – no fundo, de indivíduos, o que facilitava o entendimento do impacto de suas ações nos fluxos da realidade.3 Agora, com o agigantamento estatal, cada vez mais o indivíduo aparenta ser uma peça dentro de uma engrenagem complexa de rotinas, instituições e regras.4 Essa nova situação traz grandes desafios, pois a tentação de abstrair as ações humanas é muito grande. Leia Mais

El Argentino Despertar de las Faunas y de las Gentes Prehistóricas: Coleccionistas, estudiosos, museos y universidad en la creación del patrimonio paleontológico y arqueológico nacional (1875-1913) | Irina Podgorny

Recentemente, Martin Rudwick, historiador da Paleontologia, parafraseando Bruno Latour e Steve Woolgar, considerou que, comparadas à vida social dos laboratórios, as ciências de campo e os museus são terra semi-incógnita. A obra de Irina Podgorny, nos últimos anos, vem desbravando o terreno, pontuando os caminhos por que percorreram, na Argentina, a História Natural e a Arqueologia. Escritora prolífica, Podgorny dedica-se a uma variedade de temas: Arqueologia e Educação, recepção da New Archaeology na Argentina etc. Todos os temas relacionam-se, quase sempre, à compreensão da formação histórica de la argentinidad.

Sua obra comporta, pelo menos, duas vertentes teóricas. Primo, os estudos históricos, iniciados desde meados de 1970, sobre a função da Arqueologia e da cultura material em geral para a formulação de identidades sociais. De outro lado, ela partilha dos aportes da História social das ciências, definidos, nos anos 1980, na Europa, América do Norte e América Latina. Estuda como os enunciados científicos conformam habitus sociais e cognitivos, arranjos em permanente transformação, negociação e conflito. Examina as práticas científicas concretas abrigadas por instituições de pesquisa, os projetos políticos que as recobrem, a ação social, alianças e lutas entre cientistas. O ponto de partida, pois, é a interpretação de como as ciências, em articulação aos grupos sociais e contextos históricos, inventam uma ordem. Leia Mais

O jogo das diferenças: o multiculturalismo e seus contextos | Luiz Alberto Oliveira Gonçalves

De autoria do professor da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), Luiz Gonçalves, que fez pós-doutorado em Sociologia pela Ecole des Hautes Etudes em Sciences Sociales (Paris-França), e da professora da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), Petronilha Silva, que possui pós-doutoramento em Teoria da Educação pela University of South Africa (Pretória-África do Sul), o livro “O jogo das diferenças: o multiculturalismo e seus contextos” faz parte de uma coleção denominada “Cultura Negra e Identidades”, cuja coordenação é da educadora Nilma Lino Gomes.

A importância dessa obra é patente para quaisquer sujeitos. Serve tanto para o que educa, como para o que está se formando educador. Serve igualmente aos indivíduos que querem “apenas” praticar a ação de respeitar o outro. Leia Mais

Arqueologia | Pedro Paulo Funari

O livro de síntese e divulgação de alto nível é fundamental para o desenvolvimento científico. Por um lado, contém os recortes didáticos dos conteúdos teóricos e metodológicos mais significativos da sua época. Por outro, pode atrair novos adeptos, ajudando a ampliar a comunidade acadêmica. Também é importante para informar o público leigo, contribuindo para disseminar o conhecimento e para reduzir os mal-entendidos e as distorções corriqueiros ao senso comum.

Com a publicação de Arqueologia passamos a ter no Brasil o mais completo e atualizado manual de divulgação da disciplina. Ele preenche uma lacuna importante, pois são raros os manuais em português, sem contar com as dificuldades existentes no país para a tradução/publicação ou para importar de obras similares escritas em outros idiomas. Aliás, em meio século de profissionalização, é apenas o terceiro trabalho do gênero publicado por brasileiros, sendo precedido pelo Manual de Introdução à Arqueologia, de Pedro Augusto Mentz Ribeiro (Sulina, 1977) e pelo Arqueologia, do próprio Pedro Paulo Funari (Ática, 1988). Apesar do mesmo título de 1988, a obra em questão não é uma reedição ou simples ampliação, mas um novo livro com uma seleção de tópicos que se destacam por apontar com precisão qual é o campo mais contemporâneo de atuação do arqueólogo. O sumário, em suas oito partes, logo apresenta os propósitos da obra: 1) O que é arqueologia?; 2) Como pensa o arqueólogo; 3) Como atua o arqueólogo; 4) Formas de pesquisa; 5) A arqueologia e as outras áreas do conhecimento; 6) Arqueologia e poder; 7) Ser arqueólogo no Brasil; 8) Questões profissionais. No fim sugere leituras, filmes, sites e cds. Leia Mais

Esclavos de la ciudad letrada. Esclavitud, escritura y colonialismo en Lima (1650-1700) – MARTÍN (E-CHH)

MARTÍN, José Ramón Jouve. Esclavos de la ciudad letrada. Esclavitud, escritura y colonialismo en Lima (1650-1700). Lima: Instituto de Estudios Peruanos, 2005. Resenha de: WANDERLEY, Marcelo da Rocha. Especiaria – Cadernos de Ciências Humanas, Ilhéus, v.10, n.8, p.797-804, jul./dez., 2007.

Nos últimos vinte anos a historiografia brasileira tornou-se responsável por uma parcela considerável e significativa da produção sobre a problemática da escravidão nas Américas, fato incontestável tendo em vista importantes evidências, tais como o papel de destaque ocupado pela matéria nos currículos dos cursos universitários de história, nos catálogos editoriais e nos diversos congressos sobre a história do Brasil realizados desde então.

Por sua vez, o incremento do debate sobre o tema nos meios universitários brasileiros haveria de privilegiar marcadamente a interlocução com os estudos provenientes dos meios acadêmicos norte-americanos, tendo em vista algumas pautas de similaridades entre ambos os processos quanto às formas de organização da instituição escravista e, sobretudo, em razão do interesse comum quanto aos problemas relacionados à escravidão rural.

Menor ressonância tiveram os trabalhos dedicados à questão da escravidão no mundo hispano-americano – excetuando-se relativamente o Caribe hispânico de Manuel Moreno Fraginals e Fernando Ortiz. As razões vão desde raros e descontínuos intercâmbios acadêmicos até o desinteresse ocasionado pela percepção da limitada importância do trabalho africano nos territórios da monarquia castelhana quando comparados a magnitude de sua utilização nas denominadas América Portuguesa e Inglesa, recortes territoriais evidenciados pela historiográfi ca mais tradicional.

Neste contexto de abstenção do debate sobre os rumos da historiografi a da escravidão em diferentes países da América hispânica, encontram-se principalmente a obras de Rolando Mellafe – de caráter mais global e que seria durante largo tempo uma sólida referência sobre a questão – e de Enriqueta Vila Villar sobre o problema do tráfico de escravos naquela região e finalmente os trabalhos paradigmáticos de Gonzalo Aguirre Beltrán para o México e de Frederick Bowser e de Carlos Aguirre para o caso Peruano.

No caso dos estudos sobre a escravidão no Peru durante o período do Antigo Regime, despontam nos últimos anos alguns trabalhos que inspirados nas linhas abertas por Bowser e Aguirre se encaminham a uma análise da questão da escravidão a partir da perspectiva da História Cultural. É este exatamente o caso do livro de José Jouve Martín, professor do Departamento de Estudos Hispânicos da Universidade de McGill em Montreal.

O livro se dedica principalmente a analisar a problemática das interseções entre a cultura letrada e cultura oral tendo como objeto particular a comunidade de africanos e seus descendentes, todos residentes na cidade de Lima na segunda metade do século XVII, período quando já estão consolidadas as estruturas burocráticas nos reinos americanos. Aliás, uma Lima percebida pelos cronistas e ainda recenseada entre o século XVI e a primeira metade de XVII como uma cidade de caráter africano, por conta de uma população majoritariamente formada por grupos provenientes do Congo e de Angola.

Concentrado no campo da escravidão urbana, tal estudo revela como negros, mulatos e zambos participavam ativamente das articulações da cultura letrada sem que necessariamente houvessem adquirido a habilidade de ler e principalmente a de escrever. É justamente esta evidência das interações dos segmentos africanos com os signos da cultura letrada e com os textos escritos sem necessariamente implicar a aquisição de habilidades cognitivas num sentido estrito que demarca o inovador deste trabalho. Ainda que condicionada pela instituição da escravidão os usos da escrita servem aqui como referência para evidenciar a extrema complexidade dos processos de inserção dos africanos nas sociedades americanas – tal qual a historiografi a brasileira tem demonstrado nos últimos anos.

Sendo assim, os problemas destacados por Jouve encontram inspiração em larga medida nos fundamentos de interpretações anteriores voltadas para a comunidade indígena – sobretudo as de Serge Gruzinski para o México. Tais perspectivas buscaram dar conta das práticas de apropriação da cultura escrita pelos nativos como meio de adaptação à complexidade do aparato jurídico castelhano e ainda como garantia de ver reconhecido suas posições na sociedade e ainda requerer privilégios de isenção tributária.

O autor robustece o argumento da mescla da cultura letrada com a oral, ao pretender comprovar em particular que os contatos dos africanos chegados à cidade de Lima com a cultura escrita ocorrem quase exclusivamente por meio dos mecanismos da predicação cristã levados a cabo pelas ordens religiosas. Em segundo plano, o processo de assimilação imposto aos negros se dava principalmente através dos materiais de catecismo, a exemplo do Catecismo para los rudos y ocupados editado em Lima no fi nal do século XVI.

Tais fatos não produziram necessariamente as condições de aquisição conjunta das habilidades de leitura e escrita, mas sim uma evidente assimetria entre ler e escrever que caracterizaria tanto a aquisição parcial de habilidades como também os distintos níveis de interação dos indivíduos pertencentes às nações africanas com o mundo letrado.

Ainda que tivessem sido excluídos das instituições formais de educação, negros, mulatos e zambos adquiriram familiaridade com a cultura letrada através de diferentes modalidades que estavam profundamente demarcadas pela convivência entre os textos alfabéticos e visuais. As relações com instituições civis e eclesiásticas – como ocorre por exemplo, com o zambo Santiago Benítez em relação ao Tribunal da Santa Inquisição e o mulato Francisco de Santa Fé no tocante ao Arcebispado -, bem como a participação em atos públicos e festas civis e religiosas constituíram situações onde a tradição escrita dos setores proeminentes desta sociedade eram de certo modo assimiladas mediante formas visuais inscritas no cotidiano daquelas comunidades.

Outra questão debatida diz respeito ao papel desempenhado por diferentes elementos do mundo jurídico como mediadores nos processos de inserção dos africanos na sociedade colonial.

Tal contexto se explica pela relação estabelecida com os escrivães, facilitada imensamente pela condição ladina da população de origem africana, justo em razão da produção de eventos onde se buscavam por exemplo obter as “cartas de liberdade”. Ao lado destes especialistas da escrita encontram-se também na documentação – ainda que de forma mais difusa – os escribas, gente dedicada à elaboração de textos fora dos domínios burocráticos da administração do reino.

Os processos de concessão de liberdade, a quitação de obrigações como as cartas de pagamento, os episódios de estabelecimento de acordos e contratos com indivíduos de origem africana ou de castas superiores, acabam demarcando alguns aspectos da inserção desta população na vida econômica e gremial de Lima como faz ver José Jouve através da referência às chamadas “causas de negros”.

Além disso, tais processos mostram-se fundamentais à hora de compreender tanto os meios de os africanos negociarem posições dentro da sociedade – que não são independentes da condição de subordinação – como os casos de outorga de um poder agenciador a negros e mulatos livres que fi ndava por garantir o cumprimento de certas condições em suas relações contratuais com pessoas de posição superior na sociedade limenha.

O tema da negociação das identidades de grupo nas sociedades coloniais é retratado ainda através das formas de resistência expressas através do recurso à cultura legal. Nesta dimensão, são os registros de maus tratos, queixas e demandas apresentadas aos tribunais pelos de origem africana que elucidam a interação com as autoridades coloniais por meio do uso de textos e ainda descortinam as disputas e os confl itos muitas vezes infrutíferos com os proprietários de escravos, tal como no caso do escravo Antonio Português apresentado no texto.

Do mesmo modo, os registros em questão sublinham os esforços de amigos e familiares do reclamante de modo a fazer chegar os papéis das denúncias às mãos das autoridades legais. Por conseguinte, indicam a ação concertada com outros indivíduos, dado que em muitos casos há evidências de que os solicitadores das causas em favor dos escravos podiam ser na verdade tanto funcionários do tribunal, advogados ou ainda quem sabe um procurador.

Neste sentido, cabe ressaltar também as disputas decorrentes das operações legais para embargar a venda dos cônjuges dos escravos, proibida tanto pela justiça civil e mais que tudo pela eclesiástica; proibição continuamente desrespeitada pelos proprietários.

Jouve sublinha o papel desempenhado pelas redes sociais dos escravos no sentido de tornar possível a apresentação da denúncia quanto aos abusos relacionados às operações de venda mencionada.

Ainda nesta linha, se apresentam as petições que denunciam situações ambíguas de liberdade do escravo e por sua vez evidenciam as disputas em torno do pagamento do “jornal”, uma prática em geral bastante associada à escravidão urbana em Lima. Segue-se a esta realidade, as demandas apresentadas contra os espanhóis por negros e mulatos livres como modo de defender-se de abusos praticados contra eles ou mesmo com o objetivo de proteger bens e propriedades acumuladas.

Após analisar as relações verticais dos africanos no cotidiano daquela sociedade, o autor dedica-se a partir de então ao problema das relações entre os membros do grupo africano, sobretudo as contendas internas. A principal conclusão é a ausência de coerência nas formas de oposição a ordem colonial. Discute-o considerando os confl itos entre casais verifi cados nos tribunais em razão de promessas de matrimônio descumpridas, da anulação de matrimônios em decorrência de coação ou registrar-se situação de maus tratos e por fi m, tendo em vista os problemas oriundos das uniões entre livres e escravos com todos os seus efeitos sobre o status social.

Contudo, é a análise das petições encaminhadas às cortes judiciais coloniais pelas confrarias, tendo em vista as disputas em torno da regulação e controle destas instituições, uma das etapas mais signifi cativas da problemática das relações horizontais na vida da comunidade. Neste sentido, as confrarias funcionaram tanto como espaços de conservação de elementos das identidades africanas como de integração dos africanos a cultura americana de matiz europeu pela via da religiosidade.

Sem embargo, como demonstra Jouve, é o papel destas instituições como mediadoras entre esta população, a administração e a sociedade que explica as tensões no interior daquelas comunidades. Organizadas em muitos casos a partir dos vínculos com as “nações”, a exemplo da Confraria de Nossa Senhora do Rosário formada por Nalúes e Cocolíes, tais irmandades são apontadas como meios de articulação das identidades coletivas que mantinham entre si acirrada disputa. Isto explica as fortes lutas internas em torno do seu controle e em particular a necessidade de conhecer as estratégias e os discursos legais vigentes.

O domínio dos conhecimentos legais serviria também para garantir aos africanos participar no mercado de escravos como compradores, evidenciando claros processos de diferenciação social no interior desta comunidade e de controle sobre indivíduos de uma mesma casta. Aqui sobressaem as disputas judiciais em razão do direito de posse dos escravos – travadas tanto com outros membros da comunidade e com os espanhóis -, seguidas pelos casos de omissão nas escrituras daqueles “defeitos” dos escravos objetos da venda e por fi m as contendas empreendidas por criollos ou peninsulares com vistas a recuperar os escravos que estivessem em poder dos negros.

A obra se encerra na análise do papel dos testamentos para esta comunidade, diante tanto do seu papel como difusor da cultura notarial entre negros, mulatos e zambos, como por haver sido capaz de redefi nir suas posições em relação às identidades dos grupos. Como demonstra Jouve tais documentos serviam especialmente à articulação de lealdades, como confi rmação do domínio e infl uência de certos membros na sua comunidade, ou ainda melhor, como elemento de ligação entre membros de diferentes castas que a escrita preservaria em face da morte.

Marcelo da Rocha Wanderley – Doutor em História Social pela Universidade Federal do Rio de Janeiro – UFRJ, Professor Adjunto da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro – UFRural (RJ), Departamento de História e Economia (DHE). E-mail: marcelorw@yahoo.com.br

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A Santa Cruz do deserto: a comunidade igualitária do Caldeirão: 1920 – 1937 | Tarcísio Marcos de Alves

ALVES, Tarcísio Marcos de. A Santa Cruz do deserto: a comunidade igualitária do Caldeirão: 1920 – 1937. Recife: Néctar, 2008. Resenha de: SILVA, Edson. CLIO – Revista de pesquisa histórica. Recife, v.25, n.2, p.349-354, jul./dez. 2007.

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O Brasil e os dias: estado-nação, modernismo e rotina intelectual | André Botelho

O modernismo no Brasil tem atraído a atenção de diversos estudiosos, preocupados com a pormenorização (no espaço e no tempo), a delimitação (de autores e obras) e, principalmente, a revisão (conceitual, teórico-metodológica e historiográfica) do tema, desde o final dos anos de 1980.

A pesquisa de André Botelho, originalmente apresentada como tese de doutorado de Sociologia em 2002 na Unicamp, com o título Um ceticismo interessado: a obra de Ronald de Carvalho dos anos 20, sob a orientação da professora Élide Rugai Bastos, além de se inserir nesse amplo e diversificado movimento de renovação dos estudos sobre o modernismo (a modernidade e a modernização) brasileiro, traz, ele próprio, uma bela contribuição para os debates. Leia Mais

Jango: as múltiplas faces | Ângela de Castro Gomes e Jorge Ferreira

Em primeiro de abril de 1964, um furioso editorial intitulado “Fora” era publicado pelo jornal carioca Correio da Manhã. O golpe civil-militar efetivava-se no país, sem que a ordem de resistência, esperada por muitos, fosse dada pelo Presidente João Goulart.

O personagem, centro da crise instaurada a partir da renúncia de Jânio Quadros, do qual fora vice-presidente, sofreu, a partir de então, como toda a sociedade brasileira, as conseqüências do golpe civil-militar desencadeado contra o seu governo, amargando o exílio no qual morreu em dezembro de 1976. A partir do golpe, sofreria também constante julgamento de aliados, colaboradores e adversários dos mais diversos lugares sociais e políticos. Leia Mais

Historias del Desierto: Arqueología del Norte de Chile – RIVERA (C-RAC)

RIVERA, Mario. Historias del Desierto: Arqueología del Norte de Chile. La Serena: Editorial del Norte, 2002. 238p. Resenha de: BAIED, Carlos A. Chungara – Revista de Antropología Chilena, Arica, v.39, n.1, p. 135-136, jun. 2007.

Northern Chile and the Atacama Desert, in particular, has long been recognized as rich repositories of well-preserved archaeological remains and for its diversity in material culture. Conceptualizing this richness, however, became a major task for archaeologists who eagerly introduced John V. Murra’s vertical archipelago model as the preferred explanatory paradigm. Once transferred from the ethnohistorical to the archaeological context this model provided the much needed theoretical framework for understanding the variety of archaeological finds, and the tools to look into past resource exploitation practices and systems. Today, we know that the coast and valleys of southern Peru and north Chile were settled by multiple ethnic groups that displayed exchange-based mechanisms responsible for trans-Andean movement of a large variety of natural resources. Indeed, understanding Chilean coastal and hinterland archaeology north of the Loa River -particularly when looking at similarities in artifact assemblages- heavily relies, at least for the Andean Formative, on the existence of a core upland polity that was in need of and accessing maritime, coastal, and valley resources west of the Andes.

Over the past thirty years, Mario Rivera, has been one of the leading advocates of this explanatory paradigm. Historias del Desierto, a timely synthesis of the prehistory of the Chilean desert north, follows up on this line of thought incorporating an up to date discussion of what we currently know about coastal adaptations, highland developments, and the wide-range of valley-oases settlement patterns present in the Atacama Desert. Totaling some 198 pages of text, this book is organized into eight chapters preceded by a brief introduction. Informative figures, tables, and color photographs add to the extensive bibliography that represents almost the full bag of references to the most important works on the archaeology of north Chile.

Historias del Desierto opens with three exquisite quotes of Chilean poets followed by a brief summary on the history of archaeological research and a discussion of the geographic background and a culture history of the Chilean north. Past this section, the first two chapters of the book address early and Archaic upland and coastal adaptations. A brief look into the early upland hunters reveals that only a few archaeological localities have been systematically excavated and that most of our current knowledge relies on the analysis of surface reconnaissance, limited test-pits, and occasional excavations. Rivera’s presentation and discussion of this evidence is cautious in interpretative comments, a fact that points to the weaknesses in the proxy data. The book continues in its second chapter with a comprehensive chronology of the Chinchorro tradition that includes a brief discussion of the distribution of coastal sites with close attention given to maritime-coastal adaptations and their material culture. Here, mortuary practices take a leading role at the time of defining culture change. What I perceive is missing in these two chapters is a presentation and further discussion of the archaeological evidence provided by upland and coastal southern Peruvian sites. Early fish-shellfish gathering-oriented settlements such as those evidenced at Quebrada Jaguay, Quebrada Tacahuay, and Quebrada de los Burros in the nearby Tacna area are absent in the discussion. In all, a missed opportunity to integrate findings and explanations beyond borders, even in a book that is perse bounded by its title: The Archaeology of North Chile.

The third chapter deals with Mario Rivera’s area of exceptional expertise: the Formative of North Chile. Here is where the author focuses on what appeals most to him bringing to the project much of his own experience of working along the eastern escarpment and coastal areas of the north. The work he started in the 1970’s and has continued for more than three decades led him to define and characterize the Alto Ramirez Phase, a local development neatly tight through exchange and interaction to Wankarani (early Formative) and Pukara (full Formative), two contemporaneous upland developments in the nearby area of Lake Titicaca. Abundant and well-preserved surface evidence of human habitation and of highly-developed land use practices -that were already in place by approximately 2,800 B.P-are evident almost everywhere in north Chile. Two coastal localities, Camarones and Pisagua are treated extensively and a large number of radiocarbon age determinations are provided. At the core of Rivera’s argument is the existence of a transitional phase in which the Chinchorro Tradition coexists with an emergent Andean Tradition along the coast.

Chapter four includes the most recent information available for Ramaditas, a Late-Formative village-farming site in the Quebrada de Guatacondo. In many ways, Ramaditas and the group of sites in the Guatacondo archaeological district are unique because of excellent preservation of architectural features, the presence of a vast network of irrigation canals and agriculture fields, fabric, basketry, and macro-botanical remains. The settlement area -including structures and agricultural fields- has been estimated in approximately 600 hectares. Radiocarbon age determinations place occupation at this site within the Alto Ramirez II Phase, between 2,500-2,000 years B .P., a time span when large village-farming communities first appear in this sector of the Andes. Indeed, Ramaditas represented one of the earliest occupations in the Guatacondo District, a series of six roughly contemporaneous village-farming sites and associated structures arranged along the present-day Guatacondo gully. Archaeobotanical samples from Ramaditas provide evidence of Prosopis, Zea, and Chenopodium among the edible plants and the analysis of human feces suggests that wild algarrobo pods may have been at the core of the community diet. In addition, the combined study of pollen, starch, and phytoliths shows a diet that included Chenopodium, potato, algarrobo pods, and maize. Protein residue analysis of feces also suggests reliance on small mammals and fish for meat. In all, this chapter wraps up a little more than ten years of work by Mario Rivera at this site and lays the groundwork for the years to come in which remaining questions on water availability, irrigation, cultigens, and agriculture practices are certainly going to be addressed. The text in this chapter is supported by useful in-text tables and by exceptional color photos such as air-views of the site and agriculture fields.

Chapters five and sixth address the periphery, specifically the areas of Tiwanaku expansion in the lower valleys of Arica and San Pedro de Atacama. The chronological sequences developed by M. Uhle, J. Bird, and P. Dauelsberg for Arica are discussed and reinterpreted by Rivera as he stresses the impact of Chiribaya and Tiwanaku on the Azapa sequence. The periphery role is also addressed, more extensively, when looking at the Inka State and its political area of influence. A few sites are discussed and a long list of localities ascribed to this time-period is given.

Chapter seven moves beyond the realm of archaeology and into the field of ethnohistory as it addresses Colonial north Chile. Trade, exchange, and the role of ethnic groups in pursuing this practice are at the core of this section that also includes the reproduction of old Colonial-era maps that help stress the economic and political meaning of this otherwise marginal area of the Chilean north. Here too, trans-Andean commerce and interaction plays a leading role in understanding this time-period.

The last chapter of this book provides space for reflection on the legacy and withstanding of adaptive strategies in this part of the Andes. The archipelago model is by all means a compelling paradigm for addressing the long occupation sequence that spans for more than 10,000 years. Indeed, following Mario Rivera’s line of thought, the two Traditions, Chinchorro and Andean, trace back their roots to the Amazon lowlands and the Titicaca uplands respectively. My feeling here is, however, that little emphasis is placed in addressing alternative explanatory models, such as horizontal-type movements along the coast, which could also account for similarity -and divergence- in material culture and settlement patterns.

The chronological and geographic focus of this book provides for both strength and weakness. Strength because Mario Rivera fluidly brings to the project much of his own experience of working along the eastern escarpment and coastal areas of north Chile, a work that in the 1970’s took him to define and characterize the local Alto Ramirez Phase. Weaknesses because of the major task of producing a synthesis that starts more than 10,000 years ago and ends with the Colonial history of the region, an endeavor that, although magnificently done by Rivera, does not allow for the discussion of specific site characteristics, site formation processes, and for addressing thoroughly the enormous amount of data that each locality provides to the archaeologist. Because of this, it is a short book, but, by no means, a book short of ideas.

For those with specialized interest either in the prehistory of South America or the archaeology of the Atacama Desert, Historias del Desierto is unavoidable. Beyond a few production flaws in editing, Mario Rivera succeeds quite nicely in achieving a well thought synthesis of the archaeology of north Chile.

Carlos A. Baied – Latin American Studies Program, The University of Montana, Missoula, USA, and Instituto de Arqueología y Museo, Universidad Nacional de Tucumán, Argentina. E-mail: cbaied@yahoo.com

Notas

Esta reseña fue publicada previamente en Latin American Antiquity, vol. 18, num. 1, 2007.

Carlos A. Baied – Latin American Studies Program, The University of Montana, Missoula, USA, and Instituto de Arqueología y Museo, Universidad Nacional de Tucumán, Argentina. E-mail: cbaied@yahoo.com

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Los Antiguos Habitantes del Salar de Atacama, Prehistoria Atacameña – MARTÍNEZ (C-RAC)

MARTÍNEZ, Agustín Llagostera. Los Antiguos Habitantes del Salar de Atacama, Prehistoria Atacameña. Antofagasta: Universidad Católica del Norte, Editorial Pehuén, 2004. 215p. Resenha de: SANTORO, Calogero M. Chungara – Revista de Antropología Chilena, Arica, v.39, n.1, p.137-139, jun. 2007.

Esta nueva obra de Agustín Llagostera es para disfrutarla y descubrir que es posible difundir el conocimiento científico a un público lector, que va más allá del reducido grupo de especialistas que componen nuestra disciplina y con ello cultivar el interés por conocer la prehistoria atacameña. Con esta obra Agustín abre la puerta para que cualquier persona pueda adentrarse a través de sus relatos, fotos y dibujos, en la historia de los distintos pueblos que habitaron el territorio atacameño en épocas anteriores a la invasión europea en el siglo XVI, de allí el término de prehistoria Atacameña.

Como autor, Agustín integra dos grandes talentos que se ven muy bien reflejados en esta obra, por un lado su gran rigurosidad científica y, por otro una habilidad plástica para reproducir distintas escenas de la vida diaria de los antiguos habitantes del Salar de Atacama. Desde un punto de vista formal, el libro impresiona por la finura artística de la diagramación, que integra un texto ameno, generoso de espacio para hacer notas al margen, acompañado de ilustraciones, la gran mayoría de ellas dibujos a mano alzada realizadas por el propio Agustín, y la de otros artistas. Estas ilustraciones son, también, una manera distinta de presentar su “ensayo” sobre la prehistoria Atacameña; a través de lo que define como la “máquina del tiempo llamada arqueología” en un genuino intento por descubrir la “presencia de mujeres y hombres detrás de los artefactos y de acercar a los lectores a la calidez de lo humano de los protagonistas”.

El libro está estructurado en seis capítulos bien balanceados en cuanto a la extensión de su contenido, por lo que dan buena cuenta de una construcción de la prehistoria de los territorios atácamenos, con un fuerte apego a los datos disponibles e interpretaciones que distan mucho de ser historias imaginarias, veta que a su vez no ha sido explorada en la literatura chilena como en otros lugares del mundo, donde la vida de los pueblos antiguos ha inspirado una serie de historias noveladas o novelas históricas.

En el capítulo 1 el autor magistralmente muestra los detalles de los diferentes ambientes que integran el Salar de Atacama, que a pesar de ser un gran territorio yermo, sirvió como eje articulador y de referente geográfico para las poblaciones que se parapetaron en los oasis, quebradas y zonas altas al este de esta cuenca salada. En este contexto el autor presenta a los grupos de cazadores que comenzaron a colonizar estos territorios hace cerca de 13.000 años. Enfatiza, por un lado, su capacidad para integrar recursos de caza y recolección de frutos silvestres de las escasas plantas que crecen en la zona, y cómo a partir de ello estructuraron modos de vida más bien móviles, lo que les permitió mantenerse en estos territorios a pesar de las importantes fluctuaciones climáticas que por momentos provocaron condiciones mucho más secas que las actuales. Es interesante notar que Agustín no sólo hace una descripción interpretativa de la vida de los primeros habitantes del Salar de Atacama, sino también va explicando cómo se ha generado el conocimiento que permite darle sustento científico a su visión de los hechos rescatados a través de la arqueología, lo que en los capítulos siguientes se hace implícito.

El capítulo 2 está dedicado a una de las fases de cambio más significativas en la historia de la humanidad y que en este caso representan lo que Agustín define como “los cimientos de la sociedad atacameña” en la medida que se estructuraron pequeñas aldeas de comunidades de horticultores lo que permitió dejar de depender completamente de los medios de la subsistencia de caza y recolección. Con ello adquieren mayor estabilidad económica que da pie para el establecimiento de aldeas pequeñas y nuevas formas de convivencia social. Las comunidades se organizaron política y económicamente de manera distinta a sus antecesores los cazadores recolectores de quienes mantuvieron la destreza en la fabricación de instrumentos líticos y toda la experiencia de manejar plantas y animales silvestres por más de 8.000 años. Esta es la época de la domesticación de camélidos, proceso que Agustín deja caer en la experiencia de las mujeres, a través de la crianza de “chulengos” huérfanos. Esto es una propuesta interesante, dado que en literatura clásica de cazadores recolectores se estima que las labores de caza la realizaban los hombres, por lo tanto teóricamente habrían tenido una relación más cercana con los animales silvestres. Las mujeres y los niños, en cambio, dedicados corrientemente a la recolección de frutos silvestres, habrían tenido una mayor relación con el proceso de domesticación de plantas, que incluyó productos hoy día de gran valor comercial como el maíz y la quínoa. Detrás de estas actividades económicas se esconde un complejo mundo que abarca la materialización de nuevas prácticas religiosas, descritas, por ejemplo, a través de lo que interpreta como “infante mensajero” sobre la base de los objetos rituales que acompañan a este infante en su tumba. El capítulo tiene además detalles respecto del uso de tecnologías como la cerámica, la textilería, la metalurgia, el uso de piedras preciosas y la relación de esta zona con áreas alejadas como el oriente de los Andes, donde destaca el rol de las caravanas de llamas, uno de los rasgos culturales que caracterizarán luego a las poblaciones del Salar.

En el capítulo 3 el autor lleva adelante una tesis interesante que lo desliga de la clásica secuencia histórica cultural que marca a las reconstrucciones históricas a lo largo de los Andes. Propone que una vez consolidadas las aldeas de los horticultores de la época anterior las comunidades del Salar enfrentaron la tarea de buscar y crear una identidad propia. Para sustentar esta propuesta el autor revisa, describe e ilustra distintos aspectos de la forma como se estructuró la vida en el Salar, donde resaltan variadas expresiones de identidad que no sólo se reducen a las formas e iconografía de los tejidos y cerámica, sino también a los peinados, gorros, collares, deformación craneana y otros ornamentos que fueron estructurando una identidad étnica. Resalta el rol de las tabletas de rituales de madera tallada ligadas a la absorción de sustancias alucinógenas, que partiendo de formas simples terminan grabándose con sofisticados personajes que Agustín ha definido como los “dioses atácamenos”. Esta época, señala el autor, se caracteriza también por el surgimiento de estructuras políticas centralizadas donde surgen símbolos de prestigio y poder, cuyos líderes posiblemente manejaron una red de “tráfico” exterior.

En el capítulo 4 Agustín se aboca a mostrar cómo las sociedades muy bien afincadas en el Salar se integran a un gran sistema político, económico y cultural representado por el estado imperial de Tiwanaku. De esta manera, el acento del relato no radica en la “influencia de este imperio en la zona” sino en las transformaciones que ocurren en las sociedades atacameñas a consecuencia de la interacción con Tiwanaku y con otras sociedades de regiones aledañas como el noroeste argentino. Esta época de cambios se visualiza muy bien a través de la rica iconografía de personajes mitológicos, antropo y zoomorfos desplegados en las tallas de madera de las tabletas para alucinógenos, que contrastan con la iconografía más naturalista de la época anterior. Este cambio representaría profundas transformaciones en las sociedades atacameñas, donde resalta una ideología de sacrificios humanos, cuyas características y significados trata de explicar el autor. En la esfera tecnológica sobresale la introducción del bronce, lo que sumado a una proliferación de piezas de oro, representa el surgimiento de linajes o señoríos complejos, como el de Larache.

En el quinto capítulo relata primero los efectos de la desarticulación del sistema imperial de Tiwanaku, lo que habría provocado también que los líderes locales atácamenos, como los de Larache perdieran prestigio y poder. Se produce un fraccionamiento político y los tradicionales bienes de prestigio dejan de producirse y reaparecen otros como los objetos de plata, que el autor interpreta como signo de la competencia entre distintas facciones de las sociedades atacameñas. Desaparecen también del escenario social las imágenes todo poderosas de los dioses tiwanacotas, lo que muestra un cambio ideológico importante, donde el único “sobreviviente” es el personaje conocido como el “Sacrificador”, plasmado en otro tipo de soporte, como los tubos de inhalación de alucinógenos. El “empobrecimiento cultural” se expresa también en la discontinuación de la producción de objetos finamente labrados, reemplazados por bienes de corte más bien utilitarios. La fragmentación política se expresa en el surgimiento de poblados defensivos, junto a un decaimiento del poder de los shamanes de la época anterior, reemplazados por líderes más preocupados de la defensa física de sus comunidades, a través de alianzas estratégicas interétnicas para hacer frente a presiones tanto externas como internas. En ese nuevo orden social se imponen otros personajes ideológicos, donde destaca la figura del cóndor.

Toda esta dinámica interna se vuelve a transformar con las enmiendas impuestas por el estado imperial del Inka, que entre otras cosas dota de mayor prestigio y poder a los líderes locales para que sirvan a los propósitos del Estado. Destaca en este nuevo escenario una baja importante en los índices de violencia, marcado en fracturas y otros traumas corporales muy comunes en la época anterior. En el ámbito ideológico el estado imperial introduce nuevas prácticas como son los sacrificios en santuarios localizados a gran altura sobr la cima de los principales cerros y volcanes que bordean al Salar de Atacama. Lo interesante de todo este proceso de integración social es que ocurre, como destaca el autor, sin la instalación de asentamientos imperiales propiamente tal. Toda esta dinámica social estaba en proceso de cristalización cuando la capital del Cuzco fue invadida por el Estado de Castilla, lo que dio inicio a un nuevo proceso de interacción social, en desigualdad de condiciones, lo que no sofocó sin embargo una serie de episodios de resistencia que retardaron, pero no detuvieron el proceso de transformación de las sociedades atacameñas en los ámbitos políticos, económicos, ideológicos y tecnológicos.

Al terminar la lectura, el lector coincidirá con Don Misael Camus, Rector de la Universidad Católica del Norte, que el libro es “fascinante y acogedor” y querrá volver a repasar los detalles de la epopeya histórica de la “gente de esta tierra” o likan-antai.

Reseñado por Calogero M. Santoro – Instituto de Alta Investigación, Departamento de Antropología y Centro de Investigaciones del Hombre en el Desierto, Universidad de Tarapacá, Arica, Chile. E-mail: csantoro@uta.cl.

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Transformação e Crise na Economia Mundial | Celso Furtado

Em fins de 2006, a Editora Paz e Terra lançou, em forma de livro, dez artigos de Celso Furtado, escritos ao longo dos anos sessenta, setenta e oitenta do século passado, sobre economia mundial. Especificamente, os artigos concentram-se nas modificações do cenário externo após o fim da segunda grande guerra mundial. Sobre o fio condutor destes textos, que contém, de modo geral, as mesmas idéias-força desenvolvidas de modo distinto ao longo dos anos em que escrevia, Furtado escreve:

“A idéia central, desenvolvida ao fio de dois decênios, é simples: as modificações políticas causados pelo segundo conflito mundial conduziram à integração dos mercados das economias capitalistas industrializadas, reduzindo a capacidade reguladora dos estados-nacionais, e aumentando a autonomia de ação das grandes empresas. (p.9-10)” Leia Mais

Otro siglo perdido. Las politicas de desarollo em América Latina (1930 – 2005) | V. L. Urquidi

A crescente especialização acadêmica trouxe aspectos positivos e negativos para o campo da História Econômica. Entre os primeiros, destaca-se a melhor compreensão de processos históricos específicos, mediante análises estruturadas sobre dados empíricos sólidos. Entre os segundos, cita-se o perigo da perda da visão do todo. Muitos desses estudos, excessivamente verticalizados, não demonstram capacidade de articulação entre a parte por eles analisada e complexo tecido da história. O resultado é a terrível sensação de um quebra-cabeça, no qual apenas um dos seus inúmeros pedaços se encontra em nossas mãos. Como o resto se esvaiu, torna-se impossível saber qual seria a imagem formada pelo jogo completo. Leia Mais

Cidade e História | José d’Assunção Barros

O livro de Assunção Barros propõe-se, logo no “Prefácio”, ser uma recolha e apresentação das mais importantes contribuições para o estudo da cidade.

O que significa, contudo, tentar sumariar em apenas cento e onze páginas, excetuando-se aquelas da bibliografia, dois séculos de reflexão sobre o urbanismo e a vida citadina? Há que referir, em primeiro lugar, a necessária seleção das obras que serão comentadas, escolha esta que não se pode dizer completamente objetiva. Contudo, para além da seleção, há o tópico mais relevante dos usos que se fará do que se selecionou. É aqui, cremos, que o livro de Assunção Barros evidencia sua fraqueza, pois seria preciso, para que o livro tivesse efetiva consistência, que as categorias que nos são apresentadas em poucas linhas fossem criticadas, contrariamente ao hábito do autor que as expõe, de forma descritiva, como se todas servissem para a produção do que ele denomina uma pesquisa “multifatorial”. Leia Mais

História e Imprensa: representações culturais e práticas de poder | Lúcia Maria B. P. das Neves, Marco Morel e Tânia M. Bessone Ferreira

NEVES, Lúcia Maria B. P. das; MOREL, Marco; FERREIRA, Tânia M. Bessone da C. (Orgs.). História e Imprensa: representações culturais e práticas de poder.  Rio de Janeiro: DP&A / FAPERJ, 2006. Resenha de: CORRÊA, Maria Letícia. Revista Maracanan. Rio de Janeiro, v.3, n.3, p.179-182, 2007.

Acesso apenas pelo link original [DR]

La historia cultural – SERNA (AN)

SERNA, Justo; PONS, Anaclet. La historia cultural. Madrid: Ediciones Akal, 2005. 249p. Resenha de: MALATIAN, Teresa. Anos 90, Porto Alegre, v.14, n.25, p.223-227, 2007.

Brasil nas últimas décadas e alcançou o estatuto de área das mais promissoras da pesquisa histórica, a ponto de se tornar área de concentração de diversos programas de estudos de pós-graduação.

Nada mais oportuno, pois, que a leitura de um livro como o de Justo Serna e Anaclet Pons, professores especialistas em História Social e Cultural da Universidade de Valencia, Espanha. Entre suas obras, destacam-se o estudo La ciudad extensa (1992) sobre os burgueses no século XIX, e diversos ensaios de historiografia, a exemplo de Cómo se escribe la microhistoria (2000).

La historia cultural: autores, obras, lugares, publicado em 2005, aborda as diferentes possibilidades desse campo historiográfico e contribui para a compreensão da metodologia que vem sendo utilizada pelos pesquisadores que percorrem essa vertente potencialmente inovadora da Historiografia. Para isso, os autores partem em busca da interdisciplinar entre História e Antropologia, e voltado para a distinção entre a natureza e a criação humana que lhes permite afirmar ser a cultura “dispositivo que nos aleja de la naturaleza” (p. 6).

Conceptualização feita, abre-se um amplo leque de possibilidades de construção de objetos da história cultural, a se ocupar de códigos e convenções, instrumentos e regras, significados e prescrições, que permitem ao historiador um manancial riquíssimo de temas a serem trabalhados com as ferramentas de um método que se constrói na interface da disciplina com as ciências humanas.

Idêntico percurso, também em perspectiva historiográfica, permite aos autores desvendar, na pletora de obras que abordam a história cultural, temas e métodos mais significativos que caracterizam o campo na segunda metade do século XX. Melhor dizendo, o fio condutor desse livro é dado pela “genealogia do campo”, a qual permite a percepção da vitalidade do recorte analítico e as inumeráveis dimensões de possibilidades de construção do objeto. Para alcançá-la, é rastreado o “colégio invisível” dos autores que se sobressaem nos estudos de história cultural, num percurso de filiações e interdependências convergentes para a construção de um campo metodológico tramado em dimensões intercontinentais e muito distante de um paradigma unitário.

Os anos 1970 constituem, nessa perspectiva, um marco na formação de uma rede textual que agrega Roger Chartier, Carlo Guinzburg, Peter Burke e Robert Darnton, e tem como figura central Natalie Zemon Davis. As práticas acadêmicas de interlocução entre pares são esmiuçadas pelos autores desse livro em busca dos fios da trama da rede nem sempre totalmente invisível, porém agregadora de perspectivas analíticas e temáticas inovadoras desse “modo de fazer” que compartilha a fragmentação da História com os herdeiros divididos de Braudel.

Constitui excelente contribuição o tratamento historiográfico desse colégio e seus desdobramentos na busca de modos de construção extensas obras, centradas num único tema, no formato de tese acadêmica, e sim ensaios e fragmentos reunidos em volume, autônomos porém entrelaçados e que, em relação dialógica, constituem a característica textual de disseminação do objeto, fraturado em operação historiográfica devedora de Walter Benjamin e Wittgenstein. A complexidade sucessiva da abordagem, a multiplicação de referências a interlocutores internos, a reescrita contínua em resposta a múltiplos auditórios permitem a conexão entre os textos através de uma idéia mais geral que lhes serve de vínculo secreto e iluminação. Estratégia que reforça o conceito de cultura como código, marco, repertório de possibilidades.

Ao desvendar o colégio invisível dos autores e obras relevantes para a História cultural, o livro detém-se na identidade acadêmica e experiência de vida que constituiria o elemento forte de ligação entre os historiadores. Para isso, importância decisiva é atribuída aos anos de formação desses pesquisadores no pós-Segunda Guerra Mundial e à maturidade por eles alcançada na década de 1960, período marcado pela “americanização” da cultura e pela difusão do materialismo histórico no mundo acadêmico europeu. Com esse pressuposto, foi possível aos autores da obra em análise construir uma rede, tendo como epicentro a figura aglutinadora de Natalie Zemon Davis, situada na intersecção entre os expoentes da historiografia marxista britânica em sua vertente cultural e a historiografia francesa.

Serna e Pons apresentam um recorte da vertente do marxismo britânico de R. Hoggart, R. Williams, E. P. Thompson e E. Hobsbawm, ressaltando sua contribuição para o “novo materialismo cultural”, centrado na história from below e na cultura popular, nas experiências e tradições do povo comum que ocuparam os pesquisadores da universidade de Oxford.

Em Natalie Z. Davis essa proposta encontra ressonância no estudo do menu peuple e das mulheres, que alcança, em suas pesquisas, dimensão inovadora também pela leitura de M. Bakhtin e seus aportes cultura na França moderna (1975). Entusiastas admiradores de Davis, os autores reservam a esta autora um lugar destacado no colégio invisível dos historiadores da cultura, vistos em perspectiva européia.

Da historiografia vinculada aos Analles, sobressai no percurso a valorização de Os reis taumaturgos (1924), de Marc Bloch, na medida em que lhe é atribuído o papel de antecessor dos estudos de cultura, conceito que seria progressivamente dilatado em decorrência das relações estabelecidas pelos historiadores entre História e Antropologia, especialmente na École des Hautes Études em Sciences Sociales (EHESS). Ao percorrer a historiografia francesa, Serna e Pons não escondem seu entusiasmo pelo impacto causado pela vida e obra de Marc Bloch, que vem sendo, nos dias atuais, cada vez mais valorizado, e pelo “atelier parisiense”, no qual rastreiam a construção dos alicerces da antropologia histórica que permitiu o florescer da História cultural, desde os “pais fundadores” da Nova História até Roger Chartier, passando das mentalidades à história sociocultural.

O largo alcance territorial do colégio invisível da História cultural, pulverizado entre o Velho e o Novo Mundo, inclui também a universidade de Princeton, nos Estados Unidos, considerado o “laboratório” que acolheu Roger Chartier, Peter Burke, Natalie Z. Davis e Carlo Guinzburg, em torno da liderança de Lawrence Stone.

A este coube papel destacado pela reflexão de balanço do estatuto epistemológico da História que clareou os avanços da disciplina em direção aos estudos de cultura, na qual o estilo narrativo e o viés etnográfico permitem evocar no leitor um “efeito presencial”.

Melhor dizendo, por tratar-se de uma História vivamente construída, sugere ter sido o historiador testemunho presencial dos fatos e interlocutor direto de seus personagens. Muito contribuiu para tal efeito o retorno da narrativa no discurso histórico, inovador porque tornado complexo com a alternância de descrição e análise que permitem configurar a cultura em perspectiva histórica, e alcançar substituição da Sociologia e da Economia pela Etnologia, como referente dominante nas ciências sociais.

Não deixam de assinalar a figura destacada que Clifford Geertz ocupou na virada antropológica da História ao propor, em A interpretação das culturas (1987) e em O antropólogo como autor (1989), a construção de miniaturas etnográficas ricas em significado e iluminadoras de comportamentos e códigos reguladores das grandes paisagens culturais. Seu modelo interpretativo apropriado pelos historiadores permite a leitura da cultura como texto no qual o evento constituiria um signo, em micro-dimensão, cujo sentido está à espera de interpretação pelo observador externo, a exemplo do enfoque micro-analítico realizado por R. Darnton em O grande massacre dos gatos (1984).

Com tais marcos de referência, Serna e Pons percorrem ainda as mais recentes tendências historiográficas como o linguistic turn e a virada auto-reflexiva que resulta na análise da obra histórica como objeto cultural que finaliza o longo percurso historiográfico iniciado na fundação dos Annales, e construído em conexões transnacionais.

Vale a pena salientar o aspecto didático da obra que faz dela um sólido instrumento para os praticantes do gênero. A lamentar-se, apenas, a ausência de referências ao desenvolvimento dos estudos do campo no país de origem dos autores.

Teresa Malatian – Prof. Adjunto do Departamento de História da Faculdade de História, Direito e Serviço Social – UNESP, Campos de Franca. E-mail: tmalatian@uol.com.br.  Acessar publicação original

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A escrita da História: livro didático e ensino no Brasil (1970-1990) – GATTI JÚNIOR (AN)

GATTI JÚNIOR, Décio. A escrita da História: livro didático e ensino no Brasil (1970-1990). Bauru: EdUSC; Belo Horizonte: Editora da UFU, 2004. 252p. Resenha de ROIZ, Diogo da Silva. Anos 90, Porto Alegre, v.14, n.25, p.229-235, 2007.

A escrita da história nos livros didáticos de ensino fundamental (e médio) no Brasil é tema que vem despertando a atenção de estudiosos de Educação, Ciências Sociais e História desde, pelo menos, os anos de 1980. Evidentemente, encontram-se estudos pioneiros antes desse período, muito embora fossem esparsos. Com o desenvolvimento dos programas de pós-graduação no país, a partir dos anos de 1970, avançou-se consideravelmente no número, densidade e discussões da historiografia brasileira sobre a história dos livros didáticos no país. A tese de Circe Bittencourt, Livro didático e conhecimento histórico, que foi defendida em 1993 na Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo, é um bom exemplo da forma como as pesquisas sobre a produção, divulgação e usos dos livros didáticos de história se desenvolveram de lá para cá. Foi seguindo os passos dessa historiografia que, em 1998, Décio Gatti Júnior defendeu, na Pontifícia Universidade Católica (PUC) de São Paulo, sua tese Livro didático e ensino de história: dos anos sessenta aos nossos dias.

Edusc, em co-edição com a Edufu. Uma alteração substancial do texto, ora publicado, foi a exclusão das entrevistas que o autor fez em 1997 com autores de livros didáticos e editores, provavelmente em função da quantidade de páginas do material. O livro permaneceu dividido em três capítulos.

Na apresentação assinada pela professora Ester Buffa, orientadora do trabalho, desenvolvido entre 1994 e 1998, esta já esclarece as características do texto para o leitor, dando ênfase às suas contribuições para o tema. Para ela:

Ao buscar uma explicação, depois de analisar toda uma enorme coleção de livros didáticos de História, o autor, apoiado num referencial teórico-metodológico adequado, empreende uma análise do livro didático que passa pela sua escrita e confecção. Mostra como se passou, quanto à escrita, do autor individual à equipe técnica responsável (cap. 1) e quanto à confecção, da produção artesanal à indústria editorial (cap. 2).

Finalmente, focaliza as transformações ocorridas na escola e na sociedade brasileiras que fizeram com que o livro didático se tornasse definidor do processo de ensino-aprendizagem (cap. 3).(Gatti Júnior, 2004, p. 12-3).

Indica ainda que, por seu recorte inédito e suas análises, a leitura do livro é recomendada para os alunos de cursos de graduação em História, Ciências Sociais e Pedagogia, e ainda para os estudiosos da História da Educação e das Teorias do Currículo de História do Ensino Fundamental e Médio das escolas publicas do país.

Na introdução, o autor indica o que o levou a fazer essa pesquisa (além da questão formal do título de doutor na área de Educação), quais foram seus questionamentos e suas hipóteses. Segundo ele, “part[iu]-se da idéia de que, a partir da década de 1960, quando teve início o ainda inconcluso processo de massificação do ensino brasileiro, tenha ocorrido: a transformação dos antigos manuais individual à equipe técnica responsável pela elaboração dos produtos editoriais voltados para o mercado escolar; e a evolução de uma produção editorial quase artesanal para a formação de uma poderosa e moderna indústria editorial” (Idem, p. 16). Cada uma daquelas características correspondeu a cada um dos três capítulos do livro, tal como, acima, Ester Buffa já havia referido. Ressalta ainda que “a delimitação espacial foi se solidificando concomitantemente ao avanço do desenvolvimento da investigação, na qual os sujeitos envolvidos encontravam-se nas cidades de São Paulo, Belo Horizonte e João Pessoa, bem como os empreendimentos editoriais enfocados concentravam-se na região sudeste do Brasil” (Idem, p. 17). Para atingir seus objetivos, pautou-se metodologicamente nos procedimentos de André Chervel sintetizados no texto História das disciplinas escolares, traduzido no Brasil em 1990. Observa que:

[…] a partir dos relatos feitos pelos autores e editores de diversas coleções didáticas, foi possível perceber que a constituição dos conteúdos disciplinares, expressos nos livros didáticos, não era a transposição dos saberes produzidos na pesquisa científica, mas sim, resultado de um leque amplo de fatores, tais como: as novidades produzidas no âmbito das ciências, que são selecionadas conforme as opções teóricometodológicas dos autores e, por vezes, dos editores; as mudanças curriculares e programáticas provenientes dos diversos órgãos que legislam sobre a educação escolar; a sociedade civil, especialmente a mídia que por vezes conduz o aparecimento ou a valorização de certas temáticas em detrimento de outras. (Idem, p. 18).

Assim, ao destacar a escolha do período, do recorte do tema e das fontes, o autor preocupou-se em expor a procedência dos livros didáticos que pesquisou e onde pesquisou. Por outro lado, o tema e as fontes para a pesquisa justificavam-se ainda, segundo ele, porque além “de desempenhar esse papel central no cotidiano mencionar, no exercício profissional dos educadores dos mais diferentes níveis, os livros didáticos desde há muito são ainda o produto mais vendido pelas editoras nacionais” (Idem, p. 26).

E desde que surgiram, “os livros didáticos ganhavam, em pleno século XVII, uma função que conservam até os dias de hoje, a de portadores dos caracteres das ciências. De fato, durante os séculos subseqüentes, a palavra impressa, principalmente aquela registrada na forma de livros científicos, ganharia um estatuto de verdade que ainda hoje se dissemina em grande parte dos bancos escolares e da vida cotidiana das pessoas” (Idem, 36).

Como estariam caracterizados os processos de editoração e distribuição dos manuais escolares e dos livros didáticos no Brasil? Como definir a sua periodização? Essas questões foram fundamentais para o autor definir precisamente o seu recorte, e ao mesmo tempo pensar a história dos livros didáticos de ensino fundamental (e médio) no Brasil. Nas suas palavras:

O período compreendido entre as décadas de 1930 e 1960 caracterizou-se, no que diz respeito aos manuais escolares, da seguinte forma: foram livros que permaneceram por longo período no mercado sem sofrer grandes alterações; livros que possuíam autores provenientes de lugares tidos, naquela época, como de alta cultura, como o Colégio D. Pedro II [fundado em 1838]; livros publicados por poucas editoras que, muitas vezes, não os tinham como mercadoria principal e, por fim, livros que não apresentavam um processo de didatização e adaptação de linguagem consoante as faixas etárias às quais se destinavam. Nesse sentido, a década de 1960 foi o momento da transição desses manuais escolares para os livros didáticos do final da década de 1990, pois todas as características mencionadas foram paulatinamente sendo transformadas e adaptadas a uma nova realidade escolar […]. (Idem, p. 37).

A proposta do autor no livro começava, nesse sentido, por estudar, no primeiro capítulo, o lento e gradual processo de transição do autor individual para a equipe técnica responsável pela produção, diagramação e editoração dos livros didáticos de História de ensino fundamental (e médio) (e médio). Para demonstrar essa passagem, o autor contou com a contribuição da professora Joana Neves, que escreve livros didáticos desde 1975, do professor José Jobson de Andrade Arruda, autor de livros didáticos desde 1976, e dos professores Ricardo de Moura Faria, que escreve desde 1975, e Flávio Costa Berutti, que começou em 1986. Todos eles, a partir de entrevistas, permitiram que o autor fosse historiando as mudanças na linguagem, na adaptação ao público, na profissionalização do processo de editoração e na distribuição dos livros didáticos, a partir da década de 1970. O autor, demonstrando as diferenças e proximidades, compara as trajetórias acadêmicas de cada um dos entrevistados. Finaliza a análise do capítulo discutindo questões como a formação da memória nacional, da verdade no discurso histórico, da periodização em história, a rotina de trabalho, a relação com os editores e a maneira como cada um deles percebeu as mudanças que foram ocorrendo na escrita e na editoração dos livros didáticos.

No segundo capítulo, volta-se para a forma como ocorreu a passagem de uma produção tipicamente artesanal, para uma verdadeira indústria editorial especializada na produção de livros didáticos de História (e outras áreas do saber) de ensino fundamental (e médio) no país. Para contribuir com essa demonstração, também como no capítulo anterior, o autor se pautou em entrevistas realizadas em 1997 com os editores Alexandre Faccioli, da Saraiva, Lino Fruet, também da Saraiva, José Orlando Cunha, da Editora Lê, e João Guizzo, na época diretor da Ática. Também procurou indicar as semelhanças e diferenças entre cada um deles, como viram o desenrolar do processo nas suas editoras e no mercado editorial brasileiro, e como se relacionavam com os autores de livros didáticos durante esse período.

No terceiro capítulo, procurou evidenciar a passagem da escola voltada para as elites, para uma escola de massas, na qual o produto central passava a ser o livro didático. Nesse capítulo, o autor mescla as contribuições dos autores de livros didáticos e dos editores entrevistados, para melhor demonstrar essa passagem e como ela foi recebida pelo mercado editorial brasileiro. Evidencia como autores e editores passaram a se preocupar com o currículo, os programas oficiais, a diversidade regional, e em conseqüência disso melhorar o serviço de distribuição e editoração de livros didáticos e paradidáticos.

Nesse processo, o autor mostra a importância que os livros didáticos passaram a ter na veiculação de conteúdos escolares, no processo de ensino-aprendizagem, norteado por procedimentos metodológicos que incluíam o uso de letras de música, filmes e imagens no trabalho dos professores com seus alunos. Finaliza o capítulo evidenciando como os livros didáticos passaram a ser o produto central de várias editoras, que, para melhor distribuírem seus títulos no mercado, definiam sofisticadas estratégias de divulgação e publicidade perante a sociedade, as escolas e os professores do ensino fundamental (e médio) no país.

A leitura desse livro, nesse sentido, oferece ao leitor um conhecimento pormenorizado de como os livros didáticos de história de ensino fundamental (e médio) foram escritos e produzidos nas últimas décadas, com destaque para a passagem do autor individual para a equipe técnica especializada, da produção artesanal à indústria editorial de confecção de livros didáticos e paradidáticos e, finalmente, das mudanças da escola voltada para a elite se ampliar e abranger as massas. Nas suas palavras:

O governo federal, maior comprador de livros didáticos das editoras privadas, passava a observar com mais atenção aquilo que adquiria para distribuir à população carente [em função da inflação do mercado editorial de livros didáticos no país e da definição, pelo MEC, de formas mais eficientes de avaliação dos livros didáticos produzidos e distribuídos massas, que suplantou o de elite do início do século XX, ganhava em qualidade, ainda que faltassem livros aos alunos do ensino médio e verbas suficientes para a aquisição de livros pelas bibliotecas escolares. (Idem, p. 238).

De modo que o texto é uma bela contribuição para o tema, e certamente será um convite para novas pesquisas sobre o assunto

Diogo da Silva Roiz – Mestre em História pelo Programa de Pós-Graduação da UNESP, Campus de Franca. Coordenador do curso de História da Universidade Estadual do Mato Grosso do Sul (UEMS), Campos de Amanbaí.

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PINSKY Carla Bassanezi (Org), Fontes históricas (T), Contexto (E), ROIZ Diogo da Silva (Res), Anos 90, Fonte histórica, Ensino de História, Metodologia da História, Pesquisa histórica

PINSKY, Carla Bassanezi (Org.). Fontes históricas. São Paulo: Contexto, 2005. 302p. Resenha de: ROIZ, Diogo da Silva. Anos 90, Porto Alegre, v.14, n.26, p.227-233, 2007.

Diogo da Silva Roiz – Mestre em História pelo Programa de Pós-Graduação da UNESP, Campus de Franca. Coordenador do curso de História da Universidade Estadual do Mato Grosso do Sul (UEMS), Campos de Amanbaí.

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Jango: as múltiplas faces – FERREIRA; GOMES (AN)

FERREIRA, Jorge; GOMES, Ângela de Castro. Jango: as múltiplas faces. Rio de Janeiro: Editora da FGV, 2007. 272p. Resenha de: RODEGHERO, Carla Simone. Anos 90, Porto Alegre, v.14, n.26, p.235-242, 2007.

Jango: as múltiplas faces, de Ângela de Castro Gomes e de Jorge Ferreira, é um livro que foi pensado a partir do reconhecimento de que a memória e a história sobre João Goulart se concentram no período da presidência da República e a partir da percepção de que, ainda hoje, esse personagem histórico continua suscitando paixão e polêmica. Para mostrar que a atuação política de Jango foi muito mais longa do que seu mandato presidencial, os autores optaram por produzir uma narrativa biográfica acompanhando a trajetória de Jango e contemplando tanto sua dimensão política quanto a pessoal. (p. 9). Optaram também por mostrar que essa trajetória foi multifacetada. Segundo Gomes e Ferreira, as múltiplas faces de Jango vão além da pluralidade constitutiva do homem moderno., já que Goulart pode ser caracterizado, por excelência, como um personagem assinalado pelo contraditório, sendo, por isso, um desafio para interpretações que se queiram unívocas e lineares. (p. 9).

Essa percepção ganha corpo, a cada capítulo do livro, com a apresentação de um vasto conjunto de depoimentos e de alguns pessoal de Jango aí retratado. Assim, após uma exposição elabora- da pelos autores e acompanhada por imagens, são transcritos os depoimentos e os demais documentos, que possibilitam que o leitor se confronte com a diversidade dos pontos de vista a respeito de João Goulart. Com esta estratégia, os autores buscaram escrever uma biografia aberta à interpretação dos leitores., (p. 10) sem, no entanto, descartar o auxílio e a mediação dos historiadores.

A maior parte das entrevistas foi recolhida no acervo de depoimentos do Setor de História Oral do Centro de Pesquisa e Documentação de História Contemporânea do Brasil, da Fundação Getúlio Vargas. São entrevistas realizadas no contexto de diferentes projetos de pesquisa, desenvolvidos desde a década de 1970. Outras, mais recentes e relacionadas à trajetória pessoal de Jango, foram recolhidas pelos autores. Entre os depoentes estão familiares e pessoas próximas da família, como a esposa, Maria Thereza; a filha, Denise; o procurador Bijuja. Outro grupo é formado por membros do PTB e do governo deposto, como Abelardo Jurema, Ministro da Justiça entre 1963-1964; Almino Afonso, Ministro do Trabalho e da Previdência Social, em 1963; Evandro Lins e Silva, Chefe do Gabinete Civil da Presidência da República e Ministro das Relações Exteriores, em 1963; Hugo de Faria, Ministro do Trabalho em 1954, Chefe do Gabinete Civil da Presidência da República em 1963 e Presidente do Banco do Brasil em 1964; Leonel Brizola, governador do Rio Grande do Sul entre 1958 e 1962 e deputado federal pela Guanabara, eleito em 1962; Raul Ryff, Secretário de Imprensa da Presidência da República entre 1961 e 1964; e Wilson Fadul, Ministro da Saúde, entre 1963 e 1964. Também são apresentados depoimentos de apoiadores e de opositores políticos, que revelam os diferentes níveis de apoio e de oposição que se fizeram sentir ao longo da trajetória política de Jango. No primeiro caso, têm-se, entre outros, Francisco Julião, Deputado federal e líder das Ligas Camponesas, e Hércules Correia, ser citados Afonso Arinos de Mello Franco, da UDN, e os milita- res ligados ao golpe, Antônio Carlos Muricy e Ernesto Geisel.

Os depoimentos são apresentados ao final de cada capítulo, aprofundando, exemplificando, complexificando e enriquecendo a narrativa dos autores. No final do livro, o leitor encontra um quadro com a relação dos depoentes, com um breve currículo dos mesmos, a data da entrevista e o nome dos entrevistadores. Porém, como boa parte dos entrevistados não é automaticamente reconhecida pelo leitor comum e mesmo pelo especializado, fica faltando, no momento em que cada depoimento é apresentado, a remissão a uma nota de rodapé que permita situar, com rapidez, quem está falando, qual sua relação com os fatos em discussão, para quem está falando e quando concedeu a entrevista. Este de- talhe técnico beneficiaria o leitor, já que a consulta ao quadro final quebra o ritmo da leitura e prejudica a avaliação sobre as escolhas feitas pelos autores quando da seleção dos depoimentos. Por outro lado, várias notas explicativas acompanham os capítulos, mas elas se referem a personagens, fatos, instituições, leis que são, muitas vezes, de maior conhecimento público do que a trajetória ou filiação política dos depoentes.

Feita esta breve apresentação da obra, antes de entrar no relato das múltiplas faces de Jango., é preciso lembrar que a trajetória de pesquisa de Gomes e Ferreira sobre os temas do getulismo e do trabalhismo torna-os altamente qualificados para escrever sobre João Goulart. Ao longo das últimas décadas, seus trabalhos têm contribuído para repensar fenômenos da história brasileira pós- 1930, especialmente no que diz respeito ao período que é inaugurado com a redemocratização de 1945 e com a Constituição de 1946.

Boa parte das manifestações políticas e sindicais desse período havia sido alvo de severas avaliações e críticas, construídas a partir do conceito de populismo, ao longo dos anos 1960 e 1970.

Gomes e Ferreira têm realizado trabalhos pioneiros que permitem repensar tais interpretações. Além disso, o próprio personagem João Goulart já foi alvo de atenção direta de ambos os autores, em diversas oportunidades.

Ao longo do primeiro capítulo, o leitor acompanha João Goulart desde seu nascimento, em 1919, até sua entrada no mundo da política. Fica sabendo a respeito das posses da família em São Borja, do curso de Direito realizado em Porto Alegre e da posterior volta à terra natal para assumir os negócios, após a mor- te do pai. Acompanha, em São Borja, a rotina do jovem Jango transformada com a chegada de Getúlio Vargas, no final de 1945, seu posterior envolvimento com a criação do PTB e sua eleição para a Assembléia Legislativa gaúcha em 1947. É informado sobre o aprofundamento da sua atuação política nas articulações para a eleição de Vargas em 1950, ano em que Goulart também é eleito deputado federal. Neste capítulo, ainda é descrito o período de 13 meses, durante o qual Jango se afastou do mandato para atuar como Secretário do Interior e da Justiça no Governo de Ernesto Dornelles, no Rio Grande do Sul. Sabe-se, finalmente, que ao reassumir o cargo, no Rio de Janeiro, Vargas lhe concedeu um gabinete de trabalho no Palácio do Catete. Lá, Jango seria muito mais visto do que no Congresso Nacional.

Essa trajetória de envolvimento na política se consolidou com a passagem de Jango pelo Ministério do Trabalho, em 1953, o que é tratado no segundo capítulo da obra. Neste momento, teria se revelado a capacidade de negociação de Goulart, mediando questões entre empresários e trabalhadores, como aconteceu na greve dos marítimos. Medidas como a abolição do atestado ideológico para dirigentes sindicais permitiram a atuação em conjunto de lideranças trabalhistas e comunistas. A informalidade com que Jango se dirigia a essas lideranças aceitando, inclusive, convites para churrascos em final de semana para discutir demandas sindicais de trabalhadores, segundo relatam os autores, chocou setores da sociedade brasileira. A estada no Ministério culminou com militares com ampla repercussão levou à saída de Goulart da pasta do Trabalho.

Antes da entrada no Ministério, porém, Jango havia assumi- do a Presidência do PTB. O terceiro capítulo trata do sindicalismo no período entre 1945 e o começo da década de 1960, mostrando as aproximações entre os trabalhistas e o PCB. Em parte desse período, Jango viria a ocupar a vice-presidência da República (nos governos Juscelino Kubitschek e Jânio Quadros). Naquela época, como se lê no quarto capítulo da obra, ser vice-presidente exigia fazer uma campanha à parte e, depois de eleito, assumir, entre outros encargos, a presidência do Senado. Segundo os autores, ser vice-presidente significava possuir espaços políticos próprios extremamente visíveis e valiosos. (p. 111). A junção das possibilidades oferecidas pelo cargo com a prévia experiência de diálogo de Jango. que mantinha forte influência sobre o Ministério do Trabalho com o movimento sindical, teria contribuído para a estabilidade política do governo JK. O relacionamento com Jânio, todavia, teria sido mais difícil, já que o presidente fazia questão de demonstrar seu distanciamento em relação ao vice, eleito pela chapa oposta. O episódio da renúncia de Jango e a campanha da Legalidade também são narrados neste capítulo.

No capítulo seguinte, os autores se debruçam sobre o período em que Jango esteve na Presidência da República. Nesta parte, são enfatizados, entre outros aspectos, o seu programa nacionalista mínimo; as dificuldades com os credores internacionais; a falta de apoio no Congresso, onde PSD e PTB divergiam sobre questões essenciais do programa de governo; o afastamento das forças reformistas da estratégia da luta parlamentar; as substituições de gabinetes e o plebiscito que aprovou a volta do presidencialismo.

A partir dessa fase, é apresentado o Plano Trienal, com suas metas e a conjuntura que levou ao seu abandono. O capítulo é concluído com o tratamento da crescente radicalização política que atingiu optativas de negociação, aproximando-se das organizações que, ao longo do tempo, mais abertamente o sustentaram: o movimento sindical e as esquerdas radicais. (p. 144).

O golpe de 1964 é tratado no penúltimo capítulo do livro, que narra os acontecimentos que se seguiram ao comício de 13 de março: a revolta dos marinheiros e fuzileiros navais, o compareci- mento do presidente à solenidade de posse da nova diretoria da Associação dos Sargentos, no Automóvel Clube, o levante em Minas Gerais e a movimentação de Goulart até sua saída para o Uruguai. O não-apelo à resistência estaria ligado à percepção do Presidente de que havia um alto risco de guerra civil. (p. 196).

Jango no exílio. é o capítulo que encerra a biografia. Aí é tratado o rompimento definitivo entre Goulart e Brizola, depois de uma curta aproximação. Fica-se sabendo que após um ano de exílio, Jango passou a se dedicar a investimentos agropecuários no Uruguai. Por conta disso, além de engordar bois, tornou-se um dos maiores fornecedores de arroz daquele país. São brevemente descritas as articulações em torno da Frente Ampla, logo tornada ilegal. Vigiado pelo Serviço Nacional de Informações (SNI), o ex-presidente afastou-se de qualquer atividade política, voltando a se dedicar exclusivamente a seus negócios pessoais. (p. 231). Sofreu um enfarte em 1969, viu a sua situação e a da família se com- plicarem com o golpe de 1973, no Uruguai. Em 1974, passou a residir em Buenos Aires. Na Argentina, continuou com seus negócios agropecuários e comprou propriedades. Sua saúde, no entanto, estava debilitada: Jango alimentava-se mal, fumava e bebia muito, sofrendo de bruscas quedas de pressão arterial, desmaios e dores no peito. (p. 232). Em 1976, após receber ameaças de que seus dois filhos seriam seqüestrados, Goulart os enviou para Londres. Fez gestões para voltar ao Brasil. Em 6 de dezembro daquele ano, morreu no exílio, vítima de um enfarto fulminante.

para os autores do livro, o conjunto dos depoimentos e documentos apresentados instiga o leitor a tirar suas próprias conclusões, dialogando com a narrativa dos capítulos. Os autores resgataram também a própria voz de João Goulart, apresentando alguns discursos por ele proferidos, um dos quais no formato de CD. Tal material permite empreender uma série de comparações e de questionamentos. Avaliações absolutamente contrastantes sobre Jango convivem, em tais documentos, com diferentes valorações atribuídas a certas características pessoais ou políticas de João Goulart. A leitura dos depoimentos suscita questionamentos sobre como era visto e como foi descrito o preparo (ou a falta de preparo) de Jango para o cargo de Presidente da República; sobre as avaliações a respeito da consistência do seu programa de reformas de base e sobre a sinceridade no propósito de realizá-las; sobre o paradoxo de o rico proprietário de terras propor uma reforma agrária; sobre a sua capacidade de dialogar e de construir consensos, em situações nas quais os interlocutores eram sindicalistas e quando o diálogo precisou ser feito com os setores mais conserva- dores da sociedade brasileira. O perfil que os autores apresentam de Jango, como um governante que queria dialogar e, ao mesmo tempo, fazer as reformas acontecerem, faz pensar sobre o papel da conciliação e da radicalização na política brasileira, dos anos 1960 aos dias atuais.

Finalmente, é preciso chamar a atenção, no livro de Gomes e Ferreira, para a importância do recurso à memória na escrita da história recente do Brasil e para as contribuições da História Oral nesta tarefa. Isso é particularmente fecundo no caso de Jango, um personagem polêmico que, apesar de ter uma longa trajetória política, ainda é associado quase exclusivamente à derrota representada pelo golpe de 1964. Isso se deve, creio, ao fato do golpe e do regime militar serem, ainda hoje, marcos fundamentais da nossa da ditadura ainda permeiam boa parte das discussões políticas no Brasil. Ao mesmo tempo, cada vez mais, instigam historiadores a se voltarem a este período e àquele que o antecedeu. Desta tendência fazem parte livros como Jango: as múltiplas faces.

Notas

1 Sobre outras publicações dos autores sobre o assunto ver: Ferreira, Jorge. O governo Goulart e o golpe civil-militar de 1964. In: Jorge Ferreira; Lucília de Almeida Neves Delgado. (org.). O Brasil Republicano O tempo da experiência democrática – Da democratização de 1945 ao golpe civil-militar de 1964. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2003, v. 1, p. 343-425; Ferreira, Jorge. A estratégia do confronto: a Frente de Mobilização Popular. Revista Brasileira de História, São Paulo, v. 24, n. 47, p. 181-212, 2004. Ferreira, Jorge. O imaginário trabalhista. Getulismo, PTB e cultura política popular (1945-1964). Rio de Janeiro: Editora Civilização Brasileira, 2005 (especialmente os capítulos: O ministro que conversava: João Goulart no Ministério do trabalho; A legalidade traída: os dias sombrios de agosto e setembro de 1961 e O último ato: sexta-feira 13 na Central do Brasil). Ver ainda: Ferreira, Jorge (org.). O populismo e sua história. Debate e crítica. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2001. No que se refere a Ângela de Castro Gomes, ver: GOMES, A. M. C. . O Populismo e as Ciências Sociais no Brasil: notas sobre a trajetória de um conceito. Revista Tempo, Niterói – RJ, v. 1, n. 2, p. 59-72, 1996; GOMES, A. M. C.  Memórias em disputa: Jango, ministro do Trabalho ou dos Trabalhadores? In: FERREIRA, Marieta de Moraes (org.) João Goulart entre a memória e a história. Rio de Janeiro: FGV, 2006; e GOMES, A. M. C. O Populismo e as Ciências Sociais no Brasil: notas sobre a trajetória de um conceito. Revista Tempo, Niterói, v. 1, n. 2, p. 59-72, 1996.

Carla Simone Rodeghero – Professora do Departamento e do Programa de Pós-Graduação em História da UFRGS.

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Rebeldes literários da República: história e identidade nacional no Almanaque Brasileiro Garnier (1903-1914) | Eliana Regina de Freitas Dutra

Corria a primeira década do século XX e a segunda da República no Brasil, quando a Livraria Garnier, uma das mais tradicionais e prestigiosas casas editoras do Rio de Janeiro, decidiu publicar um almanaque que marcaria os anos nos quais circulou: o Almanaque Brasileiro Garnier (1903-1914). Uma opção nada banal, pois se desejava utilizar a tradição de um gênero de impresso popular, consagrado na Europa há séculos e conhecido no Brasil, para conquistar leitores, divulgando, preferencialmente, autores e livros editados pela Garnier. Sem dúvida, uma moderna estratégia de mercado, mas que em nada prejudicava a possibilidade de difundir idéias e valores entre um amplo público leitor que acabava de ver proclamada a República. Ao menos, é assim que pensam os editores convidados para o Almanaque, Ramiz Galvão e João Ribeiro, bem como o amplo grupo de intelectuais por eles mobilizado para contribuir na publicação. Tratava-se, e esta é a tese da autora, de fazer do Almanaque Brasileiro Garnier um “vetor cultural” capaz de instruir e civilizar o povo da nova nação, ainda tão desprovida de escolas e de livros. Tratava-se de torná-lo um “substitutivo funcional do livro”, uma espécie de “biblioteca portátil” e, como tal, um instrumento eficiente para a difusão de um projeto político e intelectual (então indissociáveis), voltado para a construção de um Brasil republicano e moderno. Leia Mais

Religião como tradução: missionários, Tupi e Tapuia no Brasil colonial | Cristina Pompa

Abordagens interdisciplinares são recorrentes nas histórias das etnias americanas. Embora viabilizem uma análise mais consistente das sociedades indígenas, sobretudo de seus ritos e mitos, elas nem sempre se coadunam com a perspectiva da análise diacrônica. De todo modo, esses historiadores buscam harmonizar a diacronia à sincronia dos modelos teóricos, mas, de fato, ao recorrer às Ciências Sociais, eles, muitas vezes, negligenciam a temporalidade dos registros do passado. Este procedimento raramente é explicitado nas obras dedicadas à etno-história que, em geral, acabam por apresentar critérios pouco objetivos para estabelecer similitudes entre os conjuntos mítico-rituais. Essas filiações teóricas também incentivam uma apropriação do passado que, não raro, contraria a crítica aos testemunhos, a análise dos contextos narrativo e cultural, bem como a sua inserção social e geográfica.

Esses impasses, porém, não se encontram apenas nos escritos da história das etnias americanas. Nos anos 1990, o ambicioso livro de Carlo Ginzburg, História noturna (1989), provocou uma enorme polêmica ao combinar a morfologia e a história do Sabá, seus significados sincrônicos e desenvolvimento diacrônico. O historiador italiano pretendia, então, harmonizar o estruturalismo à perspectiva histórica dos mitos, descobrir homologias formais e reconstruir seus contextos espaço-temporais.1 Para explicar a existência de substrato comum de crenças e rituais eurasianos, Ginzburg recorreu à difusão cultural promovida pelas migrações e a uniformidade psíquica, combinação capaz de promover o entrelaçamento entre história e morfologia. Leia Mais

Forças Armadas e Política no Brasil | José Murilo de Carvalho

As reflexões sobre a história das Forças Armadas no Brasil têm mudado seu foco nos últimos anos. Com maior zelo empírico e com menor propensão para apriorismos teóricos e políticos, um conjunto crescente de pesquisadores – composto de civis e militares, é bom que se diga – tem ampliado seus interesses, fazendo com que a historiografia sobre as Forças Armadas no Brasil cresça em quantidade e qualidade. Melhor ainda: o debate historiográfico tem sido enriquecido pela variação temática e pelo aperfeiçoamento teórico e metodológico, com proveitos recíprocos. Ao invés de esses pesquisadores se ocuparem quase exclusivamente com a intervenção militar na política, a instituição castrense é estudada como um todo, sem prejuízo de suas relações com a sociedade não fardada.

Nesse sentido, é oportuna a publicação do livro de José Murilo de Carvalho, “Forças Armadas e Política no Brasil” (Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2005), coletânea de artigos e ensaios escritos pelo autor ao longo de mais de duas décadas de pesquisa sobre as forças armadas brasileiras. A estrutura do livro é dividida em três partes: a primeira delas, “História”, reúne os artigos mais “clássicos” e metodologicamente basilares das reflexões sobre a trajetória das Forças Armadas brasileiras no século XX. Leia Mais

Voltaire político: espelhos para príncipes de um novo tempo | Marcos Antônio Lopes

Voltaire, um conservador?

Nesse novo livro, o professor Marcos Antônio Lopes oferece uma interpretação de como Voltaire, considerado pelo autor como o “Plutarco do Iluminismo”, analisou a política de sua época e escreveu sobre ela, descrevendo a organização de sistemas de governo e a maneira como os príncipes e imperadores da época manifestavam sua ação perante o Estado, em suas biografias comparativas. O texto foi originalmente uma tese de doutorado em História, defendida em 1999, na Universidade de São Paulo. Partes da tese já foram publicadas, em versões reformuladas, sob os títulos de: Voltaire literário em 2000, pela Editora Imaginário, e Voltaire historiador em 2001, pela Editora Papirus. O que o leitor encontra neste novo livro é a parte inédita da tese, que também aparece bastante revista pelo autor. O texto foi dividido em cinco capítulos, antecipados por uma introdução e por uma bela apresentação escrita pelo professor Norberto Luiz Guarinello. Leia Mais

Los usos de las imágenes: estúdios sobre la función social del arte y la comunicación social | Ernst H. Gombrich

Ernst Gombrich (1909-2001) é um dos historiadores da arte mais bem-conceituados internacionalmente. Sua obra abrange livros como A história da arte, Arte e ilusão e vários volumes que reuniram ensaios como: Temas de nuestro tiempo, Meditations on a Hobby Horse, La imagen y el ojo, entre outros. No decorrer de sua trajetória intelectual, ministrou aulas de História da tradição clássica, na Universidade de Londres e foi diretor do Instituto Warburg, organização deslocada para a capital da Inglaterra após a diáspora causada pelo nazismo, que obrigou intelectuais alemães a se exilarem em várias partes do mundo.

A produção de Gombrich, como destacou Omar Calabrese (1987), apresenta traços do chamado “visualismo” de Riegl e do “formalismo” de Wolfflin – pesquisadores germânicos com os quais conviveu no Instituto Warburg. Tanto é que criticou duramente as abordagens sobre a arte, fundamentadas em princípios sociológicos, como foi o caso da obra Historia social da literatura e da arte, de Arnold Hauser (1982). Leia Mais

Arquitetura Metropolitana | Denise Xavier de Mendonça

“Não há como pesquisar a arquitetura metropolitana à distância. É preciso abordá-la submersa na congestão urbana, inscrita em relações dinâmicas, mensurada com escalas que se modulam em quantidade, extensão e qualidade de variáveis múltiplas. A realidade da arquitetura metropolitana só pode ser percebida em um mergulho. É necessário tornarmo-nos mais um elemento interferente nessa complexidade congestionada”. Este breve fragmento textual pinçado no livro Arquitetura Metropolitana não é somente explicitação metodológica de construção da pesquisa acadêmica realizada por Denise Xavier, mas fundamentalmente o processo inerente e consubstanciado na própria trajetória profissional da autora. Neste sentido, os processos de interpretação e pensamento sobre a arquitetura não são descolados ou indistintos dos processos de produção da sua própria arquitetura. Em ambos processos, Denise Xavier empreende um mergulho comprometido com dimensões do mundo social, que estão absolutamente associados aos denominados idealistas e ingênuos: a dimensão ética, a dimensão estética e a dimensão política.

No mergulho que cada leitor realizar pelas páginas do livro Arquitetura Metropolitana, certamente encontrará o comprometimento da autora com as premissas de um ofício profissional que está na base da estruturação física das cidades: a arquitetura, ou, como em alguns momentos surge no livro, arquiteturas. Uma estruturação determinante das relações simbólicas e de identidades que são constitutivas da vida em sociedade, da vida pública, da vida que deveria se manter repleta de urbanidade: em tudo que esta vida nas cidades aglutina de diferenças e divergências. As arquiteturas selecionadas pela autora para a compreensão do processo de construção da identidade metropolitana da cidade de São Paulo, a partir da década de 1950, estavam absolutamente integradas nesta construção.

O edifício do Jornal O Estado de São Paulo, o Copan, o edifício Itália e o Conjunto Nacional são realizações que não somente exploram qualitativamente as possibilidades formais, estruturais e espaciais específicas de cada empreendimento, mas também proporcionam e ampliam os espaços da vida pública. São arquiteturas cujas concepções não renegaram as dinâmicas urbanas, as relações entre os ambientes públicos e privados, as interações entre os sistemas de áreas livres e as áreas passíveis de edificação. A compreensão destes aspectos é o ponto nevrálgico do trabalho realizado por Denise Xavier nesse estudo: entender que as arquiteturas não estão desconectadas da cidade, que para pensar arquitetura é preciso pensar a produção da cidade – condição ainda pouco enunciada e enfrentada na historiografia da arquitetura no Brasil.

A organização do livro evidencia este entendimento entre a interpretação da produção arquitetônica e a produção da cidade. Nos dois primeiros capítulos, que em verdade entendo como sendo um único, pela problemática central que os amalgama, qual seja, a da construção da metrópole ao longo do século XX, a autora apresenta as bases urbanísticas, econômicas e políticas desta construção. São Paulo metropolitana tem suas origens instituídas na concepção de cidade pensada por Prestes Maia e Ulhoa Cintra em artigos escritos para o Boletim do Instituto de Engenharia, no ano de 1924. A década de 1950 entra no texto como recorte temporal privilegiado, ápice do processo contínuo de mudanças, sobreposições, apagamentos que reflui da dinâmica de uma cidade em movimento. Para a autora, a cidade se reconhece como metrópole, centro econômico propulsor e condensador das ações que instituem o novo, uma nova ordem urbana e uma nova ordem arquitetônica revelada especialmente nos aspecto vertical das arquiteturas analisadas no livro.

Entretanto, capítulo(s) que pouco ainda reverbera(m) a sensibilidade do olhar objetual-arquitetônico-formal da autora, em sua aguda e instigante capacidade de análise das arquiteturas selecionadas, ou melhor, de qualquer outra arquitetura. Este olhar será enunciado no capítulo dedicado à leitura dos projetos. Leitura e não análise, como está proposto na estrutura do livro. Leitura, pois, no mais puro sentido da palavra, aquele em que se lê decifrando significados construtivos e formais de cada palavra em um texto escrito. Portanto, significados construtivos e formais de cada arquitetura desde a sua concepção-representação (aquela delineada cuidadosamente no papel vegetal à nanquim), até sua instauração como elemento constitutivo das dinâmicas da metrópole em construção. No capítulo dedicado ao estudo dos projetos existe uma articulação entre cada uma das arquiteturas, cuja especificidade torna evidente o entendimento das suas relações com a cidade: a articulação pelos sistemas de circulação que articulam a cidade ao edifício em questão. Sobretudo em uma metrópole capitalista efervescente da década de 1950, os indícios de deslocamento, de movimento, estão impregnados em todos os elementos que perfazem a cidade: nos trens, nos carros, nos relógios, nas pessoas, nas ruas, nas avenidas, na infra-estrutura urbana. Os arquitetos autores dos projetos souberam compreender esta informação, esta transformação, esta incorporação no cotidiano da metrópole. Denise Xavier soube realizar uma leitura atenta à interface dos objetos com os sistemas de circulação vertical e horizontal, respectivamente, o sistema que articula as esferas privadas dedicadas ao trabalho, à moradia, ao lazer, à alimentação, com o sistema que agrega aos edifícios uma importante dimensão urbana.

O primeiro sistema estava intimamente relacionado às novas tecnologias construtivas e mecânicas, atuava e atua como elemento estruturante no processo de verticalização das cidades por possibilitar o deslocamento vertical: o elevador – elemento cuja espacialidade e produção industrializada não apresentava maiores distinções nos edifícios. O segundo sistema está associado aos aspectos instituídos de positividade que a vida urbana representava. É distinto formal-espacialmente para cada arquitetura, empreende relações particularizadas e articuladas aos edifícios em estudo com a cidade, e estrutura a inquestionável associação do objeto aos espaços livres: são passagens internas, galerias e verdadeiras ruas que adentram, intercambiam, articulam cidade e arquitetura. Talvez em menor intensidade no edifício do Jornal O Estado de São Paulo, nos outros edifícios a dinâmica urbana adentra sem barreiras, sem receios os espaços de uso coletivo dos edifícios, os “espaços urbanos das edificações”, do urbano arquitetônico. O olhar sensível da autora para a leitura da arquitetura, associado ao procedimento metodológico enunciado naquele texto pinçado do livro – que integra a parte do livro escrita em parceria com Kazuo Nakano –, especialmente quando afirma que “não há como pesquisar a arquitetura metropolitana à distância. É preciso abordá-la submersa na congestão urbana, inscrita em relações dinâmicas, mensurada com escalas que se modulam em quantidade, extensão e qualidade de variáveis múltiplas”, fazem desse capítulo de estudo dos edifícios o eixo convergente e central de todo livro, de toda a narrativa.

Uma narrativa encerrada num texto em que a autora propôs pensar o contínuo do movimento de metropolização pela contraposição destas arquiteturas analisados com edificações que representam o absoluto esvaziamento da vida urbana, da vida pública, da urbanidade: edificações destituídas de uma essência de lugar, espaços controlados, vigiados, consensuais e homogeneizados em sua abstração estéril. A própria narrativa enuncia a distinção pela oposição das experiências possíveis em cada situação. De um lado, a cidade em suas diferenças, seus agentes, suas arquiteturas, seus símbolos, cheiros, luzes, sons, ou seja, a dinâmica que perfaz a vida urbana. Uma cidade que ainda hoje não consubstancia níveis mínimos de qualidade de vida para uma grande maioria dos que nela habita. Entretanto, uma cidade que não esconde as indesejadas diferenças, pois nela estão a perscrutar suas vidas por todos os lugares, sejam praças, viadutos, calçadas, ruas, marquises e favelas.

Por outro lado, espaços que pouca apreensão permitiram aos seus interlocutores na tentativa de mergulhar em suas especificidades. Conjunturas construtivas envidraçadas, muradas e climatizadas que enunciam os novos interesses do capital na metrópole. Para estas conjunturas as cidades são vazios de interligação entre pontos de concentração financeira internacional, circundadas por um conjunto de equipamentos complementares: condomínios fechados, shoppings e aeroportos. A crítica a estas conjunturas é sensivelmente enunciada pela insensibilidade que delas emana. Preocupante é a constatação da transformação e adequação daquelas “arquiteturas metropolitanas” aos preceitos que processam a indiferença e a exclusão com os indesejados que habitam a cidade.

Opor-se a estes processos é parte daquelas três dimensões que perfazem a trajetória profissional de Denise Xavier: a dimensão ética, a dimensão estética e a dimensão política. Seu livro não é algo isolado na ação desenvolvida como arquiteta e urbanista, mas consubstancia e amplia sua inserção crítica na metrópole paulistana em contínua construção. Nesse sentido, seu livro não é sobre um conjunto de edifícios importantes para a história da arquitetura no Brasil, especialmente para a arquitetura paulista. Seu livro trata da construção da cidade, da construção da cidade de São Paulo como metrópole. Sua importante particularidade passa pela compreensão de que a arquitetura é parte da cidade, integra todo o conjunto de dinâmicas com as quais a sociedade se mantém ativa e em transformação.

Seu estudo é sobre a necessidade de retomarmos a consciência de que o esvaziamento da cidade, a negação da cidade é a negação da própria sociedade como agente transformador. Ao arquiteto cabe a responsabilidade, ou melhor, deveria caber a responsabilidade pela produção de arquiteturas comprometidas com a vida urbana em todas as suas diferenças e antagonismos. Porém, em “Arquiteturas Metropolitanas” constatamos que os processos contemporâneos de construção da cidade estão exclusivamente pautados pelos interesses do capital na (re)produção dos espaços homogêneos e consensuais cuja valorização ocorre pela indiferença ao entorno, à paisagem, à dinâmica da cidade. Uma constatação que deve gerar uma indagação autocrítica que passa primeiramente pela formação dos quadros profissionais no país: qual arquiteto estamos formando, qual arquiteto queremos formar? Certamente a despolitização do processo de formação pautado exclusivamente por sistemas técnico-informacionais contribui intensamente com o esvaziamento dos significados sociais, culturais e políticos da profissão de arquiteto e urbanista, da própria arquitetura.

Como afirmara Christian Topalov, “as ciências da racionalização urbana e das finalidades sociais são radicalmente colocadas em questão pelas ciências da celebração do mercado e da ‘revolução liberar’. Os especialistas de umas e de outras não são do mesmo mundo. Nosso saber está, aberta ou secretamente, a serviço do Estado, o deles está, sem complexos, a serviço da empresa. Quaisquer que sejam nossas inclinações políticas, nossas definições disciplinares ou nossas preferências teóricas, temos talvez algo em comum: os adversários” (TOPALOV, 1991). Em Arquiteturas Metropolitanas, Denise Xavier não se esquivou da necessária crítica aos “adversários” que ela bem sabe quais são. Convém, no entanto, enunciar uma discordância com Denise Xavier, quando afirma que “não há como pesquisar a arquitetura metropolitana à distância”. Não há como pesquisar qualquer arquitetura à distância, pois, como integrante da cidade, seria como pesquisar a cidade estando distante dela, estando deslocado dela. Aliás, o distanciamento é um dos principais instrumento utilizados pelos nossos “adversários” na desconstrução das cidades, na desconstrução da vida urbana, seja ela metropolitana ou não.

Referência

Topalov, Christian (1991). Os saberes sobre a cidade: tempos de crise? In: Espaço & Debates, Revista de Estudos Regionais e Urbanos. Ano XI, n. 34: 37.

Rodrigo Faria – Arquiteto e urbanista, Mestre e Doutor em História pelo Departamento de História do IFCH-UNICAMP, Pesquisador do Centro Interdisciplinar de Estudos da Cidade do IFCH-UNICAMP, Becário Fundación Carolina/Universidad Politécnica de Madrid.


MENDONÇA, Denise Xavier de. Arquitetura Metropolitana. São Paulo: Annablume; FAPESP, 2007. Resenha de: FARIA, Rodrigo. Arquiteturas e dinâmicas urbanas na interpretação sobre a construção metropolitana. Urbana. Campinas, v.2, n.1, 2007. Acessar publicação original [DR]

 

As transformações dos espaços públicos, imprensa, atores políticos e sociabilidades na cidade imperial (1820-1840) | Marco Moreil

A partir de meados da década de 1990, a historiografia luso-brasileira tem visitado o tema “da emergência e ordenação do império luso-brasileiro à definição do império do Brasil” – assunto correlato surge nos estudos históricos hispano-americanos, sobretudo à luz da obra de François-Xavier Guerra. Neste prisma, o livro se insere como poucos e areja suas abordagens. Primeiro, por centrar-se nas agitadas décadas de 1820-1840 no Rio de Janeiro. De antemão, busca não projetar a corte para todo o Brasil, como se um fosse gêmeo do outro ou mera decorrência. Antes, considera o Rio de Janeiro uma cidade imperial. Esta acepção, nada ingênua, remete a uma geografia do poder, que se almeja centralizado-e-centralizador em um vasto território, conforme as inspirações literárias e históricas de então do Império Romano. As palavras, as ações e as propostas empreendidas na cidade imperial – simultaneamente, corte da monarquia constitucional – reverberavam com maior contundência na Europa, em especial em Portugal, e no próprio Brasil. Por outro lado, o debate internacional acerca do liberalismo constitucional, do ideário contra-revolucionário, das memórias e das narrativas sobre as experiências políticas nas Américas e na Europa encontrava aí alargada recepção, divulgação, (re)tradução e (re)apropriação. Neste sentido, o Rio de Janeiro gozava de um forte apelo junto às elites locais e regionais do Brasil, sem que isto, obrigatoriamente, implicasse uma posição unânime e coerente dos atores políticos. Morel logo esclarece: nesse período e nessa cidade, chegou-se, às vezes, a duvidar da pertinência e da necessidade de se lutar e manter a integridade e a unidade do território brasileiro. Em miúdos, não reafirma a idéia de que uma outra parte do Brasil – por suposto, as regiões Norte, Nordeste e Sul – postularia uma quebra ou uma reorganização do território político e uma redefinição da autonomia política de cada uma. Longe disto, tal possibilidade efetiva atravessava a pauta política no Rio de Janeiro. Em circunstâncias tão delicadas e específicas das décadas de 1820-1840, Morel estuda a emergência da modernidade política no Rio de Janeiro. Nessa medida, data o surgimento de tal modernidade e marca as balizas internas dessa periodização. Leia Mais

Anti-racismo e seus paradoxos: reflexões sobre cota racial, raça e racismo.

AZEVEDO, Célia Maria Marinho de. Anti-racismo e seus paradoxos: reflexões sobre cota racial, raça e racismo. São Paulo: Annablume, 2004. Resenha de: DOMINGUES, Petrônio. Varia História, Belo Horizonte, v.23, n.37, p. 241-244, jan./jun., 2007

Como o racismo à brasileira deve ser enfrentado?

Célia Maria Marinho de Azevedo é professora de História aposentada da Universidade de Campinas (Unicamp). Seu campo de especialização é a história do negro e das “relações raciais”. Depois de ter publicado o importante trabalho, Onda Negra, Medo Branco: o negro no imaginário das elites, século XX, em 1987, foi a vez de Abolicionismo: Estados Unidos e Brasil, uma história comparada (século XIX), em 2003, e Anti-racismo e seus paradoxos: reflexões sobre cota racial, raça e racismo, um ano depois. É justamente esta última publicação o objeto da presente resenha. O livro é uma coleção de sete artigos que Célia de Azevedo escreveu entre 1997 e 2003.

No primeiro capítulo (Cota racial e Estado: abolição do racismo ou direitos de ‘raça’?), a autora sustenta a tese de que seria mais eficaz a adoção de medidas universalistas (de cunho social) para a abolição do racismo do que medidas diferencialistas (ou específicas), em que o Estado tem que reconhecer a existência de raças. No entendimento de Célia de Azevedo, o “combate ao racismo significa lutar pela desracialização dos espíritos e das práticas sociais. Para isso é preciso rechaçar qualquer medida de classificação racial pelo Estado com vistas a estabelecer um tratamento diferencial por raça, ou, para sermos mais claros, os direitos de ‘raça’” (p. 50).

Já no segundo capítulo (Cota racial e universidade pública brasileira: uma reflexão à luz da experiência dos Estados Unidos), a autora analisa basicamente duas questões: o debate em torno da validade ou não da política de cotas para minorias discriminadas nos Estados Unidos e como a experiência estadunidense pode servir de inspiração para os brasileiros engajados na luta anti-racista e até que ponto ela pode ser importada para nosso país.

O terceiro capítulo (Entre o universalismo e o diferencialismo: as políticas anti-racistas e seus paradoxos) trata do espinhoso dilema: afinal, as propostas mais adequadas para se combater o racismo são as de cunho universalista ou diferencialista. Para Célia de Azevedo, faz-se necessária a “criação de oportunidade para os segmentos da população historicamente discriminada – sem no entanto perder o sentido universal de humanidade” (p. 73).

No quarto capítulo (A nova história intelectual de Dominick LaCapra e a noção de raça), a autora esquadrinha, primeiramente, alguns postulados do historiador Dominick LaCapra acerca da Nova História Intelectual e, em um segundo momento, analisa como LaCapra e outros autores vêm criticando o uso da noção essencialista de raça na produção do conhecimento histórico.

O quinto capítulo (13 de Maio e anti-racismo) problematiza a substituição, nas últimas décadas, do 13 de Maio – data em que se comemora o aniversário da Lei de Abolição, assinada pela Princesa Isabel – pelo 20 de novembro, presumível data da morte do “herói” negro Zumbi dos Palmares. Célia de Azevedo defende a idéia de que a Abolição foi resultado da luta de um amplo movimento contestatório (protagonizado por escravos, libertos e seus aliados progressistas). Por isso, entende que não se podem distorcer os fatos: a liberdade foi uma conquista dos negros e não uma dádiva das elites brancas (ou da Princesa Isabel); logo, o 13 de Maio “dos escravos” tem que ser tão revalorizado quanto o 20 de novembro de Zumbi dos Palmares.

No sexto capítulo (Quem precisa de São Nabuco), Célia de Azevedo questiona um dos personagens mais “santificados” da História do Brasil, Joaquim Nabuco (1849-1910), daí o porquê do “São Nabuco” do título. A autora demonstra que seu personagem pensava como as pessoas ilustradas de seu tempo. Se do ponto de vista racial as teorias que apregoavam a superioridade biológica, intelectual e cultural do homem branco sobre o negro estavam em voga na Europa e no Brasil no final do século XIX, Nabuco não ficou imune e bebeu em tais postulados. Para além de abolicionista, Nabuco – como um bom proprietário, senhor de escravos e político de sua época – seria defensor de seus interesses de “raça e classe”, isto é, para a Célia de Azevedo, Nabuco concebia a Abolição em dupla perspectiva: como uma medida que garantiria a manutenção da ordem (e da grande propriedade) e como um mecanismo que facilitaria a entrada massiva de imigrantes brancos europeus a fim de promover a purificação racial da população brasileira.

Por fim, no sétimo capítulo (“Para além das ‘relações raciais’: por uma história do racismo”) a autora preconiza a necessidade de superar a noção de “raça”, bem como a de “relações raciais”, para eliminar “o racismo no dia-a-dia”. Em lugar de “raça”, a autora entende que deveria existir apenas a noção universalista de “humanidade”.

A despeito de o livro abordar temas correlatos, o escopo central é escrutinar a proposta de ações afirmativas para negro, especialmente em sua versão mais conhecida (e polêmica), as cotas raciais. Célia de Azevedo deixa patente que tal proposta não é a melhor solução para atacar as desigualdades raciais no Brasil. Primeiro, porque a “política de preferência racial esteve longe de ser um sucesso” nos EUA; segundo, porque existiriam programas mais eficazes para se combater o “racismo institucional” e o estado de penúria de boa parte da população negra. Esses programas não teriam um recorte racial e, sim, social, como o da reforma agrária, o da recuperação da qualidade das escolas públicas de ensino fundamental e médio; o Projeto de Renda Básica Universal e o Programa Bolsa-Escola. Que se sabe, os defensores das cotas raciais não são contrários à reforma agrária ou à melhoria da escola pública. Porém, o mais paradoxal é que alguns dos programas preconizados por Célia de Azevedo (como renda básica e bolsa-escola) estão no bojo das chamadas políticas compensatórias, e tais políticas seguem o mesmo princípio das ações afirmativas (do qual as cotas raciais fazem parte): reparar as injustiças do passado (e do presente) para os grupos que são discriminados negativamente, por motivo de cor, gênero, classe social ou orientação sexual.

Um dos motivos pelos quais Célia de Azevedo se opõe à política de cotas raciais é que ela consiste numa política pública específica (ou diferencialista). Em sua opinião, não são as políticas específicas e sim as universalistas as mais apropriadas para garantir a promoção dos negros. No entanto, não é isso o que as pesquisas apontam. A implementação de políticas públicas universalistas, quais sejam, programas governamentais que atacariam as causas sociais da desigualdade não sinalizam para a erradicação do racismo no país. Conforme apurado pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA) no ano de 2001, todas as políticas públicas universalistas empreendidas pelo governo, desde 1929, não conseguiram eliminar a taxa de desigualdade racial no progresso educacional do brasileiro. Os brancos estudam em média 6,6 anos e os negros 4,4 anos. Esta distância, de 2,2 anos, é praticamente a mesma do início do século XX. A conclusão é reveladora: apesar de ter acontecido uma elevação do nível de escolarização do brasileiro, de 1929 para os dias atuais, a diferença de anos de estudos dos negros frente aos brancos permanece inalterada.

Isso significa que programas sociais ou políticas públicas universalistas, por si só, não evitam as desvantagens que os negros levam em relação aos brancos no acesso às oportunidades educacionais. Para se corrigir esta deficiência do sistema racial, são necessárias também políticas públicas específicas em benefício da população negra, ou seja, programas sociais que adotem um recorte racial na sua aplicação. Os problemas específicos dos grupos que historicamente sofreram (e sofrem) discriminação (como negros, mulheres, gays, entre outros) se resolvem, combinando medidas gerais e específicas. Portanto, a discriminação contra o negro deve ser enfrentada, igualmente, com ações anti-racistas.

Um outro motivo pelo qual Célia de Azevedo rejeita a política de cotas raciais é que ela exige que o Estado classifique racialmente a população. E, segundo a autora, enfrentar o racismo significa lutar pela “desracialização dos espíritos e das práticas sociais”. Se a “raça” foi uma invenção nociva aos destinos da humanidade, afirma Célia de Azevedo, “por que reivindicar a racialização pelo Estado?”. Ora, é sabido que “raça” é uma construção social, com pouca ou nenhuma base biológica, mas não adianta o Estado negligenciá-la, porque as pessoas classificam e tratam o “outro” de acordo com as idéias socialmente aceitas. Ademais, o Estado brasileiro nunca teve a tradição de desenvolver políticas de identidade racial junto à população (haja vista a decisão do governo federal de retirar o quesito “cor” ou “raça” do censo oficial em 1970), mas nem por isso o racismo deu sinais de subtração ou perecimento.

Como é de praxe nas coletâneas, o livro peca pela redundância das idéias e, em casos extremos, pela repetição literal de trechos, como o que acontece no primeiro parágrafo da página 72 e no terceiro da página 81. De toda sorte, o livro é uma equilibrada contribuição teórica para o importante debate que está pautando a agenda nacional no momento: como o racismo à brasileira deve ser enfrentado? Ninguém tem mais dúvidas que o Brasil é um país marcado pela desigualdade de oportunidades entre negros e brancos, seja no mercado de trabalho, na esfera educacional, na vida pública, etc.; entretanto, não há consenso acerca das medidas a serem tomadas para se atacar um mal que penaliza quase metade da população brasileira e a impede do pleno exercício da cidadania. Só existe um consenso: não dá mais para ficar de braço cruzado e aceitar a falácia de que o Brasil é o país do paraíso racial.

Petrônio Domingues – Doutor em História/USP. Professor da Universidade Federal de Sergipe (UFS). E-mail:  petrinio@usp.br

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Territórios de mando: banditismo em Minas Gerais, século XVIII – SILVA

SILVA, Célia Nonata da. Territórios de mando: banditismo em Minas Gerais, século XVIII. Belo Horizonte: Crisálida, 2007. Resenha de: ROMEIRO, Adriana. Varia História, Belo Horizonte, v.23, n.37, p. 237-240, jan./jun., 2007.

Originalmente escrita como tese de doutorado, defendida no Programa de Pós-Graduação do Departamento de História da Universidade Federal de Minas Gerais, o livro Territórios de mando – banditismo em Minas Gerais, século XVIII debruça-se sobre um campo raramente explorado pela historiografia mineira: a vasta região rural da capitania, dominada por potentados e poderosos locais, perdidos em meio às lonjuras de um sertão inóspito e distante. Poucos foram os estudiosos que se aventuraram por esse verdadeiro continente indevassado, a exemplo de Bernardo da Mata-Machado1e, mais recentemente Carla M. J. Anastasia, num trabalho pioneiro sobre as turbulentas zonas de fronteira, intitulado A geografia do crime.2 Ao contrário do enfoque predominante na historiografia sobre o Setecentos mineiro, voltada para o universo das vilas e arraiais, a urbanização restringia-se a uns poucos núcleos populacionais, para além dos quais abria-se, imenso e inquietante, o sertão.

Filiada às novas tendências historiográficas, a autora se propõe a examinar a configuração política peculiar que floresceu à roda dos grandes potentados sertanejos, responsáveis pela constituição de vigorosos pólos de poder privado, que, ao longo de todo o século XVIII, minou insidiosamente as sucessivas tentativas da Coroa portuguesa no sentido de estender os seus tentáculos por toda a capitania. Afinal, como se dava o exercício do poder e do mando entre esses homens, tidos freqüentemente por facinorosos e rebeldes? Que valores pautavam o imaginário político deles? Ao longo da pesquisa, Célia Nonata da Silva descobre uma cultura política singular, profundamente marcada pelas concepções barrocas do Portugal restaurado, reinventadas no contato com as tradições locais. Mestiça, essa cultura política estruturava-se em formas de mando complexas, que estavam longe do estereotipo fixado pelos contemporâneos, que viram nelas tão-somente a expressão de uma violência irracional, típica do cenário bárbaro em que supostamente viviam os sertanejos.

Encarnando um poder que fustigava a Coroa, contra a qual empreenderam uma tenaz e bem-sucedida resistência, os potentados dominavam vastas extensões de terra – os chamados territórios de mando -, nos quais eram reconhecidos como chefes políticos legítimos, e por essa razão, obedecidos e respeitados por um número expressivo de moradores. Um exemplo disso é a situação inusitada em que se viu o Conde de Assumar, por ocasião do motim de Barra do Rio das Velhas, obrigado a enviar bandos para informar a população local de que ela devia obediência e vassalagem ao rei de Portugal e não a Manuel Nunes Viana. Apesar disso, este último continuou a reinar soberano e absoluto na região, desafiando acintosamente os esforços desesperados do governador para estabelecer ali o poder público.

Ao carisma destes potentados, somavam-se práticas de dominação que se traduziam sob a forma de ritos de violência específicos, como o recurso à vingança, a valorização da honra, a exibição de signos de virilidade, como a valentia, a bravura e o desafio, dos quais resultou um exercício de poder marcadamente privado, refratário, em alguns casos, à negociação, em outros, abertos à transação. Em torno deles, gravitava uma complexa rede de solidariedades, de que faziam parte escravos, forros, homens livres e pobres – e por vezes, as próprias autoridades locais – organizados em bandos armados, dispostos a executar os desígnios dos chefes locais, engalfinhados na luta pela expansão de seus territórios de mando e nas contendas entre famílias.

O principal mérito do livro reside no estudo sistemático da lógica e racionalidade do poder privado, buscando apreendê-lo como uma outra forma de exercício de poder, e não como mera negação da ordem pública. Dele emergem potentados a um só tempo fascinantes e perturbadores, como o contrabandista Mão de Luva, líder de uma quadrilha que aterrorizou por anos a Mantiqueira, ou o já mencionado Manuel Nunes Viana, que se valia de crenças mágicas africanas – como o ritual do corpo fechado – para controlar as populações da Barra do Rio das Velhas. Situados numa zona cinzenta, nos tênues limites entre a ordem e a desordem, os poderosos do sertão resistem à tipologia simplificadora proposta por Eric Hobsbawm em seu clássico Bandidos, cujo objeto são os indivíduos considerados criminosos pelo Estado. O caso dos potentados mineiros é muito mais complexo: se desafiavam as leis de Sua Majestade, perpetrando toda sorte de crimes e violências, ainda assim era os seus mais valiosos aliados, os únicos capazes de impor alguma ordem em meio às lonjuras da América. A este respeito, é bem reveladora a trajetória de Manuel Nunes Viana – que nada tinha de extraordinária ou excepcional, se comparada à de outros potentados. Tido pelos contemporâneos por um dos mais homens mais experientes nas matérias relativas ao sertão, investido de uma autoridade reconhecida pelos sertanejos, o chefe emboaba era, na opinião de um ouvidor do Rio das Velhas, o único indivíduo capaz de levar alguma ordem àquele “receptáculo para criminosos de toda a América”. Endossando esta idéia, o marquês de Angeja tecia-lhe elogios em carta ao rei, observando que “é certo que o dito Manuel Nunes Viana não só é o homem mais capaz que tem aqueles distritos, tanto para fazer o cabal informe que se lhe manda, e executar as ordens de V. Majestade fazendo-as observar e respeitar como devem ser; mas é o único que atualmente dá cumprimento ao que se lhe mandam, e faz ter em sossego e respeito o distrito, que se lhe tem assinado como sua capitania mor, sossegando-a e limpando-a dos ladrões todas as vezes que aparecem alguns por aqueles distritos…”.3 Existia mesmo, no início da década de 1710, um consenso generalizado entre os funcionários régios sobre o seu papel estratégico nos sertões distantes e, mesmo os inimigos, a exemplo do conde de Assumar, reconheciam que, não obstante seus excessos e tiranias, ele era uma figura respeitada e obedecida nos territórios distantes do controle da Coroa. Sensíveis à importância do conhecimento acumulado por estes potentados, verdadeiros depositários de um saber essencialmente sertanejo, que abrangia desde as condições ecológicas até a índole dos moradores, os sucessivos governadores-gerais sempre os tiveram em altíssima conta, encarregando-os de uma série de diligências relevantes nos confins da capitania.

O caráter ambíguo das relações entre os poderes público e privado é refutado veementemente pela autora, que vê nos potentados e poderosos do sertão o foco de um poder privado, a serviço de interesses particulares – e por essa razão, incompatível com as exigências das autoridades. Aliás, mesmo essas, como a própria autora admite, submeteram-se ao processo de privatização do poder, transformando-se também em pólos de poder concorrente, capazes de prejudicar – e mesmo subverter – a soberania portuguesa em terras mineiras.

Atenta às formas de expressão e consolidação da ordem privada, a autora opta por não esmiuçar o outro pólo do exercício político dos chefes sertanejos: a comunidade que a eles devotava respeito e admiração. Para além do nível mais imediato de capangas, caboclos e escravos, configurando os bandos armados, havia largos setores da população que os reconheciam como uma liderança política legítima e absoluta. Tudo indica que, nas paragens distantes em que a Coroa não havia instalado o seu aparato administrativo, a ordem privada desempenhava um papel decisivo no cotidiano miserável dessas populações, uma vez que proporcionava desde o exercício da justiça e a solução dos conflitos vicinais até a cura de doenças e o auxílio a doentes e inválidos.

Campo vasto, mas árduo, o tema do poder privado nos sertões mineiros esbarra em inúmeras dificuldades, sendo a principal delas o fato de que as fontes disponíveis reproduzem o olhar das autoridades e por essa razão tendem a mascarar a natureza complexa da ordem privada, reduzindo-a à mera violência e barbárie. Se os potentados não tiveram direito à palavra, o mesmo também aconteceu com os seguidores deles: sociedade de analfabetos, não legaram aos estudiosos relatos mais densos sobre as suas motivações políticas. É através do olhar enviesado dos seus detratores que o historiador tem de adentrar no imaginário político desses homens, buscando nas entrelinhas as pistas e indícios das idéias e práticas que floresceram no sertão.

Por fim, é preciso elogiar a bela edição da Crisálida – cuja única restrição é a falta de uma revisão cuidadosa -, com um destaque especial para a sugestiva capa, inspirada numa xilogravura de Arlindo Daibert. A promissora editora firma-se assim como mais um veículo de publicação que se abre às numerosas e competentes dissertações de mestrado e teses de doutorado que, a exemplo do trabalho de Célia Nonata da Silva, tem revigorado a historiografia mineira.

Notas

1 MATA-MACHADO, Bernardo Novais da. História do sertão noroeste de Minas Gerais (1690-1930). Belo Horizonte: Imprensa Oficial, 1991.

2 ANASTASIA, Carla M. J. A geografia do crime: violência nas minas setecentistas. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2005.

3 Ambos os documentos foram citados por RUSSELL-WOOD. Manuel Nunes Viana: paragon or parasite of Empire? The Americas, April 1988, v.37, p.488-489, n.4.

Adriana Romeiro – Professora do Programa de Pós-graduação da UFMG. E-mail:  adriana.romeiro@uol.com.br

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Urbanismo e preservação em Triunfo, Pernambuco – SOUTO MAIOR (CA)

SOUTO MAIOR, Paulo M. Urbanismo e preservação em Triunfo, Pernambuco. Recife: Editora da UFPE, 2007. 129p. Resenha de: BARBOSA, Bartira Ferraz. Clio Arqueológica, Recife, n.22, p.249-250, 2007.

Bartira Ferraz Barbosa

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Paranambuco. Poder e herança indígena. Nordeste – Séculos XVI e XVII – BARBOSA (CA)

BARBOSA, Bartira Ferraz. Paranambuco. Poder e herança indígena. Nordeste – Séculos XVI e XVII. Recife: Editora da UFPE, 2007, 220p. Resenha de: MARTIN, Gabriela. Clio Arqueológica, Recife, n.22, p.251-252, 2007.

Gabriela Martin

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Feliz Lusitânia: Forte do Presépio, Casa das Onze Janelas, Casario da rua Padre Champagnat – FERNANDES (RAHAL)

FERNANDES, Paulo Roberto Chaves (Org). Feliz Lusitânia: Forte do Presépio, Casa das Onze Janelas, Casario da rua Padre Champagnat. Belém: Secult, 2006. 504p. Resenha de: FUNARI, Pedro Paulo A. Revista de Arqueología Histórica Argentina y Latinoamericana, n.1, p.211-214, 2007.

A secretaria de cultura do estado do Pará, Brasil, com o apoio do Instituto Brasileiro de Patrimônio Histórico (IPHAN) acabam de publicar um volume de referência, sobre os trabalhos arqueológicos no centro antigo de Belém. Trata-se de uma obra com amplo material iconográfico, que traz capítulos detalhados e monográficos, e que está destinada desde sua publicação a tornar-se um documento aere perennius.

A história do sítio arqueológico histórico é fascinante. Em plena Amazônia, a região foi habitada durante muitos séculos por indígenas, com destaque para as populações que produziram as cerâmicas marajoaras e tapajônicas. A chegada dos portugueses no início do século XVII está relacionada à União Ibérica, que havia colocado Portugal sob o controle espanhol por muitas décadas, entre 1580 e 1640. A administração colonial portuguesa continuou em Lisboa, independente das diretorias espanholas, de modo que as colônias portuguesas na América, África e Ásia se mantiveram à parte. Neste contexto, em 1616 os portugueses constroem um forte no baixo Amazonas representando um claro desafio aos limites de Tordesilhas y ao domínio espanhol. O local foi denominado de maneira significativa de Feliz Lusitânia, como se fosse uma reafirmação da independência portuguesa.

As primeiras construções foram o forte, a Capela de São João Batista (1622) e o Convento Carmelita (1626), seguidos por outras edificações erguidas depois da independência portuguesa, como o Convento de Nossa Senhora das Mercês, a Igreja de Santa Lucia, entre outros. Desde o início, a presença religiosa foi decisiva, em particular com os jesuítas e suas missões. A presença da população indígena foi importante, desde a fundação até os dias de hoje. As pesquisas de Arqueologia Histórica ficaram sob a responsabilidade de Fernando Luiz Tavares Marques, do Museu Paranaense Emilio Goeldi. Foram consultados documentos do arquivo como mapas, plantas de edifícios, bem como uma ampla documentação iconográfica.

Tudo isso permitiu a proposta de estratégias de campo detalhadas e bem documentadas para as prospecções e escavações.

Marques estudou em detalhes as mudanças que ocorreram no Forte do Castelo, desde sua origem como fortificação militar no início do século XVII. A construção sofreu mudanças, sempre sob controle e uso militar, até sua recente transformação em museu. A pesquisa da cultura material encontrada foi particularmente estimulante. Foram encontrados materiais cerâmicos importados, como o Ironstone, mas a maioria do material cerâmico, assim como os cachimbos, apresentam ornamentos de origem indígena. Muitos artefatos de pedra e de osso também atestam a grande importância do elemento indígena no centro do mesmo assentamento colonial português. O caráter militar do assentamento se reflete na cultura material associada a armas. Outro aspecto ressaltado pelos pesquisadores está relacionado à presença de materiais religiosos, igualmente de origem mista, com características católicas e indígenas.

Estes resultados não surpreendem e podem estar relacionados de modo geral às principais discussões epistemológicas atuais na Arqueologia Histórica e, de modo particular, a questões na arqueologia latino-americana.

Em publicações recentes, as pesquisas sobre o período colonial ressaltam em diferentes contextos o caráter mestiço, ao mesmo tempo ibérico e indígena, dos assentamentos coloniais. Esta mestiçagem teve características específicas em cada lugar. No nordeste do Brasil ou no Caribe, a mistura entre ibérico e africanos está complementada pelas culturas indígenas.

Em outros locais, como na Amazônia e em partes do sul do Brasil, especialmente São Paulo, a mistura predominante é entre indígenas e portugueses, com uma presença africana marginal nos primeiros séculos.

A cerâmica dominante em Belém colonial é, portanto, de estilo indígena. Este caráter mestiço aparece em todo seu esplendor na religiosidade. Os artefatos religiosos encontrados são indígenas, como os que ainda são usados em Belém, e também católicos, mas já interpretados à maneira dos indígenas, trazendo as figuras dos santos com traços nativos.

Outro aspecto que convém ressaltar é a especificidade da colonização portuguesa diante do modelo espanhol. Enquanto as cidades hispânicas seguiam modelos e organizações centrais de origem renascentista, os assentamentos portugueses se mantinham fiéis aos padrões medievais. Isso fica claro no caso do centro antigo da Feliz Lusitânia, onde suas ruelas e morros são dominados por igrejas. A expansão gradual da cidade, sempre de forma irregular, segundo o modelo português medieval, continuou a produzir alguns espaços e uma cultura material muito particular e dominada pela convivência indígena, como se pode observar no predomínio das redes até os dias de hoje. Neste contexto, as soluções museológicas propostas pelos pesquisadores locais foram as mais felizes, ao estabelecer uma continuidade entre os assentamentos indígenas pré-históricos e a cidade colonial. O estudo das cerâmicas de tradições indígenas realizado por Dense Pahl Schaan e associados mostra bem a importância dessa estratégia.

Em termos epistemológicos, várias questões devem ser destacadas. Em primeiro lugar, os modelos importados, que procuram explicar tudo a partir da importação das interpretações comuns no mundo anglo-saxão, são substituídos por olhares mais locais e específicos. Em segundo lugar, mas não menos importante, está a busca por uma Arqueologia Pública, integrada aos grupos sociais ativos e interessados em nossos dias. Assim, a mescla cultural e a importância das tradições e cultura indígenas correspondem ao reconhecimento crescente do valor dessas grandes populações, tomadas não como grupos ilhados, mas sim como parte constitutiva da população. No presente e no passado, os indígenas e europeus, neste caso portugueses, formam parte de culturas locais híbridas.

O caráter fluido e híbrido dessas culturas heterogêneas está destacado tanto nas pesquisas sobre o material arqueológico, como nas práticas educativas derivadas. A publicação original consiste de documentos de consulta não somente para os interessados na cultura material colonial do norte do Brasil, mas também pode servir como elemento de comparação para pesquisadores de outros lugares do continente americano ou de lugares ainda mais distantes.

Pedro Paulo A Funari – Professor titular da Universidade Estadual de Campinas, Brasil. Foi Secretário do World Archaeological Congress, Senior South American Representative no WAC. Atualmente, é pesquisador-associado da Illinois State University (EUA), Universidat de Barcelona (Espanha), além de atuar como professor em universidades latino-americanas: Universidade de São Paulo, UNPBA, UNCatamarca, entre outras. Defensor da Arqueologia Pública, tem atuado em diversos projetos e ações por uma Arqueologia engajada.

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A violência e o futebol: dos estudos clássicos aos dias de hoje | Maurício Murad

O futebol tem ocupado, cada vez mais, um espaço como objeto de estudo dos vários pesquisadores, cuja formação se liga à História, à sociologia, à antropologia e demais áreas correlatas. Isso significa que o esforço de análise acerca desta temática vem deixando de ser algo restrito a uma prática diletante, para também ser analisada no âmbito das universidades. Neste aspecto, não tenho dúvidas quanto ao pioneirismo e ao brilhantismo do Professor Maurício Murad, quando nos reportamos à reflexão sobre a temática apontada, sobretudo no que diz respeito a um dos principais problemas que habita o universo do futebol: a violência. O livro é parte de amplas pesquisas que o autor já vem realizando há algum tempo, o que o coloca como indispensável para aqueles que estudam ou venham a estudar e/ou conhecer questões relacionadas ao futebol, também numa perspectiva da pesquisa acadêmica.

Desde já, creio ser necessário concordar com uma das principais teses do autor em questão, quando ele nos sugere em seu livro, que não se deve comparar a violência no futebol com a violência do futebol. A partir desta premissa, provavelmente o autor queira nos alertar quanto às ocasionais conclusões que poderiam naturalizar o futebol como algo estruturalmente violento, tal como muitas vezes alguns jornais impressos, programas de rádios e/ou de televisão, enfim, os diferentes veículos de comunicação poderiam nos levar a crer, quando noticiam os jogos de futebol. Não se trata de rejeitar a existência de absurdos ligados à violência absolutamente condenáveis que, de fato, estão presentes no esporte. Leia Mais

Arqueología Histórica en América Latina. Temas y discusiones recientes – FUNARI; BRITEZ (RAHAL)

FUNARI, Pedro Paulo A.; BRITEZ, Fernando (Compiladores). Arqueología Histórica en América Latina. Temas y discusiones recientes. Mar del Plata: Ediciones Suárez, 2006. Resenha de: RAMOS, Mariano. Revista de Arqueología Histórica Argentina y Latinoamericana, Buenos Aires, n.1, p.199-210, 2007.

Colegas arqueólogos del Comité Editorial de la Revista de Arqueología Histórica Argentina y Latinoamericana me pidieron hacer un comentario acerca de los temas y problemas abordados en esta obra publicada y evaluar el alcance de los enfoques y métodos puestos en juego. Agradezco la confianza depositada en mí para esta tarea, la que dividiré en dos partes.

No es fácil hacer una evaluación breve de una obra en la que participan otros colegas que presentan variedad de enfoques acerca de temas y problemas particulares de este campo de la ciencia que se ha dado en llamar “Arqueología Histórica”. He aquí el primer gran problema; definir este ámbito en donde se desenvuelven, generalmente, especialistas de distinta formación académica.

EL LIBRO

Los trabajos del libro, mayoritariamente escrito por argentinos y colombianos, tratan varios temas y problemas agrupados en 3 bloques: “Contactos y conflictos” –Bagaloni; Braicovich; Lema- con casos del NO argentino de pampa y del noroeste de la patagonia argentina; “Discursos e identidades” –Brittez; Cano Echeverri y López Castaño; Rivera Sandoval; Salas Medellín- con casos de pampa argentina y de Colombia y “Fuego y hueso en la frontera” –Langiano; Merlo; Ormazábal- con casos de pampa argentina. Estos abarcan las identidades locales y rozan aspectos de “desigualdad y conflicto” social; la Arqueología de la muerte que también incluye masacres y entierros masivos de NN (Colombia) y estudios acerca de la arqueología experimental. Por otra parte, algunos trabajos comprenden las relaciones interétnicas, la etnogénesis y se discuten ciertas explicaciones que se han hecho desde las “Historias oficiales”, construidas desde los sectores dominantes latinoamericanos.

Los escritos hacen algunas referencias a cuestiones epistemológicas y aspectos de método y teoría en Arqueología. Se discute críticamente en algún caso (Brittez) las ideologías importadas y se menciona el etnocentrismo europeo y anglonorteamericano en el ámbito de la ciencia cuyos modelos han sido utilizados por todo el espectro arqueológico.

También se hace mención a colonialismo e imperialismo y subjetividades que abarcan construcción de identidades y representaciones sociales y clasistas. Los trabajos publicados contribuyen al campo de la Arqueología Histórica en temas y problemas -tratados y publicados también por otros colegas- con diversidad de variantes en los enfoques.

Conozco personalmente y a través de su trabajo a varios de los autores de este libro y sé que tienen experiencia en el ámbito en el que participan.

Los trabajos aquí publicados fueron temas monográficos -de la investigación que cada uno llevaba a cabo- dentro de un Seminario de Arqueología Histórica que el Prof. Funari brindó en la Universidad Nacional del Centro de la Provincia de Buenos Aires en 2006. Sin embargo, tengo que hacer una observación respecto del título del libro en relación con su contenido.

Entiendo que los trabajos no representan a la “Arqueología Histórica en América Latina”, sino en forma parcial, muy parcial. Muchos “Temas y discusiones recientes” no han sido tratados en esta obra, por ejemplo, el de los desaparecidos y los estudios de los antropólogos forenses (por caso, los del Equipo Argentino de Antropología Forense) quienes trabajan con diversa y variada documentación escrita, fotográfica, arqueológica, etc.

Tampoco trabajos epistemológicos –que los hay- que discutan los alcances de los campos disciplinares en relación con problemas del pasado que podrían llamarse de “tiempos históricos”; ni las investigaciones en misiones y reducciones –que abundan- que ponen en juego distintos poderes o luchas de los “dioses de turno” o las injusticias y degradantes relaciones humanas que tienen como foco la esclavitud, uno de los pilares –como la piratería, los corsarios, el saqueo de materias primas y las drogas- en la construcción del capitalismo. La guerra no se encuentra presente en esta obra. La guerra a partir de la cual los investigadores pueden preguntarse sobre los temores humanos en los campos de batalla en los que luchaban en primera línea los más pobres de los pobres de todas las sociedades. Así, estos temas y otros que actualmente están formando parte de estudios de este tipo no se encuentran incluidos en este libro. Sabemos, casi todos, que colegas mexicanos, colombianos, cubanos, bolivianos, uruguayos, chilenos, brasileros, argentinos y otros latinoamericanos trabajan sobre estas y muchas otras temáticas sociales en donde se incluyen conflictos sociales directos, ya fueran internos o externos a las sociedades enfocadas.

Si bien, muchos arqueólogos latinoamericanos han seguido las reflexiones de sus pares norteamericanos (entre ellos Orser y Fagan, que se refieren al denominado “Mundo moderno”) esos enfoques no necesariamente reflejan las realidades y problemas al sur del río Bravo. Al respecto, desde una posición crítica y muy valorable, algo de esto considera Brittez en su trabajo. Durante los años de 1960 y 1970 se generaron posturas de arqueólogos críticos latinoamericanos, entre ellos Lumbreras –“La Arqueología como ciencia social”- Lorenzo, Gándara, Bate (ver Lumbreras 2006) los que construyeron una línea de pensamiento que confluyó en la Arqueología Social Latinoamericana (citada por Ormazábal).

Respecto de los temas vinculados a la frontera pampeana del siglo XIX, tratada en el último bloque del libro, se podrían haber incluido algunos enfoques tratados en obras recientes que encierran diferentes miradas – de arqueólogos, historiadores, etc.- del debate actual (ver en Internet, Temas de la Frontera Sur, TEFROS).

Como acotación en particular quiero señalar determinadas cuestiones acerca de fundamentos teóricos y epistemológicos. En casi todos los artículos se presentan correlatos entre documentos escritos y el registro arqueológico, también datos de otras fuentes de información. Sin embargo, los marcos teóricos y epistemológicos alcanzan cuestiones que son conflictivas, mediadas y sesgadas respecto de las fuentes teóricas en donde se nutren. Respecto a los fundamentos teóricos, en general, no se observa la cita de las fuentes originales sino que se toman las intermediaciones que hacen algunos arqueólogos. Así son tratados modernismo, modernidad, lucha en el capitalismo, revoluciones industriales, teoría del centro y Ramos 2007 – Reseña 202 periferia, etc., todos temas y conceptos bien estudiados desde fuera del ámbito arqueológico, desde hace mucho tiempo. Por otra parte, en general, tampoco veo un correlato concreto entre las citas teóricas y los datos empíricos. Parecería haber allí un divorcio real entre lo que se enuncia y la información que podría –desvinculada del trabajo- incluirse en cualquier estudio procesal o post-procesal, por llamarlos de alguna manera.

ALGUNOS COMENTARIOS ACERCA DE CUESTIONES DEBATIDAS

En América ha prevalecido la idea de una Arqueología Histórica relacionada con sitios cronológicamente ubicados dentro del período postconquista europea y estas obras se encuadran en esa mirada general.

Aquella es una premisa arbitraria que no expresa con claridad los alcances del campo en cuestión debido a que no siempre existen registros materiales y escritos de origen europeo durante etapas de exploración y conquista del territorio. Por otra parte, también se ha hablado y propuesto de manera recurrente una perspectiva que enfocaba los problemas del pasado en tiempos históricos, como una Arqueología del Colonialismo (entre otros, Fournier 1999; McGuire y Navarrete 1999). Esta idea, proveniente sobre todo del campo de los arqueólogos marxistas, tampoco ofrece una perspectiva unívoca debido a que varias categorías, y su historia, se siguen debatiendo y, por otra parte, representa una mirada eurocéntrica, ya que fueron creadas por los europeos occidentales. También se ha hablado últimamente de una Arqueología del Capitalismo o una Arqueología del Mundo Capitalista.1 Sin embargo, estos rótulos también tienen sus imprecisiones y contradicciones, sobre todo en relación con las categorías: “capitalismo” o “mundo capitalista”. Sobre esto también existe debate y polémica por sus alcances, ya que exceden el campo arqueológico.

Entiendo que la llamada “Arqueología del capitalismo” o “Arqueología del mundo moderno”, no pueden ser tomadas como equivalentes.

Capitalismo y modernidad no son lo mismo. Por otra parte, muchos trabajos de Arqueología Histórica parten de otros trabajos arqueológicos que no son los que originalmente han definido los conceptos. Las elaboraciones teóricas y el debate sobre la historia y las luchas dentro del capitalismo no han concluido, sobre todo dentro de los sectores intelectuales de los países dependientes como los latinoamericanos. Allí se destacaron, aunque no estemos totalmente de acuerdo con sus posturas, el peruano Mariátegui o el argentino Hernández Arregui que, en medio de muchas resistencias y reacciones, cuestionan la desigualdad humana desde perspectivas regionales. Respecto de “Mundo moderno” también existen distintas posturas, varias de ellas latinoamericanas.

Considerando la diversidad y cantidad de investigaciones que se han hecho sobre Arqueología Histórica, Orser (quien ha escrito el Prefacio del libro) y Fagan, han propuesto una clasificación sobre las diferentes modalidades elegidas por la comunidad científica –principalmente anglosajona- para abordar lo que se reconoce de manera amplia como Arqueología Histórica. Estos investigadores proponen 3 posibilidades, entre las que está la del estudio del denominado Mundo Moderno.2 Se supone que esto incluye una crítica a los enfoques tradicionales, sin embargo se recurre a la historia de “Occidente”. Por ejemplo, Fagan cuando aborda la denominada Pequeña Edad del Hielo, proceso climático de descenso sostenido de las temperaturas que transcurrió entre el 1300 y el 1850 en el hemisferio Norte, que supuestamente habría tenido alcance mundial, se funda en eventos históricos y climáticos de Inglaterra y Francia, incluyendo sucesos de algunos otros países, como Irlanda o los Estados Unidos3 (Fagan 2000). Si se considera la expansión del capitalismo o la historia del denominado mundo occidental entonces, la arqueología maya quedaría fuera del alcance del campo de la Arqueología Histórica, algo que no comparto. Al respecto, el trabajo de Verónica Lema, sobre Tebenquiche Chico, avanza a favor de la inclusión de estos tipos de casos en el ámbito de lo que de manera amplia reconocemos como Arqueología Histórica.

Pero, también la propuesta de Orser y Fagan considera la historia de la Europa Occidental como el único referente sobre el que se plantea la clasificación. Considerando los criterios sobre los que se funda, es importante destacar críticamente que el núcleo del tema excede el marco de períodos y también la circunstancia de un indefinido y amorfo límite del comienzo del “Mundo Moderno”, que puede entenderse, en sentido filosófico, como el comienzo del pensamiento iluminista del siglo XVIII y su continuidad y conexiones durante el siglo XIX y parte del XX, por lo menos. Sabemos que la “modernidad” puede tener, por lo menos, dos Ramos 2007 – Reseña 204 conceptos: “(…) El primero es eurocéntrico, provinciano, regional. La Modernidad es una emancipación, una ‘salida’ de la inmadurez por un esfuerzo de la razón como proceso crítico, que abre a la humanidad a un nuevo desarrollo del ser humano. Este proceso se cumpliría en Europa, esencialmente en el siglo XVIII. El tiempo y el espacio de este fenómeno lo describe Hegel y lo comenta Habermas en su conocida obra sobre el tema – y es unánimemente aceptado por toda la tradición europea actual- (…)” (Dussel 2003: 45).

Por otra parte, amplía Dussel (…) “Proponemos una segunda visión de la ‘Modernidad’ en un sentido mundial, y consistiría en definir como determinación fundamental del mundo ‘moderno’ el hecho de ser (sus Estados, ejércitos, economía, filosofía, etc.) ‘centro’ de la Historia Mundial.

Es decir, nunca hubo empíricamente Historia Mundial hasta el 1492 (como fecha de iniciación del despliegue del ‘Sistema Mundo’) (…) y con el descubrimiento de América hispánica, todo el planeta se torna el ‘lugar’ de ‘una sola’ Historia Mundial (…)” (Dussel 2003: 46).

La modernidad se puede tomar desde esas perspectivas según qué y desde dónde se discuta. Así, el colonialismo o imperialismo “de turno” (por ejemplo, España, Inglaterra o Estados Unidos) la traslade a sus dominios, ya que esos imperios o estados imperiales pueden considerar –o no- a sus dominios como parte de su territorio, declarado o no declarado.

Respecto de “capitalismo”, entiendo que es muy discutible la medida en que se puede aplicar para la Argentina –país muy heterogéneo en varias dimensiones, aún en la actualidad- de la segunda mitad del siglo XIX.

Algunos hablan del período que se extiende desde el siglo XV al siglo XVIII como de un capitalismo primitivo. ¿Cómo era el caso de la Argentina?; ¿corría a la par de las fases de esos esquemas?; ¿hacia el siglo XVIII estaba en lo que se denomina un capitalismo primitivo o recién alcanza esa situación durante la segunda mitad del siglo XIX?. En ese caso: ¿cómo era la circulación y uso de bienes en ese momento? Vale recordar que el desarrollo del capitalismo no es homogéneo, presenta diferentes fases, que de acuerdo al contexto –entre otras cosas- mantienen diversidad de relaciones entre los trabajadores y los dueños de los medios de producción.

Esto incluye varias modalidades de intercambios y relaciones en las que interviene el estado con diferente intensidad e intereses.4 Todo esto depende de los contextos y de multiplicidad de cuestiones vinculadas a espacio y tiempo. Es decir, los contextos históricos y sociales que se están enfocando varían de país en país, de región en región y aún más. En estos tratamientos existen problemas de escalas. Hay que considerar que el desarrollo del capitalismo no es homogéneo, como tampoco el de las revoluciones industriales. Vale citar dos muy conocidas fuera de los contextos del denominado Primer Mundo, cuyas revoluciones industriales son de las segundas mitades de los siglos XVIII y XIX: la Soviética, desde 1920, la de China desde 1950 y el hecho que esta última en alguna medida está influyendo en nuestra realidad actual. La historia de “Europa occidental” no es parámetro para el planeta, ya que no existe una “historia mundial” unificada, algo que pretende para el presente la fase capitalista de la globalización. Ninguno de sus momentos o sistemas sociales, políticos y económicos, como por ejemplo el feudalismo, desarrollado especialmente en Francia y Alemania entre los siglos IX y XIII, se ha dado con las particularidades francesas y alemanas en otros lugares de Europa. Ni qué hablar de otros continentes o países. Esas periodizaciones serían imposibles de aplicar a la América o al África de esa época o de otras posteriores.5 El proceso y los elementos vinculados al uso e intercambio de bienes que se da en la Argentina tienen particularidades muy distintas al denominado Primer Mundo o Países Centrales. Vale recordar que durante muchos años –por ejemplo, siglos XIX y XX- coexisten en el país comerciantes diversos, cazadores criollos de nutrias y ñandúes, cazadores – recolectores indígenas, pastores de ovinos y camélidos, loberos, artesanos, operarios y empleados de talleres y fábricas, agentes capitalistas, etc. Todos no trabajan o se mueven por los mecanismos capitalistas y muchos de ellos se vinculan con diferente grado a ese modo de producción. Los modelos importados del denominado Primer Mundo no funcionan exactamente en estos contextos muy disímiles, complejos y heterogéneos que se encuentran en la sociedad denominada “argentina”.

Si se toman las contradicciones dentro de la sociedad capitalista y luchas o diferencias de clases que incluyen aspectos de la cultura material, se debería recurrir a autores clásicos, los que han definido los conceptos básicos para realizar este tipo de enfoques, como Marx, Engels, Lenin, incluso los muy conocidos trabajos de Mariátegui, Hoggart, Dobb, Milliband más cerca de nosotros en el tiempo. Esta crítica se fundamenta en que los temas que se tratan exceden ampliamente el marco de la Arqueología y Ramos 2007 – Reseña 206 alcanzan a todo el campo social. Los autores clásicos, desde el siglo XIX, han definido conceptos y han planteado los conflictos que se daban en el interior de las sociedades. No discuto la posición teórica (la que podría hasta compartir) pero si se siguen estos argumentos respecto de análisis sociales que incluyen desigualdad y se enfoca desde estos contextos particulares, se debería citar a aquellos autores en la fundamentación teórica. Así, parecería que recién a finales del siglo XX y principios del XXI, ¡algunos arqueólogos han descubierto estas contradicciones e incluso la lucha de clases en el seno de las sociedades capitalistas! Respecto de los contextos latinoamericanos del siglo XIX y XX, han enfocado estos temas y problemas, historiadores, sociólogos, economistas, antropólogos sociales; pero particularmente, especialistas en Historia Cultural.6 El ámbito de las ciencias sociales incluye a todas las disciplinas humanas y también a la Arqueología; por lo tanto, respecto de teoría social, la Arqueología tiene que tomar esos antecedentes.

Respecto de cuestiones epistemológicas se mencionan –y es un caso común dentro del medio- interdisciplina y multidisciplina como si fueran equivalentes. Estas son vinculaciones entre disciplinas en relación con la resolución de problemas. En Argentina estas relaciones fueron definidas por los epistemólogos (por ejemplo, Somenson 1992; Gianella 1995).7 Ninguna de ellas es equivalente a la otra. Interdisciplina e incluso multidisciplina (como moderno, utopía, etc.) son palabras “bastardeadas”, según expresan los mismos epistemólogos. En Arqueología ha ocurrido algo parecido como ha señalado Sackett (1977) al respecto de lo que denominó “términos ómnibus”, que también son términos bastardeados. Es un término al que se le “suben” diversidad de significados. Los arqueólogos utilizamos también nuestro lenguaje y cuestionamos si otros o los mismos arqueólogos no emplean los términos teóricos con los alcances con los que han sido definidos, por ejemplo, artefacto, estructura, sitio, etc. (aunque respecto de estas clasificaciones se tomen conceptos de Schiffer, Lull u otro arqueólogo). Todo esto y otras cosas, contribuye a mejorar la comunicabilidad en el ámbito científico.

Dentro del campo de la Arqueología Histórica, en la Argentina y durante los últimos años, la discusión sobre aspectos teóricos y metodológicos se ha enfocado desde distintas perspectivas.8 En la actualidad el debate continúa con menor intensidad. Sin embargo, puede decirse que ha brindado perspectivas alentadoras por el interés despertado inclusive en otros investigadores que no provienen del campo arqueologico.9 Entiendo que el libro Arqueología Histórica en América Latina. Temas y discusiones recientes, compilado por Pedro Paulo Funari y Fernando Brittez, contribuye al desarrollo de temas ya tratados en la Arqueología Histórica. Los autores de los artículos hacen aportes respecto de problemas puntuales sobre los que brindan datos empíricos; sin embargo, la obra general y las posiciones teóricas no representan al espectro latinoamericano ni al fundamento de la teoría latinoamericana.

Notas

  1. Para referencias de las denominadas Arqueología del capitalismo o del mundo capitalista podemos citar, entre otros, Orser y Fagan (1995) y Orser (1996).
  2. Son: 1). la Arqueología Histórica como el estudio de un período; 2). la Arqueología Histórica como un método de investigación; 3). la Arqueología Histórica como el estudio del Mundo Moderno (Orser y Fagan 1995; Orser 1996).
  3. Podría argüirse que, en general, en Europa occidental y sus colonias -y particularmente en esos dos países- los registros de esa época son bastante más completos que en otras partes del mundo, por lo que no habría otra posibilidad de información adecuada por utilizar. Sin embargo, el análisis de Fagan aborda cuestiones climáticas y también sociales y los hechos que cita llegan hasta el año 2000, por lo que los registros de muchos países del mundo pueden brindar información clara y precisa, por lo menos desde fines del siglo XIX. También la periodización de Schuyler (1980) tiene fuerte contenido y sesgo eurocéntrico, ya que contempla la expansión europea y la del denominado “Mundo Occidental” y no considera otros contextos en los que, fuera de esa influencia, existen a la vez registros materiales y escritos.
  4. Por ejemplo, existe una fase capitalista liberal durante la última mitad siglo XIX, con explotación extrema de los trabajadores e ideas rectoras muy individualistas que volverá reciclado a fines del siglo XX. A principios del siglo XX, el Taylorismo y el Fordismo influyen en la producción y en las condiciones de vida de los trabajadores-pero con la mirada puesta en el consumo- intentando maximizar la primera en beneficio del capital. ¿La Argentina se encuentra incluida en ese proceso y en esa fase de mayor integración internacional (1870-1913)? Otra fase es la del capitalismo reglamentario, en donde el estado interviene y se aflojan las tensiones en pos de una mejor producción y un correlato de consumo; al cual le siguen otras fases. Aquí la Argentina tiene una mayor relación, pero siempre a la saga de la denominada Europa Occidental o del llamado Primer Mundo.
  5. También se debe recordar que, inclusive, en países de la llamada Europa Oriental – Lituania, Letonia y Estonia por ejemplo- se pasó de formas cuasi feudales hacia el socialismo durante las primeras décadas del siglo XX. El caso de la Argentina –agrícola e industrial- es también particular, de dependencia del llamado Primer Mundo e incomparable con Inglaterra, por ejemplo. Ramos 2007 – Reseña 208 6. Algunos, y contemplando el enfoque, son marxistas o neo-marxistas (como Azcuy Ameghino 1995, 2004).
  6. Respecto de relaciones entre disciplinas dice Gianella: “La multidisciplina se caracteriza por el trabajo mancomunado de científicos de distintas ciencias en torno a la resolución de problemas, sin la modificación de los conceptos y procedimientos de cada una de ellas. El trabajo interdisciplinario, en cambio, se caracteriza por el intercambio de información y procedimientos, pero manteniendo las categorías propias de cada ciencia. Por último, el trabajo transdisciplinario requiere de la creación de categorías y procedimientos nuevos, que van más allá de las contribuciones que efectúa cada disciplina” (Gianella 1995: 71). En cuanto a lo que dice Somenson (1992), las expresiones son similares. Todo esto no es un pequeño detalle.
  7. Entre otros, Rocchietti 1996, 2002; Gómez Romero y Pedrotta 1998; Ramos 2000, 2002; Zarankin y Senatore 2002; Tapia 2003 y Pineau 2006.
  8. Fuera de la Argentina, sobre todo en el ámbito anglosajón, se ha debatido desde hace muchos años la perspectiva teórica de las investigaciones sobre problemas planteados en relación con sitios ocupados durante tiempos históricos. Los alcances y las posibilidades de abordar arqueológicamente problemas del pasado en momentos en los que existía escritura, sobre eventos o procesos, han sido tratados en varias oportunidades (entre otros, South, 1977; Schuyler 1980; Trigger, 1982, 1992; Orser y Fagan 1995; Orser 1996, 2000; Johnson 2000).

Referências

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Gianella, A. 1995. Introducción a la Epistemología y a la Metodología de la Ciencia. Editorial de la Universidad Nacional de La Plata. La Plata.

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Pineau, V. 2006. Una discusión sobre el concepto de arqueología Histórica desde el sur del Conosur. Estudios de Arqueología Histórica. Investigaciones argentinas pluridisciplinarias. Tapia A., Ramos M. y Baldassarre C. (eds.). pp. 37-42. Buenos Aires.

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South, S. 1977. Method and Theory in Historical Archaeology. Academic Press. New York.

Tapia, A. 2003. Relaciones interétnicas y cambio cultural en la frontera al sur del Río Cuarto. Una perspectiva arqueológica. Signos en el Tiempo y Rastros en la Tierra. Ramos M. y Néspolo E. (Eds.). Vol. I: 284-294. Universidad Nacional de Luján. Luján.

Trigger, B. 1982. Teorías, Métodos y Técnicas en Arqueología. Instituto Panamericano de Antropología e Historia. México.

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Zarankin, A. y X. Senatore 2002. Arqueología da Sociedade Moderna na América do Sul: Cultura Material, discursos e práticas. Zarankin A. y Senatore X.(Comps.). Ediciones del Tridente. Buenos Aires.

Mariano Ramos – Licenciado en Ciencias Antropológicas, con orientación en Arqueología, Facultad de Filosofía y Letras (UBA), 1987. Especialista (2004) y Magister (2005) en Epistemología e Historia de la Ciencia (UNTREF) y Doctorando de la FF y L (UBA). Vinculado a diversas instituciones: AIA; AAPRA; CONICET; UNLu; TEFROS–UNRC. Es Docente-Investigador de Universidad Nacional de Luján y Profesor Adjunto de UNLu en Antropología, Prehistoria General e Historia de América I. Realizó 57 campañas arqueológicas (dirigió 39) en Argentina, Francia (CNRS y Universidad de Columbia) y en España (Universidad de La Laguna, Arqueotecnia y Universidad de La Gomera, Canarias). Dirige proyectos de Investigación y el Programa de Arqueología Histórica y Estudios Pluridisciplinarios (PROARHEP-UNLu). Cuenta con 6 libros y más de 60 publicaciones en Argentina, España, Chile y Estados Unidos y forma parte de Comités de Revistas universitarias.

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Imagens do passado: São Paulo e Rio de Janeiro nos primórdios do cinema | Pedro Paulo A. Funari

Pedro Paulo Abreu Funari, arqueólogo e professor titular do Departamento de História da Unicamp e Aline Vieira de Carvalho, doutoranda na mesma instituição, reuniram-se para escrever Palmares, ontem e hoje, publicado recentemente pela Editora Jorge Zahar Editor.

O livro é o mais novo volume da coleção “Descobrindo o Brasil”, dirigida por Celso Castro, que visa à publicação de estudos especialistas sobre diferentes temas relacionados à História do Brasil em uma linguagem acessível a um público que não se restringe aos meios acadêmicos. Tendo em vista essa proposta, Funari e Carvalho tratam, nesse livro, de um aspecto ímpar da história do Brasil: o quilombo de Palmares. Em uma abordagem interdisciplinar, baseada em um constante diálogo entre arqueologia e história, os autores apresentam para o leitor diferentes maneiras de se interpretarem os eventos ocorridos no cotidiano do quilombo, bem como enfatizam a necessidade de uma abordagem crítica para a produção de leituras mais dinâmicas do quilombo de Palmares, estimulando uma reflexão da importância da luta pela liberdade tanto no passado como no presente. Leia Mais

Neohegemonia Americana ou Multipolaridade? Pólos de Poder e Sistema Internacional | Paulo Vizentini e Marianne Wiesebron

Desde o fim da Guerra Fria, os debates sobre o reordenamento do sistema internacional tem sido uma constante, trazendo diversos desafios para os Estados que se relacionam neste novo sistema e buscam estabelecer uma agenda positiva que responda a esta realidade e a seus dilemas internos. Assim, estamos diante de uma fase de reordenamento do poder mundial, na qual mais do que respostas, apresentam-se perguntas sobre os novos equilíbrios que se construirão no médio e longo prazo. Aprofundando estas reflexões e oferecendo um panorama sobre o tema, surge como essencial a publicação do livro Neohegemonia Americana ou Multipolaridade? Pólos de Poder e Sistema Internacional, organizado por Paulo Vizentini e Marianne Wiesebron.

Editado pela Ed. UFRGS, consolidando sua tradição na área, o livro é composto por uma coletânea de artigos e pertence à Série Estudos Internacionais- NERINT/ILEA. Tais artigos originaram-se de Seminário realizado pelo Instituto Clingendale de Relações Internacionais de Haia, e representam um esforço conjunto de debate sobre os pólos de poder do sistema, tentando responder à pergunta título: neohegemonia ou multipolaridade? Leia Mais

The Global Cold War | Odd Arne Westad

Ao nos aproximarmos do vigésimo aniversário da queda do Muro de Berlin, a prolixidade acadêmica acerca da Guerra Fria continua firme e forte. Assim como The Cold War: A New History, de John Gaddis (resenhado na edição 1/2006 desta revista), o livro de Arne Westad traz novas interpretações, baseadas em arquivos recém-abertos dos Estados Unidos, da União Soviética e de diversos países do Terceiro Mundo, que desafiam antigas visões da Guerra Fria.

Um dos principais problemas para estudiosos da Guerra Fria é a sua definição: ela pode ser vista como um período, um conflito ideológico, uma disputa político-militar ou de uma série de outras formas. Westad propõe estudá-la como um conflito verdadeiramente global entre duas superpotências, cada uma portadora de um projeto ideológico universalista da modernidade. O grande palco da disputa entre esses dois arautos da modernidade – que o autor caracteriza, não sem ironia, como o “império da liberdade” (EUA) e o “império da justiça” (URSS) – teria sido o Terceiro Mundo, que ao emergir do processo de descolonização, buscava alcançar a independência política e o desenvolvimento econômico. O livro é concebido, portanto, como uma história do intervencionismo das superpotências no Terceiro Mundo ao longo da Guerra Fria. Leia Mais

Rondon: o marechal da floresta – DIACON (E-CHH)

DIACON, Todd A. Rondon: o marechal da floresta. São Paulo: Companhia das Letras, 2006. Resenha de: CATELLI, Rosana Elisa. p.333-339. Especiaria – Cadernos de Ciências Humanas, Ilheus, v.10, n.17, p.333-339, jan./jun., 2007.

Rondon: o marechal da Floresta é o título do livro do historiador Todd A. Diacon, da Universidade do Tenessee, Estados Unidos, lançado pela Companhia das Letras, em 2006. Diacon fez uma extensa pesquisa nos arquivos documentais, como o Museu do Exército e o Museu do Índio, ambos no Rio de Janeiro, a fim de recuperar a trajetória de Cândido Mariano da Silva Rondon (1865-1958), o oficial do exército que formulou uma das primeiras políticas para os povos indígenas no Brasil.

No final do século XIX, o governo brasileiro iniciou uma política de povoamento e ocupação que abrangia uma vasta região: do Mato Grosso ao Amazonas. A idéia era colonizar estas regiões com população não indígena, construir estradas, educar os índios e instalar meios de comunicação que ligassem o interior ao litoral. Em 1900, Rondon, jovem oficial do Exército, tornou-se o chefe da Comissão de Linhas Telegráficas do Estado do Mato Grosso e em 1907 comandou a Comissão Estratégica de Instalação de Linhas Telegráficas do Mato Grosso ao Amazonas, concluída em 1915. Diacon concentra sua análise nesta última Comissão, que percorreu 1600 quilômetros de mata cerrada, com rios largos, povos indígenas e poucos mapas para guiarem os homens nesta empreitada. O autor procura reconstituir o cotidiano desta Comissão e as dificuldades que enfrentaram ao explorar uma região totalmente desconhecida. Acompanhados de 58 mulas e 100 bois, carregavam comida, máquinas de costura, fuzis, morfina, baterias, cabos de aço, gramofone, mesas, tendas etc. No decorrer da viagem, várias dificuldades acometiam estes homens: os animais sucumbiam, faltavam suprimentos, eram atacados pela malária e pelos indígenas.

A descrição que Diacon faz da passagem da Comissão pelos inóspitos territórios do Mato Grosso e do Amazonas enfatiza o caráter de aventura que deve ter sido abrir estes caminhos pela selva. A chance de explorar este Brasil desconhecido, isolado da nação, é o que parecia animar Rondon, que não se deixava abater pelas perdas, pela malária e pelo cansaço. Integrar o sertão à nação brasileira e expandir a autoridade do Estado Central eram os propósitos centrais da Comissão. Diacon mostra que para compreender o processo de integração destas terras e dos povos indígenas, proposto por Rondon, é importante “levar a sério” os ideais positivistas que o acompanharam durante sua formação como engenheiro militar e depois como estrategista da ocupação do interior do Brasil. O positivismo seria a chave, na análise de Diacon, para compreender a obstinação de Rondon em sua aventura pela selva e a sua postura com relação aos índios.

Rondon entrou em contato com as idéias positivistas na Academia Militar do Rio de Janeiro. Adotou o mote positivista de servir à humanidade por ações que fomentassem o progresso científico, a industrialização e a modernização. Suas Comissões eram compostas por botânicos, zoólogos, antropólogos, todos com o objetivo de estudar a natureza e descobrir formas de usá-la para o bem da humanidade. Em plena floresta amazônica, Rondon e seus homens, praticavam os rituais positivistas: seguiam o calendário positivista, tocavam o Hino Nacional num gramofone que os acompanhava nas longas caminhadas, hasteavam a bandeira, comemoravam as datas cívicas. Rondon fazia sempre discursos para seus homens a fim de convertê-los ao positivismo.

Este afinco de Rondon a estes ideais explica, segundo Diacon, a forma como a política indigenista foi formulada pela Comissão.

Seguindo estes pressupostos, a integração deveria ocorrer pacificamente e não pela exclusão dos povos indígenas. A opção de Rondon foi a de proteger e assimilar culturalmente os índios, pela promoção da educação destes povos, que incutiria novos hábitos e promoveria a civilização dos mesmos. No ideário positivista, diríamos que os índios passariam do estado fetichista ao estado científico-industrial e para que esta passagem ocorresse de fato, ela precisava acontecer por “aceitação” e não pela força.

Os positivistas brasileiros criticavam a ação da Igreja Católica em relação aos índios, por forçá-los a abandonar as suas crenças em nome do catolicismo. Segundo os preceitos da Igreja Positivista, os índios, enquanto estivessem num estágio inferior da evolução social, não deveriam ser forçados a abandonar as suas crenças. Eles não eram vistos como uma raça inferior, mas num estágio de evolução inferior. Com base nestes pressupostos, Rondon foi o primeiro diretor do Serviço de Proteção ao Índio, de 1910 a 1915.

Com relação à política indigenista, Diacon faz uma discussão confrontando as obras de caráter mais biográfico, que louvavam as ações de Rondon e as revisões contemporâneas que tecem intensas críticas à ação da Comissão em relação aos índios.

Para Diacon, os estudos recentes, realizados por antropólogos, concebem que ações como as de assistência, proteção e pacificação escondem a violência da Comissão Rondon e o objetivo de conquistar estes povos. Diacon concorda, em parte, com esta tese dos chamados revisionistas, salientando a ambigüidade das ações da Comissão que, com uma visão etnocêntrica, contribuiu para a deturpação da cultura indígena, mas também afirma que Rondon foi o primeiro a defender as terras indígenas e a soberania destes povos. Segundo o autor, se Rondon optou por uma política de assimilação do índio aos hábitos culturais do homem “civilizado”, isto pode ter representado um avanço para a época se comparamos com propostas muito piores existentes naquele momento. Para Diacon, seria um anacronismo supor que Rondon concebesse os índios como um “outro”, com uma cultura própria. Para ele e os demais positivistas da época, o índio era um homem primitivo, que deveria ainda chegar ao estágio da civilização com o auxílio dos órgãos oficiais, que implantariam políticas educacionais e de proteção ao índio.

Este processo de assimilação dos povos indígenas proposto pela Comissão Rondon pode ser verificado também pelas imagens produzidas no decorrer de sua trajetória. A Comissão Rondon produziu vários registros fotográficos e cinematográficos de valor inestimável para os estudos etnográficos e imagéticos, arquivados em grande parte no Museu do Índio do Rio de Janeiro.

Há também a preciosa coleção de filmes etnográficos, alguns já perdidos e outros que foram preservados pela Cinemateca Brasileira, entre eles: “Rituaes e festas bororo” (1917), “Ao redor do Brasil: aspectos do interior e das fronteiras brasileiras” (1932), “Romuro, selvas do Xingu” (1924), “Os carajás” (1932), “Viagem ao Roraima” (1927), “Parimã, fronteiras do Brasil” (1927) e “Inspectoria de Fronteiras” (1938) (TACCA, 2001). A Comissão tinha como integrante o Major Luiz Thomaz Reis, responsável pela Secção de Cinematograhia e Photographia, criada em 1912. O Major Thomaz Reis tinha conhecimentos sofisticados de cinema e fotografia e realizou um dos primeiros registros etnográficos do mundo. Este material tem sido objeto de estudos sobre o uso da imagem no início de século e das relações estabelecidas com os índios. Rondon tinha consciência da importância da publicidade de suas ações e, principalmente, da repercussão que a veiculação destas imagens poderia ter. Os filmes de Thomaz Reis eram projetados para o público de cidades como o Rio de Janeiro e São Paulo e causavam grande polêmica. Para um público ávido por imagens, curioso a respeito do sertão brasileiro, os filmes de Thomaz Reis lotavam as salas e proporcionavam um grande “marketing” da Comissão. Na perspectiva nacionalista da comissão, os filmes e as fotografias tiveram grande importância na criação de um imaginário coletivo em torno do tipo nacional, do sertão e dos povos indígenas.

Segundo Diacon, nas fotografias da Comissão podemos encontrar representações de caráter positivista: índios segurando a bandeira nacional, a figura feminina como símbolo da nação, Catelli, Rosana entre outras. Imagens estas que eram utilizadas como forma de publicizar as ações da Comissão para o Exército e para o governo brasileiro, como também formar uma opinião pública a respeito da nação. Este uso institucional da imagem está entre uma das ações pioneiras da Comissão Rondon, que será seguida em vários projetos políticos posteriores.

A divulgação de imagens do interior do Brasil compunha não só um conjunto de representações internas do território nacional, como também contribuía para a construção da imagem do Brasil no exterior. Rondon sabia da importância de boas relações internacionais no auge do imperialismo americano e por isso aceita o pedido do Ministro das Relações Exteriores, em 1913, para guiar o ex-presidente Theodore Roosevelt que pretendia realizar um safári pelo noroeste brasileiro. Apesar de esta viagem significar uma interrupção nos trabalhos de Rondon, ele a aceitou por entender que isto possibilitaria a divulgação das potencialidades do Brasil no exterior, como também faria a publicidade de seu projeto telegráfico pelo interior do país.

Diacon descreve a trajetória desta expedição Rondon-Roosevelt com detalhes dos locais percorridos, os suprimentos e as dificuldades enfrentadas. Os jornais do Rio de Janeiro e de São Paulo da época divulgaram amplamente esta expedição, o que satisfez os objetivos de Rondon.

A Comissão Rondon oferece várias possibilidades de análise para compreendermos o Brasil do final século XIX e início do século XX. Diacon salientou aspectos como o ideário positivista presente na formação de Rondon e as conseqüências deste ideário para a política indigenista. Mas muitos outros pontos de vista poderiam ainda ser analisados, dada a riqueza de documentos textuais e imagéticos produzidos por esta Comissão. O trabalho de Diacon representa um importante levantamento histórico para percorrermos a trajetória de Rondon pelas selvas do Brasil e compreendermos as ações desta Comissão na construção de um imaginário sobre o índio e sobre a nação brasileira.

Referências

BIGIO, Elias dos Santos. Cândido Rondon: a integração nacional. Rio de Janeiro: Contraponto/ Petrobrás, 2000.

MACIEL, Laura Antunes. A nação por um fio: caminhos, práticas e imagens da “Comissão Rondon”. São Paulo: EDUC, 1998.

TACCA, Fernando de. A imagética da Comissão Rondon: etnografias fílmicas estratégicas. Campinas: Papirus, 2001.

Rosana Elisa Catelli – Professora do curso de Comunicação Social da UESC e doutora em Multimeios – Cinema, pela Unicamp. E-mail:recatelli@uesc.br

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nserção Internacional: formação dos conceitos brasileiros | Amado Luiz Cervo

Eis uma criativa reflexão nacional, essencial às comemorações que se aproximam do centenário da disciplina dedicada ao estudo das relações internacionais. O livro de Amado Luiz Cervo inova ao sistematizar conhecimento brasileiro essencial à formação de conceitos em relações internacionais.

O argumento central do autor é que o Brasil, ao lado de uma dezena de países, propõe conceitos próprios a essa área do conhecimento, tanto quanto próprias são as concepções dos demais centros de produção científica para o estudo das relações internacionais em outras regiões do mundo. A espinha dorsal do livro situa-se no diálogo do pensamento brasileiro com os conhecimentos disponíveis na conformação epistemológica da disciplina. Situa Cervo o Brasil como uma nação de experiência singular ao fazer “de si idéia própria do papel a desempenhar no mundo”. Utilíssimo à grande área voltada para o estudo dos vínculos entre sociedades nacionais e o meio internacional, o autor se inspira no ambiente acadêmico brasileiro e latino-americano, e também na história acumulada pela prática diplomática brasileira bem como pela trajetória do Estado nacional. Leia Mais

For the soul of mankind: the United States, the Soviet Union, and the Cold War | Melvyn P. Leffler

Melvyn Leffler é um prolífico autor, tendo já redigido centenas de páginas sobre a Guerra Fria. Seu livro sobre a doutrina de segurança nacional do governo Truman é um dos maiores trabalhos sobre a política externa americana do século XX; seus embates com o historiador John Lewis Gaddis são igualmente relevantes para a historiografia americana. Tendo se dedicado tanto ao tema, podemos nos perguntar por que esse autor decidiu escrever outro livro sobre a Guerra Fria.

São duas razoes que justificam a publicação de mais um volume sobre o período. A primeira é que o autor, assim como outros estudiosos do período, não previu o fim do conflito. Subitamente, o mundo no qual ele vivia e estudava deixara de existir. Poucas pessoas anteciparam o fim; um grupo menor ainda de indivíduos conseguiu predizer em quais condições e como essa transição se daria. Para Leffler, além do desafio de entender por que o conflito terminou, há uma outra questão subjacente bem mais complexa e que merece um exame mais detido: se a Guerra Fria terminou ao final da década de 1980 em um processo aparentemente tão simples, por que isso não ocorreu antes? Leia Mais

Sistema internacional com hegemonia das democracias de mercado: desafios de Brasil e Argentina | Eduardo Viola e Héctor Ricardo Leis

Um duro retrato da realidade internacional: esta talvez seja a frase que melhor sintetiza o livro de Eduardo Viola, professor titular de Relações Internacionais da Universidade de Brasília, e Héctor Ricardo Leis, professor da Universidade Federal de Santa Catarina. Após quase vinte anos do colapso da União Soviética as transformações operadas no sistema internacional agora podem ser melhor percebidas: coube aos autores descrevê-las de forma coerente e contundente.

A linha central de pensamento dos autores é que o sistema de estados que delineia a ordem internacional vigente é baseado na hegemonia das democracias de mercado. Nesse sentido, o protagonismo norte-americano só é válido em composição com outras grandes potências: juntas, como democracias de mercado consolidadas, fazem da democracia seu modelo político, do capitalismo de mercado sua moldura econômica definidora e da globalização seu veículo de manutenção ou transformação da ordem vigente. Ainda que exaltando o verdadeiro liberalismo, a análise de ambos aponta para uma valorização do progresso social e econômico como metas universais, em detrimento de orientações puramente ideológicas. Leia Mais

O pacto imperial: origens do federalismo no Brasil do século XIX / Miriam Dolhnikoff

Professora de História e Relações Internacionais da USP e pesquisadora do CEBRAP, Miriam Dolnikoff publica livro que contraria interpretações consagradas sobre a história política do Brasil imperial.

Inserida na questão maior da organização política do Brasil Imperial, a obra busca entender a longevidade da influência das elites no Brasil, investigando a maneira pela qual estas estiveram presentes no processo de construção do Estado brasileiro, de modo a contribuir na determinação de seu perfil.

Podemos melhor avaliar a pesquisa da autora e sua posição de embate frontal à historiografia estabelecida, por breve análise da idéia cristalizada da “história da construção do Estado brasileiro na primeira metade do XIX como a história da tensão entre unidade e autonomia”.

Sabemos que a interpretação do Período Regencial como a fase do jogo político entre centralização e descentralização de poder surgiu ainda no século XIX. A pesquisa de Augustin Wernet rastreou o início desta interpretação e o localiza na obra de H. G.

Handelmann, de 1860.1 Nesta visão assiste-se ao revezamento de homens no cenário político nacional, sem as profundas mudanças (revolução) das estruturas herdadas do período colonial, tendo a primeira metade das Regências sido caracterizada pelo avanço liberal (descentralização), e a segunda pelo regresso conservador (centralização). A historiografia a seguir vai articulando a descentralização às forças provinciais e à desordem, e o Regresso, ao retorno da ordem.

Por exemplo, Sérgio Buarque de Holanda considerou as forças provinciais, defensoras de um projeto federalista, expressão das forças localistas arcaicas, apegadas aos privilégios coloniais, enquanto a centralização seria o projeto que trazia no seu bojo a possibilidade de modernização, já que ela seria a condição de construir o Estado e a unidade nacional. A defesa dos interesses regionais se limitaria, deste ponto de vista, à tentativa de preservar a herança colonial. Para Buarque, o federalismo não passava de um lema para sustentar o estado das coisas vindas da vida colonial.

Outros autores como Maria Odila Dias e Ilmar de Mattos, também atribuem a vitória sobre as forças centrífugas herdadas do período colonial à capacidade da elite articulada em torno do aparato estatal do Rio de Janeiro de se impor a todo o território nacional. Para eles, o acordo pela unidade, pela centralização política e direção administrativa nas mãos do Rio de Janeiro, teria sido resultado do movimento conservador de 1840, conhecido como “Regresso”, indicando o abandono da experiência de descentralização da Regência.

Entre as interpretações mais consagradas está a de Jose Murilo de Carvalho, segundo a qual, a unidade sob um único governo, teria sido obra de uma elite da Corte, cuja perspectiva ideológica a diferenciava das elites provinciais, comprometidas com seus interesses materiais e locais. A vitória da primeira teria significado a submissão dos grupos provinciais, que ficavam desta forma, isolados em suas províncias. Essa vitória se materializou na imposição de um regime centralizado que neutralizava as demandas localistas das elites provinciais.

Discordando desses autores, e particularmente, de José Murilo, para Míriam Dolhnikoff, a unidade sob hegemonia do Rio de Janeiro foi possível não pela neutralização das elites provinciais e centralização, mas sim à implementação de um arranjo institucional por meio do qual as elites se acomodaram, ao contar com autonomia significativa para administrar suas províncias e, ao mesmo tempo, obter garantias de participação no governo central por meio dos seus representantes na Câmara dos Deputados. Através do parlamento, as elites nele representadas participavam não só do orçamento, mas também das questões relevantes para a definição dos rumos do país como a escravidão, a propriedade de terras e para organização do Estado, como a legislação eleitoral. (p.14) A autora discorda da idéia de que foi o retorno à centralização – “projeto vencedor” do Regresso- o responsável pela unidade do Império e pela definição do modelo de estabilidade deste; ou seja, para ela, o projeto federalista não morreu em 1824, nem em 1840, ele foi o vencedor, embora tenha feito, no bojo da negociação política, algumas concessões.

Dolnikoff entende que o “Regresso” foi uma revisão centralizadora que se restringiu ao aparelho judiciário, sem alterar pontos centrais do arranjo liberal, que tinham caráter descentralizador. (p.130) Ao invés de destacar a atuação da elite da Corte, a autora conclui que foi a participação das elites provinciais a propiciadora das condições para inserção de toda a América Lusitana no novo Estado, atuação decisiva, que inclusive marcou a dinâmica do Estado brasileiro.

Para a defesa desta posição, a autora recorta para pesquisa três unidades da federação: as províncias de Pernambuco, Rio Grande do Sul e São Paulo. Examina o exercício da autonomia dos governos provinciais inclusive em fase posterior ao Regresso. Justifica sua seleção por serem essas províncias diversas entre si, nos aspectos regionais, nos distintos passados, e nas diferentes demandas e interesses. Busca demonstrar que os diferentes conflitos encontravam espaço de negociação dentro da organização institucional organizada.

Desse modo, as elites provinciais tiveram papel decisivo na construção do novo Estado e na definição da sua natureza. Participaram ativamente das decisões políticas, fosse na sua província, fosse no governo central. E, ao fazê-lo, constituíram-se como elites políticas.

O que a autora quer mostrar mais especificamente é que as elites provinciais (com raízes no período colonial, que defendiam a ordem escravista, a exclusão social e as franquias provinciais) estavam também atreladas ao projeto de construção do Estado nacional e não excluídas. Justamente porque conseguiram articular-se a um arranjo institucional consagrado nas reformas de 1830 e na revisão de 1840 é que a fragmentação da nação foi evitada.

O “preço pago” por esta unidade conseguida teria sido o fortalecimento dos grupos provinciais no interior do próprio aparato estatal, com o conseqüente estabelecimento das poderosas forças oligárquicas, que ao final do século XIX, reivindicaram mais autonomia.

A autora conclui que foi a participação destas elites no interior do Estado, com fortes vínculos com os interesses de sua região de origem e ao mesmo tempo comprometidas com uma determinada política nacional, pautada pela negociação destes interesses e pela manutenção da exclusão social, que marcou o século XIX e também o XX. (p. 285) Mesmo considerando o levantamento feito pela autora entre o número de medidas centralizadoras e descentralizadoras, concluindo pelo predomínio das segundas, ainda pensamos que o fundamental foi a direção e a finalidade da acomodação centro/províncias no momento considerado: – que foi justamente o sentido da centralização, da negociação em torno de “um sentido”, que garantisse a permanência da sociedade escravocrata e excludente.

Notas 1 Historiador alemão, H G Handelmann, Geschicht von Brasilien. Berlim: Springer, 1860, p. 935, conforme Augustin Wernet, Sociedades políticas (1831-1832). São Paulo: Cultrix, 1978, p 15.

Léa Maria Carrer Iamashita – Doutoranda em História Social-UnB.


DOLHNIKOFF, Miriam. O pacto imperial: origens do federalismo no Brasil do século XIX. São Paulo: Globo, 2005. Resenha de: IAMSHITA, Léa Maria Carrer. Em Tempo de Histórias, Brasília, n.11, p.177-180, 2007. Acessar publicação original. [IF].

Justiça e gênero: uma história da Justiça de menores em Brasília (1960-1990) / Eleonora Z. C. Brito

Nos anos 60 e 70, Michel Foucault abriu uma perspectiva para a leitura das relações de poder, demonstrando que, a partir do século XVIII, uma rede de dispositivos disciplinares objetivou não apenas atuar sobre o sexo, colocando-o “em discurso”, mas também inventou novas formas de apropriação de sentido.

O trabalho de Brito articula a noção de poder do pensador francês não somente pela via da negação de poder como simples repressão; a essa via a autora contrapõe a afirmação de que o poder positiva, diz sim, induz formas de saber e produz discurso. Trata-se, portanto, de um conceito de poder que produz verdades, mais do que as oculta, que constitui regras para o verdadeiro, regras, entre outras, de produção de enunciados e de reconhecimento de seus sujeitos-autores.

Justiça e gênero tem como tônica central o modo como a categoria “menor de idade”, em especial “a menor de idade”, fora lida pela Justiça de Menores no Distrito Federal entre 1960 e 1996 (embora o título estabeleça 1990, a autora nos traz dados atualizados até os meados da década seguinte). Uma leitura que adotou de uma série de estratégias que refletem questões ligadas às relações de poder e gênero, evidenciadas e criticadas pela autora. O trabalho inscreve-se no grupo de estudos de gênero que possuem como ambição desnaturalizar as relações entre homens e mulheres, mostrando-as como construções sociais, históricas e culturais.

Ao analisar os casos indicados nos arquivos do antigo Juizado de Menores de Brasília – um total de cinco mil processos de um universo de cerca de trinta e dois mil –, a autora nos apresenta a história da constituição da justiça voltada ao “menor” infrator, por meio da configuração do Código de Menores, numa clivagem entre Direito e Ciências Médicas, além das teorias assistenciais em voga desde o final do século XIX. Dessa forma, o livro localiza o leitor pelas histórias normativas que procuraram regular a relação entre a infância, a juventude e a Justiça.

Nesse aspecto, Brito indica o caráter ambíguo do Código de Menores de 1927, na medida em que, para esse instrumento legal, o “menor” foi uma criação da tensão entre um sujeito ligado ao perigo, a ser detectado e disciplinado, e o sujeito cuja inocência deveria ser resguardada ou recuperada. A autora apresenta-nos esse “leitmotiv”, intimamente ligado à dimensão punitiva – marca do Direito Penal –, que matizou a questão até 1990, ano da promulgação do Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), e mostra-nos como esse sujeito “menor” é destituído de sexo e sofre o apagamento regulador das tensões de gênero.

Enquanto a lei desconsidera o sexo do menor, anulando-o, na prática, por meio das aplicações do Juizado, recupera-se esse sexo “anulado” hierarquizando-o. Para a autora, “antes de ser ‘menor’, a menina é seu corpo, seu sexo de mulher”, como demonstra já de início, a partir da análise do caso de estupro avaliado pelo ministro do Supremo, em que a transgressão não está no ato, mas naquele que transgride – máxima da Escola Positiva de Direito Penal.

Os casos vão surgindo de modo a configurar ora a constituição de uma vítima, ora uma delinqüência, sempre julgada a partir do sexo. Nas questões em que a “menina/mulher” é vítima de crimes sexuais, o que importa é verificar sua índole e não o caso em si. Nesse aspecto, o que os discursos proferidos pelos curadores e juízes instauram é a justificativa da violência como punição social para a “má-conduta” da mulher “devassa”. Impressiona a recorrência de preconceitos tradicionais impostos às menores; constata-se, por exemplo, que, em relação à “menina/mulher”, o crime se associava irremediavelmente à prostituição ainda no final dos anos 80. Sua sexualidade era o foco para onde convergiam essas explicações.

O trabalho nos lembra de que, na lógica das fábulas processuais, não cabia à mulher um papel ativo. Sua defesa só poderia ser constituída diante da evidência de que seu papel de agente passivo do ato estava garantido, de tal modo – mostram-nos os casos narrados –, que, protegida e vigiada pela insígnia do perigo, o respeito à mulher e o crédito de seu relato passavam pelo testemunho do homem adulto. Não são raros, por exemplo, os pareceres que culpam as mães pelas “distrações” das filhas, enquanto ao pai nada cabia senão a vergonha.

O desvio infanto-juvenil, ou seja, sua punibilidade perante a lei, insere-se, portanto, no contexto de certa “estratégia de “governamentalidade” que, por um lado, buscava disciplinar os corpos, e, por outro, objetivava a regulação da população” (p.119). Sobre as questões dos corpos, Brito narra todo um jogo de poder na constituição de uma Medicina Legal, cara às determinações hierárquicas entre homem/mulher, adulto/criança e normal/anormal. Teorias como as divulgadas por Afrânio Peixoto e Nina Rodrigues foram as que deram os contornos do debate sobre a delinqüência no Brasil e, conseqüentemente, sobre a infância e a juventude a serem “protegidas”, objetos preferenciais do saber criminológico.

Tal saber é evidenciado pela autora por meio do estudo de dois laudos solicitados pela Justiça. Um proferido para uma menina e outro, para um menino (os casos de Alice e Mário, independentes, estão entre as comparações mais impressionantes do livro). Os laudos naturalizam os comportamentos, “fixando os que são normais num e noutro sexo e classificando-os no discurso médico” (p.190). O saber médico (legal) respaldava a criação do desvio – ação fora da norma qualificada na patologia clínica –, migrando-o da ordem moral para a clínica. A perícia médica funcionava como uma guardiã da higiene sexual, medicalizando e criminalizando o sexo desviado de sua função procriativa, saudável.

Brito nos mostra como a própria pré-seleção do delito era imposta pelas relações de gênero, na medida em que certas práticas desviantes, na verdade, eram cometidas por meninos e meninas, mas classificadas de modo diverso. O que os pareceres e as sentenças não estavam preparados a permitir eram meninas em situações tidas como preferencialmente masculinas.

Um exemplo é a modalidade “perturbação da ordem”, instituída como um domínio reservado ao masculino, uma vez que corriqueiramente a rua – o espaço público – estava “estabelecida” como tal, enquanto na modalidade “inadaptação familiar” o número de transgressões femininas está “naturalizado”, pois passa-se para a esfera privada. Enfim, analisados e delimitados por critérios específicos a cada época, crianças e adolescentes têm a complexidade de seu “ser no mundo” reduzida a traçados lineares.

Contudo, as regras a que tal linearidade obedecia sofreram mudanças entre os anos 60 e o início dos 90. A autora não comete o erro de planificar os valores nas décadas estudadas.

Está, antes, interessada em como, em momentos distintos, embora próximos, o aparato regulador da “infância” lida com o paradoxo entre uma Justiça que institui para si o peso da modernização moral, ao passo que continua a reconduzir valores tradicionais instituídos às mulheres.

É certo que Brito salienta que as mutações, em muitos aspectos, só renovam alguns padrões de conduta historicamente defendidos. Ignorar que as relações de gênero impõem hierarquizações que estão para além daquelas “admitidas” pela lei – essa mesma viciada em dissimular tais hierarquias, mesmo nos dias atuais – é um alerta premente desse livro. De tal monta que a polêmica que mesmo hoje divide grupos feministas em torno do uso do sistema penal na luta pela defesa e pelo reconhecimento de direitos às mulheres deve ser evidenciada à luz das questões tratadas aqui. A autora põe em questão a eficácia de se acionar o sistema legal em favor da defesa dos direitos das mulheres, discutindo se esta prática, ao contrário, não seria promovedora de um quadro de aprofundamento das relações hierarquizadas de gênero. Pela conduta de sua pesquisa, a autora parece não crer que tal sistema – como ele se apresenta atualmente – seja capaz de garantir equidade.

Em muitos casos, como os próprios processos indicavam, eram famílias interessadas em desvincular-se daquela menor que não mais se adequava ao regime de menina da casa.

Jovens, algumas vezes crianças, trazidas do interior do país para trabalhar como domésticas sem receber salário, num dúbio jogo de exploração e tutela que, em determinado momento, era considerado indesejável. Tal questão mostra que o livro não se presta a maniqueísmos, pois aqui a autora indica como foi importante o papel do Juizado para desvelar esse jogo.

Às mulheres se perdoava, ironia discriminatória que atingia também as jovens de classe média que furtavam no comércio local. Elas eram, geralmente, enquadradas no chamado ‘descuido’, ou seja, na capacidade de pegar e não pagar por mera falta de atenção.

Ao examinar extensa documentação, a autora tomou o cuidado de questionar as determinações de produção, enquadrando-as num contexto histórico localizado, e evidenciou os procedimentos representados pela instituição. Exemplo: nos anos 60 e 70, o juizado de Menores de Brasília não possuía o aparato interdisciplinar de profissionais, previsto em lei, os quais deveriam apoiar as decisões tomadas; nem mesmo contava com instituições “corretivas”. Fatos que influenciavam as decisões e que fizeram muitos processos percorrerem uma cansativa rede burocrática, na esperança de que os problemas externos à demanda judicial fossem resolvidos antes de uma possível sentença.

São todas questões cruciais para quem quer compreender, a partir dos exemplos de Brasília, as determinações legais frente às relações de gênero. A autora não se furta a contextualizar o ambiente em que os documentos são gerados: “Profusão de imagens, Brasília era representada, ao mesmo tempo, como o espaço propício para a manifestação de uma sociabilidade que a fazia mais humana que a maioria das outras cidades (…) e lócus de manifestação do ‘perigo’ representado pela infância e pela juventude ‘desviantes’.”(p.154).

Tal abordagem confere ao livro mais esse atrativo. Além de interessar a estudiosos em gênero, ligados à história ou ao direito, há na pesquisa de Brito uma sutil, mas determinante, consciência do papel que essa “urbe”, tão exótica por sua constituição e história, ocupa na problemática. Brasília e os brasileiros vindos de todas as partes serviram a Brito para o elementar exercício de compreensão daqueles “poderes” que Foucault nos apresentou.

Mateus de Andrade Pacheco – Mestrando em História pelo Programa de Pós-Graduação em História da Universidade de Brasília, com apoio do CNPq.


BRITO, Eleonora Zicari Costa de. Justiça e gênero: uma história da Justiça de menores em Brasília (1960-1990). Brasília: Editora Universidade de Brasília: Finatec, 2007. Resenha de: PACHECO, Mateus de Andrade. Em Tempo de Histórias, Brasília, n.11, p.172-176, 2007. Acessar publicação original. [IF].

Cultura e poder / Estevão C. R. Martins

Professor de teoria da história e de história contemporânea na Universidade de Brasília – UnB, Estevão C. de Rezende Martins dedica-se aos estudos nos campos da teoria, filosofia e metodologia da história, história cultural moderna e contemporânea, e das relações internacionais, em particular da Europa ocidental. Publica em 2007, Cultura e poder, livro que busca situar o leitor em questões referentes à formação e organização dos Estados modernos e de suas relações externas. Nas palavras do autor, o livro segue uma “perspectiva teórico analítica em que são coordenados a preocupação filosófica com a engenharia conceitual e o prisma historiográfico, penhor de inserção empírica dos temas tratados” (p. 01).

O livro está dividido em sete capítulos que buscam apresentar ao leitor, inicialmente, os conceitos que o autor utiliza (como poder, idéias, cultura e ideologia), para em seguida, demonstrar como estes são utilizados para a construção das identidades e, conseqüentemente, das organizações sociais que originam os Estados. Durante a leitura da obra capítulos, nota-se que há quatro seções de análise que direcionam o livro. Essas podem ser divididas em: seção de conceituação (capítulos 1, 2 e 3), nos quais são apresentados os conceitos usados em todo o livro; análise da União Européia (capítulos 4 e 5), onde as idéias apresentadas pelo autor já foram trabalhadas e postas em prática, com relativo sucesso; e análise da América Latina (capítulo 6), utilizando-se de todo o escorço conceitual apresentando. O capítulo 7 tratará das perspectivas sobre o uso das idéias e o poder que exercerão no contexto da “mundialização”.1 Diversos são os campos de estudos e pesquisas que se dedicam à formação dos Estados e sua relação com as identidades sócio-culturais. Dentre esses, há de se destacar o campo da ciência Jurídica, da Ciência Política e das Relações Internacionais. E é por meio dos conceitos fornecidos por estas áreas do saber que Martins articula seus pensamentos utilizando uma perspectiva que se afasta da ciência da história e se aproxima da filosofia, do direito e das relações internacionais. Por meio de tais perspectivas e com base no instrumental teórico dos campos citados é que o autor inicia suas pontuações.

O que são idéias e como são capazes de mover sociedades, isto é, sua concepção e sua função, são as bases para os debates do primeiro capítulo. O autor trata as idéias com uma perspectiva do papel que desempenham no “contexto de redes culturais cuja resultante são as formas de poder na sociedade e no Estado que interferem na formulação e na prática de condutas individuais e sociais”. (p. 7) As idéias são apresentadas como uma forma de orientação do agir, destacando-se em três dimensões distintas: passado (interpretação), presente (explicação) e futuro (projeção). Tais dimensões orientam o pensar humano e a formação não apenas de idéias, mas de identidades – outro discussão que perspassa o livro todo. O debate sobre as idéias de poder é o que conclui o primeiro capítulo. Neste ponto, Martins apresenta diversos posicionamentos sobre as idéias de poder – Foucault, Carl Schmitt, Jean Bodin, etc. – mas deixa claro seu alinhamento com a concepção de Niklas Luhmann, que concebe o poder “como um jogo social de ações, que causam a partir de pressupostos não causais, que efetuam trocas com base em fundamentos não permutáveis, que jogam utilizando regras não colocáveis em jogo”. (p. 25) O poder da cultura e a cultura do poder são o mote do segundo capítulo. O autor emprega o termo cultura, no livro, de forma ampla, “diretamente vinculada à ação racional do homem” (p. 2), um fator dinâmico de ação, formação e transformação. O fundamento da cultura está no fato de que o homem precisa agir para poder viver.

Utilizando-se das concepções de Gordon Mathews, para Martins, a cultura está mergulhada em um “sistema de circulação de idéias e de produtos chamado mercado” (p. 30), e segue três vertentes: a individual, a coletiva (família, colegas de trabalho, torcedores de um time, etc.) e a pública ou estatal (sistemas de educação e de comunicação em massa). Por estas vertentes, o autor explicita a importância do conhecimento histórico, ou “cultura histórica”, pois esse é formador de identidades e está inserido em um mundo de signos, elementos distintivos pertencentes a uma “cultura”. “A cultura histórica é, então, a articulação de percepção, interpretação, orientação e teleologia, na qual o tempo é um fator determinante da vida humana”. (p. 33) Ao nascer, qualquer pessoa já está inserida em um mundo pleno de histórias, de signos e conceitos pré-concebidos, mas isso não significa precisar aceitá-los passivamente; ao contrário, ao adquirir consciência, conquista a capacidade de transformar estas idéias dadas em idéias e conceitos próprios. O indivíduo, grupo ou nação demonstram, desta forma, o poder da cultura. A construção e formação das identidades tomam boa parte desse segundo capítulo, pois para Martins, é o entendimento de si e de quem é o outro que propiciará a criação de laços entre os países, superando questões seculares, como ocorreu com a União Européia (UE). Ponto interessante, pois o autor toma a UE como um exemplo, guardadas as devidas proporções, que a América Latina deve seguir para superar desavenças e se impor de forma organizada.

O terceiro capítulo trata da ideologia. Neste ponto, o autor explicita que o entendimento de ideologia como “receita pronta” para uso rápido, simples e imediato, independente do conteúdo ou dos fins – colocadas de forma maniqueísta muitas vezes – deve ser superado. Atualmente deve-se observar a amplitude e abrangência das idéias, que escapam do simplismo das ideologias clássicas. É algo que pode estar em qualquer contexto, desde que nele haja a questão de ser, pensar e agir, que pode ser entendida como ideologia. Martins expressa que ideologia “é um instrumento prático polivalente, socialmente relevante e particularmente eficaz – embora de contornos difusos, quando ‘vivida’ de forma concreta pelas pessoas”. (p. 67) Após apresentar suas impressões sobre os conceitos elencados Martins passa a questionar essas concepções, o autor vai se lançar a questionar o poder da cultura na história européia e, conseqüentemente, como se pode buscar um fio condutor para a formação das identidades da Europa ocidental, o que facilitaria a convivência e formação de um bloco de países.

O capítulo quatro é dedicado a apresentar a história da Europa ocidental e como a formação das identidades foi diferente em relação aos europeus orientais. Para tal, lança mão das idéias sobre a expansão da fronteira na formação das identidades e do conceito de “grande fronteira” – teorias de Frederick Tuner e Walter Prescott Webb, respectivamente. Para Martins, “A percepção ou ‘estranhamento’ cultural entre diversos ‘outros’ que conviveram – e convivem – no espaço da(s) Europa(s) é um elemento importante na organização extrínseca (…) e intrínseca da identidade cultural européia…” (p. 83).

As questões do multiculturalismo e das identidades nacionais no conjunto Europeu é o tema do capítulo cinco. Nesse momento da obra é debatido o conceito de “linguagem da nação”, isto é, o discurso político nacional que integra três grandes dimensões: a razão modernizadora, a vontade mobilizadora e a justiça igualitária. Por meio desta “linguagem da nação”, deste discurso político nacional é que as nações modernas se organizaram. Para Martins a nação não é uma ideologia, mas um “produto, dentro de um território particular, das relações entre uma economia, uma cultura e um Estado dominados pelo princípio da racionalidade instrumental”. (p. 99) Por essa linguagem é que uma sociedade pode construir o passado como tempo ultrapassado (dimensão interpretativa), de modo a se distanciar e poder explicar o passado e ter perspectivas de futuro (projeção). Contudo, no decorrer da leitura, nota-se que essa linguagem, com bases muito mais históricas, perdeu sua força. A busca de uma nova linguagem deverá, segundo Martins, passar por uma (re)construção das consciências nacionais (no âmbito europeu), devendo se reorientar em busca de uma síntese democrática, o que evitaria os elementos contraditórios de nossa modernidade.

O sexto capítulo do livro volta-se para os debates sobre a formação de uma identidade cultural latino-americana. São expostas quais são as dificuldades para se fomentar uma identidade comum na América Latina. O primeiro passo é compreender que as sociedades européias são “sociedades originárias”, ou seja, foram criadas, originadas da vontade mobilizadora de um grupo, enquanto as sociedades americanas são “sociedades implantadas”, isto é, não foram originadas de uma vontade de um grupo, mas sim impostas por um grupo sobre outro. A partir desse pressuposto, Martins vai discorrer sobre a situação na América Latina e das dificuldades de uma articulação histórica, que contribua para uma identidade comum.

A parte final da obra é dedicada a uma discussão de possíveis perspectivas sobre os movimentos de “mundialização”, o uso e poder das idéias nesse contexto “A multipolaridade política e cultural apresenta-se como contraponto consolidável para viabilizar uma alternativa à unipolaridade econômica norte-americana ainda remanescente”. (p. 137) Com tal perspectiva, propõe que o mundo social deve se voltar para um entendimento da diversificação cultural interna, encarceradas nos Estados nacionais, pois a cultura serve como referência do agir humano, podendo influenciar na modificação das estruturas sociais vigentes.

O historiador convencional ao ler, Cultura e poder não encontrará uma obra nos moldes da ciência da história. Mesmo hoje, onde as fronteiras entre as disciplinas como filosofia, história, sociologia e relações internacionais, não possuem um limite claro – pois todas se utilizam de conceitos comuns, mas com usos específicos – pode-se dizer que o livro é direcionado para o campo das relações internacionais, como o próprio nome da coleção, Coleção Relações Internacionais, já mostra – e dos estudos que debatem a formação dos Estados nacionais e das relações de poder que emergem no interior dessas sociedades, através de uma perspectiva cultura.

Centra-se no contexto europeu, mas segue esse caminho para demonstrar como as idéias e os conceitos apresentados foram aplicados na Europa, suas conseqüências e os possíveis que a América Latina pode seguir para formar uma macro-identidade regional, respeitando as diferenças culturais – o que não ocorreu no velho continente, segundo Martins, pois os Estados foram criados, como que ignorando tais diferenças culturais, criando situações de conflito nos dias atuais, como nos Bálcãs ou na região basca. Contudo, sem se aprofundar no debate, o livro pode introduzir e situar o leitor no debate sobre cultura e poder.

A obra de Martins é extremamente interessante, já que ao introduzir e situar o leitor no debate sobre cultura e poder, centra-se no contexto europeu e segue essa trilha para demonstrar como as idéias e os conceitos apresentados foram aplicados na Europa, suas conseqüências e os possíveis caminhos que a América Latina pode seguir para formar uma macro-identidade regional, desde que respeitadas as diferenças culturais.

Notas 1 O autor usa o termo “mundialização”, expressão do universo da língua francesa, no sentido de “globalização”, mas com ênfase aos aspectos mentais, ideais e culturais.

Eric de Sales – Graduado em História pela Universidade de Brasília – UnB e mestrando pela UnB em História na Área de Concentração História Social. E-mail para contato: malkerik@yahoo.com.br.


MARTINS, Estevão C. de Rezende. Cultura e poder. 2 ed. Revisada e ampliada. São Paulo: Saraiva, 2007. Resenha de: SALES, Eric de. Em Tempo de Histórias, Brasília, n.11, p.167-171, 2007. Acessar publicação original. [IF].

Zooarqueología del sur de los valles Calchaquíes (Provincias de Catamarca y Tucumán, República Argentina) – IZETA (IA)

IZETA, Andrés D. Zooarqueología del sur de los valles Calchaquíes (Provincias de Catamarca y Tucumán, República Argentina). Sn: BAR International, 2007. 164p. Resenha de: STAHL, Peter W. Intersecciones en Antropología, Olavarría, n.8, ene./dic., 2007.

Desde mi perspectiva, de larga distancia en el otro fin del hemisferio, siempre he estimado a mis colegas Argentinos como excelentes zooarqueólogos que practican un análisis tafonómico muy refinado. Este libro, escrito por Andrés Izeta, es uno de los ejemplos más recientes en esta distintiva trayectoria. Basado en su Tesis Doctoral -originalmente presentada a la Facultad de Ciencias Naturales y Museo de la Universidad Nacional de la Plata- el trabajo consiste de un estudio de conjuntos arqueofaunísticos asociados con sitios prehispánicos del sur de los valles Calchaquíes, ubicados en el noroeste Argentino.

La evidencia preservada proviene de sistemas aldeanos del Período Formativo (primer milenio A.C.) que sirvieron como base para el desarrollo de sociedades más complejas, del Período de Desarollos Regionales, en los milenios siguientes. Más de 16.000 especímenes faunísticos fueron analizados. Los restos fueron hallados en siete sitios, cuyo emplazamiento corresponde a una variedad de ambientes ecológicos que va desde los pie de valle hasta paisajes que se encuentran sobre 3000 msnm. Los contextos arqueológicos consisten de varias unidades espaciales, tales como rasgos culturales y recintos o estructuras, que fueron excavadas por medio de estratos artificiales o siguiendo los depósitos naturales. Estos contextos representan ocupaciones bien fechadas que pertenecen a cuatro bloques temporales entre el 2000 y el 1000 AP. El análisis es llevado a cabo con el fin de extraer información de los conjuntos arqueofaunísticos y así evaluar los distintos modelos de subsistencia propuestos para las comunidades agroalfareras tempranas. En particular, Izeta desea entender el rol que la caza y el pastoreo tuvieron en economías mixtas y cómo estos recursos fueron distribuidos en las comunidades aldeanas prehispánicas. En la mejor tradición de su comunidad zooarqueológica, Izeta adoptó un enfoque tafonómico en los que el autor incorpora los resultados obtenidos mediante estudios de rango medio, dentro de su intenso análisis de la data osteológica.

El libro consta de cuatro partes y diez capítulos. La primera parte introduce los objetivos y organización del trabajo y ubica el estudio dentro de la historia de investigación y su localización geográfica y ecológica. La segunda parte ofrece aspectos teórico-metodológicos, especialmente definiciones muy detalladas que él utiliza en su estudio, incluyendo unidades observacionales y de análisis, dentro de un enfoque tafonómico que considera una lista extensiva de modificaciones naturales y culturales. La tercera parte introduce el registro arqueológico y resume el mayoría de su análisis en tres capítulos. Cada capítulo corresponde a una de las tres zonas principales de ésta área. Los dos capítulos que concluyen el libro discuten los datos y resultados y comprenden la cuarta parte. La fortaleza del estudio se basa en la descripción, cuantificación y análisis, sumamente detallados, ofrecidos para cada contexto en los tres capítulos principales de datos. La narrativa es muy detallada, pero su orden es lógico y ha sido estandarizado para cada contexto arqueológico. El análisis faunístico de cada subconjunto (camélidos adultos, camélidos subadultos, y otros vertebrados) está estructurado con el mismo formato, el que permite al lector comprender los datos presentados. En este sentido, el lector puede analizar los datos por sí mismo gracias a la detallada descripción.

Por ejemplo, no concuerdo del todo con la manera de que el autor examina los asuntos relativos a la supervivencia del material óseo y cómo ésta es media da por la densidad ósea. En ocasiones, los detalles del enfoque analítico resultan confusos. Sin embargo, las figuras que indican la abundancia relativa de elementos esqueletarios, producido por SIG, son de tal calidad que permiten al lector verificar independientemente los datos y/o sacar sus propias conclusiones. El autor combina la aproximación de MNE por zonas diagnóstica sugerido por Morlan (1994), con el enfoque del análisis de SIG sugerido por Marean et al. (2001) y compara valores de densidad ósea que corresponden a las zonas de examen o “scan sites” contra el %MAU (unidades anatómicas mínimas). Este procedimiento difiere metodológicamente de la manera en que la supervivencia mediada por la densidad es generalmente medida (Lyman 1994: 256), especialmente en su dependencia en elementos individuales y no en esqueletos completos (Izeta 2005). Personalmente, considero que este último punto es muy importante cuando estamos tratando de verificar lo que no está preservado en una colección, ya que es crucial para entender la validez de las curvas de utilidad. Sin embargo, el detalle de esta presentación permite resolver este problema. Personalmente prefiero otro enfoque y pude utilizarlo debido al nivel de detalle que Izeta proporciona.

Al leer este estudio comencé a cuestionar si es posible que ciertas porciones óseas, como las diáfisis de los metapodios, fueran removidas de la colección para la fabricación de instrumentos. En los últimos capítulos se pueden ver, Figuras 8.4 y 10.4, metapodios especialmente formatizados con las diáfisis aserradas. Esta es una pauta que, en otras partes de los Andes, hemos atribuido a la fabricación de instrumentos como la wichuña (Stahl y Athens 2001). De esta manera, la ausencia de huesos modificados en los conjuntos faunísticos estudiados, puede ser explicada por el hecho que ellos fueron removidos, utilizados, y desechados en contextos aún no examinados. A pesar de eso, a través del examen de esqueletos enteros pude discernir no sólo la presencia si no también la ausencia de elementos. Ambas, ausencia y presencia, son de igual importancia.

Debemos estar agradecidos de tener la oportunidad de publicar nuestros datos en un formato completo, lo que frecuentemente no es posible en muchas de las publicaciones arqueológicas de actualidad. British Archaeological Reports, la editorial, tiene una larga trayectoria en la que los datos arqueológicos son puestos a disposición del público, pero lamentablemente la calidad es a veces muy desigual. Como lector extranjero, pensé que experimentaba deja vu hasta que me di cuenta de que el texto publicado en las páginas 64 y 65 es una repetición del presentado en las páginas 66 y 67. Asimismo, el contenido de la Tabla 6.53 es substituido por otras materias que debe ser encontrado en la Tabla 6.59 desaparecido. Sin embargo, aparte de estos problemas secundarios, este libro, junto con sus numerosas tablas y figuras, ha sido ejecutado espléndidamente.

En sus propias palabras (página 1), el objetivo del autor era “llenar un vacío de información fundamental acerca de la base de subsistencia”, y “proveer un corpus de información que contribuya al conococimiento de la reproducción y economía doméstica” en las aldeas antiguas del Noroeste Argentino. El autor logra estos objetivos. Muchos de los puntos de vista que he presentado en esta breve reseña pueden ser discutidos amigablemente y bebiendo cerveza. El estudio de Izeta es una importante contribución a un área y período fascinante, que es ahora más conocido. Este libro es bienvenido a la arqueología sur americana en general.

Referências

Izeta, A. D. 2005 South American camelid bone structural density: what are we measuring? Comments on data sets, values, their interpretation and application. Journalof Archaeological Science 32: 1159-1168.   [ Links]

Lyman, R. L. 1994 Vertebrate Taphonomy. Cambridge University Press, Cambridge.   [ Links]

Marean, C. W., Y. Abe, P. Nilssen y E. Stone 2001 Estimating the minimum number of skeletal elements (MNE) in zooarchaeology: a review and a new image analysis GIS approach. AmericanAntiquity 66: 333-348.   [ Links]

Morlan, R. E. 1994 Bison bone fragmentation and survivorship: a comparative method. Journal of ArchaeologicalScience 21: 797-807.   [ Links]

Stahl, P. W. y S. J. Athens 2001 A high elevation zooarchaeological assemblage from the northern Andes of Ecuador. Journal of FieldArchaeology 28: 161-176.    [ Links]

Peter W. Stahl – Peter W. Stahl. Departamento de Antropología, Universidad de Binghamton. Correo Postal 6000. Binghamton, New York, 13902-6000 EEUU. E-mail: pstahl@binghamton.edu

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El capital de la esperanza. La experiencia de los trabajadores en la construcción de Brasilia – RIBEIRO (IA)

RIBEIRO, Gustavo Lins. El capital de la esperanza. La experiencia de los trabajadores en la construcción de Brasilia. Buenos Aires: Ediciones Antropofagia, 2006. 247p. Resenha de: GARCÍA, Anália M.; PALERMO, Hernán M. Intersecciones en Antropología, Olavarría, n.8, ene./dic., 2007.

El Capital de la Esperanza constituye una versión modificada -inédita hasta el momento- de la tesis de Maestría de Gustavo Lins Ribeiro, bajo la dirección de Lygia Sigaud dentro del Programa de Post-Grado en Antropología de la Universidad de Brasilia en 1980. Representa un antecedente de sus investigaciones futuras, como su tesis de doctorado sobre la construcción de la represa hidroeléctrica argentino-paraguaya Yacyretá, como forma de producción denominada “proyectos de gran escala“. En la versión actual, el autor incorpora fotografías de la época con alto valor testimonial. Lins Ribeiro es actualmente Profesor regular del Departamento de Antropología de la Universidad de Brasilia e Investigador del Consejo Nacional de Desarrollo Científico y Tecnológico (CNPq) de Brasil.

La propuesta del libro se basa en el registro y reconstrucción de la memoria de los trabajadores de la construcción de la Capital Federal Brasilera según su propia experiencia cotidiana. El objetivo es recuperar la versión de los miles de trabajadores anónimos, alejándose de la versión oficial y de la ideología dominante encarnada desde el poder que lleva a la realización de una de las obras de infraestructura más destacables: la construcción de la ciudad en un período de tan sólo cuatro años -entre 1956 y 1960-, y que implicó el traslado de 60.000 migrantes. El tópico central del texto es el cruce entre la historia nacional brasilera y las experiencias vividas desde la subalternidad, en contraste con la literatura existente -para la épocacargada de una dimensión idealizada del proceso, y con la que el autor contrasta su perspectiva.

El texto está organizado en una introducción y cuatro capítulos basados en un recorte de los distintos niveles que caracterizan la situación de los trabajadores. La introducción se desarrolla sobre un eje teóricometodológico en el que se define la perspectiva conceptual que adopta el autor, basado en tópicos marxistas y en la línea de la economía política; y un eje histórico en el cual pone en situación el proyecto de construcción de la capital y la ideología nacionalista dominante que lo impulsa.

El autor comienza por el estudio de la ideología que impulsa el proyecto, y en ese proceso, va construyendo una caracterización de Brasilia plausible de ser comparada con otros casos en donde la forma productiva adoptada adquiere dimensiones particulares. Por ello, enmarca “La Obra del Siglo” -como fue denominada esta construcción-, en el marco de un gran proyecto de construcción civil. La unidad de análisis es retomada como una totalidad dotada de particularidades que obedecen -en mayor medida- a decisiones políticas más que a una lógica de rentabilidad económica. Por lo tanto, es central en el recorrido del texto, el papel del Estado a través de la empresa constructora estatal -Compañía Urbanizadora de la Nueva Capital, NOVACAP- que organiza la producción en el territorio y construye el espacio social en el que se dirime la situación de los trabajadores.

El aislamiento de la zona elegida -tanto en términos geográficos como de los centros de poder-, y el enorme dimensionamiento de la obra –gigantismo-, constituyen dos características estrechamente vinculadas entre sí. Ambas explican las condiciones objetivas que, sumadas a la decisión política de entonces, determinan que la empresa estatal se constituya como fuente de poder político y que el territorio de la construcción adquiera aspectos de enclave en donde la subordinación de los individuos en su cotidiano obe dece a los intereses vinculados a la construcción, y no a las leyes de la nación.

Este gran proyecto se caracteriza por demandar un gran cantidad de trabajadores -migrantes- hasta su fecha de inauguración, tiempo en el cual se llega al fin de los requerimientos de producción y -repentinamente- esta fuerza de trabajo queda desocupada, que según los planes del gobierno, debiera abandonar la zona, “…la cuestión del porqué aquellos que construyeron la ciudad no tuvieron derecho a permanecer en ella.” (Lins Ribeiro 2006: 16).

Por otra parte, en el plano ideológico se concibe como una obra de redención nacional, sentido que también determina la subjetividad de los trabajadores frente al conflicto capital-trabajo y la necesidad de aumentar los ritmos de producción. En este sentido, es interesante la recuperación de la categoría de pioneros para designar a los trabajadores, directamente relacionados con la expansión de las fronteras del país hacia el interior. Según uno de los relatos, “éramos verdaderos esclavos, pero esclavos de un ideal” (Lins Ribeiro 2006: 173).

En el primer capítulo, se remite a la caracterización de los trabajadores, reconstruyendo -a través de categorías analíticas- el perfil de los trabajadores seleccionados y las diferencias internas entre ellos, lo que resulta relevante en tanto no concibe una masa homogénea de trabajadores. Organiza estas diferencias de acuerdo a: 1) trayectorias laborales previas, 2) la composición de la fuerza de trabajo en trabajadores solteros, casados sin familia y trabajadores con familia, 3) la diferencia entre personal calificado y no calificado; 4) las relaciones de amistad que exceden el dominio de la producción como el surgimiento de regionalismos como sustituto de la red de cooperación recíproca basada en el parentesco y la vecindad; y por último 5) trabajadores contratados por la compañía estatal, a diferencia de los contratados por firmas particulares, que contaban con mayor seguridad en el empleo. Estas distinciones permiten dar cuenta de la heterogeneidad de situaciones y desentrañar la lógica de selección de las empresas constructoras que centran su demanda en trabajadores jóvenes, sin problemas de salud, sin familia, y preferentemente con calificación. Por otro lado, la preeminencia de hombres solos determina una restricción de la existencia de la esfera doméstica en el territorio -expresado fundamentalmente por la escasez de mujeres y de viviendas para familias- que garantiza la subordinación de la reproducción de los trabajadores a la esfera de la producción. En tanto que el emplazamiento de la producción es provisorio, es explícito el desinterés en la sedentarización de los trabajadores a través de las restricciones a la instalación de familias, factor de reproducción de la fuerza de trabajo y de la vida social.

El capítulo siguiente describe de manera exhaustiva el espacio de reproducción de la fuerza de trabajo, los campamentos, a la vez que demuestra una completa subordinación del espacio no productivo al productivo. El campamento es un costo asumido por la construcción en función del ejercicio del control cotidiano de la fuerza de trabajo y su inmovilidad. En este sentido, el campamento es una totalidad subordinada a la administración del proceso productivo que asegura continuidad, asiduidad y puntualidad de los trabajadores, a la vez que regula los tiempos no productivos y las reglas de comportamiento -ocio y alimentación- según los requerimientos de la obra y no sobre la base de las necesidades de los sujetos. El campamento como forma de vivienda hace efectiva la subordinación de la vida cotidiana del trabajador a la esfera productiva.

En el tercer capítulo, se concentra en la descripción y análisis de la esfera productiva y las distintas formas de explotación a las que se ve sometida la fuerza de trabajo. La excepcionalidad del ritmo de producción conocido como “ritmo Brasilia” impone una distinción clásica entre la extensión de la jornada de trabajo y la intensificación de ella. La extensión de la jornada es ipso facto lo que constituye el real aumento del salario mínimo por encima de la media nacional. La evaluación subjetiva de la posibilidad de agregar horas extras, transfiriendo tiempo libre al tiempo de trabajo aparece como una opción o deseo del trabajador. Por otra parte, la intensificación de la producción a través de la tarea -contrato negociado por tiempo-, y la empreitada -remuneración fijada en términos del producto final-, permiten que el operario se autoadministre e incremente el ritmo de la producción.

De ambas formas de elevar el ritmo de producción se deduce que el tiempo libre es el tiempo mínimo de descanso fisiológico y cultural indispensable y que el fetichismo del salario se constituye como un obstáculo que impide el movimiento político y se tiñe de la ideología de redención nacional.

El cuarto capítulo analiza los conflictos surgidos del gran proyecto, agrupados en tres grandes grupos problemáticos, reconstruidos por el investigador, en función de la creciente intensidad que representaron -el tiempo de ocio, la alimentación en los comedores y la vivienda-. Esta última fuente de conflictos remite a la falencia del proyecto del Estado y su provisoriedad, tanto por la presión demográfica ejercida en la Ciudad Libre como por las llamadas “invasiones” de tierras que dieron lugar al surgimiento de ciudades satélite.

Ante los conflictos, resalta la actuación de la Guardia Especial de Brasilia -GEB-, la policía que se asienta sobre el territorio y bajo la administración de la NOVACAP. Por ser los representantes directos de la dominación y órgano mediador de conflictos a través de la violencia, la GEB es la expresión final del control político que la NOVACAP ejerce sobre los trabajadores. Por otra parte, el tratamiento de los conflictos demuestra que no es el salario el foco de reivindicaciones sino el mejoramiento de las condiciones de vida.

En la conclusión en la que remite a la conceptualización de los grandes proyectos y sobre las que desarrollará su trabajo futuro. En este caso, Brasilia se representa como un caso paradigmático de una totalidad compleja como son las grandes obras de construcción civil.

El capital de la esperanza es una excelente etnografía que incorpora el relato histórico de una de las obras más emblemáticas de América Latina a la vez que representa un contexto de producción intelectual latinoamericana signada por la recuperación de las voces silenciadas de la dominación.

Analía M. García – CONICET, Facultad de Filosofía y Letras, UBA. E-mail: analiagarcia9@fibertel.com.ar
Hernán M. Palermo – CONICET, Facultad de Filosofía y Letras, UBA. E-mail: hernanpalermo@yahoo.com.ar

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Brasil-França: relações históricas no período colonial – VASCO (RIHGB)

VASCO, Mariz. Brasil-França: relações históricas no período colonial. Rio de Janeiro: Biblioteca do Exército (Bibliex), 2006. Resenha de: BELCHIOR, Elysio Custódio Gonçalves de Oliveira. Revista do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, Rio de Janeiro, v.168, n.434, p.283-287, jan./mar., 2007.

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Timor-Leste Por Trás do Palco / Kelly C. Silva e Daniel S. Simão

Publicado recentemente, o livro “Timor-Leste Por Trás do Palco – Cooperação Internacional e a Dialética da Formação do Estado” é ruma coletânea de textos produzidos por autores com as mais diversas formações e experiências na área de cooperação internacional, e produto do seminário internacional Cooperação Internacional e a Construção do Estado em Timor- Leste. O livro apresenta uma crítica às práticas da cooperação como instrumento de poder e de suas relações com as conjunturas históricas, poderes e culturais locais pré-estabelecidas, bem como os problemas decorrentes da atuação de diversas organizações na região.

Os autores organizadores possuem formação na área de antropologia, e realizaram uma intensa pesquisa de campo em Timor Leste. Algumas questões principais são lançadas ao longo da obra, e na tentativa de respondêlas, os textos trazem à tona as inúmeras facetas e os problemas derivados do campo da cooperação internacional e de sua atuação na reconstrução de um Estado.

Um das questões abordadas que instigam a reflexão do leitor é a atuação dos organismos internacionais no Timor-Leste, vista por algum tempo como exemplo fantástico de como uma cooperação internacional deve se dar, e que se transforma – a partir de uma crise militar – em um modelo de Estado fracassado. Essa é a idéia que a obra tenta refutar. Nenhum dos extremos deve ser tido como verdadeiro. Não se trata de um exemplo de perfeição, mas também não se trata de um modelo totalmente equivocado e implodido com tal crise. Os problemas, segundo alguns dos textos, são provenientes de dificuldades que estão presentes em qualquer outro tipo de atuação internacional, e os fatos acorridos não depõe contra toda uma construção positiva decorrente dos projetos empreendidos pelas organizações atuantes.

Ao identificar os problemas, o livro aborda questões fundamentais para a compreensão dos erros e acertos e porque não dizer, para correção e elaboração de novos projetos nas áreas de relações internacionais, política interna e externa, atuações militares – sobretudo da Força de Paz, com intensa participação brasileira – e projetos culturais na reconstrução de um Estadonação.

O livro, composto de vários artigos, é dividido em três partes. Na primeira delas, intitulada “Timor-Leste: passado, presente e futuro.”, procedeuse à uma análise do período que vai do início da ocupação colonial portuguesa até o acirramento da crise no país, passando diferentes momentos do longo período e principalmente pelos problemas causados pela exploração, pelos problemas das tentativas de descolonização, culminando com a crise militar e com a sua solução através da intervenção internacional.

Os portugueses estiveram presentes desde as conquistas do século XVI, de modo que, na reconstrução do país, tema principal do livro, torna-se imprescindível o papel da presença do passado colonial português, pois são inúmeros e importantes os laços estabelecidos entre a cultura portuguesa – bem como as influências intercontinentais inerentes a ela – e as populações locais.

Em 1975, a Indonésia anexou o Timor-Leste ao seu território. Como resistência, houve a formação de guerrilhas armadas e redes clandestinas de combate ao invasor, além da resistência diplomática formada por exilados na Austrália, Moçambique e Portugal. Em 1999 a Organização das Nações Unidas (ONU) propõe uma espécie de consulta popular para definir a anexação. Com resultado contrário, dá-se uma retirada em meio a massacres e a destruição de grande parte da estrutura física do país.

Em busca de uma solução, a ONU interveio através da UNTAET/ United Nations Transitional Administration in East Timor (Administração Transitória das Nações Unidas no Timor Leste), que incluía uma administração civil juntamente com uma força de paz, na tentativa de reconstrução e instauração de um governo autônomo. Além da ONU, outras organizações internacionais passaram a auxiliar neste processo, por exemplo, Banco Mundial, Banco de Desenvolvimento Asiático, Missões religiosas, ONGs, etc…

O segundo capítulo, sob o título “Timor-Leste e a cooperação internacional. Economia, política e administração pública”, é composto de artigos que remetem aos problemas da interferência externa nas questões econômicas e políticas do país, explicitando aspectos positivos e negativos de tal cooperação. São levantadas nessa parte, questões como o papel das instituições monetárias e bancárias, da jurisdição e outros campos da administração pública, além do modo como é tratada a educação e a cultura na reconstrução do país.

A interferência internacional no campo econômico, político, e sobretudo quando procura estabelecer um processo eleitoral, torna seu papel delicado.

Uma das autoras (organizadora) do livro, em entrevista ao Jornal Folha de São Paulo, afirmou que Portugal apoiava determinado candidato, ligado à FRETILIN, às eleições, enquanto os interesses australianos estavam destinados a outros candidatos.

Tal afirmação gerou desconforto em Portugal, e provocou a seguinte carta em resposta às afirmações da pesquisadora: “Li, com interesse, a entrevista hoje (10 de abril) concedida à “Folha de S. Paulo” pela Professora Kelly Silva, da UnB, a propósito do processo eleitoral em Timor- Leste. Sem querer retirar legitimidade à livre interpretação desenvolvida nesse texto sobre o posicionamento e motivações das diferentes forças em confronto, não posso deixar de discordar sobre a alusão que nela é feita ao papel de Portugal nesse contexto, e que o título escolhido sublinhou. O meu país tem demonstrado, ao longo de décadas, um empenhamento inquestionável, e unanimemente reconhecido, em favor do reforço das instituições democráticas timorenses. Isso pressupõe o natural respeito por quaisquer resultados que decorram do respectivo funcionamento. Procurar ligar a posição oficial portuguesa a qualquer facção política em Timor-Leste configura um processo de intenções que, em absoluto, rejeitamos, por não ter apoio em quaisquer factos concretos. Embaixador Francisco Seixas da Costa”1 As acusações não incluíam apenas Portugal, pois na mesma entrevista ela afirmou que havia claros interesses da Austrália em manter a fragilidade política no Timor, para facilitar a exploração de petróleo, bem como manterse em uma posição estrategicamente favorável do ponto de vista militar.

Não vem ao caso tomar uma posição em defesa de um dos lados. Porém, o que se assinala é que o envolvimento da comunidade internacional nas questões referentes ao país nem sempre são desvinculados de interesses econômicos e políticos. Daí a importância de uma regulação e verificação de um órgão superior quando se trata do problema da cooperação internacional.

Na terceira e ultima parte, intitulada “Construção do Estado”, são levantadas questões ideológicas relativas ao papel dos órgãos internacionais na reestruturação dos poderes e autoridades, e a publicação finaliza com uma série de discussões sobre a eficácia da cooperação concedida e as dificuldades enfrentadas pela comunidade internacional.

Apesar de ser uma coletânea com diferentes abordagens, o livro parece defender uma tese: a experiência no Timor-Leste não pode ser vista como um exemplo de extrema eficiência e eficácia, como foi divulgado e se sustentou por algum tempo, mas também não se trata de um total fracasso na formação do Estado através da cooperação internacional, como passou a ser visto após a crise militar. Trata-se, segundo os autores, de uma iniciativa com erros e acertos, com sucessos e insucessos, que devem ser analisados num contexto problemático que apresenta mudanças durante o processo de reconstrução do país. Outro ponto levantado está no fato do país ter grande diversidade cultural e conjunturas históricas específicas, o que torna o papel da cooperação internacional complexo e desafiador.

O livro aponta, não apenas nesta parte, mas em sua totalidade, para pontos positivos e negativos da cooperação internacional. Uma das críticas está no conflito idiomático que instalou-se no sistema judiciário do país. O anglo-saxão usado pela cooperação internacional passou a ter que conviver com o português e com o indonésio, além das dezenas de dialetos locais.

A cooperação internacional é vista como um instrumento político que interfere no destino político do país. Deve, portanto, ser analisada criticamente, pois ao invés de resolver problemas, corre o risco de gerar outros, maiores que os existentes, aumentando as injustiças, privilegiando grupos específicos em detrimento de outros. Ao analisar criticamente o papel de tal cooperação, não só em Timor Leste, mas em outros países, a leitura do livro sugere pensar em que medida ela ocorre de modo desinteressado e realmente comprometido com a reconstrução do país, ou seja, que aspectos a tornam um problema em certos campos de atuação.

Notas 1Carta enviada ao Jornal Folha de São Paulo e publicada também no site: http://timor-online.blogspot.com/2007_04_13_archive.html Acesso: 22 nov. 2007

Fabiano Luis Bueno Lopes – Doutorando em História na Universidade Federal do Paraná.


SILVA, Kelly Cristiane; SIMÃO, Daniel Schroeter. Timor-Leste Por Trás do Palco: Cooperação Internacional e a Dialética da Formação do Estado. Belo Horizonte: UFMG, 2007. Resenha de: LOPES, Fabiano Luis Bueno. Textos de História, Brasília, v.15, n.11/2, p.291-294, 2007. Acessar publicação original. [IF]

História do Cristianismo | Paul Johnson

O objetivo de Paul Johnson em seu livro “A historia do cristianismo” é descrever e analisar o desenvolvimento da Igreja Cristã durante os vários séculos de sua existência. A presente resenha tem a intenção de apontar as principais idéias dos três primeiros capítulos desse livro.

Um ponto que fica bem claro no texto lido é que em nenhum momento do período analisado o cristianismo se mostrou uma religião uniforme, sem divisões internas e unidas na luta contra seus inimigos externos. Muito pelo contrário durante os primeiros nove séculos de sua existência a comunidade cristã esteve dividida sendo que cada facção interna lutava para se impor sobre as demais.

O primeiro desafio do cristianismo foi manter -se vivo e futuramente se sobrepor ao judaísmo. Jhonson inicia sua discussão sobre o cristianismo a partir desse ponto. A Igreja crista se originou dentro do judaísmo palestino. Por essa razão é extremamente importante Ter uma idéia a respeito da religião judaica existente nos dias de Jesus.

O judaísmo do primeiro século da era cristã se tratava de uma das religiões extremamente exclusivistas, apocalípticas e belicista. Os judeus criam que eram propriedade do Deus verdadeiro e esse Deus iria alterar a ordem social e política estabelecida através de uma intervenção sobrenatural que culminaria com o aniquilamento da presente ordem estabelecida e daria início a uma nova era onde os eleitos (os judeus) se tornariam à classe dominante do mundo. Essa intervenção divina seria efetuada através da pessoa do Messias (salvador), um líder político, religioso e militar. Esse conduziria os judeus à vitória sobre as forças do mal.

Nem todos os judeus moravam na Palestina. Muitos deles estavam espalhados por diferentes pontos do Império Romano. Na realidade o número de judeus que viviam fora da região palestina era maior do que seus conterrâneos palestinos. Esses dois grupos divergiam quando a estratégia de proselitismo. Os judeus helenistas, como eram conhecidos os judeus da diáspora geralmente eram cidadãos ricos, receptíveis à cultura greco-latina e viam o Império como agente facilitador para a expansão de sua ideologia religiosa. Os judeus da palestina, ao contrário, eram retrógrados, xenofóbicos e em sua maioria viam na guerra armada à única forma de concretizar seus ideais político – religiosos.

O cristianismo surge dentro desse contexto. Por essa razão o primeiro desafio dessa religião infante é sobreviver dentro desse conturbado mundo religioso e depois conseguir superá-lo. Para conseguir manter -se vivo no concorrido e conturbado contexto religioso judaico, o cristianismo contou apoio de judeus influentes, tanto dentro do Palestino quanto fora dela, que se tornaram cristãos. Esses se tornaram os primeiros líderes da Igreja e tiveram grande influência sobre a mesma.

Essa liderança, porém se tornou um grande obstáculo quando o cristianismo, a partir do apóstolo Paulo, começou a se tornar uma religião internacional e inter-racial. Nesse momento os judeus começaram uma reação que ameaçou a sobrevivência do cristianismo. O cristianismo apenas conseguiu sobreviver a essa ameaça e se tornar uma religião internacional porque a Igreja cristã de Jerusalém envolvida na revolta judaica contra o Império Romano foi destruída no ano 70.

Se durante os primeiros quarenta anos de sua existência o cristianismo se dividiu basicamente entre judeus e gentios nos próximos séculos as divisões internas do cristianismo se multiplicaram em proporções inimagináveis para os cristãos do primeiro século. De acordo com Jhonson, isso se deveu principalmente devido à vocação de atrair os diferentes grupos sociais e culturais contido dentro da ideologia cristã.

A existência desses diferentes grupos sócio – culturais no interior do cristianismo levou a um problema que tem desafiado a Igreja ao longo dos séculos. Os diferentes grupos de cristãos, preocupados em buscar uma resposta racional a sua fé encontravam diferentes alternativas para explicar a verdade. A acomodação dessas diferentes idéias e a formação de um sistema teológico e ideológico próprio foi o segundo desafio da Igreja.

Para responder a esse desafio a Igreja se preocupou em instituir um cânom dos escritos cristãos bem como em estabelecer uma hierarquização mais complexa em seu interior. Tanto o cânom quanto a hierarquização da Igreja estavam ligados a um fator, a origem apostólica.

Dessa forma a Igreja estabeleceu que apenas documentos escritos pelos apóstolos originais ou a alguém diretamente ligados a esses teriam valor normativo nas questões religiosas ou teológicas. Quanto à supremacia das diferentes congregações, seriam considerados importantes aqueles que tivessem sido originalmente dirigidas por um dos primeiros vultos cristãos. Segundo essa idéia, esses apóstolos que haviam recebido autoridade diretamente de Cristo ao lhe impor as mãos transferiram esse poder aos seus sucessores graças à transmissão feita através do mesmo rito.

O surgimento e existência de novas heresias durante os primeiros séculos do cristianismo foi um poderoso fator na criação de um cânon ortodoxo, bem como da progressiva hierarquização da Igreja. Esse processo de hierarquização se completou com a oficialização do cristianismo no início do século IV por parte do imperador Constantino.

Constantino se tornou imperador no início do século quatro, após derrotar Majêncio na ponte do rio Mílvio e no ano 313 juntamente com seu co-imperador Licínio tornou a religião cristã oficial dentro do Império Romano. Esse ato pode ser considerado como a conseqüência lógica de um processo que vinha se desenvolvendo desde a metade do século III. Nesse momento os cristãos eram um grupo numeroso e ao mesmo tempo muito bem organizado. Eram muito mais homogêneos em suas práticas e posições diante do Império. O cristianismo, nesse período se tratava de uma opção universalista à antiga e decadente religião civil romana. Nesse momento o velho Império tinha de tomar uma decisão: exterminá-la ou oficializá-la. Constantino optou por seguir o segundo caminho.

Constantino era um líder de visão reconciliadora e foi com o objetivo de manter vivo o Império romano que elaborou o edito de Milão. O problema é que a Igreja, agora apoiada pela máquina estatal, tratou de firmar -se como representante única do cristianismo e passou a perseguir aqueles que representassem ameaça a seus ideais de supremacia. A máquina estatal muitas vezes foi colocada a serviço da ortodoxia, por entender que uma ameaça à mesma representava também risco a ordem estabelecida.

Essa relação entre Igreja e Estado fez com que os papéis de liderança eclesiástica e civil fossem de certa forma confundidos e unificados. Nos dias de Constantino o imperador muitas vezes se envolveu nas disputas teológicas e religiosas para conseguir manter a ordem na Igreja. Por outro lado muitas vezes o bispo romano, bem como bispos de outras sedes episcopais importantes tomassem decisões no campo civil.

Com a oficialização do cristianismo católico a divisão entre o clero e o laicato cresceu de maneira vertiginosa. Os líderes cristãos se tornaram verdadeiros representantes de poder político, financeiro e principalmente aqueles que liderassem sedes episcopais de cidades importantes. Na segunda metade do século IV a Igreja se tornara a maior força do mundo romano ocidental rivalizando apenas com o imperador que então estava instalado em Constantinopla.

Nesse processo de ascensão da Igreja Cristã, a Igreja de Roma foi a maior beneficiária. O poder do bispo da cidade de Roma sobre as demais sedes que já era grande aumentou mais ainda. Desde seu início a Igreja de Roma era considerada rica. Além de sustentar um grande número de funcionários ligados à estrutura da Igreja ela prestava assistência a 1500 órfãos e viúvas. Além disso, nos debates teológicos que ameaçaram dividir a Igreja nos quatro primeiros séculos, o bispo romano sempre esteve ao lado da ortodoxia. O apoio do Imperador no quarto século apenas contribuiu mais um pouco para que a força da Igreja e do bispo de Roma crescesse mais ainda. Nem todos cristãos viam com bons olhos essa ligação com Império e uma separação entre o laicado e o clero. Isso ocorreu principalmente nas regiões mais distantes das sedes católica. O século IV foi marcado pelo recrudescimento da defesa das idéias da Igreja Católica por um lado e da reação de cultos heréticos bem estabelecidos nas periferias do Império. Jhonson destaca que essas disputas revelam muito mais do que simples querelas religiosas. As mesmas são sinais grupos cristãos periféricos ao cristianismo oficial representavam o desejo de sobrevivência de uma cultura provincial para que o Império era considerado universal e ao mesmo tempo parasitário.

Jhonson deixa claro que a diversidade religiosa e as divisões internas do cristianismo não impediram que o mesmo tivesse uma reação enérgica e eficiente contra seus inimigos externos. Isso ficou bem claro na reação cristã à tentativa de Juliano o “apóstata” ressuscitar a religião romana estatal. Tal campanha foi desastrosa e resultou em completo fracasso. Nos dias de Juliano o Império se tornara cristão e não retornaria de maneira alguma ao antigo sistema religioso.

Os próximos séculos (V – IX) representaram um período de reestruturação do Império Romano. A parte ocidental do Império se fragmentou e fundiu -se ao mundo germânico dando origem a uma nova civilização. O lado oriental se rendeu ao Islamismo. Dentro dessa realidade a Igreja Romana se adaptou continuou viva e graças à força do papado, a união com o Império Franco -Carolíngeo e teorização política da teologia agostiniana se tornou o maior poder do período conhecido como Idade Média. Esse poder seria decisivo na formação da Europa moderna.

Daniel da Rocha Junior – Graduação em História FAFIUV


JHONSON, Paul. História do Cristianismo. Rio de Janeiro: Imago, 2003. Resenha de: ROCHA JUNIOR, Daniel da. Sobre Ontens. Apucarana, p.13-19, 2007.

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A lenda de diamante: Sete lendas do mundo celta | Edmond Baily

A tradução de obras celtológicas, tanto de estudos acadêmicos quanto de fontes históricas e literárias, sempre são bem-vindas, pois infelizmente os pesquisadores brasileiros deparam-se com a dificuldade de encontrar tais obras em língua materna nas estantes das bibliotecas e livrarias. Mas o que percebemos é que há um interesse do mercado editorial em publicar obras antigas que, na maioria das vezes, trazem representações equivocadas a respeito dos Celtas, mas que podem fazer grande sucesso apelativo com o público. A tradução de A lenda de diamante, do francês Edmond Bailly, vem justamente de encontro a esse propósito.

A obra apresenta sete narrativas – as sete lendas – e um capítulo intitulado “Notas e esclarecimentos”, onde são arroladas explicações tanto de termos que aparecem nas narrativas como “consciência”, “eternidade das almas”, “religião”, entre outras como também de termos diretamente ligados à cultura celta: “druidismo”, “Ogham” e “vates”. Muitas dessas definições estão permeadas de idéias esotéricas, espíritas e algumas advindas da celtomania francesa dos séculos XVIII e XIX.

Publicada pela primeira vez na França em 1909 (La légend de diamant), quando a Doutrina Espírita já estava consolidada, o livro apresenta a sociedade celta e, em particular os Druidas como monoteístas, preocupados com o “bem da humanidade” e em viverem única e exclusivamente para realizar a vontade do Pai Celestial. Essas construções são fictícias e não correspondem às descrições dos druidas feitas por autores clássicos como Júlio César, Cícero e Plínio, para citar alguns.[1] Essas idealizações, tanto dos celtas, como dos druidas presentes na obra, vinham de encontro às intenções de um determinado grupo que, procurava projetar no passado, suas concepções de mundo, de vida, de religião e de fé. A França por fazer uma exaltação ao seu passado gaulês e, por vezes, buscar ali inspiração para o seu forte nacionalismo, foi o cenário perfeito para que florescessem obras como A lenda de Diamante.

A primeira lenda “O encantamento da harpa” apresenta logo no terceiro parágrafo um equívoco quanto ao panteão celta. Há a menção da deusa do mundo inferior Hela, que pertence ao panteão escandinavo! Os celtas não possuíam divindades guardiãs dos mundos subterrâneos. Esse equívoco cometido pelo autor e por outros autores do mesmo período deve-se à ausência de conhecimentos e de uma pesquisa mais aprofundada sobre os mitos e o panteão celta que, infelizmente ainda não existia no final do século XIX e início do XX,[2]

e reflete parte das fantasias que, lamentavelmente ainda povoam o imaginário contemporâneo.

A terceira narrativa “O único amor” traz a estória de uma desilusão amorosa e dos transtornos ocasionados por ela. A jovem Gwennola, filha de uma grande “colar de ouro” – essa é denominação que os grandes chefes e guerreiros recebem nas narrativas de Bailly – tem o seu amor recusado por Yvor um exímio harpista. Com a recusa de Yvor em aceitar Gwennola como esposa, é desencadeada uma terrível guerra entre os demais pretendentes e a moça é obrigada a vagar sem rumo até encontrar Niod, que lhe mostra uma perspectiva: ela deve deixar o orgulho e o egoísmo e sair pelo mundo levando alento, conforto e cura a todos que necessitarem. Seguindo as ordens de Niod, Gwennola parte e, por onde passa, não deixa de oferecer ajuda a quem necessita. Passa então a ser conhecida como a “viúva virgem”. Todos esses elementos contidos na narrativa estão repletos de ensinamentos cristãos onde é preciso sofrer para conquistar as glórias eternas. Há uma passagem já no final da narrativa que reflete não só os preceitos cristãos, mas também a crença em uma reencarnação evolucionista como meio de purificação e elevação do espírito:

“- Levante-se, minha irmã bem-amada. E não perca a confiança, sua grandeza á superior à minha, pois lhe foi dado se humilhar e se arrepender. Doravante, você não estará mais sujeita à servidão dos sentidos, embora sua libertação ainda não seja completa, pois você recaiu no Abred de Necessidade e está exposta ao Mal e à Morte. Será preciso que você renasça ainda duas vezes, nesse mundo de dor, nessa mesma pátria da qual a faço protetora. Duas vezes ainda o artesão do orgulho estenderá para você os frutos envenenados de seu pomar. Duas vezes ainda você será a carne para o holocausto. Então, eu a levarei, finalmente liberta, para a luz da morada eterna de nossa perpétua felicidade!…” (Bailly 2006:52).

Nesta mesma narrativa há a menção aos eubages que, são descritos como uma “espécie de adivinho da antiga Gália. Hierarquicamente abaixo dos Druidas, encarregava-se da parte externa dos cultos” (p. 46). Segundo autores clássicos latinos como Diodoro, explica que o vate realizaria os sacrifícios (humanos, por exemplo) e interpretaria os augúrios. Mas, essa função também é atribuída aos druidas. Na verdade, o vate poderia estar numa hierarquia inferior ao druida. Na antiga Irlanda, o ensino máximo era reservado à formação em druida, portanto, o vate/eubage seria responsável pelo ofício do sacrifício, enquanto o druida teria funções de cunho mais teológico/filosófico, e seria o responsável pela doutrina e interpretaria os sacrifícios. Na verdade, ambas as funções se confundem, pois druida não deixa de ser um termo geral. Essa nota da tradução merecia um cuidado maior na sua elaboração para elucidar com mais clareza o leitor que pode não estar familiarizado com as terminologias da religiosidade celta.

Na narrativa “Os do Carvalho” encontramos a descrição de uma legião romana tentando a golpes de machado derrubar um grande carvalho sagrado. Para tentar impedir tal ato os druidas permanecem nos galhos da árvore recitando as tríades e os demais ensinamentos. Os sacerdotes são apresentados ao leitor como homens benevolentes que estão sendo vítimas da intolerância romana que procura não só exterminar sua religião, mas também todo o seu conhecimento. O desfecho da narrativa mostra a redenção dos druidas em um sacrifício:

“Quando o sacrifício foi consumado, quando vítimas e algozes dormiam, quietos, na reconciliação do sono da morte, as almas dos Do Carvalho voaram, puras e santas, sobre as asas impetuosas da fogosa cotovia. E enquanto os eleitos de Gwynfyd saldavam a feliz libertação de seus irmãos bem-aventurados, aqui embaixo, maravilhosas rosas de cor púrpura desabrochavam sobre as brancas túnicas dos sacrificados, chamando os Da Terra para a comunhão de Sabedoria e de Amor!” (p. 118).

Essa representação dos druidas lembra em muito o martírio sofrido por muitos cristãos que, por defenderem a sua fé, morreram assim como os druidas nas mãos dos romanos. Percebe-se claramente um juízo de valor do autor onde apresenta os druidas como homens bons e puros e apresentados como os eleitos de Deus e, os romanos como vilões que, tinham como missão exterminar os escolhidos e, que por isso mesmo eram severamente punidos. Uma visão maniqueísta de celtas e de romanos.

A última narrativa “Os do Awen” traz uma personagem muito conhecida das estórias arturianas: Merlin. Este é apresentado como um sábio e talentoso bardo que, em companhia de mais outros dois igualmente geniais travam uma disputatio com o Demônio, o artesão de todos os males. Enquanto há o embate, o próprio Jesus Cristo assiste a tudo e, glorioso no final defende e acolhe os três bardos como novos emissários da boa nova. Ao colocar o Cristo como personagem de uma narrativa de suposta origem celta, o autor procura conceder aos druidas um perfil cristão. Essa construção anacrônica deste povo como precursor do cristianismo muito tempo antes deste surgir, faz com que alguns pesquisadores sejam adeptos do que convencionou-se denominar como “cristianismo druídico”.[3] Uma fantasia que procura conferir aos druidas uma imagem de pureza e benevolência, para tentar desconstruir a imagem descrita nas fontes clássicas como executores de sacrifícios humanos e incitadores de guerra. Infelizmente essa representação dos druidas é ainda apresentada em muitos cursos e livros esotéricos e, por mais que as pesquisas arqueológicas, históricas e literárias apresentem uma visão contrária, ainda há resistência em aceitá-la. E, essa resistência muitas vezes tem sido um grande entrave para uma divulgação de pesquisas sérias sobre os celtas. Além essas fantasias há outras como a das avós-druidas, que nada mais são do que invenções de ditos pesquisadores que baseiam suas investigações em uma visão distorcida e envolta em brumas das fontes clássicas, aliadas é claro, à sua relutância em admitir que seus argumentos, muitas vezes, nada mais são do que frutos de sua fértil imaginação.

Com relação ao pensamento de Bailly, esse tem fortes raízes na celtomania e no esoterismo francês. Durante o final do século XVIII, diversas publicações literárias popularizaram o interesse pela língua e religiosidade dos antigos habitantes da Gália. E, apesar do sucesso das coleções de antiquários pela Europa, a Arqueologia desta época ainda era muito insipiente em termos metodológicos, popularizando várias fantasias relacionadas aos Celtas: os grandes megálitos (como Carnac e Stonehenge) foram considerados de origem druídica. O sucesso destas hipóteses arqueológicas vão se somar a uma perspectiva nacionalista pela França, e regionalista na Grande Bretanha, especialmente no início do Oitocentos, onde a memória a respeito dos gauleses foi cristalizada sob a forma de culto do passado (Launay 1978: 11-18). Um dos mais emblemáticos livros desta tendência é Monuments celtiques, 1805, de Jacques Cambry (Cunliffe 1999: 12). Mas essa valorização extremada de um passado idealizado também teve diversos momentos anacrônicos, e um dos mais contundentes foi a idéia fantasiosa entre os escritores da primeira metade do século XIX de que os druidas e Celtas foram adoradores de uma única divindade (Ellis 2001: 132), nas palavras do próprio Bailly: “(…) Druidismo, nada esteve mais ausente dessa grande crença que o Politeísmo” (p. 144).

Em particular, um texto do escritor M. Édouard Fourmier obteve um certo êxito nos meios intelectuais franceses. Publicado originalmente na revista Siècle em 1847, e posteriormente num livro de 1859 (Le vieux neuf), o texto seria uma espécie de registro folclórico de antigas tradições dos bardos da Gália, mas na realidade possuía diversos anacronismos: monoteísmo, crença na reencarnação evolucionista, dogma dos druidas para com a caridade humana e divina, entre outros aspectos. O mesmo texto de Fourmier foi publicado no primeiro ano da Revista Espírita, de 1858, periódico editado por Allan Kardec, o codificador do Espiritismo. Kardec havia se interessado pelo fenômeno do mesmerismo e das mesas girantes a partir de 1854, e adotado esse nome que teria origem em uma suposta vida passada que teve como druida na Gália. Seu túmulo, datado de 1869, foi construído imitando um dólmen. As influências da celtomania no Espiritismo Kardecista ainda são objetos de poucos estudos, mas as conexões existiram.[4] O druida, neste caso, seria uma espécie de antecipador do modelo de pureza de conduta e dos valores morais idealizados para os religiosos do Oitocentos, transfigurados em um passado nacional de cunho heróico (a Gália). O fato é que a idéia de um monoteísmo druídico sobreviveu tanto no Espiritismo quanto no esoterismo francês. No primeiro caso, o exemplo mais famoso é o livro de Leon Denis, O gênio céltico e o mundo invisível, publicado em 1927.

Outra forte influência no livro de Bailly advém do esoterismo, a exemplo da citação: “herança dos antepassados, o Arquidruida que, ele próprio, havia recebido do grande sacerdote atlante” (p. 9). A imagem dos druidas como descendentes dos atlantes foi criada pela teosofista Helena Blavatsky, especialmente em A doutrina secreta, de 1888.[5] A obra de Bailly, desta maneira, foi influenciada diretamente pelas idéias existentes desde Fourmier, mas radicalizou ainda mais os elementos monoteístas, originando o que podemos considerar de druidismo cristão (ou cristianismo druídico), o ápice do anacronismo em escritores populares da França. Muitas obras esotéricas modernas ainda perpetuam fantasias e anacronismos advindos dos séculos passados,[6] prejudicando uma popularização de idéias corretas sobre os Celtas.

As editoras brasileiras, ao invés de publicarem qualquer material sem nenhum critério, poderiam traduzir obras clássicas ou de investigadores renomados, a exemplo das dezenas de livros de Miranda Green, ainda inéditos em nosso país. Apesar deste panorama editorial, os estudos acadêmicos sobre Celtas no Brasil estão aumentando qualitativa e quantitativamente, deixando cair por terra algumas afirmações preconceituosas daqueles que insistem em afirmar que os estudos celtas se constituem como mero apêndice dos estudos clássicos, germânicos e medievais. A busca por informações de maior qualidade pelo público leigo já é um sinal dessa transformação.

AGRADECIMENTOS: Ao professor Fillipo Olivieri, pelas informações preciosas sobre os Druidas e a Gália.

Notas

1. Para referenciais bibliográficos e acadêmicos sobre o druidismo, consultar: Lupi 2004: 70-79.

2. “Mas, pouco mais bem informados do que os antigos, os amantes do celtismo perpetuam as velhas confusões. É preciso citar esta frase de Malo Corret de La Tour d’Auvergne, nativo de Carhaix, extraída de seu ‘Origens Gaulesas’, aparecido no ano da ponte de Lodi, onde ele se mostra menos bom lingüista do que intrépido granadeiro: ‘Vários dos hinos gauleses… estão contidos num poema erse, chamo a Edda… Esse monumento rúnico… seria próprio para nos esclarecer sobre os Celtas…’ Ele visivelmente ignorava que a palavra ‘erse’ designa o dialeto gaélico da Escócia, que a Edda é uma coletânea de lendas escandinavas e que as runas constituem o antigo alfabeto germânico”. Launay 1978: 12.

3. O termo é muito popular em textos espanhóis, para contextualizar o cristianismo praticado em povos germânicos e celtas logo após a conversão: http://www.nuevorden.net/r_204.html; http://www.elamigobuster.c.telefonica.net/aurelius.htm Acessados em 18 de junho de 2007. 4 Em termos sócio-históricos, o Espiritismo kardecista foi uma influência de idéias do mesmerismo, celtomania, esoterismo, cristianismo e ciência popular do século XIX. Para algumas reflexões sobre as origens do Espiritismo, especialmente as influências anglo-americanas na formação das novas idéias religiosas e funerárias da França, consultar Cuchet 2007: 74-90.

5. Blavatsky rompeu com algumas tradições do período, por exemplo, creditando os monumentos megalíticos diretamente aos atlantes e não aos druidas e Celtas (Blavatsky 1888: vol. 2: 756). Outra idéia inovadora da teósofa no imaginário da época foi a de que os atlantes possuíam uma tecnologia muito sofisticada, como o uso de aeroplanos e inventos motorizados, uma idéia muito utilizada depois por videntes e escritores. Mas uma imagem sobre os druidas permaneceu: a de sacerdotes com alto grau de moralidade e ética. Para considerações acadêmicas sobre as relações do atlantismo com o esoterismo oitocentista consultar: Vivante & Imbelloni 1939: 175-186.

6. A exemplo do escritor Cláudio Crow Quintino, que entre outras considerações, perpetua representações idílicas e moralistas da sociedade Celta e do druidismo, herdeiras do esoterismo oitocentista, mas com alguns novos elementos da literatura New Age pós-Brumas de Avalon: “(…) a sociedade celta (…) vivia em harmonia com o mundo à sua volta (…) Entrevê-se nesse procedimento a elevação de consciência ecológica dos celtas (…) uma sociedade em que tanto homens quanto mulheres desfrutavam dos mesmos direitos e prerrogativas (…) sem Roma, teriam os celtas formado um império e se corrompido da mesma forma? É provável (…) Os celtas (…) não eram bárbaros iletrados, tampouco apreciadores de sanguinários sacrifícios humanos”. Quintino 2002: 23, 239, 240, 241; “Ser celta é viver intensamente, é vencer desafios, é cantar quando um ente querido morre (…) Ser celta é, no fim das contas, ser humano”. http://druidismo.com.br/m_ensaios-secelta.htm Acessado em 21 de junho de 2007.

Referências

BLAVATSKY, Helena Petrovna. The secret doctrine, 6 vol., 1888. Edição completa online: http://www.theosociety.org/pasadena/sd/sd-hp.htm#pt23 Acessado em 25 de junho de 2007.

CUCHET, Guillaume. Le retour des esprits, ou la naissance du spiritisme sous le second empire. Revue d’histoire moderne et contemporaine 54 (2), 2007, pp. 74-90.

CUNLIFFE, Barry. Celtomania and Nationalism: c.1700-1870. In: ______. The Ancient Celts. London: Penguin Books, 1999, pp. 11-16.

ELLIS, Peter Berresford. Druidas: el espíritu del mundo Celta. Madrid: Oberon, 2001.

GREGÓRIO, Sérgio Biagi. Druidismo e espiritismo, 1998. http://www.ceismael.com.br/artigo/artigo001.htm Acessado em 20 de junho de 2007.

LAUNAY, Olivier. A civilização Celta. Rio de Janeiro: Otto Pierre Editores, 1978. Le spiritisme chez les druides, 1858. http://perso.orange.fr/charles.kempf/rs1858/18580402.htm Tradução impressa disponível em: A revista espírita: jornal de estudos psicológicos, 1858. São Paulo: Edicel, s.d.

LUPI, João. Os druidas. Brathair 4 (1), 2004, pp. 70-79. http://www.brathair.com/Revista/N7/druidas.pdf Acessado em 02 de maio de 2007.

QUINTINO, Claudio Crow. O livro da mitologia Celta: vivenciando os deuses e deusas ancestrais. São Paulo: Hi-Brasil, 2002.

VIVANTE, Armando & IMBELLONI, J. Libro de las Atlantidas. Buenos Aires: Jose Anesi, 1939.

Luciana de Campos – Doutoranda em Letras UNESP/SJRP. E-mail: fadacelta@yahoo.com.br


BAILY, Edmond. A lenda de diamante: Sete lendas do mundo celta. São Paulo: Madras, 2006. Resenha de: CAMPOS Luciana de. Druidismo Cristão? Brathair – Revista de Estudos Celtas e Germânicos. São Luís, v.7, n.1, p. 96-100, 2007. Acessar publicação original [DR]

A finança mundializada: raízes sociais e políticas/configuração/ conseqüências | François Chesnais

Livro-chave para a compreensão da economia internacional – e em particular do sistema financeiro internacional – a obra compõe-se de uma coletânea organizada pelo professor François Chesnais. Ela dá seguimento ao pensamento do autor, cujas obras lançadas no Brasil foram: A mundialização financeira – gênese, custos e riscos, pela Xamã, e Tobin or not Tobin? Uma taxa internacional sobre o capital, pela Universidade Estadual de São Paulo.

O livro conta com o prefácio do professor Luiz Gonzaga Belluzzo que expõe a face real da globalização neoliberal: uma intrincada rede de interesses construída pelos mercados financeiros internacionais, sob a necessidade voraz de reprodução do capital que gera ilusões de riqueza. Outrossim, ele expõe o contraponto na economia brasileira, em decorrência das remessas de lucros por empresas de serviços públicos como telefonia, eletricidade, etc., as quais agora necessitam de investimentos governamentais, ou seja, dos contribuintes para atender as chamadas áreas “não rentáveis”. Leia Mais

Tan lejos de Dios… Ensayos sobre las relaciones del Caribe con Estados Unidos | Antonio Gaztambide-Geigel

Ao nomear ensaios aparentemente dispersos sob o título de um dito popular, ainda mais estando este incompleto, uma idéia de unidade se entrelaça com o omitido e suspenso pelas reticências: “… e tão perto dos Estados Unidos”. A invocação de um dito popular não se dá de forma gratuita, dela decorre um sentido que expressa a novidade deste trabalho. Mesmo o dito sendo de origem mexicana, como Gaztambide-Geigel faz questão de ressaltar, este dito expressa uma condição de existência comum a países do continente meso e sul americano: a proximidade física em relação aos Estados Unidos, potência esta que teve uma sobressalente mudança hierárquica no cenário econômico mundial, na qual se elevara ao avatar de maior poderio atual. E a novidade deste trabalho é justamente se adentrar no conjunto de relações que presidiram o processo de emergência da potência norte americana em relação aos vizinhos do sul, particularmente os antilhanos. A atualidade do dito faz-se clara.

Seu sentido coloca em xeque o paradoxo implicado na bandeira política norte americana: um imperialismo salvífico quase natural que na prática é muito distante disso—a recente investida democrática em terras iraquianas é exemplo atual de peso. Além levar este paradoxo acerca da política americana com meticulosidade, e se servir de um avantajado corpo material, a apresentação do presente trabalho se releva não só entre os pesquisadores caribenhos, radicados no Brasil ou não, como também para interessados no tema da “identidade” na contemporaneidade.

É certo que as discussões identitárias provêem de pesquisas inscritas metodicamente no campo dos estudos culturais. Entretanto, o conceito de identidade não deixou de se atravessar por objetos os mais distintos, oriundos de outros campos de saber. De modo que tal temática fora incorporada nas ciências humanas, em geral, história, antropologia, sociologia, geografia e mesmo, a filosofia. O que atesta seu estatuto de relevante acontecimento no pensamento das ditas “ciências humanas”. Todavia, seria uma ingenuidade supor que seus métodos permaneceriam os mesmos submetidos a objetos tão singulares. Hoje oferece tal diversidade, que consuma ainda mais o seu valor analítico. São muitas as perspectivas de utilização.

E, apoiado em uma massa documentária de fôlego e decorrente de vários anos de pesquisa, Gaztambide-Geigel abordou tal temática numa dimensão bem delimitada. Seu problema foi como se construiu o termo Caribe em relação à política internacional norteamericana para os vizinhos antilhanos. Desse modo, se se pode falar de um tema central coordenador dos setes ensaios constituintes da presente coletânea, este sem dúvida é o jogo implícito em vista das circunstâncias pelas quais se forma o conceito Caribe, ou melhor, se formam as identidades postas em jogo ao evocar os Caribes.

No primeiro ensaio, “La invención del Caribe a partir de 1898”, submete o termo Caribe à sua análise historiográfica. Situa seu caráter enquanto invenção. Desse modo, tomado como invenção, o Caribe não é um objeto fixo e estático, que bastaria ao historiador expor suas formas e conteúdos, e sim um objeto inventado, que não cessa de se recriar e reiterar-se. E ao inquirir quanto às relações políticas embutidas no momento de sua construção, busca-se ver justamente as circunstâncias em jogo no momento de sua criação, as contingências e encontros que marcaram sua emergência.

O que o jogo em torno da criação do termo Caribe revela é que não há um Caribe, pronto e acabado, e sim como houve, e há, vários Caribes de maneira que, em cada situação histórica em que é invocado, o termo não se refere às mesmas coisas, não falam dos mesmos objetos. Em vista disso, o autor propôs uma historicização do termo, e pôde ver suas diversas usagens mediante as situações próprias e específicas à história antilhana: de um arquipélago atlântico fragmentado submisso à metrópoles coloniais ao “Gran Caribe” em vias de emancipação cultural, foram decorridas enunciações bem diversas para o conceito “caribe”.

Por conseguinte, Gaztambide cunhou quatro momentos que são decisivos para a significação do termo caribe, do final do século XIX aos dias atuais: o caribe insular, o caribe geopolítico, o Gran Caribe ou Cuenca del Caribe e o caribe cultural.

No segundo ensaio, “La geopolítica del antillanismo de fines del siglo XIX”, procura-se destacar as forças motrizes do latinoamericanismo, sob as luzes antilhanas. Mostra como, por volta da metade do século XIX, começa-se a convergir às idéias de hispanoamericanismo e de latinoamericanismo, numa engrenagem à qual as Antilhas estariam em função otimizada, dado sua localização estratégica em relação ao mercado mundial internacional. Assim, as Antilhas espanholas, Cuba, Porto Rico e República Dominicana, encabeçariam o sonho da “nuestra América”. Situação que muda, já na década de 90 deste mesmo século, diante da ameaça imperial norteamericana.

Gaztambide avalia as idéias antilhanas a partir de figuras históricas inseridas no redemoinho hispanoamericano e antilhano: Marti, Hostos e Betonces. Personagens que dedicaram à luta emancipatória dos territórios coloniais da metrópole espanhola.

Mesmo que uma primeira onda de independência arrebatara o continente décadas antes, persistia uma colonialidade já dita como “cultural” e combatida pelos libertários antilhanos. O papel deles expressam um movimento, cujo sentido atravessaria a história latinoamericana. E a emancipação devia ser alçada nem tanto em relação aos velhos impérios europeus, bem como devia ser buscada em vista da potência emergente: a República norte americana. A política imperial desta potência emergente aos fins do século XIX, que a partir da compra da Lousiana começou a deferir ações com finalidade de expandir sua soberania, estava constituída às voltas de ambigüidades visíveis. E a emergência dos Estados Unidos, como defende Gaztambide, foi fator de grande determinação no caso de invenção do Caribe, já que é das ambigüidades geradas no interior da política imperial americana a razão das variações acerca deste processo de invenção.

E explorar as ambigüidades por detrás das políticas internacionais norte americana é o tema central do terceiro ensaio: “El imperio ‘bueno’ del 98”. Pois ao mesmo tempo em que o final do século XIX foi marcado por projetos políticos de cunho expansionista, encontrava-se também mostras de uma ação não imperialista, defendida como verdadeira representante do ideal republicano. São ambigüidades deste tipo que se alocam no cerne da campanha norte americana rumo à ascensão econômica e que foi aplicada aos vizinhos do Sul, continentais e antilhanos. O conceito de ambigüidade, como atributo qualitativo da política externa norte americana, marca de maneira decisiva a postura específica de seu imperialismo.

Em “La Buena vencidad y populismo”, como o título mesmo diz, trata das relações da política internacional norte americana, posta em prática no terço inicial do século XX e alterada com o término da Segunda Guerra Mundial, com a práxis política do populismo. Ressaltando a particularidade do populismo caribenho, seguindo assim o exemplo do populismo de Porto Rico, este ensaio propõe a hipótese de como os efeitos da política de boa vizinhança fizeram valer no modo de organização interno dos países atingidos por tal postura ambígua.

Entretanto, passada a Segunda Guerra Mundial e com a efetivação do poderio norte americano, a política da boa vizinhança cede lugar à política do bom sócio. Essa transição é o tema dos ensaios “Hacia uma historia social de las relaciones interamericanas: El camino del desarrollismo: 1946-1960” e “Estados Unidos, la idea del desarrolismo y el Caribe: Los orígenes”. A política do bom sócio nada mais é que a adaptação da política externa norte americana no momento em que esta nação acede ao topo econômico da economia mundial. O projeto desenvolvimentista que esta política visa suplantar nos sócios do sul adapta-os aos moldes do capitalismo mundial integrado sob a égide do desenvolvimento econômico, ajustando de forma a assegurar ainda mais a supremacia americana.

O tema do ultimo ensaio, “Identidades internacionales y cooperación regional en el Caribe”, é o modo como a política do bom sócio criou um imaginário internacional que abaixo suas variações locais possibilitou a criação de identidades multiculturais, o Gran Caribe e o latinoamericano.

Desse modo o que o trajeto destes ensaios evidenciam é como as políticas internacionais não são exercidas de forma aleatória, e sim são efeitos da historicidade que perpassam as formações históricas. E também que não é simplesmente a modulação dos estratos interiores de uma sociedade por um fora, e sim o que se dá é um complexo jogo no qual relações de forças heterogêneas se interagem incessantemente.

Leonardo de Melo Rodrigues


GAZTAMBIDE-GEIGEL, Antonio. Tan lejos de Dios… Ensayos sobre las relaciones del Caribe con Estados Unidos. San Ruan: Edicines Callejón, Porto Rico; 2006. 242 p. Resenha de: RODRIGUES, Leonardo Melo Rodrigues. Revista Brasileira do Caribe, São Luís, v.8, n.15, p.283-287, 2007. Acessar publicação original. [IF].

 

Paisagens da história. Como os historiadores mapeiam o passado | John Lewis Gaddis

Resenhista

Diogo da Silva Roiz


Referências desta Resenha

GADDIS, John Lewis. Paisagens da história. Como os historiadores mapeiam o passado. Trad. Marisa Rocha Motta. Rio de Janeiro: Campus, 2003. Resenha de: ROIZ, Diogo da Silva. Como os historiadores escrevem a história das sociedades passadas? História Debates e Tendências. Passo Fundo, v. 7, n. 1, p. 217-223, jan./jun. 2007. Acesso apenas pelo link original [DR]

Uses of Heritage – SMITH (PHR)

SMITH, Laurejane. Uses of Heritage. London; New York: Routledge, 2006. 368p. Resenha de: WARREN-FINDLEY, Jannelle. Public History Review, v.14, 2007.

Laurajane Smith aims in this wide-ranging and richly documented text to use the themes of memory, performance, identity, intangibility, dissonance and place to explore the process of memory making. Beginning with the notion of ‘process’ instead of ‘thing’ the author redefines the stuff of heritage conservation theory and practice.

Tangible or material culture, she argues, presupposes a Western, elite perspective, privileging a stone cottage over a cement-block dwelling of the same size, for example, or wood over mud, or culturally manipulated landscapes over those without obvious disturbance or reshaping. In fact, she argues in the introduction, There is, really, no such thing as heritage… there is rather a hegemonic discourse about heritage, which acts to constitute the way we think, talk and write about heritage… That discourse leaves out the subaltern and alternative approaches and determines on a global scale what the world ought to see as significant and valuable in the traces of diverse cultures.

Smith, trained as an archaeologist, has worked as a cultural resource manager as well as an academic researcher in both Australia and England. She begins the discussion with two chapters on the idea of heritage. Part two examines authorized heritage and presents case studies of English country houses and Australian cultural landscapes. Part three considers responses to authorized heritage. To lay the theoretical groundwork, Smith grounds her discussion deeply in the literature of memory, identity, performance, archaeology, cultural geography and historic heritage conservation/historic preservation. She argues that the authorized heritage discourse (AHD) relies on expert evaluation and discrimination and is promulgated by official heritage agencies and private groups like the various National Trusts.

Although the continual reference to the acronym AHD puts one in mind of an illness, the notion of the authorized heritage discourse is useful as the explanation of the tangible and material culture that can be touched, can be understood as representative of class and nation and can be identified only by those with technical and aesthetic expertise. Smith argues that a more inclusive and multicultural approach to memory making would define ‘heritage’ as the process of construction of the social and cultural meanings of heritage. She presents a fine history of heritage in western European culture and then unpacks the authority and legitimacy on which preserving the past in western terms relies.

Smith’s second chapter addresses the stages or steps in the heritage process and examines how each comes to shape the doing of heritage work. This chapter is particularly important for the literature of heritage conservation/historic preservation because it addresses each element of the interaction among observers/performers, socio-political markers and prompts, preservationists and place. In the new ethnography of heritage that Smith creates here, this chapter breaks down the steps of the process and examines each in considerable detail.

The book then presents case studies of the authorized heritage discourse and its application in the field as well as challenges to its power. The examples – English country houses, Australian shared cultural landscapes, labour museums and the making of community identity – illustrate well the processes at work here.

The telling or displaying of a particular version of heritage, finally, arises out of political and cultural power and a sense of control by the dominant group. The question of who owns history or heritage provokes dissonance in preservation discussions because of the power involved in maintaining the authorized heritage discourse. The authority of those who establish the standards and definitions of significance is challenged by changes in or additions to the official narrative. Indigenous people are identified by Smith as the most prominent of the groups that question the ownership of cultural heritage by others but many groups too wish to own their own stories and present them or not as they choose. The resulting clash of experts in culture – museum curators or the community whose exhibit it is, for example – is profoundly difficult to resolve.

Smith’s work deserves wide attention. Her marvelous, thick analysis of the situation presents compelling arguments for fully understanding and dispensing with the AHS and its practice. As a guide to thinking, teaching and practicing in the field, this analysis raises the right questions and provides really provocative and solid answers.

Despite the annoying acronym, Smith’s complex, multilayered effort challenges heritage practitioners to be both self-reflective and responsive to change.

Jannelle Warren-Findley –Associate Professor of Public History at Arizona State University and a past President of the National Council on Public History.

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The Lowell Experiment: Public History in a Postindustrial City – STANTON (PHR)

STANTON, Cathy. The Lowell Experiment: Public History in a Postindustrial City. Amherst and Boston: University of Massachusetts Press, 2006. 304p. Resenha de: ASHTON, Paul. Public History Review, v.14, 2007.

Lowell National Historical Park was established in Massachusetts in the United States in 1979. It was part of an experiment which drew on a new economic industry – cultural tourism – to rehabilitate a former textile city, once held up as an exemplar of capitalist industrialisation, that had been devastated by late twentieth-century deindustrialisation.

In her highly readable and original book, The Lowell Experiment, Cathy Stanton explores the politics of public history on a number of levels using this National Historical Park (NHP) as a rich case study. Public history’s role in facilitating change, rather than simply recording or reflecting it (pxiii), is treated as are divisions within the public history movement in the USA and the contested nature of the term ‘public history’. Leia Mais

Expressions of Mercy: Brisbane’s Mater Hospitals 1906-2006 – GREGORY; The Royal. A Castle Grand, a Purpose Noble. A History of The Royal Newcastle Hospital 1817-2005 – MARSDEN; HUNTER; A Proffesion’s Pathway: Nursing at St. Vincent’s since 1893 – SHEEHAN; JENNINGS (PHR)

GREGORY, Helen. Expressions of Mercy: Brisbane’s Mater Hospitals 1906-2006. Brisbane: University of Queensland Press, 2006. 279p. MARSDEN, Susan;  HUNTER, Cynthia. The Royal. A Castle Grand, a Purpose Noble. A History of The Royal Newcastle Hospital 1817-2005. Newcastle: Hunter New England Area Healt Service, 2005. 250p.; SHEEHAN, Mary; JENNINGS, Sonia. A Proffesion’s Pathway: Nursing at St. Vincent’s since 1893. Kew (Victoria): Arcadia, 2005. 218p. Resenha de: GODDEN, Judith. Public History Review, v.14, 2007.

These three hospital histories were written by experienced professional historians, all at ease with evaluating evidence and practised in conveying complicated scenarios to commissioning bodies and the public. The result is three excellent histories which provide a model for other professional historians. Their particular interest to readers of Public History Review is that they are also three very different books, illustrating very different approaches. Which one is best? As always, that depends. It depends most of all on the scope required by the commissioning body and the intended audience.

The narrowest in scope is Sheehan’s book on nursing at St Vincent’s Hospital in Melbourne. Sheehan also had the inestimable advantage of being able to draw upon five well-researched secondary sources. Two were relevant to the hospital (Bryan Egan, Ways of a Hospital: St Vincent’s Melbourne 1890s-1990s and Michael Tyquin, A Place on the Hill: The History of St Vincent’s Private Hospitals in Melbourne 1906-1993) and three to the general context of nursing in Victoria (Angela Cushing, A Contextual Perspective to Female Nursing in Victoria; Judith and Bob Bessant, Growth of a Profession: Nursing in Victoria 1930s-1980s; and Richard Trembath and Donna Hellier, All Care and Responsibility: A History of Nursing in Victoria 1850-1993). Sheehan had another great advantage in that she was a St Vincent’s trained nurse before becoming a professional historian. It is not surprising that she straddles with ease the perspectives of the ‘insider’ and the ‘outsider’. The result is an engaging book, basically written for St Vincent’s nurses but accessible to all interested in nursing or medical history. There are no surprises in the themes – such as the mindless discipline of early nursing, the camaraderie of the nurses’ home or the Sisters of Charity’s resistance to the Hospital being brought under state control – but they are evocatively told. External events are largely confined to introductory sections of each chapter, patient experiences to the last chapter and the nurses’ experience is mostly that of the laity. There are signs of haste in completion but the production values, especially photographs, are generally high.

Marsden’s history of Newcastle Hospital is quite different in concept and scope. She had to skate over nearly 200 years, but also considerably upped the ante by her emphasis on the hospital as community. In one sense all these histories do this in their stress on the staff of their hospital being, in Gregory’s words, a ‘family’, and also in their stress on their hospital’s links to the community. Marsden extends the notion by examining how the hospital shared in, rather than was simply influenced by, community fluctuations of fortune. She also, most innovatively of all, gives broadly comprehensive biographical vignettes. These are regrettably in tiny print but are worth reading. They include the expected senior administrators, doctors, nurses and fund-raisers but also patients, domestic and auxiliary staff and volunteers. These vignettes are all interesting and, as in the description of the life of the first indigenous nurse at the Hospital, revealing equally of broader history and individual character (in this case, resilience). Other aspects of Marsden’s book have much in common with the two others reviewed here, including an admirable attempt at impartiality when dealing with the many controversial issues and personalities that are part of any hospital’s history. She too uses photographs to enliven and add to the text.

Gregory’s history of the seven Mater Hospitals in Brisbane shares with the others the excellent standard of research, the generally high production qualities and attempt to weave individual stories into the broader context. She deliberately chose a broad brush (p336) approach and, it is hard to resist concluding, primarily wrote to meet the needs of her commissioning body. The end result is basically an administrative history which traces the many vicissitudes and triumphs of the Sisters of Mercy as they, or so it appeared to this reader, constantly stretched to the limit their resources and standard of care. The promised board-brush approach translates, especially in the last half of the book, into a sustained argument about state policy and its impact on the hospital. There is also a valiant attempt to conceptualise the history as an expression of Mercy values although the comparative neglect of the health of its nearby Aboriginal community, especially during most of the twentieth century, is an unexplained and glaring anomaly.

Still, this book is a valuable record even if one not as engaging to the general reader.

These then are three excellent hospital histories, all taking a different approach to suit different requirements. Only Sheehan had the luxury of rich secondary sources upon which to draw her more specialised study. Only Marsden could tap into the distinctive Newcastle sense of a community with its hospital as a centrepiece. Only Gregory chose to stress the dominant role of the state in determining the direction of recent healthcare.

These books indicate that hospital history is in good hands which hopefully will encourage more commissions. I am less confident that two other needed developments will be soon achieved. The first need is for a generalised history of Australian hospitals Public History Review, vol 14, 2007 160 so that developments in each hospital can be placed in context. The second need is a work where ‘nuns’ are so mainstream that we, as historians, critique them in the same spirit as we do the laity.

Judith Godden – University of Sydney.

Senior Lecturer, School of Public Health, University of Sydney

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The Agricultural Revolution in Prehistory. Why did Foragers become Farmers – BARKER (DP)

BARKER, Graeme. The Agricultural Revolution in Prehistory. Why did Foragers become Farmers. Oxford: Oxford University Press, 2006. 598p. Resenha de: BUDJA, Mihael. Documenta Praehistorica, v.34, 2007.

The Agricultural Revolution in Prehistory addresses some of the most debated questions as to why, how, when and where foraging societies decided that Ôthe advantages of food production outweighed the options available to them as foragersÕ. Graeme Barker first discussed these questions in his Cambridge PhD on the transition from hunting to farming in central Italy. Some years later he focused on the evolution of farming in Europe. His recent book is an attempt to bring to bear a global holistic approach to the problem of why foragers became farmers. The book is in ten parts: (1) Approaches to the Origins of Agriculture, (2) Understanding Foragers, (3) Identifying Foragers and Farmers, (4) The ÔHearth of Domestication Õ? Transitions to Farming in South-West Asia, (5) Central and South Asia: the Wheat/Rice Frontier, (6) Rice and Forest Farming in East and South-East Asia, (7) Weed, Tuber, and Maize Farming in the Americas, (8) Africa: Afro-Asiatic Pastoralists and Bantu farmers?, (9) Transitions to Farming in Europe: Ex Oriente Lux?, and (10) The Agricultural Revolution in Prehistory: Why did Foragers become Farmers?

In the context of a short review, the range and rich detail of this book precludes further summary, and to engage in debate on any one section would be invidious. Suffice to say that the author believes that the process of transition to farming demands a regionally comparative approach. For every region, he suggests, we need to understand Òchanges in climate and environment, the nature of the plant and animal resources available, and how they were exploited by people on either side of the presumed transitional phase(s) from foraging to farming”. And, that “if we are to understand why prehistoric foragers become farmers” we have to “imagine how they must have viewed their world and the challenges and choices available to them”. There is no reason not to agree with these postulates.

The author develops a strong case for the development of agricultural systems in many regions as transformations in the life-styles of indigenous forager societies, and hypothesises that these were as much changes in social norms and ideologies as in ways of obtaining food. He argues at the same time that the transition to farming was a process consisting of many unwise, foolish and fatal decisions, and that what actually happened was not the discovery nor the invention of food production, but a by-product of decisions made without an awareness of their consequences (p. 392, quoting J. M. Diamond).

The author surprises us by reviving two old concepts and models, agricultural revolution (cf. V. G. Childe) and acculturation (cf. S. Piggott [Ancient Europe. 1965], missing from the bibliography). He argues strongly against the concept of demic diffusion and/or the wave of advance model (cf. A. J. Ammerman and L. L. Cavalli-Sforza). For him, the main problem with the demic diffusion model is Òits focus on the transition to farming as some kind of unique sequence of movements in an otherwise static world.Ó (p. 413).

By adopting a global perspective, the author integrates in the book a series of general and basic data that were discussed in the eighties and nineties in archaeology, anthropology, botany and zoology, climatology, and archaeogenetics. Unfortunately, he overlooks relevant information as much as the recent discussions of origins and diffusions of “Mesolithichic” and “Neolithic” Y-chromosomes and mitochondrial DNA haplogroups, and global human population trajectories in the context of the processes of the transition to farming. Human genetic studies show that the modern European paternal and maternal genetic landscape was not the result of farmers invading from the Near East, and that demic diffusion is not a realistic scenario for interpreting the transition to farming in either Europe or Central Asia. The lively debate on the “8.200 calBp climate event” Ð which undoubted correlates chronologically with the transition to farming on a global scale, and certainly affected environmental conditions Ð is not taken into account. How the event affected contemporary hunter-gatherers and farmers and the transition to farming still awaits an answer.

There is no question, however, that The Agricultural Revolution in Prehistory is a big step towards an unbiased interpretation of the processes of transition to farming in prehistory both regionally and globally.

Mihael Budja –  University of Ljubljana.

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Parts and Wholes: Fragmentation in Prehistoric Context – CHAPMAN; GAYDARSKA (DP)

CHAPMAN, John; GAYDARSKA, Bisserka (with contributions from Ana Raduntcheva and Bistra Koleva). Parts and Wholes: Fragmentation in Prehistoric Context. Oxford: Oxbow Books, 2007. 233p. Resenha de: MLEKU, Dimitrij; BUDJA, Mihael. Documenta Praehistoricav.34, 2007.

The book Parts and Wholes is in many ways a supplement to Chapman’s previous book, The Fragmentation in Archaeology (2000), but it is also a new, highly innovative and interesting book. It is an ambitious attempt to write an integrated study which combines archaeology, social anthropology and material culture studies.

Chapman’s study focused on the complementary practices of fragmentation and accumulation, processes which link people to objects through production, exchange and consumption. He adopted an anthropological model of personhood, derived mainly from ethnographic analyses of Melanesian societies, where people are made up of the totality of their relations: they are not “individuals” but “dividuals”, made up of their relations and transactions with each other, places and material culture.

This study was founded upon the “fragmentation premise “, an idea that many artefacts in the past were deliberately broken and then re-used as fragments after that break. A crucial practice connected with the creation of personhood is “enchainment”, a social relationship between people and people and objects which emerges from the exchange of fragments. A related, complementary process is “accumulation”, which creates a hoard of objects.

Fragments are tokens of relations between people, places and objects, and thus create personalities. This model of personhood seems to fit the evidence of fragmented objects, hoards and partial deposits of human bone from southeastern Europe.

In the present book Chapman and Gaydarska elaborate on many points and arguments from Chapman’s previous book. In fact, the book addresses many criticisms of the first book and provides many case studies which support the theoretical issues raised in the both volumes.

The first two case studies are examples of the culturally specific creation of personhood, the first using whole pots and the principle of “categorisation” (Chapter 1). The second study discusses the anthropomorphic figurines from Hamangia (Chapter 3). Observation of the various biographies of Hamangia figurines, which were androgynous when whole, but change their rendered identity to male, female or genderneutral, or no-gender following the fragmented life history of the figurines. However, in graves, either complete figurines or fragments, which can be refitted to whole figurines, were deposited, which characterise Òa return to androgynous whole at death. “Two methodological studies focus on the correspondence between the mobility of objects and fragDocumenta Praehistorica 2007 book reviews 314 ments and the archaeological record. The first one Ð wittily named “Schiffer visits the Balkans” Ð discusses “rubbish” , the importance of deposition and disposal for the objects” biographies, the mobility of the fragments, the creation of context and the definition of “activity areas” (Chapter 4).

Meanwhile, the second approach mobilises the re-fitting studies and chine op.ratoire approach to answer the key question in fragmentation studies: “Where are the missing parts?” The study traces the dispersion of fragments both on-site and off-site (Chapter 5).

The final two studies combine a biographical approach with re-fitting studies. The first approaches the large assemblage of fragmented figurines from the Final Copper Age layers of the Dolnoslav tell (Chapter 6). The complex pattern of deposition at Dolnoslav seems to suggest that the tell was an accumulation site for the fragments, while the pattern reflects diverse principles of personhood, and thus offers an interesting contrast to the study of Hamangia figurines in the third chapter.

The second traces the ch.ine op.ratoire of Spondylus rings based on refitting studies of three sites (Chapter 7).

Chapman and Gaydarska succeed in demonstrating that the Ôfragmentation premiseÕ is well founded. The high level of object and fragment mobility Ð up to 80 % of objectsÕ mass is missing on some sites Ð suggest that fragments travel across sites and landscapes. Even more, they show that fragmentation studies can offer an insight into the creation of personhood and identity.

What we miss in the book is an acknowledgement of the social importance of the act or performance of deliberate breaking. Deliberate breaking is first an extremely important event in the biography of the object, not just “ritual killing”. It is an act of transformation, when a whole object is transformed into something other. The act of transformation Ð due to its visual or aural qualities Ð can bring people together and make the event an social one. Obvious examples are the “ritual explosions” of figurines at Dolni V.stonice, Balkan celebrations involving the ÔritualÕ breaking of glass against walls, or Leslie GrinsellÕs funeral cited in the introduction to the book. In such events it is the performance of deliberate fragmentation which has important social implications; it binds people together, the resulting fragments make those relations merely visible and tangible.

All in all this is a mind-boggling book. Chapman and Gaydarska’s study is a highly innovative and stimulating one. It opens completely new lines of enquiry into Balkan (and wider) prehistory.

Dimitrij Mleku and Mihael Budja – University of Ljubljana .

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Portugueses no Brasil: migrantes em dois atos | Ismênia de Lima Martins

MARTINS, Ismênia de Lima; SOUSA, Fernando (Orgs.). Portugueses no Brasil: migrantes em dois atos.  Niterói: Muiraquitã, 2006. Resenha de: KUSHNIR, Beatriz. Revista Maracanan. Rio de Janeiro, v.3, n.3, p. 183-184, 2007.

Acesso apenas pelo link original [DR]

Métodos, diseños y técnicas de investigación social – RAPOSO (RTDCS)

RAPOSO, María del Salvador. Métodos, diseños y técnicas de investigación social. Mérida: Publicaciones Vicerrectorado Académico, Universidad de Los Andes, 2006. 417p. Resenha de: ARANGUREN, Carmen. Revista de Teoría y Didáctica de las Ciencias Sociales, n.12, p.247-249, ene./dic., 2007.

Métodos, diseños y técnicas de investigación social es un libro que recoge el fruto de la larga experiencia de la autora en investigación y docencia en la Universidad de Los Andes (Venezuela) y Universidade da Coruña (España). Su producción científica en Estadística aplicada a las Ciencias Sociales es cuantiosa; destacamos las siguientes publicaciones: Diseño de experimentos, Demografía escolar, Introducción a la metrología histórica, Aplicación de modelos lineales en investigación psicopedagógica, Estadística aplicada al análisis de documentos coloniales, y Un enfoque estadístico de la Mérida colonial.

Nos parece muy acertada la exposición de la autora sobre el proceso lógico-matemático de la investigación, lo enfoca bajo una doble perspectiva –epistemológica y métrica–, expone las principales teorías sobre la adquisición del conocimiento, las hipótesis sobre la naturaleza del cosmos, y la búsqueda del mejor método para recabar la información y narrar con precisión y orden los fenómenos investigados. La reflexión epistemológica sobre la adquisición del conocimiento la expone a través de las dos grandes corrientes del pensamiento de Occidente: el idealismo –que sistematiza Platón, apoyado en las ideas de Parménides, Pitágoras y Heráclito– y el realismo –que tiene en Aristóteles su gran representante. El enfoque métrico de la investigación científica lo ilustra con los hallazgos de las primeras investigaciones en las ciencias sociales y de la conducta, y los métodos que usaron los investigadores para obtener una información fiable y válida.

Los historiadores encontrarán en este libro amplia información sobre el origen y desarrollo de la medida, la prerrogativa de emperadores y monarcas para establecer la normativa metrológica, y cómo imponían las monedas, pesas y medidas a los pueblos sometidos.

También hallarán los sistemas cronológicos y cronográficos, con ejercicios de conversión de la datación de las distintas eras y, dentro de éstas, sus diferentes estilos, lo cual constituye un apoyo en la lectura de protocolos notariales e inscripciones que figuran en los monumentos antiguos. El dato cuantitativo reviste el hecho histórico de precisión y exactitud. Los primeros historiadores griegos se apoyaron en el conteo para extraer conclusiones acerca del hecho histórico: Tucídides contabilizó los hombres que integraban el ejército peloponesio en la primera invasión del Ática.1 Herodoto narró lo que consumían los obreros que construyeron la principal pirámide de Egipto en rábanos, cebollas y ajos.2 Sociólogos, educadores y psicólogos pueden beneficiarse de la lectura de este manual, sobre todo con el contenido de los dos últimos capítulos en los que explica detenidamente los métodos y técnicas de investigación en las ciencias sociales y de la conducta humana.

Notas

1 Tucídides II 10, 6-7.

2 Herodoto, II 125, 6-7. Interpretaciones posteriores de la escritura jeroglífica descifran el simbolismo que encierra: el Faraón, representado por la cebolla, dominaría sobre el Bajo y el Alto Egipto, simbolizados por los rábanos y el ajo, el papiro y el loto.

Carmen Aranguren Rincón – Dra. en Filosofía y Letras. E-mail: mars@udc.es. Grupo de Investigación Teoría y Didáctica de las Ciencias Sociales. Facultad de Humanidades. Universidad de Los Andes-Venezuela.

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Escrita de si/ escrita da História | Ângela de Castro Gomes

Organizada por Ângela de Castro Gomes, chega-nos uma significativa contribuição ao debate teórico-metodológico referente à “escrita de si”. Embora sempre tenham sido usados como fontes pelos historiadores, o conjunto de fontes documentais composto por diários, correspondências, biografias e autobiografias, apenas recentemente passaram a ser considerados fontes privilegiadas de análise e objetos da pesquisa histórica. Resultado das transformações na prática historiográfica vindas da consolidação da chamada História Cultural, segundo a organizadora também social e política, que estabeleceu novos recortes e temáticas, bem como objetos, metodologias e fontes ao trabalho do historiador.

Visto que ainda são poucos os estudos voltados a uma reflexão sistemática sobre esse tipo de texto na área da história, a coletânea composta por dezesseis artigos não se apresenta como uma obra definitiva. Mas sim, como uma amostra expressiva das diversas possibilidades e limites do trabalho historiográfico que se utiliza desse conjunto de documentos seja como fonte, seja como objeto de pesquisa. “Exercícios de análise” demarcados pelo debate das relações ente história e memória, pela questão da temporalidade e pelo enfretamento da questão da dimensão subjetiva dessa documentação, onde se estabelecem procedimentos metodológicos de críticas as fontes históricas que descartam “a priori qualquer possibilidade de se saber “o que realmente aconteceu” ou, a “verdade dos fatos”. Leia Mais

O que é história Cultural? | Peter Burke

O historiador Peter Burke é uma daquelas “figurinhas carimbadas” nas reflexões teóricas e historiográficas contemporâneas. Sua presença na academia brasileira é marcante e pode ser lembrada pela importância de sua produção intelectual quanto por sua freqüência em eventos acadêmicos no Brasil.

Interessa aqui recordar que os diversos trabalhos de Burke traduzidos para a língua portuguesa brasileira se constituem, via de regra, em sucessos editoriais. Neste “O que é História Cultural?”, aparecido na Inglaterra em 2004, Peter Burke trabalha para elaborar um texto de natureza introdutória a discussões já bem postas na historiografia brasileira: a história cultural, suas características e práticas. Leia Mais

O golpe e a ditadura militar: quarenta anos depois (1964-2004) | Daniel Aarão Reis, Marcelo Ridenti e Rodrigo Sá Motta

Em 2004 muitos foram os pesquisadores que se reuniram em seminários, palestras e eventos tendo como objetivo discutir a questão da ditadura militar no Brasil. Foi um momento de refletir um acontecimento – o golpe militar – que marcou profundamente a história do povo brasileiro. Já tinham se passado quarenta anos, mas as lembranças daquele momento permaneciam na memória daqueles que presenciaram os direitos democráticos se desfazerem com as ações políticas dos militares.

A produção historiográfica referente ao golpe civil-militar de 1964 e o governo que se instalou desde então vem aumentando constantemente. Essa preocupação pode ser compreendida devido ao acesso a determinados documentos que anteriormente eram impossíveis de serem analisados, embora o estudo sobre a ditadura ainda careça de fontes. A intensa revisão desse momento histórico pode ser dada pelo fato desse período ainda provocar muitas contradições, como por exemplo a construção de narrativas daqueles que defenderam o regime e dos que foram vítimas desse sistema ditatorial. O que ocorre também é uma tentativa de redefinição desse passado pelos diferentes sujeitos, de um lado aqueles que vivenciaram essa experiência ditatorial e de outro os que investigam e interpretam esse passado com base em documentos escritos e orais. Leia Mais

Prehistoric Herders of Northern Istria: the archaeology of Pupicina Cave – MIRACLE; RORENBAHER (DP)

MIRACLE, Preston T.; FORENBAHER, Staso (Ed.). Prehistoric Herders of Northern Istria: the archaeology of Pupicina Cave, Volume 1\Pretpovjesni stocari sjeverne Istre: arheologija Pupicine peci, 1. svezak (Monografije i katalozi 14). Pula. Arheoloski muzej Istre, 2006. 560p. Resenha de:  MLEKUZ, Dimitri. Documenta Praehistorica, v.34, 2007.

This monograph documents the results of the excavation of the post-Mesolithic layers in Pupi²ina Cave in Northern Istria. Pupi²ina Cave contains a deep, albeit interrupted sequence, which covers the last 12 000 years of occupation, with significant Neolithic and Bronze Age deposits. This is the first volume in a series of monographs which is intended to cover the whole occupational sequence of the Cave.

This substantial monograph is a very welcome contribution to studies of the Neolithic and Bronze Age in the Northern Adriatic, which has been relatively intensively researched, but lacks well- excavated and dated assemblages, and which is plagued by a lack of detailed publications.

The most obvious contribution of the monographs lies in the detailed specialist studies of the whole line of evidence, both ÔartefactualÕ and ÔecofactualÕ, including stratigraphic, micromorphological, taphonomical, palaeobotanical etc. data. Thus, aside from an introductory article (Miracle) and two overview contributions, the monograph consists of a series of detailed specialist reports covering different lines of evidence.

Miracle and Fornbaher describe the methodology of excavation and the stratigraphy of the post-Mesolithic layers in the cave in full detail. The sequence of five occupation horizons is dated with eight radiocarbon dates. Particularly interesting is the geoarchaeological report (Boschian), which clearly demonstrates that the stratigraphic sequence is almost entirely the result of anthropogenic processes, mainly the periodic burning of animal dung and cleaning of cave floors. The micromorphological data provide clear evidence that the cave was used as a sheep pen. The pottery analysis (Forenbaher and Kaiser) provides evidence of sharp contrast in the use of pottery at the site between the Bronze Age and Neolithic, while the analysis of stone artefacts (Forenbaher) questions previous assumptions that the Neolithic lithic industry in the region is based on a prismatic blade technology industry. An important observation is the intensification of long-distance interactions during the Neolithic, which can be clearly seen in an expanded range of raw materials. Different uses of raw materials can be seen in a small collection of bone and antler artefacts (Amatt and Miracle).

The report on vertebrate fauna (Miracle and Pugsley) clearly shows the major role in subsistence of herds of ovicaprines, thus complementing the micromorphological and stratigraphic evidence. The paper reveals substantial changes in cave use, animal management, during the Neolithic and Bronze Age.

The very small mollusc assemblage provides more evidence of site formation and taphonomical processes than of dietary or palaeo-environmental processes (Laurie, Miracle and Poje). The charcoal and phytolites analysis offer evidence of the utilisation of the landscape in the immediate enivrons of the cave (Fletcher and Madella) and thus complements a pollen analysis from an offsite core (Andri­), while the analysis of small vertebrate remains (Steward and Parfitt) focuses more on the formational processes which could have led to their accumulation in the cave. The specialist reports often include regional comparisons and set data within a wider regional context. Especially worth mentioning is the report on faunal assemblages (Miracle and Pugsley), which summarises zoo-archaeological data from the whole of the eastern Adriatic.

The last two chapters summarize the different lines of evidence and provide an overview and conclusion about the cave itself and its environment, and its position in the spread of farming in the eastern Adriatic.

The first synthetic contribution summarise changes in the activities in the cave and its immediate environs (Miracle and Forenbaher). Pupi²ina was a seasonally visited site, with changing patterns and intensity of use and occupation. It was used as a seasonal camp, with major periods of relatively intensive occupation during the second half of the 6th and the beginning of the 5th millennium BC (Middle Neolithic) and mid-second Millennium BC (Bronze Age).

The Middle Neolithic occupations were short; shepherds lived in the cave with their herds; animals were slaughtered and consumed on site. Although the authors admit that the data fits fairly well with J.-.. BrochierÕs Ôhabitat bergerieÕ, an occupational site used by shepherds and their herds, they anyway conclude Ð in my opinion too hastily Ð that ÒPupi²ina may have been a special-purpose site attached to the nearby villageÓ, and was therefore more a Ôgrotte bergerieÕ, a seasonal transhumance site linked to the (hypothetical) lowland village. This might be true of the Middle Bronze Age, with the appearance of fortified hill-forts in northern Istria and the immediate vicinity of the site.

An important observation is the existence of ÔgapsÕ in the deposition, a major one between the Mesolithic and Neolithic, and another between the Neolithic and Bronze Age, along with several others. These ÔgapsÕ also occur in other caves in the region. Unfortunately, the research does not provide a final answer to this problem, although it seems to be crucial for understanding the transition from the Mesolithic to the Neolithic in the cave and the wider region, which is the topic of the second synthetic contribution (Forenbaher and Miracle). There is a hiatus in occupation of around 1800 years between the Mesolithic and Neolithic occupations of the cave, therefore the evidence of a Mesolithic-Neolithic transition and the transition to farming has not survived. Unfortunately, this renders the cave less suitable for a discussion of the process of neolithisation. The earliest Neolithic layers in Pupi²ina are at least a few hundred years younger than the first Neolithic evidence in the region. Therefore, we might not agree with the authorsÕ conclusion that ÒPupi²ina has some of the strongest and clearest evidence of a new population of herders/farmers coming to the site in the Middle NeolithicÓ. Absence of evidence is not necessarily evidence of absence of absence of huntergatherers in the cave during the transitional period, especially when other lines of evidence (exclusive use of local lithic raw materials in the oldest Neolithic horizon) may suggest local ancestry of the first herders in the cave.

The first monograph in the series is a colossal contribution to Neolithic and Bronze Age studies in the area and sets high standards for future research and publications on the area. It is to be hoped that the quality of the research and publication seen in this monograph will be also reflected in publications by other researchers working in the area. I eagerly await further volumes from the series.

Dimitrij Mlekuz – University of Ljubljana

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A violência e o futebol: dos estudos clássicos aos dias de hoje | Maurício Murad

O futebol tem ocupado, cada vez mais, um espaço como objeto de estudo dos vários pesquisadores, cuja formação se liga à História, à sociologia, à antropologia e demais áreas correlatas. Isso significa que o esforço de análise acerca desta temática vem deixando de ser algo restrito a uma prática diletante, para também ser analisada no âmbito das universidades. Neste aspecto, não tenho dúvidas quanto ao pioneirismo e ao brilhantismo do Professor Maurício Murad, quando nos reportamos à reflexão sobre a temática apontada, sobretudo no que diz respeito a um dos principais problemas que habita o universo do futebol: a violência. O livro é parte de amplas pesquisas que o autor já vem realizando há algum tempo, o que o coloca como indispensável para aqueles que estudam ou venham a estudar e/ou conhecer questões relacionadas ao futebol, também numa perspectiva da pesquisa acadêmica.

Desde já, creio ser necessário concordar com uma das principais teses do autor em questão, quando ele nos sugere em seu livro, que não se deve comparar a violência no futebol com a violência do futebol. A partir desta premissa, provavelmente o autor queira nos alertar quanto às ocasionais conclusões que poderiam naturalizar o futebol como algo estruturalmente violento, tal como muitas vezes alguns jornais impressos, programas de rádios e/ou de televisão, enfim, os diferentes veículos de comunicação poderiam nos levar a crer, quando noticiam os jogos de futebol. Não se trata de rejeitar a existência de absurdos ligados à violência absolutamente condenáveis que, de fato, estão presentes no esporte. Leia Mais

La vida cotidiana en Babilonia Y Asiria – CONTENAU (PR)

CONTENAU, G. La vida cotidiana en Babilonia Y Asiria. Traducida por Pablo Herrero. Resenha de: TORRES, Ángel Luis González. Panta Rei – Revista de Ciencia Y Didáctica de la Historia, Murcia, p.157-179, 2007.

Estructura

La obra de Georges Contenau, traducida por Pablo Herrero, está dividida en cuatrocapítulos a los que se añade un apartado de Conclusión, precedidos de una introduccióny con dos apéndices finales con la bibliografía y las notas aclaratorias (Referencias).

Cada capítulo está a su vez dividido en múltiples epígrafes, de mayor o menorbrevedad, sin numeración1, siguiendo una secuencia más o menos ordenada por temáticasencadenadas.

La INTRODUCCIÓN de apenas dos páginas sirve a su autor para justificar laelección del periodo histórico, por ser a su entender el mejor conocido. Tras un brevísimobosquejo de la historia del Próximo Oriente en dicho periodo (apenas un párrafo)enumera las fuentes que ha utilizado y a la vez le han permitido decantarse poreste lapso de tiempo: las tablillas de Assur y Babilonia, en especial Anales, rituales,himnos, correspondencia (tanto real – funcionarial como privada), la biblioteca deAssurbanipal en Nínive y por último los monumentos y descubrimientos arqueológicos(en especial Korsabad, Nínive, Assur y Babilonia).

Dedica también especial atención a las fuentes exógenas, es decir, los historiadores– viajeros del mundo griego.

El primer capítulo, titulado NOCIONES GENERALES, se divide en noventa epígrafes:

  1. El país.
  2. Los habitantes.
  3. Historia de Mespotamia de 700 a 500 antes de Jesucristo.
  4. La cronología.
  5. Las clases sociales2.
  6. La familia. La habitación.
  7. El hombre libre y el matrimonio.
  8. El esclavo.
  9. Su venta.
  10. Los esclavos del templo.
  11. El rescate.
  12. La habitación.
  13. La casa.
  14. El empleo de la arcilla.
  15. El techo y el piso superior.
  16. La decoración18. El mobiliario.
  17. Alumbrado y calefacción.
  18. La ciudad. Su plan.
  19. Babilonia.
  20. Los grandes edificios. El Mermes.
  21. El Eufrates y su puente.
  22. Aducción de agua.
  23. Las murallas.
  24. Las puertas.
  25. El campo. Los canales.
  26. Fertilidad debida a la irrigación.
  27. La navegación.
  28. La espuerta y el <<kelek>>.
  29. La pesca.
  30. Los huertos.
  31. El huerto de Merodak-Baladan.
  32. Los corrales.
  33. La agricultura. Los cereales.
  34. La laya y el arado.
  35. La trilla.
  36. Ventas y préstamos en grano.
  37. El ganado. El asno.
  38. El asno salvaje y el caballo.
  39. El ganado bovino.
  40. Corderos. Cabras. La industria de la leche.
  41. El camello.
  42. Pastores y perros.
  43. Ventas de ganado.
  44. Animales salvajes. La caza.
  45. Los transportes por carretera.
  46. La caravana.
  47. La vida cotidiana3,50. El saludo matinal.
  48. El aseo. Cabello y barba.
  49. El jabón.
  50. El barbero.
  51. El traje masculino.
  52. Modas femeninas.
  53. El sello.
  54. Las comidas.
  55. El pan.
  56. La bebida. La cerveza y el vino de palmera.
  57. El vino.
  58. La palmera.
  59. La seudofecundación de la palmera en los bajorrelieves.
  60. Legumbres, pescado y carne.
  61. Los saltamontes.
  62. Queso, confitería y frutas.
  63. La vajilla.
  64. Las bebidas fuertes.
  65. Trabajo y comercio4.
  66. Relaciones entre en vendedor y el comprador.
  67. La responsabilidad.
  68. Organización del trabajo en Capadocia.
  69. Objetivos del comercio.
  70. La organización del trabajo en la caravana.
  71. El comercio en Nuzi.
  72. La firma Murashu en Nippur.
  73. Los salarios.
  74. El destajo.
  75. Los vigilantes.
  76. El coste de la vida.
  77. El patrón de cambio.
  78. Valor de las mercancías.
  79. Cobre y bronce.
  80. Hierro, oro y plata.
  81. La fundición de estatuas y sus dorados.
  82. Vasos y joyas.
  83. El alfarero.
  84. El cestero.
  85. El mercader de telas.
  86. El confitero.
  87. El vendedor de canciones.

Estos epígrafes pueden ser divididos en cuatro apartados, delimitados por el propioautor por el uso de la letra en cursiva.

El primer apartado sería propiamente el que contiene las nociones generales,como son el marco geográfico, la descripción étnica, lingüística, una breve historiadel periodo estudiado (700 al 500 a.C.) y el marco cronológico es decir, los seis primerosepígrafes.

El segundo apartado que el autor subtitula Las clases sociales así como los dosrestantes, La vida cotidiana y Trabajo y comercio, más que ser nociones generalesentran de lleno en el análisis de la vida cotidiana que lleva por título la obra. Epígrafestan específicos como El mobiliario, El saludo, El jabón, El coste de la vida o Elconfitero son prueba de ello.

El segundo capítulo, titulado EL REY Y EL ESTADO, lo conforman treinta ycinco epígrafes:

  1. El palacio real.
  2. El palacio de Korsabad.
  3. Las excavaciones.
  4. La planta del palacio.
  5. Los palacios secundarios.
  6. Jardines y <<jardines colgantes>> de Babilonia.
  7. La decoración. Los bajorrelieves.
  8. Los palacios provinciales.
  9. La idea de monarquía.
  10. Reglas de accesión al trono.
  11. La designación divina.
  12. El rey de Asiria no es un dios.
  13. Designación del sucesor.
  14. La consagración.
  15. La jornada civil del rey. El vestido.
  16. Joyas y armas.
  17. Los carros reales.
  18. El mobiliario real.
  19. El marfil.
  20. Diversiones. Banquetes. Música. Danza.
  21. La caza.
  22. El séquito real.
  23. El gobierno. La diplomacia.
  24. Recepción de tributarios.
  25. El tributo de cedros del Líbano.
  26. La guerra.
  27. Los dioses lo ordenan.
  28. El ejército.
  29. Zapadores y artilleros.
  30. El campamento.
  31. El botín.
  32. La octava campaña de Sargón.
  33. Saqueo de Musasir.
  34. La guerra de Elam y el saqueo de Susa.
  35. La marina de guerra.

En este capítulo prima el estudio de las estructuras de poder, centrándose casiexclusivamente en el Imperio Nesoasirio. Se detallan diversos aspectos de la vida cotidianadel monarca y de parte de su corte. La última parte se centra en varios puntosde lo que Georges Contenau denomina en múltiples ocasiones «la industria nacionalde Asiria», esto es, la guerra.

Analiza algunas de las motivaciones de los conflictos, así como uno de los principalesresultados de éstos, los tributos, terminando por analizar la maquinaria militardel Imperio, que demostró ser la más poderosa de su época.

Conviene destacar la narración que hace del descubrimiento y excavación del palaciode Korsabad (epígrafes 2 a 4), narrando de forma casi anecdótica los conflictosentre las misiones francesas e inglesas en el proceso. Más adelante trataremos estepunto con mayor detenimiento.

162Siguiendo un esquema característico del estilo del autor, tras detallar los aspectosgenerales, se centra en situaciones concretas que corroboran lo anteriormente detallado,en este caso campañas militares concretas de época sargónida.

Es éste uno de los capítulos más apropiados para conocer la cosmovisión del puebloasirio en su época de máximo esplendor. Su vinculación a la divinidad, en especialel dios Assur, que no sólo dicta sus acciones militares (epígrafe 27 Los dioses loordenan) sino que rige algo tan importante y vital como es la sucesión en el trono, locuál fue siempre fuente de conflictos, como el propio Contenau muestra con el casode Senaquerib y la sucesión de Asarhaddon.

El tercer capítulo, titulado EL PENSAMIENTO MESOPOTÁMICO, consta decincuenta y un epígrafes:

    1. ¿Qué opinaba el hombre de Babilonia?
    2. <<Doctrina del nombre>>.
    3. La voz. Los nombres de persona.
    4. El tono de los encantamientos.
    5. Poder de la escritura, del dibujo, de la estatuaria, de los cantos y de la danza.
    6. Necesidad de ocultar el verdadero nombre.
    7. Poder de los números.
    8. Juegos de palabras y de escritura.
    9. Los enigmas.
    10. El <<vestido de Marduk>>.
    11. BRG’YH rey de KTK.
    12. La simbólica asiria.
    13. La sabiduría5.
    14. La escritura. La educación del escriba.
    15. Evolución de la escritura.
    16. De la pictografía al silabismo.
    17. El desciframiento.
    18. La escritura criptográfica.
    19. La biblioteca de Assurbanipal.
    20. La literatura asiriobabilónica.
    21. La literatura religiosa. El poema de la creación.
    22. El diluvio.
    23. Los mitos de Zu y el dragón Labbu.
    24. El poema llamado de la caída.
    25. La leyenda de Ninurta.
    26. 5 En cursiva en el original.
    27. La exaltación de Ishtar.
    28. La realeza de los infiernos.
    1. La bajada de Isthar a los infiernos.
    2. La epopeya de Gilgamesh.
    3. Gilgamesh en el arte.
    4. Los mitos de Adapa y Etana.
    5. Narraciones morales. El <<Justo paciente>>. La sabiduría babilónica.
    6. Género lírico. Algunos himnos.
    7. Las fábulas.
    8. El género histórico.
    9. Estilo y valor histórico.
    10. Correspondencia particular. Correspondencia real.
    11. Las ciencias. Objeto de revelación.
    12. ¿Sociedades de misterios?40. Las matemáticas.
    13. Compilaciones de problemas.
    14. Geografía. Cartografía.
    15. El calendario. La astronomía.
    16. Tablas de estrellas fijas.
    17. Las Ciencias Naturales. Botánica. Zoología. Mineralogía.
    18. La Química.
    19. Convencionalismos artísticos.
    20. La estatuaria.
    21. El bajorrelieve.
    22. La perspectiva.
    23. Representación del galope.

Este tercer capítulo continúa la línea inaugurada por el anterior acerca de la cosmovisióndel hombre mesopotámico de los años 700 a 500. Partiendo de la que elautor denomina <<doctrina del nombre>>, con el ejemplo de BRG’YH rey de KTK(epígrafe 11), pasa a analizar el sistema de escritura, su aprendizaje y evolución,siempre teniéndola como un objeto de poder, casi de culto, regalo de los dioses.

Comenta posteriormente algunos de los textos más conocidos de bagaje mesopotámicoen sus versiones asiriobabilónicas (epígrafes 21 a 32) muy centrado siempreen el aspecto religioso, pasando de ahí a generalidades acerca de los distintos génerosliterarios y terminando con el arte representativo, en especial la escultura.

El cuarto y último capítulo se titula LA VIDA RELIGIOSA y está compuesto decuarenta y seis epígrafes:

  1. Documentación.
  2. Falta de unidad y contradicciones.
  3. Reforma de la primera dinastía babilónica.
  4. Religión naturalista primitiva y evolución.
  5. Lista de los dioses. Primera tríada: Anu, Enlil, Ea.
  6. Segunda tríada: Sin, Asmas, Ishtar.
  7. Inurta, Nusku, Nergal, Adad, Tammuz.
  8. Los demonios.
  9. Representación de la divinidad.
  10. Atributos y símbolos de los dioses.
  11. Números y astros de los dioses.
  12. Estatuas divinas.
  13. Intentos de sincretismo.
  14. El hombre <<hijo de su dios>>.
  15. Nacimiento de la mística.
  16. Valor moral de los dioses.
  17. Sus poderes. El Destino.
  18. El pecado. Su confesión.
  19. La duda.
  20. Los templos.
  21. El templo de Marduk en Babilonia.
  22. La torre escalonada.
  23. El clero. El rey sacerdote.
  24. Los adivinos. Los chantres.
  25. Los exorcistas.
  26. Clero inferior y personal de los templos.
  27. Robos y querellas en los santuarios.
  28. Los oficios.
  29. Las fiestas religiosas.
  30. La adivinación. Su justificación.
  31. Los dioses de la adivinación. Los sacerdotes.
  32. Diversos tipos de mántica. Los sueños.
  33. La hepatoscopia.
  34. La astrología.
  35. Presagios de nacimientos o de encuentros fortuitos.
  36. La magia. Las fuentes.
  37. Los dioses de la magia. Los sacerdotes y su técnica. El encantamiento.
  38. Posibilidades de la magia babilónica.
  39. La Medicina.
  40. Fase sacerdotal.
  41. Aparición del espíritu crítico.
  42. La fase prehipocrática.
  43. La muerte. El pueblo y los nobles. Los funerales. El Más allá.
  44. Los sarcófagos.
  45. El sustituto real.
  46. La condición de los muertos.

Este último capítulo podemos dividirlo en dos partes diferenciadas claramente.

La primera dedicada a la teología del pueblo mesopotámico, especialmente centradaen Babilonia, donde vemos la evolución desde la religión primitiva (naturalista) a lareligión más personalizada de época neobabilónica, pasando por las tríadas que hanconformado la base de su panteón, con múltiples contradicciones e intentos de sincretismoque den uniformidad al conjunto variopinto de divinidades que conformaban lareligión mesopotámica.

La segunda parte está dedicada a la práctica de la religión (epígrafe 20 y siguientes): exorcismo, encantamiento, magia, clero…

Especial atención merece el ámbitode la Medicina, con su evolución desde la magia a la física, con la aparición del espíritucrítico.

Termina el capítulo con un análisis somero de la muerte y su enfoque por parte delpueblo y de sus elites, así como del acto de los funerales y de la condición del Másallá, con un pequeño aporte, quizás algo desubicado, de la figura del sustituto realpara momentos nefastos.

La CONCLUSIÓN del libro, que ocupa apenas dos páginas, reincide en la tesisdel autor que impera en toda la obra acerca de las grandes similitudes existentes entrela forma de vida estudiada y la imperante en su actualidad (inicios de la segunda mitaddel siglo XX), así como en las diferencias notables dentro del ámbito del mundoespiritual, no sólo con nuestra época, sino también con sociedades contemporáneas al700-500 a.C. como la egipcia.

La BIBLIOGRAFÍA es característica del momento, con obras que van desde 1849hasta la más reciente de 1950. Las distintas obras van ordenadas por capítulos y dentrode éstos en bloques temáticos. En ellos tenemos autores tan relevantes como A. Layard,E. Cassin, L. Delaporte, R. Labat, A. Parrot, D. Luckenbill, J. Klima, y E. Ebeling.

La mayoría de las obras son de lengua francesa, siguiéndole en orden decrecientelas obras en lengua inglesa y alemana, destacando la total ausencia de obras en castellanoo incluso de autores de habla hispana.

Respecto a las REFERENCIAS, hay que destacar que la fórmula utilizada deagruparlas todas, debidamente ordenadas, en la parte final del libro, no favorece elritmo de lectura, siendo sustancialmente más incómodo este sistema que el de notas166al pie de página, que formalmente facilitan su accesibilidad y la propia comprensiónglobal del libro. No son estas referencias notas aclaratorias, sino citas bibliográficasen su totalidad.

Desarrollo de la obra

La obra de Georges Contenau posee un valor añadido, el de servir de bisagra entrelos modos decimonónicos y de principios del s. XX de hacer Historia y los usoscaracterísticos de la segunda mitad de ese siglo, más en línea con el pensamiento y elmétodo científico modernoSu obra La vida cotidiana en Babilonia y Asiria está plagada de claros ejemplosde ambos sistemas. Si bien para el lector actual las muestras del uso del método científicono llaman la atención por ser las imperantes en casi cualquier estudio histórico,los rasgos de esa forma de hacer la Historia tan característica de finales del s. XIX yprincipios del s. XX no dejan de resaltar en el conjunto de la obra.

El uso del lenguaje literario y sus recursos propios, en especial a la hora de introducirtemas, es quizás el primero de estos aspectos que llaman la atención. Epítetostales como «noble animal», «guerra desgraciada», «inauditas dificultades», «quejumbrosochirriar» o «saludable temor» son frecuentes a lo largo de toda la obra, asícomo el uso continuo de la primera persona del singular en sus afirmaciones interpretativas.

En todo momento se percibe cierta admiración por la historiografía del siglo XIX,aventurera, literaria y romántica. La narración de Contenau es muy descriptiva, conuna fuerte impronta de un destacado conocimiento del terreno de primera mano, condivertidas anécdotas que acercan su lectura al público general.

Una de las características que acompañan al historiador decimonónico es su carácteraventurero, viajero, que participa de la vida social de los pueblos que habitanel territorio estudiado y se sirve de este conocimiento para profundizar en su estudiohistórico. Este fenómeno devino en la etnología comparada actual y sin duda es unode los principales pilares en los que se basan las teorías de Contenau, tal y como manifiestade forma explícita en la breve Conclusión de la obra.

En referencia a esto, y a modo de una brevísima y no especificada historia de lainvestigación, Contenau nos narra, con su estilo literario y casi novelesco, con continuasreferencias casi anecdóticas, las excavaciones que tuvieron lugar en el palaciode Sargón II, en Korsabad. Resulta éste un relato de aventuras, casi heroico, donde senarran los conflictos existentes entre las misiones francesa y británica.

Huelga decir que Contenau deja entrever de manera clara su opinión sobre estosconflictos, con la tendencia propia de su nacionalidad. Los británicos, en especialRassam, habían «privado a Francia de un tesoro inestimable, pues, en vista de los re167sultados obtenidos en la zona inglesa, los arqueólogos franceses no hubieran dejadode excavar en su concesión»6. Ese tesoro inestimable es el botín de las excavacionesen Mosul. Para él el conflicto es una especie de competición entre el Louvre y el MuseoBritánico. No cabe plantearse siquiera los derechos de los iraquíes sobre los materialesencontrados. Prueba de esta actitud es la manifestación de su preocupaciónpor la falta de espacio en el Museo del Louvre: «Las copias fueron a parar al Museode las Colonias, con lo que se demostró una vez más que el Louvre ya no puede contenerla totalidad de sus colecciones»7.

La tendencia patriótica es más perceptible que nunca en este epígrafe (tercero delsegundo capítulo), como se puede apreciar a modo de ejemplo en la descripción dela nacionalidad de Botta: «nacido en Milán, cuando esta ciudad formaba parte delImperio»8.

La emisión de juicios de valor a lo largo de todo el desarrollo de la obra no essiempre tan velada. En ocasiones son directas y claras alusiones o declaraciones.

Probablemente el mejor ejemplo lo tenemos cuando habla de la esclavitud: «prácticadegradante, a la que se vuelve con gran facilidad cuando se subordinan los derechosdel individuo al Estado»9. También se puede percibir de forma clara cuando hablandodel concepto de responsabilidad en el ámbito del comercio establece el siguienteparalelismo con la actualidad: «Las compañías de navegación y ferrocarril actualespretenden en todo momento escamotear sus responsabilidades con el usuario»10.

Los paralelismos son una constante a lo largo de toda la obra. No sólo con elpresente, como se acaba de ver y se detalla más adelante, sino también con diversosperiodos históricos, como la Edad Media europea, e incluso con regiones tandistantes como Méjico para explicar procesos de riego, preparación de alimentos,cultivos, extracción de bebidas, etc. Pero sin duda el paralelismo más frecuente es eldel Egipto faraónico. Se aprecia en él cierta dosis de difusionismo, lo cual encaja conel chovinismo francés al que se hacía referencia anteriormente. Llega a comparar elcarácter de los egipcios (jovialidad natural) con el de los mesopotámicos (no sabenreír11). Las afirmaciones acerca del carácter de un pueblo concreto son frecuentes a lolargo de toda la obra.

Respecto a los paralelismos del presente, los hay generales, en base a un estudioetnográfico comparado, con los usos y costumbres del Próximo Oriente actual, comoes el caso de la habitación, la estructura de la casa tradicional o incluso de la alimentación. Los hay, por otro lado, mucho más concretos y dispares, como los que realizaentre ciertas tradiciones de la corte asiria y la del sultán de Marruecos en base al usodel parasol o incluso con la corte pontificia, con el mosquero o flabellum12.

Dado el frecuente uso de estas comparaciones con el presente, a veces el lectorpuede llegar a confundirse con la descripción de un motivo, al no quedar especificadosi pertenece al pasado, al presente o a ambos periodos.

No todos los paralelismos son externos. También los hay internos, en base a diferentesperiodos históricos. A veces se basa en costumbres documentadas en épocasanteriores, tan lejanas como Ur III o el reinado de Hamurabi, para sacar conclusionesacerca del periodo estudiado (750-500 a.C.). Las referencias al Código de Hamurabison constantes y recurrentes. Conviene destacar aquí una contradicción menor, perono por ello menos real. Si en la introducción afirmaba centrar su estudio entre losaños 700 y 500 antes de nuestra era, en el desarrollo del libro amplía este periodo conlos cincuenta años anteriores, es decir, a partir del 750 a.C.

Quizás el cenit del uso de los paralelismos sea la comparación que el autor hacede la filosofía intrínseca de los mesopotámicos, muy en especial de los babilónicos.

Es contrastada con la egipcia, la platónica e incluso con la occidental (como es elcaso de Schopenhauer). Un claro ejemplo de esto lo tenemos en el análisis que hacede la doctrina del nombre en los diferentes periodos anteriormente citados13.

La visión eurocentrista de base occidental también se ve manifestada en repetidasocasiones con las continuas referencias a las excavaciones francesas en Mesopotamia.

Considera en esa línea de pensamiento que la evolución de las ideas y de lasformas es más lenta en Oriente que en Occidente, lo cuál justifica con el «lento»progreso que se aprecia en Mesopotamia en los aspectos formales. Se aprecia entrelíneas cierta euforia triunfalista por los avances de la técnica occidental (transporte,irrigación, construcción) aunque sin menoscabo de los usos tradicionales.

Una de las principales preocupaciones del autor, es el de acceder a un uso históricode la rica tradición mitológica de los pueblos del Próximo Oriente, con especial atencióna los mitos mesopotámicos y egipcios. Se percibe en varias ocasiones su interéspor racionalizar, dando un sentido lógico y pragmático, los mitos y leyendas, como esel caso del unicornio, cuando hablando de la perspectiva escultórica en el galope delcaballo sostiene: «Cuando se trata de un cornúpeto visto de perfil, se imagina dichoperfil de modo tan riguroso que un cuerno oculta al otro, lo que puede haber dadoorigen al mito del unicornio»14.

Estos esfuerzos se suelen basar en análisis comparados de datos históricos conlos mitológicos, y si bien sus conclusiones no son siempre acertadas, como nos handemostrado las investigaciones posteriores, nunca llega a los extremos interpretativosde otros autores, como es el caso de R. Graves con la mitología griega15.

Una de las más destacada características del estilo histórico de Georges Contenauconsiste en valorar el carácter del conjunto de un pueblo de una forma un tanto generalistay quizás simplista. Junto a la comparación anteriormente detallada acerca delos caracteres de los mesopotámicos frente a los egipcios, insiste en este aspecto aldecir que «El mesopotámico es poco sensible a las bellezas de la naturaleza»16.

En otras ocasiones lleva esta cuestión más allá, diferenciando entre el refinamientobabilónico y los espartanos y rudos asirios. En realidad esto es un estudio de dosmotivos diferentes por oposición mutua. Justifica esta diferenciación en base a diversosfactores: el sustrato de población previo (sumerios), elementos exógenos (indoeuropeosy asiánidas) y la diferencia de clima, menos riguroso en el sur mesopotámico,aunque también caluroso y regular, aspecto al que da gran importancia.

Para Contenau, los sumerios son el elemento civilizador de la región. Los semitas(asirios y babilonios) se desplazaron desde el oeste de la alta Siria y adaptaron losingenios sumerios a su mentalidad, quedando manifiesta en todo momento su admiraciónpor sus predecesores. Cuando la Historia propiamente comienza en Mesopotamia,dice Contenau, los sumerios y semitas estaban ya muy mezclados.

El uso de las fuentesEl conocimiento directo de las fuentes es condición previa e ineludible para cualquierestudio histórico. Su número, así como la calidad de la información por ellasaportadas debe ser motivo de análisis. En La vida cotidiana en Babilonia y Asiria deGeorges Contenau no encontramos ningún capítulo o epígrafe completo dedicado acomentar las fuentes utilizadas por el autor. Ciertamente en la introducción encontramosuna sencilla enumeración de las éstas: las tablillas de Assur y Babilonia, enespecial Anales, rituales, himnos, correspondencia oficial y privada, la biblioteca deAssurbanipal en Nínive y los monumentos y descubrimientos arqueológicos (conespecial énfasis en Korsabad, Nínive, Assur y Babilonia). A esto suma la informaciónaportada por los historiadores griegos, con atención especial a Estrabón y sobre todoa Herodoto.

Junto a estas fuentes por él enumeradas, hay que añadir el uso que hace de la Biblia.

Se percibe cierto esfuerzo por acomodar los hallazgos arqueológicos modernos con el texto bíblico: «Cuenta la Biblia que Hazael, rey de Damasco (segunda mitaddel siglo IX), tuvo que abandonar en una de sus batallas contra el rey de Asiria, unalitera de gala adornada de marfil. Se trata, sin duda, de los ejemplares hallados enArslan-Tash, la antigua Hadatu, en la alta Siria, en un palacio asirio»17.

Encontramos también una referencia bíblica al Éxodo, situándolo cronológicamenteen el Imperio Nuevo Egipcio, tras la expulsión de los hicsos, bajo el reinadodel faraón Ramsés.

Para la reconstrucción de aspectos primordiales de la vida cotidiana, en especialen el Capítulo segundo EL REY Y EL ESTADO, con los usos y costumbres de la corteasiria, se basa principalmente en los relieves palaciegos. Un caso paradigmático eneste aspecto es el del mobiliario real. Para su descripción usa un relieve de época deAssurbanipal citándolo en la referencia correspondiente, pero dado el detallado análisisque hace de su descripción, se echa en falta la reproducción del relieve, de modoque el lector pueda seguir de forma asequible el texto, tal y como hace con otrasrepresentaciones que no son analizadas con tanto detalle, pero sí que son ilustradas amodo de ejemplo general.

Para los usos y costumbres propios de la vida cotidiana en Mesopotamia, Contenaurecurre sobre todo a las fuentes neobabilónicas, incluso al Código de Hamurabi.

Por el contrario, para el estudio de la vida en la corte y de la realeza, se centra demodo casi exclusivo en Asiria, muy en especial en Sargón II y en su bisnieto Assurbanipal.

La Arqueología es estimada en todo momento por el autor. Prueba de ello lo tenemosen la descripción que hace de los hallazgos de las excavaciones del ya mencionadoBotta en el palacio de Sargón II y de la posterior misión norteamericana de1929.

Siguiendo su técnica de explicar generalidades partiendo de la descripción decasos particulares, así como su estilo literario, con frecuentes anécdotas, nos narracomo en la excavación de este palacio se encontró un conjunto de edificaciones contres patios con sus respectivos edificios y dentro de cada uno de ellos una entrada,una sala y una alcoba.

Contenau nos cuenta que al principio se creyó que era el harén para las «tres reinasprincipales18» dado que esto podía ser verosímil en base a la ley musulmana19, sintener en cuenta lo disparatado de esta idea por ser tan diacrónica. Con posterioridad,en base a estudios más recientes, se llegó a la conclusión de que se trataba de capillasanexas al palacio real.

Pese a estos «desajustes», Contenau sostiene que la asiriología nació con Botta, em 1842, con las excavaciones llevadas a cabo en el palacio de Sargon II en Korsabad.

El principal corpus de fuentes utilizadas en esta obra es sin duda el de las fuentesescritas. Son estas las que permiten una datación cronológica más o menos exacta,como son las listas de epónimos (limu) y la Historia Sincrónica. Es gracias a descubrimientosde este tipo que podemos obtener una cronología absoluta que nos ofrezcaun adecuado marco para el estudio del periodo, como es el caso del reciente (para elautor) descubrimiento de la contemporaneidad de Hamurabi de Babilonia y Samsi-Adad de Asiria.

Estos descubrimientos deben ir siempre acompañados de un estudio crítico, quesirva para obtener datos verificados y consecuentemente verídicos.

Es probablemente en el tercer capítulo, titulado EL PENSAMIENTO MESOPOTÁMICO, donde el uso de las fuentes escritas deja patente con mayor claridad suutilidad. Del epígrafe 14 al 20 nos habla de la destacada importancia de la escrituraen las sociedades mesopotámicas, con especial atención a los escribas, garantes deesta arcana sabiduría.

Del epígrafe 21 al 37 Contenau nos ofrece un estudio de los principales textosreligiosos de la literatura de la época. El propio poema de la Creación Enuma elish20encontrado en la biblioteca de Assurbanipal, constituye la base de la religión neobabilónica.

Más allá de su interés literario, esto ofrece al estudioso una ventaja añadida parael estudio de la vida cotidiana, ya que, como sostiene el autor, el mesopotámico sefiguraba a los dioses a su imagen y semejanza, por lo que el estudio de las relacionesentre ellos puede ofrecernos ciertas claves para comprender las relaciones existentesentre los miembros de la sociedad humana, muy en especial para el estudio de lasrelaciones familiares.

Esto último se puede percibir con mayor claridad en la época más tardía del periodoestudiado, con la aparición del fenómeno que Contenau denomina Hijo de midios. La relación mostrada entre el fiel y la divinidad asume situaciones sociales yfamiliares existentes con gran frecuencia en el mundo familiar, como es la adopción,el repudio y la propia nomenclatura de atributos paternofiliales que se establece entreel hombre y el dios.

El trabajo con las fuentes escritas en las tablillas no está exento de problemas. Elpropio autor se queja del grado de desconocimiento existente aún sobre los idiomas queusaban la escritura cuneiforme, en especial del sumerio. Aunque contrastando con esto,él mismo usa traducciones propias del acadio para ciertos términos, pero no adjunta eloriginal ni su transcripción, lo cual fomentaría el aprendizaje del lector interesado.

En ocasiones encontramos terminología acadia cuyo uso ha sido sustituido porotras formulaciones más acordes con el estado actual de los conocimientos filológicosdel mundo mesopotámico, como es el caso de tartan para el actual turtanu (generalen jefe), o incluso discordancias con la nomenclatura actual, como cuando serefiere al rey asirio Tiglaht-Pileser como Teglat-Falasar.

Esta terminología no por ser antigua es menos correcta en ocasiones. El uso de laforma Teglat-Falasar es reivindicado actualmente por varios estudiosos de la lenguaacadia como el más correcto por su mayor similitud con el original, aunque en términosgenerales la otra nomenclatura está más extendida.

El último de los pilares sobre el que se asienta La vida cotidiana en Babilonia yAsiria con respecto a las fuentes utilizadas lo conforman los historiadores – viajerosgriegos. Estas fuentes exógenas se centran casi exclusivamente en Estrabón y Herodoto,con notable preponderancia de este último.

En ocasiones el propio Contenau aporta datos de autores griegos dándolos prácticamentepor ciertos, sin proceder a contrastarlos ni a acompañarlos de aparato crítico.

Podemos ver un ejemplo de esto cuando hablando de los caballos medos en época persa,hace referencia a un dato indicado por Herodoto: «El sátrapa de Babilonia, que gobernabala región más rica del Imperio, poseía un acaballadero con más de ochocientossementales y dieciséis mil yeguas; así lo afirma el mismo historiador (refiriéndosea Herodoto)»21. Evidentemente es éste un dato anecdótico difícilmente contrastablecon fuentes más verificables, pero el autor adolece aquí de una apostilla crítica.

Pero este fenómeno no es siempre el ofrecido por Contenau. En otras ocasionesvemos como dedica amplios esfuerzos a contrastar los datos de los historiadores– viajeros griegos con los aportados por las otras fuentes, en especial la Arqueología.

Claro de ejemplo de esto es la comparación que realiza entre los datos de los autoresgriegos, Herodoto y Ctesias en este caso, y los aportados por la arqueología sobrelas murallas de Babilonia. Concluye con una frase reveladora de este espíritu crítico:«Conviene, pues, acoger con circunspección todas las cifras que las excavaciones nohayan verificado»22.

El motivo de la família

Para poder comprender el conjunto de la obra La vida cotidiana en Babilonia yAsiria de Georges Contenau, siguiendo la pauta por él mismo establecida a lo largode todo el libro, conviene quizás analizar un motivo concreto para de ese modo verreflejado los aspectos generales antes mencionado en un tema delimitado claramente.

Para ello centraremos nuestro análisis en el motivo de La familia mesopotámica. Eséste un motivo de carácter primordial para entender el conjunto de la vida cotidianade una sociedad, ya que es el primer y principal ambiente donde se desarrolla en sudía a día, sujeto a unas leyes y normas sociales que sirven de guía a su evolución.

Su estudio y la comparación con el tratamiento que otros autores hacen del mismomotivo nos servirán para demostrar gráficamente los variados estilos de cada uno delos autores y de las obras que componen nuestro trabajo.

Pese a existir enormes diferencias entre los distintos estratos sociales, capas socialeslas denomina Contenau, el autor considera que se pueden analizar aspectos comunessuficientes entre los favorecidos y los no favorecidos para un estudio generalaplicable a ambos grupos. Para la vida del rey se dedica un capítulo aparte en la obra,el segundo en este caso.

La familia, sostiene Contenau, se funda principalmente en el matrimonio, teóricamentemonógamo, aunque en todo momento se admiten las esclavas concubinas. Lamujer depende del padre o de los hermanos varones (mayores o menores indistintamente)para la decisión matrimonial.

Los esponsales son el paso previo al matrimonio mismo. En ellos el prometidoderrama perfume sobre la cabeza de la prometida, entregando regalos y provisiones aella y a la familia de ella, de manera que la muchacha pasa ahora a depender exclusivamentede su nueva familia, la del novio, pues Contenau define el matrimonio comola entrega (definitiva) de la mujer a su marido.

Los regalos son asunto clave para comprender el fenómeno del matrimonio desde elpunto de vista jurídico y por ende social. La ceremonia del matrimonio iba acompañadade un contrato matrimonial. Frente a esto, el autor defiende que una cohabitación de almenos dos años podía equivaler al contrato, al menos en el caso de las viudas.

Al contraer matrimonio tanto el hombre como la mujer aportan bienes. En caso deque la mujer pase a habitar en la casa del marido, aporta el shirku, dote que se une alajuar. Esta dote queda para los hijos, con garantías que el autor define como exclusivas.

Contenau enumera una mayor variedad de regalos y donaciones por parte del marido,con diferentes características y fines cada uno.

El dumaki lo entrega el marido en caso de que la mujer, tras el matrimonio, decidapermanecer en la casa paterna, por lo que se hace esta donación para el cuidado dela casa. Si el marido muere sin hijos ni hermanos, la viuda puede disponer de él a suantojo, pero en caso de no ser así, los hijos o hermanos pueden reivindicarlo si no hasido consumido, lo cuál deben probar mediante testigos o, de ser necesario, con juramentosu ordalías23.

El marido podía entregar en otro caso el nudunnu, donación que hace a la posibleviuda solidaria de las deudas del marido en caso de ser necesario.

Existen dos clases más de entregas. El tirhatu es la donación que el marido hacedurante los esponsales y que será propiedad de la mujer en todo momento, incluso encaso de repudio. El zubullu consiste en un regalo en víveres y provisiones que segúnContenau se consume probablemente durante las festividades de la propia boda, o ensu defecto un regalo en plomo, plata u oro.

El autor resume así la tipología de las donaciones, a modo de conclusión: «Enresumidas cuentas: la diferencia entre estas donaciones es que una es irrevocable (latirhatu), mientras que las otras pueden ser revocables (dumaki y nudunnu) a menosque hayan sido consumidas (zubullu)»24.

El destino de estos regalos varía en términos generales en caso de fallecimiento dealguno de los cónyuges. Si el marido muere la mujer deberá casarse con un parientepróximo del esposo (hermanos o primos). En caso de no hacerlo vuelve a la tutelapaterna y debe entregar los regalos excepto los bienes consumidos.

En caso de que sea la mujer la que fallece, si el novio no desea casarse con algunahermana, recobra los regalos que no sean consumibles (en especial alimentos).

La ceremonia del matrimonio entre individuos libres consistía, según Contenau,en la colocación por parte del novio de un velo en la novia delante de testigos y ladeclaración: «Ella es mi mujer».

La cuestión del velo tiene gran importancia para Georges Contenau. El velo en laley asiria es distintivo de la mujer libre. Está prohibido a siervas y cortesanas. Comonuestra de este hecho, expone que el título de esposa sólo se otorga a la primera mujera la que se impone el velo.

La concubina (esirtu) sólo puede llevar velo cuando acompaña a la mujer legítimafuera de la casa. Este derecho concedido ya a los babilónicos por el Código deHamurabi persistió durante la totalidad de la primera mitad del primer milenio antesde nuestra era. La concubina, siendo por definición esclava, permanece siempre ensituación inferior a la de la esposa, conservando las obligaciones de su clase, destacaContenau.

En La vida cotidiana en Babilonia y Asiria Contenau sostiene la teoría ya demostradade que la situación de la mujer en Mesopotamia, distando mucho ser igual a ladel hombre, no era tan negativa como en otras sociedades de raíz semítica, aunquesin atribuir este factor diferenciador al elemento sumerio heredado como hacen otrosautores25.

Bajo Sargónidas y Neobabilónicos, la mujer libre no era oficialmente objeto decompra, pero Contenau defiende que hay documentos que indican claramente que sepodía hacer de forma más o menos solapada. Si bien varios autores coinciden en estateoría, Contenau aventura la tesis sin citar realmente las fuentes. Únicamente pone unejemplo concreto de una dama que compra una mujer y toma posesión de ella con elfin de de casarla con su hijo26.

Quizás este punto refleje mejor que el resto una parte importante del estilo deGeorges Contenau: enunciar tesis o afirmaciones sin citar en muchas ocasiones lasfuentes específicas que le llevan a su conclusión, a la vez que la acompaña de unejemplo concreto, que sin concretar si es significativo o no en base a un adecuadoaparato crítico, sirve para reflejar la teoría o idea expuesta.

La situación de la mujer puede percibirse con claridad en el hecho de que puedeservir a modo de fianza de las deudas del padre. Si durante esto queda sin parientesmasculinos, el acreedor, sostiene Contenau, puede llegar a disponer de ella. Estasituación, para el autor, no mejora con el tiempo, ya que la ley asiria silencia partede los derechos que una mujer tenía como madre en época de Hamurabi. De hecho,en caso de viudez y de no existir hijos, la ley, con tácita reprobación, se desinteresatotalmente de la viuda: «Irá adonde quiera».

Del mismo modo vemos como en Mesopotamia, se da la tradición de «seguir elvientre de la madre», esto es, los hijos de un matrimonio entre una mujer libre y unesclavo son libres. Contradictoriamente, a poca distancia de esta afirmación encontramosotra en sentido totalmente opuesto: «Se nacía esclavo o se caía en la esclavitud;lo primero, si el padre lo era»27. Este tipo de contradicciones internas son escasas enla obra, aunque sin duda llaman la atención del lector y plantean interrogantes aclaratorios.

Para que un esclavo se casara con una mujer libre, su amo tenía que darle el consentimiento.

Como Contenau explica anteriormente, tanto ella como sus hijos permaneceránlibres. En el caso de que ella aporte una dote, ésta se invertirá en un negocioy cuando el esclavo muera, la viuda recuperará la cuantía de la dote y la mitad de losbeneficios, siendo propiedad la otra mitad del dueño del esclavo. Leyendo esta explicaciónpuede surgir la duda de si también sucede de esta forma en el caso de que elesclavo sea liberado, pero Contenau no hace ninguna referencia a ello.

La situación inicial de los hijos no dista tanto de la de la mujer, en rasgos generales.

Los derechos del padre son tan amplios que puede dejarlos también como fianzaa sus acreedores, del mismo modo que podía disponer de las hijas.

Contenau afirma que algunos documentos notariales consideran al padre dueño ypropietario del hijo. En esta afirmación podemos apreciar también el estilo característicodel autor, al no citar las fuentes concretas a las que se refiere y en las que basasu tesis, pero acompañándola de una comparación con el presente: «Estos términosnos muestran hasta qué punto la concepción mesopotámica del carácter paternal eradistinta de la nuestra»28.

El poder del padre era tal, que no sólo se podía vender a sí mismo como esclavo,sino a sus hijos y a su mujer también en caso de deuda. En teoría, nos dice Contenau,cuando se saldaba la deuda debían ser liberados, lo que no siempre ocurría realmente,por lo que la ley asiria procuraba impedir que los esclavos liberables no fueran retenidosindebidamente.

Las obligaciones de los hijos son varias. Contenau pone el ejemplo del caso defallecimiento intestado del progenitor. Los hijos deben mantener y ocuparse de la madreque permanecerá en la casa conyugal. En caso de existir hijos de un matrimonioanterior, los hijos del segundo matrimonio podrán remitirla a los primeros para queellos sean los que se ocupen de la mujer.

En la sociedad mesopotámica la concubina que daba un hijo a su dueño no variabasu condición, pero tras el fallecimiento del amo, tanto ella como su hijo eran liberados.

De hecho, cuando una esposa compra una esclava como sirvienta o concubina desu marido, si ésta le da hijos, deja de ser propiedad de la esposa.

El fenómeno de la adopción es otro aspecto fundamental de la familia en el queConteneau se centra en menos de una página, pero con un incesante aporte de datos,aunque de nuevo se echa en falta referencias a fuentes específicasExistan hijos o no, ya sea de la esposa como de la concubina, de la que Contenausostiene que puede formar parte de la familia, el matrimonio puede adoptar otros.

Éstos ostentarán los mismos derechos de herencia que el resto de hijos, pero nunca ensu detrimento.

El acto de la adopción se hace ante testigo. En él, el adoptado ofrece un regalo dediverso valor al padre como agradecimiento. Contenau expone en este caso que esteregalo dio a lugar a ciertos procedimientos para eludir la ley, sobre todo en ventas debienes que no se podían vender, sino únicamente transmitir por herencia, caso de feudosreales. De nuevo el autor aquí no nos da referencias de las fuentes específicas quedemuestran esta afirmación, pero añade un caso concreto de un mercader del sigloXV a.C. de la región de Kirkuk.

Los poderes del padre sobre los hijos llegaban también a los que lo eran por adopción.

Cuenta Contenau que el padre «puede, si quiere, invalidarla (la adopción) ydespachar al hijo adoptivo»29.

En la ley babilónica, vemos el caso contrario. Si un hijo renegaba de su padre o desu madre, éstos pueden mandar venderlo como esclavo, rasurándole la cabeza (unode los símbolos externos de los esclavos).

Según Contenau, la necesidad de abundante mano de obra por parte de la sociedady del Estado se tradujo en el considerable desarrollo de las familias numerosas, a lavez que favorece la extensión del fenómeno de la adopción. Para Contenau esto estáíntimamente ligado a la idea que vincula el poder rector del padre de familia con elpoder rector del jefe de la comunidad.

Junto a estos datos genéricos acerca de la estructura de la familia en Asiria y Babilonia,la obra está plagada de anécdotas sobre el modo de vida cotidiano, como es eldetalle de que las familias mesopotámicas se daban los buenos días besándose.

Conclusiones

El estudio de La vida cotidiana en Babilonia y Asiria de Georges Contenau nosofrece una amplia muestra de los últimos ejercicios de la tradición historiográfica característicade finales del siglo XIX e inicios del XX a la vez que se puede apreciar enella los primeros rasgos de la metodología científica actual. Es sin duda un ejemploparadigmático de la evolución de los estudios históricos hacía un mayor empirismo,pero acompañado de una formulación literaria que embellece el conjunto de la obracon un estilo más ameno y destinado no sólo al lector especializado en la materia,sino a todo aquel interesado en los aspectos más antropológicos y culturales de laHistoria en general y de la Historia del Próximo Oriente en particular.

Si bien la obra cuenta en el apéndice anteriormente mencionado con una ampliabibliografía, así como numerosas citas a algunas fuentes, o, más frecuentemente, acolecciones de fuentes, hemos podido comprobar a lo largo de nuestro análisis deltexto como éste adolece en múltiples ocasiones de referencias a las fuentes concretasque permiten a su autor establecer las conclusiones e interpretaciones que constantementeaparecen en el desarrollo de la obra.

Es característico del autor suplir esta carencia con ejemplos concretos que ilustransu tesis, pero éstos tampoco van remitidos a una fuente concreta en varias ocasiones.

Los ejemplos ofrecidos, generalmente basados en los textos recuperados en las tablillas,nos muestran situaciones específicas que responden, según el criterio del autor,a las afirmaciones anteriormente expuestas en la obra, aunque en algunos momentosestos ejemplos son adornados con ciertas dosis de fantasía, ya que a menudo las fuentesque el propio Contenau utiliza únicamente son registros contables o administrativos,que no permiten un desarrollo total de la historia que muestran.

Un ejemplo de esta situación son los epígrafes dedicado a los comerciantes deKul-tepé, en Capadocia (epígrafes 71 al 73 del primer capítulo), con especial aten178ción al comerciante Pushukin, así como los epígrafes 74 y 75 del mismo capítulodedicados a la firma Murashu en Nippur. Con estos dos ejemplos como punto departida, Contenau analiza el comercio en el Próximo Oriente.

El comercio y el móvil económico es un aspecto destacado en la obra de Contenau,aunque no tan fundamental como sugieren y defienden otros autores. Este hechole sirve para introducir otro aspecto característico de su obra, como son las reflexionespersonales sobre el devenir histórico e incluso el presente: «A primera vista pareceque los móviles de la historia han cambiado desde la Antigüedad; en realidadno han cambiado en absoluto y nos convencemos de ello cuando algún indicio nospermite entrever las razones de las grandes expediciones del pasado»30.

La continua emisión de extrapolaciones con el presente y de juicios de valor oreflexiones personales son una constante en la obra que si bien no aportan datos tangibles,si nos acercan a la mentalidad del autor que obviamente impregna toda la obray redunda en el carácter humanista que la Historia posee, o debe poseer, además de sucarácter puramente empírico.

Una conclusión que la obra nos proporciona es el interés que su autor demuestrapor constatar que es aún mucho el trabajo que queda por hacer. Además de lasreferencias a las ya referidas carencias filológicas del momento, plantea en variasocasiones cuestiones sin resolver todavía que, sin ser relevantes para la comprensiónde la temática de la obra, sirven para mostrar el amplio abanico de posibilidades yrespuestas que los estudios orientales pueden ofrecer aún.

No es ésta una manera de dejar temas abiertos formalmente. El planteamientode la problemática suele acompañarse las distintas interpretaciones que diferentesautores han ido dando como posible respuesta, lo cual no sólo incentiva el interés dellector, sino que tiene el valor añadido de insinuarle, aunque sea levemente, el nutridomundo de posibilidades interpretativas existente, siempre a debate.

Buen ejemplo de esto son las diferentes interpretaciones del bajorrelieve existenteen el Louvre donde vemos dos personajes entregados a la caza y de diferente altura;este detalle, sumado a otros que el propio Contenau enumera, ha provocado la controversiade si se debe a la existencia de una perspectiva artística o si es el resultadode una gradación social31.

Las conclusiones del propio autor expresadas en su correspondiente apartado nosmuestran sus sentimientos encontrados con respecto a los pueblos que habitaban laantigua Mesopotamia. Termina la obra de la siguiente manera: «La civilización mesopotámicaha sido una de las más brillantes de la Antigüedad y, sin embargo, ¡cuánpocos de entre nosotros hubieran querido vivir en Babilonia!»32.

Esta reflexión final de Georges Contenau se debe a que si bien constantementeiguala los aspectos más formales de la vida cotidiana de la antigua Mesopotamia conlos usos y costumbres del actual Próximo Oriente, en especial Irak, marca la diferenciaen el ámbito espiritual, la cosmovisión propia vinculada al ámbito religioso. Losdioses mesopotámicos son definidos por el autor como rudos, violentos, vengativos ygroseros, siempre prestos al castigo y fuente de inspiración constante de miedos entresus fieles. Estas divinidades, sumadas a los demonios y constantes presagios sembraríande temor y subyugarían la vida cotidiana de los mesopotámicos.

Reincidiremos por último en un aspecto determinante de la obra que se debe teneren cuenta para su uso. El autor recurre especialmente a las fuentes babilónicas parasu estudio de usos y costumbres, pero para el análisis de la vida de la realeza y la altanobleza se limita casi con exclusividad al ámbito asirio. Del mismo modo atribuye ala impronta asiria gran parte de los atributos usados por la realeza persa, herencia dela corte sargónida que los monarcas aqueménidas copiaron en abundanciaSi bien es obvio que las similitudes entre ambos pueblos son extremadamentenumerosas, conviene que el historiador moderno tenga en cuenta que sí existierondiferencias en determinados aspectos. La elección de unas fuentes u otras por partede la obra de Georges Contenau sin duda viene dada por su mayor o menor cantidaden uno u otro aspecto. Pero dado el amplio periodo de tiempo transcurrido desde queel autor escribió su obra hasta nuestros días, esa diferencia ha ido superándose conel abundante material aportado por las recientes excavaciones y sus consecuentesinvestigaciones.

La vida cotidiana en Babilonia y Asiria de Georges Contenau, con las posiblesdeficiencias que contenga, es pese a todo una obra de referencia obligada para los estudiosde vida cotidiana y mentalidades del Próximo Oriente. Es uno de los primerosesfuerzos coherentes de plasmar en un único texto los principales aspectos que contienela vida cotidiana de los pueblos de la antigua Mesopotamia.

La historiografía francesa ha demostrado ser guía para este tipo de estudios, comodemuestra la tradición mantenida por otros destacados autores como Jean Bottéro yGeorges Roux.

Estudios como éste de usos y costumbres están cada vez más en boga, demostrandoser imprescindibles para nuestra comprensión de los fenómenos históricos, másallá de la Historia plagada de batallas o de los grandes personajes que la forjaron nocon su sólo esfuerzo, sino conjuntamente con el total de los pueblos que protagonizaronla Historia de la Humanidad.

Notas

1 Para este estudio numeraremos los epígrafes para facilitar su manejo.

2 En cursiva en el original.

3 En cursiva en el original.

4 En cursiva en el original.

5 En cursiva en el original.

6 CONTENAU, G. La vida cotidiana en Babilonia y Asiria. Barcelona. 1951. Pag. 115.

7 CONTENAU, G. Ibidem. Pag. 122.

8 CONTENAU, G. Ibidem. Pag. 113.

9 CONTENAU, G. Ibidem. Pag. 30.

10 CONTENAU, G. Ibidem. Pag. 89.

11 Ambas afirmaciones se pueden encontrar en la conclusión de la obra, pag. 296.

12 CONTENAU, G. Ibidem. Pag. 136.

13 CONTENAU, G. Ibidem. Pag. 169.

14 CONTENAU, G. Ibidem. Pag. 239.

15 GRAVES, R. Los mitos griegos. Madrid. 1985.

16 CONTENAU, G. Ibidem. Pag. 237.

17 CONTENAU, G. Ibidem. Pag. 139.

18 CONTENAU, G. Ibidem. Pag. 117.

19 La ley musulmana sostiene que en caso de existir poligamia, las mujeres deben ser tratadas con

absoluta igualdad.

20 Cuando en lo alto… Frase que inicia el poema de la Creación.

21 CONTENAU, G. Ibidem. Pag. 64.

22 CONTENAU, G. Ibidem. Pag. 45.

23 Para un acercamiento al tema de las ordalías mesopotámicas nos remitimos al artículo de LAFONT, «El juicio del dios-río en Mesopotamia», Introducción al Antiguo Oriente. De Sumer a la Biblia. Paris. 1992. (Edición española de 1996, Barcelona).

24 CONTENAU, G. Ibidem. Pag. 22

25 BOTTÉRO, J. «Las libertades de las mujeres en Babilonia». Introducción al Antiguo Oriente. De Sumer a la Biblia. Paris. 1992. (Edición española de 1996, Barcelona).

26 CONTENAU, G. Ibidem. Pag. 21.

27 CONTENAU, G. Ibidem. Pag. 24.

28 CONTENAU, G. Ibidem. Pag. 22.

29 CONTENAU, G. Ibidem. Pag. 23.

30 CONTENAU, G. Ibidem. Pag. 93.

31 CONTENAU, G. Ibidem. Pag. 143.

32 CONTENAU, G. Ibidem. Pag. 296.

Ángel Luis González Torres – IPOA. Murcia.

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Señores de todo el mundo. Ideologías del Imperio en España,Inglaterra y Francia (en los siglos XVI, XVII y XVIII) – PAGDEN (PR)

PAGDEN, A. Señores de todo el mundo. Ideologías del Imperio en España, Inglaterra y Francia (en los siglos XVI, XVII y XVIII). Barcelona: Ed. Península, 1997. 313p. (1ª edición). Traducción de M. Dolors Gallart Iglesias. Resenha de: MOLINA-NIÑIROLA, Francisco Javier Asturiano. Panta Rei – Revista de Ciencia Y Didáctica de la Historia, Murcia, 2ª época, p. 2007.

Autor 

El autor del libro que reseñamos es Anthony Pagden, historiador inglés formadoen Santiago de Chile, Londres, Barcelona y Oxford. Fue profesor adjunto de Historiaintelectual moderna de la Universidad de Cambridge y miembro del consejo dedirección del King’s College, y titular de la cátedra «Harry C. Black» de Historia dela Universidad Johns Hopkins, Baltimore (Estados Unidos). Ha colaborado regularmenteen The Times Literary Supplement, The New Republic y The New York Times. En la actualidad es profesor en la Universidad de California.

Pagden es autor de varios libros de historia de la teoría política y social del imperialismoeuropeo. Entre sus obras destacan European Encounters with the New World:From Renaissance to Romanticism; La caída del hombre natural; El Imperialismoespañol y la imaginación política; y entre sus obras más recientes Civil SocietyHistory and Possibilities (2001), Peoples and Empires (2001), La Ilustración y susenemigos (2002); y, como editor, The Idea of Europe from Antiquity to the EuropeanUnion (2002).

Estructura de la obra

Se trata de un extenso libro de 313 páginas de denso pero riguroso contenido histórico. Tras una extensa Introducción en la que el autor enmarca y centra su obra y nos avanza algunos de los grandes temas que va a tratar, y que casi por sí sola podríaconstituir un capítulo aparte, Pagden articula el desarrollo del libro en 7 capítulos dediferente longitud. Se extiende sobre todo en los capítulos 2 («Monarchia universalis»), 3 (Conquista y colonización) y 4 (Expansión y conservación), mientras que losrestantes son bastante más reducidos.

El libro se enriquece con una extensa Bibliografía (19 páginas) y un enorme aparatocrítico (nada menos que 32 páginas de Notas al final del libro), además de undetallado Índice onomástico y un Sumario.

Comentario

En esta obra, que parece ser la primera en comparar teorías del imperio en elmundo moderno, Anthony Pagden realiza un minucioso trabajo sobre colonialismoe imperialismo, en la línea habitual de su campo de estudio, con un profundo y detalladoanálisis de las ideologías que inspiraron tres de los grandes imperios de Europa occidental.

Aunque el subtítulo del volumen nos indica que el período temporal estudiadoson los siglos XVI, XVII y XVIII, el autor nos hace un verdadero recorrido porel pensamiento político de la Antigüedad Clásica y además se adentra en el sigloXIX, llegando hasta la emancipación de Hispanoamérica. Así pues, el estudio dePagden se centra temporalmente entre los siglos XVI y XIX y se limita solamentea tres de los imperios europeos (España, Inglaterra y Francia), y únicamente en suproyección americana. Aunque aparecen citadas otras potencias imperiales europeas(en especial Holanda y Portugal), sólo se hace brevemente y en relación conlas otras tres.

Pagden señala que el mundo moderno se ha configurado a partir de los cambiosiniciados con la creación y caída de los modernos imperios coloniales. Para él, elcolonialismo que comienza con la expansión europea de finales del s. XV dio lugara migraciones masivas, ocasionó la destrucción de pueblos enteros, generó nuevasnaciones y en su fase final creó nuevos Estados y nuevas formas políticas, además decrear las modernas rutas comerciales y vías de comunicación.

El autor explica que los imperios europeos tienen dos historias distintas, pero interdependientes. El libro se centra en la primera de estas fases, que empezaría conel descubrimiento y colonización de América por los europeos, que comienza conel primer viaje de Colón (1492) y termina hacia 1830 con la derrota de los ejércitosrealistas en Sudamérica. La otra fase, de la que el libro apenas trata, es posterior yempieza con la ocupación de Asia, África y la zona del Pacífico hacia 1730, pero queno toma fuerza hasta finales del s. XVIII, cuando empieza el declive de la hegemoníaeuropea en América.

El mismo autor nos explica que ha realizado un estudio eurocéntrico, un intentode comprender qué pensaban los europeos de los imperios que habían creado y delas consecuencias a las que tuvieron que hacer frente. También intenta ilustrar laevolución que experimentó este pensamiento, y mostrar que en torno a las primerasdécadas del s. XIX se habían forjado unas pautas de expectación que determinaríanen gran medida las relaciones posteriores que mantendría Europa con casi todo elresto del mundo.

A lo largo del libro, el autor analiza los argumentos de diversos ideólogos, teóricosy pensadores de diferentes países (ya que no sólo aparecen autores españoles,ingleses y franceses, aunque lógicamente sean los más abundantes) en relación conlos tres grandes imperios objeto de estudio. El método que para ello utiliza es el de lacomparación, un método no usual, aunque el autor ya tiene en cuenta que los distintos aspectos tratados no tuvieron la misma importancia ni recibieron igual atenciónde modo simultáneo en los tres imperios.

Anthony Pagden describe el curioso proceso ideológico que tuvo lugar durantetoda la Edad Moderna en relación con los imperios que se fueron creando. Un procesoque comenzó con la apología de la evangelización y la conquista del siglo XVI,dio paso a la crítica y descrédito de la misma idea de imperio ante los problemas ydificultades que iban surgiendo, y finalizó con el nacimiento de un nuevo ideal decosmopolitismo en la época de la Ilustración, pasándose de esta forma a la idea desustituir a los imperios por federaciones de estados libres, independientes e iguales.

Al mismo tiempo, y paralelamente al estudio ideológico, estamos asistiendo aldesarrollo de la evolución política de los imperios coloniales americanos, desde sucreación en el siglo XVI hasta su crisis y desaparición por los procesos emancipadoresque comenzaron a finales del siglo XVIII.

El autor va señalando a lo largo de los capítulos la importancia de aspectos quefueron motivo de amplias discusiones ideológicas como la conquista y colonización; lamisma creación, evolución y significado de los imperios; el papel de los metales preciososy sus consecuencias; la emigración, la agricultura, el comercio, la esclavitud, eldebate entre expansión y conservación, la relación entre la metrópoli y las colonias…CríticaSe cumplen ahora 10 años de la publicación en castellano de esta obra. Podemosdecir que nos encontramos con un libro verdaderamente moderno y original, ya quese trata del primero que analiza comparativa y paralelamente las teorías e ideologíasdel imperio en tres países (España, Inglaterra y Francia) de modo simultáneo a lolargo de toda la Edad Moderna, teniendo en cuenta además los precedentes y las consecuenciasposteriores.

184Para ello el autor ha realizado una enorme labor de documentación, consultandonumerosas fuentes históricas de muy diversa temática y procedencia, desde la AntigüedadClásica hasta las fuentes historiográficas actuales. Por ello la labor de recopilacióny organización del material bibliográfico nos parece digna de mención, configurandoasí una obra erudita y muy completa, aunque no exenta de complejidad.

Se trata, pues, de un trabajo de historia intelectual en su más amplio sentido: profundo,original, intenso, sólidamente argumentado e intelectualmente estimulante, dealto nivel científico.

Sin embargo, al mismo tiempo se podría comentar que en algunos momentos dela lectura es difícil distinguir las opiniones personales y conclusiones a las que vallegando el historiador de las desarrolladas por los escritores o pensadores históricoscitados en el texto, ya que ambas van apareciendo entremezcladas en el discurso y enmuchas ocasiones no queda muy clara la separación entre ellas. Y debido al lenguajey tecnicismos utilizados en ciertos momentos, algunos pasajes pueden parecer dedifícil comprensión.

La enorme cantidad de Notas que aparecen en cada capítulo, y que Pagden hapreferido colocar todas juntas al final del libro en vez de colocarlas a pie de página, esquizás un aspecto que también podría destacarse. Si por una parte la proliferación denotas enriquece el libro aportando muchos más datos complementarios (algunas notasen sí mismas son bastante extensas), por otra parte puede hacer más compleja (ylenta) su lectura y restarle al libro agilidad. Si el lector opta por ir consultando a cadamomento las notas que van apareciendo a lo largo de la lectura, ésta puede hacerse untanto ardua.

Anthony Pagden ya nos señala en el Prefacio que su libro es una versión muyampliada y revisada a partir del núcleo inicial del curso semestral que impartió en lacátedra Carlyle de la Universidad de Oxford, en 1993. Esto ya puede ser indicativode que el historiador ha realizado un estudio de alto nivel intelectual y científico, ypara enfrentarse a él el lector debe estar previamente preparado y formado, porqueaparecen numerosos datos, conceptos y personajes históricos que deben conocersey enmarcarse en su contexto histórico y en su corriente de pensamiento, o de otramanera el lector corre el riesgo de extraviarse o no sacar el máximo provecho de sulectura.

Por ejemplo, como una muestra de la erudición de la que Pagden hace gala, en ellibro aparecen varias citas en la lengua original del escritor que se menciona (latín,inglés, francés), y también muchas obras, conceptos o palabras en su idioma original(en latín, griego, inglés, francés, alemán o italiano), lo que presupone una buenapreparación intelectual y lingüística por parte del lector. Algunas veces aparece sutraducción al castellano, pero otras no. Esta misma preparación cultural previa podríaser necesaria también ante el uso de una terminología jurídica en la discusión de cier185tos asuntos, con conceptos de derecho romano, derecho civil y derecho natural porejemplo; e incluso cuando el autor realiza un profundo estudio lingüístico sobre elorigen y significado de algunos términos importantes como imperio, monarquía, etc.

Se podría criticar la aparición de algunas aseveraciones discutibles, como la alusiónal «azar» en el caso del imperio español (un concepto abstracto y relativo quemerecería quizá un mayor debate histórico, tanto fuera como dentro del libro); o lacrítica a la democracia que aparece al final del libro. Y en general hay una escasa alusiónal papel de la religión y a las Iglesias cristianas europeas, ya que no sólo el papelde la Iglesia católica en América no aparece muy desarrollado (aunque por supuestosí hay alusiones al Papado y a las bulas de donación), sino que apenas se menciona elpapel del protestantismo y de las diversas iglesias protestantes.

Es interesante la utilización que hace Pagden en este libro del Método comparativo,señalando que desde Raynal los historiadores han permanecido indiferentes antelas posibilidades que ofrecía la comparación. Es quizás esto lo que hace de esta obraun verdadero libro moderno y original, que pudiera abrir el camino a otros estudiossimilares.

En definitiva, con este libro creemos que Anthony Pagden hace una interesanteaportación a los estudios coloniales e imperialistas, enfocado desde el punto de vistade cómo el pensamiento europeo afectó a las relaciones entre los pueblos y los Estadosde Europa; un pensamiento cuyo impacto no sólo influyó en el desarrollo de esosmismos imperios, sino que tiene aún profundos efectos en las relaciones internacionalesde la actualidad.

Francisco Javier Asturiano Molina-Niñirola

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Avaliação de Aprendizagem em Educação Online | Marco Silva e Edmeia Santos

Leitura obrigatória para quem investe na educação de qualidade, Avaliação de Aprendizagem em Educação Online (Edições Loyola), organizado pelos professores doutores Marco Silva e Edméa Santos – duas referências no assunto – reúne artigos de professores e pesquisadores reconhecidos internacionalmente. A obra é dedicada a todos os engajados e a todas as engajadas em educação online que ousam reinventar a avaliação da aprendizagem em sintonia com a cibercultura e com a educação cidadã. Os 35 artigos, publicados nas mais de 500 páginas, trazem fundamentação teórica consistente e deixam claro que a avaliação da aprendizagem na sala de aula online requer rupturas com o modelo tradicional de avaliação historicamente cristalizado na sala de aula presencial.

Sugestões de encaminhamentos teóricos e práticos para avaliação de aprendizagem em ambiente online, que nasceram da pesquisa e da inquietação provocada pelo tema, são apresentadas no livro. A primeira parte, Intitulada “Fundamentos”, reúne os textos que sistematizam os desafios epistemológicos e os novos paradigmas para o tratamento da avaliação em cursos online. Na segunda parte, “Interfaces e dispositivos”, encontram-se as articulações de diferentes meios intelectuais e materiais para o tratamento do objeto de estudo e pesquisa – Avaliação da aprendizagem em educação online. Para finalizar, com a certeza de que não existem respostas prontas, a terceira parte, intitulada “Relatos de experiência”, descreve iniciativas pessoais e institucionais de docência e avaliação de aprendizagem em cursos livres de curta duração, graduação, pós-graduação e educação corporativa. Leia Mais

Pancho Villa – una biografía narrativa | Paco Ignacio Taibo II

O México se prepara para comemorar o centenário de sua Revolução, considerada por vários historiadores daquele país não apenas um evento nacional, mas de alcance latinoamericano. Alguns líderes do processo revolucionário, como Emiliano Zapata e Venustiano Carranza, se referiam em seus discursos e escritos à influência regional desta primeira revolução social da América Latina, no século XX.

A historiografia mexicana sempre dedicou um grande espaço à Revolução, mas a partir das décadas de 1960 e 1970 começam a surgir novas interpretações deste evento, assim como o resgate de alguns de seus personagens, até então marginalizados e tratados de forma preconceituosa. O livro do historiador Adolfo Gilly (La revolución interrumpida. México: El Caballito, 1971), por exemplo, mostra não apenas como o processo revolucionário é o resultado de um extraordinário avanço de um capitalismo primário-exportador que aprofundou a dependência do país em relação aos centros desenvolvidos, agudizando uma guerra de classes, mas também a periodização completa do ciclo revolucionário de 1910 a 1920 e sua correlação com a conjuntura mundial. Para Gilly, a curva da revolução ocorreu em dezembro de 1914, quando as forças camponesas tomam a capital do país, e não em fevereiro de 1917 com a nova constituição. Se para a história oficial a Revolução Mexicana termina em 1917, para outros ela vai até 1920, com a retirada de Villa e o assassinato de Zapata um ano antes. Leia Mais

Hippone Aix-en-Provence – DELESTRE (RHAA)

DELESTRE, Xavier (Ed.). Hippone Aix-en-Provence. [Sn]: Édisud, 2005. 471p. Resenha de: OLIVEIRA, Julio Cesar Magalhães de. Revista de História da Arte e Arqueologia, n.7, p.113-116, jan./jun., 2007.

Fruto de um trabalho coletivo de historiadores, arqueólogos e conservadores, esse livro é o primeiro resultado da recente cooperação científica e cultural franco-argelina para o estudo e a valorização do sítio arqueológico de Hipona (a antiga Hippo Regius, atual Annaba, na Argélia). Hipona é conhecida, sobretudo, por ter sido a cidade em que Santo Agostinho exerceu seu ministério como bispo, de 395 até sua morte em 430 d.C. Mas o sítio é também importante por se tratar de uma das principais cidades portuárias do Magreb antigo.

Fundada provavelmente pelos fenícios, Hipona tornou-se, desde o século II a.C., residência ocasional dos reis númidas, donde o epíteto de Regius associado ao seu nome púnico. Anexada à província romana da África Nova no final da República, a cidade foi promovida ao status de municipium já sob Augusto e de colônia romana honorária antes do final do século I d.C. Essa rápida promoção política refletia em grande medida a enorme importância econômica que a cidade conservaria durante todo o período romano como um dos principais portos exportadores das produções africanas.

Sede de um destacamento militar encarregado da guarda do litoral, residência de funcionários imperiais e de um dos legados do governador da província da Proconsular até o século V, Hipona tornar-se-ia, nos primeiros anos da conquista da África pelos Vândalos, a capital do novo reino até a tomada de Cartago em 439, conservando mesmo depois uma enorme importância estratégica para os conquistadores. A história de Hipona a partir da reconquista bizantina, em 533, é pouco conhecida, mas é certo que a cidade continuou sendo habitada por uma população, sem dúvida, reduzida. Após sua conquista pelos árabes, a cidade sobreviveu em seu sítio antigo pelo menos até o século XI, quando começou a ser abandonada em beneficio da aglomeração vizinha de Nova Bûna, que se tornaria a moderna Annaba.

A redescoberta do sítio antigo ocorreria apenas no século XIX, já sob a dominação francesa da Argélia, com as descobertas ocasionais de mosaicos e inscrições romanas. As primeiras escavações realmente importantes começaram em 1895, com o desenterramento das luxuosas casas do litoral. A maior parte dos trabalhos de escavação, porém, seria levada a cabo de 1947 a 1963 sob a direção de Erwan Marec, um oficial aposentado da marinha francesa. Os trabalhos arqueológicos desse período tiveram o mérito de trazer à luz os principais monumentos da cidade antiga e de salvaguardar o sítio em face do avanço progressivo do distrito industrial de Annaba. No entanto, o objetivo dos primeiros escavadores de expor a rede viária da cidade antiga e de desenterrar os monumentos públicos, as casas da elite e os edifícios cristãos contemporâneos de Santo Agostinho implicou necessariamente na perda de informações preciosas, uma vez que a estratigrafia foi completamente ignorada e os níveis mais tardios, simplesmente destruídos. Além disso, a tentativa de interpretar os vestígios materiais à luz dos princípios da arquitetura clássica definidos por Vitrúvio ou das informações contidas na documentação agostiniana sobre os edifícios cristãos levou freqüentemente a restaurações abusivas e a reconstituições equivocadas dos monumentos.

As primeiras sondagens estratigráficas em Hipona foram conduzidas apenas em 1963-1964 por Jean-Paul Morel, o que permitiu, sobretudo, uma datação segura do muro litorâneo (construído, sem dúvida, no século I a.C.) e das residências vizinhas.

A partir dos primeiros anos da independência da Argélia, porém, nenhuma pesquisa arqueológica realmente importante foi desenvolvida em Hipona. Na última década do século XX, a própria conservação do sítio viu-se prejudicada pelos anos de continuada guerra civil no país: abandonados, os monumentos de Hipona foram tomados pela água e pela vegetação.

Daí a importância da recente campanha de estudos arqueológicos patrocinada por autoridades francesas e argelinas e conduzida, de 2002 a 2005, pela equipe de Xavier Delestre, da Direção Regional dos Assuntos Culturais da Região da Provença, Alpes e Côte d’Azur.

Na expectativa de um trabalho mais aprofundado de escavações e prospecções arqueológicas, o presente projeto tem o grande mérito de promover uma releitura cuidadosa de muitos monumentos de Hipona e de lançar as bases para uma conservação perene de seus vestígios arqueológicos, hoje ameaçados.

O livro expõe os resultados preliminares desses estudos, mas é também muito mais que isso. Ao apresentar uma suma do conhecimento atualmente disponível sobre o sítio, ele se constitui numa obra de referência indispensável e no ponto de partida obrigatório para todo estudo futuro sobre Hipona. O livro está organizado em cinco partes, precedidas de uma introdução geral por Xavier Delestre e Marcel Tavé. A primeira parte apresenta um “Quadro histórico”, que resume a história da cidade a partir, sobretudo, das fontes textuais. Claude Lepelley discute a história social e política de Hipona nos períodos númida e romano.

Serge Lancel apresenta brevemente a carreira de Santo Agostinho em Hipona e trata dos mosteiros e igrejas da cidade, mencionados pelo bispo em seus textos, bem como das paróquias rurais de sua diocese. Sabah Ferdi estabelece uma relação interessante (embora deslocada em relação ao tema dos demais capítulos desta parte) entre um texto de Agostinho e um mosaico encontrado em uma das casas de Hipona. Jean-Pierre Laporte retoma em seguida a evolução geral da cidade, discutindo sua história política nos períodos vândalo e bizantino.

Saïd Dahmani trata das referências a Hipona nas fontes árabes e discute as condições de sua ocupação até o século XI. Abderrahman Khelifa conclui esta parte com uma discussão sobre a história política de Annaba durante a Idade Média.

A segunda parte, constituída de um único capítulo, redigido por Xavier Delestre, trata da história das pesquisas arqueológicas sobre o sítio de Hipona, do século XIX aos dias atuais. Na terceira parte, são reunidos capítulos sobre “Os monumentos públicos e a arquitetura privada”. Philippe Leveau discute o urbanismo de Hipona no contexto mais amplo da evolução geral das cidades africanas até o final do período romano. Frank Suméra faz uma excelente discussão sobre o esquema urbanístico de Hipona, a partir do levantamento topográfico efetuado pela recente campanha.

Xavier Delestre apresenta os materiais e as técnicas de construção empregados na cidade. Frank Suméra, novamente, expõe os resultados dos estudos recentes sobre o fórum, ao passo que Jean-Marc Mignon apresenta uma discussão mais específica sobre a colunata dessa praça. Bruno Bizot, David Lavergne e Jean-Marc Mignon discutem a planta e o estado atual do teatro. Xavier Delestre trata das características gerais do mercado, e Jean-Marc Mignon tece observações mais detalhadas sobre o pórtico desse edifício.

Nos dois capítulos seguintes, Xavier Delestre descreve o plano dos dois grandes edifícios termais revelados pelas escavações e discute brevemente o abastecimento hidráulico da cidade antiga, bem como os riscos representados pelas constantes infiltrações e inundações à conservação atual dos vestígios arqueológicos. David Lavergne apresenta uma discussão detalhada da evolução (entre os séculos III e V d.C.) de uma das luxuosas casas do litoral de Hipona, acompanhada de novas plantas elaboradas a partir das recentes observações.

Esse estudo é completado pela discussão de Michèle Blanchard-Lémée sobre os mosaicos das diversas fases de ocupação dessa propriedade. Xavier Delestre conclui esta parte com uma discussão sobre a conservação preventiva dos mosaicos de Hipona no próprio sítio.

A quarta parte reúne capítulos bastante diversos sobre “A arte e a vida quotidiana” em Hipona. François Baratte, tratando da escultura antiga, constata a raridade das obras descobertas durante as escavações, resultado da reutilização do mármore e dos metais durante a longa história da cidade após o período romano.

Xavier Delestre traça um quadro bastante impressionista da “vida quotidiana” em Hipona, onde os raros vestígios materiais do quotidiano da própria cidade servem mais de exemplos do que de base à discussão.

David Lavergne, numa brevíssima contribuição, apresenta um inventário dos marcos miliários presentes no museu de Hipona. Finalmente, Michel Bonifay tece considerações interessantes sobre a minúscula coleção de cerâmicas do museu, notando, mesmo nessa amostra reduzida, um padrão muito semelhante ao que é revelado pelas escavações em Cartago.

A quinta e última parte, intitulada “Os homens, os deuses, a morte”, trata da epigrafia, das sepulturas, dos vestígios materiais da vida religiosa e dos edifícios do culto cristão. Jean Gascou discute a importância da epigrafia do período imperial para a compreensão de diversos aspectos da história, da organização e das funções administrativa e econômica da cidade durante o Império Romano. Jean-Pierre Laporte trata da epigrafia da época vândala e bizantina e de suas particularidades gráficas. Bruno Bizot apresenta uma releitura minuciosa da basílica cristã e de seu entorno, fruto da pesquisa recente. David Lavergne trata dos cultos representados em Hipona em inscrições, placas votivas e outros ex-votos. Por fim, Xavier Delestre trata do “mundo dos mortos”, inventariando os epitáfios e os tipos de sepultura identificados no sítio de Hipona. Uma breve conclusão do editor encerra o volume, que inclui ainda, em apêndice, um catálogo do acervo arqueológico do museu.

Por se tratar de uma obra de síntese, o livro naturalmente não apresenta interpretações inéditas, exceto nos capítulos que resumem os resultados da recente campanha, e, mesmo neste caso, a natureza da intervenção e o estado atual de conservação do sítio não permitiram mais que uma releitura relativamente modesta dos vestígios materiais. Apesar disso, algumas conclusões novas devem ser mencionadas. No estudo dos cerca de 7 hectares do tecido urbano de Hipona já escavados, Frank Suméra constata certa especialização das insulae, ou, pelo menos, uma diferenciação social das habitações entre os diferentes bairros da cidade, com uma maior concentração das habitações populares nas partes mais antigas, na proximidade do fórum, e das luxuosas casas da elite nos bairros mais distantes, próximos ao mar. O estudo do pavimento do fórum permite também observar alguns elementos de cronologia relativa que revelam uma construção complexa da esplanada, em diversas etapas, ao passo que a ausência de estruturas destinadas ao comércio e ao artesanato e o isolamento da praça em relação ao seu entorno implicam uma especialização estrita do fórum na época imperial em sua função cultual e política. Ao mesmo tempo, a pesquisa levada a cabo na basílica cristã e em seu entorno, apresentada por Bruno Bizot, permitiu a identificação de três grandes conjuntos topográficos originais (senão propriedades particulares) nessa insula, amputados pela construção da igreja. A planta publicada por Marec pôde também ser questionada, limitando-se os supostos anexos da basílica ao batistério e a um edifício vizinho.

Esse trabalho minucioso de releitura limitou-se, porém, nesta campanha, ao fórum, à basílica cristã, ao teatro e a algumas casas de elite, o que apenas retoma as prioridades dos primeiros escavadores. Não há no livro nenhuma contribuição, nem mesmo superficial, para uma melhor compreensão das casas mais modestas, dos locais profissionais ou da vida econômica de Hipona. É verdade que as condições de escavação impedem atualmente um estudo aprofundado dessas questões, mas os vestígios materiais conservados não são completamente silenciosos a esse respeito. Xavier Delestre cita, por exemplo, à p. 169, uma “possível oficina de molhos de peixe (garum)” na proximidade do mercado, mas esse estabelecimento não é sequer situado num mapa. Da mesma forma, a provável tinturaria identificada por Marec na vizinhança da basílica não foi objeto de nenhuma discussão particular e nem mesmo de uma nova planta. Esperemos que as campanhas futuras possam responder a esse desafio.

O livro é abundantemente ilustrado com belas fotos do sítio de Hipona. Fotos aéreas e reproduções de mapas, plantas e notas dos primeiros escavadores facilitam também a compreensão do texto, tornando acessível uma documentação de outro modo dispersa.

Enfim, os novos mapas e plantas elaborados durante a campanha constituem um instrumento de trabalho inestimável para todo estudo futuro sobre o sítio. Obra de referência indispensável sobre Hipona, esse livro será certamente do interesse de todos os estudiosos da África do Norte na Antigüidade e, de um modo mais geral, de todo interessado na história urbana do mundo antigo.

Julio Cesar Magalhães de Oliveira – Doutor em História Antiga pela Universidade de Paris X Nanterre. Pesquisador associado ao Núcleo de Estudos Estratégicos (NEE/Unicamp).

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Economia Internacional | Edgar Cândido Carmo

As nações têm na política externa um dos elementos-chaves do seu desenvolvimento. Deste modo, a estratégia adotada na política econômica deve ser um dos componente do objetivo maior a ser alcançado no processo.

Em tese, a compreensão da economia internacional deveria ser a regra adotada por países cujos contatos globais sejam intenso. O conhecimento aprofundado sobre economia internacional permite uma avaliação dos impactos das transações correntes em todas as economias, ainda que não seja condição suficiente para compreender as relações econômicas globalmente. Quanto a isso, há a necessidade de se entender as relações financeiras, ou seja, a internacionalização dos mercados de capitais. Leia Mais

Chutando a escada: A estratégia do desenvolvimento em perspectiva histórica | Ha-Joon Chang

Nesta sua segunda obra, Ha-Joon Chang, atual Diretor Assistente do Departamento de Estudo do Desenvolvimento na Faculdade de Economia da Universidade de Cambridge na Inglaterra, utiliza-se da análise histórica aplicada à Economia para responder à questão se as políticas e instituições atualmente recomendadas aos países em desenvolvimento, foram adotadas pelas nações hoje desenvolvidas durante seus processos desenvolvimentistas.

Chang propõe-se desfazer o mito tão difundido atualmente, da importância do livre-comércio nos processos de desenvolvimento. Para tanto, analisa dados das principais nações desenvolvidas, como Grã-Bretanha, EUA, Alemanha, França, Bélgica, Japão, Coréia, entre outras, apresentando as políticas protecionistas e intervencionistas tomadas e montando um quadro bem diferente do que essas mesmas nações recomendam aos países hoje em desenvolvimento, sendo essa a base para a expressão utilizada no título do livro: “Chutando a escada”, que remete à idéia de que após galgarem os degraus do desenvolvimento, as nações esconderiam o caminho tomado como forma de se manterem protegidas no topo. Leia Mais

Ideologia e Ciência Econômica – estudos de caso | L. e. S. Souza

Aprendemos com Marx que o pressuposto fundamental da dominação social é fazer crer que interesses particulares, restritos a determinados grupos minoritários, são os interesses gerais da sociedade. Para isso, constrói-se uma visão sobre a organização da sociedade que procura legitimá-la. Nas sociedades modernas, o pensamento desempenha este papel, e a forma de legitimá-lo é, sem dúvida, emprestar-lhe um suposto caráter “científico”.

Esta perspectiva surge com força nas correntes liberais do pensamento econômico, e, hodiernamente, nas perspectivas neoliberais. Esta corrente de pensamento, que nasce na metade do século XX mas que triunfa apenas na década de setenta, leva do modo mais radical à frente o binômio composto pela tentativa de pintar os interesses dos dominadores como os interesses gerais mediante um enfoque pretensamente científico da economia. Leia Mais

Um outro olhar sobre a escravidão e o gênero no Brasil: Caetana diz não: história de mulheres da sociedade escravista brasileira – GRAHAM (RBH)

GRAHAM, Sandra Lauderdale. Um outro olhar sobre a escravidão e o gênero no Brasil: Caetana diz não: história de mulheres da sociedade escravista brasileira. São Paulo: Companhia das Letras, 2005, 289p. Resenha de: GRAHAM, Sandra Lauderdale. Revista Brasileira de História, São Paulo, v.26, n.52 , dec. 2006.

A história da cafeicultura no Vale do Paraíba, no Rio de Janeiro, tem em Francisco Peixoto de Lacerda Werneck, o Barão do Pati do Alferes, uma de suas figuras mais representativas. Amparado em sua experiência como proprietário de fazendas e escravos, serviu-se da pena para divulgar seus conhecimentos não apenas de administrador, mas, sobretudo, dos princípios a serem seguidos pelos senhores no governo de seus cativos.

Assim, a partir de junho de 1847, inicia a publicação, no Auxiliador da Indústria Nacional, periódico da Sociedade Auxiliadora da Indústria Nacional, da qual Werneck era membro destacado, da sua “Memória sobre a fundação de uma fazenda na Província do Rio de Janeiro, sua administração e épocas que se devem fazer as plantações, suas colheitas, etc. etc.”.

Fosse porque a imprevisibilidade da produção agrícola impusesse certa distância entre teoria e prática, fosse porque os tempos já eram outros, o fato é que quando se tratou da administração do legado deixado por sua comadre e tia, D. Inácia Delfina Werneck (1771-1858), o Barão do Pati do Alferes enfrentou uma série de dificuldades. É nesse ponto, muito mais do que na dinâmica dos laços de parentesco que uniam os dois personagens, que se baseia uma das duas histórias reconstituídas por Sandra Lauderdale Graham, em seu livro voltado ao estudo de casos de mulheres da sociedade escravista brasileira.

Solteira e analfabeta, D. Inácia Delfina possuía, por ocasião da feitura de seu testamento, sete escravos, dos quais dois africanos, e três escravas, todas nascidas no Brasil. Além dos cativos, reunia uma soma razoável de recursos em dinheiro e jóias. Nem mesmo o fato de D. Inácia não saber ler ou escrever parece ter surpreendido Sandra Graham, ocupada em reconstituir-lhe a história de vida. Afinal, tratava-se de situação comum a mulheres de igual condição social da mesma geração que D. Inácia, partilhada também por sua irmã, D. Francisca. Inusitado, porém, principalmente ao observador de hoje, foi o fato de a proprietária deixar todos os seus bens a Bernardina e seus cinco filhos. Bernardina fora escrava de D. Inácia, de quem recebera a alforria com a obrigação de servi-la enquanto fosse viva. Dentre outros bens com que era contemplada no testamento, coube a ela dois escravos que a deveriam servir pelo prazo de dois anos, findos os quais, estariam livres.

Seus cinco filhos foram alforriados na pia batismal, e, à época da confecção do testamento, alguns eram menores e outros já haviam alcançado a maioridade. Os bens foram distribuídos desigualmente entre a prole de Bernardina, cabendo, por exemplo, a uma das filhas, Maria, a quantia necessária para quitar o valor de uma escrava que já possuía, de nome Inês. Antes disso, fato incomum, já havia contemplado outra filha de Bernardina, Rosa, com uma escrava de nome Helena.

Dadas as peculiaridades do sistema de herança no Brasil — herdado de Portugal e mantido após a Independência —, que assegurava às mulheres participação na herança deixada pelos pais e maridos, e dada a vigência de relações eminentemente privadas entre senhores e escravos, deixando, pelo menos em princípio, ao arbítrio dos proprietários todas as decisões que dissessem respeito à sua propriedade sobre cativos, a história de D. Inácia não surpreenderia tanto, exceto por instituir como herdeira uma sua ex-escrava.

A decisão, no entanto, assumiu uma série de desdobramentos, decerto não previstos pela testadora, conforme nos mostra Sandra Graham, sendo o principal deles resultado do equívoco na avaliação do montante do espólio. Assim, feitas as doações aos legatários nomeados por D. Inácia, a maioria composta por familiares, o que restou para a liberta Bernardina foram apenas dívidas. Dívidas cuja administração caberia ao primeiro testamenteiro, o Barão do Pati do Alferes. E aqui, não lhe parece ter valido a larga experiência como administrador de terras e escravos, registrada para a posteridade nas páginas do Almanack Laemmert, uma vez que “agiu com discernimento questionável” ao impor à família de Bernardina um contrato de arrendamento de terras exauridas e a preços exorbitantes (p.193).

O leitor desta resenha deve estar se perguntando o que a história de D. Inácia tem em comum com a da escrava Caetana, cuja história, afinal, dá título ao livro, apesar de ocupar menos páginas do que as da filha da aristocracia cafeeira. Deixemos a autora falar: “São histórias diferentes, sem conexão uma com a outra, exceto no importante sentido de que pertenceram à mesma cultura, sociedade e economia gerais — e que as utilizo para iluminá-las” (p.11). E certamente, é nesse ponto que reside uma das principais qualidades da obra. Laura Graham procura, com sucesso, dar conseqüências à afirmação, inúmeras vezes repetida, mas nem sempre levada em conta, de que “história é contexto”. Por isso mesmo, reconstitui minuciosamente os aspectos econômicos, sociais e demográficos de duas importantes regiões cafeeiras, o Município de Vassouras, no Rio de Janeiro, e Rio Claro, em Paraibuna, na Província de São Paulo.

Rio Claro é, assim, o cenário da primeira história narrada, a da escrava crioula Caetana. Tendo como fio condutor da narrativa a recusa de Caetana a partilhar o leito conjugal com seu marido, o também escravo Custódio, Laura Graham aponta como foram complexos os arranjos societários e pessoais que se forjaram no contexto das grandes unidades plantacionistas — ainda que com o emprego do termo não se queira repetir o engano de supor que essas unidades constituíssem verdadeiras autarquias. Tais arranjos se expressavam desde as pretensões do marido legítimo de Caetana a reproduzir, com anuência da família da escrava, uma relação de tipo patriarcal, forçando-a a submeter-se, até as possibilidades encontradas por Caetana em manipular sua condição de escrava doméstica, de mucama das mulheres da família na casa-grande para convencer a seu senhor, Capitão Tolosa, o mesmo que a constrangeu ao casamento, a intermediar sua demanda pela anulação do enlace.

Decisão que o fazendeiro aceita, mas não sem antes consultar um de seus pares, hóspede ocasional em sua casa, Manuel da Cunha de Azeredo Souza Chichorro. Antigo Secretário de Governo de São Paulo que, no cargo, se ocupou de questões como a utilização de homens vadios, malfeitores e vagabundos para estabelecerem povoações no sertão, colaborador da Revista do IHGB, Manuel da Cunha Chichorro o aconselha a atender aos rogos da escrava, mostrando assim que se as decisões dos senhores se circunscreviam ao âmbito privado, elas não correspondiam apenas ao arbítrio ou aos caprichos do proprietário.

O desfecho do pleito de Caetana, intermediado por seu senhor, é conhecido: a Cúria Metropolitana da Bahia recusa-lhe a anulação uma vez que a seu caso não era aplicável nenhuma das disposições canônicas que previam a anulação. Esse resultado decepciona mais o leitor do que a impossibilidade, assumida pela autora, de explicar as razões íntimas ou as menos recônditas, como se queira, que levaram Caetana a rejeitar o “estado de casada”. Isso porque Laura Graham se preocupa o tempo todo — e essa é outra característica positiva do trabalho — em formular hipóteses consistentes, numa espécie de ‘maiêutica socrática’ muito mais esclarecedora do que se fossem dadas respostas definitivas.

Um outro aspecto a ressaltar é o de que a perspectiva adotada é a da história de gênero, o que justifica o fato de personagens masculinos ocuparem papel proeminente na reconstituição das tramas. A preocupação central, portanto — apesar de o subtítulo informar que se trata de “Histórias de mulheres da sociedade escravista” —, é com a análise relacional, realçando a instabilidade dos papéis sociais assumidos por homens e mulheres no Brasil escravista.

Em meio a temas abrangentes — como organização da Guarda Nacional, atuação dos juízes de Paz, laços de compadrio, família escrava, recolhimentos no Brasil, rebeliões de escravos, sistema de herança, alianças matrimoniais, ilegitimidade, irmandades religiosas, Revolução Liberal de 1842 e declínio da cafeicultura no Vale do Paraíba no Rio de Janeiro a partir da experiência concreta de um fazendeiro —, Laura Graham desvenda a interação entre as histórias de Caetana, Chichorro, Tolosa, D. Inácia, Bernardina e seus filhos e o Barão do Pati do Alferes.

Caetana diz não foi lançado nos Estados Unidos três anos antes de a tradução vir a público no Brasil (Caetana says no: women’s stories from a Brazilian slave society. New York: Cambridge Press, 2002) sendo objeto de resenhas em revistas especializadas como Hispanic American Historical Review e The Americas. O livro integra, naquele país, a coleção “New approaches to the Americas”, editada por Stuart Schwartz.

Trata-se de obra elaborada com base em uma extensa pesquisa primária, constituída de fontes censitárias, cartorárias e eclesiásticas, perscrutada de maneira original. Mas há um aspecto que realmente deve surpreender nosso leitor: a opção da autora por basear-se em obras produzidas sobre a escravidão brasileira por especialistas norte-americanos. É bem verdade que muitos deles sobejamente conhecidos no Brasil, como no caso dos trabalhos de Stuart Schwartz e outros aqui radicados — Robert Slenes, por exemplo — e contra os quais a autora não poupa críticas: ao primeiro, por defender a centralidade do trabalho para o entendimento da dinâmica da sociedade escravista em oposição a fatores como família, comunidade e religião (p.49); ao segundo, por exagerar na insistência com que os senhores estimulavam seus escravos a se casarem com o fim de controlá-los enquanto cativos (p.56).

Não que estejam ausentes algumas das mais representativas obras produzidas pela nossa academia, mas nesse aspecto, a pesquisa sobre os títulos que poderiam lançar luz sobre o tema abordado não é, nem de longe, exaustiva. Assim, talvez se encontre aí uma outra originalidade do trabalho, da qual o leitor deva extrair algumas conseqüências: a de que se trata de uma abordagem, em boa medida, construída a partir do olhar do especialista estrangeiro, certamente influenciado pela própria compreensão da dinâmica de um país também de passado escravista.

Tal opção, em determinadas passagens, permite que se estabeleçam comparações importantes, ainda que implícitas, com o contexto da América do Norte. Esse parece ser o caso em que a autora reconhece que a precária legitimidade dos senhores sobre seus escravos no Brasil baseou-se na reiteração do direito costumeiro, dispensando, ao contrário do que se observou no norte da América, a produção de um discurso baseado na inferioridade racial (ainda que, vale ressaltar, esse não estivesse de todo ausente, sobretudo no Brasil Imperial). Ou quando afirma que a cultura da sociedade brasileira, por sua herança ibérica, era essencialmente jurídica — no sentido de que a maioria das transações eram autenticadas por documentos legais — diferentemente do que se verificava nos domínios coloniais das metrópoles da Europa Central (p.117-8).

A obra de Laura Graham, por fim, cumpre bem o programa da micro-história, vertente à qual se filia, com o mérito de preencher os vazios entre o particular e o geral, entre as trajetórias individuais e as coletivas, ampliando a aplicação do método para além da história cultural e das mentalidades.

Andréa Lisly Gonçalves – UFOP

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Tácito e a metáfora da escravidão – JOLY (RBH)

JOLY, Fábio Duarte. Tácito e a metáfora da escravidão. São Paulo: Edusp, 2004, 162p. Resenha de: BENTHIEN, Rafael Faraco; PALMEIRA, Miguel S. Revista Brasileira de História, São Paulo, v.26, n.52 , dec. 2006

Há todo um significado especial envolvendo a produção de um livro sobre a metáfora da escravidão no Brasil. Originalmente uma dissertação em História Econômica defendida na Universidade de São Paulo em 2001, esse livro apresenta-se ao leitor como um estudo “da escravidão no Alto Império Romano” e, em especial, da “estreita associação entre política e escravidão” constatada naquela sociedade (p.25). Para nossa sorte, porém, a abrangência de suas questões vai além do recorte anunciado. Fábio Duarte Joly realizou, em verdade, uma instigante pesquisa sobre certas formas de classificação social vigentes no Mediterrâneo do primeiro século depois de Cristo e sobre as relações de poder que as instituem (ou são por elas instituídas). Partindo das obras de Tácito, Joly aborda o fenômeno da escravidão antiga salientando não os usuais recortes econômicos e jurídicos recorrentes na historiografia, mas sim suas decorrências políticas. Tal postura implica o reconhecimento do escravo e do homem livre como categorias de apreensão da lógica das ações sociais. Nesse ínterim, tais termos não servem apenas para nomear estatutos sociais específicos, mas também para localizar e reforçar ideologicamente o suposto lugar de cada indivíduo, seja ele escravo ou não, nos quadros hierárquicos de sua própria sociedade. Eis aí a força e a pertinência desse estudo.

O livro tem seu argumento desenvolvido ao longo de três capítulos, aos quais se somam uma introdução e uma conclusão. A parte substantiva da argumentação é inaugurada com o primeiro capítulo: “História, Retórica e Metáfora em Tácito”. O autor apresenta aí, de forma sucinta, aspectos da biografia taciteana, atentando tanto para lacunas informativas, como para problemas relativos à datação e à preservação dos textos a ele atribuídos. Segue-se então a explicitação do ponto de vista analítico que norteia o trabalho: explorar a lógica social da retórica de Tácito. Esta aposta se traduz aqui no esforço de tomar elementos retóricos não apenas como um dado de estilo — o que, segundo Joly, tem sido a regra nas apreensões desse historiador antigo —, mas como algo passível de ser explicado na relação com seus contextos de produção e recepção. Embora não se possa mapear com precisão a circulação da obra, o autor enfatiza, por meio do que chama de a metáfora da escravidão, o vínculo de Tácito com a elite imperial romana. Sendo as diversas alusões metafóricas às figuras de escravos e libertos um dado naturalizado na obra do historiador, pode-se supor, por meio delas, a abrangência e o significado dessas categorias para o projeto político e a visão de mundo dessa elite.

Em “Escravos e libertos em Tácito”, o segundo capítulo, o autor investiga — a partir, sobretudo, dos Anais e das Histórias — as idéias de Tácito a respeito da instituição servil. A análise então se centra nas referências literais a duas categorias jurídicas e sociais do Principado: libertos e escravos. Joly observa como o historiador antigo situa tais grupos na sociedade romana e quais critérios de classificação social mobiliza. O juízo emitido a respeito tanto do escravo quanto do liberto tem como medida a lealdade (fides) devida respectivamente ao senhor ou ao patrono. Tácito mostrava-se de modo geral hostil a esses dois grupos, pois entendia que ambos agiam, em regra, egoisticamente, e não de acordo com o interesse de senhores ou patronos; saudava, porém, a grandeza do espírito de alguns raros escravos e libertos, os quais teriam se sacrificado em defesa das causas desses mesmos superiores. Tácito tinha, portanto, como bem nota Joly, uma concepção ética da escravidão. Ou seja, o que definia a seus olhos a qualidade do escravo ou liberto era uma maneira de se comportar. Em algumas passagens dos escritos taciteanos, dedicadas à gestão da escravidão, esta instituição aparece também caracterizada como uma relação de dependência “cuja manutenção oscila entre o emprego da violência e da coerção legal e o recurso da cooptação por meio dos benefícios, como a concessão da liberdade” (p.105). Vale dizer: a concepção ética de escravos e libertos, bem como a idéia da escravidão como relação de dependência são as chaves pelas quais Tácito extrapola o sentido literal de tais categorias e, por meio do recurso à metáfora, converte-as em instrumentos de apreensão de práticas sociais e políticas em seu mundo.

Determinar a especificidade desses empregos metafóricos é a proposta do terceiro capítulo, “Tácito e a metáfora da escravidão”. Nele, Joly atenta para o uso das categorias escravo e liberto em dois contextos específicos na obra de Tácito: 1) em sua apreciação da participação política de magistrados e senadores na vida política imperial; e 2) nas práticas administrativas perpetradas por administradores de província. Fica registrada nessas circunstâncias a tensão entre dois pólos: as esferas pública e privada da administração imperial romana. No primeiro contexto, tal embate se dá entre a liberdade de expressão do Senado e o regime patriarcal imposto pela casa imperial. Tácito entende como nociva a concentração de poderes nas mãos do imperador, o que lhe permitiria sobrepor-se às prerrogativas do Senado. Isto, porém, apenas parece viável em função da atuação dos próprios círculos aristocráticos romanos, os quais preferiram tornar a esfera pública uma extensão da casa imperial para disto obterem vantagens materiais. Ao agir assim, sugere o historiador antigo, esses círculos de magistrados e senadores se comportam de maneira egoísta, como típicos escravos e libertos. No segundo contexto, as mesmas questões se fazem sentir na administração provincial. Joly explora uma série de exemplos taciteanos acerca da má utilização de cargos públicos em prol de vantagens materiais particulares. De qualquer maneira, o que parece preocupar Tácito é a possibilidade da instauração de uma tirania irreversível do imperador, inviabilizando eticamente o exercício da liberdade.

Embora os procedimentos metodológicos utilizados no livro e sua conclusão sejam por demais coesos para que lhes sejam dirigidas críticas maiores, é salutar atentar agora para algumas lacunas na análise de Joly. Uma delas é documental. O autor sustenta sua argumentação tanto no vínculo social entre Tácito e a elite imperial romana, como na sua particular forma de apresentação naturalizada da metáfora da escravidão, a qual não requer explicações por parte do historiador antigo. A estes dois suportes poder-se-ia acrescentar mais um: os demais textos de época, ou próximos a ela (Sêneca e Suetônio, entre outros). Joly os cita apenas en passant, sem se permitir exercícios comparativos. Talvez por este viés seja possível definir melhor os vagos contornos que no livro adquire o contexto social da obra tacitiana. A outra falta é conceitual. Joly se vale de conceitos como espaço político, público e privado, cultura política, participação política, entre outros, sem que sinta a necessidade de os definir. Afinal, existe uma cultura política no Principado romano? Caso exista, qual a sua especificidade? E, mais, seria possível aplicar a moderna oposição público/privado para torná-la inteligível? Qual a razão disto?

Deixando de lado essas pequenas lacunas, reconhece-se aqui Tácito e a metáfora da escravidão como um exemplo de trabalho equilibrado no trato com fontes e bibliografia. Ele escapa, assim, aos vícios de uma argumentação por demais colada ao corpus documental e se esquiva de criticar modelos a partir simplesmente de outros modelos, sem referenciar a documentação primária. Há, além disto, a estratégica escolha do tema. “A escravidão antiga”, afirma Norberto Guarinello no prefácio a esta primeira edição, “tem recebido no Brasil um tratamento que, talvez, só seja possível num país que conheceu de perto a experiência dessa forma terrível e extrema de dominação social” (p.15). Com efeito, sendo Fábio Duarte Joly um historiador natural do país da metáfora da escravidão moderna, seu trabalho não atesta somente a vitalidade da História Antiga no Brasil, ou mesmo as vantagens de se fazer uma História Antiga a partir do Brasil, mas demonstra, a despeito do que dizem os profetas da História-disciplina sobre as (im)possibilidades de se conhecer a História-matéria — ora amparados pelo culto à subjetividade, ora apegados à ilusão de poder anulá-la —, ser também graças ao enraizamento social do pesquisador, e nem sempre apesar dele, que a investigação historiográfica produz seus bons frutos.

Rafael Faraco Benthien – Mestrando, FFLCH-USP.

Miguel S. Palmeira – Doutorando, FFLCH-USP.

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FREAKNOMICS – o lado oculto e inesperado de tudo que nos afeta | Steven Levitt e J. Dubner Stephen

A economia não trata apenas de política monetária, inflação e taxa de juros, temas áridos e talvez até chatos para alguns, muitas vezes incompreensíveis.

A economia explica não apenas como se distribui a renda entre lucros e salários ou por que ocorre alta de preços em determinados períodos, mas também fornece uma explicação de como o mundo funciona. Nela encontramos técnicas para compreender e explicar o que afeta as diversas dimensões da nossa vida cotidiana.

As palavras acima podem ser atribuídas a Steven Levitt, um economista original que não acompanha a conjuntura econômica nem a política monetária. Que não domina a matemática, a econometria nem a macroeconomia. Que tipo de economista é esse? Sem dúvida se trata de um economista politicamente incorreto. Porém original e provocador. Leia Mais

No território da Linha Cruzada: a cosmopolítica afro-brasileira | José Carlos Gomes dos Anjos

O livro No território da linha cruzada: a cosmopolítica afro-brasileira é escrito por José Carlos Gomes dos Anjos, e trata-se de um trabalho etnográfico no qual o autor, enquanto antropólogo, militante do movimento negro e filho-de-santo de um terreiro de Linha Cruzada, vale-se desses diferentes status, em diferentes momentos, para configurar sua problemática, colher seus dados e construir o texto etnográfico. Antropólogo já antes envolvido em pesquisas sobre religiosidade afro-brasileira, o autor volta seu olhar ao processo de remoção da Vila Mirim – uma vila de maioria negra no centro de Porto Alegre – para a implementação do entroncamento de três grandes avenidas, quando o movimento negro é acionado para mediar os conflitos que a iminência da remoção provocam. Dos 113 domicílios da área a ser removida, seis eram terreiros. É nesse contexto que dos Anjos se inicia como filho-de-santo de mãe Dorsa, uma das líderes da resistência contra a proposta da prefeitura de Porto Alegre de reassentar os moradores no bairro Rubem Berta, movimento instaurado em 1992, quando em reunião realizada num terreiro, formou-se a Comissão dos Moradores a serem removidos. A única reivindicação alcançada pela comunidade foi de não ser removida para Rubem Berta, mas para o bairro Chácara da Fumaça.

O autor, então, norteia suas análises acerca das estratégias políticas dos atores envolvidos nesse processo: a Comissão dos Moradores contra a remoção, a Associação dos Moradores da Vila Divina Providência (a favor da remoção), a Prefeitura de Porto Alegre e o Movimento Negro Unificado. Leia Mais

From Stonehenge to las Vegas; Archaeolog y as Popular Culture – HOLTORF (RHAA)

HOLTORF, Cornelius. From Stonehenge to las Vegas; Archaeolog y as Popular Culture. Oxford: Altamira Press, 2005. 185p. Resenha de: ZARANKIN, Andrés. Revista de História da Arte e Arqueologia, Campinas, n.6, p.176-177, dez., 2006.

Por que la popularidad y la atracción que la arqueología ejerce en nuestra sociedad? Esa es una de las preguntas de partida del libro compuesto por un Prologo y 9 capítulos, que le permiten a Holtorf un recorrido por algunas cuestiones centrales de la practica arqueológica, y los estudios que tienen eje en el pasado y sus vestigios. Sus propuestas resultan polémicas, pero al mismo tiempo permiten al lector reflexionar de una manera diferente sobre el tema. Por este motivo este trabajo resulta de interés especial para estudiantes y profesores en arqueología o antropología así como a profesionales que trabajan con patrimonio.

Holtorf, ya en el prologo nos muestra que estamos ante un libro diferente, que se opone a los convencionalismos a los que estamos acostumbrados en cualquier trabajo académico. En la misma el autor efectúa una auto-presentación que permitirá, según él, entender quién es, y por lo tanto la naturaleza de su trabajo.

Dónde nació, sus estudios, sus profesores, así como algunos aspectos de su vida sentimental, dan a la obra un toque informal y diferente. Al mismo tiempo Holtorf elige escribir su trabajo en primera persona del singular.

De esta manera queda claro que no intenta ofrecer una visión escencialista y verdadera del problema tratado, sino por el contrario, su enfoque particular.

Precisamente la estética y la organización del libro también son novedosas. Además de fotos de obras de arte, de sus vacaciones, de casinos en las vegas o dibujos hechos por él, utiliza continuamente para reforzar sus argumentos comparaciones y ejemplos que a simple vista poco tienen que ver con la arqueología (Zoológicos, parques de diversiones, casinos, biología, cine, TV entre otros). También cada capitulo posee una o más ideas centrales (o tesis) que Holtorf destaca, incluso colocándolas en apartados.

A lo largo de los primeros 7 capítulos – (1) Archaeology as popular culture, (2) Below the surface, (3) The archaeologist in the field, (4) Interpreting traces, (5) Past meanings, (6) Contemporaneous Meanings, (7) Authenticy –, Holtorf desarrolla una discusión general sobre algunos conceptos centrales de la arqueología y su practica. A través de la misma cuestiona algunos de los principios sagrados de la disciplina, tales como que es le pasado, como es construido y por tanto como estudiarlo, cuales son sus significados, a que llamamos autentico, el rol del arqueólogo entre otros puntos.

En estos capítulos Holtorf’s, siguiendo algunos de los planteos de su maestro Michael Shanks y de la arqueología radical, asume y explicita cuestiones como por ejemplo, que el pasado es construido en cada presente y por lo tanto es relativo. También que las personas participan activamente en la construcción de sentidos y significados asociados a la cultura material – y por lo tanto estos significados también son relativos.

Para justificar estas ideas utiliza casos de todo el mundo, aunque especialmente de la prehistoria europea y de sus própios trabajos de campo en Alemania.

Dentro de estas discusiones destaco 3 cuestiones:

A) Su análisis sobre la “biografía de los objetos y los sitios arqueológicos” y como su sentido y significado se transforma a través del tiempo (utiliza como ejemplos el caso de las hachas de piedra, y los monumentos megalíticos – capítulo 5).

B) Su propuesta sobre los significados actuales que los sitios arqueológicos tienen para el publico (diferencia 14, entre ellos recuerdos (rembrance), identidad (identity), reflexiones (reflections), aventuras (adventures), lugares mágicos (magical Places), entre otros – Capítulo 6.

C) La discusión del concepto de “autenticidad” (Aura de W. Bejamin) y como en realidad tiene una base subjetiva que lo transforma en algo dinámico y cambiante a través del tiempo – Capítulo 7.

Los últimos 2 capítulos resultan los más provocativos y originales. Sus propuestas permiten una reflexión profunda sobre las propias bases de la arqueología y la naturaleza del pasado en nuestra sociedad.

Básicamente para Holtorf la popularidad de la arqueología tiene que ver con que posee todos los elementos tradicionales, para despertar el interés de las personas comunes (misterio, exotismo, tesoros, peligro, entre otros). Esto le otorga a la disciplina una “Archeoappeal” y la transforma en “cultura popular”. Lo que importa es el significado del pasado en el presente y la manera en que la gente le da un sentido particular, no necesariamente coincidente con el de los arqueólogos.

De esta manera si el pasado, y sus vestigios “auténticos”, son construidos por las personas en cada presente, entonces éste se transforma en un “recurso renovable”, lo que le permite a Holtorf afirmar: “A certain amount of destruction of archaeological resources is not only unavoidable but can indeed be desirable in order to accommodate fairly as many genuine claims to ancient sites and objects as possible” (p. 148)… “If archaeology is popular culture, then we are all archaeologists” (p. 160).

Salvando las diferencias, este libro tiene mucho en común con “Reconstructing Archaeology” de Shanks y Tilley (1987), sus propuestas radicales invitan a la reflexión. Al cuestionar muchos de los supuestos de la practica arqueológica la primera reacción del lector es sentirse incomodo. Pero es precisamente esta insatisfacción con lo evidente que permite a la arqueología seguir avanzando en un camino sin final.

“Experiencing archaeological practice and imagining the past constitute the magic of archaeology” (p. 155).

Andrés Zarankin – Docente no Depto de Sociologia e Antropologia/ FAFICH-UFMG Doutor em História pelo IFCH-UNICAMP.

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Arqueologia da Amazônia – NEVES (RHAA)

NEVES, Eduardo Góes. Arqueologia da Amazônia. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2006. 86p. Resenha de: SCHIAVETTO, Solange Nunes de O. Revista de História da Arte e Arqueologia, Campinas, n.6, p.178-180, dez., 2006.

O livro de Eduardo Góes Neves, Arqueologia da Amazônia, parte da coleção Descobrindo o Brasil, vem somar-se ao quadro de publicações recentes de arqueólogos dispostos a apresentar para o grande público as várias possibilidades (temáticas e teórico-metodológicas) que a disciplina propõe em solo brasileiro.

A exemplo deste volume, podemos citar, da mesma coleção: A arte rupestre no Brasil, de Madu Gaspar, e Palmares, ontem e hoje, de Pedro Paulo Funari e Aline Vieira de Carvalho. Fora da coleção Descobrindo o Brasil, mas ainda da Jorge Zahar, há o recente O Brasil antes dos brasileiros: a pré-história do nosso país, de André Prous. A editora Contexto também tem publicado obras que seguem a mesma linha, como, por exemplo, a Pré-História do Brasil, de Pedro Paulo Funari e Francisco Silva Noelli (2002). São obras importantes para pesquisadores, professores, estudantes e interessados em Arqueologia brasileira, sobretudo porque lançam por terra o caráter pretensamente unilateral do discurso científico, apresentando muitas possibilidades de abordagem da cultura material do passado. No que diz respeito ao livro Resenhado, seu grande desafio reflete-se em sua delimitação geográfica: a extensão de terras amazônicas e o reduzido número de pesquisas arqueológicas realizadas até o momento naquele espaço, dado salientado pelo autor já na introdução.

Neves introduz suas idéias alertando para a necessidade de se resgatar o caráter cultural da Amazônia, afirmando que há um grande desconhecimento da história de sua ocupação milenar, com uma visão propagada de “natureza intocada”. Esta visão, segundo o autor, reflete-se atualmente nas mentalidades que propõem estratégias voltadas para o desenvolvimento sustentável da Amazônia. Ele chama a atenção, baseado em dados arqueológicos, para a diferença entre a ocorrência de sítios que demonstram ocupação densa no passado e a distribuição atual de terras indígenas.

Segundo uma nova vertente de interpretação da história cultural da Amazônia, essa diferença foi provocada pela colonização do local no século XVIII, intensificada pelo ciclo da borracha, ao fim do século XIX e início do XX.

Há, no livro, a proposta de se olhar para o passado remoto buscando parâmetros para as políticas do presente. Nessa linha, o autor sugere três ações importantes: (1) reconhecer a ocupação densa da bacia amazônica por diferentes povos indígenas no final do século XV; (2) perceber continuidades entre esses povos do passado no presente (apesar dos processos de mudança cultural); (3) reconhecer que a ocupação précolonial guia processos de ocupação no presente.

No tópico que apresenta “O meio físico”, Neves desenvolve suas idéias defendendo a diversidade como conceito-chave para a compreensão da Arqueologia amazônica, questionando a visão que geralmente se tem de um ecossistema homogêneo, ocupado por grupos também homogêneos. Constrói o quadro físico da área pesquisada a partir de alguns temas, tais como a formação do rio Amazonas e seus afluentes, a variação anual das chuvas e do nível dos rios, propiciando dois períodos bem definidos (cheia e seca), a falsa idéia de que os solos amazônicos são totalmente férteis, o contraste entre áreas ribeirinhas (onde os sítios são mais densos) e áreas de terra firme. Todos esses elementos físicos, segundo o arqueólogo, influenciam nos padrões de ocupação da Amazônia, revelando quatro compartimentos: (1) faixa paralela à Cordilheira dos Andes (Bolívia, Peru, Equador e Colômbia); (2) áreas ribeirinhas e alagadas; (3) áreas de interflúvio (ou “de terra firme”); (4) zonas de estuário e litoral (partes dos estados do Amapá, Pará e Maranhão). Neste último compartimento, onde floresceu a civilização marajoara, foram encontrados sítios com a cerâmica mais antiga da América do Sul.

Ainda neste tópico, o autor chama a atenção para o fato de que a biodiversidade do contexto amazônico, além de fornecer alimentos para as sociedades indígenas, também inspirou fortemente suas culturas.

A essa biodiversidade Neves acrescenta a sociodiversidade presente na Amazônia, em termos lingüísticos (com povos falantes de tupi-guarani, arawak, carib, gê e línguas isoladas) e socioeconômicos (povos nômades – caçadores/pescadores/coletores – e sedentários – agricultores), lembrando que a Arqueologia evidencia essa variabilidade no passado. Finaliza o tópico indicando a Amazônia como um contexto de grande variabilidade geográfica, o que teria influenciado o processo de sua ocupação pelos grupos humanos.

No tópico “O início da ocupação humana”, o autor apresenta os principais registros arqueológicos que sugerem a antiguidade da presença humana na bacia amazônica, fixando o início da ocupação em 11 mil anos atrás, apesar de ressaltar que os dados são escassos e que maiores investigações podem modificar o quadro temporal de ocupação da Amazônia. Salienta um padrão de subsistência desses primeiros habitantes (valorização da biodiversidade, não capturavam grandes animais, eram pescadores, coletores e caçadores de animais pequenos). Há, também, a confirmação, a partir de dados arqueológicos, da ocupação da Amazônia antes do advento da agricultura, apontando para tipos de economia diversificados na época pré-colonial.

O tópico tem como discussão central a ocorrência de variações climáticas e ecológicas durante o Holoceno. Tais mudanças, de acordo com Neves, podem ter ocasionado o esvaziamento demográfico de algumas regiões amazônicas constatado pelo registro arqueológico. Curiosamente, os sítios anteriores a 6000 a.C. são mais conhecidos do que aqueles que poderiam evidenciar ocupação entre 6000 e 1000 a.C., mas os vestígios mais abundantes são aqueles com datações a partir de 3 mil anos atrás, período em que os dados disponíveis demonstram ter havido um aumento nas condições gerais de precipitação e umidade. As mudanças refletem no vestígio arqueológico, apresentando para este último período sítios muito mais densos. O autor diz, porém, que esta lacuna pode não estar relacionada a um relativo esvaziamento demográfico gerado por modificações climáticas, o que leva a uma segunda hipótese, que diz respeito a problemas nas estratégias de levantamento utilizadas pelos arqueólogos.

No tópico “A transição para a agricultura e o início da produção cerâmica”, Neves desenvolve suas idéias sobre domesticação de plantas, agricultura e advento da cerâmica defendendo uma não-linearidade nos processos de adaptação, sendo a ocupação, segundo ele, muito mais baseada em economias diversificadas, tais como caça, pesca e coleta, do que apenas na agricultura. No que concerne à domesticação de plantas, algumas áreas são vistas como centros e as demais, receptoras de inovações. A Arqueologia postula para as Américas dois principais centros: a Mesoamérica e os Andes centrais. Atualmente, segundo o autor, a Amazônia também tem sido vista como um desses centros de domesticação (da mandioca e da pupunha) na bacia do alto Madeira e seus afluentes (atual Rondônia).

Aqui, Neves levanta um problema referente à técnica agrícola da “coivara”, conhecida também como “de toco” ou “de corte e queima”. Alguns autores defendem a impossibilidade de se manter populações sedentárias com o cultivo realizado por meio da coivara, dada a necessidade constante de mudança de lugar. No entanto, Neves diz que esse argumento é baseado na observação de sociedades contemporâneas, as quais utilizam, para a abertura de roças, machados e facões de metal. Segundo o arqueólogo, pode haver uma diferença entre os padrões de cultivo em roças de coivara do passado e do presente, sugerindo para o passado uma menor mobilidade dos grupos, principalmente pela utilização de machados de pedra, que tornariam mais lento o trabalho de abertura de roças.

No que diz respeito ao início da produção da cerâmica e sua associação ao desenvolvimento da agricultura, Neves diz que os dados amazônicos são mais complexos, pois as cerâmicas mais antigas (5000 e 3500 a.C.) fazem parte de contextos em que a agricultura não havia sido plenamente adotada. Este fator poderia indicar uma não-ruptura com modos de vida anteriores, fortalecendo a idéia de economias diversificadas e de mudanças não lineares.

No penúltimo tópico, “Ascensão e queda das sociedades complexas da Amazônia”, o autor retoma uma das principais hipóteses do livro. Sugere que a ocupação humana da Amazônia não foi um processo regular e cumulativo, podendo a alternância “entre períodos de aparente estabilidade e outros de mudanças relativamente bruscas nos padrões de organização social, econômica e política” ser percebida nos vestígios arqueológicos. A hipótese vai ao encontro das transformações nos padrões ocupacionais notáveis a partir de 2 mil anos atrás (aumento no tamanho, densidade e duração de ocupação nos sítios arqueológicos).

Acrescenta-se a isso o que o autor chama de “verdadeira explosão cultural”, refletida nas diferentes “tradições” arqueológicas definidas pelos pesquisadores que trabalham em contexto amazônico.

Unindo os dados arqueológicos aos paleoclimáticos, Neves considera viável postular uma correlação entre as mudanças climáticas ocorridas a partir de 1000 a.C. e as transformações nos vestígios arqueológicos.

Modos de vida plenamente agrícolas foram possíveis graças a um aumento no índice de chuvas e expansão das florestas.

A partir dessa hipótese, o autor apresenta o que é conhecido como “terra preta”, estabelece suas conexões com assentamentos sedentários e descreve as principais tradições ceramistas já pesquisadas, que correspondem a esse período em que os dados arqueológicos evidenciam grandes aldeias: Pocó, Marajoara, Polícroma, Incisa e Ponteada (cujas cerâmicas mais conhecidas são a Tapajônica e a Santarém) e Maracá.

Ainda dá exemplos de trabalhos de campo que fizeram uso da tradição oral a partir do contato com indígenas da região (com os índios Palikur, no rio Urucauá, Tariano, rio Uaupés, bacia do alto rio Negro, e Kuikuru, no alto Xingu), alertando para a importância da estreita ligação entre antropólogos, arqueólogos e as comunidades que se sentem diretamente afetadas pelas pesquisas acadêmicas.

O autor finaliza o tópico ponderando sobre o impacto da colonização nessas sociedades indígenas, sugerindo aos pesquisadores que evitem interpretações simplistas quanto à história da Amazônia pré-colonial.

Exemplifica uma dessas interpretações, de que as sociedades indígenas do passado estariam caminhando para um tipo de organização complexa, como um Estado, e que esse “desenvolvimento” teria sido rompido pelo contato com os não-índios. Afirma ainda que os registros arqueológicos evidenciam bases econômicas centradas no grupo doméstico, com autonomia econômica e, conseqüentemente, instabilidade política de longo prazo, ocasionando ocupação e abandono de grandes assentamentos. Finaliza o livro argumentando mais uma vez que os resultados são provisórios e carecem de mais pesquisas na região, além de defender o conhecimento da Amazônia “a partir de seus próprios parâmetros culturais e ecológicos”.

Como colocado no início da Resenha, o livro de Eduardo Góes Neves faz parte de um interessante movimento, por parte dos arqueólogos, dirigido à sociedade em geral e ao público leigo que se interessa pelo passado de seu país. Apresenta, de forma clara, as principais discussões em torno do registro arqueológico pesquisado na Amazônia e demonstra uma preocupação ao esclarecer que o que temos são resultados parciais, resultantes do número reduzido de pesquisas em região tão ampla. Além de mais pesquisas arqueológicas de campo – que, com certeza, são ainda necessárias em várias partes do Brasil –, é também imprescindível criar uma consciência profissional coletiva, entre arqueólogos, para a importância de múltiplas interpretações advindas de variadas vertentes teóricas. Assim, propostas de tornar públicos resultados de pesquisas científicas, como este livro de Eduardo Góes Neves, serão cada vez mais viáveis e muito bem-vindas.

Solange Nunes de O. Schiavetto – Doutoranda em História Cultural, IFCH/Unicamp Docente da Universidade do Estado de Minas Gerais (UEMG/Poços de Caldas) Pesquisadora do NEE/Unicamp.

Acesso somente pelo link original

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La mujer en “el origen del hombre” / Maria A. Querol e Consuelo Treviño

O livro diferencia bem suas duas partes: (1) a análise do discurso sobre o evolucionismo em diferentes tipos de publicações – científicas, livros de texto e livros de divulgação – e (2) a análise da influência das idéias evolucionistas nos discursos literários dos finais dos séculos XIX e XX. A obra segue a linha de pesquisa de María Ángeles Querol sobre o papel da mulher nas origens da humanidade a partir das análises discursivas, o que permitiu a publicação de inúmeros artigos ligados ao assunto, bem como o livro Adán y Darwin, no qual analisam-se os mitos da origem do homem durante o último século e meio e o uso que se fez deles. Nesta nova publicação, o foco da análise do discurso são três diferentes temas: o evolucionismo de Darwin, a educação das mulheres e o feminismo e a história do feminismo. Merecem especial destaque as seguintes contribuições do livro: (1) a análise do discurso textual e visual, um âmbito da investigação arqueológica espanhola ainda minoritário ante o predomínio das pesquisas do contexto anglosaxão; (2) a arqueologia feminista; (3) o fortalecimento da divulgação arqueológica pela interdisciplinaridade do texto de uma arqueóloga e de uma jornalista e pelo cuidado na linguagem, visando à clareza, mas também utilizando recursos que facilitam a leitura, como a ironia.

Metodologicamente há dois aspetos criticáveis: (1) o papel secundário das imagens – poucas e com um tratamento mais ilustrativo do que analítico – e (2) a adoção do critério cronológico, tanto para as imagens quanto para os textos, com ênfase no contexto histórico, sem levar em conta as características e dinâmicas de funcionamento próprias de cada tipo de texto, incluindo indistintamente produções escolares, universitárias, de divulgação etc.

Ana Maria Mansilia Castaño – Doutora em Geografia e História pela Universidad Complutense de Madrid (Espanha) Pesquisadora do Departamento de Prehistoria da Universidad Complutense de Madrid (Espanha).

QUEROL, María Ángeles; TREVIÑO, Consuelo. La mujer en “el origen del hombre”. Barcelona: Bellaterra Arqueología, 2004. 333p. Resenha de: CASTAÑO, Ana Maria Mansilla. Revista de História da Arte e Arqueologia, Campinas, n.6, p.174-175, dez., 2006. Acesso somente pelo link original

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A Convergência Macroeconômica Brasil-Argentina: regimes alternativos e fragilidade externa | Leonardo de Almeida Carneiro Enge

Resenhista

Paulo Roberto de Almeida – Diplomata de carreira e Doutor em Ciências Sociais. As opiniões expressas no presente texto são exclusivamente as de seu autor. E-mail: pralmeida@mac.com


Referências desta Resenha

ENGE, Leonardo de Almeida Carneiro. A Convergência Macroeconômica Brasil-Argentina: regimes alternativos e fragilidade externa. Brasília: IRBr, 2006. Resenha de: ALMEIDA, Paulo Roberto de. Meridiano 47, v.7, n.75, p.22-26, out. 2006. Sem acesso ao original [DR]

Os príncipes da Irlanda. Livro 1: a saga de Dublin | Edward Rutherfurd

O romance escrito pelo autor inglês radicado há mais de dez anos nas terras irlandesas – Edward Rutherfurd que, ao longo de suas quase setecentas páginas procura recontar a história da formação tanto de Dublin como da Irlanda, possui certa base de pesquisa histórica, alguma atualização nas discussões acadêmicas e historiográficas, mas, preservou em sua narrativa, imagens estereotipadas e temas polêmicos.

As duas primeiras partes do romance, Dubh Linn e Tara, envolvem o passado céltico da ilha, enfatizando os aspectos religiosos e sociais. A religiosidade pagã é mostrada com respeito e reverência, porém, com certo referencial da literatura esotérica atual, possuindo pouca ou nenhuma semelhança com as narrativas míticas irlandesas, embora conserve alguns nomes próprios que aparecem em textos como “Deidre” e “Noise”, por exemplo. Na questão do sacerdócio, o autor, ao mesmo tempo em que se mostra conhecedor de bibliografia especializada – ao descrever os druidas portando roupas e acessórios de pássaros, portanto realizando práticas xamânicas (ver AldhouseGreen, 2005: 195-197) em outras passagens da obra acaba cometendo erros (a posição de druida era hereditária, p. 30) ou assumindo posições equivocadas (as druidesas tendo o mesmo poder dos druidas e a mesma tonsura, p. 84, ou mesmo tendo um poder maior que os reis, p. 87).

Sobre polêmicas envolvendo o papel das druidesas ver Ellis (2001: 105-130). Na realidade, em nenhuma sociedade antiga a mulher teve papel religioso predominante em relação ao masculino, sendo essa representação da sacerdotisa amplamente poderosa um referencial anacrônico. Em seu estudo The World of the Druids, Miranda Green apresenta uma análise das fontes clássicas onde são descritas as funções dos druidas. Nessa obra, Green menciona que existiam mulheres sábias que poderiam ser aliadas dos druidas, mas, em hipótese alguma, podem ser consideradas druidesas. O uso da tonsura druídica por mulheres como aparece descrita no romance é uma licença poética do autor que, dentro do universo ficcional tem liberdade para criar, mas jamais pode conferir um caráter verdadeiro a essas criações. Essas descrições parecem estar aliadas ao discurso esotérico atual que procura mostrar que as mulheres eram realmente poderosas e detentoras de um conhecimento que foi perdido e que precisa ser resgatado.

Outras situações envolvendo mulheres também apresentam problemas, como a suposta liberdade feminina em relação à escolha do casamento (p. 42), outro anacronismo muito comum nos escritos contemporâneos e esotéricos sobre os Celtas. Essa liberdade feminina descrita e defendida no romance de Rutherfurd pode ter sido influenciada pelo romance As brumas de Avalon, onde a autora Marion Zimmer Bradley confere às personagens femininas um grande poder de decisão e de autoridade interferindo nas decisões de governantes e reis e subordinando os druidas ao seu comando. Essa visão da mulher é extremamente fantasiosa, pois descreve um poder feminino que nunca existiu, transformando a vida das mulheres radicalmente para melhor, mostrando assim que, no passado, as sociedades realmente eram harmônicas porque viviam sob uma ginecocracia e, tudo se degradou depois que as mulheres foram destituídas. Essa visão equivocada é infelizmente hoje defendida por correntes esotéricas que instigam as mulheres modernas a buscarem àquela liberdade; utopia essa que seria um retrocesso para as mulheres. Essa reivindicação de um grande poder feminino que foi perdido, mas que ainda persiste em alguma regiões, é defendido ferozmente por alguns acadêmicos que insistem em atribuir um poder druídico a algumas mulheres da Armórica atual. Conhecidas como “avós druidas”, essas mulheres seriam as detentoras e guardiãs de todo o saber que fora extinto com a chegada do cristianismo. O mais apropriado a dizer dessas mulheres é que elas não são os receptáculos do conhecimento advindo dos druidas, mas sim guardiãs das tradições folclóricas que podem sim ter reminiscências da cultura celta. Afirmações como estas partindo de acadêmicos estão travestidas de uma militância semelhante ao discurso esotérico que querem provar a todo custo que a cultura celta ainda se mantém pura e viva como nos séculos que antecederam a cristianização e que cabe às mulheres estabelecer esse resgate no presente. Teses como essas figuram muito bem no campo da ficção, não devendo em hipótese alguma ser levadas a sério no campo da investigação científica comprometida com a análise séria e criteriosa das fontes.

O terceiro capítulo, São Patrício, envolve o processo de cristianização da região. Neste momento, o autor mostra-se bem atualizado, demonstrando que o conhecimento sobre este personagem histórico é controverso e muito polêmico. Rutherfurd constrói a narrativa seguindo a atual concepção de que Patrício não teria sido o primeiro evangelizador da Irlanda, sendo antecedido por várias comunidades e até bispos, que após sua morte foram transformados em seus discípulos. Ou seja, uma construção hagiográfica dos fatos históricos (p. 220). A estratégia de evangelização adotada, primeiro converter os druidas e membros importantes para depois o restante das comunidades, também está presente no romance. Mesmo o intenso conflito entre mosteiros rivais foi citado (p. 202), demonstrando que o escritor não adotou nenhuma concepção idealista da fé cristã. No romance há uma perfeita integração entre cristão e pagãos, principalmente por parte dos druidas convertidos que aceitam a nova religião de forma pacífica encontrando pontos em comum com a antiga crença e até exaltando o cristianismo como a verdadeira religião e que só ela é capaz de conduzir os homens ao único criador. Uma passagem interessante da narrativa apresenta um diálogo entre a personagem Deirdre e o druida convertido Larine, onde este relata à sua interlocutora que “(…) a Igreja Cristã contém todo o saber do mundo romano”. (p.166). Essa afirmação do personagem demonstra o cristianismo como possuidor de uma herança do mundo clássico, e, aqueles que se convertem têm acesso a toda verdade humana. Por essa passagem é possível perceber uma clara exaltação ao cristianismo e da figura do bispo Patrício em detrimento da antiga religião e do conhecimento druídico.

O processo de invasão e colonização dos Vikings foi desenvolvido nos capítulos 4 e 5. O contexto social foi bem descrito, mostrando tanto os conflitos entre noruegueses e irlandeses, quanto suas interações e casamentos interétnicos. A descrição da famosa batalha de Clontarf, envolvendo o também famoso líder Brian Boru, ao contrário, foi pouco explorada em termos de narrativa militar, sendo por isso muito decepcionante.

Os piores momentos da obra foram a permanência de dois estereótipos. O primeiro é referente aos Celtas usarem um crânio como taça para brinde em comemorações e festas (p. 34). Trata-se de uma imagem literária fantasiosa, criada pelos gregos e perpetuada pelo medievo em diante (Langer 2003: 32). O segundo estereótipo, mais grave ainda, é a caracterização dos guerreiros Vikings portando elmos com chifres (p. 191). Uma fantasia criada e popularizada no Oitocentos, totalmente desmentida pela pesquisa acadêmica (Langer 2002: 07).

O romance de Rutherfurd possui muito mais qualidades que as obras do escritor brasileiro Orlando Paes Filho (como a série Angus), que deixa explícito em suas linhas uma profunda militância cristã mostrando desprezo por outras crenças que não estejam subordinadas à Igreja Católica, fato esse que compromete em muito a narrativa. Desagradando àqueles que, admiradores da literatura de aventura, não professam a mesma religião defendida com tanta veemência nos romances de Paes Filho, que jamais pode ser comparado a outros romances históricos como os escritos por Margareth Yourcenar, Bernard Cornwell ou José Saramago, deve este livro ser lido com critério.[1]

Nota

1. Esta resenha contou com a colaboração do Prof. Dr. Johnni Langer, especialmente nos capítulos 4 e 5, referentes aos Vikings na história da Irlanda.

Referências

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Sangue de gelo | Orlando Paes Filho

Desde o século XIX a literatura vem tomando a História como locus privilegiado de inspiração. O denominado romance histórico sempre encontrou sucesso entre os leitores ávidos de aventuras, em detrimento de narrativas puramente fantasiosas, a exemplo da ficção científica. Mas essa aproximação entre história e literatura nem sempre rendeu bons frutos: “A literatura apropriou-se tanto dos fatos quanto dos personagens históricos, modificando-os de maneira a, muitas vezes, perpetuar falsas representações” (Campos 2005: 106) [1]. Nesta perspectiva, os romances envolvendo os escandinavos da Era Viking algumas vezes mantiveram estereótipos e em outras ocasiões refletiram uma boa reconstituição sócio-histórica. No primeiro caso, temos a narrativa Vikingaliv (de Vinje 1860), repleta de moralismos cristãos e preconceitos, enquanto The long journey (Johannes Jensen 1924), Gryningsfolket (Jan Fridegard 1944), The long ships (Frans G. Bengtsson 1941-1945) incluem-se no segundo caso: ótimas reconstituições, unindo qualidade narrativa com as pesquisas acadêmicas disponíveis no período (Mjöberg 1980: 237-238; Lönnroth 1999: 247-249).

No primeiro caso, também podemos incluir o novo romance de tema nórdico do escritor Orlando Paes Filho, Sangue de gelo. Nesta obra, são narradas as aventuras da personagem Seawulf Yatlansson num período anterior ao romance Angus, o primeiro guerreiro. O escandinavo é convocado para resgatar a filha de um rei, capturada por um traficante de escravos, sob ordens do danês Ivar, o sem-ossos, durante o ano de 843 d.C. O estilo narrativo de Orlando Paes Filho não evoluiu em nada desde o primeiro romance publicado em 2003, com descrições de batalha, situações cotidianas, conflitos e rivalidades entre os nórdicos, que em muitos momentos tornam-se cansativas e até enfadonhas. A estrutura geral do livro é dividida entre o romance (p. 13 a 158), seguido de um anexo e de muitas ilustrações (p. 159 a 253), aqui residindo um dos seus primeiros pontos fracos: mesmo para os fãs da série, ele mostra-se decepcionante, visto que entre as 253 páginas do livro, somente 88 páginas de texto são dedicadas à narrativa romanceada em si. Para os leitores que já possuem Angus, o primeiro guerreiro, os livros Vikings e Artur da coleção universo Angus, a decepção é ainda maior: praticamente todas as ilustrações de Sangue de gelo são repetidas destas três edições. O autor parece não estar interessado numa obra qualitativa e sim, em muito lucro e expansão comercial de seu produto. Isso é nítido quando analisamos a obra de um ponto de vista acadêmico.

Na contra-capa, Paes afirma que este romance em questão foi produto de uma longa pesquisa: “Ao longo desses anos, Orlando trabalhou incessantemente na pesquisa histórica e religiosa”. Mas os erros textuais e iconográficos apontam para uma outra conclusão. Por exemplo, na descrição do guerreiro chamado Hagarth, este aparece portando “um machado duplo nas mãos” (p. 25). Qualquer pessoa com um mínimo de conhecimento em armamentos medievais sabe que os nórdicos empregavam somente machados de uma lâmina, ao qual o próprio escritor faz referência em ilustração do anexo (p. 240). Esse dado pode ser obtido mesmo em publicações traduzidas ao português (como Graham-Campbell 1997: 54; para maiores detalhes ver Griffith 1995: 176-177). Infelizmente, o imaginário artístico é que tratou de popularizar o estereótipo do imenso guerreiro Viking portando machados de dois gumes descomunais – vide a ilustração Duelo entre Seawulf e Wulfgar (Paes Filho 2003: 35) e Ataque surpresa (idem: 340).

Outro estereótipo é a suposta presença de uma bússola magnética primitiva entre os escandinavos, a exemplo da popularizada pelo filme Vikings, os conquistadores, de 1958: “Seawulf confirmou a rota, consultando sua pedra mágica. Se um pedaço de ferro fosse nela esfregado, ele apontaria para o norte” (p. 70). Na realidade, a Arqueologia nunca confirmou este tipo de material e sim, de uma bússola solar (gnômon), que seria um disco de madeira cujo ângulo da sombra determinaria a latitude e o norte geográfico. Vestígios deste equipamento foram descobertos nos anos 1960 na Groelândia e mais recentemente no Báltico, e reconstituições imagéticas podem ser vislumbradas no Brasil até mesmo em ilustrações de livros paradidáticos (como Brochard 1996: 47).

Alguns erros históricos também estão presentes no romance. Na descrição da alimentação durante as travessias marítimas, estas são basicamente mingau de aveia (p. 101). Na realidade, este era um alimento específico para a vida cotidiana em terra, durante todo o ano (Graham-Campbell 2001: 123-124) e que não era útil para a vida no mar, visto que a umidade poderia facilmente estragá-lo: “a vida a bordo, eu já comentei, não devia ser fácil, em particular no caso de grandes travessias. A comida – peixe seco, carne seca e salgada, manteiga salgada, algas secas, pão torrado, reserva de água potável – era escassa” (Boyer 2000: 117).

Algumas terminologias estão equivocadas como: “uma armada de nórdicos poderia ser facilmente confundida com uma frota de daneses” (p. 91). Na realidade, tanto dinamarqueses (na Era Viking: Danes, Heruls), quanto suecos (Gottar, Svear) e noruegueses (Raumariki, Granii, Aetelrugi, Arothi e Raumi) são indistintamente povos nórdicos (Haywood 1995: 25).

Alguns erros com imagens sugerem uma edição publicada com muita pressa e sem nenhum critério de revisão. Por exemplo, as notas 32, 33, 34, 40 e 41 (referindo-se às ilhas bálticas de Öland e Gotland) remetem ao mapa inserido na página 164 (que contém apenas a Dinamarca e sul da Suécia), mas na realidade, o correto seria os mapas das páginas 167 e 168 (com detalhes do Báltico sueco).

Outro erro, muito pior se levarmos em conta a credibilidade do leitor e fã da série, é a utilização da mesma imagem para diferentes cidades nórdicas. Entre as páginas 112- 113, a ilustração refere-se à“cidade mercantil de Paviken” (situada no oeste de Gotland), e na página 244, a mesma ilustração (em tamanho diminuído) é descrita como “cidade de Dublin” (capital da Irlanda). A imagem foi anteriormente utilizada também nos livros Angus: o primeiro guerreiro (p. 252) e Vikings (Universo Angus, p. 29) para representar Dublin. Para uma análise crítica dos erros da representação desta cidade viking pela equipe do livro, consultar Langer (2006a).

Desta maneira, o ponto mais fraco do livro acaba sendo mesmo as imagens. Entre as poucas ilustrações inéditas inseridas no romance, encontramos a proliferação de estereótipos criados durante o século XIX: Odin (p. 14), apresenta a divindade nórdica com uma estética advinda das óperas germânicas, com um machado de guerra imenso (o correto seria uma lança), cota de malha, um capacete com asas laterais (outra fantasia oitocentista) e pior, com os dois olhos intactos (ele perdeu um segundo as Eddas); a ilustração Jovem Seawulf (p. 36) repete a fantasia do capacete com asas, assim como a do deus Thór (p. 182). A fraca inspiração e qualidade artística da equipe de ilustradores é demonstrada pela reutilização de imagens clássicas: Guerreiros vikings (p. 50), repete fielmente a pintura de N. Wyeth The first Cargo, de 1910, mas deixando os guerreiros do primeiro plano com cabelos loiros. Trata-se de uma representação também estereotipada, principalmente pelo uso dos capacetes com chifres, algo totalmente em desuso na arte contemporânea com temática escandinava e, de maneira muito estranha, incluída em uma obra que se diz realizada após “anos de pesquisa”.[2] Em outra ilustração (Funeral de Thorsfastr, p. 44) percebemos um plágio de má qualidade da pintura The Viking funeral, do britânico Franck Dicksee, 1893. Aliás, no primeiro volume da série Angus, esta mesma imagem recebeu o título de Funeral de Wulfgar (p. 40), mostrando um reaproveitamento iconográfico também para outras ilustrações: Chegada de Seawulf em Cait (p. 27, em Angus), tornou-se Batalha contra vikings daneses (p. 83, em Sangue de gelo); Armada de Seawulf (p. 28) transforma-se em Desembarque em Öland (p. 98); Sítio de York (p. 90), torna-se Batalha contra Ivar (p. 140); Ataque a Cait (p. 30), é rebatizada de Batalha contra saxões (p. 32); Armada de Angus (p. 272) vira Rothger lidera o desembarque (p. 136). Economia de artistas gráficos? Ou um recurso para diminuir despesas e ter mais lucro?

Acreditamos que a literatura possui grande importância para a divulgação dos estudos acadêmicos: “os romances têm o poder de provocar nos leitores o interesse e a busca por uma perspectiva científica dos fatos históricos” (Campos 2005: 106). Mas esse não é o caso de Sangue de gelo e da coleção Angus [3], que procura através de uma linguagem e pesquisa medíocre atrair somente o interesse de adolescentes fãs de RPG, perpetuando estereótipos e falsas imagens sobre Idade Média. Nosso país merece a tradução de romances sobre nórdicos medievais com maior qualidade literária, como as séries do espanhol Manuel Velasco e do sueco Frans Bengtsson, além do recente O último reino, de Bernard Cornwell (publicado no Brasil pela Record), que com certeza vão ampliar muito mais o conhecimento dos interessados na fascinante Era Viking.

Notas

1. Mas as fronteiras entre história e literatura são muito nítidas, sendo a primeira uma ciência e a segunda uma forma de manifestação artística: “O historiador copia o que aconteceu; o poeta, o que poderia ter acontecido” (Teixeira 2004: 98); “Desde Aristóteles, história e ficção se avizinham, mas os compromissos de uma e outra são distintos. Da ficção, se espera o uso sistemático da imaginação, e, no caso do romance, em geral um compromisso com a verossimilhança; da história, se pretende a verdade” (Pimentel Pinto 2006: 98).

2. Para uma análise do estereótipo dos Vikings portando chifres, ver Langer (2002: 6-9, 2005: 89).

3. Para detalhes de outros erros históricos, anacronismos e estereótipos na coleção Angus, consultar Langer (2003: 67-70). Para uma análise dos referenciais de moralidade cristã do historiador Ricardo da Costa na obra paradidática Vikings (coleção Universo Angus), consultar Langer (2006a, 2006b).

Referências

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PAES FILHO, Orlando. Sangue de gelo (Coleção Angus Saga). São Paulo: Prestígio editorial, 2006. Resenha de: LANGER, Johnni. A Volta do Romance Viking à Brasileira. Brathair – Revista de Estudos Celtas e Germânicos. São Luís, v.6, n.2, p. 125-128, 2006. Acessar publicação original [DR]

Estado e Burguesia no Brasil: origens da autocracia burguesa | Antônio Carlos Mazzeo

Uma primeira associação ao título surge de maneira fácil, quase imediata: ao estudar as relações entre estado e burguesia na formação social brasileira, Antônio Carlos Mazzeo remonta à ideia originariamente expressa por Marx e Engels, em seu Manifesto Comunista, a qual serve de epígrafe a esta resenha e norteia nosso entendimento primário dos conceitos utilizados pelo autor ao apresentar suas ideias. Antônio Carlos Mazzeo é um autor marxista, que utiliza, em primeira instância, a análise de Marx e Engels para desenvolver sua apreensão das características da formação histórica da sociedade brasileira. Leia Mais

Biologia, ciência única: reflexões sobre a autonomia de uma disciplina científica – MAYR (VH)

MAYR, Ernst. Biologia, ciência única: reflexões sobre a autonomia de uma disciplina científica. São Paulo: Companhia das Letras, 2005. Prefácio de Drauzio Varella. Tradução de Marcelo Leite. Resenha de: FONSECA, Alexandre Torres. Varia História, Belo Horizonte, v.22, n.36, p. 574-576, jul./dez., 2006.

As contribuições feitas por Ernst Mayr à biologia evolucionária o colocariam certamente em qualquer lista dos maiores biólogos evolucionários do século XX. Edward Wilson e Stephen Jay Gould, colegas de Mayr em Harward, chegam a colocá-lo como o maior biólogo de todos os tempos. Mas as realizações de Mayr se estenderam para além da biologia. Além de seus trabalhos de divulgação da história natural e da evolução, ele também escreveu sobre a história e a filosofia da ciência, especialmente da biologia.

Se levarmos em consideração o volume, a abrangência e a profundidade do trabalho de Ernst Mayr, ele ocupa um lugar único no desenvolvimento da biologia evolucionária no século XX. E, para entendermos adequadamente este desenvolvimento, nós precisamos entender seu trabalho. E é exatamente isso que Biologia, ciência única nos permite. A cuidadosa edição da Companhia das Letras, com tradução de Marcelo Leite, transforma Biologia, ciência única: reflexões sobre a autonomia de uma disciplina científica (2005) em um livro indispensável tanto para historiadores da ciência quanto para os historiadores ambientais, e, naturalmente, também para os biólogos.

Mayr, que morreu em fevereiro de 2005 com cem anos, começou seus estudos em medicina, mudando depois para a biologia. Publicou seu primeiro paper aos dezenove anos, em 1923; tornou-se Ph.D. com 22 anos pela Universidade Humboldt em Berlim. Publicou quase 700 papers e 25 livros, dos quais o último é Biologia, ciência única, que é, segundo ele, uma versão revisada e mais madura de seus pensamentos.

Mayr, ao mudar-se para os Estados Unidos em 1931, considerava-se um ornitologista. Durante sua vida deu nome a 26 espécies e a 473 subespécies novas de pássaros, publicou cerca de 300 artigos discutindo e descrevendo a variação geográfica e a distribuição dos pássaros. Como muitos de seus contemporâneos acreditava na herança lamarkiana até se tornar amigo e interlocutor de Theodosius Dobzhansky, o qual vai exercer grande influência no pensamento de Mayr. Desse encontro surgirá a Moderna Síntese evolucionária.

A teoria evolutiva moderna surgiu entre 1936 e 1947, com a Síntese Evolucionária ou Síntese moderna. Este termo foi introduzido por Julian Huxley no livro Evolution: The Modern Synthesis, em 1942. Esta síntese é reunião da teoria de Darwin com a genética e as contribuições da sistemática e da paleontologia. Este processo começou com R. A. Fisher, J. B. S. Haldane e Sewall Wright. Alguns anos mais tarde, o paleontólogo George Gaylord Simpson, o biólogo Ernst Mayr e o geneticista Theodosius Dobzhansky irão alargar o paradigma neodarwinista. E da união entre o darwinismo e a genética nascerá o neodarwinismo.

O termo neodarwinismo ou teoria neodarwinista é usado correntemente como sinônimo de Síntese Moderna por quase todos os biólogos evolucionários, como por exemplo, Dennett, Gould, Futuyma e Dawkins. É neste sentido que este termo é usado neste artigo. Ernst Mayr, embora tenha usado neodarwinismo com esse sentido, mudou de idéia em Biologia, ciência única (2005). Por isso, a importância deste livro. Fica claro que a promessa feita na introdução do livro, de apresentar uma versão revisada e mais madura de seu pensamento, é realizada.

Neste livro (capítulo 7, Maturação do darwinsimo), ele diz que é um equívoco chamar de neodarwinismo à versão do darwinismo desenvolvida nos anos 1940, porque Romanes já havia usado este termo, em 1894, para qualificar o “paradigma darwiniano sem a hereditariedade leve [soft inheritance] (isto é, sem a crença na herança de características adquiridas)” (2005, p. 147). Na sua nova maneira de pensar, a teoria sintética da evolução, o “produto da síntese das teorias dos estudiosos da anagênese e da cladogênese” (p. 147), deveria ser chamada simplesmente de darwinismo, pois se trata

em essência, da teoria original de Darwin com uma teoria válida de especiação e sem a hereditariedade leve. Como essa forma de hereditariedade foi refutada mais de cem anos atrás, não pode haver equívoco na retomada do simples termo “darwinismo”, porque ele engloba os aspectos essenciais do conceito original de Darwin. Em particular, refere-se à inter-relação entre variação e seleção, o cerne do paradigma de Darwin, e confirma que é melhor referir-se ao paradigma evolucionista, após um longo período de maturação, simplesmente como darwinismo (p. 147).

Outro exemplo é a discussão sobre o que constitui uma espécie (capítulo 10, Um outro olhar sobre o problema da espécie). O conceito de espécie defendido por Mayr é ao mesmo tempo sua mais conhecida contribuição para o estudo da biologia, e o motivo pelo qual a maioria dos biólogos, hoje em dia, discordam da visão de espécie de Darwin. Neste capítulo ele critica o conceito de espécie dos “taxonomistas de poltrona”.

Mayr também descreve as causas que o levam a considerar a biologia uma ciência única, autônoma, com vários conceitos ou princípios específicos, necessitando, por isso, de uma filosofia da biologia específica, que difere de filosofia da ciência, segundo ele, mais ligada à física. No capítulo 9, As revoluções científicas de Thomas Kuhn acontecem mesmo?, discute as idéias de Kuhn sobre revolução científica e paradigma, chegando à conclusão que esta não é uma boa teoria para a biologia. Mayr considera que “as descrições da epistemologia evolucionista darwiniana parecem captar melhor a mudança em teoria em biologia” (p. 184), fazendo uma clara opção por esta última.

Ernst Mayr é importante para a história da biologia e para o pensamento biológico por ter sido tanto um participante ativo da história na criação da Moderna Síntese quanto por sua significativa obra reflexiva sobre a filosofia da biologia. Nos últimos vinte anos de sua vida, ele se dedicou mais à história e à filosofia da biologia. Seu grande trabalho nesta área é The growth of Biological thought, de 1982, um tour de force de 974 páginas, que demorou dez anos para ser concluído. Havia a promessa de um segundo volume que não se realizou. Além disso, ele influenciou consideravelmente três ou quatro gerações de biólogos. Mayr diz que “por toda a biologia há numerosas controvérsias não resolvidas, e que ele não era otimista a ponto de acreditar que [ele tivesse] resolvido todas (ou mesmo a maioria)” (p. 13-14) delas. E o desafio que ele propõe aos jovens pesquisadores evolucionistas é ir em busca tanto das questões não respondidas quanto, e isso é o mais importante, de questões não formuladas. Com certeza, Biologia, ciência única é um bom começo.

Alexandre Torres Fonseca – Doutorando em Ciência e Cultura na História. UFMG. E-mail: atfonseca11@gmail.com

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A história escrita: teoria e história da historiografia – MALERBA (VH)

MALERBA, Jurandir (org.) A história escrita: teoria e história da historiografia. São Paulo: Contexto. 2006. Resenha de: MACHADO, Paulo Pinheiro. Varia História, Belo Horizonte, v.22, n.36, p. 572-573, jul./dez., 2006.

Do texto viemos, ao texto iremos. Sem querer simplificar o atual debate acerca das diferentes abordagens teóricas sobre a história — seja a história do acontecido ou a escrita sobre o acontecido — é difícil encontrar, em língua portuguesa, livro com um balanço equilibrado e atualizado sobre este debate. A publicação de “A história escrita”, obra de um diversificado grupo de historiadores coordenada por Jurandir Malerba chega para preencher este espaço importante para o debate e a reflexão historiográfica, sendo útil a profissionais, pesquisadores e estudantes. Além da atualidade dos temas e abordagens, os autores não deixam de fazer um abrangente balanço dos impasses, crises e contribuições de importantes historiadores do século XX. As trajetórias intelectuais de Benedetto Croce, Marc Bloch, Lucien Febvre, Le Goff, Arnaldo Momgliano e outros importantes historiadores, são analisadas em diferentes textos, o que dá uma interessante unidade ao conjunto do livro.1

Um dos pontos centrais da discussão é o balanço da contribuição do vendaval pós-estruturalista (ou pós-moderno) sobre a forma de se trabalhar a história. As intervenções dos herdeiros intelectuais de Nietzche, sem dúvida, advertiram a nova geração para as precariedades da ciência e deram sério golpe em noções de finalidade e de progresso da história. A contribuição de Hayden White adverte para a importância das formas narrativas, dos tropos e da grande dose de subjetividade presente na historiografia. No entanto, estas contribuições foram muito pouco férteis no sentido de enfrentar os problemas quotidianos dos historiadores. O debate final da obra, entre White e Ginzburg, sobre uma questão-limite, a “veracidade” do holocausto dos judeus na segunda guerra mundial, acaba por levantar importantes considerações políticas e morais das concepções mais analíticas dos textos e menos inquiridoras de “indícios” e “provas” do que pode ser considerado como “realidade”.

O ponto mais inovador da coletânea é a necessidade de avaliação, comparação e crítica historiográfica. Estamos acostumados a fazer balanços historiográficos sem critérios muito precisos do que deva ser considerado. Além de considerações aleatórias do “gostar” e do “não gostar” de determinados textos, os autores nos chamam a atenção para a avaliação da excelência de nosso ofício. Deverá o historiador, como Heródoto, ser um hábil escritor para cativar seus leitores com a beleza de sua narrativa? Ou devemos, como Tucídides, despreocuparmos com a beleza e atentarmos para a precisão e utilidade de nosso labor? A eleição de critérios para a avaliação e debate historiográfico depende de escolhas teóricas dos autores. Jurandir Malerba, recuperando Benedetto Croce, lembra que, como a crítica poética critica a “poeticidade”, na crítica historiográfica se avalia a “historicidade”, o que abre caminho para considerar a crítica historiográfica como parte integrante da pesquisa histórica. Uma boa discussão sobre termos comparativos na relação entre historiografia ocidental e oriental encontramos no texto do professor Masayuki Sato, da Universidade de Yamanashi, no Japão. Com ele aprendemos que além de considerações teórico-metodológicas este debate precisa incorporar diferenças culturais, já que a história tem especificidades como ofício em diferentes culturas, além de distintos estatutos públicos. Importante discussão neste sentido é levantada por Jörn Rüsen, da Universidade de Bielefeld, Alemanha, no entanto, seu quadro de periodização do pensamento histórico parece algo excessivamente esquemático e contraditório com a proposta original. Angelika Epple, da Universidade de Hamburgo, em texto muito inteligente, propõe um alargamento das fontes para considerar uma história e historiografia das mulheres, além dos limites acadêmicos, ou seja, abrir para admissão de narrativa histórica textos literários, onde sempre houve forte presença feminina.

Enfim, temos a disposição do público uma coletânea com diferentes aspectos das teorias, das metodologias e das fontes historiográficas que procuram criar pontes de discussão e interlocução entre diferentes tradições historiográficas nacionais.

Nota

1 Além de Jurandir Malerba, publicam nesta obra Angelika Epple, Arno Wehling, Carlo Ginzburg, Frank Ankersmit, Hayden White, Horst Walter Blanke, Jörn Rüsen, Masayuki Sato e Massimo Mastrogregori.

Paulo Pinheiro Machado – Doutor em História pela UNICAMP e professor do Departamento de História UFSC. E-mail: pmachado@mbox1.ufsc.br

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História e Teoria. Historicismo, Modernidade, Temporalidade e Verdade – REIS (VH)

REIS, José Carlos. História e Teoria. Historicismo, Modernidade, Temporalidade e Verdade. 3ed. Rio de Janeiro: Editora FGV, 2006. Resenha de: DILMANN, Mauro. Varia História, Belo Horizonte, v.22, n.36, p. 567-571, jul./dez., 2006.

Nesta obra, José Carlos Reis transparece, com erudição, a importância da filosofia e de suas construções teóricas. Nas páginas finais do último artigo, ele ressalta: “Filosofia e história são atitudes complementares – toda pesquisa filosófica é inseparável da história da filosofia e da história dos homens e toda pesquisa histórica implica uma filosofia, porque o homem interroga o passado para nele encontrar respostas para as questões atuais” (p. 240). O livro é uma junção de ensaios do próprio autor, cada um com uma especificidade singular e, ao mesmo tempo, contínua, linear: todos tratam de “teoria da história”. Valendo-se de uma abordagem dos principais parâmetros contemporâneos do contexto historiográfico, Reis interroga, instiga, mostra caminhos, posicionamentos. Seu poder de síntese é invejável: diz muito em tão pouco. Para quem já estava cansado ou mesmo entediado com as discussões sobre verdade, modelos epistemológicos, historicismo, além das que envolvem concepções de tempo histórico e das oposições entre modernidade e pós-modernidade, o autor demonstra que ainda é possível um pensamento crítico e um esforço reflexivo.

No primeiro capítulo, o autor traz a “história da história”, analisando desde a metafísica até a pós-modernidade. A preocupação dos historiadores com a “humanidade universal” e o “sentido histórico” pautam sua análise. Ele quer discutir a passagem modernidade/pós-modernidade e suas possíveis repercussões na historiografia. Começa com os gregos, que não teriam construído a idéia de “humanidade universal”, tendo sido formulada com os romanos. Com o Cristianismo, a história esteve dominada pela Providência Divina e o futuro dependia da fé. A partir do século XIII ele perde sua força e surge uma outra representação da história: a “modernidade” e sua busca da racionalização.

A modernidade trouxe uma nova consciência do sentido histórico, uma nova representação da temporalidade histórica e, com ela, o mundo se fragmentou em valores distintos. O espírito capitalista (entenda-se burguês) é moderno, desencantado, secularizado, racional, tenso.

No século XVIII retorna a idéia de história universal. Pensa-se em direitos universais. Nesse momento, a modernidade através das filosofias da história recolocaria à história a questão do sentido histórico: é o desenvolvimento do processo de progresso, revolução, utopia; a idéia de história está dominada pelos conceitos de razão, consciência, sujeito, verdade e universal.

No século XIX , a história-conhecimento torna-se científica, o conhecimento histórico aspira a objetividade científica, a verdade. A eficácia da história está em servir ao Estado e às instituições da sociedade burguesa. Nietzsche seria o primeiro a romper com o conhecimento histórico científico e, a partir do século XX, aprofundariam-se as críticas, passando-se a recusar o determinismo, o reducionismo e o destino inescapável. A pós-modernidade concretizou-se no pós-1945, não acreditando na razão, pois os sentidos são multiplicados – o universal se pulveriza, fragmenta-se – e a história global é descartada. Os interesses voltam-se ao pequenos dados, aos indivíduos, o olhar em migalhas opera por fatos, biografias, múltiplas narrações: é a desaceleração da história. O estruturalismo aprofundou a revolução cultural pós-moderna, desconfiando do sujeito, da consciência, da revolução, da razão. Para Reis, estamos vivendo a pós-modernidade. O novo ambiente cultural é complexo e ambíguo: os historiadores pensam em rupturas, fragmentação, individualismos em plena globalização. O conhecimento histórico prioriza a esfera cultural, as idéias, os valores, as representações, linguagens, e a história torna-se ramo da estética, aproximando-se da arte, da literatura, do cinema, da fotografia, da música.

No segundo capítulo, Reis procura fazer um balanço das possíveis perdas e/ou dos possíveis ganhos do percurso da história do “global” às “migalhas”. Para tal, segue os pressupostos de François Dosse, o crítico francês dos Annales que destacou a descontinuidade presente nos “seguidores” dos “pais fundadores”. Para conseguir um balanço entre perdas e ganhos, Reis conceitua história global e história em migalhas. História global teria dois sentidos: “história de tudo” e “história do todo”. O primeiro sentido seria entendido por “tudo é história”, o segundo seria a intenção de apreender o “todo” de uma época. Este último sentido não teve espaço na terceira geração dos Annales. Já as migalhas, podem significar a multiplicação dos interesses e das curiosidades históricas; a fragmentação, a especialização extrema, a desarticulação dos tempos históricos. Ou, no sentido otimista, as migalhas significaram o amadurecimento do projeto inicial; a história escrita no plural, múltipla, que analisa partes da realidade global. Por fim, nosso autor faz uma enumeração riquíssima em termos de prós e contras dessa passagem do global às migalhas, colocando-se no lugar de quem avalia uma perda ou um ganho.

O terceiro capítulo, intitulado A especificidade lógica da história, levanta questões que colocariam em dúvida a possibilidade do conhecimento histórico, entre elas: “A história é um conhecimento possível?”. Salienta a importância da reflexão teórica problematizante, alertando sobre a impossibilidade de ser historiador sem tomar o conhecimento histórico como problema. A questão a ser pensada seria a existência de um conhecimento histórico reconhecível. Esse conhecimento talvez estivesse na recusa da ficção. Nessa luta contra a ficção, a história aproxima-se da ciência. Quanto a possibilidade de história científica, José Reis apresenta quatro modelos: nomológico, compreensivo, conceitual e narrativo. O modelo nomológico, centrado em Hempel, defende a unidade da ciência, as explicações causais; é um modelo neopositivista, que busca encontrar leis gerais, da mesma forma que as ciências naturais. O modelo compreensivo tem dois expoentes: Dilthey e seu método da compreensão e interpretação das ciências do espírito, e Weber com uma visão racionalista da compreensão. A sociologia compreensiva busca interpretação da conduta humana; para compreender, pode-se construir o “tipo ideal” de uma ação racional. Para Reis, Weber ainda sustenta uma visão racional da história. O modelo conceitual está baseado na história científica weberiana: ela é racionalmente conduzida, fundamentada na compreensão e em conceitos. A compreensão e subjetividade incluídas na história não abdicariam a abordagem científica da mesma, presentes através de tipos e conceitos. Paul Veyne, com influência weberiana também defendeu a história conceitual, que para ele estaria entre a ciência e a filosofia.  Para o Veyne de O Inventário das diferenças, a história conceitual seria científica porque oferece uma inteligibilidade comparativa. Já o Veyne de “Como se escreve a história”, tem a história como “narrativa verdadeira”, mas não científica. François Furet, também influenciado por Weber – e Reis salienta que os Annales “parecem dever mais a Weber do que querem admitir” – percebe a história como oscilação entre arte da narração, inteligência do conceito e rigor das provas, mas não como ciência. Por fim, no modelo narrativo e atual (alguns autores sustentam que o discurso histórico sempre foi narrativa), espera-se uma relação mais estreita com o vivido, o tempo, os homens. A história-problema entrou em crise por afastar-se dos homens e negar a temporalidade. Para Veyne, a história é uma narrativa que explica enquanto narra, é compreensão, é atividade intelectual. Paul Ricoeur esclarece a estrutura de uma nova narrativa histórica, lógica e temporal, ou seja, temporalidade e a narratividade se reforçam. Ricoeur defende o primado da compreensão narrativa em relação à explicação, sendo a narrativa histórica uma representação construída pelo sujeito, que se aproxima da ficção e retorna ao vivido. A história, em última análise é a narrativa do tempo vivido.

No quarto capítulo, Reis discute as posições da verdade sobre o conhecimento histórico. Os céticos em relação à história fazem várias objeções à possibilidade da objetividade e verdade em história, entre elas estaria o fato desse conhecimento estar ligado ao presente (que sempre reinterpreta o passado), à subjetividade, à compreensão e à intuição; ainda ao fato de não produzir explicações causais, de ser conhecimento indireto do passado, de utilizar a mesma linguagem da ficção, de utilizar fontes lacunares, de ser interpretação e construção de um sujeito e ter o conhecimento pós-evento. O conhecimento objetivo seria aquele válido para todos, universal, analítico, problematizante, necessário. Para Reis não há razão para o ceticismo. Ele cita Koselleck, para quem a história precisa sustentar duas exigências: produzir enunciados verdadeiros e admitir a relatividade. Na tentativa de indicar posições para o alcance da verdade histórica, Reis busca as teses de alguns autores. Divide-os em realistas metafísicos e nominalistas. Começando pelos primeiros, tem-se que para Ranke a história produziria verdade através do método crítico. Nesse sentido o sujeito não se anula, apenas se esconde, se autocontrola. Weber não vê a possibilidade de abordar o real em si, apenas aspectos, partes. O sujeito divide-se em esferas lógicas autônomas. Duas subjetividades buscam a verdade, que é conhecimento empírico. Em Marx, o sujeito deve assumir sua subjetividade. A verdade não é universal, mas de um grupo social. O conhecimento histórico produzido é objetivo, mas parcial, relativo, pois o historiador precisa tomar partido. Para Ricoeur, a verdade é traduzida pelo sujeito de forma comunicável a partir de uma objetividade que exige a presença da subjetividade. Na mesma direção, Marrou declara ser a objetividade histórica, específica, subjetiva, através de valores éticos universais. Todos procuram critérios universais para a verdade, todos são construções totalizantes da verdade histórica. Nos nominalistas, a subjetividade é plena, o universal é impensável. Em Foucault a verdade é construção de um sujeito particular e expressa relações de poder: essas relações criam linguagens e saberes para se legitimarem. Michel de Certeau tem a história como fabricação do historiador, um discurso que emerge de uma prática e de um lugar institucional e social. Duby assume a história subjetiva, que estaria próxima da literatura e do cinema, onde a imaginação e o sonho não são proibidos. Por fim, Koselleck sustenta a verdade histórica caleidoscópica, se relaciona com a história da história, examina a historiografia anterior. O passado é selecionado, reconstruído em cada presente. Reis conclui esse capítulo ressaltando que a verdade histórica é obtida com exame exaustivo do objeto, com todas as leituras possíveis.

O quinto capítulo traz a discussão sobre o tempo histórico em Ricoeur, Koselleck e nos Annales. O historiador tem interesse no temporal, na alteridade humana, não deseja conhecer o que está fora do tempo, o que não muda, deseja sim, conhecer a mudança, logo o tempo da história seria um terceiro tempo. Para Ricoeur, o tempo histórico refere-se à vida humana e o calendário é indispensável, pois é ele que numera e em cada marca dessa numeração existiu um homem individual (social). Outro conceito é o de geração, trata-se de vida compartilhada. O tempo histórico representa permanência de gerações e seqüência de gerações. A terceira conexão são os vestígios, os arquivos, pois as gerações deixam sinais, marcas, que são buscadas pelo historiador. Koselleck critica o conceito de tempo calendário, mas não o descarta, advertindo para o conhecimento interior do mundo humano, a idade interna de uma sociedade, ou seja, a relação estabelecida entre seu passado e seu futuro. Na perspectiva dos Annales, o tempo histórico é estrutural – influência das Ciências Sociais que compreendiam o tempo como “estrutura social” – existindo a recusa da mudança, em favor do modelo, da quantidade, da permanência. A influência foi o aparecimento na história do mundo mais durável, mais estrutural (estruturas econômicas, sociais, mentais), de movimentos lentos, com desaceleração das mudanças, e é justamente o conceito de “longa duração” que permitiu maior consistência ao terceiro tempo do historiador.

O sexto e último capítulo é dedicado à contribuição de Dilthey para a história, que, aliás, é considerado como o pensador que “redescobriu a história”. Dilthey é associado ao historicismo, embora seja difícil enquadrá-lo em algum rótulo. Ele estaria entre um historicismo romântico e um epistemológico por buscar compreender o homem enquanto ser histórico, compreender a alteridade e todos os aspectos da vida de um povo; a história em Dilthey é mudança e o que permanece é compreensão, comunicação entre homens diferentes, sendo o homem “experiência vivida” e a verdade, o processo histórico.

No contexto do século XIX, Dilthey apontou o caminho da história, da vida, tendo por missão da história “apreender o mundo dos homens através do estudo das suas experiências no passado” (p. 241). Reis diz que em Dilthey filosofia e história estão unidas. Talvez esse fato tenha cativado nosso autor a ponto de despertar tanto seu interesse por Dilthey.

De fato, Reis cativa o leitor com sua narrativa, sua exposição, sua paixão pela teoria. Este livro é mais uma referência obrigatória a todos que se preocupam em pensar o papel da teoria na contemporaneidade; ele incita os historiadores ao conhecimento dos paradigmas atuais das ciências sociais. Se José Reis pretendia com este livro, “fazer circular, renovar, estimular e transmitir cultura” (p. 13), parece-nos que ele conseguiu!

Nota

1 Resenha publicada originalmente na revista eletrônica CANTAREIRAS, da Universidade Federal Fluminense.

Mauro Dilmann 1 – Mestrando em História UNISINOS – Universidade do Vale do Rio dos Sinos. São Leopoldo, RS. E-mail:  maurodillmann@terra.com.br

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O Brasil no discurso da antropologia nacional | Mônica Thereza Soares Pechincha

Resenhista

Leandro Mendes Rocha – Professor do Departamento de História da Universidade Federal de Goiás.

Referências desta Resenha

PECHINCHA, Mônica Thereza Soares. O Brasil no discurso da antropologia nacional. Goiânia: Cânone Editorial, 2006. Resenha de: ROCHA, Leandro Mendes. Cultura nacional e identidade. História Revista. Goiânia, v.11, n.2, p.401-402, jul./dez.2006. Acesso apenas pelo link original [DR]

China: Infra-estruturas e crescimento econômico | E. Jabbour

Trata-se da dissertação de mestrado do autor, publicada com pequenas alterações de texto e formato. O assunto, a economia chinesa, tem-se mostrado cada vez mais relevante na pauta de assuntos ligados à Economia e à História contemporâneas. O mercado editorial doméstico tem, em concordância com essa demanda, inundado as prateleiras das livrarias especializadas com títulos abordando o desempenho e as razões deste para a China, que adentra o século XXI como um país verdadeiramente emergente no cenário internacional, uma economia interna que mantém as maiores taxas de crescimento mundiais, e um parceiro comercial temido e desejado.

Como em todo boom editorial, a qualidade das obras é bastante heterogênea, com títulos realmente informativos e, por outro lado, livros que, ao refletirem pouco além do senso comum ou de pontos específicos de marketing internacional estadunidense (como no caso das traduções), praticamente deixam o leitor no mesmo lugar de onde o retiraram no início. Seria o caso deste livro? Leia Mais

O Renascimento do Império | Claudia Trevisan

Saiu pela editora Planeta do Brasil o relato da jornalista Cláudia Trevisan sobre sua viagem e permanência na China. Trata-se de obra de cunho jornalístico e, assim, pouco rigorosa, do ponto de vista da análise social e econômica. Mas num contexto onde uma visita à China é difícil, e as informações escassas, mesmo a aparente pouca objetividade do relato biográfico é uma fonte valiosa para a pesquisa social.

O objetivo da autora é revelar informações e impressões que teve no período em que viveu na China. Logo, são as informações que o livro traz as que mais importam para a discussão sócio-econômica da China atual, e não a estrutura da obra propriamente dita, ou suas idéias e teses, explícitas ou subjacentes. Uma seqüência de capítulos da primeira das oito partes do livro é: “Cerimônias em alta, casamentos em baixa; Os esquecidos; A língua; Xangai; Beleza Artificial”. Isto é, faz-se uma miscelânea, lançando-se mão de curiosa diagramação: os capítulos mais formais, com informações sociais e econômicas, esto em formatação comum; os capítulos com relatos sobre costumes, cultura etc., estão em itálico. Leia Mais

Uma associação para a tecnologia brasileira: Abipti 25 anos | Shozo Motoyama, Paulo Queiroz Marques e Maria Anglélica Rodrigues Quemel

Shozo Motoyama, Paulo Queiroz Marques e Maria Angélica Rodrigues Quemel prestam um importante serviço à documentação e historiografia sobre o desenvolvimento da tecnologia no Brasil da segunda metade do século XX ao reunir documentos, depoimentos e informações diversas sobre a formação da Abipti.

A Associação Brasileira de Instituições de Pesquisa Tecnológica (Abipti), criada no início dos anos 1980 com o intuito de representar as instituições de pesquisas em tecnologia, demonstrou ao longo de 25 anos, mesmo em situações de turbulências econômicas, autonomia frente às autoridades governamentais, negociando e mostrando aos mesmos, as reais necessidades de fomento de pesquisa e inovação na área tecnológica. Leia Mais

Représentations des Noir(e)s dans les pratiques discursives et culturelles em Caraïbes | Victorien Lavou Zoungbo

A obra Représentations des Noir(e)s dans les pratiques discursives et culturelles en Caraïbes editado por Victorien Lavou Zoungbo, Coordenador do Grupo de Etudes sur lês Noirs d´Amérique Latine (GRENAL), editada no ano de 2006 em Perpignan, France, reúne vários autores com artigos sobre os negros como sujeitos históricos em Cuba, Costa Rica, Colômbia, México, Argentina e Brasil. No prólogo o editor destaca as dificuldades para escrever sobre representações negras quando existem estereótipos, ideologias que dominam esses discursos. A análise dos autores que trabalham com a temática passa pela desconstrução dos discursos, transformando-se em um complicador para o especialista.

Nos primeiros quatro artigos da coletânea, três desenvolvem suas idéias em torno ao conceito transculturação de Fernando Ortiz.

A cubana Nancy Morejón defende a atualidade do conceito em “Para una poética de los altares”, no entanto, este é criticado pelas autoras Danielle Ada Ondo em “De la transculturation dans Paradiso de José Lezama Lima et dans Lês três tristes tigres de Guillermo Cabrera Infante” e Amandine Semat em: ”Identities dans la Caraïbe, transculturation et creolisation: Points de repére”. Apoiados nos ensaios e conceitos de Edouard Glissant, as autoras assinalam o caráter fixo do conceito transculturação e sua familiaridade com um outro conceito muito criticado na obra, mestiçagem.

Este último tem servido para ocultar a historicidade do negro e também para mascarar as teorias do branqueamento, O artigo de Victorien Lavou Zoungbo, ”Représentations identitaires e creolisation en Caraïbe” questiona as construções do Caribe pelos latinoamericanistas brancos que procuram ocultar a presença histórica do negro. Destaca o conceito crioulização face a mestiçagem e crioulidade. Para o autor este conceito permite estudar a relação afastando-se dos enfoques generalizantes e extremos, tanto o da latinidade quanto o da negritude. Faltou, porém, explicitar melhor esta questão tão debatida e que resulta de grande interesse para o Brasil, cuja identidade caribenha é reconhecida por todos os autores do volume. A neo América, sustantivo utilizado por Glissant, é a Afro América ou o Caribe, que abrange Brasil, as Guianas, Colômbia, Venezuela, uma grande parte de América Central e de México, sul de Estados Unidos, além das ilhas.

Cinco artigos estudam o espaço do negro em Costa Rica: “Sur le ritme d´ un calypso, analyse du roman Calypso de la costariciense Tatiana Lobo (1996)” de Brigitte Robert; “Manuels scolaires de lecture au Costa Rica: pratiques et enjeux de la représentation dês Noir(e)s”, de Marlene Marty; “Los cuatro espejos de Quince Duncan et Limon blues d´Ana Cristina Rossi ou une double recherche identitaire dês noirs constariciens” de Mariannick Guennec; “Medición com referencia a normas: declaracion pública de un naufrágio educativo” de Lady Meléndez Rodríguez e “Limon blues: Uma novela de Ana Cristina Rossi” de Iván Molina Jiménez. Todos estes artigos recriam a ausência dos negros de Limón, Costa Rica, na literatura e ne historiografia. Alguns estudam o papel da educação formal no processo de estigmatização, na marginalização e na reprodução da pobreza nestas comunidades caribenhas. Mais grave ainda, é a submissão destas populações à violência simbólica imposta pelo estado através da educação formal. Não é aceita pela escola pública a língua creole materna e que é a única usada para a comunicação nas comunidades negras de Limón. Outros autores estudam através de alguns romances históricos, a situação de exclusão dos negros, carentes de direitos cidadãos. Outro aspecto contido nos estudos citados é a invisibilidade a que ficam submetidos os povos que morão na região quando apenas se estuda a geografia da costa Atlântica de Costa Rica nos textos escolares.

Outros dois artigos estudam o Haiti desde visões diferentes.

O primeiro de Sabine Manigat “Se nommer, se qualificar-affirmation et alienation dans parler em Haiti une lecture historique” e ‘Le noir haitien dans la societé dominicain: l´exemplo da “Corte” de Milka Valentin-Humbert. Os conceitos negro e haitiano, segundo as autoras, têm servido de mola unificadora e de agente de ocultação da diferenciação no Haití. As definições em base a cor da pele, no Haiti, são eminentemente políticas porque marcaram as representações sociais. As imagens e a linguagem traduzem também a imagem auto-degradante que os discursos nascidos no Haiti, durante a luta pela independência, tentaram destruir. Essas permanências estão relacionadas às representações degradantes do negro, criadas no vizinho país, vinculando raça e nação. Os dominicanos negam qualquer herança africana na sua formação. Por sua parte, o trabalhador haitiano internalizou que o fenótipo predispõe a exploração, sem atender à presença de profundas diferenças sociais entre os haitianos, sejam de uma ou outra cor.

Juliette Smeralda em “L´interculturalidade comme strategia d´ascension sócio racial: l´exemplo du choix de partenaire féminin de l´homme noir” relaciona a criação das construções da inferioridade do negro ao colonialismo A presença das culturas afros em dois carnavais o de Barranquilla (Colômbia) e o de Salvador (Brasil) evocam os quilombos e a religiosidade, segundo as autoras Martha Lizcano e Joseania de Freitas no artigo “Afro carnaval no Caribe: Barranquilla (Colombia) e Salvador (Brasil)”; Rafael Perechalá Alumá no artigo “La salsa: síntesis de la música afroamericana” resgata a afroamericanidade do ritmo e atribui sua decadência aos controles exercidos por alguns grupos no exílio cubano. Em “Afromexicanité: quelques pieste pour une nouvelle lecture dês identités au Méxique” Sébastien Lefevre se utiliza do conceito traços-memória de Glissant para abordar a presença afro nas comunidades de Costa Chica no México. Entretando, o autor rejeita a idéia de um novo resultado, uma outra cultura, a mestiça responsável da invisibilidade das culturas afros. A leitura do romance “El interprete: sous lê signe du blanc et du noir” permite a Maryse Renaud-Mai penetrar no estudo das relações raciais na Argentina do século XIX e da herança negra que vislumbra-se não apenas no tango. A peculiaridade da discriminação racial no Brasil é estudada no artigo “Violência racial a subjetividade em discussão” de Nara Corte Andrade e Marcus Vinicius de Oliveira Silva.

E por último a maneira de épilogo, uma argumentada crítica ao antropólogo cubano Fernando Ortiz e ao seu conceito culinário ajiaco é desenvolvida por Victorien Lavou Zoungbo no artigo “Metaphore culinaire et discours sur l’ìdentité em Caraibe, um ethnocentrisme naturalisé. Lê cãs de F Ortiz à Cuba. Um état de la reflexion du GRENAL (instituição que agrupa a estudiosos sobre a temática afro americana.).

A obra no seu conjunto é de indispensável consulta para os estudiosos das temáticas afroamericanas.

Olga Cabrera


LAVOU ZOUNGBO, Victorien. (Ed.) Représentations des Noir(e)s dans les pratiques discursives et culturelles em Caraïbes. Perpignan: GRILAUP – Presses Universitaires de Perpingan, 2006. Resenha de: CABRERA, Olga. Revista Brasileira do Caribe, São Luís, v.7, n.13, jul./dez., p.289-292, 2006. Acessar publicação original. [IF]

Revolução e Reforma | Vladimir Pomar

Apesar dos avanços recentes, boa parte da sociedade e da academia brasileira ainda possui um profundo desconhecimento ou distanciamento em relação à América Latina. Apesar da (suposta) especificidade brasileira, tal desconhecimento se relaciona ao distanciamento histórico de nosso país em relação à região alicerçado em diversas causas (políticas, econômicas, culturais, geopolíticas, …) que se acumularam ao longo do tempo.

Isto gerou o que Francisco de Oliveira denomina, para pensar tal relação, de “Fronteiras Invisíveis” que sempre foram mais sutis, profundas e efi cazes que as fronteiras oficiais1.

No caso de Cuba, além dos aspectos acima mencionados, e apesar do aparente número de publicações, tal desconhecimento é evidente e reforçado pelas barreiras ideológicas, a “eterna guerrafria”, que dificulta o desenvolvimento de análises objetivas, amplas e complexas da sociedade cubana contemporânea com suas características específicas, seus avanços e contradições, seus dilemas e desafios.

conhecimento da ilha caribenha e sua atualidade. Tal obra é parte da “Coleção Nossa América Nuestra2” da Fundação Perseu Abramo que, além da referência ao grande líder cubano José Martí e sua perspectiva latino-americana, pretende superar o desconhecimento e a escassa bibliografi a sobre a região e realizar um balanço sobre o denominado “ciclo progressista” na região em que conviveram os governos Lula e Dilma (Brasil), Chávez e N. Maduro (Venezuela), Evo Morales (Bolívia), Néstor e Cristina Kichner (Argentina) e Tabaré Vásquez e Pepe Mujica (Uruguai), Rafael Correa (Equador), Daniel Ortega (Nicarágua) e Mauricio Funes e Salvador Sánchez Cherén (El Salvador), além de Raul Castro (Cuba), dentre outros.

Desta forma, como mencionado na introdução do livro: “A coleção Nossa América Nuestra integra um programa de estudos e pesquisas mais amplo da Fundação Perseu Abramo (FPA), que visa reunir e produzir dados, análises e interpretações sobre os processos e signifi cados do que se convencionou chamar de “ciclo progressista” na América Latina. Deste programa participam estudiosos com longa trajetória acadêmica, profissional e/ou militante em relação à conjuntura da América Latina e Caribe. A Fundação pretende, assim, fomentar a investigação das dimensões políticas, sociais, econômicas e culturais desse processo, em cada país e na região tomada como um todo, avaliando também suas implicações geopolíticas, seja no que se refere aos projetos de integração regional, seja no que tange a sua inserção na ordem internacional” (POMAR, 2016, p. 11).

O livro sobre Cuba de Vladimir Pomar, jornalista, filho de comunistas e militante político com larga trajetória (atuou no PCB, PC do B e PT) e com uma produção expressiva voltada para a análise da China contemporânea, para a reflexão sobre a teoria e a prática de construção do socialismo e, finalmente, para o conhecimento da história do Brasil e da esquerda brasileira.

Esta obra procura compreender as características e impasses do processo revolucionário cubano, principalmente depois da queda do bloco soviético, pois como aponta na introdução: A partir daí, até 1998, Cuba fez um esforço sobrehumano para sobreviver ao naufrágio do socialismo de tipo soviético no contexto de uma forte ofensiva mundial de caráter neoliberal. Esse período, que os cubanos chamam de “especial”, foi suportado sem mudanças signifi cativas. Tal “modelo soviético” permaneceu mesmo quando a situação interna teve certa melhora, o que ocorreu quando emergiram governos progressistas e de esquerda na América Latina. No entanto, tendo em conta as difi culdades enfrentadas internamente pelos cubanos, a crise no mundo capitalista desenvolvido, a emergência da China e do Vietnã como países socialistas em forte desenvolvimento, bem como a transformação de antigas semicolônias africanas e asiáticas em países em processo de desenvolvimento industrial, fi cou evidente que o modelo de construção socialista em Cuba precisava de profundas reformas para enfrentar os novos desafi os nacionais e internacionais. Os debates sobre essas reformas, que os cubanos têm chamado de “atualização”, parecem representar uma retirada estratégica no contexto dos impasses da emergência progressista na América Latina, África e Ásia, do surgimento da China como país socialista de mercado e como grande potência econômica, da crise capitalista internacional e do reordenamento das relações com os Estados Unidos (POMAR, 2016, p. 19).

O livro, apesar de se constituir num estudo introdutório, possui inúmeros méritos que podem ser destacados. Em primeiro lugar, apresenta um excelente balanço histórico dos dois últimos séculos da história do país e da situação atuação do processo revolucionário cubano, apontando os efeitos da incorporação do modelo soviético, que se constitui numa herança que ainda continua difi cultando o desenvolvimento cubano e seu processo de atualização do modelo. Além disto, o trabalho apresenta, ainda que brevemente, os principais traços do debate cubano contemporâneo, discutindo as opções políticas e econômicas que são discutidas pelas lideranças e intelectualidade cubana, considerando diversos modelos para a sobrevivência, a renovação e o aprimoramento do socialismo cubano. Ainda, apresenta os elementos principais da aproximação com EUA, mostrando sua dinâmica e os desafi os para que a normalização das relações realmente ocorra e suas possíveis implicações para o destino do país. Finalmente, outro mérito da obra, refere-se a apresentação de documentos em anexo que, apesar de poucos, nos fornecem uma perspectiva interessante para refl etir sobre as origens, o desenvolvimento e o momento atual do processo revolucionário cubano com trechos de discurso de Raul Castro e trechos da obra de Juan Valdés Paz sobre as mudanças institucionais em curso, além de trechos das obras de José Martí, Fidel Castro, Charles Bettheleim e Ernest Mandel.

O trabalho também é importante pois ao refletir sobre os dilemas atuais que enfrenta tal processo e as ações que desenvolve conclui que: Em termos gerais, trata-se de realizar uma retirada estratégica do socialismo totalmente estatista para um socialismo de transição nacional em que o capitalismo, sob o comando do Estado socialista, deve contribuir para o desenvolvimento das forças produtivas e esgotar seu papel histórico em condições em que o mercado não seria totalmente burguês. Na União Soviética e no Leste Europeu essa retirada não chegou a ser realizada e o sistema socialista de tipo soviético afundou no mar do soerguimento do capitalismo. Na China e no Vietnã, cada um com suas características nacionais próprias, a retirada estratégica continua em curso, com os riscos e perigos que todo tipo de retirada envolve. Cuba parece haver sustentado o socialismo de tipo soviético até seus limites (…) (POMAR, 2016, p. 94).

Apesar dos aspectos acima destacados, o trabalho apresenta, mesmo considerando o espaço limitado e a amplitude das questões envolvidas, algumas limitações que, embora não prejudiquem sua qualidade, podem ser observadas. Em primeiro lugar, os dados apresentados não estão atualizados e alguns indicadores (crescimento econômico, desemprego, turismo, migração, indicadores de desigualdade, dentre outros) já possuem números mais recentes e alguns podem ser acessados no site da Ofi cina Nacional de Estatística e Informação (ONEI) ou da Comissão Econômica para a América Latina (CEPAL). No que se refere à luta revolucionária e a construção do socialismo, algumas dimensões (como a cultura, o debate econômico envolvendo Che Guevara) importantes foram marginalizadas e o papel das organizações revolucionárias deve ser analisado com cuidado, pois novos estudos tem rediscutido tal questão.

Neste sentido, também se destaca a ausência de algumas questões, relacionadas ao ciclo progressista, como a questão racial e mesmo a transparência e abertura do Estado á população.

Além disto, o texto, em certos momentos, faz uma generalização excessiva (POMAR, 2016, p. 71) e não consegue nomear certos autores que seriam importantes para todo leitor (POMAR, 2016, p.66 e 67). Por fi m, não consegue se aprofundar algumas críticas, como a relação entre Estado e propriedade privada, a relação com a Venezuela (e em que medida reproduziu o “modelo soviético”) e, mais complexo, a viabilidade (ou não) dos diversos aspectos (quais?) do socialismo cubano.

Em suma, trata-se de uma análise importante que, no entanto, somente pode ser compreendida com o aprofundamento de certas questões e a superação da “ilusão do progressismo e do socialismo do século XX” e deve ser lida, como todo bom trabalho, como um convite à refl exão, sem ufanismo. Ou seja, em tal etapa e considerando as especifi cidades de cada nação certamente ocorreram avanços em diversos planos (diminuição da desigualdade, maior autonomia no cenário internacional e fortalecimento da integração regional, crescimento econômico, melhoria de indicadores sociais, empoderamento de certos grupos, indígenas, por exemplo, dentre outros), no entanto, estas e outras transformações estruturais não podem ser tomadas como consolidadas ou nos induzir a pensar que a América Latina encontrou, fi nalmente, o caminho de democracia, desenvolvimento e justiça social. Há um longo caminho a percorrer e Cuba, assim como a esquerda, deverá se reinventar para tal processo tenha continuidade ou se aprofunde.

Finalmente, convém destacar que tal coleção é fundamental para todo leitor interessado em América Latina e que, embora incompleta, já nos fornece um quadro amplo e profundo da dinâmica e dos desafi os políticos contemporâneos na região.

Neste sentido, como mais um esforço para a superação das “fronteiras invisíveis”, já mencionadas, pode contribuir para uma efetiva refl exão (um “descobrimento”) e engajamento tornandose, portanto, leitura fundamental para todo latino-americano e para a construção de “Nuestra América” com desenvolvimento, justiça e igualdade. Boa Leitura!

Notas

1 Como aponta Oliveira: “A sugestão do título deste ensaio é de que fronteiras invisíveis entre o Brasil e América Latina sempre foram mais efi cazes para a falta de intercâmbio que as fronteiras ofi ciais. Terão perdido efi cácia tais fronteiras invisíveis? Parece que foram substituídas pela globalização como a nova fronteira, invisível, mas bem presente. (…) Enfim, num mundo de crescente complexidade, o projeto latinoamericano ainda não conseguiu se construir como outro pólo de poder, economia e cultura. Continuamos a erguer entre nós fronteiras invisíveis” (Oliveira, Francisco de. Fronteiras Invisíveis. In: Oito Visões sobre a América Latina. Adauto Novaes- org. São Paulo: Editora Senac, 2006, pgs. 23-48).

2. Além do livro sobre Cuba foram lançados os seguintes títulos: Bolívia de Igor Fuser, professor da Universidade Federal do ABC; Chile de José Renato Viera Martins, professor da Unila e presidente do FOMERCO; e Uruguai de Silvia Portela, socióloga e assessora de Relações Internacionais. Em breve serão lançados novos volumes discutindo outros países. Todos estão disponíveis no site da fundação: http://novo.fpabramo.org.br.

Marcos Antonio da SilvaUniversidade de São Paulo, USP, São Paulo, Br.


POMAR, Vladimir. Cuba: Revolução e Reforma. São Paulo: FPA, 2016. Resenha de: SILVA, Marcos Antonio da. Revista Brasileira do Caribe, São Luís, v.17, n.33, p.227-232, jul./dez., 2006. Acessar publicação original. [IF]

Quaternário do Brasil – SOUZA et al (Ge)

SOUZA, C. R. G. et al. (Ed.). Quaternário do Brasil. Ribeirão Preto: Holos, 2005. 378p. Resenha de: VALADÃO, Roberto Célio. Geografias, Belo Horizonte, v.2, n.2, p.123-126, jul./dez., 2006.

A segunda metade do século XX assistiu ao recrudescimento de esforços da ciência na sistematização de seus saberes com vistas à sua aplicação na prevenção e mitigação de problemas de ordem ambiental. As décadas de 198 0 e 199 0 foram especialmente profícuas nesse contexto, inclusive no Brasil. Os diversos ramos da ciência despertaram, de forma consciente, para as crises ambientais em suas mais diversas perspectivas escalares e temporais. Esse despertar revelou-se, de início, por meio do engajamento e do compromisso social de diferentes saberes científicos ainda hermeticamente fechados em si mesmos para, mais tarde – particularmente ao final dos anos de 199 0 –, dar-se conta da urgência na adoção de procedimentos metodológicos e na aquisição de conhecimentos advindos de outros campos do saber. As abordagens inter- e transdisciplinares, até então meramente filosóficas, ganharam terreno na prática de uma multiplicidade de especialistas, que passaram a se unir em torno de interesses comuns de forte demanda social.

Iniciava-se a materialização da sonhada integração de saberes e abordagens, em grande parte até então suprimida mediante especialização extrema, embora necessária, da ciência.

A obra intitulada Quaternário do Brasil, publicada sob os auspícios da Associação Brasileira de Estudos do Quaternário (ABEQUA), tem por mérito a iniciativa de congregar grande número de especialidades em torno de objeto comum: nossa própria casa, a Terra. As obras até então publicadas no país a respeito do Quaternário vinculam-se, em sua maioria, com abordagens e bases referenciais teóricas oriundas de leque bastante reduzido de disciplinas. Na obra em perspectiva, somam-se esforços não só de geocientistas – geólogos e geógrafos – como também de biólogos, engenheiros, agrônomos, antropólogos e oceanógrafos, dentre outros. Esses esforços resultaram na publicação de obra até então inédita no país, ao congregar reflexões e sínteses resultantes da intensa atividade dos principais e mais consolidados grupos de pesquisa quaternarista nacionais.

As temáticas abordadas na obra são apresentadas em 17 capítulos, cuja autoria é bastante diversificada e, mais ainda, plural no que se refere à especialidade de seus autores. O Capítulo 1 – a Introdução – apresenta as generalidades do arcabouço geológico no qual o território brasileiro está inserido: o continente sul-americano.

É de interesse desse capítulo apresentar as grandes linhas estruturais e as megaunidades morfológicas a elas associadas, com destaque para os depósitos e as formas do Quaternário. O Capítulo 2 apresenta elementos para discussão da variabilidade e das mudanças climáticas ocorridas durante o Quaternário no Brasil. Para tanto, enfatiza o papel da dinâmica atmosférica no contexto das mudanças climáticas, com recorte espacial que permite, inclusive, a discussão sobre aspectos dinâmicos do clima e seus impactos regionais no território brasileiro. Trata, em abordagem final, da simulação matemática do clima aplicada sob a perspectiva não só da espacialidade mas, sobretudo, da temporalidade.

Uma vez lançadas as bases para a compreensão da dinâmica climática e paleoclimática verificada no país – Capítulo 2 –, o Capítulo 3 aborda a paleovegetação e os paleoclimas do Quaternário do Brasil.

Seus autores discorrem a respeito dos resultados procedentes do desenvolvimento e da aplicação de técnicas palinológicas em materiais obtidos em registros sedimentares, bem como sobre seu significado e sua contribuição na compreensão do complexo padrão de alterações das diferentes formações vegetais brasileiras decorrentes das mudanças climáticas globais e do antropismo desencadeado no Quaternário Tardio. A reconstrução de paleoambientes quaternários no Brasil tem sua continuidade de análise no Capítulo 4, a partir de indicadores decorrentes da aplicação de estudos dos isótopos de carbono e de seu emprego simultâneo com a antracologia e a palinologia de sedimentos lacustres.

A geologia e a geomorfologia das regiões costeiras no Brasil são objeto de discussão nos capítulos 5, 6, 7, 8 e 9. No Capítulo 5 é apresentada síntese histórica e evolutiva dos conhecimentos a respeito das regiões costeiras de alguns estados brasileiros e dos fatores que condicionaram a sua evolução, ligados, de um lado, à geodinâmica global – tectônica de placas, clima e variações do nível do mar – e, de outro, à dinâmica costeira – ação de ondas, marés, correntes litorâneas e tempestades. A par dessa síntese os autores desse capítulo procuram demonstrar que as planícies costeiras, no Brasil, têm se comportado, nos últimos séculos, como costas de recuo afetadas por processos de submersão e/ou erosão.

O Capítulo 6, de modo complementar às abordagens introduzidas no capítulo anterior, trata dos paleoníveis do mar e das paleolinhas de costa verificadas na região costeira do Brasil. As reconstruções paleogeográficas apresentadas nesse capítulo são balizadas por numerosas datações de radiocarbono. A erosão costeira atual, particularmente aquela verificada em praias arenosas, é objeto de análise do Capítulo 7, no qual os autores buscam caracterizar o sistema praial, bem como reconhecer seus processos costeiros modeladores e sua morfodinâmica. Apresentam, ainda, síntese acerca dos indicadores de erosão costeira, contemplando suas causas e seus efeitos e os processos a ela associados, para, em seguida, discorrerem a respeito de métodos de proteção, contenção e recuperação de praias. O Capítulo 8, que encerra as discussões mais pormenorizadas das regiões costeiras brasileiras, aborda a oceanografia geológica e geofísica da Plataforma Continental Brasileira. Essa megafeição da margem continental é analisada com ênfase nos seus processos dinâmicos, no transporte sedimentar, no relevo e na composição do fundo marinho atual. Os principais métodos geológicos, geofísicos e oceanográficos utilizados na investigação da plataforma continental são apresentados e discutidos.

A microfauna recente das regiões costeiras é foco de análise do Capítulo 9, o qual traz significativa exposição e síntese dos resultados das principais contribuições sobre foraminíferos, tecamebas e ostracodes encontrados no Brasil – seus padrões de distribuição em diferentes ecossistemas e províncias biogeográficas e suas principais espécies bioindicadoras.

Os demais capítulos da obra – capítulos 10 a 17 – tratam de feições e fenômenos de interesse dos estudos do Quaternário que têm lugar, sobretudo, no interior continental do país. A neotectônica da Plataforma Brasileira é objeto de análise no Capítulo 10, no qual os autores abordam, de início, aspectos conceituais de relevante interesse para a temática – neotectônica, sismotectônica e morfotectônica –, como subsídio às discussões acerca da mobilidade litosférica recente verificada nas regiões Nordeste, Sudeste, Sul, Norte e Centro-Oeste do país.

A neotectônica da região costeira é também tratada, com destaque para a importância dos processos de sedimentação do Grupo Barreiras. O capítulo é finalizado com discussão acerca dos campos de tensões neotectônicos e do mapa da neotectônica do Brasil.

Aos campos de dunas livres e dunas vegetadas que ocorrem no Brasil é dedicado o Capítulo 11. Seus autores apresentam detalhada caracterização dos depósitos eólicos ativos brasileiros, sua classificação, distribuição espacial e, mais ainda, seu significado frente à evolução quaternária de algumas áreas litorâneas e interiores. A análise dos processos, produtos e agentes morfogenéticos continentais tem continuidade no Capítulo 12, o qual, referindo-se ao interior continental, enfatiza a relação entre as formas da paisagem e os depósitos quaternários, particularmente por meio do emprego de abordagens morfo- e aloestratigráficas que subsidiam a compreensão da evolução de encostas e vertentes. Técnicas e métodos empregados pela cartografia são discutidos como instrumentos da gestão ambiental, notadamente naqueles recortes espaciais em que os processos e os produtos morfogenéticos têm papel fundamental. A geologia, a geomorfologia e a paleo-hidrologia de grandes sistemas fluviais brasileiros são apresentadas e discutidas no Capítulo 13, cujo foco recai essencialmente sobre a evolução quaternária das mais importantes bacias hidrográficas brasileiras – Amazonas, Paraná, Paraguai, Tocantins-Araguaia, Uruguai e São Francisco –, seus depósitos sedimentares e as morfologias fluviais associadas às calhas de seus eixos de drenagem principais.

O Capítulo 14 realiza estudo geoquímico de sedimentos e solos ao propor uma análise multielementar na caracterização de uma região qualquer, realçando a compreensão da interação espaciotemporal entre sua herança natural e a interferência antrópica a ela imposta. São apresentados e discutidos alguns estudos de caso em que a geoquímica multielementar foi utilizada como ferramenta, com destaque para algumas áreas na Amazônia, no Rio Grande do Norte, no Distrito Federal, no Quadrilátero Ferrífero e na Bacia Hidrográfica do Paraná.

Uma vez que as feições superficiais e subterrâneas que integram os ambientes cársticos têm sua gênese e evolução associadas ao Quaternário, a obra reserva seu Capítulo 15 para discussão desses ambientes no Brasil.

São discutidos, a partir de estudos de caso diversos, o controle estrutural e tectônico da carstogênese, sua evolução morfopedológica e o contexto paleoambiental no qual estiveram inseridos.

O Capítulo 16 traz, de início, o debate e a aplicabilidade dos modelos paleoambientais comumente empregados pela arqueologia como subsídio à compreensão do processo de ocupação do território brasileiro desde o Pleistoceno terminal. Em seguida, os autores discutem o histórico da ocupação humana no Brasil durante o Holoceno, quando os sambaquis e os sambaquieiros passaram a desempenhar papel fundamental.

Os registros da ação geológica do homem têm continuidade de abordagem no último capítulo da obra – Capítulo 17 –, voltado para os estudos do Tecnógeno. São apresentados alguns estudos de caso sobre o Tecnógeno no Brasil, com destaque para o oeste do estado de São Paulo, a Região Metropolitana de São Paulo, o Vale do Paraíba do Sul, a zona urbana de Goiânia e a região da Chapada Diamantina (BA).

Ao final da leitura do livro em perspectiva, certamente se conclui por sua grande relevância, em razão de seu conteúdo e de sua abordagem interdisciplinar imprimirem a ele valor como obra de referência. Quaternário do Brasil é obra que devidamente preenche os requisitos necessários para figurar no acervo bibliográfico das principais instituições de pesquisa e ensino das geociências no país. É guia seguro para pesquisadores e, sem dúvida alguma, para discentes de graduação e pós-graduação, tendo em vista a clareza conceitual emitida por seus autores, a seqüência lógica na estruturação de suas temáticas, a seleção precisa de seus estudos de caso e a expressividade de suas ilustrações.

Roberto Célio Valadão – Professor do Departamento de Geografia do Instituto de Geociências, UFMG.

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La Mer, la france et l´Amérique Latine | Christian Buchet

BUCHET, Christian; VERGÉ-FRANCESCHI, Michel (Dir.). La Mer, la france et l´Amérique Latine. Paris: PUPS, 2006. Resenha de: RIBEIRO, Marília de Azambuja. CLIO – Revista de pesquisa histórica. Recife, v.24, n.2, p.333-336, jul./dez. 2006.

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Operários de uma vinha estéril: os jesuítas e a conversão dos índios no Brasil – 1580-1620 | Charlotte de Castelnau-L’Estoile

Em maio de 1583 dois padres vindos de Lisboa” desembarcaram em Salvador da Bahia. Eram eles Cristóvão de Gouvêa, encarregado pelo Geral da Ordem Jesuíta, o italiano Claudio Acquaviva, de visitar a Província do Brasil, e o jovem Fernão Cardim, seu companheiro e secretário. Por essa época, encerrava-se a primeira fase da história da Companhia, o tempo heróico da fundação, e ingressavase na era da redefinição de sua administração, pois o generalato de Acquaviva (1581-1615) seria marcado pelo esforço central da Ordem por ‘regularizar’ e unificar “as práticas intelectuais, espirituais e administrativas das diferentes províncias, ou seja, a da ação missionária na periferia, em busca da afirmação de uma identidade jesuíta” (p. 20). Leia Mais