Luís Carlos Prestes: um revolucionário entre dois mundos – REIS FILHO (RBH)

REIS FILHO, Daniel Aarão. Luís Carlos Prestes: um revolucionário entre dois mundos. São Paulo: Companhia das Letras, 2014. Resenha de: SALES, Jean Rodrigues. Revista Brasileira de História, São Paulo, v.35, n.69, jan./jun. 2015.

Luís Carlos Prestes nasceu em janeiro de 1898 e morreu em março de 1990. Em sua longa vida, participou de momentos marcantes da história do país e das esquerdas em particular. Nos anos 1920, foi um dos líderes do movimento que percorreu o Brasil em oposição ao governo Artur Bernardes e à forma de organização do regime republicano. Nos anos 1930, passou longo período na União Soviética, onde aderiu definitivamente ao comunismo e pavimentou sua entrada no Partido Comunista Brasileiro (PCB). Após retornar ao Brasil, participou da chamada Intentona Comunista, em 1935. Derrotado o movimento, esteve preso por vários anos, até emergir na segunda metade dos anos 1940, liderando um revigorado PCB após o final da guerra.

Com o governo Dutra, enfrentou nova fase de perseguições a partir da cassação do registro do PCB e nova imersão na clandestinidade. Do final dos anos 1950 até o golpe de 1964 viveu, com o PCB, os anos intensos da conjuntura dos governos Juscelino Kubitschek e Jânio Quadros, a renúncia deste e a conturbada posse de João Goulart. Entre 1961 e 1964, esteve presente nos debates sobre as Reformas de Base e outros projetos de desenvolvimento do país. Após o golpe, viveu novo e longo exílio na União Soviética, de onde acompanhou e foi protagonista da crise orgânica do PCB. De volta ao Brasil, em 1979, até a sua morte, participou, direta ou indiretamente, dos grandes eventos da redemocratização. Em linha geral, teve um posicionamento crítico ao PCB, aos partidos de esquerda e à chamada Nova República.

Pela dimensão da participação de Prestes nos eventos aqui sumariamente arrolados, poderíamos nos perguntar sobre a viabilidade de se escrever uma biografia completa sobre sua trajetória pessoal e política nesse quase um século de existência. As dificuldades colocadas para um empreendimento dessa natureza podem explicar o fato de o livro Luís Carlos Prestes: um revolucionário entre dois mundos ser o primeiro a assumir essa tarefa.1

Para dar conta da complexidade do longo período estudado, Daniel Aarão Reis dividiu a trajetória de Prestes em três grandes conjunturas, demarcadas por eventos políticos mais amplos e pela história de Prestes no interior do PCB: a primeira seria de 1898 a 1935; a segunda, de 1936 a 1964, e a terceira, de 1964 a 1990.

Além do próprio mérito de biografar uma figura representativa da história da esquerda brasileira no século XX, o livro tem seu ponto mais forte na utilização de ampla gama de fontes: entrevistas com militantes e ex-militantes que conviveram com Prestes, tanto dos que continuaram próximos ou admiradores do legado do líder comunista, quanto de críticos e desafetos históricos, permitindo uma análise da trajetória do biografado no interior da máquina partidária; entrevistas realizadas com familiares, que possibilitaram vislumbrar os aspectos pessoas dessa trajetória; fontes do regime soviético e da Internacional Comunista pesquisadas em Moscou e, por fim, mas muito relevantes, gravações em áudio de reuniões do Comitê Central do PCB realizadas no exílio. O acesso às gravações, até então inéditas, permitiu a análise das percepções de parte dos dirigentes do PCB em relação a situação do partido na conjuntura que antecede a volta do exílio, em 1979, e, com isso, o próprio posicionamento de Prestes naquele momento. Os debates realizados pelo Comitê Central no exterior, que aparecem nas gravações, ajudam também a entender o afastamento de Prestes do PCB no decorrer da década de 1980.

Em um livro dessa natureza, sempre haverá quem aponte a falta de certos temas, a necessidade de aprofundamento desse ou daquele aspecto da trajetória de Prestes, bem como das abordagens implícitas da história do país ou do comunismo. São os casos, por exemplo, das relações do PCB e do próprio Prestes com os trabalhadores no decorrer do século XX. Do mesmo modo, pode-se discordar de uma interpretação, que permeia o livro, sugerindo que as opções de Luís Carlos Prestes teriam sido apostas em um sonho impossível: a realização de uma revolução socialista no Brasil. Caberia talvez expandir a análise e lembrar que no decorrer do século XX revoluções ocorreram em países nos quais não eram esperadas, além da vitória de lutas de vários povos do Terceiro Mundo a partir do pós-guerra.

Há ainda quem tenha apontado alguns equívocos factuais na narrativa, mas que, a meu ver, não causam danos importantes no texto, ainda que envolvam questões relevantes da vida pessoal do biografado. Porém, a opção do autor e da editora por uma forma de citação através da qual, em alguns momentos, não se consegue localizar completamente as fontes utilizadas para amparar as análises do livro, tem gerado desconforto, principalmente entre historiadores.2 Se, por um lado, a opção editorial tem como aspecto positivo permitir uma narrativa fluida, necessária em um livro de mais de quinhentas páginas, observa-se, em contrapartida, a imprecisão das citações. Essa característica do trabalho, que seria controversa em qualquer livro de história, agiganta-se ao se tratar de um tema por si só polêmico como é a vida e legado de Luís Carlos Prestes, tornando-se quase inevitáveis as críticas e divergências.

Como se vê, o livro apresenta aspectos superlativos e complexos, o que retrata a própria vida de Prestes. As divergências em torno do seu resultado denotam a complexidade do trabalho realizado. Assim, concordando ou discordando das análises de Daniel Aarão Reis, trata-se de leitura incontornável para os que querem conhecer a história de Prestes e do comunismo no século XX.

Jean Rodrigues Sales – Programa de Pós-Graduação em História, Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ). Nova Iguaçu, RJ,Brasil. E-mail: jeanrodrigues5@yahoo.com.br.

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Exílios: deslocamentos e transnacionalidade / Projeto História / 2015

O exílio nos compele estranhamente a pensar sobre ele, mas é terrível de experienciar. Ele é uma fratura incurável entre um ser humano e um lugar natal, entre o eu e seu verdadeiro lar: sua tristeza essencial jamais pode ser superada, embora seja verdade que a literatura e a história contem episódios heroicos, românticos, gloriosos e até triunfais da vida de um exilado. E, eles não são mais do que esforços para superar a mutiladora da separação.

A cena se torna mais terrível e lastimável, multidões sem esperança, a miséria das pessoas “sem documentos” subitamente perdidas, sem uma história para contar… negociações, guerras de libertação nacional, gente arrancada de suas casas e levadas as cutucadas, de ônibus ou a pé, para enclaves em outras regiões, o que esta experiência significa? Não são elas, quase por essência irrecuperável?

…o exílio é uma solidão vivida fora do grupo: a privação sentida por não estar com os outros na habitação comunal. Como então alguém supera a solidão do exílio sem cair na linguagem abrangente e latejante do orgulho nacional, dos sentimentos coletivos, das paixões grupais? O que vale a pena salvar e defender entre os extremos do exílio, de um lado, e as afirmações amiúde teimosas e obstinadas do nacionalismo, de outro? O nacionalismo e o exílio possuem atributos intrínsecos? São eles apenas duas variedades conflitantes da paranoia?

SAID, Edward. Reflexões sobre o exílio

A longa citação se justifica pela importância que as questões dos exílios adquirem na nossa contemporaneidade, gerando inquietações sobre territórios, deslocamentos violentos e se constituindo num campos de tensão, violência e xenofobia. Terrível de experienciar, fratura incurável, marco de tristeza insuperável, os exílios arrastam multidões subitamente perdidas, sem documentos e esperança. Desencadeados por guerras, totalitarismos, genocídios e exclusões, milhares são e foram empurrados para derivas por territórios transitórios, vivenciando um descontínuo não pertencimento e enfrentando a urgência da busca por reconstruir a vida, vínculos e sentidos. Estas vagas recentes tornaram o século XXI, a “era do refugiado, da pessoa deslocada, da imigração em massa”. (SAID, 2005)

Desde finais do século XX, que se vivencia um processo marcado pela aceleração das transformações e intensificação dos deslocamentos que enfrentam fronteiras e limites territoriais, provocando crises e tensões internacionais. Estes deslocamentos contemporâneos desfizeram barreiras e criaram um ambiente híbrido, cosmopolita e transnacional, colocando a difícil a tarefa de recuperar uma história que considere os esparsos registros, memórias e reflexões de homens e mulheres que partiram para o exílio – entendido em sentido amplo, não apenas o desterro político. Vivendo na instabilidade e em situações precárias, seria possível dizer que esses outsiders foram sensíveis analistas das crises políticas, econômicas e culturais dos tempos sombrios, a que se refere Hannah Arendt. Sua posição de estrangeiros, apátridas sem raízes os transformou em observadores privilegiados das mudanças – frequentemente vezes dramáticas – que afetaram o mundo e suas próprias vidas.

Os fluxos de deslocados, transitando ideias, saberes e projetos, permanece impactando nossa contemporaneidade e gerando a necessidade urgente de reflexões sobre a historicidade desses processos. Assim, são estas questões emergentes que levaram a publicação deste dossiê da Revista Projeto História, intitulado Exílios: deslocamentos e transnacionalidades.

Este volume apresenta pesquisadores do Brasil e de diferentes países, que analisam aspectos diferenciados da temática, colocando novas indagações, ampliando visões e trazendo contribuições para dinamizar conexões entre história passada e a atualidade. Desta forma, os exílios se constituem num amplo espectro de lutas gerando inquietações e desafiando reflexões, possibilitando a ampliação de um campo de investigações aberto a revelar experiências presentes e passadas, e contribuindo para a renovação temática e metodológica.

Nos artigos deste dossiê despontam exímios conhecedores do seu ofício, são pesquisadores inovadores, com diferentes interpretações e com a proposta de recuperar silêncios e invisibilidades. Para tanto vasculharam arquivos, numa paciente busca de indícios, sinais e sintomas, constituindo um mosaico de referências documentais, cuja análise crítica permitiu esmiuçar o implícito, descortinando o oculto, recobrando criticamente memórias, transgressões e controles, dando visibilidade a múltiplas experiências e práticas culturais. Estes escritos encontram-se fundamentados em investigações meticulosas, eruditas, temperadas pela sensibilidade e criatividade dos autores. Os trabalhos reunidos nesse volume apresentam questões próprias dos estudos sobre a experiência exilar e que são de extrema relevância.

Nos textos de Villares e Jensen o tema da solidariedade entre os grupo exilados é apresentado com especial qualidade, uma vez que as redes de acolhimento são associadas aos projetos políticos que circulam nos espaços transnacionais da América e Europa.

Essas redes de solidariedade reaparecem com força no texto de Teresa Schneider Marques, mas, com a especificidade de tratar de um caso envolvendo exilados brasileiros, mais precisamente exiladas. Marques aponta para a difícil condição do feminino no ambiente do exílio e através de um texto pleno de possibilidades encontra um ângulo de observação original da experiência exilar.

Ressaltando as tensões históricas dos que partiram do Brasil para o exílio, temos no artigo “Do exílio, um futuro para o Amazonas. João Daniel e o aproveitamento das riquezas do rio”, de Fernando Londoño que rastreou a experiência e os escritos dos padres da Companhia de Jesus expulsos do Grão Para e Maranhão no século XVIII. Já em “O exílio de Plínio Salgado em Portugal: a Vida de Jesus e a composição do apostolado político”, Leandro Gonçalves recuperou a trajetória pliniana no exílio. Seus textos demonstram o controle dos autores sobre os temas que analisam e provocam o leitor a refletir sobre as dinâmicas intensas da circulação de ideias, tema próprio do campo dos estudos sobre o deslocamento de intelectuais.

Este volume conta com a entrevista de Daniel Aarão Reis que, nessa oportunidade, faz pela primeira vez um balanço sobre a experiência de seu exílio apontando para esse momento como lugar central na sua trajetória intelectual.

O dossiê se completa com a apresentação das pesquisas sobre o tema que se encontram em andamento, de autoria de Antonio Gasparetto Júnior, Guilherme Ignácio Franco de Andrade e Daniela Adriana Garces de Oliveira. Por fim, a resenha, de Érica Sarmiento da Silva, á obra “Inmigracion y retorno. Españoles en la ciudad de México 1900-1936”.

Ainda se somam no volume os artigos de José Weyne Freitas Sousa,“Secas e socorros públicos no Ceará”; Meize Regina Lucena Lucas, “Cinema e censura no Brasil: uma discussão conceitual para além da ditadura” e de Francisco das Chagas Santiago, “Dos lugares de memória ao patrimônio: emergência e transformação da ‘problemática dos lugares’”.

Este conjunto de escritos preenchem lacunas ao investigar os ocultamentos, recobrando múltiplas possibilidades de vivências e representações, mudanças, permanências, tensões e, quiça, possibilidades e perspectivas.

Boa leitura

Maria Izilda S. Matos

Maurício Parada

30.10.2015


MATOS, Maria Izilda S.; PARADA, Maurício. Apresentação. Projeto História, São Paulo, v.52, 2015. Acessar publicação original [DR]

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História, Infância e Juventude / Projeto História / 2015

Esta coletânea de artigos sobre História, Infância e Juventude traduz reflexões a respeito das formas de viver a infância e a juventude em diferentes momentos. Nestas vivências não há oposição absoluta entre passado e presente, tampouco um tempo se reduz no outro. Ao longo dos anos historiadores, pedagogos, médicos, jornalistas, estudiosos do tema pretenderam dar visibilidade aos sujeitos que tiveram suas experiências ocultadas, muito porque eram consideradas apenas como vivências em transição à idade adulta, está carregada de significação e sentido. Novos estudos revisitaram fontes e memórias problematizando a infância e a juventude presente nelas, direta ou indiretamente, e, a partir disso, esses sujeitos históricos ganham visibilidade através de diferentes materiais pesquisados como imprensa, processos crimes, inventários, registros de batismo, estatísticas, prontuários médicos, fichas escolares, mobiliários, literatura, produção de campos de saber (pediatria, pedagogia, entre outros), dados estatísticos sobre mortalidade infantil e juvenil, por exemplo.

As questões envolvendo crianças, adolescentes e jovens são muito abrangentes, e vê-los como sujeitos de direitos ainda é um desafio presente numa sociedade que ainda vê a criança, de modo especial, apenas como o “futuro da nação”, esquecendo-se das experiências infanto-juvenis no presente cotidiano carregado de misérias, abusos, violências, privações, maltrato, pouca efetividade – em muitos casos – dos direitos à educação e saúde.

Muitas são as práticas de repressão e desqualificações que atingem diretamente os mais pobres, a evidência da desigualdade entre sujeitos leva a práticas violentas, sobretudo de jovens que muitas vezes são mortos sem direito a despedida dos familiares, revelando uma seletividade na violência e um “genocídio de jovens negros” como explicitam anualmente estudos como o Mapa da Violência.

A despeito de todas as dificuldades, hoje, depois de 25 anos do Estatuto da Criança e do Adolescente, vemos ONGs, governo, sociedade civil, jovens e adolescentes, ativistas, desenvolvendo práticas comunitárias de valorização da experiência dos sujeitos, que permitem ter alento quanto à uma sociedade que respeite e promova a dignidade humana desde antes do nascimento e considere a vida como intensa em todas as fases do desenvolvimento pessoal e social. A redução da mortalidade infantil, a expansão da escolarização, a ampliação do atendimento de saúde, a vacinação em massa, o reconhecimento da criança e do adolescente como sujeitos ativos, entre outras medidas, tem permitido, em termos comparativos com os anos anteriores ao ECA, uma melhoria na vida de milhares de crianças. Espaços de experimentação na valorização da dignidade humana infanto-juvenil são inúmeros, um deles é o caso dos CEU’s (Centro de Educação Unificado da Prefeitura de São Paulo), que cria e disponibiliza toda uma ambiência cotidiana que intensificam a formação humanizada e os vínculos da escola com a comunidade local propiciando o ensino de línguas estrangeiras, atividades artísticas (corais, peças teatrais), o uso do espaço aos finais de semana pela comunidade da região, podendo ali construir sociabilidades, estratégias para trabalhar, saindo assim da condição de miséria absoluta.

Contemplamos no dossiê várias experiências infantis, relatos de internação na infância, a questão do ensino de História é evocada como parte da formação da infância e juventude, a imprensa escrita é usada para avaliar suas propostas de ser criança, a menoridade penal é discutida como tema que vem de outros períodos e ganha contornos precisos no presente, diferentes estados são evocados na experiência da infância.

A ideia é abrir espaços de discussão entre diferentes áreas e entre historiadores que debatem o tema e ao fazê-lo pensam numa mudança histórica que pensa a criança e jovem como agentes ativos e não passivos, pensamos em tirá-los do anonimato.

Os artigos reunidos nesse dossiê tratam de diferentes dimensões da temática da História da Infância e da Juventude, inúmeras fontes, bem como abordagens, expressando a densidade da experiência histórica que envolvem direta ou indiretamente jovens e crianças. Imagens encantadas ou cristalizadas desses sujeitos são rechaçadas artigo por artigo, deixando evidente que existem múltiplas infâncias e juventudes.

Pensando na multiplicidade das experiências infantojuvenis, a antropóloga colombiana Ximena Pachón, com o artigo “La persistente presencia de los niños combatientes em la história de Colombia”, apresenta reflexões a respeito da participação de crianças e adolescentes nos principais conflitos armados da Colômbia ao longo do século XX (1º Guerra de los Mil Dias – 1899-1902; 2º Guerra Civil “La Violéncia” – 1946-1965; 3º Guerra Civil atual – 1966-2015). Contrariamente a uma história da infância idealizada, são problematizadas inúmeras situações vivenciadas no contexto da sociedade colombiana em circunstâncias vinculadas diretamente à guerra (crianças arregimentadas para a luta armada) ou em momentos afetados pelas lutas. A experiência de violência e da guerra são apresentados como fatores que tangenciaram a participação de crianças e jovens no conflito, o que destaca para as múltiplas formas de experienciar a infância na sociedade latino-americana.

O debate sobre a Redução da Maioridade Penal para menos de 18 anos é antigo no Brasil, remonta o fim do século XIX e, ao longo do século XX, inúmeras foram as ocasiões em que esta proposta esteve colocada por setores reacionários. Olga Brites e Eduardo Silveira Netto Nunes, expõem no artigo “Contra a redução da maioridade penal no Brasil: o Centro de Defesa dos Direitos Humanos de Osasco, fim dos anos 1970”, uma análise sobre a mobilização popular e de comunidades periféricas contrárias a propostas de redução da maioridade penal que estavam tramitando no Congresso Nacional em fins da década de 1970. O texto centra a sua reflexão na atuação do Centro de Defesa dos Direitos Humanos de Osasco e sua articulação com grupos periféricos na defesa dos direitos de crianças e adolescentes e na mobilização contra os projetos de lei reduzidos a idade penal. O tema da infância, neste caso, ganhou uma representatividade improvável, pois, ao se defender as crianças e os adolescentes, o Centro de Defesa dos Direitos Humanos de Osasco tencionava em diferentes frentes o governo civil-militar autoritário então vigente.

Através do artigo “Ana Maria Machado: inventando o futuro. A utopia de um mundo de paz e tolerância: reflexões sobre infância e juventude”, Maria do Rosário Cunha Peixoto desenvolve a análise sobre a obra “O Canto da Praça”, de Ana Maria Machado, livro direcionado ao público infantojuvenil, publicado pela primeira vez em 1986, destacando a estruturação sensível da narrativa, pela qual advoga possibilidade de uma sociedade pacífica, justa, tolerante. Ao pensar a literatura infantil como um dos espaços de construção da subjetividade nas crianças, o artigo desvela a forma como o livro construiu representações do tempo, das ambiguidades, na perspectiva de respeitar a criança e suas experiências impor a ela uma “infantilização que não é dela”.

O enfoque adotado por Nelson Tomelin Júnior, no artigo “Infância contada entre muros”, analisa as reminiscências de pessoas idosas que vivenciaram parte de suas trajetórias em instituições psiquiátricas e divisaram suas experiências com diagnósticos diversos que as classificavam como doentes psiquiátricos. A partir de depoimentos orais, principalmente, o autor reflete as vivências de cinco idosos tangenciando momentos de solidão, sofrimento, alegria, solidariedade, afeto, tristeza, pelas quais essas pessoas passaram, destacando as memórias sobre a infância, tensionando muitos olhares que atribuem ao diagnóstico de uma doença psiquiátrica, a transformação do sujeito em “doente”, pelo que não seriam portadores de subjetividade. Ao acessar e valorar as reminiscências desses idosos, permite ao leitor desvendar trajetórias de vidas segregadas pela doença psiquiátrica e “esquecidos” da história.

Tratando de outra dimensão da memória histórica e da relação desta com as crianças e os adolescentes, Marcos Silva, no artigo “Entre o espelho e a janela”, problematiza, no formato de um ensaio crítico, a ideia de que o conhecimento histórico necessita ser reconhecido como um “Direito à História”, pelo qual crianças e adolescentes teriam o direito subjetivo a acessar dimensões das experiências compartilhadas socialmente. A história vivida seria trabalhada no sistema de Ensino, de forma complexa, diversificada, múltipla e crítica. A educação fundamental seria o espaço para reestabelecer os liames e a ligação entre as gerações na sociedade, não como um processo laudatório dos “grandes feitos”, mas sim como um exercício constante de revisitação às tensões, conflitos, lugares sociais, lutas, e diversidade de interesses em disputa em cada contexto histórico.

O papel das representações sociais sobre os jovens de classe média na revista Realidade foi o objeto central do artigo de Silvia Arend intitulado “Jovens brasileiros nas páginas da Revista Realidade”. Arend realiza uma análise sobre as representações veiculadas na Revista Realidade relativas à infância e à juventude, focando as relações de trabalho e familiares envolvendo esses grupos etários. A construção de uma “juventude” de classe média, consumidora e leitora da Revista, e de temas a ela pertinente é desvelada pela autora ao longo do texto, projetando clareza sobre assuntos em circulação e que povoaram as mentes de segmentos sociais juvenis de classes médias, por vezes pouco estudados sob a ótica da História da Infância e da Juventude.

Tratando ainda dos processos de escolarização no Brasil, Iranilson Buriti de Oliveira, no texto “Como canários nos alçapões”, procura analisar as representações construídas na obra Doidinho de José Lins do Rego, sobre a vida infantil de crianças no Internato de Seu Maciel, em Itabiana, Paraíba, estória ambientada em fins do século XIX e início do XX. O autor desvela aspectos da cultura escolar como o autoritarismo nas relações entre adultos e crianças, assim como entre professores e alunos, narradas com riqueza de detalhes nos escritos de Rego, desvelando como foi sendo instituída a escolarização no Brasil republicano, sob o signo da violência e do desrespeito à subjetividade infantil.

Ao lado dos artigos selecionados, consta do dossiê uma entrevista que registra as experiências de um protagonista importante nos debates sobre os direitos das crianças e dos adolescentes no Brasil, o jurista Dr. Antônio Fernando Amaral e Silva, na qual desvela bastidores inacessíveis na mudança do antigo sistema da Situação Irregular para a Doutrina da Proteção Integral, bem como expõem reflexões acerca dos percalços e conquistas na luta pela efetividade desses Direitos, hoje ameaçados por inúmeras pautas conservadoras como a redução da maioridade penal.

O dossiê conta ainda com a apresentação de pesquisa relacionadas à temática da infância e da juventude de autoria dos pesquisadores Ivannsan Zambrano Gutierrez, Thiago de Faria e Silva.

Essa edição da revista conta ainda com quatro artigos livres, resultado da política da revista de fluxo contínuo de contribuições, são eles: “Michel de Certeau e os limites da representação histórica”, de João Rodolfo Munhoz Ohara; “O meu lembrar pelos meus direitos: memória e direito à cidade em uma favela do Rio de Janeiro”, de Mauro Amoroso; e, “Higiene do corpo e Higiene da mente: algumas raízes da psiquiatrização da educação no Brasil”, de Alexandre Fernandez Vaz, Lara Beatriz Fuck.

Por fim, compõem a edição duas resenhas elaboradas por Maria Nicolau, Alexandra Dias Ferraz Tedesco, versando sobre contribuições historiográficas atuais.

O conjunto de textos dessa edição colabora com a difusão e a expansão dos estudos de História da Infância e Juventude somando-se a outras iniciativas como o Grupo de Trabalho em História da Infância e Juventude da Associação Nacional de História (ANPUH) em nível nacional e regional (ANPUH-SP).

Boa leitura.

20 de dezembro de 2015

Olga Brites. E-mail: olgabrites@uol.com.br

Eduardo Silveira Netto Nunes. E-mail: edunettonunes@hotmail.com


BRITES, Olga; NUNES, Eduardo Silveira Netto. Apresentação. Projeto História, São Paulo, v.54, 2015. Acessar publicação original [DR]

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Exílios: Política, Cultura e Resistência / Projeto História / 2015

Exílios – Política – Cultura – Resistência / Projeto História / 2015

“El exiliado mira hacia el pasado, lamiéndose las heridas; el inmigrante mira hacia el futuro, dispuesto a aprovechar las oportunidades a su alcance.”1 (Isabel Allende)

“Pode-se arrancar o homem de seu país, mas não se pode arrancar o país do coração do homem” (John Roderigo dos Passos)

Exilar-se é desterrar-se. É fratura e rompimento. É um deslocamento involuntário e traz consigo o sentimento de perda. É deixar para trás todo um repertório de afetividades não rompidas, porém distantes geograficamente, isolando o exilado de qualquer contato com seu país de origem. Temporário? Eterno? Uma mistura imponderável de elementos da legislação com acontecimentos do contexto histórico o dirão. Seja qual for a temporalidade, o indivíduo, nessa reelaboração forçada, pelo próprio sofrimento experimentado, já deixa de ser o mesmo. Consequências terríveis provoca o exílio.

Em Atenas, durante a Antiguidade Clássica, o exílio era imposto como defesa da democracia. Chamado de ostracismo, representava uma punição forte, que bania o cidadão por dez anos da convivência com seus pares.

Passados mais de dois mil anos, a política e seu mais cruel desdobramento, a guerra, continuam produzindo exilados, com seus silêncios significativos ou suas falas eloquentes. Diferente do emigrado, o exilado, mesmo aquele auto exilado, é obrigado a vivenciar um sofrimento solitário, no qual as novas relações afetivas, difíceis de serem conquistadas, não substituem a mágoa da ausência das anteriores.

O exilado, não raro, é obrigado a se reinventar completamente, sem esquecer os padrões de cultura que são mantidos pela saudade. Essa palavra intraduzível que, no falar de Lévi-Strauss, remete à rememoração de seres, coisas, lugares, e que é uma tomada de consciência impregnada do sentimento agudo de sua fugacidade. Um aperto no coração que a lembrança de certos lugares, físicos ou da memória, nos mostra que não há, no mundo, nada de permanente e nem de estável em que possamos nos apoiar. Somos, portanto, exilados em potencial.2

Este número da revista Projeto História nos apresenta, neste segundo número da temática “Exílio”, uma importante polifonia de assuntos e interpretações substanciosas de autores que nos fazem vivenciar o significado do exílio.

O dossiê Política, Cultura e Resistência: Exílios é composto por uma gama de estudos que possibilitará a reflexão do pesquisador. O Investigador Titular do El Colegio de la Frontera Sur, Enrique Coraza de los Santos, abre o dossiê com uma visão conceitual em perspectiva comparada sobre o exílio através dos casos na Espanha, México, Argentina e Uruguai. Com o mesmo olhar, a especialista em estudos latino-americanos, Silvia Dutrénit Bielous, identifica nos anos 70 observações pautadas entre México e Uruguai, estabelecendo uma importante reflexão sobre as encruzilhadas do exílio.

Na esfera conceitual, o especialista em história intelectual, Maurício Parada, destaca as várias possibilidades entre esse meio com o exílio, estabelecendo uma vasta relação entre a história, exílio, política e intelectualidade, buscando analisar três trajetórias em especial, Otto Maria Carpeaux, Villém Flusser e Stefan Zweig.

No âmbito do contexto varguista e hitlerista, Marlen Eckl, analisa os efeitos do Decreto-Lei n° 383, de 1938 para os alemães. Partindo desse princípio, no artigo Entre resistência e resignação – as atividades políticas do exílio de língua alemã no Brasil, 1933-1945 é possível verificar os obstáculos que os exilados encontraram no Brasil.

Concluindo a primeira seção, Luis Roniger, destaca a importância analítica do exílio como uma experiência geradora de aberturas conceituais, institucionais e de sociabilidade. No artigo, o pesquisador da Wake Forest University, estabelece algumas reflexões, demonstrando a singularidade do caso brasileiro em uma perspectiva transnacional.

O dossiê conta com Alfredo Moreno Leitão e Geny Brillas Tomanik na seção Projetos, que apresentam resultados de suas pesquisas. O primeiro com aspectos em torno do salazarismo e a segunda com interpretações sobre o exílio espanhol.

Há ainda a resenha de duas obras ligadas a temática do dossiê. Francisco Osvaldino Nascimento Monteiro, apresenta ao público, a obra de Victor Barros, Campos de Concentração em Cabo Verde: As Ilhas Como Espaços de Deportação e de Prisão no Estado Novo, enquanto Estela Cristina Mansilla, apresenta a obra de Silvia Dutrénit Bielous, La Embajada Indoblegable. Asilo Mexicano en Montevideo durante la Dictadura.

Para fechar o número, os editores e organizadores, apresentam três artigos na seção livre. Partindo do Método Documentário de Análise de Imagens, Vinícius Liebel, busca o exercício de análise de uma charge do semanário nacional-socialista Der Stürmer. Luis Carlos dos Passos Martins, objetiva analisar como a imprensa carioca abordou o crescimento acelerado e desordenado das cidades brasileira durante o Segundo Governo Vargas, causando o aumento das “favelas” na Capital Federal e fechando o número Silvia Liebel estabelece uma importante análise, destacando à chamada “guerra dos sexos” nos inícios da impressão na Europa moderna.

Desejamos uma ótima leitura e boas reflexões historiográficas!

Notas

1 “O exilado olha para o passado, lambendo as feridas; o imigrante olha para o futuro, disposto a aproveitar as oportunidades a seu alcance”.

2 LÉVI-STRAUSS, Claude; MENDES, Ricardo. Saudades de São Paulo. Companhia das Letras, 1996.

Leandro Pereira Gonçalves (PUCRS)

Yvone Dias Avelino (PUC-SP)


GONÇALVES, Leandro Pereira; AVELINO, Yvone Dias. Apresentação. Projeto História, São Paulo, v.53, 2015. Acessar publicação original [DR]

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Futebol, Raça, e Nação no Brasil / História Unisinos / 2015

O que está em jogo? Em torno do futebol, da raça e da nação no Brasil: apresentação para uma história ausente

Há quem reclame sobre a necessidade de mais estudos de história intelectual na historiografia brasileira, de mais reflexões que deem conta dos processos que mobilizaram intelectuais, perspectivas teóricas e suas interpretações, um esforço que iria de campos de estudo como a questão agrária, passando por aquele da ecologia e meio ambiente, o da história das doenças e mesmo da história dos esportes, entre tantos outros. Quando surgem? Quais os seus principais e pioneiros intelectuais? Quais os diálogos teóricos propostos? Como se conectaram (ou não) com os debates contemporâneos da sociedade brasileira?

Muitas reflexões historiográficas, ao alinharem obras e autores, abriram mão de abordagens que pudessem apontar os termos dialógicos dos debates intelectuais – sempre amplos e multifacetados. O mundo acadêmico no Brasil produziu mesmo uma convenção sobre a existência de um pensamento social brasileiro, algo que não poucas vezes foi superdimensionado, supostamente definitivo e prospectivo. Nesse quadro, algumas influências e ideias foram destacadas, entre outras tantas abandonadas.

Interessante perceber como a música, o carnaval, o futebol, a capoeira, entre outros temas, ficaram banidos da historiografia brasileira até 30 anos. Começaram a interessar muito lentamente, inicialmente mais a antropólogos e sociólogos, só depois a historiadores. Durante muito tempo, na abordagem desses assuntos reinavam os jornalistas, mas não os acadêmicos.

Paradoxal, pois o carnaval e o futebol se transformaram, em meados do século XX, em símbolos da identidade nacional brasileira. Já a capoeira, nos dias de hoje, é considerada uma das maiores representações internacionais de cultura do Brasil. Ainda assim, só recentemente estes temas têm mobilizado pesquisadores acadêmicos para revolver seus processos históricos de surgimento, transformações e evocações sociológicas contemporâneas. Para muitos são símbolos (construídos) da nação e com uma história do tempo-presente ainda incompleta.

O que pensariam disto os explicadores do Brasil – intelectuais pioneiros, passando não só por Gilberto Freyre, Sérgio Buarque e Caio Prado, mas também Paulo Prado, Fernando de Azevedo, Raymundo Faoro, Celso Furtado, e outros? Para muitos destes, a sociedade escravista – colonial, patriarcal e patrimonialista – explicaria muito de um Brasil contemporâneo, desigual e hierarquizado. Mas como pensar a sociedade brasileira no pós-emancipação exatamente quando o futebol avança entre práticas, fábricas e personagens com diversas origens e identidades? Foi um longo processo no qual ex-escravos e seus filhos e netos foram transformados em “cidadãos de cor preta”, nomenclatura utilizada até praticamente o início dos anos 1940 em comícios políticos de setores conservadores, trabalhistas e mesmo comunistas.

No alvorecer do século XX, ideias em torno da identidade nacional, da cultura nacional e de outros símbolos envolventes foram manipuladas por intelectuais diversos. O futebol, um estrangeirismo para alguns, se transformaria em paixão, esporte de massa e envolveria milhares de adeptos e agremiações em pouco mais de duas décadas. O Brasil inventava-se numa modernidade que escolhia cores, rostos, corpos e identidades.

Nem sempre a associação entre nação e futebol – algo relativamente recente – apareceria nas interpretações clássicas. Mesmo outros campos de estudos – aqueles das relações raciais e da cultura negra – pouco avançariam na possibilidade de articular interpretações sobre o futebol e suas dimensões históricas e sociológicas. Foram assim intelectuais como Arthur Ramos, Edison Carneiro, passando por Florestan Fernandes e toda a geração da Escola Sociológica Paulista. O futebol poderia ser uma chave interpretativa para o Brasil, mas vários intelectuais não se aproximaram dela.

Por muito tempo, o futebol foi transformado num espaço sacralizado para os cientistas sociais. Podia ser admirado com quase ufanismo mas nunca investigado em termos sociológicos.

A obra de Mário Rodrigues Filho, O Negro do Futebol Brasileiro1, tem sido recuperada, embora ainda como leitura secundária, enquanto memória. Ela foi escrita num período de intenso debate sobre raça, racismo e cidadania, no cenário do pós-guerra, em meio aos debates da Constituinte de 1946 e quando, nos palcos do Rio de Janeiro, intelectuais negros – Abdias do Nascimento, Guerreiro Ramos e outros – criavam o Teatro Experimental do Negro e outras atividades como a Convenção do Negro Brasileiro (1945) e a Conferência do Negro no Brasil (1946), no Rio de Janeiro e São Paulo.

Enquanto isso, a organização de ligas desportivas, a criação de clubes e a presença cada vez mais marcante de negros e mestiços no futebol tinham mobilizado debates desde os anos 1930. Não poderia ser mais um tema de menor importância. O interessante é que no início dos anos 1950, a partir da proposta da Unesco de realizar uma grande pesquisa sobre as relações raciais na América Latina, surgiriam no Brasil vários estudos regionais, particularmente de sociólogos e antropólogos. O silêncio a respeito do futebol e o que ele simbolizava sobre imagens e símbolos em torno da raça e identidade nacional produziram estrondos, no que a obra de Mário Filho, em parte esquecida, tem ajudado a recuperar.

Ao contrário daquele momento, racismo e futebol, práticas e manifestações de xenofobia, estão hoje na pauta internacional. O esporte de massa – que reúne paixões, empresas multinacionais, mídias, debates de cidadania e (inter)nacionalismos – se confronta hoje com outras reflexões. Debates contemporâneos que evocam histórias, processos, experiências e interpretações. Também acadêmicas.

Imagem 1: O jogador negro pega a bola e a leva para a quina do gramado, a fim de cobrar um escanteio. O inusitado – lamentavelmente nem tão inusitado assim – ocorre: um torcedor atira uma banana no relvado. Num gesto de grande perspicácia, o futebolista descasca a fruta, a come e dá seqüência à partida. O público, em grande maioria a discordar do gesto absurdo do adepto, o saúda em uníssono.

As polêmicas mundiais que se seguem dão conta da dificuldade de tratar da questão das manifestações de racismo nos espaços de futebol, terreno, a princípio, de uma inversão da ordem, no qual se manifestam as mais diferentes facetas humanas, mesmo as mais extremadas, algumas que não podem mais ser toleradas.

Meses depois, são veiculadas repetidamente nos meios de comunicação as imagens do comportamento de uma parte da torcida de um grande clube do país num jogo realizado na região Sul do Brasil. Choca a naturalidade da adoção de procedimentos racistas, expondo mais uma vez a nervura aberta. Contrariamente ao que alguns insistem em afirmar, de forma explícita ou velada, o racismo ainda é uma mácula dolorosa na história desse país (e do mundo) que acaba por se manifestar naquele que é considerado o seu principal esporte, aquela modalidade que tem sido, pelo menos desde os anos 1930, mobilizada como uma das representações de uma suposta peculiaridade nacional.

A propósito, esses episódios de racismo, que grassam pelos gramados nacionais, contradizem mesmo essa construção identitaria. Se o futebol é uma das grandes representações de que a mistura relativamente pacífica de raças é uma das marcas da formação de uma cultura brasileira – na acepção freyreana expressa de forma mais explícita por esse autor no seu artigo “Foot-ball mulato”, publicado do Diário de Pernambuco, em 1938, fonte de inspiração para vários intelectuais que se debruçaram sobre o velho esporte bretão – como esse tipo de manifestação estaria a ocorrer? O único mérito desses episódios é, portanto, expor a fragilidade dessa compreensão, conclamando-nos a melhor refletir sobre as relações entre o mais querido esporte do Brasil, as questões raciais e os discursos sobre a nação.

A popularização do futebol em terra brasilis está relacionada à apropriação desse esporte pelas diferentes classes e grupos sociais, e isso se deu de maneira entrelaçada às questões da cor e raça. Se na fase inicial o futebol era predominantemente aristocrático, com o tempo essa prática desportiva foi apropriada pelos “de baixo”, levando progressivamente à passagem do amadorismo para o profissionalismo, o que possibilitou um aumento significativo da entrada e do sucesso de jogadores das classes populares em geral e de negros em particular. No entanto, não desapareceram do universo do futebol as crenças e práticas racistas que assumiram novas formas e se revitalizaram ao longo dos anos.

Vale frisar que a presença do negro nas lides esportivas não é um fenômeno recente. Foi mesmo um dos primeiros fóruns sociais em que gozou de certo protagonismo e destaque social, ainda que sempre enquadrado pelos limites dos estereótipos e preconceitos.

Imagem 2: Em dezembro de 1853, o célebre Francisco Otaviano, ao narrar as concorridas corridas de cavalos realizadas na Corte, se refere de forma distinta a alguns personagens que nelas tomaram parte. Sobre o gentlemen-rider Alba Carvalho, “aluno do quarto ano da escola de medicina” (Correio Mercantil, 9 dez. 1853, p. 1), sugere ter sido saudado como o grande herói do dia, ao vencer seis outros amadores, todos “trajando elegantes casacas verdes e montados em cavalos de sua propriedade” (Correio Mercantil, 11 dez. 1853, p. 1). Não pode fechar os olhos, contudo, para o fato de que “um demoninho bronzeado, como o amante de Desdemona, de quatro palmos de altura e trajado de azul, foi proclamado, ao som de estrondoso vivas, o primeiro jockey do Prado” (Correio Mercantil, 11 dez. 1853, p. 1): era Balbino (ou Albino), um negro ou pardo de cerca de 13 anos que ganhou as seis provas que disputou.

Na verdade, não podemos negligenciar o fato de que o esporte e as atividades físicas em geral foram claramente mobilizadas nas iniciativas de “branqueamento” da população brasileira. Consideradas como expressão civilizacional superior, supostamente contribuiriam para a “pureza” racial brasileira, devendo ser limitado, portanto, seu alcance ao grande conjunto da população, que não tomou conhecimento desse tipo de compreensão e, de alguma forma, tomou para si o direito de fazer e assistir os mais diversos esportes.

Há que se lembrar, da mesma forma, que a prática de esportes também foi um importante elemento de articulação de comunidades de estrangeiros no país, reunidos em clubes próprios que tinham em conta tanto relembrar algo de sua cultura de origem quanto prestar contas e exaltar a nova nação que os acolhia. Por todo o país, são inúmeras as agremiações de portugueses, italianos, espanhóis, franceses, britânicos, alemães, cujas iniciativas também contribuíram com a formação de uma cultura esportiva nacional.

Este dossiê aborda alguns aspectos da história do futebol brasileiro, desde quando não se suspeitava que a habilidade dos jogadores e as vitórias nesse esporte fossem vistos como um atributo inerente à nacionalidade. Retratando o Brasil em todas suas virtudes e mazelas, grandezas e misérias, o futebol é um domínio em que conflitos sociais, contradições raciais e dilemas nacionais são postos em evidência de maneira cristalina.

Trata-se, assim, de tema de enorme importância e o pequeno número de (excelentes) artigos que integra este dossiê é mais um indicador de que o assunto está a merecer mais atenção, e uma atenção mais cuidadosa, dos historiadores brasileiros. A trilha apresentada pelos autores que integram esta edição, sem sombra de dúvida, se constitui em um chamamento e um alerta acerca da necessidade de esforços mais contundentes.

Abrimos o dossiê com o artigo Futebol, nação e representações: a importância do estilo “futebol-arte” na construção da identidade nacional, de Filipe Fernandes Ribeiro Mostaro, Ronaldo George Helal e Fausto Picorelli Montanha Amaro. O debate muito brevemente aqui apontado nesta apresentação é analisado em profundidade pelos autores, uma contribuição para que melhor compreendamos determinadas ideias que se naturalizaram no senso comum a respeito dos significados do esporte bretão no Brasil.

Numa esteira semelhante, ainda que por caminhos distintos, “Diz-me como jogas e te direis quem és…”: estilos de jogar futebol em Pasolini, Freyre e DaMatta, de André Mendes Capraro, chama para o jogo novos personagens, esgrimindo a ideia de que também no cenário internacional a mobilização do futebol em construções identitárias guarda interessantes recorrências.

Em Entre o ethos aristocrático e o associativismo: futebol amador e competência esportiva na cidade de São Paulo (1920-1930), Diana Mendes Machado da Silva prospecta as diferentes construções de representações sobre o futebol em duas agremiações paulistanas, uma delas eminentemente ligada aos estratos socioeconômicos superiores, o Clube Atlético Paulistano, e outra herdeira de uma das mais pujantes experiências clubísticas nacionais, vivenciada nas várzeas da capital de São Paulo, a Associação Atlética Anhanguera.

Temos ainda uma nota de pesquisa de um dos organizadores deste dossiê. Petrônio Domingues nos apresenta os primeiros resultados de sua investigação sobre a trajetória da Associação Atlética São Geraldo, uma das que teve maior destaque entre as muitas agremiações de negros dedicadas à prática desportiva que se organizaram em São Paulo nas primeiras décadas do século XX. Sem dúvida, um fascinante objeto de pesquisa.

Embora o futebol seja uma prática desportiva importante no Brasil desde longa data, mobilizando interesses políticos, sociais, econômicos e culturais diversos e catalisando esperanças, sonhos e paixões de milhares de pessoas, inexistiam estudos em torno das intersecções do esporte bretão, raça e identidade nacional até por volta do início do terceiro milênio. Alguns ensaios aludiam ao assunto colateralmente ou então só de passagem, de forma genérica. Felizmente, esse quadro vem se alterando, porém ainda é possível observar algumas peculiaridades. Não se trata mais de negligenciar esse esporte como de suma relevância na vida do brasileiro, com seus signifi cados polissêmicos e sentidos entrecruzados, mas de reequacioná-lo na agenda dos historiadores. Assim, nosso desejo é que muitos outros dossiês e artigos sobre “Futebol, raça e nação no Brasil” venham à baila. O tema é urgente. Os historiadores não podem se eximir dessa responsabilidade.2

Notas

1. O livro do jornalista Mário Rodrigues Filho, O negro no futebol brasileiro, foi publicado originalmente em 1947 e reeditado em 1964, quando recebeu o prefácio de Gilberto Freyre e o autor adicionou mais dois capítulos e fez alterações em sua parte inicial.

2. Sem a pretensão de esgotar as referências bibliográficas sobre o assunto, ver Gordon Jr. (1995, 1996), Lopes (2004), Santos (2008) e Basthi (2014).

Referências

GORDON Jr., C. 1995. História social dos negros no futebol brasileiro: primeiro tempo. Pesquisa de Campo, 2:71-90.

GORDON Jr., C. 1996. História social dos negros no futebol brasileiro: segundo tempo. Pesquisa de Campo, 3-4:65-78.

LOPES, J.S.L. 2004. Classe, etnicidade e cor na formação do futebol brasileiro. In: C.H.M. BATALHA; F.T. da SILVA; A. FORTES (orgs.), Culturas de classe: identidade e diversidade na formação do operariado. Campinas, Ed. Unicamp, p. 121-163.

SANTOS, R.P. 2008. Futebol e racismo no Brasil. Revista do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, 439:131-147.

BASTHI, A. 2014. Breve reflexão sobre Pelé e a experiência negra no futebol brasileiro. In: F. CAMPOS; D. ALFONSI, Futebol objeto das Ciências Humanas. São Paulo, Leya, p. 115-127.

Victor Melo – Universidade Federal do Rio de Janeiro

Petrônio Domingues – Universidade Federal de Sergipe

Flávio Gomes – Universidade Federal do Rio de Janeiro


MELO, Victor; DOMINGUES, Petrônio; GOMES, Flávio. Apresentação. História Unisinos, São Leopoldo, v.19, n.3., setembro / dezembro, 2015. Acessar publicação original [DR]

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História Ambiental: Memória e Migrações / Revista Eletrônica História em Reflexão / 2015

A revista História em Reflexão chega ao seu volume 9, número 17 e é com grande alegria que escrevo a apresentação desta edição. Iniciativa dos discentes do Programa de Pós-Graduação em História da Universidade Federal da Grande Dourados, a revista surgiu com uma proposta arrojada, tendo sido uma das primeiras a circular exclusivamente on-line, apostando, desde seu nascimento, nas novas tecnologias de mídia e na internet. Atualmente esta dinamicidade permanece nas propostas de cada número, sendo o deste dossiê “História Ambiental: memória e migrações”, temas que se entrelaçam e que estão no âmago dos debates públicos contemporâneos. Grandes desastres “naturais”, intensos deslocamentos humanos e a necessidade de se usar a prática de recordar como instrumento de luta política e cultural marcam a passagem do século XX ao XXI. Cabe ao historiador, situar esses processos em sua historicidade, contextualizando-os em sua duração mais longa.

Preocupados com a convergência destes temas, os pós-graduandos em História da UFGD produziram esta edição, organizaram o dossiê e realizaram entrevistas sobre história ambiental. As discentes Marciana Santiago de Oliveira e Ilsyane do Rocio Kmitta entrevistaram Gilmar Arruda, expoente da área, o qual discorre sobre a emergência deste campo de estudos marcado pela interdisciplinaridade. Como bem situa o pesquisador, a área surge nos Estados Unidos da América, na década de 1970, porém, no Brasil, o tema natureza integra os interesses dos estudiosos da história desde o século XIX, preocupados em edificar uma determinada identidade nacional ou mesmo em problematiza-la. O grande problema explorado pela história ambiental, como bem frisa Arruda, é a dissociação que se processou entre seres humanos e natureza, como se a humanidade não fosse parte do próprio mundo natural.

Na segunda entrevista, realizada com Roberto Marinucci, intelectual preocupado com as migrações, temos um importante estado da arte (interdisciplinar) sobre os estudos migratórios. Fenômeno marcante no processo histórico contemporâneo, o pesquisador frisa a grande complexidade envolvendo a mobilidade humana, sobre como os movimentos atuais tem colocado por terra categorias fixas como imigração / emigração / migração. Além disso, destaca como os estudos migratórios estão cada vez mais reconhecendo o migrante como sujeito do ato de migrar, abandonando uma visão economicista que o tratava como uma peça dentro de um sistema de exclusão. Por outro lado, Marinucci também aborda a importância da memória nos estudos migratórios e em como o ato de recordar pode integrar movimentos de resistência dos migrantes, dentro do difícil processo de abandono do lugar de origem e de adaptação ao novo.

O dossiê, por sua vez, traz contribuições de diversos pesquisadores sobre as temáticas em destaque. O primeiro artigo, “Memória e Identidade em um Espaço de Migração: Fronteiras em Santa Rita, Alto Paraná, Paraguai”, de Andressa Szekut e Jorge Eremites de Oliveira, versa sobre a emigração brasileira ao Paraguai. Os autores problematizam as memórias e identidades construídas pelos emigrantes, naquele país, partícipes de um processo de colonização recente. Seu foco reside nas relações identitárias desses sujeitos, especialmente as estabelecidas entre o eu e outro.

Fabiano Silva Santana e Sérgio Paulo Morais, em “Norma regulamentadora 36: pausa, desafio posto pela intensidade do trabalho nos frigoríficos”, analisam as relações de trabalho nos frigoríficos brasileiros. Sua preocupação se centra na “Norma Regulamentadora, nº 36” e nas condições de salubridade do trabalho na indústria alimentícia, enriquecendo com isso os conhecimentos da área de história do trabalho.

José Otávio Aguiar e Hilmaria Xavier, em “Ambiente, vivências e memórias da Favela da Cachoeira (Campina Grande 1959 – 2006)”, analisam a construção da Favela da Cachoeira, na cidade de Campina Grande, iniciada em 1959, edificação que não ocorreu apenas no aspecto físico, mas também no campo dos significados que os moradores imprimiram ao lugar. Os autores analisam também os movimentos em prol de melhorias para o local, culminando na remoção de parcela dos moradores para um novo local na cidade, o Bairro da Glória.

Em “Da imposição à Vocação: A economia da capitania dos Ilhéus nos circuitos mercantis”, Rafael dos Santos Barros desmistifica o suposto atraso econômico daquela capitania, atribuído à falta de participação na produção açucareira. O autor desenvolve a tese de que à região de Ilhéus atribuiu-se a função de produzir alimentos para as regiões monocultoras – prática comum nas regiões periféricas da colônia e do império – existindo severas proibições à introdução da cana-de-açúcar e tabaco.

Giovani José da Silva, em “‘Todo se cambia, incluso el paisaje’: Memórias indígenas e migração camba-chiquitano” une preocupações com as migrações, memórias e história ambiental e indígena em um estudo sobre a etnia Kamba (também conhecida como Camba-chiquitano). Originários da Bolívia, essa população indígena se fixou na periferia da cidade sul-mato-grossense de Corumbá, localizada na fronteira do Brasil com aquele país. Silva problematiza as relações dos indígenas com o mundo natural e as condições inóspitas que enfrentaram no processo de fixação naquela cidade.

Em “Rio Açu, Capitania do Rio Grande: sertão, natureza e espacialidades no Assu seiscentista (1624 – 1680)”, Tyego Franklim da Silva realiza um estudo sobre o período colonial da região de Assu / Açu, Rio Grande do Norte. Utilizando-se de documentos oficiais, crônicas e relatos de viajantes, o autor explora a conquista da região, bem como as relações que ali se estabeleceram entre europeus e povos indígenas e como eles se relacionaram com a natureza.

Dilson Vargas-Peixoto, em “Indícios da alteração ambiental nas crônicas de três viajantes (Rio Grande do Sul, 1808-1827)”, analisa as mudanças ambientais ocasionadas pela introdução de elementos da fauna e da flora europeia do Brasil, no século XIX. Toma como fonte os relatos de viajantes, notadamente Auguste de Saint- Hilaire, John Luccok e Nicolau Dreys, nos brindando com um belo trabalho de história ambiental.

Já na sessão de artigos livres, “O projeto político oposicionista de Assis Brasil nas campanhas eleitorais de 1922 no Rio Grande do Sul”, escrito por Pedro Paulo Lima Barbosa, problematiza os discursos e práticas políticas de Assis Brasil, com foco especial nas eleições de 1922. Como aponta, aquele político se insurgira contra o Partido Republicano Rio-grandense (PRR) e a candidatura de Borges de Medeiros à presidência do estado, o que lhe daria um quinto mandato consecutivo. Problematiza as intencionalidades da candidatura, pois, embora fosse oposicionista, as posições políticas de Assis Brasil eram muito semelhantes a de seus adversários.

“A fotografia-quadro em imagens de conflitos bélicos: a permissividade à arte contemporânea e à expressão do produtor, nas coberturas fotográficas noticiosas de guerras” é o artigo escrito por Fernanda Rechenberg e Bruno Cavalcante Pereira, em que os autores tomam com objeto de estudo as fotografias realizadas em zonas de conflito armado. Como analisam, formou-se um mercado de imagens violentas, que acabam por contribuir com os discursos ideológicos de grandes potências e que pouco auxiliam na reflexão crítica sobre as guerras. Assim, os autores questionam a veracidade de tais registros fotográficos bem como refletem sobre a permissividade dessa arte no mundo contemporâneo.

Maurício Marques Brum, no artigo “‘Expulsar a esquerda do poder’: Considerações sobre a formação de cadeias de equivalência contra o governo de Salvador Allende (1970-1973) à luz da teoria de Ernesto Laclau”, analisa o contexto político-ideológico do Chile durante o governo Allende. O autor se detém no processo de corrosão dos ideais democráticos, que primevamente sustentaram a posse daquele presidente, e, posteriormente, foram substituídos pela concepção de que um golpe de estado se justificaria como recurso para alijar a esquerda do poder.

Em “Disputas eleitorais em Dourados, no sul do antigo Mato Grosso: influência do contexto estadual e crescimento do PTB nas eleições de 1954, 1958 e 1962”, Fernando de Castro Além nos traz capítulos da história política do município de Dourados, inserindo-a devidamente no contexto do antigo estado de Mato Grosso. Entre suas preocupações está a análise da prática dos mandatários estaduais em impulsionar candidaturas municipais e a rivalidade entre as principais siglas do período (PTB, PSD e UDN), concluindo o autor que houve uma ascensão eleitoral do PTB no município em tela.

Tomaz Espósito Neto, em “Uma análise histórico-jurídica do Código de Águas (1934) e o início da presença do Estado no setor elétrico brasileiro no primeiro Governo Vargas” analisa o decreto no 24.643 de 10 de julho de 1934 (Código de Águas) e consequente processo de ampliação da presença estatal no setor de energia elétrica, no Brasil, tendência dominante no setor até a década de 1990. Entre suas preocupações, está o estudo das motivações que levaram o Governo Vargas a adotar tal medida, bem como os conflitos com os setores do capital estrangeiro, que exploravam o setor no Brasil.

De maneira geral, os temas estudados abordam o Brasil e países vizinhos em diferentes temporalidades, mas buscam responder a questionamentos contemporâneos quanto à formação, uso e apropriação do espaço, às transformações operadas na natureza, à mobilidade humana, às identidades e práticas sociais e políticas construídas por diferentes grupos. Privilegiando os estudos de caso e a dimensão micro espacial, o conjunto de textos nos faz refletir sobre diversos caminhos trilhados por diferentes pesquisadores, que possuem, em comum, o desejo de responder a inquietudes que nos acompanham (e, vez por outra, nos assombram) neste começo de milênio.

Jiani Fernando Langaro – Professor Doutor UFGD.

Dourados / MS / Brasil – Inverno de 2015.


LANGARO, Jiani Fernando. Apresentação. Revista Eletrônica História em Reflexão. Dourados, v. 9, n. 17, jan. / jun., 2015. Acessar publicação original [DR]

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As Leis e suas práticas: a diversidade em exercício / História e Diversidade / 2015

As produções no campo da História e da Educação têm se debruçado sobre a formação de professores em níveis e enfoques diferentes, conferindo importância a esse debate em âmbito nacional, e repercutindo na conformação de processos legislativos referentes à educação brasileira. Não se trata, porém, de relação de “mão única”, pois da mesma forma que a produção acadêmica impacta os processos legislativos, esses últimos repercutem na reflexão especializada. Dai ter havido, nos últimos anos, uma significativa ampliação da produção relativa aos aspectos abordados pela legislação. Marcadamente, nos referimos aos temas da Diversidade e da Inclusão.

Neste dossiê, “As leis e suas práticas: a diversidade em exercício”, problematizou-se coletivamente a relação havida entre as instituições de ensino e os marcos regulatórios, com ênfase na discussão sobre as questões correntes nos processos de ajustamento da formação ofertada às normatizações estabelecidas pelas instâncias regulatórias. O dossiê reúne artigos de pesquisadoras e pesquisadores de todas as Regiões do Brasil, os quais propõem reflexões sobre a legislação referente aos processos de inclusão e de afirmação da diversidade e, ainda, os processos que impactam a formação, tanto na Educação Básica quanto no Ensino Superior, especialmente na interlocução entre essas instâncias.

Deste modo, as contribuições aqui reunidas compõem, de certa forma, um panorama dos debates que envolvem a implantação e implementação das Leis no 10.639 / 2003 e 11.645 / 2008 e os suportes metodológicos que lhe são correlatos. Eles incorporam ainda, discussões acerca dos desafios interportos para a concretização de uma educação inclusiva e antirracista. Não deixam de dar conta, também, de experiências de formação em cursos de Pós-graduação, experiências de formação inicial e continuada, na confluência entre História e Educação.

As leis nº. 10.639 / 2003 nº 11.645 / 2008 demarcam uma mudança substantiva na Educação brasileira e, por conseguinte, nos currículos de todos os níveis de ensino. Tratase da proposição da construção de novos paradigmas educacionais, sobretudo nos processos formativos. Aqueles paradigmas engendraram a adoção de políticas de ação afirmativa, dentre as quais se contam as leis supracitadas. Neste sentido, discutir sobre Diversidade e Inclusão, considerando um dos sentidos das políticas de Ação Afirmativa, é discutir processos de ampliação e consolidação dos fundamentos democráticos que sustentam nossa sociedade. Da mesma forma, discuti-las implica em considerarmos os processos necessários à implementação de uma educação que, efetivamente, se volte para a formação do cidadão, combatendo a discriminação e o preconceito em todos os níveis.

O artigo “A diversidade na História ensinada nos livros didáticos: mudanças e permanências nas narrativas sobre a formação da nação” que abre este Dossiê discute a incorporação, pela literatura didática, das críticas ao “mito da democracia racial” nas abordagens sobre a formação nacional. A partir da análise de obras didáticas utilizadas nas décadas de 1980, 1990 e 2000, os autores realizam análise sobre as formas pelas quais um dos dispositivos daquele “mito”, a ideologia da mestiçagem, é problematizado e conformado em saber histórico escolar. Argumentam, ainda, que a crítica àquela ideologia tornou-se mais presente na literatura didática, no entanto, ela não significou o abandono de alguns de seus pressupostos.

O segundo artigo “Relações Étnico-Raciais no PNBE 2008 para a Educação Infantil” analisa as estratégias ideológicas presentes no acervo de 2008 do Programa Nacional Biblioteca da Escola (PNBE) destinada à Educação Infantil. Os autores refletem sobre os editais do PNBE (2003-2012) além de um acervo com vinte obras de literatura infantojuvenil distribuídas em 2008. Utilizou-se do método da Hermenêutica da Profundidade (HP), sistema interpretativo que permite identificar a presença de relações assimétricas de poder. Constatam, ainda, que em baixa frequência, representações positivas de alguns personagens negros. Contudo, os personagens brancos, além de continuarem mais frequentes, foram também mais detalhados. Além disso, enfatizam como o branco consta como norma social e pressupondo, inclusive, que os leitores presumidos sejam também brancos.

O terceiro artigo “Juntando as pontas no ensino de história da África: do chão da escola para a universidade reflete sobre duas experiências que envolvem o ensino de História da África”. De um lado, uma universidade federal nova, criada em uma zona de forte valorização ideológica da cultura do migrante europeu, onde a disciplina de História da África aparece como obrigatória dentro da grade curricular. De outro, a experiência em uma escola estadual de uma zona periférica de Porto Alegre onde, por meio de uma reforma na grade curricular, implantou-se um programa que privilegia a História da África e da cultura afro-brasileira no ensino secundário. Os autores procuraram, por meio de suas práticas, refletir sobre como estas experiências, aparentemente diversas, se relacionam, bem como sobre a importância de estabelecer a necessária ligação entre tais realidades.

O quarto artigo “Diversidade e diferença no espaço escolar: desafios para a educação inclusiva” sopesa conceitos relativos à diversidade e à diferença no contexto da defesa da igualdade. Essa análise fora realizada por intermédio de dados quantitativos e qualitativos, mensuráveis sob diferentes indicadores sociais e educacionais para reflexão daqueles conceitos.

O quinto artigo “O ensino de História e Geografia no DF: percalços e percursos de uma única história chamada Brasília” problematiza situações reveladas nas práticas de ensino das disciplinas citadas, que evidenciam algumas agruras das populações das localidades “não-Brasília”. No bojo da segregação espacial, revelam-se singularidades culturais, sociais e raciais. Com isto, abala-se a história tradicional, a identidade forjada brasiliense, e emergem outras, desconhecidas, recentes, híbridas e em franco processo de reafirmação, legitimidade e originariamente diversas.

O sexto artigo “Descolonizando histórias de África, culturas africanas e da diáspora” problematiza duas imagens com representações de modo de ser e lutar de povos africanos com ênfase nas clivagens entre cosmovisões de povos europeus e povos em diáspora. Os dados compilados e a reflexão realizada permitem atenção crítica a verdades e abstrações de uma história universal.

O sétimo artigo “Povos indígenas, ações afirmativas e universidade: conquistas e dilemas da reserva de vagas na Universidade Federal do Pará” analisa como se materializa o preceito normativo que regulamenta as ações afirmativas de ingresso universitário, com foco específico na reserva de vagas para povos indígenas existentes na Universidade Federal do Pará, a fim de compreender: (1) as dificuldades do processo de inclusão (considerando acesso e permanência na Instituição) dos indígenas estudantes; (2) a preparação ou qualificação continuada do corpo docente e técnico para saber lidar com a diversidade cultural; (3) rediscutir o exercício do direito à diversidade cultural na Universidade, com base nos aportes dos tratados internacionais de direitos humanos e das reivindicações políticas dos movimentos indígenas.

O oitavo artigo “História da África no ensino superior: imagens e representações dos estudantes do curso de licenciatura em história da UFMT, campus Cuiabá” problematiza a experiência da atuação docente na disciplina de História da África e Estágio Supervisionado no Curso de Licenciatura em História da Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT), no campus de Cuiabá. Os autores realizam uma análise dos planos de aula sobre a história e cultura africana e afro-brasileira desenvolvido pelos estudantes, procurando compreender as imagens e representações forjadas no contexto das atividades pensadas para a Educação Básica.

O nono artigo “Entre estereótipos e saberes: a África e os africanos em um curso de licenciatura em história” discute a institucionalização da Lei no 10.639 / 2003 em um curso de Licenciatura em História a distância, destinado a professores leigos do Nordeste brasileiro. A autora demonstra o impacto que os conteúdos concernentes à Lei tiveram sobre os saberes a ensinar e discute alguns estereótipos e conhecimento sobre a temática, identificados nos depoimentos e postagens online dos docentes envolvidos nessa experiência de formação em serviço.

O Dossiê finaliza-se com o artigo “Por uma educação antirracista e intercultural: as contribuições do núcleo de estudos afro-brasileiros” evidencia as ações desenvolvidas pelo Núcleo de Estudos Afro-brasileiros da Universidade Federal da Grande Dourados. Os autores constatam que a atuação do NEAB é fundamental para a articulação de ações construção de uma educação inclusiva que vislumbre um diálogo intercultural, no qual os saberes das crianças negras e indígenas possam ser legitimados e, desse modo, possam romper com a visão homogeneizadora e hegemônica do currículo colonizado.

Por fim, este dossiê foi concebido como uma interlocução possível entre a produção de conhecimento e os problemas concretos da escola. Assim, ele não buscou hierarquizar saberes ou distinguir pesquisadores.

Agradecemos a todas e todos!

Boa leitura!

Mauro Cezar Coelho

Wilma de Nazaré Baía Coelho


COELHO, Mauro Cezar; COELHO, Wilma de Nazaré Baía. Apresentação. História e Diversidade. Cáceres, v.6, n.1, 2015. Acessar publicação original [DR]

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Os biomas e as sociedades humanas na Pré-História da região do Parque Nacional Serra da Capivara, Brasil. Vol. II A-B – PESSIS et al (CA)

PESSIS, Anne- Marie; MARTIN, Gabriela; GUIDON, Niéde (Org.). Os biomas e as sociedades humanas na Pré-História da região do Parque Nacional Serra da Capivara, Brasil. Vol. II A-B, Fundação Museu do Homem Americano – FUMDHAM: São Paulo: IPSIS Gráfica e Editora, 2014. 852p. Resenha de: MAIOR, Paulo Souto. Clio Arqueológica, Recife, v. 30, n.2, p.241-249, 2015.

O projeto, Síntese dos biomas e sociedades humanas da região do Parque Nacional Serra da Capivara, no Sudeste do Piauí, apoiado e financiado pelo Ministério de Ciência e Tecnologia do Brasil, abre um espaço editorial destinado a divulgar o conhecimento resultante do trabalho dos pesquisadores da Fundação Museu do Homem Americano – Fumdham – e outras entidades científicas associadas em rede no decorrer de três décadas de pesquisa nessa região.

Cabe lembrar que inicialmente as pesquisas no Parque Nacional estiveram centradas nos sítios com pinturas rupestres pré-históricas em razão do seu extraordinário acervo, tanto pelo número de sítios achados, como sua densa concentração e seu estado de conservação. Em 1991, por essa riqueza gráfica e cultural, a Unesco inscreve o Parque Nacional Serra da Capivara na Lista do Patrimônio Mundial de Humanidade. As escavações arqueológicas foram no começo realizadas em função da procura de informações complementares sobre esse patrimônio cultural, mas rapidamente as descobertas extrapolam as metas e as expectativas formuladas. A inesperada antiguidade da presença humana na região requer, para desvendar esse universo desconhecido, uma abordagem de pesquisa interdisciplinar. Desde a criação do Projeto, em 1986, o tema de pesquisa proposto pela Fumdham foi definido como a interação do homem com o ambiente, desde a Pré-História até os dias atuais. Varias gerações de pesquisadores brasileiros e estrangeiros sucederam-se num fluxo contínuo de trabalhos interdisciplinares para configurar um mapa multidisciplinar que enquadrasse o tema central das pesquisas no Parque Nacional. A participação das diversas disciplinas na pesquisa evoluiu de maneira diferenciada, o que se traduz num grau distinto das colaborações. Algumas salientam o estado da arte, outras a evolução da pesquisa, outras, também, os aspectos inovativos e a introdução de novos dispositivos técnicos dentro do dispositivo de pesquisa.

Até agora, foram publicados três volumes, sendo que é no volume II, dividido nos tomos A e B, que se resenha aqui e integra artigos com uma diversidade temática salientando a importância da interdisciplinaridade entre as ciências que interagem na formulação de um objetivo comum. O volume II reúne trabalhos inéditos de 42 autores em artigos individuais ou em equipe, apresentando uma amostragem representativa do trabalho realizado naquela região.

Dividido em oito temas, a obra abre com um breve histórico introdutório, desde a chegada dos primeiros pesquisadores numa região praticamente desconhecida.

Niède Guidon relata essa trajetória, de forma sucinta e quase coloquial, com o texto: A Fundação Museu do Homem Americano e o Parque Nacional Serra da Capivara. Relato sucinto de três décadas de pesquisa.

O primeiro tema tratado considera o ambiente e paleoambiente na região do Parque Nacional Serra da Capivara com as contribuições de três artigos.

Apresentam-se os resultados de pesquisas paleoambientais que tiveram um sólido avanço, ampliando o conhecimento das drenagens e dos vales arcaicos. As escavações arqueológicas e paleontológicas evidenciaram perfis estratigráficos, viabilizando a extração de amostras de sedimentos que forneceram informações palinológicas e antracológicas, datações que permitiram compreender os processos deposicionais e contextualizar os vestígios arqueológicos subsedimentares nos sítios. Para entender a interação entre os grupos humanos e a paisagem no decorrer do tempo, requer inserir os vestígios arqueológicos e paleontológicos nos contextos estratigráfico, cronológico e cultural da paisagem.

A reconstituição dos contextos faz com que as pesquisas arqueológicas e paleoambientais sejam interdependentes. Dados obtidos nas escavações das lagoas fósseis e sondagens realizadas nas redes de drenagem permitiram demonstrar que o clima da região foi tropical úmido até há cerca de 10.000 anos. No alto da planície, dominava a floresta amazônica e, na planície, a mata atlântica. Hoje, apesar de a caatinga ter coberto a região, nos vales mais úmidos, ainda existem espécies animais e vegetais desses dois biomas.

O segundo tema apresenta, com duas contribuições, os resultados da pesquisa em Paleontologia. Os fósseis da região da Serra da Capivara foram descobertos ao longo das últimas décadas através das escavações e sondagens realizadas nas numerosas lagoas da região. As datações absolutas permitiram posicionar as associações fossilíferas dentro do limite Pleistoceno final/Holoceno. Uma síntese do conhecimento atual dessas associações apresenta-se nos dois capítulos. Novas espécies foram descritas pelos paleontólogos que participam das pesquisas desde os anos oitenta do século XX.

A Biologia e Antropologia Física compõem o terceiro tema apresentado. No decorrer de décadas de pesquisa, os dados coletados permitiram realizar importantes contribuições ao conhecimento nas áreas da Biologia, Zoologia e Botânica graças à estreita colaboração entre pesquisadores da Fiocruz e da Fumdham. A descoberta de vestígios de ancilostomídeo nas populações préhistóricas do Piauí, há pelo menos 7.000 anos, rompeu o paradigma de que a ancilostomíase havia sido trazida da Europa e da África para América pelos colonizadores. Também ficou evidenciado que os piolhos chegaram a América com seus hospedeiros humanos muito antes dos europeus. A pesquisa de parasitos de animais em coprólitos humanos revelou os hábitos alimentares do Homo sapiens pré-histórico a partir da identificação, nas fezes humanas, de parasitos específicos de animais, utilizados como alimento. São quatro os artigos que apresentam o estado da arte da Biologia.

Em Antropologia Física, foi revelada a diversidade morfocraniana dos remanescentes ósseos humanos, acrescentando dados significativos ao estudo da evolução humana e da origem do homem americano. Na dimensão de biodiversidade de fauna existente com os resultados da pesquisa, foi possível identificar uma fauna de vertebrados composta aproximadamente de 370 espécies.

A floral local formada por vegetação xerofítica é decídua e adaptada à seca. A flora de caatinga atual e os restos da mata atlântica e de espécies amazônicas permitiram identificar os diferentes ambientes em que os grupos humanos viveram durante milênios.

A caracterização do ambiente apresentado nos três primeiros temas é fundamental para contextualizar os temas relativos às populações pré-históricas, que se estruturam em torno da sua evolução tecnológica e que aparecem nas manufaturas líticas, nos grupos ceramistas, nos registros gráficos rupestres, nas escolhas dos espaços ocupados e nos processos rituais fúnebres.

O Homem na Pré-História do Parque Nacional Serra da Capivara é o título do tema 4, que aborda assim a longa sequência cultural que caracteriza as ocupações humanas pré-históricas da região, desde o Pleistoceno Superior até a extinção das etnias indígenas. Um longo caminho de adaptação às limitações imposta pela evolução ambiental, para o qual as populações humanas inovaram tecnologicamente para se defender, coexistir e se afastar dos perigos como os da presença da megafauna, com a qual coexistiram cronologicamente. Eram observadores da mudança climática e da extinção da fauna de grande porte, multiplicando-se a fauna de pequeno porte, roedores, pequenos mamíferos, peixes que passaram a participar da suas novas dietas. A inovação na manufatura cerâmica, as primeiras roças de subsistência, o aumento das terras disponíveis para seus assentamentos provocados pela seca e sua consequente diminuição do volume das águas.

A pesquisa sobre a manufatura cerâmica não se formula para analisar os detalhes do procedimento técnico de sua elaboração, mas como meio de chegar ao conhecimento das populações que a fabricaram e utilizaram; interessa a funcionalidade e o uso da cerâmica pré-histórica. Nas análises dos perfis técnicos das cerâmicas é seguramente onde mais se tem avançado a nível regional.

Constata-se que a cerâmica utilitária em nada difere da utilizada nos rituais fúnebres.

O tema 5 trata dos materiais líticos pré-históricos, e as pesquisas contam com duas colaborações que coincidem com dois momentos metodológicos. O primeiro elaborado para o estudo da Toca do Sítio do Boqueirão da Pedra Furada, em que se estuda e relaciona os produtos líticos finalizados, com ou sem marcas de uso.

Utiliza-se uma classificação analítica dos implementos desse sítio segundo a estratigrafia do Pleistoceno superior ao Holoceno antigo. O segundo tempo metodológico trabalha com os processos de realização dos produtos líticos a partir de um grupo de sítios apresentando a evolução dos implementos líticos nas diferentes fases, por níveis estratigráficos da ocupação pré-histórica.

O sexto tema trata dos registros gráficos rupestres do Parque Nacional, que foram objeto do primeiro volume dessa Síntese, apresentando os primeiros resultados dos sítios descobertos e fornecendo uma proposta preliminar classificatória do acervo de pinturas e de gravuras. O número de sítios pintados ou gravados documentados experimentou, nas últimas décadas, um crescimento surpreendente permitindo dispor de um acervo de registros gráficos maior para uma mesma área e enriquecer o banco de dados imagéticos do Parque Nacional. Hoje, os novos aportes da pesquisa sobre as pinturas e gravuras rupestres, que fazem a diferença na última década, são de natureza técnico-metodológica. Sua aplicação atinge o grau de precisão do registro documentário imagético, permitindo obter um documento final, exaustivo e preciso dos sítios. Viabiliza a criação de bancos de dados imagéticos georreferenciados, tanto bidimensionais como tridimensionais.

No plano analítico dos registros rupestres, a introdução de novas técnicas de medição permite aceder a um espaço analítico ampliado para o estudo e a interpretação dos registros imagéticos. Essas contribuições são verdadeiros instrumentos para formular diagnósticos, planejar intervenções preventivas para a conservação das primeiras obras gráficas da humanidade O sétimo tema trata das pesquisas em Metrologia Arqueológica e Patrimonial desenvolvidas pelo grupo de pesquisa (UFPE/CNPq), que está especializado na análise de elementos-traços em amostras arqueológicas e geológicas e na datação de sedimentos, vestígios cerâmicos e dentes através de métodos de Termoluminescência (TL), Luminescência Opticamente Estimulada (LOE) e Ressonância Paramagnética Eletrônica (EPR). As técnicas apresentadas estão acompanhadas por um estudo de caso, sendo que um deles trata das análises dos pigmentos das pinturas rupestres do Parque Nacional Serra da Capivara. Esse grupo de pesquisa trabalha de forma articulada com as equipes arqueológicas da Fumdham no desenvolvimento de novas metodologias, buscando uma maior precisão nos resultados e adequação ás necessidades da pesquisa.

Finalmente, no oitavo tema, abre-se um espaço para a consideração do fim do mundo indígena e o começo dos tempos históricos. Nele, são apresentadas duas colaborações evidenciando a carência de documentos históricos que tratem do fenômeno indígena ou a existência de documentos históricos deturpados, apresentados pelo filtro dos valores dos três primeiros séculos da presença de europeus no Brasil. A imagem do indígena construída segundo a funcionalidade às necessidades da conquista, da colônia e do valor da produtividade. O indígena sem valor algum em relação ao escravo africano, que tem um preço de compra e um potencial de produtor de bens. O indígena protegido em certa forma da escravidão e do sistema desaparece gradativa e silenciosamente.

Os resultados de trabalhos de impacto social, desenvolvidos paralelamente à pesquisa científica, estão incluídos no volume III da Síntese, que, sob o título Arqueologia, Ambiente e Inclusão Social no Plano Diretor de São Raimundo Nonato, PI, estará disponível no decorrer do ano 2015.__

Paulo Souto Maior – Departamento de Arqueologia, UFPE.

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Plato’s Erotic World: From Cosmic Origins to Human Death – GORDON (RA)

GORDON, J.  Plato’s Erotic World: From Cosmic Origins to Human Death. Cambridge: Cambridge University Press, 2012. Resenha de: Riegel, Nicholas. Revista Archai, Brasília, n.14, p. 159-162, jan., 2015.

In this work, Jill Gordon presents a contribution to the scholarship that must be read by anyone interested in the subject of erotic love, eros, and related issues in Plato. The book is written in a clear style which will be accessible to undergraduates,  and it contains insights and new interpretations  which will challenge and be useful to more advanced scholars as well. Though the lack of a conclusion would seem to indicate that her book is not primarily written in the form of an argument, Gordon wants to defend several theses. The main goal of the book is to highlight the significance of those passages in the Platonic corpus having to do with eros, which are outside of what are traditionally considered Plato’s erotic dialogues, namely,  Symposium, Phaedrus, Charmides, Lysis, Alcibiades I, and perhaps Republic (1). While she will have certain things to say about these dialogues, especially Phaedrus and Alcibiades I, she will focus on the role of eros in  Timaeus, Cratylus, Protagoras, Parmenides, Theaetetus, and  Phaedo. Within these dialogues her main aim is to show how eros is part of our divine origin, and how through proper cultivation of eros we may return  to that original state. The proper cultivation will  involve, first, becoming aware of one’s ignorance  and adopting an interrogative outlook. Second, it will require the courage to undertake a long and  difficult task whose outcome is uncertain. It will  also require guides who know the soul, and who  are adept both at matchmaking and leading their charges to self-knowledge. And finally she addresses the connection between eros and the memory of our original state to which we strive to return. Thus  Gordon takes us on a circular journey beginning with our divine origins in the Timaeus, then descending to the difficulties of our embodied state in the Cratylus, Protagoras, Parmenides and Theaetetus, and then finally returning to our nostos, our journey home, and re-attainment of that original state, in the Phaedo.

In the first chapter, Gordon is primarily concerned to establish two points. The first is that,  contrary to the traditional reading of the Timaeus, eros is part of our original noetic condition and thus eros, or at least the capacity for it, is part of the Demiurge’s contribution to the human soul, as opposed to being the work of the lesser gods. The second and for Gordon related point is that eros is not an emotion and it is not part of the epithumetic desires, which at least in Republic Book IV constitute the third part of the soul. Gordon wants to establish the latter point because, among other reasons, if eros were an emotion or among the epithumetic desires then it would be part of the work of the lesser gods in the Timaeus. And, according to Gordon, this would imply that eros is not due to the creative activity of the Demiurge himself and therefore that it is not part of our original noetic condition.

Her main argument for the view that the  Demiurge is responsible for eros in the human  soul revolves around the interpretation of two  passages, Timaeus 42a-b and 69c-e, which seem to say much the same thing. Both seem to describe  how the affections, such as fear, anger, and eros, come to be in the human soul in connection with its embodiment. At 69c-e the introduction of these affections (if I may use that word) is clearly the work of the lesser gods. The crucial question is whether the earlier passage, 42a-b, likewise describes the  work of the lesser gods. According to Gordon, the traditional interpretation accepts that it does, but Gordon argues that 42a-b describes the Demiurge’s own work, and thus that eros, or the capacity for eros, is part of our original noetic and divine condition. Gordon presents three reasons for believing this. First, 42a-b “occurs before the demiurge has handed off responsibility for the mortal soul to  the lesser gods. It presents itself as part of the  demiurge’s long set of instructions and descriptions of his work, which precedes what he assigns to the lesser gods”(16). Second, the affections at 69c-e are presented in a negative light, while they are  not so presented at 42a-b. And third, 69c-e occurs after the “new beginning”at 48a-b, where Timaeus switches from speaking about the causal role of  intellect to that of necessity.

In chapters 2 through 5 Gordon explores the four main aspects of eros, which emerge in the context of the self-cultivation required to achieve the return our original noetic state. Chapter 2 mainly concerns the importance of questioning and the  interrogative state for eros. She begins with the Cratylus where a homophonic connection is made between the Greek words for ‘hero,’ ‘eros,’ and ‘questioning’ (ἥρως, ἔρως, ἐρωτάω). Heroes occupy a position between the gods and mortals, much  as Diotima describes eros in the Symposium. And Gordon ties Socrates’ claim to knowledge of erotics in Symposium to his expertise in questioning. By asking questions, Socrates shows his interlocutors that they do not know what they thought they  knew, and thus he instills in them the erotic desire to know the truth. Chapter 3 discusses the courage required to engage in erotic questioning and in the philosophic pursuit generally. Here Gordon takes  Parmenides  as her starting point, claiming that  “eros is a significant philosophical theme”in that dialogue (86). Her grounds for saying so revolve mainly around the fear Parmenides and Socrates  share both about the range of the Forms, and  about the problems of discontinuity between the realm of the Forms and the concrete realm. This  fear is to be overcome by the philosophical exercise exemplified by Parmenides in the second half of the dialogue. Gordon highlights the erotic dimension of gymnastic training in Ancient Greece, and thus connects the second half of the Parmenides with an erotic desire which in some way overcomes the discontinuity between the concrete and abstract  realms.

In the fourth and fifth chapters Gordon tackles the related issues of matchmaking, self-knowledge, and the necessity of having a good leader or teacher. In the Theaetetus Socrates reveals that matchmaking is part of his maieutic art, and he uses his knowledge of these matters to demonstrate that Theodorus is not a good match for Theaetetus, because, among other reasons, Theodorus does not have a good  understanding of Theaetetus’ soul. The significance of good matchmaking becomes apparent when we turn to the  Alcibiades, where Socrates reveals to  Alcibiades that he needs a good teacher in order to achieve self-knowledge, and that in fact Socrates  himself would be his best teacher because Socrates understands Alcibiades’ soul. In chapter 5 Gordon takes on several of Schleiermacher’s arguments  against the authenticity of the Alcibiades. She argues that self-knowledge can only be achieved in the  company of another, and that it is best achieved in the company of a lover who knows one’s soul. Self-knowledge is crucial in order to discover what one truly desires and loves. Thus in helping the beloved achieve self-knowledge the lover also redirects the beloved’s eros towards its true objects.

Finally, in the last chapter Gordon addresses the connection between eros and memory in helping us return to our original noetic state in the Phaedo. Here she highlights the example of seeing the lyre or cloak of the beloved as an explanation of the  connection between eros and memory. And she challenges the tradition according to which recollection is a purely mental, rational endeavor. Instead Gordon highlights the importance of the senses, of actually seeing the cloak or lyre or equal sticks, in the act of remembering our original condition.

Clearly it is only possible to give the broadest outline Gordon’s work here, and many of her most rewarding and challenging insights and interpretations have been left for the reader to discover. At this point, however, I turn to making three evaluations before concluding.

First, while I agree that there is evidence  in the Platonic corpus for the view that eros is  part of our original noetic condition, I find myself un-persuaded by Gordon’s interpretation of the  Timaeus. While not claiming any expertise on that dialogue it seems that on a straightforward reading of Timaeus 42a-b, the Demiurge is merely explaining to the human souls what will happen to them once they are embodied and receive affections such as anger, fear, and love. The passage is preceded by  the following: “And putting each in a sort of chariot he showed them the nature of the universe and told them the ordained laws… (καὶ ἐμβιβάσας ὡς ἐς ὄχημα τὴν τοῦ παντὸς φύσιν ἔδειξεν, νόμους τε τοὺς εἱμαρμένους εἶπεν αὐταῖς, 41e).”As I read the text, everything that follows until 42d is part of this explanation by the Demiurge to the human souls about what will happen to them, namely that they will receive affections when embodied and that they must control these if they wish to regain their original divine state. This interpretation is  supported at the end of the passage where Timaeus states, “Prescribing all these things to them, in order that he might be blameless for the evil of each… (διαθεσμοθετήσας δὲ πάντα αὐτοῖς ταῦτα, ἵνα τῆς ἔπειτα εἴη κακίας ἑκάστων ἀναίτιος, 42d).”So, I see no reason to take 42a-b as referring to the Demiurge’s own creative activity. It seems, rather, that he is only explaining to them how to live once they received the affections by necessity upon being embodied. And 69c-e further specifies that the embodiment and consequent reception of the affections is the work of the lesser gods. This is not, however, to say that Gordon is wrong to believe that eros is part of our original noetic condition. It is only to say that I think one could find better support for such a thesis elsewhere in the Platonic corpus, e.g. from  Symposium  where Socrates/  Diotima specifically speaks about the possibility of continuing to feel eros even when one possesses the good (Symposium 200c-d, cf. 206a-7a).

Second, at times I found myself remaining  skeptical about Gordon’s claims regarding the  meanings of certain Greek words and concepts, in particular the claim that they have erotic connotations. She claims, for example that “the horse was used in old comedy as a phallic stand-in”(101), and thus that a possible interpretation of Parmenides’ reference to feeling like an old horse at Parmenides 136e-7a is that it is “a playful and raunchy way of expressing that he is being asked to “get it up” again in old age…”(102). Even if it is true that the horse is used as a phallic stand-in in old comedy, I do not see that it follows from this that the horse always has erotic connotations, and so I see no  reason to impute such connotations to this part of the Parmenides. I feel much the same way about her claims regarding ‘persuasion’ (Πειθώ, 34-7, 118- 19), ‘yielding’ (ἡσσάομαι, 36), ‘gymnastic training’ (γυμνάζω, 98), ‘leading’ (προάγω, 168), among others. Even if these concepts sometimes have erotic connotations, it does not follow that they always have them – or at least more work is needed to  establish that they do – and so the reader remains skeptical about the inference that they have such connotations in the passages in question.

Finally, I would like to present a criticism  which will reveal my biases most of all. And this  is that for me the question of eros in Plato is essentially bound up with the questions of goodness and beauty. In this sense, I think, the strength of Gordon’s work is also its weakness. For in focusing on what are traditionally not considered erotic dialogues, it seems to me that certain central issues concerning eros are omitted, which are addressed in the traditional erotic dialogues, especially Symposium and Phaedrus. In the Symposium it is a major revelation that the object of eros is goodness, not beauty (204d-e). And eros is defined as the desire to possess the good forever (206a). And yet Gordon says very little about beauty and even less about goodness. We may infer that, for Gordon, the good which is the proper object of eros is the return to the original noetic condition, and no doubt this is true. But the question remains, why is that original noetic condition good? The  Symposium  explicitly  addresses and rejects the idea that return to original conditions is good merely because it is a return to original conditions. This was Aristophanes’ thesis. Aristophanes argued that the goal of eros was to return us to our original condition of wholeness with our other halves. But Diotima explicitly rejects this thesis at 205e. We would not want original conditions unless those original conditions were good,  and thus we cannot assume that original conditions are always good. This is something which has to be determined. So the question remains, why is our  original noetic condition good?

I have no doubt that Gordon can answer all these questions soundly. And good work in this field should generate controversy and disagreement. In this book Gordon has contributed greatly to the  understanding of eros in Plato, and in particular  to the appreciation of the significance of the topic outside what are traditionally held to be the erotic dialogues. And it is expected that more research  will arise out of the important issues she raises in this work.

Nicholas Riegel – Universidade de Brasília, Brasília, Brasil. E-mail: nriegel95@gmail.com

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Arqueologia Funerária: Corpo, Cultura e Sociedade. Ensaios sobre a interdisciplinaridade arqueológica no estudo das práticas mortuárias – SILVA (CA)

SILVA, Sérgio Francisco Serafim Monteiro da. Arqueologia Funerária: Corpo, Cultura e Sociedade. Ensaios sobre a interdisciplinaridade arqueológica no estudo das práticas mortuárias. Recife: Editora da Universidade Federal de Pernambuco, 2014, 133p. Resenha de: MAIOR, Paulo M. Souto. Clio Arqueológica, Recife, v.30, n.1, p. 154-159, 2015.

O livro reúne ensaios extraídos de artigos e monografias escritas pelo autor desde 2001 e representa a primeira obra dedicada à Arqueologia Funerária publicada pela UFPE. Os temas dedicados aos estudos da Antropologia Biológica e Arqueologia Funerária são relativamente escassos na bibliografia brasileira, isso porque os resultados das pesquisas são restritos a artigos, dissertações e teses do meio acadêmico.

O livro contém vinte capítulos, todos introdutórios aos temas da Bioarqueologia e da Arqueologia Funerária, com revisões de autores anglo-saxões clássicos, como L. Binford, Tainter, O´Shea, P. Ucko, J. Brown, C. S. Larsen, Saxe, R. Chapman, I. Hodder, Douglas Ubelaker, Don Brothwell, Simon Mays, John Hunter, Tim White, W. Bass, Hertz, Bendann, Margaret Cox, Jane Buikstra, Ian Morris, Parker Pearson e os franceses Louis Vincent Thomas, Henri Duday, Pettitt e Edgar Morin.

E de fato, no Nordeste do Brasil, realizaram-se vários estudos arqueológicos sobre cemitérios históricos e pré-históricos, entretanto, esses trabalhos não fizeram, em certa medida, interpretações arqueológicas dirigidas aos dados mortuários de natureza biológica, com reconstituições dos perfis biológicos em conjunto com os perfis socioculturais, tecnológicos e funerários.

Por outro lado, a proposta do autor recai em uma abordagem que retoma à importância da relação das Ciências Biológicas, da Antropologia, dos sistemas de registro dos contextos arqueológicos com os estudos mortuários na Arqueologia e que possibilita reconstituir as relações sistêmicas entre os indivíduos, nas suas sociedades e destes com o ambiente. É o caso, por exemplo, do cemitério do Pilar2, recentemente escavado pela Fundação Seridó, e os pré-históricos: abrigo Pedra do Alexandre, escavado por arqueólogos da UFPE; sítio Justino; Furna do Estrago; e Gruta do Padre, nos quais a abordagem da Bioarqueologia e dos estudos mortuários permitiram reconstituir parcelas dos contextos arqueológicos e das relações homem/homem, homem/sociedade e homem/ambiente.

Além da diversidade de assuntos tratados sobre o tema da morte na Arqueologia, como a conceituação de Arqueologia da morte, da Bioarqueologia e alguns dos seus alcances, entre outros aspectos, o livro apresenta uma bibliografia significativa sobre esses temas multidisciplinares. Isso significa que, nesse texto, as formas de abordagem dos registros arqueológicos de natureza mortuária e funerária demandam leituras em áreas do conhecimento nem sempre permeáveis entre si, como a Anatomia e a História ou a Biologia e a Antropologia.

Levando em consideração que os estudos sobre a morte e a reconstituição de estilos de vida do passado têm representado campos de interesse da Antropologia da morte e História da morte, no âmbito das Ciências Humanas e Sociais, e que o corpo humano faz parte dos remanescentes arqueológicos encontrados nos sítios cemitérios, o fator biológico nas análises torna-se imprescindível, resultando no auxílio necessário da Antropologia física ou biológica, desde o séc. XIX. Sobre essas e outras questões, o autor desenvolve os seus capítulos.

O problema do corpo em sua amplitude material, social, simbólica e fenomenológica está inserido no rol de interesses da Arqueologia de longa data. No livro, esse problema é revisitado, e o corpo, ora visto como biofato — objeto da Osteoarqueologia —, ora como objeto de cultura material — objeto da Arqueologia e da Antropologia —, guarda em si mesmo traços de comportamento, da cultura e da sociedade no qual estava inserido. Essa perspectiva valoriza o tipo de vestígio oferecido pelos remanescentes ósseos humanos e o seu potencial de análise e interpretação.

O autor enfatiza sobre o corpo e o seu estudo na Arqueologia e a necessidade de integração das ciências tradicionalmente vinculadas ao seu estudo, como a Medicina, a Odontologia, a Biologia e as Ciências Biomédicas. Também aparecem como recorrentes as contribuições da Antropologia, da Psicologia, da Sociologia, da Filosofia, da Semiótica e da História. O conceito de população, advindo da Biologia, se interpõe — e ora se sobrepõe — ao de sociedade ou grupo humano nos estudos dos sepultamentos arqueológicos. Com esse foco, o autor enfatiza a necessidade constante da interação entre as Ciências Biológicas e a Arqueologia na produção de conhecimento científico sobre as sociedades do passado, seus estilos de vida, suas práticas funerárias, suas formas de subsistência e sua interação com o ambiente, com as doenças, com os traumas, com as anomalias, com os estresses e com as características demográficas.

Adverte o autor que, como os sepultamentos contêm dados mortuários relativos aos objetos de cultura material eventualmente associados ao morto, a exemplo da cova — ou a estrutura de sepultamento — e o corpo — ou seus remanescentes —, o estudo deve ser multidisciplinar e também com a devida inclusão das ciências como a Metrologia arqueológica, a Química e a Física arqueológica, amenizando as explicações eventualmente infundadas das Ciências Humanas. Esse talvez seja o maior mérito do texto. E, de fato, com caráter eminentemente vestigial ou fragmentário, os remanescentes das práticas funerárias nos sítios arqueológicos devem ser estudados contextualizados, e a sua espacialização é absolutamente necessária a uma interpretação arqueológica eficaz sobre cada indivíduo e na sociedade na qual viveu.

As interpretações arqueológicas dos sítios cemitérios pré-históricos no Brasil ainda merecem coletâneas de grande porte, especialmente voltadas aos níveis de confiabilidade dessas abordagens interpretativas. Nesse aspecto, o autor procurou expor a necessidade de terminologias e classificações objetivas para a descrição inicial dos sepultamentos humanos; sobre a importância da escavação meticulosa, sempre enfatizando a importância dos sistemas de registro, como a fotografia e o desenho de Arqueologia, dentre outros recursos que demandem um adequado alfabetismo visual; o uso do conhecimento da Osteoarqueologia em campo; e a curadoria de curta, média e longa duração de coleções antropológicas que estão sob a guarda de instituições de pesquisa científica, valorizando a elaboração de catálogos sistemáticos de remanescentes funerários voltados aos estudos comparados entre populações com formas de subsistência, localização geográfica e cronologia diferentes. Em outros termos, para que exista a confiabilidade em qualquer interpretação, é necessário o fundamento factual que apresente o benefício da prova científica, oferecida por um registro adequado dos vestígios funerários inseridos no contexto arqueológico e pela sua decapagem e observação alfabetizadas em campo e no laboratório.

A formulação de descritores fiáveis, passíveis de verificabilidade e reprodutibilidade mínimas, aplicados aos dados mortuários, é fundamental para a reconstituição e comparação de perfis funerários — culturais — e de perfis biológicos ou bioculturais, e a consequente interpretação arqueológica, a partir de unidades de análise, é uma advertência que o autor faz em estudos sobre a morte na Arqueologia. E, segundo ele, esse tipo de dado é muitas vezes fragmentário e incompleto. O estilo de vida, as interações ambientais, as doenças e as características socioculturais e demográficas de cada indivíduo exumado em um cemitério pré-histórico, tanto quanto o seu papel no processo de ocupação do continente americano e as suas afinidades biológicas e culturais, são possíveis, conforme propõe o livro, apenas a partir da interdisciplinaridade de todas essas áreas do conhecimento.

Por fim, cabe ressaltar que o livro apresenta um panorama da complexidade de abordagens e possibilidades mais adequadas no estudo das práticas funerárias em sociedades humanas do passado, com uma perspectiva teórica dada pela interação entre as Ciências Sociais e Humanas e as Ciências Biomédicas e exatas, sem, contudo, aprovar as apropriações hegemônicas das Ciências Biológicas sobre as arqueologias.

Nota

2 PESSIS et al.. Evidências de um cemitério de época colonial no Pilar, Bairro do Recife, PE. Revista Clio Arqueológica. V. 28, n. 1, 2013.

Paulo M. Souto Maior – Departamento de Arqueologia, UFPE.

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Econômicos – ARISTÓTELES (RA)

ARISTÓTELES. Econômicos. Coleção. Obras Completas de Aristóteles, Volume  VII – Tomo 2. Introdução, notas e tradução do original grego e latino de Delfim F. Leão. São Paulo: Martins Fontes, 2011. Resenha de: COITINHO, Denis. Revista Archai, Brasília, n.14, p. 155-158, jan., 2015

Qual a relação adequada que deve haver  entre a ética e a economia? Uma relação de subordinação da economia à ética e, assim, os valores  morais serviriam de fundamentação para os valores econômicos ou, alternativamente, economia e  ética não teriam nada em comum, uma vez que  os juízos morais seriam puramente prescritivos  e, por isso, subjetivos e arbitrários, enquanto os  juízos econômicos seriam objetivos por descreverem um certo estado de coisas? Mas, dessa forma, não teríamos um empobrecimento da ciência  econômica? Dados os problemas atuais de crise  financeira global, pobreza, desemprego, impacto  da globalização econômica e crise ambiental, por  exemplo, não seria reducionista tomar a economia apenas como um saber técnico na determinação dos meios necessários ao enriquecimento, tais como os relacionados à produção, distribuição e consumo  dos bens e serviços? Levando em consideração uma visão de economia mais atenta a esses problemas, a relação mais adequada entre as duas disciplinas parece ser a de complementaridade, uma vez que a ética poderia auxiliar à economia na determinação do fim bom para o ser humano, enquanto que a  economia poderia auxiliar na identificação dos meios mais eficientes para a realização desse fim (Ver A. Sen, On Ethics and Economics, Blackwell, 1988, p. 2-7). Esse contexto parece evidenciar a atualidade e urgência do pensamento de Aristóteles, uma vez que ele vincula o saber econômico à ética e à política, com a especificação da vida virtuosa como àquela que deve ser vivida e a eudaimonía como o bem a ser perseguido. Mas qual é a posição aristotélica  a respeito dos meios adequados para a realização desse fim? A obra Econômicos pode nos auxiliar a responder a essa questão. E, mais ainda, penso que ela pode nos ajudar a compreender que a relação  que está sendo proposta é a de complementaridade entre a ética e a economia e não uma relação de total subordinação.

Dito isso, é com enorme satisfação que recebemos a publicação no Brasil dos Econômicos em língua portuguesa. Esta obra pertence ao  corpus aristotelicum e sua datação provável é do último  quarto do Séc. IV e o primeiro do Séc. III AC e,  provavelmente, foi escrita por algum discípulo do Liceu. Importante frisar que, até o presente, só se contava com uma tradução para o vernáculo feita por Moses Bensabat Amzalak, em 1945. Essa publicação faz parte da coleção Obras Completas de Aristóteles, que é organizada pelo Prof. António Pedro Mesquita. Obra originalmente editada pela Imprensa  Nacional – Casa da Moeda em 2004, no quadro do projeto de tradução anotada das Obras Completas de Aristóteles, promovido e coordenado pelo Centro de Filosofia da Universidade de Lisboa e subsidiado pela Fundação para Ciência e a Tecnologia. A coleção está sendo adaptada para publicação no Brasil pela Editora Martins Fontes. A edição em questão conta com a tradução, introdução e notas de Delfim F.  Leão, além de apresentar um eficiente glossário dos termos gregos e latinos e índice onomástico no final.

Delfim Ferreira Leão é doutor em filologia  clássica e professor catedrático da Faculdade de  Letras, docente do Instituto de Estudos Clássicos e investigador do Centro de Estudos Clássicos e  Humanísticos da Universidade de Coimbra. É uma importante referência na área dos estudos clássicos, com inúmeras traduções do grego e latim para a  língua portuguesa. Sua tradução ao  Econômicos é segura e competente e adota o texto de Van  Groningen-Wartelle (1968), que também serviu  de guia para boa parte de seu comentário feito na introdução. Além disso, a tradução é enriquecida com esclarecedoras notas de rodapé que ora buscam elucidar o significado das palavras em grego e latim e ora contextualizá-las. Na maior parte das vezes, as notas apresentam a palavra em grego (Livros I e II) e latim (Livro III) do original, o que é muito positivo por situar o leitor na complexidade semântica do texto peripatético e mostrar a escolha de tradução que está sendo adotada. Também é  relevante frisar o acerto no uso da transliteração em caracteres latinos dos termos e expressões  gregos, o que possibilita ampliar o alcance da obra para um público não versado na língua grega, mas que pode ter um interesse especial no tema, tais como estudiosos de teoria política e econômica,  direito, história, filosofia etc. Delfim F. Leão procura destacar em sua introdução os motivos do por que a obra, em que pese seu título, não despertou muito interesse no quadro do debate em torno da economia antiga: “(…) em primeiro lugar, porque o trabalho de Xenofonte constitui um exemplo muito mais significativo da abordagem tradicional (…); em segundo, porque as reflexões feitas nos Econômicos são, apesar de tudo, bastante menos fecundas do que as apresentadas no Livro V da Ética nicomaquéia e no Livro I da Política “(p. VIII).

Em que pese a verdade da afirmação acima, sobretudo por não contar com uma teoria do valor como na Ética Nicomaquéia (EN V, 5, 1133 a 7-18), quero destacar três conceitos chaves que parecem estar pressupostos nas teses apresentadas nos  Econômicos  e que são fundamentais no  corpus aristotelicum. Em primeiro lugar, há uma reflexão teleológica, isto é, se partirá da finalidade do ente para se identificar qual é o seu dever. Aqui o conceito de função (ergon) e natureza parecem ser determinantes na administração da casa, que tem como  centro o homem e a propriedade. Em segundo lugar, a pesquisa em economia parece se fundamentar no conceito de virtude (arete), uma vez que a formação do caráter virtuoso do agente será fundamental para a eficiência econômica. Por último, a finalidade buscada na economia é a autárkeia (autossuficiência) e, assim, o parâmetro normativo da casa é o mesmo que o dos agentes e da comunidade política.

Mas, quais as teses mesmas que são apresentadas nos Econômicos ? No Livro I, já há a tentativa de um enquadramento geral da ciência econômica a partir de uma importante distinção feita entre a economia (oikonomike administração da casa) e  a política (politike administração da  pólis) que  revelará uma certa prioridade da casa frente à pólis:

A pólis resulta, por conseguinte, de um agregado  constituído por casas, terras e bens que seja autossuficiente (autarkes) e capaz de garantir o bem-estar (to eu zen). Essa realidade afigura-se evidente, pois, quando as pessoas não se mostram capazes de atingir aquele objetivo, a comunidade (koinonia) acaba por dissolver-se. (1343 a 10-14).

Assim sendo, há um espaço relevante deixado em aberto para o saber específico da administração da oik îa, que será condição de possiblidade da  política e que se concentrará na investigação dos elementos da casa, a saber, o homem e a propriedade. Nesse livro, teremos por destaque os deveres dos homens para com as mulheres e os escravos  (1343 b 8 – 1344 b 21) e, também, se destacará as funções do senhor da casa no tocante aos bens, consistindo na capacidade de adquirir e manter os bens, além da capacidade de organizar e fazer bom uso das posses (1344 b 22 – 1345 b 4). Isso parece revelar a importância da virtude para a economia. Assim, o que parece ser a tese central nesse primeiro livro é que o caráter virtuoso é peça chave da boa administração da casa. Além de um conhecimento específico ser importante para a vida boa, tal como saber as melhores técnicas de produção, armazenamento, compra e venda, o agente econômico deverá ser um agente moral, no sentido de ter um caráter virtuoso, o que lhe propiciará estabelecer as relações adequadas com os indivíduos (esposa, filhos e escravos), com o trabalho e, também, com os bens.

O papel do Livro II parece ser o de buscar  delinear um enquadramento geral da economia de uma forma mais apropriada e, para tal, estabelecerá uma relação de complementaridade entre a esfera econômica e a esfera ética em razão da importância desses dois saberes para a vida boa: “A pessoa que tiver intenção de administrar uma casa da forma  correta terá de estar familiarizada com os lugares de que vai se ocupar, ser dotada, por natureza, de boas qualidades e possuir, por vontade própria, sentido de trabalho e justiça”(1345 b 7-10). Esse livro também distingue quatro formas de economia, a saber, a real (basilike), dos sátrapas (satrapike), política (politike) e individual (idiotike), e trata de alguns dos temas centrais da economia, tais como: cunhagem da moeda, exportação, importação, controle nas despesas, impostos, produção agrícola, comércio, pecuária,  juros, entre outros temas econômicos (1345 b 20 – 1346 a 15). Também, faz uma acurada descrição de casos econômicos bem-sucedidos, apresentando pessoas e cidades que usaram os meios adequados para obter riqueza e administrá-la corretamente  (1346 b 1 – 1353 b 25).

O Livro III reforça a ideia ética já apresentada no Livro I, ressaltando os deveres e sentimentos  necessários do marido para com a esposa e filhos, principalmente, para a obtenção de uma vida bem-sucedida. Em que pese o problema da não conservação do original grego, sendo o texto conhecido por traduções latinas medievais, em especial a translatio Durandi, creio que esse livro tem um importante  papel de reforçar a ideia da necessidade da ética  para a economia. Nele se ressalta a tese da virtude ser necessária tanto para os homens quanto para  as mulheres, uma vez que ambos “são guardiões de interesses comuns”(145 7), além de defender uma divisão de trabalho entre os sexos, sendo a mulher responsável pela administração do interior da casa. Também, a fidelidade aparece como um dever central do marido à esposa em razão dela assegurar a concórdia e a harmonia, isto é, a “sintonia das vontades entre marido e mulher”na maneira de administrar uma casa (146 18).

Creio que a exposição dos principais temas que são tratados nos Econômicos mostra a relevância do pensamento do Estagirita para o atual estágio da  economia, uma vez que está no cerne da discussão contemporânea a tentativa de abordar a ciência  econômica de uma forma menos descritiva e mais prescritiva. Por fim, só resta recomendar vivamente a leitura e esperar que ela possa contribuir com a qualificação do estudo do pensamento aristotélico no Brasil, além de possibilitar o surgimento de  alguma(s) alternativa(s) aos desafios que enfrentamos enquanto coletividade.

Denis Coitinho – Professor do Programa de Pós-Graduação em Filosofia da Universidade do Vale do Rio dos Sinos. E-mail: deniscoitinhosilveira@gmail.com

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Catábases: estudos sobre as viagens aos infernos na antiguidade – SOUZA (RA)

SOUZA, Eudoro de. Catábases: estudos sobre as viagens aos infernos na antiguidade. São Paulo. Annablume Clássica, 2013. Resenha de: SERRA, Ordep José Trindade. Revista Archai, Brasília, n.14, p. 149-153, jan., 2015.

Um novo livro de Eudoro de Sousa, falecido em 1987, representa, sem dúvida, uma bela surpresa: a essa altura, já ninguém o esperava, mesmo porque não se tinha notícia segura de obra remanescente em seu espólio. Todavia, estudiosos dedicados descobriram textos inéditos do saudoso helenista, conservados graças ao zelo de seu discípulo Fernando Bastos (também já falecido) e da viúva deste. Trata-se de sumários de um célebre curso que Eudoro ministrou na década de 1960 (mais precisamente, em 1965) sobre “O tema do Inferno nas Literaturas Clássicas: das catábases Sumero-Acadianas até Dante Alighieri.”Destinado aos alunos do Instituto de Letras da Universidade de Brasília, o curso assim intitulado atraiu ouvintes de diferentes unidades, como sempre acontecia quando se espalhava a notícia de que  Eudoro de Sousa daria lições. O brilho de suas aulas irradiava-se no meio universitário, com frequência transcendendo o campus. E provocava sempre um  efeito duradouro sobre seu público. Desde sua chegada à nova capital Eudoro fizera-se uma estrela da universidade nascente, um mestre que fascinava seu auditório. No entanto, mesmo levando-se em conta o sucesso que sempre alcançavam as preleções do mestre luso-brasileiro, pode-se dizer que o curso  eudoriano sobre as catábases teve um impacto fora do comum. Merece o título de “lendário”que lhe deu Marcus Mota no Prefácio do livro em tela: permanece na lembrança dos que o assistiram e mesmo na memória de quem só teve ciência dele de forma indireta, pelo testemunho dos alunos privilegiados.

Quem esteve presente a essas aulas dificilmente as olvidará. Mais de meio século depois,  eu as recordo muito bem. E me espanto ao dar-me conta de que ainda sinto o impacto de uma série de preleções que, a rigor, não se completou. Por  motivo de saúde, Eudoro não chegou ao termo que tinha previsto: as últimas aulas desse curso foram dadas por José Xavier de Melo Carneiro, que na  época concluía seu mestrado no Centro de Estudos Clássicos e, no papel de Instrutor, encarregou-se  do comentário de textos selecionados pelo orientador. Por outro lado, também se pode dizer que o dito curso teve uma continuidade extra-curricular: prolongou-se em alguns dos seminários que Eudoro dirigiu no CEC, destinados ao pequeno círculo de  professores e estudantes ligados de forma direta  a este Centro, mas com a participação de ouvintes de variada procedência. Recordo-me de uma sessão que teve início com a leitura de um trecho da Divina Comédia, o Canto V do Inferno, por um professor  italiano para isso convidado (o Professor Ivo Perugini). Nessa ocasião Eudoro nos brindou ricas lições sobre Dante e Virgílio. De certo modo, fez então o arremate que o curso sobre as catábases não tivera.

O presente livro, editado com capricho por  Marcus Mota e Gabriele Cornelli, tem especial valor histórico. Registra um momento importante da  acidentada saga da UnB, documenta um estágio  muito rico da evolução das ideias de um pensador notável, opera o resgate de uma passagem brilhante da história dos Estudos Clássicos no Brasil. Os responsáveis por sua edição, ambos professores da Universidade de Brasília, brindam-na com o resgate de um luminoso fragmento de sua memória, que  parecia perdido; fazem uma ponte entre o velho CEC e o Núcleo de Estudos Clássicos (NEC) de que ambos fazem parte. Eudoro de Sousa certamente ficaria  feliz se pudesse saber que seu projeto afinal vingou e em sua Universidade dois destacados helenistas, de projeção internacional, trabalharam com afinco para reconstituir um seu precioso trabalho.

Como se sabe, o CEC foi brutalmente extinto por um interventor tacanho que ocupou a reitoria da UnB nos anos mais torvos da Ditadura. Por sorte, o projeto acalentado por Eudoro de Sousa de implantar os estudos clássicos no solo candango renasceu. Este livro mostra a consciência que têm os novos helenistas da UnB do valor de uma tradição preciosa, que de fato merecem capitalizar. Seu empenho em fazê-la reviver mostra que o NEC faz jus à legenda do CEC.

Começarei esta resenha dando notícia do curso que originou o livro em pauta, curso que tive o  privilégio de assistir. Orgulho-me de ter colaborado, embora humildemente, com sua realização. Eudoro encarregou-me de fazer a tradução (do inglês) de dois textos extraídos do ANET, ambos reproduzidos no livro em apreço: o poema que é conhecido como último canto da Epopeia de Gilgamesh (mas na  verdade vem a ser uma tradução acadiana de um poema sumério, anexada à epopeia) e o documento acadiano chamado “Uma visão dos Infernos”, uma espécie de catábase onírica. (Do mesmo tipo de  apocalipse se encontra um belo exemplo na própria Epopeia de Gilgamesh: refiro-me ao “Sonho de  Enkidu”, legível na Tábula V da “Versão Assíria”,  texto nas edições modernas complementado por  um fragmento hitita editado por E. F. Weidner em 1922). Já da “Descida de Inana”e da “Descida de Ishtar”foram usadas versões do próprio Eudoro, que já tinham sido publicadas, tempos atrás, na revista Diálogos. O mestre também me incumbiu de traduzir (do latim) o Canto VI da Eneida, determinando que o fizesse em prosa. Jair Gramacho, então mestrando e instrutor no CEC, traduzira em versos esse famoso Canto, procurando imitar o ritmo do hexâmetro  virgiliano. Eudoro, todavia, queria uma versão em prosa, mais clara e “analítica”. Não a tenho mais, nem sei o que aconteceu com a de Gramacho. Que eu saiba, esta tampouco foi publicada.

José Xavier de Melo Carneiro fez para o mesmo curso uma tradução muito bonita do Canto XI da  Odisseia. A tradução de Agostinho da Silva do Somnium Scipionis (famoso trecho do sexto livro do De republica de Cícero) foi utilizada em comentário, mas acho que não foi disponibilizada para os alunos em apostila. O estudo eudoriano sobre “Os dois cantos finais d’ Os Lusíadas à luz da tradição clássica”, que consta do Anexo II da publicação em exame, teve redação posterior; mas no curso Eudoro falou, sim, da epopeia camoniana.

É claro que esses Sumários não reproduzem na íntegra o curso a que se destinaram. Eudoro era um mestre muito criativo e suas aulas lhe serviam também para refletir em voz alta, amadurecer suas ideias, construir suas teses. Eram, a um tempo, exposição e estudo. Por outro lado, o projeto do curso não se encerrou nele, antes o transcendeu. Em ricas notas de rodapé, os editores, além de atualizar (e completar) as referências feitas pelo autor a várias obras eruditas, fazem comentários oportunos e suprem informações valiosas, indicando, por exemplo, escritos posteriores de Eudoro de Sousa a que ele incorporou textos extraídos desses ora publicados, ou em que ele “desdobrou-lhes”o conteúdo. Vê-se bem que os temas abordados naquela ocasião o  ocuparam por longo tempo, continuaram a ser objeto de suas considerações. Nos ricos apontamentos hoje franqueados ao grande público estão em germe alguns dos ensaios eudorianos mais relevantes.

Chama a atenção a amplitude do campo que o helenista emérito então descortinou. No texto que se tornou o segundo capítulo deste livro ele relaciona os tópicos a serem contemplados no curso: o culto dos mortos (tema do Sumário convertido em segundo capítulo), a religião “de mistério”, (assunto dos  capítulos terceiro e quarto) o pitagorismo e a doutrina da palingenesia, Orfeu e orfismo, escatologia e gnoseologia platônicas (de que tratam os capítulos seguintes, ou seja, o quinto, o sexto e o sétimo).

Na Discussão Inicial, que corresponde a uma apresentação do curso e ora corresponde ao capítulo primeiro do livro, o autor tece, de maneira concisa, breves considerações sobre a bibliografia pertinente a fim de mostrar a diversidade das fontes e a variada distribuição dos estudos que interessam ao exame da problemática a ser focalizada, evocando, a propósito, diferentes rubricas encontráveis no Année Philologique. Indica assim a necessidade de um  enfoque sistemático de seu objetoe a novidade de sua empresa.

No capítulo segundo, ele adverte que todos os tópicos assinalados têm a ver com a “poesia dos infernos”. Vê-se bem que essa multiforme poesia se tornou o foco das reflexões posteriores do mestre luso-brasileiro: os temas apontados voltaram insistentemente ao cenário de suas pesquisas e alimentaram de modo generoso sua reflexão filosófica.

Neste ponto, sei que o contrario. Na fase  derradeira de sua rica vida intelectual, Eudoro não queria ser chamado de filósofo. Chegou a dizer que o projeto denominado “filosofia”se tinha concluído, chegado a seu arremate histórico. Já dera seus frutos, dizia ele. Estava consumado. Devia dar lugar a outra coisa, outro tipo de pensamento ainda por nascer, cuja aurora apenas se anunciava. Nietzsche e o último Heidgger o levaram a esta conclusão. Mas parece-me que tal como eles o mestre de Brasília era ainda filósofo, embora quisesse outra coisa:  filosofava de olhos postos no horizonte, procurando mais além um novo espaço. Em suma, fez-se um  pensador liminal, transformado intimamente pelo  tema que o fascinou. Bem o mostra o tratamento que ele deu a esta problemática, ao reconstruí-la  de um modo novo. De fato, ele não abordou o tema das catábases apenas na perspectiva da história da religião, ou só no âmbito da antropologia, isto é, no plano transcultural em que a situou de forma  provocativa. Nessa reconstrução, Eudoro de Sousa foi muito além de uma exposição erudita cingida  ao campo da Antiguidade “mediterrânea”, como  (quase) chegou a ser a breve panorâmica esboçada por Ganschnietz no artigo “Katábasis”da RE (vol. X, 2359 sq. A tradução desse verbete, feita por  Xavier Carneiro, também foi entregue em apostila aos alunos do famoso curso). Além de dar-lhe maior alcance, recorrendo a notáveis paralelos etnográficos e examinando-os de modo a pôr o problema em termos efetivamente trans-históricos, Eudoro tomou o mitologema da catábase como ponto de partida para uma reflexão profunda sobre a existência humana. O leitor atento deste livro logo perceberá que o autor não se limitou a informar sobre o assunto (como a erudição “às secas”costuma fazer): ele de fato o problematizou, e é isso que confere a seu estudo um valor especial tanto para a história como para a antropologia. E, convenhamos, para a filosofia.

O interesse antropológico da proposta de  Eudoro não reside meramente em seu recurso a teses de Adolph Jensen, de que ele parece ter sido o primeiro a dar notícia no Brasil. Muito mais importa, repito, o modo como ele pôs o problema, o alcance transcultural que lhe deu.

Se ficamos no Ocidente, no horizonte da sua história, não é difícil mostrar que a obra dantesca de modo nenhum estanca, no campo literário, a recorrência do tema das catábases. (Escusado lembrar que ele se manteve bem vivo, no campo religioso, ao longo da variada trajetória das igrejas cristãs: baste a constatação de que, por notável exemplo, o Credo de Niceia o recorda todos os dias aos católicos).  Creio ter mostrado em meu livro “Antropologia Infernal”(SERRA, 2002) a extraordinária vitalidade do referido tópos, examinando textos de Lewis Carrol, Borges, Pávich.

Parece-me claro também que este tema se  entrelaça com a grande trama da apocalíptica.  Embora esta seja usualmente pesquisada em bases historiográficas e nos limites do judeo-cristianismo, aproximações com outros domínios culturais são  facilmente encontráveis.

Volto, porém, ao que afirmei mais acima: Eudoro de Sousa fez do tema das catábases o ponto de partida para uma reflexão sobre a existência humana e sobre o mundo que ao homem corresponde. No  livro em discussão ele apenas abre caminho para  essa abordagem, quando discute a a transposição platônica de motivos órficos e dos ritos de mistério. Já em seu Mitologias (SOUSA, 2004), livro que escreveu bem mais tarde, ele medita sobre essa vertente mítica de uma forma nova, em estilo eloquente,  quase arrebatado: cf. ibidem cap. 2, parágrafos  32-40. Em certo trecho (ver op. cit. parágrafo 33), o mestre de Brasília recorre ao poema da Descida de Inana aos Infernos para explicar a condição do homem, cifrada em sua ambígua relação com o  divino. O mito é então tomado como interpretante da situação existencial que define a humanidade, ou configura, como também se poderia dizer, o estatuto ontológico dos homens.

Nessa altura o discurso do pensador assume um tom quase oracular. Eudoro previne, quase no fim do referido ensaio (no seu parágrafo 64), que esta sua obra tem um novo sentido: “Tudo quanto para trás ficou escrito é mitologia e não quis ser outra coisa”. Mas trata-se, evidentemente, de um tipo novo de mitologia, nascida de um projeto hermenêutico de que a raiz primeira, segundo creio, se acha no estudo agora dado a público. Este lavrou-se, porém, numa linguagem bem diferente: clara, sóbria, de  uma economia que nada deve ao objetivo prático do apontamento, antes se estriba em zelosa busca de precisão. É que mesmo em simples Sumários de Curso o Professor Emérito responsável pela primeira floração dos estudos clássicos na UnB era capaz de cultivar um estilo conciso, elegante, com algo da discreta harmonia do seu admirado Isócrates. (Já nas suas últimas obras sua escrita se modifica: torna-se mais colorida, apaixonada. Em certas passagens,  ganha um esplendor barroco, que o aproxima do tom solene, majestoso, dos sermões de Antônio Vieira).

Na reflexão eudoriana sobre as catábases de que o livro em apreço mostra o ponto de partida  também se acha em germe a rica, original e fecunda exploração que ele fez do tema da “mitologia do  horizonte”, objeto de uma sua obra prima aparecida uma década depois. Encontro um sinal disso na revelação que me fez o caro mestre: disse-me Eudoro que seu Horizonte e Complementariedade (SOUSA, 1975) teve início no trecho que, na redação final do livro, corresponde ao parágrafo 50 (p. 77). Nesse trecho ele inicia uma discussão extraordinariamente rica do Poema de Parmênides. Ora, é difícil negar que a imagem regente do poema, a viagem do filósofo guiado por uma deusa, segue o modelo simbólico de um apocalipse cujo viático vem a ser uma espécie de catábase. Eudoro afirma então (P. 87) que para descortinar o verdadeiro sentido do Proêmio do poema parmenídeo  torna-se necessário ter em mente que “o mistério do horizonte preludia à codificação lógica do mistério do Ser”. Posto isso, e apoiando-se em Burkert (1969), avança a hipótese de que “a catábase de Pitágoras seria o pressuposto ou o antecedente de uma catábase de Parmênides.”Vem a ser ineludível a conclusão de que o dito Proêmio corresponde a uma catábase.

Basta lembrá-lo para que se advirta a importância do escrito em comento. O curso que lhe deu origem foi seminal para o Mestre e também para seus alunos. Os sumários de aparência despretensiosa encerram uma riqueza muito grande. Chamo a atenção para os seus três últimos capítulos: o quinto, rico de considerações luminosas sobre os Endmythen  platônicos, traz em anexo a tradução de um trecho da Sétima Epístola do filósofo da Academia; o sexto discute o que bem pudera denominar-se “a questão órfica”, isto é, o debate entre os helenistas que,  na sequela de Willamowitz-Moellendorf, negaram a existência do orfismo e os que não acataram essa rejeição. Eudoro toma partido decididamente pelos últimos, isto é, pelos que reconheceram a consistência do thesaurus “órfico”. De modo convincente sustenta ele ainda, no capítulo derradeiro, que desse legado serviu-se Platão, transformando-o, por certo, com sua inegável originalidade: reconhece a presença da herança de Orfeu e Pitágoras na gnoseologia e na escatologia platônicas.

Em suma, o livro que traz de volta a poderosa reflexão de Eudoro de Sousa em um momento axial de sua carreira de helenista e pensador encerra, em prosa sucinta, clara e elegante, uma riqueza de ideias frutíferas e uma abordagem original de temas do  mais alto interesse não só para os especialistas nos estudos clássicos como para todos os interessados nas humanidades, no sentido mais amplo do termo. Chega ao público em momento oportuno, na altura em que as atenções dos helenistas se voltam para este tema com renovado interesse, como mostra a realização, entre 2 e 5 de maio deste ano de 2014, em Québec e Montréal, de um colóquio internacional sobre o assunto (Colloque International Katábasis) organizado pelo Prof. Pierre Bonnechère e pela Dra. Gabriela Cursaru, com a colaboração de eminentes mestres de quatro instituições universitárias de  peso: os professores Alberto Bernabé, da Universidade Complutense de Madri, Bill Gladhill e Lynn Kozak, da MacGill, Anne-France Morand, da Université Laval (Quebec) e Jean Michel Roessli, da Concordia University (Montréal). A publicação das atas desse colóquio certamente vai provocar uma nova e produtiva onda de debates sobre o assunto. É uma boa hora para recordar estas lições de nosso Eudoro.

SIGLAS (OBRAS DE REFERÊNCIA CITADAS)

ANET – Ancient Near Easter Texts relating to the Old  Testament. Ed. J. B. PRITCHARD. Princeton: New Jersey  University Press, 1950.

RE – Paulys Realencyclopädie der Altertumswissenschaft. Eds. PAULY, A. F. VON; WISSOWA, G.; KROLL, W. Stuttgart: J. B. Metzler, 1894-1972.

ReferênciasBURKERT, W. (1928). Das Proömium des Parmenides und die Katabasis des Pythagoras. In: Phronesis, n. 14.

SERRA, O. (2002). Veredas: Antropologia Infernal. Salvador, EDUFBA.

SOUSA, E. (1975).  Horizonte e complementariedade. Brasília, Editora da UnB.

_______. (2004). Mitologias. Lisboa, Imprensa Nacional-Casa da Moeda

Ordep José Trindade Serra – Universidade Federal da Bahia. ordepserra@gmail.com

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A jaula de aço: Max Weber e o marxismo weberiano | MIchael Löwy

Publicado no Brasil pela editora Boitempo em 2014, A jaula de aço, do cientista social Michael Löwy, corrobora relacionar duas correntes sociológicas – a weberiana e a marxista –, muitas vezes entendidas como defensoras de proposições opostas, impossíveis de serem alocadas de forma amistosa na formulação de um quadro conceitual ou mesmo teórico-metodológico, mas que também, segundo o autor, têm sido frequentemente pensadas guardando convergências entre si.

De ascendência judaica, Michael Löwy nasceu em 1938 no Brasil, formou-se em Ciências Sociais pela Universidade de São Paulo em 1960, doutorando-se sob orientação de Lucien Goldmann em 1964 pela Sorbonne. Atualmente reside na França e é diretor de pesquisa no Centre National de la Recherche Scientifique. Löwy tem expressiva bibliografia sobre a história do pensamento de esquerda, desenvolvendo trabalhos sobre Karl Marx, György Lukács, Lucien Goldmann e Walter Benjamin. Nesse sentido, o presente livro, o qual se resenha, é instigante, uma vez que propõe pensar os usos da sociologia de Max Weber – considerado por Löwy um pensador liberal – por autores reconhecidamente marxistas, formando assim, uma “corrente” sociológica referida como webero-marxista. Leia Mais

Patrimônios Culturais em Perspectiva / Tempo Amazônico / 2015

Este número da revista Tempo Amazônico é dedicado ao estudo do patrimônio histórico. A historicidade e a polifonia da noção de patrimônio serão, desde o início, problematizadas. A recente “vaga patrimonial”, com sua ambição de tudo preservar, mesmo aquilo que é mais contemporâneo e fluido, foi analisada como índice de um novo regime de historicidade na entrevista concedida por Jacques Revel e Sabina Loriga. Estes historiadores problematizam diversos aspectos das modernas práticas de patrimonialização, que não são protagonizadas apenas pelo Estado e pela Unesco, mas também por associações, empresas do setor turístico e outros. Neste inventário, Revel e Loriga recorrem a uma constelação de experiências muito diversas, levando-nos a viajar de Paris a Ouidah (cidade localizada no sul do Benin), de Berlim a Varsóvia e além…

Nos artigos do dossiê, os museus ganharam destaque. Bruno Brulon analisa os caminhos e descaminhos da musealização no Ocidente. Segundo o autor, esse conceito foi sendo atualizado ao longo do tempo na medida em que se mantinha comprometido com a necessidade humana de transmissão da cultura e que se via “atravessado pelas particularidades inerentes ao contexto histórico”, pois o museu cria um discurso a partir de códigos que devem ser acessíveis aos especialistas que o organizam e ao público que o visita. E tal prática discursiva, desde o século XVIII até o período mais recente, esteve fortemente comprometida com o projeto de criação de identidades nacionais, destaca Brulon.

Mariana Ramos de Morais, por outro lado, ressalta que a política de patrimônio no Brasil não se restringiu às normas estabelecidas no âmbito federal, pois estados e munícipios aí também têm instituído processos de patrimonialização. Analisando o tombamento do terreiro de candomblé Ilê Wopo Olojukan (ocorrido no ano de 1995, em Belo Horizonte, a capital de Minas Gerais), a autora nos lembra da pressão feita pelo movimento negro no sentido do reconhecimento do caráter multi-racial da cultura brasileira. Ela também destaca que, concomitantemente, postulava-se a reafricanização e a dessincretização do candomblé, em uma “busca continuada por elementos religiosos de origem africana que teriam sido perdidos e a rejeição do sincretismo afro-católico no candomblé”, no que o terreiro Ilê Wopo Olojukan não estava engajado. De toda sorte, a comunidade-terreiro assumiu, durante o processo de tombamento, ser o candomblé uma religião de resistência negra e ser o Ilê Wopo Olojukan um “espaço onde se inscreve a memória ancestral africana por meio do axé ‘plantado’”, valores caros ao movimento negro que participou do tombamento. Mariana Ramos de Morais, portanto, enfoca e elucida fricções identitárias que amiúde estão presentes nos processos de patrimonialização.

O artigo de Maria De Simone Ferreira dedica-se ao estudo de caso de dois museus regionais criados no âmbito do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) após o tombamento incomum das ruínas de seus antigos prédios: o Museu das Missões e o Museu de Arqueologia de Itaipu. Apesar da distância cronológica e geográfica que esses dois museus guardam entre si – o Museu das Missões data de 1940 e localiza-se em São Miguel das Missões (RS) e o Museu de Arqueologia de Itaipu foi criado em 1977 no Município de Niterói (RJ) –, os dois partilham da singularidade de serem os únicos casos dentre os 29 museus do órgão federal de preservação cujo formato de museu conservou o caráter interpretativo suscitado pelos remanescentes arquitetônicos do passado. A autora nos convida, a partir dessas ruínas-museus, a acompanhar as discussões no plano das políticas institucionais do Iphan acerca dos critérios de restauração dos monumentos tombados, de criação de museus, de aquisição de acervo, assim como de preservação do patrimônio arqueológico.

Portanto, os três primeiros artigos do dossiê abordam por meio de objetos de estudo diferentes a questão da patrimonialização. Já os dois artigos seguintes, ao esquadrinharem diferentes acervos, apontam para as potencialidades dos documentos históricos aí guardados, bem como chamam nossa atenção para os procedimentos críticos necessários à inclusão de tais fontes no campo operatório do historiador. Neste sentido, Cecília Maria Chaves Brito Bastos e Telma Maria da Fonseca Brito Marino apresentam um inventário do patrimônio eclesiástico guardado pela Cúria Diocesana de Macapá (capital do Amapá). Elas situam o processo de organização deste acervo no movimento plurissecular de institucionalização dos arquivos eclesiásticos brasileiros. Jornais, cartas pastorais, fotografias e livros de tombo foram consultados com o intento de se detectar os fios e os rastros de uma história local (a amapaense) que em muitos aspectos precisa ser mais bem estudada.

Analisando a Coleção de Numismática do Museu Histórico Nacional, Paula Moura Aranha e Pedro Colares Heringer abordam as de moedas enquanto fontes históricas – o que possibilita um estreito diálogo com o artigo anterior. Veículos de comunicação da ideologia da Coroa em uma sociedade quase totalmente analfabeta (aquela dos anos anteriores à Independência do Brasil), as moedas, argumentam os autores, nos permitem perceber importantes aspectos sociopolíticos do Reino Unido, tais como “a proximidade entre o Estado e a Igreja, a necessidade de difusão da imagem do regente, a escassez das cunhagens e a afirmação dos domínios territoriais”. Paula Moura Aranha e Pedro Colares Heringer destacam que, uma vez inseridas no contexto museal, as moedas adquirem novos sentidos e que os procedimentos técnicos da musealização (da seleção à exposição, passando pelo tratamento e catalogação) visam tornar tais objetos acessíveis, tornando possíveis novos estudos e percepções.

Os dois últimos artigos abordam questões candentes do âmbito da musealização. A museóloga Alejandra Saladino problematiza a recente complexificação da gestão dos acervos arqueológicos decorrente de fatores como o fortalecimento da chamada Arqueologia de Contrato (aquela resultante da exigência legal de licenciamento ambiental / arqueológico às grandes obras de engenharia) e o consequente crescimento em escala exponencial dos acervos arqueológicos. Saladino afirma que neste novo contexto é necessário que o museu explicite os critérios de seleção do material exposto, tanto científicos quanto políticos, o que significa “abdicar de apresentar ao visitante um discurso pretensamente neutro, objetivo, definitivo e acabado”. Outro desafio apontado pela autora é, no museu, tornar significativos objetos que foram deslocados para longe de seus contextos de origem. Isso implica na disponibilização de quadros de referências que ajudem o visitante a formular um diálogo entre passado e presente, no que tanto a Arqueologia Pública quanto a Sociomuseologia podem ajudar bastante.

Monique Magaldi fecha o dossiê com o texto que lança luzes sobre as novas problemáticas que a presença do virtual – no sentido filosófico do termo, ou seja, enquanto potencialidade ou o tornar-se outro modo de ser – para além do ciberespaço traz aos profissionais dos museus e ao campo da Museologia. A autora aponta que “o patrimônio virtual poderia se manifestar no âmbito da experimentação”. Para dar força a esta afirmação, ela analisa o trabalho desenvolvido em Salt Lake City (EUA), no Temporary Museum of Permanent Change, que promove um “constante processo de transformação, acompanhando e sendo modificado pelas mudanças sofridas em seu espaço”. Analisa também as atividades desenvolvidas na Experimentoteca de Física da Universidade de Brasília, onde o patrimônio virtual musealizado são as experiências realizadas no campo da Física. Os protótipos em exposição aí representam os processos ou experimentos.

Um complexo caleidoscópio de aspectos do patrimônio cultural é o que podemos encontrar por meio da leitura das próximas páginas. Os artigos nos instigam também a realizar novos estudos, pautados em um debate que aqui toca o âmago das práticas de patrimonialização e de musealização. A historicidade e a diversidade dessas práticas são postas em evidência e problematizadas a partir de contextos e objetos distintos. É essa mistura de profundidade no perscrutar e de profusão no inquirir (patrimônios de ontem e de hoje) que constitui a riqueza heurística deste dossiê.

Dois textos fecham este número da revista Tempo Amazônico. O primeiro é o ensaio de pesquisa de Francielly dos Santos Ramos de Sá, Gabriela Prestes Carneiro, Myrtle Pearl Shock e Bruna Cigaran da Rocha, que apresentam informações sobre a relação homem-animal relativas às antigas ocupações da Amazônia, a partir da análise de restos faunísticos da Terra Preta do sítio Mangabal, localizada ao longo do alto rio Tapajós (no município de Itaituba, sudoeste do Pará). O segundo é a resenha escrita por Danilo Mateus da Silva Pacheco e que apresenta e discute o livro Os mineiros da floresta, no qual o historiador Adalberto Paz, a partir de diversificada base documental, analisa as experiências dos trabalhadores do primeiro grande projeto industrial da Amazônia, a exploração do manganês do Amapá pela Indústria e Comércio de Minérios S.A (Icomi).

A todos, uma excelente leitura!

Sidney da Silva Lobato – Professor de História da Amazônia na Universidade Federal do Amapá (Unifap). Doutor em História Social pela Universidade de São Paulo (USP), com estágio de pós-doutorado em História na École des Hautes Études em Sciences Sociales (Ehess-Paris).

Maria De Simone Ferreira – Museóloga do Museu Histórico Nacional (Ibram / MinC) e doutoranda em História Social da Cultura na Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-Rio).


LOBATO, Sidney da Silva; Ferreira, Maria De Simone. Apresentação. Tempo Amazônico, Macapá, v.3, n.1, 2015. Acessar publicação original [DR]

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Trabalho, história ambiental e cana-de-açúcar em Cuba e no Brasil – ROGERS et al (RBH)

ROGERS, Thomas et. al. Trabalho, história ambiental e cana-de-açúcar em Cuba e no Brasil. Resenha de: CHOMSKY, Aviva. Revista Brasileira de História. São Paulo, v.35, n.69, jan./jun. 2015.

Tanto a história do trabalho quanto a do meio ambiente são campos de estudo florescentes e estão, fundamentalmente, relacionadas de muitos modos em termos estruturais. Apesar disso, os historiadores têm sido lentos em aceitar sua relação. A historiografia espelha profundas divisões entre os próprios movimentos trabalhista e ambientalista, talvez porque muitos historiadores cheguem a seus estudos a partir de um envolvimento, ou pelo menos de uma simpatia, com esses movimentos. Os quatro livros aqui resenhados, ao mesmo tempo em que são – cada um por sua própria conta – interessantes e significativos, mostram, coletivamente, o estado ainda nascente da capacidade dos historiadores em conceituar e investigar as formas pelas quais o trabalho e o meio ambiente estão conectados.

O aparente conflito “empregos versus meio ambiente” tem afligido os movimentos trabalhista e ambientalista nos Estados Unidos há décadas e é frequentemente propagado pela indústria, que nitidamente é o vencedor em uma batalha na qual o trabalhismo se vê compelido a unir forças ao capital para se defender dos desafios ambientais. No entanto, o trabalhismo também tem sido fundamentalmente enfraquecido por esse posicionamento, pois a indústria volta o mesmo argumento contra os trabalhadores, transformando-o em “empregos versus salários, benefícios e condições de trabalho”, e às vezes até mesmo “empregos versus sindicatos”. Enquanto isso, os ambientalistas parecem ter poucas respostas para a acusação de que se importam mais com a fauna exótica do que com as necessidades humanas.

A América Latina dificilmente tem ficado imune a essas correntes. Apesar disso, um envolvimento mais incisivo com a história, uma relativa imunidade às tendências políticas da Guerra Fria que vincularam os sindicatos americanos a uma estreita agenda focada no crescimento econômico e os inevitáveis confrontos com o imperialismo americano em suas muitas formas ajudaram o trabalhismo latino-americano a manter uma postura mais independente e, às vezes, até mesmo revolucionária. Como Charles Bergquist salientou há várias décadas, quando os trabalhadores são nativos e o capital é estrangeiro, o trabalhismo frequentemente se mobiliza para fazer parte de coalizões revolucionárias nacionalistas. Enquanto isso, os camponeses latino-americanos impulsionaram o que Joan Martínez-Alier e outros chamaram de “ambientalismo dos pobres” em defesa de seus meios de vida. O status colonial e neocolonial da América Latina moldou fundamentalmente sua história do trabalho e do meio ambiente (Bergquist, 1995Martínez-Alier, 2005).

“O que está acontecendo com as comunidades nos afeta, porque fazemos parte das comunidades”, explicou-me o presidente de um sindicato de mineiros de carvão da Colômbia há vários anos. “Como organização sindical com uma visão social ampla, não podemos nos distanciar dos impactos sociais e ambientais da mina.” Ativistas antimineração a céu aberto na Appalachia ficam perplexos ao ouvir um líder sindical expressar essas opiniões. A análise anti-imperialista e marxista nos sindicatos latino-americanos leva muitos a concluir que as empresas estrangeiras estão explorando igualmente o trabalho e o meio ambiente, saqueando os recursos de seu país na busca do lucro.

Entretanto, uma ativista do Sierra Club ficou menos satisfeita com a resposta que recebeu quando perguntou a outro líder do mesmo sindicato: “Você não concorda que temos de deixar o carvão para trás?”. “Você está perguntando para a pessoa errada”, respondeu ele lentamente. “Nós estamos extraindo aquele carvão para vocês. Se vocês querem ir além do carvão, têm que olhar para vocês mesmos.” Nesse momento, ele pegou diretamente no calcanhar de Aquiles do movimento ambiental norte-americano. Muitos ambientalistas do Primeiro Mundo querem salvar a Terra sem enfrentar o problema político-econômico básico: que os Estados Unidos usam de 25% a 50% dos recursos do planeta, e apelos piedosos para “reduzir, reutilizar, reciclar” não mudarão as políticas econômica, externa e militar que mantêm essa injustiça. Assim, Thomas Rogers cita a reação pessimista de um engenheiro brasileiro à propagação dos carros movidos a etanol: “Agora as rodas dos carros do mundo todo vão girar às custas da fome do Nordeste” (p.210).

Para os analistas mais radicais, tanto os do trabalho quanto os do meio ambiente, a desigualdade econômica global é inerente ao próprio capitalismo. Se o capitalismo está baseado no crescimento econômico contínuo, na obtenção de lucro pela exploração da mão de obra e da natureza, então ele se baseia necessariamente na expansão territorial, na destruição do meio ambiente e no empobrecimento da classe trabalhadora. Se a história do meio ambiente examina a relação dos seres humanos com a natureza, e a história do trabalho examina aqueles que trabalham para outros – em geral, pela transformação da natureza -, então o capitalismo e a Revolução Industrial tiveram um papel fundamental em ambas. A substituição do trabalho humano e animal por fontes de energia derivadas de combustíveis fósseis sinalizou um crescimento drástico da capacidade do capital de explorar tanto a mão de obra quanto os recursos.

Historiadores do Terceiro Mundo e teóricos da dependência vêm sustentando há muito tempo que os recursos e a mão de obra do Terceiro Mundo foram cruciais para o desenvolvimento do capitalismo industrial. Mais recentemente, historiadores como Kenneth Pomeranz e Richard P. Tucker ofereceram uma análise explicitamente ecológica desse processo, examinando como a destruição ambiental foi deslocada para as colônias. De maneira perversa, os colonizadores, que primeiro empurraram os povos nativos para terras frágeis para abrir espaço para seus novos empreendimentos econômicos, acusaram os mesmos nativos de macular a “selva” colonial remanescente com sua presença e suas práticas tradicionais – o ambientalismo tornou-se, assim, um outro estágio do imperialismo. É claro que essas expropriações também tiveram, historicamente, um componente laboral, desde as primeiras medidas de apropriação de terras que acompanharam a Revolução Industrial: elas “libertam” os antigos habitantes para entrarem no mercado de trabalho.1

Os quatro livros aqui resenhados examinam regiões moldadas pelo colonialismo e, especificamente, pelo açúcar. O açúcar foi a primeira agroindústria, e aquela na qual, segundo Sidney Mintz, o sistema escravista criou o proletariado original, o modelo para as primeiras fábricas da Grã-Bretanha, bem como uma fonte alimentar primordial para os primeiros trabalhadores industriais da Europa. Como Manuel Moreno Fraginals e outros têm sustentado há muito tempo, as plantações de cana-de-açúcar devoraram vorazmente tanto as pessoas quanto as florestas (Mintz, 1985Moreno Fraginals, 1976). Todos os livros sugerem questões profundas sobre a natureza global do capitalismo e seus impactos nos seres humanos e no meio ambiente.

Apenas The Deepest Wounds assume a tarefa de realmente conectar as histórias do trabalho e do meio ambiente, focando o Nordeste do Brasil. O livro de Wolford This Land is Ours Now é um estudo de um movimento social brasileiro, intimamente conectado às questões do trabalho e do meio ambiente, que começa, em termos cronológicos, exatamente onde Rogers para. A história ambiental de Cuba de Funes Monzote oferece ideias sugestivas sobre o trabalho, ao passo que Blazing Cane, a história política e do trabalho de McGillivray, levanta questões relevantes para o meio ambiente. Lidos em conjunto, os quatro mostram como o colonialismo e o açúcar estruturaram o debate político em Cuba e no Brasil e oferecem percepções e ideias adicionais sobre como uma história conjunta do trabalho e do meio ambiente pode constituir um empreendimento frutífero.

Funes Monzote assume a visão de mais longo prazo em From Rainforest to Canefield. O título capta com precisão o foco do livro, que consiste, primordialmente, nas florestas de Cuba e nos debates acerca de seu valor e seus usos, com a vitória gradual das plantações de cana-de-açúcar. É, primordialmente, uma história política de questões ambientais, e a história do trabalho está implicada na medida em que as questões trabalhistas nos campos de cana-de-açúcar estão inevitavelmente entrelaçadas com sua expansão e seu esgotamento. É também uma história das ideias, na medida em que os cubanos e seus senhores coloniais se debateram em torno do significado e da finalidade da floresta, e do relacionamento dos seres humanos com a natureza.

Funes Monzote conta a agora conhecida história da expansão das plantações de cana-de-açúcar, primeiro pelo oeste de Cuba, e depois para o leste, destruindo vorazmente florestas em seu caminho. Cuba, sugere ele, “oferece um dos casos mais representativos dos primórdios da agricultura industrial nas Américas”. Diferentemente da agricultura tradicional, que se baseava no princípio de manutenção da viabilidade da terra, a agricultura industrial se baseia na transformação de um recurso renovável – a terra – em um recurso não renovável – ela “funcionou como minas a céu aberto” (p.265).

A cana-de-açúcar exigia não apenas terra para plantar, mas também madeira para combustível, e os donos de plantações cubanos simplesmente se mudaram para novas terras quando esgotaram as suas. Funes Monzote vai além de explicações anteriores e examina a história política e cultural que está por trás do processo: o que a floresta significava para diferentes setores da sociedade cubana e colonial, como eles tentaram impor suas visões e como esse debate moldou a sociedade cubana. Ele reconstrói a maneira como diferentes forças sociais e políticas competiram para impor seus interesses por meio da legislação e da ação, tendo todas o desaparecimento gradativo da floresta como objeto. “Além de avaliar a influência da evolução socioeconômica da ilha e das ideologias dominantes nas atitudes para com o meio ambiente, meu objetivo aqui é destacar a importância das florestas na formação da nação cubana … Esse livro é uma homenagem à importância silenciosa das florestas na história de Cuba” (p.5).

A floresta teve um papel central nos debates sobre o papel do Estado e a distinção entre público e privado, nos crescentes conflitos entre os interesses coloniais espanhóis e um setor “cubano” emergente, nos conceitos de propriedade privada e na noção de bem comum, e no surgimento de ideias sobre a natureza e sua finalidade, ou o relacionamento dos seres humanos com a natureza.

Durante boa parte do período colonial, os principais atores do debate foram a Marinha Real, que queria preservar as florestas para o uso da madeira na construção de navios, e os canavieiros, que reivindicavam soberania sobre as terras que controlavam. Nesse aspecto, o debate em Cuba espelhou – e às vezes prefigurou – o que aconteceu em outros lugares do mundo colonial.2 Tanto a Marinha como os canavieiros viam a floresta em termos economicamente instrumentais, mas seus interesses diferentes os levaram a atitudes e políticas diferentes. Para os donos de plantações, as florestas existiam para serem derrubadas, para a obtenção de combustível ou cana. Para a Marinha, o valor da floresta estava em sua madeira, e, para ser economicamente útil, ela precisaria ter condições de se regenerar. “Os burocratas da Marinha viam o comércio de açúcar como a maior ameaça à construção naval na ilha – não apenas em razão da competição pelo uso da madeira abundante, mas também pelo fato de que plantar cana-de-açúcar eliminava a possibilidade de a mata se regenerar. As características da indústria açucareira naquele período, especificamente sua necessidade de madeira, lenha e solo fértil, eram justificativas suficientes para esses receios” (p.43). “A indústria da construção naval e a indústria açucareira tinham duas concepções irreconciliáveis sobre como as florestas deveriam ser exploradas. Isso não significa que, para a primeira, a proteção das florestas fosse um fim em si mesmo, mas os construtores navais viam a mata como um recurso que, se explorado de maneira razoavelmente ordenada, poderia se regenerar” (p.59).

A posição da Marinha também a levou a articular um bem comum que suplantava aquele do capital privado. Como sustentou o comandante da Marinha Juan de Araoz no final do século XVIII, “para se alcançar essa conservação, os abusos e a liberdade dos homens devem ser reprimidos … o indivíduo nunca vai levar nada em conta a não ser seu interesse privado, que precisa ficar mudo quando defrontado com o interesse geral” (p.107). Quase cem anos mais tarde, um engenheiro florestal espanhol refletiu a mesma postura, lamentando “o egoísmo e a avareza dos indivíduos, que às vezes não entendem seu próprio interesse e são indiferentes ao interesse geral” (p.209). E, em 1918, o botânico cubano Juan Tomás Roig alertou que o governo deveria intervir para “cuidar do futuro da agricultura nacional, frente ao fato de que ‘os donos de plantações só davam atenção a seu interesse privado e imediato'” (p.239).

Nas ilhas menores do Caribe, os canavieiros aprenderam a fazer o cultivo de formas mais sustentáveis – usando o bagaço da cana como combustível, por exemplo. Mas a natureza aparentemente infindável das florestas de Cuba e sua entrada tardia na produção de açúcar – em Cuba, “a produção de açúcar decolou na aurora da era industrial” – incentivaram os donos de plantações a imaginar uma expansão infinita como o caminho mais lógico e lucrativo (p.265). Em poucas gerações, os recursos acumulados em séculos de crescimento das florestas foram esgotados.

O debate político se centrava na questão de quem tinha jurisdição sobre as árvores nas terras que o governo colonial arrogara a si mesmo como Reservas Florestais Reais, e de quanto controle os donos das terras tinham sobre as terras que eram oficialmente deles. À medida que a indústria açucareira se expandia rapidamente no final do século XVIII e começo do século XIX, o conflito colocou a Marinha na posição de ambientalista, defendendo o uso sustentável da floresta e a primazia do bem público sobre o ganho privado. A discussão envolvia mais do que simplesmente a floresta: “Essa batalha contra os limites estabelecidos para a exploração das florestas cubanas atendendo ao interesse da construção naval tornou-se central para as mudanças que ocorriam na estrutura agrícola da ilha e para o triunfo das concepções dos donos de plantações e do liberalismo na esfera econômica da colônia” (p.89). Esse triunfo aconteceu em 1815, quando as Cortes de Cádiz estabeleceram “o direito ‘sagrado’ de propriedade defendido pela primeira revolução burguesa da Espanha” (p.121). É claro que esse direito de propriedade se estendeu também à mão de obra, “mão de obra escrava como uma fonte de enriquecimento rápido, resultando de uma visão de mundo gananciosa no tocante aos seres humanos e ao meio ambiente” (p.128).

Ao final do século XIX, novas fontes de combustível (bagaço de cana e carvão) começaram a substituir a lenha nos engenhos, mas a necessidade de derrubar florestas não diminuiu, já que a indústria estava se expandindo rapidamente e o solo de plantações antigas se esgotava. A preocupação com o esgotamento da terra contribuiu para o questionamento do próprio sistema escravista e sua relação com o uso ineficiente de recursos (p.153). “Se alguém era livre para comprar e vender escravos negros, por que não seria livre para explorar as florestas?” (p.275). Cientistas espanhóis e membros da Sociedade Econômica de Havana reavivaram discussões sobre a necessidade de subordinar o interesse privado ao bem público e levantaram a questão da sustentabilidade de longo prazo: “o homem não vive apenas pelos poucos dias em que exerce seu papel; a posteridade pode também exigir dele uma severa prestação de contas pelo mal que ele fez ou permitiu que acontecesse àqueles bens que negou a seus descendentes” (p.159).

O final do século XIX assistiu à rápida expansão do açúcar para o leste da ilha, sob o novo sistema do central, o engenho grande e industrializado, que separou o cultivo do processo de moagem. Os novos centrales “ajudaram a acabar com a portabilidade da indústria” – limitando, assim, em termos, a derrubada sem fim da floresta -, mas “a existência de mata abundante na metade leste da ilha permitiu aos canavieiros continuar estabelecendo plantações de cana-de-açúcar em terra virgem, agora com um impacto muito maior por unidade” (p.187).

Enquanto vemos o Estado colonial desenvolvendo uma noção de bem público que o coloca em oposição à classe dos donos de plantações, o autor complementa os argumentos de Kenneth Pomerantz e Richard Tucker sobre a importância ambiental das colônias para o projeto industrial. As florestas de Cuba deveriam ser preservadas para compensar o esgotamento das florestas da própria Espanha, e “grande parte da rica biodiversidade da ilha foi consumida para satisfazer as necessidades alimentares dos nascentes centros industriais da Europa e dos Estados Unidos” (p.66, 275). Os súditos coloniais tinham menos direitos do que os súditos metropolitanos porque a finalidade da colônia era servir aos interesses da metrópole. Outro oficial da Marinha sustentou que “a liberdade … tão atrativa e inocente na Península, não é praticável aqui, porque ela beneficiaria o indivíduo em detrimento da nação inteira e seus interesses” (p.113). Vemos aí também, talvez, uma fantasmagórica prefiguração dos ambientalistas imperiais de hoje, cuja preocupação com a floresta tropical amazônica coexiste despreocupadamente com sua promoção dos biocombustíveis que a estão destruindo.

Funes Monzote chama o começo do século XX, quando o capital norte-americano jorrou no país e as plantações inundaram o leste de Cuba, de “o ataque final à floresta” (capítulo 6). O progresso econômico significou destruição ambiental. “Em nenhum outro momento da história cubana o país experimentou maior crescimento em seu ‘potencial produtivo’, assim como em nenhum outro momento o desmatamento e a mudança ambiental foram tão intensos” (p.218). Em 1926, o presidente Machado retornou a ideais anteriores ao século XIX quando assinou um decreto proibindo a derrubada de árvores tanto em terras privadas quanto nas públicas. Àquela altura, porém, “infelizmente era tarde” para proteger a floresta do leste de Cuba (p.229).

O livro Blazing Cane, de Gillian McGillivray, oferece uma boa contrapartida ao de Funes Monzote na medida em que enfatiza o século XX; assim, retoma cronologicamente a questão onde Funes Monzote termina e privilegia o aspecto do trabalho da história da cana-de-açúcar em Cuba. Um tema-chave para McGillivray é o relacionamento entre os trabalhadores, os canavieiros e o Estado, bem como a natureza do populismo latino-americano. Em geral, o populismo tem sido estudado como um fenômeno urbano na América Latina. No entanto, ao impor sua própria força à custa da classe dos donos de plantações, mesmo um Estado conservador pode apelar para os interesses de classe dos trabalhadores rurais, de maneira comparável ao modo como o Estado colonial de Funes Monzote e o Estado machadista relegaram os interesses dos canavieiros para proteger a floresta. O estudo de McGillivray foca dois engenhos de açúcar, o Tuinucú, da era colonial, situado na antiga região açucareira central de Cuba, e o Chaparra, da era moderna, estabelecido nas vésperas da independência, em 1895, sendo emblemático dos engenhos grandes, industrializados e majoritariamente de capital estrangeiro que se espalharam pelo leste de Cuba durante esse período: parte do “ataque final à floresta” de Funes Monzote.

Suas questões principais, no entanto, são políticas: como o Estado, os capitalistas e as classes populares negociaram o poder nessa sociedade dominada pela cana-de-açúcar. Ela identifica três períodos: “‘o pacto colonial’ (1780-1902), ‘o pacto patronal’ (1902-1932) e ‘o pacto populista’ (1933-1952)” (p.5). No pacto colonial, “os donos de plantações aceitavam o domínio colonial em troca da proteção militar e legal da escravidão e da produção de açúcar por parte da Espanha” (p.14). Sob o pacto patronal, que o substituiu, “os capitalistas estrangeiros e seus intermediários cubanos estabeleceram o controle econômico e político sobre boa parte da população rural da ilha através de uma combinação de repressão, clientelismo, incluindo assistência social privatizada nas plantações, e exploração do fascínio dos ‘cubanos’ pelo progresso e a modernidade” (p.86). Esse também foi o período em que a cana-de-açúcar se espalhou pelo leste da ilha. Finalmente, sob o pacto populista, o Estado assumiu o papel de mediar os grupos de interesse e proporcionar assistência social.

Diferentemente de outros historiadores que enfatizaram o caráter excepcional de Cuba como uma virtual colônia dos Estados Unidos, McGillivray enfatiza as semelhanças com o resto da América Latina no desenvolvimento econômico, social e político de Cuba. Seu argumento de que o Estado fortalecido depois de 1933 criou, em certo sentido, classes sociais na medida em que estabeleceu canais através dos quais elas podiam manifestar seus interesses, substituindo as relações patrono-cliente que caracterizaram os dois primeiros períodos, está em paralelo ao que Rogers descreve sobre o Brasil.

A indústria açucareira de Cuba estava organizada de maneira um tanto diferente da do Brasil, pois boa parte da cana era produzida por pequenos agricultores ou colonos, que formavam um terceiro setor social na região açucareira, além dos donos de plantações/engenhos e dos trabalhadores. A maioria dos colonos era cubana, ao contrário dos donos dos empreendimentos maiores, e muitos também dependiam de mão de obra contratada ou até mesmo de subcolonos para trabalhar seus campos. Eles estavam vinculados aos engenhos maiores porque era lá que vendiam sua cana, e especialmente no leste, porque eram, muitas vezes, arrendatários do engenho. Além disso, muitos dos trabalhadores nas novas plantações do leste eram migrantes contratados na Jamaica, no Haiti ou em outras ilhas das Índias Ocidentais. Os colonos desempenham um papel-chave na tentativa de McGillivray de revisar a historiografia de Cuba.

A historiografia cubana estabelece, tradicionalmente, uma dicotomia clara entre as plantações mais antigas, menores e de propriedade de cubanos no oeste, com seus trabalhadores nativos e uma relação mais igualitária com os colonos, e as plantações de propriedade de norte-americanos no leste, com seus trabalhadores importados das Índias Ocidentais e seus colonos arrendatários completamente subordinados. McGillivray mostra que a realidade é mais complexa. A família Rionda, geralmente vista como representante dos canavieiros nacionais do oeste, era radicada na Espanha, em Cuba e nos Estados Unidos, e o capital do engenho, como até mesmo os escritórios, estavam tanto dentro quanto fora de Cuba. Os donos de engenho tanto do leste quanto do oeste consideravam vários fatores ao optar por produzir cana diretamente ou comprá-la dos colonos. Tanto os colonos arrendatários quanto os independentes se mobilizavam em coalizões nacionalistas e revolucionárias, como também para defender seus interesses particulares. De fato, sustenta ela, os trabalhadores e colonos do leste tinham, em alguns aspectos, mais poder que os do oeste, porque conseguiam mobilizar o sentimento nacionalista em seu favor (p.274).

Os colonos surgem como ator político significativo tanto no leste quanto no oeste de Cuba, em particular, nas revoluções de 1933 e 1959. Em 1933, como o pacto patronal entrou em colapso sob o peso da Depressão, trabalhadores e colonos se voltaram para o Estado, dando origem ao novo pacto populista. Assim como no Brasil sob a ditadura militar, tratava-se de um “populismo autoritário” (Blazing Cane, p.227). Tanto Rogers quanto McGillivray nos oferecem novas perspectivas a respeito de como até mesmo os mais direitistas governos autoritários conseguem, com sucesso, atrair as classes trabalhadoras. Ao criar instituições estatais fortes que intervenham nas relações de trabalho, os populistas conseguem quebrar o jugo das classes dos donos de plantações e criar certas garantias para os trabalhadores. Apesar de inicialmente destruir os sindicatos independentes e reduzir até mesmo os insuficientes benefícios de saúde e educação aos quais os trabalhadores tinham acesso sob o pacto patronal, Fulgencio Batista também implementou um sistema de participação nos lucros e, ao final dos anos 1930, havia se reconciliado com os sindicatos e aprovado uma legislação trabalhista progressista (p.244). A Constituição de 1940 “era talvez a mais progressista da América Latina, pelo menos no papel”, e “estabeleceu o Estado de bem-estar social cubano” (p.248).

Ao enfatizar o caráter populista dos governos de Cuba em meados do século XX, McGillivray restabelece o lugar da ilha nos processos históricos latino-americanos. Ao explicar como “o anticomunismo da Guerra Fria de 1947 a 1959 esvaziou o pacto populista de Cuba e o privou de grande parte de sua substância”, ela também oferece novas percepções sobre a revolução de 1959 (p.228). “A forte reação negativa da Guerra Fria, a partir de 1947, começou a minar o valor social-democrático das instituições populistas ao priorizar novamente clientes individuais em vez de grupos de classe … A Guerra Fria tirou grande parte do espaço que os grupos populares tinham conquistado dentro do populismo de meados do século XX” (p.275). Interessantemente, McGillivray se distancia de explicações segundo as quais o relacionamento com os Estados Unidos determinou excessivamente os acontecimentos em Cuba em períodos anteriores; nessa última década foi a política de Guerra Fria dos Estados Unidos que empurrou o governo Batista do populismo para a repressão e abriu caminho para a Revolução de 1959.

O livro The Deepest Wounds, de Thomas D. Rogers, é o que mais diretamente enfrenta o desafio de escrever uma história do trabalho e do meio ambiente. “A despeito das claras ligações entre o meio ambiente e o trabalho rural … os pesquisadores ainda precisam construir um marco satisfatório para analisar os dois paralelamente”, escreve ele (p.4). Ele poderia estar criticando os dois livros recém-discutidos, já que o trabalho rural está praticamente ausente na história ambiental de Funes Monzote, ao passo que o ambiente natural mal aparece na análise de McGillivray a respeito do trabalho e da política.

Para enfrentar a tarefa, o estudo de Rogers acerca da região açucareira no Brasil propõe os conceitos de paisagem – que incorpora tanto as crenças humanas sobre a terra quanto sua realidade material – e de “agroambiente” na medida em que ele molda a ação humana – e, em particular, o trabalho – e é moldado por ela. Como em Cuba, o sistema de plantações no Brasil se baseou na escravidão até o final do século XIX, e em uma forma de política republicana autoritária durante a maior parte do século XX.

Os donos de plantações e os trabalhadores tinham noções muito diferentes de paisagem. Em relação aos donos de plantações, Rogers analisa como o abolicionista Joaquim Nabuco, o romancista José Lins do Rego e o sociólogo Gilberto Freyre expressaram uma sensibilidade ecológica ao estabelecerem ligações claras entre a degradação da terra e do trabalho através do sistema escravista. Eles vislumbraram uma “paisagem trabalhadora” (p.45) em que o “comando” dos canavieiros tornava a terra e o trabalho produtivos. Apesar de críticos ao sistema, eles injetaram em suas obras uma grande dose de nostalgia, sugerindo que as relações patriarcais mantiveram o sistema em equilíbrio até a introdução da usina ou dos modernos engenhos de açúcar industriais ao final do século XIX: “Tanto os trabalhadores quanto a terra foram degradados pela nova indústria moderna e eficiente” (p.57). A nostalgia deles pela paisagem estava imbuída da nostalgia pelas relações sociais inseridas nela. “O que eles proclamavam como amor telúrico não era paixão pela natureza, mas apreço pela dinâmica da exploração racial, de classe e ambiental que constituía a paisagem trabalhadora da zona açucareira” (p.69). Assim, a análise do Brasil do século XIX feita por Rogers é paralela – e dá uma nuance ambiental – ao que McGillivray descreve em Cuba como o “pacto colonial”, e explora os aspectos laborais dos debates coloniais que Funes Monzote explora.

Para os trabalhadores, em contraposição a isso, a paisagem, corporificada nas lavouras de cana-de-açúcar, significava cativeiro. A abolição da escravatura não mudou a dinâmica fundamental de poder, já que os donos de plantações continuaram a controlar a terra. Os antigos escravos tornaram-se arrendatários: “o sistema manteve os trabalhadores presos aos engenhos mesmo sem o vínculo jurídico da escravidão” (p.73). Não houve uma fuga em massa das plantações, não houve um restabelecimento do campesinato, mas havia, de fato, um desejo por terra. “Visto que os donos de plantações tinham um quase monopólio da propriedade fundiária, o único acesso ‘legítimo’ dos trabalhadores à terra era mediante algum tipo de arrendamento; o caminho para o acesso passava pela provisão de mão de obra” (p.92). Quando os trabalhadores fugiam efetivamente das plantações, o único lugar para o qual eles podiam ir era a cidade. Segundo a exposição de Rogers, pelo menos durante os anos 1940, a cana-de-açúcar significava cativeiro, e os trabalhadores do setor açucareiro do Brasil, tanto quanto os ex-escravos em outros lugares, ansiavam por atingir a verdadeira independência por meio do acesso à terra. Apesar de eles não terem elaborado uma crítica ambiental à cana, o fato de restabelecerem a subsistência contestava implicitamente a destruição ambiental causada pela expansão da agroindústria.

Foi só em meados do século XX que a intervenção da agronomia e do governo trouxe uma expansão, modernização e racionalização da indústria que impôs aos trabalhadores um status mais classicamente proletário, em que seu acesso a lotes na plantação para fins de subsistência se evaporou, especialmente na parte meridional da zona açucareira. Em 1961, mais da metade dos trabalhadores do setor ainda tinha acesso à terra; em 1968, apenas 46% tinha, e muitos desses tinham um acesso apenas nominal. O desejo pela terra continuou a estimular levantes sociais e trabalhistas nos anos 1960. “Os trabalhadores rurais não tinham uma cultura da preguiça, nem se resignaram coletivamente à miséria … em meio a circunstâncias mutantes, eles desenvolveram estratégias de trabalho que mais perto chegariam da liberdade em relação ao cativeiro do patrão” (p.124).

A efervescência dos anos 1950 e 1960 atraiu a atenção do Partido Comunista do Brasil e do governo dos Estados Unidos, e ambos acreditavam que a zona açucareira estava madura para a revolução. Agricultores arrendatários das periferias formaram Ligas Camponesas, enquanto o governo brasileiro voltou sua atenção ao “desenvolvimento” do Nordeste. Tanto a Igreja Católica quanto os comunistas se lançaram à organização de sindicatos, especialmente após a eleição de um presidente progressista em 1961 e a aprovação de um Estatuto do Trabalhador Rural em 1963. Na parte meridional da zona açucareira, onde a modernização da agricultura e a proletarização estavam mais avançadas, prevaleciam os comunistas; no norte, mais tradicional, era a Igreja. Assim, “fatores ambientais e agrícolas” moldaram o caminho da sindicalização e os atores políticos nela envolvidos (p.140). Em ambas as regiões, porém, a demanda por terra e reforma agrária era central para a organização dos trabalhadores.

O golpe militar de 1964, de acordo com Rogers, “não foi uma vitória inequívoca dos donos de plantações”: “em termos da trajetória das lutas dos trabalhadores, houve uma continuidade que transpôs a linha divisória” (p.159). O impacto crucial, no Nordeste, foi a incursão do Estado nas relações entre donos de plantações e trabalhadores, o que inevitavelmente limitou a autonomia dos canavieiros e criou estruturas para os trabalhadores fazerem valer suas demandas. “A simples presença de uma autoridade concorrente no âmbito dos donos de plantações foi a mais importante mudança” (p.162) – algo semelhante ao pacto populista que McGillivray descreve para a Cuba dos anos 1930.

Os canavieiros reagiram com a implementação de um novo regime de trabalho – um regime de subcontratação ou trabalho temporário – para tirar seus trabalhadores do alcance do regime trabalhista do governo. Essa medida rompeu os antigos vínculos, inclusive o arrendamento, que prendiam os trabalhadores às plantações. Nos anos 1970, a maioria dos trabalhadores do setor açucareiro trabalhava sob esses novos esquemas e morava fora das plantações, em pequenas cidades (p.168). Rogers documenta uma crescente divisão entre os líderes sindicais, que continuavam a enfatizar a reforma agrária, e os trabalhadores, que passaram a ver os benefícios do Estado para os trabalhadores como um objetivo mais central, no final dos anos 1960 e início dos 1970. “A terra não era mais a condição sine qua non da liberdade. A mobilidade se tornou importante, com pagamentos feitos de forma confiável, e agora as condições do cativeiro eram entendidas na dicotomia entre o engenho e a rua … À medida que a liberdade passou a ser associada ao recurso à burocracia do Estado, os trabalhadores se viam com menos frequência em termos ‘camponeses’, mesmo no tocante à aspiração a ter vínculos com a terra. Eles eram, em primeiro lugar e antes de tudo, assalariados; poder-se-ia dizer que foram proletarizados” (p.178). Comparando-os aos trabalhadores da região de plantação de banana no Equador, e refletindo McGillivray, Rogers cita Steve Striffler para sustentar que eles “foram transformados em uma classe por meio do diálogo com o Estado. Foram ‘organizados pelo Estado e para dentro dele'” (p.207).

A cana-de-açúcar também foi transformada, em parte, pelo compromisso do governo com a exportação de produtos agrícolas, e, depois do choque do petróleo de 1973, pela produção de açúcar para etanol, utilizando técnicas da Revolução Verde e incentivos econômicos. Novos fertilizantes permitiram que a cana se expandisse para “áreas anteriormente inapropriadas” (p.183). “O preço pago pela expansão da cana-de-açúcar foram córregos fétidos, céus repletos de cinzas, florestas derrubadas e maior número de enchentes” (p.201).

Foi uma solução típica de direita para as gritantes desigualdades latino-americanas: expandir sem redistribuir. No entanto, como nos lembra Rogers, “um dos problemas dos projetos de crescimento econômico altamente modernizantes foi que eles deixaram de levar em consideração o meio ambiente” (p.184). Especialmente no norte da zona açucareira, que havia sido menos afetado pelas modernizações anteriores, os efeitos ambientais foram drásticos. Essas mudanças, combinadas à abertura política do final dos anos 1970, levaram a um renascimento da sindicalização e das greves entre os trabalhadores do setor canavieiro. A gravidade da degradação ambiental no norte ajuda a explicar por que ele foi o epicentro das atividades sindicais e grevistas, em contraposição aos anos 1960 (p.196).

O trabalho e o meio ambiente estão conectados na medida em que o lucro, ou o desenvolvimento econômico, depende do controle de ambos – embora o capital não possa, verdadeiramente, controlar nenhum dos dois. “Assim como os donos de plantações antes dela, a ditadura pensou que comandava a paisagem. Em ambos os casos, esse controle era uma ilusão. Essas falhas equivalem a uma denúncia da própria noção de comando como abordagem à gestão do meio ambiente ou da mão de obra” (p.204).

Apesar de Rogers nos oferecer uma história na qual os trabalhadores do setor açucareiro buscaram, por séculos, escapar da cana e ganhar acesso à terra para fins de agricultura de subsistência, ele também sugere que a paisagem pode ajudar a explicar o compromisso dos trabalhadores com a cana-de-açúcar hoje. “A visão das pessoas a respeito de sua localização – das possibilidades e realidades de sua vida – é estruturada por discursos sobre a paisagem. Esse conceito nos permite pensar sobre os impactos materiais desses discursos, entrelaçando fios culturais com o meio ambiente em si … Examinar esses discursos melhora nosso entendimento das motivações e perspectivas que orientam as ações das pessoas, e ajuda a explicar por que as raízes da cana-de-açúcar na Zona da Mata são tão profundas. Profundas o suficiente para que nem os donos de plantações nem os trabalhadores possam pensar em suas vidas sem ela” (p.217).

O livro This Land is Ours Now, de Wendy Wolford, começa no ponto em que Rogers termina cronologicamente. Um dos mais dinâmicos e conhecidos movimentos rurais que surgiram na América Latina nas últimas décadas é o Movimento dos Trabalhadores Rurais sem Terra (MST), no Brasil. Wolford examina como o MST, nascido entre pequenos produtores no Sul do Brasil, evoluiu e se adaptou ao contexto muito diferente do Nordeste do país, onde, como Rogers mostrou, os trabalhadores do setor açucareiro perderam a maior parte de seus laços com a terra. O livro de Wolford trata de um movimento social, mas a plantação de cana-de-açúcar e a sociedade que ela criou formam um contexto importante: séculos de produção de cana moldaram tanto a história do uso da terra quanto as crenças sobre a terra e a consciência dos trabalhadores. Assim como as outras obras aqui resenhadas sugerem, tanto a história do trabalho quanto a do meio ambiente são, de certa maneira, histórias da consciência: das formas como as pessoas pensam sobre o trabalho e o meio ambiente.

A economia moral, a ideologia e os objetivos do MST, sustenta Wolford, que também se tornaram sua face pública e internacional icônica, refletiam as realidades de pequenos agricultores, em sua maioria descendentes de europeus, do Sul do Brasil. O MST dava ênfase à reforma agrária por meio da invasão de terras e ao desenvolvimento de ideologias e instituições alternativas e socialistas através desse processo. Foi complicado para os trabalhadores do setor açucareiro desempregados do Nordeste, descendentes de escravos africanos, que eram uma força de trabalho totalmente proletarizada buscando trabalho, em vez de terra, ajustar-se a essa abordagem. “Sua decisão de aderir ao MST não era indicativa de um desejo de continuar um modo de vida agrícola … A crise contínua pela qual passava a indústria da cana-de-açúcar abriu caminho para a aceitação do MST porque havia poucas alternativas no contexto econômico desanimador dos anos 1990 no Brasil … Nem todo o mundo ficou contente em ter terras próprias, porque eles preferiam ganhar a vida com base no trabalho assalariado e não na agricultura de subsistência” (p.18-19).

Em uma clara inversão de Marx (embora em concordância com os argumentos das obras Peasant Wars of the Twentieth Century, de Eric Wolf, e The Moral Economy of the Peasant, de James Scott), o MST via os trabalhadores do setor açucareiro como “individualistas”, em oposição aos valores mais coletivos dos camponeses do Sul (p.19). “Os camponeses são – e sempre foram – os verdadeiros subalternos do Capital, o ‘outro’ que legitimou e possibilitou a industrialização, a colonização e o desenvolvimento no pós-guerra”, sustenta Wolford (p.70). De certa maneira, a “consciência camponesa” levava a valores coletivos, e os camponeses do Sul estavam, “inicialmente, bastante receptivos à ideia de produção cooperativa … a forma de produção combinava com seu senso tradicional de comunidade igualitária” (p.104-105). No entanto, os líderes do MST frequentemente constatavam que também os camponeses do Sul eram “individualistas e não conseguiam substituir adequadamente o ‘eu’ da sociedade capitalista convencional pelo ‘nós’ da comunidade alternativa do MST” (p.104). Wolford sustenta, porém, que os desafios para os coletivos do MST no Sul do Brasil vinham menos da ideologia camponesa deficiente e mais de dificuldades organizacionais e pessoais dentro dos coletivos do movimento.

Wolford, porém, concorda com Rogers no sentido de que o que ela chama de “hegemonia do discurso açucareiro” prevalece na região açucareira do Nordeste. “Mesmo quando os trabalhadores rurais plantavam frutas e verduras, eles ainda afirmavam que a cana-de-açúcar era a única cultura verdadeiramente viável” (p.185). Como explicou o presidente de um assentamento do MST, muitas vezes os assentados nem se preocupavam em plantar em suas terras recém-obtidas: “Eles estão cansados, têm que sair de casa cedo para cortar cana para terem algo que comer” (p.184). O compromisso ideológico e prático com a cana e com o trabalho assalariado significava que o programa do MST, tão atrativo no Sul, era menos promissor no Nordeste.

Wolford prefacia seu estudo perguntando se é legítimo que uma pesquisadora investigue os problemas e falhas de uma organização que ela admira e que parece oferecer um dos poucos raios de esperança para a crescente população de grupos rurais espoliados no mundo todo. Seu estudo é claramente simpatizante, e ela sustenta que um melhor entendimento dos desafios que se colocam a esse movimento deveria ajudar a fortalecê-lo, e não a enfraquecê-lo. De fato, o compromisso, a visão e a força do MST, e seu potencial para a verdadeira transformação rural, transparecem nessa avaliação sóbria. Uma das conclusões mais desalentadoras dessa obra é que “é muito mais difícil promover o desenvolvimento sustentável do que expropriar terras” (p.128). O MST tem sido mais bem-sucedido em mobilizar e apoiar pessoas nos dias urgentes e empolgantes das ocupações de terra. Mas o desenvolvimento rural sustentável, especialmente em terras esgotadas e no contexto de um capitalismo global neoliberal e declinante, tem permanecido um desafio elusivo virtualmente em toda parte.

Todos os quatro livros têm como foco regiões moldadas por colonialismo, cana-de-açúcar e escravidão. Todos eles mostram como a própria natureza e as ideias e crenças das pessoas sobre o mundo natural contribuíram para outros desdobramentos políticos e sociais e se cruzaram com eles. No entanto, os quatro livros levam suas análises para direções bem diferentes. Ao comparar duas regiões, Wolford e McGillivray buscam tornar mais complexas as narrativas nacionais – mas de maneiras bem diferentes. Wolford enfatiza as diferenças no contexto do trabalho e do meio ambiente no Nordeste em comparação com o Sul do Brasil e, assim, as experiências muito diferentes que os trabalhadores e camponeses tiveram com o MST nas duas regiões. McGillivray contesta a narrativa nacional bifurcada em Cuba, que propõe padrões muito diferentes para as partes oriental e ocidental da ilha. Ela mostra que, em vez disso, ambas as regiões eram mais como colchas de retalhos.

Adotando uma abordagem explicitamente ambiental de uma longa extensão da história, Funes Monzote e Rogers se ocupam mais diretamente das questões teóricas de como as interações humanas com a natureza contêm um componente crucial da história humana. Em todas as quatro obras, no entanto, a relação entre as pessoas e o meio ambiente tem um papel importante nas histórias política e do trabalho. Cada livro contribui com novas formas de entender o impacto profundo que a cana-de-açúcar teve nas relações sociais, nos movimentos políticos e nos Estados. O ambiente natural abriu o caminho para a cana-de-açúcar, sofreu a destruição em função dos interesses do açúcar, influenciou a consciência dos trabalhadores, do capital e do Estado nas regiões açucareiras, e continua sendo um fator importante nas lutas do século XXI nessas regiões.

Das quatro obras aqui resenhadas, no entanto, apenas Rogers tenta explicitamente construir uma abordagem teórica que interligue as questões do trabalho e do meio ambiente. Não ficamos sabendo se os formuladores de políticas públicas ambientais de Funes Monzote em Cuba cogitavam a existência de paralelos ou conexões entre a exploração da mão de obra e do ambiente natural, ou como os trabalhadores escravizados ou livres do setor açucareiro cubano concebiam sua relação com o meio ambiente. Além disso, apesar de o açúcar ter sido e continuar sendo um produto colonial e de exportação por excelência, tanto em sua história do trabalho quanto na do meio ambiente ainda há muito a ser explorado com relação à interação de forças globais com essas histórias locais e à natureza dos ambientalismos popular e de elite no mundo pós-colonial.

A necessidade de histórias que possam nos ajudar a entender as múltiplas ligações entre o trabalho e o meio ambiente é mais urgente do que nunca. Os socialistas latino-americanos do século XXI continuam a se basear em empreendimentos agroindustriais e extrativos para sustentar seus projetos redistributivos e acusam os críticos estrangeiros de imperialismo ambiental. Os movimentos trabalhista e ecológico do Primeiro Mundo se esforçam para ultrapassar análises individuais e localizadas dos problemas que enfrentam. Enquanto isso, a cultura centrada no consumo continua causando estrago até os mais remotos cantos do planeta, ao mesmo tempo em que movimentos pela soberania alimentar ganham impulso. O contexto global, e particularmente o colonial e pós-colonial, continua a estruturar a terra e o trabalho, bem como a compreensão dos sujeitos coloniais a respeito de seu relacionamento com a terra e o trabalho.

Os livros aqui resenhados dão uma importante contribuição para expandir nossas definições e compreensões tanto da história do trabalho quanto da do meio ambiente. A próxima geração da pesquisa vai se basear neles e nas percepções de ativistas latino-americanos das áreas do trabalho e do meio ambiente sobre os contextos e histórias globais que forjaram os sistemas, a consciência e os movimentos trabalhistas e ambientais, bem como as maneiras como esses movimentos, por sua vez, enfrentam os contextos globais. As crises e contradições atuais frisam a importância de se entender como chegamos a esta situação e quais caminhos tomados e não tomados no passado poderiam sugerir futuros alternativos.

Referências

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Chapel Hill: University of North Carolina Press, 2008

Notas

Resenha publicada originalmente em Social History, v.38, n.4, November 2013.

1 Pomeranz, 2000Tucker, 2000Dowie, 2009Grove, 1990, p.23, 25. Grove observa que “os primeiros ensaios políticos de Marx e o estimulante, por ele mesmo admitido, de suas primeiras tentativas de análise séria do processo social originam-se de sua preocupação com a criminalização dos camponeses pelas novas leis florestais nos anos 1840” (p.32).

2 Grove também sustenta que as políticas florestais que protegiam as necessidades de madeira de Marinhas Reais moldaram o pensamento colonial primitivo sobre o meio ambiente e frequentemente colocavam o Estado colonial em conflito com empresas privadas (1990, p.21). Em Cuba, a principal contestação do conservacionismo da Marinha vinha da indústria do açúcar, diferentemente de outros lugares no mundo colonial onde camponeses nativos e povos da floresta foram deslocados por governos coloniais que visavam preservar os recursos para suas próprias finalidades.

Aviva Chomsky – Salem State University. E-mail: achomsky@salemstate.edu.

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Filologia e História / Politeia: História e Sociedade / 2015

Este número de Politeia reúne um conjunto de estudos filológicos, cujo denominador comum é não apenas problematizar a relação entre prática letrada e realidade social, mas sobretudo privilegiar a materialidade da comunicação, examinando os códigos retóricos e bibliográficos, na perspectiva da história do livro e das edições.

Em seu belo ensaio, Gumbrecht discute a penetração do paradigma filológico germânico em França, ao historiar a formação acadêmica de Gaston Paris, na Alemanha, demonstrando que é com este filólogo francês que principia o que se pode chamar de filologia metódica no campo românico. É sabido que a edição crítica do Vie de Saint Alexis, publicada pela primeira vez em 1872, inaugura a crítica de textos no campo românico baseada em princípios críticos lachmannianos. Hans Ulrich Gumbrecht discute a oposição que houve entre a filologia parisiana e aquela outra, anterior a ela, praticada pelo filólogo Paulin Paris, pai de Gaston, e a quem ele sucedeu no Collège de France.

O estudo de Bernard Cerquiglini, de certo modo, complementa o de Hans Ulrich Gumbrecht, também traduzido por Marcia Arruda Franco. Esse artigo de Cerquiglini, traduzido por Marcia Arruda Franco e Cristina Nagle, “Elogio da Variante”, é um dos textos seminais da Nova Filologia, que empreende uma vigorosa crítica das matrizes filológicas que visam à recuperação do texto dito “genuíno”, sobretudo do lachmannismo em suas muitas vertentes, em que a obsessão pelo Ur foi elevada à condição de possibilidade de se fazer filologia.

Já Marcello Moreira, em seu estudo sobre carta em que José de Anchieta descreve elementos da fauna e da flora brasílicas, discute os preceitos retóricos e poéticos que regravam a descripitio, demonstrando como coisas nunca vistas eram descritas analogicamente a partir do que então se conhecia e cujos loci eram largamente partilhados pelos letrados. Demonstra, assim, que o que se declarava sobre o leão, por exemplo, desde tratados como o de Plínio, o Velho, não dependia de uma suposta empiria, da observação positiva do que seria um leão, mas sim da força dóxica da tradição.

Justamente a palavra regrada, independentemente do gênero literário, ao se reproduzir como ato sociolinguístico, cuja função é sublinhar o poder monárquico, impõe-se como documento próprio ao estudo das ideias e das mentalidades no estudo de Marcia Arruda Franco. Este persegue o lugar do letrado e do poeta na rede clientelista da monarquia portuguesa, por meio da leitura de El perfecto principe christiano, de Francisco de Monzón, de 1544, e de poemas, epístolas dedicatórias, e outros documentos quinhentistas, a fim de mostrar que a educação dos príncipes ibéricos, pais de D. Sebastião, os vocacionou ao mecenato.

Pedro Serra, enfocando o século XX, exerce a crítica literária como filologia e nos ensina um modo crítico de ler a relação política entre discurso poético e mentalidade, ao examinar, na transição espanhola, e na outra transição, por assim dizer, filológica, Así se fundó Carnaby Street, de Leopoldo María Panero.

O texto de Maria Ana Ramos, ao examinar o código bibliográfico e iconográfico de um códice incompleto como o do Cancioneiro da Ajuda mostra como o foco na materialidade da comunicação pode revolucionar um campo de estudos, na medida em que a sua análise faz emergir sentidos próprios do Medievo, como a circulação em performance das cantigas galego-portuguesas.

Por fim, Márcio Muniz, em estudo sobre o gênero dramático no Portugal quinhentista, relaciona preceptivas e textos teatrais, ao tempo em que também, ao explorar elementos paratextuais de vária natureza, como títulos, didascálias, rubricas etc., demonstra que eles explicitam uma poética teatral ao mesmo tempo em que orientam, sobretudo, a encenação, sendo excelente fonte de pesquisa para a compreensão do horizonte de expectativa do público primeiro e dos que estavam envolvidos com a criação teatral.

Marcello Moreira – Professor da Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia (Uesb) Doutor em Literatura Brasileira pela Universidade de São Paulo (USP) E-mail: moreira.marcello@gmail.com

Marcia Arruda Franco – Professora da Universidade de São Paulo (USP) Doutora em Letras Vernáculas / Literatura Portuguesa pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) E-mail: marciarrudafranco@gmail.com


MOREIRA, Marcello; FRANCO, Marcia Arruda. Apresentação. Politeia: História e Sociedade. Vitória da Conquista, v. 15, n. 1, 2015. Acessar publicação original [DR]

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História Intelectual / Tempos históricos / 2015

O campo da História Intelectual e da História dos Intelectuais, surgia, há alguns anos, envolto em muitas dúvidas e incertezas, objeto de pesadas críticas por parte da comunidade acadêmica. Nos últimos anos, contudo, assistimos a partir do esforço de pesquisadores e / ou professores do Brasil e fora dele, ao fortalecimento do referido campo de estudo. Cada vez mais suas balizas históricas estão definidas, bem como sua natureza e seu campo de ação. O dossiê “História Intelectual” é um exemplo deste esforço empreendido por diversos pesquisadores da grande área das ciências humanas, demonstrando a pluralidade de abordagens possíveis para a História Intelectual. Passamos a apresentar, de forma breve, pois a leitura aprofundará a discussão, os artigos que compõem o dossiê da Revista Tempos Históricos.

Deste modo, os quatro primeiros artigos do dossiê centram-se em questões de ordem teórica e metodológica no que se refere à História Intelectual. O texto de José D’Assunção Barros oferece uma original e instigante proposta, com vistas à superação das dificuldades comuns aos conceitos e modelos tradicionalmente empregados pelos pesquisadores dedicados ao mencionado campo historiográfico. Assim sendo, o estudioso parte da teoria musical a fim de construir uma metáfora – o “acorde historiográfico” – como possibilidade para se lidar com os complexos temas vinculados à História Intelectual.

Em seguida, Eugênio Rezende de Carvalho salienta de que maneira o filósofo e historiador argentino Arturo Andrés Roig contribuiu decisivamente no sentido de uma renovação teórica do movimento latino-americano da História das Ideias durante os anos 1970, abrindo uma via rumo à História Intelectual. Todavia, como bem demonstra o autor, muitos trabalhos que não abandonaram as tradicionais práticas ligadas à História das Ideias mantiveram intenso diálogo com as perspectivas inovadoras formuladas por Roig.

O artigo da professora e pesquisadora Claudia Wassermann discute os principais conceitos para a História Intelectual, a natureza dos intelectuais e suas funções. O artigo traz, como um estudo de caso, a ação de alguns intelectuais latino-americanos.

Por sua vez, Carlos Henrique Armani aborda um dos temas mais caros da História Intelectual: o conceito de contexto. Ao revisitar o tema, estabelece-se um diálogo com os principais autores da área em questão, propondo outras perspectivas de abordagem para o conceito de contexto na e para a História Intelectual.

Na sequência, Raphael Guilherme de Carvalho investiga determinados aspectos da escrita de si observáveis em alguns textos que o historiador Sérgio Buarque de Holanda produziu no decorrer da década de 1970. O estudioso indica a forma pela qual Sérgio Buarque elaborou discursos tendo por objetivo legitimar a sua produção ensaística – como, por exemplo, Raízes do Brasil – em um contexto marcado, entre outros, pelo aprofundamento da especialização da pesquisa histórica em nosso país.

Walkiria Oliveira Silva nos apresenta suas reflexões sobre as funções do conhecimento histórico e da historiografia para a Alemanha de meados do século XX, tomando como ponto de partida o chamado Círculo de Stefan. Discute ainda as relações estabelecidas entre o Círculo e o conceito alemão de Bildung.

O texto seguinte, de Raimundo Lima dos Santos, aborda a presença dos viajantes no Maranhão ao final do século XIX. O autor aponta, ao discutir as impressões dos viajantes sobre a fauna, a flora, a cultura e a economia, a presença do Romantismo e da Ilustração, ainda que tal se observe por vezes de forma indireta. As impressões construídas pelos viajantes sobre o Brasil, e mais especificamente sobre o Maranhão, ainda sobrevivem nos dias atuais.

Por sua vez, Andrea Ciacchi delineia em seu artigo a trajetória intelectual da antropóloga Gioconda Mussolini e a relevância de seu trabalho na Universidade de São Paulo ao longo dos anos 1940-1960. A abordagem biográfica ora empregada pelo autor visa, ao mesmo tempo, esclarecer a importância da referida intelectual em um momento crucial no que se refere à institucionalização da antropologia no Brasil.

O professor André Fabiano Voigt a partir do diálogo com diversos importantes autores do século XIX e XX delimita o principal foco de sua análise: a discussão sobre a presença da mimesis que em Jacques Rancière que deve ser entendida dentro de sua historicidade, em contraposição às reflexões de Hans-Georg Gadamer e Luiz Lima, para os quais a mimesis mantém sua atualidade para a compreensão da experiência artística.

Jocelito Zalla analisa a obra Terra Gaúcha, vista no artigo como espécie de “ensaio histórico” composto pelo escritor João Simões Lopes Neto na segunda metade da década de 1910. O livro reiterava o modelo do gaúcho da região do Pampa como figura representativa do povo do Rio Grande do Sul. No entanto, o estudioso busca desvelar o fato de que, naquele ensejo, o modelo de identidade social rio-grandense ainda se encontrava em aberto, forjado em meio a disputas pela configuração de uma memória local que, por seu turno, se articulavam a questões nacionais mais amplas.

O artigo de Patrícia Helena Baialuna de Andrade reflete, tendo como pano de fundo o contexto dos anos 1930, mais especificamente a partir do estabelecimento do chamado nacional-socialismo, a publicação de dois periódicos. A autora analisa os referidos periódicos (Freies Deutschland e Internationale Literatur), que tinham como objetivo criar focos de resistência e apoiar os artistas, políticos e intelectuais, em grande parte, judeus, forçosamente exilados pelo regime nazista.

Por fim, Regina Weber se volta para a presença étnica polonesa no Brasil, particularmente aos conflitos derivados das iniciativas propostas por intelectuais laicos e religiosos no seio de associações construídas por emigrados na primeira metade do século XX, em especial no estado do Paraná. A autora destaca, por outro lado, que na década de 1960 nota-se um processo de convergência entre tais intelectuais no interior dessas comunidades, então compostas por muitos descendentes, pautado na noção de pertencimento étnico e na constituição de uma memória comum para os imigrantes de origem polonesa.

Boa leitura a todos.

Marcos Luís Ehrhardt – Doutor em História Social (UFPR). Professor do curso de História e do PPGH – UNIOESTE.

Moisés Antiqueira – Doutor em História Social (USP). Professor do curso de História e do PPGH – UNIOESTE.


EHRHARDT, Marcos Luís; ANTIQUEIRA, Moisés. Introdução. Tempos Históricos, Paraná, v.19, n.1, 2015. Acessar publicação original [DR]

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Saúde-doença dos trabalhadores / Tempos históricos / 2015

As últimas décadas poderiam ser entendidas como de uma verdadeira obsessão por parte do empresariado nacional em busca da obtenção de indicadores de qualidade, traduzidos, por exemplo, na multiplicação de ISOs (International Organization for Standardization) 9000. A argumentação para tal firma-se na necessidade de um mercado globalizado, referenciado em padrões compatíveis com os parâmetros internacionais, visando a satisfação do consumidor mais remoto, via procedimentos massivos adotados na produção e na distribuição.

Desdobramento dessa busca pode ser notado nas constantes liberações (permissões) de produtos e serviços para exportações a países e regiões, conjuntamente a obtenção de certificados de qualidade específicos para este ou aquele produto, que não só os da ISO, como, por exemplo, o British Retail Consortium (BRC) obtido pelo setor frigorífico para exportação na Europa.

Esta obsessão, como tudo na sociedade capitalista, parece extremamente seletiva, pois foca no produto, mas não necessariamente no produtor, aquele que efetivamente faz a transformação das matérias primas no objeto desejado – de diversas ordens -, sujeito a péssimas condições de trabalho e via de regra exposto a riscos, agravos, acidentes etc. Vejamos alguns indicadores disponibilizados pela OIT (2014):

– 2,02 milhões de pessoas morrem a cada ano devido a enfermidades relacionadas com o trabalho;

– 321 mil pessoas morrem a cada ano como consequência de acidentes no trabalho;

– 160 milhões de pessoas sofrem de doenças não letais ligadas ao trabalho;

– 317 milhões de acidentes laborais não mortais ocorrem a cada ano;

– a cada 15 segundos, um trabalhador morre de acidentes ou doenças relacionadas com o trabalho;

– a cada 15 segundos, 115 trabalhadores sofrem um acidente laboral.

As comparações estatísticas seriam diversas. Fiquemos apenas numa: o trabalho matou quase seis vezes mais do que a dengue no Brasil, em números absolutos. Ou seja, em sete anos, de 2007 a 2013,

o país teve 5,3 milhões de casos de dengue, número equivalente aos acidentes de trabalho. Menos letal, a doença matou 3.331 pessoas, média de 475 por ano, contra 19.478 óbitos no trabalho, ou 2.780 por ano – os 720 mil acidentes anuais ainda deixam 14,5 mil inválidos permanentes. Cabe lembrar que, ano após ano, o combate à dengue mobiliza todo o país, um esforço que não se vê no combate aos perigos no trabalho [3].

Além disso, o trabalho era mais letal do que a dengue: o risco de morte é quase 12 vezes maior, tomando-se a população trabalhadora e a população geral sob o risco do vírus. Só no Brasil, segundo o Instituto Nacional de Seguridade Social (INSS), esta situação comprometeu, entre 2003 e 2014, R$ 16 bilhões, sendo que estas despesas consomem 90% dos recursos daquele órgão [4]. Isso ilustra o fato de que os recursos públicos são investidos de forma trágica, pois os problemas são estruturais e não se consideram as causas, mas tão somente os aspectos secundários. Ou então, o que dizer sobre a insegurança e a desatenção do capital e do Estado para com a saúde do trabalhador serem tratados nos tribunais!

Com base nos exemplos, que se perdem à exaustão, é imprescindível a associação entre processo de trabalho e saúde do trabalhador. Isso requer nossas atenções para a qualidade de vida do trabalhador dentro e fora do trabalho, já que esta está cada vez mais ameaçada, coerentemente sustentada na irracionalidade sistêmica do capital, ou seja, na extração de trabalho não pago, base estrutural de todo o edifício sociometabólico da sociedade capitalista.

Este dossiê “Saúde / Doença do Trabalhador” busca contribuir não só com esta discussão, mas também com a visibilidade do problema, colocando-a em perspectiva histórica, evidenciando a longevidade e as fissuras da relação saúde / doença. Neste sentido, se a insalubridade e fatalidade do trabalho para o trabalhador é uma aspecto da produção capitalista que perdura conjuntamente a esse sistema, suas circunstâncias e formas têm a mesma diversidade, o que fica caracterizado, longe do suficiente, nos quatro artigos que compõem o dossiê.

Assim, em “Saúde e trabalho no Brasil e os desafios da participação”, Carlos José Naujorks, pontua a historicidade da conceituação da questão, partindo de médicos e sanitaristas europeus no século XIX, deslocando-se à participação e mobilização dos trabalhadores no Brasil na defesa da salubridade laboral no século XX. Comparativamente aos outros artigos que compõem este dossiê, Naujorks contribui com uma visão sintética e geral da questão, ao passo que os demais artigos focam categorias específicas de trabalhadores.

O artigo de Anderson Vieira Moura, “Operários têxteis e o acesso à saúde”, parte de processo judicial, investiga as articulações entre diferentes grupos – patrões, sindicalistas e profissionais da saúde, além dos próprios trabalhadores – no que se refere ao acesso aos serviços médicos vinculados ao trabalho, em Maceió, na década de 1950.

No artigo de César Augusto Martins de Souza, a construção da rodovia Transamazônica, na década de 1970, é o “palco” dos embates vividos pelos trabalhadores em relação às enfermidades e mortes, não só dos que executavam a obra, como também da população lindeira, também atingida pelo “empreendimento”. De posse de farto material empírico, o autor contrapõe elementos críticos com base na euforia dos asseclas da ditadura pós-1964 com a possível “ocupação” daquela região que viabilizaria a exploração de madeiras, fauna, minérios etc. suas muitas riquezas e as preocupações com os riscos que tal obra poderia propiciar à saúde pública.

No quarto artigo desta coletânea, Fernando Mendonça Heck investiga e interpreta uma das categorias profissionais que expressam, desafortunadamente, na contemporaneidade mais estreitamente aquela contradição que apontamos no inicio desta introdução: os trabalhadores em frigoríficos. Este setor que propagandeia o sucesso da produção com qualidade no Brasil, detentora de índices de exportação e rentabilidades, mesmo em períodos de suposta crise, expressivos, laureado com diversos certificados internacionais que atestam a grandeza do agronegócio nacional, é, articuladamente e não tão divulgado, um dos setores que mais danos causam aos trabalhadores. Esses elementos são abordados por Heck, com as atenções também para o processo crescente de terceirização implementado pelo capital para fragilizar a luta político-organizativa dos trabalhadores.

Tendo em conta a natureza do tema, ficaria difícil desejar aos leitores uma agradável leitura. Desejamos assim que ao menos ela seja proveitosa, não só no aprofundamento de discussões, mas também como oportunidade de denunciar a situação.

Notas

3. Gazeta do Paraná, O Trabalho mata mais do que epidemia no Brasil, 5 de julho de 2015. Disponível em www.gazetadopovo.com.br / vida-e-cidadania / especiais / acidentes-de-trabalho-no-brasil / index.jpp.

4. In INSS, 1º. Boletim Quadrimestral sobre Benefícios por Incapacidade, 25 de abril de 2014. Disponível em http: / / www.previdencia.gov.br / wp-content / uploads / 2014 / 04 / I-Boletim-Quadrimestral-deBenef%C3%ADcios-por-Incapacidade1.pdf

Antonio Thomaz Junior – Doutor em Geografia (USP), professor do Programa de Pós-Graduação e da Graduação em Geografia da UNESP (Campus de Presidente Prudente).

Rinaldo José Varussa – Doutor em História Social (PUC-SP), professor associado do Programa de Pós-Graduação e da Graduação em História da UNIOESTE (Campus de Marechal Cândido Rondon).


THOMAZ JUNIOR, Antonio; VARUSSA, Rinaldo José. Introdução. Tempos Históricos, Paraná, v.19, n.2, 2015. Acessar publicação original [DR]

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Igreja e Poder / Tempo Amazônico / 2015

É com satisfação que apresentamos o mais novo número da Revista Tempo Amazônico, revista eletrônica semestral da seção Amapá da Associação Nacional de em História (ANPUH / AP). Esforçando-se para dar conta da multiplicidade dos estudos de história social, exploramos através de um Dossiê o tema “Igreja e Poder”, incorporando diversas abordagens e problemáticas. Nesse sentido, no primeiro artigo do dossiê, Alexandre Guilherme da Cruz Alves Junior discute o fundamentalismo cristão nos Estados Unidos do início do século XX, analisando a ativa participação de líderes fundamentalistas na condenação do professor de escolas básicas que ensinava a teoria darwinista, John Scopes. No artigo seguinte, Claudirene Bandini observa criticamente a relação poder, gênero e religião. Através da trajetória de autonomia de uma representante da Igreja Universal do Reino de Deus, a autora analisa o neopetencostalismo e a afirmação do poder e desigualdade de gênero no campo da religião.

O artigo “Ver, julgar, agir, rever e celebrar”, do pesquisador Jesus Marmanillo Pereira, inicia uma sequência de trabalhos que persegue questões político-religiosas da Igreja Católica contemporânea no Brasil. Em destaque neste texto estão os aspectos históricos e sociais que fornecem a base explicativa para as ações dos setores progressistas da igreja Católica em São Luís-MA durante a década de 1980. Dentro desse mesmo contexto, Emanuelle Kopanyshyn estuda a ação política da Igreja Católica na diocese de Assis, interior de São Paulo durante a ditadura militar. Na contramão de alguns estudos a autora considera a heterogeneidade do clero católico e as peculiaridades como pressupostos fundamentais para compreender a relação religião, instituição e política nessa conjuntura nacional. O artigo que fecha esse bloco, de autoria das pesquisadoras Tatiana Pantoja Oliveira e Norma Iracema de Barros Ferreira, trata das relações de poder estabelecidas entre Igreja Católica, Estado e escolarização no ex-Território Federal do Amapá, por meio da investigação de fontes primárias do corpo documental do Jornal A Voz Católica e dos Livros do Tombo da Prelazia de Macapá.

Outro bloco de artigos, reúne pesquisas mais remotas, entretanto, ainda referentes a Igreja Católica. O pesquisador Lucas Gesta Palmares Munhoz de Paiva escreve sobre a cidade de Antioquia, um dos grandes centros missionários cristão na antiguidade, e seus vínculos com a formação do cristianismo. Marcelo Lachat, discute a presença da filosofia estoica em diversas obras dos séculos XVI e XVII, em especial de Justo Lípsio e Francisco de Quevedo, ressaltando a conciliação – recorrentemente crítica – entre o estoicismo e a religião cristã.

Rossana G. Britto ao estudar os visitadores das naus, um cargo da instituição inquisitorial portuguesa, analisa como o poder da Igreja Católica foi reforçado através das atribuições concedidas pelo Estado de fiscalização e circulação de mercadorias e livros nas alfândegas e portos do Império Português. Em seguida, Amanda Dias de Oliveira, a partir dos documentos do Arquivo Histórico Ultramarino, estuda o recolhimento da ajuda do Rio de Janeiro entre os anos de 1678 e 1750, demostrando a importância desse convento de freiras nas relações familiares, políticas e sociais no período colonial.

Finalmente, fechando esse número temático, o artigo de Karla D. Martins avalia projetos da Igreja no Grão-Pará por meio do Bispo D. Macedo Costa. Em consonância à argumentos de autoridades públicas locais, D. Macedo Costa defendia ações de colonização agrícola e imigração. Entretanto, em acréscimo, defendia a intervenção da Igreja na formação social e moral, através “civilizacionismo cristão” dos habitantes amazônidas.

O tema central deste dossiê, Igreja e Poder, pode ser desfiado através de uma pluralidade de objetos. Poder, ciência, gênero, educação, filosofia, família, estão entre as categorias de análises que relacionadas à temática central forneceram o desenho deste número. Esperamos que essa nova edição forneça uma agradável e instigante leitura. Por fim, agradecemos a todos que voluntariamente nos ajudaram neste projeto.

Fábio Py Murta Almeida

Marcos Vinícius Freitas Reis


ALMEIDA, Fábio Py Murta; REIS, Marcos Vinícius Freitas. Apresentação. Tempo Amazônico, Macapá, v.2, n.2, 2015. Acessar publicação original [DR]

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Internet e Saúde / Cadernos do Tempo Presente / 2015

A revista Cadernos do Tempo Presente continua em movimento. Prosseguimos com a nossa 19ª edição acompanhando e buscando analisar variadas experiências. Seguimos refletindo sobre a temporalidade e a complexa relação entre passado e presente com uma gama de temas e problematizações. Continuamos assim, sendo movidos por aquilo que cerca o “tempo presente”: os discursos heterogêneos.

Giuseppe Frederico Benedini abre a seção de artigos com seu trabalho, “A Rússia Czarista e as origens da Revolução: um ensaio”. Em sua apresentação sobre a política vigente nos reinados sucessivos da dinastia Romanov, de Alexandre I a Nicolau II, veremos as mais importantes transformações sociais ocorridas na Rússia daquela época, incluindo os movimentos políticos e culturais de oposição ao regime.

Em “Os movimentos sociais das “Gentes do Mar” no Brasil”, Arilson dos Santos Gomes faz uma pertinente discussão sobre a importância dos movimentos sociais no final do século XIX e início do século XX ligados ao ‘povo brasileiro do mar’, os pescadores. Suas atividades no mar e na terra e o constante diálogo entre estes dois mundos.

Nesta Edição, nos preocupamos em presentear nossos leitores com um dossiê sobre saúde e internet, ao observarmos o aumento e a frequência com que os internautas tem visitado a web em busca de informações sobre tratamento médico e os usos das redes sociais cibernéticas enquanto espaços de promoção para variados fins. André Pereira Neto e Mônica Dantas trazem no primeiro artigo desse Dossiê uma análise sobre a violência simbólica sofrida pelo grupo denominado GLBT nos discursos homofóbicos, e suas reações no Facebook “Rio sem Homofobia – Grupo Público”.

Os usos de uma Fan Page do Facebook como estratégia de comunicação para divulgação das ações do Instituto de Comunicação e Informação Científica e Tecnológica em Saúde da Fundação Oswaldo Cruz (Icict / Fiocruz) pode ser apreciado no segundo artigo do Dossiê. Intitulado “O uso de Fan Page como estratégia de comunicação institucional” o trabalho tem como autoras Renata Rezende e Cristiane Almeida.

Na linha sobre saúde, Rita Machado e Maria da Costa discutem a internet como um fenômeno contemporâneo que revolucionou a sociedade e mudou o modo como as pessoas lidam com a saúde em “Disponibilidade da informação para pacientes de câncer: a internet como ferramenta de visibilidade e construção de empoderamento”,

Finalizando o Dossiê, temos o artigo de Tatiana Clébicar e Kátia Lerner. “Interatividade nas fanpages do Facebook de jornais cariocas: o caso das notícias de saúde” faz uma significativa comparação dos indicadores de interatividade nas publicações sobre saúde nas fanpages do Facebook dos jornais cariocas O Globo e O Dia.

Nossos variados discursos não param por aí. A resenha de Clotildes de Sousa discorre sobre a obra Didática para Licenciaturas, de Itamar Freitas, em que o autor discute os limites entre aprendizagem e ensino. Noutro viés, Diogo Perin reflete sobre a narrativa de Paulo Knauss no texto A cidade como sentimento: história e memória de um acontecimento na sociedade contemporânea — o incêndio do Gran Circus Norte-Americano em Niterói, 1961.

Tenham todos uma ótima leitura!

Os Editores


Editores. [ Internet e Saúde]. Cadernos do Tempo Presente, São Cristóvão, n.19, 2015. Acessar publicação original [DR]

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Medo, reverência, terror: Quatros ensaios de iconografia política – GINZBURG (VH)

GINZBURG, Carlo. Medo, reverência, terror: Quatros ensaios de iconografia política. São Paulo: Companhia das Letras, 2014. 200 p. Tradução de Federico Carotti, Júlio Castañon Guimarães e Joana Angélica d’Avila Melo. RABELO, Elson de Assis. Medo, reverência, terror: Quatros ensaios de iconografia política. Varia História. Belo Horizonte, v. 31, no. 55, Jan./ Abr. 2015.

Já faz algum tempo que a dimensão visual da história e da vida em sociedade tem chamado a atenção do principal nome do campo conhecido como micro-história, seja na Itália ou fora dela. Depois de seus estudos mais importantes nesse campo, o autor passou a explorar o gênero do ensaio, com a verve da polêmica e da erudição, como se vê nas obras Relações de forçaOlhos de madeiraO fio e os rastros, nas quais Carlo Ginzburg tem apresentado sucessivamente não apenas seu farto conhecimento sobre longos períodos da história do Ocidente, particularmente da Europa, mas tem posto essa erudição em função de problemas históricos instigantes, a partir das possibilidades dadas pelo método indiciário que ele sistematizara em texto hoje clássico.

O ponto de partida que reúne os quatros capítulos do seu mais recente livro, Medo, reverência, terror, originalmente publicados como quatro ensaios independentes, é a temática mais ou menos comum que lhes abrange e que Ginzburg filia ao conceito de Pathosformeln. Lançado pelo historiador da arte alemão Aby Warburg, mestre de uma geração e conhecida referência do autor italiano, o conceito designa as fórmulas históricas de representação das emoções na arte, vazadas na gestualidade corporal ou na expressividade facial dos sujeitos. Mas, desta vez, trata-se de uma releitura, considerando-se que Ginzburg, em Mitos, Emblemas, Sinais, já mapeara o conceito sobre a obra de Warburg.

Como “instrumento analítico”, as Pathosformeln constituem uma noção que “ilumina as raízes antigas de imagens modernas e a maneira como tais raízes foram reelaboradas” (p.12), especialmente sob o signo da ambivalência entre emoções contraditórias. As Pathosformeln informariam a criação visual, mesmo que o próprio artista eventualmente não saiba de onde vêm essas formas que ele emprega. Ao acentuar a tensão entre morfologia e história, que também havia sido abordada antes, Ginzburg, enquanto historiador, testa o conceito em favor da condição histórica das obras de arte, de sua criação e recepção, com ênfase na questão do político e dos temas das três emoções correlatas (medo, reverência, terror) que, embora distintas, teriam se reforçado e sustentado a dominação, a contestação e a memória do poder.

Ricos em imagens, os capítulos têm o mérito de não reduzi-las ao uso ilustrativo, mas convoca-as para a narrativa, chamando o leitor para que veja os indícios privilegiados na abordagem. No entanto, esse exercício chega a ser um tanto exaustivo, dado o volume de vestígios e informações levantados, que pedem, e permitem, mais análise das imagens em si mesmas. Inclusive, no primeiro capítulo, o privilégio não é dado à imagem e sua constituição: o próprio Ginzburg diz que trata, antes, de um caso de Logosformel (“fórmula de ideias”), pois a abordagem sobre os frontispícios de duas edições do Leviatã, de Hobbes, cede espaço à discussão dos conceitos do medo e da reverência, onde são exploradas as possíveis conotações religiosas da construção filosófica do pensador inglês sobre o Estado, contrariando a tradição que o considera já secularizado, e secularizador, da política.

No segundo capítulo, uma das mais famosas pinturas do período revolucionário francês, o Marat em seu último suspiro, de Jacques-Louis David, é confrontada com outras obras de seu tempo e com as formas capturadas indiretamente da religião e que teriam favorecido o surgimento do “culto” a esse personagem político. O terceiro capítulo indaga detalhes do cartaz que trazia o rosto do marechal-de-campo inglês Lord Kitchener, no começo do século XX, que veio a inspirar não apenas o cartaz estadunidense de recrutamento para a guerra com o rosto do Tio Sam, como também vários produtos similares da propaganda política que tiveram por função intimar o espectador. Segundo o historiador, a língua “demótica” da propaganda atualizou um motivo clássico da pintura – aquele do olhar vigilante e do dedo apontado que parecem saltar da tela rumo ao espectador por força da expressão pictórica.

O quarto capítulo, em que Ginzburg mais uma vez visita a obra de Pablo Picasso, depois do ensaio anteriormente publicado sobre Demoiselles d’Avignon, é, sem dúvida, o mais denso, e o que mais chama a atenção dos historiadores interessados nas circunstâncias sociais de elaboração de uma obra de arte. Após nova digressão pelos temas clássicos da pintura das paixões encarnadas nos corpos, temas que de algum modo chegaram a Picasso, Ginzburg olha para a iconosfera e para os impressos que envolviam o pintor, antes e no momento da produção de Guernica, em 1937: a arquitetura, os objetos escultóricos, a imprensa, os textos surrealistas. E o cotejamento com os esboços fotografados do mural ampliam ainda mais esse espectro documental, e colocam a possibilidade de análise das operações de escolha e exclusão do artista, repercutidas na obra acabada e no tecido histórico para o qual ela virá à luz e do qual fará parte.

Pode-se dizer que os ensaios de Ginzburg têm a ver com um momento em que a historiografia tem se preocupado com aquilo que foi chamado por vários nomes, como cultura visual, modos de ver, com a visualização, enfim, do passado – e que não é preocupação exclusiva dos historiadores que privilegiam a abordagem de documentos visuais, mas um ângulo estratégico de questionamento dos vestígios que pode interessar seja aos historiadores da arte, seja aos da mídia, ou aos da política. E isso é indicativo de uma atenção ética, pontuada pelo autor logo no primeiro capítulo, ao assédio exercido atualmente pelas imagens, que, por sua ubiquidade, tornaram-se cada vez mais indissociáveis das nossas práticas de conhecimento, de produção cultural e de inserção na esfera do político. Embora o autor defina critérios próprios de análise e chegue às suas conclusões em função de problemas específicos, é inegável a constatação de que seus textos engrossam a fileira de uma historiografia que tem relacionado o político e a dimensão visual, exemplificada no capítulo sobre poder e protesto do livro de Peter Burke, Testemunha Ocular, ou no outro livro deste sobre Luís XIV, e nas diferentes tradições de estudos que têm relacionado a arte às suas demais implicações na sociedade, e daí podem se incluir, dentre outros, os nomes de importantes historiadores, como o próprio Warburg e seu círculo de Hamburgo e Londres, Pierre Francastel, Svetlana Alpers, Michael Baxandall, Louis Marin e Georges Didi-Huberman, embora Ginzburg se afaste deliberadamente de algumas perspectivas deste último.

Resta que, em que pese a defesa, por Ginzburg, de um método por excelência conjectural, nem sempre ficam claros os trânsitos de perdas e acréscimos das Pathosformeln, o que demandaria estudos de mais fôlego do que os ensaios podem comportar. Mas isso em si é revelador de que o historiador italiano não toma o conceito de Warburg como cartilha mecânica, mas como provocação para que se investiguem questões particulares com rigor de método para tratar os artefatos trabalhados como documentos, como ele demonstra em relação ao circuito social de produção, circulação e, eventualmente, consumo de algumas obras.

Além disso, lembramos que certas vertentes da historiografia brasileira, por vezes genericamente chamada de “história cultural”, acostumaram-se a trabalhar com as emoções e sensibilidades, nem sempre com chaves de leituras como a do medo, mas, em todo caso, com pouca articulação com a questão do político, e pouca exploração da dimensão visual, salvo algumas exceções. Mas se existe nesse tipo de abordagem o risco de só ver os vestígios históricos das emoções naqueles produtos que foram nomeados como o sendo o “sorriso da sociedade” (como a arte, a literatura ou mesmo a publicidade), seria possível pensar na existência, entre os grupos sociais sem escrita e sem o mercado institucionalizado de arte, de formas históricas recorrentes, e que sofrem reinterpretações, na expressão e na representação das emoções? Seus vínculos, cotidianos, insuspeitos, com a política, não constituiriam matéria de interesse para o historiador, sobretudo em espaços, como os que há e houve no Brasil, nos quais a política, seus ritos e seu espetáculo foram durante muito tempo expressos, veiculados e vividos em termos orais, gestuais, costumeiros, cerimoniais, que recorriam também ao ver e à sua historicidade? Por outro lado, a ferramenta conceitual das Pathosformeln serve para o tratamento de outras imagens, aquelas chamadas de “técnicas” pela crítica especializada, como o cinema e a fotografia, que, a depender do circuito social, podem, com efetividade, jogar o papel inequívoco de cristalização e veiculação das paixões políticas?

Para finalizar, entendemos, portanto, que o livro de Ginzburg abre clareiras metodológicas que ultrapassam suas referências predominantemente europeias, sendo útil no sentido de pensar, para outras configurações sociais, uma história política, ou uma história social da arte, ou uma história das sensibilidades, que desbordem seus campos tradicionais, pondo em xeque os engavetamentos – “história cultural”, “história política” etc. -, e enfocando os problemas a partir do cruzamento de abordagens.

Elson de Assis Rabelo – Colegiado de Artes Visuais, Universidade Federal do Vale do São Francisco Av. Antonio Carlos Magalhães, 510, Juazeiro, BA, 48.902-300, Brasil elson_rabelo@hotmail.com.

1964: o golpe que derrubou um presidente, pôs fim ao regime democrático e instituiu a ditadura no Brasil | Ângela de Castro Gomes

RC Destaque post 2 15 Ditadura no Brasil

Os historiadores Ângela de Castro Gomes e Jorge Ferreira trazem a publico um livro emblemático, 1964: o golpe que derrubou um presidente, pôs fim ao regime democrático e instituiu a ditadura no Brasil, no ano em que meio século se passou daquele 31 de março. Por meio de uma escrita que captura o leitor desde as primeiras páginas, rapidamente se é tomado por uma curiosidade crescente sobre o relato seguinte, o passo seguinte, a negociação, o cenário. Como a mirar um caleidoscópio, os eventos são narrados alternando temporalidades e espacialidades articulados a um grande domínio das informações bibliográficas e documentais. E não poderia ser diferente, a obra é resultado de uma vida de pesquisa e escritas de livros e artigos, de dois historiadores que muito produziram sobre essa temática e esse período. O enorme conhecimento sobre a documentação e a bibliografia relacionada à temática e ao período é elemento decisivo que potencializa essa capacidade de pensar a arquitetura da escrita em seus múltiplos vórtices de efeitos de verdade.

O livro narra um curto período da história política do Brasil: da crise da renúncia de Janio Quadros, em agosto de 1961, até o golpe civil militar de 1964. No entanto, as dimensões sociais, econômicas e culturais se entrelaçam à narrativa quer no detalhamento das lutas sindicais e de setores da sociedade civil, quer nas tensas negociações das estratégias econômicas, quer nas campanhas da UNE e de defensores de uma reforma educacional ampla, entre outros aspectos abordados. Leia Mais

Os vultos da nação. Fábrica de heróis e formação dos brasileiros – ENDERS (VH)

ENDERS, Armelle. Os vultos da nação. Fábrica de heróis e formação dos brasileiros. Rio de Janeiro: Editora FGV, 2014. 392 p. CEZAR, Temístocles.  Os vultos da nação. Fábrica de heróis e formação dos brasileiros. Varia História. Belo Horizonte, v. 31, no. 55, Jan./Abr. 2015.

Imaginemos Plutarco no Brasil. Parece ser mais fácil imaginar um Plutarco Brasileiro. Foi o que fez João Manuel Pereira da Silva em 1847 ao publicar O Plutarco brasileiro, pela editora Laemmert. Armelle Enders imaginou as duas situações: em 2000, a historiadora francesa publica, na revista Estudos Históricos, o artigo ‘O Plutarco Brasileiro’. A produção dos Vultos Nacionais no Segundo Reinado (http://bibliotecadigital.fgv.br/ojs/index.php/reh/article/view/2114); em 2012, a versão de sua tese de habilitação, defendida na Sorbonne em 2004, intitulada Plutarque au Brésil: passé, héros et politique, 1822-1922 – pela editora Les Indes Savantes, de Paris – que aparece agora em português sob o título Os vultos da nação. Fábrica de heróis e formação dos brasileiros. Plutarco é uma espécie de fantasma que atravessa constantemente as paredes deste panteão de papel que os letrados brasileiros esforçaram-se por erigir. Nesse sentido, tanto para Pereira da Silva quanto para Enders, Plutarco é, simultaneamente, um instrumento heurístico e uma hipótese de trabalho.

Quem foram, quem são, nossos grandes homens, nossos homens ilustres, nossos heróis? Tiradentes, José Bonifácio ou Getúlio Vargas encarnam no plano nacional este papel de varão de Plutarco. A colocação da questão nestes termos não dissimula um problema de ordem historiográfica. Afinal, são personagens cuja importância simbólica depende da conjuntura política e do regime de historicidade no qual adquirem fisionomia. É nas disputas pela memória entre a independência de 1822 e sua comemoração um século depois que Enders analisa tais tensões. Nessa duração média seria instalada uma espécie de fábrica historiográfica e pedagógica, na qual heróis ganhariam vida – passada e/ou presente.

Em sete equilibrados capítulos, uma introdução densa e uma conclusão que abre novas possibilidades de pesquisa, Enders apresenta um século que não cabe em si. Ele é pleno de projetos, alguns abortados em sua gênese, outros abandonados pelo caminho, outros ainda que permanecem e se convertem em políticas e em instituições públicas, cujos efeitos lançam-se como luz ou sombra para a ulterior história do Brasil.

No primeiro capítulo, “Os Tácitos no senado”, nota-se também a presença dos antigos como instrumento de inteligibilidade tanto para a fonte que dele se serve quanto para a análise de Enders. Assim, Joaquim Manuel de Macedo explica que estes Tácitos não escreveram a história da independência posto que estavam ocupados fazendo a independência. Pedro I e José Bonifácio são figuras incontornáveis desta conjuntura.

De Pedro II à Republica ou “o império da história”, ou de “Como se deve escrever a história do Brasil”, ao “Plutarco Brasileiro” e à “Fábrica de benfeitores” no qual é ressaltado a atuação dos positivistas, respectivamente, segundo, terceiro, quarto e quinto capítulos, Enders examina com detalhes os fundamentos institucionais e os enunciadores desta prática discursiva responsável pela fabricação dos heróis nacionais.

“Porque me ufano do meu país”, título do polêmico livro de Afonso Celso de 1900, é apropriado por Enders no sexto capítulo com o objetivo de investigar a releitura do passado (por exemplo, a figura de Tiradentes, o centenário de 1808 ou a reavaliação dos bandeirantes) e do presente (por exemplo, Santos Dumond, o Barão do Rio Branco) empreendida pelos homens da Primeira República.

O sétimo capitulo é dedicado à resposta a seguinte questão: “1822-1922: um século para nada?”. 1922 teria sido um ano difícil para a sociedade brasileira. Para o povo como sempre, mas também para os intelectuais, artistas e políticos. Enders fala mesmo de um clima indutor de certa “introspecção nacional”. Uma efeméride “eloquente”, muitas obras, certa tristeza no ar e a abertura para um futuro que logo escapará de seus contemporâneos.

Notável exercício de história da historiografia, o erudito trabalho de Armelle Enders torna-se imediatamente uma referência incontornável para os estudiosos do período e do tema. Ressalta-se a competente tradução de Luiz Alberto Monjardim de Calazans Barradas e a edição cuidadosa da Editora FGV. A historiadora é uma arguta observadora da realidade nacional (eu pensei em escrever da “nossa” realidade, como se Enders fosse uma pesquisadora de “olhar distante”, mas seria injusto pois Armelle não é uma brasilianista, ela não escreve desde um ponto de vista francês ou europeu, mas desde uma compreensão inequívoca da história brasileira em a que a cultura historiográfica não se divide em nós e eles). Não é sem razão que na conclusão não lhe escapam as figurações modernas dos heróis nacionais, entre os quais Zumbi, elevado a tal condição por pressões dos movimentos sociais acatadas pelo então presidente da República, o sociólogo Fernando Henrique Cardoso, que inclusive decreta o 20 de novembro como “Dia da consciência negra”.

Porém, gostaria de concluir esta pequena resenha, retomando o “modelo” Plutarco. Um herói de verdade deveria subjugar as injunções entre o político e o histórico, deveria estar acima das querelas, deveria aliar mito e história. Ele não poderia mais ser um homem do século XIX, nem do período colonial, mas do final do século XX. Alguém que conseguisse despertar paixões coletivas. Logo, o “herói completo” não poderia mais ser um mártir social ou um homem político, mas uma celebridade, um star, que, se possível, ultrapassasse as fronteiras da nação. Ayrton Senna seria, para Enders, um bom exemplo deste tipo-ideal de herói requerido pelo mundo contemporâneo. Portador de traços aristocráticos, característica dos heróis anteriores ao Estado-Nação, mestre na arte de pilotar carros de corrida sofisticados, esporte ligado ao que há de mais moderno na atualidade, o habilidoso piloto, em cujo capacete exibia para quem quisesse ver as “cores do Brasil”, tinha por seu país um “patriotismo quase místico” (p. 12) que arrebatava multidões. Para completar morreu cedo, fazendo o que mais sabia e o que mais gostava. Como Aquiles.

A fábrica de homens ilustres, de grandes homens, de celebridades e de heróis do momento, ora comemorados, ora esquecidos, é, como demonstra Enders, uma instância intelectual da sociedade capaz de gerar e de apagar memória(s) e de constituir e de desestabilizar identidade(s).

Temístocles Cezar – Departamento de História Universidade Federal do Rio Grande do Sul Av. Bento Gonçalves, 9.500. Prédio 43.311, s. 116 Porto Alegre, RS, 91.509-900, Brasil t.cezar@ufrgs.br.

Oração e memórias na Academia das Ciências de Lisboa: Introdução e coordenação editorial de José Alberto Silva – ALMEIDA (VH)

ALMEIDA, Teodoro de. Oração e memórias na Academia das Ciências de Lisboa: Introdução e coordenação editorial de José Alberto Silva. Porto: Porto Editora, 2013. 121 p. Resenha de: FERREIRA, Breno Ferraz Leal.  Oração e memórias na Academia das Ciências de Lisboa: Introdução e coordenação editorial de José Alberto Silva. Varia História. Belo Horizonte, v.31, no. 55, Jan. /Abr. 2015.

Com a publicação de José Alberto Silva – doutorando em História e Filosofia das Ciências pela Universidade Nova de Lisboa e membro do Centro Interuniversitário de História das Ciências e da Tecnologia – dos textos referentes à participação do padre Teodoro de Almeida (1722-1804) na Academia das Ciências de Lisboa, temos uma nova oportunidade para buscar acompanhar os passos dados pelo pensamento ilustrado em Portugal, bem como as disputas que lhe foram constitutivas. Como parte da Coleção Ciência e Iluminismo, trata-se de mais uma iniciativa que vem muito a contribuir para diminuir a distância entre o que era produzido no contexto das Luzes e o que o público leitor de hoje tem acesso para conhecer aquele período.

Silva assina as notas e a competente introdução à obra, na qual situa a produção intelectual de Teodoro de Almeida no contexto das Luzes e do movimento acadêmico dos séculos XVII e XVIII. Escolhido por seu prestígio junto a uma parcela da elite intelectual portuguesa do período pós-pombalino para o cargo de orador oficial da Academia das Ciências, e por isso responsável pelo seu discurso inaugural, o padre da Congregação do Oratório foi, sem sombra de dúvidas, uma das figuras mais emblemáticas e eruditas da segunda metade do século XVIII, o que o coloca em pé de igualdade a nomes como Antonio Pereira de Figueiredo (1725-1797) e Manuel do Cenáculo Vilas-Boas (1724-1814). Somente uma personalidade dotada de imenso saber poderia ser responsável pela maior obra de divulgação científica do setecentos português, os dez volumes que compõem a Recreação Filosófica (1751-1800), iniciativa de caráter enciclopédico tipicamente iluminista – para além de outras obras em que transitou entre variados gêneros e temas, que foram da literatura à poesia, da filosofia à religião. Sucesso editorial na segunda metade do século XVIII e início do XIX, com reedições contínuas da maior parte dos seus tomos, a Recreação tinha o propósito de alcançar o público leitor da época com a exposição de variados temas vistos pelo prisma do padre, conteúdos que hoje infelizmente são pouco acessíveis justamente pela falta de edições recentes.

As cartas e memórias agora reunidas em livro dizem respeito, portanto, sobre apenas uma fase da vida do padre, a saber, o momento em que retornou a Portugal após oito anos de exílio no exterior. A perseguição promovida por Sebastião José de Carvalho e Melo aos oratorianos nos anos 1760 levou Almeida a residir a maior parte da década subsequente em Baiona (França). Tendo falecido D. José, abriu-se caminho para o seu retorno, o que ocorreu em 1778. Em Lisboa, passa a compor o grupo liderado por D. João Carlos de Bragança (1719-1806), o 2º Duque de Lafões, responsável pela formação da Academia das Ciências, tendo sido eleito em assembleia como orador oficial e sócio efetivo da classe de cálculo. Porém, ao contrário do que se poderia esperar, a partir daí iniciaram-se contratempos em sua carreira dentro da mesma instituição. É isso que mostra um primeiro conjunto de textos presente na obra editada por Silva.

Incluem-se nesse conjunto a oração de abertura recitada por Teodoro de Almeida a 4 de julho de 1780 e mais sete cartas que fazem referência ou a ela ou ao padre e à Academia. Infelizmente, ainda não foi possível elucidar a autoria da maioria delas, especialmente das que lhe foram críticas. Conforme outros historiadores já haviam defendido, destacadamente Francisco Contente Domingues, a disputa teve como pano de fundo a defesa do legado pombalino, particularmente presente na Carta em crítica à oração do Pe. Teodoro de Almeida e na Sátira. Espalhada contra um religioso de S. Filipe Néri, interpretação essa aceita por José Alberto Silva (p.22). Por sua vez, assumindo uma postura que pode ser compreendida como antipombalina, o padre oratoriano celebrou a fundação da Academia como o grande momento da história cultural portuguesa do século, o momento a partir do qual finalmente os portugueses poderiam se considerar equiparados às nações mais cultas da Europa. Esse posicionamento dava margem à interpretação de que o padre fazia pouco das iniciativas culturais e educacionais instituídas durante o ministério de Pombal (1750-1777), como a reforma estatutária da Universidade de Coimbra (1772). A Resposta à precedente sátira, também de cunho antipombalino, vinha a defender Almeida, argumentando que a intenção do padre não era dizer que a ignorância não havia começado a ser dissipada nos anos precedentes, mas apenas dizer que ela ainda predominava, apesar dos esforços anteriores. Em todas elas, portanto, a discussão sobre o atraso que viria a marcar as gerações futuras e que em Portugal adveio atrelada ao discurso pombalino.

A publicação desta Resposta constitui uma contribuição inédita, dado que as demais cartas já haviam sido publicadas em outras obras. Porém, mesmo no caso destas, a sua reunião vem bem a calhar, pois, além de juntá-las todas num único volume, o que temos agora em mãos é o resultado do cotejamento das diferentes versões de cada um dos manuscritos encontrados por Silva em diferentes arquivos e bibliotecas. Também já publicadas anteriormente são as memórias que compõem um segundo conjunto de textos, transcritos a partir dos manuscritos que constam na Biblioteca da Academia das Ciências. Quatro trabalhos dos apresentados nas assembleias acadêmicas (“Sobre a natureza do sol”, “Sobre a natureza da luz e vácuo celeste”, “Sobre a rotação da lua” e “Sobre uma máquina para conhecer a causa física das marés”), por razões desconhecidas não foram publicados nos volumes de memórias da Academia, mas foram incluídos nos tomos das Cartas físico-matemáticas (1784-1799) – ainda que com algumas alterações, como anotou Silva no texto introdutório. De outras memórias lidas têm-se registro, mas os manuscritos seguem desconhecidos.

Cabe a suspeita de que outros capítulos das Cartas, para além dos citados por Silva, possam também ter sido resultado de memórias apresentadas à Academia. Um deles com certeza o foi, a “Carta XXX – Sobre algumas observações físicas do terremoto de 1755” (Cartas físico-matemáticas, Tomo III, 1798), já que há uma versão ligeiramente modificada do mesmo texto publicada na edição do poema Lisboa destruída, em 1800, em Lisboa, pela Oficina de Antonio Rodrigues Galhardo, sob o título de “Observações sobre as circunstâncias do terremoto”. No prefácio desta obra, Almeida afirma ter resolvido inserir no volume uma “dissertação acerca das circunstâncias físicas do terremoto de Lisboa, que há anos li na Academia Real das Ciências”. (p.VI) A inclusão dessa dissertação numa obra de documentos relativos à participação acadêmica do padre tornaria completa a obra coordenada por José Alberto Silva.

Não há mais reparos possíveis a se fazer a uma edição cujo autor também teve o mérito de discutir satisfatoriamente as razões da não aprovação das memórias nos volumes editados pela Academia. Podem-se conjeturar algumas razões para o fato do padre ter exercido um papel reduzido nas atividades acadêmicas. Teria sido em função da má repercussão de sua oração inaugural? De uma desatualização científica do padre, por supostamente não ter acompanhado os progressos do conhecimento em Portugal nas últimas décadas? A essas e outras possibilidades, Silva acrescenta a derrota de um projeto escolar para a Academia almejado pelo padre, em função de um programa mais propriamente utilitário defendido por sócios como o naturalista Domingos Vandelli (1735-1816), que acabou vencedor (p.19-26).

O que temos, portanto, é uma obra que contribui não só para a compreensão de um fragmento da vida intelectual de um autor de obra tão vasta quanto Teodoro de Almeida, mas também dos caminhos percorridos pelo pensamento iluminista em Portugal. Por meio da exposição de José Alberto Silva e dos textos editados, ganha-se em conhecimento a respeito das escolhas feitas pelos ilustrados entre diferentes projetos acadêmicos, das distintas visões acerca do legado pombalino no final do século e da consciência daqueles homens acerca do papel da ciência em Portugal na modernidade.

Breno Ferraz Leal Ferreira – Doutorando, Programa de Pós-Graduação em História Social Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas Universidade de São Paulo Av. Prof. Lineu Prestes 338, São Paulo, SP, 05.508-900, Brasil breferreira@gmail.com.

Where the Negroes Are Masters : An African Port in the Era of the Slave Trade – SPARKS (VH)

SPARKS, Randy J. Where the Negroes Are Masters: An African Port in the Era of the Slave Trade. Cambridge: Massachusetts: Londres: Harvard University Press, 2014. 309 p. SILVA JR., Carlos da Silva. Where the Negroes Are Masters: An African Port in the Era of the Slave Trade. Varia História. Belo Horizonte, v. 31, no. 55, Jan. /Abr. 2015.

A participação das autoridades africanas era indispensável para o bom funcionamento do comércio transatlântico de escravos. Ao longo da costa ocidental africana, a presença europeia reduzia-se a poucos fortes litorâneos, sempre sob a vigilância dos potentados locais. A estes cabia a aquisição dos cativos no interior, o transporte para o litoral e sua venda aos comerciantes europeus. O livro de Randy J. Sparks, Where the Negroes Are Masters (“Onde os Negros são senhores”), lança um olhar sobre essa questão a partir um importante porto, embora pouco estudado, do tráfico de escravos: Annamaboe (ou Anamabu, em português), durante o século XVIII. De uma pequena vila de pescadores no final do Seiscentos, Anamabu converteu-se no principal empório escravista na Costa do Ouro (atual Gana) no século XVIII, segundo estimativas do banco de dados Voyages (www.slavevoyages.org).

Em livro anterior, The Two Princes of Calabar (Harvard University Press, 2007), Sparks investigou a trajetória de dois membros da elite de Old Calabar (Velho Calabar), no golfo de Biafra, pelo mundo atlântico. Amparado em ampla pesquisa documental, o autor agora analisa o comércio negreiro na Costa do Ouro, suas relações com as autoridades africanas, os “senhores” de Anamabu, e com o mundo atlântico do século XVIII.

Entre outros méritos, Where the Negroes Are Masters contribui para os estudos do Atlântico Negro, “que compreensivelmente tem se focado no tráfico de escravos e suas milhões de vítimas, mas tem prestado menos atenção às elites comerciais africanas que facilitavam aquele comércio e eram tão essenciais para a economia atlântica quanto os comerciantes de Liverpool, Nantes ou Middelburg” (p. 6). Sparks investe, portanto, nas histórias de indivíduos – especialmente dos africanos – que participaram, em maior ou menor grau, do comércio negreiro em Anamabu.

Não por acaso, dois capítulos tratam de figuras-chave para o tráfico de escravos e que permeiam todo o livro: John Corrantee e Richard Brew. Este, funcionário britânico da Royal African Company (RAC) e mais tarde mercador particular (quando a RAC foi substituída, nos anos 1750, pela Company of Merchants Trading to Africa, ou CMTA) cuja carreira em Anamabu durou mais de vinte anos até sua morte em 1776; aquele, comandante militar africano e mais importante caboceer (do português cabeceira, literalmente “capitão”, título aplicado a altos dignatários) de Anamabu até seu falecimento em 1764. A diplomacia era peça essencial em Anamabu, e ambos utilizaram-na, cada um à sua maneira. Corrantee envolveu-se profundamente nos negócios do tráfico e usou a rivalidade entre as nações europeias (França e Inglaterra, notadamente) em proveito próprio. Richard Brew, que na década de 1760 era o maior exportador de escravos na Costa do Ouro, fez uso de sua influência para mediar conflitos tanto entre os britânicos e as autoridades locais quanto entre as principais entidades políticas na Costa do Ouro: os Fante, que controlavam Anamabu, e os Achante ou Axanti, principais fornecedores de escravos do interior.

As nações europeias tentavam a todo custo ganhar o favor de Corrantee. Os franceses queriam construir um forte em Anamabu, mas os ingleses, que já tinham um forte ali, tentavam evitá-lo de todas as formas. John Corrantee manipulou habilmente os interesses comerciais europeus em seu favor. Graças a suas manobras diplomáticas, ele pôde enviar seus dois filhos à Europa para receber educação formal. A vida desse negociante demonstra a complexidade das relações entre comerciantes europeus e mercadores africanos na costa africana durante o século XVIII. Aliás, como astutamente nota Sparks, “Corrantee e seus companheiros caboceers deveriam ocupar um lugar central na historiografia do tráfico de escravos” (p. 67).

Richard Brew, por sua vez, logo percebeu que uma das chaves para o sucesso em Anamabu estava em estreitar laços com as elites locais, o que fez através do casamento com a filha de John Corrantee. Ele formou, segundo palavras de Randy Sparks, uma “família de crioulos atlânticos” (p. 68). O conceito, emprestado do historiador Ira Berlin, aplicava-se aos africanos adaptados às línguas, modos, valores e culturas dos europeus no litoral ocidental da África. Uma alternativa à noção de “crioulos atlânticos” é o conceito de “ladinização”. Empregado primeiramente por João José Reis para o caso dos libertos baianos no século XIX (Domingos Sodré, um sacerdote africano, Companhia das Letras, 2008), ele serve sem dúvida para explicar as dinâmicas sociais e culturais na Costa do Ouro (e na costa ocidental da África como um todo) no século XVIII. Ao aprender a língua europeia e enviar seus filhos para obter educação formal (ou formar uma família com mulheres locais, no caso dos europeus), esses africanos “ladinos” aprenderam os mecanismos de negociação com as diversas nações europeias, sem tornarem-se necessariamente “crioulos” no sentido cultural.

Nos capítulos seguintes, Sparks aborda temas caros à historiografia africanista mais recente, como a origem dos africanos deportados via tráfico transatlântico, a circulação de africanos e sua articulação dos portos africanos com o mundo atlântico. No primeiro caso, punições judiciais, raptos, a prática de “panyarring” – escravizar um devedor ou um parente seu até que a dívida fosse sanada, sob pena de colocá-los em escravidão permanente – e o “pawn” (“penhora humana”) cumpriam papel importante no suprimento de escravos. Contudo, a maioria dos escravos foi capturada em guerras promovidas pelos Achante no interior da Costa do Ouro. Quanto à circulação através do Atlântico, marinheiros, escravos, ex-escravos e filhos da elite de Anamabu se deslocavam sob o manto de redes comerciais e religiosas de Anamabu para as colônias inglesas na América do Norte (em especial Rhode Island), Jamaica, Bristol, Liverpool, Londres e outros pontos do mapa do tráfico. No entanto, as mortes de John Corrantee e Richard Brew e os conflitos entre os Fante e o rei Achante contribuíram para desarticular as redes comerciais no porto de Anamabu no ultimo quartel do Setecentos. Por fim, a abolição do tráfico britânico, em 1807, declarou o ocaso de Anamabu, cuja economia se baseava, quase exclusivamente, no comércio transatlântico de escravos.

O livro é uma importante contribuição para a história da África e, ao mesmo tempo, para os estudos de História Atlântica, campo fértil no hemisfério norte mas que no Brasil ainda dá seus primeiros passos. Bem escrito, é livro de leitura fácil, que interessa não apenas ao leitor especializado, mas também ao público mais amplo. A obra conta ainda com um glossário, facilitando a vida do leitor menos familiarizado com o tema. A constante menção a Corrantee e Brew, ao longo do texto, mais do que simples repetição, enfatiza a importância de ambos no tráfico transatlântico em Anamabu. Pena que este livro, provavelmente, não será traduzido e publicado entre nós, porque no país que mais recebeu escravos do tráfico é muito pequeno o interesse de editoras por livros dessa natureza.

Carlos da Silva Jr – Doutorando Bolsista Marie Curie/European Union Wilberforce Institute for the study of Slavery and Emancipation (WISE) University of Hull Hull, UK, HU67RX carlos@eurotast.eu.

Revista de Ensino, Educação e Ciências Humanas. Londrina, v. 16, n. 1, 2015.

Artigos

Arquivo | APESP | 2015

Arquivo APESP Ditadura no Brasil

Revista do Arquivo (São Paulo, 2015-) é o periódico eletrônico do Arquivo Público do Estado de São Paulo, anteriormente denominada Revista Histórica.

Revista do Arquivo pretende, além da abordagem historiográfica, divulgar temas que circundem os eixos centrais que articulam as instituições arquivísticas (gestão, preservação, acesso à informação, difusão); a produção do conhecimento realizada cotidianamente na instituição; assim como a publicação de artigos de qualquer natureza, que divulguem conhecimentos produzidos a partir do nosso acervo ou de outros arquivos do mundo.

A periodicidade da revista é semestral.

Acesso livre.

ISSN 2447-908X

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A Antiguidade, o Tempo, Nós e a História / Cantareira / 2015

“(…) a própria ideia de que o passado, enquanto tal, possa ser objeto de ciência é absurda” [2].

Ao escrever essa frase, Marc Bloch construía uma crítica à História tal como era escrita por Langlois e Seignobos, como uma sucessão de fatos ocorridos em tempos antanhos, a famosa histoire événementielle, focada nos grandes eventos e grandes figuras. Bloch concebe a História como a “ciência dos homens no tempo”, enfatizando o “continuum”, a “perpétua mudança”. Quando se debruçam sobre a Antiguidade, tema do presente dossiê, os historiadores buscam justamente o que há de continuidade e o que há de “perpétua mudança” no andejar dos homens nas estradas do tempo. E desse caminhar chegaram até nós as marcas fragmentárias de suas pegadas, suas representações: vestígios materiais de sua cultura ou, como diz Denise Jodelet, conhecimentos partilhados socialmente, que construíam uma noção de realidade comum para uma comunidade [3]. Nesse sentido, a própria História nasceu como representação [4]: Heródoto elabora seu relato sobre as Guerras Greco-Pérsicas a partir do que ouviu, ou seja, das ideias e noções sobre esse fenômeno que circulavam entre os gregos. Ao tornar público o resultado de sua pesquisa -eis o sentido da palavra iστορία na época- o primeiro historiador também criou uma visão da realidade. As representações construídas por Heródoto nos mostram o continuum de que Marc Bloch fala: as tensões entre Oriente e Ocidente, por exemplo, mais que nunca presentes na imprensa do século XXI.

Por falarmos em mídias, os antigos nunca realmente “saem de moda”. Vemos sua presença nos livros para jovens adultos como “Jogos Vorazes”, “Harry Potter”, “Percy Jackson”. Em filmes como “A Múmia”, “Tróia”, “Hércules” (em suas variadas versões) e “Fúria de Titãs”. Nas histórias em quadrinhos com “Asterix”. A série “Roma” foi um sucesso de crítica; em 2014 a vida do faraó Tutankamon foi romantizada na televisão em “O Rei Tut”, exibida neste ano no canal a cabo History Channel. O teatro grego, que exercia verdadeira função educacional na Grécia Antiga, não perdeu seu caráter catártico mesmo hoje: “Ajax”, de Sófocles, é encenada, em 2015, para que veteranos da Guerra do Iraque possam confrontar seus traumas e fantasmas [5]. Spike Lee se inspirou em Lisístrata, de Aristófanes, ao criar o enredo de seu filme “Chi-raq”, no qual perscruta as tensões existentes na Chicago contemporânea. Na época de seu lançamento, o filme “300”, de Zack Snyder, foi objeto de debate de vários classicistas: as relações entre espartanos e persas na película retratavam as hostilidades atuais entre Ocidente e Oriente. Os quadrinhos que o originaram se inspiraram, por sua vez, em outro filme: “300 de Esparta”, de 1962, cujos tons mostravam que a beligerância encenada pelos atores estava mais conectada à Guerra Fria que ao século VI a.C. A Antiguidade, tal como o teatro clássico fazia para os gregos, nos oferece um “espelho” pelo qual podemos enxergar a nós mesmos, contemporâneos, como o Outro. Ela nos obsequia o exercício da alteridade indispensável para compreendermos nosso próprio cotidiano e nossa identidade. Em outras palavras: os antigos ainda são estudados, representados e estão “na moda” porque são bons meios, diríamos, para a construção do pensamento crítico sobre nós, pessoas vivendo em 2015. Não apenas continuamos analisando as representações que eles nos legaram, mas construímos nossas próprias visões do que seria o mundo deles em filmes, séries, livros e etc. Atualmente, os estudos sobre as recepções da Antiguidade estão em expansão no mundo anglófono. Talvez a mesma atenção deva ser dada pelos pesquisadores brasileiros acerca das visões sobre a Antiguidade e como elas, de fato, se referem ao próprio contexto histórico em que são concebidas. Para citar mais um exemplo cinematográfico, o filme “Deuses do Egito”, dirigido por Alex Proyas, será lançado em 2016, mas já está sendo objeto de discussão. A maioria dos atores retratando as divindades egípcias são brancos e europeus, o que não condiz com as representações legadas pelos próprios antigos. Tal fato, claramente, diz muito mais sobre nossa própria sociedade e a falta de diversidade étnica na mídia contemporânea que sobre as crenças engendradas no Antigo Oriente Próximo há mais de 3.000 anos atrás.

Em tempos de discussão da Base Nacional Curricular Comum (BNCC), cuja proposta retira do Ensino Médio os conteúdos de História Antiga e Medieval, cabe aos historiadores exporem suas pesquisas e demonstrarem como seus objetos dialogam com o seu tempo e sua sociedade. Também na “Apologia da História” Bloch cita o ditado árabe Sociais. “os homens parecem mais com seu tempo que com seus pais” [6]: os temas que interessam os historiadores da Antiguidade são os mesmos que inquietam aqueles que pesquisam temporalidades mais recentes, como podemos perceber pela leitura dos artigos que compõem nosso dossiê. Se historiadores devem ser como ogros, farejemos, pois, a carne humana!

Os primeiros artigos do dossiê tratam da História das Mulheres na Grécia Antiga. Talita Nunes Silva é a autora do texto “A mulher grega como ‘sacrificadora’: ‘transgressão’?”, no qual faz um apanhado das visões acerca da transgressão apresentadas por pensadores do Direito, da Psicanálise e das Ciências Sociais para discutir o uso desse conceito na atuação religiosa feminina através da personagem Clitmnestra tal como construída na trilogia Oréstia, de Ésquilo e também para pensar a possibilidade das mulheres terem agido como sacrificadoras nos ritos religiosos gregos. O artigo de Juliana Magalhães dos Santos, “Eros e a prostituição feminina ateniense no V Século a.C: aproximações e representações”, também reflete sobre a religiosidade helênica ao tratar o banquete (symposion) como ritual de cidadania e amizade. Eros é apresentado como potência geradora e elemento de união e equilíbrio social, necessário para a manutenção dos laços entre os cidadãos. A presença de prostitutas (hetairai) na celebração marca a heterotopia da casa ateniense como espaço religioso e espaço festivo. O âmbito privado tornava-se, no symposion, microcosmo do amor e da amizade que deveriam, segundo Platão em O Banquete, unir a cidade. “Entre ideologia e representação: novos olhares sobre as mulheres atenienses”, por sua vez, trata das divergências entre as representações na cerâmica ateniense e o conteúdo do discurso filosófico e político no que tange à visão sobre as mulheres dessa pólis. Dayanne Dockhorn Seger, a autora, ressalta que os registros literários procuravam evidenciar a reclusão feminina. Contudo, as representações na cerâmica ática mostram que as mulheres gozavam de mais liberdade que as fontes escritas e a historiografia tradicional nos fazem crer.

Luis Henrique Bonifácio Cordeiro e José Maria Gomes de Souza Neto elaboram em “Vingança e arrependimento como parte da concepção do ser trágico do período clássico ateniense na Electra de Eurípides” uma visão sobre o ser trágico ateniense a partir da análise das personagens da peça do título. Os autores defendem que as personagens trágicas estão em situações marcadas pela contradição e pelo questionamento. A tragédia coloca em cena o desequilíbrio da ordem cósmica (social, econômica, política e religiosa) e as personagens euridipianas em Electra apresentam em si relações dialéticas como destino / escolha pessoal, vingança / arrependimento, entre outras.

“Os gregos, os romanos e os celtas: contatos entre culturas e a representação do gaulês no De Bello Gallico de Júlio César”, cuja autoria é de Priscilla Adriane Ferreira de Almeida, aborda como os gauleses foram figurados na literatura greco-romana, buscando focar-se na representação dos gauleses construída na obra do estadista romano. Em De Bello Gallico, Júlio César trata de diferentes níveis civilizacionais dos bárbaros, ao que ele denomina de ferocitas. As condições climáticas do habitat gaulês faziam desse povo inferior aos romanos e, por estarem nas bordas do mundo, sua selvageria era perigosa à ordem representada por Roma. Apesar de serem fortes e corajosos, era preciso dominálos. Litiane Guimarães Mosca traz em seu texto “A construção da imagem de Otávio César Augusto como propaganda política: uma análise das Res Gestae Divi Augusti (séc. I d. C.)” uma discussão dos elementos presentes no Res Gestae que enaltecem a figura de Augusto e que permitem que identifiquemos esse documento como propaganda política. O artigo defende que o imperador utilizou as placas de bronze póstumas a fim de legar para a posteridade uma imagem positiva do governo e de si próprio. Assim, não apenas teria seus feitos reconhecidos, mas a legitimidade do poder de Tibério, seu sucessor, seria atestada.

Nelson de Paiva Bondiolli disserta em “Doados aos Humanos como um Segundo Sol: Uma abordagem póscolonial à História Natural de Plínio, O Velho” acerca das fronteiras e identidades do Império Romano durante o Principado, defendendo que a presença de estereótipos na obra de Plínio, o Velho, permite-nos perceber a construção da identidade romana em oposição ao “Outro”, qual seja, os povos que não comungam da cultura de Roma. As conquistas militares do Império solidificam a identidade romana, enquanto o Outro, bárbaro, é desumanizado. Ser romano, na História Natural é, assim, sinônimo de civilização. “Um estudo da recepção do epicurismo pela elite romana do século I AEC: alguns problemas e revisão crítica”, de Maria de Nazareth Eichler Sant’ Angelo, argumenta que a pesquisa sobre a recepção do epicurismo pela elite romana no primeiro século de nossa era é prejudicada pelo fato dos especialistas não perceberem essa corrente filosófica como parte da identidade da elite romana. Sant´Angelo afirma que os círculos literários romanos eram campos férteis para a circulação das ideias epicuristas, especialmente os banquetes aristocráticos. A prática da filosofia helenística não negava a religiosidade, aberta a influências estrangeiras. “Fontes e representações políticas sobre o polêmico imperador Nero”, de Ygor Klain Belchior, traz um diálogo entre as modernas interpretações historiográficas acerca do imperador romano e suas representações nas fontes clássicas. Enquanto a obra de Suetônio traça uma imagem ambígua sobre Nero, primeiro como um bom governante e depois como um sanguinário, Tácito descreve-o como um político “fantoche”, manipulado por sua mãe Agripina, por Sêneca e Burrus e, posteriormente, por Tigelino. O autor ressalta que as visões negativas sobre Nero que chegaram até nós são consequências das disputas pelo poder em Roma, especialmente após a ascensão da dinastia dos Flávios.

Sobre a religiosidade monoteísta na Antiguidade temos os textos de Vítor Luiz Silva de Almeida e Mariana de Matos Ponte Raimundo. Do primeiro autor é ““Dirigi-vos, antes, às ovelhas perdidas da casa de Israel”: A memória anti-samaritana na literatura neotestamentária”, artigo que perscruta os evangelhos bíblicos a fim de entender a representação negativa dos samaritanos neles contida. Narrativas como a parábola do bom samaritano e o conto dos dez leprosos salientam que não se esperava um comportamento moral ou de amor ao próximo por parte dos habitantes da Samaria. Longe de exaltar as virtudes dos samaritanos, essas historietas mostram as más ações dos judeus uns com os outros. Almeida aponta que os relatos do Novo Testamento, nesse sentido, apontam para divergências religiosas entre samaritanos e judeus, mostrando ainda uma visão de superioridade desse último grupo. Já “A consolidação da identidade cristã no século IV”, da segunda autora, tem como tese a ser defendida a ideia que a construção de uma identidade associada ao cristianismo foi resultado de interações e embates com outros grupos, como pagãos e judeus. As tensões dentro da própria comunidade cristã são ressaltadas, mostrando que a identidade surgida não significou ausência de contradições internas. Todavia, as tentativas de conciliação entre os diversos cristianismos existentes e a reorganização de elementos da cultura romana permitiram que a religião se consolidasse.

Finalizando os artigos do dossiê temos “Os inimigos dos romanos sob o imperium de Graciano no tratado De fide de Ambrósio, bispo de Milão (séc. IV d.C.)”, de Janira Feliciano Pohlmann, no qual desenvolve-se uma discussão sobre as maiores ameaças ao Império Romano e à cristandade no entender de Ambrósio, quais sejam: os bárbaros e os hereges, especialmente os arianos. Em seu relato, o religioso retrata o imperador Graciano como um governante escolhido por Deus, responsável pela guarda do povo cristão.

A resenha de Mateus Mello de Araújo Silva sobre o recém-lançado livro de Emma Bridges contribui para a divulgação de trabalhos bem recentes sobre as interações entre gregos e persas. De fato, os helenistas de língua inglesa nos últimos anos têm se dedicado à pesquisa dos governos autocráticos, especialmente das monarquias helenísticas e persas, renovando os estudos sobre Cultura Política na Antiguidade.

A entrevista realizada com Professor Doutor Alexandre Carneiro Cerqueira Lima (UFF) ressalta que o olhar do historiador, seja qual for a temporalidade que ele pesquisa, está sempre guiado por questões do seu próprio cotidiano. Segundo ele, suas vivências e sua identidade carioca influenciaram sobremaneira as temáticas de seus trabalhos sobre a Grécia Antiga. Questionado sobre as implicações da BNCC nos rumos da História Antiga no Brasil, o professor deixou claro que, em seu entender, as propostas não prejudicariam apenas o estudo desse eixo temporal, mas a própria ideia de que a História se trata de análises sobre as experiências humanas.

Na seção de artigos livres as temáticas são variadas, tratando desde o Medievo inglês ao Brasil contemporâneo. Os autores são de diferentes áreas das Ciências Humanas, mostrando a importância da Revista Cantareira como um periódico discente que agrega diversos pontos de vista teóricos e metodológicos.

Aos pareceristas que contribuíram com este número enfatizamos o nosso agradecimento. E a você desejamos uma leitura prazenteira!

Notas

  1. BLOCH, M. Apologia da História ou o Ofício do Historiador. Rio de Janeiro: Zahar, 2001, p.52-53.
  2. JODELET, D. “Representações Sociais: um domínio em expansão” In: JODELET, D. (org.). As Representações Sociais. Rio de Janeiro: Eduerj, 2001, p.22.
  3. Ideia defendida por François Hartog. Ver: HARTOG, F. O Espelho de Heródoto: Ensaio sobre a Representação do Outro. Belo Horizonte: Editor UFMG, 2014, p.336-393.
  4. CLARK, Nick. “Harry Potter star Jason Isaacs joins ‘extraordinary’ project using Ancient Greek plays to help veterans”, 2015. Disponível em: . Acesso em 8 dez 2015.
  5. BLOCH, op.cit., p.60.

Mariana Figueiredo Virgolino – outoranda em História Social pela Universidade Federal Fluminense. Pesquisadora do NEREIDA / UFF. Bolsista do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq).


VIRGOLINO, Mariana Figueiredo. Apresentação. Revista Cantareira, Niterói- RJ, n. 22, jan-jul, 2015. Acessar publicação original [DR]

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Frate Francesco | Grado Giovanni Merlo

Grado Giovanni Merlo deu a seu último livro um título simples e eficaz: Irmão Francisco- Frate Francisco. 2 Duplamente eficaz pela atração imediata; por um lado, por ser um santo familiar a todos (realmente patrono da Itália desde 1939) e, por outro, pelo atual papa (eleito em 13 de março de 2013) que, pela primeira vez na história da Igreja, tomou o nome de Francisco. Tratam-se de duas figuras distantes, distintas, mas coligadas por mais do que uma linha comum, por um fio brilhante de prata: duas figuras que não cessam de surpreender, atrair e fazer pensar. Para além da inevitável atração, o título deste livro não é nem São Francisco e nem Papa Francisco (dos quais agora se encontram muitos exemplares nas livrarias), mas o menos habitual Irmão Francisco- Frate Francisco, segundo uma das múltiplas intuições do Autor espalhadas fecundamente nestas páginas. Se “São Francisco” torna-se de modo consciente e programático “Irmão Francisco“, significa que este livro captura, sacode e desvia para outros lugares as nossas expectativas introduzindo-nos em um mundo novo e diferente. Leia Mais

Uma Agenda para o Rio de Janeiro: estratégias e políticas públicas para o desenvolvimento socioeconômico | Mauro Osório, Luiz Martins de Melo, Maria Helena Versiani e Maria Lúcia Werneck

No nº 20 da Revista do IHGRJ (2013) resenhei dois livros sob o título “Rio de Janeiro: os olhares no passado e no presente”. O clássico de Maurício de Almeida Abreu “Geografia Histórica do Rio de Janeiro –1502-1700” e a coletânea do Instituto Brasileiro de Economia (IBRE) organizada por Armando Castelar e Fernando Veloso: “Rio de Janeiro: um Estado em transição”. A resenha fez uma comparação entre as questões econômicas do início da ocupação do atual Estado do Rio de Janeiro (séculos XVI – XVII) e do período da primeira metade do século XXI.

O livro a ser resenhado agora se parece com a coletânea do IBRE, porém seus autores não são pesquisadores do IBRE e sim professores e pesquisadores das universidades cariocas e fluminenses e do Tribunal de Contas do Estado do Rio de Janeiro. Enquanto o livro do IBRE separou o conjunto de temas em três grupos: Economia, Instituições Políticas e Gestão Fiscal e Aspectos Sociais, a coletânea “Uma Agenda para o Rio de Janeiro” lista um conjunto geral de onze temas: infraestrutura da periferia da Região Metropolitana do RJ, o setor petrolífero, a infraestrutura da construção naval, estrutura e gestão dos sistemas de saúde, processos de inovação no sistema industrial, potencialidades e obstáculos ao setor turismo, esporte e lazer, finanças públicas, infraestrutura logística, mobilidade urbana e violência e aparato policial. Leia Mais

O lugar sem limites: América Latina em perspectiva / Faces da História / 2015

O v. 2 n.1 (jan / jun.2015) da Revista Faces da História apresenta o dossiê O lugar sem limites: América Latina em perspectiva. Diante do nítido crescimento e valorização dos estudos latino-americanistas no Brasil, o presente dossiê se mostra um espaço fértil para novas reflexões acerca do tema.

O amplo leque de possibilidades na abordagem de um território tão vasto se reflete nos artigos que compõe o dossiê, os quais traçam recortes que privilegiam a multiplicidade geográfica, política, social, cultural e mental do continente Americano, contemplando os mais variados períodos e espaços, utilizando-se de inúmeras fontes, metodologias e teorias.

O próprio entendimento do termo América Latina, no qual estão inseridos elementos políticos, geográficos, étnicos e identitários, abre o dossiê. O artigo Gênese e atualidade da noção de América Latina: uma reflexão sobre o sentido histórico da integração continental, de Fabio Luis Barbosa dos Santos, propõe um debate acerca do sentido e validade da expressão acima citada, além do pertencimento do Brasil à região. Para alcançar esse objetivo, o autor recupera discussões do século XIX, desde a paternidade da expressão, passando pelo pensamento do cubano José Martí e pelo significado nacional, anti-imperialista e político que ela adquire, chegando às considerações de Leslie Bethell sobre o esvaziamento de significado do termo.

Dialogam com os debates acerca do significado de América Latina os projetos de artistas e intelectuais que buscam integrar, representar e (re)pensar a região. Neste sentido, Fernanda Nunes Moya, no artigo Francisco Curt Lange e o Americanismo Musical nas décadas de 1930 e 1940, mostra como a integração cultural do continente foi buscada a partir da música. Para a concretização do projeto de “americanismo musical”, que reconhecia na música um elemento promotor da cooperação e agente da integração dos povos americanos, a colaboração dos intelectuais e artistas em torno do desenvolvimento de instituições e periódicos, pesquisa e divulgação da música americana, foi imprescindível.

Quezia Brandão e Wagner Pinheiro Pereira contribuem para o debate sobre a representação da América Latina através da análise do filme A Idade da Terra, de Glauber Rocha. Os autores, além de compreenderem a obra como “uma nova concepção de América Latina e do ser latino-americano”, que busca resgatar as raízes africanas e indígenas, a cultura mística e as heranças coloniais da região, inserem o filme no amplo contexto de discussões historiográficas que pensam a integração territorial e o reconhecimento do Brasil como parte da América Latina.

Eustáquio Ornelas Jr., partindo da relação interamericana entre Estados Unidos e América Latina, a qual entende como uma circulação, questionando a noção de imperialismo cultural, propõe analisar o desenvolvimento e organização da coleção de arte latino-americana desenvolvida pelo MoMA. No artigo Um “empreendimento pioneiro”: o catálogo da Coleção Latino-Americana do MoMA (1931-1943), o autor insere a produção do catálogo em um contexto político-cultural mais amplo: a Política de Boa Vizinhança. Ainda, busca mostrar, através do levantamento dos países e artistas em destaque nessa coleção, como o Museu entende e representa a arte latino-americana.

O desenvolvimento da produção historiográfica acerca dos estudos em América, produção esta que dialoga com os acontecimentos políticos e econômicos, nacionais e mundiais, também é contemplado no presente dossiê. Renato César Santejo Saiani, preocupado em entender “qual o espaço ocupado por Cuba na produção de História da América, quais os temas privilegiados e o que influenciou essas escolhas”, realiza um balanço oportuno sobre a produção historiográfica nacional e articula a produção de dissertações e teses com as mudanças e consolidação do campo de História da América no Brasil das últimas décadas.

Ainda referente à historiografia latino-americanista, é notável que países localizados ao norte do nosso continente ocupam um pequeno espaço. Iuri Cavlak em O Extremo Norte da América do Sul: A Guiana Inglesa e o Suriname no século XIX, apresenta raro estudo sobre essa região, no qual ressalta a dificuldade de acesso às fontes primárias e historiografia acerca do tema. O autor traça um panorama histórico das ex-colônias inglesa e holandesa durante o século XIX a partir de entrecruzamento da história social, política e econômica. Importante notar que, conforme esclarece Cavlak, embora situadas na América do Sul, a região em questão é englobada pela historiografia caribenha, campo que se debruça de forma mais intensa em ilhas como Cuba, Haiti e República Dominicana. No caso da historiografia brasileira e sul-americana de forma geral, a escassez de pesquisas provavelmente se justifica pela falta de contatos comerciais, políticos, sociais e culturais.

Marcus Vinicius da Costa também percorre regiões pouco exploradas pelos estudos latino-americanistas. Buscando entender a prática do contrabando na América Latina em uma zona específica, a fronteira oeste do Rio Grande do Sul, nas cidades-gêmeas de São Borja e Santo Tomé, se depara com a escassez de pesquisas sobre essas localidades e as práticas de contrabando no período, sendo necessário partir das fontes primárias para chegar ao objetivo proposto. Além da própria prática do “descaminho” entre as cidades, o autor se propõe a perceber a intervenção do governo imperial brasileiro para o combate a essa prática.

Apresentando a imprensa como ponto em comum, estão os artigos O “Jornal do Commercio” e as representações sobre a Argentina na crise do Brasil Império (1870-1889), de Paula da Silva Ramos, e O papel da imprensa na circulação de ideias e de intelectuais antifascistas entre a Argentina, Uruguai e a França (1933-1939), de Ângela Meirelles de Oliveira. Paula da Silva Ramos mostra a importância de analisar as representações produzidas pela intelectualidade brasileira sobre as repúblicas hispano-americanas. Isso, pois havia, entre as regiões citadas, grandes discrepâncias políticas, econômicas e sociais, além de disputas fronteiriças. Tais representações nos fornecem elementos para entender “as elaborações a respeito da própria identidade brasileira, construída no embate de interpretações sobre as nações vizinhas, com destaque à Argentina”. Já Ângela Meirelles de Oliveira mostra que a imprensa representou um meio privilegiado de intercâmbio político, intelectual e cultural entre os países do Cone Sul, Argentina e Uruguai, e a França, durante os anos de 1930. Sendo a principal “arma de combate” às ideias de Hitler, os jornais e revistas desenvolvidos pelos intelectuais serviam ao propósito de intervir na vida social.

Encerrando os artigos do dossiê temos o ensaio de Raul Aguilera Calderón, Proposta de um método para a análise das continuidades, passado-presente. O caso da dança entre os xi’iui (pames) de Santa María Acapulco. O autor propõe “apresentar uma proposta metodológica, com base na linguística saussuriana, para a análise historiográfica que ajude a estudar as continuidades entre passado e presente”. Ainda, como estudo de caso, apresenta a dança realizada pelos pames (xi’iui) de Santa María Acapulco, grupo indígena que habita a Serra Gorda de São Luis Potosí, México.

Ainda compondo o dossiê temos a entrevista com o historiador mexicano Doutor Álvaro Vázquez Mantecón, professor investigador da Universidad Autónoma Metropolitana – Azcapotzalco. Mantecón enriquece o debate em torno da América Latina através do diálogo entre história, política e cultura, utilizando-se principalmente das imagens fotográficas e cinematográficas. Na entrevista, fala sobre suas experiências com exposições, fotografia e cinema latino-americanos, além de reforçar os cuidados dos historiadores ao lidar com fontes imagéticas.

Carlos Alberto Sampaio Barbosa

Andréa Helena Puydinger De Fazio

Priscila Miraz de Freitas Greco

Organizadores


BARBOSA, Carlos Alberto Sampaio; DE FAZIO, Andréa Helena Puydinger; GRECO, Priscila Miraz de Freitas. Apresentação. Faces da História, Assis, v.2, n.1, jan / jun, 2015. Acessar publicação original [DR]

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Olhares sobre o Medievo: fronteiras e problemas / Faces da História / 2015

 

O Dossiê dedicado aos estudos vinculados a Idade Média parece-nos que veio em boa hora, no sentido de firmar posição deste recorte espaço-temporal tanto no que se refere à relevância sobre os debates da medievalidade no campo da historiografia, como por valorizar a importância de se “fazer” e “ensinar” História Medieval no Brasil.

As assertivas acima apresentavam menor importância no cenário do país no momento em que o dossiê foi proposto, há quase um ano atrás. É certo que a história é encantadoramente dinâmica e está incondicionalmente ligada ao tempo presente. Assim sendo, nosso dossiê coloca-se em circulação hoje, em plena discussão sobre as alterações relacionadas ao ensino de história propostas em um projeto ligado ao Ministério da Educação (MEC), no qual se cria uma Base Nacional Curricular em que a Antiguidade e o Medievo são convidadas a se afastar das nossas salas de aula.

Desta maneira, postulamos que este dossiê se configura, não apenas como uma simples coletânea de textos, mas também como um grito de alerta quanto à importância da reflexão histórica sobre esse período. O roteiro de leituras que os artigos aqui publicados fornecem ao leitor, mostra a dinâmica destes estudos no que se refere a sua relação com problemas da sociedade contemporânea e o quanto esse exercício de alteridade pode contribuir para nossa formação social, cultural e política, posicionandose, portanto, de lado oposto a esta possível ingerência Estatal.

Partindo desta premissa, acreditamos que o dossiê “Olhares sobre o Medievo: fronteiras e problemas” tem por escopo apresentar ao leitor um amplo painel da História Medieval. Deste modo, a variedade de temáticas apresentadas pelos diferentes autores, possibilitam aos estudantes, pesquisadores, professores e demais leitores interessados, uma reflexão crítica, não apenas do processo histórico em questão ou de suas infinitas possibilidades de abordagem, mas também sobre a relevância de se manter tal campo da História no currículo escolar.

O artigo que abre o dossiê “O rei e a lei”, de autoria de Olga Pisnitchenko, faz uma análise acerca das relações entre realeza e direito medieval na Baixa Idade Média Ibérica. A partir de algumas reflexões em torno das obras jurídicas de Alfonso X, a autora realiza uma análise sobre a representação real a partir de três obras legislativas de Alfonso X: Fuero Real, Especulo e Siete Partidas. Em tais fontes podemos ver que o rei, apesar de ser apresentado tanto como o juiz e o legislador supremo, ao ser idealizado como persona publica, deve atuar sempre colocando em primeiro plano o bem do reino, e não sua vontade pessoal.

O segundo texto, de autoria de Rodrigo Prates de Andrade, intitulado “Repensar as muitas Idades Médias: os Estudos Medievais e a Historiografia Nacional”, voltase para a “eterna” questão do porque se estudar Idade Média no Brasil. O objetivo deste texto é problematizar um discurso corrente nas esferas acadêmicas nacionais e internacionais que atribui a Idade Média uma fase embrionária ou intermediária do processo histórico.

O terceiro artigo, “Aqui jaz Arthur: literatura arturiana no medievo e seu reflorescimento na Idade Contemporânea”, de Caio Fernando Flores Coelho, propõe analisar obras literárias chaves que criaram múltiplas versões da lenda arturiana durante a Idade Média, bem como, a retomada deste mote na Idade Contemporânea induzida, no século XIX, pelo Romantismo.

O quarto trabalho, de Vinicius Cesar Dreger de Araujo, que tem como título “Limites saxonicarum – Fronteiras militares na Inglaterra Anglo-saxônica e na Saxônia continental, séculos IX e X”, disserta sobre o conceito de fronteira como categoria para análise da Idade Média. O autor procura debater, dentro de uma perspectiva comparativa, as fronteiras militares estabelecidas entre os Anglo-saxões e Escandinavos na Inglaterra e as constituídas pelos Saxônios e Bávaros, contrapunha-se a Eslavos e Magiares entre os séculos IX e X.

O quinto texto, “Definindo Alteridade: um estudo sobre as noções de Raça e Etnia nas Siete Partidas e na Primera Crónica General de España de Afonso X”, de Carolina Ferreira de Figueiredo, propõe problematizar as noções sobre raça e etnia no período medieval. Para tal, a autora elegeu duas fontes documentais produzidas no tempo do governo de Afonso X, uma de cunho jurídico, a Siete Partidas, e outra de estilo cronístico, a Primera Crónica Generalde España. A escolha desses documentos e deste monarca se justifica pela intensa (e nem sempre pacífica) convivência entre cristãos, mouros e judeus no período estudado.

Como sexta produção do dossiê, temos o artigo “Entre a arte e a ciência: as visões sobre a cartografia medieval”, de Thiago José Borges. Neste trabalho, o autor disserta sobre as percepções e proposições que, em díspares contextos historiográficos, permearam o entendimento, a descrição e a sistematização dos testemunhos legados pela produção cartográfica medieval.

Finalizando nosso dossiê, apresentamos a entrevista com um dos mais importantes medievalistas brasileiros, o professor Hilário Franco Junior, que enriquece o debate em torno da produção científica sobre a relação entre medievo e a contemporaneidade, ao abordar por meio de um diálogo profícuo, temas ligados ao ofício de historiador, assim como questões voltadas diretamente ao panorama político e cultural brasileiro.

Ligia Cristina Carvalho

Pâmela Torres Michelette

Raquel de Fátima Parmegiani

João Paulo Charrone


CARVALHO, Ligia Cristina; MICHELETTE, Pâmela Torres; PARMEGIANI, Raquel de Fátima; CHARRONE, João Paulo. Apresentação. Faces da História, Assis, v.2, n.2, jul / dez, 2015. Acessar publicação original [DR]

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Rumos da História | IFES | 2015

Rumos da Historia Ditadura no Brasil

A revista Rumos da História  (Santa Maria de Jetibá, 2015-) foi criada com um abordagem interdisciplinar. Rumos da História – Revista eletrônica de História e temas interdisciplinares. É uma publicação eletrônica desde janeiro de 2015 e está vinculada ao Instituto Federal de Educação do Espírito Santo (Ifes): Campus Centro-Serrano, tendo como responsável técnico Prof. Dr. Diones Augusto Ribeiro.

Periodicidade [semestral].

Acesso livre.

ISSN 2359-4071

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Revista Práticas de Linguagem. Juiz de Fora, v.5, n.1, Especial, jan./jun. 2015.

Especial – Anais do III Colóquio de Letramento, Linguagem e Ensino

SUMÁRIO

Apresentação

Pesquisa

  • A leitura em sala de aula no 2º segmento do Ensino Fundamental: uma discussão sobre essa atividade
  • Ilka Schapper e Tania Maria dos Santos
  • A modalização como marca de argumentatividade no gênero debate
  • Francieli Aparecida Dias e Helena Maria Ferreira
  • Alfabetizar e letrar: o uso dos gêneros textuais para um aprendizado significativo
  • Alessandra de Paula Oliveira e Eliane Carelli Macêdo Coelho
  • Análise da proposta curricular de Língua Portuguesa de Juiz de Fora na abordagem do ciclo de políticas de Ball
  • Márcia Patrícia Barboza de Souza
  • Construções morfológicas e ensino de Língua Portuguesa: discutindo a abordagem conferida à morfologia derivacional no Ensino Fundamental
  • Anna Carolina Ferreira Carrara Rodrigues
  • Da leitura à produção textual: um estudo sobre o trabalho com gêneros textuais na alfabetização
  • Flávia Aparecida Mendes de Oliveira Cruz
  • Des-atando atas: a escrita do gênero ata como metodologia de formação docente
  • Elizabeth Orofino Lucio
  • Gêneros expositivos no contexto da educação infantil
  • Josieli Almeida de Oliveira Leite
  • Indicadores de sucesso na educação básica – estudo de caso em uma escola pública de periferia
  • Carolina Alves Fonseca e Neusa Salim Miranda
  • Leitura fotográfica dos espaços da creche na formação em serviço de educadores: uma pesquisa-intervenção
  • Ana Rosa Costa Picanço Moreira
  • Letramento e gêneros textuais no currículo mínimo do estado do Rio de Janeiro
  • Marcela Martins de Melo
  • O diário reflexivo como prática de letramento e reflexão docente
  • Flávia Luciana Campos Dutra Andrade
  • O ensino de leitura em diferentes áreas do conhecimento: o trabalho com gêneros textuais em uma perspectiva interdisciplinar
  • Anna Carolina S. R. Dalamura e Rafaela A. Savino de Oliveira
  • O fórum de discussão em EaD: um estudo sobre a relação entre a argumentação e o aprendizado a partir da colaboração
  • Juliana de Carvalho Barros e Patrícia Nora de Souza
  • O intérprete educacional em Libras: análise do código de ética e de prática profissional
  • Emiliane Moraes Silva e Gilsane Moraes Silva
  • Referenciação em tiras de humor: da inter-relação entre texto verbal e texto não verbal
  • Matheus Henrique Duarte, Agnes Priscila M. Morais e Helena Maria Ferreira
  • RelatosAlternativas didáticas exitosas que atenderam às diferenças individuais no processo de alfabetização de turmas heterogêneas
  • Sara H. da C. Freitas e Josina A. T. Teixeira
  • Aprendizagem móvel na escola pública: relato de uma prática na aula de Língua Inglesa
  • Joyce Vieira Fettermann
  • As contribuições da mídia contemporânea no primeiro segmento do ensino fundamental
  • Cíntia Cristina de Campos Silva e Raquel Vianelo Sell
  • Ensino do gênero fábula no Segundo Ciclo do Ensino Fundamental
  • Marcela Batista Martinhão
  • Escola e letramento literário: “Mas o João não sabe ler!”
  • Lúcia Helena Schuchter e Ana Lúcia Werneck Veiga
  • Formação de leitores em uma escola pública do município do rio de janeiro, inserida em comunidade
  • Lidiane Gomes de Oliveira
  • Intervenção pedagógica: princípios, permanências e inovações
  • Gleice Aparecida Menezes Henriques e Patrícia de Souza Lima Cabette
  • O ensino de Inglês no Projeto de Extensão Universitária Boa Vizinhança
  • Andressa Christine Oliveira da Silva
  • O potencial educativo dos gêneros textuais para a alfabetização e o letramento
  • Thaylla Soares Paixão
  • O trabalho com o gênero textual carta no ensino de Língua Portuguesa: uma experiência no 4º ano do Ensino Fundamental
  • Ângela Mara de Oliveira Fernandes e Vania Fernandes e Silva
  • O uso das Tecnologias de Informação e Comunicação (TIC) nas aulas da disciplina Língua Portuguesa
  • Peterson Vitor Ribeiro
  • O vocabulário de Língua Inglesa, presente no cotidiano dos alunos, em diferentes gêneros textuais
  • Maria Catarina Paiva Repolês
  • Prática docente de Língua Portuguesa: uma experiência com a formação de jovens leitores
  • Pilar Silveira Mattos e Vanessa Aparecida de Almeida Gonçalves
  • Práticas de letramento na escola: a construção de um ensino reflexivo através de gêneros textuais
  • Aline Salucci Nunes
  • Professores leitores e mediadores de leituras literárias
  • Marcia Mariana Santos de Oliveira
  • Projeto ‘Floresta faz a diferença’ – módulo 2 da coleção “Princípios em práticas: alfabetização de jovens e adultos”
  • Rosa Helena do Nascimento e Rosilene Souza Almeida
  • Repensando o ensino da leitura e da escrita Luciana Castro
  • Roteiro de Atividades Literárias (RALI): um caminho para compreender as diversas formas de leitura
  • Josimar Gonçalves Ribeiro Moreira

460 anos da França Antártica | Revista do IHGRJ | 2015

Com este novo número da Revista do Instituto Histórico e Geográfico do Rio de Janeiro trouxemos algumas inovações: um Dossiê Temático e uma Pesquisa Documental.

O Dossiê Temático – “460 anos da França Antártica” – se organizou a partir da apresentação de trabalhos no Seminário 460 Anos da França Antártica, uma contribuição do IHGRJ para o momento da celebração dos 460 anos da cidade do Rio de Janeiro, que se realizou no dia 10 de novembro de 2015 no Museu Histórico Nacional, em promoção conjunta do IHGRJ e MHN, com o apoio do IHGB. Leia Mais

As ideias conservadoras – Explicadas a revolucionários e reacionários | João Pereira Coutinho

João Pereira Coutinho é formado em História pela Universidade do Porto, Doutor Teoria Ciência Política pela Universidade Católica Portuguesa, na qual atua como professor convidado. Entre suas publicações destacam-se “Jaime e Outros Bichos” e “Avenida Paulista” (2007). Iniciou mais tarde uma carreira na área jornalística como colunista d’ O Independente (1998-2003), da revista Atlântico e do jornal Expresso (2004-2009). Atualmente é colaborador do Correio da Manhã e da Folha de S. Paulo (Brasil).

O seu livro “As ideias conservadoras – Explicadas a revolucionários e reacionários” constitui um ensaio sobre o tema do conservadorismo, conquanto alguns temas secundários – a exemplo do pensamento reacionário e revolucionário – também estejam incorporados à sua análise. O texto divide-se em seis partes ou capítulos, além, é claro, da introdução, da conclusão e das referências bibliográficas, acrescido das notas (inseridas ao final do texto) e de um índice remissivo. Leia Mais

Cultura Digital e Inovação EmRede: produções do ESUD 2015 | EmRede – Revista de Educação a Distância | 2015

Prezado(a) Leitor(a),

A Revista de Educação a Distância EmRede tem como foco divulgar as pesquisas e experiências realizadas pelos profissionais da área de educação a distância. Desde seu lançamento, durante o XI Congresso de Ensino Superior a Distância (ESUD), tem publicado artigos convidados de renomados pesquisadores na área e artigos que foram considerados destaque durante o congresso, por sua pertinência ao tema e contribuições à comunidade envolvida com a educação a distância pública, gratuita e de qualidade.

O presente número foi constituído nessa mesma perspectiva. Em 2015, a Universidade do Estado – UNEB – foi a instituição organizadora do XII ESUD e decidiu por ampliar o escopo do congresso, trazendo palestrantes internacionais, realizando, em paralelo, o I Congresso Internacional de Educação a Distância – CIESUD, com o tema “Cultura Digital e Inovação: tecnologia educacional e dispositivos móveis”. Leia Mais

Escritos políticos de Santo Tomás de Aquino – AQUINO (SY)

AQUINO, Santo Tomás de. Escritos políticos de Santo Tomás de Aquino. Tradução e introdução de Francisco Benjamin de Souza Neto. Petrópolis: Editora Vozes, 2011. Resenha de: BELLO, Joathas Soares. Synesis, Petrópolis, v. 7, n.1, p.155-158, jan./jun., 2015.

Os Escritos políticos de Santo Tomás de Aquino, publicados pela Editora Vozes, trazem dois textos fundamentais para a compreensão da questão política no Aquinate: as “Questões sobre a lei na Suma Teológica” e o Do reino ou do governo dos príncipes ao rei de Chipre. A tradução dos dois textos, feita por Francisco Benjamin de Souza Neto, está baseada no texto crítico da edição leonina sob sua forma mais recente. O tradutor nos brindou, ainda, com uma introdução, na qual apresenta uma síntese dos textos.

Para Tomás de Aquino, as reflexão e prática política e jurídica são inseparáveis da ética: o exercício do governo, as relações sociais, as leis, o bem comum, devem estar em harmonia com o que é considerado bom e justo para o indivíduo – ao contrário da ciência política moderna, inaugurada por Maquiavel, em que a prática política é considerada autônoma, independente da ética individual. A ética tomasiana, por sua vez, enquanto fundamentação do agir formalmente ético, é inseparável da moral, enquanto conteúdo concreto em que a forma da ética se realiza – ao contrário da concepção formalista inaugurada por Kant, que acabou por estabelecer uma dicotomia entre a forma do agir ético e a moral como conjunto de costumes ou leis que variam de povo para povo e que, portanto, é múltipla e não universal. De outra parte, ética/moral têm uma fundamentação metafísica, estão ancoradas no ser mesmo da pessoa humana, na sua natureza ou essência, naquilo que a tradição clássica chamou de Lei (moral) natural, que não deve ser entendida como alguma espécie de dado “espontâneo” ou meramente biológico, mas como a leitura ou interpretação que a razão humana faz das inclinações naturais e consequente promulgação dos deveres/direitos daí decorrentes –“natureza” aqui tem o sentido clássico  anterior à separação entre natureza e espírito ou natureza e história ou natureza e cultura, etc.; também ou principalmente a razão constitui a natureza da pessoa humana. Deve-se dizer, ainda, que tal Lei natural é um reflexo do que Santo Tomás chamou de Lei Eterna, isto é, a Sabedoria eterna de Deus, pela qual este pensou e criou suas criaturas –a qual não deve ser confundida com os dez mandamentos ou Lei divina positiva ou revelada para auxiliar o homem a conhecer seus deveres morais–, Sabedoria esta que está espelhada no próprio âmago da criação. Em síntese, pode-se dizer que, ao estudarmos política em Santo Tomás, estudamos conjuntamente o direito, a ética, a moral, a metafísica (antropologia filosófica e teologia natural), e aludimos à teologia moral. Como é característico no pensamento tomasiano, a realidade –no caso, a realidade política– é compreendida nas suas múltiplas relações ou conexões com outros âmbitos do real, sem os quais não chegaria a ser entendida de modo mais pleno.

O homem é um “animal sociável e político”: desprovido de instrumentos que lhe garantam automaticamente a sobrevivência, mas dotado de razão para buscar os meios da existência, não pode, sozinho, encontrar tudo o que necessita, sendo-lhe natural, portanto, a vida social –ao contrário do que diria a filosofia política de Thomas Hobbes, segundo o qual o homem, no “estado de natureza”, é “o lobo do homem”, e o Estado é um artifício, o “Leviatã” que, por meio da força, impõe a “paz”. E se o homem não pode viver sua vida a não ser em sociedade, é preciso sobrepor aos bens particulares o bem comum de todos. A política é a arte de dirigir a multidão à consecução do bem comum –e não meramente um jogo de luta pelo poder, como a modernidade passaria a considerar–, para a qual é imprescindível a presença de um governante, que saiba harmonizar os interesses presentes na sociedade, subordinando-os aos interesses mais gerais.

Quando o governante busca seu bem privado, é injusto e perverso o governo: tirania (governo injusto de um só), oligarquia (governo injusto de alguns poucos ricos) e “democracia” (governo injusto de muitos) –não há que se entender, aqui, a palavra no sentido moderno, mas como oposição à politeia, como “demagogia”. Os governos justos são: a politia(transliteração latina de politeia) ou governo da multidão, a aristocracia ou governo de poucos, porém virtuosos (os “melhores”), e a realeza ou monarquia, isto é, o governo de um só, o rei. No De Regno, Tomás diz preferir o governo do rei para realizar o objetivo primordial da sociedade, que é a unidade da paz, precisamente porque considera que um só tem mais condições de evitar a dissensão; mas no Tratado da Lei se inclina a um governo misto, que combina os três regimes justos: “Esta é a organização política mais perfeita, bem mesclada do reino, enquanto um preside; da aristocracia, enquanto muitos exercem o principado segundo a virtude; e da democracia, isto é, do poder do povo, porque dentre os populares podem ser eleitos os príncipes e ao povo pertence a eleição dos príncipes” (S.Th I-II, q105, a2).

O fundamental, no governo, é a orientação da sociedade ao bem comum; o governante não pode deliberar sobre este bem comum, mas tão somente sobre os meios para alcançá-lo. Nesse sentido, Tomás não veria com bons olhos uma democracia que se entendesse, não como método que faz a multidão participar da eleição dos meios ou estratégias políticas, mas como fim do próprio processo político, como se a noção do bem comum pudesse ser constantemente refeita por novas demandas.

Entre os regimes injustos, a “democracia” é o menos pior, porque os muitos governantes se atrapalham, o que minimiza os estragos do regime; o pior é a tirania, pois se busca somente o bem de um. Os tiranos se esmeram para que seus súditos não sejam virtuosos ou magnânimos, perdendo assim a capacidade de reagir a seu regime; semeiam discórdias entre os súditos, para que não haja entendimento entre eles e assim sua tirania possa se exercer mais facilmente. Tomás reconhece à sociedade o direito de destituir o governante instituído ou lhe refrear o poder, caso dele abuse tiranicamente. Ao tirano, cujo governo só se sustenta pelo temor, Deus não permite que reine por muito tempo.

Cabe destacar, aqui, dois princípios estabelecidos no Tratado da Lei, para compreender este “princípio da rebelião”: o primeiro, de que uma lei humana é injusta, se contradiz a Lei natural (S.Th I-II, q95, a2); e o segundo, de que a autoridade política pertence ao povo (ou a seus representantes): “Ora, ordenar algo para o bem comum compete a toda a multidão ou a alguém a quem cabe gerir fazendo as vezes de toda a multidão. Portanto, estabelecer a lei pertence a toda a multidão ou à pessoa pública à qual compete cuidar de toda a multidão” (S.Th I-II, q90, a3) –vale à pena mencionar o seguinte comentário de Domingo de Soto, tomista da Escola de Salamanca: “os reis e os príncipes são criados pelo povo, aos quais [(reis e príncipes), o povo] transpassa seu império e potestade” (Sobre a justiça e o direito). Este segundo princípio não implica menoscabo da ideia bíblica de que “todo poder vem de Deus”, precisamente porque a Lei natural é uma participação na Lei eterna, e a autoridade humana é uma participação no domínio de Deus sobre os homens. A política não significa uma ordem humana independente da ordem cósmica, mas inserida na mesma, e com isso podemos entender melhor a relação entre a vida política e o sentido religioso da vida humana segundo Santo Tomás.

O fim da sociedade humana é a vida virtuosa, mas o fim último do homem é a fruição divina, assim o fim último da multidão também é chegar à fruição divina; daí que os governantes humanos devam estar sujeitos à Igreja, que realiza a obra de Cristo, de conduzir os homens à bem-aventurança eterna –trata-se, não de confusão entre Estado e Igreja (teocracia), mas de uma distinção sem separação, com uma subordinação do Estado, não nos assuntos eminentemente políticos, mas naquilo que toca à salvação dos homens.

Para finalizar, são três as condições exigidas para uma boa vida da multidão: a unidade da paz, o procedimento virtuoso dos cidadãos (isto é, a ação em conformidade com o bem moral que se expressa na Lei natural), e abundância do necessário para o viver bem.

Temos aqui uma teoria política inexequível nos dias atuais? Talvez… Mas se trata de uma teoria necessária para mitigar os danos do “realismo” político maquiaveliano, evidenciando que a prática política deve se fazer na busca do bem comum, ainda que o conteúdo do mesmo já não seja tão evidente para nós como fora para Tomás, desde a perspectiva clássica e cristã por ele assumida.

Referências

TOMÁS DE AQUINO (SANTO). Escritos políticos de Santo Tomás de Aquino. Tradução e introdução de Francisco Benjamin de Souza Neto. Petrópolis: Editora Vozes, 2011 (Coleção Textos Filosóficos).

Joathas Soares Bello – Faculdade São Bento do Rio de Janeiro, Brasil. Doutor em Filosofia pela Universidade de Navarra, Espanha. Currículo lattes: http://lattes.cnpq.br/0908316222954469.  E-mail: joathasbello@gmail.com

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O Oitocentos / Sæculum / 2015

O ano de 2015 tem sabor especial para a revista Sæculum, porque estamos justamente completando 20 anos de nosso periódico, cuja história foi permeada por percalços e muitas alegrias. A principal delas deve-se ao esforço coletivo de professores do Departamento de História da Universidade Federal da Paraíba e dos professores vinculados ao Programa de Pós-Graduação História que também completa dez anos de existência.

Em meio a um clima de comemorações escolhemos uma nova organização editorial para a revista, em números temáticos que se alternarão com edições de artigos livres. Para a presente edição, o número temático tem por mote os Oitocentos, com o objetivo dar visibilidade aos esforços empreendidos pelos grupos de pesquisa Sociedade e Cultura no Nordeste e História da Educação no Nordeste Oitocentista, ambos alocados no PPGH da UFPB, assim como estimular o diálogo com os pesquisadores dedicados a esse período histórico em outros centros de pesquisa.

Apresentamos aos leitores os textos que foram aqui reunidos a partir de alguns subtemas, o primeiro deles discute questões relativas à formação do Estado Nacional, com cinco artigos: “Migrantes no Império do Brasil: a trajetória de Jean Bazet nas origens da Vila de Nova Friburgo, 1820-1858”; “Projetos e perspectivas na construção da nação brasileira (1822-1840)”; “Entre a Igreja e o Império: Dom Marcos Antonio de Sousa, o primeiro bispo do Brasil independente”; “O herói da Confederação do Equador volta do exílio: Manoel de Carvalho Paes de Andrade e as lutas políticas regenciais (Pernambuco, 1831-1835)”; “Os Guaranis nas precariedades da guerra: o impacto do recrutamento nas Missões Orientais (Rio Grande de São Pedro, primeira metade do século XIX)”.

O segundo subtema relaciona-se ao universo prisional, às forças policiais e aos dilemas que envolveram a Guerra do Paraguai e orienta os seguintes textos: “Prisões no Brasil oitocentista: rotinas e vivências na Casa de Detenção do Recife na década de 1860”; “A Guarda Cívica do Recife: a utopia de uma força policial guiada pela cortesia nas décadas finais do Brasil Império (1876-1889)”; “Dramas do Império chegam à República: a luta dos veteranos da “Guerra do Paraguai’’ pelos direitos socioeconômicos prometidos durante esse conflito – Ceará (1870- 1940)”.

Agrupados em torno do terceiro subtema estão sete textos relativos ao universo da pobreza, da exploração do trabalho livre, das relações econômicas e de liberdade envolvendo escravos, ex-escravos e senhores de escravos assim dispostos: “Sertão proletário: o universo da pobreza e os limites da ordem no Ceará oitocentista”; “População, compadrio e trajetórias de gente negra na Cidade da Paraíba oitocentista”; “‘Carregando as pedras do pecado’: a reforma católica devocional em Sergipe oitocentista”; “Uma riqueza nas matas meridionais: a extração da ervamate no século XIX na província do Rio Grande do Sul”; “Escravos e ex-escravos na pecuária: a centralidade da escravidão na economia rural (Rio Grande do Sul, segunda metade do século XIX)”; “As redes de relacionamentos e o espaço de atuação dos proprietários de escravos no Império do Brasil: Bananal, 1850-1888”; e “Litigando pela liberdade no Brasil oitocentista: relações escravistas em um contexto fronteiriço (Alegrete, província do Rio Grande do Sul)”.

Em seguida é contemplado o subtema dos viajantes, com dois textos: “Entre a medicina, a política e a poesia: a trajetória do Dr. Antonio da Cruz Cordeiro na Província da Paraíba na segunda metade do Oitocentos” e “Relatos de um explorador inglês: uma perspectiva da viagem de Francis Galton pelo Sudoeste da África (1850-1852)”.

Por fim, compondo reflexões sobre a escrita da História, apresentam-se quatro artigos: “A escrita da História no Brasil oitocentista: o lugar da província do Ceará”; “O ensino de história na escola de primeiras letras na Paraíba: pátria nacional e pátria local (1837 a 1914)”; “A História contra a Revolução: Edmund Burke e a crítica aos Direitos Naturais”; e “Os intelectuais: questões históricas e historiográficas – uma discussão teórica”.

Fechando o enredo aqui traçado, temos a resenha do livro de Nayana Rodrigues Cordeiro Mariano, Educação pela Higiene – a invenção de um modelo hígido de educação escolar primária na Parahyba do Norte (1849-1886), fruto de sua tese de doutorado defendida junto à linha de pesquisa em História da Educação do Programa de Pós-Graduação em Educação da UFPB.

Dessa forma, esperamos que os leitores tirem proveito do número temático que lhe entregamos e estabeleçam diálogo crítico com as perspectivas e abordagens oferecidas pelos autores, no intuito de fomentar outros olhares e novas pesquisas para / sobre os Oitocentos.

A Comissão Editorial.


Comissão Editorial. Editorial. Sæculum, João Pessoa, n.33, 2015. Acessar publicação original [DR]

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Bioética e Diplomacia em Saúde / História Ciências Saúde — Manguinhos / 2015

Os artigos deste dossiê reúnem parte dos esforços de compreender a governança da saúde em âmbito internacional; particularmente as perspectivas e implicações éticas da cooperação técnica entre países no contexto da crescente internacionalização dos assuntos sanitários.

Com esse espírito, encontram-se neste volume artigos assinados por alguns dos mais dedicados pesquisadores brasileiros da área. O leitor irá se deparar com narrativas de experiências pretéritas e problemáticas lançadas para o futuro da saúde em nível internacional. Nossa expectativa é que os textos sejam, num só tempo, instrutivos e prazerosos – tanto quanto foram para nós, que nos lançamos ao desafio de reuni-los.

O número abre com “Cooperação Sul-Sul: experiências brasileiras na América do Sul e na África”, de Roberta de Freitas Santos e Mateus Rodrigues Cerqueira. O texto realiza uma interessante descrição acerca das principais diretrizes de política externa brasileira com foco na noção de Cooperação Sul-Sul. Para tal, nutre-se da análise de iniciativas de cooperação técnica em saúde do Brasil realizadas na América do Sul e na África. Sem desconsiderar os interesses e as assimetrias de poder vigentes na Cooperação Sul-Sul, o artigo permite uma visão positiva da atuação do Brasil junto aos seus vizinhos e aos países africanos.

Já “Cooperação internacional para o desenvolvimento científico e tecnológico: um caminho para equidade em saúde”, de Priscila Almeida Andrade e Denise Bomtempo Birche de Carvalho, toma como foco analítico, no cenário que se desenha a partir da década de 1990, as prioridades dos países em desenvolvimento para pesquisa, desenvolvimento e inovação em saúde. As autoras têm uma perspectiva menos otimista acerca das possibilidades de ganho institucional decorrentes da inserção do Brasil no contexto atual da saúde global.

Fernando Pires-Alves e Marcos Chor Maio assinam “A saúde na alvorada do desenvolvimento: o pensamento de Abraham Horwitz”. Horwitz foi diretor da Organização Pan-americana da Saúde (Opas) no período 1958-1975. Essa fase coincidiu com um dos momentos mais ativos da trajetória da organização. É nesse contexto, por exemplo, que se deu a formulação da Aliança para o Progresso (1961). Proposta e liderada pelos EUA, consistiu em um programa de assistência econômica e social para a América Latina. Nascia o que poderíamos chamar de “a era do desenvolvimento”. Iniciativas como o primeiro Plano Decenal de Saúde Pública para as Américas ganhariam não só o apoio político e financeiro necessário, mas, igualmente, desenvolvia-se o esteio discursivo que as sustentou. Horwitz, a partir de seu assento na Opas e dos textos que legou, teria papel relevante na construção desse ideário que estreitou as relações entre saúde e desenvolvimento econômico e social. Podemos dizer com alguma segurança que seu legado, senão presente, foi bastante duradouro.

“O governo JK e o Grupo de Trabalho de Controle e Erradicação da Malária no Brasil: encontros e desencontros nas agendas brasileira e internacional de saúde, 1958-1961”, de Renato da Silva e Carlos Henrique Assunção Paiva, trata da experiência do Grupo de Trabalho de Controle e Erradicação da Malária no Brasil durante a gestão do presidente Juscelino Kubitschek. As negociações e tensões em torno das propostas defendidas pela comunidade científica brasileira e pela Organização Mundial da Saúde no que tange ao combate à malária constituem o pano de fundo do texto. Demonstra-se que as relações entre atores nacionais e instituições internacionais e / ou comunidade internacional, ainda que possam ser marcadas por flagrante assimetria de poder, não podem ser simplesmente reduzidas à imposição da vontade externa – suspostamente mais forte – aos interesses definidos no plano doméstico. O jogo de resistência e negociação frente às formulações e orientações vindas do exterior dá a medida, de um lado, da expertise e tradição científica já instalada no país e, de outro e por esta razão, da capacidade de a comunidade científica e agentes de estado nacionais fazerem valer, ainda que parcialmente, seus interesses. Cooperação em saúde, em outras palavras, não é um jogo de soma zero.

Na sequência, Luiz Eduardo Fonseca e Celia Almeida nos brindam com “Cooperação internacional e formulação de políticas de saúde em situação pós-conflito: o caso do Timor-Leste”. O foco do estudo é o primeiro documento de política de saúde para o Timor-Leste. O período, em termos analíticos, é um dos mais interessantes, uma vez que no processo de construção da política de saúde nacional o país encontrava-se sob a administração transitória das Nações Unidas (1999 a 2002). Aos autores interessou observar as relações entre diferentes atores, nacionais e internacionais, nesse processo de construção política. O apoio da cooperação internacional no processo de reabilitação do sistema de saúde no período pós-conflito é, portanto, evidente, e é analisado como parte da reconstrução do Estado e da montagem de um arcabouço político e institucional no país.

As pesquisadoras Janete Lima de Castro, Rosana Lucia Alves de Vilar e Raimunda Medeiros Germano assinam “Educação, ética e solidariedade na cooperação internacional”, texto que tem como foco a experiência de cooperação técnica entre o Brasil e os países da região andina, nos marcos do Curso Internacional em Gestão de Políticas de Recursos Humanos em Saúde. Essa experiência teve o protagonismo da Universidade Federal do Rio Grande do Norte e a mediação da Opas e, segundo as autoras, lançou mão de valores sustentados no campo da ética e da solidariedade como determinantes no processo de cooperação técnica internacional. Em outras palavras, as autoras nos desafiam a pensar a cooperação técnica não exclusivamente a partir dos interesses estratégicos políticos e econômicos a ela relacionados, mas, além de uma perspectiva instrumental, a partir de um universo de valores situados no terreno da ética e da solidariedade humana.

Na seção Imagens, encontra-se o interessante trabalho realizado por Alejandra Carrillo Roa e Felipe Ricardo Baptista e Silva. Sob o título “A Fiocruz como ator da política externa brasileira no contexto da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa: uma história revelada”, os autores retratam o papel da Fundação Oswaldo Cruz como um ator relevante no âmbito da comunidade de países lusófonos. A perspectiva adotada no texto é da “cooperação estruturante em saúde”, segundo a qual o governo brasileiro, por intermédio de instituições como a Fiocruz, desempenharia um papel positivo tanto na construção de melhores patamares de saúde e condições de vida junto a países estrangeiros quanto na promoção da independência técnica e tecnológica deles.

Na esteira dos artigos aqui comentados, Livros & Redes traz três resenhas que, em diferentes formas, dialogam com o universo de questões em debate neste volume. Carmen Beatriz Loza faz sua leitura do livro organizado pelo antropólogo espanhol Gerardo Fernández Juárez, Salud, interculturalidad y derechos: claves para la reconstrucción del Sumak Kawsay-Buen Vivir. Na sequência, Tyara Kropf Barbosa, Alejandra Carrillo Roa e Neilia Barros Ferreira de Almeida nos apresentam a Biblioteca Virtual em Saúde Bioética e Diplomacia em Saúde. Por fim, Thiago Rocha da Cunha e José Paranaguá de Santana nos apresentam o site do Núcleo de Estudos sobre Bioética e Diplomacia em Saúde da Fiocruz (Nethis / Fiocruz), onde se encontram abrigadas fontes de informação especializadas para os estudos que se situam na interface saúde pública, bioética e relações internacionais.

Agradecemos aos autores que assinam os textos aqui disponíveis, ao apoio da Opas a essa iniciativa conjunta do Nethis e de História, Ciências, Saúde – Manguinhos, ressaltando a dedi-cação e o profissionalismo de sua equipe de coordenação, em especial a Marcos Cueto, Jaime Benchimol e Roberta Cerqueira. Igualmente agradecemos aos pareceristas, colaboradores sempre condenados ao anonimato a despeito da importância de suas contribuições.

Carlos Henrique Assunção Paiva

José Paranaguá de Santana


PAIVA, Carlos Henrique Assunção; SANTANA, José Paranaguá de. Apresentação. História, Ciências, Saúde – Manguinhos, Rio de Janeiro, v.22, n.1, jan. / mar., 2015. Acessar publicação original [DR]

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Saúde Internacional-Saúde Global / História Ciências Saúde — Manguinhos / 2015

Nos últimos anos a saúde global se tornou um conceito onipresente na saúde pública praticamente substituindo a cinquentenária ideia de saúde internacional. No entanto, não têm sido suficientemente analisadas suas origens, suas características, suas diferenças e seus impactos. Este dossiê tem como objetivo reunir historiadores e especialistas para buscar compreender a ideia de saúde global, destacando a história da saúde internacional, a mudança do papel dos serviços estatais de saúde pública e assistência médica, e a interação entre local / nacional e global tendo como foco a América Latina e o Caribe. A nossa região tem uma longa e dinâmica relação com a saúde internacional, suas organizações, personagens, iniciativas e programas. A produção no campo da história da saúde na América Latina e no Caribe tem crescido em quantidade, bem como amadurecido em qualidade. Esses estudos exigem dos historiadores e especialistas reflexão e discussão sobre a historicidade do caráter global / internacional da saúde e as possíveis especificidades do nosso contexto regional.

Essa tarefa exige um esforço coletivo de reflexão, pois não existe uma definição única de saúde global, nem um consenso sobre seu início. Para alguns especialistas, o processo de globalização começou no século XVI com a conquista e colonização espanhola e portuguesa das Américas, que gerou uma medicina colonial. Para outros, a saúde global remonta à estreita relação entre o imperialismo e a medicina tropical do final do século XIX e ao papel desempenhado por agências filantrópicas no início do século XX, como a Fundação Rockefeller, que procurou civilizar o resto do mundo por meio da medicina ocidental. Alguns acreditam que o antecedente imediato da saúde global é uma saúde internacional que emergiu com a Guerra Fria, período iniciado por volta de 1948, marcado por agências multilaterais como a Organização Mundial da Saúde (OMS) e pelo confronto ideológico entre a União Soviética e os EUA para divulgar modelos de saúde (estatização versus prática privada; nacionalização dos serviços de saúde versus campanhas verticais). Outros acreditam que a saúde global está ligada à emergência do neoliberalismo que se seguiu ao fim da Guerra Fria (final da década de 1980) e está associada com o onipresente tema da “globalização”, na qual a economia e a tecnologia parecem comprimir e acelerar uma sociedade global. Na globalização surge um novo cenário epidemiológico em que infecções novas ou reemergentes incidem igualmente sobre países ricos e pobres. Cenário em que são frequentes as viagens internacionais e a migração maciça e em que emergem novos atores, como as organizações não-governamentais, a nova filantropia internacional, as parcerias público-privadas e instituições até então não tradicionais na saúde, como o Banco Mundial. É um período marcado por um conjunto de novos desafios aos serviços de saúde nacionais e internacionais, em que se questiona a premissa de que o Estado é a principal autoridade de saúde.

Os artigos deste dossiê são parte constitutiva desse esforço de reflexão histórica. Baseiam-se, em sua maioria, em palestras realizadas no Seminário Internacional Saúde Internacional / Saúde Global – Perspectivas históricas da América Latina e do Caribe, realizado nos dias 20, 21 e 22 de junho 2012 na Casa de Oswaldo Cruz (COC) / Fiocruz, no Rio de Janeiro, Brasil. O seminário contou com o decisivo apoio da Faperj e da direção da COC / Fiocruz na figura de Nara Azevedo. Nesse encontro participaram acadêmicos do (ou sediados no) Brasil, Argentina, Peru, México, EUA, Canadá, Alemanha e Espanha, e historiadores de várias instituições cariocas que foram convidados a comentar as apresentações. O objetivo do Seminário foi justamente examinar a noção de saúde global, destacando continuidades e mudanças na ideia de saúde internacional e resulta de uma grande rede de pesquisa sobre história da saúde na América Latina, formada por latino-americanistas e latino-americanos que, com publicações, seminários e cursos de pós-graduação, têm avançado o conhecimento sobre saúde e doença em perspectiva his-tórica na região das Américas.

Os artigos analisam diferentes dimensões e períodos da interface entre a saúde global / internacional e a saúde pública nacional / local, com ênfase na negociação, na resistência, na adaptação e também na circulação de conhecimentos. Adam Warren estuda as atividades das parteiras no Peru nos primórdios de seu período republicano, na primeira metade do século XIX, e a influência de uma parteira francesa em Lima. Karina Rammaciotti estuda os saberes legais e as instituições vinculadas aos acidentes de trabalho na Argentina; um tema de crescente importância para agências internacionais e para os Estados da região na metade do século XX. Luiz Antonio Teixeira nos apresenta um tema que cada vez é mais estudado: às campanhas de prevenção ao câncer no Brasil. Segundo ele o desenvolvimento dos conhecimentos sobre o câncer de colo do útero se relacionou simultaneamente com as transformações no conhecimento médico, a ampliação das preocupações com a saúde da mulher e as transformações do sistema de saúde brasileiro. O artigo de Mariola Espinosa estuda os vínculos entre o Sistema Nacional de Saúde nos EUA e as origens dos sistemas de saúde na região caribenha na virada do século XX. O artigo de Marcos Cueto analisa as campanhas promovidas por agências internacionais e organismos nacionais destinadas a eliminar doenças infecciosas no âmbito rural latino-americano de meados do século XX. O artigo sobre a repercussão da gripe A (H1N1) nos jornais paranaenses é resultado de pesquisa de Sandra Mara Maciel-Lima, José Miguel Rasia, Rodrigo Cechelero Bagatelli, Giseli Gontarski, Máximo José D. Colares. O texto analisa mais de 180 matérias sobre a gripe A (H1N1) em jornais do estado do Paraná no ano 2009 por meio das quais os autores discutem o impacto social que a pandemia H1N1 representou para a sociedade, cada vez mais globalizada, desafiando poder público, instituições e o cidadão comum. O dossiê se encerra com uma Nota de Pesquisa do historiador Diego Armus sobre a influência de Genebra e da OMS na medicalização do fumo na Argentina.

Marcos Cueto

Gilberto Hochman

 


CUETO, Marcos; HOCHMAN, Gilberto. Apresentação. História, Ciências, Saúde – Manguinhos, Rio de Janeiro, v.22, n.1, jan. / mar., 2015. Acessar publicação original [DR]

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The Story of the Marvelous City | Orde Morton

Este livro relata a história da cidade do Rio de Janeiro cobrindo 500 anos desde os acontecimentos mais antigos até o ano de 2015. Segundo o autor, existindo muitos livros escritos em francês e espanhol e poucos em inglês, ele pretende contribuir para o conhecimento dessa história. Ele espera que o livro seja de grande utilidade para aqueles que virão participar dos acontecimentos dos jogos olímpicos no ano de 2016. O autor utilizou inúmeras fontes primárias e secundárias e, principalmente, teses e monografias defendidas nas universidades. Dispõe de uma bibliografia em www.ordemorton.com

Foi ajudado por seus alunos na Universidade Federal Fluminense e inúmeros amigos brasileiros e americanos, embora o autor não informe o período em que deu aulas naquela universidade. Leia Mais

Estudos africanos no Brasil: um diálogo entre História e Antropologia / História – Questões & Debates / 2015

Na última década testemunhamos um aumento importante de publicações (livros, artigos, coletâneas, etc.) sobre política, economia, cultura e história das sociedades africanas, tanto no campo da literatura, linguística, como no das ciências políticas e relações internacionais, porém, o incremento mais significativo aconteceu nos campos da história e antropologia. Este fenômeno não é aleatório, responde a um esforço comum de intelectuais, ativistas, acadêmicos e acadêmicas, entre tantos outros, de implementar uma reforma político epistemológica no campo da educação no Brasil, reforma que finalmente teve seu sustento legal na lei 10693 de 2003 e que envolveu, entre outras coisas, saldar uma dívida histórica ao estabelecer a obrigatoriedade de inclusão nos planos de ensino em todos os níveis, da história e cultura africana e afro-brasileira. O porquê desta dívida histórica, mesmo sendo uma questão de suma importância, não será tema deste dossiê, acreditamos que chegará um momento, neste multifacetado processo, de confrontar-se com os porquês destas omissões e embora já existam indícios bastante eloquentes na história nacional brasileira para compreender a exclusão dos currículos escolares da história e cultura africana e afro-brasileira, este debate será possível quando o campo dos “estudos africanos no Brasil” termine o seu processo de consolidação.

Em relação a este processo de consolidação dos “estudos africanos” na atualidade, precisamos antes fazer o devido reconhecimento do trabalho sistemático da produção acadêmica sobre o mundo africano, de uma série de instituições no âmbito acadêmico brasileiro desde a década de 1960 como o Centro de Estudo Afro Asiáticos da Universidade Cândido Mendes, ou o Centro de Estudos Afro –Orientais da Universidade Federal da Bahia, ou finalmente o Centro de Estudos Africanos da Universidade de São Paulo. Feito isto, precisamos explicitar esta ideia de processo relacionada ao significativo fenômeno de ampliação destes estudos para áreas de conhecimento que antes mostravam um manifesto desinteresse pela temática como seria o caso particular da filosofia, disciplina que por considerações de ordem histórica, infelizmente continua com o dogmático exercício da repetição de um dispositivo hegemônico de transferência de conhecimento eurocentrado. Mas também pela ampliação das escolhas sobre o que pesquisar relacionado às sociedades africanas, saindo de uma vez do enquadramento que significaram os estudos sobre escravidão, os quais se por um lado contribuíram de forma substancial para desmontar os modelos racistas de compreensão da história da população afrodescendente no Brasil, por outro, voluntária ou involuntariamente, condicionaram as escolhas de outros recortes e temáticas, também importantes para a compreensão diacrônica e sincrônica desta mesma população.

É nesta interface, possibilitada em grande parte também pela obrigatoriedade estabelecida pela legislação, que a produção bibliográfica nos campos da história e da antropologia aumentará e se diversificará consideravelmente. E este evento trará uma série de outras implicações no âmbito da pesquisa como, por exemplo, o caráter interdisciplinar que começa a ter maior peso epistemológico, assim como a ampliação dos recortes espaço temporais e temáticos, desta vez majoritariamente centrados no continente africano, começarão a ser privilegiados por pesquisadores e pesquisadoras tanto no nível da pós-graduação como também já na graduação, em projetos de iniciação científica.

Todos estes desdobramentos, ou “momento expansivo” [1] da formação deste campo de estudos africanos no Brasil, têm contribuído significativamente também para desessencializar a ideia da África como uma única totalidade exótica e a-histórica, incentivando a busca por um paradigma que explique integralmente os problemas africanos, redimensionando debates candentes, como os que envolvem a ansiedade em torno das relações raciais, revisitando a temática afro- -brasileira nos discursos sobre a formação nacional e ressignificando a própria leitura e difusão de clássicos africanistas que constituem o cerne desta área de interesse.[2] Ao mesmo tempo, essa abertura pressupõe uma multiplicação de perspectivas e a busca por explicações pluricausais, considerando a diversificação dos contextos / situações de pesquisa, as possibilidades e (ou) as limitações da língua portuguesa como veículo de acesso e de expressão de conhecimentos sobre o continente africano, e os vários diálogos estabelecidos em cenários de produção de saber transnacionais. O conjunto de artigos selecionados neste dossiê pretende ser uma amostra importante do mencionado no parágrafo anterior.

No presente dossiê, o artigo de Michel Cahen aponta para uma crítica ao conceito “pós-colonial – póscolonial – pós (-)colonial” na produção historiográfica em torno dos países do PALOPS (Países de Língua Oficial Portuguesa). Para ele, na maioria das produções, talvez dos últimos 30 anos, o conceito “pós” remeteria apenas a uma definição cronológica e não situacional. Esta opção traria consigo dois problemas fundamentais. O primeiro seria a superestimação do discurso em volta das elites independentistas nas antigas colônias portuguesas em detrimento das formações sociais realmente existentes. Como consequência desta opção se produziria uma espécie de hipertrofia historiográfica que impediria pensar os processos a partir das suas contradições próprias. Para explicar esta defasagem Cahen questiona, de maneira bastante pertinente, as leituras sobre os processos que cada movimento independentista teria vivido na construção da sua realidade política pós-libertação, constatando que essa leitura historiográfica ao se guiar apenas pelo discurso doutrinário dos partidos não só não conseguiriam explicar o porquê destes movimentos terem se identificado inicialmente com os princípios do socialismo, para tempo depois assumir ferrenhamente os princípios neoliberais tornados hegemônicos nos finais dos anos 80 do século XX. A explicação simplista da derrota dos princípios socialistas seria para Cahen insuficiente, pois se fosse uma derrota, esta acarretaria a substituição da elite “socialista” por uma outra. Entendendo que discursivamente socialismo e neoliberalismo seriam duas ideologias antagônicas, este antagonismo não impediu que praticamente em todos os países africanos ainda governem os mesmos partidos que iniciaram a libertação.

Outro aspecto que o autor chama atenção é que a partir da concepção cronológica do “pós-colonial” tanto a formação do partido único assim como seu imaginário político e social e o papel do Estado na consolidação do poder destes partidos, todos estes processos caríssimos à compreensão da realidade política contemporânea das antigas colônias portuguesas, são explicados com base em concepções ideológicas atreladas ao marxismo-leninismo, desconsiderando voluntária ou involuntariamente que estas formações políticas e seus próprios imaginários teriam uma origem múltipla e não seriam apenas opções dos partidos únicos governantes na atualidade, mas também de seus opositores políticos derrotados durantes as respectivas guerras civis que assolaram os países no pós-independência. Um terceiro e último aspecto que o autor traz ao debate é uma prática problemática na historiografia chamada “lusófona”, precisamente porque para o autor as realidades da cada um dos países ocupados pelos portugueses estariam mais vinculadas à sua localização regional e muito pouco à própria presença lusitana. Este aspecto é significativo, pois ao tornarem estes países “mais africanos e menos ex-portugueses” se abriria um leque de outras possibilidades de análise para entender as realidades sociais e políticas dos países em questão. Estes questionamentos nos parecem substanciais para uma revisão dessa produção historiográfica, daí a importância de incluir este texto neste dossiê.

No caso de Osmundo Pinho, a análise aponta para as vicissitudes e contradições dos processos de construção jurídica de estatutos como efeito da extensão da malha administrativa na produção do estado colonial português em Moçambique. Usando fontes e registros oficiais específicos da década de 40 do século XX, o autor discorre sobre as dificuldades e contradições do próprio processo de produção de estatutos jurídicos, entendendo o período como marcado por um contexto de debate antropológico e político-jurídico sobre as colônias africanas de maneira geral. Neste contexto conceitos como os de “razão etnológica” e “pluralismo jurídico” definiram as formas e condições do debate entre o funcionalismo antropológico britânico “triunfante” e um evolucionismo em vias de se tornar anacrônico aos olhos das ciências humanas, as mesmas se constituindo em processo acelerado. Segundo o autor, no mesmo contexto é possível identificar alguns aspectos substanciais ao processo de colonização como seria o caso da racialização (culturalização) africana, a qual teria caminhado ao par das estratégias de dominação política e à necessidade de elaboração de um arcabouço jurídico conceitual, capaz de conferir inteligibilidade aos processos administrativos, associando a diferença cultural à diferença racial como instrumento político de dominação. Neste contexto o funcionalismo antropológico britânico teria jogado um papel significativo na produção de uma “miragem” em relação aos sistemas sociais africanos paralelos aos criados pelo sistema colonial, outorgando aos primeiros um caráter homogêneo e criando a ideia da falta de temporalidade histórica das sociedades africanas, entregando de maneira insuspeita talvez a melhor justificativa ao discurso colonial. Outro aspecto bastante significativo na análise de Pinho está relacionado a dois discursos aparentemente antagônicos e separados temporalmente. Antagônicos por serem um eclesiástico e outro “socialista”, no entanto, e como mostra Pinho, o centro de cada um destes discursos apontaria para uma visão civilizatória e iconoclasta das práticas africanas referidas a condenar e justificar a desarticulação da poligamia, o lobolo e o levirato, entre os “usos e costumes” nativos mais atacados. Esta “semelhança civilizacional” dos discursos, mesmo apontando para projetos, em teoria, divergentes e antagônicos, torna o texto de Pinho da maior relevância para uma revisão histórica desde uma perspectiva mais situacional, perspectiva que é defendida neste dossiê.

O trabalho de Jefferson Olivatto da Silva incursiona no campo da medicina como dispositivo de controle dos corpos colonizados e as respostas africanas a estas práticas. Localizando seu trabalho nas regiões da atual Zâmbia e o Malawi durante finais do século XIX e começo do XX, e usando uma perspectiva de longa duração o autor reflete sobre os efeitos que a ocupação militar e o desenvolvimento e ingerência da medicina tropical nas políticas de reassentamento e controle de doenças – todos estes entendidos como agentes da colonização efetiva dos territórios recém mencionados – terão no desenvolvimento das resistências aos processos de mobilidade forçada que atingiram as populações nativas. Formas de resistências que durante muitos anos não foram consideradas enquanto tais pela historiografia africanista. Com efeito, como demonstra o autor, a situação colonial que descreve evidencia o não reconhecimento do comportamento social evasivo e adaptativo das populações afetadas pelas políticas higienistas, sob e égide do combate às epidemias que afetavam tanto a produção quanto o uso da mão de obra nativa, já que para os administradores, coletores de impostos, militares, missionários e médicos estas práticas eram entendidas como manifestações de esquiva pertencentes a um universo desprezado sem função social significativa. Um aspecto significativo ressaltado pelo autor é atrelar estes processos de construção de formas evasivas às políticas invasivas da administração colonial, devido ao seu caráter exógeno e violento, às formas atuais de resistências às políticas de controle de doenças como o HIV / SIDA. Novamente são evidenciados aqui práticas e agentes em um constante e tensionado relacionamento por definir o poder de autodeterminação frente ao controle sobre os corpos dos colonizados. A perspectiva de longa duração como princípio metodológico para a análise dos eventos e seus efeitos na configuração das sociedades africanas durante a colonização abre-nos uma nova possibilidade de revisar a história sobre o continente africano.

Quase no mesmo viés, Sílvio Correia, se debruça sobre como ciência e literatura se valeram de saberes locais para produzir um conhecimento rotulado como científico sem, contudo, reconhecê-los enquanto um conjunto de saberes, práticas e posturas com validade social nos lugares em que foram produzidos. Para tal centrará sua obra no período da descoberta do maior primata até então conhecido: o gorila. De acordo com sua linha de análise, se antes não havia consenso sobre o parentesco entre os primatas, a descoberta do gorila fomentou polêmicas e especulações que se inscrevem na produção de saberes que viriam a servir de suporte ideológico ao empreendimento colonial à época da “Partilha da África” e também ao longo da primeira metade do século XX. Este evento também incentivará o desenvolvimento de uma série de novas áreas consideradas naquele momento como científicas como os estudos de craniometria. Outro paradigma que ganhará força será a ideia de raças degeneradas, a qual assumirá um lugar importante no campo disciplinar da antropologia física. O “descobrimento” deste primata acentuará a tendência a comparar anatomicamente as “raças humanas mais degeneradas” com os macacos. Este aspecto terá desdobramentos muito mais complexos, pois de acordo com Correia, se na Antiguidade a comparação era entre o homem e o macaco, no pensamento moderno esta se racializa e se torna cada vez mais uma comparação entre o negro e o macaco. Para a antropologia do final do século XIX, a comparação entre “hotentotes”, “pigmeus”, gorilas e chimpanzés foi uma prática comum dos estudos de anatomia comparada. Mas alguns estudos extrapolavam a comparação anatômica, estabelecendo comparações em termos de comportamento. Mesmo que não houvesse consenso na comunidade científica, os “zoos humanos” não hesitavam em exibir “bosquímanos” e “pigmeus” como elos da evolução humana.

Finalmente o trabalho de Lorenzo Macagno analisa duas narrativas sobre o apartheid da década de 1980. O primeiro destes relatos engloba múltiplos microrrelatos: trata-se do trabalho do antropólogo norte-americano Vincent Crapanzano sobre os africâneres (ou bôeres) da África do Sul. Naquele momento Crapanzano teria realizado uma etnografia “plurivocal”, “polifônica” e “dialógica”, segundo o próprio autor um exercício de questionamento da “autoridade” etnográfica, segundo Macagno, uma discussão presente no debate pós-moderno da época. Sobre este aspecto bastante significativo para a produção antropológica, Macagno questiona pertinentemente quais são os limites do relativismo antropológico e das abstenções do juízo em relação a um regime que não admitia ambiguidade? Apesar das dificuldades que esta etnografia coloca para o debate disciplinar, Crapanzano teria conseguido mostrar alguns sinais diacríticos da identidade construída pelos próprios africâneres como a língua e seu distanciamento dos ingleses se colocando como um tipo de vítima do “imperialismo” inglês, eludindo, desta forma, uma importante questão: a relação com os negros sul-africanos. A outra narrativa é do jornalista sul-africano Rian Malan, sobrenome pertencente a “dinastia” Malan que fora um dos nomes que em 1948 implementara o apartheid na África do Sul. Uma das primeiras questões que Macagno questiona é: “é possível ser um Malan e ser contra o apartheid?”. Na análise do livro o autor descreve o caráter auto-irônico de Malan ao se confrontar com um sistema que por lei o privilegiava e que por outro lado gerava desconforto a uma pequena elite branca devido à violência praticada contra a população negra. Segundo Macagno, para Rian Malan, apesar das boas intenções, o papel dos brancos na luta anti-apartheid estava condenado por uma “lei de cumplicidade genética”. O livro do jornalista apresenta uma crônica das violências cotidianas decorrentes do apartheid. Malan articula e integra a descrição da violência política com as consequências que ela mesma produz na subjetividade dos atores envolvidos. Malan, como jornalista, vai em busca do saber antropológico. Sem cair no essencialismo – tão criticado por Crapanzano – traz ao seu universo de compreensão as forças simbólicas que ainda operam na África do Sul, procurando encontrar uma coerência e um sentido naquilo que, aparentemente, resulta arbitrário e caótico. Em suma, Macagno tentará refletir a partir destas duas narrativas sobre quais seriam as estratégias estilísticas, políticas e éticas escolhidas no momento de descrever o apartheid. Quais as consequências e os dramas morais produzidos por um sistema de segregação que não admitia ambiguidades classificatórias, nem dissidências políticas ou étnicas? Desde uma perspectiva comparativa o autor analisa estas duas narrativas, indagando sobre os efeitos do apartheid na subjetividade individual e coletiva de uma sociedade dividida.

Esse número da Revista História: Questões & Debates conta também com a sessão de artigos. O primeiro deles, de autoria de Valeska Alessandra de Lima e Dóris Bittencourt Almeida, é produto da pesquisa “Escritos de alunos: memórias de culturas juvenis (1940- 1960)”, que toma como objeto de investigação os periódicos produzidos por alunos de diferentes instituições escolares de Porto Alegre / RS. O estudo vincula-se aos pressupostos teóricos da História Cultural e inscreve-se no campo da História da Educação em suas interfaces com a Imprensa Escolar e a História das Instituições Educacionais. O foco da análise foi perceber as marcas deixadas pelos jovens no periódico “Colunas”, anuário produzido pelo Instituto Porto Alegre / IPA, procurando distinguir indícios de saberes e práticas escolares que evidenciam as identidades daqueles sujeitos. O segundo texto pertence a Christiane Heloisa Kalb e Mariluci Neis Carelli, analisando a importância do patrimônio industrial, especialmente no que se refere às ferramentarias de moldes e matrizes para a cidade de Joinville / SC. O artigo tenta mostrar a ligação entre a identidade dos entrevistados, em sua maioria ferramenteiros ativos ou já aposentados, com a cidade de Joinville conhecida por sua pujança industrial, por esse motivo merecedora de estudos mais aprofundados sobre o patrimônio cultural industrial em seus aspectos materiais e imateriais, a partir das memórias desses profissionais ferramenteiros. O último trabalho nesta sessão é de Helder Henriques e Carla Vilhena, que aponta para o estudo dos comportamentos chamados antissociais na infância e juventude em Portugal entre as décadas de 70 e 90 do século XX. Pretende identificar e analisar os principais discursos relacionados com este problema social no arco temporal previsto. Para isso apresentam o quadro histórico de evolução do sistema de justiça de menores em Portugal ao longo do novecentos, para depois tentar compreender as conceições de risco, tendências e influências sociopedagógicas e as formas de prevenção e de regeneração em articulação com o discurso do Estado, da Escola e da Família.

Notas

1. Marques, Diego Ferreira e Jardim, Marta D. da Rosa. “O que é isto: ‘a África e sua História’”? In: Trajano Filho, Wilson (Org.). Travessias Antropológicas: estudos em contexto africanos. Brasília: ABA Publicações, 2012. pp.31-62.

2. Chegen, Michael “Las teorías de la ciencia política como un obstáculo para entender el problema de la violencia política y de Estado en África”. ISTOR, Año IV, Núm. 14, 2003, pp. 32-47.

Héctor Guerra Hernandez


HERNANDEZ, Héctor Guerra. Apresentação. História – Questões & Debates. Curitiba, v.62, n.1, jan. / jun., 2015. Acessar publicação original [DR]

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A alma e as formas – LUKÁCS (AF)

LUKÁCS, Georg. A alma e as formas. Introdução de Judith Butler; tradução, notas e posfácio de Rainer Patriota. Belo Horizonte: Autêntica, 2015. Resenha de: PIMENTA, Olímpio. Artefilosofia, Ouro Preto, n.19, 2015.

Há quase três décadas, então estudante de graduação em Filosofia, recebi as lições que viriam a constituir o escasso acervo de meus conhecimentos sobre a obra do pensador húngaro G. Lukács. Na ocasião, na esteira da avaliação do próprio autor, sublinhava-se que seu desenvolvimento filosófico tinha um caráter inequivocamente evolutivo, com o que a formulação sistemática da “ontologia do ser social”, núcleo de sua produção tardia, seria também o resultado mais importante de todo o percurso. Era uma abordagem que favorecia pouco os trabalhos de crítica literária dos primeiros tempos, e os ensaios reunidos no livro de 1911 ficaram, assim, envoltos em sombra.

Se, em algum a medida, este caso representa uma situação mais ampla, pode-se perceber a relevância do aparecimento entre nós do livro de estréia de Lukács, em edição amparada por estudos críticos muito elucidativos de Judith Butler e do próprio responsável pela tradução e pelas notas ao texto, Rainer Patriota. Pois, em que pese a apreciação desfavorável aludida acima, parece-nos que os escritos em foco, embora desiguais quanto a alcance e mérito intrínseco, formam um conjunto bastante coeso, versando sobre um extenso repertório de temas literários e filosóficos, organicamente articulados à meditação sobre nossa condição existencial.

O princípio organizador da reflexão é idealista, estabelecido logo no âmbito dos dois exercícios iniciais “Sobre a forma e a essência do ensaio” e “Platonismo, poesia e as formas”. Concebida como busca por elevação acima d o tumulto sem sentido da vida comum, a jornada da alma só se realiza ria de modo pleno mediante a configuração integrada do que ali aparece disperso e fragmentário. As estruturas complexas que emergem em sua atividade, propostas como articulação necessária entre fins e meios, intenção e execução, conteúdo e aparência, interioridade e exterioridade, são as formas a que se almeja. Seria um programa de trabalho razoavelmente convencional, capaz até de produzir resultados triviais, não fosse a disposição experimental de quem o conduz. Pois uma das razões do interesse destas primícias lukácsianas é a ausência de dogmas entre seus elementos constitutivos, sinal de uma atitude investigativa honesta, dominada pela curiosidade.

Segundo tal inspiração, um grande atrativo dos ensaios em foco é o estabelecimento, em seu desenrolar, de conexões múltiplas entre os móveis de sua atenção, capazes de evidenciar o copertencimento entre estratos distintos da realidade, mas também entre fenômenos que à primeira vista nada teriam a ver uns com os outros. As formas, ou se se quiser, as ideias, quase sempre entretêm boas relações com a vida — a exceção mais ostensiva estando na angustiada visão das coisas presente nos dois últimos textos, “Metafísica da tragédia” e “Da pobreza de espírito” –, porque são pensadas não apenas como essência incondicional da totalidade, mas também como algo cuja realização no mundo só ocorre a partir do vivente que experimenta. Empresta-se, assim, um caráter muito dinâmico à já referida demanda por sentido. Em função disso, os nexos entre o material de que se parte e a composição a que se chega não são rígidos nem unívocos, como se fossem resultado da sujeição do múltiplo da vivência a regras universais, mas mostram-se compatíveis com a variedade efetiva, tanto dos problemas humanos e das questões artísticas ventilados, quanto das possibilidades de um equacionamento formal que os unifique. Uma tal abertura de espírito é o que torna viável a aproximação entre, por exemplo, Platão e Montaigne, reivindicados como expoentes máximos do ensaísmo a que se pretende filiar o próprio livro.

Todavia, como se sabe, boas intenções costumam não ser o suficiente. Aos olhos deste leitor noviço, o que assegura força aos ensaios é o sucesso n a aplicação de sua estratégia global. Firmada a tarefa de acompanhar o trânsito da alma entre e vida e as formas, optou o autor pelo exame de uma série de obras em que os diversos aspectos da relação entre esses dois pólos puderam ser acompanhados segundo um extenso leque de especificidades. Portanto, por mais heterogêneos que sejam os casos estudados, cabe tomar o que temos em mãos como um conjunto de variações sobre um mesmo tema de fundo. Porque multifacetado, tal tema admite associações muito diversas, conforme os propósitos e o colorido próprios de cada objeto visado. Porém, não obstante a peculiaridade das partes, a feição final do todo é bem proporcionada, justamente porque o plano que a ordena cumpre à risca o que promete. Correndo algum risco de impertinência, imaginamos acertar ao entender o notável resultado dos esforços aqui empreendidos por Lukács como efeito da compreensão da s forma s como perspectiva s, de preferência a estruturas essencialmente invariáveis. Os momentos em que isto fica mais nítido estão nos ensaios sobre Kierkegaard, Sterne, Storm e Novalis, respectivamente “Quando a forma se estilhaça ao colidir com a vida”, “Riqueza, caos e forma”, “Burguesia e l’art pour l’art ” e “Sobre a filosofia romântica da vida”.

O tratamento d ado ao filósofo escandinavo prima pela percepção nuançada do alcance de um gesto de separação que decidiu em definitivo o rumo posterior de sua vida e de sua produção intelectual. Apesar de realçar a tensão entre est as duas esferas, o ensaio termina provando a consistência paradoxal vigente na relação entre elas: somente a renúncia a uma vida afetivamente significativa tornou Kierkegaard apto a cumprir seu destino, assegurando-lhe de uma vez por todas aquilo que teria sido perdido pouco a pouco a cada dia. Junto a o escritor irlandês, em contrapartida, admite-se, ao termo de um diálogo muito movimentado, o triunfo da riqueza vital da forma aberta sobre a exigência do sacrifício da vida à forma acabada. Aliás, em nenhum outro ponto do livro a combinação entre vida e forma mostra resultados tão animadores, frutos de uma reciprocidade que marca um dos extremos no espectro de possíveis encaminhamentos para seu tema central.

Também em relação a Novalis, encontramo-nos em presença de uma coerência insuspeitada, mas cujo balanço em termos da forma presta-se à demonstração de uma ruína. Um distanciamento cordial d o romantismo garante a Lukács um ponto de vista independente a respeito d a questão alemã. Até onde pude ver, ele trata aqui de ambos os assuntos livre de qualquer partidarismo, com o que suas análises ganham em pertinência e agudeza, ensinando sobre o que expõem sem querer doutrinar. Assim, embora a palma seja atribuída ao classicismo goetheano, entende-se em que medida a alma romântica viveu sua peripécia com dignidade, tendo na figura em foco sua mais alta expressão.

Por que o que em uns é contínuo, enquanto em outros resta contraditório, apenas os caminhos sutis do ensaio sobre a lírica de Theodor Storm nos permitem constatar a integridade que reúne nele poesia e existência burguesa. A solução do aparente dilema deriva de observações a propósito do sentimento de comunidade que marca a autêntica atitude ética diante da vida. É pela prevalência de injunções desta natureza que o poeta teria alcança do seu melhor. Não importando se este se restringe à modéstia da maestria artesanal, interessa sublinhar mais uma vez a ocorrência de uma coexistência bem lograda entre os dois pólos da equação lukácsiana, que figura, neste passo, exatamente no meio do espectro de possibilidades mencionado há pouco.

Sob esse mesmo horizonte geral, ao deslocarmos nosso olhar para su as regiões mais conflagradas, localizamos os ensaios sobre Stefan George, Richard Beer-Hoffmann, Charles-Louis Philippe e Paul Ernst, cujos títulos respectivos são “A nova solidão e sua lírica”, “Nostalgia e forma”, “O instante a as formas” e o já citado “Metafísica da tragédia”. Para o leitor que, como eu, se fia em traduções, talvez esteja aí a parte menos acessível do livro, dada a carência de documentos que permitiriam uma confrontação dos achados lukácsianos com suas fontes originais. Tomadas em bloco, são leituras que enfatizam a miséria da modernidade no que concerne à chance de realização de for mas artísticas substanciais, considerando-se a degradação dos laços que dariam à existência coletiva um sentido comum. Em especial, o último escrito traz uma conclusão bastante pessimista quanto às chances de reunião entre a vida vivida e as formas. Segundo tal conclusão, apenas o mundo fechado e perfeito das formas definitivas pode ria fornecer aos homens um referencial perene para a justificação de sua efêmera passagem pelo mundo da vida.

Assinalando o limite em que os dois pólos da problemática em estudo estão mais dissociados um do outro, essa metafísica da tragédia é seguida por sua consequência mais rigorosa, a defesa de uma atitude existencial próxima à singularidade dos santos dostoievskianos, chamada pelo russo de idiotia. Sem discutir se esta atitude revela uma adesão amorosa incondicional ao mundo ou sua exata antípoda, uma recusa odiosa incondicional ao mundo, notamos que somente um a perspectiva mística autoriza esta versão extrema do assunto, em que as formas são radicalmente separadas da realidade imanente. Quem sabe se esconde, nesta vasta oscilação entre as páginas calorosas sobre Sterne e as declarações niilistas do protagonista masculino do diálogo sobre a pobreza de espírito, uma cifra para o entendimento do percurso ulterior do pensador, em que a generosa inclinação a favor da realização histórica do socialismo contrasta com a aceitação irrestrita de formas absolutas de opressão?

Mas não vale concluir a exposição dessas impressões sem antes mencionar duas razões pelas quais est a edição de “A alma e as formas” parece-nos exemplar. Por um lado, o senso de oportunidade que preside a distribuição das notas ao texto lhes assegura o devido caráter informativo. Porém, a par do uso consciencioso deste expediente, o que mais se destaca na tarefa levada a excelente termo pelo tradutor é a qualidade literária da prosa, provando com folga que o prazer do texto não é, entre nós, uma graça perdida.

Rainer Patriota – Professor Titular do Departamento de Filosofia do Instituto de Filosofia, Artes e Cultura da Universidade Federal de Ouro Preto (DEFIL/IFAC/UFOP.

Olímpio Pimenta – Professor Titular do Departamento de Filosofia do Instituto de Filosofia, Artes e Cultura da Universidade Federal de Ouro Preto (DEFIL/IFAC/UFOP).

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Conservation Practices on Archaeological Excavation: Principles and Method – PEDELI; PULGA (CL)

PEDELI, Corrado; PULGA, Stefano. Conservation Practices on Archaeological Excavation: Principles and Methods, 2013. Resenha de: AZEVEDO, Paula de Aguiar Silva. Cadernos do LEPAARQ– Textos de Antropologia, Arqueologia e Patrimônio, v.12, n.24, 2015.

Na busca da conservação de qualquer material é necessário entender as suas particularidades, perceber as suas necessidades e aprender as características do contexto desse material. Quando falamos de remanescentes arqueológicos, nosso entendimento deve alcançar toda a sua trajetória. Ele foi produzido, utilizado, passou pelo processo de enterramento para ser descoberto e estudado. Durante esse caminho o material pode se apresentar de diversas formas, sendo imprescindível que o monitoramento de seu estado de conservação se dê desde a escavação arqueológica. Mas a conservação in situ ainda é um desafio, não só pela complexidade das ações que essa envolve, como também a dificuldade da formação de um profissional qualificado para essas ações, além das barreiras que podem surgir na comunicação entre o profissional conservador e o arqueólogo. Isso implica no reconhecimento dos arqueólogos da necessidade das ações de salvamento ao mesmo passo da busca contínua de uma dupla-formação do conservador-restaurador, onde este possa compreender e participar do processo de uma pesquisa arqueológica.

No livro Conservation Practices on Archaeological Excavation: Principles and Methods de Conrrado Pedeli e Stfano Pulga, temos importantes informações sobre princípios e métodos de conservação in situ, numa visão ampla que abarca diversas tipologias de materiais e sítios arqueológicos. Aborda desde o planejamento da escavação até a conservação de estruturas a longo prazo. Apesar de ainda não possuir uma tradução para o português, o texto é desenvolvido numa linguagem simples e de fácil compreensão dos termos técnicos, comumente usados na área de conservação e restauração. É um tipo de leitura que pode ser feita por ambas as áreas pois, enquanto o arqueólogo pode se familiarizar com os conceitos que implicam a conservação, o próprio conservador encontra um guia sobre a ações que envolvem a conservação em escavações arqueológicas. É um texto direcionado para o profissional da conservação, apontando as necessidades e desafios que podem acometer uma escavação arqueológica, incluindo a conservação do sítio em si. É importante ressaltar que o livro foi escrito num contexto italiano/europeu trazendo sempre referencias de sítios históricos. Ao aplicar as medidas apresentadas no livro devemos levar sempre em consideração o contexto do sítio arqueológico e, se necessário, fazer adaptações.

Um dos problemas que podem surgir entre o conservador e arqueólogo é a diferente visão que os envolvidos numa escavação podem ter sobre uma mesma situação. Há pontos no texto onde os autores demonstram as diferentes expectativas que esses profissionais podem ter, por exemplo, na retirada de um objeto do solo. Enquanto o conservador pode considerar apenas a fragilidade do objeto, preferindo por intervenções imediatas ao mesmo, o arqueólogo pode preferir ações mais demoradas para que sejam feitos todos os registros necessários. Essa divergência deve ser resolvida através do diálogo em que se encontre a melhor abordagem, respeitando a materialidade do objeto em consonância com as necessidades das pesquisas arqueológicas.

Logo no primeiro capítulo Excavation and Conservation os autores colocam a necessidade do planejamento das medidas de conservação. Para isso, é necessário o envolvimento do conservador-restaurador desde o início dos preparativos. Assim, pode-se coletar informações sobre os diversos fatores que influenciam a conservação in situ, como a tipologia do sítio, o tipo de escavação, a sua localização, condições climáticas e questões relativas à logística geral e econômica. Esses e outros dados ajudam o profissional da conservação a planejar uma margem de ação, podendo assim separar tipos de materiais que podem ser necessários, a viabilidade de algumas técnicas, inclusive contribuir para esquematização de logísticas, como o transporte adequado desse material. Nas palavras dos autores, na página 06: “[…] conservation as an integral part of archaeological process, starting with the act of excavation, continuing through the period of study and interpretation, and concluding whit publication of the final report”.

O tipo de solo também influencia na preservação do material, havendo variações de permeabilidade, componentes minerais, etc. Solos argilosos, por sua facilidade de absorver água, tornam-se menos permeáveis a gases atmosféricos, enquanto solos arenosos, mais permeáveis. A temperatura também desempenha um papel importe na preservação desses materiais, mesmo que enterrados. Pode propiciar o aparecimento de microrganismos, acelerar reações químicas e na sua variação provocar a dilatação e contração dos materiais, causando-lhes estresse físico.

Durante o enterramento o material passa por um processo natural de alterações e com passar do tempo cria-se um equilíbrio. Essa interação entre meio e o objeto nunca cessam por completo, mas a sua aceleração diminui consideravelmente conforme passar do tempo. Quando um material é recuperado do contexto arqueológico, ele passa por uma drástica mudança ambiental em que os fatores de degradação podem começar a agir rapidamente sobre eles. A madeira, por exemplo, tem boas possibilidades de preservação em ambiente ácidos ou mesmo alcalinos, desde que este seja um ambiente molhado e com pouca presença de ozônio. Ao retirar esse objeto deve-se ter extremo cuidado pois, uma mudança drástica para um ambiente incorreto pode acarretar o colapso da estrutura e consequente perda do objeto. No planejamento de uma escavação um conhecimento prévio das características do sitio arqueológico é um diferencial na conservação do objeto, dando assim a possibilidade do conservador se preparar para casos mais delicados.

As medidas de conservação apresentadas abarcam não apenas os objetos móveis, mas levam em consideração também os registros arqueológicos imóveis, como estruturas e pinturas murais. Durante o processo de desenterramento o objeto é evidenciado progressivamente a medida que as camadas de terra são retiradas. Pode levar dias até que este seja completamente retirado do solo, trazendo assim, implicações a conservação do objeto que fica exposto a ambientes diferentes. Nesse caso é preciso um olhar atento para perceber o comportamento desse objeto, e se necessário aplicar alguns cuidados, como a instalação de algum tipo de cobertura além de processos de estabilização ou consolidação.

As coberturas ajudam a evitar a incidência excessiva de luz solar, chuva e até mesmo neve. Alguns tipos podem inclusive ajudar no controle de umidade relativa e temperatura. É importante ressaltar que a eficiência do abrigo vai depender diretamente do material utilizado para a sua construção, assim como as próprias características ambientais do local onde ocorre a escavação. No caso de estruturas, ainda há a possibilidade desses abrigos serem utilizados na proteção do sítio a longo prazo. No capítulo seis Covering and Shelters, encontramos indicações dos possíveis materiais a serem utilizados na construção dos abrigos, assim como possibilidades de construção.

Nesse processo de equilíbrio do objeto com o meio, o solo pode representar um papel importante na estabilidade estrutural do objeto. Consequentemente, muitos remanescentes arqueológicos durante e depois de sua retirada do solo podem apresentar uma certa fragilidade, fazendo-se necessário medidas de estabilização. Ela acontece com uma intervenção na estrutura do material, utilizando-se de meios de escoramento, bandagens e até mesmo cintas. Ou uma intervenção mecânica, envolvendo a utilização pontual de um material aderente. A decisão de qual a melhor forma de se estabilizar deve levar em conta as necessidades que se apresentarem e observar como ela funciona a longo prazo, tendo em vista que qualquer decisão deve permitir a continuação do trabalho do arqueólogo e ser reversível.

A consolidação envolve ações que visam devolver ao material as suas propriedades naturais, permitindo a sua manutenção. No entanto, os autores nos alertam para a subjetividade dessa definição e lembram que as características originais do objeto não podem ser recuperadas. Toda ação de conservação deve ser bem pensada e executada. No caso do excesso de consolidantes num objeto, alterações físicas e químicas podem acomete-lo, provocando a sua deterioração a longo prazo. A consolidação pode acontecer em objetos, pinturas murais e mosaicos, como também nas paredes estratigráficas do sítio arqueológico, sendo esta técnica de alta complexidade. É preciso entender o estado em que esse material se apresenta, conhecer as propriedades do adesivo a ser utilizado e decidir pelo melhor método de aplicação. Utiliza-se a impregnação quando se deseja substituir a perda do ligante original do material e a injeção para o preenchimento de fissuras ou rachaduras. É oferecido ao leitor no apêndice quatro do livro, um método de preparação dos consolidantes que podem ser utilizados e suas concentrações

Quando falamos de biodegradação estamos acostumados a pensar em micro-organismo, mas na conservação de sítios arqueológicos é preciso levar em conta também os macro-organismos. Plantas trepadeiras e outros tipos de vegetação que, podem provocar a desintegração ou decomposição dos materias. O fenômeno da biodegradação acontece em relação a outros fatores como temperatura favorável e acúmulo de umidade. Uma forma de tratar esse problema é agindo sobre esses fatores, sendo este um método indireto que atua no ambiente que propicia essas manifestações. Em casos como grandes estruturas onde o controle do ambiente é difícil, podem ser aplicados métodos diretos que implicam em ações sobre o objeto. Atentando sempre para fato de o tratamento não ser mais prejudicial ao material do que a própria biodegradação.

A limpeza faz parte da escavação arqueológica, mesmo se limitando a uma pré higienização do objeto e esta pode oferecer risco quando aplicada de maneira abusiva. A limpeza é uma ação irreversível, ela nunca deve ser executada para se ter um objeto mais limpo, mas sim com o objetivo de tornar as suas características mais compreensíveis. Existe a técnica de limpeza seca utilizando-se pequenos pinceis, a limpeza úmida com o auxílio de esponjas, tendo-se o cuidado para não abrasonar a superfície dos objetos. O tipo de limpeza mais comum é a molhada, onde ocorre a submersão dos objetos em água. Ela é desaconselhada em alguns materiais como metais ou vidros com iridescência. Os autores ainda salientam que a água é um solvente universal eficiente, não havendo necessidade de submeter o material a outros solventes orgânicos.

Após a limpeza, os materiais devem ser adequadamente colocados em embalagens que não interajam com os achados arqueológicos, além de separados por tipologia. As peças que são guardadas úmidas devem ter furos em suas embalagens permitindo a circulação de ar. Ao guardar um objeto molhado que deva permanecer dessa forma, deve-se usar embalagens selantes que mantenham a umidade. Essas mesmas embalagens também podem ser usadas para objetos secos que não podem ser expostos à umidade, com o auxílio de sílica gel. É preciso estar atento à documentação e registro desses materiais, tanto o registro arqueológico quanto as informações de conservação que podem ser desde observações feitas durante a escavação, até intervenções realizadas no objeto in situ. É preciso também saber as condições do armazenamento que esse material recebe até chegar a sua área de guarda. Mesmo que sejam guardados temporariamente num espaço, podem ocorrer danos devidos as condições ambientais adversas como chuva, temperatura e umidade relativa incorreta. Sempre ressaltado que esses depósitos temporários de fato devem se comportar como temporários e que o material fique o mínimo de tempo possível neles.

Ainda em 1990 a Carta de Lausanne nos coloca a necessidade da conservação dos sítios arqueológicos, preservando esse patrimônio em seu contexto original, tendo em vista a necessidade contínua de sua gestão e manutenção. No capítulo Long-Term Conservation of Site Features sãos apresentadas as dificuldades envolvidas nas ações de preservação desses sítios arqueológicos. Podendo-se fazer o re-enterramento, nesse caso é necessário considerar o material que será utilizado, pois não deve prejudicar os registros arqueológicos que permanecem em campo ao mesmo passo que permite futuras escavações. E mesmo para aqueles que são deixados a exposição ou grandes estruturas, questões de logística, orçamento e profissionais precisam ser observados para que haja uma manutenção e preservação desses espaços.

O livro tem uma grande amplitude no seu desenvolvimento, desde a preparação para escavação, degradação dos materiais, características do solo, consolidação de objetos e estruturas, passando por prevenção de ataques biológicos e incluindo ações de preservação posteriores ao sítio. Ele se constitui como um importante guia para o conservador, entretanto não aplaca a necessidade de se aprofundar nos temas expostos, assim como a ir a campo e adquirir experiência em escavações arqueológicas. As ações que envolvem a conservação em escavações são complexas e demandam uma grande área de conhecimento. E da mesma forma que a conservação deve ser vista desde o início da escavação, também deve prorrogar-se além dela. Para preservação dos materiais escavados será necessário pensar numa conservação a longo prazo envolvendo o acondicionamento desse material, sua conservação preventiva e mesmo a necessidade de restaurações. Ainda se faz necessário uma bibliografia brasileira que trate especificamente da conservação em escavações arqueológicas que trate das particularidades dos sítios brasileiro.

Referências

ICOMOS, Carta para a proteção e a gestão do patrimônio arqueológico ICOMOS/ICAHM. Carta de Lausanne, 1990. Disponível em: <http://portal.iphan.gov.br/portal/baixaFcdAnexo.do?id=262>. Acesso em: Mar. 2015.

PEDELI, C.; STEFANO, P. Conservation Pratices on Archaelogical Excavation – Principles and Methods. Translated by: Erik Risser. Los Angeles: The Gatty Conservation Institute, 2013.

Paula de Aguiar Silva Azevedo –  Graduanda do Curso de Conservação e Restauração de Bens Culturais Móveis da Universidade Federal de Pelotas (UFPEL), Brasil. Bolsista do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), Brasil; de Iniciação Científica no Laboratório de Ensino e Pesquisa em Antropologia e Arqueologia da Universidade Federal de Pelotas (LEPAARQ-UFPel), Brasil.

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[MLPDB]

Histories of poliomyelitis / História Ciências Saúde — Manguinhos / 2015

En las últimas décadas la producción historiográfica latinoamericana asiste a un proceso de renovación de la agenda de los historiadores en clave teórica, metodológica, pero también temática. La nueva historia de la salud y la enfermedad ha sido parte del mencionado proceso al ser uno de los sub campos historiográficos que mayor desarrollo y difusión ha logrado en los últimos tiempos.

Esto, en parte (solo en parte) resulta del hecho de ser las enfermedades, en su estado endémico o epidémico, un prisma de excelencia para analizar las políticas sanitarias, puesto que permiten ponderar el tipo de políticas públicas que modelaron los Estados, evaluando las formas de intervención que los mismos asumieron o escogieron para actuar frente a determinadas situaciones sanitarias. Pero como toda acción o inacción del aparato estatal genera reacciones sociales frente a los embates epidémicos, dichas reacciones asumen una intensidad distinta, donde las construcciones culturales en torno al proceso de salud – enfermedad, a la muerte, a la cura, al valor de la vida – cobran una visibilidad diferente. Como también, adquiere una tonalidad llamativa el mundo de la medicina, puesto que una epidemia pone a prueba conocimientos, capacidades institucionales, perfiles profesionales, tecnologías etc. Pujas y acuerdos entre el poder político y la corporación médica es solo una parte del problema que acarrean las situaciones de crisis sanitarias, puesto que los desencuentros no solo se pueden vislumbrar entre el poder político y el poder médico, sino dentro de ambos poderes se abren gritas y se tejen nuevas alianzas que dan origen a intervenciones en el seno social. De allí entonces las riquezas y potencialidades de este enfoque.

Desde el punto de vista historiográfico, y dentro del campo de las enfermedades infecto-contagiosas, las que se desarrollaron entre fines del siglo XIX y principios del XX han recibido gran atención por parte de los historiadores. Pero las epidemias del siglo XX, la centuria donde se inscribe el triunfo de la higiene, está en sus inicios. En este sentido, el siglo XX, que había comenzado caracterizado por un gran optimismo médico y social en torno al control de las infectocontagiosas, encendió sus signos de alarma frente a los embates de una enfermedad que sin piedad atacaba básicamente a los más pequeños. La infancia, estaba en peligro, justo en un momento cuando el mundo entero abogaba por la necesidad de establecer una protección integral mediante la consolidación de sus derechos, de su identidad. Una enfermedad parecía ensañarse con ellos: la poliomielitis. No eran los únicos, los adultos también padecían poliomielitis, pero el hecho de que los niños fueran afectados, despertó una serie de sensibilidades en torno a esta dolencia que pocas enfermedades estimularon.

Además, con ciertos particularismos, como el hecho de observarse desde finales del siglo XIX que la poliomielitis afectaba más a las poblaciones con cierto nivel socio económico, mientras que pasaba casi desapercibida en las poblaciones más pobres. El concepto de enfermedad y suciedad, que iba junto con el de enfermedad infecciosa, no parecía cumplirse en este caso. Puesto que, a mediados del siglo XX, la consolidación de la medicalización de las sociedades y del sanitarismo, en general, expresaban (para la mayoría de los países) una mejora higiénica y sanitaria, frente a este “triunfo de la higiene” aumentaba la frecuencia de la poliomielitis paralítica.

Por lo expuesto, y teniendo en cuenta que la propagación de la poliomielitis fue común tanto en Europa como en América Latina, entendemos que sería un gran aporte historiografico reunir un grupo de trabajos que ahonden en esta enfermedad de los tiempos modernos como forma de mostrar su estado en Iberoamérica, de fortalecer la recién formada Red de Estudios de la Polio y de la Síndrome Pospolimielitis en Iberoamérica, pero también como forma de mostrar los cambios e incorporaciones en la agenda de la Nueva Historia de la Enfermedad.

La reunión de trabajos sobre poliomielitis en Iberoamérica, desde el punto de vista historiográfico, constituye un gran desafío, cuyas potencialidades se centran en mirar de forma ampliada y comparada la poliomielitis y sus legados sociales e institucionales en un marco que involucra a sociedades y modelos de Estado diferentes, con generación de políticas públicas semejantes, con análogas respuestas de organización ciudadana. Este último aspecto intensifica la necesidad de un enfoque global con el fin de abocarnos a la búsqueda de interpretaciones integrales.

Los artículos compilados en este dossier son indicativos del interés de los investigadores iberoamericanos en la historia de la poliomielitis y de el sídrome pospolio y del grado de desarrollo de la temática. Además, el dossier pretende ser una instancia para reinstalar el debate sobre “la polio” y el síndrome pospolio en los ámbitos académicos, puesto que en 2014 se cumplieron 20 años, desde que América Latina fue declarada libre de la enfermedad.

Adriana Alvarez – Universidad Nacional de Mar del Plata, Conicet

Dilene Raimundo do Nascimento – Casa de Oswaldo Cruz / Fiocruz 


ALVAREZ, Adriana; NASCIMENTO, Dilene Raimundo do. Lo ganado y lo perdido después de dos décadas desde que América Latina fue declarada zona libre de poliomielitis. História, Ciências, Saúde – Manguinhos, Rio de Janeiro, v.22, n.3, jul. / set., 2015. Acessar publicação original [DR]

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A invenção da terra | Franco Farinelli

Em capítulos curtos, de forma poética, o geógrafo Franco Farinelli discorre sobre os principais conceitos da ciência geográfica: a forma da Terra, suas medidas, sua representação cartográfica, a paisagem, a economia, a globalização dos territórios e das nacionalidades, o espaço e as redes. O que mais chama a atenção é a forma como realiza essa construção, acompanhando as diversas aproximações humanas e seus discursos a respeito da realidade: mitos, narrativas, literatura de viagens vão sucedendo-se nos diversos momentos da História da Humanidade e, em cada um deles, o conhecimento do real suplanta a necessidade de metáforas para justificar o que não se sabe, chegando-se, com Kant, ao conhecimento científico. Leia Mais

Le “nouveau” Front National: Etude de la nouvelle ligne du parti à travers le discours de Marine Le Pen | Elodie Trojanowski

O livro “A nova Frente Nacional: Estudo da nova linha do partido através dos discursos de Marine Le Pen”, da autora francesa Elodie Trojanowski, nos oferece uma análise sobre as mudanças dos discursos do partido de direita radical francês Frente Nacional, após a sucessão da presidência do partido por Marine Le Pen. Para tanto a autora também analisa a mudança da linha política desenvolvida por Marine Le Pen. A obra é fruto da sua dissertação de mestrado em jornalismo, porém sua pesquisa se enquadra dentro do âmbito das ciências políticas. Seu mestrado foi desenvolvido na Universidade Católica da Lovaina2, localizada no interior da Bélgica. Seu livro, composto de 118 páginas, foi publicado pela Editora Universitária Europeia3 em abril de 2014.

Para tanto, a autora estabeleceu um método rigoroso de estudo quando escreveu sua obra, a partir da crítica aos discursos oficiais do partido, como também a seleção de diversas entrevistas concedidas por Marine Le Pen, de vídeos postados no site da Frente Nacional e discursos de Marine Le Pen durante a as eleições presidenciais francesas em 2012. Elodie Trojanowski buscou em sua pesquisa analisar individualmente cada um dos discursos proferidos por Marine Le Pen e separa-los pelas novas temáticas escolhidas pela líder da FN, procurando traçar um paralelo com a antiga linha discursiva do partido, liderado por seu pai Jean-Marie Le Pen.

Tal investigação mostra-se relevante e pertinente para os estudiosos das ciências políticas, como também de extrema importância para os historiadores especializados na direita radical europeia, uma vez que, como a própria autora salienta na Introdução da obra, por se tratar de um fenômeno recente, em pleno acontecimento – enquadrado por nós historiadores como pertencente a história do tempo presente – ainda há poucos estudos que procuram investigar a mudança ideológica e discursiva da atual direita radical no século XXI.

O recorte de pesquisa escolhido pela autora, se enquadra no período em que a presidente do FN, Marine Le Pen ascendeu a presidência do partido em 2011, quando venceu seu adversário Bruno Gollnisch no Congresso Nacional do partido. Após vencer as eleições Marine Le Pen colocou em prática um projeto de desdiabolização da FN. Esse método consiste em um processo de transformação da imagem do partido, que outrora – durante quatro décadas da existência da agremiação política – esteve intrinsicamente ligado às práticas xenófobas, racistas e antissemitas. Nesse sentido Elodie Trojanowski trabalha para analisar se esse âmbito de mudanças da FN na figura de Marine Le Pen, acontece apenas no nível discursivo, se ele é inventado para definir uma nova identidade ou se existe uma ruptura real com as antigas concepções radicais, se elas são concretas.

A obra nesse percurso de investigação se coloca na posição de estudar comparativamente a ideologia desenvolvida pelo FN. Através de uma análise de discursos políticos da Presidente da Frente Nacional, o estudo é feito de forma detalhada, buscando nos discursos as palavras de ordem, como elas são colocadas, como as novas temáticas adotadas pelo partido são apresentadas e manipuladas para terem efeito positivo e atraírem votos para a FN. E como a partir dessa nova leitura da conjuntura e a nova linha discursiva da Frente Nacional se destaca o abandono de determinados temas e sua substituição por novos bodes expiatórios, como a União Europeia e a imigração muçulmana, por exemplo. A autora relativiza como a Marine Le Pen utiliza o contexto de crise econômica, social e política da França, para aumentar sua base eleitoral e como o partido tem diminuído seu tom agressivo e extremista, se diluindo em uma posição próxima a direita nacionalista. Desta forma a autora se dedica a fazer um levantamento do novo vocabulário desenvolvido por Marine Le Pen e cria um banco de dados contabilizando o uso dessas palavras e o quanto elas aparecem e permeiam grande parte dos seus discursos.

A criação do partido Frente Nacional foi inspirada no sucesso eleitoral do partido neofascista italiano Movimento Sociale Italiano (MSI). O início do partido começou com grupos distintos, incluindo membros do governo de Vichy, opositores do general de Gaulle, membros do movimento Poujadista, neofascistas, militantes da Federação dos Estudantes Nacionalistas, militantes do Jovem Nação e ativistas que não possuíam vinculo partidário mas simpatizavam com a ideia de organizar um partido de extrema direita. O início da FN começou sob liderança de Jean-Marie Le Pen e François Duprat.

No processo de construção do projeto político do FN, podemos perceber também que além da questão militar para reforçar o nacionalismo, o partido procurou construir outros símbolos, principalmente buscar heróis na história da França, personalidades históricas que pudessem reforçar, simbolizar o novo nacionalismo desenvolvido pelo FN. Nesse processo de busca para encontrar heróis, vemos o fortalecimento do catolicismo dentro do partido. Para representar o FN, foi escolhida a figura de Joana D’arc, como símbolo que representasse o nacionalismo do FN, uma heroína francesa, nacionalista, católica, devota à nação, que sacrificou sua vida em prol da liberdade do país, sem ter qualquer ação individualista, a nação acima de qualquer desejo individual. A escolha de Joana D’arc também passa pela questão da busca pela tradição histórica do país, demonstração de orgulho com o passado histórico. A escolha do símbolo do partido é também uma forma de procurar unir todas as células dentro do partido, colocando um novo foco a ser seguido, supondo que essa nova escolha conseguisse superar antigas figuras como Napoleão Bonaparte, Marechal Pétain, General Boulanger, Charles Maurras e Pierre Laval.

No sentido do nacionalismo do FN, o partido procurou se posicionar em defesa dos cidadãos naturais franceses. Podemos aqui pontuar que tal sujeito defendido pelo FN seria: o cidadão francês que provenha de uma longa geração de franceses (podemos indicar aqui que isso seria o francês branco caucasiano), católico, nacionalista, identificado com sua terra, um cidadão orgulhoso de suas raízes e identificado com a História da França, valoriza o desenvolvimento da nação acima da vontade individual4.

Para Jean-Yves Camus a questão da nação é algo central no FN, o nacionalismo para a FN é o principal ponto de referência ideológico, podemos afirmar que a ideia da nação é o ponto vital, é a fonte principal de luta e é fundamental para o discurso do partido5. Dar ênfase à nação é a questão chave para ocupar os espaços deixados pelos outros partidos. A defesa da nação como pauta da agenda política do FN tem dois objetivos: o primeiro é para legitimar a ideia do nacionalismo pertencer à FN, e quando outro partido utiliza dessa tática o FN sai em defesa da sua ideia acusando a oposição de apropriação política. O segundo objetivo é obrigar outros partidos a também fazerem um discurso que saia em defesa da soberania nacional6.

A FN tem como principal ideológica, a defesa da identidade nacional, no qual segundo ela estaria ameaçada pela imigração, internacionalização do comércio, a globalização, enesse sentido defende o retorno do “glorioso” nacionalismo francês. Em seu alegado plano de defender a França, lançavam-se contra seus inimigos internos (anteriormente judeus, maçons e protestantes, agora imigrantes, principalmente árabes e muçulmanos) e os inimigos externos (expeculação internacional e as forças das multinacionais e do corporativismo). A FN defende valores tradicionais e instituições as quais, segundo ela, devem se basear a identidade francesa nos principios de família exército, autoridade e catolicismo.7

O livro de Elodie Trojanowski é dividido em quatro capítulos. No primeiro capítulo a autora faz uma sistematização da história da Frente Nacional, citando os principais sujeitos que constituiu o partido durante sua criação na década de 1970. Talvez uma abordagem com maior capricho no que diz respeito aos mais de 40 anos da história da Frente Nacional pela autora seria necessária, para que o leitor que desconhece a história da Frente Nacional conseguisse visualizar de forma mais abrangente a história institucional do partido. Mesmo o primeiro capítulo necessitando de maior atenção, a autora utiliza a bibliografia correta e obrigatória para qualquer pesquisador que pretende estudar a Frente Nacional, utilizando autores como Nonna Mayer, Pascal Perrineau, Michel Winock e Pierre Taguieff para apresentar as principais características da direita radical francesa e suas raízes históricas.

Ainda no primeiro capítulo Elodie Trojanowski procura apresentar o debate sobre a direita radical na França, abordando as diferentes formas como ela se apresentou no país. Ela aponta os diferentes grupos que existiram, como o movimento monarquista Ação Francesa e também faz menções a Revolução Nacional, durante a ocupação alemã na Segunda Guerra Mundial. Ela também procura descrever o conceito de populismo que é utilizado na Europa para caracterizar alguns partidos de direita radical. E para finalizar ela discute as características de Jean-Marie Le Pen.

No segundo capítulo a autora francesa demonstra seu método de análise dos discursos da Marine Le Pen. A metodologia escolhida pela autora para a análise discursiva da presidente da Frente Nacional se divide em várias etapas. Elodie Trojanowski separa os discursos em duas categorias, os discursos para a mídia e que foram divulgados pela internet, que ao todo são os 12 maiores discursos de Marine Le Pen e o segundo grupo são 4 discursos feitos por Marine Le Pen aos militantes do partido.

A autora trabalhou comparando os discursos e elencou as principais temáticas que aparecem na fala da líder da Frente Nacional e que são amplamente exploradas durante a a campanha presidencial. Os principais temas apresentados pela autora são; Violência Social, Globalização, Economia, Justiça, Nação, Vida em Sociedade, Imigração, Família, Liberdade, História da França, Cultura, Valores, Hierarquia e Democracia. Com essa definição e recorte do que investigar a autora do livro monta uma tabela onde enumera a quantidade de vezes em que cada temática aparece na fala de Marine Le Pen e também avalia a forma como ele é apresentado, se aparece de forma positiva ou se o tom do discurso é negativo, buscando induzir os eleitores a acreditar em suas alegações.

Nesse formato de investigação a autora contribui para os pesquisadores pois apresenta como algumas temáticas são manipuladas de acordo com o público presente, ou seja, de acordo com o setor político ou social em que se encontra o público da Frente Nacional, o discurso de Marine Le Pen pode ser mais apelativo para o lado sentimental ou pode reforçar a temática para reforçar a posição assumida por um setor. Um exemplo dessa distorção do discurso pode ser evidenciado nos discursos da Frente Nacional aos trabalhadores, quando Marine Le Pen defende a ampliação dos direitos trabalhistas e da garantia dos investimentos do Estado em políticas públicas. E quando a presidente da Frente Nacional fala para os empresários e comerciantes ela defende a redução dos tributos e a proteção do Estado para o crescimento da economia.

No terceiro capítulo a autora apresenta individualmente os resultados das análises quantitativas das temáticas recortadas por ela, demonstrando estatisticamente de que forma cada temática aparece, quantas vezes ela foi utilizada ou apareceu com maior ou menor incidência nos discursos políticos de Marine Le Pen. Além disso ao apresentar as temáticas, a autora também demonstra uma interpretação da conjuntura política e coloca como são construídos os discursos e as formas como eles se desenvolvem na medida que Marine Le Pen acerta a forma de abordagem e como ela modifica a estratégia quando não alcança os resultados esperados.

Notas

1 Doutorando em História na Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul – PUC/RS, na linha de pesquisa Sociedade, Urbanização e Imigração, orientado por Leandro Pereira Gonçalves. Bolsista CNPq. E-mail guilherme_andrade@hotmail.com

2 Université Catholique de Louvain.

3 EUE- Édition Universitaire Européenes.

4 FRONT NATIONAL, Défendre les Français, C’est le programme du Front National. Front National, no. 3, 1973.

5 CAMUS, Jean-Yves. Origine et formation du Front National…op.cit. pg.17

6 Idem, pg.18.

7 HAINSWORTH, Paul. The extreme right in France: The rise and rise of Jean-Marie Le Pen’s Front National. Representation, 40. 2004, p.44.

Referências

BIRENBAUM, Guy. Le Front National em Politique. Paris, Balland, 1992.

BOURSEILLER, Christophe. Extrême Droite: l’enquête. Paris, Editions François Bourin, 1991.

CAMUS, Jean-Yves. Origine et formation du Front National (1972 – 1981) in MAYER, N;

PERRINEAU, P. Le Front National à découvert. Paris, Presses de la FNSP, 1989.

FRONT NATIONAL, Défendre les Français, C’est le programme du Front National. Front National, no. 3, 1973.

HAINSWORTH, Paul. The extreme right in France: The rise and rise of Jean-Marie Le Pen’s Front National. Representation, 40. 2004.

TROJANOWSKI, Elodie. Le “nouveau” Front National: Etude de la nouvelle ligne du parti à travers le discours de Marine Le Pen. Saarbrucken, Editions Universitaires Européennes, 2014.

Guilherme Ignácio Franco de Andrade – Doutorando em História na Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul – PUC/RS, na linha de pesquisa Sociedade, Urbanização e Imigração, orientado por Leandro Pereira Gonçalves. Bolsista CNPq. E-mail guilherme_andrade@hotmail.com


TROJANOWSKI, Elodie. Le “nouveau” Front National: Etude de la nouvelle ligne du parti à travers le discours de Marine Le Pen. Saarbrucken: Editions Universitaires Européennes, 2014. Resenha de: ANDRADE, Guilherme Ignácio Franco de. Vozes, Pretérito & Devir. Piauí, v.4, n.1, p. 158- 163, 2015. Acessar publicação original [DR]

 

Variações em torno da Modernidade / Em Tempo de Histórias / 2015

Apresentação

É com satisfação que apresento o dossiê – Variações em torno da modernidade. Os artigos resultam de trabalhos de alunos do curso de graduação em História da Universidade de Brasília, apresentados na disciplina História Moderna. Após o término do curso, em 2012, propus aos alunos que aprofundassem o trabalho, sob minha orientação, como participantes do grupo de pesquisa do CNPQ Tradição e Modernidade. Diante do entusiasmo, passamos a nos reunir regularmente para discussões conjuntas e aprofundamento das pesquisas. Desse trabalho, dois resultaram em monografias de graduação e um em pesquisa desenvolvida no âmbito do Programa de Iniciação Científica. As reuniões propiciaram um contato produtivo entre alunos da graduação e da pós-graduação.

Além da disciplina obrigatória História Moderna, esses alunos cursaram disciplinas optativas da área, por mim oferecidas, e atuaram como monitores. Ao longo de dois anos, o desenvolvimento intelectual dos alunos foi significativo. E para mim, o acompanhamento dos seus trabalhos foi uma experiência gratificante.

Finalmente, diante de amadurecimento dos textos, pensei ser estimulante para os alunos a publicação do resultado das suas pesquisas. Atualmente, alguns desses alunos estão cursando a Pós-Graduação na Universidade de Brasília outros se preparam para o ingresso neste ano.

Os textos apresentados inserem-se na área de História Intelectual e tratam da diversidade de ideias desenvolvidas na Europa moderna. Todos apresentam uma reflexão baseada na historiografia recente sobre os temas tratados, suscitando novas questões e desdobramentos. A preocupação com o contexto histórico de produção dos autores examinados caracteriza uma opção metodológica no âmbito da reflexão sobre ideias.

Os textos de Eduardo Ubaldo Barbosa – O momento Burke. Notas para a história de um Iluminismo contrarevolucionário –, e o de Pedro Henrique Soares Santos – Adam Smith e a sociedade comercial -, dialogam criticamente com determinadas correntes historiográficas e examinam o pensamento dos autores em seus respectivos contextos histórico-intelectual.

Pedro Eduardo Batista Ferreira da Silva, no artigo James Harrington e a tradição republicana na Inglaterra do século XVII, recupera a tradição republicana inglesa no século XVII.

José Lourenço de Sant’Anna Filho no artigo Inimigos da Luz examina o pensamento do editor do jornal pernambucano A Voz da Religião, padre Tavares da Gama, identificando-o como um representante do pensamento antifilosófico no Brasil oitocentista.

Finalmente, Guilherme Domingues Gonçales, no artigo Iluminismo nos livros didáticos brasileiros, analisa o tema Iluminismo nos livros didáticos brasileiros e sugere o distanciamento dos conteúdos presentes nos livros didáticos em relação às pesquisas acadêmicas.

Dra. Tereza Cristina Kirshner

Universidade de Brasília

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Patrimônio, pesquisa e cidadania / Revista do Arquivo Público Mineiro / 2015

O Dossiê deste volume celebra os 120 anos do Arquivo Público Mineiro (APM). Essa comemoração não só destaca os múltiplos significados dos arquivos públicos na sociedade contemporânea, como também propõe um momento de reflexão a respeito dos desafios enfrentados e a forma de superá-los. São quatro os textos que remetem a esses tópicos.

O primeiro artigo aborda, em seus desdobramentos, a construção da atual sede do APM e do prédio anexo. A história custodial do acervo, como costuma ocorrer, não foi linear. Recolhido em 1895, o acervo da instituição permaneceu alguns anos na casa de seu criador, José Pedro Xavier da Veiga, sendo, depois, deslocado para Belo Horizonte, nova capital mineira desde 1897. Nesta cidade, vários foram os locais que serviram de sede para o APM, sempre enfrentando o desafio – como revela Mariana Bracarense, autora desse texto – de ampliar os espaços para o depósito dos valiosos fundos e coleções. Leia Mais

Por uma teoria e uma história da escola primária no Brasil: investigações comparadas sobre a escola graduada (1870-1930) – SOUZA et al. (RBHE)

SOUZA, R. F.; SILVA, V. L. G.; SÁ, E. F. (Org.). Por uma teoria e uma história da escola primária no Brasil: investigações comparadas sobre a escola graduada (1870-1930). Cuiabá: EdUFMT, 2013. 326 p. Resenha de: ERMEL, Tatiane de Freitas. Revista Brasileira de História da Educação, Maringá, v. 15, n. 1 (37), p. 343-349, jan./abr. 2015.

A obra intitulada Por uma teoria e uma história da escola primária no Brasil: investigações comparadas sobre a escola graduada (1870- 1930), organizada pelas pesquisadoras Rosa Fátima de Souza, Vera Lúcia Gaspar da Silva e Elizabeth Figueiredo de Sá é fruto do projeto de pesquisa ‘Por uma teoria e uma história da escola primária no Brasil: investigações comparadas sobre a escola graduada (1870-1930) – CNPq’, coordenado por Rosa Fátima de Souza. Publicada em 2013, consiste em um trabalho de fôlego, composto por nove capítulos, escritos por 23 autores, envolvendo 15 Estados brasileiros: Acre, Maranhão, Piauí, Minas Gerais, São Paulo, Mato Grosso, Goiás, Rio Grande do Norte, Paraíba, Sergipe, Bahia, Rio de Janeiro, Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul. O objetivo principal deste estudo visa compreender o processo de institucionalização das escolas graduadas em diferentes Estados, modos de circulação e apropriação de inovações e modelos pedagógicos.

No primeiro capítulo, ‘A escola modelar da República e a escolarização da infância no Brasil: reflexões sobre uma investigação comparada em âmbito nacional’, de autoria de Rosa Fátima de Souza, temos uma apresentação geral dos estudos, com explicação do projeto e as categorias de análise: o primeiro aborda os grupos escolares na História da Educação no Brasil e sua constituição como objeto de estudo. O segundo abarca questões teórico-metodológicas da história da educação comparada. No terceiro é apresentada a trajetória de pesquisa a partir dos quatro grupos temáticos organizados pelos pesquisadores: “[…] GT1 – Estudo do significado das iniciativas de adoção e das práticas geradas pelo método intuitivo e seus desdobramentos e inflexões a partir da difusão da escola nova; GT2 – exame da materialidade da escola primária graduada pelo estudo da cultura material escolar; GT3 – análise das representações sociais sobre os grupos escolares; GT4 – estudo da institucionalização da escola graduada nos vários estados do Brasil, considerando as reformas educacionais, a expansão das instituições escolares, a organização pedagógica e a relação entre os vários tipos de escolas primárias – escolas isoladas, reunidas, grupos escolares e escolas municipais, estaduais e privadas” (SOUZA, 2013, p. 38).

No quarto e último tópico, a autora coloca pontos importantes para a discussão da escola primária graduada e o desenho de uma nova agenda de investigação, privilegiando as análises comparadas, uma revisão das interpretações instituídas sobre o modelo de grupo escolar e a consideração do sentido de modernidade educacional, instituído na escola primária.

O segundo capítulo, ‘Os grupos escolares nas memórias e histórias locais: um estudo comparativo das marcas de escolarização primária’, de autoria de Antônio Carlos Ferreira Pinheiro, Antônio de Pádua Carvalho Lopes, Luciano Mendes Faria Filho e Fernando Mendes Resende, aborda os grupos escolares como acervo educacional brasileiro, priorizando os Estados de Minas Gerais, Piauí e Paraíba. Analisa essas instituições e seus movimentos de rompimento, modernidade e nova tradição educacional e escolar. Ainda, discute os grupos escolares enquanto foco nas pesquisas universitárias, na década de 1990, trazendo a necessidade de constituição de lugares de memória, de acordo com as reflexões propostas pelo historiador Pierre Nora.

Os autores buscam registros dos grupos escolares nos livros de história local e na perspectiva dos memorialistas. O material analisado compreende livros de história local (município, cidade) de 1910 a 2000 e livros de memória, de 1940 a 2000, totalizando 196 exemplares. O material aborda a fundação e a descrição física dos grupos escolares; seus primeiros professores; a memória de ter sido aluno; novas práticas pedagógicas; cultura material e cultura escolar; fiscalização do trabalho docente e eficácia do ensino; assim como a competição que os grupos escolares terminariam por estimular com outros tipos de escola. Os autores identificaram a fundação dessas instituições como momento marco na história da educação do município/cidade e a presença do nome lavrado nos prédios, que nem sempre eram adequados. Sobre os/as primeiros/as professores/as, eram descritos/as como exigentes, caprichosos/as, dedicados/as e eficientes. As memórias de alunos priorizaram os pioneiros, os nomes de colegas, os dias de prova, as transgressões às normas e idas à diretora. Com relação às práticas pedagógicas nos grupos escolares, destacam a formação e qualificação nas Escolas Normais, dentro dos princípios de inovação, modernização e atualização do professorado.

No terceiro capítulo ‘A escola primária e o ideário Republicanista nas mensagens dos Presidentes dos Estados (1893-1918)’, os autores José Carlos Araújo, Rosa Fátima de Souza e Rubia-Mar Nunes Pinto, analisam a relativa amplitude nacional a respeito da institucionalização dos grupos escolares no Brasil, a partir das mensagens dos presidentes das províncias. A investigação compara o ideário republicanista veiculado em dez Estados e um território (Acre), nos respectivos anos de instauração dessas instituições. Ainda, problematiza os modelos de república existentes e os princípios do federalismo. As mensagens analisadas entre 1895 e 1926, via de regra, são descritivas em relação ao andamento administrativo anual. A novidade escolar brasileira, desde o final do século XIX, foi a reunião de escolas em um só prédio, o ensino agrupado em centros populosos e a inadequação dos prédios e a falta de mobiliário. Os autores concluem que as mensagens apresentam os grupos escolares como modelo, a instrução primária como instrumento civilizatório, a necessidade de modernizar o método de ensino e o número elevado de escolas isoladas, apresentando um modelo de desigualdade e disputas entre poderes municipais e estaduais.

O quarto capítulo, ‘O Federalismo Republicano e o financiamento da Escola Primária no Brasil’, de autoria de Jorge Nascimento e Lúcia

Maria Franca Rocha, tem como objetivo analisar o financiamento da educação em 11 Estados, estabelecendo uma comparação entre cinco deles – Bahia, Goiás, Mato Grosso, Rio de Janeiro e Sergipe. Salienta um silêncio dos estudos sobre financiamentos na historiografia, destacando que essa questão era central nos discursos sobre a instrução primária (edifícios escolares, pagamento dos docentes e outros servidores). A análise da documentação evidencia que os maiores gastos com a instrução pública eram com os edifícios escolares, sendo também significativos o com a inspetoria escolar (passagens/diárias). O financiamento da instrução pública também vinha de associações de homens entusiasmados, assinalando construções pelas associações de profissionais liberais, campanhas para arrecadações e doações de mansões, como, por exemplo, o Grupo Escolar Valadão, inaugurado em 1918, construído pela iniciativa particular e depois doado ao Estado.

O quinto capítulo, ‘A expansão da Escola Primária Graduada nos Estados na 1ª República: a ação dos poderes públicos’, de Alessandra Frota Martinez de Schueler, Elizabeth Figueiredo Sá e Maria do Amparo Borges Ferro, analisa a atuação marcante dos poderes locais (indivíduos, grupos sociais, familiares e municipalidades) nos processos de criação e implementação de escolas em suas diferentes modalidades. Foram 11 Estados abordados (Rio de Janeiro, São Paulo, Minas Gerais, Goiás, Mato Grosso, Bahia, Rio Grande do Norte, Maranhão, Sergipe, Piauí, Acre), merecendo destaque a participação mais efetiva dos municípios de Pernambuco, Minas Gerais, Rio Grande do Sul e São Paulo na criação dos grupos escolares e na manutenção de prédios próprios. Neste capítulo, as autoras não apresentaram claramente os Estados abordados, necessitando o leitor buscar ao longo do texto os marcos espaciais do estudo.

O sexto capítulo, de Elizabeth Miranda Lima e Maria Auxiliadora Barbosa Macedo, ‘A institucionalização do modelo de Escola Graduada’, analisa a institucionalização da escola graduada no Brasil em seu o processo de circulação, recepção e apropriação do modelo pedagógico nos Estados do Acre, Mato Grosso, Goiás, Minas Gerais e Rio de Janeiro. As autoras destacam a força material e ideológica dos grupos escolares no Brasil, dividindo o estudo em quatro grandes eixos: a crença na instrução primária como instrumento de melhoria individual e de progresso econômico e social; a organização e a institucionalização da educação primária com modelos e modalidades de escola, prevalecendo a modalidade de escola primária elementar e escola primária complementar, distribuídas em áreas rural e urbana; as finalidades educativas e organização curricular na escola primária republicana visavam melhorar o ser humano e a sociedade, promovendo o valor unificador atribuído pela república à educação; as avaliações e exames como marcos de encerramento, ordenamento e homogeneização. A análise comparada dos Estados apresenta traços comuns, regularidades e particularidades, principalmente quanto à visão de educação como via de progresso social. Também, destaca o currículo ideal de nacionalidade: língua portuguesa, conhecimentos matemáticos, educação física, lições de coisas (saúde, higiene e ciências) e saberes vinculados ao mundo do trabalho (agricultura, marcenaria, jardinagem e artes domésticas).

O sétimo capítulo, ‘A criança, educação de escola (São Paulo, Nordeste do Brasil, 1890 1930)’, de Marta Maria de Araújo, examina a institucionalização da escola primária republicana em São Paulo, Sergipe, Maranhão Piauí, Rio Grande do Norte e Bahia, a partir da leitura de fontes documentais diversas. Primeiramente, destaca o papel modelar atribuído ao Estado de São Paulo. Apresenta os diferentes modelos de escolas públicas – preliminar, primária, elementar, grupo escolar, escola modelo, escola reunida, escola isolada, escola singular, externato, escola proletária, escola superior, escola de leitura, escola rudimentar, escola ambulante, escola rural – como prolongamento da forma política republicana, ou seja, de reprodução, no plano da escolarização, da ordem social vigente (disciplina, ordenamento, hierarquia). Para finalizar, salienta a diferenciação dos programas, tempo de curso e formação do professor, criando a distinção em que cada tipo de escola recebia um modelo social de aluno, sendo a escola modelo e o grupo escolar exemplos de superioridade.

No oitavo capítulo, ‘Modernidade metodológica e pedagógica do método intuitivo: Minas Gerais, Santa Catarina e São Paulo (1906-1920)’, de Vera Teresa Valdemarin, Gladys Mary Ghizoni Teive e Juliana

Cesário Hamdan, são analisadas as reformas educacionais, a comparação ao modelo europeu e americano e a discussão e aplicação do método intuitivo em vários Estados do Brasil. As autoras apontam que o marco inicial da circulação de ideais e difusão de modelos foi protagonizado pelo debates de Leôncio de Carvalho e Rui Barbosa (1879 a 1886). É identificada uma dicotomia entre dois polos, ou seja, os indicadores de inovação versus as dificuldades para implementá-la. A situação compreendia novos atores, territórios e dispositivos legais, como, por exemplo, o Estado de São Paulo e a Reforma da Escola Normal. As autoras analisam o método intuitivo a partir de impressos, modelos, práticas e interpretações, como na revista Eschola Publica, de São Paulo; os relatórios dos grupos escolares, de Minas Gerais; as reformas de Santa Catarina e a filiação à pedagogia moderna e seus principais ícones: Pestalozzi, Compayré, E. Rayot, Jules Paroz, Horace Mann, Celestin Hippeau; Buisson, Spencer, Gustave Le Bon e, especialmente, Norman

Allison Calkins. Para concluir, salientam as tensões entre o pretendido e o realizado, sendo que o analfabetismo da maioria da população conduz para uma redução de tempo e programa, a obrigatoriedade e a autonomia didática.

O último capítulo, ‘Cultura material escolar (Maranhão, São Paulo, Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul) 1870-1925’, de César Augusto de Castro, Diana Gonçalves Vidal, Eliane Peres, Gizele de Souza e Vera Lúcia Gaspar da Silva, atenta seu olhar para o estudo da cultura material. Os autores mostram a conexão entre inovação pedagógica e inovação material que, desde o século XIX, atribui a aquisição de novos objetos à qualidade do ensino, descartando antigos para dar lugar aos novos. Os autores demarcaram cinco tipos de fontes: carta do professor e da escola; documentos administrativos (como lista de materiais, almoxarifado, inventários); relatórios; jornais; e legislação. Organizaram as categorias de análise em: mobília, utensílios de escrita, livros e revistas escolares; materiais visuais, sonoros e táteis; para ensino, organização/escrituração da escola; prédios escolares; material de higiene; trabalho dos alunos; indumentárias; ornamentos; honrarias; jogos e brinquedos. Dois quadros elaborados pelos autores são significativos para compreensão do estudo, o primeiro sobre instrumentos e suportes para o ensino da escrita (almofadas, borrachas, canetas, penas, tinteiro, entre outros) e o segundo sobre suportes para escrever (lousa, papeis, cadernos, quadros, entre outros). As conclusões mostram a existência de uma relativa uniformidade em relação à cultura material e os Estados pesquisados, no entanto, esse elemento faltou ser explorado na escrita como um todo, trazendo exemplos e discussões ao longo do texto.

No intuito de finalizar minha incursão e abordagem acerca da obra, como toda a resenha propõe, reforço a sua importante contribuição para a história da educação primária brasileira, no momento de sua construção física e ideológica. O direcionamento do olhar, não apenas para as escolas modelo e grupos escolares, mas para a permanência e significância numérica das escolas isoladas, por todo o território nacional, consiste em um movimento produtivo de pesquisa na área. O estudo comparado de 15 Estados, descrevendo uma relação constante entre unidade e diversidade, consiste em um desafio que deve ser encarado por mais pesquisadores, abarcando temas, teorias, metodologias, fontes e problemáticas que ainda silenciam ou pouco se comunicam nesse vasto terreno de possibilidades.

Sinalizo, ainda, a necessidade de avanços, no sentido de seconfigurar uma cartografia acerca da escola primária no Brasil, na perspectiva da longa duração. A publicação de uma obra como esta, ao contrário de um sentimento de fechamento, torna mais visíveis os vácuos existentes, as incompletudes e os caminhos que urgem serem percorridos.

Tatiane de Freitas Ermel – Doutoranda em Educação pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul/PUCRS e bolsista Capes-Prosup. Mestre em Educação PPGE/PUCRS; Licenciada e Bacharel em História FFCH/PUCRS. E-mail: tatiane.ermel@acad.pucrs.br

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Brasil e Angola: redes de poder e governança / História – Debates e Tendências / 2015

Brasil e Angola são países que têm relações históricas e culturais comuns. Além de partilharem o mesmo idioma, o português, ambos os países tiveram o mesmo colonizador, Portugal. Muitos angolanos, em decorrência do processo de escravidão, vieram ao Brasil e aqui fizeram sua morada, constituíram família, miscigenaram-se, integrando-se ao grande “caldeirão cultural” que forma o povo brasileiro.

O Brasil foi o primeiro país a reconhecer a independência de Angola, em 11 de novembro de 1975. E a cada ano percebe-se o estreitamento das relações entre esse países, em especial na área econômica. Mas, a meta a que se pretende intensificar nos próximos anos é aproximar Brasil e Angola também na educação, nas ciências, na atividade investigativa e na pesquisa científica. Leia Mais

Guerra do Paraguai / História – Debates e Tendências / 2015

A 150 anos do Grande Conflito do Prata: diversas questões, diversos olhares

Em 30 de agosto de 1864, o governo paraguaio declarou solenemente que a intervenção militar do Império do Brasil na República do Uruguai constituiria razão de guerra, ao agredir o “equilíbrio dos estados do Prata” e seus interesses nacionais. Em 12 de outubro, um destacamento do exército imperial penetrava na República Oriental del Uruguay e assaltava a vila de Mello, sede administrativa do departamento de Cerro Largo. Em 20 de outubro, com o acordo secreto de Santa Lucia, promovido pelo almirante Tamandaré, Venâncio Flores aceita as exigências do Império do Brasil, que, em poucos meses, liquidou o governo constitucional blanco uruguaio, entronizando o ditador colorado.

O governo paraguaio encontrava-se já com os pratos praticamente rotos com os unitários portenhos que dominavam o país desde a batalha de Pavón, em 17 de setembro de 1861. O controle imperial do porto de Montevidéu punha sob sursis o comércio internacional da República do Paraguai, com graves pendências fronteiriças com o Império do Brasil. A interrupção do comércio internacional assentaria golpe, talvez mortal, à ordem lopizta, apoiada na extroversão mercantil do país, no contexto de sua independência e autonomia. Leia Mais

A formação de padres no nordeste do Brasil (1894-1933) – BARRETO (RBHE)

BARRETO, R. A. D. N. A formação de padres no nordeste do Brasil (1894-1933). Natal: EDUFRN, 2011. Resenha de: SANTOS, Laísa Dias Santos ; LIMA, Solyane Silveira. Revista Brasileira de História da Educação, Maringá, v. 15, n. 1 (37), p. 335-341, jan./abr. 2015

Ao descortinar os fundamentos, bem como os modelos escolares que dirigiram e orientaram a formação sacerdotal, no Seminário Sagrado Coração de Jesus, criado em 1913 em Sergipe, e no seu precursor, o Seminário Nossa Senhora da Conceição, fundado em 1894 na Paraíba, o livro procura estabelecer um estudo comparativo entre os referidos seminários, as distintas etapas pelas quais passaram essas instituições e os produtos dessa formação. Nesta obra, produto da tese de doutoramento de Raylane Andreza Dias Navarro Barreto, dois personagens ganham destaque. O primeiro é Dom Adauto Aurélio de Miranda Henriques, primeiro bispo da Diocese de João Pessoa, fundador do Seminário da Paraíba e mentor intelectual do segundo personagem, Dom José Tomás Gomes da Silva, primeiro bispo da Diocese de Aracaju, bem como bispo fundador do Seminário Episcopal Sagrado Coração de Jesus.

Por meio do método histórico comparativo aplicado à educação, a autora investiga as ações de Dom Adauto e Dom José, como ficaram conhecidos, revelando que o modelo de formação dos seminários de João Pessoa e Aracaju constituiu não só sujeitos voltados para a catequização, ‘recrutamento de fiéis e solidificação da fé’, ou seja, padres que atuaram no púlpito da igreja, mas também padres-professores, padres-militantes, padres-jornalistas, padres-escritores, padres-políticos, enfim, intelectuais que atuaram dentro e fora da Igreja Católica Apostólica Romana.

O estudo detalhado, profundo e complexo, realizado por Barreto em sua obra, permite que o leitor adentre nos seminários, convidando-o a conviver com os padres de Dom José e Dom Adauto no período de 1894 a 1913. Para tanto, o leitor deve passar por cinco capítulos. Neles, a autora dialoga com o sacrossanto e ecumênico Concílio de Trento (1781),

Azevedo (1963), Leite (1945), Hansen (2001), Ratio Studiorum (1952), Constituições Primeiras do Arcebispado da Bahia (1707), Matos (2002, 2003, 2004), Hauck (1992), Pratta (2002), Alves (2001, 2002), Nogueira (1985), Sangenis (2004) e Miceli (1998). Além disso, utiliza as noções comparativas de ‘modelo escolar’, segundo Araújo e Barros (2004), para pensar a estrutura organizativa da instituição, e ‘intelectuais’, de acordo com Jean François Sirinelli (1996). Inspirada pelos estudos deste autor, Barreto considera que a noção de intelectual pode ser definida de duas formas. A primeira, mais ampla e sociocultural, envolve os criadores, sujeitos que participam da ‘concepção artística e literária ou do progresso’ e os mediadores, que contribuem na difusão e expansão do que foi criado. Já a definição mais estreita de intelectual refere-se aos engajadores, sujeitos que se unem a uma causa, sendo conhecidos pela sociedade por se colocarem a serviço dela. A própria consideração da autora sobre as noções de modelo escolar e intelectuais torna-se de grande relevância para pensar as questões propostas pelo livro, pois, como assevera Barreto,

[…] o modelo escolar aplicado nos Seminários brasileiros criados após a política de laicização tratou-se de um modelo com uma matriz única (com formação em seminários e objetivos predispostos pela Santa Sé), embora adaptada, em alguns pressupostos, à realidade local e que, por sua estrutura formativa (privilegiando não só o espiritual e o moral, mas também o intelectual), foram responsáveis por gerações de “intelectuais” (professores, jornalistas, escritores, etc.) que alavancaram a educação escolar no Brasil, nas três primeiras décadas da República, quando, na teoria, o Estado era laico, ou dentre outros fatores, não mais contava com o auxílio da Igreja para o ensino público no país (BARRETO, 2011, p. 49).

É com base em tal pressuposto que a autora elabora os capítulos que compõem a obra. Desse modo, no primeiro capítulo, intitulado ‘Ponto de partida para a investigação histórica da formação sacerdotal no Brasil’, ela realiza um apanhado histórico sobre a formação dos sacerdotes brasileiros a partir de momentos chave na definição e estruturação dessa constituição, enquanto no segundo, nomeado ‘Em que fundamentos doutrinários assentou-se a formação sacerdotal dos tempos modernos?’, são abordados os fundamentos doutrinários que sustentaram a formação de padres romanizados. ‘Dom Adauto Aurélio de Miranda Henriques e Dom José Tomás Gomes da Silva na construção de seus edifícios institucionais católicos’ é o terceiro capítulo. Nele, é construída uma análise dos perfis biográficos dos bispos Dom Adauto e Dom José, como também da identidade institucional, forjada pelos seminários de João Pessoa e Aracaju. No quarto capítulo, intitulado ‘O procedimento formativo no Seminário Nossa Senhora da Conceição de João Pessoa e no Seminário Episcopal do Sagrado Coração de Jesus de Aracaju’, Barreto revela os procedimentos de formação, implementados nos seminários, mostrando semelhanças e divergências entre os modelos e organização escolar. Por fim, no quinto capítulo, que recebe o título de ‘Os padres de Dom José e Dom Adauto’, a autora identifica, por meio do método prosopográfico (biografias coletivas), a identidade cultural e educacional produzida pelas duas instituições.

Ao fim dos capítulos, Barreto apresenta de forma singela e detalhada um conjunto de informações que traçam a biografia, a inserção nos seminários, as funções, as formações dentro e fora dos muros da Igreja Católica, a produção intelectual e a carreira sacerdotal dos 185 seminaristas (141 no Seminário de João Pessoa e 44 no Seminário de Aracaju). Vale ressaltar quão rica foi essa iniciativa para aqueles que se interessam pelas marcas deixadas por esses seminários nos campos religioso, formativo educacional e intelectual.

Inicialmente, a autora explica a conjuntura pela qual passou a Igreja Católica, acreditando que é da experiência que despontaram os alicerces para o melhor modelo de formação sacerdotal. Assim, ela chama a atenção para o ano I da Era Cristã, da qual emergem as raízes da Igreja Católica Apostólica Romana, iniciada por Cristo e dirigida por seus seguidores, em uma ordem que compreende os apóstolos como pioneiros, seus sucessores, os ‘padres apóstolos’, e mais tarde os papas. Entre os séculos II e V a igreja passou por um processo de expansão, tanto no que diz respeito à estrutura física quanto pela propagação na Europa da doutrina cristã elaborada pelos padres da igreja, como também pelo caráter mais intelectualizado dos seminaristas.

Ao adentrar o período que compreende os séculos V ao XV, a autora destaca os novos rumos que a Igreja Católica foi obrigada a tomar, acalorada por uma busca constante de poder, que começaria a ser disputado com a recém-fundada igreja de Martinho Lutero (1483-1546), idealizador da Reforma Protestante. Barreto ressalta que os intelectuais do Concílio de Trento estabeleceram uma reformulação no processo de formação de futuros padres. A proposta, segundo ela, ao citar Pierrard (PIERRARD, 2002, p. 256 apud BARRETO, 2011, p. 75), seria “[…] um ser isolado, embora colocado no coração do mundo, cuja perfeição deverá exceder a dos religiosos e cuja acção terá de estar constantemente associada à de Cristo”. Para tanto, essa nova formação inicial aconteceria em um seminário e seria complementada nas universidades, a exemplo do Colégio Romano, elevado à categoria de Academia em 1556.

Assim, outra importante contribuição trazida pelo livro é, decerto, a atuação dos padres incumbidos do ministério do ensino, em especial a Companhia de Jesus, que, atuando ao mesmo passo que outras ordens religiosas, intensificou a presença da igreja na Europa, na Ásia, na África e na América a fim de (re)conquistar os fiéis num período que se seguiu de grandes descobertas científicas, mudanças ideológicas, laicização e enfraquecimento/repartição da igreja. Como destaca a autora, não obstante, o Brasil do início de século XX também passou por essas mudanças ideológicas, políticas e religiosas, e, assim como no mundo, romanizado pela igreja, “[…] adere ao ultramontanismo e intensifica sua reforma que tem como principal ponto de partida a (re) formação de seus quadros eclesiásticos” (BARRETO, 2011, p. 90). Para liderar essa mudança, um novo perfil de padre deveria ser criado: ele deveria ser jovem, com competências evidentes, advindas de famílias de prestígio, a maioria delas de origem rural. O Seminário Nossa Senhora da Conceição, de João Pessoa, e o Seminário Episcopal do Sagrado Coração de Jesus, em Aracaju, dirigidos, respectivamente, pelos bispos Dom Adauto Aurélio de Miranda e Dom José Tomás Gomes da Silva, foram resultados desse processo de mudanças. Embora em tempos distantes, a autora destaca que ambos agiram como intelectuais criadores e engajadores, na medida em que operaram como estrategistas, disseminando os fundamentos teológicos doutrinários e proporcionando, dessa maneira, estabilidade à igreja romanizada.

Assim, sustentados pelos referenciais religiosos da época, Dom Adauto e Dom José pintaram os edifícios institucionais diocesanos com uma organização administrativa composta por reitor, diretor espiritual, prefeito e vice-prefeito, padres-professores e ecônomo, este último cargo encontrado apenas no Seminário de João Pessoa, como observou a autora. Outro aspecto bem abordado foi a organização escolar traduzida pelo rígido processo de admissão como também pelos saberes a serem perpassados e as condutas inculcadas nos cursos inferiores e superiores que em 1927 foram redistribuídos em três cursos: o Preparatório, o Filosófico e o Teológico; os espaços e os edifícios, ora construídos, ora incorporados a outras instituições; a imposição de severas regras comportamentais; e a precisão do tempo e horário. Além disso, a autora apresenta o método de ensino, marcado indistintamente pela mistura do método tradicional, que se dava por meio da decoração e repetição, com o método intuitivo, que consistiria na pedagogia dos sentidos e da observação, o qual, segundo o decreto n° 981, deveria prevalecer dentre qualquer outro.

Por tudo isso, o livro deixa uma forte contribuição para a História da Educação, pois possibilita um fértil caminho de problematização entre o real dos seminários e o idealizado pela Santa Sé e o Estado. Ao perceber que dentro dos seminários de João Pessoa e Aracaju havia uma cultura escolar que se adequava às peculiaridades locais e à ‘pedagogia do exemplo’, que por vezes se apresentavam semelhantes às prescrições religiosas e educacionais dispostas, a autora assevera que tais aspectos proporcionaram aos padres ordenados pelos seminários uma atuação intelectual multifacetada. Demonstrando, no capítulo cinco, que Dom José e Dom Adauto, como intelectuais, formaram, nos seminários em que atuaram, um perfil de padre, com funções múltiplas, em que a missão pastoral está associada a outros tipos de trabalho, fosse dentro ou fora da igreja, nas associações culturais ou educacionais, na impressa ou na política, no púlpito ou nos livros, conclui que

As similitudes encontradas na formação ministrada aos seminaristas e nas ações dos padres ordenados pelos dois Seminários diocesanos católicos com sua estrutura formativa, privilegiando não só o espiritual e o moral, mas também o intelectual, foram responsáveis por gerações de “intelectuais” que alavancaram a educação escolar no Brasil, nas três primeiras décadas da República, quando em teoria, o Estado era laico (BARRETO, 2011, p. 234).

Dessa maneira, a autora comprova que o método uniforme de organização pedagógica, vinculado à construção de uma pedagogia própria, constituiu-se no modelo escolar adotado pela Igreja Católica, que pretendia desenvolver uma educação integral (que coadunasse o intelectual, moral e o espiritual) para a formação eclesiástica. Portanto, comprova a tese de que os seminários diocesanos católicos, a partir da sua estrutura formativa e de uma educação integral, foram responsáveis por gerações de intelectuais que alavancaram a educação escolar no Brasil nas três primeiras décadas da república.

Com o estudo realizado, Barreto deixa importante contribuição para se avançar na reflexão sobre a formação de padres no Nordeste brasileiro, mostrando que a temática é muito mais complexa e vai além da questão religiosa: ela se projeta no campo das mudanças educativas, políticas, culturais e ideológicas, continuando como uma história inacabada, repleta de objetos de estudos a serem investigados. Desse modo, a formação de padres nos seminários de João Pessoa e Aracaju, da maneira com que foi abordada pela autora, aponta a necessidade de se repensar o papel dos padres, da Igreja, do Estado e da instituição educativa nas primeiras décadas do período republicano. Certamente, uma obra de referência para os que se interessam pelo tema.

Laísa Dias Santos – Mestranda em Educação pela Universidade Tiradentes com Bolsa Capes/FAPITEC/SE. Graduada em Serviço social pela mesma instituição. É membro do Grupo de Pesquisa Sociedade, Educação, História e Memória- GPSEHM, e sócia da Sociedade Brasileira de História da Educação (SBHE). Tem experiência com Metodologia da História Oral, narrativas de histórias vida e memória. Atualmente vem consolidando pesquisas sobre a Escola primária sergipana no período entre 1930 e 1961. E-mail: laisadias10@gmail.com

Solyane Silveira Lima – Pós-Doutoranda em Educação na Universidade Tiradentes (UNIT). Doutora em Educação pela Universidade Federal de Minas Gerais – UFMG (2013) com Estágio Sanduíche na Universidade de Lisboa (2012). Mestre em Educação (2009) e Graduada em Pedagogia (2005) pela Universidade Federal de Sergipe – UFS. Membro da SBHE (Sociedade Brasileira de História da Educação) e do GEPHE (Centro de Pesquisa em História da Educação/UFMG). E-mail: solylima@hotmail.com

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Mapas para la Nación. Episodios en la historia de la cartografía argentina | Carla Lois

La aparición del libro Mapas para la nación. Episodios en la historia de la cartografía argentina viene a saldar una carencia inexplicable: una interpretación de la historia de los mapas de la nación argentina que no quede necesariamente restringida a las cuestiones institucionales que definieron ciertas condiciones de producción específicas.

Posicionada desde los enfoques visuales y retomando las discusiones sobre la imagen que se vienen dando en disciplinas como la filosofía, la estética, la fotografía, la historia del arte y la arquitectura y la geografía, Lois propone pensar al mapa a partir de “los propios regímenes de visibilidad que movilizan” (Lois, 2014: 22). Abrevando en este tipo de posturas teóricas Carla Lois logra posicionar a la imagen cartográfica “dentro del universo de prácticas, problemas, discursos, acciones y procesos que configuraron a la Argentina moderna, en dialogo y tensión con otras imágenes que tejieron el imaginario sobre este país” (Lois, 2014: 17). Leia Mais

Ícone | UFRGS | 2015

Icone Historia da Arte Ditadura no Brasil

Ícone (Porto Alegre, 2015-) é a primeira revista acadêmica brasileira criada com o objetivo específico de constituir um espaço para a divulgação da produção em História da Arte.

A Revista é uma publicação digital, vinculada ao Departamento de Artes Visuais e ao Bacharelado em História da Arte da Universidade Federal do Rio Grande do Sul.

A Revista Ícone tem periodicidade semestral, sendo a primeira edição de cada ano temática (a ser sempre divulgado na chamada) e a segunda livre.

Periodicidade semestral.

Acesso livre.

ISSN 2359-3792

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Sobre campos de Batallas. Arqueología de conflictos bélicos en América Latina – LANDA; LARA (RAHAL)

LANDA, Carlos; LARA, Odlanyer Hernández de. Sobre campos de Batallas. Arqueología de conflictos bélicos en América Latina. Buenos Aires: Aspha Ediciones, 2014. Resenha de: TAPIA, Alicia Haydée. Revista de Arqueología Histórica Argentina y Latinoamericana , Buenos Aires, v.2, n.8, p.83-90, 2015.

A partir de la edición de este libro, Carlos Landa y Odlanyer Hernández de Lara se propusieron reunir siete trabajos de investigación en arqueológica histórica en los que se analizan las expresiones materiales de los conflictos bélicos. Si bien esta orientación temática en las investigaciones arqueológicas cuenta con antecedentes previos, tales como el famoso caso del campo de batalla de Little Big Horn (1876) o de la guerra civil norteamericana (Quesada Sanz 2008; Scott 2009), este es un libro particularmente original por cuanto solo agrupa casos latinoamericanos. No obstante, destaco que no se trata del mero agrupamiento de 7 artículos, vinculados solo por una temática común o con ciertas diferencias y semejanzas arqueológicas. Por el contrario, al completar su lectura el lector podrá reconocer una estructura de sentido subyacente, que atraviesa a todos los casos de estudio y les otorga un valor especial, no solo porque permite resignificar la memoria colectiva sino también aportar nuevos referentes para construir la identidad histórica. Los diferentes tipos de conflictos bélicos han tenido consecuencias que de una u otra manera se pueden vincular en la actualidad con diversas manifestaciones sociales, políticas, económicas, e ideológicas.  En tal sentido, se considera que este tipo de publicaciones no solo contribuye a la difusión del quehacer científico de la arqueología, sino también al conocimiento del patrimonio cultural y a la resignificación de la memoria histórica de los sucesos bélicos acaecidos en algunos países de América Latina, que como Argentina, México, Cuba y Uruguay están representados en el libro. El alcance latinoamericano de la obra es en parte el resultado del estado alcanzado en las investigaciones arqueológicas de los campos de batalla de cada país, que ha permitido trascender los ámbitos locales y generar vínculos entre los diferentes investigadores. A su vez, el estudio arqueológico de estas cuestiones  * Instituto de Arqueología, Facultad de Filosofía y Letras, Universidad de Buenos Aires y está estrechamente vinculado con tareas de transferencia directa de los conocimientos arqueológicos a las comunidades locales y a la elaboración de acciones conjuntas para el uso de los campos de batalla como espacios de memoria y de valorización del patrimonio cultural e histórico (De Cunzo y Ernstein 2006, Holtorf y Williams 2006).

Resulta de interés señalar la carga de sentido que se ha buscado connotar en el título seleccionado. No siempre resulta fácil definir el título de un libro, mucho más aún cuando al mismo tiempo que se intenta representar el pensamiento académico al que se adscribe, los autores también buscan interesar al público en general sobre las cuestiones precisas que aborda. Muchas veces la elección realizada demuestra que es el resultado de discusiones conceptuales y de investigaciones teóricas previas; tal es este caso que denota el haber optado, en segundo término, por Arqueología de conflictos bélicos y no por Arqueología de la guerra o Arqueología de la violencia (Gilchrist 2003). En la Introducción se discute el uso alternativo que algunos autores hacen de estos términos, indicando que si bien designan enfoques disciplinares relacionados de alguna u otra manera, cada terminología se aplica a casos diferentes. La inclusión de conflictos bélicos que acontecieron en América Latina, refuerza la dimensión teórica disciplinar que se intenta abarcar.  Ha sido muy acertado incluir el prólogo del arqueólogo escocés Tony Pollard y la presentación de Mariano Ramos respectivamente. Ambos son muy enriquecedores por cuanto introducen al lector en la problemática de los trabajos, sus alcances y limitaciones y detallan los objetivos más generales, especialmente teóricos y metodológicos. Seguramente sorprenderá al lector saber que Tony Pollard ha incursionado en el estudio de campos de batalla de distintos lugares del mundo, que son el resultado de diferentes situaciones conflictivas como la guerra de los zulúes con los británicos en 1879. En los últimos años intentó realizar el estudio arqueológico casi inexplorado de la Guerra de la Triple Alianza de 1864-1870 (acontecimiento histórico que aún hoy día nos conmueve y que ha sido objeto de muy escasas interpretaciones históricas revisionistas). Recientemente también ha iniciado el estudio de la Guerra de Malvinas de 1982 (de la cual podemos cuestionar algunas de sus premisas de investigación). La particularidad de los casos de estudio de Tony Pollard así como la investigación del combate de la Vuelta de Obligado que ha venido desarrollando Mariano Ramos, constituyen miradas nuevas sobre los hechos del pasado, que permiten revisar las explicaciones oficiales, descorrer el velo de los temas históricos tabúes a escala local o planetaria, como suelen ser las guerras civiles o entre diferentes países (Ramos et al. 2011).

Los casos de estudio que se presentan incluyen abordajes teóricos y procedimientos metodológicos propios de la Arqueología histórica actual. Se destaca la aplicación de las premisas de la Arqueología del paisaje, apoyadas en la utilización de técnicas y programas computacionales del Sistema de Información Geográfica, de los análisis tafonómicos y arqueométricos, así como también de estudios arqueométricos, geofísicos, con georadar y con equipos detectores de metal. Metodológicamente adquiere relevancia la constante interrelación que se realiza entre los datos arqueológicos obtenidos y los diferentes tipos de fuentes documentales, escritas y gráficas.  Al respecto, si bien se trata de una investigación que aún se encuentra en una fase inicial, resulta de interés el trabajo Campos de batalla en México, que Angélica María Medrano Enríquez desarrolla en el capítulo 1. En especial la investigadora reivindica el estudio de los espacios de conflicto bélico donde en el siglo XVI se enfrentaron los nativos mexicanos y los conquistadores españoles, este tipo de estudios puede aportar información nueva que no se menciona en las crónicas hispánicas. Tal es el caso de los hallazgos recuperados en el sitio donde habría tenido lugar la llamada Guerra del Mixtón producida entre 1541 y 1542, los cuales revelan aspectos muy poco conocidos de la intervención bélica de los grupos indígenas aliados de los españoles. En cuanto a los intereses patrimoniales ella señala que la principal inversión económica en su país se destina a preservar los sitios con arquitectura monumental maya; no obstante, por su significación reclama la necesidad de valorar y preservar los campos de batalla hispano indígena.  Casi todos los autores de los artículos que se presentan coinciden en destacar el carácter pionero que ha tenido en la Argentina la investigación que Mariano Ramos y su equipo han efectuado en Vuelta de Obligado. Si bien se han publicado trabajos anteriores sobre este sitio, en este caso en particular que se presenta en el capítulo 2, resultan de interés las reflexiones planteadas sobre el cambio de estrategias de investigación y de objetivos de estudio a lo largo del tiempo, después de 14 años de investigaciones intensivas en el lugar. Los autores expresan con claridad los fundamentos que hacen significativo el estudio arqueológico de esta batalla, no solo porque ha permitido generar la valoración del registro material y ha aportado nuevos conocimientos sino también por la resignificación histórica del espacio que se ha logrado difundir. En la actualidad en el espacio funciona un centro de interpretación donde se exhiben materiales arqueológicos de la batalla y se realizan diferentes acciones de transferencia a la comunidad. Landa 2015: 83-90(Reseña) 86  En el capítulo 3 se desarrolla el estudio de la batalla de Cepeda que ha emprendido Juan Leoni y coautores. En esta investigación -al igual que en los trabajos de Ramos, Landa y otros- resulta notable el proceso metodológico que los investigadores aplican al relacionar los restos materiales recuperados en un sector del espacio con los relatos de la batalla. Queda claro que no existe una relación estrecha entre la mayor abundancia de fuentes escritas y la mayor posibilidad de visualizar el registro arqueológico en el terreno. Dado que en esos relatos los investigadores no encuentran referencias geográficas precisas ni tampoco materiales arqueológicos que permitan identificar la posición de los combatientes, se plantean cuatro escenarios hipotéticos de la batalla de Cepeda. Si bien las argumentaciones quedan sujetas a revisión para el futuro, el lector podrá adentrase en la forma que opera la construcción del conocimiento científico en Arqueología histórica, donde la constante interrelación entre los datos materiales y la documentación escrita permite definir las diferentes posibilidades a verificar.  Landa y los restantes once coautores abordan en el capítulo 4 el estudio del campo de batalla de La Verde. Para ello combinan el estudio exhaustivo de las fuentes escritas con los presupuestos de la Arqueología del paisaje y las técnicas del Sistema de Información Geográfica, en una ida y vuelta constante durante el proceso de investigación. De esta manera logran visualizar las diferentes alternativas posibles de la ubicación que ocuparon las baterías y las tropas en el lugar de los hechos, borrados de la memoria histórica y del terreno por las acciones sucesivas del trabajo agrícola ganadero. Asimismo, el hallazgo de proyectiles y de vainas les ha permitido determinar un probable núcleo espacial donde habría transcurrido la batalla; un lugar desde donde se disparaban proyectiles y también se recibían de parte de los contrincantes. El artículo se complementa con el análisis arqueométrico de los materiales -que permiten fundamentar las inferencias realizadas- y con la intervención de una dibujante, que se propone historietizar la antigua batalla como parte de los propósitos de su difusión y puesta en valor. El estudio arqueológico de este singular conflicto bélico busca descorrer el velo de un combate poco conocido y deja abierto un debate histórico para quien quiera oír que oiga (como recuerda Mariano Ramos en la presentación, citando a la canción de Lito Nebbia), acerca de la forma en que se dirimieron las ideas mitristas y el modelo de estado-nación argentino, gestado tras la balas y la posición de las tropas antagónicas enfrentadas en La Verde.

En los capítulos 5 y 6 se desarrollan dos estudios realizados en Cuba. En el primero de ellos, Roberto Álvarez Pereira analiza el sistema defensivo que entre 1871 y 1898 se construyó desde Júcaro a Morón, con el objetivo de establecer una división fronteriza en la isla. El análisis detallado del contexto sociohistórico previo a esos años, revela los diferentes acontecimientos que intervinieron en la construcción social del paisaje, previa a la instalación del sistema defensivo. Los datos del corpus documental se integraron a la información geográfica apoyada en un relevante compendio de planos antiguos e imágenes satelitales. A partir de diferentes abordajes metodológicos se elaboró una estrategia de prospección apoyada en la fotointerpretación y también en entrevistas a pobladores locales. Los resultados obtenidos permiten considerar la importancia de avanzar con la investigación de estos espacios fronterizos internos, que fueron establecidos por los españoles y son escasamente tenidos en cuenta en la historiografía colonial cubana.  El segundo trabajo cubano realizado por Odlander Hernández de Lara y cuatro coautores, se concentra en el estudio de la batalla que tuvo lugar en la Bahía de Matanzas en 1898 entre los españoles y los norteamericanos. En este caso se cuenta con una abundante producción historiográfica del conflicto bélico, donde no solo se describen los pormenores políticos y económicos sino también las características constructivas de las baterías defensivas hispánicas y sus cambios a través del tiempo. Al respecto, los autores analizan exhaustivamente las diversas fuentes documentales, incluyendo noticias periodísticas y relatos de personas que vivenciaron el bombardeo iniciado por los estadounidenses. Un caso singular y muy emotivo es la narración que Lola María realizó en sus Memorias.  Los estudios arqueológicos previos han podido recuperar proyectiles y piezas de artillería de ambos bandos. En cuanto a las investigaciones arqueológicas de las fortificaciones ubicadas en la bahía de Matanzas, se detallan los trabajos realizados y los hallazgos materiales recuperados a lo largo del tiempo en dos baterías y en exploraciones subacuáticas. Como bien destacan los autores, el estudio arqueológico de los conflictos bélicos aún es incipiente en Cuba pero ha comenzado a demostrar sus aportes al conocimiento de la historia de la isla; no solo por la nueva información sobre las batallas sino también sobre el contexto histórico que desencadenó los conflictos y las consecuencias que trajeron a las poblaciones locales.  Finalmente en el capítulo 7, Jaime Mujica Sallés y Lúcio Menezes Ferreira, no analizan casos específicos de campos de batalla en el Uruguay sino las condiciones de preservación arqueológica que en general se deberían tener en cuenta cuando se investigan dichos casos. En primer lugar, respecto de los espacios donde se produjo el conflicto, indican la Landa 2015: 83-90(Reseña) 88  necesidad de planificar las estrategias de patrimonialización y puesta en uso social a partir del cruzamiento de diferentes variables; desde las características del suelo hasta la accesibilidad a los campos de batalla. En segundo lugar, definen las diferentes actividades y el protocolo de conservación que debe tenerse en cuenta para preservar los materiales recuperados en este tipo de sitios, tanto durante las actividades de campo como en el gabinete.  En síntesis, tanto para los especialistas como para el público en general, este libro puede resultar de particular interés no solo por la problemática de estudio original que aborda, sino también por la narración amena sobre el quehacer científico que llevan a cabo los arqueólogos latinoamericanos. A través de la forma en que se presentan las diferentes evidencias materiales de cada caso y las argumentaciones explicativas, se revela como opera el razonamiento del científico durante el proceso de investigación.

Referências

De Cunzo, L. y J. Ernstein  2006. Landscapes, ideologiey and experience in historical archaeology. En The Cambridge Companion to Historical Archaeology, D. Hicks y M. Beaudry (eds); pp. 255-270. Cambridge University Press.UK.

Gilchrist, R.  2003. Introduction: towards a social archaeology of warfare. World Archaeology 35 (1): 1-6.

Holtorf, C. y H. Williams 2006 2006. Landscapes and memories. En The Cambridge Companion to Historical Archaeology, D. Hicks y M. Beaudry (eds); pp. 235-254. Cambridge University Press.UK.

Quesada Sanz, F. 2008. La arqueología de los campos de batalla. Notas para el estado de la cuestión y una guía de investigación. Saldivie 8: 21-35.

Ramos, M., F. Bognanni, M. Lanza, V. Helfer, C. González Toralbo, R. Senesi, O.

Hernández de Lara, C. Pinochet y G. Clavijo 2011. Arqueología histórica de la Batalla de Vuelta de Obligado, Provincia de Buenos Aires, Argentina. En Arqueología histórica en América Latina. Perspectiva desde Argentina y Cuba, M. Ramos y O. Hernández de Lara (eds); pp. 13-32, PROHARHEP, Universidad Nacional de Luján. Luján.

Scott, D. 2009. Studying the Archaeology of War: a model base don the investigation of frontier military sites in the American Trans-Mississippi West, En International Handbook of Historical Archaeology, T. Majewski y D. Gaimster (eds); pp.299-317. New York.

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Biography of a Hacienda: Work and Revolution in Rural Mexico – NEWMAN (RAHAL)

NEWMAN, Elizabeth. Biography of a Hacienda: Work and Revolution in Rural Mexico. Tucson: University of Arizona Press, 2014. Resenha de: ÁLVAREZ, Hernández. Revista de Arqueología Histórica Argentina y Latinoamericana, Buenos Aires, v.1, n.9, p.89-94, 2015.

A pesar de su importancia histórica, el estudio arqueológico de las haciendas mexicanas de la época porfiriana (1876-1910) es aún incipiente en la arqueología, aunque ha comenzado a generar cierto interés entre algunos investigadores extranjeros y locales. Aquellos que han decidido tomar el reto se han abocado a indagar, principalmente, sobre la vida cotidiana de la clase trabajadora de las haciendas y sus familias, debido a la escasez de documentos al respecto y a los sesgos de la historia oficial con respecto a las condiciones en que vivían estos peones acasillados (Hernández 2014; Meyers 2012; Sweitz 2012). En este sentido, el libro de Elizabeth Newman constituye otro intento por comprender el impacto que tuvo la incorporación del sistema capitalista en la identidad de los individuos y la comunidad que laboró y habitó en una hacienda de producción agrícola, San Miguel Acocotla, de la región de Atlixco, Puebla, en la zona central de México.

A partir de una narrativa salpicada de anécdotas personales, pasajes íntimos, ficción realista e incluso disertaciones auto reflexivas, la autora pretende involucrarnos en las vicisitudes de su experiencia personal en el estudio arqueológico de una hacienda poblana y las motivaciones que la llevaron a emprender esta investigación histórica. Su intención en este trabajo es criticar las suposiciones tradicionales sobre las experiencias cotidianas de los trabajadores –jornaleros, peones, capataces, rancheros y sus familias– al interior de las haciendas. Sin embargo, también se ocupa de la familia de los hacendados, de sus conflictos y ansiedades sobre las consecuencias que traería la Revolución Mexicana (1910) y, por ende, la pérdida de sus privilegios de clase.  La fortaleza discursiva y la rigurosidad histórica del texto de Newman son producto del uso de variadas fuentes de información como los archivos oficiales, los mapas, la historia oral, el estudio etnoarqueológico de la comunidad descendiente y, por supuesto, la investigación arqueológica de los lugares de habitación de los trabajadores de San Miguel Acocotla. Por ejemplo, la evidencia material obtenida a partir de la excavación del conjunto habitacional de los peones le permitió conocer los patrones de consumo al interior de esta hacienda y considerar que los análisis clasistas, en este caso de los más desprovistos, son importantes para entender las dinámicas sociales de sitios multiétnicos como lo fueron las haciendas mexicanas de la época revolucionaria.

El libro se compone de ocho capítulos en donde se presenta el devenir histórico de San Miguel Acocotla desde la época colonial hasta la actualidad. En el primer capítulo se comenta sobre el contexto en el que surgieron las primeras haciendas mexicanas durante la época colonial (1519-1810) y su consolidación durante la etapa del México independiente. No obstante, la autora advierte que resulta difícil tratar de categorizar las haciendas mexicanas ya que sus características han sido muy variadas a través del tiempo y el espacio.

De acuerdo con Newman, la narrativa oficial señala que después de la Independencia (1810) las poblaciones rurales se vieron desprotegidas durante un largo período de tiempo debido a la inestabilidad política derivada de la guerra contra la dominación española. Estos procesos derivaron en conflictos sociales, económicos y políticos que se prolongaron por varias décadas y tuvieron su momento álgido durante la Revolución Mexicana de 1910. Este movimiento social armado fue una consecuencia de los constantes conflictos entre las comunidades indígenas y los terratenientes, generalmente de origen español, que buscaban mantener sus privilegios. El conflicto se agudizó debido a los problemas derivados de la enajenación de las tierras y las presiones sociales derivadas de la erosión de los modos de vida rurales y la introducción de los nuevos modos de trabajo y organización derivados del modelo capitalista industrial, como en el caso de los distintos tipos de haciendas mexicanas –ganaderas, henequeneras, mineras- del siglo XIX.

San Miguel Acocotla fue una de esas haciendas cuya historia se remonta al período colonial pero cuya época de esplendor sobrevino con la implementación de un sistema de peonaje, acasillamiento y explotación laboral de los campesinos poblanos para la producción de trigo y maíz a escala industrial. En el segundo capítulo del libro Newman presenta lo que será su estudio sobre dicha hacienda. Como ella misma manifiesta, su intención fue registrar los procesos de cambio social acaecidos en San Miguel Acocotla y llenar las lagunas de la historia escrita con datos materiales provenientes de una investigación arqueológica exhaustiva. La investigación de Newman en Acocotla busca acercarnos a la vida cotidiana de los trabajadores de la hacienda a partir de la excavación de su lugar de habitación: la calpanería. Además, entre las estrategias empleadas para cumplir con los objetivos planteados, y contrastar la evidencia material, se incluyeron otros procedimientos metodológicos como la investigación etnográfica, el trabajo etnoarqueológico y la recopilación de la historia oral entre la comunidad descendiente.

El capítulo tres aborda la historia escrita, disponible en el Archivo General de la Nación, sobre la hacienda San Miguel Acocotla. Los archivos históricos consultados contienen información sobre los distintos dueños de la hacienda, datos sobre la división de tierras, mapas, además de descripciones sobre las comunidades colindantes. Esta información abarca la historia de la propiedad entre los siglos XVIII y XIX. Para Newman, esta información histórica es importante para acercarnos al contexto en el que se desarrolló la finca, pero si queremos obtener mayor detalle sobre los pobladores resulta imprescindible ampliar las fuentes de información. Por lo tanto, al incluir las historias orales, la etnoarqueología y la investigación arqueológica, la autora busca añadir unas cuantas notas más a la melodía que trata de reconstruir.  El cuarto capítulo resulta bastante interesante ya que versa sobre la investigación etnoarqueológica y de recuperación de la historia oral de los antiguos habitantes de San Miguel Acocotla que ahora viven en la comunidad de La Soledad, Morelos. Durante esta fase de la investigación, se recolectaron historias orales, datos etnográficos y etnoarqueológicos sobre las formas de vida y los espacios domésticos de dicho poblado, con la intensión de generar información comparativa para los datos arqueológicos. Newman describe cómo se aventuró, junto con estudiantes y ayudantes de campo, a indagar sobre la arquitectura vernácula, el uso del espacio doméstico y las historias de vida de los pobladores descendientes de los trabajadores de la hacienda. Comunidades como La Soledad crecieron a raíz de la disolución de las haciendas y la repartición de tierras a los campesinos producto de la Reforma Agraria (1915).  A partir del estudio sistemático de los espacios residenciales y la arquitectura doméstica de 381 terrenos del poblado, además de entrevistas sobre las actividades domésticas y la vida cotidiana de los actuales pobladores de La Soledad, Newman encontró varias implicaciones conductuales y simbólicas producto del estudio etnoarqueológico. Por ejemplo, la autora observa que en las casas tradicionales el espacio exterior llega a ser más importante que el espacio interior, este varía de persona a persona, además, la cocina tiene una importancia vital y la función de los cuartos puede ser difícil de discernir. A partir de estas premisas, la autora espera llegar a entender los vestigios espaciales, arquitectónicos y materiales que serán investigados arqueológicamente en la hacienda.Landa 2015: 89-94(Reseña) 92  En el quinto capítulo se reconstruye el proceso de intervención arqueológica en la Hacienda San Miguel Acocotla. Las actividades se centraron en el estudio y excavación de la calpanería, el espacio doméstico de los peones de la hacienda. Se trata de un edificio, hecho de bloques de adobe y tejas, que tenía 37 cuartos de 3.5 m² a manera de celdas. Se supone que cada uno de estos cuartos pudo albergar a una familia nuclear. A partir de las actividades de prospección, muestreo y excavación de espacios exteriores e interiores se pudo conocer la historia constructiva del edifico y recuperar diversos objetos que, aunque insignificantes, muestran aspectos de la vida cotidiana de los trabajadores y sus familias. Además, a partir de esta intervención arqueológica fue posible contrastar los patrones observados en los espacios domésticos habitados por la comunidad descendiente.  El capítulo seis versa sobre la arquitectura, la vida doméstica, el poder y el control social al interior de la hacienda de Acocotla. Newman menciona que la arquitectura es uno de los medios confiables para analizar las dinámicas sociales del pasado y las constantes negociaciones entre las necesidades del hacendado y los trabajadores agrícolas. Por ejemplo, en las haciendas, los dueños construyeron casas para sus trabajadores, esto les permitió controlar la mayoría de los aspectos de su vida cotidiana y les sirvió para crear un medioambiente que promovió una jerarquía social estratificada. A través de la arqueología histórica es posible acercarnos a estudiar estas tensiones y negociaciones que generalmente no aparecen manifiestas en la historia oficial.  Los modos de alimentación y la evidencia cerámica son tema del séptimo capítulo. Este apartado se basa en el hallazgo de diversos artefactos domésticos, principalmente restos de vasijas cerámicas, y los huesos de animales que se encontraron en un basurero dispuesto al exterior de la calpanería. Se recuperaron diversos tiestos cerámicos de barro vidriado, loza fina y porcelana que nos hablan del comercio de cerámica suntuaria y utilitaria en la región central mexicana hacia finales del siglo XIX, siendo Puebla una de las regiones productoras por excelencia del país. Además, las distintas formas de los cacharros indican el uso de estas vasijas para preparar tortillas, caldos o salsas. Aunque también hubo candelabros y braceros que se usaron en diversas prácticas rituales.

Por otra parte, se recuperaron poco más de 3000 huesos de animales, de los cuales cerca del 90% fueron mamíferos domésticos como vacas, cerdos, cabras, ovejas y conejos. Igualmente hubo restos de aves como pollos, patos y pavos que son una muestra de los patrones de alimentación que, al parecer, se han mantenido constantes a través del tiempo en las zonas rurales de México.

Finalmente, en el último capítulo Newman hace un recuento de los pequeños hallazgos producto de las intervenciones arqueológicas en los cuartos de la calpanería. Estos objetos, al parecer poco significativos, son una muestra de la presencia de ciertos agentes que generalmente has sido olvidados en la narrativa oficial como son las mujeres, los niños y los ancianos. Entre los artefactos femeninos se hallaron candeleros y otros objetos rituales como cruces, rosarios y pendientes. También hubo algunas cuentas de joyería, aretes, decoración para ropa y ciertos amuletos. Destaca la presencia de tres malacates y un dedal que sirvieron para el hilado y el tejido. Entre la cultura material vinculada a los infantes se encontraron fragmentos de botellas de medicina, una figa que servía como amuleto para proteger a los niños del mal de ojo, cinco canicas, 41 figurillas que sirvieron como juguetes y varios objetos de origen prehispánico a manera de reliquias.  En conclusión, el estudio transdiciplinario emprendido por Newman en una hacienda porfiriana de la región poblana es un excelente ejemplo de las nuevas tendencia en la investigación en arqueología histórica. Su preocupación por generar una narración alternativa que incluya a los actores frecuentemente olvidados es fundamental para acercarnos de una manera diferente al pasado reciente. Además, su constante preocupación por entender las dinámicas sociales y la negociación de los distintos estratos sociales, tanto históricos como actuales, es una enseñanza que debemos valorar y un ejemplo a seguir en nuestras propias investigaciones.

Referências

Hernández Álvarez, Héctor 2014. Corrales, chozas y solares: estructura de sitio residencial de la Hacienda San Pedro Cholul, Yucatán. Temas Antropológicos. Vol. 36 N° 2: 129-152.

Meyers, Allan 2012. Outside the Hacienda Walls: The Archaeology of Plantation Peonage in Nineteenth-Century Yucatán. University of Arizona Press. Tucson.

Sweitz, Sam, R. 2012. On the Periphery of the Periphery: Household Archaeology at Hacienda San Juan Bautista Tabi, Yucatán, Mexico. Springer. New York.

Héctor Hernández Álvarez – Es Licenciado y Maestro en Ciencias Antropológicas con especialidad en Arqueología por la Universidad Autónoma de Yucatán (UADY). Doctor en Estudios Mesoamericanos por la Universidad Nacional Autónoma de México (UNAM). Trabaja como Profesor-Investigador en la Facultad de Ciencias Antropológicas de la Universidad Autónoma de Yucatán. Director del Proyecto Arqueología Histórica en la Hacienda San Pedro Cholul. Miembro del Sistema Nacional de Investigadores. Autor del libro Etnoarqueología de grupos domésticos mayas: identidad y espacio residencial de Yaxunah, Yucatán (2014) publicado por la UNAM y editor del libro Identidades y cultura material en la región maya (2010), publicado por la UADY.

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Espaços da cultura e representações do espaço: entre o simbólico e o concreto / Revista Espacialidades / 2015

A Revista Espacialidades, por meio do dossiê intitulado Espaços da cultura e representações do espaço: entre o simbólico e o concreto – voltado às discussões, manifestações e problematizações das diversas matizes que envolvem a ideia e o conceito de cultura –, apresenta seu 8º volume. Organizar este dossiê, como todos os outros, não foi uma tarefa simples, mas é o resultado final que nos faz, ano após ano, perceber o quão importante é esta publicação. A certeza de que nossa publicação é fundamental à comunidade científica e demais leitores interessados nos fez decidir que esta tarefa se tornará mais prazerosa e onerosa, visto que é este o último volume anual da Espacialidades – que passará a ser semestral a partir do ano vindouro.

Agradecemos ao nosso quadro de pareceristas, formado por profissionais de destacado renome nacional e internacional, que com seu profissionalismo atua para que a qualidade desta publicação se mantenha com o passar dos anos. Outrossim, os articulistas que nos confiaram a missão de divulgar suas produções merecem também nosso profundo agradecimento. É para nós salutar expressar também os mais sinceros agradecimentos a Tyego Flankim da Silva, que exerceu a função de editor-gestor na edição passada, pela valorosa ajuda também neste volume, e a Adriel Silva, aluno do Programa de Pós-Graduação em História (PPGH), cujo talento nos brindou com a belíssima imagem que ilustra a capa desta edição.

Este volume, cujo dossiê é voltado à discussão cultural, é contemplado ainda com duas entrevistas, uma resenha e um resumo de dissertação, nova modalidade de publicação que resolvemos acolher. De maneira igualmente fundamental apresentamos os artigos da seção livre, cujas temáticas abordadas são múltiplas, sem as quais não seria possível a diversidade desta publicação.

Recebemos textos de articulistas de diversas universidades, e mantivemos em nossa publicação um artigo escrito por um aluno de nosso Programa de Mestrado, como tradicionalmente defende a Revista. Doravante, apresentaremos esses textos e contamos com a divulgação e apreciação por parte de vocês, leitores – a parte central da engrenagem que forma e que motiva a Espacialidades e sua equipe editorial.

Abrindo o 8º volume da Revista Espacialidades, Carolina Ferreira de Figueiredo e Nicoll Siqueira da Rosa, ambas mestrandas em História pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), apresentam o artigo “A eficiência cultural da forma: apontamentos sobre o uso de imagens nas áreas de história e antropologia visual”, e fazem uma discussão teórica acerca do uso das imagens como forma de produção do conhecimento, em um momento em que o debate acerca da cultura visual é relevante à compreensão do mundo contemporâneo.

Em seguida, Alicia Karina Valente, mestranda do Instituto de Historia del Arte Argentino y Americano – Facultad de Bellas Artes, da Universidad Nacional de La Plata (UNLP – Argentina), apresenta seu texto, “Palimpsestos visuales en un espacio cultural autogestionado”, que traz a análise de uma forma estética marcada pela presença do graffiti e do sténcil no interior e exterior de um espaço cultural autogerido, o Centro Cultural y Social El Galpón de Tolosa, da cidade de La Plata, na Argentina.

Aguiomar Rodrigues Bruno, mestre pela Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ), apresenta seu texto “Tractatus de arte et scientia bene moriendi: a literatura pedagógica da morte no interior Fluminense Oitocentista (Freguesia de Piraí)”, que busca evidenciar o alcance e a influência da literatura devocional da boa morte no imaginário e nas práticas populares mortuárias no interior do Vale do Paraíba Fluminense, especificamente na freguesia de Piraí, na primeira metade do século XIX.

Amanda Teixeira da Silva, professora da Universidade Federal do Cariri (UFCA), proporciona ao leitor o estudo intitulado “A fisionomia da pedra: um olhar sobre a escultura de Agostinho Balmes Odísio”, que aborda a influência da arte funerária sobre a escultura de Agostinho Balmes Odísio, escultor italiano que viveu em Juazeiro do Norte entre os anos de 1934 e 1940.

Alexandra Lis Alvim, mestranda em História Cultural pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), apresenta seu artigo, intitulado “‘Anos 70, não deu pra ti…’: considerações sobrea memória, juventude e período autoritário através do filme “Deu pra ti, anos 70…” (1981) e da peça teatral ‘Bailei na Curva’ (1983)”, no qual a autora se propõe a fazer uma análise das produções culturais surgidas nos anos finais da última ditadura brasileira: o longa-metragem em Super 8, lançado em 1981,“Deu pra ti, anos 70…”, de Nelson Nadotti e Giba Assis Brasil, e a peça teatral “Bailei na Curva”, que estreou em 1983, pelo grupo Do Jeito Que Dá – duas produções que discorriam em tom nostálgico e reflexivo sobre a experiência da geração que cresceu sob o período autoritário.

Henrique Masera Lopes, aluno do Programa de Pós-Graduação em História da UFRN, oferece ao leitor seu artigo “A linha de fronteira se rompeu: poéticas musicais de um nordeste psicodélico nos anos 70”, que se ocupa em problematizar a emergência de novas culturas espaciais a partir da segunda metade do século XX através do que se convencionou denominar por corrida espaço-sideral.

Partindo à segunda parte desta publicação, cujas temáticas são livres, Ada Raquel Teixeira Mourão, docente da Universidade Federal do Piauí (UFPI), José Elierson de Sousa Moura, mestrando pela UFPI, e Larice Íris Marinho Moura, licenciada em História pela UFPI, através do texto “Picos nas sombras do tempo: a cidade pré-reforma urbanística como espaço da saudade” analisam o estranhamento identificado em alguns moradores com relação à cidade de Picos (Estado do Piauí) da contemporaneidade, evocado através do sentimento de saudade da cidade associado à década de 1950, período de destaque da economia agrícola às margens do Rio Guaribas, e da década de 1960, quando a cidade oferecia uma variedade de espaços de lazer e convivência para os citadinos.

Francisco Ramon de Matos Maciel, mestre em História e professor do Projovem Campo Ceará, apresenta em seu texto, intitulado “Territórios da Seca: ordenamento e resistência na cidade de Mossoró na seca de 1877”, um estudo das formas de ordenamento e controlo espacial encontrado na cidade de Mossoró durante a seca de 1877.

Cristiano Luiz da Costa e Silva e Ludmila Pena Fuzzi, ambos do Instituto de Pesquisa Histórica e Ambiental Regional (IPHAR), em artigo intitulado “Identidade sustentável: espacialidade, identidade e memória nos estudos sobre comunidades quilombolas”, tratam da relação das comunidades quilombolas com seu território, buscando na Identidade Sustentável do Instituto de Pesquisa Histórica e Ambiental Regional (IPHAR) respaldos para a manutenção e perpetuação das Memórias Solidificadas, propiciando a legitimação destes espaços.

Carlos Alexandre Barros Trubiliano, docente da Universidade Federal de Rondônia (UNIR), apresenta o texto “A fundação do homem público nos primórdios do coronelismo em Campo Grande – MT / MS (1905-1917)”, que trata do papel de Campo Grande enquanto principal centro econômico e político do sul de Mato Grosso. O artigo discute sobre a elite política formada por homens cuja principal fonte de riqueza provinha da criação de gado. Para esses coronéis, a administração pública era uma continuidade da sede da fazenda.

Edson Silva, mestre em História pela Universidade Federal de Campina Grande (UFCG), no artigo “A produção do lazer na urbe: a construção do Estádio Municipal Francisco Rocha Pires (Jacobina – BA – 1955-1959)” promove uma análise da edificação do estádio municipal Francisco Rocha Pires, inserida dentro de um processo de modernização urbana, ocorrido na cidade de Jacobina em meados da década de 1950. O autor procura descrever e examinar a construção do campo esportivo na medida em que esse espaço instituía no mapa urbano um ambiente de lazer e prática de esportes.

Julio César dos Santos, docente do Instituto Federal de Mato Grosso (IFMT) e doutorando em História pela Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT), em parceria com Luciene Aparecida Castravechi, doutoranda em História pela Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT), apresentam o texto “Alberto Torres: uma revisita historiográfica”. Os autores contextualizam os escritos de Alberto Torres dentro de um complexo processo de discussão acerca da identidade da nação brasileira, nos finais do século XIX e inícios do século XX, a partir de sua mais significativa publicação: “A Organização Nacional”, datada de 1914.

Elynaldo Gonçalves Dantas, mestre em História pela Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), apresenta no texto “Gustavo Barroso, um intérprete do Brasil: a nação na escrita integralista barrosiana” uma reflexão sobre a organização do espaço nacional no pensamento integralista de Gustavo Barroso, utilizando-se dos livros “O Integralismo em Marcha” e “O Integralismo de Norte a Sul” como fontes.

João Paulo França, mestre em História pela Universidade Federal de Campina Grande (UFCG) e professor do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Rio Grande do Norte (IFRN), através do artigo “A Rua do Esquecimento: a memória dominante nos logradouros centrais de Campina GrandePB”, apresenta uma visão acerca do processo de nomeação e renomeação das ruas do núcleo central da cidade de Campina Grande, alertando que as mudanças pelas quais passaram a cidade ficaram registradas nos nomes que foram conferidos às Ruas, demonstrando assim, um processo de transformação espacial e cultural.

Francisco Antônio Zorzo, Leda Maria Fonseca Bazzo, professores da Universidade Federal da Bahia (UFBA) e Lucian Conceição de Alcântara, discente da mesma universidade, apresentam seu texto “Território Urbano e Memória Coletiva – As Lavandeiras Comunitárias de Salvador e o caso do Alto das Pombas”, que trata de uma pesquisa em desenvolvimento em uma lavanderia pública estadual de Salvador, a saber, a lavanderia Nossa Senhora de Fátima. A pesquisa, além de levantar dados sobre o funcionamento do equipamento e da história das lavandeiras comunitárias mantidas pelo governo do Estado da Bahia, investiga as formas de resistência cultural empreendidas pelas lavadeiras para manter o seu modo de vida e garantir o seu espaço de moradia e de trabalho.

Rodrigo Pereira, doutorando pelo Museu Nacional (UFRJ), faz em seu texto “As transformações no matriarcado Nagô nos candomblés do estado do Rio de Janeiro (séculos XX e XXI): a figura do homem no comando dos axés”, a apresentação de uma amostragem de dados sobre candomblés fluminenses em que a quantidade de dirigentes do sexo masculino é maior que a feminina. O autor discute como o sexo masculino tem ganhado espaço em um processo histórico de aceitação destes na liderança dos axés.

Inaugurando a seção que engloba resumos de dissertações e teses, Rodrigo dos Santos apresenta as discussões realizadas em sua dissertação, intitulada “Discursos sobre imigração no jornal Folha do Oeste – Guarapuava, Paraná”, produzida na Universidade Estadual do Centro-Oeste (UNICENTRO), sob orientação do Prof. Dr. Fernando Franco Netto. O objetivo principal de seu texto é analisar os discursos do jornal Folha do Oeste sobre imigrantes, no período de 1946 a 1960.

Roger Diniz Costa, mestrando em História pela Universidade Estadual do Oeste do Paraná (UNIOSTE), apresenta a resenha intitulada “A construção do engenho e a saudade na literatura de José Lins do Rego”, cujo livro é de autoria de Diego José Fernandes Freire e se intitula: “Contando o passado, tecendo a saudade: a construção simbólica do engenho açucareiro em José Lins do Rego (1919-1943)”.

O fechamento deste volume ocorre com duas entrevistas com os professores doutores Flavia Galli Tatsch, professora adjunta de História da Arte Medieval na Escola de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (EFLCH) da Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP), e Paulo Roberto Tonani do Patrocínio, professor do Departamento de Letras-Libras da Faculdade de Letras da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Os professores nos presenteiam com duas entrevistas sobre suas trajetórias acadêmicas, suas produções recentes e sobre os desafios enfrentados pelo pesquisador diante dos seus objetos.

Boa leitura a todos!

Marcia Vasques – Doutora, editora-chefe; Aledson Manoel Silva Dantas; Flávia Emanuelly Lima Ribeiro Marinho; Francisca Kalidiany de Abrantes Lima; Keidy Narelly Costa Matias; Livia Brenda da Silva Barbosa e Raphael Alves da Costa Torres, membros da equipe editorial do corrente ano.


VASQUES, Marcia Severina; MARINHO, Flávia Emanuelly Lima Ribeiro; et al. Apresentação. Revista Espacialidades. Natal, v.8, n. 01, 2015. Acessar publicação original [DR]

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El rio Mapocho y sus riberas. Espacio público e intervención urbana en Santiago de Chile (1885-1918) – FERNÁNDEZ (RAHAL)

FERNÁNDEZ, Simón Castillo. El rio Mapocho y sus riberas. Espacio público e intervención urbana en Santiago de Chile (1885-1918). Santiago: Ediciones Universidad Alberto Hurtado, 2014. Resenha de: RIVERA, Francisco. Revista de Arqueología Histórica Argentina y Latinoamericana, Buenos Aires, v.2, n.9, 63-68, 2015.

Hace algunos años, un grupo de jóvenes arqueólogos chilenos fueron llamados a excavar y evaluar los componentes materiales de los antiguos tajamares del río Mapocho en Santiago de Chile, descubiertos durante las obras de construcción de la nueva línea del tren subterráneo (Metro). Ese acontecimiento significó un punto de inflexión en la arqueología chilena, ya que en gran medida abrió y permitió consolidar el campo de la arqueología histórica urbana en nuestro país. Estimuló, entre otras cosas, el desarrollo de nuevas metodologías y técnicas, hasta ese entonces novedosas para los profesionales interesados por la materialidad del pasado histórico. Junto con ello, obligó también a estos jóvenes arqueólogos a profundizar su mirada sobre los restos materiales de los complejos procesos de intervención del río Mapocho en particular, y de planificación urbana en general, durante los siglos XIX y XX en la ciudad de Santiago. Dichas intervenciones urbanas arrojaron importantes evidencias que han permitido desde entonces conocer más sobre la relación de la ciudad con el río, y sus distintos procesos constructivos a través del tiempo.

Al igual que en otros países latinoamericanos como Brasil o Argentina, en Chile el estudio de la cultura material de los períodos históricos fue desarrollado tradicionalmente por profesionales venidos de disciplinas ajenas a la arqueología, como arquitectos o historiadores del arte (Funari 1997). Si bien desde la arqueología reconocemos que no podemos competir con la fuerza del registro escrito y oral que predomina en la interpretación histórica, desde aquellos años se ha buscado un mayor acercamiento entre ambas disciplinas, lo que ha llevado a los arqueólogos chilenos a buscar soluciones metodológicas en los planteamientos de aquellas disciplinas afines, de la mano además con la tendencia teórica en boga del post-procesualismo y sus flirteos con la hermenéutica y del post-estructuralismo como modelos de explicación del registro material. En ese escenario, surgieron también en la arqueología histórica chilena diversos compromisos teóricos; la historia como eje de investigación a la cual la arqueología aportaría con datos materiales o ésta última como laboratorio en el cual se podrían probar modelos que luego serían útiles a la prehistoria (Gómez Romero y Pedrotta 1998). Sin embargo, en los últimos años se ha acordado una perspectiva global que busca una agenda de investigación arqueológica propia con elementos en común con la historia y la antropología. En mi opinión, el trabajo de Castillo “El río Mapocho y sus riberas” debe insertarse en el desarrollo de esta última perspectiva, si bien éste nace y se focaliza principalmente en la historiografía pura.

El libro es el resultado de la tesis doctoral del historiador chileno Simón Castillo Fernández, el cual trata sobre la transformación urbana y su relación con el río Mapocho entre 1885 y 1918. A pesar de que en algunos pasajes la voz del autor se pierde entre el “ruido” de las abundantes referencias bibliográficas, lo que podría quizás hacer perder a algún lector, el texto mantiene sin embargo una coherencia interna amena y estimulante, y se lee como un conjunto fluido de capítulos y no como un árido documento académico. El elemento central de la tesis de Castillo es el espacio público en la ciudad de Santiago de Chile, entendiéndolo “en doble sentido de esfera pública y lugar construido y practicado” (p. 39). El autor así entonces decortica y explica las transformaciones socio-culturales producidas por las intervenciones técnicas y urbanísticas llevadas a cabo en las riberas del río Mapocho. La hipótesis del autor señala que “la transformación de los bordes del Mapocho urbano desarrollada el menos entre 1885 y 1918 fue una intervención inédita debido a un proceso de modernización urbana de nuevas dimensiones” (p. 50). En ese cuadro de análisis, el autor se centra en las dimensiones sociales inherentes a los procesos de transformación urbana desde fines del siglo XIX y principios del siglo XX, centrándose en tres elementos propios de la modernización urbana y de conformación del espacio público: la higiene, la estética y el tránsito, los cuales surgieron como ejes centrales a partir de la gran obra de intervención que constituyó la canalización del Mapocho a fines del siglo XIX.

En la introducción el autor señala sus objetivos de investigación, el cual es entregar una historia sociocultural de aquellas transformaciones urbanas “que coadyuve a una discusión más densa sobre el espacio público en Santiago de Chile” (p. 25), comprendiendo con ello también la relación establecida en la ciudad entre el Estado y la sociedad civil (p. 30). El texto comprende cinco capítulos, iniciándose con un vuelo histórico por las percepciones construidas alrededor del río. El segundo y tercer capítulo se centran en las primeras grandes obras públicas de intervención del río a fines del siglo XIX y primero años del siglo XX, para luego abordar los problemas y políticas públicas con respecto a la ribera norte, de un marcado carácter popular. El autor se centra en los problemas ligados a las primeras grandes expansiones urbanas hacia estas zonas de la ciudad y el interés de las élites por controlarlo, a través de instituciones sanitarias y mercados. El capítulo cuarto se extiende sobre la realización de espacios públicos como los parques construidos en la ribera sur (Parque Centenario, Cerro Santa Lucía, Estación Mapocho), demostrando un claro contraste con las intervenciones llevadas a cabo los años anteriores en su ribera opuesta. Por último, el capítulo quinto y final trata sobre la ocupación de la ribera norte durante los primeros decenios del siglo XX, tomando como eje las nuevas expansiones urbanas hacia aquella zona y la habilitación como espacio público del Cerro San Cristóbal.

Es interesante resaltar del libro de Castillo, que las políticas de intervención urbana en Santiago aparecieron condicionadas, como era de esperarse en una sociedad sumamente segmentada socialmente, por enfoques muy distintos pero coexistentes dentro del espacio social urbano. Como bien lo sabemos a partir de los trabajos de Bourdieu, en el espacio moderno, y la ciudad de Santiago no fue ninguna excepción, los grupos se distinguieron bajo la diferenciación de capital económico y cultural, y que Castillo identifica y ve reflejadas en las políticas de intervención del espacio público. En este trabajo, Castillo considera relevantes aquellos aspectos del espacio urbano que dicen relación por un lado con el contexto social en el cual se inserta (el pensamiento moderno, burgués y urbano), pero –lo más importante en mi opinión– como dispositivo constituyente de aquellas prácticas diferenciadas del espacio social. En palabras del autor, “las relaciones entre naturaleza y sociedad urbana como horizonte proyectual-disciplinario donde intervienen elementos de la urbanística moderna y del control social, ligados a procesos de modernización” (p. 38).

El autor examina entonces ciertas variables significativas en la elaboración de las políticas espaciales, intentando determinar su relación con la ciudad en su conjunto, como por ejemplo en los capítulos tercero y cuarto, en los cuales discute las diferencias entre sectores socialmente distintos y por lo tanto como constitutivas de las prácticas diferenciadas, así como expresión material de las desigualdades sociales presentes en la ciudad a fines del siglo XIX y principios del XX. Quien camina hoy por las calles de Santiago sabe que el río Mapocho no sólo ha sido el emblema de la ciudad, sino que éste es el reflejo de las contradicciones Rivera 2015: 63-68(Reseña) 66  sociales al interior de ella. Siguiendo al autor, el río ha representado una frontera que corta la ciudad en dos, con una mitad norte de carácter campesino, marginal, y asociado a las clases populares (el famoso barrio de la Chimba es el ejemplo más elocuente de dicho imaginario), y una mitad sur urbana, burguesa, y asociado a las clases más acomodadas. Desde esta representación, el autor nos recuerda que las estructuras derivadas de las políticas urbanísticas funcionan como elementos activos del espacio, materializadas luego por pautas de conductas específicas de los individuos, tal como queda demostrado a partir de la transformación de espacios naturales en espacios públicos, como fueron los casos de los parques Centenario y Forestal.

El autor nos muestra entonces que el espacio es también una construcción socio-cultural, históricamente condicionada y que responde a una lógica particular de los sistemas políticos de la época: “los artefactos urbanos como productores de sentido y construcción de la realidad” (p. 46). El libro nos permite entender entonces la planificación urbana y la espacialidad como campos de discurso, en el cual se configuran las contradicciones sociales evidenciadas en la documentación escrita. Bajo estos parámetros, Castillo plantea que es posible identificar aquellos rasgos espaciales que son socialmente representativos de las políticas de ordenamiento urbano a través del tiempo, desde las primeras ideas de Benjamín Vicuña Mackenna en el siglo XIX, y que fueron comandadas a numerosos arquitectos e ingenieros como Joaquín Toesca y Alejandro Bertrand. Es decir, la organización espacial y los elementos estructurales que componen el espacio urbano como los parques, mercado y edificios públicos (tales como el Desinfectorio Público y la Protectora Nacional de la Infancia, por ejemplo), se perciben –incluso hasta el día de hoy– como algo “natural” y no como dispositivos de orden social. En otras palabras las formas que estas construcciones adquieren en relación a la liminalidad simbólica del río.

Para el autor, la identificación de las diferencias sociales que se generan en una determinada espacialidad y a ésta como una dimensión socialmente producida, permiten finalmente entender la relación entre las respuestas que la sociedad civil tuvo sobre este orden y sus características reales; el espacio social urbano produce y reproduce desigualdades sociales al marcar la pertenencia o la exclusión a ciertos barrios, zonas, ámbitos o grupos (clases sociales, género, facciones, etc.). En síntesis, me parece que desde una mirada arqueológica, el aspecto más interesante de este trabajo es el esfuerzo por identificar las relaciones sociales que se generan dentro un sistema o espacio social, y la forma en la cual se expresan materialmente en términos de su ordenamiento espacial y sus componentes artefactuales. En ese sentido, el mejor ejemplo es el sistema hidráulico y de alcantarillado. Desde el punto de vista de los análisis morfo-funcionales y cronológicos de esta materialidad recuperada de las excavaciones arqueológicas, se ha intentado indagar en aspectos relativos a la higiene y salud pública, así como al desarrollo urbano sostenido por Santiago desde su fundación hasta los inicios del siglo XX, cuando se moderniza el sistema de agua potable y alcantarillado, que se encuentra en uso hasta hoy. Los restos que se encuentran bajo la ciudad revelan que es sólo con la efectiva modernización del sistema de agua potable implementado hacia 1920 cuando las condiciones de salubridad mejorarán para sus habitantes. Si bien las nuevas infraestructuras comienzan a instalarse desde mediados del siglo XIX, éstas se restringieron sobre todo al centro histórico, permaneciendo los antiguos sistemas coloniales en los sectores suburbanos de Santiago.

Si bien el trabajo de Castillo nos obliga como arqueólogos a reconsiderar el enorme cuerpo documental como base insoslayable de datos, creo que no debemos por ese motivo considerarlos como núcleo de las interpretaciones al cual los datos materiales aportarían información sobre aspectos invisibles del registro escrito. Si se me permite una defensa de una posición arqueológica, me parece insuficiente considerar las fuentes escritas solamente como una voz única, sino que nos deben servir como base para postular modelos propios en problemáticas específicas de estudio, como en este caso, el de las intervenciones urbanas en el Santiago de los siglos XIX y XX. En ese sentido, en mi opinión creo que necesitamos un mayor compromiso de la arqueología en los procesos de documentación del pasado, con una mirada puesta sobre el rol protagónico de la materialidad. Si hay algo que podríamos reprochar del trabajo de Castillo es la ausencia de referencias a los trabajos arqueológicos realizados en los numerosos estudios de impacto ambiental en el casco histórico de Santiago desde la década de 1990 en adelante. Sin embargo, creo que esta ausencia acusa una falencia de la propia arqueología, y es la de nuestro encierro disciplinario y falta de diálogo con sus ciencias hermanas. Si es ya difícil construir un marco bibliográfico sobre los resultados de las excavaciones arqueológicas en Santiago, es porque estas no son accesibles al gran público. Tenemos ahí una gran responsabilidad, en cuanto a la falta de difusión de nuestros resultados, los cuales enriquecerían sin lugar a dudas las investigaciones históricas. El libro de Castillo nos recuerda una vez más que confinar los objetos de estudio en campos aislados, terminará inevitablemente silenciando aquellos eventos y grupos subordinados que no fuesen registrados por la pluma histórica. Rivera 2015: 63-68(Reseña) 68  Para cerrar, si la ya clásica obra de Armando de Ramón, “Santiago de Chile: historia de una sociedad urbana” (2000) es una obra imprescindible para conocer el proceso de urbanización capitalino, el trabajo de Castillo es un trabajo igualmente invaluable de documentación para la evaluación de nuestros futuros proyectos arqueológicos; un ladrillo fundamental a los mismos cimientos que sustentan nuestras disciplinas, al menos en Chile incomprensiblemente tan alejadas entre sí.

Referências

Funari, P. P. 1997. Archaeology, history, and historical archaeology in South America. International Journal of Historical Archaeology 1 (3):189-206.

Gómez Romero, F. y V. Pedrotta 1998. Consideraciones teórico metodológicas acerca de una disciplina emergente en la Argentina: la Arqueología Histórica. Arqueología 8:29-56.

Francisco Rivera Amaro – Arqueólogo (Universidad de Chile), Magíster en Ciencias Históricas con mención en Arqueología (Universidad de Friburgo, Suiza), actualmente cursa el programa de Doctorado en Antropología en la Universidad de Montreal, Canadá. Es socio y representante legal de la consultora SurAndino Estudios Arqueológicos y Patrimoniales Ltda. Ha trabajado en distintos proyectos de investigación Fondart y Fondecyt en el Norte Grande de Chile, especialmente en el área de la arqueología histórica de la minería. Es autor y coautor de artículos y libros, entre ellos El Mineral de Caracoles. Arqueología e historia de un distrito minero de la Región de Antofagasta (1870-1989) (2008) y Arqueología Histórica en el Mineral de Capote, Chile: organización espacial y diferenciación social en una mina de oro (siglo XX) (2012).

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Literatura e racismo: uma análise intercultural – MELO JR (B-RED)

MELO JR., Orison Marden Bandeira de. Literatura e racismo: uma análise intercultural. Recife: Ed. Universitária da UFPE, 2013. 111 p. [Coleção Étnico-racial]. Resenha de: SANTOS, Rubens Pereira. Bakhtiniana – Revista de Estudos do Discurso, v.10 n.1 São Paulo Jan./Apr. 2015.

Literatura e racismo: uma análise intercultural, de Orison Marden Bandeira Jr., é um livro atraente. Resultado de uma pesquisa de mestrado, na Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, o autor transita pelos mais variados setores da cultura: filosofia, história, antropologia, literatura, e realiza uma rigorosa análise de duas obras escritas no século XIX: O mulato (1881), de Aluísio Azevedo e The house behind the cedars (1900), do escritor americano Charles Chesnutt. Ambas são ambientadas na década de 1870 e a proposta do autor, para a análise literária, foi a de utilizar-se dos estudos bakhtinianos na intenção de apontar a existência de um discurso marcadamente racista, em especial, na fala do narrador. Como apoio para suas argumentações, Orison investiga obras anteriores, comprovando a presença de ecos de um discurso preconceituoso em relação ao negro e também ao mulato. Dos autores brasileiros, o autor demonstra que em Memórias de um sargento de milícias (1854), de Manuel Antônio de Almeida, As vítimas algozes: quadros da escravidão (1869), de Joaquim Manuel de Macedo, O tronco do ipê (1871), de José de Alencar, A escrava Isaura (1875), de Bernardo Guimarães e Iaiá Garcia (1871), de Machado de Assis, há muitas situações em que o discurso empregado pelo narrador resvala para o preconceito. A mesma comprovação é feita no romance americano A Cabana do Pai Tomás (1852), da escritora Harriet B. Stowe. Publicado em 2013, pela Editora Universitária (UFPE), o livro faz parte de uma coleção comemorativa aos dez anos da lei 10639/2003, projeto da Pró-Reitoria de Extensão da Universidade Federal de Pernambuco.

Composto por uma breve Introdução, dez capítulos e as Considerações Finais, o autor envereda por questões da mais alta importância para os estudos literários: ancorado em Bakhtin, Volochínov, Fiorin, dentre outros, estabelece as bases para a sua análise, explorando narrativas que, potencialmente, apontam para a existência do discurso racista. No capítulo 1, encontram-se os pressupostos da pesquisa. O título, bastante significativo, indica o que vai ser discutido: “Uma análise literária intercultural a partir dos conceitos de palavra, enunciado, dialogismo e compreensão” (MELO Jr., 2013, p.17). O método utilizado pelo autor é claramente bakhtiniano, baseado na Análise Dialógica do Discurso. Apoia-se, inicialmente, em estudiosos da temática, como Beth Brait (Análise e teoria do discurso), José Luiz Fiorin (Introdução ao pensamento de Bakhtin), para depois ir à fonte com Volochínov (Marxismo e filosofia da linguagem) e Os gêneros do discurso, de Bakhtin. Todos os autores têm a mesma visão sobre o texto literário e sobre a conceituação da palavra [“signo ideológico por excelência, possuindo duas dimensões: a dimensão semiótica (materialidade) e a dimensão ideológica (metalinguagem)” (MELO Jr., 2013, p.18)].

Municiado pela concepção de linguagem de Mikhail Bakhtin (o enunciado e/ou a palavra é perpassada pelo diálogo do outro), Orison trabalha o capítulo 2, apresentando teóricos do racismo que defendiam a inferioridade da raça negra, como o zoólogo suíço Agassiz. Em Voyage au Brésil (1867), escrito em parceria com a mulher, ele relata o encontro que teve com uma “população inferior”, composta por negros, mulatos e índios. Vejamos, por exemplo, o que diz o suíço a respeito das suas ideias sobre os negros, quando fala sobre a educação da mulher no Brasil: “[…] é a consequência do contato incessante com os criados pretos e mais ainda com os negrinhos que existem sempre em quantidade nas casas. Que baixeza habitual e os vícios dos pretos sejam ou não efeitos da escravidão, o certo é que existem” (AGASSIZ; AGASSIZ, 2000, p.26)1.

As ideias raciais de Agassiz encontraram espaço nos Estados Unidos e também no Brasil. Sílvio Romero, em História da literatura brasileira, concordou com a doutrina de superioridade da raça branca, creditando ao português o galardão, por ser o principal agente da cultura brasileira. Romero falava do “embranquecimento” da população brasileira, vaticínio que não prosperou. Na esteira do teórico brasileiro há nomes importantíssimos da “intelligentsia” nacional, como o abolicionista Joaquim Nabuco e Nina Rodrigues. Interessante é o caso de Nabuco, por ser um veemente abolicionista: estranha-se sua posição sobre a superioridade da raça branca, chegando a afirmar que o negro exercia uma influência negativa em relação ao branco.

No capítulo 3, o autor discute essas teorias racistas e os possíveis ecos do discurso racial em obras brasileiras. Memórias de um sargento de milíciasAs vítimas algozes: quadros da escravidão, O tronco do ipêA escrava Isaura e Iaiá Garcia foram os romances selecionados para rápidas análises. Em todas elas o narrador utiliza palavras ou frases que determinam a existência de preconceito racial. De fato, o leitor verificará que, mesmo naquelas obras que tenham o cunho de defender o negro, há referências a um discurso racialista. Macedo, em As vítimas algozes, por exemplo, coloca na voz do narrador a necessidade da abolição da escravatura porque “os escravos são perniciosos ao convívio dos brancos, seus senhores” (MELO Jr., 2013, p.34), assegurando que “nunca em parte alguma do mundo houve senhores mais humanos e complacentes que no Brasil” (MACEDO, 1991, p.62)2. Na obra macediana, o escravo é descrito como “imoral”, “ignóbil”, “perverso”, “violento”. Ressalte-se que o leitor terá ao final do capítulo um resumo do que foi exposto. Por exemplo, em Memórias de um sargento de milícias encontramos o estereótipo do “escravo desprezível”, em As vítimas algozes encontram-se os estereótipos do “escravo demônio”, do “escravo desprezível” e do “escravo imoral”. Em A escrava Isaura e Iaiá Garcia destaque para o estereótipo do “escravo nobre”.

O capítulo 4 traz ao leitor uma análise d’O mulato. O autor faz uma breve introdução sobre a recepção da obra em São Luiz do Maranhão. Raimundo Menezes, em sua biografia sobre Aluízio, diz que a repercussão não foi boa, pois os moradores da cidade viam nos personagens do romance uma crítica a si mesmos. Apesar de o romance apresentar uma crítica feroz ao preconceito, denunciando os maltratos sofridos pelos negros escravos, explicitando a perversidade dos senhores, há momentos em que, contraditoriamente, o leitor encontra ao longo da narrativa “descrições preconceituosas de personagens negras secundárias” (MELO Jr., 2013, p.45). Como exemplo, pode-se citar a descrição que o narrador faz sobre os negros fugidos: “escravos fugidos com suas mulheres e seus filhos, formando uma grande família de malfeitores” (AZEVEDO, 1992, p.48)3, ou essa outra caracterização sobre a falta de asseio dos escravos: “à insuficiente claridade de uma lanterna suja, o sinal gorduroso das mãos dos escravos” (AZEVEDO, 1992, p.132)4. São sinais evidentes do discurso racista, e o narrador “deixou várias marcas subjacentes deste preconceito na sua fala, através de palavras e frases de cunho preconceituoso […]” (MELO Jr., 2013, p.50). Para o autor, existe “uma representação estereotipada do elemento negro na narrativa e há a descrição do herói afrodescendente com características de heróis brancos” (MELO Jr., 2013, p.50). Um outro ponto a destacar no capítulo é uma comparação que o narrador faz sobre Benedito, uma criança escrava “um pretinho seco, retinto, muito levado dos diabos… (…) atravessou a sala com uma agilidade de macaco” (AZEVEDO, 1992, p.63)5. Citando Bakhtin, que em Questões de literatura e de estética (2002) afirma que “uma linguagem particular no romance representa sempre um ponto de vista particular sobre o mundo, que aspira a uma significação social” (MELO Jr., 2013, p.135)6, Orison reafirma, com muita propriedade, que o “símile do escravo com o macaco não pode passar despercebido, já que essa linguagem encontra uma significação particular no mundo científico do século XIX” (MELO Jr., 2013, p.49). Nos dias atuais esta relação adquiriu foros de realidade, em função dos atos de preconceito perpetrados por uma minoria racista em todo o mundo.

Do capítulo 5 ao capítulo 8, o foco é o romance de Charles Chesnutt The house behind the cedars. Diferentemente do que acontecia no Brasil, nos Estados Unidos havia leis que definiam se o cidadão era negro ou branco. Se ele tivesse 1/8 de sangue negro era considerado negro, lei criada em 1705, na Virgínia, e já no século XIX (entre 1830 e 1840, houve um arrochamento da lei com a criação da regra one-drop (uma gota). A regra determinava que pessoas, mesmo que não tivessem quaisquer traços negroides – mas se tivessem apenas uma gota de sangue negro, estavam proibidas de se casarem com pessoas brancas. Isso está explícito no romance de Chesnutt, quando o juiz Straight declara que “uma gota de sangue negro torna todo o homem negro” (CHESNUTT, 1993, p.113)7. O autor realiza o mesmo procedimento que fez com O Mulato: antes de analisar The house behind the cedars, buscou elementos de preconceito racial no romance A cabana do Pai Tomás, de Harriet B. Stowe. Tomás, o protagonista, é descrito como um homem conformado com o seu destino, nega-se – inclusive – a fugir para não deixar o seu senhor em má situação. Mudando de senhor, mantinha-se fiel como um cão. Apesar do grande sucesso alcançado pelo romance que era visto como antiescravista, estudiosos afirmam o contrário: a narrativa apresenta uma visão romântica do escravo, o protagonista é o estereótipo do “escravo fiel”, humilde, resignado, cuja passividade é comparada à do burro de carga. A discussão sobre a color line (linha de cor) é esclarecedora para a compreensão do romance chesnuttiano. Algumas regras segregacionistas foram estabelecidas e todos deviam obedecê-las, por exemplo, “o homem negro não podia cumprimentar um homem branco com aperto de mãos; os negros não podiam mostrar afeição entre si em público; os negros sempre eram apresentados aos brancos, nunca o inverso” (PILGRIM, 2000)8.

O capítulo 8 apresenta a análise dos elementos discursivos em The house behind the cedars. O contexto social era de segregação racial, portanto a fala do narrador vai por esse caminho. A casa atrás dos cedros constituía-se no ambiente segregado, negros e mulatos viviam afastados da pequena cidade de Patesville, na Carolina do Norte. A heroína é Rena, filha de Mis’ Molly Walden, “uma afrodescendente livre, filha de pais livres e legalmente casados” (MELO Jr., 2013, p.52). O pai de Rena era um homem branco e rico, apesar de sua ascendência negra sua tez não denunciava isto, podia passar-se por branca, desde que saísse da “casa atrás dos cedros”, da cidade e do estado. Se quisesse pertencer ao “mundo dos brancos” teria que ultrapassar a linha de cor. Foi para Clarence (Carolina do Sul), acompanhando o irmão, e para anular de vez a sua origem mudou até de nome, passando a chamar-se Rowena Warwick. Rena apaixonou-se por um amigo de seu irmão, George, e estavam prestes a marcar a data do casamento. Mas um imprevisto mudou completamente a vida de Rena. Tendo que voltar à cidade natal em virtude da doença da mãe, a sua origem foi descoberta, por acaso, pelo noivo. George viu-a sair de um consultório e soube pelo médico que ela era mestiça. Apesar de manter segredo sobre a situação de Rena e de seu irmão, recusou-se a casar com ela. Rena, abatida e triste, voltou a casa atrás dos cedros e lá morreu. Franz Fanon, em Pele negra máscaras brancas, dizia que a mulher negra tinha um objetivo: “tornar-se branca; a mestiça, por outro lado, não queria apenas tornar-se mais branca; queria não voltar a escurecer” (MELO Jr., 2013, p.75). Rena sentia-se superior aos outros afrodescendentes porque era “embranquecida”, mas para os brancos ela era inferior. Assim como fez em O mulato, o autor coloca um quadro com as palavras e frases encontradas na fala do narrador nas descrições de personagens, semelhantes às dos estereótipos, pontuados por Brookshaw: “escravo fiel” (fidelidade, devoção, senhor, fiel, fatalismo passivo), “escravo nobre” (superiores em sangue, qualidade superior, autoridade natural, movimentos graciosos, elegância discreta). Rena incorpora o estereótipo do “escravo nobre”, mas também foi objeto de adoração do negro, por ter a pele “embranquecida” é superior aos demais afrodescendentes.

Por fim, os capítulos 9 e 10. Neles, o leitor encontrará os traços comuns entre os dois romances (capítulo 9) e as especificidades de cada romance (capítulo 10). Após um rápido olhar sobre a literatura comparada, o autor enumera os traços comuns encontrados: as cidades escolhidas (pequenas, pobres, cheias de preconceito); eventos históricos (Guerra Franco-Prussiana, O mulato e pouco depois da Guerra Civil, The house behind the cedars); narrador onisciente; palavras preconceituosas nas falas do narrador; protagonistas embranquecidos; a morte (incapacidade do mestiço em sobreviver à lei da selva) e conflito de relacionamento.

Os traços individuais de cada romance são dois, de acordo com o autor: ângulo de visão e consciência ou não da ascendência negra. A primeira é bastante nítida, porque em O mulato a narrativa é sobre o mundo dos brancos, com a introdução do elemento afrodescendente; já no romance chesnuttiano a narrativa é sobre o mundo dos negros, no qual um elemento afrodescendente insere-se no mundo dos brancos. A segunda diferença também é clara, pois Raimundo desconhecia totalmente a sua condição até o momento da revelação, enquanto Rena tinha plena consciência de sua situação desde a infância. O capítulo termina com uma afirmação de Orison, com a qual concordamos inteiramente: a de que se pode chegar à conclusão de que os romances apresentam dois elementos fundamentais para a pesquisa. Estes elementos são o verbal (palavra) de cunho preconceituoso e o elemento discursivo, representado na fala de seus narradores. A escolha de “heróis embranquecidos” se deu num momento em que a comunidade científica branca de ambos os países clamava pelo “embranquecimento de sua raça como solução para a presença do elemento negro, considerado inferior na sua sociedade” (MELO Jr., 2013, p.97).

A contradição apresentada pelo narrador em ambos os romances (o combate ao preconceito com o uso de palavras e frases preconceituosas) corrobora a concepção bakhtiniana a respeito do discurso dialógico. Como bem diz Fiorin, citado na página 20, “todo discurso é inevitavelmente ocupado, atravessado, pelo discurso alheio”. Foi o que o autor constatou nas análises feitas. Com a publicação do livro, a Editora Universitária (UFPE) revela a preocupação que os acadêmicos pernambucanos têm com os problemas étnico-raciais brasileiros. A obra é um ótimo exemplo do empenho na divulgação dessas questões, que são de grande utilidade para nossas reflexões. Espera-se que o excelente trabalho de Orison Marden Bandeira tenha continuidade, pois a presente edição é uma boa mostra do compromisso do autor com as questões que afligem a sociedade brasileira.

1AGASSIZ, L.; AGASSIZ, E. C. Viagem ao Brasil. Trad. Edgar Süssekind de Mendonça. Brasília: Conselho Editorial, 2000. [Coleção O Brasil Visto por Estrangeiros]

2MACEDO, J. M. As vítimas algozes: quadros da escravidão. 3.ed. São Paulo: Scipione, 1991.

3AZEVEDO, A. O mulato. 11.ed. São Paulo: Ática, 1992. [Série Bom Livro]

4Ver nota de rodapé 3.

5Ver nota de rodapé 3.

6BAKHTIN, M. O discurso no romance. In: BAKHTIN, Mikhail. Questões de literatura e de estética: a teoria do romance. Trad. Aurora Fornoni Bernadini et al. 5 ed. São Paulo: Hucitec: Annablume, 2002. p.71-210.

7CHESNUTT, C. W. The House behind the Cedars. New York: Penguin Classics, 1993.

8PILGRIM, D. What was Jim Crow? Big Rapids, MI, Jim Crow Museum of Racist Memorabilia, 2000. Disponível em <http://www.ferris.edu/htmls/news/jimcrow/what.htm>. Acesso em: 18 maio 2013.

Rubens Pereira dos Santos – Universidade Estadual Paulista “Júlio de Mesquista Filho” – UNESP, Assis, SP, Brasil; reviru@terra.com.br.

Relações de Gênero, Sexualidade & Cinema | ArtCultura | 2015

Ensaiar a explicação de uma obra é, sobretudo, saber e confessar o quanto ela nos atravessou, quanto ela nos ajuda a reconhecermo-nos através dela.

Octávio Paz

Este dossiê, idealizado e concebido a seis mãos, é fruto de uma paixão e uma fantasia partilhada. Um paixão pela magia embriagante do cinema, pelas ilusões diegéticas da narrativa e sua visualidade, pelas multidimensões sensoriais de sua operacionalidade maquínica no seio de diversas e diferentes culturas visuais, pela potencialidade de intervenção crítica no seio das práticas culturais das cidades, das mais distintas localidades, do modo fugidio como as imagens escapam das fronteiras pré-estabelecidas dos gêneros (cinematográficos), dos limites das produções (censuras, verbas, gramática, tecnologias), da forma dramática como os vários modos de se produzir um filme (dos clássicos à videoarte) marcam imaginários e imaginações.

A fantasia, nos termos como bem a colocou Joan Scott1 , é de transformar este conjunto de textos num amálgama de leituras que extrapolem a crítica por si mesma e invista no elo entre o saber e a confissão (conforme Octávio Paz), ou seja, o ato poético de entender e tensionar obras e práticas filmográficas, de diferentes idiomas e gramáticas, naquilo que elas têm de táteis, isto é, no seu poder de nos tocar ainda que tenham sido parte de um passado do qual jamais faremos parte. O ontem que vive hoje como aprendizado estético e político, mas também como estopim para autodescentramento e autodistanciamento, que nos faça ver nosso hoje com a alteridade crítica que ele requer. Nesse sentido, a fantasia de ir a diferentes países (Índia, Nicarágua, Guiné, Estados Unidos, México, Inglaterra), trespassando, interligando vozes (femininas, feministas, queer) que ousem dialogar ao mesmo tempo com formas de ver e entender dos que criam a maquinaria artística e a engrenagem da indústria cinematográfica e dos que se dispuseram e se dispõem a pensar os impactos e as atuações, enfim, os efeitos subjetivos e microfísicos desta usina de produções de sentidos, significados, emoções e racionalidades. Leia Mais

Linchamentos: a Justiça Popular no Brasil | José de Souza Martins

Junho de 2015, programas televisivos e notícias na internet trazem as últimas manchetes policiais do dia: polícia “desfila” em carro aberto com suspeitos de matar PM na Paraíba. Nas imagens, a população local se aglomera neste “ato público” de punição aos “delinquentes”. A impressão é que todos se sentem empoderados pela “justiça”. Numa das cenas, um dos participantes, após esboçar uma careta, desfere um “cascudo” em um dos indivíduos já detido e, portanto, sobre a tutela da polícia – e do Estado. Talvez esses “delinquentes” jamais seriam devidamente processados, assim a “justiça popular” precisaria ser minimamente garantida, pelo menos constrangendo o sujeito.

Casos semelhantes, cada vez mais comuns em nosso país, embasaram o estudo do sociólogo José de Souza Martins em sua mais recente obra “Linchamentos: a Justiça Popular no Brasil” (Editora Contexto, 2015), na qual o autor se debruça sobre relatos de 2028 casos de linchamentos, comprovados ou tentados, nos últimos 60 anos, além do aprofundamento de dois estudos de caso. O livro é dividido em três partes: na primeira oferece uma análise sociológica quantitativa e qualitativa dos dados levantados com riqueza de detalhes; na segunda enfoca a relação dos linchamentos com a simbologia da morte; e na terceira oferece uma visão crítica de sua fonte de dados. Leia Mais

História e literatura / Historiae / 2015

As inter-relações entre História e Literatura constituem um processo inexorável no âmbito das diversas áreas do conhecimento humano. Suas origens são praticamente comuns, quando os representantes da intelectualidade açambarcavam em suas práticas os mais variados conteúdos do saber, de modo que, para tais “homens de letras”, os elementos constitutivos históricos e literários eram praticamente sinônimos. Com o passar do tempo, e a consolidação dos “territórios” de atuação de cada uma das ciências, ficando estes bem melhor definidos, História e Literatura firmaram-se como áreas independentes entre si. Entretanto, ainda que reconhecidos como conhecimentos científicos específicos, com pressupostos teórico-metodológicos próprios, os estudos históricos e literários continuaram guardando entre si diversas similaridades e, mesmo quando discrepantes, deixavam em aberto uma extensa possibilidade de análises interdisciplinares.

De acordo com tal perspectiva a Revista Historiae organizou o Dossiê “História e Literatura”, reunindo diversos especialistas que promovem diálogos entre as duas áreas do saber humano. Esta coletânea foi extremamente profícua, trazendo escritos de vários estudiosos europeus e oriundos de diferentes instituições nacionais, os quais uniram esforços para construir esta edição. Fica o sincero agradecimento, à Profa. Dra. Vania Pinheiro Chaves, sem a qual seria inviável este número especial.

Ao lado dos artigos que apresentam estudos de caso específicos das tantas interações entre História e Literatura, o Dossiê também se compõe de uma seção destinada a Documentos e Recensões que trilham pela temática escolhida para compor a edição. Assim, a Historiae dá continuidade a sua caminhada de mais de três décadas em direção à divulgação da pesquisa acadêmico-científica.

Francisco das Neves Alves – Presidente do Corpo Editorial


ALVES, Francisco das Neves. Apresentação. Historiae, Rio Grande- RS, v. 6, n. 1, 2015. Acessar publicação original [DR]

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Pasado Abierto | UNLP | 2015

Pasado Abierto Ditadura no Brasil

Pasado Abierto es una revista semestral del Centro de Estudios Históricos de la Facultad de Humanidades de la Universidad Nacional de Mar del Plata (Argentina). Su propósito principal es la publicación de artículos científicos inéditos y originales, balances historiográficos y reflexiones teóricas relativas a la Historia y sus disciplinas afines.

Periodicidade semestral.

Acesso livre.

ISSN 2451-6961

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The Pragmatic Turn – BERNSTEIN (P)

BERNSTEIN, Richard J. The Pragmatic Turn. Cambridge: Polity Press, 2012. Resenha de: CURY, Paula Maria Nasser. Principia, Florianópolis, v. 19, n.1, p.171–176, 2015.

Em sua versão clássica, o pragmatismo caracteriza-se por um marcante antagonismo ao dualismo substancialista e ao representacionismo cartesianos, propondo, em seu lugar, um anti-fundacionalismo que coloca em cheque o que Dewey certa vez denominou a busca pela certeza e a teoria epistemológica do espectador. Para os pragmatistas, a chave para a compreensão dessas questões está na relação constitutiva do sujeito-agente com o ambiente normativo e intersubjetivo das práticas sociais. Após um período de relativo descrédito no cenário acadêmico, especialmente a partir da década de 1950, quando passou a, progessivamente, ceder lugar à denominada filosofia pós-analítica, o próprio desenvolvimento da filosofia da linguagem parece ter levado, afinal, a uma retomada de interesse pelo pensamento de autores como Peirce, James e Dewey (p.x). Na obra The Pragmatic Turn, Richard J. Bernstein, filósofo e Vera List Professor of Philosophy na New School for Social Research em Nova Iorque, defende, entretanto, a tese de que a partir da segunda metade do século XIX pode-se verificar uma regularidade e continuidade na abordagem, por filósofos de diferentes tradições e ainda que incidentalmente, de temas que constituíram o núcleo do movimento pragmatista. O livro estrutura-se em prefácio, prólogo e nove capítulos, ao longo dos quais são desenvolvidos os três eixos temáticos que Bernstein se propõe a criticamente analisar: as principais contribuições de Peirce, James e Dewey ao pragmatismo clássico, nos três primeiros capítulos; a influência de Hegel no pensamento pragmatista e os conceitos de verdade, objetividade, justificação e experiência sob a ótica pragmática, nos três capítulos seguintes; a retomada contemporânea do pragmatismo através de Putnam, Habermas e Rorty, nos três capítulos finais.

O capítulo sobre Peirce (p.32–52) gira em torno de suas quatro críticas às inadequações do cartesianismo (p.32–9). Resumidamente, tratam-se dos argumentos de que (1) não dispomos de uma faculdade de introspecção, e que, portanto, nosso conhecimento do mundo interior deriva do raciocínio hipotético sobre o conhecimento de fatos exteriores; (2) não dispomos de uma faculdade de intuição espontânea, e que, portanto, nossas cognições derivam logicamente de cognições prévias; (3) não dispomos de uma faculdade de pensar sem recorrer a signos; (4) não dispomos de qualquer concepção daquilo que é absolutamente incognoscível. À questão da refutação do intuicionismo (ou mito do dado), Bernstein dedica uma análise mais pormenorizada (p.39–52), demonstrando, ao final, que o pragmatismo de Peirce consiste em uma alternativa viável não somente ao intuicionismo, mas também ao coerentismo e ao idealismo. É que Peirce constrói uma estratégia explanatória em que a autoridade epistêmica de nossas interpretações dos signos é considerada falível, podendo ser sempre desafiada por novas investigações. Assim, concilia elementos de diferentes tradições na construção do que Bernstein denomina sua via media epistemológica.

No segundo capítulo da obra (p.53–69), Bernstein se debruça sobre as consequências éticas do pluralismo pragmático de William James. Em James, pluralismo significa a impossibilidade de, a partir de princípios pragmáticos, reivindicar-se previamente uma unidade absoluta em relação a qualquer objeto de investigação (p.60).

A tese central de Bernstein é que o pluralismo pragmático não leva a um relativismo nos moldes do mito do contexto popperiano,1 consistindo, pelo contrário, em uma das respostas mais contundentes a ele (p.55). Assim, o pluralismo de James seria uma alternativa tanto ao atomismo epistemológico dos empiricistas tradicionais como ao monismo dos idealistas (p.58).

O terceiro capítulo da obra (p.70–88) investiga como a ideia de democracia de John Dewey pode contribuir para as práticas democráticas atuais. Dewey parte do pressuposto de que a democracia não é apenas uma forma majoritária de governo, mas também um modo de vida ético (p.72). Sua concepção é de uma democracia radical, que demanda profundas mudanças estruturais para a consecução de seus fins últimos — liberdade e individualidade para todos (p.76–7). É interessante a defesa de Bernstein de que Dewey ultrapassa as fronteiras do debate comunitarismo × liberalismo na medida em que afirma, por um lado, a essencialidade da participação democrática dos cidadãos em espaços públicos e comunidades mas, por outro, não considera o exercício comunitário da democracia incompatível com os verdadeiros ideiais do liberalismo (p.81–2). Entretanto, ao não especificar exatamente quais medidas as comunidades deveriam adotar para implementar esse modo de vida, a proposta de Dewey acaba perdendo em concreção e operacionalidade (p.82). Ainda assim, Bernstein defende que, na atualidade, a democracia radical de Dewey pode, ao menos, servir de motivação para que se repensem e revitalizem as democracias reais (p.88).

Com isso, conclui-se o primeiro eixo temático da obra e Bernstein passa a investigar, no capítulo quarto (p.89–105), a influência de Hegel no pensamento pragmatista.

Dewey se viu especialmente interessado na defesa hegeliana de uma realidade orgânica interrelacionada entre sujeito e objeto, matéria e espírito, humano e divino e na consequente dissolução das dicotomias características da tradição cartesiana (p.91). Peirce, apesar de suas raízes kantianas, acaba por admitir um alinhamento entre as ideias defendidas pelo pragmatismo e pelo idealismo absoluto (desenvolvido sob forte inspiração hegeliana) no que tange à formulação das categorias da primeiridade, secundidade e terceiridade (p.93). James, por vez, reconhece e endossa a contribuição de Hegel quanto à explicitação da natureza dos conceitos: recusando o caráter representacional estático comumente atribuído a eles, Hegel defende a dinamicidade dos conteúdos conceituais, dotados de uma dialética imanente (p.94).

Contudo, a postura em geral desdenhosa de James quanto ao idealismo alemão contribuiu para que Hegel fosse pouco estudado nos EUA até meados da década de 1950. A partir de então, fatores como o surgimento de uma nova esquerda americana ideologicamente ligada ao marxismo, a busca de uma alternativa à filosofia analítica para a compreensão do giro linguístico e, finalmente, a atuação de Wilfrid Sellars levaram a uma gradativa retomada de interesse pela obra hegeliana. Nesse contexto, surgem os chamados hegelianos de Pittsburgh, notadamente McDowell e Brandom.

O primeiro defende, com base em Hegel, que não há uma amarração prévia entre conceitos, e que é exatamente isso que nos garante acesso a uma realidade que, por um lado, se encontra no âmbito do conceitual e, por outro, é independente de nós (p.100). McDowell contesta, assim, a interpretação segundo a qual a filosofia do espírito não contemplaria a realidade independente ou exterior à mente. Para ele, o idealismo hegeliano pressuporia justamente a refutação da dicotomia entre o que está dentro e o que está fora do domínio conceitual (p.101). Já para Brandom, a principal contribuição de Hegel no que tange à compreensão da normatividade subjacente ao uso de conceitos está na asserção de que estados normativos são estados sociais e que, portanto, a normatividade que regula a atividade conceitual é implicitamente instituída através de práticas sociais (p.103).

O quinto capítulo de The Pragmatic Turn (p.106–24) trabalha os conceitos de verdade, objetividade e justificação. O autor preocupa-se em demonstrar que o pragmatismo não comporta uma teoria da verdade como correspondência. Recorrendo a Peirce, Bernstein retoma a ideia de que todo conhecimento pressupõe uma atividade inferencial (p.110). Ao mesmo tempo em que, portanto, o conhecimento não deriva da correspondência entre conceitos e fatos externos, é importante salientar que, em Peirce, ele também não é produto de um acordo entre a comunidade de atores envolvidos (como sugerem as teorias consensuais da verdade), mas da atividade investigativa crítica. A verdade assim apurada seria marcadamente falível, na medida em que não dispomos de nenhuma garantia que nos permita asseverar algo com absoluta certeza (p.112).

Essa concepção de Peirce, embora atrativa, contém problemas aos quais a proposta de Brandom se apresenta como alternativa viável, na ótica de Bernstein. Brandom argumenta que verdade, objetividade e justificação podem ser conectadas à dinâmica intersubjetiva de práticas sociais discursivas se se admite, por um lado, o primado da pragmática sobre a semântica e, por outro, que comprometimentos e intitulações geram normas que regulam o uso de conceitos (p.121). Bernstein enfatiza, a esse respeito, a importância da distinção entre as perspectivas eu-nós e eu-vocês.

Brandom recusa a perspectiva eu-nós, que privilegia o ponto de vista da comunidade, em favor da perspectiva eu-vocês. Nela, a ênfase é na relação entre os comprometimentos assumidos por um agente e os comprometimentos que ele atribui a outros.

Na medida em que realizam a distinção entre formas de aplicação de conceitos objetiva e subjetivamente corretas, ambos os pólos da relação são, temporariamente, privilegiados. A objetividade passa a se relacionar, assim, à forma de aplicação de conceitos, não a seu conteúdo (p.121).

O sexto capítulo, Experience after the Linguistic Turn (p.125–52), é aberto com a argumentação pela necessidade de uma compreensão adequada do conceito de experiência no pragmatismo como consequência do giro linguístico (p.129). Bernstein sugere elementos das obras de Peirce, James, Dewey e Mead que comprovariam essa relação consequencial.

A partir do sétimo capítulo de The Pragmatic Turn, tem início a abordagem do último eixo temático da obra, o pragmatismo na contemporaneidade. Quanto a Putnam, Bernstein considera especialmente interessante problematizar sua defesa da insustentabilidade da dicotomia fato × valor (p.153–67). O argumento de Putnam é que só podemos compreender conceitos como coerência, razoabilidade e plausibilidade se não os reduzirmos à dimensão factual, admitindo que eles são valores e envolvem avaliações normativas. Valores assumem, assim, um papel indispensável para a análise da correção e adequação do conhecimento: sem eles, não há fatos (p.157–8).

Outro ponto de destaque no capítulo sobre Putnam é sua tese de que todo conhecimento é perspectivista, envolve interesses humanos e de que a objetividade é, portanto, compatível com diferentes escolhas conceituais. Ela é, em suas palavras, uma “realização [achievement] conflitual em andamento” (Putnam 1990, p.21, tradução livre). Vista sob esse prisma, Bernstein coerentemente destaca que a pretensão de Putnam é sustentar que devemos nos organizar, enquanto comunidade ética, para promover as práticas sociais que possibilitem e ampliem o grau de objetividade em situações complexas (p.164).

O objeto do oitavo capítulo (p.168–199) é o pragmatismo de Jürgen Habermas.

Habermas vê em Peirce a possibilidade de reconstruir, de modo simultaneamente destranscendentalizado e analítico, as condições universais de possibilidade do discurso e da ação, compatibilizando a normatividade que constrange os atores no mundo da vida com a faticidade de formas de vida que se desenvolveram natural e contingentemente (p.169–71).

Admitindo que a abordagem do conceito de verdade unicamente a partir da perspectiva epistêmica não é suficiente para garantir a sua validade, Habermas afirma que aspectos pragmáticos também devem ser levados em consideração. Ele sugere um recurso às práticas cotidianas, em que agimos com base em certezas comportamentais, salvo quando encontramos oposições que nos levam a, discursivamente, tentar justificar nossas pretensões de verdade. Surge, assim, a noção de uma verdade com a face de Janus, que só pode ser encontrada no medium entre a ação e o discurso, e levanta uma necessidade pragmática de justificação satisfeita por meio da conversão de crenças em novas verdades comportamentais (p.184). O ponto alto do capítulo é o diálogo que Bernstein passa a travar com Habermas quanto à incorporação desses elementos pragmatistas em sua teoria. Nesse sentido, Bernstein concorda com Rorty quando este acusa Habermas de ignorar que, para Peirce, crenças são somente hábitos de ação, e, portanto, um discurso racional seria apenas um entre demais contextos de ação nos quais emerge uma espécie de certeza comportamental (p.186–7).

Por fim, o nono capítulo (p.200–16) cuida do humanismo de Richard Rorty. O texto foge ao estilo dos demais e aproxima-se de uma narrativa biográfica. Destacase, contudo, a justificativa de Bernstein para qualificar Rorty como humanista. Rorty define o pragmatismo como “a doutrina de que não há limitações à investigação, salvo as conversacionais” (Rorty 1982, p.165, tradução livre), ou seja, todas as limitações ou constrangimentos impostos a ela são produzidos pelo próprio homem. Por isso, a preocupação filosófica deveria deslocar-se da objetividade em direção à solidariedade (p.207). Na convicção de Rorty de que somos os únicos responsáveis pelas próprias limitações e que, portanto, não haveria nenhuma autoridade em que nos poderíamos apoiar para superá-las senão nós mesmos, repousaria o humanismo de Rorty, sustenta Bernstein (p.211).

Seguramente, a riqueza das exposições e dos argumentos empregados por Bernstein na defesa de seus posicionamentos escapa aos limites da presente resenha, que procurou, antes, demonstrar como o leque de autores e de discussões abordadas em The Pragmatic Turn contribui para uma compreensão aprofundada do pragmatismo clássico e de seus desdobramentos contemporâneos. Ao final, nos parece que o autor conclui com sucesso não somente seu intento principal, qual seja, demonstrar que temas centrais do pensamento pragmatista foram recorrentes na filosofia dos últimos cento e cinquenta anos, mas também um outro importante objetivo: analisar teorias, criticar suas insuficiências e oferecer alternativas a elas. O leitor pode esperar da obra, assim, muito mais do que uma descrição do ideário pragmatista de ontem e de hoje. Ao longo das páginas de The Pragmatic Turn, experimentamos o desenvolvimento de argumentos próprios por parte de um autor que dialoga com as suas fontes e não se omite quando se trata de fixar seus pontos de vista.

Referências

Bernstein, R. J. 2012. The Pragmatic Turn. Cambridge: Polity Press.

Putnam, H. 1990. Realism with a Human Face. Cambridge, Mass.: Harvard University Press.

Rorty, R. 1982. Consequences of Pragmatism. Minneapolis: University of Minnesota Press.

Notas

1 O mito do contexto sugere que estejamos de tal forma presos em nosso contexto teórico, linguístico e pré-conceitual que não nos conseguimos mover para além dele e nos comunicar com outros contextos que apresentem diferenças substanciais em relação ao nosso. Tratarse- ia, nesse sentido, de uma incomensurabilidade contextual (Bernstein 2012, p.54).

Paula Maria Nascer Cury – Ruprecht-Karls-Universität Heidelberg. ALEMANHA paulanasserc@gmail.com

O Guia árabe contemporâneo sobre o Islã político / Ibrahim Abu-Rabi

Lançado em 2011 [2] este livro vem completar duas lacunas: A primeira – existente em todo mundo euro-americano – de obras sobre o Islã e mundo árabe escritas por seus próprios interlocutores. É bem conhecida a frase de Karl Marx usada como epígrafe no clássico livro de Edward Said “Eles não podem representar a si mesmos; devem ser representados”; a segunda – a da mesma linhagem de obras publicadas em português – embora o número de obras publicadas no Brasil sobre essa temática tenha crescido desde o fatídico 11 de setembro de 2001 e trabalhos acadêmicos especializados estejam numa crescente, estudos sobre Islã e mundo árabe feitos por árabes e muçulmanos ainda são raros. Basta lembrar que entre os autores mais publicados – no Brasil sobre esta temática temos Albert Hourani e Edward Said com ascendência árabe, mas com carreiras consolidadas no Reino Unido e EUA, respectivamente, e Karen Armstrong e Bernard Lewis, sem ascendência árabe e oriundos dos mesmos países.

Editado originalmente em 2010 no Reino Unido em língua inglesa, o livro conta com a perspicácia de Ibrahim Abu-Rabi na seleção dos textos e também na tradução de vários deles (do árabe para o inglês). Detentor da cadeira de Estudos Islâmicos da Universidade de Alberta, Abu- Rabi agregou um corpo de pensadores muito diverso nesta obra, desde militantes como Xeque Umar Abdel Rahman (1938), egípcio radicado nos EUA; Abdullah Azzam (1941-1989), palestino e um dos fundadores do Hamas; Xeque Ali Sadr al-Din al Bayanuni líder da Irmandade Muçulmana na Síria e exilado nas últimas duas décadas na Inglaterra; Fathi Yakan (1933-2009) , líder da Frente de Ação Islâmica no Líbano, à acadêmicos como Mustafá Abu Sway, professor da Universidade de al-Quds (Jerusalém); Ishaq al-Farhan da Universidade Al-Zarqaa (Jordânia); Muhammad Sa’id Ramadan al-Buti da Universidade de Damasco (Síria) e Jamil Hamami também da Universidade Al-Quds. O livro ainda conta com a contribuição do jurista Abdul Qadir Awdar, do jornalista Yassir Zaatira e de outros intelectuais da Europa ( Yahia Zoubir, Professor da Euromed em Marselha), EUA ( o já falecido Ismail Raji al-Faruqi (1921-1986) ex-professor da Universidade de Temple (Filadélfia) e outros mais do mundo islâmico.

As contribuições dos trinta e cinco autores dividem-se em seis partes: I – Rumo a uma avaliação teórica do islamismo no mundo árabe contemporâneo; II – Islamismo, jihad e martírio; III- Islamismo e a questão de Israel/Palestina; IV- Islamismo contemporâneo: tendências e autocrítica; V – O islamismo, o Ocidente, os Estados Unidos e o 11 de Setembro e VI – O islamismo no mundo árabe contemporâneo.

Lançando-se em temas caros à geopolítica e diplomacia atual, o livro tem o mérito de abrir os olhos do leitor para a multiplicidade e divergência de pensamento dentro do mundo islâmico. Tradicionalmente pintado como atrasado, despótico, monolítico e outras características depreciativas nas mídias ocidentais, surgem destas páginas esclarecimentos religiosos como o Capítulo 17 de Yusuf Al-Qaradawi: Extremismo: a acusação e a realidade no qual o autor defende que o Islã é a religião da moderação. Em suas palavras:

O Islã recomenda a moderação e o equilíbrio em todas as coisas: na crença, no culto, na conduta e na legislação […] Os textos islâmicos convocam os muçulmanos a exercerem a moderação e a rejeitarem e se oporem a todos os tipos de extremismo: ghuluw (excesso), tanattu’ (religiosidade detalhista) e tashdid (severidade, austeridade)[3].

Dentre a multiplicidade de vozes e ideias presente na obra, também merece destaque os relatos – Capítulo 5 – de Abdullah Anas sobre seu ingresso na jihad afegã contra os soviéticos no início da década de 1980 e a sistematização da doutrina jihadista feita por Abdullah Azzam no capítulo seguinte, apresentando quinze ensinamentos deixados pela sua participação na jihad afegã. Azzam esboça o roteiro prático de seu engajamento e do apelo proselitista à militância armada.

Outros temas polêmicos como o uso do véu são abordados. No Capítulo 4 Muhammad al-Ghazali argumenta que o profeta Maomé nunca ordenou que os rostos das mulheres fossem cobertos e esse hábito nada tem a ver com o culto, mas – em tom de mea culpa – adverte “nós muçulmanos apresentamos uma imagem feia e repulsiva do Islã”[4]. Nesse sentido, defende “É bastante aceitável, a partir de uma perspectiva islâmica, que as mulheres trabalhem fora de casa”[5] e ainda ironiza apontando que a ex primeira-ministra israelense Golda Meir “humilhou um grupo de homens árabes de barbas e bigodes na Guerra dos Seis Dias”[6].

Saindo do lugar comum da belicosidade, animosidade e confrontação, Ahmad Bin Yousuf escreve o capítulo 20 Os islamitas e o Ocidente: do confronto à cooperação, começa por diagnosticar que:

A psique ocidental foi traumatizada pela natureza tumultuosa da política na região islâmica: a questão turbulenta e multidimensional da Palestina; a retórica intransigente adotada pela Revolução Islâmica no Irã; a mística por trás da jihad afegã; e o enorme apelo dos movimentos islâmicos no interior de seus respectivos ambientes sociopolíticos – no Líbano, Egito, Sudão, Magrebe árabe, Cisjordânia e Faixa de Gaza, Malásia, Paquistão, Filipinas e assim por diante. Incapaz de decifrar esses fenômenos contemporâneos a partir de seus critérios de autorreferência, o Ocidente respondeu de modo errático e falacioso, frequentemente invocando imagens de clichês enunciados banais. O mundo islâmico foi visto com desprezo como uma região unidimensional incapaz de exportar ideais produtivos ou de ser receptivo a ideias estrangeiras[7].

Condenando o uso de expressões capciosas como “fundamentalismo” e seletividade jornalística, aponta Os estudos seletivos imprimem nos leitores o pesadelo alucinatório de reacionários irracionais, em vez de explicar o comportamento muçulmano como uma resposta a injustiças específicas”[8], assim “incidentes individuais realizados por uma minoria frustrada são relatados como o trabalho de uma força fundamentalista destrutiva. Qualquer um que quebra a lei, e ocorre de ser um muçulmano por identidade, é um fundamentalista”[9].

No esteio desse debate vale a menção ao primeiro capítulo. Muhammad al-Buti desfaz a ligação automática entre “salafiyyah” e “wahhabi”. Segundo ele, a primeira é uma “fase histórica abençoada” em que a umma (comunidade muçulmana) era guiada pelos califas rashidum (“bem guiados”). Nunca houve uma escola legal salafista, a confusão começa a partir do século XIX, quando no Egito passou-se a utilizar o termo salafiyyah descolado de seu cunho teológico e erudito limitado como, por exemplo, em nomes de revistas e editoras. Paralelamente, ganhava corpo na Arábia Saudita a doutrina fundada pelo Xeque Muhammed Ibn Abdul Wahab (1703-1792), ambos movimentos visavam combater superstições e inovações, sobretudo dos místicos e desse modo preferiram o termo salafiyyah que remete a primeira comunidade islâmica ao contrário de homenagear a persona de Wahab. Tal operação constitui-se um esforço de legitimação, buscando tornar paradigmática a interpretação wahhabi – concentrada na Arábia Saudita – acerca da doutrina e tradição islâmica.

O esforço organizativo empreendido por Abu-Abi é enunciado logo nas primeiras páginas “Dentro do universalismo islâmico há unidade, mas não uniformidade”[10]. De fato, a obra consegue abarcar a “unidade” e “multiplicidade” do mundo islâmico. Como também mencionado pelo organizador da coletânea, é preciso “conscientizar as audiências ocidentais de que o Islamismo como um discurso político abarca muito mais do que o fundamentalismo dogmático e a violência terrorista que são abundantes na mídia ocidental”[11].

Retomando uma ideia de Edward Said, “precisamos compreender as muitas ‘atualidades políticas’ que o ‘retorno ao Islã’ corporifica” (SAID, 1981 apud ABU-RABI, 2011, p. 12). Vale ainda esclarecermos que normalmente tem se usado as palavras “Islã” e “Islamismo” indistintamente no Brasil e em outros países ocidentais. Para Abu-Rabi, assim como para outros intelectuais importantes como Hamit Bozarslan, “Islã” remete a religião, mas também há o significado sobreposto de “civilização islâmica” – os franceses convencionaram “islã” com minúscula para religião e “Islã” com maiúscula para civilização, distinção que não existe na língua inglesa. Já o “Islamismo” de acordo com Abu-Rabi emerge como movimento político em resposta a alguns fatores: de um lado a falha do movimento pan-islâmico do século XIX e parte do XX em alcançar o “Tanzimat” (uma espécie de “renascimento”) ocorrido no Império Otomano;“O surgimento de uma nova ordem colonial nos antigos territórios do Império Otomano, que coincidiu com a divisão do mundo árabe moderno entre novos senhores imperialistas (principalmente franceses e ingleses)”[12]; O surgimento dos nacionalismos nos diferentes países árabes (incluindo os do Norte da África) no entreguerras e a ascensão dos EUA após a Segunda Guerra Mundial.

“O Islamismo moderno foi principalmente um produto do sistema capitalista moderno, criado por diversas potências ocidentais ao longo dos últimos séculos”[13]. Immanuel Wallerstein aponta no mesmo sentido: o Islamismo

é simplesmente uma variante daquilo tem acontecido em todos os lugares nas zonas periféricas do sistema mundial. A interpretação básica destes eventos tem de girar em torno da ascensão histórica dos movimentos antissistêmicos, seu aparente sucesso e fracasso político, a consequente desilusão, e a busca por estratégias alternativas. (WALLERSTEIN, 1994, apud ABU-RABI (org) p. 13)

O islamismo é também uma resposta a hegemonia europeia. De acordo com Abu-Rabi o sistema mundial capitalista não pode sobreviver sem inimigos externos e assim “o Ocidente” o considera seu principal inimigo. É uma consequência quase natural que as massas muçulmanas afetadas pelas intervenções colonialistas se agrupem sob a bandeira islamita contra um “inimigo comum”. “O Islamismo nasceu nos mundos árabes e muçulmano a partir do ventre do colonialismo” e representa uma ameaça à seus genitores por desejar a quebra do status quo e reivindicar que o Islã seja um “significador mestre”, fator que ampliaria a lacuna conceitual entre a concepção ocidental do mundo e a concepção islâmica.

Notas

2. A tradução do inglês para o português foi realizada por André Oídes. Versão original: ABU-RABI, Ibrahim (org.). The Contemporany Arab Reader on Political Islam. London: Pluto Press, 2010.

3. AL-QARADAWI, Yusuf. Extremismo: a acusação e a realidade. In: ABU-RABI, Ibrahim (org.). O Guia árabe contemporâneo sobre o Islã político. São Paulo: Madras, 2011.p.205.

4. ABU-RABI, Ibrahim (org.). O Guia árabe contemporâneo sobre o Islã político. Op. cit., p.69.

5. Ibidem, p.70.

6. Ibidem, p.71.

7. YOUSUF, Bin. Os islamitas e o Ocidente: do confronto à cooperação. In: ABU-RABI, Ibrahim (org.). O Guia árabe contemporâneo sobre o Islã político. Op. cit., p.237.

8. Ibidem, p.247.

9. Ibidem, p. 240.

10. ABU-RABI, Ibrahim (org.). O Guia árabe contemporâneo sobre o Islã político. Op. cit., p. 9.

11. Ibidem, p.9-10.

12. Ibidem, p.12.

13. Ibidem, p.13.

Felipe Yera Barchi – Doutorando em História pela Universidade Estadual de São Paulo (UNESP). E-mail: felipeyerabarchi@gmail.com. Currículo Lates: http://lattes.cnpq.br/9147137881055201.

Resenha de: Em Perspectiva. Fortaleza, .Acessar publicação original [IF].


ABU-RABI, Ibrahim (org.). O Guia árabe contemporâneo sobre o Islã político. São Paulo: Madras, 2011. [1] Resenha de: BARCHI, Felipe Yera. Para entender o Islã Político. Em Perspectiva. Fortaleza, v.1, n.1, p.208-212, 2015. Acessar publicação original [IF].

A cultura no mundo líquido moderno / Zygmunt Bauman

Com seu livro intitulado A Cultura no Mundo Líquido Moderno, no original Culture in a Liquid Modern World, Zygmunt Bauman prossegue em 2013 suas análises sobre a modernidade, fazendo uma síntese das características que tomou a cultura desde a era “sólida” até a era “líquida”, bem como sua relação com o “multiculturalismo” e “globalização”.

No primeiro capítulo Bauman procura demonstrar que na atualidade não se firmam mais as antigas distinções entre a elite cultural e o chamado “grande público”, essa hierarquia cultural deu lugar a uma elite diversificada que aprecia tanto a “grande arte” quanto os programas populares de televisão e, “onivoramente”, consome diversas formas de arte, tanto populares quanto intelectualizadas, porém preocupada demais em celebrar o sucesso e outras formas festejadas ligadas a cultura. Descreve também “as peregrinações históricas do conceito de cultura”, desde o Renascimento, passando pela reviravolta causada por Pierre Bourdieu no século XX, chegando até os dias atuais, quando adentra a era “líquida”. Bauman mostra que o conceito de “cultura”, surgido no âmbito rural para incitar a ação agrícola, o arado e a semeadura, também esteve relacionado ao cultivo de almas (cultura animi), a interação entre protetores e protegidos, educadores e educados, e ainda esteve relacionado aos ideais iluministas e a construção de uma nação, de um Estado e de um Estado-nação, e ainda a aproximação entre as classes altas e o “povo”, ou seja, entre os que estão na base da sociedade e os que estão no topo. A perda de posição do conceito de “cultura” é resultado de uma série de processos de caracterizam a transformação da modernidade de seu estado “sólido” para seu estado “líquido”, o que Bauman denomina de “modernidade líquida”.

No segundo capítulo Bauman discorre sobre a “moda”, fenômeno social, segundo ele, em constante estado de “devir”. Para Bauman a “moda” funciona como uma válvula que se abre antes que se atinja a conformidade, ela multiplica e intensifica as distinções, diferenças, desigualdades, discriminações e diferenças. Um moto perpétuo que torna-se norma no momento em que se encontra no “mundo socializado”, um aniquilador de inércia. Segundo Bauman, “A moda coloca todo estilo de vida em estado de permanente e interminável revolução”, nesse sentido, “A moda é um dos principais motores do ‘progresso’”3. As pessoas, por sua vez, seriam caçadores em busca de uma contínua e ininterrupta variação do próprio self, por meio da mudança de costumes, e essa estrada vem a ser para os caçadores uma forma de utopia, uma vida na utopia.

Em seu terceiro capítulo o livro abarca desde a construção dos Estados-nação, em fase “sólida” na era moderna, até o mundo globalizado da atualidade. Primeiramente Bauman procura evidenciar que os Estados-nação tornaram-se menos inabaláveis a medida que começam a ser coagidos e encorajados a abandonar suas aspirações e esperanças. “A medida de ‘funcionalidade’ […] já não parecia tão inquestionável ou inegavelmente correta”4. O impulso da globalização teve papel preponderante no abandono das aspirações dos Estados-nação, que teve como efeito colateral a emergência da natureza inconsistente das fronteiras do sistema. O livro também chama a atenção para a importância da migração em massa durante o período da modernidade e da modernização, uma migração de pessoas em detrimento da migração de povos como o ocorrido em inícios da Idade Média. Bauman divide estas migrações em três fases: A primeira foi a migração de 60 milhões de pessoas da Europa para as “terras vagas”, onde as populações indígenas podiam ser desprezadas ou vistas como inexistentes ou irrelevantes. A segunda vem no sentido inverso, onde algumas das populações nativas, com variados graus de educação e “sofisticação cultural”, seguiram os colonialistas que retornavam à terra natal. A terceira fase das migrações modernas, em pleno curso, introduz a era das diásporas;

Trata-se de um arquipélago infinito de colônias étnicas, religiosas e linguísticas, sem preocupações com os caminhos assinalados e pavimentados pelo episódio imperial/colonial, mas, em vez disso, conduzido pela lógica da redistribuição global dos recursos vivos e das chances de sobrevivência peculiar ao antigo estágio da globalização5.

Segundo Bauman, a escala dos movimentos populacionais globais, hoje, é ampla e continua a crescer, entretanto, o que tem ocorrido é que os imigrantes tem se tornado “minorias étnicas”, e essas aglomerações “etnicamente estrangeiras” disseminam hábitos das populações locais, causando estranhamento e uma “guetificação” dos “elementos estrangeiros” que, por sua vez, se fecham em círculos próprios. Pari passu Bauman aponta uma nova indiferença a diferença, que mostra-se como uma aprovação do “pluralismo cultural”, segundo ele, “A prática política constituída e apoiada por essa teoria é definida pelo termo ‘multiculturalismo’”6.

Já no quarto capítulo, o livro inicia com uma discussão em torno da missão das “classes instruídas” (intelectuais avant la lettre, sendo que o conceito de intelectuais só tomou forma no século XX), iniciada ainda no Iluminismo e que consistia em duas tarefas: A primeira delas, tinha como meta “esclarecer” ou “cultivar” o “povo”, transformar as entidades desorientadas, desalentadas e perdidas em membros de uma nação moderna e cidadãos de um Estado Moderno, ou seja, a criação de um “novo homem”. Nesse sentido a “educação” foi a viga mestra desta transformação, “a educação era capaz de tudo” e o papel dos educadores era o da “cultura”, no sentido original de “cultivo”, tomando o termo de empréstimo à agricultura. A segunda tarefa consistia em planejar e construir novas e sólidas estruturas que dariam um novo ritmo de vida a massa momentaneamente “amorfa”, ainda não adaptada ao novo regime, ou seja, introduzir uma “ordem social”, “colocar a sociedade em ordem”. “As duas tarefas dependiam da combinação de todos os poderes do novo Estado-nação, econômicos, políticos e também espirituais, no esforço de remodelar corporal e espiritualmente o homem – o principal objetivo e o principal objeto da transformação em curso”7. A construção do Estado foi um esforço que exigiu o engajamento tanto de administradores quanto de administrados, o que segundo Bauman não ocorre hoje, onde não há mais um engajamento e o modelo pan-óptico de dominação dá lugar à supervisão e ao autocontrole pelos próprios objetos da dominação. “As colunas em marcha dão lugar aos enxames”8. Bauman ainda argumenta que tendo Deus criado o Homem e o feito andar sobre os dois pés, mandou-o achar o seu próprio caminho e segui-lo, dessa forma, “Em nossa época, foi a vez de a sociedade […] concordar que o homem fora equipado com ferramentas pessoais suficientes para enfrentar os desafios da vida e administrá-la sozinho – e logo desistir de impor as escolhas e administrar as ações humanas”9. Bauman também pondera sobre a aceitação e permanência culturais deixando claro que devemos aceitar todas as proposições como válidas e dignas de escolha, evidenciando ainda que se determinada cultura é tida como valiosa deve ser preservada para a posteridade independentemente de uma comunidade cultural ou da maioria de seus membros.

No seu quinto capítulo, o livro procura demonstrar que a globalização tem agido de forma a desfragmentar as identidades nacionais no contexto da União Europeia, quando desintegra seu antigo abrigo, os alicerces da independência territorial. Para Bauman, a União Europeia não somente preserva as identidades dos países que nela se unem, como procura neutralizar as poderosas pressões que a atingem através do ciberespaço. “Dessa maneira a união também salvaguarda as nações dos efeitos potencialmente destrutivos do longo e permanente processo […] de separar a trindade formada por nação, Estado e território, tão inseparáveis nos dois últimos centenários”10. Entretanto, Bauman destaca que a cultura no contexto da união tem sobrevivido mesmo sem o suporte da trindade nação-Estado-território. Não obstante, a construção nacional tinha por meta a concretização de “Um país, uma nação”, o nivelamento das diversidades étnicas dos cidadãos, por sua vez, os processos civilizadores garantiriam que a diversidade de línguas e o mosaico étnico e cultural não perdurassem por muito tempo, nesse sentido, dentro do Estado-nação culturalmente unido e unificado, “Tudo que fosse ‘local’ e ‘tribal’ era considerado ‘atraso’”11. “A prática da construção nacional tinha duas faces: a nacionalista e a liberal”12, a primeira era séria e enérgica, a segunda era amigável e benevolente. “As comunidades não viam diferença entre as faces nacionalista e liberal apresentadas pelos novos Estados-nação. Nacionalismo e liberalismo preferiam estratégias diferentes, mas miravam fins semelhantes”13. Sem dúvida a globalização tem mais proximidade com a face liberal do Estado-nação, pois o vácuo criado pela globalização oferece maior liberdade às iniciativas e às ações individuais, notadamente características do liberalismo.

Em seu sexto e último capítulo, o livro destaca o financiamento das artes por parte do Estado, tendo como precursores os franceses que, por sua vez, tinham na figura de Luis XIV um grande incentivador das artes e da educação dos artistas, fundador, em especial, do teatro real, a Comédie-Française. Bauman ressalta ainda que as primeiras ações, que seriam hoje chamadas de “política cultural”, surgem uns duzentos anos antes da emergência do termo “cultura”. O conceito francês de culture [tradução – do francês = cultura], estava relacionado a elite instruída e poderosa e também a promoção do aprendizado, da suavização das maneiras e do refino do gosto artístico. Durante o século XIX, surgem noções como “desenvolvimento e disseminação da cultura”, e “Também neste período, a tradição já estabelecida de responsabilidade do Estado pela cultura foi posta a serviço da construção nacional”14, o intuito era endossar o patriotismo e a lealdade a República. Segundo Bauman, “A cultura conferiria prestígio e glória, em âmbito mundial, ao país que patrocinasse seu florescimento”15. Através do pensamento de Theodor Adorno, o livro ainda procura estabelecer um paradoxo entre a inata atitude suspeitosa da administração diante da insubordinação e da imprevisibilidade naturais da arte e o desejo dos criadores de cultura de serem ouvidos, vistos e, tanto quanto possível, serem notados, paradoxo esse que para Bauman não tem solução, mas que tem mudado nas últimas décadas, em termos da situação da arte e de seus criadores. Bauman ainda demonstra que este paradoxo esta também relacionado a uma lógica de mercado, que, por sua, vez é uma tentativa de atingir o público, prática comum desde os tempos em que a arte era administrada pelo Estado e que, seguindo os critérios do mercado de consumo, preocupam-se com a iminência do consumo, da satisfação e do lucro.

Notas

3 BAUMAN, Zygmunt. A cultura no mundo líquido moderno. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2013. p.20.

4 Ibidem, p.28.

5 Ibidem, p.29.

6 Ibidem, p.37.

7 Ibidem, p.43.

8 Idem.

9 Ibidem, p.46.

10 Ibidem, p.56.

11 Idem.

12 Idem.

13 Ibidem, p.57.

José Fernando Saroba Monteiro – Mestrando em História do Império Português [e-learning] pela Universidade Nova de Lisboa (UNL). Licenciado em História pela Universidade de Pernambuco (UPE); Especialista em Teorias da Comunicação e da Imagem pela Universidade Federal do Ceará (UFC); Licenciando em Música pela Universidade Federal do Ceará (UFC). E-mail: jfmonteiro2@hotmail.com. Currículo Lattes: http://lattes.cnpq.br/5353852205190949.


BAUMAN, Zygmunt. A cultura no mundo líquido moderno. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2013. Tradução de Carlos Alberto Medeiros. Resenha de: MONTEIRO, José Fernando Saroba. Em Perspectiva. Fortaleza, v.1, n.1, p.214-218, 2015. Acessar publicação original [IF].

Linguagens, artes e política: interseções | Temporalidades | 2015

A 16ª edição da revista Temporalidades traz o dossiê “Linguagens, artes e política: interseções”, com a finalidade de contribuir para um profícuo debate acerca do tema e colocar em destaque propostas metodológicas e reflexões teóricas ligadas à arte e à política em interface com a história. A escrita da história está em constante movimento e se adaptando às “demandas” e transformações do seu tempo. A introdução de novos temas, novos objetos e o uso de novas fontes, permitiu aos historiadores a construção de novas metodologias de investigação histórica e novos métodos de produção do conhecimento. O alargamento do caráter interdisciplinar – ou a aproximação com outras áreas do saber – permitiu ao historiador aprimorar ainda mais a produção historiográfica. O presente dossiê, nessa perspectiva, coloca em destaque uma multiplicidade de análises e de fontes a “serviço” da escrita da história e amplia o entrecruzamento de temas, ideias e fronteiras. O dossiê apresenta, em suma, uma pluralidade de enfoques e diversidade de aparatos conceituais nos artigos que o integram. Leia Mais

Amazônica. Belém, v.7, n. 2, 2015.

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20 anos do PPGH-UERJ / Revista Maracanan / 2015

É preciso despedaçar o que permitiria o jogo consolante dos reconhecimentos. Saber, mesmo na ordem histórica, não significa “reencontrar” e, sobretudo, não significa “reencontrar-nos”. A História será “efetiva” na medida em que ela reintroduzir o descontínuo em nosso próprio ser. Ela dividirá nossos sentimentos, dramatizará nossos instintos; multiplicará nosso corpo e o oporá a si mesmo (…). É que o saber não é feito para compreender, ele é feito para cortar.

Michel Foucault

A epígrafe anuncia uma provocação: não existe uma história definitiva, pois esta sempre será escrita sob o signo da mudança. Esse sentido ilumina o número especial da Revista Maracanan 20 anos de PPGH. A data memorável, ou melhor, tornada memorável pela comemoração, destaca a criação, mas não historiciza as dificuldades. Será que a palavra esclarece a coisa nomeada por ela? Não basta afirmar como política a história que fazemos, é preciso discutir de que história se está falando? E, como pensar a política como um campo de produção de conhecimento sem cair na armadilha da “verdadeira” História, nem nos limites de suas fronteiras como explicante do universal?. Ao contrário, é justamente esse apelo que exige explicação. Sabemos também que os campos da nossa disciplina são múltiplos espaços de exercícios de pensamento e não de regras de procedimentos e muito menos de recitação dos “mitos fundadores” de nós mesmos como nação. O que obriga a problematizar o lugar da História Política na formação de “singularidades somáticas” diversas do já entendido como indivíduos ou cidadãos. História como exercício de pensamento no desmonte dos resgates, das narrativas cronológicas contínuas e seguras, cuja memorização visaria a criar “cidadãos críticos” em “velhos corpos disciplinados”. Uma maneira eficiente de questionar a inevitabilidade de nossas práticas correntes, por mais evidentes que estas possam parecer.

Simultaneamente registro e rememoração do caminho iniciado há duas décadas, esta edição realça os momentos de criação e amadurecimento do Programa, que obteve nota cinco na última avaliação trienal da CAPES. Examinando aspectos do projeto inicial, é possível perceber a vitalidade do compromisso que rendeu frutos: mestres e doutores formados, pesquisas que se consolidaram e hoje são referência, profissionais ligados ao Programa e que, mesmo em outras casas, são interlocutores assíduos e dão continuidade às propostas surgidas na UERJ. Transformação e adaptação fazem parte desse percurso, no qual eventuais “correções de rota”, ao contrário de comprometerem, confirmam o acerto da aposta inicial. Mantendo-se fiel à proposta de “renovação da história política” que animou o plano original, o Programa busca constante atualização teórica e historiográfica em suas duas linhas de pesquisa – Política e Sociedade e Política e Cultura –, fortalecendo assim sua identidade no cenário acadêmico nacional.

O Dossiê destaca as complexas maneiras do fazer não apenas da história política, mas as especificidades e dilemas do fazer História. O estudo da documentação, os lugares socioinstitucionais da produção do discurso historiográfico e as indispensáveis premissas teórico-metodológicas da pesquisa reafirmam as exigências da escrita da História como trabalho de um profissional submetido às regras e normalizações ditadas pelo ofício. O artigo de Lúcia Maria Bastos e Tânia Maria Bessone abre o percurso criterioso, oferecendo um mapa dos fazeres e das diferentes ancoragens historiográficas que conformaram o Programa de Pós-Graduação em História Política da UERJ. A reflexão permite não apenas familiarizar-se com a trajetória do PPGH desde sua fundação, em 1995, bem como perceber seu dinamismo: na avaliação das autoras, além do aprimoramento de seu papel no interior do mundo acadêmico, a pós-graduação deve reavaliar constantemente sua contribuição para a sociedade, investindo num projeto educacional que resulte também na “melhoria do ensino básico, médio e de graduação”. Lúcia Bastos e Tânia Bessone apontam ainda os esforços no sentido de assegurar a visibilidade nacional do Programa e a sua gradual internacionalização, aspecto no qual se destacam alguns dos laboratórios de pesquisa que mantêm, hoje, um sólido intercâmbio com instituições de ensino no exterior, bem como com pesquisadores estrangeiros.

A seguir Bruno Groppo traz a questão da fragmentação e da incompletude que marca a relação memória e história. Les problèmes non résolus de la mémoire russe (Problemas não resolvidos da memória russa) propõe uma densa reflexão acerca da identidade russa após a dissolução da União Soviética. Enfrentando o problema da constituição de uma memória coletiva separada da memória oficial, Groppo descreve os impasses da Rússia diante do “ajuste de contas” com um passado de violência do Estado, em especial no período stalinista. Para o historiador, trata-se de um percurso não linear, no interior do qual modificam-se historicamente as avaliações sobre o passado soviético, desde a rejeição total à União Soviètica até a reconsideração de aspectos mais favoráveis num quadro de desilusão política e crise econômica. Com Wladimir Putin, por exemplo, voltam a se acentuar as realizações do periodo soviético, como a dinamização da indústria, a expansão territorial e política e a conquista do espaço. A reabilitação mostrou-se eficiente, uma vez que a maior parte da população russa hoje endossa uma percepção positiva, de acento nacionalista, acerca do seu passado recente. No entanto, o que dizer da memória dos milhões de vítimas da violência em massa praticada pelo “Partido-Estado”? A memória russa permanece incompleta e fragmentária e a restituição da experiência pretérita se vê ainda confrontada com a negação de seus aspectos sombrios.

As zonas de sombra impostas à história, o direito à memória e os limites do esquecimento são também temas da análise de Heloisa Starling em Silêncios da ditadura. Num artigo que é, ao mesmo tempo, uma reflexão sobre o passado recente do Brasil e uma oportunidade de avaliação sobre a historiografia acerca deste período, a professora titular em História do Brasil da UFMG avalia de modo preciso o que considera uma “narrativa simplificadora” sobre o passado. A partir da indagação sobre quem promoveu, sustentou e apoiou a ditadura civil e militar, Starling reflete sobre o que chamou os “três silêncios” que organizam a memória recente do Brasil: sobre a participação dos empresários na estrutura repressiva, sobre a violência cometida pelo Estado contra populações e comunidades específicas – em especial os camponeses e a população indígena – e, finalmente, sobre a estrutura de informação e repressão que se produz sob uma “burocracia da violência”, cristalizada numa rotina de interrogatórios, desaparecimentos e tortura. Diante de fatos extremos, escreve a historiadora, é o papel da testemunha que deve ter realce. Não apenas aquela que viu e viveu o acontecimento, mas também a memória dos que vêm depois dos que viveram efetivamente a experiência. Estes, que somos nós, são convidados a ampliar o conceito de testemunha; instigados a “passar e repassar o Rio dos Mortos, para transgredir deliberadamente a fronteira do passado e do presente, ouvir as vozes sem se recusar diante delas”, como escreve Starling.

A oportunidade de rever certa tradição de abordagem teórica das fontes imagéticas e visuais entre os pesquisadores brasileiros é o ponto de partida de James Roberto Silva, professor da Universidade Federal do Amazonas, em Ver é conhecer? Representações visuais na pesquisa em Ciências Humanas. O artigo apresenta pistas importantes para o amadurecimento do campo entre historiadores e cientistas sociais. O ponto central da argumentação de Silva é a problematização de certa tradição do pensamento científico e especulativo no que concerne à reflexão sobre a imagem em si ou sobre a compreensão da experiência histórica por intermédio da imagem. O autor questiona, justamente, a convicção de que a fonte visual possui significados inatos e oferece-se ao observador como transparência de sentidos. Para tanto, remonta à tradição dos métodos fisionômicos, amparados na confiança nas analogias e semelhanças observáveis nas imagens e nos supostos correlatos “morais” entre o visível e o significado por ele encerrado. Silva mostra como a representação visual, ao apresentar-se como dimensão sensível da experiência exige, a cada caso, uma abordagem singular, não uniformizadora, aberta aos muitos sentidos que se constroem através do visível no interior do grande campo de investigação das representações sociais.

A religião no Império compreendida a partir de manuscritos pessoais, artigo da historiadora Beatriz Piva Momesso, da Universidade Federal Fluminense, explora os arquivos do político José Thomáz Nabuco de Araújo (1813-1878), depositados no IHGB. Um conjunto de bilhetes, cartas e cópias de fragmentos de obras europeias seguidas de comentários pessoais permite compor a visão do senador do Império acerca do “catolicismo liberal brasileiro”, enfatizando o jogo político entre a maçonaria e a Igreja e permitindo vislumbrar o modo como a religião oficial é praticada e também avaliada no contexto local. Partindo da aposta na verificação das “origens” das ideias e da apropriação intelectual, a autora propõe um exame da “gênese de uma nova cultura política em seu aspecto relativo às práticas católicas no Segundo Reinado”. Num exercício de reflexão que incorpora o dinamismo do próprio conceito de “cultura política”, Momesso mostra a importância de Nabuco de Araújo na afirmação de uma liberdade religiosa proporcionada por mecanismos internos do Estado brasileiro e não diretamente obediente a Roma.

Uma análise de um caso singular de controle social do operariado brasileiro no pós-1930, identificado nas ações das visitadoras sociais, é o eixo do artigo de Ana Lúcia Vieira, professora da Universidade Federal do Amazonas, em Normalizando as formas de viver: uma política de gestão do capital humano. A autora aprofunda e debate a utilização de situações de “vulnerabilidade social” como argumento legitimador do cerceamento de modos de viver de parcelas significativas da sociedade. Ana Lúcia explora as consequências não triviais da exigência de conformação do operário e de suas famílias ao modo de produção capitalista. A partir da consideração de diversas matrizes discursivas, a historiadora investiga os modos de gerir a vida – ou a “biopolítica normativa”, na terminologia de Michel Foucault – que acabam por submeter o trabalhador ao controle social.

Tatyana de Amaral Maia, da Universidade Severino Sombra, encerra o Dossiê com o artigo Uma comunidade de espírito e de cultura: a construção do ideário luso-brasileiro na Sociedade de Geografia de Lisboa (1956-1974). Trata-se da problematização de uma definição única capaz de integrar Brasil, Portugal e seus domínios no Ultramar na condição de projeto cultural e político. Como mostra a autora, tal esforço de qualificação foi marcado por clivagens intelectuais, apropriações políticas, leituras e ênfases distintas, mobilizando projetos políticos que atendessem às realidades nacionais e aos ambientes culturais específicos.

Na seção Depoimentos, combinam-se memória afetiva e profissional, dando ao leitor uma percepção mais próxima das expectativas, interesses e, mesmo, dos conflitos vividos no momento de construção do Programa de Pós-Graduação em História da UERJ. Mantidos no presente, os vestígios do passado organizam-se em três tipos de discursividades: a da testemunha, a do historiador e a do comemorador, como explica Tzevtan Todorov,

(…) enquanto testemunhas e historiadores podem facilmente completar-se uns aos outros , entre e o historiador e o comemorador há uma diferença tanto de objetivos quanto de métodos, que dificilmente compatiliza as posições deles (…). A história complica o nosso conhecimento do passado; a comemoração a simplifica, já que seu objetivo mais frequente é o de nos fornecer ídolos a venerar ou inimigos a abominar. A primeira é sacrílega, a segunda sacrilizante.1

Na condição de protagonistas e instigados pela comemoração, historiadoras e historiadores convidados para compor a seção mostram diferentes “lugares de fala” em seus depoimentos, confirmando a pluralidade de vozes que constituiu e ainda constitui a pós-graduação. Através de Lena Medeiros de Menezes é possível acompanhar o grande esforço institucional e o engajamento dos professores-pesquisadores num projeto que se destacasse no cenário acadêmico nacional. Entre os fios da trama: o vir a ser do PPGH registra os desafios enfrentados pelo grupo que se envolveu na luta para que o Programa pudesse ser viabilizado e, principalmente, para que pudesse obter o necessário credenciamento perante a CAPES. Trata-se da rememoração de um combate que não pode ser esquecido ou naturalizado, como se o Programa tivesse, desde os primórdios de sua existência, trilhado caminhos fáceis e previsíveis no dizer da historiadora.

Lúcia Maria Paschoal Guimarães procura inquirir a densa historicidade que enforma a criação do Programa de Pós-Graduação em História, destacando a opção pela concentração em História Política e sua renovação como campo autônomo como o maior diferencial do projeto. O depoimento destaca a formação comum aos professores que viriam a criar o PPGH. Doutorados pela USP em sua maioria, os pesquisadores da UERJ conduziam pesquisas individuais que, entretanto, partilhavam o interesse pela cultura política, alinhando-se a uma abordagem que ganhava cada vez mais força no cenário da teoria e da historiografia internacionais. Conforme Lúcia Guimarães, embora não tivesse sido compreendida de imediato, a proposta assegurava ao Programa um lugar de “vanguarda” no contexto acadêmico dos anos 90. Em seu depoimento, a historiadora destaca que a fidelidade ao projeto inicial não significa abrir mão de novas reflexões: novas tendências historiográficas são incorporadas com sucesso ao Programa, através da oferta de cursos e seminários, confirmando assim a vitalidade da aposta inicial. O depoimento é também um roteiro da emergência do PPGH e ajusta o foco às condições de possibilidades da história dos estudos historiográficos sobre a política, identificando suas matrizes discursivas.

Da cena “autoral” – ou fundadora – passa-se à trajetória particular. Dois depoimentos enriquecem ainda mais a seção. Valdei Lopes de Araujo, professor da Universidade Federal de Ouro Preto, e Ana Carolina Eiras Coelho Soares, da Universidade Federal de Goiás, pesquisadores cujos laços com a UERJ, desde a graduação, se mostraram decisivos na escolha da carreira do magistério superior, compartilham sua experiência pessoal e institucional, expondo, assim, a conexão entre a história que se fez e a história que os fez.

Em Uma experiência integral de vida acadêmica, destaca-se a articulação feita por Valdei Lopes de Araujo entre o projeto da UERJ e o contexto político brasileiro, um enlace em que sobressai a importância da universidade nos processos de inclusão e democratização do ensino, especialmente a partir dos anos 80. Uma articulação na qual as conquistas sociais da própria universidade constituem oportunidade decisiva no seu percurso individual. A recomposição da trajetória particular, contudo, se oferece ao historiador como ocasião para refletir sobre a especificidade da UERJ como projeto de universidade pública no Brasil, com todo o seu “vigor e fragilidade”. Entre os pontos salientados no depoimento, está o caráter inovador do PPGH num cenário acadêmico ainda dominado pela história social: “Não seria exagero afirmar que o retorno ao político e ao indivíduo como fenômenos historiográficos têm como marco no Brasil a criação do Mestrado em História Política da UERJ”, destaca o professor.

Em As mulheres afinal têm história? Uma trajetória profissional e acadêmica, Ana Carolina Eiras Coelho Soares divide com o leitor recordações que entrelaçam memória pessoal e descoberta de um percurso intelectual. A historiadora compartilha a definição de seu interesse em pesquisas voltadas para a área de estudos de gênero, foco no qual teve papel decisivo a formação no campo de estudos da história cultural e política. A partir da perspectiva interdisciplinar experimentada na UERJ, acompanha-se o processo de constituição de seu objeto de pesquisa, em torno dos discursos que normatizam e definem os limites sociais dos gêneros. O interesse conduz ao aprofundamento do estudo sobre o discurso jurídico e as leis que materializavam a regulação legal dos papéis sociais feminino e masculino. Da mesma forma, outros campos e fontes se apresentaram como centrais para o desenvolvimento da pesquisa: a literatura e a imprensa – configurações das “sensibilidades construídas na história”.

Em Notas de Pesquisa abre-se espaço para os questionamentos, métodos, riscos e diferentes trajetórias intelectuais. Destaca-se, aqui, a proposta de conhecer um “trabalho em progresso”, possibilitando uma aproximação com a produção da tese no momento dinâmico de sua construção: em seu movimento e em sua forma problemática.

Os Arquivos das Ordens e Congregações Religiosas do séc. XX português: fonte para a História da missionação na África lusófona, de Nuno de Pinho Falcão, da Universidade do Porto, ilumina o universo religioso, social e econômico das missões cristãs na África. O pesquisador mergulha em documentação privada, pouco conhecida, recuperando parte do quotidiano colonial e pós-colonial do continente. A importância do arquivo é igualmente o ponto de destaque na investigação de Daniel Thomaz Mandur. No texto Quando um documento nos descobre: notas sobre a dimensão aurática da documentação, somos colocados diante da dimensão do imprevisto e do acaso durante o processo de pesquisa. Seguindo a chave da desconstrução e questionando a “monumentalização” do arquivo, Mandur relata o seu contato com os arquivos do escritor Antônio Callado conservados na BBC, em Reading, Inglaterra, e lacrados desde a década de 1940. A Nota apresenta uma nova possibilidade de reavaliar a obra do autor e de articular essa experiência particular à análise mais ampla da participação, em solo europeu, de intelectuais brasileiros e latino-americanos na Segunda Guerra Mundial, examinando o impacto do conflito em suas trajetórias políticas e estéticas. Antônio Carlos da Silva, por sua vez, desloca o olhar de arquivos como inventários post-mortem, relatórios governamentais e relatos de viajantes para investigar o cotidiano oitocentista do Vale do Paraíba Fluminense através das páginas de jornal. Em O cotidiano da imprensa e a imprensa no cotidiano: Surgimento e consolidação de espaços públicos na Vila de Valença no século XIX o objetivo é identificar agentes e estratégias que garantiram a consolidação e a permanência no poder de algumas famílias locais. A pesquisa se concentra no reconhecimento dos interesses comuns que garantiram o posicionamento de destaque político, social e econômico dessas famílias, investindo na leitura desafiadora de “algo imaterial”, como as ideias que circulam sob a forma de jornal.

A duas colaborações que compõem a seção Artigos Avulsos resultam do fluxo contínuo que alimenta o banco de textos da revista. Mariano Bonnano, da Universidad Nacional de La Plata, propõe rever a cosmologia egípcia a partir dos espaços destinados ao castigo dos condenados e representados nos Livros das Cavernas. Em La Htmjt en los Textos de las Cavernas como espacio de disolución ontológica, o autor explora um aspecto que vem merecendo pouca atenção nos estudos do campo: a questão do “lugar de aniquilação”, ou Htmjt, espaço em que se efetua a chamada “segunda morte” como garantia da restituição do equilíbrio divino. Sérgio Barra, da PUC do Rio de Janeiro, explora o potencial polissêmico da experiência boêmia a partir de um dos seus principais cronistas. No artigo Luiz Edmundo e a boemia literária do seu tempo, o autor apresenta uma reflexão acerca dos diferentes sentidos dados à boemia pelo escritor e memorialista, relacionando tais variações às percepções que se reconfiguram na escrita sob o influxo de diferentes temporalidades vividas pelo autor.

Da heterogeneidade de abordagens e temas tratados nessa edição da Revista Maracanan, a memória – sempre “fiel e móvel”, como escreveu certa vez Jacques Le Goff – é o fio que une as diferentes colaborações aqui reunidas. Por fim, a atual edição é um convite à atividade leitora que, no dizer de Michel de Certeau, “faz das palavras as soluções de história mudas”. O acontecimento se transforma, ganha historicidade, rompe com a rotina e se inscreve numa história do possível e de seus efeitos de saber e de poder.

Nota

1. TODOROV, Tzevtan. Memória do mal, tentação do bem: indagações sobre o século XX. São Paulo: Arx, 2002, p.151.

Marilene Rosa Nogueira da Silva – Professora Associada da Universidade do Estado do Rio de Janeiro lotada no Instituto de Filosofia e Ciências Humanas, com atuação no Departamento de História; membro efetivo do Programa de Pós-Graduação em História desde 1997; Coordenadora do Laboratório do Estudo das Diferenças e Desigualdades Sociais / LEDDES.

Laura Moutinho Nery – Doutora pela PUC-Rio, é professora visitante do Departamento de História da UERJ, onde atua como pesquisadora dos Laboratórios Redes de Poder e Relações Culturais (Redes) e do Laboratório de Estudos das Diferenças e Desigualdades Sociais / LEDDES.


SILVA, Marilene Rosa Nogueira da; NERY, Laura Moutinho. Apresentação. Revista Maracanan, Rio de Janeiro, n.12, julho, 2015. Acessar publicação original [DR]

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50 anos de golpe: arte, cultura e poder (Parte I) / Antíteses / 2015

No ano de 2014 o golpe de 1964 completou 50 anos. Se não houve motivo para comemorações também não houve (e não há) justificativa para menosprezá-lo como marco histórico. Fato é que no ano de 1964 deu-se início a uma ditadura que durou mais de duas décadas e cujas práticas são sentidas ainda nos dias de hoje. No entanto, 50 anos depois, o evento (e tudo que ele representa) vem se transformando numa oportunidade de examinar o fenômeno do autoritarismo e suas práticas, difundir as pesquisas sobre o regime militar, também expandi-las através de novas abordagens e fontes, tornando-as conhecidas de um maior número de interessados que, durante um longo período, esteve apartado dos espaços de discussão acerca dos rumos do país ou alijado do processo de construção democrática no Brasil.

Embora tenhamos inúmeras tipologias para abordá-la como, por exemplo, ditadura civil, militar e até empresarial, acenando para a participação de grupos de natureza diversa tanto na concretude do golpe quanto na consolidação do regime, muito pertinente se torna a definição do sociólogo Juan Linz que definiu os casos brasileiro e argentino e também o espanhol de Primo de Rivera e o português de Salazar como regimes autoritários de natureza burocrático-militares que, em linhas gerais, representa “uma coalização chefiada por oficiais e burocratas e por um baixo grau de participação política”, na qual se “falta uma ideologia e um partido de massa; existe frequentemente um partido único, que tende a restringir a participação; às vezes existe pluralismo político, mas sem disputa eleitoral livre” (BOBBIO; MATTEUCCI, PASQUINO, 2004, p.102).

Partido dessas definições gerais em torno do fenômeno do autoritarismo e a versão brasileira dele, podemos tomar a produção bibliográfica no contexto imediato ao golpe de 1964 e no período pós-regime militar como objeto de estudo, analisando os temas mais recorrentes em determinados momentos bem como o impacto dessa discussão no encaminhamento das pesquisas.

Nos primeiros anos do regime militar, de 1964 a 1968, não se sabia ao certo o que estava por vir e não haviam sido fechados os espaços de atuação política, ainda que neles não fosse mais tolerada a interação interclasses como outrora vinha sendo efetivada no plano da cultura por instituições como o Instituto Superior de Estudos Brasileiros (ISEB), a União Nacional de Estudantes (UNE), o Centro Popular de Cultura (CPC), o Movimento de Cultura Popular (MCP), entre outros.

Paulatinamente, o regime militar expandiu suas práticas repressivas, utilizando-se da censura e repressão para coibir manifestações contestatórias da intelectualidade engajada que outrora buscaram a interação com as classes populares e outros extratos da sociedade e, naquele momento, encontravam-se restritos ao contato com as classes médias. Artistas e intelectuais, por sua vez, não se mantiveram passivos às decisões impostas de “cima para baixo” e se uniram em torno do projeto de consolidação da chamada resistência cultural.

Apesar das divergências vivenciadas por artistas e intelectuais no que concerne à construção de uma unidade em torno das reivindicações comuns, houve uma articulação efetiva deles no contexto pós-golpe e pré-AI-5, isto é, entre 1964 e 1968. As discussões anteriormente restritas à produção individual ou de grupos ganharam dimensões mais amplas e coordenadas durante o regime militar, o que podiam transitar de questões pontuais como a liberação de obras e a libertação de artistas até problemas mais complexos como a extinção da censura e um programa de subvenções.

A construção de uma unidade a partir do enfrentamento de um “inimigo comum”, não extinguiu os impasses teórico-políticos entre diferentes grupos. Isto porque a luta de uma intelectualidade contra o regime militar nunca se definiu por uma convivência pacífica entre integrantes da oposição. Como assinalou o editorial do periódico Arte em revista, num volume especial sobre teatro engajado de outubro de 1981, é necessário “relativizar a possível coerência que muitos querem enxergar numa atividade regida pela economia de mercado, pelos modismos artísticos, pelo jogo das influências externas, como as relações com o Estado, a censura, etc.” De qualquer forma, a atuação dos mecanismos de controle e do aparelho repressivo estimularam a convergência de opiniões divergentes em torno de reinvindicações comuns.

Assim durante pelo menos 10 anos, mais sintomaticamente entre 1968 e 1974, o regime militar, através de uma série de restrições, não só ignorou as principais demandas de artistas e intelectuais, sendo a liberdade de expressão a mais importante delas, como também os impediu de se comunicar com a sociedade brasileira, impondo-lhes a censura de peças teatrais, filmes, revistas, livros, jornais, publicidade, programas de rádio e televisão e também sujeitando-os a mecanismos de repressão como a perseguição, prisão, tortura e até morte de artistas e intelectuais.

Como se vê, este foi um período conturbado para artistas e intelectuais que não mais nutriam expectativas de unidade como outrora, dividindo-se cada vez mais. Diante do processo repressivo deixaram de lutar por questões mais amplas para reivindicar questões pontuais, transferiram a luta contra a censura das manifestações públicas para a esfera jurídica e, mais tarde, para o campo econômico, interiorizavam práticas de autocensura no processo de criação e também promoviam alianças táticas para enfrentar este estado de coisas.

Para se entender este embate de forças durante o regime militar (1964-1985), especificamente a partir de 1968 e durante a década de 1970, devemos ir além das interpretações consolidadas que propuseram dicotomias como resistência x cooptação como ocorreu com grande parte da literatura dos anos 1980 que analisou a produção artística e intelectual produzida durante os anos de censura e repressão; mais que isto, esta se insere num processo complexo e contraditório de projeção da cultura na vida nacional com o fechamento dos espaços tradicionais de atuação política, progressivamente a partir de 1968, que tinha como elemento catalisador as políticas culturais em seus múltiplos matizes como as de caráter proativa realizadas pelo Serviço Nacional de Teatro (SNT), a Empresa Brasileira de Filmes Sociedade Anônima (Embrafilme), entre outros, e as de natureza repressiva executadas pela Divisão de Censura de Diversões Públicas (DCDP), pelos Serviços de Censura de Diversões Públicas (SCDPs) e pela “supercensura” (NAPOLITANO, 2010, p.145 e 150).

Somente no contexto de abertura, o governo Geisel tentou uma aproximação a esses grupos permitindo-lhes expressar anseios reprimidos por longo tempo e convidando-os a participar da elaboração de políticas no âmbito do governo. Claro que isto não foi recebido com unanimidade por artistas e intelectuais, alguns consideraram a iniciativa uma oportunidade de subverter as estruturas por dentro ou, pelo menos, ver atendidas as reivindicações mais pontuais, outros viram nisto mais uma forma de cooptação adotada pelo governo militar e se colocaram contra ele e contra todos que, após longos anos de repressão e censura, aceitaram participar de planos do governo na área da cultura. Desse impasse, advém a rivalidade entre os artistas e intelectuais comunistas mais abertos à interlocução com o governo da abertura e o movimento da contracultura contrário a qualquer tipo de negociação.

Na década de 1980, mais especificamente no pós-1985, artistas e intelectuais buscaram entender o que havia acontecido nos 21 anos de regime militar e isto refletiu diretamente na produção bibliográfica e também nos debates públicos que se concentraram em apontar culpados pela passividade da oposição diante do golpe de 1964; não poupando críticas ao Partido Comunista Brasileiro (PCB) e tudo que esteve direta ou indiretamente relacionado a ele, já mencionamos o ISEB, o CPC e o MCP, entre outros.

De meados dos anos 1980 até o fim do século, a ditadura enfim acabara, mas as feridas continuaram abertas… e os arquivos fechados. Durante 30 anos pelo menos, a construção historiográfica acerca do regime militar pautou-se pelas apropriações da memória e a propensão de se confundir com a história. De um lado, militares e aqueles que apoiaram o golpe e a ditadura (a alta cúpula da Igreja Católica, as associações representativas das classes dominantes, os meios de comunicação de grande porte, os partidos e políticos de caráter conservador) contavam a versão deles da história através de restrições plenas ao acesso a arquivos e mecanismos sofisticados de manipulação dos fatos, um dos mais significativos e até hoje confundido refere-se ao tratamento do movimento golpista como revolução ou  redentora (TOLEDO, 2014). De outro, grupos de oposição, nem sempre articulados entre si, colocavam-se como “alvos” do sistema cuja perseguição ostensiva dos agentes da ditadura justificou, em alguns casos, a adesão à luta armada (rural ou urbana). Em ambos os casos, porém de maneiras distintas, consideramos oportuna a observação de Jacques Le Goff acerca da memória coletiva, na qual se tornar “senhores da memória e do esquecimento é uma das grandes preocupações das classes, dos grupos, dos indivíduos que dominaram e dominam as sociedades históricas” (LE GOFF, 1996, p.426) e isto aconteceu também aqui, durante e depois do regime militar, considerando obviamente as diferenças entre eles e seu poder de inserção social.

A memória, no entanto, não é algo concreto e definido, cuja produção e acabamento se realizaram no passado e cumpre transportá-los para o presente bem como preservá-la dos riscos de desgaste através da restauração integral dela nem se resume a um “pacote de recordações” também já previsto e acabado. Ao contrário, “é um processo permanente de construção e reconstrução” (MENESES, 1992, p.10).

Portanto, que memória e história não são termos convergentes, ainda que possam ser considerados fenômenos complementares. Enquanto a memória, filha do presente e tendo como objeto a mudança, “é formação de imagem necessária para os processos de constituição e reforço da identidade individual, coletiva e nacional”; a história, operação cognitiva, tem como referencial o passado e “é a forma intelectual de conhecimento”. Noutras palavras, a História não é o “duplo científico da memória” a qual, por sua vez, precisa ser tratada como objeto da história (Id. Ibid., p.14, 22-23).

Nessas disputas pela consagração da memória coletiva, as restrições de acesso aos documentos de época favoreceram a construção de memórias a partir de questões do presente, sobretudo do primeiro grupo que exercia plenos poderes e controle dos arquivos públicos, inclusive dos critérios de descarte deles, orientados não por técnicas arquivísticas e sim por demandas políticas. Daí resulta a importância de pesquisadores de áreas como o jornalismo, a história, a sociologia, a antropologia e a ciência política que tomam hoje a memória coletiva como objeto de pesquisa e transformam a luta pela democratização da memória social numa das prioridades das pesquisas em Ciências Humanas e, assim, trabalham para que “a memória coletiva sirva para a libertação e não para a servidão dos homens” (LE GOFF, op. cit., p.477).

A produção intelectual e bibliográfica em torno daquele contexto histórico começou a sofrer alterações consideráveis na virada do século quando a sociedade brasileira já se encontrava mais preparada e sem as amarras do passado para discutir nosso passado recente, os arquivos públicos estavam sendo paulatinamente abertos e, através deles, os pesquisadores brasileiros (e não somente os brazilianistas) iniciaram um amplo processo de revisão historiográfica que não só desconstruiu teses cristalizadas no imaginário social  como também apresentou novas abordagens de temas tratados anteriormente pela historiografia oficial.

É exatamente nesse contexto que o dossiê se inscreve. Um momento em que a produção científica e acadêmica no campo das humanidades se volta para reconsiderar uma série de temas que hoje ganham um contorno mais claro e evidente, sobretudo quando se trata, por exemplo, da questão dos direitos humanos. Porque regimes autoritários não atingiram apenas seus opositores e detratores, mas desfiguraram radicalmente os conceitos de democracia e de sociedade civil. Aliás, muitos desses regimes – como foi o brasileiro – usaram da repressão e da violência para impor e proteger uma noção estéril de democracia e de sociedade. Por isso que os estudos, as investigações que ora emergem nesses 50 anos do golpe se apresentam como fundamentais para não somente capitular os eventos que fundaram diversos tipos de oposição ao regime, mas reconsiderar as narrativas e as representações que serviram de fundamento às resistências contra o autoritarismo.

Tanto é fato que cada vez mais pesquisas são elaboradas em torno do tema, que o número de artigos recebidos para esse dossiê ultrapassou todas as expectativas dos organizadores. O montante de material de excelente qualidade serviu para a elaboração de dois tomos da revista. O primeiro deles, intitulado “50 anos do golpe: arte, cultura e poder”, reúne artigos que abordam a produção cinematográfica, teatral, literária, musical, bem como a atuação de artistas e intelectuais na oposição ao regime militar. Publicou-se primeiro porque no conjunto de todos os artigos aprovados, esse tema foi aquele em que os trabalhos de revisão e edição foram concluídos mais cedo. O segundo tomo, intitulado “50 anos do golpe: memória, política e movimentos sociais”, aparece em seguida trazendo consigo um conjunto de artigos que abordam os aspectos comparativos entre as ditaduras do Cone Sul, a construção da memória política sobre a ditadura e o papel da sociedade civil na organização dos movimentos sociais pela abertura política.

Pela realização desse trabalho agradecemos aos autores que colaboraram com esse dossiê e tornaram a publicação possível. Da mesma forma, agradecemos aos pareceristas que emprestaram seu trabalho à Antíteses no processo de leitura e avaliação dos artigos recebidos. A Carolina Sobreira pelos trabalhos gráficos que ilustram as capas dos dois tomos da publicação.

A todos uma boa leitura!

Referências

BOBBIO, Norberto; MATTEUCCI, Nicola; PASQUINO, Gianfranco. Dicionário de política – de A a J. 5. Ed. São Paulo: Imprensa Oficial, 2004. p. 102.

LE GOFF, Jacques. História e memória. 4. ed. Campinas: UNICAMP, 1996. p. 426.

MENESES, Ulpiano T. Bezerra. A história, cativa da memória? Para um mapeamento da memória no campo das Ciências Sociais. Revista do Instituto de Estudos Brasileiros, São Paulo, n. 34, p. 9-23, 1992. p. 10.

NAPOLITANO, Marcos. “Vencer Satã só com orações”: políticas culturais e cultura de oposição no Brasil dos anos 1970. In: ROLLEMBERG, Denise; QUADRAT, Samantha Viz (orgs.) A construção social dos regimes autoritários: legitimidade, consenso e consentimento no século XX. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2010. p. 145 e 150.

TOLEDO, Caio. Quase 50 anos do golpe de 1964: nada a comemorar. Consultado na Internet em 6 jan. 2014: http: / / blogdaboitempo.com.br / 2013 / 03 / 30 / quase-50-anos-do-golpe-de-1964- nada-a-comemorar /

Miliandre Garcia

Rodrigo Czajka

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50 anos de golpe: arte, cultura e poder (Parte II) / Antíteses / 2015

Como parte complementar ao dossiê “50 anos do golpe: arte, cultura e poder”, publicado no primeiro semestre de 2015, chega a público este segundo tomo intitulado “50 anos do golpe: memória, política e movimentos sociais”. A publicação do dossiê em duas partes justifica-se por dois motivos essenciais: a) dividir as contribuições em dois grandes temas de pesquisa sobre a ditadura militar no Brasil; b) contemplar o maior número possível de artigos enviados à Antíteses para este dossiê, que recebeu uma quantidade substancial de colaborações.

Cumpre também constatar, com esse dossiê, que os estudos sobre ditadura militar no Brasil vêm ganhando gradativa repercussão nacional e internacional. Na última década os trabalhos de pesquisa sobre regimes autoritários têm se tornado atuais não apenas pela necessária, ainda que tardia, abertura de arquivos da repressão, mas também pelo modo como ecos do autoritarismo de outrora hoje, mais uma vez, recolonizam o imaginário social, provendo discursos pelo retorno do controle, da repressão, da militarização do sociedade que consagraria, por sua vez, a vitória por revanche de um certo tipo de nacionalismo caduco.

Vê-se hoje setores da sociedade brasileira, sobretudo aqueles comprometidos com a formação de uma opinião pública sobre os rumos da “vida nacional”, engajados às avessas com panelas estridentes em sacadas de edifícios, tornando esse espaço um camarote particular a partir do qual se constrói um falsa noção de democracia: é necessário, pois, participar daquilo que alguns meios de comunicação chamam de “festa democrática”, mesmo que essa festa barre a entrada daqueles que não estão a caráter ou que não foram simplesmente convidados.

Daí que iniciativas da Antíteses, tais como essa, promovem o debate e permitem uma contemporização dos estudos aqui publicados que, a rigor, não estão necessariamente situados há 50 anos. Pois, se a recorrência dos estudos dessa matiz ainda é verificada no ambiente acadêmico, é porque atual nunca deixou de ser o tema do autoritarismo. Mais que isso: é necessário entender como ele próprio se metamorfoseou em instituições, em movimentos, em indivíduos que hoje perfilam os antigos delírios autoritários de tempos sombrios.

Assim, o artigo que abre este segundo volume, “Recordar é vencer: as dinâmicas e vicissitudes da construção da memória sobre o regime militar brasileiro”, de Marcos Napolitano, propõe uma periodização inédita para analisar o processo de construção da memória do regime militar brasileiro. Partindo do princípio que a memória social e a experiência histórica de uma dada sociedade estão conectadas, o autor analisa a construção de uma “memória mutável” sobre o regime desde os anos 1970 até a primeira década do século XXI.

Florencia Lederman, com o artigo “La nación representada en los héroes. Las estrategias de legitimidad de las dictaduras de Brasil (1964-1985) y Argentina (1976-1983): visiones del tiempo y ejercicio del poder”, analisa como as ditaduras deste dois países se apropriaram dos heróis nacionais. Por serem estes protagonistas de “momentos fundantes” da nação, foram amplamente retomados pelos regimes em questão.

Em “O governo Geisel (1974-1979): o ápice da disputa pelo poder entre duros e moderados e sua expressão memorialista entre os militares”, Maria Gabriela da Silva Martins da Cunha Marinho e Sonale Diane Pastro de Oliveira analisam a disputa memorialista entre “duros” e “moderados” acerca da abertura política no Brasil (1974-1985).

Adrianna Setemy no artigo intitulado “Liberdade sob vigilância: um diálogo entre narrativas históricas sobre o exílio latino-americano no Cone Sul”, pretende, a partir da análise das singularidades, confluências e contradições que caracterizam os diferentes registros escritos sobre o exílio de brasileiros nos países do Cone Sul latinoamericano, promover um debate sobre a pluralidade de formas de narrar a saída indesejada do país de origem, a natureza desses diferentes registros históricos e a construção simbólica do exílio enquanto experiência traumática transcorrida fora das fronteiras nacionais.

Também discutindo a relação entre as ditaduras do Cone Sul, Hernán Ramírez, com artigo intitulado “Reflexiones acerca de las dictaduras del Cono Sur como proyectos refundacionales”, pretende evidenciar as ditaduras como eventos estruturais e não apenas simples conjunturas políticas, que repercutiram de forma profunda nas sociedade latino-americanas, não de modo homogêneo, e que ainda hoje se fazem sentir seus desdobramentos, ao ter remodelado aspectos sociais estruturais em diferentes nações da América Latina.

No texto seguinte, Agenor Sarraf Pacheco e Jaime Cuéller Velarde, analisam em “Silêncios da historiografia brasileira: o golpe civil-militar em experiências de pesquisa no Pará” as narrativas sobre a ditadura militar brasileira no Pará, levando em consideração que apesar das difíceis trajetórias que a nação e seus habitantes trilharam em distintas parte de seu território, a experiência dos longos tempos de regime de exceção na Amazônia ficou quase nas dobras das produções historiográficas nacionais.

Carla Brandalise e Marluza Marques Harres em “Brizola e os comunistas: os Comandos Nacionalistas na conjuntura do golpe civil-militar de 1964”, pretende circunscrever as divergências de concepção e ação entre Leonel de Moura Brizola e seus aliados na contraposição aos vinculados a Luiz Carlos Prestes no Partido Comunista Brasileiro (PCB).

Em seu artigo intitulado “Formas de militancia en el Partido Comunista argentino durante la última dictadura militar (1976-1983)”, Natalia Casola analisa como a linha definida pelo PC durante a última década da ditadura militar na Argentina, o apelo a construir a “convergência cívico-militar”, se materializou nas diferentes frentes de militância e nas chamadas organizações de massas.

Discutir alguns usos de termos derivados do campo semântico da loucura quando o assunto é a ditadura civil-militar de 1964, analisar o funcionamento dos mecanismo de suspeição e propor uma análise do aparato repressivo ditatorial, do ponto de vista da paranoia, são alguns dos objetivos traçados por Daniel Faria, no artigo “Sob o signo da suspeita: as loucuras do poder ditatorial”.

Partindo para um conjunto de estudos com objetos mais específicos e pormenorizados, o artigo “Carlos Santos e os usos da ideologia da democracia racial na ditadura civil-militar brasileira”, de Arilson dos Santos Gomes visa conferir visibilidade ao protagonismo político negro no parlamento do Estado do Rio Grande do Sul no período da ditadura civil-militar (1964-1974), analisando a atuação do deputado estadual Carlos da Silva Santos.

Rivail Carvalho Rolim procura dar enfoque a algumas formas de resistência à ditadura militar no Brasil exercidas a partir da organização e mobilização de movimento populares, em seu artigo “Repressão e violência de Estado contra os segmentos populares durante os governos militares”.

No artigo “Todo artista tem de ir aonde o povo está”: o movimento político das Diretas Já no Brasil (1983-1984)”, Vicente Saul Moreira dos Santos tece comentários sobre a relação entre História do Tempo Presente e História Política, com objetivo de inserir o movimento político das Diretas Já, transcorrido no Brasil entre 1983 e 1984. Partindo do pressuposto de ter sido um evento da conjuntura do final da ditadura militar, da luta por democracia e cidadania no país.

No mesmo sentido de compreender e detalhar a organização dos movimentos sociais no curso do regime militar, o artigo “O golpe de 1964 e a repressão ao movimento de ‘trabalhadores favelados’ de Belo Horizonte”, de autoria de Samuel Silva Rodrigues de Oliveira, discute o “Inquérito DVS-096” que atingiu a Federação dos Trabalhadores Favelados de Belo Horizonte (FTFBH). Segundo o autor, mais do que destruir a estrutura associativa que articulava o movimento social, a repressão desconstruiu a gramática pública que permitia aos “trabalhadores favelados” reivindicarem o “direito de morar”.

Tal como o artigo anterior, o seguinte aborda a organização de movimentos sociais na ditadura. Intitulado “Repressão política contra trabalhadores rurais: reflexões a partir de um estudo de caso em Magé (RJ)”, o artigo de Marco Antonio dos Santos Teixeira, discute a ação de um grupo de trabalhadores rurais em Magé, na Baixada Fluminense, que lutou pelo direito de permanecer na terra que ocupava e se transformou num exemplo de resistência em todo estado do Rio de Janeiro.

Em “A reforma agrária em projeto: o uso do espaço legal para garantir o acesso à terra no Pará (1960-1962)”, Edilza Joana Fontes, coloca em discussão a proposta de reforma agrária no Pará, ocorrido no pré-64, tendo como análise os decretos dos governos do Estado do que procuram definir uma faixa de terras em torno das estradas estaduais, para fins de assentamentos de pequenos produtores rurais. Um artigo que retoma um tema importante no seio das resistências do campesinato, mesmo antes do golpe de 1964.

Por fim, o artigo que fecha esse dossiê, de autoria de Reginaldo Benedito Dias, intitulado “Maringá no nascimento da ditadura civil-militar de 1964: análise do processo movido contra o vereador Bonifácio Martins e seus desdobramentos”, objetiva analisar o processo movido pelo Estado brasileiro, após a implantação da ditadura civil-militar de 1964, contra o Bonifácio Martins, que exercia mandato de vereador no município de Maringá (PR). Perseguido por causa de seu envolvimento com lutas sociais e sindicais e por presumido vínculo com o Partido Comunista Brasileiro, Bonifácio Martins, por motivos de segurança, evadiu-se de Maringá, ficando impossibilitado de concluir seu mandato. O texto de redimensiona os efeitos da ditadura militar sobre os aspectos biográfico e políticos de um figura importante da resistência e oferece uma interpretação mais densa do fenômeno da repressão.

Assim, com esse segundo tomo do dossiê “50 anos do golpe” foi elencado um conjunto representativo de colaborações que, assim como no primeiro, demonstram – como dissemos – a atualidade do tema de pesquisa e sua pertinência crítica nestes dias em que fantasmas do autoritarismo ganham força, mesmo que 50 anos depois.

A todos, uma boa leitura!

Miliandre Garcia

Rodrigo Czajka

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Nação, cidadania, insurgências e práticas políticas, 1817-1848-parte 2 / Clio – Revista de Pesquisa Histórica / 2015

Esta segunda parte do dossiê Nação, cidadania, insurgência e práticas políticas, 1817- 1848, mais uma vez, aborda a história social e política daquele momento-chave da formação da nacionalidade e da consolidação do império do Brasil, que costumava ser chamado pela historiografia tradicional de “Ciclo das Insurreições Liberais do Nordeste”. Mesmo tendo esse vínculo comum, os artigos abordam objetos diversos, enriquecendo assim nossa compreensão sobre o período e sobre a temática do dossiê. Nas páginas seguintes, estudaremos: a constituição de uma família que tinha um projeto de ascensão à elite política do Império; o conturbado processo de independência nas “províncias do norte”; a participação de índios aldeados nas lutas da Confederação do Equador; o jogo político das primeiras celebrações do Sete de Setembro, e, finalmente, os confrontos armados envolvendo as populações florestais nas matas de Jacuípe na primeira metade do dezenove.

Abre o dossiê o instigante artigo de Paulo Henrique Fontes Cadena, que desvenda a trajetória política e financeira dos Cavalcanti de Albuquerque desde 1801, quando os irmãos Francisco, Luís e José protagonizaram a trama conhecida como Conspiração dos Suassuna (nome do engenho da família). Em 1817, Francisco (o Coronel Suassuna), e seus filhos participaram da revolução que estourou no Nordeste. O autor analisa os problemas financeiros que rondavam o cotidiano dos Cavalcanti, levando-os a tomar posições opostas ao governo. Todos os seis filhos do Coronel envolveram-se na política brasileira. O mais destacado deles, Antonio Francisco de Paula e Hollanda Cavalcanti de Albuquerque, o Hollanda dos anais do parlamento brasileiro, quase foi regente em 1835 ao concorrer com Feijó. Depois dos arroubos de 1808 e 1817, a família trilhou um caminho mais conservador, apoiando Pedro I contra a Confederação do Equador (1824) e dali foram tecendo alianças e ocupando espaços políticos que, explica Paulo Cadena, tiveram correspondência direta com o sucesso econômico dos anos seguintes. Os Cavalcanti e seus aliados ocuparam imensos cargos e posições constituindo-se numa oligarquia sem par na história de Pernambuco.

A história de formação de potentados locais e da elite política no Brasil Império é fascinante, sobretudo quando associada a processos mais amplos, como a Independência do Brasil, que, nas províncias, não foi um processo homogêneo, unidirecional. No Piauí, o anochave foi 1823, quando as tropas leais a Portugal foram definitivamente expulsas por um exército patriota, articulado pelas elites locais, com intensa participação dos grupos populares. Gente que, em sua maioria, era motivada por um discurso de nacionalidade construído ali mesmo em meio aos acontecimentos. É isso que nos mostra em detalhe o artigo de Johny Santana de Araújo, ao fazer um estudo de caso sobre a Independência, no qual evidencia a posição estratégica do Piauí, como uma “região de fronteira” entre o novo Império do Brasil e a nova Colônia portuguesa no norte. Menos de um ano depois dos eventos de 1823, as lideranças políticas que haviam tomado parte no processo de independência no Piauí, estavam divididas entre jurar a nova Constituição, promulgada por Pedro I, ou aderir à “república pernambucana”: a Confederação do Equador.

Nesses processos, a violenta cisão entre as elites locais, abria espaço para que outros protagonistas atuassem de forma mais incisiva na cena política maior, esgarçando ou mesmo rompendo relações clientelistas consolidadas pelas contingências locais. Na Confederação do Equador estava em debate (e em conflito) projetos políticos divergentes, conferindo outras dimensões ao jogo político entre os potentados locias e as demais camadas e estratos da sociedade. Assim, em Pernambuco e Alagoas, os acontecimentos de 1824 atingiram e envolveram também a população indígena. É este o tema do artigo de Mariana Albuquerque Dantas, que analisa com precisão a participação dos aldeamentos de Barreiros e Cimbres (em Pernambuco) e Jacuípe (em Alagoas) nos conflitos armados daquele ano. A partir de suas próprias demandas – a defesa da terra das aldeias, a administração desses espaços e a oposição ao recrutamento – a população indígena posicionou-se diante dos debates sobre projetos políticos coevos. Mesmo que enleados nas malhas do clientelismo local, os índios aldeados foram protagonistas de sua própria história naquele momento crucial do processo de formação do Estado nacional brasileiro.

O artigo seguinte é de autoria de Lídia Rafaela Nascimento dos Santos que contempla o leitor com um estudo sobre as festas comemorativas do Sete de Setembro no Recife em 1829. Embora tenha sido uma tradição inventada em 1826 por uma lei que definiu as datas cívicas da nova nação, esta foi a primeira vez que aquela celebração foi registrada e debatida pela imprensa de Pernambuco. O texto apresenta um repertório de interpretações coevas sobre aquele momento, quando a cidade inteira viu-se envolvida nas solenidades que contou com cortejos, carros alegóricos, ruas e praças apinhadas de gente. Mas nada era linear, unívoco. Cada detalhe era significado à sua maneira pelos diferentes agentes enredados nas tramas das festas. As diferentes facções políticas manifestavam-se através da imprensa e participavam, ou não, dos diversos eventos programados, conforme seus poderes relativos, suas opiniões e lealdades. A cidade ainda vivia o rescaldo dos movimentos de 1817 e 1824. Eram muitas as discordâncias, veladas ou não, expressas nos periódicos, que posicionavam-se de forma crítica sobre o que ocorria na cidade. A festa não era apenas uma festa, era muito mais.

Maria Luiza Ferreira de Oliveira inova estudando as guerras nas matas entre Alagoas e Pernambuco na década de 1840, construindo uma nova periodização e uma narrativa singular daqueles eventos. Seu texto mostra que os cabanos não foram totalmente derrotados em 1835, pois a luta ainda iria continuar na década seguinte até a prisão final de Vicente de Paula e de Pedro Ivo, em 1850, e a fundação de duas colônias militares na região, uma em cada província. A gente das matas agia dentro de uma lógica própria. É preciso perscrutá-la para entender suas motivações, seu envolvimento numa guerra sem fim. Mas além dos combates corpo a corpo, das incontáveis mortes, a autora percebe uma outra luta na imprensa e no debate político partidário pela construção de uma memória daqueles acontecimentos e das pessoas envolvidas. Os conservadores tentaram despolitizar o debate público, mostra a autora, celebrando os “melhoramentos materiais” dos anos 1850 em confronto com o que seria um Brasil selvagem, incivilizado. Pedro Ivo desponta como o personagem mais disputado, apontado como herói ou bandido, como símbolo de um liberalismo purista ou um reles desertor das tropas imperiais. Essa luta pela memória foi, principalmente, política, indo além do que permite entender uma cronologia estática dos fatos. É essa a trama tecida nesse instigante texto.

Só resta aos organizadores deste dossiê agradecer aos autores que possibilitaram manter acesa a discussão sobre o tema Nação, cidadania, insurgência e práticas políticas, 1817-1848.

Marcus J. M. de Carvalho – UFPE.

Bruno Augusto Dornelas Câmara – UPE.


CARVALHO, Marcus J. M. de; CÂMARA, Bruno Augusto Dornelas. Apresentação. CLIO – Revista de pesquisa histórica, Recife, v.33, n.2, jul / dez, 2015. Acessar publicação original [DR]

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Para la tercera cultura. Ensayos sobre ciencias y humanidades – FERNÁNDEZ BUEY (CCS)

FERNÁNDEZ BUEY, F. (2013). Para la tercera cultura. Ensayos sobre ciencias y humanidades. Prólogo de Alicia Durán, Jorge Riechmann, Jordi Mir y Salvador López Arnal. Edición a cargo de S. López Arnal y J. Mir. Barcelona: El Viejo Topo, 2013. 406p. Resenha de: CUESTA, Raimundo. ¿Tercera cultura o crítica de la cultura? Acotaciones a una obra póstuma de Francisco Fernández Buey. Con-Ciencia Social – Anuario de Didáctica de la Geografía, la Historia y las Ciencias Sociales, Salamanca, n19., p.133-138, 2015.

Un quehacer en la encrucijada del pensamiento crítico

La obra de Francisco Fernández Buey (FBB) plasma las encrucijadas teóricas entre dos ciclos de pensamiento crítico, cuyo devenir generó en nuestra época, parafraseando a R. Keucheyan (2013), una tipología muy variopinta de intelectuales (“conversos”, “pesimistas”, “resistentes”, etc.). El autor aparece como lugar de condensación de relaciones sociales de una época, como “centro de anudamientos”1 del complejo de vínculos y circunstancias que convergen en él. Perteneció a la categoría de los resistentes, de aquellos jóvenes de los años sesenta que, sin renunciar a su pasado, se asomaron al siglo XXI con una mirada crítica renovada, a pesar y sin olvidar las muchas y graves derrotas de la centuria anterior. La princi pal, afirma FFB, fue contar con el estalinismo entre los “tres actos de barbarie” sin precedentes; los otros dos fueron el Holocausto nazi y las bombas atómicas en Hiroshima (Fernández Buey, 1996, p. XXV).

Explicar lo inexplicable conduce a nuestro autor a relacionar la barbarie con la civilización, tal como hicieran, entre otros, M. Horkheimer y Th. W. Adorno en su Dialéctica de la Ilustración (1947)2, lo que le obliga, como firme partidario de la racionalidad científica, a tomar distancia respecto a sus propias ideas frente a los sueños de la razón creadores de monstruos; él mismo se acoge al slogan de B. Russell: “la necesidad de la ciencia para salvarnos de la ciencia” (Fernández Buey, 2013, p. 307). La obra de madurez de FFB acontece sobre un duro paisaje de fondo: la caída del muro de Berlín y la refundación del final de la historia como nuevo metarrelato del neoliberalismo.

Pero, tras el triunfo de la revolución conservadora, el derrumbe del socialismo real y la desagregación de la clase obrera tradicional, en el gozne entre ambos siglos, de las ruinas del viejo marxismo emerge el deseo teórico y práctico de volver a plantear la batalla de siempre, “aunque ahora lo llamen de otro modo”. A esa cita siempre acudió nuestro autor.

Una batalla póstuma por la tercera cultura

El libro póstumo de Fernández Buey (2013), Para la tercera cultura, en realidad, es el resultado de una trabajosa reordenación, a cargo de sus editores y amigos, Salvador López Arnal y Jordi Mir, de una obra sin acabar, y ello se percibe en la factura final de un producto compuesto de partes de muy desigual extensión, profundidad y temática.

En cualquier caso, la experiencia de la lectura es grata e incluso no decae su fuerza a pesar de que desde muy pronto se pone encima del tapete la tesis central del autor, a saber, que la escisión entre cultura científica y cultura humanística (entre las “dos culturas”) es una vetusta equivocación que debe ser superada con una “tercera cultura”, síntesis superadora que no admitiría sometimiento de una a la otra. Tesis central que, por lo demás, sus prologuistas se encargan de subrayar desde el principio.

La obra aparece dividida en cuatro capítulos, otros tantos anexos y un siempre oportuno índice de nombres (en este caso más conveniente por la falta de títulos en las subdivisiones del larguísimo capítulo 1). Efectivamente, en ese capítulo, Humanismo y tercera cultura, que abarca más de la mitad del texto, se efectúa un sugerente recorrido histórico a través de las formulaciones filosóficas, científicas y ensayísticas que han discurrido sobre la dualidad ciencia natural/humanidades. Los conocimientos de FFB como historiador de la filosofía y como teórico de la metodología de las ciencias sociales, tantas veces cultivados en su actividad docente y en sus publicaciones, permiten ahora presenciar la riqueza del debate epistemológico que subyace a la tradicional dicotomía. Si bien la tesis acerca de la convencional y perniciosa escisión entre ciencias/letras resulta una obviedad, el recorrido histórico por los supuestos teóricos de tal disyuntiva nos plantea un problema filosófico de envergadura a propósito del estatuto de las disciplinas y la especificidad de sus objetos y métodos.

Nuestro autor se sitúa siempre a favor de la corriente partidaria de la racionalidad científica y, siguiendo la senda de Lukács, ataca la deriva irracionalista, el asalto a la razón, que se escondería en los pliegues del pensamiento de Nietzsche, Spengler, Heidegger y otros. Una de sus consecuencias, desde finales del siglo XIX, gracias a los neokantianos, sería la búsqueda de un estatuto diferencial para las ciencias del espíritu, y la contraposición irreconciliable entre las ciencias nomotéticas (las explicativas conforme a regularidades comprobadas mediante el método experimental) frente a las idiográficas (las encargadas de dar cuenta de lo particular). La historia justamente estaría en el núcleo de ese debate. FFB, por su parte, contrapone la desviación idiográfica historicista de las artes de Clío frente a la concepción científica del conocimiento de lo social en tanto que ciencias histórico-sociales o sociohistóricas, tal como Marx las concebía.

Este hilo de posiciones contrapuestas se prolongaría, según FBB, hasta el relativismo posmoderno, del cual abomina.

Más allá de las coincidencias o discrepancias con FFB, es de agradecer el dibujo de este brillante fresco acerca del debate filosófico, científico y literario (las fuentes y autores que maneja son fruto de muchas y sustanciales lecturas de campos muy diversos) que sirve a modo de pórtico para traspasar el umbral del estado más actual de la querella sobre las “dos culturas”. El libro toma como base los debates de finales del siglo XIX y los lleva hasta la segunda mitad de siglo XX cuando, merced a la obra de Charles Percy Snow, The two cultures and the cientific revolution (Snow, 1977), renace en los países de habla inglesa tal asunto al calor de la polémica sobre las reformas del curriculum de esos años. Así, la cuestión de una “tercera cultura” se inscribe en la inacabable disputa sobre las humanidades y el sentido de la cultura en la era de la revolución científicotécnica.

El propio autor concibe la “tercera cultura” como algo más que una mera sustitución o hegemonía de una cultura por otra.

A tal efecto comenta la obra del sociólogo e historiador alemán Wolf Lepenies (1994), Las tres culturas, que precisamente considera las ciencias sociales como “culturas puentes para la tercera cultura”, y destaca también la aportación del norteamericano John Brockman (1996), La tercera cultura Más allá de la revolución científica, autor que se erige en difusor del concepto desde los años noventa.

La lectura de estas obras lleva a nuestro pensador a proponer una complementariedad entre ambos continentes científicos: el arsenal explicativo nomotético de las ciencias naturales debería combinarse con las retóricas narrativas y metafóricas procedentes de las ciencias humanas.

Estas tesis de fondo recorren el resto de los capítulos del libro que vienen a ser meras ilustraciones (algunas muy eruditas). En el capítulo 2, Lecturas para la tercera cultura, se efectúa un lúcido recorrido por dos temas: 1) Galileo visto por Brecht y 2) Los árboles del paraíso en la visión de John Milton. En su obra, La vida de Galileo, según FFB, “Brecht rechaza el progresismo ingenuo, advierte de las complicaciones de la vieja función prometeica de la ciencia, llama la atención sobre su función social presente y futura y obliga al espectador a pensar sobre la distancia que, a pesar de los progresos científicos, sigue habiendo entre el conocimiento que se tiene del movimiento de los astros y el conocimiento que el pueblo tiene de los movimientos de los que mandan” (p. 253).

En el subcapítulo segundo, donde más brilla su hermenéutica literaria, confronta las ideas del libro del Génesis con la obra de Milton y lo que en ella habita de la concepción científica que se abre paso en su época.

El motivo bíblico de la sed de saber y el deseo de comer el fruto prohibido del árbol de la ciencia le lleva a practicar una exégesis especialmente sugerente y atrevida, donde, no habiendo juicio moral objetivo (eso sería “ser como Dios”), el “camino oblicuo” de la ciencia nos advierte del “camino del conocimiento que bordea el infierno para evitarlo” (p. 283). Por otro lado, el capítulo 3, Ciencias sociales y tercera cultura, posee una relevancia a la hora de presentar un boceto de sus planteamientos: “la oscilación entre el formalismo y la literatura es el estado natural de las ciencias sociohistóricas”, y añade que “esta situación está llamada a prolongarse algún tiempo y que la modestia metodológica exige hacerse a esa idea” (p. 304). A su entender, existen tres modalidades tradicionales y distintas de concebir la ciencia: como análisis (Science), como crítica social y como cosmovisión (Wissenschaft). Las tres estarían todavía muy presentes. Postula FBB renovar el diálogo entre las tres y contemplar lo problemático de confundir o reducir ciencia social a actividad crítica por el peligro de parcialidad y partidismo (lo axiológico no deriva de ninguna ciencia) que tal posición entraña.

El capítulo de conclusiones no es tanto una recapitulación como un subrayado de la tesis de fundar un nuevo humanismo de nuestro tiempo que implique la prác tica de una ciencia con conciencia y al que están convocados, en virtud de una nueva alianza, los científicos y los humanistas tradicionales.

Por último, el libro se completa con cuatro anexos (medicina hipocrática; Newton/Goethe y la ciencia moderna; sobre la objetividad; sobre ciencia y religión) que, a modo de apunte o boceto, plantean asuntos muy variados atinentes al tema central de la obra.

Los anudamientos críticos de FFB

Pertenece nuestro autor a la categoría de “filósofo sacristaniano”, a la primera generación de discípulos del ilustre y singular filósofo marxista, algunas de cuyas características grupales ha destacado Francisco Vázquez García (2009). De donde se infiere que sus “anudamientos”, nacidos de una apuesta continuada por la ciencia y la objetividad, se ven a menudo rebasados por unos intereses sociopolíticos e inquietudes intelectuales extraños al objetivismo, lo que conlleva alianzas con amigos políticos y extraños epistemológicos. Precisamente a partir de las pinceladas que esta obra póstuma ofrece de su retrato filosófico nos surgen dos cuestiones de disenso, a saber: la relación entre cultura y teoría crítica, y la dimensión histórica y constructiva de todo conocimiento.

En cuanto a la primera, la cultura, un vocablo sustantivizado merced a la revolución conceptual operada el siglo XVIII, aparece en el texto que comentamos naturalizada y sacralizada como una realidad dada y trascendente, lo que impide ver que este heraldo anunciador de la modernidad burguesa3 contiene en su interior más de una mentira (W. Benjamin supo adivinar la barbarie que se agazapa tras los monumentos culturales) y no se puede reducir a un legado incontestable e intangible de bienes espirituales fruto del progreso de la razón humana. Esta concepción de la cultura como razón universal realizada se hace difícilmente cohabitable con el de crítica.

A menudo este término, aunque no sea el caso de FFB, se suele degradar a la condición de una mera habilidad cognitiva.

Cabe, no obstante, traer a colación por su pertinencia el artículo de Max Horkheimer, Teoría tradicional y teoría crítica (1937)4, donde distinguía entre “teoría tradicional” y “teoría crítica”. Allí a la consideración pasiva del sujeto de conocimiento, propia de una concepción positivista, contraponía el concepto de “teoría crítica” como aquella que entiende la relación del sujeto y el objeto como una coimplicación constructiva resultado de la praxis social. Según esta posición gnoseológica no existiría un conocimiento de lo social puro, neutro y desprovisto de valores.

En cuanto a la segunda objeción, nuestro autor adolece de un cierto esencialismo cientificista al situar la ciencia en un altar demasiado elevado e intangible. Por muchas reticencias que FFB albergue, todo conocimiento es una construcción sociohistórica, hija de las relaciones de poder, aunque cada disciplina establezca reglas de verdad más o menos refinadas. Los lenguajes explicativos de cada disciplina son modos específicos de afrontar el mundo y su potencialidad obedece a relaciones lógicas y extralógicas (internas y externas). No hay una realidad objetiva a la espera del cazamariposas del sujeto científico, porque el conocimiento del sujeto no es un mero reflejo de un objeto preexistente. Por lo demás, la aspiración a una teoría todoloexplica es una prometeica labor que históricamente ha engendrado indeseables sueños de la razón como, por ejemplo, el materialismo dialéctico, una criatura dogmática nacida en el seno del pensamiento revolucionario5.

Precisamente la idea de escisión de las “dos culturas” es una convención sociohistórica, hija de una determinada historia de la verdad. Randall Collins (2005), en su magna obra Sociología de las filosofías, propone una “sociología interna de la verdad” basada en el conflicto generado dentro de redes de reconocimiento y poder, de modo que la producción de la verdad, tal como sostiene también la sociología genética de Pierre Bourdieu, se ocasiona siempre dentro de un campo, de un espacio social de fuerzas en tensión. Las teorías del campo intelectual contribuyen a explicar la construcción social del conocimiento e incluso constituyen una modalidad más refinada de aceptación de una realidad objetiva (Collins, 2005, p. 8).

De modo y manera que la sociología del campo, gran ausente en la obra que comentamos, no significa que “todo valga”. Pero su ausencia limita, escora y dificulta la tesis de una “tercera cultura”, entendida esta exclusivamente como asunto y objetivo de un debate lógico-racional y no como apuesta inscrita en un espacio sembrado de minas.

Las guerras educativas de los últimos años entre retrohumanistas y eficientistas curriculares son expresión de la supervivencia de la separación de las dos culturas, pero encubren no sólo argumentos racionales, sino también el intento de reformulación del conocimiento y la escuela conforme al nuevo tipo de sociedad del totalcapitalismo.

En efecto, en tiempos recientes ha circulado una literatura acerca del desastre y degradación cultural de nuestro tiempo, cuya fuente nutricia, la madre de todas las guerras culturales, fue la obra del norteamericano, discípulo de Leo Strauss, Allan Bloom (1989), The Closing American Mind (1988), que denunciaba la caída en el relativismo y la insignificancia. Desde entonces la defensa del canon cultural de occidente ha estado al cabo de la calle en intelectuales tipo Mario Vargas Llosa (2012) y en la cofradía de los intelectuales retrohumanistas, donde a menudo la derecha y una cierta izquierda se dan la mano. Esta nostalgia hacia la cultura “culta” atraviesa todo el debate curricular que ha desembocado en un regreso conservador a los valores de siempre dentro del sistema educativo6. Aunque este no sea el planteamiento de FFB sobre la “tercera cultura”, su punto de vista también expresa la caída de las certezas sobre lo que deba ser una cultura crítica. Y, sobre todo, denota una cierta debilidad a la hora de pensar en la tarea de lo que deba consistir la crítica de la cultura aquí y ahora.

En todo caso, el gran valor de esta obra FFB estriba en lo que sugiere invitando a razonar más allá del lugar común. Además, el círculo Sacristán, al que perteneció nuestro autor, merece un lugar destacado en la historia del pensamiento español en los últimos cincuenta años.

[Notas]

1. Concepto muy expresivo y de notable poder explicativo manejado por Manuel Sacristán (1987, p. 27).

2. Apareció en ese año por primera vez como libro y fue escrita unos pocos años antes. La historia de este extraño libro puede verse en J.J. Sánchez (1998, pp. 9-46).

3. Como ejemplarmente se ha estudiado en la llamada Historia conceptual (Bregriffgeschichten). Véase una excelente síntesis en Reinhardt Koselleck (2012). Lo cierto es que la historia de las ideas que se trasparenta en el libro de FFB resulta un tanto tradicional (personajes, influencias y consecuencias, etc.).

4. Hay edición española en Paidós (Horkheimer, 2000), que se beneficia de una introducción a cargo de Jacobo Muñoz y que, además, incluye Razón y conservación (1942), otro opúsculo central en la etapa más radicalmente crítica de su autor.

5, El libro del profesor argentino Néstor Kohan (2013), que dispara teóricamente contra todo los que se mueve fuera de la tradición Marx-Lenin-Gramsci-Guevara (y otros), contiene una interesante crítica de la historia de la construcción del DIAMAT (el materialismo dialéctico) como ideología perturbadora del legado de Marx y como pantalla justificadora del marxismo soviético.

6. Como muestra, valga un botón: “Madrid fija las fechas históricas que deben aprender los alumnos”. Así rotulaba la noticia (18 de febrero de 2014) Pilar Álvarez, periodista de El País. Al parecer, la reunión de las autoridades madrileñas con expertos historiadores (Gonzalo Anes, Fernando G. de Cortázar y Carmen Iglesias) llevaba a considerar obligatorio que los futuros egresados de primaria sepan, entre otras efemérides, que la llegada de los romanos a España ocurrió el año 218 a.C. Al poco, 24 de febrero de 2014, en el ABC.es, Esperanza Aguirre, “La enseñanza de la historia”, se felicitaba de la iniciativa, recordaba sus desvelos como ministra de educación y mantenía la tesis de las viles intenciones de nacionalistas e izquierdista a la hora usar la historia como materia de enseñanza.

Referencia princial

FERNÁNDEZ BUEY, F. (2013). Para la tercera cultura. Ensayos sobre ciencias y humanidades. Prólogo de Alicia Durán, Jorge Riechmann, Jordi Mir y Salvador López Arnal. Edición a cargo de S. López Arnal y J. Mir. Barcelona: El Viejo Topo, 406 págs.

Referencias

BLOOM, A. (1989). El cierre de la mente moderna. Barcelona: Plaza y Janés.

BROCKMAN, J. (1996). La tercera cultura. Más allá de la revolución científica. Barcelona: Tusquets.

COLLINS, R. (2005). Sociología de las filosofías. Una teoría global del cambio intelectual. Barcelona: Herder.

FERNÁNDEZ BUEY, F. (2013). Para la tercera cultura. Ensayos sobre ciencias y humanidades. Barcelona: El Viejo Topo.

FERNÁNDEZ BUEY, F. y RIECHMANN, J. (1996). Ni tribunos. Ideas y materiales para un programa ecosocialista. Madrid: Siglo XXI.

HORKHEIMER, M. (2000). Teoría tradicional/teoría crítica. Barcelona: Paidós.

KEUCHEYAN, R. (2013). Hemisferio izquierda. Un mapa de los nuevos pensamientos críticos. Madrid: Siglo XXI.

KOHAN, N. (2013). Nuestro Marx. Madrid: La oveja roja.

KOSELLECK, R. (2012). Historia de los conceptos. Estudios sobre semántica y pragmática del lenguaje político y social. Madrid: Trotta.

LEPENIES, W. (1994). Las tres culturas. México: FCE.

SACRISTÁN, M. (1987). El orden y el tiempo. Madrid: Trotta.

SÁNCHEZ, J.J. (1998). Sentido y alcance de Dialéctica de la Ilustración. Introducción a la obra de M. Horkheimer y Th. W. Adorno. Dialéctica de la Ilustración. Madrid: Trotta, pp. 9-46.

SNOW, Ch.P. (1977). Las dos culturas y un segundo enfoque. Madrid: Alianza.

VARGAS LLOSA, M. (2012). La civilización del espectáculo. Madrid: Alfaguara.

VÁZQUEZ GARCÍA, F. (2009). La Filosofía española. Herederos y pretendientes. Una lectura sociológica. Madrid: Abada.

VV.AA. (2012). Homenaje a Francisco Fernández Buey (1943-2012). Monográfico de la revista mientras tanto, 119.

Raimundo Cuesta – Fedicaria-Salamanca.

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[IF]

História da Educação Matemática

HISTEMAT 1 Ditadura no Brasil

A Histemat – Revista de História da Educação Matemática (2015-) é veículo de divulgação dos resultados de pesquisa sobre história da educação matemática. Tem por público alvo pesquisadores, professores e interessados na dimensão histórica do conhecimento da educação matemática. Aceita textos inéditos, resultantes de pesquisa sobre história da educação matemática, história da matemática no ensino, história e didática da matemática e quaisquer produções que promovam o diálogo entre história, educação e matemática.

A HISTEMAT recebe artigos nos idiomas: português, espanhol, inglês e francês.

Esta revista oferece acesso livre imediato ao seu conteúdo, seguindo o princípio de que disponibilizar gratuitamente o conhecimento científico ao público proporciona maior democratização mundial do conhecimento.

A revista tem uma periodicidade quadrimestral, então publica três números anuais.

ISSN 2447-6447 (Online)

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Nação, cidadania, insurgências e práticas políticas, 1817-1848 (I) / Clio – Revista de Pesquisa Histórica / 2015

Foi na primeira metade do dezenove que ocorreu uma série de eventos, que a historiografia tradicional costumava chamar de forma um tanto quanto acrítica de “Ciclo das Insurreições Liberais do Nordeste”. Longe de se limitar apenas a esse pedaço do Brasil, aquele foi um momento marcante para a formação política e social da Nação em seus primeiros e decisivos anos de construção. Anos esses de fundação (para não dizer também de descolonização), organização, afirmação e consolidação do Estado Nação. Aqueles acontecimentos em suas múltiplas articulações são ainda reveladores das noções de nacionalidade e cidadania que foram se constituindo entre a chegada da família real e a década de 1850, a melhor década de Pedro II, segundo o monarquista Joaquim Nabuco. Ficaram claros processos políticos e sociais complexos, que sem a explosão de violência, sem a panfletagem, sem a repressão brutal, talvez tivessem ficado abafados pelas paredes dos centros de decisão nas províncias e na corte.

Não surpreende, portanto, que esse período e temática tenham sempre atraído a atenção de tantos historiadores brasileiros e estrangeiros. Entender esse tal “Ciclo das Insurreições Liberais do Nordeste” – que nem sempre foi liberal e raramente tão limitado geograficamente – é uma boa chave para perscrutar processos mais amplos de formação de uma cultura política singular, moldada em meio a contradições e conflitos – tendo a escravidão como um pano de fundo que se espalhava por todo o palco da ação. Para além dos aspectos políticos e da violência desses movimentos insurrecionais que tanto chamaram a atenção dos observadores mais imediatistas, a historiografia vem se dedicando a outras nuances, a outros processos que ocorreram dentro ou de forma paralela aos grandes acontecimentos políticos da primeira metade do século XIX. As balizas cronológicas desse dossiê englobam, portanto, momentos cruciais da construção da nacionalidade, da consolidação da monarquia bragantina, do apogeu do contrabando de cativos da África, ao transitar e buscar entender vários movimentos contestatórios que envolveram distintas camadas sociais em turbilhões explicáveis, desde que admitido o debate, a discordância, a pesquisa sempre inconclusa porque está sempre a recomeçar.

Atualmente, a já anunciada efeméride dos 200 anos da Revolução de 1817 constitui-se um poderoso fator de aglutinação de pesquisas sobre esses acontecimentos, “momentos de perigo” como dizia a historiografia mais antiga, da primeira metade do século XIX. Longe das comemorações oficiais e dos discursos laudatórios que estão por vir, a intenção deste dossiê, intitulado Nação, cidadania, insurgências e práticas políticas, 1817-1848, é justamente abordar o que realmente interessa para a comunidade acadêmica e para a sociedade em geral: fazer público e acessível a todos os novos estudos sobre esse período. O que o leitor apreciará aqui é um panorama do estado da discussão, do avanço das pesquisas a partir da compreensão mais ampla da história das insurreições, da cultura política e da cidadania no Brasil Império. Esses trabalhos, frutos da consolidação dos programas de Pós-Graduação no país, contribuem para uma melhor compreensão da história política e social do Brasil e abrem janelas para outros estudos, sucessivamente, avançando o debate, como deve ocorrer na aventura da busca pelo conhecimento histórico.

Sendo muitos os artigos, foi decidido dividir o dossiê em dois volumes. Neste primeiro volume, abre o dossiê o artigo de um veterano historiador dos movimentos sociais e políticos da primeira metade do século XIX. Flávio Cabral levará o leitor a percorrer os caminhos da minuciosa atuação diplomática nos Estados Unidos do comerciante Antônio Gonçalves da Cruz, o Cabugá, como emissário do governo revolucionário de 1817. Contrariando a historiografia que diminuía a importância dessa e de outras missões diplomáticas promovidas pelo governo revolucionário, Flávio discute o legado dessa missão, que esteve longe de ser frustrada, insignificante ou sem uma visão política mais ampla. Segundo o autor, Cabugá teve trânsito livre entre políticos e autoridades norteamericanos: celebrou tratados de comércio, acordos diplomáticos, fez articulações com pessoas influentes e com militares franceses exilados naquele país que serviram a Napoleão Bonaparte, comprou armamentos, munições e alimentos. Fez ainda propaganda positiva da revolução e da jovem república instalada no Nordeste do Brasil. Como ressalta Flávio, mil oitocentos e dezessete diverge de outros movimentos brasileiros, pois talvez nenhum outro tenha tido tanta repercussão no exterior.

Se Flávio faz um retrato preciso da experiência diplomática de uma das figuras mais emblemáticas de 1817, este dossiê não ficaria completo sem um estudo da gente comum que se envolveu nas querelas políticas daqueles tempos. O artigo do jovem historiador Wanderson Édipo de França, fruto de sua recém-defendida dissertação de mestrado, busca entender a participação do povo na política nacional, tendo como pano de fundo os acontecimentos de 1817 e da Confederação do Equador, em 1824. A própria expressão “povo”, escrita entre aspas, é um conceito que o autor vai tentar delinear no contexto da época. São objeto de sua pesquisa as práticas políticas das pessoas mais simples, suas condutas, questionamentos e incertezas. Essas pessoas, que se constituíam no “povo de Pernambuco”, não se curvaram às convenções e lutaram à sua maneira para construir suas próprias noções de pátria e cidadania.

O processo de construção da Nação foi marcado por inúmeros embates entre autoridades locais e agentes do governo central. Em 1831, com a abdicação de Pedro I e a implantação da Regência, outros pontos e detalhes dessa relação foram se constituindo. Porém, longe de ser um processo pacífico e cordato, o que se viu foi o aumento das tensões. Entender esse processo é o que propõe Manoel Nunes Cavalcanti Junior, em um artigo em que revisita as Carneiradas, uma sucessão de motins orquestrados pelos irmãos Francisco Carneiro Machado Rios e Antônio Carneiro Machado Rios. Ocorrida nas ruas do Recife no tumultuado ano de 1835, as Carneiradas um reflexo da disputa entre as facções políticas que lutavam pelo poder local. Um processo bipolar que tinha ressonância na Corte do Rio de Janeiro e era influenciado pelo que ocorria lá. As intrínsecas relações entre poder local e política partidária ganhavam novos contornos naqueles embates.

Na década de 1840, liberais e conservadores vivenciaram suas divergências na imprensa que mobilizou inúmeros escritores públicos. Ariel Feldman analisa a imprensa que antecede a Insurreição Praieira (1848 / 49), estudando produção jornalística do Padre Lopes Gama, entre 1845 e 1846. Os jornais e pasquins serviam para mobilizar votantes e não votantes, atingindo até as paróquias do interior. Mas era no Recife que estava o maior colégio eleitoral, o palco de inúmeras disputas e onde a pena afinada de Lopes Gama atuava com mais precisão. Ariel destaca a grande dificuldade do partido que não era situação para chegar ao poder, já que a máquina eleitoral era controlada pela presidência da província e seus representantes nas localidades. Diante das dificuldades, a oposição usava várias estratégias para arregimentar votantes. A imprensa de caráter popular era uma delas. Em seus escritos, Lopes Gama conclama o povo a participar mais da vida política da província, assumindo um jornalismo mais popular visando atingir setores mais amplos da população. Uma de suas estratégias era o uso de versos rimados para discutir política. Versos que mexiam com os sentimentos e imaginário popular.

A primeira parte deste dossiê fecha com um artigo de Renata Saavedra sobre a Guerra dos Maribondos, uma série de revoltas populares contra o registro civil e o censo geral do Império, entre dezembro de 1851 e janeiro de 1852, envolvendo povoações do interior de Pernambuco, Paraíba, Sergipe, Alagoas e Ceará. O governo imperial não imaginou que a população rural pobre interpretasse aquelas medidas como uma tentativa de (re)escravizar a população não branca. Além da destruição dos papéis com esses editais, houve depredações nos povoados, engenhos foram atacados, autoridades presas e pelo menos um juiz de paz morreu nos conflitos. Para além da violência desses motins, a autora faz uma sucinta descrição do repertório de mobilização e luta dos homens livres pobres, discutindo as noções de justiça coevas, contrárias a uma cidadania imposta “de cima para baixo”, que não respeitava os costumes e os valores tradicionais daquela população. Rediscutindo a historiografia sobre a gente livre pobre no Brasil imperial, a autora busca entender as dimensões políticas dessa revolta popular.

Só resta aos organizadores deste dossiê agradecer aos autores que possibilitaram acender tantas discussões neste número da Clio.

Marcus J. M. de Carvalho – UFPE.

Bruno Augusto Dornelas Câmara – UPE.


CARVALHO, Marcus J. M. de; CÂMARA, Bruno Augusto Dornelas. Apresentação. CLIO – Revista de pesquisa histórica, Recife, v.33, n.1, jan / jun, 2015. Acessar publicação original [DR]

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História & Rock | ArtCultura | 2015

Ao emergir, nos anos 1950, na história da música, o rock – cujo nome de batismo foi rock’n’roll – tocou em nervos expostos. Como quem irrompe, com estardalhaço, num campo minado, de uma ou de outra forma ele pôs em questão a escravização dos sentidos sob o jugo da tradição musical e/ ou comportamental. O inconformismo com o estado de coisas nascente foi, sem dúvida, o gatilho que disparou críticas contundentes e acionou medidas repressivas de diversas ordens que, em última análise, busca – ram abatê-lo em pleno voo. Paralelamente, no entanto, ele foi granjeando adeptos por todos os quadrantes do mundo, a ponto de se converter em objeto de desejo e fonte de lucros exorbitantes da indústria cultural, que procurou assimilá-lo e à qual ele se integrou, de maneira mais ou menos contraditória e em maior ou menor escala, conforme o caso.

Uma pequena parte dessa história de sons, ruídos e atitudes ligados ao rock é revisitada na ArtCultura 31, no dossiê História & Rock, organizado pelos professores Adalberto Paranhos, da UFU, e José Adriano Fenerick, da Unesp-Franca. O horizonte de abrangência da palestra e dos artigos aqui reunidos transita entre a América Latina, com ênfase no Brasil e no Chile, e, sem desdenhar o papel que os Estados Unidos desempenharam nesse processo, avança em direção a outras latitudes e longitudes, especialmente a Europa, com destaque particular, é claro, para a Inglaterra, mas também para Portugal. Leia Mais

A norma brasileira em construção: a vez das classes populares | LaborHistórico | 2015

A revista LaborHistórico apresenta, neste segundo número, o dossiê temático A norma brasileira em construção: a vez das classes populares, que reúne distintos estudos feitos a partir de um material homogêneo e bastante representativo do português popular brasileiro da primeira metade do século XX.

A documentação, analisada em quatro estudos individuais, é constituída por 96 cartas de amor escritas por um casal de noivos, Jayme e Maria1, residentes no estado do Rio de Janeiro nos anos de 1936 e 1937. Trata-se de um material ímpar e de grande relevância para a sociolinguística histórica do português do Brasil por ser constituído de manuscritos pessoais do início do século passado que refletem o discurso de indivíduos comuns em sua vida cotidiana. Da noiva, dispomos de 29 cartas escritas, em sua maioria, na cidade de Petrópolis. Do noivo há 68 cartas remetidas da cidade do Rio de Janeiro, sendo duas dessas missivas, poemas. Leia Mais

História dos Pronomes de Tratamento no Português Brasileiro | LaborHistórico | 2015

É com grande satisfação que apresentamos o primeiro número da Revista LaborHistórico: Revista de Linguística Histórica Românica, um periódico semestral, mantido pelo antigo Laboratório de História do Português e pelo atual Projeto HistLing – Projeto de História da Língua Portuguesa, ambos instalados na Faculdade de Letras da Universidade Federal do Rio de Janeiro. A versão anterior e o novo projeto de História do Português originaram-se da demanda criada pelo projeto integrado Para uma História do Português Brasileiro (PHPB). O seu principal objetivo era organizar e tornar disponível um acervo documental para estudos sobre mudança linguística do português brasileiro. Para tanto, o projeto tem disponibilizado edições semidiplomáticas de cartas particulares escritas por brasileiros e por portugueses, nos séculos XVIII, XIX e XX, localizadas em acervos cariocas, como o Arquivo Nacional e o Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro. Os documentos são apresentados ao lado do seu fac-símile para que qualquer pesquisador interessado possa conferir, meticulosamente, o texto transcrito com a versão original digitalizada, fazendo sua leitura própria e pessoal dos documentos.

Diante da escassez de periódicos científicos que se dediquem exclusivamente à questão da mudança linguística, trazemos a lume a revista LaborHistórico, que tem como missão fomentar a produção científica na área de Linguística Histórica e áreas afins, como a Filologia e a História, e divulgar pesquisas científicas de pesquisadores do Brasil e do exterior, de modo a contribuir para o debate e o progresso da área. Tem como foco estudos dedicados a línguas românicas como o português, o galego, o espanhol, o francês e o italiano. Leia Mais

Cratilo, o de la exactitud de las palavras. In. Obras completas | Platón

IDENTIFICACIÓN DEL PROBLEMA

Naturaleza y origen de los nombres, es decir, la generación de las nominaciones y el concepto de verdad que estas debieran tener en atención al objeto que designan pareciera ser objetivamente de acuerdo al texto, el asunto que se abordará: pero este problema planteado inicialmente pasa a segundo plano al final del libro al señalarse ya no el origen de los términos, sino el problema del conocimiento. Por lo tanto, el verdadero sentido del libro es, de acuerdo con nuestra lectura, introducirnos en el problema del conocimiento y de sus formas para acceder a él. En función del texto en su totalidad, lo que se nos plantea en este diálogo son las dos formas de conocer que tiene todo humano: a través de los nombres, vale decir, mediante procesos formales de aprendizaje, y a través de la experiencia directa con las cosas; asimismo, hay un determinante que no es menor, esa internalización que hacemos, ya sea a través de procesos formales o directamente con las cosas, está mediatizado por una lengua y esta, en cualquiera de las dos formas, nos viene presupuestada semánticamente, por tanto será incidental, ya sea en el conocimiento incorporado a través de los nombres o si es a través de la experiencia directa con la cosa, pues estas significaciones y valoraciones obtenidas por este comportamiento necesariamente tendrán que ser contenidas, fijadas y formalizadas en una lengua particular. Leia Mais

Aprendizagem em EaD. Brasília, v.4, n.1, 2015.

Artigos

Argumentação no ensino de ciências: tendências, práticas e  metodologia de análise – VIEIRA; NASCIMENTO (EPEC)

VIEIRA, Rodrigo Drumond; NASCIMENTO, Silvania Sousa do. Argumentação no ensino de ciências: tendências, práticas e  metodologia de análise. Curitiba: Appris, 2013. Resenha de: BERNADO, José Roberto da Rocha. Ensaio Pesquisa em Educação em Ciências, Belo Horizonte, v. 17, n. 1, p. 277-280, jan./abr., 2015.

Nas duas últimas décadas, as pesquisas em Educação em Ciências vêm recomendando atenção às práticas argumentativas em sala de aula. Nesse sentido, Rodrigo Drumond Vieira e Silvania Sousa do Nascimento apresentam em sua obra Argumentação no ensino de ciências: tendências, práticas e metodologia de análise um texto de leitura obrigatória tanto para pesquisadores interessados em desen­volver trabalhos sobre o tema quanto para estudantes de graduação e professores da educação básica.

Em diálogo com referências consagradas e diversificadas, os autores de­senvolvem um texto de fácil compreensão, que traz uma boa discussão teórica, ao mesmo tempo em que apresenta exemplos de análises de situações argumentativas de salas de aula. As análises apresentadas se baseiam em uma metodologia

bem-fundamentada proposta pelos autores e discutida no texto.

O livro é dividido em oito capítulos. O primeiro é dedicado à apresen­tação do conceito de argumentação. Apoiados, principalmente, nas contribuições de Michael Billig, os autores procuram situar o leitor em relação às especificida­des que envolvem o processo argumentativo, sem deixar de dialogar com outros autores de diferentes nacionalidades. O capítulo avança em relação à discussão sobre “O que é uma argumentação?” identificando e destacando a importância do conceito de orientação discursiva, desenvolvendo uma explicação elucidativa a respeito dos aspectos que caracterizam as orientações discursivas explicativas e as diferenciam das argumentativas.

No segundo capítulo, os autores se dedicam a discutir “como identificar e caracterizar argumentações em sala de aula”. Mais uma vez, as ideias de Michael Billig, articuladas com outras referências que também embasam o primeiro capí­tulo, subsidiam o desenrolar do texto, sobretudo os conceitos de contraposição de ideias e de justificações, para fundamentar a proposição de dois importantes marcadores para identificar argumentações, adaptados dos conceitos anteriores.

São eles a contraposição de ideias (opiniões) e as justificações recíprocas dessas ideias. Os marcadores propostos são o embrião da base analítica para identificação dos aspectos que diferenciam a argumentação de outras orientações discursivas.

O segundo capítulo avança na discussão apresentando as caracterís­ticas de argumentações que são contempladas pelos marcadores, tais como: a persuasão, a disputa, certo grau de simetria entre os interlocutores, verossimi­lhança das declarações (opiniões), presença de mais de uma opinião e justifica­tivas para as opiniões.

Os autores concluem o segundo capítulo ilustrando a aplicabilidade dos marcadores em duas situações de ensino e aprendizado, que correspondem a pesqui­sas desenvolvidas por eles. Em um dos casos identifica-se uma situação argumen­tativa e no outro, uma situação de explicação.

No terceiro capítulo, os autores destacam a importância da multimoda­lidade para as pesquisas sobre os discursos em salas de aula de Ciências, consi­derando as múltiplas modalidades que os sujeitos em situações reais de interação discursiva utilizam para se comunicar, “desde fala, textos, diagramas, imagens, até gestos, variações de proxemia, dentre outros”. Apoiados em autores do cam­po da Sociolinguística, destacam ainda o papel das pistas de contextualização, que incluem pausas, prosódia, variações na proxemia e fixação do olhar, nos proces­sos argumentativos em sala de aula, e o quanto essas pistas sinalizam, para os sujeitos em interação e para os analistas, como interpretar os significados que emergem dessas interações. Mais uma vez, o terceiro capítulo traz exemplos ilustrativos retirados de pesquisas realizadas pelos autores, sobre as pistas de con­textualização discutidas no texto.

No quarto capítulo, os autores destacam a importância do padrão do ar­gumento de Toulmin para analisar argumentações no ensino de Ciências e a sua ampla utilização nos contextos nacional e internacional. Embora reconheçam as críticas em relação ao uso do padrão, defendem que sua associação com o método de análise proposicional por eles desenvolvido pode ser de grande utilidade conside­rando a compatibilidade entre os dois métodos. Assim, o capítulo apresenta uma discussão objetiva sobre o uso do padrão de argumento de Toulmin e introduz o método de análise proposicional de forma cuidadosa, visando deixar o leitor esclarecido sobre o método, que consiste basicamente na segmentação das falas dos parti­cipantes em proposições de acordo com critérios sociolinguísticos. A partir da identificação de “significados convergentes”, as proposições são agrupadas em Pro­cedimentos Discursivos. A aplicação do método ao discurso do professor, segundo os autores, possibilita identificar o que chamam de Procedimentos Discursivos Didá­ticos (PDD). A exemplo do capítulo anterior, o quarto capítulo procura contribuir para a compreensão do método lançando mão de exemplos obtidos de pesquisas realizadas pelos autores em situações reais de sala de aula.

No quinto capítulo, os autores retomam a discussão a respeito das di­ferenças entre orientação discursiva argumentativa e orientação discursiva explicativa para chamar a atenção sobre a necessidade de analisar e repensar os discursos em aulas de ciências. A estrutura analítica proposta possibilita esclarecer a natureza dos procedimentos discursivos dos professores e como eles se relacionam com o cum­primento de objetivos didáticos bem-estabelecidos. Nesse sentido, a metodologia coloca em destaque a importância da tríade “Orientação discursiva – Objetivos didáticos – Procedimentos Discursivos Didáticos (PDD)” nas ações do professor. As ações do professor são mapeadas pelo quadro de narrativas e os procedimentos discursivos, pelo quadro proposicional, ambos instrumentos de análise discutidos e exemplifi­cados ao longo do capítulo. Mais uma vez, os exemplos fazem parte da estratégia de elucidação da discussão trazida pelos autores.

O sexto capítulo é dedicado especialmente à ilustração do uso da meto­dologia proposta, por meio de uma “análise detalhada de uma argumentação” de duas ações: uma com orientação discursiva dialogal e outra com orientação discursiva ar­gumentativa, que se estabeleceram no contexto de uma aula da disciplina de Prática de Ensino de Física. Os autores recorrem ao padrão de argumento de Toulmin eventualmente, ao longo da análise realizada, com o objetivo de indicar a posição dos PDD na estrutura dinâmica discursiva. A partir do detalhamento das análises das duas ações, realizam o fechamento do sexto capítulo apresentando um esquema dinâmico da estrutura procedimental argumentativa do formador, no episódio de ensino analisado.

No sétimo capítulo, os autores apresentam, de forma objetiva, um modelo para a compreensão do “ritmo discursivo” em aulas de Ciências. O texto destaca a importância da análise em níveis como estratégia para lidar com a grande diversidade e densidade dos dados que caracterizam as pesquisas de análise do discurso de sala de aula.

No oitavo capítulo, os autores promovem um fechamento do livro a par­tir de uma discussão sobre a situação atual e as perspectivas futuras com relação à argumentação no ensino de Ciências no contexto brasileiro. Em suas reflexões, apontam as dificuldades dos professores para lidar com a argumentação em sala de aula, já que estas envolvem a associação de diversos campos do conhecimento. Além disso, há a questão da falta de familiaridade deles com práticas argumentati­vas em situações escolares. A resistência da própria escola e o engessamento dos currículos também são apontados pelos autores como mais uma dificuldade. Con­siderando o que essas dificuldades podem representar em termos de demandas por mais estudos, os autores defendem que a proposta metodológica apresentada no livro tem implicações para a pesquisa e para a prática docente, o que inclui os modos pelos quais argumentação e demais orientações discursivas oferecem oportunidades de aprendizagem e como os procedimentos discursivos didáticos dos professores se rela­cionam com o ensino e a aprendizagem de Ciências, sobretudo no que se refere à formação para a democracia e para a prática social.

Assim, a obra se caracteriza como um texto de fácil compreensão que traz a metodologia proposta de forma clara sem que os autores abram mão de uma consistente fundamentação teórica. Nesse sentido, é importante destacar o cuidado dos autores com os exemplos ilustrativos de situações reais que têm papel fundamental na elucidação do que é discutido. Sem dúvida, a metodologia propos­ta pode contribuir para o campo, com implicações para a pesquisa e para a prática docente. Assim, a obra se apresenta como leitura obrigatória para os envolvidos com investigações em argumentações no ensino de Ciências, inclusive estudantes de graduação e professores experientes em serviço interessados em compreender esses processos.

José Roberto da Rocha Bernardo – Professor da Faculdade de Educação e do Programa de Pós-Graduação em Educação da Universidade Federal Fluminense. E-mail: bernardo.jrr@gmail.com  Acessar publicação original

[MLPDB]

Laços Sociais, Laços Transnacionais – da construção de vínculos na história / Estudos Ibero-Americanos / 2015

Laços sociais, familiares, geracionais, de amizade; laços de grupo, laços políticos, ideológicos, laços legais e laços diplomáticos. A história se movimenta com base em conjuntos e interações, onde mesmo o herói hegeliano, ainda que guiado pelo Espírito do Mundo, encontrará sua sustentação e palco de ação no coletivo – para o próprio Hegel, no Estado (HEGEL, 2001). Nas bases de todo poder está uma coletividade, pois, como nos ensina Hannah Arendt (1970, p. 44), ninguém, nem mesmo o tirano mais absoluto, governa realmente sozinho. Da mesma forma, ideias são formadas e aperfeiçoadas em conversas, sentimentos são desenvolvidos a partir do convívio, para cada aprendizado um professor ou um modelo é necessário. O ser humano não prescinde de seu semelhante, e o estabelecimento de laços surge como um desenvolvimento natural, uma condição inerente a esse animal social.

A escrita da História, os estudos e análises de períodos, fatos e conjunturas as mais distintas apontam para o protagonismo dos laços sociais, ainda que eles sejam por vezes tomados como autoevidentes. Tomemos o caso dos laços entre jovens europeus no século XVI, quando se observa a formação daquilo que se convencionou chamar de adolescência. Essa fase da vida dos jovens adultos passa a ganhar uma nova dimensão diante da reforma dos costumes, do aumento da idade para se contrair matrimônio e da diminuição das liberações. Criam-se assim elos entre os membros dessa faixa etária, acuados que são pela nova realidade. Tais laços resultarão em uma identidade de grupo / geração com consequências sociais de longa duração, dentre as quais a identificação desses jovens com um comportamento errático, rebelde, por vezes violento, “tipicamente adolescente”, em especial entre os jovens “machos” (MUCHEMBLED, 2012). As estruturas de dominação, por sinal, costumam ser gatilhos e reforços privilegiados para a criação e manutenção de laços. É nesse sentido que, no mesmo século XVI, o “ímpeto civilizador” age pela coibição do infanticídio na difusão de um discurso e de um imaginário moralizadores, reforçando a importância dos laços maternos. Isso se mostrou uma estratégia voltada não apenas para a contenção do assassínio das proles, mas também para inculcar uma responsabilidade materna nas mulheres e perpetuar estruturas de dominação masculinas naquela sociedade (LIEBEL, 2013).

A natureza dos laços sociais, assim se verifica, está estreitamente vinculada ao desenvolvimento de sentimentos e de emoções. Não por acaso, é em torno do sentimento de empatia que Lynn Hunt (2009) vai encontrar o sentido propulsor para a redação da Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão, talvez a tentativa mais sólida da história de pensar o laço mais primordial que nos une a todos: a natureza humana. Não se trata, é claro, de localizar no século XVIII as origens da empatia. Como Ute Frevert (2013) argumenta, a própria bíblia, na parábola do bom samaritano, já mostra não ser esse sentimento uma novidade setecentista. Entretanto, é no século XVIII que se humaniza e se discute a positividade da empatia. Não é por acaso que filósofos como Schopenhauer, já na virada do século XIX, podem pensar o humanismo em sentido amplo, com reflexos, por exemplo, nas relações entre humanos e animais1. Tais laços são fundamentados em termos éticos, e Schopenhauer (2006, p. 128 et seq.) acaba por declarar: quem faz mal a um animal não pode ser boa pessoa (könne kein guter Mensch sein).

Não por acaso, tais reflexões fornecerão aos séculos XIX e XX boa parte do combustível para novas teorias, ideologias e revoluções. Ao mesmo tempo em que se “descobrem” novos laços, os mesmos laços são responsáveis pela formatação de identidades cada vez mais fragmentadas. Com exceção dos laços generalizantes (universalismo, cosmopolitismo, humanismo), cada novo elemento que se agrega à identidade (coletiva ou individual) deixa de formar pontes para começar a criar muros cada vez maiores2. Dessa forma, laços nacionais, transnacionais, religiosos, raciais, ideológicos ou de classe assumem lugar central e cada vez maior como motores da história, levando o século XX a ser descrito, como tantas vezes o foi, o século da violência.

O dossiê que o leitor tem em mãos tenta lidar com essa estranha dicotomia existente quando pensamos os laços sociais: suas forças centrífuga e centrípeta, seus princípios agregadores e delimitadores. O mesmo laço que une pode também servir para separar, e a formação de grupos, identidades e imaginários acaba sendo seu produto mais evidente – e fonte de estudo e interpretação dos historiadores. Na composição do presente dossiê, os textos foram separados em duas seções: Laços Políticos e Laços Sociais. Ainda que elementos sociais e políticos tenham a tendência a se mesclar e se confundir, optou-se por essa distinção que privilegia o campo do político, do pensamento e da ação conjunta e institucional, das paixões e ideologias políticas, frente a temas diversos, como os laços familiares, os laços culturais e os laços corporativistas.

Abrindo o primeiro grupo de artigos, a professora Claudia Viscardi traça um importante panorama conceitual envolto às ideias de república e de democracia na primeira década do período republicano brasileiro. Período ainda conturbado, marcado pela insegurança dos próprios republicanos quanto ao sucesso do novo regime, os anos que se seguem a 1889 assistem a uma constante busca por uma nova identidade e formatação da estrutura política. Nesse contexto, a definição conceitual se torna um imperativo, e a construção e remodelação do discurso andam de mãos dadas com a própria construção das novas instituições. É nesse sentido que Viscardi toma a Constituição de 1891 como base de estudo, analisando as estruturas discursivas envoltas em sua promulgação e as subsequentes modificações e (re)interpretações conceituais que vão possibilitar a manutenção do poder das elites – em uma demonstração sutil dos muros que alguns laços podem construir – e resguardá-las de sua “demofobia”. É também a formatação – filosófica, conceitual e ideológica – do movimento fascista espanhol e do Primeiro Franquismo que é objeto de análise de Xosé Manoel Núñez Seixas. Sua abordagem, entretanto, é marcada fortemente por uma perspectiva transnacionalista, buscando vislumbrar os reflexos germânicos que despontam, entre 1930 e 1940, em terras espanholas. Os laços intelectuais, ideológicos e diplomáticos ganham espaço no texto de Seixas. É a influência da Academia alemã, da ideologia nacional-socialista e da estrutura – e propaganda – do Terceiro Reich sobre jornalistas e intelectuais conservadores espanhóis que se converte no tema central do artigo do professor galego da Universidade Ludwig-Maximilians, de Munique.

Seguindo o mote da temática das ditaduras, Augusto Nascimento toma São Tomé e Príncipe, um dos PALOP que sofreram a dominação colonial salazarista, e o jornal “A Voz de S. Tomé” como objetos de seu estudo. Mais especificamente, o autor analisa a configuração do espaço e a dinâmica da opinião pública em um país que, apesar de colonizado, encontrava-se longe, em variados sentidos, da realidade da metrópole. Longe e perto são adjetivos importantes também na leitura do texto de Maria Letícia Mazzuchi Ferreira e Francisca Ferreira Michelon, que escrevem sobre a exposição de fotografias de vítimas de ditaduras sul-americanas em acervos de museus. A distância temporal para os regimes opressivos é encurtada pela imagem, trazendo para o observador o que as autoras bem descrevem no título de sua contribuição como “cicatriz da memória”. A sensibilidade, a empatia e os laços humanos da memória se mostram elementos fundamentais na reflexão que as autoras instigam sobre as relações entre retrato e presentificação, ou, em um sentido warburguiano, sobre as relações fantasmáticas da imagem. Finalizando a primeira seção da revista, o texto de Fábio Chang de Almeida reflete sobre a nova direita política de Portugal, enfatizando seu caráter grupuscular (GRIFFIN). Tal aspecto tem uma dupla consequência em termos de laços políticos: a primeira é o caráter diminuto desses novos agrupamentos políticos extremistas, que não ganham representatividade por seu caráter massivo; a segunda é a sua capacidade extrema de comunicação (com as novas mídias sociais) e de coligação, proporcionando oportunidades para que sua influência e relevância aumentem.

A segunda seção, Laços Sociais, conta ainda com quatro artigos que focam suas análises em questões diversas dos relacionamentos interpessoais e grupais, bem como nas tramas tecidas na organização e ordenamento de diferentes campos e aspectos do tecido social. Rodrigo Ceballos, em sua contribuição, apresenta uma análise dos laços (familiares e comerciais) e das heranças deixadas pelos portugueses na região do Rio da Prata, de onde foram expulsos no século XVII. Dois séculos adiante é situada a baliza temporal fixada por Mateus Fernandes de Oliveira Almeida para analisar os laços corporativistas i.e. associativistas durante o Segundo Reinado brasileiro. O texto de Almeida, situado no grande campo da História do Trabalho, abrange o tema fundamental da identidade dos trabalhadores, a concepção de unidade e reconhecimento dentro de um métier, além da subjetividade inerente a esses laços, como a noção da moralidade e da solidariedade para com seus pares. A identidade e a solidariedade são também temas centrais do texto de Érica Sarmiento e Lená Medeiros de Menezes, que tomam o caso dos imigrantes ibéricos no Brasil da Primeira República para analisar aspectos variados da vivência na capital nacional do período. A complexidade da identidade servia, a um só tempo, para aproximar e afastar lusitanos e galegos, formando redes intrincadas de relações de apoio e de hostilidade. A condição de imigrante favorecia também, em alguns casos, a entrada no mundo dos pequenos delitos, dentre os quais as autoras destacam os jogos de azar (especialmente o jogo do bicho). Tais atividades colocam os imigrantes ibéricos na mira da polícia brasileira, revelando alguns de seus mecanismos e táticas de repressão. Finaliza a seção de artigos o texto de Daniel Melo, que também trata de aspectos identitários ao destacar, enquanto peças basilares das identidades culturais brasileira e portuguesa, as marchas populares de Lisboa e o desfile das escolas de samba do Rio de Janeiro. Em um exercício de História Comparada, aspectos transnacionais de mútua influência são destacados pelo autor, que faz ainda inferências acerca do papel dos regimes ditatoriais na configuração dessas festas.

O dossiê conta ainda com uma resenha, escrita por Rodrigo Santos de Oliveira, da obra La trama autoritária. Derechas y violência en Uruguay (1958-1966). O livro de Magdalena Broquetas é, ele também, um estudo sobre as construções de laços políticos e a atuação das alas conservadoras uruguaias até o momento anterior à implantação da ditadura militar no país. Por fim, o presente dossiê traz o lançamento de uma nova seção na EIA com a publicação de entrevista, conduzida e traduzida por Vinícius Liebel, com o professor Wolfgang Heuer, da Freie Universität Berlin (FU-Berlin). Nela o pesquisador alemão responde a perguntas pertinentes ao dossiê e a discussões historiográficas atuais, falando sobre a ascensão das direitas no mundo, movimentos contestatórios e ações coletivas e individuais no cultivo e preservação de nossa dignidade humana.

Notas

1 Sobre o processo de constituição desses laços entre homens e animais, ver: Thomas, 2010.

2 Lembremos do estudo de Norbert Elias e John Scotson (2000) que analisa, no microcosmo da cidade de Winston Parva, o lugar dos laços sociais na constituição de uma dinâmica opressora e delimitadora. Com bases na tradição e no carisma, configuram-se dois grupos essenciais de cidadãos que os autores denominam estabelecidos e outsiders. É com base nessa caracterização que toda a carga envolvida nos valores de pertencimento e de exclusão servirá ao domínio e à conservação do status quo na comunidade.

Referências

ARENDT, Hannah. On Violence. New York: Harvest, 1970.

ELIAS, Norbert; SCOTSON, John. Os Estabelecidos e os Outsiders. Rio de Janeiro: Zahar, 2000.

FREVERT, Ute. Vergängliche Gefühle. Göttingen: Wallstein, 2013.

GRIFFIN, Roger. From slime mould to rhizome: introduction to the groupuscular right. Patterns of Prejudice, Londres, Routledge, v. 37, n. 1, 2003.

HEGEL, Georg Wilhelm Friedrich. A Razão na História: uma introdução geral à filosofia da História. São Paulo: Centauro, 2001.

HUNT, Lynn. A Invenção dos Direitos Humanos. São Paulo: Cia. das Letras, 2009.

LIEBEL, Silvia. Les Médées Modernes: la cruauté féminine d’après les canards imprimés (1574-1651). Rennes: P.U. Rennes, 2013.

MUCHEMBLED, Robert. Uma História da Violência – do fim da Idade Média aos nossos dias. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2012.

SCHOPENHAUER, Arthur. Preisschrift über die Grundlage der Moral. Hamburg: Felix Meiner, 2006.

THOMAS, Keith. O Homem e o Mundo Natural – mudanças de atitude em relação às plantas e aos animais (1500-1800). São Paulo: Cia. das Letras, 2010.

WARBURG, Aby. Histórias de Fantasmas para Gente Grande. São Paulo: Cia. das Letras, 2015.

Equipe Editorial – Formada por: Leandro Pereira Gonçalves (editor); Charles Monteiro (editor executivo); Vinícius Liebel e Luciana da Costa de Oliveira (gestão editorial); Daniela Garces de Oliveira, Geandra Denardi Munareto e Waldemar Dalenogare Neto (assistentes editoriais).


GONÇALVES, Leandro Pereira; MONTEIRO, Charles; LIEBEL, Vinícius; OLIVEIRA, Luciana da Costa de; OLIVEIRA, Daniela Garces de; MUNARETO, Geandra Denardi; DALENOGARE NETO, Waldemar. Apresentação. Estudos Ibero-Americanos. Porto Alegre, v. 41, n. 1, jan. / jun., 2015. Acessar publicação original [DR]

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Peabiru: um caminho, muitas trilhas – ZAMBONI et al (RL)

ZAMBONI, E.; DIAS, M. F. S.; FINOCCHIO, S. (orgs.). Peabiru: um caminho, muitas trilhas. Florianópolis: Letras Contemporâneas, 2014, 200p. Resenha de: PACIEVITCH, Caroline; OLIVEIRA, Amanda Gabriela Rocha. Pelos caminhos do Ensino de História: Revista do LHISTE, Porto Alegre, v.2, n.2, p.161-166, jan./jun., 2015.

O livro Peabiru: um caminho, muitas trilhas (Letras contemporâneas, 2014, 200 p.), organizado pelas professoras Ernesta Zamboni, Maria de Fátima Sabino Dias e Silvia Finocchio, surgiu com o objetivo de “compartilhar os resultados de uma pesquisa coletiva desenvolvida por pesquisadores de diferentes universidades” (p. 7), no âmbito do “Projeto Peabiru: Ensino de História e Cultura Contemporânea”. O principal destaque da obra é a discussão crítica e inovadora dos referenciais teórico-metodológicos que acompanharam as pesquisas. Assim, na Apresentação do livro, é possível perceber que o Projeto Peabiru passa por dois elementos importantes para a pesquisa em ensino de História: o trabalho coletivo entre pesquisadores do Brasil e da América Latina e a dedicação em tornar os estudantes e professores da escola básica sujeitos privilegiados para a produção de conhecimento sobre ensinar e aprender história.

O texto Saberes escolares históricos en movimiento (p. 16-32), de Silvia Finocchio, cumpre o papel de contextualizar os demais capítulos. A autora discorre sobre as mudanças nos saberes históricos escolares e nas políticas públicas educacionais de Brasil, Venezuela, Chile, Bolívia, Argentina e Uruguai. É importante e necessária uma abordagem comparada na pesquisa em ensino de História na América Latina, embora a comparação não seja seguida explicitamente nos demais capítulos. Finocchio analisa três formas de representação cultural contemporâneas que influenciam novas relações e contextos vividos pelos saberes históricos escolares: o multiculturalismo e o pós-colonialismo, a cultura digital e a cultura compasional. Analisa também o papel das novas esquerdas latino-americanas em relação às políticas educacionais em seus respectivos países e oferece quatro conclusões: 1) a necessidade de aprofundar a produção e a circulação da análise de saberes históricos em movimento num contexto de transição cultural e com termos propriamente latino-americanos; 2) a crítica a que a escola ecoe tendências que reforçam uma visão de desalento em relação ao ensino; 3) a dispersão de tendências regionais que expressem culturalmente suas singularidades; 4) a hibridez teórica e política que marca os governos de uma esquerda pragmática na América do Sul e suas políticas curriculares. Infere-se que a relação entre o texto de Finocchio e o Projeto Peabiru reside na contextualização do projeto, que se interessa por elementos da formação de professores e da sala de aula de História, mas que não podem ser compreendidas sem as devidas relações com as políticas públicas sociais e educacionais vigentes nos últimos anos na América Latina, notadamente aquelas dirigidas por governos populares.

Após a ampla contextualização oferecida por Finocchio, os capítulos dedicam-se a detalhar pesquisas individuais ou coletivas que colaboram para os objetivos do Projeto Peabiru, na tentativa de conectar as demandas dos jovens com as responsabilidades e desafios da formação de professores de História.

O artigo Transformaciones en las fuentes de creación del conocimiento histórico: entre los nuevos livros de texto y los materiales digitales (p. 33-60), de Marisa Massone, analisa livros didáticos de História e o uso de materiais digitais relacionados ao ensino de História. A autora compara os livros didáticos de história do século XX e a mudança que sofrem a partir das décadas de 1980 e 1990 na Argentina, classificando os atuais livros didáticos de história como portadores de hipertextos: imagens e boxes de textos convivendo no mesmo espaço do texto escrito e podendo ser explorados. Massone também trata sobre a utilização de imagens e de filmes no ensino de história e sobre os livros didáticos passarem a conter sugestões de pesquisa na Internet. Essas mudanças propõem reflexões sobre a influência e o uso dos materiais digitais nas aulas de história, tema, como visto, central para o Projeto Peabiru. Nesse sentido, ela apresenta programas de criação de linhas do tempo e de criação de vídeos que podem contribuir na aula de história. O capítulo de Massone demonstra as proximidades entre as tendências para livros didáticos no Brasil e na Argentina, principalmente por trazer novas mídias para o livro, tanto na forma quanto no conteúdo (BUENO; GUIMARÃES; PINTO, 2012).

Utilizando outra ferramenta metodológica – uma série de questionários –, Magda Madalena Tuma aborda (p. 61-90) a questão da infância e sua relação com a mídia. O capítulo menciona que foram aplicados questionários aos alunos de 9 a 13 anos de duas escolas rurais e uma urbana (Londrina, Paraná), aos pais e aos professores dessas escolas. Embora não seja possível acessar explicitamente todas as características dos questionários, nota-se que a autora traça um perfil socioeconômico desses alunos e discorre sobre as escolas que foram estudadas, a fim de compreender também as condições e o contexto do consumo cultural dessas crianças. Tuma constatou que a maioria das crianças atribui maior utilidade à Internet para fazer trabalhos escolares, seguida da opção “comunicação com amigos”, entre outras constatações. O texto evidencia a potencialidade de expansão de uma compreensão mais profunda em relação às crianças, suas preferências sobre a mídia e suas opiniões sobre a escola.

O artigo de Aléxia Pádua Franco (p. 91-113) reflete sobre a relação das redes sociais com a formação da consciência histórica dos alunos da educação básica na contemporaneidade. O conceito de consciência histórica é importante para o projeto Peabiru e tem sido objeto de interesse de diferentes grupos de pesquisadores no Brasil, a partir de diferentes apropriações (BAROM, 2014). Franco opta por submeter a teoria a seus interesses e aos dados obtidos na pesquisa, escapando da armadilha de forçar os dados a se encaixar em seu referencial teórico. Ela apresenta sua metodologia, que se aproxima de uma etnografia virtual sobre os conteúdos encontrados em sites como YouTube e Facebook relacionados com a produção de conhecimento histórico. A autora analisa materiais produzidos por alunos encontrados no YouTube e relacionados com o conteúdo de História, quais temas abordam, de que forma, que narrativa é utilizada, que imagens usam, problematizando, ao mesmo tempo, a presença – mais ou menos desenvolvida, dependendo do caso – de uma consciência histórica. A autora também apresenta o uso do Portal do Professor (MEC) e os produtos que se podem encontrar no site, problematizando a relação dos docentes com essas novas tecnologias, que não é só de consumo, mas também de produção. O capítulo de Aléxia Franco responde a diversos interrogantes que se esperam da pesquisa em didática: constatações baseadas no cotidiano da escola, reflexão crítica e proposições concretas para os docentes em formação (PAGÈS, 2002.).

É possível afirmar o mesmo para o texto La historia como disciplina escolar: una mirada desde el sitio Web Yahoo! Respuestas (p. 114-130), em que Gabriela Carnevale analisa o site como um espaço de construção do conhecimento histórico relacionado com o mundo escolar, para entender a confiabilidade, os modos e as formas desse conhecimento. A autora apresenta o site Yahoo! Respuestas, seu funcionamento, sistema, regras, gratificações, interações para compreender como se dá a construção do saber nesse recurso. Em seguida, Carnevale analisa tipos de questões e de respostas relacionadas à temática História como disciplina escolar elaboradas e postadas pelos usuários no espaço denominado Educación. Por fim, a autora problematiza as questões relacionadas ao site com a construção do conhecimento histórico no mesmo e na sala de aula e analisa as mudanças nessa construção do saber.

O capítulo de Juliana Pirola da Conceição e Maria de Fátima Sabino Dias (p. 131-155) se diferencia dos demais por abordar o desenvolvimento e as repercussões da disciplina de Estudos Latino-americanos (ELA) no Colégio de Aplicação (CA) da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), isto é, as autoras analisam, também do ponto de vista do conceito de consciência histórica, uma proposta inovadora de disciplina escolar. Criada em 2003 por iniciativa dos professores do CA, a disciplina (até então inédita no Brasil) foi investigada em 2009 para que fosse possível entender sua influência no que as autoras chamam de “consciência histórica latino-americana” e a contribuição da disciplina no currículo escolar para a formação histórica desses jovens. Conceição e Dias constataram que a história latino-americana foi abordada de variadas formas na escola no Brasil desde meados do século XIX até os dias atuais, concluindo que pouco se estuda o continente no país, dando preferência à história europeia e à história nacional, por mais que nos últimos tempos livros didáticos tenham elaborado algumas propostas de trabalho com temáticas latino-americanas. As autoras apresentam o estudo feito através de questionários, seis anos após a implementação da disciplina. Conceição e Dias evidenciam a importância e o diferencial da disciplina de Estudos Latino-americanos na formação dos alunos do CA e como propostas criativas e que oferecem visões não eurocêntricas da história são escassas no Brasil.

O texto Materiales multimediales para la enseñanza de la historia (p. 156-180), de Gisela Andrade, analisa as mudanças nas práticas docentes, as possibilidades e os usos feitos das tecnologias da informação e da comunicação (TIC) no ensino de história na Argentina, principalmente com a implementação dos programas 1 a 1 (um computador para cada aluno) pelo programa Conectar Igualdad.com.ar em 2010. A partir disso, a autora nos apresenta suas fontes: as Carpetas Docentes de Historia produzidas pela Universidad Nacional de La Plata, que seriam como pastas/apostilas produzidas pela universidade para os professores do secundário disponíveis no site da instituição; e a Múltiples Voces para el Bicentenario, ferramenta elaborada pelo programa Conectar Igualdad do Ministerio de Educación de la Nación Argentina, disponível no portal Educ.ar. Seu principal objetivo é, através da análise desses materiais, delinear critérios para a seleção e criação de materiais multimídia para a formação inicial e continuada de professores de História. A autora analisa as três linguagens principais encontradas nos materiais anteriormente citados: cinema, entrevistas e imagens. Por fim, Andrade faz um balanço das características e possíveis usos desses materiais e das TIC nas aulas de História, levando os professores a utilizar as TIC como veículo para aprofundar os estudos e conhecimentos, e não somente como um recurso da sala de aula.

O capítulo que encerra a obra, As lentes captam o que o coração sente: investigando e aprendendo sobre o patrimônio histórico da cidade de Londrina (p. 181-198), de autoria das pesquisadoras Sandra Regina Ferreira de Oliveira e Silvana Muniz Guedes, aborda a questão do ensino de História e da educação patrimonial através do estudo e da investigação acerca da rua de pedestre (também chamada de Calçadão) de Londrina. As ações e as pesqui sas realizadas por professores e alunos da Universidade Estadual de Londrina e os participantes do PIBID pretendiam construir um material didático para ser usado no ensino de História dos anos iniciais do Ensino Fundamental, podendo trabalhar questões de história e memória com as crianças a partir do calçadão da cidade, o qual, devido a uma obra, deixou exposto o antigo calçadão. As autoras expõem a história de como, em que contexto e onde surgiram as primeiras ruas de pedestre no Brasil e, em seguida, sobre o contexto da criação da rua de pedestre mais famosa de Londrina e seu histórico de mudanças. O aspecto de maior interesse para o ensino de História, isto é, a potencialidade e a argumentação sobre o uso desse patrimônio na aula de História com as crianças, é problematizado no final do capítulo, no qual também se ressalta a importância de produzir materiais didáticos de forma coletiva.

As pesquisas desenvolvidas no Projeto Peabiru demonstram a centralidade da cultura contemporânea para a formação de professores de História e propõem, direta ou indiretamente, algumas questões: se os recursos digitais são valorizados pelos jovens, a solução para os problemas do ensino de História residiria em sua introdução massiva na sala de aula? Caberia, portanto, à formação de professores desenvolver métodos e técnicas para o uso desses recursos na escola? As pesquisas apresentadas no livro, à luz do contexto oferecido no primeiro capítulo, demonstram que as problemáticas podem ser outras: entendemos os papeis dos artefatos culturais contemporâneos na vida dos jovens? Compreendemos as construções e constantes modificações do mundo virtual e das tecnologias? Respondemos às demandas sociais e de formação cidadã que ainda são de responsabilidade da escola? O cuidado das pesquisadoras do Projeto Peabiru com o refinamento teórico-metodológico e com a atenção a professores e estudantes da escola básica, bem como com a contextualização e a articulação de seus trabalhos, oferece uma valiosa contribuição para essas reflexões.

Referências Bibliográficas

BAROM, Wilian Carlos Cipriani. Os micro campos da didática da História: A teoria da História de Jörn Rüsen, pesquisas acadêmicas e o ensino da história. Revista de Teoria da História. Universidade Federal de Goiás, volume 11, nº2, 2014. Disponível em: http://revistas.jatai.ufg.br/index.php/teoria/article/view/33419 (acesso em: ago/2015).

BUENO, João Batista Gonçalves; GUIMARÃES, Maria de Fátima; PINTO, Arnaldo Junior. Imagens visuais nos livros didáticos de história: formas de controle e avaliação desde 1990 até a atualidade. Revista NUPEM. Campo Mourão, volume 4, nº 7, ago/dez, 2012. Disponível em: http://www.fecilcam.br/revista/index.php/nupem/article/viewFile/205/187 (acesso em: ago/2015).

DIAS, Maria de Fátima Sabino; FINOCCHIO, Silvia; ZAMBONI, Ernesta. Peabiru, um caminho, muitas trilhas. Florianópolis: Letras Contemporâneas, 2014.

PAGÈS, Joan. Aprender a enseñar historia y ciencias sociales: el currículo y la didáctica de las ciencias sociales. Pensamiento Educativo. Volume 30, jul/2002. Disponível em: http://pensamientoeducativo.uc.cl/files/journals/2/articles/222/public/222-523-1-PB.pdf (acesso em: ago/2015).

Caroline Pacievitch –  Professora da Faculdade de Educação da Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Doutora em Educação pela Universidade Estadual de Campinas. Contato: caroline.pacievitch@ufrgs.br.

Amanda Gabriela Rocha Oliveira–  Graduanda em História pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Contato: amandag.rocha@hotmail.com.

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Gramsci no seu tempo – AGGIO et. al (A)

AGGIO, Alberto; HENRIQUES, Luiz Sérgio; VACCA, Giuseppe (Orgs.). Gramsci no seu tempo. Tradução de Luiz Sérgio Henriques. Brasília: Fundação Astrogildo Pereira. Co-edição, Rio de Janeiro: Contraponto, 2010. Resenha de: TOLEDO, Cézar de Alencar Arnaut de; GOMES, Jarbas Mauricio. Texto e contexto: Gramsci e a história. Antíteses, v. 8, n. 15, p. 542 – 546, jan./jun. 2015.

Hegemonia, intelectuais, Estado ampliado, sociedade civil e sociedade política são alguns dos conceitos presentes nas obras de Antonio Gramsci (1891-1937) e que são encontrados em um número significativo de pesquisas na área das Ciências Sociais e Humanas. Os escritos de Antonio Gramsci tem se consagrado como um referencial teórico e metodológico nas pesquisas brasileiras, servindo ora de objeto de estudo, ora de fundamentação teórica. Na última década, o uso de seu pensamento como referencial de pesquisa foi retomado sob a influência da publicação da nova edição brasileira de sua obra que, ocorrida entre os anos de 1999 e 2002, teve o mérito de apresentar uma visão geral de seus escritos ao tornar acessíveis textos até então inéditos no Brasil.

O uso das ideias de Gramsci como referencial teórico passou a ser complementado com o aumento do número de pesquisas cujo objeto de estudo era o seu pensamento e a sua obra. A produção de conhecimentos sobre Gramsci nos diferentes campos das Ciências Sociais e Humanas reafirmou a tradição dos estudos gramscianos e valorizou a perspectiva de que é necessário investigar com profundidade a relação entre seus escritos e o contexto histórico a partir do qual foram elaborados para, então, mediante a compreensão historicamente contextualizada, promover a aplicação de suas análises e categorias conceituais à realidade brasileira.

O desenvolvimento das pesquisas sobre Gramsci e seu pensamento pode ser dividido em duas fases que se confundem, entrelaçam e se complementam. A primeira fase esteve voltada ao estudo filológico de seus escritos, em especial dos Cadernos do Cárcere, para reconstruir a estrutura do pensamento gramsciano e estabelecer o caminho teórico percorrido por ele na construção de seus argumentos. Na segunda fase, os estudos estão voltados para a contextualização das ideias de Gramsci pelo movimento histórico em que os escritos foram produzidos.

Gramsci no seu tempo é uma publicação da Fundação Astrojildo Pereira em parceria com a Editora Contraponto e apresenta uma contribuição significativa para os avanços dos estudos gramscianos no Brasil e, em especial, para aqueles que se propõem a utilizar Gramsci como referencial teórico de pesquisa. Organizado por Alberto Aggio, Luiz Sérgio Henriques e Giuseppe Vacca, Gramsci no seu tempo está inscrito em uma proposta de estudos do pensamento de Gramsci que considera os limites históricos no qual foi produzido. Os 13 ensaios que compõem a obra ocupam 414 páginas e foram elaborados por estudiosos ligados ao Instituto Gramsci cujas perspectivas de leitura apontam elementos interessantes para a interpretação do pensamento de Gramsci. Um desses elementos, talvez o central deste conjunto de textos, é a valorização do conceito de revolução passiva como uma chave interpretativa do pensamento gramsciano. O deslocamento do eixo de leitura que tal proposta promove se contrapõe à leitura mais praticada, no caso do Brasil especificamente, na qual a chave de leitura mais utilizada foi, e talvez ainda seja, a concepção de hegemonia.

Gramsci no seu tempo foi organizado inicialmente por Francesco de Giasi e publicado na Itália pela Editora Carocci no ano de 2008, sob o título de Gramsci nel suo tempo. Originalmente a obra foi composta por dois volumes que apresentaram as contribuições teóricas de um Congresso de nome homônimo, realizado em Dezembro de 2007 na Itália. O congresso faz parte de uma tradição de estudos sob a coordenação da Fundação Instituto Gramsci que, em parceria com outros Institutos, Fundações e Universidades, a cada decênio da morte de Gramsci promove seminários e congressos para atualizar os estudos sobre a sua obra.

A edição brasileira de Gramsci no seu tempo foi traduzida do italiano para o português por Luiz Sérgio Henriques e não é uma reprodução integral da edição italiana. Os organizadores promoveram uma seleção dos textos originais com o intuito de apresentar aos leitores brasileiros os resultados de pesquisas avançadas no campo dos estudos gramscianos. Em função da realidade dos estudos gramscianos no Brasil, foram incluídos dois textos inéditos: Maquiavel como filósofo da práxis, de Francesca Izzo e Togliatti e Gramsci, de Giuseppe Vacca.

Guiseppe Vacca é também, o autor do prefácio da edição italiana, texto que apresenta o percurso dos seminários italianos de estudos nacionais e internacionais sobre o pensamento de Gramsci. Nele, discute a ação de aproximação e distanciamento entre o Instituto Gramsci e o Partido Comunista Italiano na organização dos seminários e no direcionamento das pesquisas sobre o pensamento de Gramsci. Fundamentado na leitura de Valentino Gerratana, Giuseppe Vacca destaca a ideia de que Gramsci é um pensador clássico do século XX que merece ser lido, relido e interpretado à luz de novos problemas, iniciativa contemplada pelo seminário de 1997, dedicado aos estudos sobre ‘Gramsci e o século XX’. As pesquisas apresentadas, decorrentes de temas levantados nos seminários anteriores, enfatizavam a utilização dos conceitos de revolução passiva e crise orgânica, relançando o método histórico como chave interpretativa do pensamento de Gramsci.

O prefácio à edição brasileira, escrito por Alberto Aggio e Luiz Sérgio Henriques, foi intitulado de Gramsci no seu tempo – e no nosso. O texto reforça a ideia de que Gramsci é um clássico e de que o conceito de revolução passiva deve ser explorado como chave interpretativa do pensamento de Gramsci. Fundamentados no Caderno 15, os autores atualizam a leitura do pensamento de Gramsci, valorizam a dialética e a contextualização histórica como métodos interpretativos de seu pensamento, mas alertam para o fato de que não se pode sacralizá-lo, partindo do pressuposto de que não existe nada mais a ser estudado ou apreendido e advertem sobre as leituras apressadas que descolam o pensamento de Gramsci da matriz em que suas ideias foram produzidas.

A II Grande guerra, o pós-guerra, a renovação do socialismo e a filosofia da práxis são alguns dos temas que permeiam os textos que compõem a coletânea. A categoria hegemonia se entrecruza com outros conceitos do pensamento de Gramsci e constitui uma das chaves de leitura, ao lado do conceito de revolução passiva. Claudio Natoli e Andrea Panaccione utilizam o período do pós-guerra para analisar a renovação do socialismo, enquanto Francesco Auletta, Silvio Pons e Giuseppe Vacca discutem as relações de Gramsci com dirigentes do Partido Comunista Italiano, em especial com Palmiro Togliatti e Piero Sraffa.

A Filosofia da práxis é o conceito mediador que fundamenta os textos de Roberto Gualtieri, Fabio Frosini, Giuseppe Cospito, Giancarlo Schirru e Francesca Izzo. A economia e o americanismo mediam as análises de Terenzio Maccabelli e Alessio Gagliardi, que se direcionam à estrutura e ao corporativismo do regime político do fascismo na Itália. Por fim, destaca-se o texto de Anna Di Biagio, que explora a concepção de hegemonia nas propostas teóricas de Gramsci e Lênin.

O texto de Francesco Auletta, Piero Sraffa e Antonio Gramsci: l’Ordine Nuovo e as lutas operárias na Inglaterra e na América (1921), apresenta elementos significativos para a análise do cenário histórico das lutas operárias ocorridas no início da década de 1920. O texto explora a concordância de Sraffa com as teses de Gramsci, a partir das impressões que este tinha sobre os movimentos operários na Inglaterra e na América do Norte. Silvio Pons explora a divergência entre Gramsci e Togliatti no texto o Grupo dirigente do PCI e a ‘questão russa’ (1924-1926) e discute como as perspectivas ideológicas individuais influenciavam a percepção destes intelectuais sobre os desdobramentos da revolução proletária na Rússia.

Em Hegemonia leninista, hegemonia gramsciana, Anna Di Biagio discute a relação entre a concepção de hegemonia cunhada por Gramsci e aquela atribuída à Lênin. Di Biagio destaca que, na experiência revolucionária russa, há uma estranheza entre as ideias de hegemonia e de democracia. Outro aspecto evidenciado é a perspectiva de que o conceito de hegemonia não faz parte do léxico habitual dos textos de Lênin, embora sua concepção de hegemonia já apresentasse as noções de direção política e direcionamento intelectual e moral. Di Biagio mostra que na ocasião do VIII Congresso do Partido Bolchevique, em 1919, não houve menção ao conceito de hegemonia nos escritos de Lênin ou no programa de partido, mas que, no período, pode ser constatado que Lênin se mostrava mais interessado em discutir e determinar a definição de ditadura do proletariado.

Fabio Frosini discute no texto O neoidealismo italiano e a elaboração da filosofia da práxis, a influência do idealismo no pensamento de Gramsci e a sua transição teórica para o marxismo. As teorias dos liberais Benedetto Croce e Giovanni Gentille estão na gênese do pensamento do jovem Gramsci que dialogava com esses intelectuais, mas dos quais se distanciou gradualmente na medida em que, ao redigir os Cadernos do Cárcere, aprofundou suas análises sobre o fenômeno da religiosidade, da filosofia e do senso comum e se encaminhou para a fundamentação da Filosofia da Práxis.

Sob a influência do neoidealismo, Gramsci elaborou uma concepção de ideologia que pouco se distingue de sua concepção de filosofia. No Caderno 10, filosofia e ideologia foram apresentadas como uma mesma categoria histórica, distintas em função de seu grau. Enquanto a filosofia é uma concepção de mundo que representa a vida intelectual e moral de um grupo social, a ideologia é a concepção de mundo particular, pertencente aos grupos internos de cada classe que se propõem a solucionar os problemas sociais mais imediatos e restritos.

O texto de Francesca Izzo é o penúltimo da coletânea e explora a leitura de Gramsci sobre os escritos de Maquiavel e destaca que, ao redigir os Cadernos do Cárcere, Gramsci estava consciente de que a Europa não dominava mais o cenário mundial e que, os Estados Unidos e a URSS disputavam a primazia do controle hegemônico sobre os modelos políticos e econômicos. Izzo conclui que Gramsci entendia que no contexto histórico do século XX, o partido político assumiu o papel do príncipe e, na condição de líder coletivo, tinha a tarefa de criar uma nova organização ética e moral. Outra conclusão apontada por Izzo destaca que Gramsci defendia que os meios empregados na constituição do comunismo deveriam ser distintos daqueles empregados no nascimento do Estado Moderno, uma vez que em função da historicização da natureza humana, os fins e meios deveriam estar adequados à transformação dos homens e das relações sociais.

A contribuição de Giuseppe Vacca encerra a coletânea e termina reforçando a ideia inicial do texto: Gramsci é um autor clássico. Para apresentar tal afirmação de forma incisiva, Giuseppe Vacca discute a disputa intelectual entre Gramsci e Palmiro Togliatti, e apresenta aos leitores brasileiros o panorama histórico em que esta relação conturbada se desenvolveu. Com uma análise crítica fundamentada no panorama histórico, Giuseppe Vacca expõe a origem das divergências entre os dois teóricos do socialismo italiano. O texto é uma preciosa contribuição para a compreensão da relação entre Gramsci e Togliatti e da polêmica envolvendo a elaboração e publicação da primeira edição italiana dos cadernos de Gramsci. Giuseppe Vacca indica elementos preciosos para as investigações sobre o pensamento de Gramsci, destacando o conceito de revolução passiva como instrumento interpretativo de épocas históricas inteiras e indica que, na leitura de Togliatti, talvez intencionalmente, esse conceito não foi explorado.

Por fim, Giuseppe Vacca reconhece o mérito das ações de Togliatti que promoveram a imagem de um Gramsci ocidental e não apenas um pensador circunscrito à realidade italiana, e encerra o texto, a obra, indicando que o percurso percorrido por Togliatti, ainda que tortuoso, tinha como objetivo final reconhecer Gramsci como um clássico do século XX.

Gramsci no seu tempo é uma obra de grande interesse para pesquisadores da área das Ciências Humanas interessados no desenvolvimento do pensamento de Gramsci e nos desdobramentos do pensamento marxista no século XX. Se Gramsci teve o mérito de atualizar a leitura materialista da história e aperfeiçoar conceitos-chave para a análise dos fenômenos de ordem política, econômica e cultural, a presente obra promove uma apresentação contextualizada do pensamento de Gramsci e atualiza os leitores brasileiros a respeito do atual patamar das pesquisas sobre o pensamento gramsciano.

Com um bom projeto editorial, impresso em papel reciclado de ótima qualidade, a edição é valorizada ao apresentar as iniciativas de leitura do pensamento de Gramsci desenvolvidas na Europa. Ao empregar categorias analíticas até então pouco exploradas pelos pesquisadores brasileiros, Gramsci no seu tempo se consolida como uma referência de leitura àqueles que desejam avançar no universo da pesquisa sobre pensamento de Gramsci. A análise historicamente contextualizada apresentada nas páginas da coletânea serve de guia e fornece elementos históricos e conceituais para a leitura dos escritos de Gramsci e para a investigação sobre os principais fenômenos históricos da Itália na primeira metade do século XX.

Cézar de Alencar Arnaut de Toledo – Doutor em Educação pela UNICAMP (1996). Professor do Departamento de Fundamentos da Educação e do Programa de Pós-Graduação em Educação da Universidade Estadual de Maringá (PR).

Jarbas Mauricio Gomes – Mestre em Educação pela Universidade Estadual de Maringá (2012). Especialista em Pesquisa Educacional (UEM – 2009), graduado em Filosofia pela Universidade Estadual do Oeste do Paraná (2004). Professor de Filosofia para a Educação Básica.

Improntas de la Historia y la Comunicación | UNLP | 2015

Improntas Ditadura no Brasil

Improntas de la historia y la comunicación es una revista electrónica arbitrada, de frecuencia bianual, que edita el Centro de Estudios en Historia, Comunicación, Periodismo y Medios (CEHICOPEME) de la Facultad de Periodismo y Comunicación Social de la Universidad Nacional de La Plata (Buenos Aires, Argentina).

Su objetivo es difundir producciones académicas nacionales e internacionales y propiciar el debate sobre problemáticas vinculadas con la exploración transdisciplinar de los procesos comunicacionales argentinos e iberoamericanos desde un enfoque histórico. En tal sentido, procurará convertirse en un puente virtual que brinde la posibilidad de dar a conocer las indagaciones académicas resultantes de la aplicación de nuevas herramientas analíticas y metodológicas que permitan reconsiderar algunas «viejas certezas» y construir «nuevos saberes» en el inagotable campo que vincula a la historia con la comunicación social.

La revista publica artículos originales e inéditos, ensayos, reseñas bibliográficas y producción de estudiantes, graduados y docentes universitarios vinculados a instituciones nacionales y del extranjero.

IMPRONTAS propiciará la vinculación con publicaciones pares a los efectos de lograr un fecundo intercambio de contenidos que permita ampliar el horizonte de la investigación y la producción, enriquecer el conocimiento científico sometiéndolo a la discusión pública e incentivar la puesta en común de las distintas líneas de investigación vigentes.

Destinada a investigadores, docentes, becarios, profesionales y estudiantes, la publicación se edita en idioma español, portugués e inglés, siempre y cuando sea la lengua materna del autor.

La revista promueve el empleo del lenguaje inclusivo en cuanto al género y alienta a que los artículos que sean remitidos eviten la discriminación por sexo, género social o identidad de género en particular.

Periodicidade anual.

Acesso livre

ISSN 2469-0457

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Poder e desaparecimento: os campos de concentração na Argentina | Pilar Calveiro

Pilar Calveiro nasceu na Argentina em 1953. Envolvida em militâncias sociais e políticas, foi presa pela ditadura civil-militar que governou o país no período de 1976 a 1983. No prelúdio do livro, o poeta Juan Gelman, descreve:

“Em 7 de maio de 1977, um comando da Aeronáutica sequestrou Pilar Calveiro em plena rua e a levou ao que ficou conhecido como “Mansão Seré” […]Naquele dia começou seu percurso de um ano e meio num inferno que continuou em outros campos de concentração” (p.19)

Ao contrário da enorme maioria dos detidos em campos de concentração argentinos (cerca de 90% dos 15 a 20 mil pessoas que por isso passaram, segundo a própria autora), Pilar Calveiro sobrevive. Mais tarde, realiza doutorado em ciência política pela Universidade Nacional do México, parte da qual resulta nesse livro, lançado na Argentina em 2001. Atualmente, é professora e pesquisadora na Universidade Autônoma de Puebla (México).

Apesar dessa vivência, Calveiro não baseia seu livro unicamente no seu depoimento. Suas principais fontes são o testemunho de cinco outros sobreviventes. De acordo com ela

“Cada depoimento é um universo completo, um homem completo falando de si e dos outros. Seria suficiente tomar apenas um deles para abarcar os fenômenos aos quais quero me referir. Ainda assim, para mostrar a vivência a partir de diferentes sexos, sensibilidades, militâncias, lugares geográficos e capturadores, e mesmo fazendo referência a outros depoimentos, tomarei basicamente os seguintes: Graciela Geuna (sequestrada no campo de concentração de La Perla, Córdoba, correspondente ao III Corpo do Exército), Martín Gras (sequestrado na Esma, Capital Federal, correspondente à Marinha da República Argentina), Juan Carlos Scarpatti (sequestrado e foragido de Campo de Mayo, província de Buenos Airese, campo de concentração correspondente ao I Corpo do Exército), Claudio Tamburrini (sequestrado e foragido da Mansão Seré, província de Buenos Aires, correspondente à Força Aérea) e Ana María Careaga (sequestrada em El Atlético, Capital Federal, correspondente à Polícia Federal)”. (p.42)

O livro de Pilar Calveiro não se resume, contudo, à transmissão desses testemunhos, mas à, a partir deles, refletir sobre os desaparecimentos na ditadura argentina e sobre o fenômeno repressivo em si. Retomando o prelúdio de Gelman “este livro é uma façanha. Pilar Calveiro atravessou a situação mais extrema do horror e teve a difícil capacidade de pensar a experiência” (p.20). Ao fazê-lo, “Sua leitura contribui para a reflexão sobre a história não só da Argentina, mas dos outros países do Cone Sul, que não pode ser relegada ao esquecimento”, escreve a historiadora da USP Maria Helena Capelato, na orelha do livro.

A edição brasileira do livro tem apresentação da pesquisadora de pós-doutorado em História Social da USP Janaína de Almeida Teles intitulada “Ditadura e repressão no Brasil e na Argentina: paralelos e distinções”. Nesta, aponta algumas semelhanças e diferenças entre os processos ocorridos nos dois países. Se em ambos os casos havia uma noção de que os militares estariam salvando o país de uma ameaça inimiga, o “poder desaparecedor” descrito por Calveiro para a Argentina seria no Brasil mais um “poder torturador”. Em alguns casos, em especial no combate a guerrilha do Araguaia, a ditadura brasileira também usou a tática de eliminação total do “inimigo”. Porém, em geral, se caracterizava por “seu caráter centralizado e seletivo, permeado por preocupações com sua legitimidade institucional” (p. 14). Assim, no Brasil, o governo se preocupava em dar um ar de legitimação legal, mesmo que manipulada, às suas ações, enquanto na Argentina estava mais cristalizada a ideia de que diante de um inimigo tão perigoso, métodos excepcionais poderiam ser utilizados. Portanto, na Argentina

“o eixo do mecanismo desaparecedor era a obtenção de informação necessária para multiplicar os desaparecimentos até acabar com o ‘inimigo’”. No modelo brasileiro, por sua vez, o foco era a seletividade e a obtenção de informações para desestruturar grupos oposicionistas.” (p. 17)

Pilar Calveiro divide o livro em duas partes. A primeira, mais curta, “Considerações Preliminares”, fornece um panorama do contexto prévio ao golpe que levou o general Jorge Videla ao governo em 1976. A segunda parte, “Os campos de concentração” descreve e discute o funcionamento, a lógica e o significado dos campos de concentração argentinos.

“Considerações Preliminares” apresenta primeiramente a ascensão das forças armadas, e depois a situação das guerrilhas, vistas pela ditadura como o principal inimigo interno. Desde a década de 1930, as forças armadas cresciam em peso político e autonomia.

“Assim, ao longo de 45 anos os militares reiteradamente “salvaram” o país – ou melhor, os grupos dominantes do país. Por outro lado, setores importantes da sociedade civil também reclamaram e exigiram essa salvação. Em 1976, não havia nenhum partido político na Argentina que não tivesse apoiado algum dos numerosos golpes militares ou dele participado.” (p. 25)

Assim, o apelo às forças armadas ao reestabelecimento da ordem (e as características fundamentais de um governo militarizado) não era inédito na Argentina de 1976, quando a crise do peronismo fazia em especial as classes médias clamarem por serem “salvas”.

As guerrilhas, cujos membros formariam grande parte da população sequestrada proliferaram nos anos 1970, sejam de caráter guevarista ou peronista. Calveiro, porém, tece críticas ao autoritarismo interno a elas, o que teria colaborado, junto à repressão por parte do peronismo de direita a partir de 1974, para que já estivessem bastante enfraquecidas em 1976.

A segunda e mais extensa parte do livro inicia-se com uma ideia fundamental do texto: “Sempre o poder mostra e esconde, e se revela tanto no que exibe quanto no que oculta” (p. 38). Portanto, os mecanismos de desaparecimentos deviam ser escondidos (já que não eram legais), mas somente parcialmente. Para Calveiro, “para disseminar o terror, cujo efeito imediato é o silêncio e a inação, é preciso mostrar uma fração daquilo que permanece oculto”. (p. 53). A autora então esclarece que o sequestro, a tortura e o desaparecimento já eram prática corrente ao menos desde 1966, mas a partir de 1976, o desaparecimento deixa de ser uma das formas para se tornar a própria definição da repressão na ditadura argentina.

Uma característica importante é que os campos de concentração não eram operados por um grupo seleto. Pelo contrário, havia um esforço em incluir grande número de oficiais, de modo a implicar a todos no processo, em cumplicidade geral. O resultado disso era, além de evitar delações, que seres humanos sem “natureza assassina” participassem ativamente de “um maquinário, construído por eles mesmos, cujo mecanismo os levou a uma dinâmica de burocratização, rotineirização e naturalização da morte” (p. 45). O relato de Calveiro nos remete, ao conceito de banalidade do mal, desenvolvido por Hannah Arendt em Eichmann em Jerusalém, autora com cuja obra o livro de Pilar Calveiro está em constante diálogo.

Nas páginas seguintes, Calveiro descreve os procedimentos do desaparecimento. A iniciar pelo sequestro, realizado por grupos que geralmente desconheciam o motivo da operação e a tortura (choques elétricos e abusos sexuais eram comuns). Cabe salientar que a missão principal da tortura (que começava antes mesmo da inserção do prisioneiro no campo) era “”alimentar” o campo com novos sequestrados” (p. 67). Seguidas as primeiras seções de tortura, ocorria o confinamento no campo (novamente, os guardas geralmente não sabiam quem eram os prisioneiros, somente sabiam que eram “perigosos”), período no qual podiam ocorrer novas torturas, e finalmente o assassinato e desaparecimento dos corpos. Esta é a parte menos conhecida. Um dos métodos envolvia a aplicação de soníferos e o despejo dos corpos (ainda vivos) no mar. Ao longo de todo o processo, imperava a burocracia, a impessoalidade e a divisão de tarefas. Em Modernidade e Holocausto, Zygmunt Bauman afirma que

“O uso da violência é mais eficiente e menos dispendioso quando os meios são submetidos a critérios instrumentais e racionais e, assim dissociados da avaliação moral dos fins. […] A dissociação é, de modo geral, resultado de dois processos paralelos, ambos centrais ao modelo burocrático de ação. O primeiro é a meticulosa divisão funcional do trabalho […] o segundo é a substituição da responsabilidade moral pela técnica.” (BAUMAN, 1998, p. 122)

Atenta a essas semelhanças, Calveiro afirma que isso não se deveria a uma cópia ou inspiração nos campos nazistas ou stalinistas mas consequência de serem poderes totalizantes.

Outra característica apontada pela autora que reforça esse caráter totalizante é a auto-representação de muitos torturadores como deuses, ao ponto de impedirem o suicídio mesmo de prisioneiros cujo destino (morte) já estava selado. Havia uma necessidade de reafirmar o poder da repressão sobre cada mínimo aspecto da vida (e da morte) dos sequestrados.

O aspecto fragmentário do processo, com diferentes grupos operativos trabalhando em paralelo e até concorrendo entre si causava uma sensação de completa ausência de lógica (por exemplo, na escolha de quem iria morrer e quando) e desarmava tentativas de resistência. No entanto, “O fragmentário não se opõe ao totalizante; pelo contrário, eles se combinam e se sobrepõe, sem encontrar nenhuma consistência ou coerência.” (p. 82). Tal afirmação é reforçada por Hannah Arendt, quando afirma, sobre a burocracia nazista que “todos esses organismos, enormemente poderosos, competiam ferozmente uns com os outros – o que em nada ajudava suas vítimas” (ARENDT, 1999, p. 85).

Analisado o funcionamento concreto do “poder desaparecedor”, Pilar Calveiro se dedica ao componente ideológico que o sustenta, ao qual chama de “Um universo binário”.

“As lógicas totalitárias são lógicas binárias, que concebem o mundo como dois grandes campos contrários: o próprio e o alheio. […] entende que o diferente constitui um perigo iminente ou latente, que deve ser extirpado. [..,] pretende, em última instância, eliminar as diversidades e impor uma realidade única e total representada pelo núcleo duro do poder, o Estado.” (p. 88) “Na concepção militar, a Argentina estava em guerra: uma guerra contra a subversão, travada dentro e fora das fronteiras nacionais. Os militares se apressaram a declará-la, e a guerrilha aceitou o desafio.” (p, 89)

Assim, na ótica militar, não desapareciam pessoas, mas sim subversivos, que seriam sempre: guerrilheiros, servindo interesses estrangeiros, perigosos, imorais; se mulheres, cruéis e sem moral sexual. No caso dos mais perigosos não só sem religião, mas judeus. “Reduzidos, como todos os outros objetos de gerenciamento burocrático, a meros números desprovidos de qualidade, os objetos humanos perdem sua identidade.”(BAUMAN, 1998, p. 127)

Portanto, os campos de concentração procuravam retirar por completo a humanidade do prisioneiro. Calveiro, porém, defende que “apesar da eficiência da técnica concentratória, quase sempre há uma parte do homem que é devastada e outras que resistem; essas são as partículas que escapam” (p. 102). Isso permite problematizar o universo binário e mais, possibilita formas de resistência e fuga. Em relação a esses mecanismos, Calveiro afirma que

“É preciso acrescentar que existiram diversas formas de fugir do dispositivo concentracionário, não apenas a fuga física, sendo que todas elas estiveram associadas à preservação da dignidade, à ruptura da disciplina e à transgressão da normatividade, sabotando os objetivos do campo.” (p. 108)

Assim, a autora descreve várias formas de fuga e resistência, desde a fuga concreta, a colaboração falsa ou parcial, a solidariedade interna, até o riso como reafirmação da vida.

Aproximando-se da parte final do livro, Calveiro reafirma, tal como Hannah Arendt teve que fazer no caso Eichmann, que “Ao encarar os desaparecedores como parte do cotidiano social, sua responsabilidade não se esfuma; apenas os situa num lugar que envolve e questiona toda a sociedade.” (p.134). Arendt completaria que “essa normalidade era muito mais apavorante do que todas as atrocidades juntas” (ARENDT, 1999, p. 299).

Essa reflexão faz com que a análise não possa se prender somente aos que participaram diretamente nos desaparecimentos, devendo se estender a sociedade toda: “O campo de concentração, […], só pode existir numa sociedade que escolhe não ver, por sua própria impotência; uma sociedade “desaparecida”, tão siderada como os próprios sequestrados.” (p. 135). Calveiro descreve como o golpe teve respaldo social. “Se havia algo que não tinha como ser alegado naquele momento era o desconhecimento” (p. 136). A tortura, os sequestros e a necessidade de eliminação do Outro não eram novidade e já estavam até certo ponto naturalizadas. “A noção do Outro, perigoso, que deve ser destruído, estava profundamente enraizada nas representações e práticas políticas.” (p. 138).

Poder e desaparecimento, portanto, está muito distante de ser somente um testemunho da ditadura (o que já seria válido). Tampouco se limita a uma análise do “poder desaparecedor” na Argentina no período 1976-1983, o que realiza brilhantemente. Pilar Calveiro é capaz, apesar ou talvez justamente por ter sido vítima da repressão autoritária de analisar, a partir da experiência argentina, o fenômeno do autoritarismo totalizante, o que, levando em conta seus paralelos e particularidades, colabora para a compreensão das ditaduras civis-militares que assolaram o Cone Sul nas décadas de 1960,70 e 80.

Ao final do livro, Calveiro afirma:

“a melhor forma para desconhecer que a realidade dos campos de concentração esteve estreitamente relacionada com a sociedade de então e com a atual é esquecê-los, decidir que o mundo e o país deram voltas suficientes a ponto de chegar a outro lugar. Anistia, como amnésia, vem de a-mnses-is, “esquecimento”” (p. 151).

A mensagem não poderia ser mais evidente para um Brasil que ainda se debate em relação à memória e aos aspectos ainda hoje remanescentes da sua ditadura mais recente.

Referências

ARENDT, Hannah. Eichmann em Jerusalém: um relato sobre a banalidade do mal. Tradução José Rubens Siqueira. São Paulo: Companhia das Letras, 1999.

BAUMAN, Zygmunt. Modernidade e Holocausto. Tradução Marcus Penchel. Rio de Janeiro: Zahar, 1998.

CALVEIRO, Pilar. Poder e desaparecimento: os campos de concentração na Argentina. Tradução Fernando Correa Prado. São Paulo: Boitempo, 2013.

Michel Ehrlich –  Estudante de graduação em História (bacharelado e licenciatura) pela Universidade Federal do Paraná (UFPR).


CALVEIRO, Pilar. Poder e desaparecimento: os campos de concentração na Argentina. Tradução Fernando Correa Prado. São Paulo: Boitempo, 2013. Resenha de: EHRLICH, Michel. Cadernos de Clio. Curitiba, v.6, n.1, p.197-206, 2015. Acessar publicação original [DR]

Teoria da História (v.1) Princípios e conceitos | José D’Assunção Barros

Pode um historiador ser considerado culto e competente sem nenhuma preparação teórico-metodológica? Pode um professor, mesmo dos Ensinos Fundamental e Médio, ensinar sem nenhuma bagagem teórico-metodológico? A epistemologia deve ficar restrita à alguns pequenos círculos ou deve envolver todos os membros da comunidade de historiadores?1 São sobre tais questionamentos que o livro “Teoria da História: princípios e conceitos fundamentais”, de José D’Assunção Barros, se propõe a discutir. Na obra, o autor apresenta explicações fundamentais para a compreensão da História como campo de conhecimento, com suas próprias peculiaridades teóricas e metodológicas. Leia Mais

África: gênero, nação e poder / Outros Tempos / 2015

É com grande satisfação que publicamos o presente volume da Revista Outros Tempos, com o dossiê intitulado África: gênero, nação e poder. Nos últimos anos tem sido perceptível o interesse crescente pelo campo dos chamados Estudos Africanos. Nosso intuito foi agregar pesquisadores do Brasil e de países do continente, cujos trabalhos versam sobre relações de gênero, nação e poder, nas mais diversas perspectivas de análise crítica.

No artigo A formação social do estado-nação e a crítica pós-colonial: o surgimento da história crítica em Moçambique, Milton Correia busca perceber como a academia moçambicana tem respondido às relações dinâmicas entre sociedade, história e política. Em Predadores: quando a literatura narra as relações de poder em Angola, Silvio de Almeida Carvalho Filho, a partir do romance escrito por Pepetela, discute como a literatura estrutura uma crítica sócio-política extremamente perspicaz da sociedade e dos estados angolanos contemporâneos. Carla Santos de Carvalho, no artigo A questão de gênero na agenda pública e política de Cabo Verde, analisa o papel das ONGs comprometidas com a igualdade de gênero e com a luta pela defesa dos direitos das mulheres em um contexto de invisibilidade feminina. Tatiana Raquel Reis Silva, em Mercado de Sucupira: práticas comerciais e cotidiano das rabidantes cabo-verdianas, discorre sobre as práticas comerciais, o cotidiano e as estratégias de lucratividade das rabidantes. Patrícia Godinho Gomes desenvolve uma abordagem preliminar sobre a evolução dos estudos de gênero na Guiné-Bissau em O estado da arte dos estudos de gênero na Guiné-Bissau. Viviane de Oliveira Barbosa examina os princípios da política segregacionista na África do Sul durante o regime do Partido Nacional, no artigo Políticas sociais e legislação no apartheid sul-africano. Antonádia Borges apresenta como mobilidade e circulação de pessoas ultrapassa as barreiras impostas pelo colonialismo em Hospitalidade e antropologia na África do Sul contemporânea.

O presente volume também conta com uma seção de artigos livres: Com zelo, inteligência e limpeza de mãos: Eugênio Freyre de Andrade e as Casas da Moeda na primeira metade do século XVIII, de Irenilda Cavalcanti; Colônia-Quilombo: retirantes cearenses e abolicionismo na Colônia Benevides (Pará 1877-1884), de Edson Holanda Lima Barboza; Espaço de religiosidade e traços da modernidade: memórias de moradores do Pântano do Sul (Florianópolis / SC 1970 – 1980), de Mariane Martins; Uma higiene moral e do corpo: educação moral e cívica, as atividades físicas, esportivas e de lazer durante a ditadura militar, de Reginaldo Cerqueira Sousa e História e Memória: quadro antigo do cemitério ecumênico São Francisco de Paula, de Bruna Frio Costa e Carla Rodrigues Gastaud.

Além dos artigos, ofertamos ao(a) leitor(a) uma entrevista realizada por Michelle Cirne Ilges com a professora Teresa Cruz e Silva, sobre A Agência do Codesria na produção das Ciências Sociais no continente africano. Duas análises de documento – Testemunhos de violência num registro judicial durante a ocupação colonial no norte de Moçambique (Fernanda do Nascimento Thomaz); e Luanda 4 de fevereiro de 1961: o olhar dos Estados Unidos (Fábio Baqueiro Figueiredo) – e uma resenha intitulada Identidades em questão: escravidão, liberdade e pertencimento no mundo atlântico (Daniela Carvalho Cavalheiro) fecham o volume.

Boa Leitura!

Tatiana Raquel Reis Silva

Teresa Cruz e Silva


SILVA, Tatiana Raquel Reis; SILVA, Teresa Cruz e. Apresentação. Outros Tempos, Maranhão, v. 12, n. 19, 2015. Acessar publicação original [DR]

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O Congresso de Viena e a América portuguesa / Outros Tempos / 2015

O Dossiê O Congresso de Viena e a América portuguesa, ora apresentado pela Revista Outros Tempos, pode ser considerado como um dos desdobramentos do The Congress of Vienna and its Global Dimension (El Congreso de Viena y su dimensión global), realizado na Universidade de Viena, entre 18 e 22 de setembro de 2014.

Organizado pela Asociación de Historiadores Latinoamericanos y del Caribe (ADHILAC), o evento reuniu cerca de 200 pesquisadores de diversas partes do mundo, ocupados em refletir sobre o Congresso de Viena a partir de múltiplas possibilidades.

Nesse contexto, pesquisadores cujos trabalhos dedicavam-se às articulações entre o Congresso de Viena e a dinâmica política e econômica da América portuguesa vislumbraram a possibilidade de reunir esses trabalhos em torno de um dossiê.

O resultado pode ser conferido nessa edição da Revista Outros Tempos. O Dossiê O Congresso de Viena e a América portuguesa conta com artigos dos seguintes pesquisadores / instituições: André Augusto da Fonseca (Universidade Estadual de Roraima); Christian Cwik (University of the West Indies, St. Augustine Campus, Trinidad and Tobago); Luiz Alberto Couceiro e Rejane Valvano Corrêa da Silva (Universidade Federal do Maranhão); Michael Toussaint (University of the West Indies, St. Augustine Campus, Trinidad and Tobago); Vera Lúcia Vieira (Pontifícia Universidade Católica – São Paulo); e Wilma Peres Costa (Universidade Federal de São Paulo). A edição traz ainda outros produtos relacionados ao Congresso de Viena: um Estudo de Caso (Marcelo Cheche Galves / Universidade Estadual do Maranhão); uma resenha (Romário Sampaio Basílio / mestrando na Universidade Nova de Lisboa) e a entrevista com Dale Tomich, professor da Universidade Estadual de Nova York, em Binghamton, e referência nos estudos sobre a segunda escravidão.

Na seção de artigos livres, este número traz 7 artigos. Em ANTES DA PIANOLATRIA: flautas, violas e tambores nas práticas musicais da primeira metade do século XIX, Marcos Lobato Martins (Prof. Dr. UFVJM) foca a análise nas práticas musicais, especialmente a viola, os violeiros e as modinhas em Minas Gerais; em PARA ALÉM DAS FRONTEIRAS DO GRÃO-PARÁ: o peso das relações entre as províncias no xadrez da independência (1822-1825), o Prof. Dr. André Roberto de Arruda Machado (UNIFESPA) aborda relações entre províncias vizinhas e território em tempos de independência; em A OCUPAÇÃO DA TERRA NAS NARRATIVAS DE CARMO BERNARDES E JOSÉ MARIA AUDRIN: sertão dos vales do Araguaia e Tocantins (1900 -1950), Olívia Macedo Miranda Cormineiro (doutoranda em História SocialUFU) discute a ocupação da terra por sertanejos pobres no sertão dos vales dos rios Araguaia e Tocantins, a partir de uma incursão pela linguagem ficcional e memorialística; em “EU MORO COM MEUS PAIS”: as representações da família realizadas pela juventude roqueira da década de 1980, Gustavo dos Santos Prado (Prof. da FAG-PR e doutorando PUC-SP) aborda o movimento juvenil da década de 1980, com ênfase nos temas juventude e família; em BUMBA MEU BOI DO MARANHÃO NOS JORNAIS LUDOVICENSES: notícias da construção de uma inserção (1980- 2000), Júlia Constança Pereira Camêlo (Prof. Dra. UEMA) discute a política cultural relativa ao bumba-meu-boi no Maranhão através da imprensa; em A IGREJA CATÓLICA E AS DITADURAS DO CONE SUL (1960-1980), o Prof. Dr. Enrique Serra Padrós (UFRGS) apresenta uma introdução panorâmica da relação Igreja-Estado no período das ditaduras de segurança nacional do Brasil, Chile e Argentina; e, finalmente, a Prof Dra. Vera Lúcia Ferreira Vargas (UFMS) em HISTÓRIA E MEMÓRIAS REACENDIDAS: a apropriação Terena da escola aborda apropriação da escola pelos Terena no Mato Grosso do Sul, as ações realizadas para fortalecê-la junto à comunidade indígena e, principalmente, junto à sociedade envolvente.

Boa leitura a todos.

Christian Cwik

Marcelo Cheche Galves

Márcia Milena Galdez Ferreira


CWIK, Christian; GALVES, Marcelo Cheche; FERREIRA, Márcia Milena Galdez. Apresentação. Outros Tempos, Maranhão, v. 12, n. 20, 2015. Acessar publicação original [DR]

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Ditaduras na América Latina do século XX: debates e balanços historiográficos | Revista Eletrônica da ANPHLAC | 2015

O ciclo de ditaduras da América Latina dos anos 1960 a 1990 vem sendo rememorado em “datas convocantes”, como os 50 anos do golpe no Brasil, em 2014, os 40 anos do golpe no Uruguai e no Chile, em 2013, e, no ano que vem, 2016, também na Argentina, suscitando-se reflexões, novas abordagens e balanços historiográficos. O dossiê “Ditaduras na América Latina do século XX: debates e balanços historiográficos” propôs abrir um espaço para discussões acerca dos regimes autoritários e recebeu contribuições de variadas origens – Brasil, Chile, Argentina e Uruguai. Embora a variedade temática esteja longe de cobrir o conjunto da profícua e extensa produção recente sobre os regimes autoritários da América Latina, esse dossiê oferece uma multiplicidade considerável de objetos e perspectivas, como historiografia, história das ideias, gênero, cotidiano, memória, imprensa, literatura, cinema e movimentos sociais, assim como devemos destacar a presença de jovens pesquisadores dentre os autores.

Abrindo o dossiê, o texto de Javiera Libertad Robles, intitulado “’Las Rodriguistas’. La mujer militantes en la prensa del Frente Patriótico Manuel Roríguez (1983-1988)”, discute a presença de mulheres militantes no braço armado do Partido Comunista do Chile. O estudo é feito por meio da revista El Rodriguista, principal veículo de comunicação do grupo, a partir do qual Robles analisa a visibilidade da participação feminina na organização. Leia Mais

What is History for? Johann Gustav Droysen and the functions of historiography | Arthur Alfaix Assis

A publicação de What is History for? Johann Gustav Droysen and the functions of historiography, de Arthur Assis, apresenta uma proveitosa discussão sobre a historiografia de Johann Gustav Droysen (1808-1884), importante historiador alemão do século XIX. Com base na análise da historiografia de Droysen, o autor oferece ao leitor um amplo panorama da historiografia alemã durante o século XIX, centrando-se nos debates sobre o historicismo, paradigma dominante no conhecimento histórico alemão oitocentista, e na reformulação do valor pragmático para a historiografia. Nesse sentido, a obra de Arthur Assis não se dirige somente aos especialistas e pesquisadores do pensamento de Droysen, mas a todos os estudiosos de historiografia alemã e geral, história intelectual e mesmo historiografia política, uma vez que destaca as influências políticas do pensamento daquele autor. Leia Mais

Quantum dissidents: rebuilding the foundations of quantum mechanics (1950-1990) – FREIRE JÚNIOR (SS)

FREIRE JÚNIOR, Olival. Quantum dissidents: rebuilding the foundations of quantum mechanics (1950-1990). Berlin: Springer, 2015. Resenha de: VIDEIRA, Antonio Augusto Passos. Nem heterodoxa nem ortodoxa: a mecânica quântica na segunda metade do século XX. Scientiæ Studia, São Paulo, v.13, n. 1, p. 233-7, 2015.

O livro, escrito por Olival Freire Jr – Professor Titular do Instituto de Física da Bahia (Brasil) e conhecido pesquisador nas áreas de história da ciência e ensino de ciências – constitui uma contribuição importante para a literatura vinculada à mecânica quântica (MQ), em particular, aquela que procura compreender os desenvolvimentos históricos das diferentes linhas de pesquisa – teóricas e experimentais – interessadas em esclarecer os fundamentos dessa teoria.

Quantum dissidents é o resultado de 30 anos de envolvimento direto do autor com a história e a filosofia da MQ, trajetória que começou com sua dissertação de mestrado sobre Paul Langevin, orientada na Universidade de São Paulo pela física e historiadora da física Amélia Império Hamburger (1932-2011), passando pela tese de doutorado, sobre David Bohm (1917-1992), defendida em 1995 na mesma universidade, mas cuja pesquisa foi coordenada por Shozo Motoyama e Michel Paty. De certo modo, o envolvimento de Freire com a área de história da MQ é contemporâneo, ou simultâneo, à história que ele conta. Ele não poderia ter decidido em meados da década de 1980 contar tal história; ela simplesmente não existia.

O foco do livro situa-se na elaboração de uma explicação coerente para um evento vivido pelas questões dos fundamentos da MQ, a saber: a passagem de uma área de pesquisa percebida como marginal para uma situação diametralmente oposta, capaz de atrair o interesse de físicos, filósofos, ou ainda, de divulgadores de ciência. A rigor, a área de informação quântica, o “produto” mais notável dessa reviravolta, desfruta hoje de uma notabilidade crescente, sendo considerada capaz de revolucionar a ciência e a tecnologia, levando-as a fronteiras situadas para além da física. Como, então, um tema, que até o início da década de 1970 era evitado por jovens pesquisadores – preocupados com as consequências que essa opção temática teria para suas carreiras – chegou a ser coroado com, por exemplo, o prêmio Nobel de física em 2012, concedido ao francês Serge Haroche e ao norte-americano Daniel J. Wineland?

Para responder a essa pergunta, Freire lança mão de uma série de “instrumentos” usualmente empregados por historiadores da ciência que deliberadamente procuram evitar histórias internalistas ou externalistas de sua ciência. Interessado em superar essa antiga e paralisante dicotomia, Freire manipula aspectos e informações provenientes da história, sociologia, filosofia e política da ciência, sem sentir-se obrigado a privilegiar nenhum deles. As referências teóricas têm diferentes origens, em que pese certa preferência pelas ideias do sociólogo francês Pierre Bourdieu (19302002), e de Timothy Lenoir, sem que isso signifique desprestígio para outras perspectivas – por exemplo, as propostas por expoentes como Bruno Latour e David Kaiser. Freire entende que a inteligibilidade histórica da ciência não advém apenas do domínio de aspectos técnicos. Aqui também, no que diz respeito ao conhecimento da ciência envolvida, Freire se mostra um pesquisador arguto, com domínio da física envolvida – melhor, talvez, fosse dizer emaranhada – na história que narra. A história contada por Freire reforça a ideia de que a ciência circula, transformando-se, e transforma-se, circulando.

Praticamente todo o conteúdo do livro já tinha sido publicado sob a forma de artigos independentes, a grande maioria deles na revista Studies in History and Philosophy of Modern Physics, alguns escritos em colaboração com colegas e estudantes. O livro, no entanto, não é uma coletânea. Na verdade, os artigos foram ligeiramente modificados de modo a formarem um todo coerente, organizado e interessante. Essas adaptações também se devem à necessidade de adequação do conteúdo às normas editorais da Springer. Uma introdução e uma conclusão foram escritas especialmente para ele. Em semelhança com os artigos anteriormente publicados, cada capítulo contém um resumo, útil para uma apresentação condensada dos conteúdos nele trabalhados.

O livro está dividido em nove capítulos, incluindo a introdução e a conclusão. O arco temporal por ele compreendido inicia-se em 1950 e termina formalmente em 1990, ainda que algumas informações posteriores tenham sido incluídas. A título de exemplo, vale mencionar o já citado prêmio Nobel de física de 2012.

O primeiro capítulo é de natureza metodológica. Nele, Freire expõe os conceitos e os princípios teóricos que usará para compreender o surgimento da área de informação quântica, por ele apontado como sendo o exemplo mais visível e relevante da reabilitação da área de fundamentos da MQ. Como dito acima, nesse capítulo, ele reafirma sua crença de que a ciência é uma estrutura (em sentido amplo) dinâmica.

É no segundo capítulo que se inicia propriamente a história sobre a reconstrução e reconfiguração dos fundamentos da MQ. Como não poderia deixar de ser lembremo-nos do tema da tese de Freire –, é sobre as tentativas feitas por David Bohm (e colegas que compartilhavam sua perspectiva) que recai a escolha de Freire para narrar a saga da MQ na segunda metade do século passado. Apesar de Bohm ser um de seus dissidentes preferidos, Freire não se permite enaltecê-lo mais do que o devido. Em outros termos – e no que interessa para seus objetivos –, Freire sustenta que os esforços de Bohm não foram suficientes para quebrar o predomínio da interpretação de Copenhague, que se manteve predominante, segundo a perspectiva ortodoxa em física, mas também em história da física, na área de fundamentos da MQ a partir da década de 1920.

O terceiro capítulo é dedicado a outra intepretação heterodoxa, que, grosso modo, foi contemporânea da teoria de variáveis ocultas de Bohm, mas, no caso, formulada por um físico norte-americano de Princeton, Hugh Everett iii (1930-1982). Tal como a interpretação bohmiana, a de Everett sofreu pesadas críticas, a ponto de levarem seu autor a desistir de uma carreira acadêmica convencional. Aparentemente, Everett não se arrependeu de sua decisão de continuar vinculado ao complexo militar-industrial norte-americano.

O capítulo seguinte apresenta o primeiro sinal de ruptura da monocracia interpretativa então dominante, exercida pela chamada “interpretação de Copenhague”. A ruptura ocorre em torno do problema da medida (the measurement problem) e conta com a participação central de uma personagem da qual se poderia esperar tudo, menos o envolvimento com a heterodoxia científica, o físico norte-americano de origem húngara Eugene Wigner (1992-1995), que se envolveu em querelas científicas com jovens físicos italianos partidários de uma ideologia fortemente recusada por ele: o marxismo. Wigner, conservador assumido e físico de muitas contribuições seminais para a física nuclear, percebeu que o problema da medida não poderia ser considerado como resolvido. Isso de certo modo renovou o ambiente da MQ.

O quinto capítulo trata de uma personagem completamente desconhecida, mesmo no Brasil, país em que se deu sua atuação profissional. Freire analisa a efêmera participação que o físico brasileiro de origem austríaca Karl Tausk (1927-2012) teve nesse processo de reabilitação das questões concernentes aos fundamentos da física. Freire é convincente ao discutir como físicos, sem as devidas relações profissionais (entenda-se, respaldo institucional) e sem as alianças científicas necessárias (poderosas), comprometem suas próprias carreiras. A participação em assuntos considerados como marginais pelos líderes da física pode marginalizar seus participantes. O “triste” destino de Tausk lembra-nos que não são apenas habilidades intelectuais e conhecimentos científicos que legitimam a participação em domínios temáticos tão impregnados de controvérsia, como aquele concretizado em torno das questões interpretativas da MQ.

O sexto capítulo se debruça sobre as contribuições dadas pela situação política de finais da década de 1960 para uma renovação da atitude dos físicos frente à área de fundamentos. O foco é, agora, direcionado para a organização e a realização de uma escola de verão em Varenna (Itália), dedicada aos fundamentos da MQ. O interesse desse capítulo é duplo. Por um lado, ele se encontra na descrição a respeito dos detalhes que cercaram a escola organizada por Bernard d’Espagnat, físico teórico francês, e que quase levaram à implosão da Sociedade Italiana de Física. O segundo motivo é que, diferentemente do que se poderia esperar, foi um físico politicamente conservador – muito bem posicionado no establishment da física e com um prêmio Nobel a tiracolo e aqui já citado Eugene Wigner –, um dos responsáveis por mostrar que a Mecânica Quântica não estava resolvida completamente quando analisada sob o ponto de vista conceitual ou de fundamentos.

É a partir do sétimo capítulo que o livro aproxima-se da quadratura histórica responsável pela mudança de perspectiva da comunidade dos físicos frente às questões de fundamento. Freire justifica essa mudança com a realização das primeiras experiências, em finais da década de 1960, ligadas à área da óptica e montadas para testar certas consequências “bizarras” da mecânica quântica, tais como o emaranhamento (entanglement). De John Clauser a Alain Aspect, passando pelos famosos teoremas de Bell – referência ao físico norte-irlandês John Bell (1928-1990) –, Freire argumenta como a filosofia pode efetivamente ingressar na física. Ainda assim, trata-se, como ele mesmo observa, de um período de transição. A área de fundamentos da física ainda não desfrutava da respeitabilidade que receberia a partir da década de 1970.

O período de transição descrito no capítulo anterior não se encerra com a publicação das experiências de Aspect entre 1981 e 1982. Ele será completado ao longo da década de 1980, atingindo, inclusive, os primeiros anos da seguinte. É disso que trata Freire no capítulo oitavo. A marca dessa transição é a ausência de um foco temático unificador dos muitos grupos que começaram a dedicar-se a essas questões. Outro ponto característico dessa época é a realização de conferências especialmente dedicadas às consequências experimentais das questões anteriormente vistas como “filosóficas”. A “moral” desse capítulo parece ser que a aquisição de respeitabilidade não acontece do dia para a noite.

O último capítulo é dedicado a uma descrição comparativa de alguns dos protagonistas da história da reconstrução dos fundamentos da MQ. O recurso metodológico usado por Freire é a prosopografia, a saber, a constituição de uma biografia coletiva, na qual diferentes trajetórias são comparadas entre si a partir da determinação de um conjunto de características entendidas como comuns, tornando possível a referida comparação. Essa descrição, talvez, tenha sido redigida para pôr um ponto-final no uso da metáfora com a qual Freire construiu sua história: a de que os fundamentos da MQ começaram como uma área frequentada por dissidentes. Afinal, como questionar uma área de pesquisa que permite a seus praticantes serem agraciados com alguns dos mais importantes prêmios concedidos na física? De fundamentos filosóficos à informação quântica, a história dos fundamentos da MQ, tal como contada por Freire, é rica, informativa e instrutiva.

Para finalizar, Quantum dissidents conta com um prefácio escrito por Silvan S. Schweber, um dos mais importantes e reconhecidos especialistas em história da física da atualidade, o que, por si só, já é indicativo da originalidade e qualidade historiográficas dessa obra. É interessante notar que Schweber afirma que o livro é também importante para os físicos que querem ser melhores naquilo que fazem, ou seja, o livro de Freire tem valor pedagógico. Torço para que as palavras de Schweber sejam ouvidas.

Antonio Augusto Passos Videira – Departamento de Filosofia. Universidade Estadual do Rio de Janeiro, Brasil.  E-mail: guto@cbpf.br

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[DR]

 

Constructing the world – CHALMERS (SS)

CHALMERS, David J. Constructing the world. Oxford:  University Press Oxford, 2012. Resenha de: BARAVALLE, Lorenzo. O demônio de Carnap. Scientiæ Studia, São Paulo, v.13, n. 1, p. 223-32, 2015.

Não é fácil apresentar o último livro de David Chalmers para seu potencial leitor, já que nele, na verdade, escondem-se muitos livros, muitos caminhos alternativos de leitura e, acima de tudo, muitos estímulos para diferentes reflexões filosóficas. De acordo com as intenções do autor, Constructing the world é um texto de “epistemologia metafísica (ou deveria ser metafísica epistemológica?): grosso modo, epistemologia a serviço de uma imagem global do mundo e de nossa concepção deste” (Chalmers, 2012, p. XX).

Pode-se ver o presente livro como procurando realizar uma versão do projeto de Carnap no Aufbau: aproximadamente, construir um plano (blueprint) do mundo ou, ao menos, construir um plano para um plano, providenciando um vocabulário no qual tal plano pode ser dado (p. XVIII).

Ao longo dos oito capítulos que compõem o livro e dos numerosos excursus, que ampliam o alcance da argumentação principal para a elucidação das mais diversas problemáticas conceituais, Chalmers trata temas que vão desde a metafísica da modalidade até a filosofia da mente, desde a semântica até a filosofia da ciência, e desde a interpretação do empirismo lógico até a epistemologia formal. Dada a vastidão e a profundidade do texto, e tendo em conta que o próprio autor (p. XXV-XXVI) reconhece a importância de privilegiar um caminho de leitura por vez, eu seguirei aqui aquilo que, provavelmente, mais pode interessar ao leitor de Scientiae Studia, isto é, o caminho que, partindo de uma original recolocação do problema do conhecimento e passando por uma reconsideração do legado de Carnap, conduz a uma reflexão sobre a unidade das ciências e a estrutura do mundo. Paralelamente, prestarei atenção às qualidades que a análise de Chalmers possui como ferramenta metateórica.

1 CARNAP ENCONTRA LAPLACE

O titulo do livro de Chalmers é uma clara referência, e homenagem, ao Estrutura lógica do mundo (Aufbau) de Rudolf Carnap (cf. 1967 [1928]). Porém, Carnap não é seu único “herói”. Já nas primeiras páginas, o autor introduz a noção central de toda a obra, a saber, a de escrutabilidade, inspirada em Pierre-Simon Laplace.1 Este último autor, em seu célebre tratado sobre probabilidade, apresenta a conhecida imagem de um intelecto – comumente chamado de “demônio de Laplace” – capaz de determinar, a partir de um certo número de informações sobre a realidade física e potência de raciocínio suficiente, a verdade de qualquer acontecimento passado, presente ou futuro (Laplace, 2010 [1814], p. 42-3). Para o demônio de Laplace, diz Chalmers, “todas as verdades sobre o mundo são escrutáveis a partir de algumas verdades básicas” (p. XIII). A noção de escrutabilidade pode ser entendida, em uma primeira aproximação, como a ideia de que “o mundo é em certo sentido compreensível, ao menos dada uma certa classe de verdades básicas sobre o mundo” (p. XIII). Obviamente, a escolha dessa classe de verdades é tudo menos trivial e, a esse propósito, é geralmente aceito que ela é, em Laplace, tendenciosa, já que pressupõe o determinismo, ou ao menos incompleta, dado que o demônio não tem acesso a verdades fenomênicas, matemáticas ou morais, entre outras.

Chalmers (p. XIV, ss; cap. 1) defende que a noção de escrutabilidade, independentemente dos problemas relacionados com a perspectiva laplaceana, possui um grande valor filosófico. Essa noção denota, muito em geral, uma relação entre a classe de verdades básicas e qualquer outra proposição verdadeira p. Ela foi, ao longo da tradição empirista e, em particular, por Carnap, considerada como uma relação de definibilidade entre conceitos. No Aufbau, a definibilidade é, mais especificamente, associada com a possibilidade de construir – isto é, de mostrar a estrutura lógica de – os conceitos mais complexos (das ciências, por exemplo) a partir de uma relação simples e primitiva, a saber, a da similaridade fenomênica entre as experiências. Ao resgatar a inspiração construcionista carnapiana, Chalmers alinha-se – mais ou menos explicitamente – àqueles autores que, como Richardson (1998) ou Friedman (1999), rejeitam a interpretação clássica do Aufbau em termos fundacionalistas e fenomenalistas (cf. Ayer, 1946; Quine, 1951). A escolha da base fenomênica, entendida como coleção de dados dos sentidos (sense-data), para a construção dos conceitos mais complexos, não é essencial na realização do projeto carnapiano. Carnap mesmo, além de admitir explicitamente a possibilidade de partir de outro tipo de base, fisicalista (Carnap, 1967 [1928], §59), para realizar a mesma tarefa, acaba tentando construir a estrutura conceitual do mundo inteira a partir de uma base puramente lógica (§153-5); desfazendo-se, portanto, dos pressupostos fenomenalistas.

Essa flexibilidade na hora de escolher os elementos básicos da construção, porém, não ajuda Carnap frente a outro tipo de crítica. O problema principal do Aufbau, de acordo com Chalmers, é a identificação da escrutabilidade com uma relação de definibilidade puramente extensional. A maioria dos conceitos – ou, em outros termos, a maioria das verdades não básicas – não podem ser reduzidas a outros conceitos (ou verdades) mais básicos de maneira que estes últimos constituam suas condições necessárias e suficientes (cf. Wittgenstein, 1953; Kripke, 1980). Prova disso é que, para quase qualquer definição, é possível encontrar contraexemplos. Carnap, mais uma vez, reconhece esse problema, e tenta resolvê-lo por meio de critérios intencionais (cf. Carnap, 1947; 1955), vale dizer, regras semânticas que identificam apenas contextualmente o valor de verdade de uma determinada expressão. Inspirando-se nessa solução, Chalmers (p. 12-9) nega que a relação de escrutabilidade seja propriamente definicional. Para que sentenças não básicas sejam escrutáveis a partir de sentenças básicas, não é necessário que sejam disponíveis definições extensionais – as quais, quando presentes, são fundadas na relação de escrutabilidade, e não vice-versa –, mas apenas intenções, as quais permitem, por si só, determinar seu valor de verdade com suficiente exatidão, dado um certo cenário epistêmico (p. 204-11; excurso 10). Por exemplo, embora não possuamos nenhuma definição extensional do conceito de “conhecimento” que seja totalmente imune aos contraexemplos de tipo Gettier, ela não parece necessária para que possamos reconhecer que, de fato, os contraexemplos de tipo Gettier não constituem conhecimento: é suficiente uma “definição aproximada” e implícita (cf. p. 204-11; 381-5) do conceito.

Ora, embora Chalmers admita vários tipos de escrutabilidade não definicional,2 para os presentes fins, é suficiente que nos concentremos naquilo que ele considera o mais importante: a escrutabilidade a priori. A noção de escrutabilidade configura-se, nessa interpretação, como uma relação entre uma classe ou “família” (p. 20) de sentenças C, uma sentença S e um sujeito s tal que “S é escrutável a priori desde C por s se e somente se s está na posição de conhecer a priori que se C, então S” (p. 40). A partir dessa relação, Chalmers enuncia a seguinte tese.

Escrutabilidade a priori: existe uma classe compacta de verdades tal que para qualquer proposição p, um intelecto laplaceano estaria na posição de saber a priori que, se as verdades contidas nessa classe são o caso, então p (p. XVI).3

O termo “compacto” define um atributo da classe de verdades básicas, que deve conter sentenças limitadas e evitar trivializações, tais como uma “supersentença” matemática que inclui todos os estados do mundo (cf. p. 20 ss.).4 A característica fundamental da tese é que ela se compromete com a existência de uma base compacta que é suficiente para que um hipotético sujeito (a) tenha acesso a ela, (b) seja capaz de certa potência de raciocínio e (c) possa comprovar que as verdades empíricas contidas nela refletem estados de coisas de nosso mundo ou de algum outro mundo possível, possa escrutar, a priori (isto é, sem precisar recorrer ulteriormente à experiência) a verdade de qualquer sentença. Dessa maneira, o problema de identificar tal base volta a ser central e, para reduzir a complexidade desse problema, Chalmers recorre, nos terceiro e quarto capítulos, a uma idealização análoga ao demônio de Laplace, a saber, o que denomina “cosmocópio”.

2 O PROBLEMA DA BASE: AVENTURAS COM O COSMOCÓPIO

Já no primeiro capítulo, Chalmers introduz ao que, para ele, deveria ser a base a partir da qual “todas as verdades macroscópicas ordinárias são implicadas a priori”.5 Embora, como veremos, seja admitida certa liberdade com respeito à escolha das famílias de sentenças que a compõem, para Chalmers, ela é um conjunto de verdades da física (tanto macroscópicas quanto microscópicas), verdades fenomênicas (referentes a qualia), verdades indexicais (“eu-sou-de-tal-e-tal-maneira”, “agora-é-de-tal-e-tal-maneira”) e uma sentença “isso-é-tudo”, que certifica que não há nada mais (em um determinado mundo possível, ou cenário epistêmico) do que é expressado nas sentenças básicas ou nas sentenças escrutadas a partir delas (p. 111; excurso 5). Para fazer referência a tal base, Chalmers usa o acrônimo PQTI (physics, qualia, that’s all, indexicals). Como antecipei há pouco, para justificar a escolha de PQTI, Chalmers recorre, nos terceiro e quarto capítulos, a uma idealização, o cosmocópio, que se revela muito útil na hora de compreender melhor os problemas filosóficos em jogo e, a meu ver, também como instrumento analítico em geral.

O cosmocópio é um dispositivo imaginário – mas epistemicamente possível – que permite a um determinado usuário, s, estabelecer o valor de verdade de qualquer sentença ordinária M. Ele

armazena todas as informações contidas em PQ[T]I e as torna utilizáveis. Em particular, ele contém (1) um supercomputador que armazena a informação e realiza todos os cálculos necessários; (2) ferramentas que usam P para ampliar uma região qualquer do mundo e para fornecer informações sobre a distribuição da matéria nessas regiões; (3) um dispositivo de realidade virtual que produz conhecimento direto de qualquer estado fenomênico descrito em Q; (4) um marcador “tu estás aqui” que carrega a informação contida em I; e (5) dispositivos de simulação que proporcionam informações sobre contrafáticos, exibindo os estados físicos e fenomênicos que se produziriam sob as várias circunstâncias contrafactuais especificadas por PQ[T]I (p. 114).

Um exemplo ajudará a tornar mais claro o funcionamento do cosmocópio. Imagine-se que queira aferir o valor de verdade da seguinte sentença M: “no dia 10 de outubro de 1820, às 11 horas, Napoleão Bonaparte estava observando uma garrafa de vinho na mesa da sala de sua residência na ilha de Santa Helena”. Ao entrar no cosmocópio, terão acesso a todas as informações relevantes para identificar, sem possibilidade de erro, as características físicas da sala de Napoleão em Santa Helena em 1820. Em particular, poderão conferir que a composição molecular do líquido contido na garrafa na frente de Napoleão corresponde, efetivamente, a, digamos, um Châteauneufdu-Pape de 1812 e não a água colorida, ou a uma ficção produzida por um gênio maligno. Ao mesmo tempo, experimentarão as sensações de Napoleão naquele momento, podendo assim comprovar que ele estava realmente observando (e acreditando estar observando) essa garrafa e não, por exemplo, uma mosca voando na frente dele ou uma alucinação provocada pelo envenenamento por arsênico. Também poderão pedir para o cosmocópio mudar algumas das verdades básicas, de modo a aceder a um mundo possível no qual a garrafa na frente de Napoleão não contém vinho, mas água colorida, e comprovar, assim, se ele continuaria acreditando estar observando uma garrafa de vinho. Novos cenários epistêmicos podem ser obtidos simplesmente inserindo condicionais hipotéticos no cosmocópio, o qual se encarregará de produzir as modificações relevante em PQTI.

A função dessa idealização é mostrar como a base PQTI é suficiente para escrutar qualquer outra verdade, real ou meramente possível. Para isso, é importante notar que o cosmocópio não produz, propriamente, conhecimentos. Ele se limita a fornecer certas informações físicas e representações fenomênicas a partir de PQTI. É o usuário s quem determina o valor de verdade de uma sentença M, à luz das evidências, completas, disponíveis no cosmocópio. Embora amplie impressionantemente os conhecimentos básicos de s e proporcione uma capacidade de raciocínio praticamente ilimitada, o cosmocópio não é nada mais que uma “extensão” de s. Em outras palavras, não é o cosmocópio o demônio de Laplace, mas a união do usuário e do cosmocópio, a qual constitui, em última instância, o sujeito epistêmico ideal. Se aceitamos que o usuário no cosmocópio é efetivamente capaz de determinar o valor de verdade de qualquer sentença ordinária, então aceitamos, ipso facto, que PQTI é a base própria da relação de escrutabilidade. Para quem não estiver convencido, Chalmers mostra, em primeiro lugar – e contra possíveis objeções céticas –, que não é possível que PQTI seja verdadeiro e M falso, que ele chama de “argumento da eliminação” (p. 120-5) e, em segundo lugar, que não há verdades ordinárias que fiquem fora do alcance do cosmocópio, que corresponde ao “argumento da cognoscibilidade” (cf. p. 125-34). Contudo, tudo isso não é suficiente para justificar a tese da escrutabilidade a priori. Para esse fim, Chalmers deve mostrar que, uma vez que s entra no cosmocópio, ele aceita que PQTI→M é verdadeiro independentemente de qualquer experiência, isto é, confiando apenas na relação de escrutabilidade a partir de PQTI.

No quarto capítulo, Chalmers apresenta três argumentos definitivos para aceitar a tese da escrutabilidade a priori com base PQTI. O primeiro é o argumento da suspensão do juízo (p. 159-60). Se nos imaginamos, antes de entrar no cosmocópio, em um cenário cético análogo ao das Meditações metafísicas de Descartes, não é claro em que sentido a experiência jogaria um papel qualquer na aceitação de PQTI→M. Sendo que o cosmocópio, durante o processamento da informação, não é influenciado por nenhuma nova evidência empírica, resulta ao menos plausível que também o usuário que previamente suspendeu o juízo chegue a saber PQTI→M sem recorrer à experiência. O segundo argumento é o da antecipação (cf. p. 160-7). Poder-se-ia pensar que, até depois de uma suspensão do juízo, as evidências empíricas continuem jogando algum papel na posterior aceitação de verdades. Poder-se-ia, então, pensar que s, uma vez entrado no cosmocópio, não sabe realmente PQTI→M, mas PQTI & E→M, onde E é uma evidência empírica. Porém, Chalmers nota que, sendo PQTI suficiente para derivar M, E deve necessariamente estar já incluído em PQTI e, portanto, PQTI & E→M é escrutável a priori. Agora, se somamos todas as evidências empíricas F e tentamos mostrar que elas jogam algum papel na aceitação de PQTI→M, encontrar-nos-emos, analogamente, na situação em que PQTI & F→M é escrutável a priori. Finalmente, com o argumento que poderíamos chamar de “o papel justificativo” (cf. p. 167-9), Chalmers mostra que qualquer referência à experiência durante o uso do cosmocópio (pensem no nosso exemplo acerca de nossas percepções “napoleônicas”) não joga realmente um papel justificativo em PQTI→M, mas apenas causal ou de intermediação.

3 A UNIDADE DA CIÊNCIA E A ESTRUTURA DO MUNDO

Mas afinal quais são exatamente as sentenças que compõem PQTI? Em realidade, mais do que uma base determinada, ele representa, para Chalmers, um ponto de partida para definir, em claro espírito carnapiano, classes de verdades básicas mais fundamentais, isto é, subconjuntos mínimos dotados de alguma prioridade conceitual (cf. cap. 6-7), as quais, por sua vez, permitem formular novas versões de escrutabilidade (cf. cap. 8) – todas rigorosamente a priori –, com as mais diversas finalidades filosóficas. Diferentes bases mínimas servem para defender teses epistemológicas, semânticas ou metafísicas distintas, e é justamente nisso que reside a versatilidade da proposta de Chalmers. Embora, ao longo do livro, o autor expresse suas opiniões pessoais com respeito a várias temáticas, a tese da escrutabilidade a priori é, principalmente, um instrumento metafilosófico que pode ser empregado por pensadores das mais díspares tendências. Para dar um exemplo disso, apresentarei, na última parte desta resenha, a relação entre a escolha de bases restritas e a estrutura científica do mundo, a partir do que, para Chalmers, é uma consequência necessária da tese da escrutabilidade a priori, a saber, a unidade da ciência (cf. excurso 10).

A conexão entre a tese da escrutabilidade a priori e a unidade da ciência é bastante evidente quando pensamos que, conforme a primeira, todas as verdades e, portanto, todas as verdades científicas são escrutáveis a partir de uma certa base. Dado que, intuitivamente, as verdades científicas contidas em PQTI são principalmente verdades da física, resulta quase espontâneo considerar o reducionismo como uma consequência da tese da escrutabilidade a priori; o que é, de acordo com Chalmers (p. 302), admissível, mas deve ser tomado com cuidado. Como já vimos, a relação de escrutabilidade não é uma relação de definibilidade e, portanto, o reducionismo sugerido por ela é muito mais fraco que o reducionismo tradicional, fundado sobre critérios de significado dos empiristas lógicos (cf. Hempel, 1965, cap. 4). A escrutabilidade com base PQTI é compatível com o pluralismo e com diferentes enfoques metateóricos (p. 309). Por exemplo, ela não implica – embora tampouco exclua – o fisicalismo. O fisicalista é alguém que aceita, como verdades básicas, algo como PQTI (p. 290-8), isto é, uma versão de PQTI na qual as verdades contidas em P são apenas verdades microfísicas ou, em um caso mais extremo, apenas PTI ou P, isto é, famílias de sentenças puramente físicas (para este último tipo de fisicalista, as qualidades (qualia) seriam totalmente escrutáveis a partir de estados físicos). Contudo, o fisicalismo não é a única (e, segundo Chalmers, nem a melhor) opção de “redução”.

Os metafísicos discutem se o universo inteiro é mais fundamental do que as simples partes: os monistas sustentam que o todo funda as partes, enquanto os pluralistas sustentam que as partes fundam o todo. Analogamente, os fisicalistas sustentam que o físico é fundamental e funda o mental, enquanto os idealistas sustentam que o mental é fundamental e funda o físico, e os dualistas sustentam que tanto o físico quanto o mental são fundamentais (…). PQTI não resolve essas questões: ele é compatível tanto com a perspectiva monista como com a pluralista, e com as perspectivas fisicalista e dualista e, talvez, com a idealista (p. 270).

Novamente, a inspiração é o próprio Aufbau carnapiano, o qual, além de oferecer bases alternativas (fenomênica, fisicalista ou lógica), mostra indiferença ou, melhor dito, “tolerância” com respeito a várias posições filosóficas (cf. Carnap, 1967 [1928], §75, §177-8; Friedman, 1999, p. 132 ss.). Para Chalmers, todos os conceitos candidatos para formar parte de PQTI podem constituir alternativamente, dependendo de como sejam interpretados, elementos básicos ou derivados da relação de escrutabilidade (exceto T e I, os quais parecem formar necessariamente parte da base). Como demonstração disso, no sétimo capítulo, são explicitadas as principais opções na escolha da classe mínima de conceitos básicos. Com relação a P, por exemplo, é igualmente aceitável definir os conceitos microfísicos como básicos (fisicalismo) ou como escrutáveis, por “ramseyficação” de conceitos macrofísicos e observacionais (p. 319-21). Quanto a Q, podemos considerar as qualidades secundárias (como cores, sons etc.) como primitivas, ou escrutáveis de interações fenomênicas entre sujeitos e objetos (funcionalismo conceitual) (cf. p. 321-4). Há, depois, outros conceitos básicos de difícil classificação, cujo status epistemológico e metafísico é objeto de disputa. Os conceitos de espaço e tempo e todas as expressões nômicas, por exemplo, podem ser considerados primitivos com respeito às entidades físicas e aos estados fenomênicos, mas também escrutáveis, idealisticamente, de conceitos fenomênicos ou, alternativamente, de certas distribuições (micro ou macro) físicas (cf. p. 325-40). É possível ainda que as verdades mais básicas da física sejam escrutáveis, em realidade, de verdades metafísicas mais primitivas (quidditas) (cf. p. 347-53). Tomando certas verdades metafísicas como, por exemplo, a irredutibilidade dos estados psíquicos, isto é, o pampsiquismo, que é uma posição cara a Chalmers (cf. 1996, p. 293-301; 2012, p. 359-61) – como básicas, é possível redefinir inteiramente a ordem das outras verdades escrutadas.

Como consequência dessa liberalidade filosófica, no oitavo capítulo, várias combinações compactas de conceitos básicos são apresentadas explicitando a estrutura do mundo, a qual é, a partir delas, escrutável (p. 406-22). Assim, caracterizar a base como uma classe de sentenças sobre coordenadas espaço-temporais conduz a conceber o mundo como uma estrutura quase matemática; escolher regularidades nômicas implica caracterizar a estrutura do mundo como fundamentalmente legiforme; uma base fenomênica pode definir uma estrutura análoga à do Aufbau ou, se nela são introduzidas certas verdade metafísicas, pampsiquista; finalmente, se a base é metafísica, a estrutura resultante será caracterizada pelas propriedades das quidditas aceitas. Bases híbridas e estruturas intermédias podem satisfazer outras sensibilidades metateóricas. Trata-se, contudo, apenas de esboços, já que (além do fato de não ser esta lista exaustiva), em cada caso, haveria – como Chalmers mesmo reconhece – que dedicar muito mais detalhe ao vocabulário, à forma das verdades básicas e às modalidades de construção das outras verdades. Chalmers declara, no final de sua obra, que

eu não escrevi nenhum desses Aufbaus aqui (…), [mas] na medida em que a tese da escrutabilidade a priori é verdadeira, algum desses Aufbaus será possível. Haverá um vocabulário básico limitado no qual expressar as verdades básicas. Outras verdades serão deriváveis a partir dessas, ou por inferência a priori ou por uma definição aproximada. A estrutura geral dependerá da visão filosófica de cada um sobre a fenomenologia, o espaço-tempo, as leis da natureza, a quidditas, a normatividade, a intencionalidade, a ontologia, e assim por diante. Os detalhes dependerão de questões empíricas sobre física, fenomenologia e outros domínios. Mas temos razão de crer que um Aufbau bem-sucedido existe, em algum lugar do espaço filosófico (p. 429-30).

Estudar o livro de Chalmers, e empregar suas sofisticadas ferramentas analíticas, sem dúvida, aproxima-nos desse lugar.

Notas

1 Há, ainda, um terceiro “herói” no livro de Chalmers, Frege, do qual o autor pretende resgatar, por meio de certas aplicações da noção de escrutabilidade, a teoria do significado e a distinção entre sentido e referência.

2 Estes, além de constituírem-se a partir de bases distintas, podem ser, principalmente, inferenciais ou condicionais. A distinção remete às modalidades de conhecimento próprias de, respectivamente, um demônio laplaceano real ou meramente possível. Com o fim de evitar uma série de consequências paradoxais – in primis, o paradoxo de Fitch sobre a cognoscibilidade (cf. Fitch, 1963; Chalmers, 2012, p. 29 ss.) –, Chalmers expressa uma clara preferência para o segundo tipo de escrutabilidade, mas não precisamos aqui entrar nos detalhes. Para isso, ver Chalmers (2012, cap. 2).

3 Chalmers distingue, no texto, “escrutabilidade” (com caixa baixa), para se referir a uma relação de escrutabilidade, de “Escrutabilidade” (com caixa alta), para introduzir uma tese sobre escrutabilidade (p. 39).

4 Note-se certa ambivalência, por parte de Chalmers, na caracterização das verdades como “sentenças” ou “proposições” verdadeiras, na apresentação de diferentes relações ou teses de escrutabilidade. Em geral, eu não diferenciarei aqui entre os dois termos, mas empregarei de preferência “sentenças”, conforme as recomendações de Chalmers (cf. p. 42-7; excurso 3).

5 São excluídas, das “verdades macroscópicas ordinárias”, as verdades sobre a matemática, a moralidade, a ontologia, a intencionalidade, a modalidade e algumas outras, as quais são tratadas como casos especiais no sexto capítulo. Não apresentarei o conteúdo desse capítulo no corpo da resenha, mas vale a pena precisar duas questões. A primeira, terminológica, é que o atributo “macroscópico”, com relação às verdades escrutáveis, não se opõe necessariamente a “microscópico”. Verdades relacionadas com a estrutura da matéria, por exemplo, são escrutáveis. Apenas algumas verdades no domínio quântico são excluídas pelas verdades macroscópicas ordinárias e representam casos especiais. Em segundo lugar, é importante ressaltar que inclusive essas verdades especiais são escrutáveis, uma vez que sejam aportados certos ajustes na base (discutidos nos sexto e sétimo capítulos).

Referências

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Lorenzo Baravalle – Centro de Ciências Naturais e Humanas. Universidade Federal do ABC, Brasil. E-mail:  lorenzo_baravalle@yahoo.it

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[DR]

 

Locos y degenerados. Una genealogía de la psiquiatría ampliada – CAPONI (SS)

CAPONI, Sandra. Locos y degenerados. Una genealogía de la psiquiatría ampliada. Buenos Aires: Lugar Editorial, 2015. Loucos e degenerados. Uma genealogia da psiquiatria ampliada. Rio de Janeiro: Editora Fiocruz, 2012. Resenha de: VALENCIA, María Fernanda Vásquez. La biopolítica de los sufrimientos psíquicos. Scientiæ Studia, São Paulo, v.13, n. 2, p. 459-69, 2015.

En el año 2012, la editorial Fiocruz publicó la versión original en portugués del libro Loucos e degenerados. Uma genealogia da psiquiatria ampliada (reimpresa en 2014) de la investigadora y filósofa Sandra Caponi, versión que fue nominada en 2013 al premio Jabuti – uno de los más relevantes y tradicionales premios del libro en Brasil – en la categoría “psicología e psicoanálisis”. Esta obra que ha ido adquiriendo gran reconocimiento entre profesionales e investigadores latinoamericanos, especialmente brasileños (cf. Rebelo, 2013; Santos, 2013; Martínez, 2013), dedicados al estudio de la historia de las ciencias, la medicina, la salud mental y la psiquiatría, ahora puede ser consultada en idioma español, gracias a la reciente edición de Lugar Editorial de Argentina. Y será esa edición en español que aquí se citará y referirá.

Durante los años 1960 y 1970, comienza a desarrollarse una serie de críticas sobre la forma cómo la psiquiatría ejerce su poder en las poblaciones. Esas críticas provienen no solo de investigadores de las ciencias sociales y humanas, sino también de algunos psiquiatras, muchos de ellos interesados en evidenciar el internamiento forzado y las pésimas condiciones de vida de las personas diagnosticadas como enfermos mentales, así como la falta de validez del diagnóstico psiquiátrico (cf. Goffman, 1974; Foucault, 1961, 1963; Cooper, 1968; Laing, 1961; Basaglia, 1987; Rosen, 1974; Szasz, 1973). A las críticas dirigidas a las instituciones manicomiales, la lucha por la desinstitucionalización del tratamiento de las alteraciones mentales, la medicalización forzada y la crítica al modelo médico, se suman un conjunto de cambios sociopolíticos, tales como el establecimiento del neoliberalismo, la decadencia del totalitarismo soviético, las dictaduras latinoamericanas, conformando el contexto bajo el cual se estableció un movimiento, que algunos autores prefieren denominar como “anti-psiquiátrico” (cf. Perez, 2012; Roca, 2011).

Sin embargo, la desmanicomialización, que se extendió por decenas de países, en parte gracias a la lucha de dicho movimiento iniciado en Inglaterra, Italia y Estados Unidos, y que significó cambios importantes, en términos jurídicos y políticos, en algunos planos de salud de ciertos países, también permitió el aumento de la medicalización y la hegemonía de las empresas farmacéuticas, como mediadores de una nueva estrategia neoliberal que redujo la problemática a la administración masiva de medicamentos.

En Locos y degenerados, Caponi muestra que lejos de una reflexión crítica frente a los postulados cuestionados por los defensores de los derechos de las personas diagnosticadas como enfermos mentales, representados muchas veces por el movimiento anti-psiquiátrico, ocurrió una radicalización y un retorno a las viejas tesis de la psiquiatría biológica del siglo xix (cf. p. 63).

Ese retorno, afirma la autora, puede ser explicado, entre otras razones, por la recuperación de la hegemonía de la psiquiatría biológica, representada por los denominados neokrapelinianos, quienes, durante los años 1970, consiguen imponer una visión determinista, biologicista y neurológica de las enfermedades mentales, que se conserva hasta hoy y que influenció decididamente la edición del Manual diagnóstico y estadístico de los trastornos mentales (DSM), concretamente a partir del tercer DSM. Sumado a ese proceso disciplinar, el acelerado desarrollo de los psicofármacos, la idea de que las enfermedades mentales son producidas por un “desequilibrio químico” en el cerebro; el avance de los estudios genéticos, de las nuevas tecnologías hechas para “detectar” y “evidenciar” variaciones y cambios en el cerebro, así como los estudios estadísticos, aseguró el retorno de las tesis de la psiquiatría del siglo xix, reforzando todavía más el reduccionismo biológico sobre las enfermedades mentales.

Ese retorno, como bien muestra Caponi en su libro, habla de la persistencia, continuidad y discontinuidad de un proceso histórico que extiende sus raíces hasta la segunda mitad del siglo xix y que comienza, como afirma la autora, siguiendo la propuesta de Michel Foucault, con el Tratado de las degenerescencias de Benedict Augusto Morel publicado en 1857. La consolidación y transformación de la teoría de la degeneración marca la emergencia de lo “no patológico” y, al mismo tiempo, la expansión del poder psiquiátrico como dispositivo de defensa de la sociedad (cf. Foucault, 2001).

A partir de Locos y degenerados es posible observar cómo la articulación de mecanismos disciplinares y reguladores que involucran la creación de una teoría, es decir, la teoría de la degeneración, el nacimiento como disciplina científica y médica de la psiquiatría, la relación de esta disciplina con la justicia y la definición de un conjunto de dispositivos de internación, clasificación y regulación, posibilitaron la emergencia del discurso sobre el anormal.

Desde 1857 el saber psiquiátrico se reorganiza, amplía sus fronteras más allá de lo estrictamente asilar hasta convertirse en una estrategia biopolítica encargada de “resolver” gran parte de los problemas sociales. Ese mecanismo de expansión, se debió, entre otros motivos, a la transformación de su objetivo de cura en un objetivo orientado a la prevención, así como a la constitución de una red institucional que pudiera establecer interconexiones con diferentes instancias de poder.

La conformación de esa psiquiatría ampliada involucra una transformación epistemológica del concepto de degeneración, como lo muestra Caponi a lo largo de su libro, que persiste en la psiquiatría contemporánea, travestido y transfigurado bajo otras categorías psiquiatrías como las constituciones psíquicas o las predisposiciones hereditarias.

A través de Locos y degenerados es posible también entender como la degeneración se convierte en un programa de investigación, que no solo fue fructífero en Francia, sino también en Alemania, Italia, España y América Latina. Y, al mismo tiempo, cómo ese programa agregó todo un conjunto de profesionales, desde médicos, neurólogos, psiquiatras, pasando por abogados, jueces, criminólogos, higienistas, sociólogos, hasta políticos, periodistas y literatos. La degeneración estuvo relacionada con una serie de problemas diversos, tales como la purificación de la raza, la mistura racial, el progreso de las naciones, la eugenesia, la criminalidad, la pedagogía y muchos otros temas relativos a la higiene pública y social.

En su libro, Caponi realiza un interesante estudio histórico-epistemológico, en el que analiza las condiciones de posibilidad y de emergencia de esa psiquiatría ampliada como un mecanismo biopolítico que, a partir de la segunda mitad del siglo xix, permitió que el saber psiquiátrico expandiera sus fronteras al estudio e intervención de todas aquellas conductas, desvíos, anomalías, vicios y sufrimientos psíquicos que podían representar situaciones de conflicto o de desorden social. En la constitución de esa psiquiatría ampliada, el concepto de degeneración y la teoría de Morel tuvieron un papel central en la configuración de un marco explicativo que permitió intervenir sobre todo tipo de comportamientos categorizados como desviados.

Analizando la psiquiatría contemporánea, Caponi realiza un recorrido histórico que evidencia las permanencias y discontinuidades de ese concepto a lo largo de la configuración de la psiquiatría como disciplina científica hasta los actuales manuales de diagnóstico (DSM) hechos por la American Psychiatric Association (APA). En su opinión, los últimos años muestran una tendencia en las sociedades modernas a pensar todos los conflictos o dificultades en términos médicos y, más precisamente, en términos psiquiátricos. Paradigma que es reforzado por el aumento, cada día más alarmante, de nuevos diagnósticos que convierten situaciones y comportamientos de la vida cotidiana, como la tristeza, la preocupación, la pérdida del apetito, los problemas familiares o laborales, la pérdida de un ser querido, en síntomas o en patologías psiquiátricas, multiplicando hasta el infinito el campo de injerencia del poder psiquiátrico. Según Caponi, la proliferación de diagnósticos psiquiátricos se legitima con la publicación del tercer Manual de diagnóstico de trastornos mentales (DSM iii), en 1980. De hecho, en la última edición de ese manual (DSM v) en 2013, se incluyen 300 tipos de diagnóstico, siendo el luto y la rebeldía caracterizados como nuevos disturbios emocionales. La rebeldía, especialmente adolescente, es denominada ahora como “trastorno de oposición desafiante” (cf. Chacón, 2012). El determinismo biológico y hereditario que sirve de base para justificar la prevención y la intervención terapéutica descontextualiza y oscurece los problemas concretos que están relacionados con ese tipo de comportamientos o de situaciones cotidianas. Por eso, como afirma acertadamente Caponi, asistimos a una minimización de nuestra capacidad de reflexionar sobre nosotros mismos y ese determinismo restringe las posibilidades de crear estrategias más efectivas para dar respuesta a nuestros propios problemas (p. 16). Es precisamente ese presente problemático que hace pertinente el estudio histórico de las condiciones de posibilidad que permitieron que la psiquiatría se transformara en una estrategia biopolítica de defensa de la sociedad, teniendo como tarea principal administrar e anticipar las múltiples formas de comportamiento que pueden, tarde o temprano, afectar el orden social.

La importancia del estudio de Sandra Caponi es tanto metodológica como teórica. En primer lugar porque integra en un mismo análisis la historia conceptual de Georges Canguilhem y la genealogía de Michel Foucault, tomando de ambos elementos que permiten comprender las condiciones de emergencia y de posibilidad de la psiquiatría ampliada. Además, el libro ofrece un panorama completo del proceso a través del cual el concepto de degeneración y la teoría de Morel van sufriendo una serie de transformaciones, pero también de permanencias, evidentes en las teorías psiquiátricas que suceden los trabajos de Morel, concretamente los estudios de Valentin Magnan e Emil Kraepelin.

A lo largo de los seis capítulos Caponi desarrolla su propuesta teórica y metodológica para dar cuenta del contexto histórico de constitución de esa biopolítica de la población y de la administración de los sufrimientos psíquicos, enmarcada en una medicina de lo no patológico. En el primer capítulo titulado “Del tratamiento moral a la psiquiatría ampliada”, analiza la manera como se sucede el desplazamiento de una comprensión de la locura como representación, como fenómeno histórico e social, hacia la constitución de un discurso psiquiátrico entendido como dispositivo de poder y de saber. Dicho análisis es hecho a partir de una lectura integrada y profunda de cuatro libros de Michel Foucault (Historia de la locura en la época clásica; Vigilar y castigar; El nacimiento de la clínica; El poder psiquiátrico) a través de los cuales Caponi realiza una doble argumentación. Por un lado, muestra cómo se da, en la obra del autor francés, ese desplazamiento así como las discontinuidades y rupturas en los argumentos que ese autor utiliza para comprender las condiciones de emergencia y de posibilidad de la psiquiatría ampliada. Analizar cómo Foucault reorganiza sus argumentos a partir de una nueva perspectiva metodológica y teórica, que integra el problema de la relación entre el poder y el saber y ya no solamente el asunto de la locura como representación o percepción social, permite visibilizar la manera cómo se establecen y circulan relaciones de poder dentro del saber médico psiquiátrico. Entender cómo se articula el saber, la verdad y el poder, en relación con ese fenómeno social e histórico llamado locura, abre toda una constelación de nuevos y variados problemas relativos al poder disciplinar, la normalización y las estrategias y tácticas de control al interior de la institución asilar y el saber médico psiquiátrico.

A partir de esa lectura, Caponi se adentra en la psiquiatría clásica, analizando especialmente los estudios de Pinel y Esquirol, para mostrar cómo ese tipo de psiquiatría se aleja de la medicina y la clínica anatomopatológica y usa el interrogatorio psiquiátrico como dispositivo disciplinar y el “cuerpo ampliado” de la familia como un cuerpo fantasmagórico a partir del cual es posible ubicar un conjunto de conflictos y patologías, así como los antecedentes individuales de la enfermedad. Para Caponi, el interés por ese cuerpo ampliado comienza en la psiquiatría clásica, pues es a través de los interrogatorios que involucran un conocimiento sobre los antecedentes familiares, a partir de los cuales es posible comprender la trama de redes causales que operan en cada caso concreto, para determinar la variedad y la especie de alienación y su tratamiento. El interrogatorio evidencia entonces la existencia de elementos que desencadenan el proceso patológico al interior de las relaciones familiares (p. 44).

En ese mismo capítulo muestra cómo el tratamiento moral, definido por Pinel como la única forma de restablecer la salud de los alienados, puede ser entendido como un dispositivo disciplinar orientado a la disciplinarización de los cuerpos y a la vigilancia continua al interior del asilo. Según la autora, no es que la psiquiatría sea una disciplina en la que el cuerpo está ausente, como argumentaba Foucault; para ella, el cuerpo juega un papel decisivo en esa red, no solamente porque desde sus inicios la psiquiatría estuvo preocupada por encontrar correlaciones entre enfermedades mentales y lesiones, sino también porque el cuerpo se localiza en el centro de la terapéutica asilar, por lo menos en el caso de Pinel, y a partir de la segunda mitad del siglo xix, será la herencia mórbida la encargada de localizar las patologías mentales en el cuerpo, particularmente en el cerebro. A través del recorrido histórico que la autora realiza en el primer capítulo es posible comprender que la ausencia de ese cuerpo de la anatomopatología, el diagnóstico binario (loco, no loco), la descripción de superficie de los síntomas, la clasificación de las enfermedades tomando como modelo la clasificación botánica de Lineo y el proceso de cura vinculado con la restitución de conductas y valores morales “permiten definir el marco peculiar por el cual el poder psiquiátrico ingresa en la sociedad disciplinar” (p. 49).

“Clima, cerebro y degeneración en Cabanis” es el título que recibe el segundo capítulo del libro. Analizando específicamente la obra Rapports du physique et du moral de l’homme (1802) del ideólogo francés Georges Cabanis, Caponi muestra cómo antes de que Gall publicase su estudio sobre anatomía y patología del sistema nervioso, en Cabanis ya existía un interés por articular lo físico y lo moral, atribuyendo al cerebro y al sistema nervioso un papel central en la definición de la moralidad y de las conductas humanas.

Las ideas localizacionistas de Cabanis y el modelo explicativo que generó sirvieron de punto de partida, como muestra la autora, para que los teóricos de la degeneración pudieran, a partir de la segunda mitad del siglo xix, explicar las enfermedades mentales como alteraciones de las funciones o lesiones localizadas en el cerebro. En términos teóricos, el estudio de Cabanis permite comprender cómo el concepto de degeneración, que hasta ese momento era usado por la historia natural, ingresa en el campo médico. Tomando a Buffon como referencia, Cabanis analizará las modificaciones producidas en los cuerpos y en las conductas como efecto del calor y la humedad y estudiará la manera en que las alteraciones climáticas producen nuevas enfermedades y variaciones externas en los cuerpos, así como las influencias que produce sobre el cerebro. En Cabanis, la degeneración se presenta en el interior del cuerpo de los individuos, de modo que lo que degenera son los órganos, los tejidos y los fluidos corporales, explicando también la degradación de las facultades físicas y morales. Según Caponi, Cabanis inaugura una concepción médica de la moralidad, posibilitando también que se desarrolle un discurso optimista sobre las posibilidades de perfeccionamiento del género humano. De ese modo, si es posible pensar el mejoramiento animal y vegetal, lo es también el de los seres humanos. La regeneración como un plan de mejoramiento de las condiciones morales y físicas de los individuos y de los grupos aparece en ese horizonte discursivo entrelazado a las medidas higiénicas que permiten alterar los efectos nocivos del clima y modificar los comportamientos y los cuerpos humanos (cf. p. 75).

A través del segundo capítulo Caponi muestra la manera en que Cabanis, al relacionar la teoría de los humores, las influencias climáticas y la anatomopatología, permite el desarrollo de un conjunto de reflexiones y de estrategias de intervención sobre los cuerpos, en las que el cuerpo es comprendido a través de la integración de lo físico, lo moral y lo intelectual y, al mismo tiempo, un discurso que imagina el mal funcionamiento del cuerpo, especialmente del cerebro, como explicación de nuestros actos. En consecuencia, la regeneración moral de los individuos y de las razas a través de la mediación de la higiene y de la educación se convierte poco a poco en un esperanzador medio de intervención y en referencia privilegiada para la resolución de diversos conflictos sociales y morales.

En el tercer capítulo denominado “Benedict August Morel y la emergencia de la teoría de la degeneración”, Caponi analiza las condiciones de emergencia de la psiquiatría ampliada a través de la instauración, uso y consolidación de la teoría de la degeneración de Morel durante la segunda mitad del siglo xix. Esa teoría establece una clasificación etiológica de las enfermedades mentales, que permite definir grupos y familias de degenerados, entendidos como una desviación mórbida del tipo normal de la humanidad. A pesar de que, en Morel, los procesos de degeneración son siempre el resultado de diversas influencias mórbidas tanto físicas como morales, existe un elemento que se destaca entre otros como la causa general e integradora, esto es, la transmisión hereditaria. A diferencia de las teorías clásicas (Pinel, Esquirol) en las cuales la transmisión hereditaria actuaba como una causa más, y en las cuales lo que se heredaba eran patologías semejantes, por herencia similar, en la teoría de Morel, las causas predisponentes y las causas determinantes se combinan de tal manera que pueden llegar a producir en los descendientes enfermedades distintas a las de sus progenitores y aún pueden llegar a agravarse. Ese tipo de transmisión conocida como herencia disimilar o de transformación fue clave, junto con la referencia a las lesiones cerebrales, para que el saber psiquiátrico ampliase sus fronteras más allá del ámbito asilar. La combinación de esas causas permitía crear categorías de individuos cujas semejanzas externas servían de indicadores para los diferentes tipos de degeneración, creando así los conocidos estigmas de degeneración, marcas, o signos que se presentaban en los individuos, en los grupos, que podían agravarse y ser transmitidos hereditariamente. Esa combinación, muchas veces azarosa y aleatoria, definía un espacio extendido y de fronteras difusas, como lo muestra Caponi en el tercer capítulo, en el que fueron ubicadas las denominadas enfermedades mentales y, al mismo tiempo, todo un conjunto de comportamientos descritos como aberrantes, anormales, o desviados en relación con una norma biológica, social, jurídica y pedagógica.

De ese modo, en ese capítulo, Caponi analiza detalladamente la conformación de ese suelo epistemológico que posibilitó la creación y posterior consolidación de una psiquiatría ampliada, obcecada en clasificar y patologizar los más diversos comportamientos, así como el modo en que la teoría de la degeneración se ubica en ese espacio difuso en el que desaparecen las barreras taxativas entre lo normal y lo patológico. La degeneración explicará los comportamientos más graves y más leves como el resultado de causas físicas, intelectuales, sociales y morales interrelacionadas, así como su vinculación con las predisposiciones mórbidas, los estigmas de degeneración y la herencia patológica. Ese marco teórico, afirma Caponi, es fundamental para la prevención y la anticipación de la locura fuera del espacio asilar.

En el cuarto capítulo, titulado “La consolidación de un programa de investigación: Magnan y las patologías heredo-degenerativas”, la autora indaga sobre la repercusión de la teoría de la degeneración de Morel en la psiquiatría francesa de finales del siglo xix. Caponi se concentra en analizar dicha influencia en la definición de nuevos cuadros clasificatorios, en mostrar cómo a partir de Magnan la degeneración es entendida como un desequilibrio cerebral y la forma en cómo se desarrolla un programa de investigación interesado en la medicalización de los desvíos menores, de los comportamientos cotidianos que ingresan paulatinamente en el campo de saber y de intervención psiquiátrica.

Desde la segunda mitad del siglo xix e hasta 1920, la teoría de la degeneración se consolidó como el fundamento científico que legitimó la construcción de nuevas clasificaciones de patologías mentales e intervenciones médicas sobre las conductas de individuos y de grupos. La consolidación de ese programa de pesquisa se evidencia en la multiplicidad de artículos que durante esos años discuten la problemática en las principales revistas médicas francesas, Annales d’Hygiene Publique et de Mèdecine Legal y los Annales Médico-Psichologiques. A partir de los estudios de Valentin Magnan, uno de los principales discípulos de Morel, el problema de la degeneración es entendido como un desequilibrio cerebral o una desarmonía del cerebro, caracterizado por estigmas físicos, psíquicos e delirios. El desequilibrio, que sustituye la búsqueda por lesiones cerebrales específicas, permite entender la diversidad de los síntomas de los degenerados en función de la parte del cerebro afectada, los diversos cuadros patológicos que puede sufrir un individuo a lo largo de su vida, y la forma en que, a través de la herencia, diversas manifestaciones y comportamientos pueden ser transmitidos a los descendientes, evolucionando y llegando a ser irreversibles. La definición de esos cuadros sintomáticos como “síndromes de degeneración” facilita la clasificación de ese conjunto variable y diverso de comportamientos ubicados en una región difusa entre lo normal y lo patológico. Como afirma Caponi, higienistas, médicos y criminólogos se lanzan a la tarea de estudiar y describir ese amplio espectro de los “síndromes” que incluían desde manías, delirios, perversiones y demencias hasta pequeñas anomalías de comportamiento como miedos, temores y tristezas. Sobre la identificación entre las conductas cotidianas y las patologías psiquiátricas se fueron construyendo las bases epistemológicas de la psiquiatría moderna o, en otras palabras, de esa psiquiatría ampliada, que asume cada gesto, comportamiento y conducta como síntoma indicativo de un síndrome, trastorno o patología por venir.

En el quinto capítulo, denominado “Emil Kraepelin y la persistencia de la degeneración en la psiquiatría moderna”, Caponi continua mostrando cómo las mismas preocupaciones y los mismos intereses presentes en los teóricos degeneracionistas sirven de fundamento a los estudios de Kraepelin, conocido como el padre de la psiquiatría moderna. En ese capítulo, la autora se detiene a analizar los elementos de ese programa de pesquisa que persisten en la denominada psiquiatría moderna y encuentra que, aunque de manera transfigurada, metamorfoseada y disfrazada, buena parte de las cuestiones presentes en Kraepelin era también la de los degeneracionistas. Lo que resulta interesante puesto que la psiquiatría actual se reconoce heredera directa de esa tradición científica inaugurada por Kraepelin. Realizando un delicado y detallado análisis de comparación histórica entre algunos de los trabajos del psiquiatra alemán y de Morel, Magnan y otros degeneracionistas, Caponi muestra, alejándose de ciertos análisis historiográficos que pretenden colocar a Kraepelin en un horizonte discursivo diferente al de Morel, que muchos de los argumentos y estrategias de estudio de los desvíos y de los fenómenos patológicos se mantuvieron, casi de manera intacta, en los 50 años que separan a Kraepelin de Morel: la vinculación de lesiones cerebrales con las patologías psiquiátricas y las psicosis de degeneración; la preocupación por explicar la transmisión hereditaria de patologías, comportamientos y hechos sociales; la búsqueda de una clasificación nosológica precisa; la referencia a los estudios estadísticos y de psiquiatría comparada entre países y regiones; y el uso de fichas con preguntas estandarizadas que fueron utilizadas como estrategia para fundamentar de manera objetiva las clasificaciones nosológicas y las locuras de degeneración (cf. p. 141). Si bien, como muestra la autora, las fichas son una novedad en el repertorio de Kraepelin, tanto él como Morel, no solamente se preocuparon por definir estrategias analíticas para clasificar enfermedades o establecer nosologías, sino que también pretendieron crear dispositivos de intervención del espacio social, capaces de anticipar, prevenir y controlar los comportamientos anormales o desviados y las patologías mentales. Esa psiquiatría preventiva, orientada a la regeneración y a la moralización de masas por medio de medidas higiénicas presente en el discurso de Morel, se agudiza en Kraepelin como una forma de legitimar intervenciones psiquiátricas en el tejido social para anticipar desvíos y conductas indeseables.

A lo largo de ese capítulo, Caponi analiza detalladamente las transformaciones, limitaciones y permanencias del concepto de degeneración en Kraepelin, también analiza la biologización de los hechos sociales y la forma en que el saber estadístico se integra a su discurso para legitimar tanto las clasificaciones como las intervenciones psiquiátricas.

Esas ideas tienen continuidad en el sexto capítulo, titulado “Herencia y degeneración: de Kraepelin a los neo-kraepelinianos”, en el que Caponi expone cómo la problemática de la degeneración forma parte de cada una de las diferentes clasificaciones de enfermedades mentales que aparecen en las ediciones del Manual de psiquiatría clínica de Kraepelin, texto que marcó considerablemente la psiquiatría de las primeras décadas del siglo xx, no solamente en Europa y los Estados Unidos, sino también en América Latina. El capítulo expone cómo algunas de las tesis defendidas por el psiquiatra alemán fueron retomadas y recuperadas por la psiquiatría moderna, durante la década de los años 1970, específicamente por un grupo de psiquiatras de la Universidad de Washington, los denominados neo-kraepelinianos, teniendo una influencia directa, como muestra la autora, en la reformulación de la clasificación de diagnósticos elaborada por la Asociación de Psiquiatras Americanos (APA), concretamente a partir de su tercera edición publicada en 1980. El objetivo principal del capítulo es mostrar como las bases epistemológicas de Kraepelin reaparecen en el discurso de los neo-kraepelinianos, analizando las continuidades y diferencias entre esos discursos, para comprender las razones que llevaron a ese grupo de investigadores a reconocer como válidas las premisas construidas por la psiquiatría de la segunda mitad del siglo xix. A pesar de que los estudios de los neo-kraepelinianos parecen indicar una actualización y una continuidad en el esfuerzo por definir, a partir de los últimos descubrimientos de la neurofisiología cerebral, la estadística y la genética, clasificaciones confiables para las patologías mentales, Caponi argumenta que, en esencia, se trata de los mismos criterios de exclusión y de inclusión de la época de Kraepelin. En la opinión de la autora de Locos y degenerados, una misma matriz epistemológica persiste en todos esos discursos, marcada por un claro determinismo biológico que convierte los sufrimientos individuales, la historia de vida de los sujetos, en marcadores que pueden ser medidos y definidos patológicamente.

Aunque históricamente existen también claras diferencias entre todos esos discursos, y de que no se trata de afirmar que sean esencialmente iguales, Caponi insiste en que la psiquiatría actual continua interesada en desvendar los mismos secretos que estimularon al programa de investigación de los degeneracionistas, o sea, la relación entre las patologías psiquiátricas y la herencia, la construcción de una psiquiatría preventiva atenta al carácter evolutivo de las patologías y la búsqueda por la localización cerebral de los sufrimientos psíquicos. Caponi cierra con broche de oro su libro realizando algunas reflexiones finales en las que muestra la pertinencia del análisis histórico, epistemológico y conceptual como una forma de indagar y criticar problemas del presente.

Finalmente, esta reseña no pretende ser más que una aproximación parcial a los interesantes y provocadores planteamientos de Sandra Caponi en Locos y degenerados, por lo que invito a que los lectores se acerquen a este libro, que no solamente es una lectura obligada para quienes estudien ese tipo de temáticas, sino que también, gracias a la apasionada y amena escritura usada por la autora, resulta de gran provecho aún para aquellas personas que no estén interesadas directamente en esas problemáticas.

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María Fernanda Vásquez Valencia – Bolsista CAPES, PEC-PG. Programa de Pós-Graduação Interdisciplinar em Ciências Humanas. Universidade Federal de Santa Catarina, Florianópolis, Brasil. E-mail:  mfdavasquez@gmail.com

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Jacques Ellul and the technological society in the 21st century – JERÓNIMO et al (SS)

JERÓNIMO, Helena Mateus; GARCIA, José Luís; MITCHAM, Carl (Org.). Jacques Ellul and the technological society in the 21st century.  Dordrecht/Heidelberg/New York/London: Springer, 2013. Resenha de: BARRIENTOS-PARRA, Jorge. Revisitando o pensamento de Jacques Ellul na sociedade do século XXI. Scientiæ Studia, São Paulo, v.13, n. 2, p. 425-30, 2015.

O chamado progresso tecnocientífico, norteado exclusivamente pelo valor da eficiência, provoca diversos efeitos ambivalentes na sociedade e na biosfera advindos da relação de efeito mútuo existente entre as criações humanas – dentre elas a técnica – e a vida social e o meio ambiente. Assim sendo, é imperioso o estudo da condição do homem na sociedade tecnológica, tendo como objetivo a defesa da dignidade humana e a busca de um possível equilíbrio entre a ação antrópica e o meio envolvente para alcançar um desenvolvimento técnico e econômico que satisfaça nossas necessidades materiais, mas sem colocar em perigo a sociedade e a biosfera.

Nesse contexto, veio a lume a coletânea Jacques Ellul and the technological society in the 21st Century, publicada pela Springer, onde se discute a obra pluri e transdisciplinar de Jacques Ellul (1912-1994) no centenário de seu nascimento. O pensamento de Jacques Ellul é quase desconhecido no Brasil e esta obra, ainda que em inglês, certamente alcançará o seu público não somente no âmbito especializado da sociologia e da filosofia da técnica, mas também nas áreas de ciências sociais e de ciências humanas em geral, uma vez que trata de temas relevantes na fronteira de várias disciplinas e também das encruzilhadas colocadas pela tecnologia para o dia-a-dia dos homens e das mulheres de nosso século.

Ellul se inscreve entre os pensadores que no século XX ousam questionar os “sagrados” postulados da ciência e da técnica. Ele reconhece a influência intelectual de Karl Marx, a quem credita uma grande parte de seu desenvolvimento intelectual. Reconhece também a influência de Sören Kierkegaard, menos como filósofo, pai do existencialismo, do que como pensador que fraternalmente entrega sua experiência de sofrimento e de amor, e de Karl Barth, teólogo suíço que denunciou o hitlerismo, pregou a volta às Escrituras e a adaptação do Evangelho ao tempo presente.

Os editores sublinham a importância da reflexão de Jacques Ellul refletida em inúmeras obras que superam os limites das estreitas fronteiras disciplinares, entre as quais destacam Propagandes (1962), que examina essa técnica de grande influência sobre a massa e sobre o indivíduo da sociedade tecnológica tanto nas ditaduras como nos regimes democráticos, sendo utilizada como ferramenta para moldar o homem à sociedade e ao consumo; The political illusion (1967a), um estudo de como o político e a política são transformados pela técnica levando a uma dupla ilusão: a dos políticos que creem controlar a máquina do Estado e a dos cidadãos que creem poder orientar e controlar a política e os políticos; Métamorphose du bourgeois (1967c), que estuda como as classes sociais são transformadas na sociedade técnica; Autopsy of revolution (1971), De la révolution aux révoltes (1972a) e Changer de révolution: l’inéluctable prolétariat (1982), três obras sobre a revolução, nas quais estuda as possibilidades da revolução na atual sociedade técnica. Finalmente, em L’empire du non sens (1981b), analisa como a arte é também transformada pelo meio técnico.

Ellul publicou vários outros livros dedicados a questões históricas, tais como Histoire de la propagande (1967b) e, pode-se dizer, sua obra clássica, Histoire des institutions em quatro volumes, assim distribuídos:  L’antiquité (1972b); Le Moyen-Âge (1975a); XVIe – XVIIIe siècle (1976); Le XIXe siècle (1979). Ellul escreveu também sobre questões sociológicas, tais como Exégèse des nouveaux lieux communs (1966), estudo que, seguindo a Gustave Flaubert (Dictionnaire des idées reçues), recapitula os clichês mentais e os lugares comuns da contemporaneidade; Les nouveaux possédés (1973), texto no qual Ellul mostra que, a despeito da racionalidade do homem moderno, há uma florescente religiosidade na sociedade técnica; Trahison de l’occident (1975b), que estuda os descaminhos de todas as civilizações inclusive a nossa, porém nesse texto Ellul também lembra que não podemos esquecer que a civilização ocidental é a fonte de valores como a liberdade e a democracia que todos reconhecem e aos quais aspiram; La parole humiliée (1981a), no qual estuda a imposição da imagem e a desvalorização da palavra em nossa época; e Déviances et déviants dans notre société intolerante (1992), onde Ellul enfrenta as ideias recebidas em relação àqueles que incomodam a ordem estabelecida, delinquentes, doentes mentais, idosos, desempregados, etc., encorajando-nos a reagir contra a exclusão e a segregação desses membros do corpo social que, sendo cada vez mais numerosos, podem transformar-se em maioria. Além desses trabalhos sociológicos e históricos, Ellul escreveu livros de reflexão teológica e centenas de artigos nos quais analisa e se posiciona como cientista e como simples cidadão em relação aos problemas da sua época.

Considerando que, em todo tempo, os homens utilizaram técnicas, Ellul se pergunta o que é que a técnica moderna tem de singular. Ele distingue a operação técnica, isto é, o que o homem fez em todas as sociedades da Antiguidade quando utilizou certas técnicas para caçar, pescar, construir uma cabana, colher frutos etc., e o fenômeno técnico que o mundo ocidental conhece a partir do século XVIII, que faz a técnica ir além dessa ordem simplesmente prática. A partir desse século reflete-se sobre as técnicas e opera-se a racionalização de sua utilização, o que produz uma mudança completa de perspectiva. Em outras palavras, o que era do domínio experimental e espontâneo passa a ser uma atividade racional com um objetivo claro e voluntário: a busca da eficácia. As técnicas serão avaliadas umas em relação às outras em função do critério da eficácia. E a preocupação da imensa maioria dos seres humanos de nosso tempo passará a ser a procura, em toda ordem de coisas, do método absolutamente mais eficaz. Assim, para Ellul, o fenômeno técnico pode resumir-se “na procura do melhor meio em todos os âmbitos”. Para o pensador francês, o acúmulo desses meios é o que produz uma civilização técnica, na qual Ellul identifica sete características do fenômeno técnico moderno, a saber: racionalidade, artificialidade, automatismo da escolha técnica, auto-crescimento, unicidade, universalismo técnico e autonomia.

Em junho de 2011, teve lugar a Conferência Internacional bilíngue “Rethinking Jacques Ellul and the Technological Society in the 21st Century/Repenser Jacques Ellul et la Société Technicienne au 21ème Siécle”, no Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa (ICS-UL) com o objetivo de refletir sobre o legado de Ellul. Os textos incluídos nessa publicação são originários desse evento. Os seus autores são professores e universitários oriundos de vários países – Canadá, Coreia do Sul, Espanha, Estados Unidos, França, Portugal, Reino Unido e Romênia – que analisam a obra elluliana desde diversas perspectivas disciplinares. Como o ano de 2012 marcou o centenário do nascimento de Jacques Ellul, a ideia dos editores com a publicação desse livro é a de prestar-lhe uma homenagem e, ao mesmo tempo, refletir sobre suas ideias, avaliando seu legado.

O livro aqui resenhado estrutura-se em torno de três eixos que correspondem a suas três partes, a saber, (1) a civilização da técnica, (2) a autonomia da tecnologia e (3) razão e revelação, precedidos por um texto introdutório dos editores, Jerónimo, Garcia e Mitcham, trazendo luzes sobre a vida e a obra de Jacques Ellul, detendo-se especialmente na peculiaridade de seus trabalhos de crítica da sociedade tecnológica expressos na trilogia básica: La technique ou l’enjeu du siècle (1954), publicada em inglês em 1964 como The technological society e que alcançou grande repercussão nos Estados Unidos e no Canadá; Le système technicien (1977) e Le bluff technologique (1988).

A primeira parte, composta de sete textos, discute o diagnóstico que Ellul faz da sociedade tecnológica. O primeiro texto é de Carl Mitcham, que discute as razões que levaram o livro clássico de Ellul, La technique ou l’enjeu du siècle, traduzido para o inglês como The technological society, a ser mais popular e a ter maior influência nos Estados Unidos do que na França ou em qualquer outro país. O segundo texto, de George Ritzer, discute a teoria sociológica da mcdonaldization da nossa sociedade especulando que vivemos na era do “prosumer”, isto é, o fato de que a produção sempre envolve consumo (de matérias primas, trabalho, energia e tempo) e que o consumo implica sempre uma produção que supera a tradicional distinção feita entre a produção e o consumo, bem como as técnicas associadas a cada um desses processos. O terceiro texto é de WhaChul Son, que discute os meandros do princípio da eficiência, pedra fundamental da sociedade técnica no pensamento elluliano. Daniel Cérézuelle trata de um dos tipos de desorganização social criados pela sociedade técnica, a saber, novas formas de miséria e pobreza, analisando as suas causas e consequências. Yuk Hui procura uma melhor compreensão do sistema técnico a partir da análise dos conceitos de simbolização e desimbolização. O último texto dessa primeira parte, assinado por Isabelle Lamaud, versa sobre as questões da proteção ambiental e da ecologia técnica.

A segunda parte analisa um amplo leque de problemas relacionados com a tecnologia. O primeiro dos cinco textos dessa seção é de autoria de Langdon Winner. Tendo por base o livro Propagandes (1962) de Ellul, o autor reflete sobre os problemas e os desafios que essa técnica coloca para as modernas sociedades democráticas. Andoni Alonso analisa os ecos na era da Internet das ideias desse pensador fora de época, tido como herético e catastrofista pelos que sustentam o sistema econômico e tecnológico de crescimento sem limites. José Luís Garcia e Helena Mateus Jerónimo assinam um texto no qual pesquisam o acidente nuclear de Fukushima no Japão, no qual é manifesto que o poder tecnológico tende a ser autônomo, enquanto fenômeno social, em relação às formas de controle democrático, à regulação política, aos princípios consagrados quanto ao meio ambiente e às condições exigidas pela própria vida humana. Patrick Troude-Chastenet analisa o caso de saúde pública ocasionado pelo medicamento Mediator (benfluorex) que teria causado a morte de algo entre mil a duas mil pessoas na França entre 1979 e 2009, apontando as causas desse affaire no Leviatã tecnocientífico burocrático e propondo a resistência contra essa “megamáquina”. O último trabalho dessa segunda parte pertence a Nathan Kowalsky e Randolph Haluza-DeLay. Eles refletem sobre a exploração das areias betuminosas da Província de Alberta que é feita levando em conta unicamente critérios técnicos, afastando-se as considerações éticas e os riscos para a saúde das populações locais, o que confirma o diagnóstico de Ellul sobre a sociedade e o homem contemporâneos de que “tudo que é possível fazer com a técnica, é preciso, segundo toda evidência, fazer” (Ellul, 1985, p. 228). Assim passamos a vivenciar um pós-capitalismo cujo tom dominante é a organização técnica da sociedade.

O eixo da terceira parte do livro reside em questões teológicas suscitadas pelo pensamento e percurso institucional de Jacques Ellul. O primeiro texto desse bloco é assinado por Frédéric Rognon, onde, além de apresentar uma visão geral do protestantismo francês contemporâneo, o autor oferece-nos, biograficamente, um painel dos teólogos protestantes mais influentes na atualidade nos quais ausculta a influência (ou não) do pensamento de Ellul. Jennifer Karns Alexander, em seu capítulo, demonstra, com base em documentos do Conselho Mundial de Igrejas, tais como o Report of Comission III, intitulado “The Church and the disorder of society” de 1948, e na correspondência e escritos de Jacques Ellul, que já em 1948, nos trabalhos preparatórios da Assembléia de Amsterdam daquele ano do World Council of Churches, tinha amadurecido sua crítica radical da sociedade tecnológica, fundamentada em longos anos de leitura e estudo da Bíblia e em debates e reflexões com proeminentes teólogos e líderes de igrejas cristãs. O terceiro texto, da autoria de Virginia Landgraf, defende a tese de que, na concepção de Ellul, o espaço no qual a vida é possível na sociedade tecnológica estaria delineado pelos dez mandamentos. Andrei Ivan, no quarto artigo desse bloco, faz uma análise comparativa entre os ideários de Ellul e de Peter Berger em relação ao social e ao cultural a partir da concepção de Rowland de que haveria uma hostilidade do ponto de vista da fé cristã em relação a esses ideários. O último artigo dessa parte é assinado por Gregory Wagenfuhr que nesse texto critica os mitos da pós-modernidade a partir do pensamento de Ellul.

Em cada uma das partes desse livro, o leitor latino-americano em geral, e o brasileiro em particular, encontrará um manancial de reflexões e um ferramental adequado à interpretação das nossas sociedades em rápida transformação rumo à civilização tecnológica, a qual já é uma realidade em muitos espaços de nossa extensa geografia.

Nessa perspectiva, é oportuno reafirmar com Ellul que “outra história é possível, diferente daquela da tecnicização, da inserção do homem no mundo técnico: uma história que não é mais mecânica e necessária, mas que, ao contrário, está para ser inventada, e que não se completa em catástrofe” (Ellul, 1987, p. 246). Nessa caminhada, o belo trabalho dos editores, materializado no livro Jacques Ellul and the technological society in the 21st century, é uma excelente contribuição para a reflexão em torno dessa outra história possível almejada por Ellul.

Referências

ELLUL, J. La technique ou l’enjeu du siécle. Paris: Armand Colin, 1954.

_____. Propagandes. Paris: Armand Colin, 1962.

_____. The technological society. New York: Alfred Knopf, 1964.

_____. Exégèse des nouveaux lieux communs. Paris: Calmann-Lévy, 1966.

_____. The political illusion. New York: Alfred Knopf, 1967ª

. _____. Histoire de la propagande. Paris: PUF, 1967b.

_____. Métamorphose du bourgeois. Paris: Calmann-Levy, 1967c.

_____. Autopsy of revolution. New York: Alfred Knopf, 1971.

_____. De la révolution aux révoltes. Paris: Calmann-Lévy, 1972a.

_____. Histoire des institutions. L’Antiquité. Paris: PUF, 1972b. v. 1.

_____. Les nouveaux possédés. Paris: A. Fayard, 1973.

_____. Histoire des institutions. Le Moyen-Âge. Paris: PUF, 1975a. v. 2.

_____. Trahison de l’Occident. Paris: Calmann-Lévy, 1975b.

_____. Histoire des institutions. XVIe – XVIIIe siècle. Paris: PUF, 1976. v. 3.

_____. Le système technicien. Paris: Calmann-Lévy, 1977.

_____. Histoire des institutions. Le XIXe siècle. Paris: PUF, 1979. v. 4.

_____. La parole humiliée. Paris: Seuil, 1981a.

_____. L’empire du non sens: l’art et la société technicienne. Paris: PUF, 1981b.

_____. Changer de révolution: l’inéluctable prolétariat. Paris: Éditions du Seuil, 1982.

_____. Mudar de revolução: o inelutável proletariado. Rio de Janeiro: Rocco, 1985.

_____. Ce que je crois. Paris: Bernard Grasset, 1987.

_____. Le bluff technologique. Paris: Hachette, 1988.

_____. Déviances et déviants dans notre société intolérante. Toulouse: Érès, 1992.

Jorge Barrientos-Parra – Departamento de Administração Pública. Faculdade de Ciências e Letras de Araraquara. Universidade Estadual de São Paulo, Brasil. E-mail:  barrientos@fclar.unesp.br

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Faces de Clio | UFJF | 2015

FACES DE CLIO UFJF Ditadura no Brasil

A Revista Faces de Clio (Juiz de Fora, 2015-) é coordenada por discentes do Programa de Pós Graduação em História da Universidade Federal de Juiz de Fora (BRASIL).

Desde 2015, tem trabalhado na divulgação dos resultados das pesquisas de doutores e estudantes de mestrado e doutorado em História e áreas afins em âmbito nacional e internacional, sendo avaliados artigos escritos em português, inglês e espanhol.

Periodicidade semestral.

Acesso livre.

ISSN: 2359-4489

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