Entretien sur la mécanologie – SIMONDON (SS)

SIMONDON, Gilbert.  Entretien sur la mécanologie. Revue de Synthèse, 6a. série, 130, 2, p. 103-32, 2009. Resenha de: CRUZ, Cristiano Cordeiro. Avanço técnico e humanização em Gilbert Simondon. Scientiæ Studia, São Paulo, v.13, n. 2, p. 431-38, 2015.

Simondon, ainda que não conhecido do público não especializado, é um autor bastante importante, cujas ideias, ainda atuais, influenciaram o pensamento de estudiosos do fenômeno técnico como Jacques Ellul (2012 [1977]) e Andrew Feenberg (2015). Sua análise sobre a técnica tem como intenção principal declarada ajudar as pessoas a superarem um conhecimento limitado e/ou equivocado a respeito dela, de sorte a tornarem-se capazes de construir uma vida individual e coletiva melhor para si e para os demais. Os principais problemas sociais de nosso tempo, em sua opinião, não advêm de uma excessiva tecnificação da vida, mas, ao contrário, de um atraso da cultura com respeito às possibilidades do desenvolvimento técnico. É por isso, então, que ele se opõe aos humanistas de sua época, para os quais estaria na máquina o mal a ser combatido, e não o remédio a ser procurado e desenvolvido. Tais ponderações estão presentes, como se verá, nestas entrevistas de 1968.

Outro ponto importante do pensamento de Simondon, e que o opôs à cibernética de Norbert Wiener (1948; 1968), é a natureza e o papel da informação. Ainda que, para o francês, a informação de realimentação, necessária para o feedback promotor da homeostase, seja um caso particular daquilo que mais amplamente seria a informação, ela tanto pode dar-se de maneira rústica, estranha à moderna cibernética de Wiener, quanto é insuficiente ou apenas parcial, no que tange efetivamente à informação, por duas principais razões. Por um lado, em termos biológicos, a informação não tem por fim apenas o equilíbrio do organismo, mas está na base dos processos de individuação pelos quais ele passa (cf. Barthélémy, 2014, p. 146-7). Por outro lado, em termos sociais, as informações providas pelos mais diversos mecanismos artificiais de controle ou mensuração só são úteis para a ação reguladora, se for provido ou considerado também o panorama total de fundo, em relação ao qual essa informação poderá ser interpretada e fazer sentido (cf. Barthélémy, 2014, p. 147-8; Simondon, 1989 [1958], p. 284-5). Assim, uma teoria da informação deveria estar ocupada com a gênese da informação, nas trocas mútuas entre os indivíduos e deles com seus meios associados (cf. Barthélémy, 2014, p. 149), muito mais do que com o ruído, o canal de transmissão ou perdas, a predição e a reconstituição da mensagem enviada.

Não obstante tais diferenças entre os dois autores, as entrevistas farão referência apenas ao possível caráter rústico da homeostase. Juntamente com isso, elas aludirão a outro ponto de divergência entre eles, o caráter marcadamente subversivo ou ampliador que uma invenção técnica autêntica potencialmente tem em face ao estabelecido culturalmente. Com isso, o grande valor da informação estaria, para Simondon, em ela ser principalmente potencializadora da individuação e da invenção, e não em seu papel de asseguradora da ordem estabelecida, através da regulação ou da conformação homeostática (cf. Barthélémy, 2014, p. 150-3).

Isso posto, procederemos agora à apresentação das entrevistas de Simondon, que será seguida de uma breve problematização de alguns pontos de sua teoria.

Entretien sur la mécanologie é a transcrição de duas entrevistas concedidas por Simondon em 1968 ao jornalista canadense Jean Le Moyne. O entrevistador estava em vias de elaborar três filmes sobre a técnica, um para cada um dos três modos técnicos de existência apresentados por Simondon em Du mode d’existence des objets techniques (1958), as quais Le Moyne chama de estático, dinâmico e reticular. Nas 56 duplas de perguntas e respostas que compõem esse documento, Simondon passará por diversos dos pontos-chave de sua reflexão sobre a técnica, aprofundando e esclarecendo certos aspectos de sua obra de 1958.

Naquilo que se segue, vamos ater-nos às partes das entrevistas que nos parecem ser as mais relevantes para explicitar essa que Simondon toma para si como sua principal meta, a de ajudar-nos a melhor compreender o fenômeno técnico e a assumi-lo como lugar de uma “revolução cultural” (p. 128). Com isso, partes substanciais do material, que funcionam principalmente como um detalhamento ilustrativo para a elaboração do filme de Le Moyne, serão deixadas de lado.1

Uma primeira característica da técnica é que ela funciona sempre como mediação entre o ser humano e o mundo, ou entre os objetos técnicos (p. 106). Por essa razão, de modo a ser uma realidade material que opera tal mediação, o objeto técnico precisa, antes de tudo, individuar-se, constituir-se como uma unidade, como algo sólido. Essa unidade também pode ser obtida pela integração de subunidades, como nas máquinas. Seja como for, o elemento básico de onde se parte será sempre, em si, uma unidade material (p. 107 [2]). E à medida que o objeto técnico vai tornando-se mais complexo, o papel da informação para que ele subsista aumenta enormemente, porque uma máquina, assim como um ser vivo, precisa ser estável, ou seja, precisa dispor de mecanismos de autorregulação (cf. p. 107 [3]) para alcançar a homeostase. Esse estado de equilíbrio, contudo, já está presente em objetos bastante primitivos, como uma lâmpada a óleo, não sendo uma prerrogativa dos modernos robôs ou outros sistemas automáticos, nos quais existem estruturas específicas de comunicação e controle (cf. p. 123-5 [44]).

Algo que não está presente nas entrevistas, mas que é amplamente trabalhado por Simondon em outras partes (cf. Barthélémy, 2014, p. 37-42), é o constante e infindo vir-a-ser ou devir que caracteriza todo indivíduo, técnico ou vivente, em sua relação com seu meio associado. No caso do objeto técnico, sua evolução caminha em direção à concretude, que se configuraria por uma unidade sinergética interna e uma integração/ adaptação crescente ao meio (cf. p. 121-3 [40-43]). Assim, um objeto concreto seria aquele capaz de manter-se (autorregular-se) e no “qual, organicamente, nenhuma das partes pode ser completamente separada das outras sem perder seu sentido” (p. 122).

Em seu desenvolvimento histórico, todo objeto técnico passaria por três fases ou etapas. Ele surgiria indivisível, estático, uma vez que, como se viu, toda solução técnica, ainda que composta por subunidades, apresenta-se como uma unidade material. Na sequência, viria a fase dinâmica da dicotomização, caracterizada pela adaptação do objeto técnico ao mundo exterior e ao usuário. No primeiro caso, teríamos mais propriamente a evolução técnica, marcada pela crescente concretização e pelo desenvolvimento de funcionalidades. No que tange à adaptação aos usuários, podem intervir valores não técnicos (por exemplo, econômicos), de modo que, para tornar o objeto atraente ou desejável pelo comprador, ele é inserido em uma embalagem que faz com que sua natureza técnica seja dificilmente percebida. É daí que pode surgir, então, o desejo de trocar de carro, por exemplo, por ele estar “fora de moda”, o que é um “erro cultural fundamental” (p. 109), já que “estar na moda” tem muito pouco a ver com a natureza própria da técnica. Por fim, uma vez que o objeto está estabilizado, teríamos a fase de rede, possível unicamente depois da industrialização, quando as diversas partes em que ele foi subdivido estão padronizadas e podem ser facilmente trocadas ou consertadas. O objeto torna-se, com isso, mais barato e mais fácil de ser mantido/conservado (cf. p. 108-10 [7]). Por conta da padronização, ele torna-se também mais versátil, podendo ser facilmente integrado em outras configurações (cf. p. 122-3 [42]). Pagase, não obstante, um preço pela entrada nesta última etapa, uma diminuição na robustez do objeto. Algo semelhante à perda de autonomia do motor elétrico em relação à rede de alimentação, quando comparado com o motor a vapor e aquilo que lhe serve de combustível. De fato, quando o objeto torna-se parte ou dependente de uma rede, o mau funcionamento ou deterioração dessa rede pode torná-lo inoperante. Foi o que aconteceu na Segunda Guerra Mundial, quando as locomotivas elétricas deixaram de funcionar por conta do colapso da rede de alimentação, enquanto o trem a vapor, em sua menor especialização, pôde seguir funcionando, sendo alimentado por lenha, carvão e outros materiais combustíveis à disposição (cf. p. 112-3 [15-20]).

Seja como for, o fato é que, segundo Simondon, existe um grande desconhecimento acerca da técnica pelas pessoas. Isso acontece porque a analisamos com uma razão que não lhe é contemporânea, mas que está atrasada em relação ao estágio de seu desenvolvimento. Para que pudéssemos superar essa defasagem, compreendendo adequadamente o objeto técnico, precisaríamos “saber como ele é constituído em sua essência e ter assistido sua gênese, seja diretamente, quando possível, seja pelo ensino” (p. 110). Isso, entretanto, está quase que absolutamente ausente em nossas sociedades, nas quais não dispomos de um adequado ensino de história das técnicas (cf. p. 108-11 [7-8]).

A técnica, contudo, não é algo alheio ao ser humano (cf. p. 129 [56]). Ao contrário, ela é proveniente da realidade humana, tem origem na incompatibilidade que buscamos superar entre aquilo que desejamos poder realizar (a ordem do antecipado) e aquilo que conseguimos (ordem do real) (cf. Simondon, 2008, p. 140). A bem da verdade, a técnica é não apenas o mediador entre nós e o mundo, ela (também) assegura nossa harmonização com ele. Com efeito, é a técnica que pode tornar a natureza um lugar mais seguro e propício para a vida humana, ao mesmo tempo em que, ao racionalizar nossa atuação sobre o mundo, reduz nossos danos e impactos ilógicos sobre ele (cf. p. 129 [56]). É nesse sentido, então, que o mundo carece de poetas técnicos (cf. p. 111-2 [14]), de pessoas capazes de desenvolver a conaturalidade entre a “rede humana” e a “geografia natural da região”, entre as pessoas, enquanto grupos e sociedades, e o mundo no qual elas habitam. Tais técnicos seriam poetas, uma vez que suas invenções representariam encontros de significações; não uma violência ou uma submissão da natureza, mas um auspicioso desenvolvimento humano em harmonia com ela.

E esse devir da técnica, do mesmo modo daquele que se observa no desenvolvimento dos seres viventes, não acontece segundo linhagens unilineares, mas múltiplas, porque, diante de realidades ambientais distintas, as mediações entre o ser humano e o mundo tendem a ser diferentes. De fato, “não se faz uma ferramenta com o que quer que seja” (p. 121), de modo que o desenvolvimento técnico acaba por relacionar-se com as razões técnicas de utilidade (aquilo que se busca resolver), de inteligência (o arsenal de conhecimentos e habilidades de que o grupo dispõe) e com a natureza ambiente (o habitat em que vive o grupo e aquilo que ele oferece como base material possível para a construção do objeto) (cf. p. 120-1 [39]).

Mas quais são as consequências, agora para a cultura, do desconhecimento de tudo isso que Simondon apresenta como característico da técnica? A consequência principal ou mais insidiosa é que acabamos por privar-nos daquilo que poderia ser uma das formas de superar várias de nossas mazelas sociais. Com efeito, a possibilidade de superação da tecnocracia, da degradação ambiental e de diversos dos males do modo como vivemos em sociedade, e que é muitas vezes imputado à técnica, passa justamente por tomá-la em sua essência, libertando-a da condição de escravidão a que a submetemos, em nossa busca por poder e controle sobre a natureza e sobre as outras pessoas (cf. Simondon, 1989 [1958], p. 126-8; 1989, p. 287-90). O elemento de humanização da técnica encontra-se no fato de que ela, em seu desenvolvimento autêntico, subtrai-se das ordenações finalistas que frequentemente caracterizam e submetem a ordem social: “o homem liberta-se pela técnica da restrição (contrainte) social; pela tecnologia da informação, ele torna-se criador dessa organização de solidariedade que uma vez o aprisionou” (Simondon, 1989 [1958], p. 104). Com isso, a técnica oferece a possibilidade de libertação das naturalizações de certas estruturações culturais, permitindo-nos também a nós, individual e coletivamente, devir. Entretanto, por conta da nossa ignorância a respeito de sua real natureza, o que acaba por suceder é o contrário disso, ao invés de fazermos a cultura adiantar-se, alargar-se para entrar em fase com o desenvolvimento técnico e as novas possibilidades de encontros de significações que ele nos traz, tendemos a submetê-lo àquilo que ele era vinte anos antes (cf. p. 109).

Assim, porquanto o futuro técnico seja cada vez mais o das redes, estudá-las é fundamental. A dificuldade que podemos ter para entendê-las advém do fato de que, tomada nesse nível, a técnica está tanto relacionada a coisas muito grandes quanto representa a mediação entre o ser humano em sociedade e a natureza (cf. p. 126). Seja como for, pensar as redes, assumir conscientemente o seu desenvolvimento e a articulação delas em redes de redes, é o desafio daqueles que não querem apenas construir a história (do passado), mas incidir na transformação cultural do presente e do futuro. A superação do atraso cultural e de tantos de nossos problemas pode vir exatamente disso (cf. p. 127-8 [50-51]). Conhecer verdadeiramente a técnica e permitir seu desenvolvimento autêntico é, então, a porta para uma verdadeira revolução cultural (cf. p. 127-8).

Esse é, pois, o itinerário seguido por Simondon nessas duas entrevistas publicadas pela Revue de Sinthèse. Nelas, como se viu, a importância da reflexão cuidadosa sobre o fenômeno técnico ocorre com vistas a que possamos construir conscientemente o futuro que queremos para nós. Futuro da maximização das nossas possibilidades de ser, da harmonização com a natureza e da amizade com o objeto técnico (que nos impediria de reduzi-lo a meio para a dominação e o controle). A técnica, porém, é incapaz de desenvolver-se a si própria. Uma invenção só pode ter lugar na mente humana, como mediação possível entre aquilo que desejamos (ou antecipamos) e aquilo que já existe (cf. Simondon, 2008, p. 186-7). É por essa razão que Simondon idealiza a figura dos técnicos-poetas, capazes da construção de novos sentidos e harmonizações entre nós e o mundo. Disso resultaria a subsequente pressão sobre a cultura para que ela se amplie, que é a condição de possibilidade de seu próprio devir e do das pessoas.

A teoria de Simondon, entretanto, enfrenta um problema de difícil superação, que é a sua compreensão de que o desenvolvimento técnico pode ocorrer à margem e independente dos valores sociais. Em sua concepção, haveria uma força interna que, por si só, governaria o processo de aumento de concretude dos objetos já existentes e de surgimento de novas mediações entre o ser humano e a natureza. Contudo, tal entendimento, além de ser de difícil constatação empírica, parece desconsiderar o fato de que o técnico inventor, aquele que percebe a tensão entre a ordem do real e a do antecipado, buscando soluções técnicas para compatibilizar as duas, é um ser humano, membro de uma comunidade e de uma cultura, além de ser um técnico. Assim, parece forçoso admitir que boa parte daquilo que lhe chamará a atenção no mundo, ou seja, os problemas ou desejos que lhe seduzirão, será aquilo que, de alguma forma, é significativo, caro ou (aparentemente) urgente/ necessário para o grupo ao qual ele pertence. Desse modo, a técnica encerraria em si também valores e buscas sociais, de sorte que o seu desenvolvimento seria campo também para disputas políticas. É o que sustenta Feenberg (cf. 1995, 1999, 2002, 2003). Com respeito à análise da incorporação de valores sociais ao fenômeno técnico, poderíamos citar ainda diversos outros autores. É o caso, por exemplo, de Mumford (cf. 1964) e Winner (cf. 1979; 1986). Cada qual, entretanto, adotará uma abordagem distinta, seja pelo tipo de leitura que faz – de cunho mais histórico, político ou filosófico –, seja pelo entendimento que constrói e aquilo que propõe a partir dele.

Além disso, parece que Simondon concebe que toda nova funcionalidade encerraria sempre e necessariamente apenas o potencial de fazer o bem ao ser humano, à sociedade e ao meio ambiente. Os efeitos colaterais dela e seus riscos potenciais, como bem o analisam, por exemplo, Ellul (cf. 2008 [1954], 2012 [1977], 1990, 1962), não são jamais por ele considerados. Porém, se os riscos e os efeitos colaterais fazem parte da técnica, tanto quanto sua capacidade de nos prover mediações com o mundo natural, e se os valores que possuímos enquanto seres humanos fazem-nos enxergar o mundo, suas possibilidades e seus aspectos intocáveis de maneira singular, então múltiplas soluções técnicas para um mesmo problema são teoricamente possíveis (cada qual tributária do local existencial e valorativo de que se parte) e uma ou algumas delas serão mais legítimas para quem as avalia do que as outras. É o que defende Hugh Lacey (2011). A luta por fazer prevalecerem as soluções técnicas mais de acordo com os valores que os grupos têm para si, em detrimento daquelas que lhes são menos legítimas, seria a base da democratização da tecnologia proposta por Feenberg.

Em suma, então, se é certo, por um lado, que a teoria de Simondon, tratada em alguns dos seus pontos principais nestas duas entrevistas por ele concedidas em 1968, oferece-nos elementos bastante interessantes e atuais para a reflexão sobre a técnica, por outro, ela parece poder ou requerer ser enriquecida, alargada ou transformada, de modo a dar conta de aspectos do fenômeno técnico que originalmente parece deixar descobertos.

Notas

1 Para facilitar a localização do texto na Revue de Synthèse, várias das referências a ele constarão da numeração da página, seguida por um número entre colchetes, que corresponde à dupla pergunta-resposta em que elas aparecem, numeradas sequencialmente.

Referências

BARTHÉLÉMY, J. H. Simondon. Clamecy: Les Belles Lettres, 2014.

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_____. La technique ou l’enjeu du siècle. Paris: Économica, 2008 [1954].

_____. Le systhème technicien. Paris: Cherche Midi, 2012 [1977].

FEENBERG, A. Alternative modernity: the technical turn in philosophy and social theory. Berkeley: University of California Press, 1995.

_____. Questioning technology. New York: Routledge, 1999.

_____. Transforming technology: a critical theory revisited. New York: Oxford University Press, 2002.

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_____. Simondon e o construtivismo: uma contribuição recursiva à teoria da concretização. Scientiae Studia, 13, 2, p. 263-81, 2015.

LACEY, H. A imparcialidade da ciência e as responsabilidades dos cientistas. Scientiae Studia, 9, 3, p. 487500, 2011.

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SIMONDON, G. Du mode d’existence des objets techinques. Paris: Aubier, 1989 [1958].

_____. L’individuation psychique et collective – à la lumière des notions de forme, information, potential et métastabilité. Paris : Editions Aubier, 1989.

_____. Imagination et invention, 1965-1966. Paris: La Transparence, 2008.

WIENER, N. Cybernetics: or control and communication in the animal and the machine. New York: The Technology Press, 1948.

_____. Cibernética e sociedade: o uso humano de seres humanos. Tradução J. P. Paes. São Paulo: Cultrix, 1968.

WINNER, L. Tecnología autónoma: la técnica incontrolada como objeto del pensamiento político. Barcelona: Gustavo Gili, 1979.

_____. Do artifacts have politics? In: _____. The whale and the reactor: a search for limits in an age of high technology. Chicago: University of Chicago Press, 1986. p. 19-39.

Cristiano Cordeiro Cruz – Departamento de Filosofia. Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas, Universidade de São Paulo, Brasil. Bolsista da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP), processo 2013 / 18757-0.  E-mail: cristianoccruz@yahoo.com.br

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[DR]

 

Imagination et invention, 1965-1966 – SIMONDON (SS)

SIMONDON, Gilbert. Imagination et invention, 1965-1966. Edição estabelecida por Nathalie Simondon. Apresentada por Jean-Yves Chateau. Paris: Les Éditions de la Transparence, 2008. Resenha de: CAMOLEZI, Marcos. Sobre o conceito de invenção em Gilbert Simondon. Scientiæ Studia, São Paulo, v.13, n. 2, p. 439-48, 2015.

I

Publicado em 2008, o curso Imagination et invention, 1965-1966 expõe o que Gilbert Simondon denomina ciclo genético das imagens. No pano de fundo, está em jogo uma ontologia da transformação operada pelos conceitos de defasagem, transdução e metaestabilidade, resultantes da tese principal L’individuation à la lumière des notions de forme et d’information (Simondon, 2005). Embora por ela não tenhamos ocasião de avançar, o apontamento é importante na medida em que esclarece o perfil da reflexão que organiza o próprio desenvolvimento de Imagination et invention. O curso mostra haver uma autonomia no tratamento da evolução ontogenética das imagens com relação aos operadores conceituais ontológicos que, internamente, definem o ciclo em movimento. Assim, Simondon afirma tratar-se de uma análise fenomenológica “no sentido próprio do termo” (p. 15), um estudo das “manifestações concretas” das imagens, cujo sentido efetivo é o de “impor sua natureza”.

O autor concebe quatro fases do circuito ontogenético das imagens: imagens motoras, imagens perceptivas, imagens afetivo-emotivas (ou imagens-símbolo) e, por meio da invenção, objetos-imagem. Aqui, vamos dirigir-nos diretamente à passagem da terceira à quarta fase, relativa à invenção dos objetos técnicos. Nela está em jogo mostrar como o universo dos símbolos é portador de um potencial que não pode atualizar-se intrinsecamente, isto é, unicamente por meio do reordenamento e multiplicação dos próprios símbolos. Enquanto imagem, o símbolo abarca um conjunto de possíveis que só podem atualizar-se em sentido concreto e preciso por uma mudança de ordem de grandeza. Em situações concretas, imagens-lembrança e imagens-símbolo compõem um universo mental tensionado com estruturas exógenas, como os membros do corpo e os objetos. É quando esse universo “está saturado, não podendo mais acolher experiência nova, que o sujeito deve modificar sua estrutura para encontrar dimensões de organização mais vastas, mais ‘potentes’, capazes de superar as incompatibilidades experimentadas” (p. 21). A invenção deve consistir justamente na saturação de um universo metaestável de imagens à medida que um campo nascente de finalidade não pode ser resolvido pelo campo das experiências passadas.

Para que a invenção seja consumada, entretanto, é necessário que no desenvolvimento da imagem confira-se predominância a uma determinada valência intrínseca, até então equalizada no interior do símbolo. Se o símbolo está disponível ao sujeito apenas de modo ambivalente (como imago, por exemplo, p. 127-31), ele não poderia oferecer condições suficientes para que o sujeito aja por ele, esgotando o potencial do objeto simbolizado segundo uma tendência específica de ação. Compreender a invenção consiste, antes de tudo, em entender que a passagem do símbolo ao objeto propriamente dito efetiva-se por uma queda do equilíbrio (metaestabilidade) ao desequilíbrio. Ao longo de todo o livro, procura-se redefinir a imaginação em termos contínuos e dinâmicos; não como faculdade justaposta a tantas outras, mas como potencial motor, perceptivo e afetivo capaz de objetivar conjuntos ordenados de imagens. Nesse sentido, a invenção resulta como um movimento da imaginação, uma atualização de energia potencial por reestruturação: “um problema é apenas uma isca, uma colocação em movimento” (p. 173). É, portanto, somente no instante em que a imagem ordena-se de modo a atualizar uma de suas linhas potenciais segundo um desígnio preciso que o estado de saturação alivia-se construtivamente e a invenção consuma-se.

Uma vez definido o processo dinâmico que resulta na invenção, Simondon procura compreender a essência dos objetos tornados autônomos. Em primeiro lugar, a invenção técnica consiste essencialmente na restituição de compatibilidade que se torna possível entre os modos de ação e os objetivos previstos. Em segundo lugar, em razão dessa restituição, a invenção tem por consequência essencial a amplificação dos potenciais da ação.

Como compatibilização, o que está em jogo na invenção de um objeto técnico é a criação de um sistema de transferência entre ordens distintas. A alavanca e o guincho, por exemplo, transferem movimento, servindo como mediação entre o que é movido e o organismo de acordo com uma ordem que não é possibilitada pela ação direta da estrutura psicomotora do operador. O “sujeito faz parte da ordem de realidade em que o problema é colocado; ele não faz parte daquela do resultado imaginado; a invenção é a descoberta de mediação entre essas duas ordens” (p. 141-2). Vemos um objeto e o tocamos, ele é dimensionado por uma síntese entre a visão e o tato; batemos com os nós dos dedos em sua superfície, ouvimos o som que dele ecoa e avaliamos o material de que é feito, estimando sua densidade por uma síntese entre o tato e a audição. A apreciação que prepara a ação adequada sobre o objeto não decorre, portanto, apenas de um ou outro sentido, mas da integração entre todos eles. Ela pode, ainda, ser amplificada pela simbolização metrológica a fim de que a ação que pretendemos sobre ele torne-se mais precisa. Assim, a imagem do objeto, desenvolvida a partir do nível sensório-motor aos níveis perceptivo e simbólico, não deixa de consistir em uma “reserva de soluções para a invenção concreta, um pouco como um mapa de ruas é uma reserva sempre pronta de itinerários”, de modo que os “desvios possíveis preexistem na imagem” (p. 146). Pelo potencial de antecipação da imagem, a invenção eclode como ordenação de objetos previamente oferecidos, mas não previamente ordenados. Ela consiste, portanto, em uma compatibilização, uma comunicação, uma organização, enfim, uma solução que deve atravessar duas ordens de grandeza.

Podemos conceber o objeto técnico como se fosse organizado em três camadas. As camadas externa e intermediária seriam as instâncias de compatibilidade extrínseca entre, respectivamente, o objeto e o meio e o objeto e o operador. No caso do carro, a camada externa corresponderia ao design exterior e aos acessórios. A camada propriamente intermediária corresponderia às estruturas de mediação do condutor com a camada interna (chave de ignição, pedais, câmbio, volante). É por ela que o organismo controla a maneira como se desloca, em comunicação mediata, porém ininterrupta, com o motor, chassi, eixos, rodas etc., isto é, com o “núcleo de tecnicidade produtiva e resistente”, sobre o qual “as camadas externa e média desenvolvem-se como parasitas, com uma importância variável segundo as circunstâncias sociais e psicossociais” (p. 167). O que define a invenção do objeto carro é, portanto, apenas a camada interna, que manifesta de modo essencial a compatibilidade intrínseca que o objeto é capaz de produzir, por meio da compatibilização de recursos naturais (petróleo) com o desígnio (deslocamento) e as condições do corpo humano.

Considere-se o advento da fotografia, das primeiras experimentações aos anos 1960, marcados pela invenção do aparelho Polaroid. Essencialmente, a invenção da fotografia é uma compatibilização fotoquímica. Embora cada um dos componentes mecânicos e químicos necessários à produção da reação fotoquímica no interior das “câmeras analógicas” fosse conhecido separadamente antes da fotografia, essa invenção só pôde consumar-se por meio da estruturação satisfatória entre uma câmara escura, um mecanismo obturador e uma superfície química fotossensível. Todo o desafio aí consiste em produzir e interromper uma reação fotoquímica em instantes exatos, caso contrário a reação permaneceria ativa e a foto passaria a desfigurar-se. Ora, por mais que se intensifiquem a compatibilização de processos primitivos, nenhum aperfeiçoamento das câmeras analógicas deixa de repousar sobre o mesmo princípio. É provável que Simondon concedesse apenas à fotografia digital o estatuto de nova invenção essencial, uma vez que nela a compatibilização é realizada por um sistema ótico que converte os raios de luz em caracteres numéricos e, em seguida, reconverte-os para que apareçam em visores digitais.

Quanto à invenção do sistema Polaroid, especificamente, trata-se de levar a invenção primitiva a um grau ainda mais elevado de compatibilidade. Enquanto na maior parte dos objetos técnicos as camadas constituem-se como linhas independentes que passam a divergir segundo demandas psicossociais, o dispositivo Polaroid é capaz de reuni-las. O princípio da reação permanece o mesmo, mas a reunião das três camadas produz efeitos inteiramente inovadores. Isso porque o próprio princípio manifestase materialmente em poucos segundos nas mãos do operador, na forma de foto revelada, fazendo reunirem-se a reação fotoquímica, como compatibilização primária, e o uso social que dela se faz após a revelação. Disponibilizada quase instantaneamente, a foto pode servir de base para o aperfeiçoamento imediato de uma nova foto. Ou seja, o princípio materializado em outra ordem de grandeza (foto revelada) é capaz de retroagir, em uma nova foto, sobre a maneira como os participantes da imagem vão comportarse, sobre o enquadramento, as condições ideais de luminosidade etc. Assim, o próprio princípio (camada interna do objeto técnico) reúne-se com o emprego que o usuário faz do aparelho (camada intermediária) e, ainda, com a maneira como o aparelho manifesta-se socialmente (camada externa).

O exemplo da fotografia serve também a outra definição da essência do objeto técnico. Nele se pode verificar também um caráter orgânico, cuja “autocorrelação estrutural e funcional” (p. 169) não pode ser interrompida sem a perda da eficácia do próprio dispositivo. Pela analogia orgânica, trata-se de pensá-lo como totalidade individualizada, coesa e coerente, organizada em função de uma sistematicidade que não se pode violar. Como objeto técnico de caráter orgânico, o que a câmera fotográfica, por exemplo, realiza por meio de sua estrutura essencial é, em última análise, a formalização da própria natureza (luz natural), homogeneizando-a funcionalmente com outras estruturas.

É nesse sentido que se esclarece a ideia de uma clivagem do equilíbrio das valências da imagem-símbolo ao desequilíbrio dos modos operatórios e das funções da imagem-objeto. À medida que os objetos e os recursos naturais vêm a organizar-se em um sistema, o potencial trazido por cada um deles no estado de dispersão é atualizado em linhas de força específicas. Isso deve explicar a razão pela qual a ordenação sistemática não produz resultados limitados às expectativas iniciais de resolução de um problema. A atualização dos potenciais de cada subconjunto não produz uma soma simples, pois, na armação sistemática, ocorre uma verdadeira amplificação do potencial dos efeitos obtidos. As condições do problema são ultrapassadas porque a invenção recria novos potenciais, atualizáveis mediante novas invenções, instaurando novos ciclos genéticos de imagens.

Para demonstrá-lo, Simondon trata da invenção do concreto protendido em substituição à construção por pedras e ao concreto armado (p. 173-4). Tal substituição apresenta diversas vantagens, especialmente pelo fato de que o concreto é um material modelável, de baixíssimo desperdício e transporte conveniente. Contudo, o uso do concreto por si só não deixa de ter inúmeros inconvenientes. Para lidar com sua fraqueza sob pressão, nele se podem integrar barras flexíveis de metal, de modo que da incorporação de elementos elásticos resulte, após secagem conjunta, uma tração permanente. Logo, “a construção em concreto protendido ultrapassa aquela que teria sido possível em pedra, madeira e ferro” (p. 174). Isso explica, portanto, por que a invenção técnica tem “funções superabundantes”, por que dá um “salto amplificador” sobre o potencial dos objetos separados, por que produz “mais-valia funcional” e por que, em resultado de uma “dialética amplificadora”, verifica-se uma naturalização progressiva das técnicas.

Exposta a virtude de amplificação, Simondon vê-se em condição de relativizar o alcance das analogias topológicas (p. 179). Na verdade, o que está envolvido de maneira essencial na invenção “é o efeito de amplificação por recrutamento de realidades primitivamente não previstas e a inclusão dessas realidades, com poderes novos que ultrapassam a origem, em um sistema formalizado” (p. 179). Como nos seres vivos, os subconjuntos exercem um efeito modulador entre si, uma “ressonância interna” (p. 183), de modo a aperfeiçoarem o nível de compatibilidade intrínseca do sistema. Dessa dinâmica resulta que uma invenção jamais poderia deixar de evoluir, uma vez que ela se desenvolve intrinsecamente, elevando seu nível de compatibilidade, e amplifica seus efeitos potenciais, oferecendo condições renovadas para a reinauguração de outros ciclos de imagens.

II

Lembremo-nos de que a invenção como problema filosófico não poderia ser tomada por novidade no contexto francês do final do século XIX. Gilbert Simondon é beneficiário de uma longa tradição, heterogênea e internamente divergente, que se reúne na tentativa de representar os fenômenos da vida segundo um modo evolutivo e dinâmico.

Passemos diretamente aos anos 1900, quando Henri Bergson (1859-1941) despontava como figura de síntese em um cenário intelectual cada vez mais esmigalhado entre, por um lado, a adesão à ciência e a recusa da metafísica e, por outro, a defesa da irredutibilidade da vida e a recusa da unificação das ciências naturais por meio do método das ciências da matéria. Ao pensar a filosofia a partir da crítica de problemas científicos que ocupavam sua época, Bergson teve necessariamente de responder ao menos a duas questões. Em primeiro lugar, quais seriam precisamente as raízes biológicas e os hábitos psicossociais sobre os quais o reino dos homens chegara, ao longo da evolução da vida, à riqueza intelectual e cultural da virada do século XIX? Em segundo lugar, se já não resta mais dúvida de que a inteligência não é dada desde o princípio dos tempos, mas transforma-se ao longo da evolução do reino animal, qual será, então, a definição precisa do alcance e dos limites do mais nobre fruto da vida inteligente, as ciências? Embora muito se possa dizer a respeito de cada uma das inúmeras hipóteses evolucionistas dos anos 1900, limitar-nos-emos a ressaltar que um dos episódios mais ruidosos e cativantes dessa discussão (cf. Azouvi, 2007) foi preconizado pela publicação e recepção de A evolução criadora (Bergson, 1959 [1907]).

No terceiro capítulo dessa obra, Bergson defendia com clareza uma ideia ousada à época. Se a inteligência (a consciência da matéria, distinta da consciência do tempo ou intuição) for uma função da adaptação ao meio, será preciso, então, que a inteligência e a matéria tenham sido geradas conjuntamente. Embora o próprio princípio da inteligência seja considerado por Bergson como um impulso simples que perpassa a matéria (impulso vital), essa ideia da gênese conjunta viria a destampar a possibilidade de pensar, a partir e para além do bergsonismo, a história da matéria e a história da inteligência, em sua dimensão fenomênica, como expressões em negativo. A história da matéria não deixaria de ser a história da inteligência da matéria (portanto, da ciência da matéria), a história das máquinas só poderia ser a história da ciência das máquinas etc.

No mesmo período em que Gaston Bachelard apresentava o conceito de “fenomenotécnica” (Bachelard, 1970 [1931-1932]), a ideia da gênese conjunta da matéria e da inteligência volta com força ao cenário da filosofia francesa. A atenção ao problema da técnica é fundamental nesse sentido. Em diversos textos desse período, Canguilhem (2011 [1937], 2011 [1938], 1943) defende que a técnica não poderia ser definida como ciência aplicada, pois constitui um conjunto de problemas não antecipáveis pela ciência. Antes, a técnica coloca problemas de ordem específica à ciência. A criação técnica só adquire inteligibilidade plena se considerada como atividade em que o conjunto previamente ordenado do conhecimento depara-se com situações não anunciadas previamente. Em parte, essa premissa filosófica explica o interesse de Canguilhem pela medicina a partir de 1936, já que, como propunha a introdução da tese de 1943, talvez nenhuma outra “técnica ou arte na encruzilhada entre as diversas ciências” seja tão exigente quanto a medicina. Afinal, no encontro entre o conhecimento prévio do médico e a situação particular e imprevisível posta pelo doente está em jogo o valor da vida, que insta a vida, por meio das técnicas médicas, à procura de novas condições para sua própria manutenção.

É com o maior interesse pela originalidade da criação técnica que Canguilhem retorna a Bergson, cuja obra ele recupera em comunicações e cursos de Liceu entre 1937 e 1938, e, no início de 1940, em uma série de cursos universitários (cf. Canguilhem, 1941-1942, 2007 [1943]) depositados no Centre d’Archives en Philosophie, Histoire et Édition des Sciences (Caphés). O fulcro dessa revalorização reside justamente no terceiro capítulo de A evolução criadora. A gênese conjunta da inteligência e da matéria deveria implicar que o ferramental técnico do ser vivo não é coisa alheia ao pensamento, mas pensamento que penetra a matéria organizando a estrutura funcional dos objetos. O bergsonismo é revalorizado, portanto, como “filosofia biológica do maquinismo, que trata as máquinas como órgãos da vida, e que lança as bases de uma organologia geral” (Canguilhem, 1947, p. 332). Não é em outro sentido que, entre 1946 e 1947, Canguilhem constrói os textos da seção “Filosofia” de O conhecimento da vida (2009 [1952]). A técnica prolonga a ação do organismo, de modo que o meio não poderia ser considerado de modo estático, como se independesse da ação instrumentada.

Sabemos, entretanto, que a partir dos anos 1950 Canguilhem procura construir uma história dos conceitos científicos como modo a posteriori de fixar a extensão do conceito de ciência. O interesse pelo bergsonismo e pela “organologia” passava, então, a ceder lugar a certo projeto de história das ciências (cf. Braunstein, 2000). Em verdade, foi Gilbert Simondon, frequentador dos seminários do Institut d’Histoire des Sciences et des Techniques, aluno orientado por Georges Canguilhem (cf. Simondon, 1989), quem continuou e mais radicalizou a ideia de invenção segundo um ponto de vista dinâmico. Lembremo-nos da imagem que Bergson propunha no terceiro capítulo de Matéria e memória (1959 [1896]): a memória afunila-se e transforma-se em ação perceptiva tal como se o passado fosse um cone cuja extremidade produz um ponto no plano do presente. Nessa imagem, a filosofia de Simondon corresponderia à investigação dos modos constitutivos e operatórios segundo os quais os esquemas já construídos de ação reordenam-se, saturam-se potencialmente, mudam de grau atualizando-se em outro nível de concretude. Simondon concentra seus esforços de investigação sobre essa pequeníssima e decisiva extremidade do cone que se aproxima de modo assintótico da concretização das condições previamente acumuladas.

Não há dúvida de que seria preciso considerar ainda diversos outros segmentos epistemológicos catalisados por Simondon, resultantes da recepção de Martin Heidegger em Paris e, sobretudo, da psicologia da forma (Gestalt), com Kurt Goldstein e sua recepção original por Daniel Lagache, Canguilhem e Maurice Merleau-Ponty. Porém, embora não sigamos por aí, não poderíamos deixar de notar que Simondon cruza de modo particular o dinamismo bergsoniano com a ideia canguilhemiana da criatividade da técnica. Ele traz à luz uma dinâmica cujo modo de manifestação privilegiado dá-se na criação técnica, como dimensão da imaginação, ou seja, como imaginação em diversos níveis potenciais. A filosofia simondoniana integra a linhagem daqueles que procuravam mostrar – antes da configuração das fronteiras das ciências do século XX – como a percepção do ser vivo em seu meio não é passiva, mas antecipação da ação por meio de conjuntos sensório-motores previamente estruturados que “cortam” a matéria segundo os limites da ação possível.

Esboçar uma arqueologia desses problemas não deve significar, todavia, um enfraquecimento da originalidade de Gilbert Simondon. Como muito poucos, esse filósofo reuniu o conhecimento deslumbrante da tecnologia do século XX, e dele foi capaz de valer-se inclusive para contrariar a vontade de transcendência que por muito tempo animou os filósofos franceses da ação, de Maine de Biran a Bergson. Devemos apenas ressaltar que, partindo da inteligência material dos objetos técnicos e, portanto, insistindo na anterioridade da relação desses objetos com os seres vivos que os inventam, Simondon não visa apenas a dimensão técnica da vida humana, pois define a vida dentro da dimensão técnica.

Consideremos, por exemplo, a ideia de que a individualização de um objeto técnico implica, por um lado, uma redução e, por outro, uma amplificação do potencial de ação desse objeto. Nos termos em que Simondon a coloca, essa ideia resulta em uma contribuição poderosa a problemas filosóficos historicamente colocados pela segunda lei da termodinâmica. Desde as publicações de Rudolf Clausius em 1850, a ideia de irreversibilidade passaria a implicar a diminuição, ao longo dos ciclos térmicos, do potencial de um sistema que se vale de calor para produzir trabalho. A entropia aumenta, a energia se degrada; na formulação estatística, a entropia é função da desordem do sistema. À força dessa lei, como não pensar em um futuro trágico da vida, inteiramente dependente do consumo energético? O famoso “demônio de Maxwell” consiste em uma tentativa simples de ilustrar como alguns processos, a exemplo da própria vida, podem valer-se de informação para contrariar localmente a tendência à desordem. Entre um sistema com dois compartimentos de energia diferente, esse ser fictício superconsciente deteria informação e capacidade suficientes para fechar a portinhola a todas as partículas com energia negativa e, ao mesmo tempo, abri-la a todas as partículas positivas, de modo que, depois de certo tempo, todas as partículas positivas poderiam encontrar-se em apenas um compartimento. Tanto para máquinas quanto para os seres vivos, seria possível conceber, portanto, processos locais contrários à entropia (neguentrópicos) operados com base em uma informação.

É sobre a base desse esquema estatístico que a cibernética é pensada por Norbert Wiener, com quem Simondon teve interlocução aberta. Os mecanismos de circulação da informação, dentro de um indivíduo ou também dentro de um coletivo, constituiriam sistemas neguentrópicos de equilíbrio (homeostático). Em contrapartida, a desordem desses sistemas passaria pela perda de equilíbrio como concentração excessiva da comunicação de informação (do ponto de vista social, como alienação). Ocorre que Wiener (1962) parte da premissa de que há uma identidade entre os seres vivos e as máquinas automáticas, o que, em última análise, confunde o fato de que “os objetos técnicos tendem à concretização, ao passo que os objetos naturais tais como os seres vivos são concretos desde o início” (Simondon apud Barthélémy, 2014, p. 86). Assim, ao passo que Wiener pensa em situações de equilíbrio dinâmico comunitário (ou local) por meio de objetos já concretizados, Simondon procura pensar os modos de circulação “aberta” dos objetos por meio de uma gênese dinâmica. O curso Imagination et invention só deve reafirmá-lo. Enquanto Wiener toma dois termos estáticos para reconstruir um processo dinâmico, Simondon não parte nem do homo sapiens tecnológico nem dos objetos técnicos e das ciências já constituídos.

Aqui se verifica, portanto, o traço mais claro da afinidade de Simondon com a história de problemas acima mencionada. A filosofia do trans-individual parte da relação pré-individual que configura – em uma determinada condição técnica e não em qualquer outra – esquemas psicomotores mediante os quais um objeto técnico foi inventado e que reconfiguram os esquemas psicomotores mediante os quais esse objeto, uma vez individuado, vai ressoar externamente. Para compreendermos essa “dialética amplificadora” de Simondon, bastaria lembrarmo-nos de que os objetos técnicos não respondem unicamente às funções para as quais eles foram inicialmente inventados. Ainda, além de que o problema da informação é concebido por Wiener mediante analogias entre diversas ciências constituídas, ele o é também sobre o fundo de uma teleologia norteada pela ideia de equilíbrio homeostático (cf. Le Roux, 2007). Wiener assenta sua teoria cibernética diretamente sobre a base de valores em circulação na idade do Homem, ao passo que o dinamismo de Simondon coloca-se no interior da dimensão técnica da vida em geral, sem necessariamente recorrer a um anti-humanismo.

Não há dúvida de que o deslocamento operado por Simondon possa representar uma imprevisibilidade e, portanto, o enfraquecimento da ideia de equilíbrio e de destino da humanidade. Ao mesmo tempo, porém, abre-se a possibilidade de fazer com que o desenvolvimento técnico inegável dos últimos séculos seja acompanhado por uma consciência histórica da essência da técnica como consciência da dimensão técnico evolutiva da vida. Trata-se de opor-se ao fatalismo da alienação em um mundo exponencialmente tecnocientífico (cf. Laterce, 2009; Bardin, 2015). Assim, a consciência da dimensão técnica da vida pode, como em um processo de dialética amplificadora, constituir a intervenção sobre o curso dos objetos e sistemas que facilitam e controlam a vida.

Referências

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LATERCE, S. R. Simondon e o humanismo técnico. Rio de Janeiro, 2009. Tese (Doutorado em Filosofia). Instituto de Filosofia e Ciências Humanas, Universidade Federal do Rio de Janeiro.

LE ROUX, R. L’homéostasie sociale selon Norbert Wiener. Revue d’Histoire des Sciences Humaines, 16, 1, p. 113-35, 2007.

ROBINET, A. (Ed.). Oeuvres de Henri Bergson. Paris: PUF, 1959.

SIMONDON, G. Du mode d’existence des objets techniques. Paris: Aubier, 1989.

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WIENER, N. Cybernetics: or control and communication in the animal and the machine. Cambridge: The MIT Press, 1962.

Marcos Camolezi – Departamento de Filosofia, Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas.  Universidade de São Paulo, Brasil. Bolsista Fapesp. E-mail: marcos.camolezi@usp.br

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[DR]

 

O conhecimento da vida – CANGUILHEM (SS)

CANGUILHEM, Georges. O conhecimento da vida. Tradução de Vera Lucia Avellar Ribeiro. Revisão técnica de Manoel Barros da Motta. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2012. Resenha de: PUTTINI, Rodolfo Franco. Ética, conhecimento e vida. Scientiæ Studia, São Paulo, v.13, n. 2, p. 449-58, 2015.

O objetivo não será aqui aprofundar a asseveração de que, desde a sua famosa tese de doutoramento (1995a), Georges Canguilhem (1904-1995) iniciou e propulsionou a estruturação de um programa de pesquisa cujo trabalho filosófico voltou-se para os problemas contemporâneos da biologia e da medicina iniciados pelas diretrizes da tradicional escola francesa de epistemologia histórica desde Gaston Bachelard. No entanto, acentuarei que os primeiros testemunhos vigorosos desse percurso intelectual podem ser verificados no livro La connaissance de la vie, publicado em 1952, nove anos após a defesa de seu doutoramento em 1943, republicado em 1952 pela editora francesa Hachette, reeditado por doze vezes até 1965 com textos inéditos pela editora J. Vrin, e cuja tradução em língua portuguesa somente em 2012 foi realizada pela editora brasileira Forense Universitária.

O livro reúne em oito ensaios o nexo entre o pensamento e a vida, uma associação pouco valorizada nas ciências biológicas. Canguilhem apresenta os ensaios segundo uma ordem de importância histórico-filosófica, assim distribuída: Introdução, “O pensamento e o vivente”, ensaio escrito em 1952; um ensaio sobre o método, “A experimentação em biologia animal”, de 1951; um ensaio de história da ciência, “A teoria celular”, de 1945; e um conjunto de textos de filosofia da ciência escritos em 1946, 1947 e 1951 – “Aspectos do vitalismo”; “Máquina e organismo”; “O vivente e seu meio”; “O normal e o patológico”; “A monstruosidade e o monstruoso” –, e apêndices (três pequenas notas, sem datas), seguidas de bibliografia ou indicações de livros recomendadas pelo próprio autor. Essa estruturação aproxima várias temáticas relevantes ao problema da vida: a teoria celular, o vitalismo, o mecanicismo, a máquina, o organismo, o pensamento, o vivente, o meio, o normal, o patológico, a monstruosidade, o monstruoso, a experimentação em biologia animal.

É certo que esses escritos foram elaborados antes da descoberta do DNA (cf. Watson & Crick, 1953) e poderiam até sugerir preocupações retrógradas por parte dos biólogos. Porém a controvérsia entre raça, inteligência e genética permanece ativa (cf. Milmo, 2007; Charlton, 2008; Malloy, 2008) e levanta discussões sobre a relação entre atividade científica e valores (cf. Lacey, 2008). Para uma leitura atualizada do livro de Canguilhem proponho combinar questões ligadas ao projeto genoma, cuja técnica associada possui desdobramentos para a vida e para a vida profissional de biólogos e geneticistas atuantes em procedimentos médicos – tais como a verificação do grau de risco de desenvolvimento de doenças, os testes genéticos, o aconselhamento genético, a terapia para doenças genéticas, as células-tronco para regenerar tecidos, a terapia celular, a escolha de embriões para reprodução humana –, com questões sobre os fundamentos éticos que garantem o respeito aos direitos humanos na aplicação de teorias biológicas no desenvolvimento biotecnológico de dominação da vida e, particularmente, da vida humana (cf. Garcia, 2006). Não estariam as práticas biotecnológicas dirigidas de tal modo a refletir o eugenismo (cf. Stepan, 1991)? Qual o limite da prática da medicina, aliada às ciências biológicas, que afiança com responsabilidade sobre os perigos do eugenismo de modo a criar um contexto social de bom senso?

Mantendo a posição de que, em alegação atualizada, Canguilhem promove no livro O conhecimento da vida o empenho em fundamentar o campo ético nas ciências da vida atreladas à medicina e à sociedade; sua postura crítica ao antropocentrismo diante da vida e do sentido do conhecimento (em relação à vida humana) revela a originalidade logicamente arranjada em quatro tópicos que estruturam argumentos historiográficos, éticos e filosóficos sobre problemas concernentes às ciências biológicas interligadas à medicina, argumentos que se desdobram em ponderações no campo da produção de conhecimento que incluem a prática científica em geral. A classificação atual das áreas do conhecimento permite interpretar de modo mais objetivo os vínculos entre os ensaios,1 decorrentes de interrogações de fundo sobre a relação entre o conhecimento e a vida, para cujo entendimento pesa o sentido antropológico de alteridade (cf. Canguilhem, 2012b, p. 367), uma relação entre o vivente (uma forma universal de vida material) e o vivido (a experiência singular de um ser vivo):

A vida é formação das formas, o conhecimento é análise das matérias informadas. É normal que uma análise não possa nunca dar conta de uma formação e que se perca de vista a originalidade das formas quando nelas vemos somente resultados cujos componentes buscamos determinar. As formas vivas, sendo totalidades cujo sentido reside em sua tendência a realizarem-se como tais ao longo de sua confrontação com seu meio, podem ser apreendidas em uma visão, jamais em uma divisão (p. 3).

Considerando esse conjunto de problemas de fundamentação da vida, farei a exposição do livro seguindo esta sequência de leitura: “A teoria celular” (1945), “Aspectos do vitalismo” (1946), “Máquina e organismo” (1947), “A experimentação em biologia animal” (1951), “O normal e o patológico” (1951), “A monstruosidade e o monstruoso” (1951), “O pensamento e o vivente” (1952).

1 O MÉTODO HISTORIOGRÁFICO

Dois pontos congruentes destacam-se no artigo “A teoria celular” de 1945: a apresentação do método historiográfico e o raciocínio para o conhecimento da vida. A história da ciência é produzida pelo exame da formação de conceitos, um empreendimento que se assemelha a um laboratório de epistemologia. Especialmente para a história da ciência da vida importa reconstruir os conceitos científicos célula e vida, que aparentemente nada tem em comum com o objeto da ciência da vida. Entretanto, para Canguilhem, há um campo ético que expressa um princípio, oposto ao método e à prática de historiadores, cientistas e filósofos da época que, a exemplo do médico e cientista Claude Bernard, atribuíam à história a inferioridade lógica das teorias passadas (p. 40, nota 2). Canguilhem propõe a epistemologia histórica como fundamento e postura crítica contraposta ao “preconceito científico”, estendido ao método experimental da biologia:

as teorias não nascem dos fatos que coordenam e que são supostos de tê-las suscitado (…) os fatos suscitam as teorias, mas não engendram os conceitos que as unificam interiormente, nem as intenções intelectuais desenvolvidas por elas (p. 82).

Debru (2004) elucidou a posição fortemente holística de Canguilhem, derivada de sua crítica ao dogma nas ciências da vida, com o seguinte destaque nas reflexões sobre o normal e patológico dos Ensaios: “uma norma não é um fato, mesmo estatístico, mas um valor” (Debru, 2004, p. 33), referindo-se ao poder de criação dos valores vitais criados pela fisiologia e patologia, especialmente em comparação à concepção de vida assumida por Claude Bernard ao descobrir a etiologia da diabete como uma patologia, resultado da variação quantitativa do estado normal pela constante da glicemia, modo em que valorizava a crença da técnica médica de domínio sobre a vida em bases científicas. Em oposição a esse cientificismo, Canguilhem afirmaria o conhecimento da diabete partindo do estado de um organismo inteiro, pois “ser doente significa viver uma outra vida, um outro olhar da vida, uma outra relação com o meio” (Debru, 2004, p. 34).

Essas elucidações sobre fato e valor, entre o normal e o patológico, ganham destaque com o problema, vinculado à história da teoria celular, de que não é o microscópio o instrumento que permite, pelos órgãos dos sentidos da visão, constatar, comprovar e identificar a célula, mas “a história da formação do conceito de célula”, carregada de valores afetivos e que atestam a validade da teoria celular (p. 45). Embora essa discussão favoreça o argumento do papel da valorização moderna do controle (Mariconda, 2006), tal ambivalência epistemológica (fato e/ou valor) em Canguilhem aplica-se ao campo científico, mas também, como veremos adiante, à vida mesma.

Para o campo científico das ciências da vida a ambiguidade aparece como coordenada valorativa na história da teoria celular. “Célula” e “vida” são conceitos que se associam à força psicológica e instrumental da noção de indivíduo que motiva a gênese do “vivente elementar, demonstrando assim o valor do termo ‘célula’ na história das teorias sobre a vida”. São 43 páginas (p. 39-82) dedicadas a fazer coincidir o curso da história dos empreendimentos científicos com os interesses de cientistas em meio a descobertas e palavras inventadas, que progressivamente elevam a noção de célula a um estatuto científico. Haeckel, Hooke, Malpigni, Grew trabalharam com plantas, cada qual em seu tempo, e configuraram a anatomia microscópica da célula; a teoria da metempsicose de Lineu; a teoria das moléculas orgânicas e hibridação de Buffon e a teoria fibrilar de Haller, todas essas teorias são marcadores de uma história do conhecimento científico sobre a vida definida no interesse de garantir a questão da individualidade do organismo.

Por outro lado, para Canguilhem, a história das ciências da vida não se distancia de uma história da medicina na medida em que o argumento da passagem da individuação da célula à individualidade do organismo faz eco na prática científica da medicina: Virchow, Robin, Haeckel, Bernard sugerem o uso da teoria celular em explicações para a anatomia, a fisiologia e a histologia na busca da homogeneidade do ser humano enquanto totalidade orgânica. Nesse contexto biomédico, Canguilhem atualiza o problema linguístico do termo “indivíduo” com a controvérsia sobre qual é a classificação dada ao vírus-proteína, uma unidade viva ou não? (p. 72). Tal indagação tem uma resposta adequada à demarcação científica do uso do termo relacional “meio”, com o qual é possível ligar realidades e escalas de observação diferentes (p. 73), de modo que no tempo histórico a individualidade biológica teria sido verificada enquanto princípio de individuação (realidade, ilusão ou ideal).

2 FILOSOFIA DAS CIÊNCIAS DA VIDA E/OU FILOSOFIA DA VIDA

Remontar aos conceitos de célula e indivíduo para chegar a um entendimento não linear da história das ciências da vida em intersecção com a história da medicina é a estratégia que estrutura a filosofia das ciências da vida atrelada à medicina em um meio vital, mas não exclui o ser humano enredado a um meio social. Como se conjuga o problema da relação entre fato e valor tendo por foco a medicina e o ser humano na sociedade?

A identificação de obstáculos epistemológicos transforma-se em uma ferramenta de análise que auxilia compreender com discernimento o campo científico. Os cinco ensaios de 1946 a 1951 – “Aspectos do vitalismo”; “Máquina e organismo”; “O vivente e seu meio”; “O normal e o patológico”; “A monstruosidade e o monstruoso” – identificam e averiguam os fundamentos do conhecimento da vida de modo concomitante, ora voltado ao progresso científico da ciência físico-química e da biomedicina, ora estendido para a própria vida do vivente.

Inicialmente a força do vitalismo no campo científico pode ser verificada pela vitalidade e fecundidade do discurso vitalista no contexto das refutações teóricas. A comunidade científica pensa o vitalismo por meio de ambivalências: vitalismo/ mecanicismo (problemas de estrutura e função), descontinuidade/continuidade (problemas de sucessão das formas), pré-formação/epigênese (no desenvolvimento do ser), atomicidade/totalidade (problema da individualidade). Para Canguilhem, importa a crítica no interior do campo científico, não se deve excluir do aspecto vigoroso do vitalismo a relação entre os conceitos de vida, de vivente, de ser humano e de consciência da vida.

(…) o vitalismo é a expressão da confiança do vivente na vida, da identidade da vida consigo mesma no vivente humano, consciente de viver (…) um vitalista, proporíamos, é um homem induzido a meditar sobre os problemas da vida (p. 91).

Em reforço ao projeto de fundamentação da vida, Canguilhem examina a formação do conceito de reflexo no campo científico (cf. Canguilhem, 1955a), mostra a decadência da abordagem vitalista identificada como um obstáculo epistemológico primordial deixado de lado na história da medicina. Desde o século xvii a abordagem vitalista, principal obstáculo epistemológico à abordagem mecanicista de Descartes, perde gradualmente valor para as explicações da teoria newtoniana as quais, por sua vez, servem de obstáculo para as conquistas graduais da química positivista que tendem à matematicidade das ciências da vida. Médicos, cientistas e filósofos dedicados à história das ciências da vida e da medicina (Driesch, Goldstein, Van Helmont, Barthez, Blumenbach, Bichat, Lamark, Radl, Bernard) poderiam naquela época oscilar entre a abordagem vitalista de “exigência permanente da vida no vivente” e a abordagem mecanicista, “uma atividade permanente do vivente humano diante da vida (…) tentando unir-se à vida pela ciência” (p. 89).

No confronto entre o vitalismo e o mecanicismo, Canguilhem retorna à teoria cartesiana do homem-máquina em sua defesa do vitalismo, a qual requer uma semântica qualificada, cuja herança reclama dois sentidos, o do engenho (astúcia) e o da máquina (mediação, instrumento), perguntando se

não estaríamos fundamentados em concluir que a teoria do vivente-máquina (de Descartes) é uma astúcia humana que, tomada literalmente, anularia o vivente? Se o animal nada mais é do que uma máquina, e assim também a natureza inteira, por que tantos esforços humanos para reduzi-los a ela? (p. 90).

Sua intenção é de inverter o sentido da relação máquina-organismo para compreender “o sentido de assimilação do organismo a uma máquina” (p. 108), no qual salienta a auto-organização do organismo, inaplicável à máquina (p. 124-5). No caso da medicina, como a técnica pode ser aplicada à ideia do ser humano como um todo orgânico? Canguilhem põe frente a frente o vitalismo e o mecanicismo diante do mais alto valor humano, a importância da consciência humana da vida, criadora e fecunda, ou seja,

se o vitalismo traduz uma exigência permanente da vida no vivente, o mecanicismo traduz uma atitude permanente do vivente diante da vida. O homem é o vivente separado da vida pela ciência, tentando unir-se à vida através da ciência. Se o vitalismo é vago e não formulado como uma exigência, o mecanicismo é estrito e imperioso como um método (p. 89).

O núcleo de problemas ideológicos do vitalismo sugere que “caberia aos fatos e à história pronunciarem-se quanto ao problema da fecundidade no vitalismo” (p. 95), servindo de contra-argumento que, se o vitalismo é considerado cientificamente retrógrado por seus críticos, como deixar de notar tanto o uso da biologia vitalista pelos nazistas, “a fim de justificar uma eugênica racista, as técnicas de esterilização e de inseminação artificial, quanto o [uso do] darwinismo para a justificação de seu imperialismo, de sua política do Lebensraum”? (p. 103).

Em resposta a essa ambivalência Canguilhem reforça em 1966 o tema da medicina intervencionista no mundo social (cf. Canguilhem, 2012c). Tudo depende do sentido do termo “vida”, ora significando o particípio do presente (vivente), ora o particípio do passado (vivido), em uma relação entre o conceito e a vida mesma, que sugere o acesso à própria vida. Recoloca-se então a questão: “o que é o conhecimento, se a vida é conceito e esse fato nos dá acesso à inteligência?” (cf. Canguilhem, 2012c, p. 399).

Esse tema foi revisto por Canguilhem vinte anos após a publicação dos Ensaios (cf. Canguilhem, 1995b), propondo uma revisão da relação normal/patológico na qual correlaciona os termos “norma”, “normal” e “anormal” para distinguir atribuições à norma vital e à norma social, justificando assim o conceito de normatividade social. Em sua análise do contexto das ciências da vida, Canguilhem afirma:

As normas comparam o real a valores, exprimem discriminações de qualidades de acordo com a oposição polar de um positivo e de um negativo; a polaridade da experiência de normalização, cientificamente antropológica ou cultural, baseia a prioridade normal da infração na relação da norma com seu campo de aplicação. Uma norma na experiência antropológica não pode ser original. A regra só começa a ser regra fazendo regra e essa função de correção surge da própria infração (Canguilhem, 1995b, p. 218).

Nessa mesma revisão, Canguilhem propôs uma análise sobre o erro a qual, embora na patologia o geneticista e o bioquímico atribuam à hereditariedade, associa o erro ao modelo da teoria da informação, “que diz respeito tanto ao próprio conhecimento quanto a seus objetos, a matéria ou a vida” (Canguilhem, 1995b, p. 252). Canguilhem revê a origem dos sentidos do termo “norma” como uma exigência de racionalização da época, da nascente política econômica de industrialização, que se popularizou ora como protótipo escolar (escola normal, normas da reforma pedagógica), ora como modelo de saúde (reforma da medicina, reforma sanitária frente às epidemias). Admite então que a temática da mecanização da vida, originalmente desenvolvida por Augusto Comte no Curso de filosofia positiva, caracterizou as normas da física social, tomando como aspectos do organismo coletivo a regulação, a integração e o funcionamento da vida em sociedade a fim de atingir a humanidade (como parte da cultura) (cf. Canguilhem, 1995b, p. 223-5).

Se para Canguilhem os erros (genéticos) são referências para o interesse da norma vital (anomalias do metabolismo, anomalias de ordem genética etc.), os valores iatrogênicos são os que melhor informam a tendência da normatização de fatos sociais pressuposta em abordagens organicistas da sociedade. No contexto de crítica social do movimento de 1968, Michel Foucault elaborou um programa de pesquisa historiográfica, fundamentando as novas diretrizes para a história crítica da medicina. Frente às tendências iatrogênicas e eugênicas do planejamento de políticas científicas, a crítica de Hermínio Martins adensa a história da medicina com os aspectos orgânicos da prática médica sistemática e inescrupulosa de experimentação biomédica com corpos de seres humanos, datadas as barbaridades da guerra científica de experimentos humanos da biomedicina na Manchúria, Coreia e China como um desvio do conhecimento da vida, fomentado pelo Estado tanatocrático (cf. Martins, 2012, p. 211-50).

Essa história cinzenta da medicina tem servido de parâmetro para o desenvolvimento do discurso da bioética, geralmente valorizado para a proteção de uma corporação profissional mais do que para a apreensão do sentido do princípio de precaução (cf. Lacey, 2006) no contexto da educação médica. Na história da loucura, as atrocidades humanas elaboradas por médicos estiveram atreladas à explicação orgânica das doenças mentais, colaboraram para o estabelecimento de analogias entre a sociedade e o organismo vivo e para a garantia das ideologias higienistas, alienistas e eugenistas no pensamento médico. Nas décadas de 1960 a 1980, a iatrogenia em Ivan Illich (1975), a biopolítica em Michel Foucault (1978), a antipsiquiatria de Thomas Szasz (1961) e David Cooper (1967), o processo de desinstitucionalização de Franco Basaglia (1985), o estigma ou os desvios da consciência no mundo cotidiano de Irving Goffman (2011) desenvolveram argumentos fundamentais para uma alternativa ética no campo da saúde, para além do pensamento médico. Certamente essas discussões aumentam nossos parâmetros para pensar os limites da medicina e da prática científica da saúde na sociedade.

3 FUNDAMENTO PARA A FILOSOFIA E A SOCIOLOGIA DA MEDICINA

Até agora indicamos no livro O conhecimento da vida pontos de leituras que apoiam conceitos e definições para a fundamentação do conceito de vida, estendida às preocupações do campo ético. A genética de populações (cf. Clark & Hartl, 2010) ou a sociobiologia (cf. Wilson, 1975) não seriam candidatas a proporcionar diretrizes para um campo ético da vida e saúde? Hans Jonas aprofundou a linha temática da ética entre a medicina e a tecnologia, mostrando o ser humano como um objeto nos avanços da medicina, o corpo como um artefato para o progresso da biotecnologia (cf. Jonas, 1995; 1997) e propondo, para o contexto ético, o princípio da responsabilidade. Entendo que essa mesma responsabilidade foi colocada por Canguilhem como ajuste ao fenômeno da vida por meio da consciência do cientista.

O conflito não é entre o pensamento e a vida no homem, mas entre o homem e o mundo na consciência humana da vida (…). A inteligência só pode aplicar-se à vida reconhecendo a originalidade da vida. O pensamento do vivente deve manter do vivente a ideia do vivente (p. 2, 5).

É nesse contexto da biotecnologia, repleto de dilemas (cf. Martins, 2012; Garcia, 2003), no qual efetivamente vigoram os comitês de ética, organizados em sistemas de controle cujas normas regulam o desenvolvimento de projetos experimentais com seres humanos, que se verifica, entretanto, que ainda não se instituíram formas de comunicação intersubjetiva entre pesquisadores e pesquisados na prática experimental dos ensaios clínicos. Entendo tratar-se, na verdade, de uma questão atual relativa aos direitos humanos (cf. Declaração, 1948). Diante da singularidade da vida e do vivente, todos nós temos o direito de narrar, com consciência, as disposições da vida e, primordialmente, garantir com isso a própria participação nas decisões de nossos destinos.

A resenha aqui publicada faz parte da pesquisa de pós-doutorado realizada em 2014 no Departamento de Filosofia da Universidade de São Paulo, sob a supervisão de Pablo Rubén Mariconda.

Notas

1 Tomo aqui por referência a classificação atual das áreas do conhecimento da CAPES (Coordenação Aperfeiçoamento Pessoal de Nível Superior), organizada por Colégios de Conhecimentos (Colégio de Ciências da Vida; Colégio de Ciências Exatas; Tecnológicas e Multidisciplinar; Colégio de Humanidades) e respectivas Áreas do conhecimento

Referências

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Rodolfo Franco Puttini – Departamento de Saúde Pública. Faculdade de Medicina de Botucatu, Universidade Estadual de São Paulo, Brasil. E-mail: puttini@fmb.unesp.br

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[DR]

 

Gênese e desenvolvimento de um fato científico – FLECK (SS)

FLECK, Ludwik. Gênese e desenvolvimento de um fato científico. Belo Horizonte: Fabrefactum, 2010. Resenha de: CARNEIRO, João Alex. Gênese e recepção do projeto epistemológico de Ludwik Fleck. Scientiæ Studia, São Paulo, v.13, n. 3, p. 695-705, 2015.

Nesta oportunidade completam-se 80 anos da publicação de Gênese e desenvolvimento de um fato científico, livro que exerceu reduzido impacto em seu lançamento. Contudo, após um longo período de ostracismo, ele constitui hoje um ponto incontornável tanto para a compreensão do debate epistemológico do entreguerras, como de suas reverberações contemporâneas. Com um título inusitado, o livro, também conhecido como a “monografia”, causou estranhamento na década de 1930, momento em que a epistemologia europeia era francamente influenciada pelo positivismo lógico de Viena. Seu objetivo central foi o de descrever cerca de meio milênio de desenvolvimento de uma doença, a sífilis. A audácia do empreendimento estava não só no largo escopo temporal analisado, mas principalmente nas formulações teóricas em um quadro conceitual inovador, servindo-se de expressões incomuns à filosofia e à língua alemã.

Luwik Fleck (1896-1961) destoa dos principais epistemólogos de sua época por carecer de formação em física ou matemática, e por não ter exercido a carreira acadêmica em filosofia. Foi, sobretudo, um “pesquisador de bancada” que nutria profundo interesse pela história da medicina e pelo debate filosófico. Formou-se em medicina pela Universidade Jan-Kazimierz de Lwów (Galícia, então território polonês), sua cidade natal. Atuou como clínico e pesquisador em microbiologia e imunologia. Com extensa produção científica, assumiu importantes posições acadêmicas e profissionais. Seu primeiro escrito de caráter epistemológico, redigido em polonês, “Sobre algumas características específicas ao modo médico de pensar” (1927), enfatiza o caráter construtivo e histórico dos conceitos utilizados pela medicina, em especial o de “entidade nosológica” (Fleck, 1927, p. 56). Destaca também a especificidade da atuação médica que, por não ser uma ciência de base, não demandaria uma fundamentação lógica, mas um “estilo de pensamento específico” (1927, p. 57). Dois anos depois, em um esforço de extrapolar tanto as barreiras de sua língua natal como as especificidades do campo profissional, Fleck publica seu segundo artigo epistemológico “Sobre a crise da ‘realidade’” (1929) na prestigiada revista alemã Die Naturwissenschaften. Tendo como pano de fundo a crise epistemológica promovida pelo advento da mecânica quântica, enfatiza não só a dimensão histórica do conhecimento, mas os elementos sociais e antropológicos que estariam presentes em todo ato cognitivo. A própria noção de “realidade” é entendida não de modo absoluto, mas relacional, produto de um certo “estilo de pensamento” compartilhado por uma “comunidade de conhecimento” (Flek, 2011 [1929], p. 54). Destaca ainda a democracia como caráter distintivo da comunidade científica na modernidade.

Em 1933, Fleck estabelece contato com Moritz Schlick. Em carta, busca apoio para a publicação da monografia, cujo esboço intitulava-se A análise de um fato científico – Busca por uma teoria comparativa do conhecimento. Na justificativa, indica as limitações da epistemologia da época, que investigava “não o conhecimento tal como fatualmente se manifesta, mas sua construção ideal imaginária”. Herdeira do empirismo ingênuo, centrava-se nas impressões sensíveis, ignorando os processos comunicativos e seus registros escritos: “nunca se pesquisou com seriedade se o comunicar de um saber, sua peregrinação de homem a homem, de revista especializada a manual, estaria em princípio relacionado com uma transformação direcionada de maneira particular” (Fleck, 2011, p. 561). Em sua resposta, Schlick minimiza qualquer esperança de publicação por seu intermédio. A monografia acaba então lançada na Suíça pela editora Benno Schwabe, que está um tanto distante do debate epistemológico da época, limitando sua difusão.

Gênese e desenvolvimento de um fato cientifico oferece – com base em uma ampla visão do desenvolvimento do conhecimento no curso histórico – um entendimento dos mecanismos responsáveis pela mudança do conhecimento científico no quadro da cultural geral. Trata-se de uma nova incursão no campo da medicina, mas a partir da perspectiva de uma teoria geral do conhecimento.1 Dividido em quatro breves capítulos, o livro ambiciona reconstituir o desenvolvimento da entidade nosológica sífilis desde o Renascimento até o início do século XX, enfatizando o advento da reação de Wassermann (cap. 1, 3). Entretanto, sua maior parte (cap. 2, 4) consiste em uma exposição mais detalhada dos conceitos aplicados em sua análise, alguns deles já apresentados nos artigos que acabamos de citar.

Nesse contexto, uma inovação central diz respeito à noção de “comunidade científica”, entendida de modo mais preciso sob a rubrica de “coletivo de pensamento” (Denkkollektiv):

Se definirmos o coletivo de pensamento como a comunidade de pessoas que trocam ou se encontram numa situação de influência mútua de pensamentos, temos, em cada uma dessas pessoas, o portador do desenvolvimento histórico de uma área de pensamento, de um determinado estado de saber e da cultura, ou seja, de um estilo específico de pensamento. Assim, o coletivo de pensamento representa o elo na relação que procurávamos (p. 82).

A participação em um coletivo de pensamento é amalgamada pelo conceito de “estilo de pensamento”, que “exerce uma ‘força coercitiva’ em seu pensamento e contra a qual qualquer contradição é simplesmente impensável” (p. 84). Genericamente, um estilo de pensamento é entendido como uma “disposição” quase inconsciente que direciona e faz convergir o pensamento dos membros do coletivo. Em um sentido mais específico, expressa a capacidade desses mesmos membros para “um determinar dirigido, voltado para um objeto” nele reconhecendo de modo imediato uma “forma” ou “configuração” (Gestalt) (p. 144). Tal capacidade é designada pelos termos “visão estilizada” ou “percepção de forma” (Gestaltsehen). Com isso, encerra-se o trinômio cognitivo, cujos polos são o indivíduo, o coletivo-estilo que direciona sua percepção, e o objeto a ser percebido. Dentre os exemplos oferecidos está o de reconhecer, após treinamento, padrões visuais distintivos em lâminas microscópicas preparadas com amostras biológicas.

Denominado pelo próprio filósofo como uma “sociologia do pensamento”, “ciência dos estilos de pensamento”, ou ainda, “teoria comparativa do conhecimento”, seu projeto epistemológico posiciona-se como uma resposta crítica ao seu tempo. Dada a ênfase na dimensão concreta, social e histórica, do desenvolvimento do conhecimento em geral, todos os projetos filosóficos que ignoram tais aspectos são caracterizados como “epistemologia imaginabilis” (Fleck, 2011, p. 62). Quanto a isso, é emblemática a crítica à sociologia e à antropologia de então, bem como a defesa de uma visão lógicoaxiomática da linguagem cientifica pelo positivismo lógico.

Outro erro, também muito característico, é cometido pelos cientistas-filósofos. Sabem que não existem “qualidades e condições exclusivamente objetivas”, mas apenas relações dentro de um sistema de referências mais ou menos arbitrário. Mas comentem, por sua vez, o erro de ter um respeito excessivo diante da lógica, uma espécie de devoção religiosa diante das conclusões lógicas” (p. 94).

A axiomatização da linguagem e o reconhecimento de “fatos científicos” seriam apreensíveis como resultados de um longo processo de desenvolvimento, baseado em pressupostos, “acoplamentos ativos” nos termos fleckianos. Suas implicações, os “acoplamentos passivos”, corresponderiam ao que denominamos como “fatos”. De modo geral, a história da ciência é vista como uma sucessão de estilos de pensamento, que atuam como sistemas fechados, autorreferentes. Mesmo a noção de “verdade” é entendida de modo relacional, no sentido de ser relacionada a algum estilo de pensamento. “Em todos os tempos, o saber era, na opinião de todos os envolvidos, sistematizável, comprovado e evidente. Todos os sistemas alheios eram para eles contraditórios, não comprovados, não aplicáveis, fantásticos ou místicos” (p. 63-4). Ao negar a existência de um estilo de pensamento absoluto ou universal, a “teoria comparativa” fleckiana consiste justamente no exercício de elucidar, por meio de uma abordagem comparativa, distintos estilos de pensamento.

Nesse exercício comparativo, grande importância é dada à linguagem. Porém, diferentemente do encaminhamento dado pelos positivistas lógicos, a monografia de Fleck inova ao enfatizar os mecanismos comunicacionais presentes, na atividade científica, em seus coletivos. Um coletivo informal pode ser subsumido pelo mero diálogo de seus participantes. Nos grandes coletivos científicos, porém, há uma estruturação formal, baseada em dois “círculos”: um “esotérico” e outro “exotérico”. O primeiro, caracterizado pela presença de membros profissionais, já iniciados no estilo de pensamento corrente e proficientes em uma língua mais precisa. Esses profissionais participam de polêmicas conceituais e deliberações às quais os demais membros não foram introduzidos ou não dominam por completo. Já o segundo círculo, difuso, possui níveis de participação e engajamento variados (p. 157).

A análise dos processos comunicacionais atuantes nos coletivos seria capaz de justificar tanto a persistência, como a alteração de um estilo de pensamento. Sendo os coletivos de pensamentos relativos às ciências naturais constituídos pela sobreposição de muitos desses círculos, a “circulação de pensamento no interior de um mesmo coletivo de pensamento” – principalmente no interior dos círculos exotéricos – atua no sentido de fortalecer as convicções compartilhadas, produzindo um “companheirismo gerado pela atmosfera comum” (p. 158). Há, porém, uma importante distinção entre esse tipo de circulação e aquela produzida entre coletivos.

A simples comunicação de um saber não é, de maneira alguma, comparável ao deslocamento de um corpo rígido no espaço euclidiano: nunca acontece sem transformação, mas sempre com uma modificação de acordo com um determinado estilo; no caso intracoletivo, com o fortalecimento; no caso intercoletivo, com uma mudança fundamental (p. 162-3).

Essa alteração pode consistir em uma mera “mudança matizada, passando por mudança completa de sentido ou até a aniquilação de qualquer sentido” (p. 143). Assim entendidos, os processos comunicativos intercoletivos alteram a “disposição da percepção direcionada”, resultam em “novas possibilidades de descobertas e cria novos fatos” (p. 144).

No âmbito comunicativo das ciências naturais modernas, Fleck destaca a importância dos meios de comunicação impressa, implicados diretamente na tensão entre fixação e mudança do conhecimento. Há publicações diretamente voltadas ao círculo exotérico, como o livro de divulgação científica (populäres Buch). Este, de linguagem simplificada e apresentação “esteticamente agradável, viva e ilustrativa”, desempenha papel preponderante na construção do que é designado por “saber popular” ou “ciência popular”, bem como na constituição de uma “visão de mundo” comum (p. 166). Do ponto de vista dos círculos esotéricos, o veículo mais emblemático é a “revista especializada” (Zeitschrift). Nela ocorrem os debates especializados, proporcionando a expressão de perspectivas pessoais e fragmentadas, muitas vezes divergentes ou incongruentes. Nesse sentido, a revista especializada constitui o veículo propício para a emergência de novas concepções que, ulteriormente, poderão engendrar novos “fatos” (p. 173). Finalmente, próximo ao limite entre os círculos esotérico e exotérico, encontra-se o “manual” ou “livro-texto” (Handbuch), que consiste na sistematização dos resultados acordados pelos especialistas tendo em vista a formação de novos integrantes para seu círculo.

Entendidas de modo sincrônico, as contínuas alterações sofridas pelos estilos de pensamento devido ao fluxo comunicacional são pouco visíveis. No entanto, em uma análise diacrônica, os resultados são notáveis. Ainda que não descrevam rupturas ou grandes revoluções, as mudanças transcorrem “de uma maneira muito mais rápida do que aquela ensinada pela paleontologia, de modo que assistimos constantemente às ‘mutações’ do estilo de pensamento” (p. 67-8). Contudo, é possível antever a permanência de certas linhas de desenvolvimento conceitual, amalgamadas por “protoideias” (Urideen/Präideen). Trata-se de um conceito de alcance maior que o de “entidade nosológica”, aplicável ao desenvolvimento do conhecimento em geral. Dentre os exemplos de protoideias, são citados o “átomo” e os “micro-organismos patogênicos”, ambos originários da Antiguidade. As protoideias não devem ser entendidas de modo substancializado, mas como uma perspectiva aberta ao desenvolvimento. São “predisposições histórico-evolutivas de teorias modernas e sua gênese deve ser fundamentada na “sociologia do pensamento” (p. 66). Disso resulta seu dinamismo conceitual, pois seu valor “não reside em seu conteúdo lógico e ‘objetivo’, mas unicamente em seu significado heurístico enquanto potencial a ser desenvolvido” (p. 67). Estão, consequentemente, envolvidas no desenvolvimento de novas linhas de pesquisa pois estabelecem o elo do tráfego entre diferentes coletivos e círculos de pensamento.

Dado que a ciência popular abastece a maior parte das áreas do saber de cada pessoa, e dado também que o profissional mais meticuloso lhe deve muitos conceitos, muitas comparações e seus pontos de vista gerais, ela representa um fator de impacto genérico de qualquer conhecimento e deve ser considerada como um problema epistemológico. Quando um economista fala em organismo econômico, ou um filósofo em substância, ou um biólogo no estado de células, todos utilizam em sua própria especialidade do repertório popular do saber. É em torno desses conceitos que constroem suas ciências especializadas (p.165).

Nesse sentido, o círculo exotérico e seu “saber popular”, ainda que distante do debate especializado, cumpre um papel fundamental ao fornecer um repertório de ideias capazes de serem transformadas e aplicadas em diferentes círculos especializados. Um exemplo oferecido é o da identificação do agente etiológico sifilítico, que “não nasceu de maneira imediata dos trabalhos individuais dos periódicos. Surgido em última instância dos pensamentos exotéricos (populares) e extracoletivos, obteve seu significado atual no tráfego esotérico de pensamento” (p. 175).

Ao refletir sobre o trabalho propriamente historiográfico, Fleck resume sua compreensão da história e o desafio que esta exige.

É difícil, quando não impossível, descrever corretamente a história de um domínio do saber. Ele consiste em numerosas linhas de desenvolvimento das ideias que se cruzam e se influenciam mutuamente e que, primeiro, teriam que ser apresentadas como linhas contínuas e, segundo, em suas respectivas conexões. Em terceiro lugar, teríamos que desenhar ao mesmo tempo separadamente o vetor principal do desenvolvimento, que é uma linha média idealizada (p. 55-6).

São justamente as múltiplas linhas de desenvolvimento da sífilis que Fleck busca traçar, ao comparar distintos estilos de pensamento. No Renascimento, havia um forte caráter ético-místico que associava astrologia e valores cristãos, o que configurou a sífilis como “doença venérea por excelência”, resultado de um “castigo pelo prazer pecaminoso” (p. 41). Outra corrente, de natureza empírica, a concebe como uma moléstia passível de cura por meio de certos tipos de metaloterapias. Posteriormente surge uma linha “patológica experimental”, preconizando a inoculação de tecidos e secreções contaminadas, tendo em vista controlar seu mecanismo de contágio. Esse polimorfismo sifilítico acaba por associá-lo a algum tipo de contágio ou corrupção dos humores sanguíneos.2 Desse contexto surge a tese da “alteração sanguínea” (alteratio sanguinis), que abre caminho para sua posterior associação a alguma entidade etiológica patogênica, fomentando a “descoberta” da bactéria Spirochaeta pallida como agente etiológico sifilítico.3 Diante da identificação do agente etiológico específico, boa parte do esforço da microbiologia e da imunologia nas primeiras décadas do século xx concentrou-se no desenvolvimento de algum método de imunorreação sorológica capaz de diagnosticar a sífilis de modo eficaz. A “gênese de um fato científico” a que Fleck se refere no título de seu livro corresponde justamente ao estabelecimento de um teste sorológico padrão: a reação de Wassermann. Esta denominação rende homenagem ao seu principal desenvolvedor, August Paul von Wassermann. Trata-se de uma imunorreação sorológica baseada na técnica de fixação de complemento (desenvolvida por Jules Bordet e Octave Gengou), sendo, por isso, também conhecida como reação de Bordet-Wassermann.

Ainda que de modo abreviado, a narrativa de seu desenvolvimento é também o momento de aplicação de suas inovadoras categorias comunicacionais.

Descrevemos na história da reação de Wassermann, o processo de transformação da ciência provisória e pessoal dos periódicos na ciência universalmente válida e coletiva de manuais: esse processo se manifesta, primeiro, como mudança no significado dos conceitos e na apresentação dos problemas, e, posteriormente, na forma da coleção de uma experiência coletiva, isto é, da gênese de uma disposição peculiar para uma percepção direcionada e de um processo específico do percebido. Esse tráfego esotérico de pensamento se realiza, em parte, já dentro da pessoa do próprio pesquisador: ele dialoga consigo mesmo, pondera, compara, decide. Quanto menos essa decisão repousar na adaptação à ciência dos manuais, ou seja, quanto mais original e ousado o estilo de pensamento pessoal, tanto mais tempo durará até se completar o processo de coletivização de seus resultados (p. 174).

Por fim, Fleck enfatiza que o advento da reação não encerraria a discussão sobre o diagnóstico sifilítico, alentando grande debate na literatura diante dos desafios a serem vencidos. Cabe ressaltar que à época, inexistia a penicilina. Ademais, a reação de Wassermann gerava muitos casos de falsos positivos, indicando baixa especificidade para a interação antígeno-anticorpo.

O ano de publicação da monografia, 1935, marca também o início de dramáticas dificuldades sofridas pelo autor diante da ascensão do nazismo. Em 1937, Fleck é expulso da Associação Médica Polonesa devido a sua ascendência judia. O subsequente domínio nazista na Galícia o faz com que perca outros cargos. Em 1942, Fleck realiza trabalho forçado na Fábrica Químico-Farmacêutica de Laokoon. É deportado em 1943 para o campo de Auschwitz e, subsequentemente, para Buchenwald. Finda a guerra, retorna para a Polônia (já sob influência soviética), onde assume posições de destaque acadêmico-institucional. Embora concentrado na pesquisa científica do entreguerras ao começo do pós-guerra, Fleck não cessou sua produção epistemológica. Seus escritos, porém, publicados em polonês em revistas de divulgação científica ou filosófica de circulação restrita, não ultrapassariam as fronteiras de sua terra natal. No conjunto, visavam reapresentar as principais teses de seu livro, ou melhor detalhar alguns de seus tópicos. Caminham nesse sentido, “Observação científica e percepção em geral” (1935) e “Ver, enxergar e conhecer” (1947), nos quais a relação entre percepção visual, estilo e coletivo de pensamento é apresentada de modo mais elaborado. Já “O problema da teoria do conhecimento” (1936) enfatiza tanto o relacionismo, quanto a possibilidade de haver incomensurabilidade entre conceitos oriundos de estilos distintos.

Redigido em inglês e póstumo, “Crisis in science” (1960) constituiu o último artigo epistemológico de Fleck, trabalho que fora recusado pelas revistas Science, American Scientist, New Scientist e The British Journal for the Philosophy of Science. Nele, os perigos decorrentes da “opinião oficial sobre a natureza da ciência” são indicados de modo contundente. Suas origens residiriam na formação escolar e acadêmica ingênua, que tem “verdade” e “objetividade” como “ideais sagrados”. Essa visão negaria a atividade científica “real”, resultado de convenções, técnicas investigativas, interpretações estatísticas e aquisição de uma linguagem e treinamento específicos. O filósofo explicita ainda suas críticas ao produtivismo e carreirismo por minarem o senso crítico da comunidade científica, já amordaçada pelo oportunismo: “a melhor política é não fazer muitas perguntas e permanecer em boas relações com aqueles que estão no poder” (Fleck, 1986 [1960], p. 154). Com título e linha argumentativa similar à adotada em 1929, o artigo defende que a “crise” não residia na noção de “realidade”, mas na manutenção da “opinião oficial” sobre a natureza da ciência. Mudaram apenas os países e línguas hegemônicas do debate filosófico científico. O antídoto oferecido para ambas as situações continuou sendo o mesmo: desvelar a natureza social e histórica da ciência.

A recepção da monografia seguiu um caminho tortuoso. Mesmo sem despertar grande interesse inicial, não foi ignorada. Da tiragem de 1.000 exemplares, cerca de 450 restavam em estoque até 1940, indicando alguma circulação ainda no entreguerras” (Graf, 2009, p. 65). No pós-guerra, Fleck, em carta de 20 de abril de 1949 ao editor suíço, demonstrava interesse em difundir seu livro nos EUA.4 “Na minha opinião seria muito importante promover o livro no mundo científico americano, onde a problemática da sociologia do conhecimento é discutida vivamente hoje” (Graf, 2009, p. 70). Em outra carta, mais extensa, de 1 de novembro de 1959, Fleck faz referência a um “físico reconhecido” norte-americano, Schilling, citando passagens de correspondência dele recebida, em que a monografia é qualificada como “notável” e “à frente de seu tempo”. Há ainda referência a Michel Polanyi, autor de Personal knowledge, afirmando que o livro conteria um “ponto central comparável” ao da monografia. Fleck indica que havia enviado a Polanyi um exemplar da monografia “por ele desconhecida” (Graf, 2009, p. 71-2). Nesse ínterim, Fleck solicita, ao final da carta, uma nova edição: “meu livro ainda é atual e talvez fosse conveniente pensar em uma nova edição com atualizações”. A proposta não fora deferida pelo editor, alegando baixa vendagem da primeira edição, que rendera 258 exemplares “encalhados” no estoque, descartados pela editora anos mais tarde, como indica uma última carta endereçada ao autor, em 11 de outubro de 1966 (cf. Graf, 2009, p. 74). Fleck falecera em 1961.

É inevitável atentar para o fato de que, um ano após a morte de Fleck, é publicado em solo norte-americano uma obra diretamente associada a sua redescoberta, The structure of scientific revolutions, de Thomas Kuhn. Graf destaca que, ironicamente, essa obra surge como fascículo da Foundations of the Unity of Sciences (último grande projeto associado ao positivismo lógico, lançada em fascículos entre 1938-1969 sob coordenação de Charles Morris, Otto Neurath e Rudolf Carnap). Igualmente irônico é o fato de que foi um positivista o responsável pela tomada de conhecimento de Kuhn da obra de Fleck. Hans Reichenbach em Experience and prediction (1938) faz uma única e marginal referência à monografia, cujo título incomum despertou a curiosidade de Kuhn, que a leu entre os anos de 1949-1950 (cf. Kuhn 2000 [1997], p. 283). Passados doze anos, o prefácio de seu livro rendia homenagem ao polonês: “Um ensaio [monografia] que antecipa muitas de minhas próprias ideias. O trabalho de Fleck, (…) fez-me compreender que essas ideias podiam necessitar de uma colocação no âmbito da sociologia da comunidade científica” (Kuhn, 1970 [1962], p. 11). A alta difusão do livro de Kuhn motivou indiretamente o resgate da obra fleckiana. Contudo, apenas com a edição em língua inglesa da monografia em 1979, seguida pela reedição alemã de 1980, que o público readiquire um contato material com a monografia, há muito esgotada no mercado. Acrescenta-se a isso a publicação da coletânea alemã organizada por Schäfer e Schnelle (1983), contendo os principais artigos epistemológicos de Fleck, posteriormente acrescidos de comentários críticos e traduzidos para o inglês na edição de Cohen e Schnelle (1986). Ambas as publicações possibilitaram uma pesquisa mais ampla de seus escritos.

Esse interesse post mortem por Fleck resume a “segunda fase” de sua recepção, marcada por investigar em que medida suas ideias teriam antecipado ou influenciado Kuhn. Com a ascensão de concepções epistemológicas cada vez mais interessadas pela historicidade de seus elementos, emergiria uma “terceira fase” da recepção. Nesse caso, Fleck passaria a fornecer um instrumental conceitual capaz de lidar com questões atuais, mas já presentes em sua obra: o papel da metáfora, das ilustrações, da instrumentação, das relações interdisciplinares na prática científica. Essa ampla gama de estudos espelha uma direção de pesquisa interessada em separar completamente Fleck de Kuhn.

Pensamos que o atual momento é favorável às contribuições fleckianas, mas o puro exercício de afastamento de Kuhn não parece ser o ponto mais relevante. Fleck merece uma leitura crítica, que aponte para sua originalidade e potencialidade, mas também problematize suas posições. Nesse sentido, a recente coletânea organizada por Werner e Zittel (2011), precedida pela reedição de parte dos artigos originais poloneses pelos mesmos Werner e Zittel (2007), cumpre papel fundamental, pois oferece traduções revisadas, bem como artigos inéditos de Fleck, todos dotados de amplo e consistente aparato crítico. Ademais, não poderíamos deixar de saudar a edição brasileira de seu livro, ora resenhado. Sua tradução, quase sempre fiel ao original alemão, abre novas oportunidades de pesquisa em língua portuguesa. Por fim, mais que um trabalho exegético, a proposta fleckiana de uma teoria comparativa do conhecimento deve ser entendida – para ser consistente com seu próprio espírito democrático, crítico e criativo – como um projeto aberto ao desenvolvimento e aplicação. Já é tempo de (re)visitar Fleck e incorporá-lo aos estudos sobre a ciência e a tecnologia.

Notas

1 Também em 1935 é publicado o artigo “Sobre a questão dos fundamentos do conhecimento médico”. Trata-se de um ensaio que, além de resumir as principais teses da monografia, justifica sua preferência por temas médicos. Fleck indica a permeabilidade oferecida pela medicina a novas técnicas e métodos, ao mesmo tempo em que sedimenta inúmeros conceitos de origem remota. Ademais, a medicina desperta grande interesse social, possuindo volumosa literatura especializada. Esses fatores a tornam um campo especial, capaz de fundamentar de modo “racional” uma nova teoria do conhecimento, interessada em “investigar o condicionamento social do conhecimento”.

2 Sabe-se hoje que a sífilis possui vários estágios clínicos. Principia com ulcerações cutâneas genitais, passa por estágios assintomáticos, assume posteriormente contorno sistêmico, podendo, décadas depois, manifestar-se como neurossífilis. Esse polimorfismo está na base da dificuldade do diagnóstico.

3 Hoje conhecida como Treponema pallidum, isolada em 1905 por Fritz Schaudinn e Paul Erich Hoffmann.

4 Fac-símile das cartas, ora citadas, encontra-se disponível em Graf, 2009, p. 70-5.

Referências

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João Alex Carneiro – Programa de Pós-Graduação em Filosofia. Departamento de Filosofia, Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas. Universidade de São Paulo, Brasil. E-mail: joao.alex.carneiro@usp.br

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[DR]

 

Leyes sin causa y causas sin ley – CAPONI (SS)

CAPONI, Gustavo. Leyes sin causa y causas sin ley. Bogotá: Universidad Nacional de Colombia, 2014. BARAVALLE, Lorenzo. O mosaico causal do mundo orgânico. Scientiæ Studia, São Paulo, v.13, n. 3, p. 685-94, 2015.

No princípio – como muitas vezes acontece na filosofia da ciência – era Hume. E, aos olhos dele, o mundo natural era apenas uma coleção de fenômenos. O ser humano, uma criatura dirigida por uma série de hábitos profundamente arraigados, enxerga necessidade onde nada mais há que uma repetição de eventos contingentes similares, espacialmente próximos e temporalmente ordenados, e chama essa repetição de relação causal. Esta não está lá fora, no mundo, como imaginavam os metafísicos da época, mas em nós, nos observadores, e, por isso, nada nos assegura que, amanhã, das mesmas causas seguir-se-ão os mesmo efeitos.

Por quanto impecável do ponto de vista de um empirismo radical como o de Hume, sua caracterização da relação causal possuía algumas implicações indesejáveis para quem, como os empiristas posteriores a ele, pretendiam distinguir entre certas causas “autênticas” – como aquelas postuladas pelas teorias físicas – e outras meramente aparentes. Se qualquer sequência regular com as características acima descritas pode ser considerada como causal, como Hume parece admitir, então muitos eventos que intuitivamente não são tidos como causalmente relacionados, porque meramente correlacionados, passam a sê-lo. Como impedir a proliferação dessas pseudocausas? A solução do problema, geralmente atribuída a Hempel, embora sua paternidade, como mostra Caponi (cf. p. 15), seja disputada por Popper, consiste em dizer que apenas os eventos subsumidos sob uma lei científica podem ser considerados como causalmente relacionados. Em suma, que sem leis não há causas.

As leis científicas são consideradas, nessa tradição de pensamento, como generalizações universais irrestritas, isto é, enunciados válidos em qualquer porção de espaço-tempo e independentemente da existência, contingente, de objetos que as instanciam. Elas jogam um papel fundamental na explicação científica. Para Hempel, como é sabido, a explicação científica é uma inferência que permite derivar um explanandum (o enunciado que expressa o fato a ser explicado) a partir de um explanans (um conjunto de enunciados que constituem as premissas da inferência). Embora Hempel tivesse proposto vários modelos de explicação científica, o primeiro e mais conhecido é aquele chamado de “dedutivo nomológico particular”, no qual o explanandum, constituído por um enunciado que expressa um fato específico, é deduzido a partir de um explanans que, por sua vez, é constituído por outros enunciados de fatos particulares e por, pelo menos, uma lei. É justamente nisso que reside o caráter “nomológico” do modelo hempeliano, pois a presença de leis na explicação garante a validade da relação explicativa entre explanans e explanandum e, em última instancia, sua cientificidade. Embora nem todas as leis expressem relações causais (um ponto sobre o qual, como veremos em breve, Caponi justamente insiste), uma consequência implicitamente aceita do modelo hempeliano é que a possibilidade de falar de relações causais entre os fenômenos estudados por uma disciplina científica está subordinada à possibilidade de produzir, nessa mesma disciplina, generalizações nomológicas. Isto é, só há causas onde há leis.

A simplicidade e a elegância do modelo explicativo hempeliano escondem, na verdade, um sem fim de problemas epistêmicos mais ou menos graves (cf. Salmon, 1989). Notoriamente, ele colocou por um longo tempo os filósofos da biologia em uma situação bastante embaraçosa. Como observaram, entre outros, Smart (1963) e Beatty (1995), na biologia, é extremamente difícil, se não impossível, encontrar leis no sentido requerido por Hempel (isto é, generalizações universais irrestritas). Entretanto, conforme o modelo dedutivo nomológico, não pode haver explicação científica sem leis e, pelo que acabamos de dizer, parece não haver maneira de identificar relações causais se não por meio de explicações científicas, de modo que não parece possível falar de relações causais propriamente ditas na biologia. Mas, se isso for realmente assim, então a biologia seria uma disciplina de alguma maneira subordinada a disciplinas, tais como a física ou a química, cujo caráter nomológico é inegável.

É aqui que Gustavo Caponi entra em cena com seu novo livro, trazendo ar fresco a um debate que por várias décadas dividiu quem parecia estar disposto a abandonar a biologia a seu destino de ciência sem leis e, portanto, “sem causas” próprias, e quem insistia em encontrar um modelo explicativo ou uma definição de lei menos estritos e, portanto, mais adaptáveis às exigências das ciências especiais. Para Caponi, não é preciso abandonar a noção de lei tradicional para constatar que no domínio da biologia há tanto leis como causas. Se outros filósofos, no passado, pensaram diversamente é porque estabeleceram uma infértil e artificial equação entre essas duas noções. Uma equação que, uma vez dissolvida, permite mostrar o pleno potencial da biologia e reconhecer seu lugar entre as outras ciências explicativas. Para esse fim, Caponi, com sua característica prosa agradável e de clareza exemplar, limpa o caminho de uma serie de confusões conceituais sobre o tema e, articulando ativamente a chamada “concepção experimentalista” da causalidade (cf. Gasking, 1955; Von Wright, 1971; Woodward, 2003), retrata uma imagem da estrutura explicativa das ciências da vida original e fiel à prática epistêmica do biólogo. O livro de Caponi é composto por 4 capítulos, que definem o argumento principal, e um Anexo final sobre a explicação teleológica e a noção de desenho na biologia evolutiva. Tendo em conta o espaço a disposição, e com a finalidade de apresentar com a devida profundidade os elementos mais importantes da concepção defendida por Caponi, limitar-me-ei a discutir a primeira parte do texto, convidando o leitor a descobrir por si próprio como o Anexo completa tal concepção.

1 DO CARÁTER NOMOLÓGICO À INVARIÂNCIA

Nos últimos 20 anos, o pessimismo de Smart e Beatty com respeito à possibilidade de individuar regularidades nomológicas em biologia foi deixando o passo àqueles que, como Brandon (1990), Sober (1984) e muitos outros, argumentam que algo do tipo do princípio da seleção natural, segundo o qual “se a é melhor adaptado que b em um ambiente E, então (provavelmente) a terá um maior sucesso reprodutivo que b em E” (Brandon, 1990, p. 11) ou, de modo mais geral, do tipo das fórmulas da genética de populações são, efetivamente, leis oriundas da biologia. Compartilhando apenas parcialmente o entusiasmo desses filósofos, o problema que Caponi levanta no primeiro capítulo de seu livro é o de saber se é suficiente afirmar o caráter nomológico de tais enunciados para certificar-se da existência de explicações causais autênticas no âmbito da biologia? A resposta de Caponi é negativa, mas é justamente a partir desse desanimador começo que, como veremos, ele pode alcançar uma concepção da estrutura teórica da biologia mais madura e sofisticada. Não apenas o caráter nomológico não é suficiente para definir a causalidade, mas tampouco é necessário.

Mesmo Hempel (1965) admitia que nem todas as leis científicas são leis causais, dado que algumas delas expressam apenas uma relação matemática entre variáveis. Muitas leis não causais – as que Caponi (p. 45 ss.), adotando a terminologia de Sober (1984), chama de “leis consequenciais” – sugerem apenas que, entre certas classes de fenômenos, está ocorrendo alguma relação causal, mas não revelam em que consiste, efetivamente, tal relação. Embora também as leis consequenciais sejam informativas, alguns críticos do modelo dedutivo nomológico (cf. Salmon, 1997) argumentaram que somente as leis causais permitem formular explicações totalmente satisfatórias.

Se tomamos em consideração a física, é fácil ver que as leis físicas em sua maioria, e, portanto, as explicações nelas baseadas, são causais porque “dão conta da origem, da fonte, da constituição, de uma força ou agente de mudanças, e elas também nos indicam a intensidade que essa força ou agente de mudanças deverá ter” (p. 46). É assim também na biologia? Consideremos um exemplo clássico de lei na genética populacional (p. 37):

dp/dt = p (wA – W)/W. (1)

Ela nos diz que a frequência de um fenótipo em uma certa população aumenta na medida em que o valor seletivo (wA) de tal fenótipo supera o valor seletivo pro-médio dos outros fenótipos presentes na mesma população. A noção de “valor seletivo” (ou outras equivalentes, como “sucesso reprodutivo”) é meramente quantitativa, isto é, ela não indica por que a frequência do fenótipo em questão aumenta, já que não especifica as características ecológicas que fazem com que tal fenótipo possua, efetivamente, esse valor seletivo, mas apenas como esse valor influirá nas frequências dos outros fenótipos e, definitivamente, na composição da população. Em outras palavras, ele não indica as causas que estão operando na distribuição dos fenótipos na população. Portanto, (1) é uma lei consequencial. Assim como quase todas as leis da biologia, argumenta Caponi, ela é incapaz de ir para além de uma representação a posteriori de como certos efeitos estão inter-relacionados e, como consequência disso, não pode proporcionar explicações causais.

Há, também na biologia, pelo menos um exemplo de lei causal, a saber, a lei de Fisher sobre a proporção de gêneros (cf. Sober, 1984, p. 51 ss.). Estabelecendo que o fenótipo correspondente ao gênero menos difuso em uma população será aquele com maior valor seletivo, a lei de Fisher explicita, de fato, o que em (1) é deixado sem especificar, isto é, a natureza da característica ecológica que, no contexto em exame, causará uma variação na frequência do fenótipo em questão. Caso fosse possível encontrar outras leis análogas, capazes de determinar, com certo grau de universalidade, quais fenótipos possuirão um maior valor seletivo em uma população dadas certas condições ambientais, então o problema de encontrar explicações causais autênticas na biologia estaria virtualmente resolvido. Porém, Caponi (p. 64-8) argumenta, em minha opinião convincentemente, que elas, embora não impossíveis de encontrar, são extremamente raras, devido ao fato de que, dadas certas condições ambientais, as maneiras pelas quais uma população tem de adaptar-se a elas são muitas e potencialmente imprevisíveis. A lei de Fisher seria, então, a clássica “exceção que confirma a regra”: ela funciona bem como lei causal porque, nas espécies sexuadas, os gêneros são variáveis binárias. Todavia, não podemos esperar que ela funcione como modelo para outras leis, já que essa situação é muito pouco frequente no mundo orgânico.

Talvez, e essa é a grande aposta de Caponi – como ele mesmo sugere no segundo capítulo de seu livro –, não é no caráter nomológico que deveríamos procurar o caráter causal da explicação biológica. Opondo-se à tradição neo-humeana, conforme a qual – como lembrei no começo desta resenha – o caráter nomológico é condição necessária para atribuir causalidade, Caponi propõe reconhecer uma prioridade e independência conceitual à noção de causa com respeito à de lei (p. 69 ss.). Adota, ao fazer isso, a que é conhecida como perspectiva experimental ou manipulativa da causalidade (cf. Gasking, 1955; Von Wright, 1971) e, em particular, a proposta de James Woodward (2003). Conforme esta última proposta, “as atribuições causais (…) são feitas (…) com base na ideia de que a causa de um fenômeno é sempre outro fenômeno cujo controle permitiria, ou nos teria permitido, controlar a ocorrência daquele que chamamos seu efeito” (p. 72). Em outras palavras, a causalidade está relacionada com um fazer, mais do que com um saber: é uma noção, em certa medida, pré-teórica e anterior a nossas atribuições nomológicas.

Para esclarecer essa noção, Caponi introduz um dos exemplos mais recorrentes do livro: a da “rádio calchaquí”, uma rádio pequena e velha, perdida no meio dos vales Calchaquis na Argentina, que, devido à ação do tempo, apresenta um funcionamento anômalo (p. 77 ss.). O dispositivo que regula o volume é invertido. Isto é, movendo-o em sentido horário o volume desce e, movendo-o em sentido anti-horário, sobe. Embora sem conhecimento de uma hipotética lei que regeria o comportamento de nossa rádio, depois de um pouco de prática, reconheceríamos sem problemas que há uma relação causal entre o movimento do potenciômetro e as oscilações do volume. Mas como se justifica tal conhecimento se, de fato, não deriva do conhecimento prévio de uma regularidade nomológica? A resposta de Caponi é que ele é determinado pelo fato mesmo de estarmos “em condições de controlar o estado de uma variável X em virtude de nossa manipulação de outra variável Y” (p. 80). Mais especificamente, embora não saibamos explicar por que a rádio se comporta assim, “temos ao menos o começo de uma explicação quando identificamos fatores ou condições cuja manipulação ou mudança produzirá mudanças no resultado que está sendo explicado” (Woodward, 2003, p. 10).

O funcionamento da rádio calchaquí exibe o que Woodward chama uma “invariância”, isto é, uma regularidade local que, embora sem possuir a universalidade própria de uma lei causal (já que, bem ao contrário, é válida até onde sabemos para um só caso), é suficientemente sólida para suportar condicionais contrafactuais. Woodward (2003, p. 133-45), e com ele Caponi (embora não explicitamente), seguem David Lewis (1993 [1973]) na ideia de que é a capacidade de suportar contrafactuais – e não sua nomicidade, a qual seria, eventualmente, uma consequência de tal capacidade – que revela o conteúdo causal de um enunciado. Porém, em lugar de fundar, como Lewis, essa capacidade em uma particular ontologia dos mundos possíveis, Woodward e Caponi identificam essa capacidade – mais prosaicamente, mas também mais eficazmente – com a propriedade, característica de uma invariante, de manter-se estável em certa quantidade de intervenções.1 No nosso exemplo, observando que a oscilação do volume depende da manipulação do potenciômetro, estamos na posição de estabelecer o valor de verdade de séries de contrafactuais e, consequentemente, certificar a relação causal entre os dois fenômenos. Na medida em que uma invariância suporta um maior número de intervenções, ela é mais abrangente e pode ser considerada, eventualmente, uma lei causal. Todavia, o ponto importante para manter em vista é que “Woodward (…) conseguiu colocar em evidência que a efetividade do vínculo causal estabelecido por um invariante não é diretamente proporcional a sua universalidade, mas a sua estabilidade sob intervenções, ainda quando esta última se cumpra apenas dentro de uma esfera muito restrita” (p. 99), a saber, que o caráter nomológico derive da possibilidade de individuar relações causais e não vice-versa.

2 A EXPLICAÇÃO BIOLÓGICA EM UM MUNDO FÍSICO

Até aqui tudo bem. Mas como a concepção experimental nos ajuda, exatamente, a explicitar, na explicação biológica, aquelas relações causais que ficavam ocultas em suas leis consequenciais? Quando se trata de processos evolutivos não possuímos, na maioria dos casos, a mesma capacidade material de manipular variáveis como no caso de nossa velha rádio calchaquí. Podemos, porém, figurar-nos intervenções hipotéticas a partir de outras factualmente possíveis. Não entraremos aqui nos detalhes sobre este ponto mas, com relação a isso, é interessante lembrar que, na formulação de sua teoria, Darwin inspirou-se – entre outras coisas – na seleção artificial dos pombos domésticos, isto é, uma atividade propriamente manipulativa, extrapolando depois as características fundamentais de tal processo a um outro apenas hipoteticamente manipulável, a seleção natural (cf. p. 83-5). Dada essa possível extensão da noção de manipulabilidade, Caponi propõe considerar, no terceiro capítulo de seu livro, as distintas pressões seletivas, tão diferentes entre si – devido às potencialmente infinitas circunstâncias morfológicas, fisiológicas e comportamentais que jogam um papel na evolução de uma determinada população – como invariantes particulares.

Mais uma vez, Caponi (p. 106 ss.) esclarece sua estratégia com um exemplo. Uma das mais conhecidas ilustrações da ação da seleção natural é, sem dúvida, o fenômeno do melanismo industrial em Biston betularia. Devido a certas características ecológicas – a presença de aves predadoras e a coloração das superfícies de pouso, constituídas por árvores obscurecidas pela ação poluente do fumo das fábricas da região –, nas populações dessa espécie de mariposa onde estão presentes uma variante mais clara e outra mais escura, a variante com a coloração mais escura tende a um maior sucesso reprodutivo. A frequência dos fenótipos, nessas populações, corresponde àquela prevista por (1). Não há, todavia, uma lei causal – universal – que explique por que, nessas populações, acontece essa distribuição. Significa isso que não podemos explicar causalmente o fenômeno? Tal conclusão seria completamente insatisfatória, se levássemos em conta que, do ponto de vista de um biólogo evolutivo, é justamente esse tipo de explicação aquela desejada em casos análogos a esse.

Afortunadamente, alinhados com a análise realizada anteriormente, não precisamos de uma lei causal para obter tal explicação. No caso do melanismo industrial, a relação entre a coloração das mariposas e das superfícies de pouso é estável sob várias intervenções. Isto é, manipulando experimentalmente o segundo fator – obrigando, por exemplo, as fábricas a usar filtros que reduzam a poluição –, é possível controlar o primeiro – a cor das mariposas. Por meio de tal manipulação podemos, em última instância, determinar o fenótipo que será mais adaptativo intervindo em sua ecologia. Estamos, em outras palavras, em presença do que Caponi chama de um “invariante seletivo” da forma.

Se, em populações de insetos de ecologia análoga a essas de Biston betularia, nas quais aconteceu o melanismo industrial, ocorrem colorações alternativas tais que uma seja mais contrastante com as superfícies de pouso que as outras, então, nessas populações, as colorações menos contrastantes serão as ecologicamente mais aptas (p. 116).

Tal invariante admite, como é fácil ver, um sem fim de exceções, já que é virtualmente impossível estabelecer todos os fatores ecologicamente relevante em um caso concreto, mas é suficientemente sólido para servir de base a uma série de contrafactuais. E isso é tudo o que ele tem que fazer. Conforme o enfoque experimental, onde há invariância, há apoio de contrafactuais; onde há apoio de contrafactuais, há relação causal; e onde há relação causal, é possível, ao menos em princípio, fornecer uma explicação causal.

A biologia (em particular a biologia evolutiva – que foi a única a ser tratada explicitamente nesta resenha –, mas não somente) constitui-se, explicativamente, sobre um “mosaico de invariantes” – cito Caponi por inteiro – “sempre locais e caducáveis, que, como a mortalha tecida e destecida por Penélope, está em permanente estado de reconfiguração” (p. 120). Nisso, a biologia distingue-se da física. Embora ambas possuam leis consequenciais as quais proporcionam uma unidade teórica bem característica, apenas a física pode contar com leis causais universais. A biologia – ainda que, como vimos, existam exceções como a lei de Fisher – produz explicações causais a partir de invariantes locais e mutáveis.

A imagem do mosaico não satisfaria aquele que, como o próprio Hempel, considera que, em última instância, deve existir uma base causal subjacente, comum a todas as ciências, com uma forma nomológica: uma estrutura oculta de leis eternas e imutáveis (cf. Woodward, 2003, p. 159 ss.). De acordo com essa perspectiva, as ciências como a biologia estariam em um constante estado de heteronomia nomológica, isto é, forneceriam explicações apoiando-se em leis do domínio da física ou da química.

Para elucidar a relação entre propriedades biológicas e mundo físico – e assim reafirmar a autonomia da explicação biológica –, Caponi defende, no último capítulo de seu livro, uma versão clássica de fisicalismo (cf. Stoljar, 2015), que combina superveniência com múltipla possibilidade de realização. Nessa perspectiva, uma propriedade não física é necessariamente instanciada por uma propriedade física, mas não necessariamente pela mesma propriedade física em todas suas instâncias. Isso implica, diz Caponi, seguindo Sober (2010, p. 226), que “não pode haver diferença biológica sem diferença física, mas pode sim haver semelhança biológica sem semelhança física” (p. 151 ss.).

A originalidade de Caponi é que, em lugar de simplesmente contentar-se com essa posição de compromisso entre reducionismo e autonomia explicativa, articula um critério que pode ajudar-nos a entender, em domínios específicos da biologia, quais são os fenômenos que podem ser proveitosamente explicados em termos físico-químicos e quais, ao contrário, deveriam manter a própria autonomia. Tal critério depende da noção de “grau de superveniência” (p. 154 ss.): “dados dois sistemas ou objetos, quanto menos delimitado ou especificado esteja o conjunto de predicados físicos dos quais depende a correta atribuição, a ambos, de um predicado biológico, mais superveniente será esse predicado” (p. 159). Um predicado concernente à atribuição de um determinado traço anatômico-funcional em fisiologia, embora seja multiplamente realizável, está especificado por um conjunto menor de predicados físicos do que um predicado concernente à atribuição genérica de um traço adaptativo em ecologia evolucionária. Isto é, há menos maneiras de realizar fisicamente, por exemplo, um olho, do que uma complexa propriedade ecológica. Segundo Caponi, embora ambas as propriedades sejam dependentes de uma base física, é mais promissor procurar explicações reducionistas no primeiro caso do que no segundo.

Quanto maior é o grau de superveniência das propriedades estudadas, mais liberdade temos para não nos comprometer em tentativas de explicar os fenômenos a elas associadas que obedeçam a uma perspectiva reducionista, e mais incertos são os lucros cognitivos desse compromisso (p. 160).

Esse enfoque não viola, em nenhum caso, a clausura causal da física (cf. p. 162 ss.), já que não nega que exista uma ontologia básica fisicalista, mas coloca em dúvida que usar os óculos das ciências mais básicas seja sempre a melhor maneira para entender os fenômenos naturais.

3 FINAS MANIPULAÇÕES E MARTELADAS

As vantagens do enfoque experimental sobre o hempeliano, e qualquer outro modelo nomológico (cf. Woodward, 2003, cap. 4), são demasiado importantes para que possam ser ignoradas por qualquer filósofo da ciência. Parafraseando Caponi (p. 161), o qual, por sua vez, inspira-se em Suppe, ele tem todas as vantagens das finas manipulações no software sobre as “marteladas” no hardware. Dentre os que estão atualmente disponíveis, nenhum outro modelo, além do modelo de Woodward é, em minha opinião, capaz de oferecer uma análise epistemológica da causalidade e da explicação causal tão acurada. Ele oferece a possibilidade de levar a análise da explicação científica a um grau de detalhe impensável para o modelo hempeliano, o qual, por suas ambições de universalidade, mal se adapta às exigências das ciências especiais. O grande mérito de Caponi é de ter sido capaz de derivar, esclarecer, organizar e desenvolver todas as principais consequências do modelo de Woodward de uma maneira accessível e “pronta para o uso” dos filósofos da biologia de fala espanhola e portuguesa. Seu livro é rico de estímulos e, com certeza, será o ponto de partida de muitos debates futuros.

Notas

1 De Lewis, é importante lembrá-lo, Woodward e Caponi distanciam-se também pelo caráter não redutivo da análise da noção de causa. Isto é, Woodward e Caponi não pretendem definir o conceito de causa a partir do conceito, supostamente mais elementar e primitivo, de manipulação, mas apenas mostrar como este último, que é também essencialmente causal, é elucidativo com respeito a certas relações causais concretas.

Referências

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WOODWARD, J. Making things happen. A theory of causal explanation. Oxford: Oxford University Press, 2003.

Lorenzo Baravalle – Centro de Ciências Humanas e Naturais. Universidade Federal do ABC, Santo André, Brasil. E-mail:  lorenzo_baravalle@yahoo.it

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El Jano de la morfología: de la homología a homoplasia, historia, debates y evolución – OCHOA; BARAHONA (SS)

OCHOA, Carlos; BARAHONA, Ana. El Jano de la morfología: de la homología a homoplasia, historia, debates y evolución. Ciudad de México: Centro de Estudios Filosóficos, Políticos y Sociales Vicente Lombardo Toledano/ Universidad Nacional Autónoma de Mexico, 2014. Resenha de: FARIA, Felipe. As duas faces da morfologia: funcionalismo e formalismo. Scientiæ Studia, São Paulo, v.13, n. 3, p. 679-84, 2015.

O tema da evolução biológica tem amplo impacto no pensamento humano e científico nos séculos XIX e XX e ainda nos dias atuais apresenta reflexos no desenvolvimento do conhecimento produzido pelas diversas áreas das ciências da vida. Ele é o unificador de uma ampla rede de explicações biológicas que relacionam o trabalho de áreas da biologia que a primeira vista podem parecer que pouco tem a ver entre si em um marco explicativo singular. Podemos entender o fenômeno evolutivo sob o enfoque de três perspectivas diferentes: como uma via, como um mecanismo ou como causa. Obviamente, tais enfoques suscitaram e ainda suscitam discussões dentro de vários campos da biologia, como a anatomia, a fisiologia e a morfologia comparadas. Conceitos fundamentais dessas áreas da biologia comparada, tais como, por exemplo, homologia, analogia, homoplasia, paralelismo e convergência, receberam vários enfoques e sofreram modificações ao longo do tempo, na busca de enquadrá-los nas teorias evolutivas surgidas a partir do século XIX.

Tratando destas questões Carlos Ochoa e Ana Barahona escreveram o livro El Jano de la morfología: de la homología a homoplasia, historia, debates y evolución. O título faz uma referência ao deus romano Jano, que na mitologia representa as portas, os começos e os finais, uma vez que, com seus dois rostos pode olhar ao mesmo tempo o início e o fim das coisas. Por sua vez, o Jano da morfologia é uma analogia às oposições de sentido de conceitos fundamentais relacionados aos estudos dessa ciência, muitas vezes encontradas nas discussões ocorridas ao longo do tempo. Uma dessas discussões refere-se à oposição entre o enfoque funcional, que serve de base aos estudos fisiológicos e adaptativos do corpo orgânico como sendo um sistema complexo de regulação, e o enfoque formalista que se centra no descobrimento de planos fundamentais e causalidades internas do organismo, as quais são independentes de sua função. O Jano da morfologia tem um rosto voltado para o enfoque funcional e o outro voltado para o enfoque formalista.

Na introdução do livro, os autores apresentam sua argumentação em defesa da importância do ensino da ciência e de sua história, tomando como referência o desenvolvimento do pensamento evolucionista. Segundo eles, se queremos ter uma melhor compreensão da maneira como o conhecimento científico é produzido, como os critérios de cientificidade são estabelecidos, como as metodologias são validadas e que evidências podem ser consideradas confiáveis, tanto no passado como no presente, devemos dar especial atenção aos momentos de conflito intelectual, como, por exemplo, aos debates analisados. Os estudos das controvérsias científicas são importantes porque produzem informação fundamental para a compreensão dos processos envolvidos na construção e consolidação das disciplinas científicas, uma vez que é nos momentos de conflito intelectual que se tornam evidentes os aspectos mais importantes desses processos. Nesse sentido, os autores propõem-se a analisar os debates sobre as concepções de forma e função, que ocorreram dentro do âmbito da anatomia comparada, desde os tempos da biologia pré-evolutiva até os dias atuais.

E é o que fazem, já no segundo capítulo do livro ao discutir as diferenças sobre a concepção funcionalista de Georges Cuvier (1769-1832) e concepção formalista de Étienne Geoffroy Saint-Hillaire (1772-1844). Os dois naturalistas do Museu Nacional de História Natural de Paris enfrentaram-se em uma polêmica referente a suas concepções de analogia: o principal ponto de divergência entre suas concepções funcionalistas e formalistas. Esse é o momento histórico no qual um dos grandes objetivos da história natural era a elaboração de um sistema de classificação natural, baseado na busca de leis ocultas na forma dos organismos, as quais refletiriam a maneira na qual haviam sido construídos. Para o funcionalismo de Cuvier, o termo “analogia” referia-se às relações de funcionalidade, ou seja, à necessidade funcional, na qual se baseavam os princípios da anatomia comparada, e que seria a fonte geradora das semelhanças. Por sua vez, para Geoffroy, a analogia estaria baseada nas relações de correspondência estrutural entre distintos organismos, a qual seguia um sistema em comum, ou unidade de tipo, ou seja, ao comparar as estruturas animais, poder-se-ia pensar que elas são as mesmas porque foram construídas com o mesmo material orgânico. Denominada de “polêmica dos análogos” o debate entre Cuvier e Geoffroy foi um conflito entre noções teóricas incompatíveis em que cada um dos naturalistas dava explicações diferentes a respeito da origem da forma animal.

No terceiro capítulo, os autores analisam a alteração que os conceitos de analogia e de homologia sofreram no momento em que se instaurou o evolucionismo como orientação teórica da história natural, estabelecendo a ideia de ancestralidade como fator componente de tais conceitos. Tendo Charles Darwin (1809-1882) e Richard Owen (1804-1892) como nomes centrais dos debates que se seguiram após o estabelecimento da ancestralidade, os autores de El Jano de la morfología apresentam as diferentes concepções de evolução biológica desses dois naturalistas ingleses, as quais resultaram em grandes diferenças nas definições dos termos “analogia” e “homologia”.

Essas diferenças ocorreram em virtude de Owen, apesar de defender a ideia de evolução biológica, ser um anatomista da velha escola, que interpretava a estrutura orgânica mediante o argumento da criação, e de Darwin ser um defensor da seleção natural que, com seu elemento variacional fortuito, seria a responsável pela origem da estrutura orgânica. Para Owen, a homologia referia-se ao mesmo órgão, ou parte, que, encontrado em diferentes animais, poderia variar em sua forma e função. É o que poderia ocorrer nas variações de seu “arquétipo ideal dos vertebrados”, uma forma basal idealizada, na qual todos os planos de organização corporal dos vertebrados eram uma variação e que funcionava como uma unidade de tipo. Assim, a analogia, para Owen, referia-se a uma parte ou órgão de um animal, que tem a mesma função de outra parte ou órgão em um animal diferente. Para Darwin, que defendia que a unidade de tipo era originada pela descendência comum, a homologia indicava um órgão, ou parte, em diferentes animais, que compartilhavam uma mesma origem evolutiva. Tais órgãos ou partes, submetidos às condições de existência ocorridas durante cada um de seus processos evolutivos, acabavam por modificar-se para executar funções diferentes. As analogias, para ele, referiam-se às semelhanças estruturais que dependiam da semelhança funcional. Em suma, Darwin desenvolveu uma teoria funcionalista e interpretou os conceitos básicos do formalismo no interior dessa perspectiva funcional.

No quarto capítulo, são introduzidos os termos “homoplasia” e “homogenia”, formulados por Edward Lankester (1847-1929) que procura sintetizar a visão evolucionista com a perspectiva da velha escola da morfologia. De acordo com Lankester, o termo homologia continha elementos do formalismo defendido por Owen, como a unidade de tipo, que ainda prevaleciam na linguagem dos evolucionistas. Como solução ele propôs o termo “homogenia” para referir-se àquelas estruturas que possuem uma continuidade por ascendência comum. Propôs também, o termo “homoplasia” para indicar aquelas estruturas que não surgem por essa continuidade hereditária, mas sim pela ação modeladora do ambiente. Como decorrência dessas propostas, os conceitos elaborados por Lankester promoveriam a origem dos modernos conceitos de paralelismo e convergência, os quais se desenvolveram dentro do debate do formalismo versus funcionalismo.

O quinto capítulo é iniciado com a definição usual do termo “paralelismo”, relacionando esse conceito com a sua utilização para representar a evolução independente de estruturas similares em linhagens com parentesco próximo, enquanto que o termo “convergência” é utilizado para indicar a evolução independente de estruturas similares em linhagens com parentesco distante. A partir de então, o capítulo trata da origem do termo paralelismo, estabelecendo uma relação deste com a teoria da ortogênese e suas articulações propostas por Henry Osborn (1857-1935) e William Scott (1858-1947), segundo as quais os caracteres surgiriam em direções definidas e sem nenhum valor adaptativo. O livro analisa essa teoria mostrando que a ortogênese pode ser vista como um fenômeno de constrição no qual a estrutura se limita ou se canaliza em apenas poucas rotas de transformação, e é assim que os organismos com parentesco próximo produziriam os mesmos caracteres, mesmo que evoluindo independentemente. Osborn reconheceu a constrição como um fenômeno ocorrente, porque a evidência fóssil mostrava isso e indicava linhas estabelecidas em uma só direção. Scott, por outro lado, mencionou que as estruturas permaneciam estáticas e que a ortogênese deveria explicar a limitação das formas mais do que preocupar-se com a variação.

Como conclusão do quinto capítulo, os autores defendem que os termos “homoplasia”, “paralelismo” e “convergência” desenvolveram-se a partir de teorias evolutivas que concorriam para alcançar aceitação entre a comunidade científica com relação à explicação do fenômeno evolutivo. Assim, as ideias de homoplasia e paralelismo foram descritas com base na teoria ortogenética e a ideia de convergência foi descrita com base na herança dos caracteres adquiridos ou com base na interação de diferentes fatores evolutivos, dos quais a seleção natural resultava ser somente um dentre vários deles. Além disso, como os ortogeneticistas sempre tiveram interesse nos assuntos relacionados aos fatores internos e nas limitações estruturais, Scott acabaria por mencionar que as estruturas prevaleciam estáticas e que sua direção evolutiva encontrava-se restringida. Por outro lado, Osborn argumentou que os fatores externos somente trabalhavam para a acomodação das proporções, mas nunca na origem de novas estruturas. Ambos, por meio de suas definições, proporcionaram as bases epistemológicas para o desenvolvimento do conceito moderno de paralelismo. Para tanto, desenvolveram inúmeros trabalhos na área da paleontologia a qual consideraram como uma disciplina autônoma e fundamental que trazia respostas a grandes questões da teoria da evolução.

No penúltimo capítulo, são discutidas as ideias de Arthur Willey (1867-1942) com relação aos conceitos de homoplasia, paralelismo e convergência. Para ele o conceito de convergência tinha um significado mais geral, que explicaria todos os casos da evolução independente e cujas causas seriam relacionadas aos efeitos da seleção natural. Ainda que Willey estivesse seguro de que o meio externo era o responsável pela convergência, ele afirmava que grande parte da convergência era devida a causas internas, no sentido fisiológico funcional. Consequentemente, propôs que muitas das estruturas que consideramos homologias poderiam ser tomadas como convergências. Ele ainda definiu a homoplasia como sendo estruturas semelhantes que se originaram por meio da seleção natural a partir de órgãos homólogos. O capítulo é encerrado com a observação de que o termo paralelismo, surgido das teorias ortogenéticas, adquiriu um novo significado, sendo tomado como um tipo de convergência na qual se descrevia que duas linhagens evoluiriam paralelamente desenvolvendo semelhanças estruturais.

No capítulo final são apresentadas as principais discussões do passado recente e da atualidade, que envolvem, por um lado, o termo “homologia” e, por outro lado, os termos “homoplasia”, “paralelismo” e “convergência”. Sobre a homologia é possível ver que as principais discussões desenvolveram-se a partir da definição clássica, na qual estão implicados os conceitos de semelhança e ancestralidade comum. Isso gerou um debate entre morfologistas e sistematas filogenéticos, desde meados do século XIX, quando o fator evolutivo adentrou as discussões. No debate atual sobre o conceito de homologia, o paralelismo e a convergência foram incluídos no conceito único de homoplasia e, consequentemente, iniciou-se uma disputa contemporânea sobre a distinção entre esses conceitos, a qual poderá ser solucionada mediante os avanços da biologia do desenvolvimento. Assim atualmente, é possível definir a homoplasia como sendo as semelhanças da forma e da função, que surgem independentemente em duas ou mais linhagens durante o curso da evolução. E paralelismo pode ser definido como a semelhança que surge de maneira independente, em linhagens com parentesco muito próximo, em virtude da adaptação por meio da seleção natural.

Enfim, no livro El Jano de la morfologia, os autores mostram a importância dos debates científicos em um contexto de estudos históricos e filosóficos. A história e a filosofia da ciência são instrumentos úteis para entender as teorias do passado, do modo como foram formuladas e as circunstâncias nas quais se desenvolveram. Nos temas abordados neste livro, a história dos conceitos de homologia, analogia, homoplasia, paralelismo e convergência ajuda-nos a entender a problemática atual dos estudos da sistemática filogenética. E, para tanto, o livro conta com um texto eloquente e agradável, além de fornecer um glossário abrangente, assim como notas e tabelas úteis que comparam as ideias, os conceitos e as teorias envolvidos nas discussões ocorrentes até a atualidade. Como dizem os próprios autores: “hoje as duas caras do Jano da morfologia continuam olhando até pontos contrários de interpretação, mas não devemos desistir de guiá-las até um ponto de unificação” (p. 241). E o livro de Ochoa e Barahona é uma excelente iniciativa nesse sentido.

Referência

OCHOA, C. & BARAHONA, A. El Jano de la morfología: de la homología a homoplasia, historia, debates y evolucíon. México: Centro de Estudios Filosóficos, Políticos y Sociales Vicente Lombardo Toledano/Universidad Nacional Autónoma de México, 2014.

Felipe Faria – Departamento de Filosofia. Universidade Federal de Santa Catarina, Florianópolis, Brasil. E-mail: felipeafaria@gmail.com

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Colégio Pedro II – lugar de memória da educação brasileira / Cadernos de História da Educação / 2015

Durante o Império, desde o início da tarefa de construção da nacionalidade brasileira, o discurso de legitimação da Monarquia levou políticos / intelectuais a formularem um projeto civilizatório de Nação, comprometido com o perfil identitário branco, europeu e cristão idealizado para os trópicos.

Como elementos constitutivos do projeto civilizatório do Império, podemos identificar os investimentos da diretriz política no campo da educação e cultura, tais como:

– A primeira Lei da Instrução Pública de 15 de outubro de 1827, que estabeleceu as “escolas das primeiras letras para meninos e meninas”, destinadas às camadas mais populares e vedadas aos escravos, em consonância com a organização do Estado patrimonialista e escravista;

– A criação das Escolas de Medicina de Salvador (1823) e do Rio de Janeiro, pela Lei de 03 de outubro de 1832, destinadas à formação de “especialistas na arte de curar” em farmácia, partos e procedimentos cirúrgicos, profissionais de formação científica, destinados a substituir, em longo prazo, o trabalho empírico dos curandeiros, parteiras e cirurgiões-barbeiros;

– A criação das Faculdades de Direito de Olinda e de São Paulo, em 1827, destinadas à formação de juristas, advogados, deputados, senadores, diplomatas e quadros da burocracia estatal. Centros de produção de saberes, modelados pela Universidade de Coimbra, caracterizados pelo autodidatismo e pela militância político-ideológica;

– A fundação da Academia Imperial de Belas Artes, em 1827, refundação da Escola de Artes (1816) e da Real Academia de Artes (1820), responsável pela produção iconográfica da imagem oficial do país. O didatismo nos temas de representação do Império – natureza exuberante, símbolos, rituais e retrato idealizado – oficializaram a memória do poder nacional; – A Escola Normal de Niterói, fundada em 1835, destinada a formar candidatas ao magistério público, segundo modelo das escolas francesas do século XVIII, criada com o objetivo de “ensinar como se ensina”. A formação das “mestras” em pedagogia representou o padrão idealizado do ensino público livre e laico da educação fundamental;

– A fundação do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro (IHGB), em 1838, lugar de produção da escrita da história nacional definida pelos critérios da pesquisa de fontes documentais, segundo princípios da historiografia do século XIX. O estudo da gênese da nação garantiu a identidade da civilização branca e europeia nos trópicos e delineou os contornos da nação brasileira;

– A criação do Arquivo Público, em 1838, também segundo modelo de arquivo nacional europeu, com a finalidade de recolher documentos oficiais para salvaguardar a memória do poder, hierarquizar e cristalizar as memórias do Estado. A autoridade institucional do Arquivo Público Nacional preservou um “patrimônio histórico que constitui a própria memória do país e possui a qualidade de acompanhar o desenvolvimento histórico brasileiro”;

– A fundação do Imperial Colégio de Pedro II, em 1837, instituído para servir de norma oficial da instrução secundária no Município da Corte e modelo nas demais províncias. Historicamente identificado como agência oficial de educação, criou uma cultura escolar própria e constituiu-se como um dos atores do processo de construção do regime monárquico e da nação civilizada, adquirindo, ao longo do tempo, uma segunda natureza institucional legitimada pela tradição.

A educação no Brasil Monárquico teve seu lugar demarcado no projeto civilizatório do Império de consolidação do Estado / Nação, sendo concebida como instrumento social de moralização dos indivíduos, garantia da ordem e caminho para o progresso. A fundamentação da política educacional, através das sucessivas Reformas do Ensino Primário e Secundário, evidencia a proposta ideológica de um Estado em formação que pretendeu assumir a responsabilidade pela instrução pública através de várias tentativas de criação de um sistema nacional para a configuração da identidade cultural da Monarquia.

O Imperial Colégio de Pedro II, fundado por Decreto de 02 de dezembro de 1837, pelo Ministro Interino do Império, o Bacharel Coimbrão Bernardo Pereira de Vasconcelos, para ser o modelo da instrução secundária, cumpriu seu papel de colégio padrão do ensino clássico no Município da Corte, projetando-se como instituição educacional de referência para as demais províncias, através de seus Estatutos organizacionais, seus Planos de Estudos, Programas de Ensino e compêndios didáticos de autoria dos seus professores catedráticos, que foram adotados na maioria das escolas do país.

O corpo docente de “notório saber”, nomeado pelo Ministério do Império, depois concursado e reconhecido pela sociedade; a seletividade do corpo discente, determinada pelos exames de admissão e promocionais; as exigências do curso de bacharelado de estudos simultâneos e seriado, expressas nos programas de ensino de tradição humanística; o pagamento das anuidades, apesar da existência de reservas de vagas para alunos necessitados; e a rígida disciplina imposta pelos Regulamentos – deram ao ensino secundário oficial, representado pelo Colégio de Pedro II, uma função formativa dirigida às elites, através da preparação dos alunos para o ensino superior. O Colégio foi o único estabelecimento de ensino secundário a conferir o Grau de Bacharel em Letras a seus formandos, título que dava o direito a ingressar nos cursos superiores do Império sem a obrigatoriedade dos exames das matérias preparatórias.

A concepção humanística da educação, patrimônio cultural iluminista, privilegiava o conhecimento erudito do latim e das línguas estrangeiras, notadamente o francês, garantia de participação social no mundo civilizado; dos saberes clássicos da literatura da retórica e da poética, formas de domínio do homem culto; e do conhecimento ilustrado da história universal, identificação da genealogia da nação brasileira branca, civilizada e cristã.

O curso das humanidades no Império foi defendido pelo grupo de políticos conservadores que consideravam o ensino secundário como uma etapa preparatória para os cursos superiores, sendo a educação clássica essencial ao brilho dos futuros Doutores no Parlamento. Os grupos de políticos mais liberais criticavam o modelo de educação ilustrada e procuravam introduzir, na legislação de ensino, disciplinas escolares de caráter mais científico, como “as matemáticas” e as ciências físicas e naturais, defendendo um ensino secundário mais prático e voltado para a modernização e o progresso. Nas duas visões culturais um ponto em comum: o ensino da História Universal e do Brasil como base da construção da identidade nacional e da formação do cidadão.

Instituição diretamente ligada ao poder constituído, o Colégio de Pedro II no período monárquico foi um celeiro de formação de grupos de elites culturais condutoras do país – “homens do mundo, homens das ciências, das letras e das artes”: políticos, legisladores, escritores e professores que se diplomaram nas tradicionais universidades europeias, ou nos cursos superiores de direito, medicina e engenharia do Império – “homens públicos” formados pelos paradigmas europeus de civilização e progresso. O Colégio Pedro II tem lugar na historicidade do poder cultural como guardião da herança civilizacional e órgão transmissor do patrimônio cultural, garantia da perenidade do Estado e de sua identidade nacional.

Durante o processo de desagregação do Estado Imperial, ficou patente a necessidade de se tornarem as instituições mais flexíveis e de se projetarem valores adequados à reordenação do Estado e das relações sociais.

No redesenhar do perfil do Estado nacional, a ideia libertária de república representou um “sentimento estético de crítica intelectual à ordem monárquica, retomando o discurso do progresso revitalizado pelas discussões em torno de novas atitudes civilizatórias”.

A tese da educação pública livre, laica e científica, foi um dos suportes do estado republicano. A importância da Instrução Pública foi redefinida segundo pressuposto de que um Estado para todos equivale a uma escola para todos, referência do aprendizado comum da vida coletiva para a formação da base para o progresso da razão pura e para o exercício efetivo da cidadania.

No início da República houve o boom da escola primária, pois era necessário “educar, controlar e ordenar a população livre do país”. Compartilhar a res publica exigia o conhecimento instrumental da preparação do cidadão. Pautada na “pedagogia do cidadão” e no dogma da liberdade do ensino, a escola republicana tinha a finalidade de desenvolver a moral e as virtudes cívicas, prioridades educacionais do novo regime.

Apesar da ruptura republicana com a tradição do Imperial Colégio – mudanças de nomes: Instituto Nacional de Instrução Secundária, 1889; Ginásio Nacional, 1890; Externato Nacional Pedro II e Internato Nacional Bernardo Pereira de Vasconcelos, 1909; extinção do bacharelado; abolição de títulos e diplomas (1911); e das políticas de equiparações dos ginásios estaduais e colégios particularidades (1892 / 1895 e 1911 / 1927) –, a existência de um passado comum entre o Colégio e a Monarquia foi o ponto de partida da construção da memória institucional dentro da memória nacional.

A tradição reinventada e revivida nos rituais de lembrança sustentou a instituição escolar nas fases de crise de identidade de sua natureza elitista e esgotamento do modelo de educação clássica e humanística, como resultantes da modernização imposta pela República e pela indefinição da política educacional. Esse processo de reenquadramento da memória que se alimenta do material da história é, segundo Michel Pollack, um “trabalho que reinterpreta incessantemente o passado em função dos combates do presente e do futuro, no sentido [de reconstrução institucional] da identidade individual e grupal”.

Nas primeiras décadas republicanas, a luta pela volta da designação histórica ao colégio, empreendida pelo Instituto dos Bacharéis, comunidade afetiva de ex-alunos, e pela comunidade escolar como um todo, foi um processo de recriação formal da memória coletiva, onde o poder pessoal e aristocrático do patrono foi preservado no patrimônio cultural escolar como um atributo afetivo e garantia hipotética da qualidade de ensino, bem como sua presença moral e protetora de avaliador erudito, evocada nos rituais de lembrança, que constitui marca de seu zelo paternal e um dos fundamentos da “memória petrossegundense”.

O movimento de preservação da memória coletiva e do nome histórico da instituição conseguiu, em 1911, a adesão do mais ilustre ex-aluno do Ginásio Nacional da época, o Chefe de Governo Marechal Hermes Rodrigues da Fonseca, sobrinho do fundador da República, cujo apoio e aprovação da nova reforma de ensino do Ministro Rivadávia Correa foi fundamental não só para a “restauração do nome Colégio Pedro II ao estabelecimento reunificado”, mas também para a redefinição de seu papel de instituição oficial de ensino, em sua nova natureza e finalidade: “Art. 1º O Colégio Pedro II tem por fim proporcionar uma cultura geral de caráter essencialmente prático, aplicável a todas as exigências da vida e difundir o ensino das ciências e das letras, libertando-o da preparação subalterna de curso preparatório”.

Como parte das comemorações do 1º centenário da Independência do Brasil, o Governo republicano revogou o decreto de banimento da família real e autorizou o translado dos despojos mortuários de D. Pedro e D. Teresa Cristina do Mosteiro de São Vicente de Fora, em Lisboa, para a Catedral de Petrópolis, cidade-capital de verão do Império, no Rio de Janeiro. A República do Café com Leite, carente de heróis nacionais e de popularidade, recebeu o ex-monarca como um “herói do passado”.

Também as comemorações do centenário natalício de D. Pedro II, em 1925, representaram uma aliança política em prol da reabilitação do monarca e não do regime monárquico, ambos mortos e descontextualizados. O dia 2 de dezembro, dia do aniversário de D. Pedro, foi declarado feriado nacional e comemorado com uma série de festejos populares, missas, desfiles, bandas e inaugurações de obras de arte. Estes festejos contribuíram para a formulação do mito do “Monarca magnânimo” fora da monarquia, perpetuando a imagem do “Monarca cidadão de barbas brancas de pé no meio da Quinta da Boa Vista”, e da representação oficial de “D. Pedro o intelectual de jaquetão surrado e chapéu preto sentado na Praça de Petrópolis”.

As instituições culturais ligadas ao seu patronato aproveitaram a oportunidade da comemoração para a produção de documentos-monumentos de celebração da história- -memória.

O Arquivo Nacional – a casa da memória oficial do país – organizou a “Publicação Temática: Infância e adolescência de D. Pedro II. Documentos interessantes publicados para comemoração do primeiro centenário do grande brasileiro ocorrido em 02 de dezembro de 1825”. Rio de Janeiro: Officinas Graphicas do Archivo Nacional, 1926.

A produção do IHGB apresenta D. Pedro como um político de visão, capaz de manter a unidade nacional, ponto nodal da opção monárquica e do princípio da alteridade em relação às Repúblicas da América Hispânica; um estadista culto, capaz de arbitrar dissidências internas e conflitos externos; um monarca atento aos princípios liberais, e gestor da política educacional.

Como não poderia deixar de ser, o centenário natalício de D. Pedro foi comemorado junto com o aniversário de 88 anos de fundação do “seu-colégio”. Em Sessão Solene do dia 2 de dezembro de 1925, no Salão Nobre do Externato, a Colenda Congregação, o corpo docente e discente e os Bacharéis do passado e do presente receberam as mais conceituadas personalidades políticas, sociais e intelectuais do Rio de Janeiro, como o Ministro Affonso Penna Júnior, o Príncipe D. Pedro de Orleans e Bragança, neto de D. Pedro II, e o Conde de Affonso Celso, Reitor da Universidade do Brasil, dentre outras autoridades civis, militares e eclesiásticas.

Como autoridade máxima, o Presidente Vargas encerrou a solenidade parabenizando o Colégio pelo transcurso de seu centenário e acentuou o compromisso do governo de cumprir a diretriz cultural de formação integral e os objetivos da política educacional estadonovista representada pela escola de massa com qualidade.

Nesta temporalidade histórica o Colégio Pedro II teve sua função de estabelecimento padrão do ensino oficial ratificada pelo programa de política educacional do Governo Federal, através da reordenação de seu papel no âmbito da instrução pública.

O Colégio Pedro II patrocinou a geração de documentos monumentos – produção de uma história institucional desde a origem setecentista – especialmente elaborados como legados de história memória, que constituem a permanência institucional no tempo presente. São eles: “Memória Histórica do Colégio Pedro II. (1837-1937)” – Luiz Gastão d`Escragnolle Dória. Rio de Janeiro: Ministério da Educação e Saúde, 1938. “Anuário Comemorativo do 1º Centenário da Fundação do Colégio Pedro II”. Raja Gabaglia (Org). Rio de Janeiro: Imprensa Nacional, 1944. “O Colégio Pedro II cem anos depois” = “Álbum do Centenário”. Ignesil Marinho e Luiz Inneco (Coord). Comissão Organizadora dos Festejos Comemorativos do 1º Centenário (Patrocínio). Rio de Janeiro: s / d.

A recriação da memória coletiva possibilitou a institucionalização das práticas e representações sociais de resgate do “passado de glórias do Imperial Colégio” e a superação do esvaziamento do Ginásio Nacional no contexto de crise e indefinição político-educacional da República Velha.

Como patrimônio cultural, o “novo-velho” Colégio Pedro II teve sua origem imperial preservada pelo acervo de memória que guarda a história vivida pela comunidade escolar no tempo, operando com as categorias passado / presente, sempre em processo de atualização / expansão como “um elo vivido no eterno presente […] onde a memória está em permanente evolução, aberta a dialética da lembrança e do esquecimento […] que se enraíza no concreto, no espaço, no gesto, na imagem e no objeto”, configurando a secular instituição de ensino como “lugar de memória” da História da Educação no Brasil.

Para salvaguardar todo o patrimônio histórico institucional foi criado pela Portaria da Direção Geral nº 1019, de 22 de agosto de 1995, o Núcleo de Documentação e Memória do Colégio Pedro II – NUDOM.

O NUDOM constitui-se como um guardião da memória coletiva petrossegundense, tanto pelos documentos únicos referentes à história do Colégio, como pelas memórias de seus antigos alunos e professores, registradas em livros, depoimentos escritos e orais e imagens que retratam as marcas muito características de uma formação educacional. Representa um setor institucional de pesquisa interdepartamental do Colégio Pedro II, aberto ao público desde 1998, com os seguintes objetivos: “Preservar, tratar e divulgar o acervo documental, bibliográfico e iconográfico do Colégio Pedro II; Estimular o trabalho de pesquisa na comunidade escolar junto aos professores e alunos; Dar suporte ao trabalho de pesquisa de graduação e pós-graduação de instituições nacionais e estrangeiras”.

Para este dossiê temático foram selecionados seis artigos representativos dos estudos desenvolvidos por pesquisadores de diferentes instituições de ensino em nível de Pós-Graduação. Os autores são: Ariclê Vechia (Universidade Tuiuti do Paraná), Karl Michael Lorenz (Sacred Heart University, Fairfield, Connecticut, EUA), Arlette Medeiros Gasparello (Universidade Federal Fluminense – UFF), Beatriz Boclin Marques dos Santos (Colégio Pedro II), Carlos Fernando Ferreira da Cunha Júnior (Universidade Federal de Juiz de Fora – UFJF), Jefferson da Costa Soares (Pontifícia Universidade Católica – PUC-Rio), Márcio Ferreira Nery Corrêa (Universidade de São Paulo – USP), e Vera Lucia Cabana de Queiroz Andrade (Universidade do Estado do Rio de Janeiro – UERJ, Colégio Pedro II – CPII, Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro – IHGB). O conteúdo dos trabalhos destaca o processo de construção do ensino das disciplinas História, Geografia, Sociologia e Educação Física, que compõem até hoje a base curricular das escolas brasileiras, a partir do contexto de escolarização proporcionado pelo Colégio Pedro II como personagem da História da Educação no Brasil.

Os trabalhos selecionados utilizaram essencialmente os documentos históricos que compõem o acervo do NUDOM, como fontes para suas pesquisas acadêmicas: Reformas da Instrução Pública, no Império e nos primeiros períodos da República; Programas de Ensino do Colégio desde sua criação; livros didáticos e teses de professores catedráticos; coleções de Manuscritos, como Atas da Congregação, Atas de Concurso, Livros de Matrícula, Livros de Nomeação de Professores e Funcionários. Estas são algumas das fontes primárias de pesquisa que compõem o acervo documental do NUDOM, essenciais para a fundamentação teórica dos trabalhos desenvolvidos por estudiosos da educação. O desenvolvimento dessas pesquisas caracteriza o NUDOM como centro interdepartamental de estudos e configura o Colégio Pedro II como “lugar de memória” da História da Educação Brasileira.

Vera Lucia Cabana de Queiroz Andrade – Doutora em História Social pela Universidade Federal do Rio de Janeiro. Professora aposentada de História da Universidade do Estado do Rio de Janeiro e do Colégio Pedro II. Pesquisadora do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro e do Núcleo de Documentação e Memória do Colégio Pedro II. E-mail: veracabana@yahoo.com.br


ANDRADE, Vera Lucia Cabana de Queiroz. Apresentação. Cadernos de História da Educação. Uberlândia, v. 14, n.1, jan. / abr., 2015. Acessar publicação original [DR]

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Conceitos na (para) a história da comunicação / Revista Brasileira de História da Mídia / 2015

Parece que foi ontem que preparávamos a primeira edição da Revista Brasileira de História da Mídia (RBHM), que circulou em janeiro-junho de 2012. De lá para cá, já são três anos e, agora, estamos lançando nossa sétima edição. Momento pra nós, editores, muito importante. Afinal, estamos discutindo a questão central de nossa proposta editorial, isto é, os Conceitos na / para a História da Comunicação. Aliás, História da Comunicação ou da Mídia? Esse é um dos pontos abordados na ementa do nosso dossiê temático e, também, na entrevista com a professora e pesquisadora Marialva Barbosa, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e atual presidente da Sociedade Brasileira de Estudos Interdisciplinares da Comunicação (Intercom). Marialva, aliás, discorre com propriedade sobre o tema, a partir de sua dupla formação – Jornalismo e História.

Nestes três anos, por assim dizer, passeamos pelo mundo. De Saint-Quentin-en-Yveline, nos arredores de Paris (França), veio uma das primeiras contribuições internacionais, pela prosa fácil do professor Jean-Yves Mollier. Mais próximo de nós, Reynaldo Castro, poeta, escritor, jornalista e professor, contribuiu com um artigo sobre Comunicação, ditadura política & memórias silenciadas, desde a cidade de San Salvador de Jujuy, no montanhoso Norte argentino. A RBHM andou bastante pelo Brasil também, tendo recebido submissões de trabalhos de praticamente todos os Estados da Federação. Submissões essas rigorosamente avaliadas no sistema de parecer cego, isto é, quem avalia não tem acesso prévio ao(s) nome(s) do autor(es). Leia Mais

Revista de Economia Política e História Econômica. São Paulo, n.33, jan. 2015.

REPHE 33 – Janeiro de 2015

  • Antecedentes Desenvolvimentistas na Formação Intelectual de Raúl Prebisch
  • Luiz Eduardo Simões de Souza
  • A integração econômica numa perspectiva teórica e a tipologia histórica dos processos na América Latina
  • Fábio Guedes Gomes
  • Thiago Cavalcanti do Nasscimento
  • Um estudo sobre a Divisão Internacional do Trabalho
  • Apoena Canuto Cosenza
  • Os escritos de Marx sobre a Irlanda nos anos 1860 e sua relevância para a compreensão do subdesenvolvimento
  • Patrick Galba de Paula
  • Arranjos Produtivos Locais: uma nova espacialidade nas políticas públicas
  • Kilma Gonçalves Cezar
  • Elimar Pinheiro do Nascimento
  • A Reprodução do Capital Monopolista
  • Paulo Sérgio Souza Ferreira
  • Breve histórico das tabelas de insumo-produto no Brasil
  • Rodrigo Emmanuel Santana Borges
  • Tiago Camarinha Lopes
  • Entre o Marxista e o Liberal: estudo comparado das obras de Caio Prado Junior e Fernando Henrique Cardoso
  • Rodrigo Badaró de Carvalho
  • Entre raios e trovoadas: o debate sobre o projeto da criação da Eletrobrás no interior do governo Juscelino Kubitschek (1956-61)
  • Marcelo Squinca da Silva

RESENHA: COGGIOLA, Osvaldo. Alemanha 1918-1924: Hiperinflação e Revolução. São Paulo: LCTE, 2010.

LaborHistórico. Rio de Janeiro, v.1, n. 2, 2015.

A norma brasileira em construção: a vez das classes populares

Nota Editorial

Apresentação

  • Leonardo Lennertz Marcotulio, Célia Regina dos Santos Lopes, Valéria Severina Gomes
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Artigos – Dossiê Temático

Artigos – Varia

Didáticos

LaborHistórico. Rio de Janeiro, v. 1, n. 1, 2015.

História dos Pronomes de Tratamento no Português Brasileiro

Sumário

Nota Editorial

Apresentação

  • Leonardo Lennertz Marcotulio, Célia Regina dos Santos Lopes, Silvia Regina de Oliveira Cavalcante
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Artigos

The Rock Basins of Serra do Cume: Azores megalithic rocks and enigmatic inscriptions rearrange the old Atlantic geography / Maria Antonieta Costa

A formação vulcânica do arquipélago dos Açores apresenta uma admirável variedade de litologias (composições rochosas) com propriedades mineralógicas interessantes – assim começa o Abstract introdutório do livro. E continua: no que respeita à formação geológica da ilha Terceira encontram-se presentes quantidades notáveis de sílica, elemento que parece ser fundamental também na composição das construções megalíticas do continente europeu. Seja ou não uma coincidência esse fato dá a impressão de ser ele a razão explicativa segundo a qual os indícios (sinais) encontrados na ilha Terceira, tais como marcas em forma de cortes e de taças, construções megalíticas, “inscrições”, sugerindo que intercâmbios semelhantes entre seres humanos e seu ambiente, que se sabe ocorrerem no continente, podem surgir em lugares mais improváveis, como no meio do Oceano Atlântico. A escolha de tais rochas para construir as ocorrências descritas também implica a existência de um “plano” anterior à sua implantação.

Até aqui o Abstract. O projeto desta investigação faz parte das atividades da Autora na Faculdade de Letras da Universidade do Porto, onde atua em estágio de pós-doutorado, e onde conta com o apoio da Professora Doutora Alice Duarte, tutora do projeto. Embora a presença de formações rochosas de configuração incomum, e em grande quantidade, desde longa data tenha despertado a atenção de moradores e visitantes da ilha Terceira nunca um estudo sistemático fora empreendido, até que Maria Antonieta Costa, pesquisadora de História da Cultura, resolveu dedicar-se ao tema. Para levar a cabo uma investigação detalhada, cuidadosa, e em larga escala, ela convidou geólogos e arqueólogos, e pesquisadores de áreas afins, e com eles fez o levantamento completo de todo o conjunto. Uma vez que não se encontraram (ainda) vestígios de ocupação humana anteriores à presença portuguesa a atenção voltou-se para definir a sua maior probabilidade através de dois caminhos: comparação com sítios arqueológicos similares em outros locais da Europa (quase todos na Escandinávia), e a análise/interpretação do conjunto em termos de Antropologia do Espaço, ou Antropologia da paisagem cultural. Segundo este ponto de vista certas configurações do ambiente natural (flora, geologia) oferecem à observação um potencial de imaginário cultural que atraem a presença humana, ou, quando menos, a suspeita fundamentada dessa presença.

Uma das questões mais destacadas pela autora é a forte presença de sílica na composição rochosa da Serra do Cume: essa presença não existe em outros locais dos Açores, mas é conhecida em rochas de outros lugares do mundo, onde as propriedades “mágicas” (curativas) da sílica fazem as populações atribuir poderes sobrenaturais às formações rochosas. Há ainda outros aspectos (sinais) destacados no texto e muitos deles fotografados: os riscos e sulcos nas rochas, as formações que lembram animais, ou humanos, as construções de pedras sobrepostas em muros, as taças aparentemente esculpidas na pedra, e o conjunto todo dessas rochas, algumas das quais dificilmente se podem imaginar sem a ação humana, que parece demonstrar uma intencionalidade na sua disposição.

Redigindo a conclusão do livro (agosto de 2014) a Autora afirma que as taças na rocha (rock basins), que foram o pretexto inicial para conduzir a pesquisa, passaram a segundo plano perante a importância que entretanto se revelou no conjunto. Ao preparar uma nova etapa da pesquisa, com o apoio de mais especialistas, e ampliando o campo de ação, Costa já estava também iniciando outras abordagens e consolidações do projeto: o convite a antropólogos europeus para visitarem a Serra do Cume, e a publicação de crônicas em jornais locais – em ambos os casos com a intenção de captar a atenção e o interesse do público, estudiosos, e autoridades, e garantir meios de investigação e credibilidade aos seus resultados.

Sir Barry Cunliffe, professor em Oxford, é um dos antropólogos europeus mais respeitados da atualidade;nos últimos anos ele vem defendendo a hipótese da existência de uma cultura megalítica atlântica muito anterior (nove mil anos a.C.) à suposta “chegada” dos celtas ao extremo ocidente europeu. Pelo contrário, segundo ele – no que é secundado, senão antecipado, por investigadores espanhóis como Ramon Sainero – teria sido nesse extremo ocidente que se teria originado a cultura depois conhecida como celta. Não é pois de admirar que Sir Barry Cunliffe atendesse prontamente o convite, visitasse a Serra do Cume, e no dia 15 de outubro de 2014, ao proferir palestra na Câmara de Vereadores de Angra do Heroísmo (Terceira) se mostrasse muito favorável à continuação das pesquisas. Além disso indicou o antropólogo George Nash para também ele visitar a ilha Terceira, o que o professor britânico aceitou, permanecendo na ilha de 15 a 25 de fevereiro de 2015, e apresentando relatório com suas conclusões.

George Nash percorreu os locais e observou as evidências rochosas mais destacadas: grutas, petroglifos, muros de pedra, rochas zoomórficas, sulcos nas lajes do solo, e concluiu que há possibilidade de serem sinais de ação humana. Constatou, porém, que não há nenhuma prova concreta da presença humanas na ilha anterior aos europeus (portugueses e flamengos); e que o pote de moedas fenícias e cartaginesas encontrado na ilha do Corvo (distante da Terceira) em 1749 só por si não garante que os fenícios tenham visitado as ilhas – as moedas podem ter sido um trote, colocado lá intencionalmente. Por isso ele recomenda que se realize um amplo projeto paleoambiental, procurando, por exemplo, sinais de pólen exótico, ou indícios de corte de floresta; mas aceita a viabilidade de resultados positivos, ao concluir pelo seu engajamento nesse futuro projeto.

As crônicas, onde a autora traduz e detalha diversos aspetos do livro, foram iniciadas no final de novembro de 2014, e no início de abril de 2015 somavam 17 textos publicados, quase todos de cerca de uma página, e sempre com o mesmo título: “Crónicas de uma causa mal-amada” – mal amada porque tem sido rejeitada, ou pelo menos desconsiderada pelo público açoriano. Pelos moradores, que dizem: “Quem gostaria de vir de longe, ver pedras?” (Crónica 9); pelas autoridades, particularmente do Geoparque dos Açores, que se mostram “relutantes” e mesmo “irredutíveis” a propor a candidatura do local investigado para ser classificado de forma diferenciada (Crónica 10); e pelos especialistas, nomeadamente arqueólogos, que têm sido “cegos” (Crónica 11) para as evidências que contrariam a história oficial: a de que o arquipélago era desabitado e não tinha recebido presença humana antes da chegada dos portugueses. Mas, tanto as crônicas como o livro destacam a colaboração que a A. tem recebido de profissionais e especialistas, não só no levantamento completo do sítio (mapas, fotografias, descrições) como na análise e interpretação de alguns aspetos e no seu enquadramento teórico mais amplo. Contudo essas colaborações voluntárias, e os esforços da autora – apresentando-se em congressos, fazendo palestras, e seriados na televisão – não alcançaram ainda um objetivo fundamental do projeto: o de ter aprovada a realização de uma pesquisa arqueológica profunda e vasta, e com ela o reconhecimento da importância do sítio pelas autoridades e público interessados. É notável, porém, que uma obra composta numa ilha no meio do Atlântico, com pouco mais de cinqüenta páginas de texto, e 90 fotografias, tenha despertado a atenção de uma editora alemã e o interesse de dois importantes antropólogos europeus. Há nele certamente mais do que uma ingênua curiosidade, duas qualidades que fazem de Maria Antonieta uma descobridora de mundos novos, ou de novas maneiras de ver o mundo.

João Lupi – Docente do Doutorado Interdisciplinar em Ciências Humanas. Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). E-mail: lupi@cfh.ufsc.br.


COSTA, Maria Antonieta. The Rock Basins of Serra do Cume: Azores megalithic rocks and enigmatic inscriptions rearrange the old Atlantic geography. Saarbrücken: LAP/Lambert Publ., 2014, 73p. Resenha de: Brathair – Revista de Estudos Celtas e Germânicos. São Luis, v.15, n.2, 2015. Acessar publicação original. [IF]

Ensino de História e Interdisciplinaridade / Revista do LHISTE / 2015

Com um pequeno dossiê sobre Ensino de História e Interdisciplinaridade, chega ao público o segundo número da Revista do LHISTE. As três contribuições sobre o tema trazem reflexões sobre práticas educativas específicas, mas que apontam para problemas compartilhados em nosso campo. No primeiro artigo, Letícia Ferreira examina algumas experiências do Instituto Federal do Rio Grande do Sul na integração da História a disciplinas técnicas. A seguir, Jezulino Braga analisa possibilidades de ensino através da narrativa visual do Museu de Artes e Ofícios de Belo Horizonte, espaço de memória e linguagem particulares, que exigem do professor uma abordagem atenta a outras áreas do conhecimento. No terceiro texto, Eduardo Ferreira e Samuel da Silva discutem a formação do professor de História, confrontando teoria e prática, em busca de novas didáticas para a sala de aula.

Aproveitando o tema, apresentamos uma novidade: a seção Painel. A partir desta edição, publicaremos notas de profissionais convidados a respeito de assuntos “quentes” da área. São textos curtos, descritivos e / ou de opinião, que, acreditamos, permitem construir um painel de pontos de vista variados. Organizada pelo professor Benito Schmidt, a seção traz contribuições de Valdei Araújo, Itamar Oliveira, Jocelito Zalla e Viviane Gnecco.

Também publicamos neste número dois artigos na seção livre. Jaqueline Zarbato explora as interfaces entre currículo e práticas docentes no tocante à formação do professor de História. Mateus Meireles reflete sobre a temática dos Direitos Humanos no ensino da disciplina, recorrendo à sua experiência de estágio supervisionado.

Na seção Relatos de Práticas, Jefferson da Silva fala do PIBID-História da Universidade Federal do Rio Grande do Norte, e Leandro Mayer discute o Projeto História Local Porto Novo, desenvolvido em Itapiranga – Santa Catarina.

Caroline Pacievitch e Amanda Oliveira nos apresentam o livro Peabiru: um caminho, muitas trilhas, organizado pelas professoras Ernesta Zamboni, Maria de Fátima Sabino Dias e Silvia Finocchio, na seção Resenhas. Por fim, Pacievitch introduz um depoimento do professor Jean-Christophe Sanchez, do Lycée Pierre d’Aragon, em Muret (França), e da École Superieure du Professorat et de l’Éducation da Académie de Toulouse, na seção Entrevista.

Com este número, também inauguramos a nova identidade visual da Revista do LHISTE e sua publicação paralela via ISSUU, plataforma que permite a visualização digital da revista conforme a estrutura e as características das edições impressas. Com isso, buscamos qualificar a experiência de leitura e ampliar a circulação dos textos publicados, acreditando ser nosso papel estabelecer um espaço amplo de troca de ideias entre a universidade e a escola.

Equipe Editorial


Equipe Editorial. Editorial. Revista do LHISTE. Porto Alegre, v.2, n.2, jan. / jun., 2015. Acessar publicação original [DR]

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Devoções, festas e sociabilidades / Revista Brasileira de História das Religiões / 2015

Caros leitores!

É com imensa satisfação que apresentamos o vigésimo primeiro número da Revista Brasileira de História das Religiões!

Nesta edição contamos com artigos em torno da temática “Devoções, festas e sociabilidades”, resultante do V Encontro do GT História das Religiões e das Religiosidades da Associação Nacional de História (GTHRR-ANPUH), realizado na Universidade Federal da Bahia (UFBA), de 01 a 04 de dezembro de 2014. Nosso especial agradecimento às coordenadoras do evento, professoras Edilece Souza Couto e Elizete da Silva, que tornaram possível mais um debate qualificado e relevante para a temática das religiões e religiosidades e, junto a isso, a consolidação progressiva do GTHRR. “

Devoções, festas e sociabilidades” foi o tema desta edição do encontro, que oportunizou produtivas discussões, agregando significativas contribuições às nossas pesquisas e à nossa atuação docente. O evento contou com duas conferências proferidas pelas prefessoras Dra. Patrícia Folgeman (UBA) e Dra. Solange Ramos de Andrade (UEM).

As mesas-redondas versaram sobre variadas manifestações religiosas, contando com a presença dos seguintes profissionais: Eliane Cristina Deckmann Fleck (UNISINOS), Marta Borin (UFSM), Renata Siuda-Ambroziak (Universidade de Varsóvia Polônia), Antonio Lindvaldo Souza (UFS), Jânio Roque Castro (UNEB), José Roberto Severino (FACOMUFBA), Cândido da Costa e Silva (UCSAL), Edilece Souza Couto (UFBA), Mauro Passos (UFMG), Francisco Cancela (UNEB), Maria Hilda Baqueiro Paraíso (UFBA), Milton Araújo Moura (UFBA), Artur César Isaia (UFSC), Ileana Hodge (Universidad de Cuba), Vanda Fortuna Serafim (UEM), Fabrício Lyrio (UFRB), Íris Verena Oliveira (UNEB), Marli Geralda Teixeira, Elizete da Silva (UEFS), Lyndon Araújo (UFMA), Vasni Almeida (UFT), Leonardo Ferreira de Jesus (Rede Estadual da Bahia), Marcos Diniz (UECE) e André Luis Mattedi Dias (UFBA).

Essa edição da RBHR propriamente dita compõe-se de trabalhos que evidenciam a proficuidade dos estudos temáticos. O texto que abre as discussões “Festas, Devoções e sociabilidades” é uma contribuição da historiadora Patrícia Folgeman e contempla, de modo emblemático, um esforço que perpassa os demais trabalhos, isto é, pensar a “religião” e suas interfaces com outros conceitos utilizados na historiografia como “religiosidade” e “religiosidade popular”, contemplanto o uso de imagens, a criação e circulação de discursos religiosos e as redes de relações sociais derivadas de grupos e instituições.

O texto de Renata Siuda- Ambroziak trata das devoções marianas oficiais em análise comparativa do Brasil e Polônia, especificamente das crenças e práticas em prol de Nossa Senhora Aparecida e Nossa Senhora do Monte Claro, evidenciando suas aproximações e singularidades. Ainda analisando as crenças e práticas em honra a Nossa Senhora, Marta Rosa Borin avalia as tensões e conflitos referentes à devoção mariana no Rio Grande do Sul no início do século XX. Sua abordagem avalia as devoções a Nossa Senhora Medianeira Mediadora de Todas as Graças e A Mãe Rainha e Vencedora Três Vezes Admirável de Schöenstatt e as tentativas de consolidação e hegemonia aventadas pelos propulsores de cada devoção.

Eliane Cristina D. Fleck atém-se a devoção e piedade dos índios Guarani manifestas na religiosidade das missões jeusítico-guaranis do século XVII, a partir da documentação das Cartas Ânuas, analisadas pela autora. Mauro Passos, por sua vez, avalia a plasticidade da tradição religiosa e da sociabilidade do Congado no interior de Minas Gerais, salientando as idiossincrasias entre a religião oficial e a religiosidade popular ante tais práticas. Um olhar para as práticas devocionais também é foco de análise de Edilece Souza Couto, que em seu artigo atenta para as irmandades e ordens terceiras existentes em Salvador / BA, analisando as transformações arquitetônicas e legais que incindiram sobre as práticas religiosas ali realizadas.

A cultura e a religiosidade indígena e afro-brasileira também estão contempladas nos artigos de Francisco Cancela, Artur Cesar Isaia e Vanda F. Serafim. Cancela apresenta resultados de sua pesquisa acerca dos rituais mágico-curativos realizados em Porto Seguro entre os séculos XVIII e XIX. O autor evidencia o quanto práticas qualificadas como bebedeiras, batuques e superstições pelas autoridades evidenciavam a criatividade de seus partícipes em afirmar, reiventar e ressignificar valores tidos como oficiais para manter elementos de sua cultura. Para tanto o autor evidencia os intercâmbiso culturais e a socibilidade interétnica que se estabeleceram em um contexto de políticas de políticas assimilacionistas empreendidas pelas lideranças luso-brasileiras. Artur Isaia, em análise acerca do papel e atuação dos intelectuais da umbanda, evidencia seu esforço em compreender e “nomear” (termo do autor) a realidade do país considerando a própria religião como um de seus elementos base, “a” religião nacional. Vanda Fortuna Serafim atém-se ao intelectual Raimiundo Nina Rodrigues para analisar como as crenças e as devoções afro-brasileiras foram lidas pelo autor. Em especial, a autora acompanha as digressões de Nina Rodrigues concernentes ào conceito de festa. Revista Brasileira de História das Religiões.

Encerram o eixo temático dois artigos que versam sobre práticas e discursos. Marcos José Diniz Silva dedica-se a analisar o jornal O Nordeste de matriz católica e a construção de representações e valorações negativas ao espiritismo nos anos 1920. Seu foco prende-se aos mecanismos de condenação da crença espírita em expansão no sertão do Ceará. Por sua vez, o texto de Elizete da Silva pontua o investimento educativo e social dedicado às mulheres pelas religiões protestantes.

A Revista conta ainda com dois artigos livres. Em A cura dos corpos e a libertação das almas, Marilane Machado analisa como os discursos da Teologia da Libertação reverberaram na Pastoral da Saúde de Florianópolis / SC, em um contexto de extrapolamento da ação de instituições hospitalares e religiosas para a atuação junto às comunidades. Ana Rosa Cloclet Silva e Laís da Silva Lourenço, com o texto Entre a política e a religião, atém-se aos discursos difusos pelo semanário O Justiceiro , editado pelos padres Diogo Antônio Feijó e Miguel Arcanjo entre 1834 e 1835. Seguem-se a estes artigos livres duas resenhas, a primeira, de Marcos José Diniz da Silva, que apresenta a obra Do outro lado. A história do sobrenatural e do espiritismo, de Mary Del Priore; e a de Diego Omar da Silveira, que evidencia as discussões existentes na obra Intelectuais e militância católica no Brasil, organizada por Cândido Moreira Rodrigues e Christiane Jalles de Paula.

Desejamos a todos uma boa leitura!

Vanda Serafim

Gizele Zanotto


SERAFIM, Vanda; ZANOTTO, Gizele. Apresentação. Revista Brasileira de História das Religiões. Maringá, v.7, n.21, jan. / abr., 2015. Acessar publicação original

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A ordem do discurso: aula inaugural no Collège de France, pronunciada em 2 de dezembro de | Michel Foucault

Resultado de sua aula inaugural no Collège de France em 1970, A Ordem do discurso, constitui a obra no qual Michel Foucault se debruçará, sobre a produção dos discursos que permeiam na sociedade, assim como quem pode atuar na produção dos mesmos. A obra pode ser dividida em duas partes, na primeira, Michel Foucault expõe como se dá a produção dos discursos, os procedimentos que atuam no controle de sua produção, assim como os procedimentos que visam delimitar, os sujeitos que podem atuar na produção discursa. Já na segunda parte, o pensador anuncia como se dará seus trabalhos de investigações no decorrer dos cursos no Collège de France, apontando para aquilo que ele denominará de “conjunto crítico” e “conjunto genealógico”. Exploraremos cada uma dessas duas partes.

Partimos no momento à análise da primeira parte da obra. Foucault percebe o discurso como “reverberação” de uma verdade que nasce diante dos olhos do próprio sujeito. São enunciados materialmente existentes, podendo ser tanto escrito como pronunciado, proposições que adquirem caráter de verdadeiras passando a constituir princípios aceitáveis de comportamento (FOUCAULT:2013). Leia Mais

As Primeiras-Damas de Roma: as mulheres por trás dos Césares | Annelise Freisenbruch

Annelise Freisenbruch possui formação em antiguidade clássica pela Universidade de Cambridge, como docente e pesquisadora, trabalhou com a produção de uma série de livros e filmes populares sobre o mundo antigo. O que talvez explique parte da sua narrativa objetiva, em que destaca inúmeras obras literárias contemporâneas, como também filmes e séries de grande sucesso no século XX, especialmente no Reino Unido.

Freisenbruch escreve de forma clara e agradável, o que traz uma sensação de tranquilidade para o tema um tanto complexo e cheio de homônimos, tanto masculinos como femininos (algo frequente no mundo antigo). Leia Mais

Pensar el Estado en las sociedades precapitalistas. Pertinencia/ límites y condiciones del concepto de Estado | Eleonora Dell’elicine

El estudio del Estado constituye, indudablemente, un campo de investigación sumamente amplio, dinámico, cambiante y polémico. De hecho, las cuestiones relativas al Estado siempre han despertado el interés de los especialistas en ciencias sociales por cuanto refiere a un concepto central del discurso político contemporáneo a la vez que representa a un importante actor político de la vida social. De igual manera, el estudio del Estado ha sido alentado por las polémicas recientes respecto de la crisis actual de soberanía y eficacia de los Estados nacionales en tanto pilares del lazo social y del desarrollo del capitalismo, tal como habían sido concebidos durante el siglo XIX. Sin embargo, no se trata simplemente del agotamiento del objeto Estado: en tanto ya no se trata del dispositivo de articulación simbólica por excelencia, ha dejado de suministrar los supuestos y el fundamento para la subjetividad y para el pensamiento, sin que ello signifique que ha perdido toda forma de legitimidad. Si nos encontramos dentro de un contexto en el cual el Estado ya no es una condición dada, entonces se abre la posibilidad de historizarlo y empezar a pensar los límites de su aplicabilidad conceptual. En consonancia con este escenario, los últimos años han asistido a una multiplicación de trabajos en libros y publicaciones especializadas en torno a la aplicabilidad de tal concepto a las sociedades previas al desarrollo del capitalismo, lo cual a su vez abrió el campo para poner en discusión la especificidad de las configuraciones políticas en aquellas formaciones sociales, en donde ni la ideología, ni la política, ni la economía constituían ámbitos discernibles. Justamente por este aspecto, resulta cada vez más difícil, para una sola persona, abarcar los numerosos escenarios espacio-temporales y el conjunto de disciplinas – filosofía política, sociología, antropología, historia, arqueología, etcétera– susceptibles de ser empleadas para el estudio del Estado. Leia Mais

Teerã/ Ramalá e Doha: memórias da política externa ativa e altiva | Celso Amorim

Após a publicação de Conversas com jovens diplomatas (2011) e Breves narrativas diplomáticas (2013), a Benvirá lançou, neste ano, o novo livro de Celso Amorim, Teerã, Ramalá e Doha: memórias da política externa ativa e altiva. O livro se divide em três partes, que se propõem a analisar três aspectos da política externa brasileira considerados centrais por Amorim durante a sua chancelaria no governo Lula: as negociações acerca do programa nuclear iraniano, que redundaram na proposta turco-brasileira que ficou conhecida como Declaração de Teerã; a aproximação do Oriente Médio, em especial do mundo árabe; e a participação do Brasil nas tratativas das Rodada Doha.

Fortemente baseado em notas do próprio ex-ministro à época dos acontecimentos narrados, o livro apresenta os “bastidores” de diversas ações da diplomacia brasileira e de alguns outros países, inclusive expondo o modus operandi das grandes potências. Por meio da detalhada narrativa, torna-se possível vislumbrar as motivações brasileiras nas três grandes iniciativas apresentadas, além das percepções dos outros negociadores e líderes sobre as posições e a inserção internacional do Brasil durante o governo Lula. Leia Mais

China’s New Diplomacy Rationale/ Strategies and Significance | Zhiqun Zhu

Pensar a política externa da China no período contemporâneo é um dos desafios mais complexos que se coloca aos pesquisadores do campo das relações internacionais, em particular no Brasil. Atualmente, observa-se o adensamento de uma pauta que evolui desde 1974, quando o governo de Ernesto Geisel, no período do Regime Militar (1964/1985), sustentado pela lógica do Pragmatismo Responsável e Ecumênico identificou a China como um dos principais pivôs estratégicos mundiais. Portanto, a China já era vista como uma nação essencial ao projeto de inserção internacional do Brasil. Mesmo no pós-Guerra Fria, apesar de alguns momentos de retração da agenda externa, em particular nos períodos de realinhamento aos Estados Unidos na década de 1990, a parceria manteve sua centralidade.

Porém, é no século XXI, que este intercâmbio apresenta um salto qualitativo nos campos político e econômico, que traz implicações regionais e globais para o cenário brasileiro e o sul-americano. Desde 2010, a China assumiu o posto de principal parceira comercial individual do Brasil, fenômeno que se repete no restante da América do Sul. Esta ascensão econômica afeta projetos de integração como o Mercado Comum do Sul (MERCOSUL), a União das Nações Sul-Americanas (UNASUL) e a Comunidade de Estados Latino-Americanos e Caribenhos (CELAC), podendo relativizar sua importância político-estratégica. Além disso, tem gerado riscos como o do desvio de comércio e da desindustrialização. Leia Mais

Revista Brasileira de Peleontologia. Porto Alegre, v.11, n.1, 2008 / v.18, n.1, 2015

Os lugares de formação de professores de história em questão: dilemas, impasses e desafios para o século XXI / História & Ensino / 2015

A responsabilidade do professor, de que às vezes não nos damos

conta, é sempre grande. A natureza mesma de sua prática

eminentemente formadora sublinha a maneira como a realiza. Sua

presença na sala é de tal maneira exemplar que nenhum professor

ou professora escapa ao juízo que dele ou dela fazem os alunos, e

o pior talvez dos juízos é o que se expressa na “falta” de juízo. O

pior juízo é o que considera o professor uma ausência na sala.

Paulo Freire

A formação de professores de História para Educação Básica tem sido objeto de estudo ao longo das últimas décadas no Brasil. As pesquisas neste sentido têm participado, ativamente, da reflexão em torno da História Ensinada, posto sua relação necessária com as questões de ensino. Não há como pensar a formação sem ter a prática em perspectiva e, da mesma forma, as análises acerca da prática docente e, sobretudo, em relação aos diversos aspectos que permeiam as questões do ensino (a História do Ensino de História; o livro didático, sua produção e usos, entre outras tantas temáticas) informam as pesquisas sobre a formação do professor.

Pensar, então, a formação do professor é ter a prática em perspectiva e pensar a prática docente e os seus objetos implica, necessariamente, a reflexão sobre a formação. Deste ponto de partida, esse dossiê temático tem como objetivo contribuir com o debate sobre História e Ensino de História no país, por meio de reflexões relacionadas à formação do professor de história, em suas diversas dimensões – tanto aquelas ocupadas com os percursos de formação acadêmica quanto às relativas à formação adquirida no espaço escolar, por meio da experiência profissional. Nesse sentido, incorporam-se as pesquisas sobre currículos, habilitações, aportes teóricos, espaços de formação e, também, aquelas que dão conta das experiências docentes no âmbito da Educação Básica.

O dossiê entende, portanto, a formação não apenas como o processo de qualificação desenvolvido na universidade, mas também assume a experiência em sala de aula na Educação Básica como um processo formativo de igual importância. Assim, discutir a formação implica o enfrentamento do debate sobre o lugar da docência na construção da identidade profissional do historiador no século XXI, evidenciando os impasses forjados a partir dos binômios ensino versus pesquisa, produção versus reprodução, licenciatura versus bacharelado.

Da mesma forma, significa a problematização dos significados associados ao ensino de história e ao saber histórico escolar presentes na formação docente, seja aquela desenvolvida no percurso acadêmico, seja aquela construída ao longo do percurso profissional.

Diante do exposto, é como imenso prazer que apresentamos os artigos que compõem o presente dossiê, congregando uma rede de professores pesquisadores da área de Ensino de História de diferentes regiões e instituições de ensino do país. Ao longo desses textos, o leitor poderá perceber como cada autor(a) procurou responder ao desafio lançado de se pensar o lugar do professor de História no contexto da formação inicial e continuada, bem como da sua prática, tendo por referência os dilemas e impasses da construção da sua identidade profissional e das questões postas pela reformas em curso na Educação Básica, no Ensino Superior e na regulamentação do ofício de historiador.

O artigo “Ensino, História e Educação com / sem convergências”, de Carlos Augusto Lima Ferreira (UEFS) e Marcella Albaine Farias da Costa (UFRJ), que abre o presente dossiê, traz reflexões acerca da história do ensino de História ao problematizar questões relativas ao fazer docente nos processos de formação inicial no Brasil.

Em seguida, Nilton Mullet Pereira, Carla Beatriz Meinerz e Caroline Pacievitch (UFRGS), no ensaio “Viver e pensar a docência em História diante das demandas sociais e identitárias do século XXI”, abordam os desafios enfrentados pelo professor de História, diante das questões sociais e identitárias contemporâneas, em especial em relação ao diálogo intercultural, ao patrimônio cultural e aos passados imaginados nas mídias.

No artigo “A formação docente em História como profissional do magistério da Educação Básica”, Crislane Azevedo (UFRN) discorre acerca dos desafios da formação dos professores de História à luz das novas diretrizes curriculares nacionais para a formação inicial e continuada dos profissionais do magistério da Educação Básica e discute os possíveis encaminhamentos de propostas, levandose em consideração o repensar da organização e prática curricular dos cursos de formação docente inicial em História.

No próximo texto, intitulado “Aula de história: evento, ideia e escrita”, Helenice Rocha (UERJ) traz contribuições para o tratamento da aula e de seu planejamento como conteúdos na formação de professores de História a partir do diálogo com bibliografia historiográfica e pedagógica sobre o tema, considerando a especificidade dos conteúdos e objetivos da aula de História no ensino básico.

Na esteira desse debate, em “O que precisa saber um professor de História?”, Flávia Eloisa Caimi (UPF) dialoga com os autores do campo da História, do Ensino da História e da Educação, com a finalidade de problematizar algumas das principais demandas que se apresentam ao fazer do professor de História, diante da diversidade e complexidade das práticas sociais e culturais que adentram o universo da escola na contemporaneidade.

Tendo por foco os anos iniciais de trabalho docente, Osvaldo Mariotto Cerezer (UNMAT) e Selva Guimarães (UFU) apresentam o artigo “Professores de História iniciantes: entre saberes e práticas”. Neste texto os autores analisam alguns aspectos importantes relacionados à fase inicial da carreira profissional e suas implicações com a formação da identidade profissional docente, tomando como ponto de partida a análise de narrativas orais de professores de História iniciantes no Estado de Mato Grosso.

Em “Entre textos e práticas: ensino de História, instituição escolar e formação docente”, Renilson Rosa Ribeiro (UFMT) debate a tensa relação entre história ensinada, escola e formação de professores a partir da historiografia do Ensino de História no Brasil produzida nas últimas quatro décadas, evidenciando dilemas, problemas e perspectivas da prática docente na construção da identidade do profissional da História.

No ensaio “Lugar de formação: a produção intelectual discente sobre Ensino de História na pós-graduação strictu sensu na região Norte”, Mauro Cezar Coelho e Wilma de Nazaré Baía Coelho (UFPA) analisam como a temática do Ensino de História, com ênfase para os estudos sobre a formação continuada dos professores de História, tem se apresentado nas pesquisas de estudantes de pós-graduação strictu sensu na região Norte do Brasil.

O artigo “A produção de lugares na formação docente: experiências no Laboratório de Ensino de História da UFDG”, de autoria de Nauk Maria de Jesus e Fernando Perli (UFGD), tem como objetivo demonstrar como o curso de História da Universidade Federal da Grande Dourados (UFGD), uma universidade nova, localizada numa espacialidade fronteiriça no Estado de Mato Grosso do Sul, marcada pela diversidade cultural, por desigualdades e conflitos sociais, tem atuado na formação de professores de História, tendo como foco de análise o Laboratório de Ensino de História (LABhis).

Fechando o dossiê com o texto “Entre expectativas e experiências: a gênese do Laboratório de Estudos e Pesquisas em Didática da História (LEPEDIH) da UNESP / Assis”, Ronaldo Cardoso Alves (UNESP / Assis) historia os elementos que deram origem ao LEPEDIH na Universidade Estadual Paulista (UNESP), Campus de Assis, a fim de mostrar diferentes possibilidades de pesquisa em Ensino de História, por meio do repertório epistemológico da teoria da consciência histórica, oriunda da Didática da História, tendo em vista a discussão necessária a respeito da função pública da História.

A diversidade das abordagens e temáticas apresentadas aqui traduz o universo amplo e rico de estudos em desenvolvimento nas territorialidades do Ensino de História no Brasil, sempre expandindo e ressignificando suas fronteiras, construindo novas formas de pensar, sentir, ensinar e pesquisar o nosso fazer na interface entre a História e a Educação. Sem o envolvimento e a dedicação de nossos colegas convidados para a construção desse dossiê tal empreitada não seria possível e tão instigante.

Aqui registramos nossos agradecimentos aos autores pelo aceite de compor narrativas sobre a formação dos professores de História, o que na verdade significa falar também de nós mesmos, professores formadores das licenciaturas. Somos gratos ao Conselho Editorial da Revista História & Ensino, da Universidade Estadual de Londrina (UEL), por acolher de forma entusiástica e propositiva a ideia desse dossiê.

Aos possíveis leitores, esperamos que possam encontrar aqui possibilidades para pensar sobre o Ensino de História, tendo os professores da Educação Básica como personagens que merecem reflexão, diálogo e respeito. Boa leitura!

Wilma de Nazaré Baía Coelho – UFPA.

Renilson Rosa Ribeiro – UFMT.


COELHO, Wilma de Nazaré; RIBEIRO, Renilson Rosa. Os lugares de formação de professores de história em questão: dilemas, impasses e desafios para o século XXI. História & Ensino, Londrina,v.21, n.2, 2015. Acessar publicação original [DR].

Acessar dossiê

Assessing historical thinking & understanding: Innovative designs for new standard – VanSLEDRIGHT (CSS)

VanSLEDRIGHT, B. Assessing historical thinking & understanding: Innovative designs for new standards. New York, NY: Routledge, 2014. Resenha de: RUSSELL, Matthew. Canadian Social Studies, v.48, n.1, p.24-27, 2015.

History education researchers and history teachers have shown a growing interest in the teaching and learning of historical thinking. However, little has been said about how to assess disciplinary thinking in history. Bruce VanSledright, professor of history and social studies education at the University of North Carolina, Charlotte, attempts to fill this void with this timely and important book, entitled Assessing Historical Thinking & Understanding. Throughout the book, VanSledright proposes new methods of history assessment that utilize best teaching practices that are aligned with the American Common Core English Language Arts strand concerning history (Common Core, 2015). This book is relevant to the Canadian context as well.

Provincial curricula in Québec, British Columbia, Manitoba, and now Ontario emphasize historical thinking and as a result this book is a useful resource for teachers faced with teaching and assessing historical thinking.

The main is focus in this book is using diagnostic assessment in order to provide formative evidence of students’ understanding of historical thinking so that teachers may give feedback to the students, and adjust their teaching process accordingly. VanSledright has organized the book around the assessment triangle identified by Pellegrino, Chudowsky and Glasner (2001) where the three pillars of assessment are: a theoretical model of domain learning, tasks that allow for performance observation of learning goals, and the interpretation method for making inferences from student evidence. This part of the book is arguably the most important because it demonstrates a model for deep learning and understanding in history.

The strong emphasis on historical thinking in this book presupposes a familiarity with the processes and concepts of historical thinking. These concepts have become increasingly well known in the history education field through a number of publications (Lévesque, 2008; Lévesque, 2013; Seixas & Morton, 2013; VanSledright, 2010). VanSledright (2014) reviews these elements; however, the novice teacher or the history teacher without a strong background in the methodologies of the discipline may find his triangular model a roadblock to implementation. This is a valid concern because provincial curricula like Ontario in 2013 and Manitoba in 2014 have shifted towards historical thinking as underpinning learning in history (Government of Manitoba, 2014; Government of Ontario, 2013). Many history teachers lack the proper pedagogical skills in order to fully teach historical thinking in their classrooms. In Québec, where historical thinking has been part of the curriculum since 2007, many history teachers do not have formal training in history pedagogy (Éthier & Lefrançois, 2011). Also, when teachers have been progressively trained in disciplinary methods as history educators their experiences in teacher’s college often do not transfer to their own classrooms (Barton & Levstik, 2004). It would appear that there may be difficulty in implementing the assessment mind-shift when many teachers have not adopted the mindset that teaching historical thinking is, as VanSledright (2014) states, “sine qua non” (p. 6).

This book offers teachers an alternate method of assessing student knowledge of historical content, while also incorporating historical thinking concepts. Instead of the traditional multiple choice question, VanSledright (2014) proposes a weighted multiple choice model where students select the best answer from a list that has only one answer that is completely incorrect, but the other possibilities are somewhat correct (p. 59). In this model students would be awarded four points the most correct answer, two points for the next most compelling answer, and one point for the third. This model allows for questions that are at higher levels on Bloom’s Taxonomy and point to the complexity of the discipline itself. In weighted multiple choice questions the prompt is important because the purpose of the question is to assess historical understanding based on the procedures and cognitive strategies that the students have been using in class; for example: Based on the way the evidence we examined comes together, we can argue that Truman’s primary purpose for dropping atomic bombs on Hiroshima and Nagasaki was to a. avoid a costly and perilous ground invasion of the Japanese mainland.

  1. devastate the kamikaze morale and the arsenal of the Japanese air force.
  2. bring the immediate surrender of axis powers to allied forces.
  3. assert American military strength in the face of communist expansionism.

This model of multiple-choice test has the benefit of assessing deeper understanding and can be used in not only a formative manner because it gives information to the teacher about the level of student understanding, but also a summative way because the information could be used to make a judgment about a student’s achievement. While VanSledright is primarily concerned with the diagnostic assessment, the summative aspect is important to teachers who must report on student progress through grades. Here, the weighted multiple choice question could provide teachers an important summative tool that they may use, especially in programs of study that incorporate historical thinking within their standards.

The book also looks at other forms of assessment that are of interest to teachers. Question prompts with documents, interpretation essays, project presentations, verbal reports, and video analysis are considered as methods to corroborate information about student achievement. These other assessment strategies are open-ended and allow students to use evidence to substantiate and contextualize their interpretations.

VanSledright is writing from his position in the United States where accountability rules the day. He is guardedly optimistic that a change in assessment climate may occur: “In order for diagnostic assessment to operate in a large-scale testing culture, that culture in many different ways would need to redefine its attitudes and values regarding the purposes of assessing” (p.115). The first step in addressing this culture is in the classroom. Teachers need to take ownership of the curriculum and create a classroom assessment environment that promotes thinking and learning with students as partners in their learning (Brookhart, 2003). How might this look in a Canadian context? We can use the example of the imposition of the War Measures Act in order to see a weighted multiple-choice question in action. Primary source material is available through the Virtual Historian website; for example, a possible question might look like:

Based on the evidence we studied, we can argue that Trudeau’s primary purpose for invoking the War Measures Act was:

  1. to compensate for the inadequacy of the Quebec Police and the RCMP.
  2. to project power and strength to a scared population.
  3. because of the insufficient powers of the Criminal Code.
  4. because of the threat of a well-armed and co-ordinated FLQ.

A diagnostic question like this opens up a number of avenues for the teacher to take the learning.

First of all, it is an easy formative assessment in a ticket out the door scenario or lesson plenary. The question could be used prior to students beginning an argumentative piece because it would help the teacher understand the learning that took place during the lesson. As well, it could also help prepare students in developing a thesis statement or it could set up a discussion over whether or not the implementation of the War Measures Act was justified or not. This book offers ideas for the teacher that wishes to implement an assessment process that promotes deep learning of the discipline of history.

References

Barton, C. & Levstik, L. (2004). Teaching history for the common good. Mahwah, NJ: Lawrence Erlbaum Associates.

Brookhart, S. (2003). Developing measurement theory for classroom assessment purposes and uses. Educational Measurement: Issues and Practice, 22(4), 5-12. doi:10.1111/j.1745- 3992.2003.tb00139.x

Common Core Standards Initiative. (2015). English language arts standards, history/social studies. Retrieved from: http://www.corestandards.org/ELA-Literacy/RH/9-10/

Éthier, M-A., & Lefrançois, D. (2011). Learning and teaching history in Quebec: Assessment, context, outlook. In P. Clark (Ed.), New possibilities for the past: Shaping history education in Canada (pp. 325-343). Vancouver: University of British Columbia Press.

Lévesque, S. (2008). Thinking historically: Educating students for the 21st century. Toronto, ON: University of Toronto Press.

Lévesque, S. (2013). Enseigner la pensée historique. Vancouver, BC: Critical Thinking Consortium.

Lévesque, S. et al. (n.d.). The October Crisis, 1970 (single lesson). The Virtual Historian. Retrieved from: http://www.virtualhistorian.ca/october_crisis_single Ministry of Education, (2013). Canadian and world studies. Toronto, ON: Government of Ontario.

Ministry of Education and Advanced Learning. (2014). Grade 11 history of Canada: A foundation of learning. Retrieved from: www.edu.gov.mb.ca/k12/cur/socstud/index.html

Ministère de l’éducation, loisir et sport. (2007). Québec education program. Quebec, QC: Gouvernment de Quebec

Pelligrino, J., Chudowsky, N., & Glaser, R. (Eds.) – National Research Council. (2001). Knowing what students know: The science and design of educational assessment. Washington, DC: National Academy Press.

Seixas, P. & Morton, (2013). The Big Six Historical Thinking Concepts. Toronto, ON: Nelson.

VanSledright, B. (2011). The challenge of rethinking history education: On practices, theories, and policy. New York, NY: Routledge.

VanSledright, B. (2014) Assessing historical thinking & understanding innovative designs for new standards. New York, NY: Routledge.

Matthew Russell – Faculty of Education. University of Ottawa.

mrussell@wqsb.qc.ca Acessar publicação original

[IF]

 

A África que incomoda: sobre a problematização do legado africano no quotidiano brasileiro | Carlos Moore

A África que incomoda: sobre a problematização do legado africano no quotidiano brasileiro (2010) é um livro sobre uma diversidade de temas da contemporaneidade, não só brasileira, mas da totalidade dos países que se beneficiaram do tráfico de africanos escravizados e seus descendentes. Trata-se de uma obra de intervenção política que alia uma ampla fundação teórica à experiência de aproximadamente quatro décadas de observação de Carlos Moore em uma multiplicidade de ambientes sociais e no combate ao racismo, nas mais diversas partes do mundo. É um livro de fundamental importância, por trazer a contribuição do autor à compreensão da influência africana na cultura e no quotidiano sociocultural brasileiro.

O livro está dividido em três partes, sendo a primeira “África no cotidiano político: que tipo de cooperação”, a segunda, “A África no cotidiano educativo: bases práticas para o ensino da História da África”, e a terceira, “A África no cotidiano internacional: ou um governo federal continental, ou o caos”, composta por três entrevistas. Leia Mais

El Gran Terror. Miedo, emoción y discurso – TIMMERMANN (RHYG)

TIMMERMANN, Freddy. El Gran Terror. Miedo, emoción y discurso. Chile, 1973-1980. Santiago de Chile: Ediciones Copygraph, 2014. 338p. Resenha de: CONTRERAS ROJAS, Paula. Revista de Historia y Geografía, Santiago, n.33, p.201-205, 2015.

La obra de Freddy Timmermann presenta un análisis minucioso de una de las emociones características del ser humano que, dependiendo de cómo ésta se presente, puede llegar a invadir los diferentes ámbitos de nuestra vida modificando desde nuestras prácticas sociales hasta el modo en que la sociedad se estructura. Esta emoción, que oscila entre la parálisis y la acción, es el miedo. Timmermann nos muestra un recorrido del miedo colectivo que chilenos y chilenas sintieron en los años previos a la dictadura militar y durante los primeros años de ésta (1973-1980), centrándose en la élite cívico-militar y en la producción e instrumentalización que este grupo realizó de las in­seguridades latentes en el contexto histórico mencionado. Dicho recorrido está sustentado a partir de los discursos oficiales del régimen, mostrando cómo se puede transitar de miedos que son parte de la cotidianidad social a un gran miedo, el que puede transformarse finalmente en un gran terror.1 El autor desarrolla su obra en siete apartados que, articulados entre sí, entregan coherencia al objetivo o recorrido del libro. El primer apartado está dedicado a una contextualización más bien teórica del concepto de miedo, asociado, como bien señala el autor, “a una experiencia que genera un efec­to emocional variable debido a la interpretación de una vivencia, objeto o información como potencialmente peligrosa, cuando su control o anulación es incierta” (p. 38). Para Timmermann, el miedo vinculado a la experiencia traumática dictatorial sufrió una naturalización, pues éste se transformó en una emoción constante y cotidiana producida sistemáticamente desde el Estado. Ello convirtió el miedo en terror. Pero el miedo no se analiza como una emoción aislada, porque también se pone énfasis en la importancia del dolor, la utilización de violencia simbólica, la relación del miedo con la memoria en la construcción de miedos derivativos (miedos en relación a experiencias pasadas vinculadas a una amenaza directa), en la instauración de una ideología del sinsentido (en relación a la desensibilización y la impo­sibilidad de abordar lo traumático) y las posibles salidas al miedo (ya sea por el pensamiento mágico o la tecnología). Leia Mais

La derecha en la crisis del Bicentenario – HERRERA (RHYG)

HERRERA, Hugo. La derecha en la crisis del Bicentenario. Santiago de Chile: Ediciones Universidad Diego Portales, 2014. 213p. Resenha de: BUSTAMANTE OLGUÍN, Fabián. Revista de Historia y Geografía, Santiago, n.32, p.147-151, 2015.

Los estudios sobre la derecha chilena cuentan con un vasto recorrido durante el siglo XX sobre todo en lo que refiere a sus ideas políticas y a su papel en la justificación del golpe de Estado de 1973 y la dictadura militar. Sin embargo, el libro que se reseña plantea un importante desafío para el estudio de la derecha en el Chile post-dictadura: repensar su falta de comprensión política. Al respecto, cabe señalar que si bien es cierto que algunos de sus representantes políticos poseen tribuna en los medios de comunicación, existe poco esfuerzo intelectual en sus intervenciones públicas lo que impide su inserción en el debate político actual. Todo ello, por cierto, puede verificarse en los innumerables adjetivos calificativos para referirse a los enemigos políticos.

En este contexto, el filósofo y director del Instituto de Humanidades de la Universidad Diego Portales, Hugo Herrera, nos presenta este libro precedido de varios artículos publicados en el diario La Tercera en calidad de columnis­ta. Desde ya el título advierte una crisis en la derecha, una crisis intelectual producto de la falta de un discurso renovado, generando superficialidad a la hora del debate político en una sociedad chilena mucho más compleja y dinámica,2 a pesar de su primer gobierno en democracia con Sebastián Piñera (2010-2014). De ahí que el autor sostenga la nula articulación de una res­puesta (o propuesta) a futuro. Las consecuencias de esta derecha desajustada (históricamente, a mi juicio) de la experiencia diaria de la realidad nacional y desterrar su diversa historia intelectual es lo que pretende ilustrarnos el autor. Leia Mais

Concílio de Latrão IV: leituras e interpretações | Signum – Revista da ABREM | 2015

Em novembro de 1215 o papa Inocêncio III (papa entre 1198-1216) liderou e recebeu aqueles que obedeceram à convocação, emitida em 1213, para o Concílio que se realizaria na sede de seu bispado – São João de Latrão, em Roma. Essa reunião, que é constantemente referenciada na historiografia, é uma das efemérides de 2015. Poder-se-ia propor algum tipo de reflexão sobre a Carta Magna, também de 1215, ou sobre a batalha de Azincourt, de 1415. Mas por que Latrão IV?

Os 71 cânones do concílio mostram-se significativamente diversificados e tratam de assuntos que compreendem desde o dogma da transubstanciação (Cânone 1), da repreensão a clérigos bêbados (Cânone 15), da não cobrança de impostos aos clérigos (Cânone 46), da Simonia (Cânones 63, 64, 65, 66), sobre os judeus (Cânones 67, 68, 69, 70). O concílio também deliberou sobre assuntos como o matrimônio (Cânones 50, 51 e 52), sobre processos judiciais (Cânones 35, 36, 37, 38, 39, 42) e sobre a confissão obrigatória e do segredo de confissão (Cânone 21). Leia Mais

Leituras das Escandinávia Medieval | Signum – Revista da ABREM | 2015

A história da Escandinávia na Idade Média é bastante visitada no âmbito dos estudos medievais, sobretudo no contexto da historiografia anglo-saxônica e escandinava. Diversas foram e são as leituras realizadas na historiografia moderna a respeito do espaço escandinavo medieval, desde a busca por uma cultura germânica pura, até recentes investigações que evidenciam o caráter formativo do espaço nórdico em sua integração na dinâmica continental europeia. No Brasil, onde a primeira tese de doutorado defendida em história medieva, em 1942, apresentava um tema ligado, ainda que indiretamente, ao espaço escandinavo, o interesse pelos processos históricos ocorridos no espaço nórdico europeu vem crescendo sistematicamente desde ao menos o início do presente século, com a formação de grupos de pesquisa e o surgimento de um significativo corpo de acadêmicos especializados. Parte desse crescimento tem colocado a historiografia brasileira em contato direto com os tradicionais círculos de estudo sobre a Escandinávia na Idade Média, assim como tem propiciado a formação de polos regionais, através das florescentes trocas e diálogos com colegas na América Latina e Península Ibérica. Ao mesmo tempo, muitos trabalhos relacionados à Idade Média escandinava permanecem ainda vinculados a abordagens e perspectivas já superadas no cenário internacional, contribuindo para a baixa receptividade de alguns trabalhos brasileiros fora do contexto nacional. Leia Mais

Novas paisagens teóricas e metodológicas nos estudos medievais contemporâneos | Signum – Revista da ABREM | 2015

Não é novidade que a medievalística há muitos anos tem sido celeiro de experimentações teóricas as mais diversas. Partindo de discussões sobre a Memória até os Estudos de Gênero, esta área do saber influenciou e se deixou influenciar por vários debates, ora polêmicos, ora apaziguados por questões político-institucionais. A questão é que os estudos sobre a Idade Média, em sua dimensão multi e interdisciplinar, desfrutam de diversas possibilidades investigativas, ampliadas pela vasta gama documental – seja ela textual, imagética, material – fruto de quase mil anos de intensa atividade cultural.

O presente dossiê levou em consideração todo esse histórico de debates e combates e se propôs evidenciar e ampliar os temas teóricos e metodológicos atualmente debatidos nos Estudos Medievais contemporâneos, fossem eles brasileiros ou internacionais. Leia Mais

Las mujeres de X’oyep – DEL CASTILLO TRONCOSO – (HO)

DEL CASTILLO TRONCOSO, Alberto. Las mujeres de X’oyep. México: Conaculta; Cenart; Centro de la Imagen, 2013. (Colección Ensayos sobre Fotografía). 116 p. Resenha de: PORFIRIO, Pablo F. de A. História, imagem e memória: a trajetória de uma fotografia
(México, anos 1990), História Oral, v. 18, n. 1, p. 241-246, jan./jun. 2015.

Alberto del Castillo Troncoso é um historiador mexicano – vinculado ao Instituto Mora – que há alguns anos desenvolve pesquisas que tomam a fotografia como principal fonte documental. Ele investigou as representações fotográficas de crianças no período do governo de Porfírio Diaz; estudou a trajetória do fotógrafo Rodrigo Moya com base nas análises da sua produção nas décadas de 1950 e 1960, na cobertura fotojornalística de guerrilhas e golpes militares em países da América Latina como República Dominicana, Guatemala e Venezuela. Mais recentemente, Alberto del Castillo lançou um livro resultante de anos de estudos sobre as fotografias do movimento estudantil de 1968 no México, marcado pelo Massacre de Tlatelolco, em 2 de outubro daquele ano. No seu último livro, objeto desta resenha, o historiador analisa a fotografia de Pedro Valtierra Las mujeres de X’oyep, que dá nome à publicação.

Essa imagem retrata as mulheres tzotziles da comunidade de X’oyep, localizada no município de Chenalhó, no estado de Chiapas, sul do México.

Registra o momento em que essas mulheres avançam sobre os soldados do exército mexicano que chegavam para ocupar parte do seu território, no dia 3 de janeiro de 1998. Segundo Deborah Dorotinsky (2013), Alberto del Castillo produz uma biografia dessa fotografia. Ou seja, identifica seu surgimento e cartografa sua trajetória do quarto escuro à publicação no jornal mexicano La Jornada. O historiador esmiúça como a imagem ganhou um formato editorial, como foi selecionada para estampar a primeira página do periódico e se tornar um ícone, isto é, uma fotografia emblemática, que forma parte da cultura visual de uma geração (Del Castillo Troncoso, 2013, p. 25).

O trabalho realizado por Alberto del Castillo mapeou as posições sociais e políticas ocupadas pela imagem para assim entender os significados a ela atribuídos, seja na relação construída entre a fotografia e os textos da imprensa, seja no vínculo entre imagem e memória. Desse modo, o autor assevera: as imagens em si não dizem nada. Podemos nos inspirar nas considerações de Pierre Bourdieu, em seu clássico texto sobre a “ilusão biográfica”, no qual afirma que os acontecimentos biográficos se definem como colocações e deslocamentos no espaço social, e não como uma série única de acontecimentos sucessivos (2000, p. 189-190). Claro que aqui não estamos falando da trajetória de um indivíduo, mas da fotografia produzida por um indivíduo. O historiador mexicano analisa de modo instigante as colocações políticas da imagem e seus deslocamentos de sentido, quebrando a “ilusão biográfica” de que a fotografia teria um único significado definido desde o momento do registro. A indicação de Deborah Dorotinsky na apresentação do livro, de que Alberto del Castillo seria um biógrafo de imagens, se confirma no decorrer do texto.

Para tal análise, o historiador mexicano estuda o cenário social e político em que a fotografia foi elaborada. Leva o leitor à parte sul do México, estado de Chiapas, que em janeiro de 1994 viu irromper um destacado movimento social, definido pelo escritor Carlos Fuentes como “a primeira guerrilha do período pós-moderno”. O zapatismo era um movimento que contava com um exército de trabalhadores pobres e que tinha a internet como uma das suas principais armas. Valendo-se ainda de um líder midiático, o Subcomandante Marcos, o zapatismo conseguiu, entre 1994 e 1995, recolocar o debate sobre as comunidades indígenas do México na agenda política nacional e internacional, rompendo as fronteiras do estereótipo turístico-folclórico do exótico.

O município chiapaneco de Chenalhó foi palco, em dezembro de 1997, da atuação de um grupo de paramilitares ligado ao Partido Revolucionario Institucional (PRI) que assassinou 45 indígenas simpatizantes do Ejército Zapatista de Liberación Nacional (EZLN), que rezavam em uma pequena igreja na localidade de Acteal.

O episódio ganhou repercussão internacional. Equipes da imprensa televisiva e escrita se dirigiram para a região. Uma ampla cobertura fotográfica também foi produzida. O massacre em Acteal provocou, nos últimos dias de dezembro de 1997, uma presença ainda maior das forças do exército mexicano na localidade. Dirigiu-se também à região, em 1º de janeiro de 1998, o fotógrafo Pedro Valtierra, que passou a coordenar a cobertura dos acontecimentos para o jornal La Jornada.

Alberto del Castillo investigou e apresenta ao leitor a narrativa visual produzida pelo jornal entre o final de dezembro de 1997 e o início do mês seguinte. Analisa as primeiras fotos de Pedro Valtierra na região, feitas em janeiro de 1998, que registravam a tensão existente e os movimentos do exército mexicano e dos nativos. O autor ressalta o protagonismo das mulheres nesse momento, que resistiram à presença militarizada do Estado e, sabiamente, utilizaram a imprensa para fortalecer suas ações.

Em 3 de janeiro de 1998, o fotógrafo Pedro Valtierra e o jornalista Juan Balboa saíram da cidade de San Cristóbal de las Casas e se dirigiram à região de X’oyep. Na localidade de difícil acesso, alcançada por uma caminhada de horas pela montanha, existiam algumas poucas casas pobres e, desde os assassinatos em Acteal, centenas de pessoas em busca de refúgio.

A entrada de Valtierra e Balboa nessa história marca o agenciamento de uma nova fonte por parte do historiador: o relato de memória. Ele entrevistou o fotógrafo e o jornalista buscando informações sobre como foi a chegada deles a X’oyep, o que encontraram no local, como ocorreu a produção das imagens. Mais ainda, interessam a Del Castillo os relatos sobre o período posterior, isto é, quando Pedro Valtierra regressou de X’oyep a San Cristóbal de las Casas, iniciando o processo de revelação das imagens, o envio para os editores do La Jornada, a escolha da fotografia a ser publicada, a mudança no seu enquadramento do horizontal para o vertical e a decisão de publicá-la na primeira página.

O livro tem por objetivo investigar como a fotografia de Pedro Valtierra, Las mujeres de X’oyep, tornou-se um ícone e formou a cultura visual de uma geração. Para isso, as informações obtidas por meio das entrevistas são fundamentais. Mas também interessa a Alberto del Castillo o uso da memória por parte dos seus entrevistados no momento presente, quando a fotografia de Valtierra já se tornou um ícone. Trata-se do que Gilles Deleuze, ao analisar a obra de Marcel Proust, chama de memória voluntária, aquela que vai de um presente atual a um presente que foi, isto é, que foi presente mas não é mais. Assim, pode-se dizer que a memória não se apodera diretamente do passado, mas o recompõe com os presentes (Deleuze, 2006, p. 54).

Alberto del Castillo mapeia parte da produção fotográfica de Pedro Valtierra, como a cobertura jornalística da guerrilha sandinista na Nicarágua e das forças guerrilheiras da Guatemala. Relaciona a fotografia das mulheres de X’oyep aos interesses estéticos e políticos já apresentados por Valtierra em outros trabalhos.

O seu relato de memória é analisado em diálogo com essas produções fotográficas e com os significados que a fotografia das mulheres de X’oyep adquiriu. É interessante notar que, no relato de memória de Valtierra, essa imagem é definida como um marco divisor na sua trajetória: E enviam por fax as primeiras páginas e vejo a foto grande, tal como está publicada, e senti logo, logo que a foto era já outra coisa… No dia seguinte David Brooks, o correspondente do La Jornada, me contou que a foto havia encabeçado uma marcha de apoio aos zapatistas em Nova York… Eu senti que nesse momento algo havia passado com minha vida… Porque devo dizer que não estava muito bem profissionalmente. Quer dizer, era chefe, um privilegiado, porém fotograficamente não me sentia bem… Isso – aqui entre nós – eu não estava dizendo, porém me sentia em crise… Já quando regressei ao México, foi impressionante. Fui a uma marcha e encontrei com Carlos Jurado, com muita gente, e não me deixavam trabalhar. […] E isso se passou por causa da foto de X’oyep. (Del Castillo Troncoso, 2013, p. 68; tradução livre).

Essa memória voluntária de Pedro Valtierra apropria-se do sucesso alcançado pela fotografia sobretudo por ela lhe ter valido o Premio Internacional de Periodismo Rey de España, um ano depois de sua produção, em janeiro de 1999. A distinção oferece um significado a priori para a imagem e, por conseguinte, para quem a produziu; cria uma importância política que dá a impressão de estar na essência da fotografia. Talvez Alberto del Castillo pudesse ter apresentado ao leitor mais trechos do relato de Valtierra. O extrato acima faz parecer que a memória do fotógrafo toma um dos significados políticos associados à fotografia e o institui como algo que estivesse dado desde o presente da sua produção, como uma essência. Cria assim uma trajetória única e teleológica para a imagem, como se ela já tivesse nascido para constituir-se em ícone de uma geração.

Mas o livro de Alberto del Castillo consegue, por meio de outros relatos de memória, pesquisa em jornais e outros documentos, reconstruir a teia de discursos e práticas que fizeram a fotografia das mulheres de X’oyep emergir como um ícone na luta dos povos indígenas na América Latina. Mostra- -nos como a crescente visibilidade conquistada pelo movimento zapatista na década de 1990, com seus destacados apoiadores, como José Saramago, contribuiu para popularizar a imagem e fazê-la ser apropriada por diversos grupos sociais e operacionalizada em suas manifestações políticas.

Por fim, o historiador mexicano nos brinda com uma linda história. No último capítulo do livro, em um relato quase antropológico, conta sobre a viagem que fez anos depois do conflito ao local onde Pedro Valtierra produziu a imagem. Encontrou uma pobre casa, feita de tábuas, em que se identificava numa parede externa uma pintura com traços infantis que reproduzia a fotografia do enfrentamento das mulheres de X’oyep com os militares do exército mexicano. Nessa representação, imagem e memória se confundiam.

A reprodução da fotografia de Valtierra fazia permanecer latente uma memória do conflito, ao mesmo tempo que reforçava o sentido icônico daquela imagem e realçava um sentimento de vitória, já que as mulheres conseguiram resistir e expulsar os militares.

Uma das perguntas que ficam para o leitor é: qual a memória que as mulheres de X’oyep e outros moradores do local construíram sobre o enfrentamento com o exército? Não foi possível encontrar esses relatos, mas sim uma representação imagética deles. A pintura mostra como a fotografia de Valtierra foi apropriada pelos moradores daquela região, ultrapassando o suporte do papel fotográfico, do jornal ou da memória do seu produtor. A imagem tornou-se ícone também por estar na memória do grupo social de quem a protagonizou, alimentando sentimentos de luta e vitória.

O livro Las mujeres de X’oyep apresenta uma metodologia de trabalho inovadora e desafiadora ao relacionar imagem e memória – individual e coletiva – na escrita da história. Recupera os fios que teceram o sentido da fotografia, transformando-a em um ícone político. Poderíamos pensar que Alberto del Castillo Troncoso busca o “normal excepcional”, para retomar um conceito caro à micro-história de Carlo Ginzburg: o documento “normal excepcional”, neste caso a fotografia de Pedro Valtierra, não se presta às generalizações da história serial, mas permite, por outro lado, a compreensão de aspectos particulares, não generalizáveis, da realidade social. O historiador mexicano conta-nos ainda, por meio dessa imagem, sobre a luta cotidiana de mulheres pobres e invisibilizadas pelo direito à terra e à vida, enredando-a na história do México contemporâneo e da América Latina.

Referências BOURDIEU, Pierre. A ilusão biográfica. In: FERREIRA, Marieta de Moraes; AMADO, Janaína (Org.). Usos & abusos da história oral. Rio de Janeiro: Editora FGV, 2000. p. 183- 191.

DELEUZE, Gilles. Proust e os signos. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2006.

DOROTINSKY, Deborah. Biografía de una imagen fotográfica: las mujeres de X’oyep.

In: DEL CASTILLO TRONCOSO, Alberto. Las mujeres de X’oyep. México: Conaculta; Cenart; Centro de la Imagen, 2013. (Colección Ensayos sobre Fotografía). p. 13-20.

Pablo F. de A. Porfirio – Doutor em História Social pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). E-mail: pablo porfirio@hotmail.com.

Fronteira e fronteiriços: a construção das relações socioculturais entre brasileiros e paraguaios (1954-2014) – BALLER (HO)

BALLER, Leandro. Fronteira e fronteiriços: a construção das relações socioculturais entre brasileiros e paraguaios (1954-2014). Curitiba: CRV, 2014. 280 p. Resenha de: PAGLIARINI JÚNIOR, Jorge. História Oral, v. 18, n. 1, p. 247-251, jan./jun. 2015.

Ao falarem dos espaços, os sujeitos falam de si. Numa das suas acepções, o espaço pode ser entendido pelas fronteiras que distanciam, mas que também aproximam sujeitos. No exercício de compreender a relação entre sujeito e espaço, como lembra o geógrafo Rogério Haesbaert (2011), o espaço pensado apenas enquanto resultado dos propósitos dos Estados já não dá conta da compreensão de seus usos e de suas construções. Mas em tempos de mobilização e de discursos – muitos exacerbados – em torno do nacionalismo, é justamente ao discurso nacional que tende a se apegar a leitura da espacialidade. É nessa tensão entre a fronteira política – geograficamente delimitada como resultado de tratados transnacionais – e a fronteira polissêmica que emerge das entrevistas e demais documentos analisados que se desenrola o estudo de Leandro Baller em Fronteira e fronteiriços: a construção das relações socioculturais entre brasileiros e paraguaios (1954-2014).

Trata-se do livro derivado de sua tese de doutoramento, defendida em 2014 no Programa de Pós-Graduação em História da Universidade Federal da A leitura da referida obra leva, antes de mais, a perguntar como o autor se insere no conjunto de investigações e de produções sobre a fronteira entre o Brasil e o Paraguai. A resposta à questão encontra-se justamente no diálogo que o autor consegue estabelecer com suas fontes – diálogo respaldado pelo fato de ser ele mesmo um sujeito fronteiriço –, com base nas quais constrói um entendimento da fronteira como ambiência.

Os termos fronteira e fronteiriços ou, se quisermos, lugar e sujeitos são tomados como objetos, como categorias historicamente delimitadas numa relação pensada no recorte temporal e espacial do estudo, visando entender a fronteira entre Brasil e Paraguai. O livro trata, mais precisamente, da fronteira entre o leste do Paraguai – na altura dos departamentos de Alto Paraná e Canindeyú – e o oeste do Brasil – estados do Paraná e Mato Grosso do Sul –, marcada pelo reservatório do Lago Internacional de Itaipu, durante os anos de 1954 a 2014 – sem que tenha sido desconsiderada, para tal empreitada, a investigação de outros momentos e acontecimentos.

O trabalho apresenta uma leitura da espacialidade da fronteira cuja demarcação territorial envolve disputas de diferentes ordens e temporalidades, indo dos tratados seculares, da longa duração, até as bases demarcadas nas últimas três décadas pelo agronegócio; a análise passa, assim, por disputas veladas, percebidas nos interstícios do cotidiano, que ganham potencial explicativo graças à postura epistemológica da obra, caracterizada pelo esforço do autor de se deslocar pela fronteira e, assim, tomá-la também “do lado de lá”.

A partir do lugar teórico e espacial acima delimitado, o autor apresenta a leitura de um processo que envolve os termos coexistência, contato, estabelecidos e outsiders. Trata-se de uma postura próxima daquela desenhada por Bhabha (1998) ao defender um “lugar teórico” – lugar que é, antes, um lugar político, de onde falam os entrevistados, neste caso a imprensa paraguaia e os documentos oficiais, todos analisados com base nas contribuições de Foucault e na sua ressignificação de conceitos espaciais.

No primeiro capítulo, Fronteira: ocorrência teórica e historiográfica, Baller discute o olhar historiográfico sobre a fronteira, destacando dessa perspectiva três momentos: 1) o dos tratados e da construção do sentido nacional da fronteira no século XIX, atrelado ao IHGB (Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro); 2) a passagem de uma história técnica e preocupada com as lutas de demarcação para uma história dos tipos sociais frente à conquista das fronteiras, sob influência de Turner até a década de 1970; 3) o dos estudos brasileiros e paraguaios feitos a partir da década de 1980, com um posicionamento epistemológico de denúncia da naturalização da fronteira. O autor segue com a apresentação dos discursos produzidos pela historiografia do oeste do Paraná, dos quais resultou um rico corpus documental que ganharia novas leituras nas décadas seguintes à sua publicação, com a fronteira assumindo corpo conceitual. Nesse ponto a obra se ocupa de problemáticas ambientais, de relações de poder e sociabilidade na tríplice fronteira, de conflitos de terra, da abordagem de movimentos sociais, do impacto de Itaipu e de preocupações de caráter étnico. Da historiografia paraguaia se destacam os diálogos do autor com pesquisadores locais, dos quais se ressalta a crítica do literato paraguaio Roa Bastos de que a produção historiográfica nacional deveria ir além dos limites da “ilha Paraguai”. As análises de Baller se aproximam epistemologicamente das de Foucault, ao proporem a desnaturalização da fronteira sob as perspectivas da genealogia e da heterotopia, que levam o leitor a perceber os meandros da divisa, que é geográfica (marco visível), política (material e institucional) e simbólica (vivida).

Na sequência dessa base historiográfica é apresentado o capítulo A pluralidade histórico-social agrária no Paraguai, no qual a questão agrária serve como pano de fundo para o estudo do fronteiriço; problematiza-se aí o processo de luta pela terra, mas também as lutas pela manutenção de costumes como a moeda e a língua – levando em conta notícias veiculadas pela mídia local e entrevistas com moradores da fronteira (brasileiros, paraguaios e brasiguaios).

A contextualização da migração remete ao governo de Stroessner, marcado pela intensificação da formação de latifúndios, política que facilitou a entrada de brasileiros, freada apenas em 2004, quando temores em torno da construção da lei da faixa de fronteira paraguaia apresentaram novas conjecturas para as práticas de fronteira. O desafio de analisar a transitoriedade dos sujeitos na fronteira leva o autor à problemática do retorno para o Brasil, apresentada nas construções semânticas do termo brasiguaio.

A generalização do termo brasiguaio se dá tanto pela imprensa paraguaia – que o associa a grandes proprietários que se apossam de terras no país desde a década de 1950 – quanto pelos pesquisadores brasileiros – que o atribuem àqueles que, depois de migrarem para o Paraguai nas décadas de 1960 e 1970, retornaram ao Brasil a partir de meados de 1980 e se engajaram em movimentos sociais de luta pela terra. Nas entrevistas examinadas por Baller, percebem-se a desconfiança, a confusão, as resistências e o próprio estigma que marcam esses sujeitos. Essas formas de resistência – pensando nos termos de Bhabha, exemplos da ameaça do híbrido à fronteira tomada pela sua dualidade – se contrapõem ao modelo de identidade nacional construído pela historiografia oficial, seja ela brasileira, seja paraguaia.

No terceiro capítulo, intitulado Coexistência fronteiriça: ações e representações, o autor, ancorado nas noções de representação social e de negociação cultural, aplica atenção ao modus vivendi dos fronteiriços e apresenta uma fronteira que, frente à virtual ausência de um e de outro Estado, é pouco estática.

Assim, no debate com fontes orais e com documentos escritos, possibilita- se a representação de disputas a respeito da aplicabilidade do conceito de coexistência fronteiriça, momento em que o texto problematiza a questão agrária – mais especificamente, as práticas de migração de retorno de brasileiros e descendentes, ocorridas em função da busca por melhores condições de educação para os filhos, de saúde para a família, de direitos sociais buscados no “crime autorizado” da região fronteiriça. O sentimento de pertencimento dos brasiguaios é posto à prova pelos ataques públicos de líderes de movimentos sociais de luta por terra ao modelo agrícola (da soja) dos brasileiros; esses discursos generalizam questões referentes aos resultados de modelos agrários existentes desde 1950, intensificados com Stroessner, em consequência da falta de modernização das técnicas dos campesinos e dos indígenas.

No último capítulo, Fronteiriços construindo fronteiras, chega-se às disputas que marcam a coexistência, não sem que o autor antes apresente dois momentos que estruturam a questão agrária paraguaia: o primeiro, o que se estende da década de 1970 até a de 1980, intrinsecamente relacionado às transformações da estrutura agrária do oeste do Paraná; o segundo, a partir da década de 1990, marcado pela transformação da estrutura da agricultura paraguaia, com intensificação do latifúndio monocultor e agroexportador.

Nesse contexto, demarcam-se as diferenças entre o modelo brasileiro, criticado pelos opositores do sistema de latifúndio, e as práticas dos “campesinos”, para muitos ultrapassadas por concentrarem-se em grande medida numa produção de subsistência. A análise aproxima-se do debate em torno de práticas de integração e dificuldades em estipular quem são os estabelecidos e quem são os outsiders. Afinal, além do tempo de residência, somam-se à análise, o grande número de brasileiros residentes na fronteira e o estigma aplicado sobre aqueles que fracassaram na atividade rural. Dessa maneira contemplam-se vários focos, como os produtos consumidos, a chegada de tecnologias de comunicação, o resultado do cooperativismo etc.

Enfim, o sucesso desse estudo envolve o posicionamento metodológico e epistemológico adotado no tratamento das fontes orais. O recurso à história oral é um dos caminhos para que Leandro Baller abarque as memórias sobre o processo analisado. O trabalho também se baseia em cautelosa investigação de arquivos oficiais e não oficiais, bem como da imprensa paraguaia. Além do equilíbrio entre essas diferentes fontes, destaca-se também o rigor metodológico e a necessária postura ética do autor. Baller trabalha com entrevistas inéditas e com entrevistas publicadas por outros autores, a maioria produzida em meados da década de 1990; entre as inéditas, algumas foram conduzidas pelo próprio autor e outras (produzidas entre 1994 e 2014) advêm da colaboração de outros pesquisadores. Apesar disso, de certa forma, o leitor tem a impressão que se trata de um único corpus documental, o que revela a qualidade do trato do autor com as memórias e com a suas temáticas comuns, quais sejam a situação do fronteiriço e a disputa pela construção de identidades e de memórias.

Referências

BHABHA, Homi K. O local da cultura. Belo Horizonte: Editora da UFMG, 1998.

HAESBAERT, Rogério. O mito da desterritorialização. 6. ed. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2011.

ALDRIGHI, Clara. Memorias de insurgencia: historias de vida y militância en el MLN-Tupamaros. 1965-1975. Montevideo: Ediciones de la Banda Oriental, 2009. 456p.

Jorge Pagliarini Junior – Professor efetivo do curso de História da Universidade Estadual do Paraná (Unespar), campus de Campo Mourão. E-mail: palhajr@yahoo.com.br.

 

 

 

 

 

Mobilidade discursiva: o periodismo político em Goiás | Cristiano Alencar Arrais

O período conhecido na história do Brasil como República Velha é recheado de acontecimentos e fatos que perpassam por uma prática oligárquica de governo. Nessa prática, a questão social é tratada como caso de polícia: greve dos trabalhadores ressoando de sul a nordeste, predomínio agrário na economia nacional, esquema político de continuísmo e manutenção de poder, e assombro da instabilidade econômica mundial. Estes fatores, além da disputa pelo controle do país, concentrada nas regiões Sul e Sudeste, somados à insustentabilidade do modelo liberal, deram vazão ao sentimento que culminou na Revolução de 1930.

Apesar do foco central dos olhares estarem inclinados para o que acontecia nos estados do Sul e do Sudeste, a força desse clima reverberava em todos os entes da federação. Em Goiás, a situação política que há quase duas décadas encontrava- se sob a chefia dos Caiados, tinha no seu bojo uma oposição que avistava no momento revolucionário, a oportunidade para a tomada de poder, e a renovação política no estado. Todavia, este movimento encontrou um governo de situação forte sustentado por uma política de acordos e alianças direcionada a manutenção de poder dos coronéis, que suprimiu os revoltosos, prendendo seu líder, Pedro Ludovico, que só foi solto após a notícia de que a revolução triunfara no eixo político brasileiro. Leia Mais

Desenvolvimento, inovação e sustentabilidade: contribuições de Ignacy Sachs | Carlos Lopes

Desenvolvimento, inovação e sustentabilidade: contribuições de Ignacy Sachs atualiza sobre o pensamento do economista e situa o leitor quanto às políticas públicas de promoção do desenvolvimento sustentável elaboradas por bancos de desenvolvimento como o BNDES-Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social. Por meio da exposição das obras e experiência de Ignacy Sachs, os autores argumentam a respeito da ação do Estado na distribuição equitativa de recursos e na geração de emprego e renda frente a um cenário de reflexão acerca da indústria no Brasil. Questões indispensáveis para os historiadores e historiadoras que problematizam as relações entre homem, sociedade e natureza neste início de século.

Ignacy Sachs é exemplo de uma geração de intelectuais que formaram a comunidade técnico-científica do mundo pós-segunda guerra. Polonês, formado em economia no Brasil, doutorado na Índia, integrante do Ministério das Relações Exteriores na Polônia socialista, acolhido pela EHESS- École des Hautes Études en Sciences Sociales após exílio -instituição na qual criou o Centro de Pesquisas sobre o Brasil Contemporâneo, interlocutor das questões ambientais perante as Nações Unidas. Seu cosmopolitismo contribuiu para a formulação do conceito de ecodesenvolvimento em um período que gestou o debate acerca da manutenção dos recursos naturais e a decorrente inflexão da teoria do desenvolvimento. Leia Mais

Celtas e Germanos: olhares interdisciplinares / Brathair / 2013

Seguindo a tradição da revista Brathair de unir pesquisadores de várias áreas tratando de temáticas sobre os celtas e germanos, a edição de 2013.1 é consagrada aos olhares interdisciplinares, relacionados a esses povos. Neste sentido, os trabalhos dessa edição, percorrem os caminhos da História, Literatura, Filologia e Filosofia.

Pode-se dizer que a temática central é a relação entre História e Literatura, na medida em que entre os documentos analisados pelos autores temos o tratado médico, Capsula eburnea, obras hagiografias, biografia, textos literários e os escritos filosóficos de Heidegger e sua apropriação pelo nazismo.

Chiara Benati, da Università degli Studi di Genova, Itália, analisa o tratado médico Capsula eburnea (séculos IV / V), cuja versão original grega os medievais atribuíam ao médico Hipócrates, valendo-se do dispositivo retórico típico – um verdadeiro topos nas obras escritas e mesmo nos conteúdos orais disseminados na Idade Média – a que designamos por auctoritas. Trata-se de uma lógica segundo a qual a predicação de autoria a um clássico, padre da igreja, santo, filósofo / teólogo, autor inspirado de um Evangelho ou personagem bíblica, por exemplo, garantia ao conteúdo credibilidade e potencial de ampla difusão entre as camadas letradas e mesmo no lastro da cultura oral.

Nestes termos, o artigo de Benati denota rigor filológico ao traçar o estema das versões alto e centro-medievais alemãs do pequeno tratado médico, evidenciando-se as conexões e as interações culturais entre o Sul da Europa e as regiões alemãs. Desta forma, o texto revela o mérito de exemplificar, para os pesquisadores brasileiros – entre eles os historiadores – como proceder, de modo rigoroso e conceitualmente lastreado, ao trabalho filológico como instrumento de análise, crítica e reconstituição historiográfica e literária.

Analisando as relações entre História, Economia e Historiografia, tendo por base textos de pensadores cristãos como Ildelfonso, Isidoro de Sevilha e Aurélio Prudêncio, Mário Jorge da Motta Bastos (UFF / Translatio Studii) se propõe repensar, analisando e problematizando, um artigo do clássico medievalista francês Georges Duby. Trata-se de breve artigo publicado, em 1958, na prestigiosa Revue des Annales, sob o título de La Féodalité? Une mentalité médiévale, cujo intuito era rediscutir a noção de feudalidade (féodalité). Esta revisão historiográfica deu-se por ocasião da comemoração do clássico Qu’est-ce que la féodalité (1944) do historiador belga François-Louis Ganshof.

Com este objetivo, o autor realiza uma apropriada e necessária definição do campo semântico do feudalismo como complexo mais amplo de relações sociais de produção, dominação, resistência e elaboração de formas de pensar e representar o mundo. Desta noção abrangente e sistêmica, o autor destaca e particulariza, para fazer justiça ao pensamento de Duby, a ideia de feudalidade como traço de mentalidade, conjunto de representações de mundo conscientes ou irracionais, uma forma de sensibilidade coletiva. A originalidade do enfoque proposto no artigo reside no fato de que o autor demonstra, sofisticadamente e com o imprescindível recurso às fontes primárias, como o batismo engendrou, como legitimação ideológica, a fides enquanto instrumento contratual entre Deus e os integrantes do grêmio da Igreja. Os últimos, redimidos do pecado da insubordinação a Deus e libertos do domínio demoníaco, celebram com Deus um pacto em que se tornam mancipium Christi. Esta lógica produz, reproduz e é, por sua vez, reproduzida e ampliada pelos vínculos de feudovassalagem e de dominação senhorial.

Ronaldo Amaral (UFMT) tece relações entre História, Santidade e Religiosidade, em um texto adequadamente didático e, como tal, oportuno para a difusão e exemplificação do trabalho historiográfico com fontes hagiográficas. Partindo da Vita Fructuosi (século VII), o autor pretende problematizar o papel do imaginário e do contexto mental e ideológico na gesta da hagiografia como gênero retórico destinado a propagar um modelo de homem e de história. O trabalho prima pelo ineditismo da fonte e por conseguir ultrapassar a tendência à história interna ou filológica do corpus textual. O recorte, conquanto evidente para os historiadores de ofício, mostra-se inovador quando considerada a Vita Fructuosi, vez que não se cinge a discussões sobre a autoria ou gênese do documento. Evita-se, assim, recair em uma falsa questão historiográfica.

Márcia Manir Miguel Feitosa (UFMA / Mnemosyne) analisa textos literários que possuem um fundo celta. A partir do romance Crônica do Imperador Clarimundo, obra portuguesa de João de Barros, composta no século XVI, relaciona o romance com obras da Matéria da Bretanha, em especial A Demanda do Santo Graal, que teve uma importante circulação no reino luso.

Dentre as analogias entre a Crônica e a Demanda salientadas por Feitosa podemos destacar as qualidades do herói, semelhantes a do rei Artur, e sua espada, que guarda analogias com Excalibur. Além disso, Clarimundo, de acordo com o artigo, também possui analogias com outro herói da Demanda, Lancelot, por se voltar aos valores do cavaleiro cortês (a proteção das damas e a realização de façanhas heroicas).

Já o artigo, de redação inglesa, escrito por Ismael Iván Teomiro García (UNEDEspanha) prima pela erudição filológica e linguística, filiando-se, em sua linha de estudos, a uma concepção de gramática generativa, muito cara à teoria de Algirdas Julius Greimas, semiólogo lituano paradigmático para os estudos da linguagem. O autor evidencia alguns aspectos peculiares da sintaxe do atual irlandês, que evolui do antigo gaelic e adquire estatuto de língua nacional oficial em 1922, com a independência da Irlanda do Sul em relação ao Reino Unido. Neste esforço, faz-se oportuna a tradução de fonemas e sua sintaxe para o inglês, idioma do texto, uma vez que o mesmo foi o instrumento cultural de assimilação e imposição de suserania por parte da Inglaterra às populações gaélicas da Irlanda, hoje figurando como uma das línguas oficiais da República da Irlanda e sua verdadeira língua franca.

Analisando a relação entre História e Política, Dominique Vieira Coelho dos Santos e Anderson Souza (FURB) analisam uma biografia anglo-saxã dedicada ao rei Alfredo, a Vita Ælfredi Regis Angul Saxonum, escrita por Asser. Neste relato, o monge galês procura valorizar as características do rei Alfred como bom guerreiro e letrado. De acordo com o artigo, pode-se fazer uma analogia entre o Renascimento Carolíngio e o Renascimento Anglo-Saxão ocorrido no período de Alfred, que assim como Carlos Magno estimulou no seu governo a circulação de obras clássicas. O artigo é bem construído e discute o uso da narrativa para a valorização do rei e sua ligação com valores positivos como a guerra e a cultura.

Também tratando das relações entre História e Política na relação do uso da Filosofia pelo poder, temos o artigo de Moisés Romanazzi Tôrres (UFSJ), que problematiza, mobilizando um amplo espectro de conceitos e noções fundamentais da ontologia de Martin Heidegger (1889-1976), um aspecto de relevância para a compreensão não apenas do complexo pensamento do autor alemão, como de sua participação política e comprometimento ideológico com o Nazismo.

O ensaio, conquanto breve, é bastante denso e evidencia domínio do autor sobre os temas fundamentais desta ontologia histórica e pós-metafísica, ainda pouco problematizada pelos historiadores. Tratando-se de uma proposta de fundamentação da historicidade da condição humana e sua aderência à dimensão inescapável da temporalidade, a filosofia de Heidegger oferece contribuição inegável para uma Teoria da História.

Como tradução, Gesner las Casas Brito Filho apresenta-nos O sermão do Lobo aos ingleses (c. 1010-1016). A homilia – gênero retórico renovado na Idade Média Central, sobretudo por parte dos dominicanos, franciscanos e beneditinos, com fulcro no sermo rusticus ou sermo humilis herdado da Patrística – é uma das composições mais conhecidas de Wulfstan de York. O mesmo se intitulava Lupus (lobo, em latim) em seus textos, pois Wulfstan, traduzido do inglês antigo, significa pedra-lobo (wulf-stan).

O Sermo Lupi ad Anglos é um dos únicos documentos que descreve as invasões nórdicas à Inglaterra anglo-saxônica. No período de sua escrita, vivia-se nova fase da ofensiva nórdica, que redundaria em um processo de tomada política do reino inglês. Processo que culminará – entre batalhas, acordos, fugas do rei Æthereld para o continente e outros conflitos – com a coroação do rei dinamarquês Cnut, o grande, como rei da Inglaterra em 1016. Por conseguinte, trata-se de uma fonte para a História das práticas de poder e suas tensões, latentes e patentes, no norte da Europa, durante o início da Idade Média Central, tão mais importante e adequada para a presente edição de Brathair quanto ainda rara e inexplorada pela Medievalística brasileira.

Nas resenhas, Álvaro Alfredo Bragança Júnior (UFRJ) analisa o livro de Ruy Oliveira de Andrade, Imagem e Reflexo, que estuda a cultura, religiosidade e política no reino visigodo de Toledo na Alta Idade Média. João Lupi (UFSC) detalha a importância do Kalevala, edição portuguesa de um conjunto de poemas da Finlândia, compilada no século XIX, por Elias Lönnrot, mas cujo fundo mítico tem influência do período medieval, em especial de aspectos da cultura viking. Lupi destaca também os elementos do poema, sua importância para a cultura da Finlândia, seus aspectos míticos, a relação destes com outras culturas e as características da tradução da obra, daí a importância em estudá-la nos dias atuais.

Por fim, cumpre ressaltar que, à pluralidade de temas, fontes primárias e enfoques analíticos aqui presentes, esta edição de Brathair procurou somar um incentivo à reflexão acerca das fecundas possibilidades de interface entre História, Filosofia e Teoria Literária para a exegese não apenas dos documentos coligidos, mas, principalmente, para nos conceder uma visão mais ampla e sistêmica a respeito da cultura letrada medieval, seja latina ou vernácula. As análises que aqui ofertamos aos leitores, colegas ou diletantes que nos honram com sua leitura, procuram evidenciar a interação entre escrita e oralidade na gesta do cotidiano e das práticas de poder, bélicas ou simbólicas, dos homens e mulheres da Idade Média.

Marcus Baccega – Professor Doutor (UFMA). Pós-Doutorado Université Paris I, 2013. E-mail: marcusbaccega@uol.com.br

Adriana Zierer – Professora Doutora (UEMA). Pós-Doutorado École des Hautes Études en Sciences Sociales, 2013-2014. E-mail: medievalzierer@terra.com.br


ZIERER, Adriana; BACCEGA, Marcus. Editorial. Brathair, São Luís, v.13, n.1, 2013. Acessar publicação original [DR]

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Práticas pedagógicas para a inclusão e a diversidade – CUNHA (REE)

CUNHA Eugenio Professor e jornalista e colunista do DIA Foto Divulgacao Inclusão
Eugênio Cunha. Professor e jornalista e colunista do DIA. Foto: Divulgação.

CUNHA E Praticas pedagogicas para inclusao e diversidade InclusãoCUNHA, E. (Org.). Práticas pedagógicas para a inclusão e a diversidade. Rio de Janeiro: WAK Editora, 2011. Resenha de: Resenha de: BRITO, Jessica de; ORLANDO, Rosimeire Maria. Revista Educação Especial, Santa Maria, v.28, n.51, p.241-244, jan./abr., 2015.

A participação das pessoas com necessidades educacionais especiais (NEE), na sociedade, é recente, principalmente por ter sido levado em conta pressupostos arraigados sobre anormalidade e deficiência ao longo da história da humanidade. Desde longe, do período da era clássica aos tempos atuais, muitas foram as concepções cultivadas sobre as pessoas com deficiência, bem como de seu papel na sociedade. (JANNUZZI, 2006)

Em consequência dessas concepções, o processo de direcionamento das pessoas com NEE à educação lentamente vem sendo conquistado, juntamente com o da população em geral, e, partindo deste fato, o livro Práticas pedagógicas para inclusão e a diversidade, organizado pelo autor Eugênio Cunha – professor, pesquisador e integrante do grupo de pesquisa em Políticas Públicas de Educação da Universidade Federal Fluminense – GRUPPE/UFF/CNPq – reúne experiências e práticas ocorridas em seu cotidiano docente sobre alunos com NEE. A obra é constituída, de modo geral, pela importância da educação inclusiva, sendo esta temática hoje em dia bastante discutida na academia.

Organizado em onze capítulos, o livro tece reflexões sobre a diversidade na escola e na sociedade, currículo inclusivo e a estimulação dos alunos com NEE, sobre as etapas da atuação docente, bem como sobre a importância da família no processo de inclusão escolar e social.
No âmbito da historicidade, no primeiro capítulo, intitulado “Um pouco sobre diversidade, escola e inclusão”, Eugênio Cunha utiliza-se de uma linha do tempo para explicar como a educação inclusiva esteve/está presente em todas as épocas e lugares, enfocando que, mesmo para as pessoas com NEE, a escola é lugar de suma importância para o desenvolvimento social e cognitivo delas, capaz, por sua essência, de cumprir a mais elevada destinação social do saber: o aprendizado do saber sistematizado.

Quando o assunto é currículo escolar inclusivo, o autor, em seu segundo capítulo, intitulado “Um currículo inclusivo”, ressalta que este deve estar articulado com as dinâmicas sociais provenientes dos educandos, ter como ponto de partida o cotidiano do aluno. Além disso, ressalta a importância da construção de um currículo com a participação da equipe escolar, abrangendo desde professores até gestores e familiares, ou seja, uma equipe que efetive a funcionalidade do currículo para a vida escolar e social do aluno.

No terceiro capítulo, intitulado “O que estimular no aluno?”, o autor destaca as habilidades que todos os alunos, incluindo aqueles com necessidades especiais, devem aprender dentro da escola, sendo elas: Afetividade; Socialização e ludicidade; Linguagem e comunicação; Educação Psicomotora; Música e Arte; e contar com uma boa alimentação. A par de tais habilidades, o autor acredita que o professor poderá atuar, de forma eficaz, para superar tanto as dificuldades de si mesmo como a de seus alunos com NEE.

Em seu quarto capítulo, “Teoria e prática: utilizando ideias pedagógicas para educar”, discute a questão de que a escola contemporânea não pode ser inflexível e estanque, já que a inteligência dinamicamente está em constante adaptação e, por meio de estímulos, mune-se de habilidades emocionais, cognitivas e criativas. Por isso, os professores necessitam tanto do conhecimento que adquirem em razão do exercício da prática docente quanto das diversas teorias pedagógicas que dão suporte ao trabalho. Nesse contexto, Eugênio Cunha põe em destaque as teorias de Piaget, Vygotsky, Ausubel e Paulo Freire.

Nos capítulos quinto e sexto, intitulados, respectivamente, “Estágios da aprendizagem discente” e “Etapas da atuação docente”, o autor revela-nos que há quatro estágios da aprendizagem, sendo o primeiro o estágio diretivo – que depende invariavelmente da presença do professor; o autônomo – em que o aluno adquire a capacidade de aprender novas habilidades por iniciativa própria; o criativo – que abarca modificações operadas pelo aprendiz, que vão desde executar novas tarefas até manusear materiais e, por último, o estágio colaborativo – com produções individuais ou em grupo, socializando o saber produzido, tanto pelo educando quanto pelo educador. Já em relação às etapas da atuação docente, o autor enfoca três etapas do trabalho pedagógico, sendo a primeira a observação, que é uma das etapas do método científico, em que os elementos observados são catalogados e organizados para, posteriormente, serem analisados. A segunda etapa é a avaliação, sendo esta objetiva, ou seja, que compreende o comportamento do aluno diante dos instrumentos de ensino e aprendizagem. Esta etapa torna-se, desse modo, um mecanismo de melhoria nas decisões que virão a seguir, pois está direcionada à aprendizagem discente. A última etapa é a mediação, que é aquela na qual o professor utiliza-se de atividades que permitirão o melhor desenvolvimento do aprendente, ou seja, o que mais interessa a este.

Sobre “O que é preciso saber? Um olhar sobre algumas necessidades especiais mais comuns na escola”, o sétimo capítulo ressalta algumas observações que podem auxiliar os professores na sua prática. Discute temas importantes como o Autismo, a Síndrome de Down, Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDHA), Transtornos Emocionais, dentre outras. Colabora sobremaneira ao trazer à tona algumas atividades interessantes a fim de aguçar, além da motricidade e do cognitivo, a criatividade e a afetividade de seus alunos com e sem NEE.
Com tais considerações, leva o leitor a concluir que a família sempre deve estar presente na escola para que a inclusão seja efetiva, já que a tríade escola, família e sociedade favorece a formação de todos os alunos. Os capítulos oitavo e nono, intitulados “Família e escola” e “O afeto e suas três dimensões: pessoal, social e pedagógica”, dá enfoque à emoção como uma das forças motrizes do processo de inclusão do aluno com NEE na escola.

Para finalizar, os dois últimos capítulos, décimo e décimo primeiro, respectivamente com os títulos “Breve histórico de políticas inclusivas” e “Propostas de atividades”, Eugênio Cunha apresenta um trajeto das políticas destinadas à educação especial no Brasil, propondo algumas atividades práticas que poderiam ser apropriadas pelos professores, bastando, para tanto, utilizar-se de criatividade para que tomem corpo e, assim, contribuam para a prática inclusiva.

As discussões encontradas nesses textos revelam ao leitor uma visão mais clara sobre a Educação Inclusiva, enfatizando-lhe a importância para o processo de inclusão de alunos com NEE dentro da escola.

Enfim, ao recebermos alunos com NEE em nossa sala de aula, perguntamos: Como educá-los? Como incluí-los? Em seu livro, Eugênio Cunha aponta os elementos que podem colaborar na busca de respostas para tais perguntas nitidamente importantes na área educacional. As discussões levantadas no livro proporcionam ao leitor inúmeras reflexões, sobretudo em relação às práticas pedagógicas que devem ser consideradas para esse alunado e, também, sobre os conteúdos curriculares a serem utilizados para ele, ressaltando os anseios e desejos desses sujeitos que, assim como todos, têm o direito à educação e à cidadania.

Jessica de Brito – Universidade Federal de São Carlos, Centro de Educação e Ciências Humanas, Departamento de Educação. E-mail: debrito_jessica@yahoo.com.br – meiremorlando@gmail.com

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Parcerias estratégicas na política externa brasileira contemporânea: um balanço necessário | Monções – Revista de Relações Internacionais | 2015

Nos últimos anos, as diferentes percepções sobre a inserção internacional do Brasil fomentaram um efervescente debate político-acadêmico. Discutem-se, principalmente, as mudanças nos eixos, como a ênfase na “Cooperação Sul-Sul”, e as “inovações”, como a construção “parcerias estratégicas”, da política externa brasileira contemporânea.

Diante desse quadro, a equipe da Revista Monções dedicou esse dossiê para fazer um balanço das “parcerias estratégicas” na política externa brasileira contemporânea. Procura-se, assim, estimular as discussões sobre o papel do Estado brasileiro no atual cenário internacional. Leia Mais

Em Perspectiva

Em Perspectiva 3 Inclusão

A revista eletrônica Em Perspectiva (2015-) é um periódico de publicação semestral do Programa de Pós-Graduação em História da Universidade Federal do Ceará (UFC).

A Revista tem por objetivo estimular a produção intelectual no âmbito da História Social, campo da pesquisa em História, cujas abordagens apreciam análises em torno das experiências dos sujeitos históricos, a partir da qual a problematização das noções de história, sujeito e sociedade emergem enquanto vias fundamentais para a compreensão do passado e de suas representações.

Pretende-se publicar artigos que, em diálogo com outras áreas do conhecimento, discutam categorias temáticas atreladas as relações entre: memória e temporalidade, cultura e poder, migração e trabalho, bem como outras abordagens. A partir de 2020 a periodicidade da Em Perspectiva passou de ANUAL para SEMESTRAL.

Em Perspectiva iniciou o quadriênio (2017-2020) com periodicidade ANUAL, eletrônica em PDF. Em 2020, diante do crescimento da revista, o Conselho Editorial julgou necessário a adoção da periodicidade SEMESTRAL, com publicações previstas para junho e dezembro, eletrônica em PDF.

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História, Narrativa e usos do passado / Expedições / 2015

A História seja considerada como ciência ou arte, ou algo entre uma e outra, não pode deixar de ser posta em si no tempo de sua tessitura. Malgrado diga-se que ela possua por objeto um tempo passado, cabe considera-la em todas as suas perspectivas, afinal trata-se de um sujeito que analisa no presente indícios de um passado à sua e outras temporalidades que, por sua vez, será em narrativa lida, apropriada e criticada por sujeitos em um tempo que não se fecha em si. Neste ínterim, expõe-se a complexa constituição da matriz disciplinar enunciada pelo teórico alemão Jörn Rüsen em sua Razão Histórica2. É neste caminho que se constrói este Dossiê sobre “História, narrativa e usos do passado”. Por compreender a história como problematizadora de uma série de questões, em diferentes tempos e espaços; por entender a necessidade de refletir sobre sua escrita e os sujeitos envolvidos; por compreender com Rüsen, na obra citada, que o cotidiano do historiador é a base para reflexão do seu exercício; por compreender a estreita relação entre a História e a vida prática das pessoas; por compreender, enfim, as diversas possibilidades de escrita e de usos que podem ser feitos do passado.

Por todas estas questões, são propostas as reflexões que seguem nos artigos, cabendo, no entanto, uma salvaguarda: a de que, acerca das reflexões sobre a História, narrativa e usos do passado não se limitam ao aqui elencado, mas sim esta é uma fração pequena de áreas tão profícuas à reflexão, por parte de filósofos e historiadores e que estão ganhando espaço entre pesquisadores brasileiros e de diversos países. Feitas essas breves contextualizações, cabe iniciar pelas contribuições dos intelectuais que construíram esta miríade temática, congregando profissionais da UFMS, UniCEUMA, UNIVERSO, UDF, UnB, UFRJ, UFMA e UFPI. A iniciar por uma história que é explicada em desenvolvimento e com uma finalidade, em detrimento da realização do Espírito, portanto plena de intencionalidades em seu devir. Assim podemos perceber as formas da razão associadas à historicidade em Hegel propostas por Delmo Mattos e que denotam, no século de Hegel, uma perspectiva bastante apropriável para o Estado de Direito, logo a serviço da ordem política e de uma elite que usufrui de fato do devir da História no contexto.

Neste sentido, mas em outra linguagem, Diogo Pereira da Silva nos traz à tona a música de Mozart que, na perspectiva apresentada mostra um passado apropriado em uma ópera desejante de representar “uma alegoria velada do monarca reinante, cuja Corte havia comissionado a composição da Ópera para um determinado festejo – como Coroações, Onomásticos, Jubileus, Bodas” conforme diz o autor. Para além do exemplo em questão, o material serve de instrumento para reflexões de outras produções musicais do século XVIII dentro do mesmo gênero que se apropriaram de um passado greco-romano. No âmbito filosófico e literário, Renato Nunes Bittencourt evoca Nietzsche e Eça de Queiroz para pensar o conhecimento histórico e a consciência histórica, no sentido de suas utilidades, benefícios ou malefícios ou, como o próprio autor diz, “benefícios e malefícios decorrentes do uso do conhecimento histórico na condução da vida individual e da consciência social”. De fato, cabe pensar sobre a presença do conhecimento histórico na vida prática das pessoas e nos níveis de consciência a serem percebidos acerca do mesmo. Em uma perspectiva prática, em relação à Educação e movimentos populares, Wellington Lima Amorim e ainda Maria Aparecida Alves da Costa que mostra a própria ação de sujeitos no ato de empoderamento ao buscar definir seus papéis sociais em prol de uma Educação de qualidade. Neste sentido, a apropriação de ideias, o embate e engajamento caracterizam, no plano social, o plasmar de ações humanas no tempo e espaço que anseiam por construir sua própria história e mudar a ordem do estabelecido, criando expectativas em um horizonte de histórias não privilegiam classes subalternas.

E, nos contextos mais variados, não apenas a literatura, a música, a filosofia, a educação ou mesmo as ações humanas denotam apropriações, releituras e usos do passado. A figura do historiador não aparece imune a formas de leitura e as opções teóricas, metodológicas, perspectivas acerca das fontes históricas e construções narrativas são permeadas de concepções de verdade (entre ciência e arte), subjetividades e projeções / construções de identidades e alteridades. Neste caminho os autores Fábio Libóreo, Daniela Scheinkman Chatelard, Rita de Cássia Oliveira e Roberto Nunes Bittencourt problematizam diversas possibilidades e contribuem para uma profícua reflexão das relações entre passado e presente em diversas temporalidades com as quais trabalham os pesquisadores. Espaço aberto e palavras escritas, ficam as contribuições para problematização das áreas que dão nome a este dossiê, com o saboroso gosto de dever cumprido, concomitante à sensação de que a tarefa está incompleta. Gosto este e sensação esta que advém da consciência de que o dizer do poeta Antonio Machado, no tocante à Teoria e Metodologia da História, é uma sentença válida: “Caminante, no hay camino, se hace camino al andar.”3 Portanto, sempre haverá reflexões, caminhos, opções e temas a se tornarem objeto de interesse dos historiadores, basta que estes os construam como tais.

Notas

1. Razão histórica: teoria da história: fundamentos da ciência histórica. Brasília: EdUNB, 2001.

2. MACHADO, Antonio. Poesias Completas. Madrid: Publicaciones de la Residencia de Estudiantes, 1917.

Leandro Hecko – Doutor em História pela Universidade Federal do Paraná e Professor Adjunto do Curso de História da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul, campus de Três Lagoas – MS. E-mail: leandro.hecko@gmail.com


HECKO, Leandro. História, narrativa e usos do passado. Revista Expedições, Morrinhos, n6, n.2, 2015. Acessar publicação original. [DR].

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Pesquisa em Ensino de História / Ana M. Monteiro, Warley da Costa, Carmen T. Gabriel e Cinthia M. de Araújo

Abordando diferentes perspectivas teórico-metodológicas e múltiplas abordagens epistemológicas, o livro ora resenhado é uma coletânea composta por 16 artigos, contando com uma apresentação elaborada pelas organizadoras – Ana Maria Monteiro, Carmen Teresa Gabriel, Cinthia Monteiro de Araújo e Warley da Costa – e um prefácio de Circe Fernandes Bittencourt. Ao longo do trabalho, predomina a marca institucional do lugar de pertencimento dos autores envolvidos, pois estes integram o Núcleo de Estudos de Currículo da Universidade Federal do Rio de Janeiro (NEC/UFRJ), sendo em sua maioria também vinculados ao Laboratório de Estudos e Pesquisas em Ensino de História (LEPEH/UFRJ). Essa especificidade confere coerência interna, apesar da heterogeneidade nos pontos de vista, em torno de uma questão-chave: o reconhecimento desse campo de pesquisa como fronteira permeável em que referenciais de ambas as áreas – Educação e História – encontram-se articulados.

Há grande diversidade temática entre os artigos, alguns dos quais são extratos de pesquisas de mestrado e doutorado no âmbito NEC/LEPEH. Entre os vinte autores e autoras da coletânea há, também, grande diversidade no que tange à filiação institucional: são docentes do Ensino Superior, docentes da Educação Básica, pesquisadores; doutores, mestres, graduados, mestrandos e doutorandos.

O conjunto de textos reunidos no livro oferece subsídios consistentes para a discussão dos impasses epistemológicos contemporâneos e apostas políticas no cenário da educação básica pública, particularmente no campo de ensino da referida disciplina, compreendido como um espaço de disputas e variadas possibilidades investigativas.

A proposta explicitada pela obra contribui substancialmente para o adensamento do debate acadêmico atual, propondo novas perspectivas com base no olhar de pesquisadoras e pesquisadores em relação ao “espaço-tempo de fronteira” entre Educação e História, ambiente no qual se reconfiguram distintas interpretações a partir das interações dialéticas entre os dois campos de saber. Dessa forma, a publicação reúne análises diversificadas sobre currículo, teoria, ensino, historiografia, livro didático, tensionamentos políticos e identitários, legislação educacional, experiências e saberes docentes e demandas sociais, entre outros aspectos inter-relacionados ao “fazer pesquisa” em História escolar.

O propósito central das discussões converge para o enfrentamento dos dilemas político-institucionais ligados ao reconhecimento e valorização do potencial da escola pública como lócus privilegiado de difusão e democratização de bens culturais, incluindo o conhecimento científico. E paralelamente, está vinculado a uma intencionalidade, a um posicionamento político em defesa da função social do conhecimento histórico como instrumento cognitivo relevante para a significação de nossas experiências temporais diante das exigências do momento presente. Ao mesmo tempo, assume um desafio epistemológico, articulando campos distintos e mobilizando discursos da historiografia, das teorias do currículo, da didática e da pedagogia que construam sentido e legitimidade para o ensino da disciplina de História.

Os textos foram organizados em três blocos temáticos intitulados, respectivamente, “diálogos teóricos possíveis”; “aula de História como espaço-tempo de fronteira” e “livros didáticos de História e pesquisa em ensino de História – múltiplas apropriações”.

A primeira parte compõe-se de cinco artigos que discutem a relação entre História e Educação, enfatizando seus aspectos teórico-metodológicos com centralidade no debate epistemológico. O texto de abertura, “Currículo de História e narrativa: entre desafios epistemológicos e apostas políticas”, das organizadoras Ana Maria Monteiro e Carmen Teresa Gabriel, convida à reflexão sobre os sentidos de narrativa, suas possibilidades e limites epistemológicos para problematização de questões educacionais contemporâneas, dialogando com referenciais pós-críticos, com destaque para Stuart Hall, bem como fundamentando-se no paradigma narrativista (Hartog e Ricoeur). Em seguida, Fernando de Araújo Penna nos apresenta “A Relevância da Didática para uma Epistemologia da História”. O autor propõe uma discussão teórica sobre a epistemologia da disciplina, para além do campo de produção acadêmica, destacando a relação desses saberes com um espectro social mais amplo. Partindo de um viés historiográfico, Penna sugere uma nova apropriação do conceito de operação historiográfica tecido por Certeau, articulando-o ao conceito de transposição didática proposto por Chevallard para estabelecer uma conexão entre Epistemologia e Didática, em um movimento de deslocamento da produção de conhecimento histórico escolar para o âmbito da operação historiográfica, tornando Didática e Epistemologia “indissociáveis” (p.50).

Os três artigos subsequentes introduzem outras perspectivas de articulação entre História e Educação, possibilitadas pela análise do currículo e da trajetória dessa disciplina no contexto escolar brasileiro. Em seu trabalho intitulado: “A História e os Estudos Sociais, entre tradição acadêmica e tradição pedagógica: o Colégio Pedro II e a reforma educacional da década de 1970”, Beatriz Boclin Marques dos Santos estuda o impacto e as resistências da Lei de Diretrizes e Bases 5.692/1971 no currículo daquela instituição, onde, a despeito da orientação legal, a disciplina História manteve-se como disciplina autônoma.

Investiga as características da dinâmica curricular da disciplina Estudos Sociais imposta em 1971 e suas implicações para o ensino de História, referenciando- se nos “padrões de estabilidade e mudança” propostos por Ivor F.

Goodson. O trabalho de Rodrigo Lamosa, “O ensino de História e as transições paradigmáticas no contexto da nova regulação do trabalho docente” traz importantes considerações sobre as transformações no ensino de História e nas condições e formas de regulação das atividades profissionais docentes nessa área, a partir do período de redemocratização. Lamosa demonstra que as avaliações externas e as parcerias empresariais têm empurrado o ensino de História a uma pedagogia tradicional, posto que “os modelos baseados no adestramento dos alunos para a realização dos exames estão sendo difundidos pelas escolas” (p.77).

Posteriormente, Marcele Xavier Torres e Marcia Serra Ferreira, no artigo “Currículo de História: reflexões sobre a problemática da mudança a partir da Lei 10.639/2003”, tecem, em diálogo com Hannah Arendt, considerações a respeito da inserção do componente História e cultura africana e afro-brasileira, avaliando seus impactos para o ensino de História. As autoras reconhecem a importância de instrumentos legais, mas afirmam a sua insuficiência na mudança de uma tradição eurocêntrica se a tradição expressa na cultura escolar não for, ela própria, objeto de mudanças.

Nos cinco textos reunidos no segundo bloco da coletânea, o foco principal está na análise das relações discursivas estabelecidas entre sujeitos do processo ensino-aprendizagem e conhecimento histórico escolar. Abrindo essas discussões encontra-se o artigo “Identidades Sociais: produção de sentido nas enunciações de uma docência”, no qual Ana Paula Taveira Soares apresenta resultados de sua pesquisa empreendida no mestrado sobre currículo e linguagem nas negociações de sentidos que constituem, qualificam e transformam as marcas identitárias presentes nos discursos dos docentes em suas aulas de História, enquanto práticas discursivas sociais. No artigo seguinte, “A produção de sentido na História ensinada e sua relação constitutiva com o espaço- -tempo”, Patrícia Bastos de Azevedo reflete sobre a História ensinada, as contingências e os constrangimentos que permeiam esse tempo-espaço composto por múltiplas forças histórico-sociais que compõem a cultura escolar e limitam/ delimitam a ação do professor, compreendido como protagonista desse processo, assim como o aluno é o agente central da História aprendida.

Partindo das potencialidades dialógicas entre ensino de História, a teoria do discurso de Laclau e Mouffe e os aportes da transposição didática de Chevallard, Warley da Costa, no texto “Currículo de História e produção da diferença: fluxos de sentido de negro recontextualizados na História ensinada”, analisa as configurações das narrativas históricas produzidas pelos discentes na realização de uma atividade proposta em sala de aula para alertar sobre a necessidade de deslocar “leituras dicotômicas e conservadoras de mundo” (p.144), que reatualizam discursos racistas, a despeito do alargamento da presença de conteúdos não binários sobre o tema. Costa evidencia esse espaço como território curricular de lutas político-identitárias que envolvem as relações étnico-raciais contemporâneas. Márcia Cristina de Souza Pugas apresenta o texto “Currículo, Diferença, Identidade e Conhecimento Histórico Escolar”, o qual compreende parte da pesquisa de mestrado da autora em que investiga os conhecimentos históricos escolares pelo viés da cultura e da diferença, sob o enfoque das negociações acerca dos sentidos de brasilidade mobilizados por alunos das séries iniciais do Ensino Fundamental, utilizando como arcabouço teórico os estudos culturais pós-coloniais e o repertório analítico da crítica do discurso. Concluindo esse bloco, o texto de Daniel de Albuquerque Bahiense, “Articulações hegemônicas na construção discursiva sobre bons alunos de História” aborda a relação estudante/professor/conhecimento histórico, pensada na interface currículo, conhecimento e identidades sociais discursivas. O pesquisador procura entender como são fixados sentidos provisórios sobre “bons alunos de História” e o conhecimento histórico escolar.

O terceiro e último bloco, formado pelo encadeamento de seis textos, articula-se em torno da questão do conhecimento escolar e a escolha/produção do livro didático da disciplina. Em “Narrativas do ‘outro’ no currículo de História: uma reflexão a partir de livros didáticos”, Adriana Soares Ralejo e Érika Elizabeth Vieira Frazão examinam como são abordados os conteúdos sobre História e cultura africana, afro-brasileira e indígena nas obras didáticas, após a promulgação das Leis 10.639/2003 e 11.645/2008. No texto seguinte “‘Brasil: uma História dinâmica’: desafios didáticos no Ensino de História”, partindo das articulações entre ensino de História e historiografia, os autores Ana Maria Monteiro, Adriana Soares Ralejo e Vicente Cicarino avaliam as mediações didático-culturais promovidas pelo livro didático Brasil: uma História dinâmica, publicado e utilizado na década de 1970. No terceiro texto, “A Revolta dos Malês nos livros didáticos de História e a Lei 10.639/2003: uma análise a partir da ‘epistemologia social escolar’”, os autores Luciene Maciel Stumbo Moraes e Wallace dos Santos Moraes estudam a presença dos conteúdos referentes ao movimento rebelde de 1835 em livros didáticos de História, tomando como aporte as contribuições teóricas da epistemologia social escolar, entendendo a inclusão desse conteúdo como desdobramento de um processo mais amplo de questionamento social a respeito da disputa de sentidos e memórias no âmbito da história ensinada consubstanciado pela implantação da Lei 10.639/2003.

Os três últimos artigos abordam questões relacionadas à história do tempo presente. Cinthia Monteiro de Araujo, no texto “Por outras Histórias possíveis: construindo uma alternativa à tradição moderna”, compara duas obras didáticas com abordagens diferentes – a História Temática e a História Integrada – para perceber as tensões entre a tradição e as visões alternativas de articulação temporal dos processos históricos. Conclui alertando sobre os perigos de uma tradição curricular de História única e eurocêntrica, apoiada na perspectiva temporal linear e progressiva, ainda vigente em grande parte das escolas brasileiras. Com base em Hartog e Koselleck, destaca a necessidade de investimento em novas práticas pedagógicas abertas a uma concepção pluralista que envolve múltiplas narrativas, temporalidades e espacialidades. No quinto capítulo da Parte III, “Currículo de História e Projetos de Democratização: entre memórias e demandas de cada presente”, Carmen Teresa Gabriel e Érika Elizabeth Vieira Frazão analisam as transformações nos sentidos de conceitos como democracia e cidadania no decorrer das décadas posteriores à redemocratização, utilizando, para isso, três edições de um mesmo livro didático. Encerrando o bloco, o artigo “Demandas do tempo presente e sentidos de cidadania: redefinições e deslocamentos no currículo de História (anos 1980 x anos 2010)”, cujos autores, Diego Bruno Velasco e Vitor Andrade Barcellos, analisam diferentes edições de uma mesma obra com o objetivo de identificar os deslocamentos no sentido de cidadania provocados pelas mudanças nas demandas sociais.

Pesquisa em Ensino de História apresenta, assim, um leque de perspectivas para quem se interesse pela área e suas faces de contato com a Historiografia, a Teoria e a Filosofia da História, os estudos sobre currículo, identidades e contemporaneidade. Os artigos amalgamados na obra acrescentam elementos para reflexão e abordagens paradigmáticas apoiadas nos repertórios crítico e pós-moderno, possibilitando o aprofundamento de perspectivas teórico-metodológicas e epistemológicas que articulam aspectos da teoria do currículo e da historiografia. Contribuem, também, para pensarmos a escola real e seu dia a dia, tanto pelos instrumentos didáticos quanto pelos seus sujeitos – docentes e discentes e seus saberes – desvelando-se, na visão dos autores, como um espaço repleto de contradições, mas, fundamentalmente, de possibilidades.

Como bem aponta Circe Bittencourt em seu prefácio, os temas e problemas apresentados pela obra “se abrem para formulações relevantes sobre as relações entre escola, cultura e poder” (p.19), o que para os autores traduz-se no comprometimento com a dimensão política desse campo, principalmente no tocante ao atendimento das demandas sócio-históricas do tempo presente, que constantemente mobilizam seus pesquisadores a questionar, reavaliar e reinventar o papel da História como componente curricular da educação básica.

Em tempos de ataques à História como disciplina escolar e de tentativas de criminalização da autonomia docente, o Ensino de História e a sua pesquisa transformam-se em arena fundamental na defesa dos valores democráticos e da diversidade, objetos privilegiados do campo a que nos dedicamos.

Isabelle de Lacerda Nascentes – Professora de História da rede pública do estado do Rio de Janeiro (Seduc/RJ); aluna do Mestrado Profissional em Ensino de História da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (ProfHistória/ UFRRJ). Seropédica, RJ, Brasil. isanascentes@hotmail.com.br.

Sérgio Armando Diniz Guerra Filho – Doutor em História Social. Centro de Artes, Humanidades e Letras (CAHL), Universidade Federal do Recôncavo da Bahia (UFRB). Cachoeira, BA, Brasil. sadgfilho@gmail.com.


MONTEIRO, Ana Maria; COSTA, Warley da; GABRIEL, Carmen Teresa; ARAUJO, Cinthia Monteiro de (Org). Pesquisa em Ensino de História: entre desafios epistemológicos e apostas políticas. Rio de Janeiro: Mauad X; Faperj, 2014. 280p. Resenha de: NASCENTES, Isabelle de; GUERRA FILHO, Sérgio Armando Diniz. Ensino de História e Currículo: interfaces teóricas e metodológicas. Revista História Hoje, v. 4, nº 8, p. 315-321 – 2015.

Aprender e ensinar história nos anos finais da escolarização básica – FREITAS (RHH)

Itamar Freitas Foto Adilson AndradeASCOMUFS Inclusão
Itamar Freitas | Foto: Adilson Andrade/ASCOM/UFS

Existem bons manuais de introdução ao ensino de História disponíveis no mercado editorial brasileiro. Em geral, essas publicações tratam de questões curriculares e metodológicas destinadas à formação básica dos aspirantes à docência. Em primeiro momento, o título, Aprender e ensinar história nos anos finais da escolarização básica, passa a impressão de se tratar de mais um manual dedicado ao ensino disciplinarizado de História, especialmente à fase atendida por professores especialistas dentro do sistema educacional brasileiro.

Contudo, os interlocutores diretos do livro de Itamar Freitas não são, na verdade, os iniciantes, mas os formadores de professores, esses profissionais híbridos, pesquisadores e docentes das fronteiras entre a História e a Educação, em geral lotados nas cadeiras de Didática, Metodologia ou Prática de Ensino dos cursos de Licenciatura em História. Leia Mais

Ensino de História: usos do passado, memória e mídia – ROCHA (RHH)

ROCHA, Helenice; MAGALHÃES, Marcelo; RIBEIRO, Jaime; CIAMBARELLA, Alessandra (Org.). Ensino de História: usos do passado, memória e mídia. Rio de Janeiro: Ed. FGV, 2014. 280p. Resenha de: SILVA, Célia Santana. As noções de usos do passado e de cultura histórica como instrumental analítico para a prática e a pesquisa no Ensino de História. Revista História Hoje, v. 4, nº 8, p. 322-327 – 2015.

Os temas relacionados ao Ensino de História trazem reflexões que buscam enfrentar os desafios colocados atualmente pelas diversas demandas, temáticas e possibilidades para a história escolar. Qual história ensinar? Como equilibrar uma história que tem no seu projeto inicial um objetivo nacional com os interesses e expectativas dos sujeitos individuais e coletivos? São desafios que levam os pesquisadores a refletir sobre o uso social da história e suas interfaces entre o Ensino de História e a circulação social da história em diferentes esferas de produção, além de possibilitar considerações acerca dos usos do passado em variadas mídias. Isso significa também a ampliação de diálogos e olhares com e para a história pública, ou seja, as histórias que são produzidas para e além dos muros da escola.

O livro Ensino de História: usos do passado, memória e mídia é uma coletânea de artigos organizada em três partes, e resulta de uma iniciativa de pesquisadores que compõem e/ou dialogam com o Grupo de Pesquisa “Oficinas de História”.1 Organizado por Marcelo Magalhães, Helenice Rocha, Jayme Fernandes Ribeiro e Alessandra Ciambarella, o livro conta ainda com pesquisadores – Temístocles Cezar, Maria Lima, Angela de Castro Gomes, Aléxia Pádua Franco, Flávia Eloisa Caimi, Júnia Sales Pereira, Eucidio Pimenta Arruda e Rodrigo Bonaldo – vinculados a outras instituições universitárias, especialmente dos eixos Sul e Sudeste: Minas Gerais, Rio de Janeiro e Rio Grande do Sul, respectivamente (UFU, UFMG, UFF, UniRio, UFRGS e UPF).

São pesquisadores que alinham suas perspectivas com o intuito de discutir as interfaces entre Ensino de História e a circulação social da história por meio das diferentes mídias e usos do passado, identificando a complexidade da relação passado-presente no fazer histórico. Eles convidam os leitores para algumas reflexões que repercutem desde o campo epistemológico da história até questões relacionadas ao enfrentamento que os historiadores estabelecem no contexto das discussões atuais sobre os usos do passado. Partindo de temas vigentes os/as autores/as que assinam os artigos do livro apresentam questões direcionadas para se pensar o Ensino de História como prática social e propõem discussões importantes para a formação do profissional de história que investiga o ensino e seus desdobramentos como objeto da pesquisa histórica.

Informa-se que o principal objetivo do livro é promover um “diálogo produtivo entre discussões da historiografia e do ensino de história, elaborando de forma reflexiva as fronteiras entre campos de pesquisa e reafirmando as relações constitutivas entre o mundo acadêmico e o escolar no ensino de história”.

Para esses autores, devem-se ampliar as perspectivas do Ensino de História, considerado aqui como uma manifestação da história pública.

Dividido em três partes: “Diálogos entre a História e seu Ensino”, “Usos do Passado: a história escolar” e “Usos do passado: a divulgação histórica”, o livro apresenta 11 artigos que podem ser lidos individualmente, mas que também se complementam, pois tratam de temas em que o leitor pode exercitar interpretações diversas. Essa divisão se faz necessária para estabelecer diálogos, ampliar as discussões, e “superar os últimos cantões de encastelamento de uma história elitizada” no sentido de dar a conhecer a noção de história pública, que incorpore seus diversos públicos. A primeira parte apresenta alguns conceitos bastante atuais e mobilizados nas pesquisas sobre Ensino de História, tais como memória e mídia, regimes de historicidade e consciência histórica.

Na segunda parte o enfoque recai sobre as estratégias didáticas no Ensino de História e seus desdobramentos, as mudanças que ocorreram como resultado das políticas de avaliação dos livros didáticos de história. Por último, propõe-se discutir como as mídias estão presentes e se relacionam com o Ensino de História, tornando-se textos ou resultantes de produtos culturais diversos. São partes que dialogam mesmo sendo independentes, e percebe-se que as noções apresentadas em cada parte do livro atravessam toda a obra.

Instigando professores, pesquisadores, estudantes e diversos públicos da história à busca por temas diferenciados e adensando discussões antes não iniciadas ou mesmo tratadas com superficialidade, o livro possibilita, com uma escrita firme e consistente nos vários artigos, novos olhares para o Ensino de História. Fazendo uso de uma bibliografia atual e diversificada, percebe-se uma disposição dinâmica e arrojada em apresentar um livro irmanado com as pesquisas históricas do tempo presente. Partindo dessa premissa, nota-se como estão ocorrendo alguns dos muitos usos do passado no espaço escolar, como as diversas memórias estão sendo mobilizadas e como as várias mídias se constituem como estratégias para esses usos do passado e são entendidas como instrumentos utilizados para o Ensino de História no ambiente escolar.

Os artigos que compõem a parte “Diálogos entre a História e seu Ensino” versam sobre os tempos históricos, os regimes de historicidade, mas também analisam como os elementos do passado se fazem presentes na sala de aula mediante produtos culturais disponíveis no mundo social. São textos que demonstram uma densidade teórica e uma boa incursão historiográfica empenhada em contextualizar e problematizar alguns conceitos a partir da cultura histórica.

O Ensino de História vem se renovando, e os historiadores mostram essa renovação por múltiplos olhares. Na abordagem de “O sentido de ensinar história nos regimes antigo e moderno de historicidade”, Temístocles Cezar utiliza o conceito de regime de historicidade para apresentar as relações entre o passado, o presente e o futuro, destacando a necessidade de reflexões sobre o atual regime de historicidade no sentido de evidenciar o presente como fator determinante dentro da experiência histórica, configurando o que Hartog chama de presentismo. Helenice Rocha, em “A presença do passado na aula de História”, convida a observar como elementos do passado se fazem presentes na sala de aula, e como os professores fazem uso dos produtos culturais que tratam do passado e estão à disposição no mundo social.

Finalizando as discussões dessa primeira parte da coletânea, Maria Lima apresenta algumas reflexões que propiciam novos argumentos para uma discussão atual e pertinente no campo do Ensino de História, que é a aprendizagem histórica, explicada pela autora quando ela sinaliza que é preciso didatizar os conhecimentos, tornar ensinável o que os aprendizes trazem, perceber que antes de ser aluno é preciso ver um sujeito com aprendizagens e saberes. Apresentando diferentes autores que sob perspectivas epistemológicas diferentes sistematizaram os conceitos de consciência histórica, cultura histórica e educação histórica, bem como os seus usos, o artigo se torna uma nova referência para quem busca estudar e debater os sentidos do ensino da história.

No texto, a autora tece considerações afirmando o mérito positivo das pesquisas e dos grupos analisados por ela, que vêm apresentando e desenvolvendo instrumentos para se pensar as possibilidades de reflexão sobre os jovens e crianças e suas relações com os saberes históricos. Certamente o sentido do Ensino de História não está dado, mas busca-se o melhor caminho a seguir. A consciência histórica e a educação histórica certamente acenam como uma possibilidade a ser seguida.

Na segunda parte, “Usos do passado: A História Escolar”, o enfoque recai sobre a literatura escolar e as estratégias didáticas no Ensino de História e seus desdobramentos. As discussões versam sobre a instrução pública no Brasil republicano, livros didáticos e PNLD. São quatro artigos instigantes que atendem às novas demandas do Ensino de História. Ângela de Castro Gomes envereda por uma pesquisa repleta de possibilidades para pensar tanto culturas políticas quanto cultura escolar, apresentando resultados empíricos dos livros que foram utilizados na Instrução Pública no início do século XX em alguns estados do Brasil republicano, especificamente Minas Gerais e São Paulo.

Analisando correspondências trocadas por Ana de Castro Osório com intelectuais, jornalistas e republicanos brasileiros, além de familiares, presenteia os leitores com informações preciosas sobre as redes de sociabilidade que ocorriam no Brasil República e também instiga-nos a perceber os meandros da formação de uma dada “identidade nacional”, pois o material analisado em sua pesquisa versa sobre a nacionalidade exaltada no Brasil nos primeiros anos do século XX, bem como as relações luso-brasileira durante os anos 1910-1920.

Flávia Eloisa Caimi traz encruzilhada, fronteiras e “sobrepeso de informações” e propõe uma discussão sobre as mudanças e demandas educativas e sociais a partir dos valores da geração Homo Zappiens. Mobiliza os conceitos de obesidade informativa2 e presentismo como chaves de leitura para entender como as sociedades contemporâneas adotam a tecnologia e desenvolvem novas estratégias de aprendizagem, de relacionamento e de convívio social. A autora analisa as possibilidades formativas implícitas à utilização de suportes de informação consideradas fontes para o estudo da história escolar, bem como suas contradições e seus limites, que desafiam professores e pesquisadores a uma mobilização constante sobre o aprender e ensinar história no tempo presente.

Na terceira e última parte do livro, “Usos do Passado: A Divulgação Histórica”, os quatro artigos trazem um panorama das discussões anteriores, com temáticas, que atravessam todo o livro. De modo geral, as mídias que apresentam a história com base em contextos, textos e produtos culturais são analisadas aqui como possibilidades de entender as problemáticas e os vários desafios lançados ao Ensino de História. O artigo de Alessandra Ciambarella, por exemplo, potencializa questões que permeiam cultura histórica, tempo presente e memória, quando traz à baila a complexa relação entre mídia audiovisual (cinema, TV) na elaboração e enunciação de discursos históricos, reconstruindo e reelaborando determinadas memórias, imagens e discursos em detrimento de outros. Ganham destaque o direito à memória, os usos do passado e as mídias que com seus diversos produtos sociais e culturais mobilizam o tempo presente e se impõem como possibilidades de fontes para o processo de aprendizagem histórica. Os textos sinalizam que as fronteiras entre escola e sociedade estão cada vez mais largas, pois questões como essa ultrapassam o universo escolar e são pautadas num debate público. Ou seja, os movimentos sociais e a escola dialogam e propõem novas perspectivas de interpretação para o Ensino de História e, assim, rompem com o eurocentrismo curricular que sempre norteou e orientou a sociedade brasileira.

O livro aqui resenhado contribui de forma significativa para o campo do Ensino de História, pois além de apresentar múltiplas investigações acerca dos usos do passado, considerando a cultura histórica como elemento articulador, possibilita perceber a circulação social da história e seu ensino em diferentes esferas de produção. Com questões centrais que problematizam a história pública no ambiente tanto escolar quanto acadêmico, a presente produção torna- -se leitura obrigatória para um público que pensa e reflete sobre a forte presença dessa história nos diferentes espaços de produção do conhecimento.

Certamente um livro com densidade teórica, questões instigantes e atuais, informações embasadas teoricamente se faz convidativo e garante uma rica leitura, que por certo permitirá engrossar os possíveis e irrecusáveis debates postos no campo do Ensino de História.

Notas

1 Trata-se de grupo interinstitucional que reúne pesquisadores vinculados a diferentes instituições universitárias do Rio de Janeiro e de outros estados, os quais se dedicam a pesquisa na área de Ensino de História.

2 Apropriação da expressão cunhada em: POZO, Juan Ignácio. Aprendizes e mestres: a nova cultura de aprendizagem. Porto Alegre: Artmed, 2002.

Célia Santana Silva – Doutoranda em História, PPGH, Universidade do Estado de Santa Catarina (Udesc); Departamento de Ciências e Tecnologia, campus XVIII da Universidade do Estado da Bahia (Uneb). Eunápolis, BA, Brasil. celiasantanauneb@gmail.com.

Práticas letradas / Embornal / 2015

A historiografia contemporânea já vem enriquecida pelo menos a três décadas por estudos no campo da cultura escrita. Cada vez mais a literatura, a imprensa, o livro, os intelectuais, entre outros elementos relacionados ao letramento, têm mostrado que as sociedades fizeram uso das atividades do intelecto como ferramentas de poder, reinvindicação, inserção e afirmação de experiências ao longo da história.

Desta feita, o presente número da Embornal – Revista Eletrônica da ANPUH-CE se ateve ao exercício das “práticas letradas” ou as ações cotidianas de letramento, compreendidas como aquelas realizações em torno da difusão das ideias e visões de mundo e de sociedade.

Trata-se da leitura e dos leitores, da impressão e circulação dos livros, revistas e jornais, dos debates realizados nas associações e grêmios literários, científicos e filosóficos, bem como, da produção intelectual ordinária que são as experiências, práticas e realizações do saber letrado [1].

Estes são territórios de lutas, embates e disputas por exercício de poder e capital simbólicos [2].

Em geral, os artigos que ora se apresentam compõem a produção científicas realizada no seio do eixo de pesquisa “Práticas Letradas” [3] do grupo “Práticas Urbanas” [4] (GPPUR-DGP/ CNPQ).

Fruto dos debates em comum entre os eixos “Práticas Letradas” e “Governamentalidade e Dispositivos de Controle Social” do GPPUR, em torno das ideias políticas, da imprensa e dos intelectuais, o artigo “Os Ecos do Discurso Liberal nos Domínios da Precariedade Estrutural: o Jornal Libertador e a Defesa da Liberdade na Província do Ceará”, assinado pelo Professor Érick Assis Araújo e Francisco Paulo Mesquita, traz a discussão em torno dos temas debatidos na imprensa abolicionista cearense, sobretudo, o que o que fora tratado no jornal abolicionista Libertador.

O texto “‘Uma República na Esquina das Trincheiras’. Cidade, Imprensa e Política na Construção do Regime Republicano em Fortaleza (1889 – 1892)”, por Gleudson Passos e Taynara Rodrigues dos Anjos, trata da circulação de ideias em torno do modelo republicano, entre os órgãos de imprensa que disputavam o público leitor da cidade de Fortaleza, palco de conflito entre as facções políticas do período.

“A ‘Soberania da Lei’: A Função Civilizatória do Direito nas Práticas Letradas dos Bacharéis da Academia Cearense (1894-1914)”, texto que leva a pena do Professor Allyson Bruno Viana e Lucas Araújo Gomes Frota, aborda a inserção dos intelectuais de Fortaleza na virada entre os séculos XIX e XX, quando estes se ocuparam da produção intelectual em torno de uma racionalidade das leis que deveriam reger o país, durante os primeiros anos do regime republicano.

O artigo “Sob o Domínio da Oligarchia que Opprime, Rouba e Envergonha”: A Atuação Letrada Denunciativa de Antônio Sales através da Obra O Babaquara, da autoria do Professor André Brayan Lima Correia, retrata a inserção intelectual junto ao debate político no início do século XX.

Da Professora Rafaela Gomes Lima, o texto “‘Aqui publicam-se livros’: os Intermediários da Literatura na Fortaleza do final dos Oitocentos” faz alusão ao mercado livreiro e aos círculos de leitores na capital cearense aos fins do século XIX.

“Os Pedreiros Livres do Império: Em Defesa da Humanidade na Imprensa Cearense (1873 – 1875)”, assinado pelo Professor Paulo Freire Sá, analisa o papel da maçonaria na cidade de Fortaleza, através do jornal Fraternidade em combate às ideias ultramontanas do jornal Tribuna Catholica.

“‘Os Frutos do Progresso’: Análise de Rachel de Queiroz sobre as transformações urbanas promovidas pela modernização conservadora” é o artigo da Professora Lia Távora Moita, a respeito da escrita de Rachel de Queiróz, sobre os seus posicionamentos em torno da urbanidade vivenciada nos anos de ditadura civil-militar instalado no Brasil, entre 1964 e 1985.

O texto “‘A Vitória da Verdade’: Histórias e ‘Posse’ da Verdade em Sobral”, assinado pelo Professor Thiago Braga Teles da Rocha, alude aos combates pela história e pela memória, das apropriações discursivas e narrativas em torno da cidade de Sobral, a partir das referências do Bispo Dom José Tupinambá da Frota.

Por fim, o artigo “‘Pedrada em casa de marimbondo’: Práticas Letradas, Capitalismo e Civilização no livro O Canto Novo da Raça”, do Professor Thiago da Silva Nobre, traz uma reflexão sobre o exercício das práticas letradas em torno da experiência urbana pela qual passava a cidade de Fortaleza, no início do século XX.

Que os leitores e as leitoras se sintam convidados a trilhar por esses caminhos da pesquisa que têm as práticas letradas como possiblidade de investigação no campo da pesquisa histórica.

Boa leitura!

Notas

1. Sobre “Práticas Letradas” ver CHARTIER, Roger (Org). Práticas da Leitura. – São Paulo: Estação Liberdade, 1996. Ver também: CHARTIER, Roger. História Cultural. Entre Práticas e Representações. – Lisboa: Difel, 1994.

2. BOURDIEU, Pierre. Poder Simbólico – Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1998.

3. O eixo temático “Práticas Letradas e Urbanidades” tem produção científica no âmbito da pós graduação através das dissertações de mestrado defendidas e/ ou em andamento no Mestrado Acadêmico em História/ MAHIS-UECE pelos discentes Roberta Kelly Maia (2013), Ariane Bastos (2013), Rafaela Gomes (2014), Paulo Freire Sá (2016), Thiago da Silva Nobre (2017), Lia Mirelly Távora Moita (2017) e Thiago Braga Telles da Rocha (2017). Alguns projetos foram amparado por agências de fomento com os seguintes bolsistas de Iniciação Científica: Thiago Nobre, Danielle Almeida, Taynara dos Anjos (PIBIC-CNPQ); Ariane Cordeiro, Albertina Paiva, Tessie Reis (PROVIC-UECE); Francisco Cavalcante Neto, Jéssica Cardoso, Irlas Prata, Thaís Medeiros, Daiane Silva (FUNCAP); Rafael Pinheiro, Victor Dantas e Rubens Sousa (PRAE/ UECE).

4. O grupo de pesquisa “Práticas Urbanas” (GPPUR-DGP/ CNPQ) abrange os seguintes eixos temáticos: “Governamentalidade e Controle Social”, “Ética, Hábitos e Costumes”, “Produção e Consumo de Bens Domésticos” e “Práticas Letradas e Urbanidades”.

Gleudson Passos Cardoso

Organizador

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Educação básica, educação superior e inclusão escolar: pesquisas, experiências e reflexões – CARVALHO et al. (REi)

CARVALHO, M.B.W.B. de; COSTA, V.A. da; MIRANDA, T.G. (Org.). Educação básica, educação superior e inclusão escolar: pesquisas, experiências e reflexões. Niterói: Intertexto, 2012. (Educação e vida nacional n. 6). Revista Entreideias, Salvador, v. 4, n. 1, p. 225-229, jan./jun. 2015.

O livro “Educação básica, educação superior e inclusão escolar: pesquisas e reflexões” é resultante da 2ª Reunião Anual Projetos CAPES-PROESP/PROCAD –NF ocorrida em dezembro de 2011 cujos objetivos foram: divulgar os Projetos CAPES-PROESP/PROCAD-NF, uma parceria entre a Universidade Federal do Maranhão (UFMA), a Universidade Federal da Bahia (UFBA) e a Universidade Federal Fluminense (UFF) quanto aos estudos de políticas educacionais e a formação de professores. O tema foi “formação de professores e autonomia docente: desafios à escola pública” e, além das instituições envolvidas nos Projetos citados, contou com a participação da secretaria de estado da educação do Maranhão, das secretarias de educação dos municípios de São Luís/Maranhão, Imperatriz/ Maranhão e Niterói/Rio de Janeiro, da Universidade Estadual do Maranhão (UEMA), da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ), e a comunidade em geral.
A obra trata de abordagens diversas da inclusão. Os autores são professores das instituições participantes da reunião, do Departamento de Posgrado e Investigación, Dirección de Educación Superior, Serviços Educativos Integrados al Estado de México (SEIEM) e alunos da pós-graduação em educação da UFMA e da UFF. A maior parte dos estudos nela apresentados está concentrada na escola de educação básica e na universidade. Movimentos sociais também são discutidos no que diz respeito à luta das pessoas com deficiência pela educação. Ainda compõe a obra anexo contendo resumos de projetos de dissertação e de iniciação científica articulados ao PROESP e PROCAD que, abordando a inclusão, enfocam: as salas de recursos multifuncionais; o projeto político pedagógico de um escola de ensino médio; a formação de professores da educação infantil e a implementação da política de inclusão em um escola pública.

Como subtemas, são discutidos: formação e trabalho de professores; legislação e/ou diretrizes políticas; relação entre políticas e cultura institucional e prática escolar; projeto político pedagógico; educação de pessoas com deficiência intelectual e múltipla; acesso e permanência de pessoas com deficiência na educação superior e o percurso da educação especial até o direcionamento para a inclusão.

A perspectiva da educação inclusiva trouxe para o debate as condições da educação pública para acolhimento de TODOS, inclusive os que apresentam deficiência, transtornos globais do desenvolvimento e altas habilidades/superdotação. Acolhimento esse que deve significar acesso, permanência e sucesso na aprendizagem.
Assim, a socialização de estudos que problematizam a inclusão pode trazer contribuições importantes para a sua efetivação.

Segura, no capítulo “Acompañamiento Formativo: ¿qué connotaciones tiene en procesos de formación de profesionales de la educación?”; Costa, com “formação de professores e educação inclusiva” Silva-Perdigão, no texto “Rita, a professora que foi escutada”; Oliveira, no capítulo “A política de educação inclusiva e suas implicações na formação inicial de pedagogos(as)” e Sousa, no trabalho “Inquietações do pedagogo no cotidiano das práticas pedagógicas na educação inclusiva” discutem formação e trabalho docente com diferentes abordagens e em contextos diversos.

Segura com uma investigação sobre o assessor técnico pedagógico discute dimensões na formação dos profissionais da educação e o acompanhamento formativo como uma atitude no sentido de colaboração com o outro promovendo situações dialógicas e reflexivas referentes a questões dos processos educacionais contemporâneos.

Costa problematiza a inclusão com seus fundamentos, demandas e desafios. A autora reflete sobre dimensões centrais na formação de educadores, quais sejam: autonomia, originalidade, espontaneidade e sensibilidade, dentre outras.

Silva-Perdigão discorre sobre a escuta de uma das professoras participantes da pesquisa “Escuta e orientações a pais e professoras de crianças com sintomas de hiperatividade, impulsividade e atencionais” realizada no período de 2010 a 2011 sob a sua coordenação.

Demonstra a importância de ouvir professores sobre o trabalho com a perspectiva da educação inclusiva.

Oliveira aborda a disciplina educação especial no curso de Pedagogia discutindo a inserção dessa disciplina no currículo e suas contribuições para os alunos do curso, segundo os seus depoimentos.

Sousa, em capítulo baseado na sua dissertação de mestrado, apresentada na UFMA, relata a organização do curso de Pedagogia para a formação de professores para a inclusão, a partir dos professores e alunos.

O conjunto de estudos sobre formação e trabalho docente reflete a importância do tema para o processo de implementação da inclusão nas escolas públicas em que o professor tem sido um dos principais responsáveis.

Carvalho, em “Legislação específica da educação especial: suas possibilidades na inclusão escolar” e Silva, no capítulo “Tensões e desafios a partir da política de educação especial na perspectiva inclusiva” refletem sobre a legislação e diretrizes políticas tomando como marco as orientações para a educação inclusiva.

Carvalho analisando Resoluções do Conselho Nacional de Educação e o Decreto 7.611/11 indica o potencial dos dispositivos legais para uma educação para TODOS discutindo as ambiguidades e lacunas ainda existentes neles.

Silva, em trabalho baseado na sua dissertação de mestrado intitulada “Política de Formação de Professores e Inclusão Escolar” apresentada n UFMA, parte das diretrizes estabelecidas na Política Nacional de Educação Especial na Perspectiva da Educação Inclusiva, incluindo a Resolução n°04/2009 CNE/CEB e o Decreto 6.571/2008 para compreender suas repercussões no debate sobre inclusão e relacionar às matrículas de alunos público-alvo da educação especial nas classes comuns.

Leme, no seu artigo “O que a escola inclusiva deve ter? Tecendo articulações entre as políticas e as percepções dos professores do ensino médio” baseado na dissertação de mestrado intitulada “Inclusão em educação: das políticas às práticas do cotidiano escolar” apresentada na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) verifica relações entre diretrizes internacionais, planos de educação no Brasil e a cultura institucional e a prática de uma escola de ensino médio da rede estadual.

Damasceno e Pereira no capítulo “Democratização da educação – o projeto pedagógico e a organização da escola inclusiva; experiências de escolas públicas/RJ” examinam a experiência de duas escolas do município de Nova Iguaçu/RJ quanto à inclusão.

Pintor no capítulo “Projeto espaço integrado de desenvolvimento e estimulação (EIDE) na rede municipal de ensino de Niterói/ RJ-Período 2008-2009” baseado em sua tese de doutorado, narra a pesquisa realizada sobre avaliação do Projeto EIDE.

A autora discute ações referentes a alunos com deficiência intelectual e múltipla, tema pouco contemplado em pesquisas. A investigação apresenta contribuições importantes na medida em que aborda atuação intersetorial voltada para o desenvolvimento dos alunos citados e depoimentos das famílias e dos profissionais envolvidos no processo.

Chahini e Rosa nos capítulos “Políticas afirmativas para o acesso de alunos com deficiência à educação superior” e “Caminhos e desafios da educação inclusiva na UEMA”, respectivamente, discutem a inclusão na educação superior no que se refere ao acesso e permanência de alunos com deficiência.

Chahini discute a lacuna relativa às pessoas com deficiência existente nas políticas afirmativas e Rosa descreve a experiência da UEMA em inclusão com a implantação do Núcleo Interdisciplinar de Educação Especial (NIESP).

A inclusão de pessoas com deficiência na educação superior alcançou maior visibilidade nos últimos anos, no que diz respeito ao acesso e permanência dessas pessoas nesse nível de ensino e como objeto de estudo. A concentração de matrículas da educação especial no ensino fundamental com um número inexpressivo no ensino médio e na educação superior demonstra um dos problemas da área: a não continuidade da escolarização do público-alvo da educação especial. Tal fato indica a importância da realização e divulgação de estudos com essa temática.

Silva no capítulo “Luta pela inclusão educacional de pessoas com deficiência no Brasil: movimentos sociais, paradigmas e políticas públicas” focaliza a trajetória da educação especial, destacando a participação de movimentos sociais no processo.

A importância dos movimentos sociais para as conquistas obtidas na educação é reconhecida pela sociedade brasileira e se faz presente até a atualidade. Podemos encontrar uma crescente organização das próprias pessoas com deficiências com uma evolução de, como diz a autora, do campo filantrópico para o campo dos direitos humanos.

A educação de pessoas com deficiência, transtornos globais do desenvolvimento e altas habilidades/superdotação, anteriormente mais restrita a ambientes segregados, vai paulatinamente sendo incorporada aos mesmos ambientes que as demais pessoas. Assim, as diretrizes políticas para a educação especial brasileira adotam o caráter complementar ou suplementar, e não mais substitutivo.

Essas diretrizes tomam maior impulso em meados dos anos 2000, medidas são adotadas com aprovação de legislação, programas de formação de professores, disponibilização de recursos para implantação de salas de recursos, dentre outras. Diminuem consideravelmente as matrículas em escolas ou classes especiais, e a experiência de todos estudarem juntos na mesma sala de aula vai se consolidando ao longo da década.

Os temas abordados compõem o quadro atual da educação brasileira com as demandas provocadas pela perspectiva de uma educação para TODOS, inclusive os que apresentam deficiência, transtornos globais do desenvolvimento e altas habilidades/ superdotação. O momento é de avançarmos na perspectiva da educação inclusiva, desenvolvendo experiências e pesquisas que problematizem a inclusão nas suas diversas formas. Nesse contexto, a pós-graduação em educação, em particular, pode dar valiosas contribuições nas suas funções de formação e pesquisa. É esse o objetivo da obra analisada, socializar resultados de investigações, reflexões e experiências que têm como foco principal a inclusão.

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História das Mulheres / História, Histórias /2015

Apresentação

Em mãos das leitoras e dos leitores este dossiê –”História das Mulheres” –se constitui em uma resposta acadêmica, social e política contra as inúmeras formas de atualização dos discursos androcêntricos, que se regozijam no poder patriarcale que perpassam a vida, fora e dentro das universidades. Os artigos reunidos cuidadosamente para este dossiê buscam não somente dar visibilidade às práticas e aos processos de produção de sentidos que envolvem as relações de gênero e as identidades e experiências das mulheres no passado, mas também revelam propostas políticas transformadoras. Nesse sentido, eles produzem e difundem conhecimentos, orientados por perspectivas críticas, permitindo enfrentar e desconstruir as desigualdades, que produzem corpos, comportamentos, subjetividades, saberes e práticas sociais pautados na diferença entre homens e mulheres, entre os homens, entre as mulheres, e que excluem as inúmeras e –porque não dizer –infinitas possibilidades de vivenciar o corpo, a sexualidade, os desejos e os prazeres.

Abre este dossiê um artigo de minha autoria, intitulado “História das Mulheres e Estudos Feministas: um diálogo entre Rago, Rüsen e Mccullagh”, no qual se apresentam diálogos divergentes que refletem sobre a constituição do campo História das Mulheres e sua abordagem feminista à luz dos conceitos de “matriz disciplinar”, de Jorn Rüsen, e de “viés”, de Mccullagh. Pretende-se argumentar que, após a inclusão das mulheres na História, toda história de mulheres pode ser apreendida como um compromisso com o feminismo, pois as relações entre escrever uma história das mulheres e defender suas demandas não são conflitantes politicamente, mas assumem entrecruzamentos de vieses muito próximos.

Já o segundo artigo, de Simone Alves dos Santos (Centro Universitário Fundação Santo André), apresenta os resultados de uma investigação sobre práticas de assédio sexual contra mulheres em espaços públicos, cometidas no final dos anos 1970 até os dias atuais. Trata-se de uma investigação ancorada em uma abordagem feminista atenta às variáveis sociais, étnicas, políticas e de gênero.

O terceiroartigo, de autoria de Raquel Botelho (Secretaria de Educação do Distrito Federal), Benedito Santos (UCB) e Gabriel Rosa (Universidad del Salvador, Argentina), trata do discurso jurídico de responsabilização por crimes de violência contra mulheres e a efetividade da Lei nº. 11.340, conhecida como Lei Maria da Penha, em sentenças resultantes de julgamentos realizados entre janeiro de 2009 e dezembro de 2012, em um juizado de violência doméstica e familiar contra a mulher, no Tribunal de Justiça do Distrito Federal.

Marcus Reis (UERJ), no quartoartigo, analisa fontes da primeira visitação do Santo Ofício à América Portuguesa (1591-1595), que revelam perseguições aos ritos de adivinhação praticados por mulheres. De acordo com o autor, a presença feminina tanto no interesse pelos ritos de adivinhação como nas supostas práticas, revela os primeiros indícios de uma tentativa das mulheres em procurar espaços de autonomia para além da normatização vigente.

Frank Mezzomo (UNESPAR), Ivania Skura (UNESPAR) e Cristiana Pátaro (UNESPAR), no quintoartigo, criticam os estereótipos femininos que desvalorizam as mulheres na mídia. Desse modo, analisam o papel da propaganda na construção e na desconstrução de estereótipos femininos em três propagandas de 1967, publicadas em uma mídia impressa norte-paranaense; em outras duas propagandas de 2014 e de 2015, publicadas em ambiente digital; e em dois anúncios atuais, de 2014, também veiculados online, por organizações que reconhecem e questionam papéis de gênero e que visam combater práticas sexistas.

Ronyere Ferreira (UFPI) e Teresinha Queiroz (UFPI), autores do sexto artigo, discutem a participação de literatos, como Jônatas Batista, no processo de alargamento das responsabilidades sociais das mulheres no início do século XX, em Teresina (Piauí). Tais fontes permitiram aos autores fazer emergir sentidos sobre o feminismo e suas demandas naquela cidade. Apesar de o feminismo não ter se constituído em um movimento organizado na cidade de Teresina, os autores argumentam que o feminismo, ali, teve adesão tanto de homens quanto de mulheres, possibilitando uma ampla reflexão sobre a vida das mulheres.

No sétimoartigo, Raimundo Expedito dos Santos Sousa (UFMG) e Adelaine Laguardia (UFSJ) analisam como oanticolonialismo irlandês pautou-se na maximização de fronteiras de gênero, com vistas a acentuar a hombridade dos homens gaélicos, em face de sua feminização. Nesse caso, o colonialismo legitimava-se pela atribuição de gênero ao liame entre Inglaterra e Irlanda, ao inscrever o império no registro masculino e a colônia no feminino. Mediante pesquisa em fontes primárias, os autores investigam as implicações dessa contra-estratégia na representação de mulheres subversivas que desafiavam uma matriz de gênero dual, em que a masculinidade se definia em relação oposta e complementar com a feminilidade.

Já o oitavoartigo, de autoria de Marcus Vinicius Neto Silva (UFMG) e Érica Silva Espírito Santo (UFMG) confere visibilidade e importância às primeiras mulheres psicanalistas, enfocando sua vida e obra.

Encerrando o dossiê, o artigode Paulo Brito do Prado (UFF) problematiza os silêncios impostos às mulheres que atuaram no cenário urbano da antiga Vila Boa (Cidade de Goiás), nos anos 1960. Por meio da história oral, o autor confere visibilidade às versões da história local produzidaspor essas mulheres que se tornaram guardiãs das tradições e das manifestações culturais nesta cidade.

Os artigos aqui reunidos revelam olhares precisos que analisam, criticam e desnaturalizam discursos fomentadores da subalternização feminina e das tecnologias de gênero heteronormativas e racializadas.Nestes trabalhos o gênero também é tomado como categoria de análise e como discurso construído historicamente que adquire novos contornos e novas operacionalidades frente à pluralidade de discursos e práticas que caracterizam o social. Não há como negar, portanto, esse estilo múltiplo, aberto, problematizador, ousado e desafiador, que configura a História das Mulheres, sinalizando para a condição relacional da pesquisa histórica, para a dimensão constantemente aberta dos processos de subjetivação e para a presença incontornável das relações de poder que atravessam as práticas e os saberes sociais.

Boas indagações!

Goiânia, outubro de 2015.

Prof. Dr. Thiago Fernando Sant’Anna eSilva (UFG)

ORGANIZADOR

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Pensamento Social no Brasil, por Giralda Seyferth: notas de aula – BAHIA et al (T-RAA)

BAHIA, Joana; MENASCHE, Renata; ZANINI, Maria Catarina Chitolina (Org.). Pensamento Social no Brasil, por Giralda Seyferth: notas de aula. Porto Alegre: Letra&Vida, 2015. 256 p. Disponível em: http://www.antropologiaufpel.com.br/Pensamento_social_no_Brasil.pdf . Acesso em: 30 jun. 2015.  Resenha de: WOORTMANN, Ellen F. Notas de aula sobre pensamento social no Brasil: uma homenagem a Giralda Seyferth. Tessituras, Pelotas, v. 3, n. 1, p. 345-348, jan./jun. 2015.

O curso Pensamento Social no Brasil foi proferido pela Professora Giralda Seyferth2 em outubro de 2012, sob a promoção do Programa de Pós-Graduação em Antropologia da Universidade Federal de Pelotas (PPGAnt/UFPel). Tendo contado com a participação de cerca de 30 estudantes e professores, a atividade teve duração de uma semana.

De modo a propiciar a socialização de seu conteúdo, mas também como merecida homenagem à Giralda, como é por todos conhecida, o curso foi gravado, degravado e editado, para que se tornasse publicação amplamente acessível3.

Constitui estimulante fonte de pesquisa para alunos, professores e pesquisadores sobre o tema. Além disso, apresenta-se como excelente inspiração a ser seguida enquanto procedimento didático. O livre acesso ao conteúdo das aulas/texto retoma prática que possibilitou amplo acesso ao pensamento de autores que se tornariam clássicos no campo das humanidades e que, em tempos de internet, coloca-se, de certo modo, como iniciativa didaticamente inovadora.

Teoricamente, resulta de uma proposta de diálogo entre a Antropologia e a História ou, em outros termos, uma proposta de análise da sociedade brasileira à luz de um contexto histórico dinâmico.

Especificamente, as aulas e o texto foram elaborados tomando-se como eixo central o conteúdo de obras de um grupo de autores clássicos significativos (Joaquim Nabuco, Gilberto Freyre, Nina Rodrigues, Emilio Willems, Florestan Fernandes, Oracy Nogueira, entre outros), que atuaram no Brasil entre o final do século XIX e a segunda metade do século XX. A análise desses autores é construída a partir do recorte do conteúdo e centrada em algumas categorias seminais, tais como a de sociedade brasileira – mais do que a nação ou o estado, no sentido de nation building–, escravidão, raça e racismo, imigração, “brasilidade”, assimilação.

A rigor, muitas dessas categorias de análise são forjadas e ganham força no contexto de períodos-chave e fatos históricos marcantes, como, por exemplo, a abolição da escravatura, a imigração japonesa, a ditadura Vargas ou a II Guerra Mundial. Como expressão de crises reveladoras, a análise dessas categorias expõe, desde um lado, as raízes teóricas e etnográficas, via de regra europeias ou americanas, dos autores e, de outro, a diversidade de seus lugares de fala. Desse modo, por exemplo, as ideias de Joaquim Nabuco são, sem dúvida, expressão do descendente de uma linhagem de grandes políticos e diplomatas nordestinos, assim como as de Gilberto Freyre, também filho de tradicional família nordestina.

O ideário desses autores e de outros pertencentes à elite contrasta com outros analisados em aula, dentre os quais se destacam Florestan Fernandes, originário de camada popular paulistana, depois professor da USP, com posterior expressiva ascensão acadêmica e sócio-política, ou mesmo o professor imigrante Emilio Willems, fugido da crise do pós-I Guerra Mundial da Alemanha, aluno e seguidor das ideias de Max Weber, Simmel e Dilthey. Ainda, Willems contrasta dos demais – “de dentro”, brasileiros – por apresentar, em suas obras, um lugar de fala “de fora”.

Concluindo, deve-se destacar o fato de que, paralelamente a uma análise rigorosa e aprofundada dos vários autores, no decorrer das aulas/texto Giralda estabelece, ainda, diálogo com outros autores situados em contextos análogos, procedimento que torna estimulante a dinâmica de sua exposição/leitura.

Notas

2 Giralda Seyferth é graduada em História pela Universidade Federal de Santa Catarina (1965). Após período de trabalho de pesquisa em Arqueologia, cursou o mestrado em Antropologia Social pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (1973), tendo sido orientada pelo Professor Luiz de Castro Faria na dissertação A colonização alemã no Vale do Itajaí: um estudo de desenvolvimento econômico (SEYFERTH, 1974). Em 1976, doutorou-se em Ciências Humanas (Antropologia Social) pela Universidade de São Paulo, tendo sido orientada pela Professora Ruth Cardoso na tese Nacionalismo e identidade étnica: a ideologia germanista e o grupo étnico teuto-brasileiro numa comunidade do Vale do Itajaí (SEYFERTH, 1982). Professora associada do Departamento de Antropologia do Museu Nacional, Universidade Federal do Rio de Janeiro, Giralda Seyferth possui experiência docente, de orientação e de pesquisa na área de Antropologia, atuando principalmente nos temas de colonização, imigração, nacionalismo e racismo. Entre outros trabalhos, é autora dos livros acima citados, da obra Imigração e cultura no Brasil (SEYFERTH, 1990) e de inúmeros artigos.

3 A obra Pensamento Social no Brasil, por Giralda Seyferth: notas de aula (2015) foi organizada pelas professoras Renata Menasche, Joana Bahia e Maria Catarina Chitolina Zanini, respectivamente pertencentes aos Programas de Pós-Graduação em Antropologia da Universidade Federal de Pelotas (PPGAnt/UFPel), História Social da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (PPGHS/UERJ) e Ciências Sociais da Universidade Federal de Santa Maria (PPCS/UFSM). O acesso gratuito ao livro, na íntegra, está sendo disponibilizado através dos sites desses Programas.

Referências

BAHIA, Joana; MENASCHE, Renata; ZANINI, Maria Catarina Chitolina (Org.). Pensamento Social no Brasil, por Giralda Seyferth: notas de aula. Porto Alegre: Letra&Vida, 2015. Disponível em:   http://www.antropologiaufpel.com.br/Pensamento_social_no_Brasil.pdf . Acesso em: 30 jun. 2015.

SEYFERTH, Giralda. A colonização alemã no Vale do Itajaí: um estudo de desenvolvimento econômico. Porto Alegre: Ed. Movimento, 1974.

______. Nacionalismo e identidade étnica: a ideologia germanista e o grupo étnico teuto-brasileiro numa comunidade do Vale do Itajaí. Florianópolis: FCC, 1982.

______. Imigração e cultura no Brasil. Brasília: EdUnB, 1990.

Ellen F. Woortmann – Doutora em Antropologia pela Universidade de Brasília, coordenadora do Grupo de Pesquisa do CNPq “Memória e Patrimônio Alimentar: tradição e modernidade”. E-mail: ellen@unb.br .

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A família, a rua e os afetos: uma etnografia da construção de vínculos entre homens e mulheres em situação de rua – LEMÕES (T-RAA)

LEMÕES, Tiago. A família, a rua e os afetos: uma etnografia da construção de vínculos entre homens e mulheres em situação de rua. São Paulo: Novas Edições Acadêmicas, 2013. 257 p.  Resenha de: CLAUDINO, Livio. Além do utilitarismo: a rua como espaço de continuidades e afetividades. Tessituras, Pelotas, v.3, n.1, p.338-344, jan./jun. 2015.

Uma etnografia da construção de vínculos entre homens e mulheres em situação de rua, nos é apresentada pelo antropólogo Tiago Lemões como um convite à desconstrução de estereótipos e categorias sociais fixas. A partir de um mergulho denso e uma análise apurada das dinâmicas relacionais entre sujeitos em situação de rua e os diferentes personagens que com eles interagem no espaço público da região central de Pelotas (RS), o autor potencializa a derrocada de certos olhares preconcebidos direcionados às pessoas em situação de rua e que não permitem perceber a multiplicidade das formas de construção de vínculos e a complexidade das relações tecidas por linhas de afetos, reciprocidades e subjetividades que envolvem a vida nas ruas. A sutileza e perspicácia etnográfica atenta aos detalhes e ambiguidades das relações entre os grupos estudados é o que impulsiona a análise do autor rumo a uma postura radical: para além de meros excluídos da sociedade, desvinculados e desfiliados de redes relacionais fundamentais, os sujeitos em situação de rua são compreendidos por Lemões justamente a partir da inventividade e agência que empreendem nos processos de manutenção, constituição e continuidade de tecidos relacionais baseados em afetos, reciprocidades e desigualdades. Por razões como estas que o estudo foi indicado, em 2013, ao prêmio brasileiro de obras científicas da Associação Nacional de Pós-Graduação e Pesquisa em Ciências Sociais.

No primeiro capítulo, delineia-se a problemática e o recorte metodológico adotado, definindo-se os principais conceitos e noções analíticas mobilizadas e retomadas ao longo das experiências etnográficas descritas na obra. Ainda aqui, o autor expõe as principais definições construídas em torno da noção de exclusão social, esboçando diferenças e aproximações entre o contexto social brasileiro e francês – sobretudo porque é na França que tal noção é gestada e reelaborada por cientistas sociais. A exposição do debate em torno da exclusão dá lugar, pouco a pouco, a outra via analítica, a qual o autor defende ao longo de toda a obra: a vida nas ruas se sustenta, sobretudo, a partir das redes relacionais que vinculam os sujeitos uns aos outros e reiteram a dimensão política das pessoas que fazem do espaço público um lugar de existência possível. É a partir de tal inferência que Lemões apreende a itinerância e a circulação “como expressões de resistência e de agência política frente às práticas normalizadoras de governo” (2013, p. 23), aproximando-se de uma abordagem assentada na teoria do dom de Marcel Mauss (1974), retomada por Alain Caillé (2002) – o que marca definitivamente a análise etnográfica. Certamente, esse encaminhamento foi decisivo para a ruptura que Lemões realizou com as abordagens convencionais utilizadas para estudar essas populações, já que o possibilitou perceber continuidades de relações e redes de reciprocidade onde geralmente se vêem rupturas e individualidade, sobretudo em abordagens estimuladas pela noção de exclusão.

Doravante, Lemões problematiza as estratégias formais de pesquisa: o porte de gravador, questionários e perguntas diretas não lhes foram úteis. Para acessar retalhos biográficos e adentrar à dinâmica de relações dos sujeitos de pesquisa, o antropólogo precisou partilhar “um pouco de si”, dividindo seus problemas, anseios, mas também participando dos circuitos de trocas e reciprocidades de objetos, comida, bebidas e outros bens. Assim, de fato – e somente assim, valendo-se de um circuito de relações constituídas mais intensamente com alguns interlocutores – o autor assegurou o envolvimento e a constituição de relações que tornaram o exercício etnográfico possível. Além da observação realizada em alguns pontos “estratégicos”, o autor acompanhou os movimentos de seus interlocutores pelos locais de transitoriedade e permanências na cidade, mergulhando nos movimentos de relativa fixidez e de circulação animada pelas relações firmadas com distintos grupos no espaço público.

O segundo capítulo é dedicado a descrever os vínculos mantidos, fraturados e rompidos entre as pessoas em situação de rua e seus familiares. A partir da leitura de outras etnografias e de fragmentos biográficos de seus interlocutores, Lemões evidencia que o drama familiar está presente nas narrativas: tanto as continuidades, fraturas e rupturas revelam a permanência temporal, espacial e afetiva das relações familiares. Os intensos fluxos das crianças das vilas populares entre o “bairro e a rua”, nas casas de parentes ou nas instituições de acolhimento, serviram para o autor caracterizar e interpretar a “circulação” como parte da vida dos interlocutores muito antes do efetivo “ingresso na rua”. Ao invés de entendê-la como simplesmente o resultado de famílias desestruturadas que produzem sujeitos de rua, como é recorrentemente reiterado, o autor preocupa-se em compreender e demonstrar que a circulação faz parte das dinâmicas e lógicas que tornam o nomandismo constitutivo de um “saber viver”, um aprender a “virar-se”.

É nesse momento que o autor percebe que a noção de viração (GREGORI, 2000) é muito importante para compreender a constituição de vínculos com diferentes personagens nos espaços públicos, pois, “virar-se” é empreender “um processo comunicativo com uma ampla rede de valores e significados, os quais servem como mediação na interação que travam com alguns setores da sociedade” (LEMÕES, 2013, p. 44). Considerando que os sujeitos em situação de rua sofrem cotidianamente inúmeros processos de violência física e simbólica, com forte naturalização de representações negativas, é por meio dessas estratégias comunicativas que as redes de relações são constituídas, em diferentes formas inventivas de discursos e ações performáticas.

Nessa perspectiva, o antropólogo argumenta que algumas formas específicas de ver e conceber os espaços públicos são funcionais à formulação dos discursos estigmatizantes que categorizam a rua como um “não-lugar” ou espaço da vagabundagem, do crime e da mendicância. É no contexto dessa trama social que a circulação e a viração são utilizadas para a conformação de territórios de sobrevivência, tecidos por meio de relações de afeto e reciprocidade, envolvendo inúmeras negociações para o uso dos espaços e dos recursos disponíveis na rua. Todos esses processos e relações abrangem diversos atores e instituições, como guardas municipais, donos de veículos, transeuntes, doadores de alimentos vinculados a instituições religiosas e empresários locais2. Ao fazer uma descrição de como ocorrem essas relações em torno da busca por recursos, que funcionam com lógicas singulares dependendo dos atores, Lemões revela uma ampla rede de reciprocidade e laços sociais que se formam, superando as relações impessoais e interesses econômicos que comumente se lhes atribui.

Seja na informalidade da prestação de serviços, como a de guardar carros, ajudar nas montagens de barracas de comerciantes, ou no relacionamento com as instituições doadoras de alimentos e roupas, o etnógrafo identifica que há a constituição de relações que ultrapassam a simples troca de valores monetários. O compartilhamento de pontos e dos recursos oriundos de guardar carros entre pares de rua; a doação de comida, roupas ou presentes de final de ano por parte de alguns empresários; agentes doadores que além de doar comida estabelecem uma relação de reconhecimento e afetividade pessoalizada com os receptores da ajuda, demonstram a constituição de laços sociais que se sobrepõem às simples prestações de serviços ou ações de caridade. Dessa forma,

o vínculo é tecido a partir da dívida, ou seja, não é o imediatismo que baliza a reciprocidade, mas a continuidade da circulação da dádiva entre os partícipes, delineando uma perspectiva do dom que permite pensar, numa só vez, o estabelecimento do laço e da hierarquia existente nestes vínculos (LEMÕES, 2013, p. 170).

Porém, como explica o autor, as relações assimétricas de poder que decorrem dessas interações implicam reconhecer que quando se fala em dádiva, nesses casos, há unilateralidade que gera superioridade de quem dá sobre quem recebe, apesar do vínculo social instituído.

Tendo demonstrado os vínculos sociofamiliares e aqueles constituídos nos espaços públicos, principalmente em torno das interações travadas com diferentes grupos caritativos, o último capítulo é dedicado a apresentar a constituição de vínculos afetivos entre os pares em situação de rua, atentando para a dinâmica relacional interna e externa aos grupos de rua. Partindo de outras etnografias que problematizam as dinâmicas de agrupamentos e formações de parentescos em situação de rua, Lemões identifica os códigos de ética, as regras de comportamento e algumas relações de ajuda que são fundamentais para a vida nas ruas. O autor se interessa, sobretudo, pelas nomeações familiares: “pais”, “mães”, “irmãos”, “tios” e “padrinhos” de rua, termos esses que indicam a intensidade e o nível de aprofundamento dos vínculos firmados, permeados pelo compartilhamento de recursos materiais, afetivos e experiências, levando-o a ponderar que a compreensão do fenômeno “da população em situação de rua passa pelo entendimento dos valores atrelados à família” (2013, p. 191).

Entre as regras de comportamento, o autor destaca a “moralidade da partilha” como estratégia fundamental para a circulação e distribuição de bens entre os pares de rua, servindo para a “construção positiva da pessoa” que partilha. Nesse regramento, o roubo entre os iguais é como uma expressão máxima dessa moral, pois assegura a igualdade, reprimindo as manifestações de ostentação e forçando a partilha, não sendo motivo para a ruptura das relações. Por outro lado, a “caguetagem” (delação) é a conduta que provoca maior desvalorização da pessoa, que passa a ser vista como traidora do grupo, sendo motivo suficiente para o rompimento dos laços afetivos, podendo levar à exclusão do “cagueta” do grupo, como forma de proteção coletiva. São esses códigos que evidenciam ao etnógrafo os regramentos que orientam sociabilidades em torno da ajuda e proteção, invalidando as argumentações corriqueiras de que “na rua é cada um por si”.

Por fim, é a partir do mergulho etnográfico atento às relações familiares e suas especificidades, às estratégias de constituição e manutenção de vínculos com diferentes personagens e às normas e moralidades internas aos grupos, que Lemões retoma suas argumentações ao final da obra, quais sejam: (i) apesar do aparente rompimento, predominam as dinâmicas de continuidade das relações familiares; (ii) há a constituição de mecanismos relacionais inter-pares e com outros atores sociais que formam um importante itinerário que assegura a provisão material e afetiva, apesar das forças repressivas que tentam apagá-los dos espaços públicos e os estigmatizam; (iii) e, que existem códigos de sociabilidades assentados na ajuda e proteção, no compartilhamento de bens e nos vínculos afetivos entre pares. Essa obra instiga o leitor a repensar sobre os valores negativos que se atribui aos homens e mulheres em situação de rua como solitários, isolados e egoístas, convidando a “limpar a lente da evitação e dos pensamentos redutores”, a fim de se reconhecer e partilhar outros territórios existenciais possíveis.

Nota 

2 As experiências apresentadas ocorrem entre guardadores de carros e os donos dos veículos e três instituições doadoras de alimentos (O rango das sete; A comunidade Fonte Nova e a Igreja Mover de Deus).

Referências

CAILLÉ, Alain. Antropologia do dom: o terceiro paradigma. Petrópolis: Vozes, 2002.

GREGORI, Maria Filomena. Viração: experiências de meninos nas ruas. São Paulo: Companhia das Letras, 2000.

LEMÕES, Tiago. A família, a rua e os afetos: uma etnografia da construção de vínculos entre homens e mulheres em situação de rua. São Paulo: Novas Edições Acadêmicas, 2013.

MAUSS, Marcel. Ensaio sobre a dádiva: forma e razão da troca nas sociedades arcaicas. Sociologia e Antropologia. São Paulo: Edusp, 1974. v. 2.

Livio Sergio Dias Claudino – Doutorando em Desenvolvimento Rural (UFRGS) e mestre em Agriculturas Amazônicas (UFPA). Possui interesse na área de Antropologia Econômica e tem realizado incursões etnográficas sobre as relações entre imagens e discursos no processo de formação de instituições sociais no setor da produção agropecuária. E-mail: livioclaudino@hotmail.com.

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O professor e a educação inclusiva: formação, práticas e lugares – MIRANDA; GALVÃO FILHO (REi)

MIRANDA, Theresinha Guimarães; GALVÃO FILHO, Teófilo Alves (Orgs.). O professor e a educação inclusiva: formação, práticas e lugares. Salvador: EDUFBA, Salvador, 2012. Resenha de: BORDAS, Miguel Asngel Garcia: Revista Entreideias, Salvador, v. 4, n. 1, p. 221-223, jan./jun. 2015.

A presente coletânea tem como questão central problematizar os sentidos, significados e intencionalidades que vêm se materializando na relação entre o professor e a relação inclusiva, enfocando três aspectos dessa complexa realidade: a formação do professor, que hoje supõe transcender antigas e superadas seguranças e paradigmas; a sua prática, que deve possibilitar a interação crítica e criativa entre pessoas singulares, cada vez mais presentes nas salas de aula, e os lugares que, com frequência nos dias de hoje, rompem os muros e paredes da escola tradicional, para abarcarem novos e mais profícuos espaços e tecnologias para aprendizagem, visando a construção de uma sociedade e escola inclusivas.

O conjunto dos artigos desta obra contempla múltiplas questões que entrecruzam o campo da educação inclusiva, tendo como referência o professor, em diálogo polifônico de saberes. O trabalhos apresentados reúnem ideias, resultados de pesquisas e relatos de experiências, que suscitam questionamentos e posicionamentos distintos em relação aos temas abordados, possibilitando o aprofundamento do debate sobre ações educacionais, voltadas para uma educação escolar de qualidade, que possa promover formas de inclusão.

A questão proposta é analisada sob a ótica de diversas experiências construídas durante o desempenho da trajetória profissional de seus autores. Contudo, o leitor poderá observar que os autores mantiveram uma importante relação pedagógica e política entre o social e o educacional, na busca de aprofundar as reflexões referentes a educação inclusiva, principalmente em relação a formação docente, suas práticas e lugares de atuação, para uma educação especial na perspectiva do novo paradigma inclusivo.

Os artigos apresentados nesta coletânea estão agrupados em três blocos, de acordo com os tópicos discutidos no evento. No primeiro bloco estão os que tratam da Formação Docente e dele constam, os trabalhos relativos a : resultados de pesquisas sobre formação docente ( Jesus e Effgen, Martins e Pimentel); princípios teóricos e fundamentos para a formação docente (Crochík, Díaz e Costa) e caminhos percorridos por grupos de pesquisa na formação profissional e produção do conhecimento ( Silva e Miranda ).

O segundo bloco aborda questões relativas às práticas pedagógicas para a educação inclusiva, suas possibilidades e tensões.

Ele é composto de nove artigos, dentre eles cinco analisam o uso da Tecnologia Assistiva (TA) como recurso para favorecer a o desenvolvimento da pessoa com deficiência. Oliveira e colaboradores, Passerino discutem o uso da comunicação alternativa. Silva descreve a áudio descrição (AD), criada com objetivo de tradução intersemiótica criada com objetivo de tornar materiais como filmes, peças de teatro, espetáculos de dança, programas de TV em diferentes realidades é analisada por Galvão Filho, Miranda e por Castro e colaboradores. Os demais textos deste bloco referem-se a pesquisas sobre a prática de inclusão: o uso de jogos com crianças hospitalizadas (Barros e colaboradores); o ensino da ortografia para crianças cegas ( Martinez); a comunicação e o aluno com surdo cegueira ( Galvão ) e práticas municipais de inclusão ( Oliveira).

O Terceiro bloco denominado Lugares, refere-se aos espaços em que ocorrem as práticas pedagógicas, destinadas às crianças e aos jovens com deficiência. Tradicionalmente, essas pessoas eram segregadas em instituições especializadas e escolas especiais ou ficavam isoladas no seio familiar e sua escolaridade limitava-se as séries iniciais do ensino fundamental, pois a sociedade não lhes garantia condições para progressão escolar e inclusão social. Com o avanço das ciências e a promulgação de dispositivos legais, é assegurada a educação da pessoa com deficiência, que vem alcançando níveis elevados de escolaridade, atingindo a universidade, alcançando o mercado de trabalho. Nessa importante perspectiva estão os artigos de Anjos, Barbosa Santos, Carneiro Santos; e Souza e Santos que pesquisam a inclusão no ensino superior, a partir da realidade das Universidades que foram estudadas. Pereira, Passerino e Del Masso discutem a relação da pessoa com deficiência e o trabalho.

Ainda nessa reflexão sobre os lugares da educação inclusiva, Mendes e Malheiro questionam o atendimento educacional especializado, proposto na atual política educacional para ser realizada em salas de recursos multifuncionais, como modelo único de apoio a inclusão escolar do aluno com deficiência, em contraponto destaca- -se o texto intitulado O letramento de surdos em escolas especiais em Salvador, de autoria de Teixeira e Marinho. Esse ponto escola regular X escola especial é polêmico e não há consenso e, desta forma temos o entendimento de que estes textos, assim como o conjunto de todos os trabalhos aqui apresentados poderão servir, sem sombra de dúvida, para ampliar as reflexões de forma crítica com fecundidade e profícua fertilidade.

Miguel Asngel Garcia Bordas – Universidade Federal da Bahia – Faculdade de Educação. E-mail: miguel@ufba.br

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A lógica de diagramas de Charles Sanders Peirce: implicações em ciência cognitiva, lógica e semiótica – QUEIROZ; MORAES (C-RF)

QUEIROZ, João; MORAES, Lafayette de (Orgs.). A lógica de diagramas de Charles Sanders Peirce: implicações em ciência cognitiva, lógica e semiótica. Juiz de Fora: Editora UFJF, 2013, 224 p. Resenha de: NÖTH, Winfried; CESTARI, Guilherme Henrique de Oliveira. Cognitio – Revista de Filosofia, São Paulo, v. 16, n. 1, p. 185-196, jan./jun. 2015.

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Charles S. Peirce: Claves para una ética pragmaticista – BOERO (C-RF)

BOERO, Hedy. Charles S. Peirce: Claves para una ética pragmaticista. Pamplona: Eunsa, 2014, 316 p. Cognitio – Revista de Filosofia, São Paulo, v. 16, n. 1, p. 179-184, jan./jun. 2015.

Charles S. Peirce (1839-1914) combined his activity as a scientist with a deep interest in logic and philosophy. Penetrating questions about knowledge and human action were always present in his thought. As Hedy Boero shows in this book, he was particularly concerned with making the nature of his scientific activity more clear and transparent. Peirce was always interested in explaining the mechanisms that lead human beings to produce new knowledge. In 1892, he wrote that one of the most interesting questions is how things grow, not only in each division of science but also in the development of art (MS 1277). That question refers not only to the true nature of knowledge, but also to the ultimate purpose of scientific endeavor, which in the end takes on ethical overtones, since Peirce’s answer to that question is precisely a participation in creative activity: the cooperation of human beings in the manifestation and growth of reason as such.

That end will, for Peirce, become the ideal for the conduct of all people, which shows that ethics was not something far from his thoughts. On the contrary, ethical considerations, understood in a broad sense as the pursuit of the good life—that is, the approach to the summum bonum—formed a part of Peirce’s reflections on an overall vision for the growth of human beings, and for discovering and explaining the universe. For Peirce, human experience situates itself within a broader perspective of reasonableness.

While ethics has not aroused much interest among Peirce scholars until now, it is, as Hedy Boero shows, more than just a side issue in Peirce’s thought. His reflections on that science “extended throughout practically his entire life, from the philosophical exercises of a young student at Harvard, up to the solid arguments of a mature man who toiled in the immense task of presenting to the world the central ideas of his vast philosophical system” (p. 12). In this book, with the help of the author, who guides us with great skill, we accompany Peirce through the main stages in the development of the ethical issues he studied.

The book is organized into four chapters, which, thanks to a chronological, comprehensive approach—including a judicious selection and analysis of texts— guide us in experiencing firsthand Peirce’s doubts and advances in ethical reflection.

Through a detailed analysis of the sources, moral issues are carefully examined, together with the difficulties that Peirce faced and the findings that allowed him to provide solutions to certain problems. Our idea of a Peircean ethics advances step by step, and we come to see how it came to be. Boero shows how, in Peirce, ethics is not something over and done with, completed and fossilized. Rather, it is a living and growing process, something which, for Peirce, must characterize any science.

In Boero’s first chapter, which contains texts dated between 1857 and 1892, two initial, basic issues are considered: what do we mean when we speak of ethics and morality, and when did Peirce’s interest in ethical issues arise? In this regard, the author presents biographical and textual evidence that allows her to situate the beginning of Peirce’s work in ethics in the years 1882-1883. In particular, the entries on ethics and morality that Peirce prepared for the Century Dictionary are especially relevant.

The second chapter, which covers the period between 1892 and 1898, deals with the first moral issue that, for Peirce, deserved careful development: the relationship that may exist between ethics and scientific research. As a scientist who seeks to clarify the nature of his task, Peirce tries to answer the question of whether there is a morality that is intrinsic to scientific activity and, if it exists, what it is.

Another question is whether morality can influence science and whether science can have any influence on morality. In this chapter the author analyzes a littleknown text of Peirce that contains interesting reflections: the review of the book by Arabella Buckley, Moral Teachings of Science (CN 1.155-157; W 8.345-348, 1892); other texts examined are the manuscript “Lessons from the History of Science” (CP 1.43-125, c.1896) and the first of the Cambridge Lectures, “Philosophy and the Conduct of Life” (MS 435-437; CP 1.616-677, 1898).

In the third chapter, which focuses on the years 1901 and 1902—especially productive for Peirce—the author analyzes those texts that began to lay the foundations for an ethical doctrine that Peirce would later—beginning in 1903— develop with much more clarity and strength than in his earlier works. It is during these years that Peirce recognized ethics to be a philosophical or theoretical science and distinguished it from a practical study or art. Selected texts in this chapter include “On the Logic of Drawing History from Ancient Documents, Especially from Testimonies” (CP 7.164-255; EP 2.75-114, 1901), the review of the book of Sidney Mezes, Ethics: Descriptive and Explanatory (CN 3.50-53, 1901), and three texts from 1902 belonging to a book that Peirce had planned, Minute Logic: “On Science and Natural Classes” (MS 427; EP 2.115-132; CP 1.203-283, 1902), “Why Study Logic” (MS 428; CP 2.119-202, 1902) and “Ethics” (MS 432-434; CP 1.575-584, 1902).

The fourth chapter, the longest one, covers Peirce’s writings from 1903 until 1911, that is, the period of maturity of his thought which Max Fisch called “Arisbe,” in reference to the name of the house in Milford where Peirce and his wife lived during those years. This period of Peirce’s life was philosophically the most productive, although it was marked by poverty and disease. During those years, faithful to his habit of correcting, rewriting and revising his thought again and again, Peirce constantly returns to subjects previously treated, introducing twists and shedding new light on them. At this final stage, Peirce reached intellectual maturity, fully developed his theory of signs and produced many of his theories about metaphysics. The reformulation of pragmatism occupied a central place during those years, since Peirce wanted to carefully distinguish his own doctrines from other versions, such as the theories of William James and F.C.S. Schiller.

Peirce changed the name of “pragmatism” to “pragmaticism,” and it can be said that the development of his ethical thought was not unrelated to the task of redefining pragmatism itself. Quite the contrary: “ethics cannot be understood any more without its relation to pragmaticism, and pragmaticism necessarily requires ethics as essential for its testing or demonstration” (p. 19). In those final years ethics would be definitively established as a normative science, and the concepts of self-control and final causality, which provide a new understanding of the notions of end and purpose, will appear as essential. The last section of the book attempts to lay out in a more systematic way the keys to a pragmaticist ethics.

The writings selected in this last chapter are three of the Harvard Lectures on Pragmatism of 1903 (CP 5.14-40, 5.93-119, 5.120-150, EP 2.133-144, 2.179-195, 2.196-207), one of the Lowell Lectures, “What Makes a Sound Reasoning” (CP 1.591-615, EP 2.242-257, 1903), and the texts “What Pragmatism Is” (CP 5.411-437, EP 2.331-345, 1905), “Issues of Pragmaticism” (CP 5.438-463, EP 2.346-359, 1905), “The Basis of Pragmaticism in the Normative Sciences” (EP 2.371-397, 1906), and “A Sketch of Logical Critics” (EP 2.451-462, 1911).

As this book demonstrates quite rightly, the true nature of pragmatism can’t be understood without the doctrine of the normative sciences, particularly of ethics, while at the same time ethics is enriched in the effort to define pragmatism, thereby constituting a feedback loop that greatly enriches both sides.

On the one hand, in his last years pragmatism became for Peirce a maxim according to which the only possible meaning of something is found in those dispositions that it originates, in what we are deliberately prepared to do. As Peirce himself stated in a manuscript dating from c.1907, pragmatism is built on the principle that the beliefs of human beings are the propositions which they will find satisfactory to act upon (MS 296). The pragmatic maxim thus becomes a maxim of behavior. That something has meaning entails being prepared to deliberately adopt a proposition as a guide for action. In 1903, speaking of the normative sciences, Peirce says that he is on the trail of the secret of pragmatism (CP 5.130), because to clarify the pragmatic maxim we must find out what is logically good, and to find out what is logically good we must have a clear understanding of the nature of the ultimate end, of that end, admirable in itself, according to which we should think and act. What we think is interpreted in terms of what we are prepared to do, and what we are prepared to do in terms of what we are prepared to admire.

That secret of pragmatism, as Hedy Boero rightly points out, is nothing other than self-control, which consists in acting according to an admirable ideal. Rational self-control is closely linked to the idea of end, of an ideal, because, as Peirce claims, when we say that the meaning of something is how we would act, it is plain that this “how” cannot refer to the description of the mechanical motions that it might cause, but rather to a description of the action as having this or that aim (CP 5.135); it does not refer to individual reactions but to how those reactions contribute to the development and pursuit of a purpose. And so, to properly understand pragmatism, we must ask what the ultimate aim is, that is, the end that can be pursued over an indefinitely prolonged course of action. In short, to be rational and to act according to pragmatism, that is, to consider the consequences so as to clarify the meaning of things, means taking into account deliberate conduct; it means being subject to selfcontrol, and acting in accordance with a purpose that an ultimate end illuminates.

Now, focusing on the other direction of that feedback existing between ethics and pragmatism, the author explains that ethical notions are also enriched by the mature Peirce’s vision of pragmatism. In particular, the notion of final cause enables a much more solid and harmonious link to develop between the normative sciences; the notion of consciousness becomes the notion of criticism, and the doctrine of categories allows for each one of the normative sciences to be defined more precisely.

Hedy Boero shows that there is an ethics that can quite properly be called, by its association with key aspects of pragmaticism, “pragmaticist ethics.” The notions of normative science, self-control and end are the three foundations on which this ethics is to be based. Despite initial doubts, Peirce clearly established ethics as a normative science, one that concerns self-control in the field of action, and which stands as the science that studies the conformity of deliberate action with the end.

It corresponds to aesthetics, the first normative science and foundation of logic and ethics, to tell us what that ultimate end is, that is, what is admirable in itself.

The notion of self-control involves the notion of end, insofar as it presupposes the capacity to review our own actions and to make them approach the ideal.

Therefore, Peircean ethics is built on reason, which, having a critical and teleological character, allows us to carry out deliberate action. Reason helps us to reflect on our actions and guide our future, thinking first about the nature of the ideal, considering the conceivable consequences, and helping to review our actions and to judge and form a resolution for the future. As Boero has noted, all self-controlled action involves, first, being ordered to an end, and second, being clearly forwardlooking, since it allows a critical analysis of one’s own conduct, a modification of planned acts and the acquisition of certain habits in light of the consequences for the future action. All converges in the notion of ultimate end, of the ideal that is, for Peirce, none other than making the world more and more reasonable, embodying reasonableness in concrete manifestations—in concrete actions, in the case of ethics.

Conformity to the ideal of Reasonableness thus becomes one of the most important elements of the Peircean notion of ethics.

Boero’s book is an essential contribution to Peirce studies. She deals with a subject that until now might have seemed minor, but, as is shown in her book, it turns out to be fundamental to the correct understanding of pragmatism. She powerfully illuminates the mutual enrichment of ethics and pragmatism. While in the end one might miss a more systematic approach—the analysis of texts can sometimes deprive us of a more global vision—the chronological approach is always wise when discussing any aspect of Peirce’s thought. Further, Boero’s comprehensive approach means that, at the end of the book, Peirce’s ethics appear as a complete system that sustains itself, as well as being related to other fundamental aspects of his thought.

The author proves that ethics has been present in Peirce’s writings throughout his entire life, sometimes more deeply and sometimes less. It becomes much more important starting at the turn of the century, when Peirce undergoes an evolution that brings aesthetics and ethics decisively within his purview. Peirce’s ethics, far from being a moral doctrine, is a theoretical science, which does not speak of specific practical actions but of the general conditions under which phenomena must relate to ends. According to Peirce’s pragmaticism, the normative sciences deal with conceivable action, as opposed to practical action. We must not expect from the normative sciences any practical advice, specific indications or discoveries of new techniques or forms of action. These sciences are not related to real and specific occurrences, with particular phenomena, nor are they limited to a good/bad dualism that would be appropriate for a practical science.

What makes ethics a normative science is that it studies what should be, that is, the conditions to be fulfilled in order that actions should conform to the ultimate end. The normative sciences are theoretical and “positive”: they are the most purely theoretical sciences amongst all purely theoretical sciences (CP 1.281, c.1902). Only by affirming positive and categorical truth can they demonstrate what they call good. Once again, Peirce does not provide recipes or simple answers, but he makes us wonder and reflect on deep questions, in this case about the elements present in all human action, and about the ultimate goal to which our lives should be directed.

As a result, this book will be of interest to any Peircean scholar, but also to all those interested in the big questions about human life and the deepest questions of ethics.

Sara Barrena – Grupo de Estudios Peirceanos Universidad de Navarra – España: E-mail: sbarrena@unav.es

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Salud, interculturalidad y derechos: claves para la reconstrucción del Sumak Kawsay-Buen Vivir – FERNÁNDEZ JUÁREZ (HCS-M)

FERNÁNDEZ JUÁREZ, Gerardo (Ed.). Salud, interculturalidad y derechos: claves para la reconstrucción del Sumak Kawsay-Buen Vivir. Quito: Ministerio de Salud Pública. 2010. 238p. Resenha de: LOZA, Carmen Beatriz. Las medicinas tradicionales en la encrucijada intercultural. História Ciência Saúde – Manguinhos, Rio de Janeiro, v. 22 n.1 Rio de Janeiro Jan./Mar. 2015.

Esta obra colectiva, compilada por el antropólogo español Gerardo Fernández Juárez (Universidad Castilla-La Mancha), es fruto de un seminario-taller interdisciplinario, celebrado en Quito del 10 al 13 de noviembre del 2009. Agrupa diferentes maneras de entender la interculturalidad y la salud materna desde la antropología y la biome-dicina. La reseña de esta obra tiene un doble propósito. Por un lado, presentar el contenido en sus grandes líneas, resaltando el discurso oficial de la interculturalidad en salud en la subregión andina con énfasis en el Ecuador, y por el otro, evidenciar divergencias de criterios acerca de su implementación.

La intención de los autores es presentar los avances y desafíos en la incorporación de los enfoques de derechos humanos, interculturalidad y género en las políticas y modelos de atención en salud materna. A esa exigencia se suma otra, que de alguna manera resume y potencia las anteriores: analizar las cuestiones pendientes y profundizar la discusión crítica entre ministros, operadores y decidores de las políticas acerca del tema de la Declaración de Quito (13 de noviembre de 2009). Se pretende, con los Objetivos de Desarrollo del Milenio, reducir las tres cuartas partes de la mortalidad materna (considerando el período 1999-2015). El hilo rojo que recorre los 35 textos es la implementación de la interculturalidad y el uso político desde el Estado en el ámbito de la salud. En cada texto se puntualiza y redefine la interculturalidad de manera recurrente, debido al carácter escurridizo y opaco de este concepto. La primera parte se centra en los derechos humanos, salud intercultural y en “el Buen Vivir” (un concepto filosófico-andino, retomado por los gobiernos de Rafael Correa y Evo Morales, como principio rector de sus acciones políticas para el bienestar de la población). La segunda parte examina la interculturalidad, género y salud, mientras la tercera parte refiere a la pertinencia cultural de los servicios de salud reproductiva: normas, regulaciones y gestión de servicios. Todo ese conjunto temático tiene como destinatario potencial a los decidores de las políticas públicas en salud en la subregión andina, pues muchas de las narraciones provienen de los responsables de programas en actual aplicación. Además algunos de los autores han dirigido la sistematización de las siete mesas que generaron propuestas y recomendaciones específicas acerca de la normativa, formación de recursos, gestión de servicios entre otros. La obra puede ser útil para los investigadores en ciencias sociales y politólogos interesados en las formas que asume la interculturalidad como política de Estado. Las narrativas de estos decidores y estudiosos, próximos a la cooperación internacional y las instituciones de salud estatales, son una oportunidad única para escudriñar en su pensamiento. La obra ofrece los antecedentes académicos del 68% de los autores dejando a un 32% de lado de un total de 31 participantes, sin ofrecer mayores explicaciones. Utiliza como complemento un anexo de 21 fotografías de los participantes.

La política intercultural en salud, particularmente centrada en el cumplimiento de la Reforma Constitucional en Ecuador y Bolivia, ocupa la primera parte. Las contribuciones son de diversos autores: de Gerardo Fernández Juárez, Luís Fernando Calderón, Luis Enrique “Katsa” Cachiguanco, Luis Maldonado Ruiz, Amilcar Castañeda, José Solá y Fernando Ortega Pérez. Una apretada síntesis de Gerardo Fernández Juárez presenta las paradojas de la salud intercultural a tiempo de realizar un balance crítico de su implementación estatizada. Por otro lado, Luís Fernando Calderón da cuenta de la forma cómo la administración del presidente Rafael Correa está trabajando en el campo de la salud. Este autor, a partir de una visión dicotómica, amplifica los defectos y males que aquejaron la política de salud del Ecuador desde 1985 hasta 2007 y ensalza aquellas en vigencia. Para ello señala que el modelo biomédico occidental habría sido el único mientras que actualmente se adopta a las medicinas tradicionales y las alternativas. Menciona 17 experiencias locales para el fortalecimiento de las redes biomédicas con miras a la implementación del Modelo de Salud Familiar y Comunitario. Calderón silencia el funcionamiento de las experiencias hospitalarias locales, sus resultados y problemas, dejando abierta la exposición técnica a sus colegas. Ensalza la acreditación de los terapeutas tradicionales y vislumbra que en el futuro se trabajará en “procesos de validación de las terapias complementarias y alternativas para evitar la mala práctica y la superchería en su ejecución” (p.59). En su artículo no existen datos específicos acerca del destino exacto de las medidas tradicionales indígenas en todo el proceso de la instauración de la salud intercultural.

La institucionalización de los terapeutas tradicionales y su empoderamiento dentro de los hospitales es defendida por la mayoría de los autores. Empero, el médico salubrista ecuatoriano, José Sola, la cuestiona frontalmente al señalar que:

La presencia de los agentes tradicionales en las unidades públicas de salud, les lleva a un proceso de institucionalización con su consecuente integración al sistema formal y la subordinación a un conjunto de normativas y jerarquías que obscurecen su propio referente filosófico (atender enfermos y no tratar enfermedades) y que desnaturaliza su autonomía, pero sobre todo se resquebraja una práctica que es esencialmente comunitaria, con lo cual se anula su sentido de solidaridad, se debilitan las redes sociales de apoyo y se maltratan las formas locales de la reciprocidad (p.121).

Esta cita evidencia claramente que los sistemas médicos tradicionales están siendo cooptados y sub-alternizados. La prueba es que se da fe que en el altiplano boliviano de Patacamaya, en el 2009, los terapeutas tradicionales no recibían salario por sus servicios (p.218).

La segunda parte muestra un diálogo entre interculturalidad y género. Cuenta con la participación de Lilia Rodríguez, Rocío Roser, Katherine Chalá, Irma Bautista, Gloria Lagos Roberto Campos, Margarita Sáez, Mario Tavera, Nancy Millán, Mónica Yaksic, Marcos Paz, Zulema Gambirazio, Daniel González, Jorge Hermida, Genny Fuentes, Steven Harvey, Juana María Freire, Miriam Cornejo y Jannine Crespo. Desde los distintos textos se abordan cuestiones tan diversas acerca de los avances realizados 15 años después de la Conferencia del Cairo (1994) resaltando la participación del Ecuador. Destaca por su esfuerzo de síntesis el artículo de Margarita Sáez, quien sintetiza brevemente los avances chilenos en la construcción de una estrategia para la pertinencia cultural en la organización y provisión de servicios de salud y la complementariedad de servicios médicos. Según la autora, a pesar de la política intercultural, “[el] modelo médico sigue siendo occidental y el proceso de cambio cultural es incipiente” en los 25 servicios de salud intercultural chilenos (p.231). La autora no sólo ofrece indicadores del éxito de la implementación de estas medidas sino también refle-xiones e interrogantes que cuestionan la asimetría de las relaciones entre sistemas médicos, una vez incorporada la interculturalidad. Según sus palabras, “[la] tendencia es ‘integrar’ [el parto] a un modelo oficial, que aunque ‘abierto’ y respetuoso sigue siendo dominante” (p.230).

La tercera parte, la más pequeña, cuenta apenas con dos contribuciones: de Ariuma Kowii, sobre sexualidad en adolescentes y jóvenes kichwa de Otavalo, y de Soledad Varea sobre las voces de los adolescentes acerca del cuerpo maternal y la resistencia. La relevancia de la problemática radica en el uso de las historias de vida y el rastreo de la participación de la mujer en diversos aspectos de la política y cultura. Cierra esta obra la sistematización del trabajo de los talleres (p.365-387).

En suma, la obra, a pesar de ser demasiado ecléctica y dispersa, es un esfuerzo por dar cuenta de la implementación de la interculturalidad por la cooperación internacional para cambiar los sistemas de salud andinos. Llama la atención que esta obra, producida y publicada en Ecuador, no haya contado con el aporte de la Universidad Andina Simón Bolívar (Quito). Allí funciona un exitoso Programa de Doctorado en Estudios Culturales, el cual ha publicado abundante bibliografía sobre la interculturalidad, recuperando estratégicamente los aportes de la escuela de los estudios de la sub-alternidad de la India y de múltiples vertientes latinoamericanas de reflexión crítica sobre la colonización y la descolonización. Esta ausencia es aún más notoria, porque desde ese espacio académico son los indígenas, los ecuatorianos y los afro-descendientes quienes han asumido una reflexión sobre la realidad de su país. Téngase en cuenta que en Ecuador, la interculturalidad ha surgido “desde abajo”, reflexionando intensamente acerca del concepto andino de “el Buen Vivir” en numerosas publicaciones, todas ellas ignoradas en la bibliografía de la obra reseñada. Y llamo la atención sobre esto, porque fue desde esa Universidad que se ha visibilizado el funcionamiento del multiculturalismo neoliberal y nada menos que un mecanismo encubridor por excelencia de las nuevas formas de colonización que se implementa gracias a la interculturalidad funcional, cuyos dispositivos de poder permiten la permanencia y fortalecimiento de las estructuras sociales establecidas con una matriz colonial (Walsh, 2009). Por ejemplo, como lo menciona la obra incidentalmente, el sistema de salud boliviano intercultural no asume la necesidad de que los médicos tradicionales incorporados en los hospitales gocen de derechos laborales y salarios. Muchos biomédicos todavía quieren que los pagos sean en especies (huevos, gallinas o cerdos), pero de ningún modo en salario digno. Este tema de inequidad salarial y de injusticia ha movilizado, desde el 2006 hasta la fecha, a las instituciones no oficiales de la medicina tradicional sin conseguir mayores avances.

La interculturalidad en salud en Bolivia fue impuesta “desde arriba” y tiene un desarrollo independiente, de tal suerte que no compartimos el punto de vista del editor. Él asume una continuidad histórica entre las “iniciativas” interculturales actuales y las supuestas acciones de los terapeutas tradicionales y sus organizaciones por establecer un acercamiento con el sistema biomédico para el reconocimiento que estaba en poder de estos últimos (p.24). Subrayamos que no sólo se trata de procesos históricos totalmente distintos temporalmente, sino que responden a proyectos conceptualmente diferentes. Los terapeutas tradicionales entre 1960 hasta 2005 actuaban en pleno proceso de despenalización de su práctica, mientras que hoy en día se apoyan en el respaldo constitucional. A pesar de ello, el discurso del fortalecimiento de la medicina tradicional por el Estado no deja de ser un mero enunciado, pues en la práctica se toman medidas que van en sentido contrario. Por ejemplo, en Bolivia, gracias a las compensaciones monetarias condicionadas (Bono Madre Niño-Niña Juana Azurduy de Padilla) se restringe a las parteras tradicionales a ejercer su práctica porque se cuestiona su calificación; ellas no pueden competir con los biomédicos asegurando el certificado de nacimiento del recién nacido, menos compensar a la madre con un monto de dinero desde el embarazo hasta el parto y desde el nacimiento del bebé hasta que cumpla 2 años. Lo paradójico es que a pesar de estas medidas, la mortalidad materna en Bolivia no ha descendido (Prieto, Cid, 2010Bolivia, 2008).

Apoyada en documentación histórica, aclaro que las dirigencias de la Sociedad Boliviana de Medicina Tradicional (SOBOMETRA) en ningún momento “menospreciaban su propio patrimonio” ceremonial (p.40), tal como lo afirma el editor. Esta antigua institución trabajó incansablemente por la defensa de numerosos sitios sagrados de curación en el altiplano y ciudades de La Paz cuando existía penalidad. Muchos espacios ceremoniales estaban prohibidos para los terapeutas tradicionales hasta 1978, pero SOBOMETRA y sus dirigentes los ocuparon. Basta mencionar las primeras ceremonias del solsticio de invierno en el área arqueológica de Tiwanaku bajo control policial (1978), las ceremonias públicas de Huaraku (1984) y Corazón de Jesús (1985), entre otras muchas celebradas en diversos sitios emblemáticos de La Paz. Las garantías escritas de lo afirmado se encuentran en la correspondencia recibida por el Ministerio de Previsión Social y Salud Pública, la Prefectura de La Paz y la Alcaldía de La Paz, pero, sobre todo, sustento mi afirmación en el archivo fotográfico privado del presidente vitalicio de SOBOMETRA, Walter Álvarez Quispe.

Si se continúa disociando teoría y práctica intercultural desde los Estados se producirá un efecto contrario al perseguido: reducir las inequidades y potenciar una salud de calidad para todos los ciudadanos en igualdad de condiciones. Por el momento, todo parece indicar que la asimetría entre biomedicina y medicina tradicional está siendo exacerbada en la implementación de medidas que crean contrasentidos en la subregión andina.

Referências

PRIETO, Lorena; CID, Camilo. Análisis del sector salud Bolivia. S.l.: Banco Interamericano de Desarrollo. 2010. [ Links ]

BOLIVIA. Instituto Nacional de Estadística, Ministerio de Salud y Deportes. Encuesta nacional de demografía y salud 2008. La Paz: Instituto Nacional de Estadística; Ministerio de Salud y Deportes. 2008. [ Links ]

WALSH, Catherine. Interculturalidad, estado, sociedad, luchas (de) coloniales de nuestra época. Quito: Universidad Andina Simón Bolívar. 2009. [ Links ]

Carmen Beatriz Loza – Directora de investigación, Instituto Boliviano de Medicina Tradicional Kallawaya. cbloza@gmail.com

 

 

O “Grande Norte”: interações, relações e conflitos na Europa Setentrional Medieval / Brathair / 2015

Grande Norte: Interações – Relações – Conflitos na Europa Setentrional Medieval / Brathair / 2015

É inegável o enorme crescimento, tanto quantitativo quanto qualitativo, das pesquisas brasileiras focadas no Medievo nas últimas duas décadas. É mesmo empolgante testemunhar e participar ativamente deste movimento: graduandos, pós-graduandos e titulados de, praticamente, todas as unidades da federação desenvolvem pesquisas sobre a Idade Média, situação que levou à constituição e multiplicação de Grupos, Núcleos e Laboratórios de pesquisa na área o que, por um lado, é muito salutar ao criar estruturas de pesquisa e orientação, facilitando, em teoria, a difusão dos estudos.

Por outro lado, em termos negativos, houve a constituição de um fenômeno de “isolamento” das pesquisas, com a maior parte dos grupos privilegiando explícita ou implicitamente recortes cada vez menores em suas circunscrições espaço-temporais, tratando-os como ilhas distantes de outros contextos vividos pelas mesmas populações em temporalidades diferentes e pouco considerando as relações matizadas por todos os tipos de interações com outras culturas (próximas ou distantes).

Essas abordagens exclusivistas também trazem em si a ameaça da formação de nichos particulares (verdadeiras “reservas de mercado”), em evidente contramão ao movimento de expansão das pesquisas, além dos cerceamentos (muitas vezes extremos e afastados da racionalidade) na escolha do objeto a ser estudado por neófitos na área. Todos sabem que o conhecimento científico só se constrói com projetos estruturados, circulação e debates construtivos, ou seja, em última instância, através da colaboração.

Assim, propomos uma abordagem mais ampla na confecção de nosso dossiê, que denominamos como perspectiva “hiperbórea”, inspirada na Hiperbórea, o além-norte dos gregos. O uso é proposital, uma vez que há uma tradição regional neste sentido: muitos eruditos tentaram encontrar as origens da humanidade e / ou da cultura greco-romana no Norte Europeu, ou ao menos tentaram equiparar o legado nórdico aos vizinhos meridionais e incluir sua importância na História do mundo. Tal tendência, denominada “Escola Hiperbórica”, foi fundamental, por exemplo, para o desenvolvimento do Goticismo na Suécia (Bandle et alii, 2002: 358).

Os problemas destas leituras, porém, já foram amplamente denunciados; Assim, aproveitaremos o termo, mas, diferente dos nossos predecessores, propomos um olhar relacional, ou seja, pautado no estudo de interações, relações e conflitos na Europa Setentrional sem buscar origens, aclamar superioridade de raças, culturas, nações ou nacionalismos. Para nós, este complexo espacial abrigou inúmeras culturas e hibridismos culturais, problemas mais relevantes que discussões particularistas e ultrapassadas.

No bojo da questão, Kilbride condenou termos como “sincretismo” e “hibridismo” porque eles pressupõem um compromisso entre dois estados básicos (neste caso, cristianismo e paganismo) e negam a fluidez entre os dois (2000: 8). Porém, Aleksander Pluskowski e Philippa Patrick revalidaram o termo “hibridismo” sobre outras bases, i.e., para se referir a qualquer situação intermediária entre os dois paradigmas contrastantes, sem ignorar, contudo, as variedades de paradigmas “pagãos” e “cristãos” identificáveis a partir da cultura material (2003: 30-31).

Seria possível aplicar o mesmo instrumental para a Europa Setentrional: apenas nas ilhas Britânicas teríamos a Hiberno-latina, a Hiberno-escandinava, a Anglo-latina, a Anglo-escandinava, a Anglo-normanda, a Anglo-manx, dentre outras igualmente importantes, revelando uma realidade tão fértil quanto as interações que transformaram o Mediterrâneo em um cadinho civilizacional por excelência. Trata-se de uma proposta inclusiva que não refuta as abordagens exclusivistas, mas que conclama à sua integração frente às perspectivas mais amplas, que prometem trazer frutos que poderão impulsionar o futuro de muitos ramos da Medievística brasileira.

Portanto, é com imenso prazer que trazemos a lume o novo número da já tradicional revista Brathair, incluindo algumas novidades em sua programação visual. Sem mais delongas, este número apresenta em seu dossiê os seguintes artigos: de Michael J. Kelly (doutor pela Universidade de Leeds) nos cedeu a publicação em Língua Portuguesa de sua conferência (ministrada da USP dia 05 / 10 / 2015) “Quem lê Pierre Pithou?: O impacto da Renascença francesa na história Visigótica e nas modernas representações do passado medieval inicial”. Lukas Gabriel Grzybowski (doutor pela Universidade de Hamburgo) com “Virtudes e política: Bernardo de Clairvaux e Otto de Freising sobre temperantia e moderatio”, André Szczawlinska Muceniecks (Doutor pela Universidade de São Paulo) com “Ritos de passagem na Ọrvar-Odds Saga – o caso do Homem-Casca” e Isabela Dias de Albuquerque (Doutoranda pelo PPGHC – UFRJ) com “O Massacre do Dia de São Brício (1002) e o reinado de Æthelred II (978-1016): uma introdução a novas possibilidades de análise sobre as relações identitárias na Inglaterra anglo-escandinava”.

A seção de artigos livres conta com os textos de Juan Antonio López Férez (Los celtas en las Vidas de Plutarco, Benito Márquez Castro (Los Hérulos en la Crónica del obispo Hidacio de Aquae Flaviae, mediados de s.V), Dominique Santos & Leonardo Alves Correa (Peregrinatio et Penitentia no livro I da Vita Columbae de Adomnán, séc. VII), Ana Rita Martins (Morgan le Fay: The Inheritance of the Goddess) e Solange Pereira Oliveira (Valores e crenças no mundo pós-morte nos relatos de viagens imaginárias medievais). Finalmente, contamos também com a resenha de José Pereira da Silva, acerca da obra A Fraseologia Medieval Latina, de autoria de Álvaro Alfredo Bragança Júnior.

No texto de Kelly, o autor começou a esboçar a influência de Pierre Pithou sobre o passado medieval visigodo. A ideia do artigo é rever as bases do pensamento moderno sobre a Idade Média, no intuito de entender como o conhecimento desse recorte temporal foi forjado. Esse impacto pode ser sentido não só na historiografia da época, mas também nas leituras contemporâneas e no método empregado pelos historiadores atualmente.

No texto de Muceniecks é possível notar a utilização de uma “saga legendária” e das descrições de regiões míticas como pano de fundo para a constituição de espaços liminares e ritos de passagem no Leste europeu medieval. Albuquerque, no extremo oposto, usou o famoso Massacre do Dia de são Brício (1002) e a organização espacial nas ilhas como parâmetro de observação das relações entre saxões e escandinavos na Inglaterra.

Grzybowski, por sua vez, usou Bernardo de Clairvaux e Otto de Freising como pontos de vista sobre as discussões acerca das virtudes políticas e o exercício político ideal. A análise das epístolas, gênero específico, demonstrou como as condições da época e a experiência monacal ajudaram a moldar as conclusões sobre a política no século XII.

O artigo de Santos & Correa desnudou os conceitos de peregrinação e penitência à luz das concepções usadas durante a Early Christian Ireland. Os autores usaram o primeiro livro da Vita Columbae de Adomnán de Iona (séc. VII) para retomar as condições de peregrinação no contexto irlandês e, nestes termos, recobrar o sistema teológico construído pelo autor da Vida de Columbano.

No texto de Martins, nota-se a preocupação com personagens do mito arturiano e as associações ora benignas, ora malignas, conforme o gênero do personagem. Com o incremento do cristianismo na Matéria da Bretanha, a mágica e as mulheres foram ligadas e formaram um amálgama de teor negativo. Nestes termos, Morgana poderia estar conectada com uma deusa “céltica” ou com a demonização pura e simples de deuses pagãos, tidos como aliados de Satã.

Solange Pereira Oliveira ofereceu ainda um arguto olhar sobre as crenças post morteem nos relatos de viagens imaginárias da Idade Média, que serviam, entre outros fatores, como guias de ensinamentos religiosos e mecanismos evangelizadores dos homens da Igreja; Juan Antonio López Férez, por fim, partiu das Vidas de Plutarco para comentar as diferentes referências aos celtas neste texto, com amplas traduções para a língua espanhola.

Brindamos nossos leitores com essas referências e aguardamos um crescimento ainda maior das produções voltadas para o Setentrião europeu medieval, sobretudo das próximas gerações de pesquisadores.

Referências

BANDLE et alii. The Nordic Languages: An International Handbook of the History of the North Germanic Languages. Vol.1. Berlin: Walter de Gruyter, 2002.

KILBRIDE, William G. Why I feel cheated by the term ‘Christianisation’. Archaeological Review from Cambridge, v. 7, n. 2, pp. 1-17, 2000.

PLUSKOWSKI, Aleksander & PATRICK, Philippa. ‘How do you pray to God?’ Fragmentation and Variety in Early Medieval Christianity In: CARVER, Martin (Ed.). The Cross Goes North: Processes of Conversion in Northern Europe, AD 300-1300. Woodbrigde: Boydell, 2002, pp. 29-57.

Vinicius Cesar Dreger de Araujo – Professor de História na Universidade Estadual de Montes Claros (UNIMONTES). E-mail: viniciusdreger@yahoo.com.br

Renan Marques Birro – Professor de História na Universidade Federal do Amapá (UNIFAP). E-mail: rbirro@gmail.com

Elton O. S. Medeiros – Professor de História na Faculdade Sumaré (SP). E-mail: eosmedeiros@hotmail.com


ARAUJO, Vinicius Cesar Dreger de; BIRRO, Renan Marques; MEDEIROS, Elton O. S. Editorial. Brathair, São Luís, v.15, n.1, 2015. Acessar publicação original [DR]

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Germanismo, barbárie, identidade e alteridade no Ocidente medieval / Brathair / 2015

Germanismo – Barbárie – Identidade – Alteridade no Ocidente medieval / Brathair / 2015

Este Dossiê tem como foco estudos relativos à constituição do Ocidente medieval, com frequência tratados pela historiografia em meio aos debates sobre Antiguidade Tardia ou Primeira Idade Média. Tal campo de estudos encontra-se em afirmação no cenário nacional, impulsionado mesmo por uma nova geração de autores que tem debatido e construído novas abordagens sobre esta temática.

Nas últimas décadas, pesquisadores brasileiros ampliaram suas participações em congressos internacionais e intensificaram o debate com pesquisadores europeus e norte-americanos, dos quais resulta um mútuo crescente interesse de ambos os lados do Atlântico. Este número é uma aposta no desenvolvimento e consolidação de alguns destes nomes na historiografia brasileira, apontando um quadro de renovação e introdução de novos paradigmas, consolidando esta atuação nas áreas da História Antiga e Medieval, em particular.

Apesar das profícuas discussões animadas pela antropologia e pelo panorama político pós-colonial, termos como ‘germanismo’ e ‘barbárie’ costumam ser tratados pela historiografia como princípios cristalizados, muitas vezes antagônicos ao ‘romanismo’ e à ‘civilização’ – todos sendo, ao cabo, ‘mediados’ pelo cristianismo, de acordo com a perspectiva historiográfica tradicional.

Diante de um quadro amplo de discussões pertinentes ao período, a proposta deste Dossiê é a releitura deste binômio não mais como central, mas explorando suas interpretações e características diante de propostas teorizadas que discutam em especial elementos de identidade e alteridade na construção do panorama do Ocidente Medieval no período em questão. Iniciamos nosso com os artigos do professor Paulo Duarte e Nathália Xavier, que comparam o papel dos ‘cristianismos’ galaico e britânico na construção dos regna, “bárbaros”, Suevo e de Kent. Dando continuidade à percepção sobre o papel eclesiástico, devemos destacar como os reinos, comumente chamados germânicos, tiveram na consolidação dos monacatos uma de suas mais importantes bases sociais e políticas de consolidação. Assim os artigos de Alex Oliveira e, em seguida, de Juliana Rafaelli, promovem um quadro complexo da percepção do monasticismo naquele momento.

Uma vez discutido o papel do cristianismo na construção destes reinos, seguimos por caminhos historiográficos que nos permitam consolidar o entendimento da formação destes reinos, assim como as identidades afirmadas e as negadas diante deste processo. Com este fim apresentamos primeiro o artigo do professor Bruno Uchôa, que tem o olhar específico sobre as limitações e potencialidades das pesquisa vinculadas à história da medicina, mas o faz diante do quadro social da chamada Primeira Idade Média. Ainda sob a percepção historiográfica a professora Verônica Silveira, sob um debate que dá tons à controvérsia da identidade, e Otávio Pinto, sob o viés da alteridade, se detêm, respectivamente, nos processos de (re)constituição da identificação de godos e hunos em meio à instalação destes grupos.

Seguem os artigos dos professores Eduardo Daflon e Rodrigo Rainha fazem um abordagem específica sobre ao organização do reino visigodo. Enquanto o primeiro discute as formas de organização do campesinato adotadas no reino, Rainha discute sobre o papel da educação no domínio visigótico, realçando o papel do idoso e suas relações de poder.

A identificação dos “bárbaros” durante a Idade Média não se deteve aos momentos da Alta Idade Média, a identificação do outro foi levada ao outros grupos da Europa Ocidental, esta é abordagem que as professores Célia Danielle, abordando o olhar para os muçulmanos e Marta Silveira sobre os judeus.

Ainda nesta edição apresentamos as resenhas de Jonathas Oliveira sobre o livro de Igor Salomão, que dialoga sobre as relações de poder e a criação da identidade medieval vinculada ao santo; ainda temos a resenha de João de Lupi sobre Maria Antonieta Costa, sobre questões vinculadas a arqueologia atlântica, uma das vanguardas do estudo no século XXI.

Rodrigo dos Santos Rainha – Professor Adjunto – UERJ. E-mail: grandehistoria@gmail.com

Paulo Duarte Silva – Professor Adjunto UFRJ. E-mail: pauloduartexxi@hotmail.com


RAINHA, Rodrigo dos Santos; SILVA, Paulo Duarte. Editorial. Brathair, São Luís, v.15, n.2, 2015. Acessar publicação original [DR]

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Intellèctus. Rio de Janeiro, v.14, n.2, 2015.

Apresentação

Intelectuais e cidade

  • André Nunes Azevedo, Marieta Pinheiro Carvalho
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Dossiê

Artigos Livres

Intellèctus. Rio de Janeiro, v.14, n.1, 2015.

Apresentação

  • Apresentação: Intelectuais e educação na América Latina
  • Adir da Luz Almeida, Washington Dener dos Santos Cunha
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Dossiê

Artigos Livres

Resenhas

  • MOORE, Carlos. A África que incomoda: sobre a problematização do legado africano no quotidiano brasileiro. Belo Horizonte: Nandyala, 2010.
  • Márcio Paim
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El pasado bajo tierra. Exhumaciones contemporâneas de la Guerra Civil – FERRANDIZ (RCA)

FERRANDIZ, Francisco. El pasado bajo tierra. Exhumaciones contemporâneas de la Guerra Civil. Barcelona: Editorial Anthropos, 2014. 331p. Resenha de: GONZALEZ-RUIBAL, Alfredo. Revista Chilena de Antropología, n.31, p.125-126, ene./jun., 2015.

Uno de los fenómenos sociales y políticos más importantes de las últimas décadas en España es el de las exhumaciones de víctimas de la represión política de la Guerra Civil y la dictadura de Franco (1936-1975). El fenómeno es similar a otros que están teniendo lugar en el mundo, dentro del marco de la justicia universal o transicional, desde Argentina a Timor Oriental. Al mismo tiempo, es único, porque afecta a un pasado ya no tan reciente: las exhumaciones científicas comenzaron 64 años después del inicio del conflicto. Desde entonces y hasta el año 2014 se han desenterrado los cuerpos de unos 6.700 individuos –un pequeño porcentaje de las 135.000 víctimas de la violencia derechista.

Francisco Ferrándiz es un antropólogo social del CSIC (España) con una larga experiencia en el estudio de la violencia social. El presente libro es el resultado de más de una década de investigación etnográfica sobre el fenómeno de la denominada “recuperación de la memoria histórica” en España.

Pese a que se trata de una recopilación de artículos, los trabajos han sido editados para el presente volumen y forman una unidad muy coherente. Es más, se podría decir que estaban pidiendo este tratamiento integral: leídos ahora en conjunto permiten al lector entender la evolución del fenómeno de las exhumaciones desde el año 2000.

El libro cuenta con una larga introducción, seis capítulos y un epílogo. La introducción ofrece una visión general del fenómeno en su contexto internacional y de la etnografía de las exhumaciones y presenta un par de conceptos de gran interés: subtierro y autopsia social. Ambos tienen que ver con la tensión entre la ocultación y el desvelamiento públicos, que ha guiado la vida social de los cadáveres desde 1936 a nuestros días y que en cierta manera articula el libro. En la introducción descubrimos ya la capacidad del autor tanto para proponer nuevos conceptos como para aplicar y desarrollar conceptos prestados: comunidades de muerte, vida social de los derechos, contrapúblicos transnacionales, desaprendizaje, vidas de ultratumba, fragilidad corpórea.

El capítulo I, “La memoria de los vencidos”, se centra en el fenómeno del desvelamiento al comienzo de la andadura de la memoria histórica: ¿cómo se ha producido la irrupción de los “fantasmas” que asoman “por las costuras de la democracia”? Ferrándiz pasa revista a las distintas formas, a veces contrapuestas, en que se ha posibilitado y gestionado la aparición de estos fantasmas por parte de asociaciones, instituciones públicas y medios de comunicación.

El capítulo II, “Exhumaciones y exilios”, se estructura a través de un caso paradigmático: la exhumación de la fosa de Valdediós (Asturias), que ocultaba sobre todo cadáveres de mujeres. El título del capítulo hace mención a las dislocaciones provocados tanto por los asesinatos como por la reaparición de las víctimas. La protagonista es la hija de uno de los asesinados, que las vicisitudes de la guerra lleva a un largo exilio. El subtierro, pues, produce un destierro. La exhumación (el desentierro) sirve a su vez de puente para unir los dos mundos separados por la violencia, así como para articular relatos del trauma.

El capítulo III, “Gritos y Susurros”, continúa la exploración de los relatos de la violencia exhumada. En este caso, el hilo conductor es la excavación de la fosa de Villamayor de los Montes (Burgos). El autor nos hace ver cómo, paradójicamente, la fosa común pasa de ser un espacio de terror silencioso a convertirse en una “zona de seguridad” que favorece la emergencia de relatos silenciados.

El capítulo IV, “Paisajes del terror”, es una descripción diacrónica del fenómeno de las exhumaciones, desde la inmediata posguerra hasta la actualidad. El fenómeno desencadenado desde el año 2000 ha relegado al olvido a sus numerosos precedentes: desde la propia “memoria histórica” franquista, en la que el aparato del nuevo Estado dictatorial se volcó en recuperar y honrar a sus víctimas (unas 50.000), hasta las exhumaciones de la transición democrática realizadas por familiares, sin apoyo de ningún tipo y sin asesoría técnica.

Finalmente, el último ciclo de exhumación, si bien ha sido de carácter científico, solo ha contado con ambiguo apoyo estatal durante un breve período. La desigual historia de las exhumaciones pone de manifiesto claramente la persistente injusticia cometida contra los derrotados.

De justicia trata, precisamente, el capítulo V, “De las fosas a los derechos humanos”, que enmarca el fenómeno español dentro del contexto general de la justicia universal. Especialmente interesante, en este caso, es la importación de categorías que estudia Ferrándiz desde otros contextos y muy particularmente la de “desaparecidos”, de origen argentino. La idea es insertar el proceso español dentro de la persecución de crímenes no prescriptibles de lesa humanidad.

El último capítulo hacer referencia a un tipo de exhumaciones bien distintas: las que permitieron crear el gran osario del Valle de los Caídos. Este monumento megalómano fue ideado en 1940 para honrar a los caídos del bando vencedor, así como mausoleo para Franco. Para el tiempo de la inauguración del monumento en 1959, la retórica había cambiado y se quiso dar una imagen de reconciliación trayendo algunos restos de soldados del otro bando. Ello llevó a realizar exhumaciones de fosas de represaliados republicanos sin ningún método y sin consentimiento de los familiares. En la actualidad, muchas familias quieren recuperar los restos de los suyos. Ferrándiz examina aquí esta y otras polémicas que rodean la persistencia discrónica de un monumento fascista en un Estado democrático. Lo hace, además, con el conocimiento de causa de haber sido miembro de una comisión encargada de evaluar y sugerir una solución para el Valle—y cuyos consejos no han tenido efecto real.

El libro, en suma, es del mayor interés para todos los interesados en la relación entre política, pasados conflictivos, antropología y arqueología.

Ferrándiz demuestra con esta obra que es la voz más autorizada y quizá la más original en el estudio etnográfico de las exhumaciones, un tema sobre el que contamos ya con un nutrido número de publicaciones. Los lectores de América Latina, en particular, encontraran muchos puntos del mayor interés, tanto por la contextualización internacional, que permite trazar paralelos entre España y los estados posdictatoriales americanos, como por el impresionante aparato conceptual, que sirve para repensar las memorias colectivas marcadas por la violencia política contemporánea.

Alfredo Gonzalez-Ruibal – Instituto de Ciencias del Patrimonio, CSIC, Espana, alfredo. E-mail: gonzalez-ruibal@incipit.csic.es.

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El Pucara del Cerro La Muralla: Mapuches, Incas y Espanoles en el Valle del Cachapoal – SEPÚLVEDA et al (RCA)

SEPÚLVEDA, Jairo; SAN FRANCISCO, Alex; JIMÉNEZ, Bruno; PÉREZ, Sebastián. El Pucara del Cerro La Muralla: Mapuches, Incas y Espanoles en el Valle del Cachapoal. Santiago: Mutante Editores, 2014. 250p. Resenha de: FAULBAUM, Felipe Vargas. Revista Chilena de Antropología, n.31, p. 127-128, ene./jun., 2015.

Con una prosa ágil, coloquial y resuelta, considerada para privilegiar su lectura por un público masivo, este libro publicado por Mutante Editores nos adentra en los múltiples recovecos de una investigación que busca aclarar uno de los mayores misterios de la Historia Americana. ¿Cuál es el límite meridional del Imperio de los Incas? ¿Cómo eran las poblaciones que resistieron el avance y conquista incaica en Chile Central? ¿Qué dinámicas sociales se desarrollaron en esta región fronteriza? ¿Cuáles fueron las continuidades que permitieron sostener posteriormente una heroica y cruel resistencia a la conquista hispana? Es a través de la investigación arqueológica de una olvidada construcción en la cima de un cerro en las cercanías de San Vicente de Tagua Tagua.

Desde los ruinosos muros abandonados del Cerro La Muralla, en el valle del Cachapoal, se rastrean las últimas huellas que el fabuloso y enigmático “Imperio de los Incas” o Tawantinsuyu dejo en su avance de conquista del sur de Chile.

Las excavaciones arqueológicas realizadas, por los autores, en el Pucará del Cerro La Muralla durante la realización del Proyecto FONDART 18.291 “Por la senda del Inca en el valle del Cachapoal”.

Junto a la revisión erudita de los demás vestigios materiales del período incaico de la IV Región de O’Higgins y Chile Central, son hábilmente utilizadas como una certera herramienta para visibilizar la tenaz lucha de resistencia de las poblaciones mapuche frente a las campañas de conquista inca y su posterior continuidad en la resistencia anti hispana.

Con una copiosa y muy actualizada bibliografía histórica y arqueológica se presentan los distintos procesos que enfrentaron las poblaciones de la región. A partir de una acabada síntesis de largo alcance, que nos adentra a la prehistoria regional, los autores recorren la cronología precolombina y los elementos claves del cambio cultural, resaltando en este sentido, el proceso de andinización preincaico de Los Andes Meridionales. Finalizan presentando con detalles los prolijos documentos y vestigios atribuidos al período incaico.

Luego del desempolvo de los jarrones, sitios y construcciones del lejano tiempo inca la investigación avanza en el esclarecimiento de los procesos históricos y dinámicas sociales acontecidas por los habitantes locales. Clarifican la denominación promaucaes o “gente salvaje” como una definición incaica, reflejo de su incapacidad política en una coyuntura histórica particular, por sobre una realidad cultural y étnica en sí misma. Reforzando así las fuertes conexiones culturales de las poblaciones locales o “promaucaes” con el mundo mapuche.

Con el correr curioso de las páginas se va visualizando el rostro histórico de los mapuches o picunches, que habitaron esta convulsionada región durante los siglos XV y XVI. Las dinámicas que permitieron el levantamiento frente a los distintos invasores, las frágiles alianzas que sostuvieron con los conquistadores cuzqueños y españoles durante la vida de frontera, la derrota y sometimiento luego del fracaso de las estrategias de resistencia.

Revista Chilena de Antropología 31/1er Semestre 2015 127-128 128/ Dione da Rocha Bandeira La continuidad fragmentada del mundo mapuche de Chile Central en las reducciones indígenas y pueblos de indios de la colonia, junto a las sobrevivencias de esos fragmentos en la vida del mestizo chileno hasta la actualidad presionan por la necesidad de visibilizar y reavivar en la memoria social esas continuidades presentes en distintas actividades comunitarias contemporáneas. Tal como la actual procesión y celebración a la Virgen Nuestra Señora de Fátima anualmente realizada entre las murallas derruidas del pasado incaico.

Situado en el valle del Cachapoal.

Observando minuciosamente los acontecimientos desde los antiguos ayllus y tribus del valle, el arribo del Tawantinsuyu a la región y posterior debacle del Imperio Inca por las huestes españolas, este libro es un real aporte al dar cuenta de la riqueza histórica y cultural del valle del Cachapoal. Situando con justicia al valle del Cachapoal en una de los más importantes problemáticas y enigmas de la gran historia americana.

Felipe Vargas Faulbaum – Licenciado en Arqueologia, Universidad de Chile. E-mail: feliperplexo@gmail.com.

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Versos Quentes e Baiões de Viola: Cantorias e Cantadores do/no Nordeste Brasileiro no Século XX | Francisco J. G. Damasceno

“Versos Quentes e Baiões de Viola: Cantorias e Cantadores do/no Nordeste Brasileiro no Século XX” (EDUFCG, 279 páginas) do historiador e Pós-doutor em etnomusicologia Francisco José Gomes Damasceno, traz uma reflexão panorâmica e aprofundada sobre o aspecto da cantoria de viola no nordeste brasileiro durante o século vinte, dialogando com importantes nomes da cultura popular nordestina como, Câmara Cascudo, Leonardo Mota, Elba Braga Ramalho, entre outros. O autor busca dar importância à produção e ao saber cultural dedicando seu olhar a esse objeto muitas vezes esquecido e desvalorizado pelas “camadas intelectuais” da sociedade. O livro está dividido em três capítulos: o primeiro, que é composto de notas biográficas realizadas a partir de entrevistas colhidas com os mais importantes cantadores nordestinos; o segundo, se volta para a origem e trajetória da cantoria, desde terras “d’além mar” e de um passado distante no tempo; e o terceiro e último, que no qual se abre um discurso mais amplo sobre as características, fases e gerações, e a transição desta manifestação do universo rural para o urbano.

Foram dois os principais motivos que levaram o pesquisador a mergulhar neste universo novo: o primeiro foi a tentativa de reencontrar as suas raízes rurais diluídas em meio ao universo do cotidiano urbano; e, o segundo foi a necessidade de historicizar a cultura popular nordestina, no intuito de suprir as carências de estudos sobre essa área de enorme importância na compreensão dos saberes transmitidas por meio das tradições populares. Leia Mais

A noção de propaganda e sua aplicação nos estudos clássicos. O caso dos imperadores romanos Septímio Severo e Caracal | Ana T. M. Gonçalves

Ana Teresa Marques Gonçalves é natural do Rio de Janeiro, cidade na qual nasceu em 1969. É graduada em História pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), mestre em História Social e doutora em História Econômica pela Universidade de São Paulo (USP). Atualmente, é professora associada de História Antiga e Medieval na Universidade Federal de Goiás (UFG) e uma das mais importantes historiadoras e pesquisadoras acerca do período Severiano (II e III d.C.).

O livro, publicado em 2013 e composto por três capítulos, além da apresentação da obra, do prefácio, escrito pelo Prof. Dr. Norberto Luiz Guarinello e das considerações finais, tem por título “A noção de propaganda e sua aplicação nos estudos clássicos. O caso dos imperadores romanos Septímio Severo e Caracala”, e resulta da tese de doutoramento, pela USP, em História Econômica da referida autora. Ela busca mostrar, aos interessados na área de História Antiga e aos que desejam se deleitar com uma leitura objetiva e explicativa no que tange à História da Roma dos séculos II e III d.C., mais especificamente, como se deu o processo de afirmação dos dois primeiros imperadores Severianos (Septímio e seu filho, Caracala). Leia Mais

Pós-abolição no Mundo Atlântico / Revista Brasileira de História / 2015

O reconhecimento de escravos e libertos como sujeitos históricos acabou por influenciar os estudos sobre o destino dos escravizados e seus descendentes em antigas sociedades escravistas após a abolição legal da escravidão. No Brasil, se a década de 1980 representou um marco para a historiografia da escravidão, podemos pensar que os anos 2000 foram decisivos para a historiografia sobre as formas, condições e concepções de liberdade no pós-abolição. A produção de livros e documentários, a realização de eventos nacionais e internacionais e a formação de grupos de pesquisa adjetivados pelos termos “pós-emancipação” e “pós-abolição”, de norte a sul do país, atestam a emergência de um destacado campo de investigação, comprometido em reconstituir trajetórias, processos e experiências de liberdade da população negra no Brasil e nas Américas após a proibição legal da escravidão.

Em vistas da amplitude do campo, surgem muitas questões. O que significa pensar o pós-abolição como problema histórico? Quais os significados e limites da revogação legal da escravidão nas antigas sociedades escravistas do Atlântico? É possível construir definições precisas sobre o que seria esse pós-abolição? Quais os significados da abolição formal da escravidão? ­Pós-abolição e pós-emancipação são sinônimos ou representam formas distintas de enxergar e pesquisar as experiências de liberdade e os significados legais da abolição da escravidão? Quando começa e quando termina o pós-abolição? Qual o lugar das experiências de tornar-se livre e do abolicionismo do século XIX? Como a politização da memória da escravidão e o estudo do tempo presente contribuem para delimitação dos seus limites cronológicos? De que formas o trabalho com diversas concepções, fontes e metodologias do campo questiona a tese clássica de que os negros teriam ficados “abandonados à própria sorte”, trazendo para o centro da discussão debates relacionados aos direitos de cidadania, mundos do trabalho livre, racialização, racismo, mobilidade social, migrações, relações de gênero, gerações, acesso à terra, educação e movimentos sociais negros e indígenas em abordagens locais, transnacionais ou comparativas?

Essas são algumas das indagações sobre as quais se debruçaram autoras e autores dos trabalhos publicados no dossiê temático “Pós-abolição no Mundo Atlântico”, que integra a presente edição da Revista Brasileira de História.

O dossiê se abre com “No ritmo do Vagalume: culturas negras, associativismo dançante e nacionalidade da produção de Francisco Guimarães (1904-1933)”, de Leonardo Affonso de Miranda Pereira. A trajetória e a obra do personagem analisado são utilizadas como fio condutor para uma imersão no universo da cultura popular do período. O autor destaca a valorização da agência negra nas crônicas de Guimarães, o Vagalume, sobre a vida musical e recreativa do Rio de Janeiro. Pereira situa a produção do popular cronista e dramaturgo carioca como parte de um processo de disputa sobre a identidade brasileira que tem entre os seus resultados o estabelecimento do samba como “ritmo capaz de representar a nacionalidade”.

Dois dos artigos revisitam o tema clássico do campesinato negro no pós-abolição nas regiões Sudeste e Sul do Brasil. Em “Revisitando ‘Família e transição’: família, terra e mobilidade social no pós-abolição. Rio de Janeiro (1888-1940)”, Carlos Eduardo Coutinho da Costa analisa mais de seis décadas de registros civis do município de Nova Iguaçu, identificando os impactos econômicos e demográficos da citricultura sobre as famílias negras rurais da província fluminense e suas estratégias de mobilidade social. Em “Sr. Sidão Manoel Inácio e a conquista da cidadania: o campesinato negro do Morro Alto e a República que foi”, Rodrigo de Azevedo Weimer aborda a agência política do campesinato negro do litoral norte do Rio Grande do Sul na luta por direitos cidadãos durante a Primeira República.

Deslocando o foco para a Bahia, Wlamyra Albuquerque também aborda as conexões entre pós-abolição e cidadania em “Teodoro Sampaio e Rui Barbosa no tabuleiro da política: estratégias e alianças de homens de cor (1880-1919)”. Colocando o foco na experiência escrava da família de Teodoro Sampaio, a autora demonstra as conexões, aproximações e distanciamentos das trajetórias contemporâneas de dois destacados atores políticos baianos atuantes no final do Império e no início da República. Oferece ao leitor, desse modo, um olhar inovador sobre o contexto de atuação política de negros e brancos nas décadas que se seguiram à Abolição.

Dois outros artigos retomam o debate historiográfico sobre continuidades e rupturas entre a experiência escrava e o movimento operário. André Cicalo, em “Campos do pós-abolição: identidades laborais e experiência ‘negra’ entre os trabalhadores do café no Rio de Janeiro (1931-1964)” revisita o tema no setor portuário carioca, trazendo uma contribuição inovadora no que diz respeito ao estudo da racialização da estrutura ocupacional no cais. O tema da racialização reaparece em “As heranças do Rosário: associativismo operário e o silêncio da identidade étnico-racial no pós-abolição, Laguna (SC)”, de Thiago Juliano Sayão, que analisa o ocultamento da raça ou cor na Sociedade Recreativa União Operária (1903), fundada por afrodescendentes vinculados à Irmandade de Nossa Senhora do Rosário dos Pretos na cidade de Laguna, em Santa Catarina.

A perspectiva comparativa entre as experiências das duas maiores nações que passaram pelo processo emancipacionista no século XIX está presente em dois trabalhos do nosso dossiê: “Os perigos dos Negros Brancos: cultura mulata, classe e beleza eugênica no pós-emancipação (EUA, 1900-1920)”, de Giovana Xavier da Conceição Nascimento, e “O legado das canções escravas nos Estados Unidos e no Brasil: diálogos musicais no pós-abolição”, de Martha Abreu. Nascimento analisa, por meio de textos e imagens publicados em revistas norte-americanas, a emergência, nas primeiras décadas do século XX, de uma “pigmentocracia” decorrente do sistema de segregação intrarracial com base na tonalidade da pele. Já Abreu parte dos trabalhos de Du Bois e Coelho Netto para refletir sobre as similaridades dos legados da canção escrava – ou “som do cativeiro” – nos Estados Unidos e no Brasil.

Uma entrevista inédita realizada por Hebe Mattos e Martha Abreu com Eric Foner, historiador pioneiro no estudo do pós-emancipação nos Estados Unidos complementa o dossiê temático desta edição.

O presente volume traz seis trabalhos avulsos. Dois deles apresentam resultados inéditos de pesquisas sobre o movimento operário brasileiro entre as décadas de 1960 e 1980: “Relações Igreja-Estado em uma cidade operária durante a ditadura militar”, de Alejandra Luisa Magalhães Estevez, e “Uma greve que pôs em risco a Segurança Nacional: o caso do açúcar e a luta dos trabalhadores por melhores condições de vida”, de Felipe Augusto dos Santos Ribeiro. A atuação social e política de intelectuais, religiosos e organizações católicas constitui o campo temático comum de “Os ativos intelectuais católicos no Brasil dos anos 1930”, de Helena Isabel Mueller, e “A Revista A Ordem e o ‘flagelo comunista’: na fronteira entre as esferas política, intelectual e religiosa”, de Marco Antônio Machado Lima Pereira. Em “‘Vivemos identificados com a civilização, dentro da civilização’: autoimagens urbanas nos sertões da Bahia”, Valter Gomes Santos de Oliveira analisa textos memorialísticos, matérias jornalísticas e fotografias produzidos pela pequena intelectualidade sertaneja na Bahia do início do século XX. Já Vitor Marcos Gregório, em “A emancipação negociada: os debates sobre a criação da província do Paraná e o sistema representativo imperial, 1843”, analisa a relação entre a criação de novas unidades administrativas e as alterações no funcionamento do sistema político do país.

O volume se conclui com três resenhas. Em “Trabalho, história ambiental e cana-de-açúcar em Cuba e no Brasil”, originalmente publicada em inglês na revista Social History, a professora Aviva Chomsky analisa quatro livros recentes sobre temáticas similares, dois deles tratando do Brasil (The Deepest Wounds: A Labor and Environmental History of Sugar in Northeast Brazil, de Thomas Rogers, e This Land Is Ours: Social Mobilization and the Meanings of Land in Brazil, de Wendy Wolford), os outros dois sobre Cuba (Blazing Cane: Sugar Communities, Class, and State Formation in Cuba, 1868-1959, de Gillian McGillivray, e From Rainforest to Cane Field in Cuba: An Environmental History since 1492, de Reinaldo Funes Monzote). Por fim, Walkiria Oliveira Silva apresenta ao leitor What is History for? Johann Gustav Droysen and the functions of historiography, de Arthur Alfaix Assis, e Jean Rodrigues Sales comenta a muito aguardada biografia Luís Carlos Prestes: um revolucionário entre dois mundos, de Daniel Aarão Reis Filho.

Alexandre Fortes – Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ), Instituto Multidisciplinar. Nova Iguaçu, RJ, Brasil. E-mail: alexfortes@globo.com

Hebe Mattos – Universidade Federal Fluminense (UFF), Centro de Estudos Gerais, Instituto de Ciências Humanas e Filosofia. Niterói, RJ, Brasil. E-mail: hebe.mattos@gmail.com


FORTES, Alexandre; MATTOS, Hebe. Apresentação. Revista Brasileira de História, São Paulo, v.35, n.69, jan. / jun., 2015. Acessar publicação original [DR]

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Anais do Museu Histórico Nacional. Rio de Janeiro, v.47, 2015.

Edição completa

Apresentação 5

  • Introduction 7
  • André Desvallées: Entre museologias
  • Bruno Brulon 9
  • André Desvallées: Between museologies
  • Bruno Brulon 15
  • O Ecomuseu: museu grau zero ou museu fora das paredes? (1985)
  • André Desvallées 21
  • Ecomuseum: zero degree museum or museum outside the walls? (1985)
  • André Desvallées 27
  • Museologia nova 1985 ou O nascimento da “nova museologia” (1985)
  • André Desvallées 33
  • New museology or The birth of a “new museology” (1985)
  • André Desvallées 41
  • Uma virada da Museologia (1987) André Desvallées 49
  • Museology in a turning point (1987) André Desvallées 69
  • Apresentação à obra Vagues, Une anthologie de la Nouvelle muséologie, vol. 1 (1992)
  • André Desvallées 87
  • Presentation to thework Vagues, Une anthologie dela Nouvelle muséologie, vol. 1 (1992)
  • André Desvallées 111
  • Entrevista com André Desvallées
  • Bruno Brulon 131
  • Interview with André Desvallées
  • Bruno Brulon 151
  • André Desvallées: Trajetória profissional
  • Bruno Brulon 167
  • André Desvallées: Professional trajectory
  • Bruno Brulon 171
  • Patrimônio é o caminho das formigas
  • Mario Chagas 175
  • Heritage is the path of ants
  • Mario Chagas 197
  • A Missão Austríaca e a ‘outra’ Coleção Natterer
  • Analucia Thompson 215
  • The Austrian Mission and the ‘other’ Natterer Collection
  • Analucia Thompson 237
  • A invenção e a reinvenção da Nova Museologia
  • Bruno Brulon 255
  • The invention and reinvention of New Museology
  • Bruno Brulon 279

Contextos – Estudios de Humanidades y Ciencias Sociales. Santiago, n.34, 2015.

Artículos

Reseñas

Contextos – Estudios de Humanidades y Ciencias Sociales. Santiago, n.33, 2015.

Artículos

Notas

História e Literatura abordagens e diálogos/ Fênix – Revista de História e Estudos Culturais/2015

O dossiê História e Literatura abordagens e diálogos que tivemos o prazer de organizar, e a responsabilidade de apresentar aos leitores da Fênix – Revista de História e Estudos Culturais – reúne escritos de pesquisadores que atuam nas regiões norte e sudeste do Brasil e que tem realizado esforços em um campo muito debatido no interior do campo acadêmico, mas, relativamente ainda pouco praticado: a interlocução interdisciplinar. O elemento aglutinador dos trabalhos que ora apresentamos é a relação entre História e Literatura e os artigos revelam uma preocupação dos autores com os elementos estéticos do campo literário enquanto dispositivos mediadores de tal relação, o que, em última instância, revela os intrincados caminhos entre “realidade e ficção”. Contemporaneamente, a narrativa histórica como parte de um mundo imaginado não é uma concepção que cause estranheza à maioria dos historiadores. Um diálogo profícuo vem sendo realizado entre historiadores e especialistas em Literatura de diversas abordagens, o que tem ampliado a segurança dos primeiros para trabalhar com o material literário. Paralela e concomitantemente vários desses estudiosos do campo literário tem se deslocado de uma concepção de arte autonomizada em direção de uma concepção que re-considera que os fenômenos estéticos podem também serem historicizados. Leia Mais

O mundo do trabalho e trabalhadores e suas práticas sociais | Revista Historiar | 2015

Eis mais uma edição da Revista Historiar, que insiste na vontade de contribuir, divulgando estudos realizados por pesquisadores sobre temáticas diversas. Neste número, pautamos novamente os temas relacionados ao mundo do trabalho e trabalhadores e suas práticas sociais. Desta forma este número é especial, pois vivemos tempos difíceis nos quais há flexibilização nas relações de trabalho, ao mesmo tempo em que se vê o aumento do desemprego e a perda de direitos anunciada pelo atual governo interino, além da crescente precarização do trabalho, inclusive nas universidades públicas brasileiras. Estes elementos suscitam o debate e faz um chamamento para as discussões dentro e fora das universidades sobre temas caros: democracia, tolerância, violência, liberdade, organização sindical, movimentos populares, mídias, direitos trabalhistas etc

Destacamos nesta edição artigos que trazem olhares diferenciados sobre o trabalho, as experiências sociais, organização e expressão cultural dos trabalhadores: Leia Mais

A Escrita da História na antiguidade / Revista de Teoria da História / 2015

Quando os curricula, ementas e bibliografias sugeridos sobre a temática da história da historiografia são analisados alguns poucos nomes de autores antigos aparecem. Geralmente, há breves referências a Heródoto, Tucídides e Políbio e daí parte-se para Agostinho, quando muito Eusébio. O próximo nome a aparecer na lista daqueles que deram alguma contribuição para a escrita da história já é o de Giambattista Vico (1668-1744). Da mesma forma, uma rápida consulta aos planos de ensino das disciplinas que abordam a temática nas universidades brasileiras é suficiente para que se tenha a sensação de que pouca coisa aconteceu antes de Leopold von Ranke (1790-1880). Séculos e séculos de historiografia são, por vezes, reduzidos à idéias como “historia magistra vitae”, de que “os gregos viam o tempo de maneira cíclica”, ou que “na Idade Média se escrevia uma história eclesiástica”. Para Jonh Marincola, isto ocorre porque muitos avaliam a historiografia Antiga com os parâmetros e abordagens dos historiadores do século XIX i. Um outro motivo pode ser acrescentado, mais relacionado à especificidade do contexto brasileiro. Trata-se do fato de que a quase totalidade dos professores que lecionam as disciplinas teóricas dos cursos de história de nossas graduações, nas quais a história da historiografia costuma ser abordada, é composta por especialistas em temáticas contemporâneas ou História do Brasil. Leia Mais

Mundos do Trabalho no Maranhão Oitocentista | Regina Helena Martins Faria

A historiografia passou por uma guinada radical nas últimas décadas, especialmente no que se refere a seus objetos. Trabalhos comprometidos com a reconstituição das coisas do passado perderam espaço para aqueles dedicados a compreender como se pensavam as coisas no passado. Ou, nas palavras da autora da obra aqui resenhada, de uma historiografia voltada para as estruturas sociais e econômicas, desenvolveu-se uma outra mais preocupada com as mentalidades. As opiniões mais recentes tendem a enxergar a “nova história cultural” como uma das formas de reação à grande crise epistemológica que se abateu sobre as ciências sociais nas três últimas décadas do século XX: diante do esvaziamento dos grandes paradigmas que haviam amparado a pesquisa histórica nas décadas anteriores, frente à perda de confiança nas doutrinas e seus diagnósticos, percebeu-se a insustentabilidade das pesquisas que desejavam reconstituir a realidade global do passado, e ganhou importância observar como os indivíduos e os grupos atribuíram sentido ao seu mundo. Permanece ativa a discussão sobre o significado político dessa opção metodológica. Há quem atribua a esse movimento historiográfico um sinal negativo, reputando-o como conveniente aos grupos dominantes. Para os que assim pensam, a nova história cultural produz apenas discursos domesticados, incapazes de servir à luta. Leia Mais

Dinâmica Imperial no antigo Regime Português: escravidão, governos, fronteiras, poderes e legados: séculos XVII-XIX | Roberto Guedes

Nesta obra, Roberto Guedes organiza textos acerca do Antigo Regime Português, em especial, de suas práticas políticas, econômicas, religiosas e culturais, entre outras, ligadas à escravidão na América portuguesa e em outras colônias do Império Português. A coletânea se depara com o contexto “pluricontinental” da administração imperial portuguesa e propõe uma visão de interdependência da colônia face à metrópole.

O livro “Dinâmica Imperial no Antigo Regime Português” desdobra-se em cinco partes que enfatizam: escravidão, governos, fronteiras, poderes e legados. Esses cinco conceitos nos instigam a pesquisar a América portuguesa, convidando-nos a um caminho de descobertas da história do não dito e dos pequenos feitos nesse universo da Colônia. Leia Mais

História Urbana /Monções/2015

Com orgulho que apresentamos o segundo número da revista Monções, publicação semestral on-line produzida e editada pelo corpo discente do curso de História do Campus de Coxim da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS/CPCX).

Em nosso dossiê temático, sobre Urbanidades, contamos com as contribuições da professora doutora Gilmara Yoshihara Franco cujo trabalho “Confrontos pelo poder: Cuiabá como palco das disputas políticas e o assassinato de Antônio Paes de Barros (1903-1906)” analisa a cidade de Cuiabá com espaço de disputas políticas – nos primórdios da Republica brasileira –, que culminaram no assassinato do presidente do estado de Mato Grosso Antônio Paes de Barros.

Do nordeste brasileiro, contamos com os estudos da doutoranda Hilmaria Xavier Silva e do mestre Felipe Tavares de Araújo Silva, respectivamente os artigos “Sensibilidades urbanas: o lugar do lixo, do sujo e do limpo em Campina Grande (1947 A 1992)” e “Os ritmos que cartografam Natal: as construções de habitações populares na Cidade da Esperança e em Mãe Luíza na década de 1960”, que tem como preocupação pensar as identidades urbanas e suas espacialidades, seja pelo prisma das sensibilidades ou através de analise das políticas publicas.

Pensando os imbricamentos entre modernidade e tradição e seus impactos nas sociabilidades urbanas, temos as contribuições da doutoranda Lenita Maria Rodrigues Calado com o artigo “Campo Grande, MS, e as imagens que produz: o diálogo entre a “modernidade” e a “tradição” em espaços públicos” e dos pesquisadores Elton Alves da Cunha e João Maurício Gomes Neto com o trabalho “Memórias dos tempos de jogar e rezar: relações de sociabilidades e constituição de urbanidades em Rolim de Moura/RO”.

Como pensar a cidade não responde somente a contemporaneidade, o dossiê traz o trabalho “A cidade de Alexandria e suas comunidades político-religiosas na antiguidade tardia (SÉCS. IV E V D.C.)” do doutorando Daniel de Figueiredo, onde leitor irá encontrar um surpreendente debate sobre a diversidade político-religiosa que ocupavam o espaço urbano da cidade de Alexandria.

Por fim, postergo os sinceros agradecimentos ao o apoio e incentivo prestado pelo corpo docente e discente que compõem o Departamento de História da UFMS/CPCX, bem com, o Conselho Editorial da revista Monções.

Carlos Alexandre Barros Trubiliano

Organizador do Dossiê Temático: Urbanidades


TRUBILIANO, Carlos Alexandre Barros. Apresentação. Monções. Coxim, v.3, n.3, 2015. Acessar publicação original [DR]

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Poesia e Polícia – Redes de comunicação na Paris do Século XVIII – DARNTON (RTF)

DARNTON, Robert. Poesia e Polícia – Redes de comunicação na Paris do Século XVIII. São Paulo: Companhia das Letras, 2014. Resenha de: MENEZES, Fernanda Queiroz de. Revista Territórios & Fronteiras, Cuiabá, v. 8, n. 1, jan.-jun., 2015.

Robert Darnton é historiador, formado em Harvard, Estados Unidos, e com doutorado em História na Universidade de Oxford. É especialista em história da França do século XVIII; seus estudos estão voltados para o Iluminismo e para a Revolução Francesa. Em 2007, assumiu a direção da Biblioteca da Universidade Harvard.

Sua última publicação traduzida no Brasil é o livro “Poesia e Polícia – redes de comunicação na Paris do século XVIII”,1 e se trata de uma narrativa histórica que parte de fontes documentais – inquéritos policiais que foram abertos no ano de 1749 – apresentando assim na sua narrativa a existência de uma rede de comunicação que já existia em Paris desde aquele período.

Em uma época como a atual, em que as pessoas passam grande parte do tempo trocando informações, imagens, mensagens, por meio do celular, das redes sociais ou fazendo downloads, a comunicação se tornou a atividade mais importante na experiência da vida moderna, rodeando o curso da política, da economia e do entretenimento.

No entanto, a preocupação com a informação e comunicação não é característica específica da internet, tecnologia e televisão. Os seres humanos, a partir de diferentes usos de códigos e sinais, sempre se comunicaram. Em meio a essa discussão, Robert Darnton em Poesia e Polícia problematiza os usos comunicativos, durante o século XVIII, em Paris, de poesias e canções sobre os acontecimentos da época.

O livro é dividido em 15 subitens onde a narrativa vai-se construindo a partir das fontes documentais, que são uma gama de inquéritos policiais, por meio dos quais o autor pode rastrear e interpretar com base no que os detetives da época conseguiram constatar sobre os poemas que circulavam. Darnton utiliza ainda o diário de um aristocrata, irmão do chefe de polícia do período, “como um guia para o fluxo de informações que chegavam à elite política, semana a semana”,2 e os poemas, canções e alguns panfletos que circularam neste período.

Segundo o autor, o livro tem a sua importância por trabalhar com a oralidade de séculos atrás, investigando como as trocas de informações ocorriam também nessas sociedades, em busca de um elemento central, que até então estava perdido: Este livro é uma tentativa de preencher, em parte, essa lacuna. Em algumas raras ocasiões, trocas orais deixaram indícios de sua existência porque eram ofensivas. Insultavam alguém importante, ou pareciam hereges, ou minavam a autoridade de um soberano. Nos casos mais raros, a ofensa levava a uma investigação completa, conduzida pelo Estado ou por agentes da Igreja, o que redundava em volumosos dossiês, e esses documentos sobreviveram nos arquivos. As evidências que respaldam este livro pertencem à mais abrangente operação policial que encontrei em minha própria pesquisa em arquivos, uma tentativa de seguir a trilha de seis poemas por Paris em 1749, à medida que eram declamados, memorizados, retrabalhados, cantados e rabiscados em papel, em meio a uma enxurrada de outras mensagens, escritas e orais, durante um período de crise política.3 A narrativa inicia-se a partir da investigação do episódio que ficou conhecido como “O Caso dos Catorze”, iniciado com a prisão de um estudante de medicina que havia recitado um poema que criticava Luís XV. Segundo as fontes, ao ser interrogado na Bastilha, ele revelou a pessoa de quem obtivera o poema. Em seguida ocorreu uma série de prisões, pois, cada um que era preso entregava a pessoa que havia lhe passado o poema e, sucessivamente, prenderam-se catorze pessoas por participarem de recitais clandestinos de poesias. Mesmo que a maledicência, a difamação e o ataque ao rei fossem habituais no trabalho da polícia, a quantidade de prisões, os documentos e operações abertas para esse caso chamaram a atenção de Robert Darnton, que então formulou o seguinte problema: “por que as autoridades, as de Versailles e também as de Paris, se mostraram tão interessadas em perseguir os poemas?”.4 Ao seguir as pistas e indícios dessa pergunta, “podemos descobrir uma complexa rede de comunicação e estudar a maneira como a informação circulava numa sociedade semianalfabeta”.5 Esta problemática tornou-se um ponto central para a obra.

O “Grupo dos Catorze” era formado por pessoas que tinham o domínio da escrita, pela qual redigiam os poemas em papeis ou recitavam uns aos outros ou mesmo decoravam. Nesse sentido, a força da memória, o instrumento mnemônico, era algo muito significativo no sistema de comunicação do Antigo Regime, sobretudo as músicas.

Dos seis poemas, dois foram compostos para serem cantados em melodias populares (chansonniers) à luz dos acontecimentos do momento. Ou seja, preservavam a melodia e modificavam a letra à medida que os acontecimentos mudavam. Assim, “as canções proporcionam uma crônica a respeito das questões públicas, e existem em número tão grande que podemos perceber como as letras trocadas entre os Catorze se enquadram em ciclos de canções que levavam mensagens por todas as ruas de Paris”.6 O primeiro mandado de prisão se deu por conta de um poema intitulado “O exílio do M. de Maurepas” (era ministro da Marinha e da Casa Real e havia sido demitido e mandado para exílio meses atrás, por ordem do rei), no qual difamava a realeza e a atacava como “monstro”. Nessa sociedade, “difamar o rei num poema que circulava abertamente era uma questão de Estado, um crime de lése-majesté”.7 A missão da polícia era “rastrear o processo de difusão do poema no sentido contrário, a fim de chegar à sua fonte”.8 Cada uma das prisões trazia várias informações sobre a maneira com que as informações e os comentários satíricos sobre a política circulavam no meio social dos sujeitos. Porém, o que se imaginava até esse momento, por meio das pistas percorridas até aqui, era que se tratava de um ambiente bastante homogêneo, que os poemas circulavam apenas entre os próprios estudantes, padres, escreventes, o que seria o ciclo dos envolvidos no caso.

Todavia, quando a investigação ganhou maior abrangência, encontraram-se mais poemas que se intercruzavam com os seis, que eram “copiados em tiras de papel, trocadas por outras tiras de papel do mesmo tipo, ditados para mais copistas, memorizados, declamados, impressos em panfletos clandestinos e em certos casos adaptados para melodias populares e cantados”.9 Desse modo, a polícia percorria as informações, mas nunca encontrou o autor original do poema, pois se tratava de letras que as pessoas subtraíam, acrescentavam estrofes, modificavam frases. Tratava-se de um “caso de criação coletiva”, poemas que se cruzavam com outros, saltando frases modificadas, uma “cacofonia de sedição adaptada em rimas”.10 O Caso dos Catorze é entendido na obra como um inquérito de “opinião pública” e que, nesse sentido, e pensando no referido período, é fundamental para se compreender como afetou o curso dos acontecimentos pré-Revolução. Assim, uma das questões que o autor lança logo no início da obra é: como devemos entender a opinião pública numa sociedade? Já que esses poemas podem ser entendidos como um caso de opinião pública, Darnton distingue duas possibilidades teóricas sobre os estudos históricos em opinião pública: a posição de Michel Foucault e de Jürgen Habermas.

Porém, dentre as várias possibilidades e maneiras de apresentá-la, sobretudo valendo- se das duas interpretações, Darnton defende a ausência de uma imagem definida para esse conceito, sustentando que, diante do período estudado e da maneira como ele pode perceber o lugar e o modo com que esses poemas e canções circulavam, os dois pontos de vista dos autores citados não conseguem abarcar seu objeto. Portanto, um dos problemas levantados pelo autor, por meio das respostas, são os dados encontrados na pesquisa dos documentos, das fontes, apresentando um ponto de vista que compreenda o que é a opinião pública representada nesses poemas em questão, ou, se realmente se trata de um caso de opinião pública, o que não sabemos.11 Ou seja, Darnton ao adotar uma metodologia própria para análise do seu objeto não se preocupa em buscar uma teoria que dê conta de tal fenômeno (no caso a opinião pública), mas em estabelecer um diálogo a partir das fontes e assim construir a sua narrativa histórica.

Algo importante que o autor ainda destaca é que todos os catorze pertenciam às camadas médias de Paris, “de famílias respeitáveis e educadas, sobretudo de nível superior, embora alguns pudessem ser classificados como da pequena burguesia”.12 Nesse sentido, por conta dos padres e estudantes que foram presos, parecia haver certa homogeneidade entre os integrantes e o meio em que circulavam os poemas, sendo que é importante ressaltar que muitos deles não se conheciam, mas ainda assim detinham os poemas através da rede de comunicação que fora estabelecida. Porém, à medida que a investigação avançava, a polícia passou a se distanciar da igreja; ela se deparou com um conselheiro, com advogado, outros estudantes, enfim, a “transmissão se fez por meio de memorização, anotações e recitações em pontos estratégicos da rede de amigos”.13 Algo que chama a atenção do autor em sua pesquisa é que, mesmo depois de toda a investigação acerca da documentação, não dava para, nesse percurso, descobrir a origem do poema, porque “o rastro do poema 1 se tornara tão rarefeito que já não se podia distingui-lo de todos os outros poemas, canções, epigramas, rumores, anedotas e bons mots que iam e vinham pelas redes de comunicação da cidade”.14 A não distinção entre as pessoas que tinham acesso aos poemas tornou-se uma questão importante para entender a sociedade da época, pois, no caso dos Catorze, eles tinham acesso à leitura, eram de classes médias. Porém, a rede descoberta pela polícia não se limitava só ao mundo das letras, o que demonstrava que ela era composta por boa parte da população, sem distinguir a aristocracia das classes baixas. Por isso, muitas vezes os poemas foram convertidos em músicas para facilitar o recurso mnemônica, muito usado na época não só nos poemas, mas também nas canções.

Com efeito, consideramos como um ponto alto da obra o subitem 10 sobre a Canção. Este chama a atenção, pois, a partir do “Caso dos Catorze” e das investigações empreendidas, descobriu-se que havia naquele momento um descontentamento considerável por parte da população e até da corte de Versalhes em relação à figura do Rei na história da França. E ainda que tal descontentamento não era homogêneo, mas sim resultado de insatisfações diversas que ficaram claras nas alterações que eram feitas nos poemas ou nas canções e, a partir disso, na rede que foi constituída sobre os mesmos, já que “elas variam consideravelmente, porque a canção não parava de se modificar à medida que era transmitida de um para outro e à proporção que os acontecimentos da época forneciam material novo para versos adicionais”.15 Quanto a essa questão, o autor faz uma colocação que achamos muito pertinente sobre tais escritos (canção e poemas) na conclusão da obra: A exemplo de toda expressão simbólica, os poemas eram multivocais.

Eram ricos o bastante para significar coisas diferentes para pessoas diferentes, em todo o seu percurso de difusão. Reduzi-los a uma única interpretação seria interpretar mal seu caráter.16 Para concluir, podemos pensar que a obra se torna relevante pela inovação que traz com o seu trabalho metodológico, além do diálogo com a literatura, que achamos no mínimo inovador. Ao trabalhar com os poemas e canções, trazendo à tona uma série de questões que circundavam tal sociedade e foram importantes para pensar o contexto de uma época que, de alguma forma, expressavam um processo que estava iniciando, evidenciando as insatisfações e a rede de informações que desde já se formaram mesmo nas sociedades do século XVIII é algo que o autor consegue fazer muito bem. E isso, sem cair em teleologismos, pois não as vincula diretamente ao que ocorreu depois em 1789, mas, sim, utiliza suas fontes para demarcar o contexto de uma época e, pois, a importância da comunicação na história.

Com efeito, destacamos, assim, a significância do ofício do historiador na busca por novas fontes e novos problemas como bem coloca Michel Certeau na Escrita da História, além do rigor metodológico que deve ter ao tratar tais fontes para, assim, conseguir fazer, lembrando Marc Bloch, algo que é fundamental para a História: pensar as mudanças que ocorreram com os homens no tempo.

1 DARNTON, Robert. Poesia e Polícia – redes de comunicação da Paris do Século XVIII. São Paulo: Companhia das Letras, 2014.

2 DARNTON, Robert. Poesia e Polícia. Op. cit., p. 129.

3 Ibidem, p. 8.

4 Ibidem, p. 9.

5 DARNTON, Robert. Poesia e Polícia. Op. cit., p. 9.

6 Ibidem, p. 10.

7 Ibidem, p. 13.

8 Ibidem, p. 16.

9 Ibidem, p. 17.

10 Ide 11 DARNTON, Robert. Poesia e Polícia. Op. cit., p. 19.

12 Ibidem, p. 32 13 Ibidem, p. 26.

14 DARNTON, Robert. Poesia e Polícia. Op. cit., p. 27.

15 DARNTON, Robert. Poesia e Polícia. Op. cit., p. 81.

16 Ibidem, p. 148.

Fernanda Queiroz de Menezes – Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT). Núcleo de Pesquisa em História – ICHS Av. Fernando Corrêa da Costa, 2367 – Boa Esperança Cuiabá – MT – Brasil. CEP: 78060-900 E-mail : prof.menezes27@gmail.com.

Trabalho e Movimentos Sociais no Brasil / Vozes Pretérito & Devir / 2015

Os artigos que compõem o dossiê “Trabalho e Movimentos Sociais no Brasil” foram escritos por pesquisadores de diversas regiões do país – Nordeste, Sudeste e Sul. De um modo geral, estão centrados no campo da história social e refletem sobre as experiências cotidianas, condições de vida e trabalho de escravos no século XIX e trabalhadores livres no século XX, no meio rural e urbano. As ações dos trabalhadores são percebidas para além das relações de trabalho e dos movimentos organizados, buscando uma leitura que escapa à tradicional dicotomia que por muito tempo impregnou a historiografia brasileira. Nesse sentido, os autores estabelecem diálogos com a historiografia mais recente em que a história social do trabalho, a partir de sua aproximação com a antropologia e novamente com a sociologia, passou a integrar um movimento de superação das dicotomias no campo da história do trabalho. De outro modo, nesses Mundos do Trabalho são evidenciadas as redes de sociabilidade, como as experiências individuais e coletivas de sujeitos simples e suas atuações em processos históricos específicos, colocando-os no centro dos acontecimentos.

Em “O suicídio de Felisberto: a fazenda São Fernando entre elites e escravos (Vassouras – 1850–1888)”, Fábio Pereira de Carvalho procura demonstrar a construção da elite escravista de Vassouras, no período 1850 a 1888, através do estudo de uma fazenda em particular: São Fernando. Nesse sentido, o autor enveredou pela vida em comunidade de seus escravos, e em específico, do suicídio do escravo doméstico Felisberto. O seu enforcamento abre brechas para verificar como a construção da comunidade escrava, vista de forma não homogenia, implicou em uma lógica de prestígio e desprestígio que também estava relacionado com o trabalho realizado por determinado escravo.

Lia Monnielli Feitosa Costa, autora de “O mesquinho pão das mil e uma dificuldades: imigrantes, abastecimento e tensões políticas no discurso do jornal piauiense ‘A Época’ (1878)”, analisa tal periódico em suas edições do ano de 1878, relacionando a vinda de imigrantes do Ceará para o Estado do Piauí e o gerenciamento do abastecimento de carne e grãos, realizado pelo governo da época.

Em “Sobreviver e se organizar: o movimento contra a carestia e a formação da classe trabalhadora no Rio de Janeiro”, Kaio César Goulart Alves analisa as manifestações públicas contra a carestia, conduzidas pelos trabalhadores urbanos do Rio de Janeiro no ano de 1913. Segundo o autor, as campanhas contra a carestia mobilizaram trabalhadores urbanos do centro e dos subúrbios, qualificados e não qualificados. Os comícios públicos de protesto foram o método de ação privilegiado. Diante disso, Kaio traça um estudo sobre as manifestações dos trabalhadores nas ruas da cidade, em lutas pela sobrevivência, mas também pela formação de novos sindicatos, e pela conquista de direitos sociais.

Em “A trajetória do Centro Social de Monte Grave – Milhã / CE (1973 a 2000) ”, de Antonia Natália de Lima e Telma Bessa Sales, realiza-se um análise a respeito da conjuntura de fundação do Centro Social de Monte Grave (CSMG). A Associação foi constituída na década de 1970 na localidade de Monte Grave (Milhã / CE) e atuou no âmbito da saúde, educação e outros serviços sociais. A partir do uso de fontes orais a autora destaca o envolvimento dos sujeitos na organização da instituição e no estabelecimento das atividades da mesma.

Ramsés Eduardo Pinheiro de Morais Sousa é autor de “Na luta por direitos: As ligas Camponesas e a resistência aos grandes proprietários no Piauí (Campo Maior e Teresina, 1962- 1964)”. Ele analisa ações de resistência dos lavradores no processo de constituição das ligas Camponesas no Piauí e evidencia uma resistência ampliada dos camponeses e a existência de uma rede de solidariedade entre os lavradores. O dossiê temático é fechado com o artigo: “O Primeiro de Maio nos jornais anarquistas A Plebe e A Lanterna (1932-1935)”, de André Rodrigues, nele são abordados os sentidos e significados produzidos em torno dia do trabalhador a partir dos jornais na primeira metade dos anos 30, no Brasil.

A edição é complementada por dois artigos, uma entrevista e uma resenha. Ana Crhistina Vanali é autora de “Agnes Heller e Michel de Certeau: propostas de análise sobre a vida cotidiana. ” e “O Poeta do Riso e da Dor: A relação entre música e história na obra de Sérgio Sampaio (1970-1980) ” de Fabrício Nunes Mendes Brito. O livro “Le ‘nouveau’ Front National: Etude de la nouvelle ligne du parti à travers le discours” de autoria de Marine Le Pen, resenhado por Guilherme Ignácio Franco de Andrade e uma entrevista realizada com Paulo Pinheiro Machado.

Este volume traz à tona discursos e narrativas sobre as ações de sujeitos simples negligenciados pela historiografia tradicional. De um modo geral, os trabalhos aqui reunidos expressam várias possibilidades de estudos sobre os mundos do trabalho no Brasil a partir de uma perspectiva “dos de baixo”, dialogando com as diversas áreas do conhecimento.

Cristiana Costa da Rocha – Professora Doutora (UESPI)

Telma Bessa Sales – Professora Doutora (UVA)


ROCHA, Cristiana Costa da; SALES, Telma Bessa. Apresentação. Vozes Pretérito & Devir. Teresina, v.4, n.1, 2015. Acessar publicação original [DR]

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La casa de las Locas – PITA (EH)

PITA, Valeria Silvina. La casa de las Locas: una historia social del Hospital de Mujeres Dementes: Buenos Aires, 1852-1890. Rosario: Rehistoria, 2012. Resenha de: ANAHÍ, Guadalupe Pagnoni. Mulheres, beneficência e loucura: uma história social com perspectiva de gênero. Estudos Históricos, v.28 n.55 Rio de Janeiro Jan./June 2015.

A autora explora o surgimento e a constituição do primeiro manicômio de mulheres de Buenos Aires na segunda metade do século XIX. O livro se situa historiograficamente na história social com perspectiva de gênero, com o objetivo de restituir as mulheres à história e refletir sobre como o gênero e as relações entre homens e mulheres uniram perspectivas e práticas no passado. Pita incorpora as leituras da historiografía social latino-americana sobre Michel Foucault e Robert Castel com respeito ao controle social e à incorporação de novos atores sociais, para além dos trabalhadores. E nesta chave ela traz uma contribuição ao examinar o grau de efetividade das políticas de controle social e seu impacto nas vidas dos destinatários.

Em 1854, as damas portenhas integrantes da Sociedad de Beneficencia valeram-se das vicissitudes políticas que a província atravessava para concretizar um acalentado projeto. Ao se encarregarem do Hospital de Mujeres de la Ciudad de Buenos Aires, elas se dispuseram a criar um hospício próprio para as mulheres consideradas dementes. A causa das mulheres dementes foi tomada como estandarte da caridade pública, e com ela as damas da beneficência lograram não só abrir o hospício como convertê-lo numa questão política que deveria ser apoiada pelo governo portenho. A estratégia usada pelas damas para se (re)colocarem no mapa político portenho posterior à Batalha de Caseros (re)posicionou o papel social da beneficência pública perante as novas autoridades.

Por esses motivos, Pita não compartilha a visão historiográfica que considera a Sociedad de Damas de Beneficencia como uma instituição privada à margem da organização governamental, que apenas recebia apoio financeiro do Estado. A autora (re)define o papel social da associação como uma agência estatal composta por mulheres da elite portenha que se refugiou na órbita política provincial para logo passar à estatal. Ela mostra como as sucessivas gerações de damas da beneficência, com base na sua função de administradoras do Hospício, construíram um espaço de participação na conformação da estrutura do Estado. Da mesma forma, seu papel público sob o amparo de uma administração do Estado lhes permitiu tomar decisões de ordem coletiva, bem como controlar recursos. Numa sociedade em que os postos políticos eram de domínio masculino, a atuação ativa das “damas” no mundo associativo complexifica nossa visão da construção da mulher como sujeito da participação política.

Por outro lado, a batalha das damas se travou não só na vida pública, como no interior do manicômio. A tarefa de organização do hospício não foi simples; exigiu que se acomodassem as opiniões contrárias das participantes, seus conflitos, e que se chegasse a um acordo quanto à base do programa assistencial. As práticas e intervenções dessas mulheres poderosas com suas distintas iniciativas na vida social determinavam quem seria incluído e excluído delas, qual era a forma de ajuda aos pobres e como elas viam a sua ação na beneficência pública. Seu pertencimento à elite portenha nos mostra de que maneira essa classe social voltou a dar sentido aos parâmetros da exclusão social. Os acordos, negociações e contendas que as envolvem lançam luz sobre como o Estado ensaiava respostas diante da marginalidade, da doença e da pobreza.

Pita transita pelos pavilhões do hospício para indagar quem e em que condições era confinada ali. Essas perguntas expõem diante dos nossos olhos o cotidiano do lugar, um espaço de experiências onde, entre o consenso e a disputa, se manifesta um conjunto de práticas próprias do confinamento. Os fragmentos da vida em reclusão das doentes são pacientemente alinhavados com a ajuda de uma variedade de fontes pouco utilizadas em outros estudos institucionais (artigos médicos na imprensa, publicações científicas, rastros das pacientes, fichas de ingresso, diagnósticos de loucura etc.). Esses indícios configuram a rede de que fazem parte as “dementes” e seus responsáveis, tanto as damas da beneficência quanto suas cuidadoras, médicos e diferentes membros do Estado.

A loucura foi utilizada para difundir um discurso e uma intervenção médica que a ligou à periculosidade social. A partir de 1860 o conjunto de excluídas adquiriu novas dimensões, quando os juízes aprovaram o cumprimento de condenações penais na instituição. Um novo grupo de mulheres, as rés, veio aumentar o número internas. A presença das presas na instituição desencadeou a disputa entre as damas da beneficência e os juízes provinciais para determinar que tipo de mulheres deveria se internar. Invisíveis do lado de fora, heterogêneas do lado de dentro, cada paciente era uma história de como esconder, atrás dos muros, a pobreza. As damas e o Estado, através do confinamento, trataram de reprimir um amplo grupo de mulheres marginais, influindo na correção de suas condutas e ao mesmo tempo dando uma resposta à pobreza urbana. Pita dialoga com as notícias historiográficas de controle social para esquadrinhar o grau de efetividade das políticas do Estado e como as pessoas às quais elas se destinaram reelaboraram ou parcializaram sua influência sobre suas vidas.

No final do século XIX, as relações no interior do hospício se reconfiguraram novamente; um novo grupo de médicos havia se formado na Faculdade de Medicina e, guiado pelo alienalismo, batalhou para impor os preceitos científicos nas medidas tomadas pelo Estado para a assistência pública. A situação para as damas não ficou nada fácil; dentro da associação havia atritos entre as integrantes, a situação política portenha sofria percalços que influíam nas instituições provinciais, e a nova corporação científica lutava para impor seus próprios preceitos na direção da instituição. Sem dúvida, as damas saíram-se bem e fortalecidas, e paulatinamente se incorporou no manicômio o ideário científico sem entrar em contradição com o papel de reclusão da loucura e da pobreza que ele vinha cumprindo.

A profissionalização médica é complexificada pela autora à luz de estudos que não viram nela um campo uniforme e sem fissuras. A velha visão de uma “ordem psiquiátrica” dominante é deixado para trás para se examinar os claro-escuros das ações das elites científicas e estatais, nem sempre unidirecionais. Pita se afasta das visões historiográfícas que postulavam um poder médico consolidado e açambarcador de recursos que impôs seus projetos de reforma e modernização. Em seu lugar, enriquece a compreensão da prática médica como um contínuo trabalho desses profissionais em diferentes locais – cátedras, Assistência Pública, periódicos etc. – para lograr um consenso capaz de dar valor à sua posição.

Por volta de 1890, momento de conclusão do livro, a velha Convalecencia se tinha transformado numa instituição nacional. O Manicômio Nacional, com a ampliação de funções, funcionários e pacientes, gerou uma série de tensões entre suas antigas encarregadas, os médicos e os representantes do poder nacional. Numa assistência pública programada com aspirações nacionais se pôs em dúvida como seus diferentes protagonistas entendiam seus sentidos, tensões, expectativas e incertezas. A Casa de las Locas complexifica e permite visualizar uma história que todos conhecemos mas que sempre tinha sido enfocada a partir de um único ponto. O hospício, em sua relação com uma sociedade em contínua transformação, influiu na construção de um Estado insipiente que requeria um arcabouço assistencial. Em seu papel de agente estatal, o manicômio marcou quem e porque era apta a fazer parte da nova cidadania política. Para nos encontrarmos com as damas e as loucas, devemos apenas transpor os muros…

Guadalupe Pagnoni Anahí – Anahí Guadalupe Pagnoni é professora de História da Facultad de Humanidades y Arte – Universidad Nacional de Rosario (anahipagnoni@hotmail.com).

CLARK, K. Moscow – the fourth Rome (EH)

CLARK, Katerina. Moscow, the fourth Rome: stalinism, cosmopolitanism, and the evolution of Soviet culture, 1931-1941. Cambridge: Harvard University Press, 2011. 420 p.p. Resenha de: GOMIDE, Bruno B. Novos estudos sobre a cultura soviética. Estudos Históricos, v.28 n.55 Rio de Janeiro Jan./June 2015.

Katerina Clark possui uma rica trajetória como professora de eslavística na Universidade de Yale. Seus livros são textos incontornáveis nos estudos russos. Entre eles, destaquemos The Soviet novel: history as ritual (1981), releitura inovadora do realismo socialista, e Petersburg: crucible of cultural revolution (1995), que apresentou a dinâmica complexa da vida intelectual na ex-capital do Império Russo. O novo livro da autora mostra que ela segue na linha de frente do que talvez seja o veio mais forte dos estudos de história cultural russa nas últimas décadas: as relações entre Estado e cultura.

Moscow, the fourth Rome é uma pesquisa brilhante sobre a cultura internacionalista gerada na capital soviética entre os anos 1930 e 1940. O título da obra necessita de elucidação para o leitor não especializado: remete à passagem de uma epístola escrita pelo monge Filoféi, de Pskóv, no começo do século XVI, na qual se anunciava um novo papel especial destinado a Moscou após a queda de Constantinopla. A cidade russa, após o período de domínio mongol, emergia como o principal centro cultural, religioso, político e militar. O verdadeiro cristianismo migrara da “segunda” Roma, tomada pelos Otomanos, e encontrara sua residência final na cidade russa, que então seria ressignificada: não mais o centro de uma região específica, mas a sede de uma nova cultura de âmbito mundial, sobre a qual repousariam diversas esperanças messiânicas e apocalípticas. Muitos séculos depois, a Moscou stalinista se apresentaria como um novo centro produtor de expectativas internacionalistas, um farol a atrair as atenções de intelectuais, artistas e viajantes.

O termo “internacionalismo” pode gerar estranheza aos que estão acostumados à ideia, corrente nos estudos gerados na Guerra Fria, do fechamento da sociedade soviética especialmente durante o período stalinista. Mas a noção de um monolito inexpugnável é precisamente o ponto que Clark quer discutir, substituindo-o por uma sociedade dinâmica (embora altamente repressiva) em suas relações internas e externas. A obra se insere em uma leva recente de estudos sobre as conexões internacionais de intelectuais e instituições soviéticas, entre as quais se destaca o livro de Michael David-Fox Showcasing the great experiment: cultural diplomacy and Western visitors to the Soviet Union, 1921-1941 (Oxford University Press, 2012), que traça a história da VOKS, a sociedade soviética para as relações culturais com o exterior. Os estudos de Clark e Fox se beneficiaram da abertura de arquivos russos ocorrida após o fim da União Soviética, quando os materiais de diversas instituições (além de arquivos de indivíduos particulares) se tornaram disponíveis.

Embora a riqueza da documentação seja certamente um ponto forte desses estudos, a virada fundamental, principalmente no livro de Clark, reside na radical reformulação teórica do modo como o “alto stalinismo” tem sido interpretado. A leitura tradicional, desenhada já no começo da década de 1930, ganhou força depois da Segunda Guerra, com o encorpar das teorias sobre o totalitarismo, que acabaram por se transformar no paradigma interpretativo. A sociedade e os indivíduos soviéticos (inclusive e especialmente a intelligentsia) ali apareciam esmagados pelo Estado, paralisados e desumanizados por uma terrível máquina repressiva, com a qual pouca ou nenhuma relação teriam (salvo na figura dos “colaboradores”). Essa vertente da historiografia, hegemônica no campo dos estudos soviéticos e ainda hoje campeã de presença em livrarias e páginas de jornal, teve o mérito inegável de apontar as incontáveis brutalidades do regime e de reconstituir minuciosamente os mecanismos do vasto aparato autoritário montado no país a partir de 1917. Sofreu, contudo, um abalo sonoro a partir de fins da década de 1970, sobretudo com as pesquisas da historiadora Sheila Fitzpatrick, que colocaram em relevo a participação social e a intensa mobilidade social que subjazia ao processo. Os trabalhos de Clark e outros pesquisadores, especialmente do mundo anglófono, constituem um passo a mais na desmontagem do paradigma totalitário. O foco dos trabalhos mais recentes é procurar relações mais complexas entre os anos “vinte” e “trinta”, a atividade das vanguardas e o realismo socialista (e a ideia simplista, segundo Clark, de sua “imposição” pura e simples), intelectuais e Partido, abertura internacional e fechamento xenófobo, matizando o corte muito brusco que de hábito se faz entre esses termos.

É nessa linha que Clark irá estudar a nova capital soviética: “Alegar que a cultura soviética dos anos trinta originou-se com Stalin é personalizar excessivamente as forças que a impulsionaram (…). Stalin e o aparato partidário eram inegavelmente muito poderosos, e à medida que a década avançava, passaram cada vez mais a, de fato, encomendar e monitorar os produtos culturais (…) e a implementar seus esquemas preferidos, mas eles não eram figuras extra-sistêmicas, figuras externas ao sistema cultural, e sim colhiam e mediavam, de modo seletivo, algumas das correntes dominantes no pensamento da época” (p. 6-7). A história da cultura soviética não pode ser contada em uma narrativa linear – a substituição do iconoclasmo da vanguarda por um conformismo imposto pelo partido; ela precisa ser entendida na “simultaneidade de correntes e fenômenos díspares”, em que os intelectuais possuíam “certo grau de independência (embora não necessariamente de dissidência”) (p. 29), e eram “mais implicados no sistema (mesmo que em graus variados), produtos de sua época, do que geralmente se reconhece” (p. 29). A sociedade, mesmo em meio aos piores momentos de repressão, possuía certa margem de manobra e capacidade de negociação, e a cultura soviética stalinista dialogava com antigas tradições e linhas de força que, à primeira vista, poderiam lhe parecer completamente estranhas.

Esse conjunto de argumentos é exposto principalmente por meio da trajetória de quatro intermediários, que Clark chama de “patriotas cosmopolitas”: o diretor Serguei Einsenstein; o escritor e jornalista Iliá Ehrenbur; o jornalista e editor Mikhail Koltzóv; e o escritor, fotógrafo e diretor Serguei Tretiakóv. A trajetória deles entrecruza-se com a de Lukács, Brecht, Bakhtin e de personagens importantes das relações culturais entre a União Soviética e o Ocidente, em nove capítulos que apresentam as conexões entre Berlim e Moscou no começo da década de 1930, com uma reavaliação da famosa viagem de Benjamin à capital russa (“The author as producer: cultural revolution in Berlin and Moscou”); o papel fundamental do livro e da literatura na cultura stalinista (“Moscow, the lettered city”, sugerindo, inclusive, um instigante paralelo com ideias de Angel Rama sobre a cidade latino-americana); o papel da arquitetura no remodelamento da capital soviética (“The return of the aesthetic”) e das viagens (“The traveling mode and the horizon of identity”); as noções de “Literatura mundial” e “Cultura mundial” em meados da década (“‘World literature’/‘World culture’ and the era of the Popular Front,”); os elementos teatrais presentes nos julgamentos-espetáculo e na campanha antiformalista (“Face and mask: theatricality and identity in the era of the Show Trials”); o élan específico do envolvimento com a Guerra Civil Espanhola (“Love and death in the time of the Spanish Civil War”); a função do sublime em narrativas características, no cinema e na literatura, da cultura stalinista (“The imperial sublime”); e a intensa discussão, em diversos órgãos literários e instituições, sobre os gêneros épico e lírico e sua adequação à nova cultura (“The battle over the genres”).

A simples indicação dos temas dos capítulos dá uma ideia da extraordinária quantidade de sugestões de pesquisa que o livro contém. De modo geral, a escassa historiografia brasileira sobre a cultura da Rússia soviética ainda desconhece as questões centrais trazidas pela obra de Clark.

Bruno B. Gomide – Bruno B. Gomide é professor de literatura e cultura russa na Universidade de São Paulo e pesquisador do CNPq (bgomide@usp.br).

Cidadania/ historiografia e Res publica: contextos do pensamento político | John Greville Agard Pocock

O renomado historiador das ideias John G. A. Pocock afirma que, além de buscar as linguagens existentes em contextos históricos muito bem determinados, estabelecendo uma análise sincrônica dos discursos políticos, a sua própria inteligência histórica “tende para o diacrônico, o estudo de o que acontece quando as linguagens mudam ou os textos migram de uma situação histórica para outra.” (POCOCK, 2013, p. 276) E é dessa maneira que ele propõe os seus questionamentos e afirmações no interior do grupo já há muito conhecido como Linguistic Contextualism da “Escola do Pensamento Histórico e Político” de Cambridge. Ao se posicionar como um pesquisador mais interessado em performances discursivas, nas interações entre langue e parole (entendidas como texto e ação, respectivamente), Pocock, por meio de sua perspectiva teórica antiparadigmática (é equivocado pensar que ele seja um tributário da perspectiva de paradigma formulada por Thomas Kuhn, como o faz grande parte de seus críticos) e multidimensional, acabou por relegar ao anacronismo bibliotecas inteiras. Leia Mais

Coligay: Tricolor e de todas as cores | Léo Gerchmann

Pensar hoje na existência de “torcidas gays” presentes nas arquibancadas de futebol é certamente impensável — para não dizer perigoso —, tendo em vista os inúmeros acontecimentos relacionados à homofobia e mesmo às manifestações violentas de racismo espalhadas por todos os cantos destes espaços esportivos coletivos. No entanto, o mesmo não pode ser dito dos anos 1970-1980, quando em pleno regime ditatorial no país, uma expressão criativa, divertida e polêmica se fez presente no meio das torcidas organizadas do Grêmio: a Coligay. Esta resenha é sobre essa torcida e sua trajetória histórico-afetiva.

Escrito pelo jornalista gaúcho e gremista Léo Gerchmann, o livro Coligay Tricolor e de Todas as Cores busca o resgate da história do primeiro agrupamento de gays torcedores de futebol do país, que pertencia ao Grêmio Foot Ball Porto-Alegrense (FBPA). Um dos rastros que Gerchmann procura revelar é a visibilidade do torcedor como fundamental estímulo para o seu time e a peculiaridade vibrante que a Coligay mantinha em relação às outras duas torcidas organizadas do Grêmio à época (Eurico Lara e Força Azul)3. Leia Mais

História e historiografia de Goiás / Revista Mosaico / 2015

A revista Mosaico abre o ano de 2015 com um dossiê acerca da história e da historiografia de Goiás. Essa inserção é fundamental, pois a história regional costuma ser considerada uma filha “desprestigiada” de Clio. Mas, invertendo esse preconceito comum, e rompendo com aqueles que a praticam sem assumir, esclarecemos que consideramos os estudos regionais a base da pesquisa e do ensino em História.

A crítica ao eurocentrismo de nossos programas escolares e dos currículos de graduação é demasiado conhecida, mas a inversão para um conhecimento histórico contextualizado, relevante para o ambiente onde se vive, ainda não é fácil. Este número, portanto, assume a tarefa de fornecer subsídios para uma reflexão crítica em que o local é o lugar privilegiado para a percepção do global.

O primeiro trabalho apresenta uma perspectiva renovada para abordar a história religiosa goiana. Faz um quadro do trabalho clerical no século XVIII, sem cair na interpretação de cunho mais institucional e eclesiástico, nem tratar dos desvios, tão observados na historiografia mais recente. A valentia pode ser algo esperado do comportamento masculino, mesmo de sacerdotes, ou pode ser mal vista. Dentro dessa ambiguidade, os autores Eliézer Cardoso de Oliveira e Eduardo Gusmão de Quadros apresentam casos onde padres extravasam os princípios da convivência social “civilizada” e atuam com coragem e braveza nas relações sociais.

O segundo artigo busca relacionar o passado e o presente ao tratar dos estudos sobre os quilombolas, em especial dos denominados Kalungas, na história goiana. Fernando Bueno Oliveira e Maria Idelma Vieira D´Abadia apresentam aspectos que delinearam as representações desse grupo, construídas academicamente, e como eles “resistem” as descrições que foram feitas.

O artigo seguinte trata do importante governo de Luis da Cunha Meneses em Goiás, antes dele ser transferido para as Minas Gerais e se tornar imortalizado pelas Cartas Chilenas. A época coincide com a “viradeira” na Metrópole, quando várias medidas pombalinas foram rejeitadas, ao mesmo tempo em que a economia mineradora apresentava grande decréscimo. Então, Alan Ricardo Duarte Pereira estuda de modo instigante as dificuldades de articular esses níveis administrativos. O governador precisava reconstruir redes de respeito e de confiança, levando em consideração os interesses locais e a reordenação do sistema colonial em consonância com a administração da nova rainha.

O dossiê de história goiana encerra com um estudo acerca da medicina popular. Léo Carrer Nogueira tratou da compreensão dos estudos históricos sobre as práticas de benzimento, com dados mais específicos para dois municípios goianos. Vê não apenas a “resistência” desses homens e mulheres ao projeto cientifico da modernidade, mas também aponta para uma perspectiva de respeito e de integração desses saberes enquanto fonte relevante para a superação dos problemas cotidianos.

Os artigos que se seguem tratam de temas além do espaço-tempo goianos. O primeiro aborda o imaginário feminino na obra São Bernardo, de Graciliano Ramos. Vânia Borges Arantes aprofunda o ethos do mundo e das relações de gênero nessa interessante obra literária, realizando um cruzamento do método da análise do discurso com os estudos históricos.

Cada vez mais importante, o tema do terrorismo é estudado por José Roberto Bonome e Fernando Lobo Lemes. O artigo ressalta o afastamento necessário dessas práticas e o ensino transmitido pelas religiões, em particular, pelo Islã. Defende, ainda, que um cuidado interpretativo é necessário, além do conteúdo emocional que as ações terroristas evocam.

O conceito de Brasil Colonial tem sido criticado há algumas décadas, apesar de sua circulação ainda irrestrita. Partindo dessa premissa, Caio Cobianchi da Silva e Karla Maria Silva revisitaram tal noção em autores clássicos como Caio Prado Júnior e Fernando Novais, contrastando-a com a atual perspectiva em voga de inserir o Brasil no Império Português. Para os autores, esse conceito amplia e enriquece muito mais as perspectiva de estudo.

Por fim, o numero encerra tratando da relação do cinema com a política estadunidense atual. Mário Roberto Ferraro, partindo do paradigma indiciário, analisa o filme O Mestre dos Mares: o lado mais distante do mundo (EUA, 2003). Defende que, além dos aspectos mercadológicos, evidentes na produção hollywoodiana, os interesses geopolíticos do império se apresentam nessas produções. É ler e verificar os indícios apontados.

Eduardo Gusmão de Quadros

Fernando Lobo Lemes

Organizadores


QUADROS, Eduardo Gusmão de; LEMES, Fernando Lobo. Editorial. Revista Mosaico. Goiânia, v.8, n.1, jan. / jun., 2015. Acessar publicação original [DR]

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Feminismos e Patriarcado / Ágora / 2015

Intitulado “Feminismos e patriarcado” o objetivo deste dossiê é reunir estudos de história dos feminismos, na perspectiva de movimento social emancipatório que afirmou a igualdade e a liberdade para as mulheres, e do patriarcado, enquanto discurso normativo de papéis sociais de gênero.

Neste sentido, os artigos de Luciana Silveira, ‘Gênero e patriarcado em denúncias: a violência contra as mulheres idosas em Vitória/ES (2010-2012)’; de Vitor Bourguignon Vogas, ‘“Ven esta noche a mi puerta”: a desconstrução da “mulher frágil” em El Burlador De Sevilla y Convidado De Piedra’; de Kella Rivetria Lucena Xavier ‘“O Feminismo Triumpha!”: mulher e a imprensa patriarcal em Fortaleza na década de 1920’; de Elaine Borges Tardin e Lana Lage da Gama Lima, ‘A mulher militar brasileira no século XXI: antigos paradigmas, novos desafios’; de Mirela Marin Morgante, ‘Feminismos, patriarcado e violência de gênero: as denúncias registradas na DEAM/ Vitória/ES (2002-2010)’; e de Renata Oliveira Bomfim, ‘A Outra Florbela Espanca’, abordam ações de cunho feministas com as quais as mulheres superam as múltiplas opressões e explorações patriarcal-capitalistas que demarcam a sua experiência como ser social. E, os artigos de Fernanda Tais Brignol Guimarães e Vinícius Oliveira de Oliveira, ‘Os comerciais e a representação da mulher: a exploração do corpo e da imagem feminina na mídia’; de Aline Ariana Alcântara Anacleto e Fernando Silva Teixeira-Filho, ‘Problematizando gêneros: um olhar sobre o cinema brasileiro em busca de resistência ao patriarcado’, analisam a articulação do patriarcado ao capitalismo e ao sistema social de opressão das mulheres.

Por sua vez, os estudos apresentados por Cristiane Araújo de Mattos, “‘Patriarcado Público’: estereótipos de gênero e acesso à justiça no Brasil’; de Ana Carolina Eiras Soares e Neide Célia Ferreira Barros, ‘Palavras e silêncios: a ausência de centros de reabilitação de autores de violência doméstica no Brasil e as questões de gênero”; de Suellen André de Souza, “Vagaba Penha”: representações sociais e práticas de administração de conflitos de gênero nas delegacias de polícia de Campos dos Goytacazes’; de Luana Rodrigues da Silva, ‘O acesso à justiça no Juizado de Violência Doméstica e Familiar contra a mulher no município de Campos dos Goytacazes’; de Ana Carla Oliveira Pinheiro e Lana Lage da Gama Lima, ‘Gênero e políticas públicas: uma análise do projeto ‘Mulheres da Paz’’, priorizam discussões no âmbito da responsabilização do Estado e das políticas públicas na conquista de melhores condições de vida da população feminina e masculina que sofre violência de gênero. E, os trabalhos de Francesco Suanno Neto, ‘Família, demografia e mulheres: diálogo entre campos históricos’; de Ana Lucia Santos Coelho, ‘Infâmia, escândalo e pecado: relações de concubinato no Brasil Colônia’; de Renata Santos Maia e Cláudia J. Maia, ‘Os contos de fadas no cinema: uma perspectiva das construções de gênero, sua história e transformações’; de Kalline Flávia S. Lira e Ana Maria de Barros, ‘Violência contra as mulheres e o patriarcado: um estudo sobre o sertão de Pernambuco’, e, por fim, de Cristiane Galvão Ribeiro et al., ‘Representações sociais do casamento: um estudo intergeracional’, apresentam resultados de pesquisas que fazem reflexões sobre as relações entre as práticas do patriarcado e o comportamento feminino e masculino no âmbito da história social das relações de gênero.

O objetivo fundamental desse número da Revista Ágora é o de estimular, a despeito das conquistas sociais e dos dispositivos legais que postulam a igualdade de direitos entre homens e mulheres, novos estudos que levantem questões da prescrição normativa patriarcal, como uma forma de violência de gênero e de violação dos direitos humanos das mulheres, assim como a criativa e subversiva capacidade de resistência humana a prescrições impostas, em especial a resistência histórica das mulheres e dos homens nos diversos feminismos.

Desta forma, este dossiê contempla artigos que tratam da temática ‘Feminismos’ em seus múltiplos aspectos, assim como do tema ‘Patriarcado’ em suas várias vertentes, configurando diversas formas de dominação em diferentes períodos históricos.

Maria Beatriz Nader –  Organizadora.

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Alemanha 1918-1924: Hiperinflação e Revolução | Osvaldo Coggiola

Neste trabalho, o historiador marxista Osvaldo Coggiola enfatiza a importância do historiador econômico para a interpretação de fenômenos econômicos e suas consequências na sociedade e na política ao longo da história. Na análise do período 1918-1924 da história econômica alemã, Osvaldo Coggiola se utiliza de um referencial teórico rico, como algumas das teorias socialistas, Marxistas e Keynesianas, inserindo a importância de Rosa Luxemburgo e Karl Liebknecht para o partido comunista alemão em sua criação e desenvolvimento. Leia Mais

Paideia – Revista de Educación. Concepción, n. 56, 2015.

Este número de Paideia, revista de educación está constituido por seis Artículos: cuatro de ellos de investigación, un ensayo basado en una revisión de textos y una innovación didáctica; se agrega a ellos, además, una entrevista a dos grandes figuras intelectuales de nuestro medio como son Humberto Maturana y Ximena Dávila.

Editorial

Paideia – Revista de Educación. Concepción, n. 57, 2015.

Este número de Paideia, Revista de educación está compuesto de seis Artículos que prestan atención a los procesos educativos de distintos grupos etarios y sociales. En primer lugar, encontramos una propuesta para abordar las relaciones adolescentes de los jóvenes en edad escolar. El siguiente trabajo se refiere al desarrollo del lenguaje y sus posibilidades de aprendizaje en adultos mayores. Luego, profundizamos en los programas de educación especial con dos Artículos que observan su problemática desde una mirada internacional y nacional. Cerramos este número con dos Artículos dedicados a la educación técnico profesional, también en un diálogo internacional.

Editorial

Narrativas e escritas de si / Tempo e Argumento / 2015

Blogs, sites pessoais, cartas infantis e adultas, memoriais acadêmicos, livros de memória (auto) biográficos e / ou ficcionais, afinal, o que haveria de comum a todos estes artefatos culturais e tecnológicos – produzidos digitalmente ou não – que medeiam, no tempo presente, formas de sociabilidade, modos de ser e estar que ressoam em nossa época? Que mundo, que relações e que tipos de sujeitos esses dispositivos de comunicação, interação e construção de si, estão a narrar sobre a complexidade da experiência humana?

Na tentativa de enfrentar essas nada fáceis perguntas, esta edição da Revista Tempo e Argumento, volume 7 número 15 (2015.2), apresenta para discussão cinco (5) artigos escritos ao sabor de uma lógica memorial e emocional a partir de experiências pessoais. O conjunto desses artigos faz emergir outras subjetividades construídas na visibilidade de papéis e telas articulados a uma rede de pensamentos e de autores para quem a presença e a construção de si do e no tempo presente traz novas relações com o passado e expectativas em relação ao futuro.

Nesse panorama, no primeiro artigo, a professora Cristiani Bereta da Silva analisa narrativas digitais em blogs e sites sobre o Exame de Admissão, que vigorou no Brasil entre 1931 e 1971. Estes materiais foram tomados em seu sentido de ego-documentos, apresentados em uma narrativa problematizada, em que a autora os trabalha como escritas de si (autobiográficas) e onde se discutem as experiências subjetivas presentes nas dimensões memoriais e sua relação com a historicidade depois que a hiperconectividade alterou significativamente os fluxos do tempo e do espaço.

Da Espanha, uma professora e um professor, ambos pesquisadores reconhecidos internacionalmente, apresentam seus trabalhos na temática aqui em destaque e seus textos sinalizam preocupações em encontrar maneiras criativas e imaginativas para compartilhar seus estudos na área. O trabalho de Verónica Sierra Blass, da Universidade de Alcalá, está pautado em apontar as principais características da correspondência infantil e, com este fim, a autora problematiza as cartas como meios de expressão do “eu” da infância, seja como configuradora de uma identidade, seja pelo uso pedagógico institucionalizado nas escolas entre meados do século XIX e meados do século XX. O texto se faz acompanhar de diversas imagens de modo a amparar visualmente o trabalho desenvolvido. Daniel Escandell Montiel, da Universidade de Salamanca, discute a sociedade digital que permite a construção de uma ou mais identidades nos seus múltiplos espaços virtuais, o que acarreta a construção de uma narrativa do eu em todos esses âmbitos. A análise de relatos textuais e audiovisuais na Internet, empreendida pelo autor mostra que as narrativas do eu do mundo virtual abrem espaço para a confidência e a divulgação da vida íntima do sujeito, indicadoras de uma intimidade, em grande parte, teatralizada.

Pelo uso de uma bibliografia atual que dá consistência à documentação o artigo de autoria de Wilton Carlos Lima da Silva analisa memoriais acadêmicos como formas de narrativas de si que tratam do processo de formação intelectual e profissional. Condicionados à tradição institucional o trabalho está centrado em três memoriais produzidos por docentes da USP entre 1991 e 2003 e a abordagem privilegia o uso deste documento como fonte de pesquisa autobiográfica, por excelência. Méri Frotscher, em um contexto bem historicizado, interpreta a “escrita de si” em um conjunto de cartas–pedido enviadas entre 1946 e 1948 da Alemanha à prefeitura municipal de Blumenau-SC, Brasil. Este corpo documental permite à autora analisar estas informações a partir das estratégias retóricas empregadas na interlocução com o destinatário e identificar, igualmente, o imaginário existente acerca da cidade, a mobilização da identidade étnico-nacional e a maneira como se deu configuração de narrativas trágicas da guerra e do pós-guerra.

Pautados nas abordagens do Tempo Presente, dois artigos que se incluem neste volume, discutem, via moda e literatura confessional, trajetórias pessoais que anunciam experiências que enriquecem o universo da História e da Memória. Nesta clave, as professoras e pesquisadoras Ivana Guilherme Simili e Débora Pinguello Morgado, discutem a trajetória da estilista Zuzu Angel, na luta contra a ditadura civil-militar e em suas relações com as domesticidades, a vida pública e política nos conturbados anos 1960 e 1970, notadamente mostradas no filme que aborda aspectos de vida pessoal e profissional: “Zuzu Angel”. Já Ana Laura de Giorgi, da Universidad de la Republica del Uruguay, traz para conhecimento e discussão dois relatos pessoais publicados com duas décadas de distancia: Mi habitación, mi celda (1990) y Maternidad en prisión política (2010), com o objetivo principal de analisar a aposta política de suas autoras bem como refletir sobre os trabalhos da memória nestas narrativas pessoais do passado.

A entrevista deste número foi realizada, por Cristiani Bereta da Silva, com o Professor António Castillo Gómez, da Universidade de Alcalá. O autor, internacionalmente reconhecido, é professor Titular de Historia da Cultura Escrita tendo inúmeros trabalhos e parcerias no Brasil contribuindo para os estudos no campo da História Social da Cultura Escrita que visam superar a distinção tradicional entre a história da escrita, por um lado, e a história do livro e da leitura, por outro. Suas pesquisas, amplamente divulgadas em livros e revistas da área, dedicam especial atenção aos testemunhos escritos das pessoas comuns durante a Idade Contemporânea. Sua presença e sua colaboração neste número permitem pensar sobre a escrita como forma de salvar do esquecimento os seres humanos, de comunicar experiências, de transmitir as interioridades mesmo aos ausentes, de eternizar em folhas e telas, ideias e saberes que, como a leitura, produzem significados à ordem do existente.

Três resenhas completam este volume da Revista Tempo e Argumento. Na primeira delas, Raphael Guilherme de Carvalho apresenta a resenha, “Escrita de si e história da historiografia”, do livro de Patrick Garcia “Les présents de l’historien. Paris: Publications de la Sorbonne, 2014”, José Carlos da Silva Cardozo, resenha o livro de Pierre Bourdieu, intitulado “Sobre o Estado: cursos no Collège de France (1989-1992)”.(Tradução Rosa Freire d’Aguiar. São Paulo: Companhia das Letras, 2014, 573 p.) em que discute a concepção mais ampla de Estado propugnada por este importante autor e, finalmente, Karl Schurster, resenha o livro: Jefrey Herf. “Inimigo Judeu. Propaganda nazista durante a Segunda Guerra Mundial e o Holocausto”. (Tradução: Walter Solon. São Paulo: EDIPRO, 2014.)

Este número pretendeu tornar mais acessível o (re)conhecimento de múltiplas experiências humanas através das narrativas de si, em variados suportes, no Tempo Presente. O conjunto de textos aqui reunidos permitiu considerar que nesta virada digital palavras e imagens caminham juntas e enfrentam, com certa grandeza, esses novos tempos e essas novas gentes que somos agora e este armistício é bom para todos nós!

Fica o convite para uma leitura que, pela rede, dá acesso às narrativas de si, nas páginas de Tempo e Argumento!

Maria Teresa Santos Cunha

Luciana Rossato

Editoras- Chefe


CUNHA, Maria Teresa Santos; ROSSATO, Luciana. Editorial. Tempo e Argumento, Florianópolis, v.7, n.15, 2015. Acessar publicação original [DR]

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História do Trabalho / Aedos / 2015

Como explicitado no edital, o objetivo deste dossiê é reunir artigos que se voltam para a História do Trabalho. O conjunto diversificado de artigos aqui reunidos nos apresenta uma grande variedade de espaços, fontes, períodos e abordagens, demonstrando as possibilidades dos estudos sobre o tema para a compreensão histórica de diversas sociedades, especialmente a brasileira.

Dezenove artigos, de nove instituições de ensino, compõem o dossiê. A maioria dos artigos é de pós-graduandos da Universidade Federal do Rio Grande do Sul e da Universidade Federal de Pelotas – ambas as instituições são destaque no desenvolvimento de pesquisas sobre a temática, principalmente devido à atuação de docentes como Silvia Petersen e Beatriz Loner.

Oito artigos são desenvolvidos em programas de outros estados, o que colaborou para uma diversificação dos espaços de estudo apresentados nesse número: os estados do Amazonas e São Paulo, cidades de Sobral e Jaguaruana (Ceará), Recife (Pernambuco), e nas capitais do Rio de Janeiro, Paraná e Rio Grande do Sul, além de Pelotas (Rio Grande do Sul) foram os focos principais dos artigos. Há também estudos com abordagens nacionais, como trabalhadores na construção de ferrovias na Bahia, São Paulo e Mato Grosso, e transnacionais, que tratam da circulação de um artista militante e sua obra entre Brasil, Argentina e Espanha.

Assim como os espaços, os períodos estudados são diversos. A Primeira República e o Estado Novo são os mais frequentes nesse dossiê, mas os períodos da Colônia e do Império, assim como o a segunda metade do Século XX e Tempo Presente, também estão contemplados. Para tanto são usadas principalmente fontes jornalísticas, seguida das fontes judiciais e administrativas. A história oral é a fonte em dois artigos. O dossiê ainda conta um artigo que apresenta a potencialidade de diferentes fontes e seus possíveis cruzamentos.

Ao analisarmos as diversas temáticas do dossiê e os sujeitos estudados, podemos notar como cada vez mais as “barreiras” entre trabalho livre e escravo estão borradas, e como, já há algum tempo, os estudos dos mundos do trabalho não são habitados apenas por homens brancos urbanos no universo fabril. Há artigos sobre profissionais negros em Pelotas, escravos trabalhando em ferrovias em São Paulo, movimento camponês no interior do mesmo estado, trabalhadores libertos e trabalho doméstico em Porto Alegre e até a ainda pouco estudada mão de obra indígena feminina no período colonial, evidenciando um alargamento não só de fontes, temas e períodos, mas da própria forma de conceber e interpretar o que é trabalho.

É com muita satisfação, portanto, que a Revista Aedos apresenta o Dossiê História do Trabalho, que traz ainda alguns trabalhos apresentados durante as VIII Jornadas Mundos do Trabalho, intituladas “Histórias do trabalho escravo, liberto e livre” e realizadas pelo GT Mundos do Trabalho ANPUH / RS. Estes artigos, selecionados pelos membros do GT, estão identificados com uma nota de rodapé nos respectivos títulos. O número também contém sete artigos de temática livre, uma resenha e uma entrevista.

Boa leitura!

Micaele Irene Scheer – Doutoranda UFRGS

Guilherme Machado Nunes – Mestrando UFRGS

Membros da equipe editorial da Revista Aedos e do GT Mundos do Trabalho ANPUH / RS


SCHEER, Micaele Irene; NUNES, Guilherme Machado. Apresentação. Aedos, Porto Alegre, v. 7, n. 17, Dez, 2015. Acessar publicação original [DR]

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Infancia en la historia del tiempo presente / Tempo e Argumento / 2015

Infância e infâncias no tempo presente, abordadas no singular e no plural, têm centralidade neste Dossiê cuja organização esteve a cargo das professoras Susana Sosenski, da Universidade Nacional Autônoma do México (UNAM) e Liliana Ruth Feierstein da Universidade de Humboldt de Berlim. Estas estudiosas reuniram pesquisadores e pesquisadoras desta temática que são aqui apresentadas em investigações que remetem a vários tempos e lugares. São contribuições de autores e autoras reconhecidos que vêm do México, Alemanha, Cuba, Espanha e do Brasil, as quais se apresentam em sete (7) artigos, que permitem conhecer e pensar tanto sobre este complexo e multifacetado processo da construção social da infância, como sobre os percursos desses sujeitos que se singularizam, hoje, como seres históricos e de direitos.

Para pensar e construir novas bases para a história da(s) infância(s) foi necessário retroceder no tempo cronológico para municiar‐se de recursos ao entendimento deste tempo presente e, nesta perspectiva, o primeiro artigo de autoria das Professoras Gisele de Souza e Andréa Cordeiro, da Universidade Federal do Paraná (UFPR) vai ao início do século XX para fazer reflexões sobre o papel simbólico da infância na modernização da América, tendo por base empírica os debates nos primeiros Congressos Americanos da Criança (1916‐1922), momento em que a educação da criança foi considerada como motor do desenvolvimento das nações e do continente americano.

Solidamente fundamentados e mantendo a centralidade da interpretação em documentos oficiais, a historiadora Sílvia Maria Fávero Arend, da Universidade do Estado de Santa Catarina (UDESC), analisa o debate acerca das relações de trabalho no campo da infância, adolescência e juventude durante a construção da Convenção Universal dos Direitos da Criança pelos países membros da Organização das Nações Unidas e Organizações Não Governamentais entre 1978 e 1989. Seu artigo traz, igualmente, informações sobre a presença desta normativa internacional na legislação brasileira para as crianças, adolescentes e jovens instituída no Brasil no ano de 1990. Na mesma clave temática, Paulí Dávila e Luis M. Naya, professores da Universidade do País Basco, na Espanha, analisam a representação da infância na América Latina a partir dos discursos elaborados pelo Comitê dos Direitos da Criança, entre os anos de 1990 e 2013.

Pesquisa de base etno‐histórico da professora Alma Durán‐Merk, mexicana, que trabalha na Universidade de Augsburg, na Alemanha, apresenta as construções e as experiências da infância em um contexto migratório, tendo como alvo o caso de crianças alemães vivendo no México (1900‐1933). O artigo, através da fineza das análises comparativas, conclui, especialmente, que a ascendência estrangeira não é, por si, garantia de uma infância transnacional. A escrita como catástrofe é analisada pela professora Andréa Gremels, da Universidade Goethe / Frankfurt. Neste artigo, ancorada nas atuais preocupações acadêmicas em delinear a emergência dos estudos sobre infância(s), ela reflete sobre duas obras de caráter autobiográfico produzidas em 2006 por escritoras cubanas que vivem nos Estados Unidos e que destacam a narrativa de suas infâncias entrelaçadas com o momento histórico de Cuba que ocasionou um movimento diaspórico nos anos de 1970.

Na tentativa de romper um certo silêncio histórico que oblitera a presença de crianças em manuais escolares, o artigo da historiadora Susana Sosenski propicia uma alentada reflexão sobre a importância do ensino de história da infância na escola para que as crianças possam aparecer como atores sociais e não apenas como sujeitos subordinados ao poder dos adultos.

Fechando o Dossiê, o historiador Humberto da Silva Miranda, da Universidade Federal Rural de Pernambuco (UFRPE) analisa, nas páginas do jornal Diário de Pernambuco entre os anos de 1964 a 1985, como o discurso de abandono das crianças e as políticas públicas de assistência foram construídas nesse período sócio‐histórico, estabelecendo uma conexão com a atuação da Febem em Pernambuco, instituição fundada no primeiro ano da Ditadura Civil‐Militar.

Compõem, também, esta edição dois (2) artigos de demanda contínua que produzidos no tempo presente são como finas contribuições para a compreensão dos fenômenos de nossa contemporaneidade. Neles se articula uma rede de pensamentos em que a teoria e a empiria são tecidas em narrativas problematizadas que transparecem na qualidade dos textos. Mora González Canosa, da Universidade Nacional La Plata, da Argentina, descreve as políticas de construção do peronismo, nos inícios da década de 1970, detendo‐se às estratégias discursivas das Forças Armadas Revolucionárias (FAR) para legitimar sua identificação com o peronismo a partir de uma perspectiva marxista cujo objetivo final era o socialismo. Já o artigo de Luisa Delgado de Carvalho estuda e preserva o arquivo pessoal de Astrogildes Delgado de Carvalho, educadora que atuou nas décadas de 1930 a 1980 no Rio de Janeiro, na educação infantil e na formação de educadoras dos Centros de Atendimento ao Pré‐Escolar (Capes), juntamente com a Organização Mundial para a Educação Pré‐ escolar / Brasil / Rio de Janeiro (Omep / BR / RJ).

Na seção de Entrevista, há o testemunho do Professor Igor Alexis Goicovic Donoso, da Universidade Nacional do Chile, que respondeu a questões sobre seu trabalho em História Política com ênfase em História da violência política, que foram levantadas pelas doutorandas de História da UDESC / SC, Cristina Iuskow e Juliana Miranda da Silva. A resenha que integra este volume da Revista foi elaborada pela doutoranda Marilane Machado (UFPR) e discute, entre biografia e história, o livro da Profª Mary del Priore intitulado: O Castelo de Papel: uma história de Isabel de Bragança, princesa imperial do Brasil, e Gastão de Orléans, conde D’Eu.

Reafirmar e refinar um conhecimento epistemológico sobre a(s) infância(s) em inúmeros percursos foi um dos objetivos perseguidos neste Dossiê em que leitores e leitoras encontrarão nos estudos, esperamos, uma verticalidade fina e uma horizontalidade densa.

À leitura e ao desejo de que ela possa enriquecer os universos dos sujeitos e da cultura.

Maria Teresa Santos Cunha

Luciana Rossato

Editoras‐ Chefe


CUNHA, Maria Teresa Santos; ROSSATO, Luciana. Editorial. Tempo e Argumento, Florianópolis, v.7, n.14, 2015. Acessar publicação original [DR]

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História Oral e resistências na América Latina / Tempo e Argumento / 2015

História Oral – Resistências: América Latina / Tempo e Argumento / 2015

Se a história é mais que um baú de curiosidades sobre o passado, pois tem como tarefa articulá‐lo em função dos problemas e das demandas colocados pelos sujeitos na atualidade, a revista Tempo e Argumento busca cumprir essa função em suas edições.

Em 2015, trouxe a público os dossiês “Infância en la historia del tiempo presente”, “Narrativas e escritas de si”, e apresenta, nesta edição, o tema “História oral e resistências na América Latina”.

Dando continuidade ao competente trabalho realizado pela Equipe Editorial da FAED / UDESC e destacando o esforço concentrado do Colegiado do PPGH / UDESC na ação de integrar o crescente processo de internacionalização da divulgação acadêmica na área de História do Tempo Presente, esta edição vem inteiramente em formato bilíngue. Em específico, esta publicação reúne trabalhos de conceituados pesquisadores da América Latina, sinalizando para a emergência de pensarmos as lutas, as experiências e as resistências ao longo da história.

Os 8 artigos reunidos neste dossiê relacionam‐se ainda com comunicações apresentadas no II Seminário Internacional de História do Tempo Presente, atividade promovida pelo PPGH / UDESC e desenvolvida nos dias 13 a 15 de outubro de 2014, a partir da mediação do Prof. Dr. Luiz Felipe Falcão, como organizador do dossiê, junto a membros da CLACSO (Conselho Latino‐Americano de Ciências Sociais).

Como resultado desta articulação, o leitor terá condições de conhecer a atuação dos sindicatos dos trabalhadores em usinas nucleares, nas mineradoras e na indústria metalúrgica no México, no texto em coautoria de Gerardo Necoechea Gracia (Escuela Nacional de Antropología e Historia, México) e Patricia Pensado Leglise (Instituto de Investigaciones Dr. José María Luis Mora, México); o nascimento e desenvolvimento da esquerda revolucionária chilena, no trabalho de Igor Goicovic Donoso (Universidad de Santiago de Chile); os rumos e novas formas de atuação dos movimentos de esquerda no Brasil e as respectivas memórias relacionadas às militâncias e às organizações no passado, na reflexão de Luiz Felipe Falcão (Universidade do Estado de Santa Catarina, Brasil); a trajetória histórica do surgimento e dos novos contornos da esquerda colombiana entre 1958 e 2010, na coautoria de Mauricio Archila (Universidad Nacional de Colombia) e Jorge Cote (Universidad Nacional de Colombia); a relação dos movimentos guerrilheiros argentinos e a mobilização popular correspondente, no trabalho de Pablo Alejandro Pozzi (Universidad de Buenos Aires, Argentina); o papel da imprensa na fabricação de rumores como estratégia de desarticulação de organizações insurgentes durante os anos de 1970, por Alicia de los Ríos Merino (Escuela Nacional de Antropología e Historia); a trajetória do Partido Comunista chileno na luta contra o fascismo, no contexto da década de 1970, na autoria de Claudio Pérez Silva (Universidad de Santiago de Chile); e, finalizando o dossiê, o debate travado por volta de 1970 entre duas organizações armadas existentes na Argentina, com destaque para suas respectivas concepções sobre classes sociais, ideologia e a questão nacional, na contribuição de Esteban Campos (Universidad de Buenos Aires, Argentina).

No que diz respeito aos 2 artigos de demanda contínua, destacamos a importância das reflexões acerca de novas experiências no ensino de história no programa de história oral “Barakaldo ayer”: no primeiro texto, de autoria conjunta de Alex Ibañez‐Etxeberria, Iratxe Gillate e José María Madariaga (Universidad del Pais Vasco, Espanha), que se refere especialmente ao uso da metodologia da história oral como recurso de ensino e aprendizagem da história mineiro‐industrial na Espanha no Tempo Presente. Na sequência, apresentamos o artigo de Juliana Sayuri Ogassawara (Universidade de São Paulo), como proposta de reflexão sobre as relações estabelecidas entre os intelectuais franceses e argentinos na fundação do periódico Le Monde Diplomatique, na Argentina.

A resenha intitulada Da Organização das Nações apresenta o livro L’incendie planétaire. Que fait l’ONU?, na análise realizada por Daniel Afonso da Silva (Universidade de São Paulo) quanto ao posicionamento assumido pelo autor e diplomata francês Alain Dejammet quando avalia a atuação da ONU no que diz respeito a situações de conflito no cenário internacional, em meio às comemorações dos 70 anos da instituição.

Na sessão Entrevistas, trazemos a público 2 depoimentos, que consistem em relato de experiência profissional e atuação pública. O primeiro, mediante entrevista feita pelo Prof. Robson Laverdi (Universidade Estadual de Ponta Grossa), revela a atividade do Professor Diego Sempol, identificando sua percepção acerca da ditadura, do matrimônio igualitário, da teoria e demais lutas LGBT no Uruguai. Segue‐se a fala do Prof. Dilton Cândido Santos Maynard (Universidade Federal de Sergipe), com destaque para as práticas e perspectivas de abordagem sobre a História do Tempo Presente, em entrevista dada aos doutorandos Daniel Alves Boeira e Felipe Salvador Weissheimer (Universidade do Estado de Santa Catarina).

Vale ressaltar que nesta edição se altera a direção editorial da revista Tempo e Argumento. Apresentamos nosso agradecimento pelo voto de confiança do Colegiado do Programa de Pós‐Graduação em História da UDESC, bem como às colegas que nos antecederam na revista: Prof.as Luciana Rossato e Maria Teresa Santos Cunha. Encontramos a revista em excelentes condições, já consolidada e fortalecida no meio acadêmico, reconhecida nacional e internacionalmente. Grande responsabilidade para nós, mas também um desafio hercúleo em razão das novas políticas instituídas pelas agências de fomento no processo de avaliação e de financiamento de periódicos científicos no Brasil.

Finalizando, estendemos o agradecimento aos autores que contribuíram com a revista, em especial nesta edição. Esperamos que a participação de colegas pesquisadores / as de diferentes nacionalidades possam se somar a esta experiência na divulgação científica e no seu compartilhamento. Afinal, é aos leitores que a revista se dirige. Boa leitura a todos e a todas!

Márcia Ramos de Oliveira

Rogério Rosa Rodrigues

Editores‐Chefes


OLIVEIRA, Márcia Ramos de; RODRIGUES, Rogério Rosa. Editorial. Tempo e Argumento, Florianópolis, v.7, n.16, 2015. Acessar publicação original [DR]

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Religião / Estudos Históricos / 2015

Esta edição de Estudos Históricos preenche uma lacuna. Nos 27 anos de publicação da revista, o tema Religião, interdisciplinar por excelência, nunca foi tratado. Campo de investimento intelectual de historiadores, antropólogos e sociólogos – para não citar os teólogos –, religião e religiosidade são áreas de pesquisa que se impõem em contextos nacionais marcados pela colonização, diversidade e sincretismo. No caso do Brasil, um dos caminhos investigativos mais férteis por meio dos quais é possível aceder ao debate sobre identidade e nação passa pela religião – das relações entre Igreja e Estado às distintas matrizes religiosas que conformam nossa identidade cultural, o tema tem sido explorado e revisitado a partir de diversas perspectivas.

O presente número reúne historiadores e cientistas sociais que se debruçaram sobre diferentes objetos, compondo um panorama de análises vasto e multifacetado. A ordem dos artigos revela uma lógica histórica, que vai da Colônia à devoção popular contemporânea, tema do artigo “No sertão e na capital, salve Aparecida: peregrinações em Sergipe do tempo presente”. Em termos geográficos, a maioria dos artigos aborda a realidade nacional, com exceção de duas contribuições – “‘Morta de amor por Deus’: a vida exemplar de Dona Thomázia, uma mulher letrada e devota, que morreu em Lisboa, no ano do terremoto (1755)”, que analisa a produção literária de um frei beneditino lisboeta, e “Disputando a moral pública: a Ação Católica durante o primeiro governo Perón (Tucamán, Argentina, 1946-1955)”.

O tema das missões religiosas é tratado em dois artigos, “Os apóstolos dos sertões brasileiros: uma análise sobre os métodos e os resultados das missões religiosas dos capuchinhos italianos no século XIX” e “Uma Igreja distante de Roma: circulação internacional e gerações de missionários no Maranhão”, enquanto outros dois se dedicam ao vasto campo das religiões afro-brasileiras, ainda que suas abordagens em nada se assemelhem: “A religião dos bantos: leituras sobre o calundu no Brasil Colonial” e “Macumba surrealista: observações de Benjamin Péret em terreiros cariocas nos anos 1930”.

“Cultura confessional e luta por direitos no mundo do trabalho: Belo Horizonte, 1909- 1921” adota a perspectiva de uma história social do trabalho, enquanto “Pensando o Brasil: discurso religioso e prática social segundo Zilda Arns” pode ser lido na chave das análises históricas que tomam a biografia como fio condutor por meio do qual se desvelam práticas e representações sociais. Por fim, “Da tolerância à caridade: sobre religião, laicidade e pluralismo na atualidade” propõe uma discussão conceitual à luz das reflexões do filósofo Gianni Vattimo. Longe de esgotar as possibilidades abertas pelo tema Religião, os dez artigos que ora publicamos nos parecem representativos tanto da tradição desse campo de estudos como de suas fronteiras.

Uma última palavra para apresentar aos leitores duas novidades. Esta edição traz pela primeira vez a seção Colaboração Especial, inaugurada de forma primorosa pelo artigo de José Reginaldo Santos Gonçalves, “O mal-estar no patrimônio: identidade, tempo e destruição”, tema da aula inaugural proferida no Programa de Pós-Graduação em História, Política e Bens Culturais do CPDOC. Por fim, apresentamos o novo layout da revista, viabilizado por recursos do Edital de Apoio à Publicação de Periódicos Científicos e Tecnológicos Institucionais, da Faperj. É a segunda vez, desde que foi lançada, que Estudos Históricos passa por uma renovação gráfica. Sem abrir mão da sua identidade visual, o objetivo foi tornar a leitura mais agradável e estimulante. Esperamos que apreciem as novidades!

Luciana Heymann Quillet – Professora da Escola de Ciências Sociais da Fundação Getúlio Vargas (CPDOC / FGV).

Marco Aurélio Vannucchi Leme de Mattos – Professor da Escola de Ciências Sociais da Fundação Getúlio Vargas (CPDOC / FGV).

Paulo Fontes – Professor da Escola de Ciências Sociais da Fundação Getúlio Vargas (CPDOC / FGV).

Os editores


HEYMANN, Luciana Quillet; MATTOS, Marco Aurélio Vannucchi Leme de; FONTES, Paulo. Editorial. Estudos Históricos. Rio de Janeiro, v.28, n.55, jan. / jun. 2015. Acessar publicação original [DR]

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Metodologia do Ensino Superior com TIC | Educação a Distância e Práticas Educativas Comunicacionais e Interculturais | 2015

 


Referências desta apresentação 

Editorial. Revista EDaPECI – Educação a Distância e Práticas Educativas Comunicacionais e Interculturais. São Cristóvão, v.15, n.1, 2015. Sem acesso ao original [DR]

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Livros e leituras / Mnemosine Revista / 2015

Livros, leitura e múltiplas interpretações

“A maior parte do tempo de um escritor é passado na leitura, para depois escrever; uma pessoa revira metade de uma biblioteca para fazer um só livro.” Samuel Johnson

As palavras do escritor e pensador inglês Samuel Johnson (17091784) permite-nos conjecturar sobre a complexidade existente para se elaborar um texto: de início, a escolha de um assunto e sua consequente pesquisa; depois, a seleção de textos que possibilitem o estudo do conteúdo a ser pesquisado, que pode ser realizada em bibliotecas. A seguir, vem à leitura dos textos selecionados e, por último, a redação.

Hoje, no primeiro semestre de 2015, passados aproximadamente duzentos de cinquenta anos das palavras escritas por Samuel Johnson, e graças aos avanços tecnológicos, o acesso aos textos tornou-se facilitado, muito em decorrência da informática. Para muitos, com o advento e a proliferação da internet, a mudança de suporte, a tela e o teclado – que pode ser do computador, de telefones móveis ou dispositivos portáteis – substituindo o papel e a tinta, aumentou a eficácia no armazenamento, na manipulação e na maneira de comunicação e acesso aos textos anteriormente restritos apenas aos ambientes físicos de bibliotecas localizadas nos grandes centros (que podem estar perto ou longe do leitor) ou nos rincões mais afastados do planeta.

Na internet, as bibliotecas virtuais e os grandes repositórios de textos e livros permitem ao pesquisar o acesso a uma infindável quantidade de informações que, anteriormente, não se tinha. A cada ano, a quantidade de publicações e o aparecimento de periódicos científicos online aumentam substancialmente, ao ponto de não sabermos, ao certo, por exemplo, o número de revistas científicas existentes. As estimativas variam muito: a página do SciELO permite o acesso a mais de mil periódicos científicos em textos completos. O Portal de Periódicos CAPES dá acesso a mais de 35 mil revistas científicas.

Apesar de todas as facilidades no acesso aos textos e a dinâmica interativa da leitura e da escrita propiciada pelo computador, muitas pessoas ainda são reféns do folhear o papel físico e do sentir o cheiro de um bom livro “velho”. Outros aderiram ao texto digital, por propiciar leitura interativa e coletiva, em virtude das várias janelas hipertextuais multissequenciais que se podem abrir a todo o instante, fazendo com que a unidade de leitura se encaminhe rumo a novas e inesperadas conexões entre textos.

Ao lado dessas duas maneiras de acesso aos textos – impressos ou digitais – existem os leitores e pesquisadores que imprimem os textos online para lê-los no papel. Seja qual for a sua predileção, os textos do dossiê que vocês – leitores da revista Mnemosine – terão acesso, a seguir, foram escritos por leitores-intérpretes que compareceram a bibliotecas no desafio de escrever, após revirar os seus acervos na busca de respostas a suas inquietações e indagações de pesquisa.

Os onze artigos que constituem o presente dossiê analisam, a sua maneira, diversificadas práticas culturais e políticas transmitidas por agentes que intervieram nos episódios e processos históricos que participaram, possibilitando-nos conhecer, após as investigações de seus autores, as representações de mundo, os conceitos, as linguagens, as conjunturas históricas e as suas mais diversas formas culturais e políticas, registradas em uma determinada historicidade.

Guiando-se pela lógica de que a produção textual está imersa em circunstâncias, incidentes e intencionalidades do autor, operadas, por exemplo, para ensinar e desenvolver um espírito de universalidade, o dossiê se abre com o artigo de Rubens Leonardo Panegassi (Universidade Federal de Viçosa, UFV), que contextualiza a produção do humanista português João de Barros e o seu posicionamento político frente ao contexto histórico existente no reinado de dom João III.

Ainda com ambientação em Portugal, Adriana Angelita da Conceição (Pós-Doutoranda em História pela Universidade Estadual de Campinas, UNICAMP) apresenta-nos a obra “O governador de praças”, de Antonio de Ville Tolozano, que serviu às discussões políticas travadas pelo vice-rei marquês do Lavradio durante seu governo no Brasil.

A fundação da Biblioteca Pública de Lisboa, em 1796, ocorrida durante a regência de dom João, serviu de mote para Juliana Gesuelli Meirelles (Pontifícia Universidade Católica de Campinas, PUCCAMPINAS) apresentar o bibliotecário régio Antonio Ribeiro dos Santos e discutir a circulação de livros particulares naquele período.

A seguir, Francisco Topa (Universidade do Porto, em Portugal) comenta a obra literária de João Mendes da Silva e descortina as suas indicações de leitura no contexto do Rio de Janeiro de finais do século XVII.

Encaminhando-nos rumo à América hispânica, chegamos a Clementina Battcock (Universidad Autónoma Nacional de México, UNAM) e Sergio Botta (Sapienza Università di Roma, Itália) que lançam luz sobre a guerra entre incas e chancas representada na obra “Historia del nuevo mundo” (1653), do cronista Bernabé Cobo.

Já Patricia Escandón (pesquisadora do Centro de Investigaciones sobre América Latina y el Caribe, CIALC, da Universidad Nacional Autónoma de México, UNAM) apresentanos a obra “Historia general del Perú”, do frei Martín de Múria.

Utilizando-se dos fotolivros “Au Mexique” e “Brésil”, de Pierre Verger, Carlos Alberto Sampaio Barbosa (Universidade Estadual Paulista, UNESP, câmpus de Assis) discute a importância dos fotolivros na construção de uma cultura visual latino-americana e como Verger ajudou a elaborar uma identidade visual naqueles dois países na primeira metade do século XX.

Por intermédio das análises de Neuzimar Campos e Silva (Frade da Ordem Franciscana) e Neimar Machado de Sousa (Universidade Federal da Grande Dourados, UFGD) chegamos ao filósofo argentino Enrique Dussel, considerado um dos mais destacados expoentes da Filosofia da Libertação e do pensamento latino-americano.

O romance “Um rio imita o Reno” serve de inspiração para Rodrigo Luis dos Santos (Mestrando em História pela Universidade do Vale do Rio dos Sinos, UNISINOS) comentar a construção realizada por Clodomir Vianna Moog sobre o imigrante e descendente não vinculado de forma opcional à sociedade brasileira nas décadas de 1930 e 1940.

Roger Domenech Colacios (Universidade Estadual de Londrina, UEL, e Pós- Doutorando em História na Universidade Estadual Paulista, UNESP, câmpus de Assis) analisa as alterações realizadas pelo filósofo das ciências Bruno Latour em sua obra “Vida de laboratório: a construção dos fatos científicos”, escrita em coautoria com o sociólogo britânico Steve Woolgar, referente às edições francesa e brasileira, publicadas em 1988 e 1997, respectivamente, permitindo-nos pensar se as alterações realizadas em um texto impresso são apenas transformações dentro de uma obra ou se são transformações de um autor.

Assim, como autores e leitores que somos, cabe-nos praticar múltiplas interpretações dos impressos e textos eletrônicos que nos aparecem a cada dia.

Boa leitura!

André Figueiredo Rodrigues – Professor do Departamento de História da Faculdade de Ciências e Letras, da Universidade Estadual Paulista (UNESP), câmpus de Assis.


RODRIGUES, André Figueiredo. Apresentação. Mnemosine Revista. Campina Grande, v.6, n.1, jan. / mar., 2015. Acessar publicação original [DR]

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Arte Sacra no Brasil Colonial | Adalgisa Arantes Campos

O livro de Adalgisa Arantes Campos, intitulado Arte Sacra no Brasil Colonial, é um pertinenteapanhado histórico em busca de “uma visão de conjunto sem decair no genérico” (p.16) da chamada “arte” religiosa produzida no Brasil colonial. A autora é historiadora, professora da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e reconhecida especialista em temas ligados à história do Barroco luso-americano, de artífices e artistas coloniais, e da iconografia cristã. A obra é uma síntese introdutória-acadêmica resultante de investigações anteriores da autora, não sendo, todavia, fruto de um projeto específico de pesquisa. É dirigida a leitores acadêmicos, porém, devido à simplicidade de formatação e conteúdo objetivo, pode ser apreciada pelo público em geral.

A obra é composta por cinco capítulos, além da introdução, tendo ao fim um útil glossáriodos principais termos artísticos e religiosos usados no livro. Situa-se como “obra de cunho introdutório” (p.15) voltada principalmente à iconografia e suas concepções artísticas encontradas nas regiões do nordeste e centro-sul da América portuguesa, entre meados do século XVI e inícios do século XIX, não se reduzindo, contudo, “a uma história de estilos” estético-formais (p.15). Adalgisa Campos concentra sua atenção em obras sacras menos conhecidas e consagradas, mas com grande valor representativo, e também busca afastar-se do tradicional foco da historiografia à produção dos grandes centros urbanos (embora não deixe de incluir obras, por exemplo, de Ouro Preto e Mariana, tais quais as pinturas encontradas no forro da sacristia das capelas da ordens Terceira do Carmo e de São Francisco, esta em Mariana e aquela em Ouro Preto). Com isto, Campos, distancia-se do que chama de encadeamento estilístico, afim de não elencar diferenças e evoluções estéticas nas obras por ela analisadas. Desta maneira, sua abordagem coteja fontes escritas – cartas geográficas, como as de Minas Gerais no século XIX (p.30) dentre outras que equivalem a mapas urbanos, plantas arquitetônicas de conventos, igrejas paroquiais, e capelas construídas pelas ordens aqui estudadas; vistas e projetos arquitetônicos -com “obras remanescentes” (p.16) – esculturas de santos e anjos, pinturas e contruções – tendo sempre em vista a compreensão de sua materialidade, daquilo que podeser apreensível e apreciável por qualquer tipo de público, além de “sua significação, função social” (p.14). Para tanto, a autora amparou-se em bibliografia especializada no assunto (autores como Affonso Ávila, German Bazin, Myriam Andrade Ribeiro Oliveira, Percival Tirapeli, dentre outros) e em História da Cultura de modo geral (como Erwin Panofsky e Jacques Le Goff), de forma não exaustiva, mas suficiente para respaldar suas conclusões.

A apresentação dessa produção artística se faz juntamente com um breve histórico de seus criadores. Na América portuguesa, em geral as artes sacras estavam ligadas às ordens, confrarias, irmandades e companhias religiosas, mas também a leigos devotos que as produziam por suas próprias mãos, consumiam-nas e, ainda, promoviam-nas por mecenato (p.103). Essa percepção da inserção da “arte sacra” em um circuito social que não se restringe à sua produção ganha relevância diante da constatação da enorme importância da imagética em geral para a vida do português católico que, na América, vivia em ambientes societários carregados de conteúdos religiosos, cujas intensas e dinâmicas mesclas jamais ignoraram a centralidade do cristianismo e de suas pedagogias públicas. O capítulo primeiro está voltado às atividades cartográficas e geográficas que ocorreram desde o início da colonização portuguesa na América, e se desenvolveram na medida em que a colonização ia efetivando-se pelo território (já no século XVI foram produzidos muitos mapas em função da demanda europeia de desbravá-lo). Posteriormente, começam a proliferar centros urbanos, e daí advém a necessidade de realização, mais especificamente, de plantas urbanísticas, de vital importância inclusive para o planejamento das edificações religiosas.

A relevância destes documentos para o conjunto da obra de Campos reside no fato de tais produções conterem conceitos de linguagem visual com variáveis graus de sofisticação, todos devidamente considerados pela autora. Além disso, a proliferação de núcleos urbanos impunha a necessidade do trabalho de uma ampla variedade de artífices, como pintores e entalhadores, alguns dos quais merecem especial atenção de Campos; -como o cartógrafo João Teixeira Albernaz (?-1662), que atuou principalmente no nordeste,o entalhador Inácio Ferreira Pinto (1759-1828), que trabalhou na cidade do Rio de Janeiro, e o engenheiro da Capitania de Pernambuco, João de Macedo Corte Real (começo do século XVIII). Destacam-se também jesuítas conhecidos como “padres astrônomos ou matemáticos” (p.25), chamados assim por trabalharem no levantamento de latitudes e longitudes na América portuguesa, além de serem cartógrafos; -tais como Diogo Soares (1684-1701), que foi professor na Universidade de Évora, onde lecionou matemática antes de ir à América, e Domingos Capaci (1694-1736), seu parceiro de trabalho.

O segundo capítulo é dedicado à organização do clero regular e diocesano na América portuguesa, bem como aos aspectos institucionais eclesiásticos em geral, destacando, para além do Padroado Régio (onde o monarca era responsável pela administração e rendimento dos bens, edificação e reparação dos templos católicos,e também pela provisão dos materiais de culto, indicação e pagamento dos ministros), o mecenato do Rei. Quando este tornava-se mecenas, passava a suprir também as artes, as letras e outros aspectos da vida cultural em geral. De maneira pontual, mas muito relevante, Campos toca ainda na noção de tempo sagrado, do tempo que o devoto deveria dedicar a Deus, através de um breve histórico do calendário cristão de Portugal e sua vigência nas colônias americanas.

Os demais capítulos se concentram na apresentação histórica dos principais produtores e mecenas de arte sacra – além do Rei e de mecenas leigos, jesuítas, beneditinos, carmelitas, franciscanos – e seus programas iconográficos, com rápidos apontamentos de algumas obras específicas. As ordens regulares encomendavam obras e remuneravam os artistas, ou apoiavam um de seus membros com talento para produção artística, não remunerando-os necessariamente em espécie (p.39). Aqui, merecem atenção de Campos personagens como os beneditinos Domingos da Conceição da Silva (entalhador e escultor), Ricardo do Pilar (pintor e projetista de plantas) e Bernardo de São Bento; os franciscanos Apolinário da Conceição e Antônio de Santa Maria Jaboatão (ambos cronistas, este último de especial importância; e o carmelita Jesuíno do Monte Carmelo (pintor e dourador). Os membros das ordens Terceiras (leigos franciscanos ou carmelitas) são considerados “os grandes responsáveis por um mecenato artístico” (p.88), e poderiam ser irmãos confessos sem, contudo, fazerem votos de castidade e clausura, atuando como artífices em capelas nas igrejas das respectivas ordens, e oferecendo uma mão de obra qualificada para atividades “artísticas” como arquitetura, talha, pintura e escultura (casos como os dos célebres Antônio Francisco Lisboa e Manoel da Costa Ataíde). Por fim, Campos apresenta também a produção de leigos, dentre os quais não evidencia nenhum artista, mas sim exemplos de produções encomendadas por estes grupos e que também compõem o acervo sacro aqui analisado.

Uma das preocupações da autora foi a apresentação da diversidade artística colonial em sua singularidade, não se limitando à produção derivada das ordens institucionalizadas; assim, merece destaque a análise da produção, repita-se, ligada a mecenas leigos e a simples fiéis, como os ex-votos – obras produzidas em agradecimento a alguma graça obtida, e que poderiam ser desde pinturas rústicas e pequenas a prédios inteiros, tal como a capela primitiva do Santuário de Congonhas em Minas Gerais, erigida por Feliciano Mendes. Ao considerá-los “em sua materialidade, significação e iconografia”(p.109), Campos os torna pertinentes representações sacras e artísticas da vida colonial luso-americana.

A despeito da ausência de uma tese central, ou de teses fortes ao longo da obra, Camposmaneja com precisão as fontes, analisando-as de uma forma facilmente inteligível, o que faz com que o livro seja útil para além da academia. Além disso, traça um didático panorama dos séculos luso-americanos, bem como envolve o leitor na cultura religiosa da época por meio de obras cujos significados históricos tornam-se especialmente acessíveis por fazerem parte de um conjunto de imagens e convenções artísticas que não serão totalmente estranhas ao leitor, carregadas ao presente pelos ritmos próprios – lentos – de modificação de um catolicismo ainda fortemente vigente no Brasil. Por isso, deve-se lamentar que uma obra concentrada basicamente em análise de uma produção iconográfica apresente fotografias que poderiam ser mais apuradas, em papel melhor, e com resolução mais alta; também poderiam ser em maior número, principalmente as coloridas, e distribuídas ao longo do texto (não concentradas ao seu final), o que certamente daria ao leitor melhores condições de acompanhar a análise empreendida pela autora.

Trata-se, porém, de uma crítica de cunho editorial, que não diminui a qualidade do trabalho empreendido por Campos, bem como dos méritos gerais que tornam Arte sacra no Brasil colonial obra digna da atenção de especialistas e de não-especialistas.

Sarah Tortora Boscov – Mestranda em História Social no departamento de História da Universidade de São Paulo (FFLCH / USP – São Paulo-SP / Brasil). E-mail: sarahboscov@gmail.com


CAMPOS, Adalgisa Arantes. Arte Sacra no Brasil Colonial. Belo Horizonte: C/Arte, 2011. Resenha de: BOSCOV, Sarah Tortora. Um panorama das “artes sacras” luso-americanas. Almanack, Guarulhos, n.9, p. 191-193, jan./abr., 2015.

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Jamás ha llovido reyes el cielo… De independências, revoluciones y liberalismos en Iberoamérica | Ivana Frasquet

Jamás ha llovido reyes el cielo… De independencias, revoluciones y liberalismos en Iberoamérica, é uma compilação de textos de diversos autores sobre processos revolucionários no período de crise do Antigo Regime, de avanço de ideias liberais na Europa e nas colônias da América, e das independências dos territórios antes pertencentes a Portugal e Espanha. Foram reunidos, para tanto, um conjunto de autores especialistas no tema de acordo com cada região, em geral pesquisadores e docentes de renomadas universidades da América e da Espanha. A obra é dividida em três partes, contendo quatorze artigos e seu foco é, majoritariamente, a América espanhola, mas não esquecendo a experiência brasileira.

Como a editora da obra, Ivana Frasquet (da Universidade de Valência), esclarece, a primeira frase do título foi pronunciada por José Mejía Lequerica, nas Cortes espanholas reunidas em dezembro de 1810, como uma metáfora sobre a origem da soberania. Debatia-se, então, o futuro da monarquia espanhola, no contexto da abdicação e prisão de Fernando VII. Tais discussões questionavam a soberania do rei e onde esta residiria no caso de sua ausência. Este processo, como é sabido, repercutiu amplamente por toda a América espanhola, inaugurou um processo de formação de Juntas de Governo e desencadeou amplos debates em torno da representação política nas capitanias e nos vice-reinos americanos. Em vários momentos da obra, são evidenciadas mudanças de conceitos, linguagens e paradigmas políticos, em meio a ações e discursos realistas e independentistas.

A primeira parte, Los prolegómenos: el bienio transcendental, 1808-1810, é composta por cinco artigos, e trata do período de crise que se abre na América com a notícia da prisão de Fernando VII, que leva à criação de Juntas em todo o território. O primeiro, de Juan Ortiz Escamilla (da Universidade Veracruzana), La crisis política mexicana de 1808, mostra que a primeira tentativa de formação de uma junta governativa naquele que era o mais importante vice-reino espanhol da América foi derrubada por um golpe desferido pelos setores mais conservadores da sociedade novohispana, ao qual seguiram-se medidas repressivas para manutenção da ordem e obediência ao governo. Estas atingiram não somente os defensores do então vice-rei Iturrigaray como vários outros setores da população. O autor afirma que oscriollos tinham a intenção de formar uma Junta para preservar a soberania real e pleiteavam mudanças por vias pacíficas; além disso, a insatisfação frente ao bloqueio da representação das províncias para a Suprema Junta da Espanha foi outro fator que elevou os ânimos, aumentando manifestações contra o novo governo e endurecendo a repressão.

Em seguida, o artigo de Juan Andreo García (da Universidade de Murcia, recém-falecido), “La isla de Cuba y el discurso de la fidelidad durante la crisis de 1808. El contrapunto La Habana-Santiago de Cuba, discorre sobre o caso cubano, com uma crítica a um modelo de interpretação centrado no caso de La Habana, de destaque na historiografia, mas que segundo García não daria conta de eventos distintos que ocorreram em outras partes da ilha. Exemplo: Santiago de Cuba, onde muitos franceses, em geral imigrantes brancos, colonos agricultores, se estabeleceram fugidos, sobretudo, das convulsões políticas de cunho racial ocorridas em São Domingos. No momento da crise da monarquia espanhola, em que se declara guerra à França e quando foram instauradas medidas para a expulsão de residentes franceses de Cuba (1809), o tratamento a eles conferido teria sido mais brando em Santiago do que em Havana, onde 6 mil “estrangeiros” foram expulsos. Devido principalmente à contribuição destes ao impulso comercial, progresso econômico e social, acabaram por ser aceitos em Santiago, onde o governador Sebastián Kindelán agia com prudência. O autor elabora ainda um panorama histórico da evolução econômica da Ilha, assim como um balanço populacional em Havana e Santiago, e explica a escolha, aqui, por um caminho distinto do resto da América quando da crise da monarquia espanhola.

O texto seguinte, de Carlos Landázuri Camacho (da Pontificia Universidad Católica del Equador), “El proceso juntista en Ecuador: la Revolución quiteña de 1808-1812″explica a crise em Quito até 1812, elaborando uma cronologia contextual do processo de formação das Juntas na região, bem como um panorama histórico que ajuda a entender, segundo o autor, o fracasso da proposta revolucionária de 1809, já que desde a segunda metade do século XVIII, Quito vinha perdendo importância política e econômica. Por fim, o autor defende que o principal objetivo da primeira Junta (a “Suprema”) era reestabelecer sua autonomia, não tanto em relação a Madrid, mas principalmente frente os governos de Lima e de Bogotá.

Justamente este último é abordado a seguir, em “Una guía de forasteros del Virreinato de Santa Fe para el año 1810”, de Armando Martínez Garnica (da Universidad Industrial de Santander). Baseado em um documento homônimo, mas referente ao ano de 1806, o autor elabora, em colaboração com quatro outros historiadores (Daniel Gutiérrez Ardila, Roberto Luis Jaramillo Velásquez, María Teresa Ripoll e Zamira Díaz López) um guia biográfico, político e administrativo de mudanças ocorridas naquele vice-reino, suas origens e resultados. Tem-se aqui material informativo muito útil para pesquisadores para além de sua contribuição analítica.

Completando este primeiro bloco, o artigo de Gustavo Adolfo Vaamonde (da Universidad Central de Venezuela) “El processo juntista en Venezuela, 1810-1811”, apresenta uma revisão historiográfica do processo de formação de juntas de governo naquela capitania e das oposições a elas, destacando o caráter conservador implicado em uma recusa do modelo revolucionário francês ainda tão comumente enfatizado pela historiografia; em contrapartida, Vaamonde privilegia sua inserção em uma cultura política espanhola.

A segunda parte, Los actores: criollos, gauchos, negros y mujeres, é composta por quatro artigos sobre atores envolvidos nos processos independentistas. Aqui, é louvável a análise de sujeitos históricos que, não sendo típicos membros de elites, se politizaram e desempenharam papéis definidores na trajetória revolucionária. Tratando de relações sociais complexas, os artigos trazem a luz questões sobre alianças que transformariam a base de dominação colonial, e também questões de gênero, em geral ainda pouco abordadas na historiografia. Justo Cuño Bonito (da Universidad Pablo de Olavide), em “Esperando a Nunca Jamás: el inicio del fin de la dominación española en la Nueva Granada, 1794-1810”, faz uma exposição pormenorizada sobre o desenlace de tentativas “sediciosas” ocorridas a partir de 1794 e sobre o momento da chegada das primeiras notícias dos eventos ocorridos na Espanha em 1808. Cuño apresenta reações de setores da elite criolla e respostas de autoridades locais frente à turbulência política até a formação da Junta Suprema del Nuevo Reino de Granada. Embora mostre também a participação popular neste processo, seu foco incide, sobretudo, nos complôs políticos e disputas de poder.

Na sequência, Luiz Geraldo Silva (da Universidade Federal do Paraná), em “Negros en armas en el mundo iberoatlántico: del barroco a la modernidad, faz uma correspondência entre as histórias das colonizações espanhola e portuguesa e seus processos independentistas, com ênfase em suas milícias de negros e pardos. Mais precisamente, analisa os casos de Cartagena (Nova Granada), Pernambuco e São Paulo, contextualizando a formação de tais milícias desde o século XVI e revelando suas atuações políticas em momentos cruciais da história das independências em torno de uma tendência: pretos e pardos milicianos pendiam para o lado de tropas realistas nas regiões mais conservadoras, mantendo-se como força de apoio revolucionário em outras. Por fim, destaca a formação de Constituições (em Cádiz, Lisboa e Rio de Janeiro) e a questão da cidadania relacionada a tais grupos, em sintonia com crescente historiografia a respeito do tema.

Correspondente a ele, “La rebelión de los gauchos: movilización campesina en el norte argentino durante la guerra de Independencia”, de Gustavo L. Paz (da Universidad Nacional de Tres de Febrero), foca na formação de milícias de gauchosem Salta e Jujuy, no norte da Argentina. O autor discorre a respeito da transformação das relações entre donos de terras e outros setores de elite, o que envolvia massiva mobilização miliciana de gauchos a lhes proporcionar benefícios via alistamento. Nesse contexto, as relações sociais eliminariam dicotomias coloniais, inaugurando, segundo o autor, um conceito de igualdade com base na mobilização guerreira.

Por fim, em “Actrices en la independencia de México: buscando su lugar en la historia”, a editora do volume, Ivana Frasquet, faz uma crítica historiográfica sobre o papel das mulheres na independência mexicana. Frasquet considera a abordagem heroicizante, ainda vigente em muitas obras, deletéria para tais estudos, e sugere direções alternativas. Em seguida, discorre sobre a participação feminina no processo independentista novohispano, destacando nuances referentes ao gênero, e alertando para diferenças de atuação entre mulheres criollas, indígenas, mestiças e/ou de outros estratos sociais mais baixos.

A terceira e última parte do livro, Las Ideas: leyes, conceptos y lenguajes políticos, é composta por cinco capítulos. O primeiro, de Rossana Barragán (da Universidad Mayor de San Andrés)”Los discursos políticos de la represión: una comparación entre 1781 y 1809, analisa as falas dos julgamentos dos envolvidos em rebeliões indígenas andinas altoperuanas de finais do século XVIII, e na chamada Revolución del 16 de julio 1809″ em La Paz. Embora tradicionalmente considerados eventos sem ligação direta, a autora defende que no Alto Peru as experiências setecentistas foram fundamentais para a emergência do que viria no contexto de crise da monarquia espanhola, pois testaram alianças e demonstraram a força da repressão aos insurgentes.

Em seguida, Eduardo Cavieres (da Universidad de Chile), em “La independencia y el Primer Congreso nacional en Chile: ni ilustrados ni liberais: simplesmente republicanos?”, apresenta o caso daquela capitania, onde criollos lideraram a efêmera criação de um primeiro Congresso Nacional já em 1811. O autor analisa os princípios que influenciaram projetos e discursos proferidos naquela ocasião, em que se tentava elaborar uma Constituição para o Chile. Cavieres afirma que, embora a historiografia frequentemente aproxime essa experiência às ideias liberais, estas não se fizeram explícitas quando do esboço de um projeto de Constituição que, na realidade, falava em uma república.

No capítulo seguinte, “La administración de justicia en los orígenes del Império de Brasil (1822-1841)”, Andréa Slemian (da Universidade Federal de São Paulo) percorre as mudanças do aparato jurídico e de justiça, e a ampliação e consolidação institucional do Estado brasileiro no contexto inaugurado pela Independência, destacando a criação do Superior Tribunal de Justiça, do Código de Processo Criminal de Primeira Instância e sua reforma em 1841. Segundo a autora, de início, a intenção era afastar magistrados de carreira herdeiros do Direito português (em um momento específico em que se refutavam tais heranças em muitos aspectos da emergente realidade nacional brasileira), e isolar o judiciário de questões que envolvessem interesses públicos; num segundo momento, os juízes retomariam seu poder com a fusão entre funções policiais e judiciárias. A autora destaca ainda que, perante a necessidade de instituições para a manutenção da ordem pública e fortalecimento do Estado brasileiro, o Judiciário consolida-se como um poder autônomo.

A formação de outro Estado nacional, o Uruguai, é abordado em sequência por Ana Ribeiro (da Universidad Católica del Uruguay), em “Orden y Soberanía: dos conceptos clave en el proceso de conformación del Uruguay independiente”, no qual analisa dois conceitos chave empregados no discurso político da época. Ribeiro contextualiza a trajetória da Banda Oriental nas primeiras décadas do século XIX para focar, mais precisamente, nos conceitos de orden e soberania, devidamente relacionados com outros correlatos – povo, pátria enación – e que ganham significados e conotações variados a depender dos distintos momentos do processo em que se encontram e de acordo com os grupos que os empregavam.

Finalizando esta parte, o capítulo de Sajid Herrera Mena (da Universidad Centroamericana José Simeón Cañas), “El constitucionalismo liberal español en la historiografia centroamericana (siglo XIX): elogios, silencios y descalificaciones”, percorre registros sobre o regime constitucional espanhol em memórias que não tratavam de um Estado específico, mas da região em geral, e em manuais escolares centroamericanos, sobre os antigos estados membros da República federal (Guatemala, El Salvador, Honduras, Nicarágua e Costa Rica), analisando como os discursos mudavam de acordo com os interesses de cada narrador. O autor conclui que políticos e intelectuais que vivenciaram o regime constitucional espanhol, assim como os autores de tais manuais escolares, tentavam “inventar” fatos fundadores da nação e da república moderna: para alguns, “a revolução” iniciada entre 1811 e 1814; para outros, a independência de 1821, para outros ainda, a instauração da República Federal de 1824.

Nos últimos anos, é notável a multiplicação de coletâneas acadêmicas voltadas às independências ibero-americanas; esta, entretanto, destaca-se em alguns aspectos relevantes. Em primeiro lugar, por seu recorte espacial abrangente, contemplando regiões distintas, mas em diálogos temáticos que acabam por aproximá-las como unidades de análise. Em segundo lugar, por seu recorte cronológico, que embora esteja focado no período entre 1808 a meados de 1830, contempla também períodos anteriores, com o fim de aprofundar a compreensão do que veio depois. Em terceiro, por seus autores realizarem críticas historiográficas pertinentes ao mesmo tempo em que apresentam aspectos de realidades históricas que, se não são completamente inéditos, muitas ainda são de pouco investimento historiográfico. Finalmente, é louvável a preocupação de Frasquet em valorizar a experiência brasileira, aproximando-a da América espanhola (o que é patente não apenas nos capítulos de autoria de Silva e Slemian, mas também no de Ribeiro), o que resulta em interpretações coerentes e convincentes. Por tais motivos, que Jamás ha llovido reyes el cielo não venha a ser obra obliterada em meio a uma numerosa produção historiográfica afim, mas da qual é destacada e elevada represntante

Sheila Virginia Castro – Graduanda em História pela Universidade de São Paulo (FFLCH / USP – São Paulo-SP / Brasil). E-mail: svcastro83@gmail.com


FRASQUET, Ivana (Ed.). Jamás ha llovido reyes el cielo… De independências, revoluciones y liberalismos en Iberoamérica. Quito: Universidad Andina Simón Bolívar; Corporación Editora Nacional, 2013. Resenha de: CASTRO, Sheila Virginia. Sobre independências, revoluções e liberalismos. Almanack, Guarulhos, n.9, p. 194-198, jan./abr., 2015.

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Da escravidão ao trabalho livre/ 1550-1900 | Luiz Aranha Corrêa do Lago

Defendida em 1978 na Universidade de Harvard, a tese The Transition from Slave to Free Labor in Agriculture in the Southern and Coffee Regions of Brazil: a Global and Theoretical Approach and Regional Case Studies, de Luiz Aranha Corrêa do Lago, teve, apesar de menções favoráveis em obras como as de David Eltis (Economic Growth and the Ending of the Atlantic Slave Trade. Oxford e Nova York: Oxford University Press, 1987) e Robert Fogel (Without Consent or Contract: The Rise and Fall of American Slavery. Nova York: W.W. Norton, 1989), pouca reverberação nos estudos referentes à escravidão brasileira e seu processo de transição para o trabalho livre, circunscrevendo-se a uma restrita gama de trabalhos, como o de Eustáquio e Elisa Reis (As elites agrárias e a abolição da escravidão no Brasil. Dados (Revista de ciências sociais), 31, 3, 1988, pp. 309-341). A publicação de Da escravidão ao trabalho livre. Brasil, 1550-1900, versão revista e traduzida da tese de doutorado do autor, promete ampliar o campo de atuação das propostas historiográficas de Lago e traz relevantes abordagens sobre o período de transição do regime escravocrata para o trabalho livre no Brasil.

Luiz Aranha do Lago apresenta sua obra como uma análise de fundo econômico sobre o desenvolvimento da escravidão no Brasil e seu ulterior processo de transição para o trabalho livre. Ao longo do livro, o autor elege alguns momentos específicos da história do Brasil – tanto referentes ao período colonial como ao independente – que reverberaram na esfera econômica e alteraram relações de oferta e demanda, sobretudo de mão de obra e terra, levando a uma paulatina transformação do regime de trabalho.

A investigação se inicia pelos motivos que fizeram com que a escravidão fosse o regime de trabalho predominante na América Portuguesa durante os mais de três séculos de dominação colonial. Apoiado na “Hipótese de Domar”Lago defende que a ampla oferta de terras disponíveis na colônia, aliada à política portuguesa de doação de sesmarias a “proprietários inativos”, criou necessariamente uma economia produtiva pautada no trabalho escravo, já que, segundo Domar, “dos três elementos de uma estrutura agrária em estudo – terra livre, camponeses livres e proprietários de terra inativos (ou seja, que não trabalham na terra diretamente) -, dois elementos, mas nunca os três, podem existir simultaneamente” (p.29). Assim, nas regiões em que essa política colonial prosperou e a agricultura vicejou, a escravidão tornou-se o regime de trabalho dominante pela associação de uma alta relação terra-trabalho à existência de proprietários de grandes extensões de terra.

Lago faz ainda uma distinção em relação à disponibilidade econômica e à disponibilidade efetiva de terras. Ainda que haja uma ampla oferta natural de terras – exatamente o caso da América Portuguesa nos séculos da colonização -, proprietários que dominam praticamente a totalidade das terras cultiváveis, mesmo que não desenvolvam a agricultura em toda sua extensão e tenham poder para impedir que homens livres utilizem suas propriedades, fazem com que a relação terra-trabalho real seja menor em comparação com a relação natural. Assim, o recurso à escravidão não se deveu apenas ao fator terra, mas à própria escassez de mão de obra da colônia, que precisou importar trabalhadores de maneira forçada, na medida em que uma imigração de trabalhadores livres sem posse foi inibida pela escassez legal de terras.

A descoberta do ouro e a implantação de um sistema análogo ao das sesmarias – doação dedatas – fizeram com que o trabalho escravo permanecesse predominante nas áreas dinâmicas da economia colonial, de modo que este regime de trabalho se espraiava paulatinamente para as áreas mais ao sul da colônia, fomentando aumento demográfico, tanto via tráfico de escravos como pela imigração espontânea de portugueses. Mesmo com o retraimento da extração aurífera e de diamantes em fins do século XVIII, a economia mineira estimulou um crescimento urbano no centro-sul do Brasil, além de ter permitido que um sistema de escoamento da produção fosse montado entre Minas Gerais e o porto do Rio de Janeiro. Estas últimas características se aliaram a outro momento-chave que Lago atribui ao desenvolvimento da escravidão no Brasil: o início da produção cafeeira pelo sudeste, que “se expandiu sobretudo na província do Rio de Janeiro, ao longo do Vale do Paraíba, mas também em São Paulo e em Minas Gerais, afetando fundamentalmente a evolução econômica do país” (p.64-65).

Um dos méritos de Lago em sua obra é ter atinado para a brusca expansão da escravidão brasileira motivada pelo desenvolvimento das fazendas de café. Estima-se que dos 1,3 milhão de escravos entrados no Brasil ao longo da primeira metade do século XIX, cerca de 2/3, ou 900 mil cativos, seguiram para as regiões cafeeiras. Desse modo, o autor passa a delinear as alterações demográficas e de padrão de trabalho entre as regiões estudadas, enfocando mais detidamente a Cafeeira e a Sul, não sem apontar a diminuição relativa da população escrava no Nordeste, tanto pela perda de competitividade no mercado mundial, motivada pelo deslanche da produção açucareira cubana, quanto pela crescente exportação de escravos para as regiões cafeeiras.

Ao estudar o desenvolvimento da escravidão e do trabalho livre no Centro-Sul do país, tema que constitui efetivamente o núcleo da obra, Lago pretende medir o impacto das ações dos agentes econômicos que dizem respeito à oferta de terras e mão de obra. Iniciando a análise pela região cafeeira – dividida em quatro capítulos, cada um deles referente a uma província – o autor destaca o fim do tráfico de escravos em 1850 como ponto de forte influência sobre o futuro da instituição e sobre as possibilidades abertas a um novo regime de trabalho.

A situação econômica vivida por cada uma das regiões estudadas no momento de fechamento do tráfico condicionou, segundo Lago, o posterior desenvolvimento da questão da mão de obra. Enquanto as fazendas de café do Vale do Paraíba fluminense e do Norte de São Paulo encontravam-se bem abastecidas de escravos e em pico de produtividade em meados do século, o centro-oeste paulista e a região da Zona da Mata de Minas Gerais demandavam ainda braços para a lavoura. No sul do país, a escravidão se concentrava cada vez mais nas charqueadas rio-grandenses, tornando-se diminuta em Santa Catarina, com a decadência das armações de baleia, e residual na colheita do mate, no Paraná.

Nesse quadro de rearranjo da oferta de mão de obra, os fazendeiros do Vale do Paraíba fluminense e paulista tiveram, em um primeiro momento, uma valorização de seus capitais, na medida em que o fechamento do tráfico elevou sobremaneira o preço dos escravos. Posteriormente, porém, o esgotamento das terras, aliado ao envelhecimento dos cafeeiros já plantados, impediu que essa região buscasse soluções de longo prazo para a iminente falta de braços, que com a Lei de Ventre Livre de 1871 tornou-se preocupação geral entre os fazendeiros. O Sul do Brasil, pelo contrário, viu a escravidão perder importância relativa. A imigração subsidiada pelo Governo criou diversas colônias autônomas, não subordinadas à produção voltada ao mercado externo, de maneira que o aumento demográfico da população livre associado à exportação de escravos para as províncias cafeeiras – no caso de Paraná e Santa Catarina – e às baixas taxas de importação de escravos para o Rio Grande praticamente minaram as possibilidades de continuidade da escravidão na região Sul, criando uma sociedade baseada no trabalhado assalariado e na pequena propriedade de produção de subsistência e para o mercado interno.

No que pese a ampla pesquisa documental empreendida pelo autor para as áreas acima descritas, corroborada pela confecção de inúmeras tabelas relativas às pautas de exportação e demografia de cada uma delas, as conclusões não destoam substancialmente das expostas em trabalhos já clássicos sobre o tema, como o de Emília Viotti da Costa (Da Senzala à Colônia. [1ª ed.: 1966]. São Paulo: Editora UNESP, 2010). O exaustivo trabalho de levantamento econômico de Lago confirma, por exemplo, a decadência produtiva valeparaibana ao expor a queda nas exportações de café pelo porto do Rio de Janeiro na década de 1880. Em relação ao Sul do país, a tabela composta por dados demográficos de toda a região comprova a quase irrelevância da população escrava às vésperas da Abolição, componente de menos de 2% da população total nas três províncias. Nesses casos, o estudo de Lago agrega mais subsídios à análise dos fenômenos, mas não traz novidades fundamentais ao tema.

Caso distinto é o da análise do autor sobre a situação do centro-oeste de São Paulo e de áreas de Minas Gerais entre o fim do tráfico de escravos e 1900, passando pela Abolição em 1888. A expansão das fazendas de café em meados do século XIX trouxe o problema da escassez de oferta de mão de obra escrava para o centro das unidades cafeeiras da região. Ainda que contassem com escravos nas fazendas, o alto preço dos cativos advindos tráfico interno e a impossibilidade – legal após 1871 – de crescimento vegetativo da população escrava fez com que as primeiras experiências com trabalhadores livres se concentrassem nessa região. Investimentos particulares, em um primeiro momento, e dos governos provincial e central, em seguida, financiaram a vinda de milhares de imigrantes para o trabalho nas lavouras, de modo que a colonização na área cafeeira não pode ser comparada com a empreendida no sul do país.

O que o autor apresenta como novidade, no entanto, é a “mudança fundamental na organização do trabalho no setor cafeeiro de São Paulo (com a já mencionada exceção do norte)” (p.188). Lago considera que a “função de produção” da fazenda no período escravista esteve ligada a dois insumos básicos: “área total de terra cultivada com café e a turma de escravos chefiada por um administrador e por feitores”. Nesse caso, o escravo era tomado como a unidade de trabalho, de maneira que os cálculos sobre a produção da fazenda consideravam esse trabalhador como a unidade básica de mão de obra, ainda que este fosse passível, no campo, de posicionamento em turmas.

A alocação de imigrantes para o trabalho nos cafezais alterou essa lógica, criando renovadas “funções de produção”, “nas quais o insumo terra era o número total de pés de café sob os cuidados da família de colonos, e a família era a nova unidade do insumo trabalho“. Essa alteração não trouxe consequências apenas formais, mas alterou, de acordo com Lago, os padrões de supervisão do trabalho e alocação de tempo dos trabalhadores. Na medida em que cada fração da propriedade confiada à família de imigrantes era considerada um insumo terra, a unidade da fazenda foi quebrada, dando lugar a uma estrutura que mais se parecia com pequenas propriedades que cultivavam o mesmo produto do que com um empreendimento agrícola unificado. Sobre a mão de obra, Lago afirma que “cada família de colono era remunerada ‘coletivamente’ pelo trato dos pés de café e pela colheita, conforme o número de pés de café sob seus cuidados”

A originalidade da observação sobre a reorganização do trabalho na lavoura de café não é, no entanto, acompanhada por uma análise mais detida das consequências – tanto em relação ao volume de produção quanto à vida dos colonos – que essa mudança acarretou. Quais foram as vantagens, do ponto de vista do fazendeiro, desse novo arranjo de insumos? Se não havia vantagens visíveis, por que este foi o modelo mais aceito e difundido entre os cafeicultores no período compreendido entre a crise final da escravidão e o segundo quartel do século XX? Como explicar a afirmação de Lago de que a produção por trabalhador sob o colonato era maior que a observada para o período da escravidão, sendo que o próprio autor afirma haver maior liberdade dos imigrantes na alocação de seu tempo? As questões elencadas estão longe de ser tangenciais, pois vão ao cerne das reais consequências trazidas pela mudança do regime de trabalho na região mais dinâmica da economia brasileira em fins do século XIX, um dos principais focos do livro.

No posfácio de Da escravidão ao trabalho livre, Luiz Aranha Corrêa do Lago apresenta um longo conjunto de trabalhos publicados sobre a escravidão e sua transição para o trabalho livre entre 1978 – ano de publicação de seu doutorado – e 2014, quando lançou a edição revista e traduzida da obra. Os comentários do autor sobre cada um dos livros e artigos mais relevantes para a área mostram seu amplo domínio sobre a literatura recente e servem como um excelente guia aos interessados em acompanhar o desenvolvimento das reflexões sobre a escravidão no Brasil. Ao optar por não incorporar estas amplas contribuições ao longo do texto, Lago perdeu a oportunidade de debater suas teses com a recente historiografia, rever pontos problemáticos e fortalecer seus argumentos centrais.

Em suma, a publicação de Da escravidão ao trabalho livre amplia o alcance das formulações de seu autor, contribui com valiosas informações quantitativas referentes à produção agrícola e à demografia do período estudado, apresenta uma boa observação sobre a organização do trabalho sob o colonato – quando comparado ao regime escravista -, além de trazer um útil levantamento relativo à produção historiográfica recente sobre a escravidão e o trabalho livre no Brasil. Apesar das inegáveis qualidades, a obra não avança sobre os efeitos trazidos pelo novo regime de trabalho, deixando ainda de dialogar com os trabalhos mais recentes produzidos sobre o tema, de modo que a contribuição que Lago pretendia oferecer à historiografia referente à transição da escravidão para o trabalho livre no Brasil ficou aquém das potencialidades do livro.

Felipe Landim Ribeiro Mendes – Graduando no departamento de História da Universidade de São Paulo (FFLCH / USP – São PauloSP / Brasil) e bolsista de Iniciação Científica da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP – São Paulo-SP / Brasil). E-mail: felipelan@gmail.com


LAGO, Luiz Aranha Corrêa do. Da escravidão ao trabalho livre, 1550-1900. São Paulo: Companhia das Letras, 2014. Resenha de: MENDES, Felipe Landim Ribeiro. Uma história econômica da transição da escravidão para o trabalho livre no Brasil. Almanack, Guarulhos, n.9, p. 199-202, jan./abr., 2015.

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Historia de las clases populares en la Argentina desde 1516 hasta 1880 | Gabriel di Meglio

O livro em tela partiu de um projeto iniciado em parceria com Eduardo Adamovsky, cuja intenção era lidar com o tema em um recorte que iria até os primeiros anos do século XXI. Desdobrado em dois, o primeiro volume foi elaborado por Gabriel di Meglio, e aborda a ação das classes populares na Argentina entre os séculos XVI e XIX. É a obra de Meglio, doutor pela Universidad de Buenos Aires, onde também leciona História Argentina do século XIX, que vou apresentar ao leitor.

As duas questões centrais o livro são anunciadas no próprio título. Com qual noção de classes populares se está lidando? E o que é a Argentina antes da unificação sob um Estado nacional? Embora anunciada, a segunda questão não foi enfrentada. É o tema das classes populares na História que norteia o livro.

No ensaio bibliográfico, o autor lista e comenta as obras que subsidiaram sua reflexão. Ali, temos uma ideia do vigor da produção historiográfica argentina, sobretudo a de tempos mais recentes, e também encontramos uma referência que serve de pista para as opções de interlocução feitas por Meglio no desenvolvimento da obra. Ao remeter a denominação “classes populares” primeiramente a um artigo de Eric Hobsbawm, parece estabelecer-se um parentesco entre esta obra e a História Social praticada pelo grupo de historiadores marxistas ingleses dos quais Hobsbawm foi um expoente, particularmente por lidar com longas periodizações e pelo seu interesse em história dos camponeses e dos operários. Mas creio estarmos mais próximos de um parentesco com a chamada História Popular, na qual a agência das classes populares é definida prioritariamente a partir do Estado e das instituições afeitas a ele.

O recorte temporal, da chegada dos primeiros europeus ao surgimento da “Argentina moderna” em 1880, abrange um território que hoje denomina-se Argentina, mas que eventualmente inclui também outras regiões platinas, como Uruguai e Paraguai, reunidos no Vice-Reinado do Rio da Prata no tempo da colonização. O uso do termo para lidar com essa periodização cumpre funções didáticas: trata-se de uma Argentina antes da Argentina, o que pressupõe um pacto com o leitor para que a leitura possa fluir. Meglio quer tratar, aqui, da “história da gente comum, a que formava a base da pirâmide social, daqueles cujas recordações se perderam ou são difíceis de recuperar, de quem não tem ruas que levem seus nomes”. O resultado disso é apresentado cronologicamente e em duas partes.

Na primeira parte, dividida em quatro capítulos, é abordado o período colonial, entre 1516 e 1810. A segunda parte debruça-se sobre o século XIX (1810-1880), e conta com três capítulos sobre o período pós-independência.

O fato inaugural do primeiro capítulo é a expedição de Juan Díaz de Solís, em 1516, marcada pelo confronto com os charruas que levaria Solís à morte em território hoje pertencente ao Uruguai. O fato não é inaugural apenas cronologicamente, mas demarca simbolicamente como seriam as relações entre os invasores europeus e os nativos americanos. Esse é o objeto do capítulo, tendo como personagens os guaranis, os guaicurus, os ava e outros povos, bem como a centralidade de Assunção e do Peru para os estabelecimentos coloniais posteriores na bacia platina (Santa Fé, Buenos Aires e Tucumán, entre outros). Em que pesem as alianças (nem sempre cumpridas) firmadas com os índios, os espanhóis tiveram dificuldades em ocupar terras, em especial as mais elevadas. O empenho destes últimos não foi tão decidido como ocorreu nas áreas mineradoras do México e do Peru, o que tornaria o Rio da Prata uma região marginal no contexto do Império castelhano na América até o fim do período colonial. Ainda assim, a divisão da sociedade em dois grandes grupos – os espanhóis que mandavam e os “índios” que obedeciam – “foi a origem da sociedade hispano-criolla da qual provem a Argentina. E, também, foi a origem de suas classes populares”. No decorrer do século XVI, essa sociedade se tornaria mais complexa, com a chegada de mais colonos vindos da península e a criação das “repúblicas” estratificadas de índios e de espanhóis, permitindo o acesso dos colonos à mão de obra indígena. Logo, os mestiços entenderiam que seu lugar naquela sociedade não era definido facilmente.

Desiguais ante à lei, o segundo capítulo, define as dificuldades enfrentadas pelas classes populares nos séculos XVII e XVIII, nessa altura compostas por “um variado conjunto integrado por indígenas, africanos e seus descendentes – escravos ou livres – e distintos tipos de mestiços”. Na relação com os indígenas, tentava-se impor a transformação deles de membros de uma sociedade nativa em camponeses individuais. O tempo é a primeira metade do século XVII, quando boa parte da região de Tucumán ainda estava fora do controle colonial e prestes a se tornar cenário de uma guerra na qual a ação do aventureiro espanhol e falso inca Pedro Bohorques acabou amplificando a resistência indígena, o que levou à destruição das missões jesuítas na região. Desde fins do século XVI, a tendência era a da extinção da organização tradicional dos povos nativos, com as exceções de Jujuy e Santiago del Estero, cujos habitantes conseguiram utilizar as leis e justiça a seu favor contra a obrigação de prestar serviços pessoais aos invasores. Censos do século XVIII indicam a recuperação numérica da população indígena num quadro de reforma da tributação, abarcando um número maior de moradores, sobretudo índios que vivessem ou não em seus lugares de origem. Enquanto em Buenos Aires a população indígena declinava rapidamente, ao longo dos outros rios da bacia platina a Companhia de Jesus ampliava sua ação missioneira entre os guaranis, inclusive para fixar limites com os domínios portugueses. Fugas e rebeliões eram comuns nas missões, onde a rigidez das normas, os ataques de colonos vindos da América portuguesa, as epidemias e a fome tornavam a vida ainda mais dura. Ao mesmo tempo, grupos de indígenas não reduzidos ocupavam o Chaco, o Pampa e a Patagônia, evitando “serem convertidos em parte das classes populares do sistema colonial” e dominando as técnicas da guerra com cavalaria. A escravidão era central nessa sociedade, e a ela foram submetidos guaranis, araucanos e africanos introduzidos em Buenos Aires desde o tempo da união das Coroas ibéricas, e mais tarde vindos de Colônia do Sacramento, tanto por via direta como a partir de portos do Brasil. Os números não são exatos, mas milhares de africanos escravizados chegaram ao Rio da Prata entre 1580 e 1777. Por sua vez, os mestiços não tinham uma identidade precisa: eram filhos ilegítimos, frutos de uniões não consagradas. Mas além de biológica, a mestiçagem era também cultural, sendo alvo de diferentes tentativas de controle.

O capítulo 3, Trabalhadores, define o trabalho como experiência vital das classes populares. Assim, o texto privilegia as formas de exploração do trabalho e os fatores afeitos a ela, tais como a encomienda, o declínio demográfico, os usos da mão de obra na agricultura, na manufatura e no transporte. Uma das categorias de trabalhadores, os camponeses, dividia-se entre os que trabalhavam para fazendeiros e os que lidavam nas terras comunais. Os primeiros ligaram-se à pecuária, à produção de vinho e ao cultivo do arroz, setores produtivos onde se misturavam peões assalariados, escravos, agregados e índios encomendados em lugares como Tucumãn, San Juan e Mendoza. Nas cidades (Buenos Aires, Córdoba, Salta, San Miguel de Tucumán e outras), os trabalhadores eram em sua maioria artesãos, muitos deles mestres e donos de escravos, além de homens contratados por jornada nas construções, serviços de alimentação e abastecimento de água.

Costume e conflito, o quarto capítulo, traz ao leitor o universo da pobreza e da cultura de resistência das classes populares. Além da origem e da cor da pele, as classes populares eram definidas pelas autoridades a partir de seu grau de letramento e da forma como constituíam redes de pertencimento a grupos corporativos. A adesão ao catolicismo era central, e o capítulo nos diz algo sobre a vivência religiosa entre os populares: suas festas e diversões (rinhas de galo, bailes, touradas, corridas de cavalos), seus conceitos de honra e comportamento sexual (com destaque para as mulheres “plebeias”, com circulação mais livre nas cidades do que a desfrutada pelas mulheres da elite). Tudo isso permeado pelas tentativas de controle por parte das autoridades, ocasionando conflitos e tensões.

A segunda parte do livro inicia-se com A tempestade revolucionária (cap. 5), tendo como ponto de partida um dado da história política que demarca certa mudança na experiência das classes populares: a Revolução de Maio de 1810. Cerca de mil indivíduos (em uma cidade de 45 mil habitantes) apresentaram-se para reclamar umcabildo aberto em Buenos Aires com o objetivo de remover o vice rei e formar uma junta de governo. Mas, em outros lugares, a adesão popular não foi da mesma monta: no Alto Peru, em Córdoba, Montevidéu e Assunção, grupos pretendiam a fidelidade à regência estabelecida em Cádis. Em Salta e Jujuy, o recrutamento militar a princípio não se constituiu em problema, mas a partir da decisão de Belgrano de exigir contribuições materiais, criaram-se tensões com os populares. Como em outras partes da América do Sul, o uso do léxico revolucionário – independência, liberdade – chamou a atenção dos escravos para as contradições dos dirigentes do movimento. Por vezes, as contradições marcaram também as atitudes das classes populares, como os guaranis que, ao aceitarem a junta governativa portenha, o fizeram sob gritos de vivas a Fernando VII… Maio de 1810 também afetou os povos indígenas até então quase sem contatos com o regime colonial, ou aqueles cujas missões foram abandonadas e que se empregaram nas propriedades existentes. Em meio a diversos conflitos no interior do grupo dirigente da Revolução de 1810, faz-se a entrada da plebe portenha na política. Política institucional, Meglio não diz, mas é disso que se trata aqui: afinal, os quatro capítulos anteriores deixaram claro que a atuação dos populares era política ao menos desde o século XVI. Em todo caso, o autor entende a participação popular como uma das chaves da Revolução, com diferenças regionais sensíveis. De forma geral, alguns aspectos abarcaram a todos: o fim da era colonial, o poder das elites locais e a possibilidade de participação do “povo” no governo, agora na perspectiva da construção de algo que não existia na experiência prévia, colonial.

O livro deixa claro que a revolução, no território que em breve seria conhecido como Argentina, trazia consigo a questão da ordem. É esse o tema do sexto capítulo,Uma nova ordem. Diante de poderes atomizados, a tarefa dos dirigentes no quarto de século seguinte seria a reorganização institucional – o que teria implicações para as classes populares ao menos até meados do século XIX. Conflitos internos mesclam-se a guerras com os vizinhos, especialmente com o Brasil e Peru-Bolívia entre os anos 1820 e 1830, e a Guerra do Paraguai nos anos 1860. A experiência bélica traria consequências para a ação política dos camponeses e trabalhadores urbanos. O Estado e as elites tornaram-se cada vez mais “pesados” para as classes populares, oneradas com novos impostos para sustentar as formas armadas, com as leis visando a compelir os pobres ao trabalho ou ao recrutamento militar e os regulamentos do direito de propriedade. Ainda que os novos Estados e as novas elites fossem débeis, suas demonstrações de força se fariam sentir sobre os populares. A reconstrução do aparato produtivo, a recomposição de estruturas fundiárias que mantinham a ordem anterior ou introduziam novidades que beneficiavam muito poucos (como o arrendamento), a manutenção da tradicional manufatura de lã frente à concorrência dos tecidos ingleses de algodão: tudo isso afetou sobremaneira o modo de vida dos mais pobres. No âmbito da política, as autonomias regionais passaram a sofrer questionamentos e fortaleceu-se o processo de imposição do poder provincial único, seguido da unidade do Estado nacional. Nas diferentes províncias, os processos foram específicos. Em Buenos Aires, por exemplo, enquanto mantinha-se a politização da “plebe” na cidade, no campo as convulsões tornaram-se mais intensas do que no período revolucionário. Em todos os lugares, porém, é difícil clarear as razões da ação popular e deixar de considerar a inexistência de plena autonomia: havia os interesse dos caudilhos e as lealdades pessoais. Algumas razões são mais visíveis, como as lutas pela desmobilização militar, contra a religião oficial e pela tolerância de culto, contra o governo que não garantia o bem comum – na esteira de uma certa tradição política europeia não nomeada, mas que poderíamos comparar à economia moral.

A obra encerra-se com A era das mudanças, o sétimo capítulo. Tradicionalmente, a historiografia elenca a formação do Estado nacional e a expansão capitalista como os processos mais relevantes do período entre a independência e 1880. Aqui, não é diferente: constata-se o crescimento econômico argentino desde a década de 1840 e, com ele, o aumento da repressão estatal diante das ações políticas das classes populares. Ao longo de décadas, a criação de gado tornar-se-ia a grande atividade econômica argentina, ao mesmo tempo em que o preço das terras e os salários também sofreriam aumentos. Sistemas de remuneração seriam criados para diminuir a autonomia dos peões: parte era pago em dinheiro, parte era descontado para o pagamento de despesas de manutenção, sem um controle estrito por parte do trabalhador. O sistema de parcerias teve seu apogeu entre os anos 1850 e 1860, enquanto a camada de pequenos produtores, rendeiros e pequenos proprietários se reduzia. De fins da década de 1840 ao início da de 1880, consolidou-se o Estado e a identidade nacional, inclusive com a ocupação de territórios habitados por indígenas independentes e cuja autonomia fora pactuada anteriormente. Ao mesmo tempo, mudaram outras coisas. A introdução de mão de obra estrangeira começaria a transformar o perfil da força de trabalho: “em 1854 os estrangeiros era 8% dos trabalhadores de Buenos Aires e em 1870 já superavam 20%”, assim como começava um engajamento mais efetivo das mulheres das classes populares no mundo do trabalho assalariado. A introdução de um Código Rural não facilitou as vida dos “pobres pastores”, como aqueles que, em 1854, queixavam-se de ser caçados como avestruzes nos campos e diziam ser republicanos, embora fossem tratados como mulas sem direito à liberdade individual, a ficar com suas famílias, a evitar os abusos do recrutamento e a receber os benefícios sociais que as leis concediam aos estrangeiros. A hierarquia social acentuou-se, introduziram-se novas formas de consumo à europeia, melhorou a condição material de vida das classes populares urbanas, enquanto no campo tudo continuava precário. A Argentina tinha, então, apenas cerca de 13% de sua população vivendo em centros urbanos. No campo, havia o básico para a subsistência: casas de tijolos, tetos de palha e piso de terra, pouco mobiliário, instrumentos de trabalho rudimentares e vestuário diminuto. Entre os velhos e os novos trabalhadores, incrementou-se a ação das sociedades de socorros mútuos, notadamente em meio aos espanhóis, italianos e descendentes de africanos escravizados.

O livro de Meglio não cria uma nova história da Argentina. Os fatos e processos já conhecidos dos leitores, especialistas ou não, estão todos lá. O que muda, aqui, é o ponto de vista: sem descuidar da História Política, a abordagem do processo de formação nacional pelo prisma das possibilidades de ação das classes populares é o que diferencia esta obra de síntese. E ela é bem vinda por muitas razões, algumas das quais podem ser enumeradas.

O autor correu riscos, e é louvável que os tenha corrido. Primeiramente, ao anunciar a elaboração de uma História Popular, sem distingui-la da História Social ou dar-lhe uma definição mais precisa. Em segundo lugar, pela disposição em enfrentar uma periodização tão larga, o que não é comum entre historiadores, normalmente apegados ao conforto de lidar com suas especialidades temporais. Depois, por utilizar sem medo a noção declasses populares e, ao mesmo tempo, fazê-lo com rigor. Conta-se, ainda, a linguagem e a forma da escrita historiográfica, capazes de atrair historiadores de ofício e também um público mais amplo e interessado nas questões do passado.

Historia de las clases populares en la Argentina serve de estímulo para que historiadores brasileiros também se atrevam a empreitadas semelhantes, atingindo um público ávido e que, hoje, acessa a escrita da História pelo texto de jornalistas ou escritores descompromissados com o método e o rigor da pesquisa histórica. Se esses autores o fazem, entre outras razões, é porque os historiadores e as agências de fomento não entendem o texto de divulgação como um trabalho que lhes compete. E é preciso cumprir essa função com competência, razão pela qual a obra de Meglio, repito, é exemplar e vem em boa hora.

Jaime Rodrigues – Professor no Departamento de História da Universidade Federal de São Paulo (EFLCH / UNIFESP – Guarulhos-SP / Brasil). E-mail: jaimerod@uol.com.br


MEGLIO, Gabriel di. Historia de las clases populares en la Argentina desde 1516 hasta 1880. Buenos Aires: Sudamericana, 2012. Resenha de: RODRIGUES, Jaime. História Social, História Popular: o caso argentino. Almanack, Guarulhos, n.9, p. 203-207, jan./abr., 2015.

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O Atlântico revolucionário: circulação de ideias e de elites no final do Antigo Regime | José Damião Rodrigues

O livro deriva de um evento homônimo de 2010, ocorrido no Museu de Angra do Heroísmo, nos Açores, Portugal, organizado pelo Centro de História d’Aquém e d’Além-Mar (CHAM), com apoio da Universidade Nova de Lisboa e da Universidade dos Açores. Boa parte das apresentações se converteu em artigos para a publicação de 2012, havendo o acréscimo de apenas um autor não relacionado na programação original do colóquio.

O organizador e autor de um dos artigos, José Damião Rodrigues – professor da Universidade dos Açores na oportunidade do evento, e atualmente docente na Universidade Nova de Lisboa -, desvela na Nota Introdutória mais detalhes acerca da justificativa e dos parâmetros deste O Atlântico revolucionário: circulação de ideias e de elites no final do Antigo Regime. Comentando a retomada de interesse do estudo acerca dos impérios, indissociável de um panorama onde designações como Atlantic history e global history parecem entrar cada vez mais em voga, o autor enaltece a fomentação de pesquisas revisitando as turbulências e transformações entre os centros políticos europeus e suas respectivas periferias – sobretudo os espaços de domínio ibérico – nos século XVIII e XIX.

Dessa forma,

esta acção (…)pretendeu analisar o período axial que vai de 1750 a 1822 e no qual registramos a ocorrência de um conjunto de eventos fundadores da contemporaneidade política, social e intelectual à escala regional, nacional e internacional, como foram as revoluções americana e francesa, a revolta e a independência do Haiti, a mudança da Corte portuguesa para o Brasil, o início do processo das independências na América espanhola, a primeira experiência liberal em Espanha e a independência do Brasil. Sob este ângulo, pretendeu-se revelar a importância do Atlântico como um espaço para a circulação das elites enquanto factor de difusão de novas ideias e de valores fundamentais das sociedades contemporâneas e de construção de redes de informação. De igual modo, foi destacado o papel das ilhas açorianas que se, por um lado, mantinham as características de uma periferia, por outro, pela sua centralidade geográfica no coração do sistema atlântico, funcionavam como ponto nodal e placa giratória de uma densa rede de fluxos e refluxos (…) (p. 15).

Não obstante ter situado a temática das transformações desse âmbito atlântico, Rodrigues expõe outro tema que encontra muito espaço no desenvolver da obra. Pois tanto o colóquio original quanto a publicação se baseiam na celebração da memória de um acontecimento ilustrativo das transformações do final do Antigo Regime em Portugal: a Setembrizada. O evento constituiu-se no exílio de dezenas de presos sem culpa formalizada, acusados pela regência do Reino de colaborar ou simpatizar com a nova invasão francesa de 1810, chefiada pelo marechal Massena. Os deportados chegaram em 26 de setembro do mesmo ano às ilhas açorianas e muitos deles voltaram a ter participação ativa na conjuntura revolucionária liberal de 1820. Portanto, o colóquio organizado pelo CHAM também busca homenagear esses personagens ligados a introdução da modernidade política em Portugal.

Sem dúvida, a coexistência dos dois temas é uma das características mais marcantes do livro: a diversidade entre os artigos que o compõe. E, de fato, a obra se faz notável por exibir uma rica gama de matizes e vieses possíveis, através dos quais aborda a questão da circulação atlântica de elites e de ideias, deixando clara a fecundidade do objeto. Ao perpassar o índice, o leitor confirma isso ao se deparar com a listagem dos vinte artigos, saltando aos olhos a existência de capítulos escritos tanto em português como em espanhol, cujos títulos elencam desde revoltas escravas na Bahia do século XIX, passando pela ilustração no Peru durante o século XVIII, até um estudo sobre a heráldica portuguesa de finais do Antigo Regime.

Por outro lado, ainda que a diversidade de objetos e temas escolhidos no interior do espaço Atlântico seja latente, existe uma metodologia dominante em O Atlântico revolucionário .Dos vinte autores, oito optaram por se concentrar em um personagem, refazendo e evidenciando, através de suas respectivas trajetórias e produções documentais, pontos concernentes e reveladores de diversas dimensões da realidade pertencentes a essa conjuntura de transformações, compreendida entre os anos de 1750 e 1822, no espaço atlântico. Ao considerar as menos de quinhentas páginas para os vinte textos, fica clara a impossibilidade da publicação de estudos mais extensivo e análises mais minuciosas, contemplando dados e corpos de fontes mais volumosos. Portanto, a opção mais frequente de desenvolver os artigos sobre um personagem se revela bem conveniente, além de resultar em capítulos bastante objetivos e claros em suas intenções, expondo, por meio de casos de grande relevância, ainda que deveras circunscritos, uma profusão de aspectos de um mesmo espaço em um mesmo período de tempo. No mínimo, ficamos diante de valorosas indicações de caminhos para futuras pesquisas, aguardando trabalhos de maior densidade em sua continuidade.

“O espaço público e a opinião política na monarquia portuguesa em finais do Antigo Regime: notas para uma revisão das revisões historiográficas”, de Nuno Gonçalo Monteiro, abre oportunamente o livro, situando o leitor num panorama de referências e subsídios teóricos úteis para a apreciação de muitos dos artigos subsequentes, proporcionando um balanço historiográfico centrado sobre os dois conceitos presentes no título do capítulo – basilares para a compreensão das transformações do século XIX.

Em meio aos debates e pontos de inflexões historiográficos abordados por Gonçalo, são relembrados tanto Fernando Novais, para quem “desde meados do século XVIII (…) existiria uma crise estrutural do sistema colonial”, quanto o posterior trabalho de Valentim Alexandre, que “contraria claramente a ideia de crise do império ou da monarquia antes de 1808” (p. 22). Esse debate, retomado por Monteiro exemplifica o préstimo desse balanço historiográfico e sua aproximação com outros artigos do livro. Um dos elos possíveis se dá com “Remanejamento de identidades em um contexto de crise: as Minas Gerais na segunda metade do século XVIII”, de Roberta Stumpf. Desde o próprio título – ao reafirmar a crise do Império Português no século XVIII articulada com a Inconfidência Mineira – é visível não apenas a influência do pensamento de Novais sobre a produção de Stumpf, mas a própria vigência do acima citado debate nas páginas deO Atlântico revolucionário ,reiterando a adequação do balanço historiográfico de Monteiro na condição de primeiro capítulo.

Ainda a propósito do trabalho de Stumpf, a autora indica, observando o cada vez maior descompasso de interesses entre os naturais de Minas e a Coroa portuguesa nos fins do século XVIII, que, pelo estudo do vocabulário político dos Autos da Devassa da Inconfidência Mineira, torna-se latente a cisão identatária dos acusados para com as autoridades metropolitanas, ainda que os mesmos acusados ainda não tivessem uma nova identidade para o projeto no qual se empenharam.

Stumpf aplica, no recorte da Inconfidência Mineira, uma linha de trabalho anteriormente desenvolvida sobre a questão das transformações das identidades no interior da América portuguesa no período de crise, tema bastante pujante em uma historiografia que, nas das últimas duas décadas, inclui a própria autora. Nesse mote, são exemplos e referencias trabalhos como Peças de um mosaico (ou apontamentos para o estudo da emergência da identidade nacional brasileira) (István, Jancsó e João Paulo G. Pimenta, São Paulo, Editora Senac, 2000) e Filho das Minas, americanos e portugueses: identidades políticas coletivas na Capitania de Minas Gerais (1763-1792) (Roberta Stumpf, São Paulo, Hucitec, 2010).

Em “Wellington em defesa dos jacobinos? A setembrizada de 1810”, Fernando Dores Costas analisa a efeméride que serviu como ponto de partida para o colóquio, esmiuçando-a e delineando-a como ação arbitrária e desesperada da Regência portuguesa. O intuito desta seria angariar a confiança da população no momento de crise, em uma Lisboa abandonada pela família real e sob ameaça de uma nova invasão de tropas francesas, contra algumas figuras transformadas em bodes expiatórios, acusadas de colaboração com os franceses. Ao centrar-se na trajetória nos escritos de alguns dos exilados nas ilhas açorianas – como o baiano Vicente Cardoso da Costa; José Sebastião de Saldanha de Oliveira e Daun, elemento de primeira nobreza e o médico Antonio Almeida -, o autor demonstra disparidades de pensamentos e trajetórias desses chamados setembrizados, invalidando um pressuposto, decorrente da acusação, de que formariam um grupo coeso e agindo organizadamente em apoio ao exército invasor francês.

“Domenico Pellegrini (1769-1840), pintor cosmopolita entre Lisboa e Londres”, de Carlos Silvera, é uma contribuição de um historiador da arte que demonstra que tanto o artista como sua produção podem ser considerados bons exemplos de vetores de circulação de ideias. Porém, esse mesmo artigo também ilustra um caso de incompatibilização entre os dois temas do livro destacados na Nota Introdutória, a Setembrizada e o próprio espaço atlântico. Se por um lado, a temática do Império Português e da lembrança da Setembrizada – já que Pellegrini foi um dos presos exilados – se mantém em primeiro plano, o espaço atlântico, por outro, tem papel pequeno no artigo. Pois, a trajetória de Domenico compreende rotas entre Itália, Inglaterra, Portugal e um irrisório exílio nos Açores. Dessa maneira, o espaço atlântico não é aqui explorado em toda sua potencialidade de articulador e canal entre dois continentes contendo partes dos impérios ibéricos, tendo, então, sua presença minimizada. Logo, o tema principal do espaço atlântico é sobrepujado pela temática mais secundária da Setembrizada.

Já o artigo do organizador, José Damião Rodrigues, “Um europeu nos trópicos: sociedade e política no Rio joanino na correspondência de Pedro José Caupers”, de forma diferente, demonstra plena articulação e harmonização entre os temas ressaltados na Nota Introdutória . Ao se debruçar sobre a produção epistolar de um membro da Corte lusitana, que atravessou o oceano após a invasão napoleônica, o autor identifica uma rede de conexões, interlocutores e relações que ligam Portugal, Rio de Janeiro e ilhas açorianas, além de incluir um dos setembrizados. Não obstante, o capítulo mostra, sob a ótica de Caupers, e em sua latente inadaptação à condição de reinol perante a nova dinâmica da Corte no Rio de Janeiro, como “em períodos de aceleração da dinâmica histórica ou de mudança social, as divisões e as redefinições que se operam em torno das identidades colectivas adquirem uma importância fundamental, mas complexificam o cenário social e político” (p. 194).

Também lidando com um personagem ilustrativo está Lucia Maria Bastos Neves, com “Um baiano na setembrizada: Vicente José Cardoso da Costa (1765-1834)”. Condizente com seu já conhecido trabalho acerca do vocabulário político, utilizando uma abordagem apoiada em uma história dos conceitos – como no livro Corcundas e constitucionais: a cultura política da Independência (1820-1822) (Lúcia Maria Bastos P. das Neves, Rio de Janeiro, FAPERJ, 2003) -, a historiadora propõe analisar os escritos de Vicente da Costa produzidos contemporaneamente à Revolução Vintista, enfatizando os embates entre o Antigo Regime e o Liberalismo presentes na linguagem política utilizada pelo personagem.

Atentando-nos ao trabalho de Neves, confirmamos que a circunscrição da análise histórica a um personagem não necessariamente corresponde a uma circunscrição de resultados e nem a um extremo particularismo, havendo brechas de interlocução com outros artigos. Aqui, é possível até mesmo constatar o início de um possível debate no interior do livro. Pois, ao examinar o mesmo personagem, em seu já referido artigo, Fernando Dores Costas chega a um diagnóstico consideravelmente diferente do da historiadora sobre o setembrizado Vicente José Cardoso da Costa e seu pensamento acerca das novas formas políticas que, no século XIX fixavam-se nos impérios ibéricos. De acordo com Dores Costa, “Cardoso da Costa defendeu energicamente a tradição pombalina, absolutista. Afirmava a referida obrigação ilimitada de obediência aos governos. Os súbditos estavam impedidos de avaliar, estando obrigados a acatar as ordens tanto dos maus como aos bons governos” (p. 48). Por outro lado, é de maneira mais contemporizada que Neves, após sua análise, descreve o mesmo Cardoso da Costa como um homem imerso em uma conjuntura de crise e partilhando múltiplas linguagens políticas, oscilando entre tradição do Antigo Regime e as novas formas políticas em oposição ao despotismo.

Vicente José Cardoso da Costa ainda volta a ser objeto de estudo em “Experiencia y memoria de la revolución de 1808: Blanco White y Vicente José Cardoso da Costa”, de Antonio Prada. Nesse caso, as conclusões do autor, após análise dos escritos de Cardoso da Costa, são mais próximas às de Lúcia Maria Bastos Neves do que às de Dores Costa.

Ainda no campo da análise do espaço atlântico do Império Português, também situam-se “A heráldica municipal portuguesa entre o Antigo Regime e a monarquia constitucional: reflexos revolucionários”, de Miguel Metelo de Seixas; “Circulação de conhecimentos científicos no Atlântico. De Cabo Verde para Lisboa: memórias escritas, solos e minerais, plantas e animais. Os envios científicos de João da Silva Feijó”, de Maria Ferraz Torrão; “Rotas de comércio de livros para Portugal no final do Antigo Regime”, de Cláudio DeNipoti; “Em busca de honra, fama e glória na Índia oitocentista: circulação e ascensão da nobreza portuguesa no ultramar”; de Luis Dias Antunes, “A difusão da modernidade política. A ficcionalidade da Revolução de 1820”; de Beatriz Peralta García; “Revoltas escravas na Baía no início do século XIX”, de Maria Beatriz Nizza da Silva e “República de mazombos: sedição, maçonaria e libertinagem numa perspectiva atlântica”, de Junia Ferreira Furtado.

Podendo ser visto como uma ponte entre os artigos acerca do Império português e sua contraparte hispânica, temos o derradeiro “Las independencias latinoamericanas observadas desde España y Portugal”, de Juan Marchena. Mais detidos no universo espanhol estão “Entre reforma y revolución. La economía política, el libre comercio y los sistemas de gobierno em el mundo Altlántico”, de Jesús Bohórquez; “Política y politización en la España noratlántica: caminos y procesos (Galicia, 1766-1823)”, de Xosé Veiga e “A través del Atlántico. La correspondencia republicana entre Thomas Jefferson y Valentín de Foronda”, de Carmen de La Guardia Herrero.

Ainda no espaço hispânico, abordando as transformações do fim do Antigo Regime nas colônias, destacam-se “Azougueros portugueses en Aullagas a fines del siglo XVIII: Francisco Amaral”, de María Gavira Márquez e “La ilustración posible en la Lima setecentista: debate sobre el alcance de las luces en el mundo hispánico”, de Margarita Rodríguez García. O primeiro traz o curioso caso de um membro da elite colonial portuguesa exercendo atividade mineradora no atual território boliviano no fim do século XVIII, mesmo apesar do pleno desenrolar da guerra entre Portugal e Espanha, declarada no outro lado do Atlântico. O segundo, focado no periódico Mercurio Peruano, bebe na fonte dos trabalhos de François-Xavier Guerra, ao caracterizar as particularidades da formação de uma esfera pública no espaço colonial de uma monarquia absolutista, portanto, uma realidade não abarcada pelo modelo original de esfera pública desenvolvida por Habermas.

Enfim, O Atlântico revolucionário: circulação de ideias e de elites no final do Antigo Regime modela uma perspectiva desse espaço como um feixe de encontros, com participação fundamental em diversas realidades e processos históricos. Um canal de pleno trânsito de ideias e elites, passíveis das mais diversas nuances e abordagens historiográficas, em uma variação ampla de escala. Um lembrete de que, mesmo considerado em sua unidade de dimensão global, seu sentido nunca pode ser reduzido a um único.

Luis Otávio Vieira – Graduando em História pela Universidade de São Paulo (FFLCH / USP – São Paulo-SP / Brasil). E-mail: luis_vieira_mail@yahoo.com.br


RODRIGUES, José Damião (Org.). O Atlântico revolucionário: circulação de ideias e de elites no final do Antigo Regime. Ponta Delgada: Centro de História de Além-Mar (CHAM), 2012. Resenha de: VIEIRA, Luis Otávio. Os diferentes universos do espaço Atlântico. Almanack, Guarulhos, n.9, p. 208-212, jan./abr., 2015.

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A primeira Guerra Mundial e suas repercussões no Brasil / Oficina do Historiador / 2015

Este dossiê reúne parte dos trabalhos apresentados por pesquisadores brasileiros e estrangeiros no Simpósio internacional “Memórias da Grande Guerra e repercussões no Brasil 1914-2014”, organizado pelo Programa de Pós-Graduação em História (PPGH) da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS), com o auxílio econômico da Capes, que ocorreu na mesma universidade, em maio de 2014. A proposta do evento era motivada pelo Centenário da eclosão da Primeira Guerra Mundial.

Nessa data se tornou necessária uma reflexão sobre esse assunto de extraordinária relevância para a história da humanidade, considerando também suas novas abordagens e possibilidades interpretativas. De fato, poucos acontecimentos da história contemporânea provocaram tanto a atenção de historiadores como a Primeira Guerra Mundial, considerada o divisor de águas e a etapa inicial de uma nova fase, do ponto de vista político, social, econômico e tecnológico. A guerra marcou o fim do “longo século XIX” e representou o crepúsculo da supremacia mundial europeia e de uma civilização convencida que pudesse guiar a humanidade através do conhecimento e da razão, rumo a um futuro de progresso e convivência pacífica entre as grandes potências continentais. O conflito provocou uma mudança radical das relações internacionais e contribuiu, ao mesmo tempo, para criar a contraposição ideológica que viria a caracterizar todo o século XX. A complexidade da Grande Guerra não fugiu aos olhos dos observadores da época que compreenderam o quanto se mostrava diferenciada em relação aos conflitos anteriores.

Quando a disputa pelos mercados e territórios da Europa alavancou o acirramento da crise entre os países do continente, interesses de ordem política, econômica e militares abalaram o equilíbrio precário de um castelo de cartas: não se podia puxar uma sem mover a outra. O conhecimento de que uma guerra na Europa poderia ser catastrófica para a sua população não evitou a corrida pela tecnologia da morte, e este foi o período em que os avanços na indústria bélica mais se acentuaram. Vale mencionar, a propósito, o uso, pela primeira vez, de armas químicas, dos carros de combates especiais e da aviação militar. Os bombardeios em massa contra civis provocaram milhões de mortos, bem como, deixaram outros tantos mutilados ou vitimados pelas epidemias causadas pelo inimigo invisível, a gripe espanhola.

Ao mesmo tempo, o conflito fez surgir discussões e uma revisão do antigo modelo político europeu. O confronto resultou numa nova hegemonia política e no surgimento de regimes totalitários como o fascismo, o nazismo e o comunismo, que transformaram o cenário político e econômico mundial. Esta última questão é bem tratada, dentro de um contexto mais amplo, na entrevista sobre o nacionalismo que o professor galego Xosè Núñez Seixas concedeu para esse dossiê e que se revela de grande utilidade para entender algumas das repercussões ideológicas que envolveram as culturas políticas europeias e extra europeias da época.

Em cem anos, o tema da Grande Guerra foi estudado em profundidade e se produziu uma enorme massa de publicações específicas que junto aos eventos estreitamente políticos, diplomáticos e militares, concentraram-se também sobre os mais diversos campos de análise, entre os quais o tema relativo à condição dos combatentes e das vítimas, os prisioneiros, os sobreviventes, etc. A proximidade com a efeméride do centenário, porém, propiciou a ocasião para aprofundar uma abordagem historiográfica que, principalmente, na Europa, retomou o problema da responsabilidade e da origem do conflito. Nesse sentido, distinguiu-se o recente amplo trabalho do historiador australiano, Christopher Clark, resenhado nas páginas seguintes pelo pesquisador italiano, Christian Satto, que evidenciou o grande sucesso editorial da obra traduzida em inúmeros países do mundo entre os quais o Brasil. O mérito do livro é de reconstruir de forma articulada e detalhada as relações de poder na Europa entre o final do século XIX e o começo do XX, recusando de maneira convincente a tese tradicional que considera a eclosão do conflito por fatores de longa duração. Clark, de fato, interessa-se também pelos traumas imediatos a véspera da guerra e pelas responsabilidades dos protagonistas da crise de julho de 1914, isto é, os chefes de Estado definidos como “sonâmbulos” incapazes de perceber o horror que eles mesmos estavam trazendo ao planeta inteiro.

Outra razão importante para a realização desse dossiê relaciona-se às mudanças e às implicações que o conflito determinou também no Brasil, que foi o único país da América Latina a participar da Primeira Guerra. Aliado com os países da Tríplice Entente teve uma tímida participação na guerra, com envio de suprimentos agrícolas e da matéria-prima procurada pelas nações em conflito; enviando alguns pilotos de avião e tropas na frente ocidental, e oferecendo navios militares, além de um apoio médico organizado pelo governo brasileiro. Com esse propósito, o artigo de Cristiano Enrique de Brum analisa, através dos relatórios dos médicos protagonistas, a atuação da Missão Médico-Militar organizada em 1918 pelo governo brasileiro e enviada para a França, a fim de fundar um hospital em Paris. Tais documentos inéditos nos permitiram conhecer detalhes sobre a composição da expedição; sobre a viagem até a Europa; sobre o combate à gripe espanhola e a atuação em diversas partes da França.

A mobilização brasileira foi fomentada também por uma parte da imprensa nacional que, em diversas ocasiões, manifestou a sua posição pró-Aliados. Ao mesmo tempo, porém, como se evidencia no texto de Lorena Gill e Beatriz Loner, havia elementos sociais que durante a guerra promoveram movimentos antimilitares e mobilizações a favor da paz. O caso emblemático abordado é o dos trabalhadores organizados, mulheres e anarquistas em uma cidade gaúcha, Pelotas, com forte conotação operária.

Mesmo distante do palco central, o Brasil sentiu os reflexos do conflito. A participação do país lhe garantiu uma cadeira na Conferência de Paz de Paris, que originou o Tratado de Versalhes, e o pagamento de indenização por parte da Alemanha por ter prejudicado o comércio do café brasileiro durante o período do conflito armado. Ao mesmo tempo foi um os fundadores da Liga das Nações. Com o fim do conflito armado, houve uma grande demanda por diversos gêneros alimentícios, o que permitiu uma dinamização e retomada da economia brasileira. Além disso, os danos causados pela Primeira Guerra Mundial no continente europeu possibilitaram que o Brasil passasse por um surto de industrialização.

O recente livro de Olivier Compagnon cujo título na versão português-brasileira é O adeus à Europa: a América Latina e a Grande Guerra, resenhado profundamente por Heitor Carvalho Loureiro neste dossiê, tem o grande mérito de romper com o silêncio historiográfico sobre as consequências do conflito na América a Latina. O esforço do estudioso francês foi de evidenciar o impacto que a Grande Guerra teve também sobre os países mais longínquos do palco central europeu, como Brasil e Argentina, que até então se nutriram dos modelos europeus e de repente, com o conflito, sofreram uma crise de identidade que teve como principal reação a valorização de um passado autóctone, e uma exacerbação de um sentimento nacionalista, principalmente, na esfera cultural.

Outro aspecto relevante relaciona-se com a abundante presença de imigrantes alemães e italianos, atingidos diretamente pelos efeitos do conflito, no Rio Grande do Sul e nos outros estados caracterizados pelo fenômeno da imigração europeia. No caso dos italianos, que se tornaram aliados do Brasil, durante todo o período de participação da Itália na luta, manteve-se uma forte contribuição financeira para a pátria mãe, assim como muito jovens de origem italiana, residentes no Brasil, fizeram parte das forças militares italianas. A mobilidade foi muito significativa nos principais centros de imigração italiana, especialmente em São Paulo, onde se desencadearam processos que alimentaram entre os imigrantes, o mito da nação que precisava ser defendida, e a exaltação do dever patriótico. Na verdade, como se observa no artigo de Maíra Inês Vendrame foi já com a guerra da Líbia, combatida e vencida pela Itália em 1911, o primeiro momento no qual se reforçou no sentido nacional patriótico, o vínculo da população colonial com o país de origem. E já na véspera da guerra não faltaram as celebrações e festejos para os heróis mortos na defesa da causa colonialista.

No caso dos imigrantes alemães se registrou, desde a primeira fase da guerra, o envio de ajuda econômica através do consulado alemão, assim como o suporte midiático nos principais órgãos da imprensa teuto-brasileira. Tudo isso gerou pela primeira vez entre imigrantes alemães e seus descendentes, uma hostilidade aberta e generalizada de parte da população luso-brasileira e a desconfiança de grande parte das autoridades, que se aproximavam aos ideais dos Aliados. O clima tornou-se ainda mais hostil depois da declaração de guerra do Brasil à Alemanha. Não tardaram medidas de intervenção nas sociedades, associações, clubes, escolas, imprensa e no uso da língua alemã no dia a dia, ou seja, os primeiros passos de uma verdadeira nacionalização dos elementos teuto-brasileiros. Nesse sentido o artigo de Livia Claro Pires, analisa o papel da “Liga Brasileira pelos Aliados”, uma associação fundada em 1915 no Rio de Janeiro pelo crítico literário José Verissimo, pelo diplomata Graça Aranha, pelo capitão do Exército Eliseu Montarroyos e pelo burocrata Araújo Gonçalves, com o objetivo de prestar assistência moral no país às nações Aliadas. Em pouco tempo a propaganda inimiga da Liga se estendeu aos imigrantes alemães residentes no Brasil, vistos agora como elementos estranhos no corpo nacional.

Portanto, estes estudos apontam para a complexidade de um evento mundial, cujas repercussões em um país como o Brasil, ainda resultam parcialmente negligenciados pela historiografia.

Antonio de Ruggiero – Pesquisador PNPD / Capes e professor colaborador do PPGH / PUCRS,

Porto Alegre, 18 de junho de 2015


RUGGIERO, Antonio de. Apresentação. Oficina do Historiador. Porto Alegre, v. 8, n. 1, jan. / jun., 2015. Acessar publicação original [DR]

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Por uma nova história da Igreja medieval / Varia História / 2015

O presente dossiê temático está intimamente relacionado às discussões que foram levantadas por ocasião do Congresso Internacional sobre Ordens religiosas na Idade Média: concepções de poder e modelos de sociedade, ocorrido na Universidade Federal de Minas Gerais, entre os dias 26 e 29 de maio de 2014. Reunindo professores medievalistas de dez universidades brasileiras e seis professores / pesquisadores de universidades estrangeiras, bem como grande número de pós-graduandos, o congresso pretendeu apresentar uma análise inovadora do papel social e político das Ordens religiosas no Ocidente medieval, enfatizando os modos de reprodução do político no seio das comunidades urbanas. Tal empreitada manifesta uma mudança significativa no procedimento analítico da história religiosa ou da história medieval tradicional, bastante dependentes de uma argumentação estanque que tende a separar ou a dicotomizar uma sociedade eclesiástica (os clérigos) de uma sociedade secular (os leigos), tomando-as como antípodas de um projeto social que, gradativamente, foi afirmando-se sempre mais laico e, neste sentido, “moderno”. As conclusões do congresso são aqui alargadas para além do espaço social das Ordens religiosas, procurando abarcar o mais possível o lugar da Igreja na cristandade latina, no fim da Idade Média. O tom revisionista continua o mesmo: esperamos realocar as discussões sobre a “religião”, a “igreja” e a “fé”, só para citar três exemplos, no debate mais atualizado da historiografia medievalística que tem conseguido um impressionante grau de respeitabilidade até mesmo em lugares, como Brasil, Argentina, Chile e México, em que tradicionalmente o período medieval não havia ainda despertado interesse a ponto de produzir historiografia, e não mais simplesmente reproduzi-la.

O interesse que moveu a composição deste dossiê está atrelado ao fato de que a historiografia medievalística contemporânea, ainda marcadamente europeia, apresenta-se bastante negligente em reavaliar o lugar da Igreja – e das instituições eclesiais – nas sociedades medievais latinas, mantendo-a, apesar de todo relativismo acadêmico, num posto inquestionável de “instituição dominante” (para usar uma expressão cara a Jérôme Baschet), sem, contudo, submeter este posto ao crivo da crítica com que foram analisadas outras instituições e / ou conceitos, como nação, Estado, povo, império etc. Deste modo, constatamos um desnível epistemológico significativo: historiadores que são profundamente desconstrutivistas, quando se trata de falar de povo ou nação, são marcadamente dogmáticos ao conceber uma “Igreja Medieval”, síntese de uma cultura englobante, universalizante, soberana e monopolizadora. De onde vêm tais ideias? Talvez devêssemos recordar que as recentes nações liberais viveram um conflito, incluindo às vezes lutas reais, para impor uma estrutura política em que “Estado” e “Igreja” fossem instâncias autônomas e autossuficientes. Tais lutas encontraram eco nas universidades, cujos intelectuais produziram discursos historiográficos que ora defenderam e ora combateram o projeto de separação Igreja-Estado. Surge daí uma história política para a qual a Igreja é secundária, e uma história eclesiástica, bastante apologética, para a qual o Estado sempre corrompe a Igreja. Em ambos os casos, a premissa mantém-se a mesma: Igreja e Estado são sempre e inexoravelmente coisas diferentes.

Como já se pode entrever, este raciocínio é de todo estranho ao dito período medieval quando os aspectos políticos e religiosos, bem longe de serem antitéticos, convergiam para um modelo social de Estado místico que, como tal, não se deixava manipular nem por reis supostamente corrompidos pelo mundo, nem por papas sedentos de santidade: papas e reis, condes e frades participavam de uma sociedade mística que incluía, mas não se confundia com a instituição Igreja, ao mesmo tempo em que a política não se esgotava e nem poderia se esgotar naquilo que chamamos Estado. Na Baixa Idade Média, debateu-se a premissa de que a Ecclesia universalis era a continuação e o aperfeiçoamento do imperium Romanorum, e, em virtude desta noção de império (ratione imperii romani) o papa podia, inclusive, reivindicar o fim do domínio muçulmano sobre a Terra Santa porque outrora aquela terra fora conquistada pelo império romano (Hostiensis, Commentaria, Lib. III, tit. xxxiv, cap. viii, n. 26). O interessante do comentário do Hostiensis, a meu ver, não reside tanto na defesa da plenitude do poder papal, mas na ideia de que o império romano persistiu na cristandade latina graças a seu sucessor, o bispo de Roma. E este passado romano, que igualmente misturava sagrado e profano, constituía boa parte da base da identidade político-religiosa das sociedades medievais e não podemos impunemente ler a história medieval à luz das realidades políticas contemporâneas profundamente secularizadas e laicistas.

Neste dossiê, as discussões relativas ao papado couberam a Leandro Duarte Rust, com seu artigo “Inventando Gregório VII”. O autor reavalia a historiografia política e eclesiástica das últimas dez décadas, a qual concebe Gregório VII e, a partir dele, o poder pontifício como dotado de uma lógica interna coerente, programática e estatizante, cuja ascensão irrefragável levou de roldão a todos os sistemas políticos ocidentais, antecipando, no século XI, a política moderna de centralização, controle e, quem sabe, de supressão da anarquia feudal. A análise de Rust, contrariando a tradicional historiografia, nos põe diante de um papado gregoriano igualmente envolvido nas malhas dos poderes senhoriais, baseado na sacralidade dos laços de dependência; um papado destituído de uma ação política ou eclesiástica coerente, marcada por idas e vindas à mercê de interesses regionais, sem garantia alguma de que, pela sua autoridade, nasceria uma ordem política e social reformada e reformadora capaz de superar a dependência da Igreja em relação ao Estado.

Com o artigo de Eleonora Lombardo, abre-se uma perspectiva de análise das relações sociais e eclesiásticas que tem nos textos de sermões um impressionante acervo documental. A autora nos apresenta Sovramonte de Varese, um frade talvez pouco conhecido por nós, mas que, em seu tempo (séc. XIII), era um dos grandes pregadores urbanos, em cujos discursos podemos captar o vivo da oratória sacra que, misturada àquela política, das assembleias cívicas, fizeram a história da Itália comunal. Partindo de dois temas específicos, a usura e a heresia, Lombardo discute as relações entre o sermão pregado e aquele escrito (posteriormente), o público ouvinte e o público leitor, a sociedade e o pregador: a palavra e a ação. Numa cidade comunal, a pregação constituía, sem dúvida, um dos mais eficientes motores da atividade política e esta aparente contradição, atualmente, tem sido a marca inovadora dos estudos sobre as comunas, como mostram os artigos de Paolo Evangelisti e Pietro Delcorno.

Evangelisti, tomando a pregação de Bernardino de Siena e comparando-a com as obras de Francisco Eiximenis, discute a validade cívica de termos que, à primeira vista, soariam completamente religiosos, sem nenhum interesse para os debates públicos das assembleias comunais. Ao definir, por exemplo, a caridade, o autor nos mostra que Bernardino de Siena construía uma pedagogia política que foi aproveitada pelas instâncias citadinas na regulação do bem comum, do mercado e, por conseguinte, do dinheiro e das trocas, o que nos obriga a ver que o sermão não só não era apenas um discurso religioso, mas que o ambiente cívico de uma comuna, apesar de ser regido por leigos, não era secularizado, uma vez que o sermão constituía um grande canal de educação para a vida na cidade e os valores republicanos.

Pietro Delcorno, de alguma forma, corrobora a reflexão de Evangelisti, trazendo ao debate a ação do pregador Miguel de Acqui e a instituição do Monte de Piedade de Verona. O autor também nos brinda com a primeira edição do incunábulo vaticano referente a Miguel de Acqui e ao Monte de Piedade que é uma instituição de empréstimo sem juros ou a juros moderados, criada pelos frades Menores Observantes no séc. XV e que, de maneira muito concreta, incidiu não só no dinamismo econômico das cidades italianas do fim da Idade Média, como ofereceu um canal de inclusão social e participação através da religiosidade penitencial que marcava tanto a vida de ordens rigoristas, como a dos Menores Observantes, como também das próprias cidades-república que se entendiam como “cidades de Deus”, para aproveitar o título da instigante obra de Augustin Thompson sobre as comunas italianas.

Com estes quatro artigos, estou certo de que damos um passo muito importante nos debates sobre as imbricações do religioso e do político no período medieval reavaliando, de um lado, as cisuras impostas pela historiografia pós-iluminista e, de outro, evitando que se olhe para o período com as marcas obsessivas de um sagrado folclórico, extraordinário e maravilhoso, propalado pela história das mentalidades. O crescente público brasileiro interessado em história medieval terá aqui um bom material de reflexão e aprendizado.

André Luis Pereira Miatello – Departamento de História. Universidade Federal de Minas Gerais. E-mail: andremiatello@gmail.com


MIATELLO, André Luis Pereira. Apresentação. Varia História, Belo Horizonte, v.31, n.55, jan. / abr., 2015. Acessar publicação original [DR]

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Outras eróticas e desejos possíveis (I) / Albuquerque: Revista de História / 2015

É com imensa satisfação que apresentamos a@s leitor@s de albuquerque: revista de história o dossiê Outras eróticas e desejos possíveis, conjunto temático de textos proposto com vistas à socialização e debate de pesquisas referentes ao amplo campo interdisciplinar dos estudos sobre a sexualidade e as performances de gênero em suas diferentes facetas e suportes.

Na história ocidental a sexualidade e sua relação como o poder, a política e a cultura, remontam à narrativa seminal do Gênesis. No Éden, o criador advertiu ao homem que deveria ter cuidado com a arvore da ciência do bem e do mal, pois se dela comesse haveria consequências negativas. Ali encontramos o cenário e o herói (Adão) originário da saga cristão-ocidental; faltava a vilã dessa história, e senhor resolveu criá-la, fazendo-lhe adjutora de Adão, Eva.

Quando o homem provou o fruto proibido no jardim do Éden, iniciou-se sua conturbada relação com seu corpo e sexualidade. Incitada pela serpente, Eva ousou tocar e provar da árvore que lhe parecia agradável e cujos frutos pareciam bons para serem comidos e os compartilha com Adão. Segunda a narrativa sagrada, o ato de Eva ocorreu em função da curiosidade e da ganancia humanas; os homens ansiavam se comparar a Deus e esperavam que isso ocorresse ao comer do fruto e conhecer o bem e mal; encontraram, entretanto, o castigo da decadência – oriunda do afastamento daquelas plagas e o impedimento de comer da árvore da vida, o que levaria à mortalidade.

Ao provar do fruto perceberam que estavam nus e se cobriram com a folha da figueira. O que antes, segundo a narrativa bíblica, era um mundo natural marcado pela relação harmoniosa entre o criador e a criatura, tornou-se uma experiência de dor, de negação do corpo, da sexualidade e do prazer sexual. O ato de desobediência foi punido severamente pelo criador que amaldiçoou a serpente, e condenou o homem a comer o pão com o suor do teu rosto até que retornasse ao pó e a mulher parir com dor os seus filhos e a desejar seu marido que a dominaria.

(Cumpre, aqui, abrir esse parêntesis, para retomar outra figura feminina, presente nas tradições babilônica e hebraica, associada a Adão: Lilith. Ela teria sido a primeira mulher, feita do mesmo barro que seu companheiro, não de sua costela. Em determinado momento, querendo ficar por cima de Adão durante o coito sexual, teria por isso sido expulsa do paraíso, perseguida por anjos. Enquanto fugia, copulava com animais e demônios, dando à luz outros seres. Teria se refugiado no mar, tornando-se sua senhora. É também associada à noite. Outra vez, a mulher é a transgressora, mas aqui, tendo “ofendido” seu companheiro com sua audácia erótica, sofre sozinha as consequências de seus atos.)

Retomando a passagem da expulsão de Adão e Eva, sobre qual se assenta a longa tradição ocidental de negação do corpo e do desejo, do exercício do poder patriarcal que subordina, explora e mata as mulheres e todos os demais sujeitos considerados inferiores ao homem branco, cristão e europeu. Foi, portanto, a partir da subordinação sexista, misógina e machista que se construiu o projeto de civilização no ocidente, bem como o projeto de colonização que se espalhou por diversas regiões do mundo, as quais, como apontou Michael Foucault, o cristianismo modificou o cenário, fazendo a ligação entre sexo e pecado da carne, distanciando-o da noção de desejo.

Foucault também afirma que a partir do século XVI, com reforço no XIX, o sexo foi incitado a se manifestar. O autor pensa a história do homem e do desejo e realiza uma genealogia de como o homem ocidental foi levado a se reconhecer como sujeito de desejo. A sociedade capitalista não obrigou o sexo a esconder-se. Contudo, ainda hoje, em pese o crescimento do consumo da pornografia, da prostituição (principalmente feminina), da divulgação de discursos de especialistas sobre o sexo e das experiências proporcionadas pelo ciberespaço, ainda lidamos mal com nosso corpo e nossa sexualidade. Ainda existem diversos tabus, sobretudo hoje, com a retomada conservadora em escala global que interdita a discussão sobre a sexualidade na família, na escola e no espaço público de maneira geral.

Assim ansiamos, nesse dossiê, verticalizar reflexões e debater teórica e metodologicamente, além da relação entre história e imprensa escrita, linguagens artísticas, produção virtual, os movimentos feministas, em suas diversas temporalidades e feições, a violência de gênero e os movimentos de afirmação de lésbicas, gays, bissexuais, travestis, transexuais e transgêneros, bem como suas representações, a sexualidade e suas diversas expressões e representações (artísticas, corporais, sociais), notadamente aquelas divergentes da heteronormatividade e os embates sociais que de tais expressões surgem.

Além disso, debateremos ainda as novas possibilidades de expressão das performances de gênero, seja nas práticas sexuais efetivas ou ainda no ciberespaço. Há na contemporaneidade uma ênfase significativa nos valores e virtudes de instantaneidade e de descartabilidade, sendo importante a capacidade de abandonar rapidamente um sistema de valores e estilos de vida e construir imagens e personas que se moldem a diferentes situações, sobretudo nos ambientes virtuais, espaços nos quais ocorre uma reconfiguração das relações de sociabilidade, da sexualidade, dos corpos e das performances de gênero. Todas as dimensões da sexualidade são reelaboradas nesse ambiente. Corpos, prazeres, sensações eróticas são experimentadas numa nova relação corpo-máquina.

Organizamos esse dossiê em dois volumes, sendo o primeiro “Outras eróticas e desejos possíveis, volume I”, referente ao volume 7, número13 de albuquerque: revista de história, nos meses de janeiro a junho de 2015, o que segue.

Assim, no primeiro conjunto de textos @s autor@s voltam-se ao jornal O Lampião da Esquina, importante publicação sobre a cultura homoerótica no Brasil recente. Edvaldo Correa Sotana e Mellany de Oliveira Guimarães, no texto Ativismo político em traços de humor: as charges veiculadas no jornal O Lampião da Esquina (1978-1981), estabelecem relações entre imprensa escrita, ditadura militar brasileira, política e produção de charges, apresentando dados referentes ao levantamento de charges veiculadas no jornal entre os anos de 1978 e 1981 e indicando as charges como instrumento de ação política na resistência ao regime militar brasileiro. Débora de Sousa Bueno Mosqueira, no artigo “Então chegamos”: representações do feminino nas páginas d’O Lampião da Esquina (1978-1981), analisa as representações produzidas sobre a mulher por meio da categoria gênero no jornal que circulou no Brasil nos anos de 1978 até 1981. Já Victor Hugo da Silva Gomes Mariusso, no texto “Prendam, matam e comam os travestis”: a imprensa brasileira e seu papel na exclusão da população lgbt (1978-1981), busca compreender, a partir de algumas reportagens, como a imprensa brasileira constrói práticas de exclusão e destaca a importância d’O Lampião da Esquina não só como jornal alternativo, mas como ferramenta política que contribuiu para a visibilidade de tais questões em um período marcado pelo regime militar e por mudanças nas formas de atuações dos grupos tidos ali como “minoritários”.

Na segunda parte deste primeiro volume do dossiê “Outras eróticas e desejos possíveis”, os textos focalizam as reflexões acerca da sexualidade e das performances de gênero em suas múltiplas dimensões e representações estéticas, e ainda o gênero como categoria de análise e definidor de grupos sociais e seus movimentos.

Andrew Feitosa do Nascimento, no artigo Os primeiros grupos de afirmação homossexual no brasil contemporâneo, mapeia os grupos representativos do movimento lgbt no Brasil, bem como suas estratégias de visibilidade, a partir de levantamento realizado por meio da bibliografia especializada e dos sítios voltados à temática na rede mundial de computadores. Leonardo Nascimento, no texto Qual ideologia de gênero? A emergência de uma teoria religiosa fundamentalista e seus impactos na democracia, analisa e desconstrói os discursos religiosos fundamentalistas cristão e político-jurídico que circularam na mídia nas vésperas da aprovação do Plano Nacional de Educação (PNE), em 2014, por deputados conservadores, mobilizados por fundamentalistas cristãos dentro e fora do campo da representação política, contra o que foi definido por eles como “ideologia de gênero”. Em A mecanização do prazer: sexualidade e corpo no ciberespaço, Aguinaldo Rodrigues Gomes procura discutir o processo de mecanização do prazer propiciado pelo advento da Internet, identificando uma nova sociabilidade e uma reconfiguração dos corpos no ambiente virtual. Para tanto, recorro a depoimentos colhidos nos sites de “bate-papo”, buscando situá-los no debate teórico acerca da pós-modernidade. Finalmente, Miguel Rodrigues de Sousa Netto, no texto Miditiatização, representações, violência: paradoxos das experiências lgbt no Brasil contemporâneo, nos apresenta uma reflexão sobre as experiências da população formada por transgêneros, lésbicas, bissexuais e gays na história recente e presente do Brasil, indicando o paradoxo da visibilidade / midiatização e a permanência da violência. O autor manifesta sua perplexidade diante manutenção da violência em suas diversas formas, e ainda a manutenção de redes de sociabilidade e encontros eróticos e a midiatização / representação dos / sobre a população lgbt, apontando, finalmente, para a necessidade de ruptura com a cultura hegemônica heteronormativa e mantenedora do binarismo de gênero e da violência que disso advém.

Espera-se, por fim, que @s leitor@s apreciem as presentes reflexões que reafirmam a transversalidade das eróticas e das performances de gênero na sociedade contemporânea, bem como uma cultura que nega a violência de gênero em suas diversas formas e repõe as experiências libertárias dos usos dos corpos, de suas expressões e sociabilidades.

Para além, na Seção de Artigos Livres, Bruno Roberto Nantes Araujo, no artigo intitulado A historicidade do TILS – Tradutor e Intérprete de Língua de Sinais: do anonimato ao reconhecimento, desenvolve sua análise histórica do aparecimento e transformações do sujeito tradutor e intérprete de Língua de Sinais, abordando também a legislação referente ao mesmo no Brasil. Mais uma vez, diferença e inclusão entram na pauta do dia.

Miguel Rodrigues de Souza Netto – Doutor em História pela Universidade Federal de Uberlândia. Docente do Curso de História do Campus de Aquidauana da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul. E-mail: miguelrodrigues.snetto@gmail.com

Aguinaldo Rodrigues Gomes – Doutor em História e Filosofia da Educação pela Universidade Estadual de Campinas. Docente do Curso de História do Campus Universitário de Rondonópolis da Universidade Federal de Mato Grosso. E-mail: aguinaldorod@gmail.com


SOUZA NETTO, Miguel Rodrigues de; GOMES, Aguinaldo Rodrigues. Apresentação. Albuquerque: revista de história, Mato Grosso do Sul, v.7, n.13, 2015. Acessar publicação original [DR]

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Outras eróticas e desejos possíveis – volume II / Albuquerque: Revista de História / 2015

É com imensa satisfação que apresentamos a@s leitor@s de albuquerque: revista de história o dossiê Outras eróticas e desejos possíveis, conjunto temático de textos proposto com vistas à socialização e debate de pesquisas referentes ao amplo campo interdisciplinar dos estudos sobre a sexualidade e as performances de gênero em suas diferentes facetas e suportes.

Na história ocidental a sexualidade e sua relação como o poder, a política e a cultura, remontam à narrativa seminal do Gênesis. No Éden, o criador advertiu ao homem que deveria ter cuidado com a arvore da ciência do bem e do mal, pois se dela comesse haveria consequências negativas. Ali encontramos o cenário e o herói (Adão) originário da saga cristão-ocidental; faltava a vilã dessa história, e senhor resolveu criá-la, fazendo-lhe adjutora de Adão, Eva.

Quando o homem provou o fruto proibido no jardim do Éden, iniciou-se sua conturbada relação com seu corpo e sexualidade. Incitada pela serpente, Eva ousou tocar e provar da árvore que lhe parecia agradável e cujos frutos pareciam bons para serem comidos e os compartilha com Adão. Segunda a narrativa sagrada, o ato de Eva ocorreu em função da curiosidade e da ganancia humanas; os homens ansiavam se comparar a Deus e esperavam que isso ocorresse ao comer do fruto e conhecer o bem e mal; encontraram, entretanto, o castigo da decadência – oriunda do afastamento daquelas plagas e o impedimento de comer da árvore da vida, o que levaria à mortalidade.

Ao provar do fruto perceberam que estavam nus e se cobriram com a folha da figueira. O que antes, segundo a narrativa bíblica, era um mundo natural marcado pela relação harmoniosa entre o criador e a criatura, tornou-se uma experiência de dor, de negação do corpo, da sexualidade e do prazer sexual. O ato de desobediência foi punido severamente pelo criador que amaldiçoou a serpente, e condenou o homem a comer o pão com o suor do teu rosto até que retornasse ao pó e a mulher parir com dor os seus filhos e a desejar seu marido que a dominaria.

(Cumpre, aqui, abrir esse parêntesis, para retomar outra figura feminina, presente nas tradições babilônica e hebraica, associada a Adão: Lilith. Ela teria sido a primeira mulher, feita do mesmo barro que seu companheiro, não de sua costela. Em determinado momento, querendo ficar por cima de Adão durante o coito sexual, teria por isso sido expulsa do paraíso, perseguida por anjos. Enquanto fugia, copulava com animais e demônios, dando à luz outros seres. Teria se refugiado no mar, tornando-se sua senhora. É também associada à noite. Outra vez, a mulher é a transgressora, mas aqui, tendo “ofendido” seu companheiro com sua audácia erótica, sofre sozinha as consequências de seus atos.)

Retomando a passagem da expulsão de Adão e Eva, sobre qual se assenta a longa tradição ocidental de negação do corpo e do desejo, do exercício do poder patriarcal que subordina, explora e mata as mulheres e todos os demais sujeitos considerados inferiores ao homem branco, cristão e europeu. Foi, portanto, a partir da subordinação sexista, misógina e machista que se construiu o projeto de civilização no ocidente, bem como o projeto de colonização que se espalhou por diversas regiões do mundo, as quais, como apontou Michael Foucault, o cristianismo modificou o cenário, fazendo a ligação entre sexo e pecado da carne, distanciando-o da noção de desejo.

Foucault também afirma que a partir do século XVI, com reforço no XIX, o sexo foi incitado a se manifestar. O autor pensa a história do homem e do desejo e realiza uma genealogia de como o homem ocidental foi levado a se reconhecer como sujeito de desejo. A sociedade capitalista não obrigou o sexo a esconder-se. Contudo, ainda hoje, em pese o crescimento do consumo da pornografia, da prostituição (principalmente feminina), da divulgação de discursos de especialistas sobre o sexo e das experiências proporcionadas pelo ciberespaço, ainda lidamos mal com nosso corpo e nossa sexualidade. Ainda existem diversos tabus, sobretudo hoje, com a retomada conservadora em escala global que interdita a discussão sobre a sexualidade na família, na escola e no espaço público de maneira geral.

Assim ansiamos, nesse dossiê, verticalizar reflexões e debater teórica e metodologicamente, além da relação entre história e imprensa escrita, linguagens artísticas, produção virtual, os movimentos feministas, em suas diversas temporalidades e feições, a violência de gênero e os movimentos de afirmação de lésbicas, gays, bissexuais, travestis, transexuais e transgêneros, bem como suas representações, a sexualidade e suas diversas expressões e representações (artísticas, corporais, sociais), notadamente aquelas divergentes da heteronormatividade e os embates sociais que de tais expressões surgem.

Além disso, debateremos ainda as novas possibilidades de expressão das performances de gênero, seja nas práticas sexuais efetivas ou ainda no ciberespaço. Há na contemporaneidade uma ênfase significativa nos valores e virtudes de instantaneidade e de descartabilidade, sendo importante a capacidade de abandonar rapidamente um sistema de valores e estilos de vida e construir imagens e personas que se moldem a diferentes situações, sobretudo nos ambientes virtuais, espaços nos quais ocorre uma reconfiguração das relações de sociabilidade, da sexualidade, dos corpos e das performances de gênero. Todas as dimensões da sexualidade são reelaboradas nesse ambiente. Corpos, prazeres, sensações eróticas são experimentadas numa nova relação corpo-máquina.

Organizamos esse dossiê em dois volumes, sendo o primeiro “Outras eróticas e desejos possíveis, volume I”, referente ao volume 7, número 13 de albuquerque: revista de história, nos meses de janeiro a junho de 2015, e o segundo volume (referente ao volume 7, número 14, nos meses de julho a dezembro de 20015) o que segue.

Assim, no primeiro conjunto de textos @s autor@s tomam como objeto de suas análises a produção literária. No primeiro artigo deste segundo volume do dossiê, Dilemas sentimentais e identidade homoerótica: uma leitura de Frederico Paciência de Mário de Andrade, Peterson José de Oliveira se debruça sobre o conto de Mário de Andrade escrito e reescrito por dezoito anos, no qual a amizade e o homoerotismo se desenrolam entre dois adolescentes. Um libelo ao desejo. Flávia Benfatti, em Identidade de gênero: a masculinidade hegemônica em Tropic of Capricorn, toma a obra de Henry Miller, publicada em 1961 (traduzida no Brasil em 1975) para acionar as categorias de sexo, gênero, sexualidade como construções sociais, analisando, em especial, o primado da masculinidade. George de Santana Mori, no artigo Queer, identidade e masculinidade em Giovanni, de James Baldwin, busca interpretar as principais personagens do romance publicado em 2008 a partir das questões de gênero e da teoria queer, notadamente a partir da construção identitária das masculinidades homossexual e heterossexual. O embate hegemonia versus diferença permeia sua narrativa. Encerrando esse primeiro conjunto de textos dedicados à literatura está o artigo de João Carlos Nunes Ibanhez, Cartografias homoeróticas: uma leitura de Onde andará Dulce Veiga?, de Caio Fernando Abreu. O autor, interdisciplinarmente, busca compreender a produção de espaços na obra literária de Caio Fernando Abreu, bem como as formas de apropriação de parte destes espaços, especialmente os marginais, por determinados grupos sociais, entre eles os homossexuais, transformando a margem em seu locus de atuação. Literatura, espacialidade e tensões sociais são o foco de Ibanhez.

No segundo conjunto de artigos que compõe o segundo volume do dossiê Outras eróticas e desejos possíveis, encontra-se o texto de Robson Pereira da Silva, “Nenhuma malícia será castigada”: eróticas no corpo e no palco de Ney Matogrosso, no qual o autor analisa aspectos do espetáculo Mato Grosso, de 1982, de Ney Matogrosso, compreendendo-o na conjuntura de sua produção, ou seja, no Brasil da abertura, da decadência da ditadura militar estabelecida por meio do Golpe de 1964, trazendo à baila os sujeitos marginais tornados arquétipos pelo artista, tais como índios, caipiras e malandros, carnavalizados, erotizados. Antonio Ricardo Calori de Lion, no artigo Ivaná: a grande dúvida no Teatro de Revista dos anos 1950, apresenta um belo estudo sobre as ambiguidades da representação de gêneros da transformista Ivaná, nos anos 1950, no Teatro de Revista da Companhia de Walter Pinto. A repercussão da dúvida sobre a performatividade de gênero do / a artista foi objeto de matérias na imprensa escrita, de capas de revista. Compreender esse impacto no Brasil dos anos 1950 é uma tarefa importante para o conjunto dos estudos Gays, Lésbicos e Transgênicos da atualidade. Encerrando o dossiê, Diego Aparecido Cafola, no texto Madame para uns, Satã para outros: uma leitura do corpo marginal em Madame Satã (2002), de Karim Aïnouz, busca, a partir da interseccionalidade, compreender a personagem criada por Aïnouz e vivida nas telas pelo ator Lázaro Ramos, João Francisco dos Santos, e sua transformação em Madame Satã, uma das lendas da boemia e da malandragem cariocas. Aqui, a violência tornada linguagem, a navalha transformada em resposta.

Espera-se, por fim, que @s leitor@s apreciem as presentes reflexões que reafirmam a transversalidade das eróticas e das performances de gênero na sociedade contemporânea, bem como uma cultura que nega a violência de gênero em suas diversas formas e repõe as experiências libertárias dos usos dos corpos, de suas expressões e sociabilidades.

Para além, na Seção de Artigos Livres, Cássio Rodrigues da Silveira, no artigo intitulado Crise do regime de historicidade moderno, individualização e confiança: entre os movimentos e as mobilizações, analisa o tipo de indivíduo e de individualidade que têm sido produzidos na contemporaneidade, a partir de proposições de R. Koselleck e F. Hartog, avaliando suas implicações para a efetivação dos movimentos sociais. Mais uma vez, indivíduo, coletividades, diferença e tensionamentos sociais entram na pauta do dia.

Miguel Rodrigues de Souza Netto – Doutor em História pela Universidade Federal de Uberlândia. Docente do Curso de História do Campus de Aquidauana da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul. E-mail: miguelrodrigues.snetto@gmail.com

Aguinaldo Rodrigues Gomes – Doutor em História e Filosofia da Educação pela Universidade Estadual de Campinas. Docente do Curso de História do Campus Universitário de Rondonópolis da Universidade Federal de Mato Grosso. E-mail: aguinaldorod@gmail.com


SOUZA NETTO, Miguel Rodrigues de; GOMES, Aguinaldo Rodrigues. Apresentação. Albuquerque: revista de história, Mato Grosso do Sul, v.7, n.14, 2015. Acessar publicação original [DR]

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Regimes de historicidade – HARTOG (RH-USP)

HARTOG, François. Regimes de historicidade. Belo Horizonte: Autêntica, 2014. Tradução de Andréa S. de Menezes, Bruna Beffart, Camila R. Moraes, Maria Cristina de A. Silva e Maria Helena Martins. Resenha de: PIMENTA, João Paulo. Revista de História (São Paulo)  n.172 São Paulo Jan./June 2015.

A importância do livro de François Hartog, editado originalmente em 2003 (Paris: Éditions du Seuil), pode ser apontada por muitos motivos. Destaco dois. Primeiro, por tratar de temas altamente relevantes, todos gravitando em torno de elaborações intelectuais coletivas acerca do tempo histórico em relação a condições sociais concretas, específicas e variáveis a depender dos vários contextos visitados pelo autor, inclusive atuais. Segundo, pelo fato de o livro ter-se mostrado capaz de influenciar grande número de historiadores voltados a múltiplos temas e problemas, fornecendo-lhes inspiração, vocábulos e, por vezes, até mesmo modelos de explicação da realidade. Hartog é um erudito, ademais criativo, que escreve bem e que possui capacidade de elencar referências bastante diversificadas, organizadas em torno de sua notória especialidade na história do mundo antigo, amplamente reconhecida, sobretudo por aquela que provavelmente é sua obra magna, Le miroir d’Hérodote (Paris: Gallimard, 1980). Por isso, a disponibilidade no mercado editorial brasileiro de Regimes de historicidade: presentismo e experiências do tempo ora resenhado é fato digno de louvor.

A fortuna do conjunto da obra de Hartog, seja no Brasil, seja em outros meios historiográficos e intelectuais, certamente merecerá a atenção devida em um futuro próximo. Aos que a ela se dedicarem, não poderá escapar o tributo explícito rendido pelo autor, neste Regimes de historicidade, a pelo menos três outros, dentre os muitos de que se utiliza. É de Fernand Braudel (Histoire et Sciences Sociales: La longue durée, de 1959) e Reinhart Koselleck (Vergangene Zukunft, de 1979) que emanam duas ideias fundamentais que subsidiam Hartog, respectivamente: a da simultaneidade de tempos históricos a pautarem a vida de toda e qualquer sociedade observável em perspectiva histórica; e a modernidade processualmente inaugurada no mundo ocidental entre os séculos XVIII e XIX, pautada por uma profunda temporalização da história e pela atribuição de conteúdos inovadores a noções como passado, presente e futuro, ademais rearticuladas com o progressivo distanciamento entre a primeira e terceira, fazendo a segunda sobressair como elemento central do mundo em que vivemos. Uma terceira referência central é a obra de Krzysztof Pomian (L’ordre du temps, de 1984) e sua concepção de uma ordem do tempo, espécie de cadeia organizadora de múltiplas experiências sociais relativas ao tempo.

Em determinada passagem (p. 37), Hartog mostra-se circunspecto e humilde em seus propósitos, afirmando pretensões “infinitamente mais modestas” do que seus autores centrais: quer esboçar a análise de jogos histórico-temporais, cujas combinações entre noções de passado, presente e futuro levariam ao que chama de “regimes de historicidade”. Eis uma das duas ideias centrais apresentadas em seu livro, e que lhe permite conceber a segunda: o “presentismo”, isto é, a suposta ampla dominância, a partir das últimas décadas da história da humanidade, do presente sobre qualquer noção de passado ou futuro (ao longo do livro, Hartog parece gostar da ideia de prevalência do presente, mas ao seu final – p. 260 – já a trata em termos de exclusividade). E, aparentemente, também evita qualquer pretensão à construção de um modelo, acreditando que “o historiador agora aprendeu a não reivindicar nenhum ponto de vista predominante” (p. 37).

Assumindo, então, um ponto de vista relativista, Hartog passeia por épocas e espaços. Nos três primeiros capítulos – voltados às “ilhas de história” observadas com os habitantes das ilhas Fidji, a uma imaginária ponte estabelecida entre Ulisses e santo Agostinho e à interpretação dos escritos de Chateaubriand e sua visão do mundo em que vivia – abre um leque de possibilidades de análises pontuais descontínuas e explicitamente sem buscar a construção de uma síntese ampla ou homogênea. A segunda parte do livro segue a mesma toada, com um capítulo, talvez o crucial da obra, dedicado a relações entre memória, história e o “presentismo”, e outro ao peso deste em discussões atuais sobre história e patrimônio. Se um relativismo é valorizado, Hartog preocupa-se em afirmar sua especial renúncia a quaisquer perspectivas eurocêntricas, embora, na maioria de exemplos bem como na imensa maioria das obras utilizadas (menos nos dois primeiros capítulos), tal intenção pareça muito escassamente atingida (há passagens mesmo em que Hartog refere-se a “mundo” para, três ou quatro palavras depois, torná-lo sinônimo de “França” ou “Europa”; em muitas outras, tais cuidados nem existem, com a dispensa de referência a um contexto… que é francês ou europeu).

Mas a tarefa de Hartog continua merecedora de crédito, já que, ademais de sua relevância e amplitude temática bem como a dos espaços geográficos e temporais correspondentes, demanda um fôlego intelectual incomum. O que talvez mais preocupe o leitor deste livro não é sua renúncia à oferta de explicações minimamente unificadas em torno de um modelo ou mesmo de um sistema de pensamento geral; tampouco o fato de que sua valorização relativista não o impede de ser eurocêntrico. A meu ver, a principal crítica da qual o livro é merecedor reside na possibilidade de fundamentação de suas duas ideias centrais, regimes de historicidade e presentismo, assim como a capacidade de ambas explicarem as realidades sobre as quais incidem.

Quanto ao primeiro ponto, logo no “Prefácio” o leitor se depara com uma proposta de definição do “que é e o que não é o regime de historicidade” (p. 12); Hartog, porém, será mais generoso na segunda oferta: esse “regime” não é uma realidade dada, não é observável diretamente pelos contemporâneos, não coincide com épocas ou “civilizações”, nem está confinado “apenas ao mundo europeu ou ocidental”. Em suma, é um “instrumento”. Mas que instrumento é esse, afinal? Nesse ponto, a expectativa criada no leitor desemboca em frustração:

O uso que proponho do regime de historicidade pode ser tanto amplo, como restrito: macro ou micro-histórico. Ele pode ser um artefato para esclarecer a biografia de um personagem histórico (tal como Napoleão, que se encontrou entre o regime moderno, trazido pela Revolução, e o regime antigo, simbolizado pela escolha do Império e pelo casamento com Maria-Luisa de Áustria), ou a de um homem comum; com ele pode-se atravessar uma grande obra (literária ou outra), tal como as Mémoires d’outre-tombe de Chateaubriand (onde ele se apresenta como o “nadador que mergulhou entre as duas margens do rio do tempo”); pode-se questionar a arquitetura de uma cidade, ontem e hoje, ou então comparar as grandes escansões da relação com o tempo de diferentes sociedades, próximas ou distantes. E, a cada vez, por meio da atenção muito particular dada aos momentos de crise do tempo e às suas expressões, visa-se a produzir mais inteligibilidade (p. 13).

Aqui, a circunspecção mais adiante anunciada, em termos de concepção de uma “simples ferramenta”, passa longe e o que se vê é a pretensão de sua utilização (e suposta serventia) em ampla perspectiva temporal, espacial, social, a iluminar fenômenos os mais variados, embora não se fale em modelos ou em “pontos de vista predominantes”. A ousadia é bem-vinda, e agora o livro mostra-se menos humilde do que parecerá em seguida – o que, aliás, pode ser visto como uma postura não apenas justificável, dados os talentos intelectuais de Hartog, mas também mais sincera do que este fará acreditar a seus leitores (na “Conclusão”, a cautela é enterrada: lemos mesmo que o livro supostamente tratou de um “movimento global”). No entanto, nesse ponto crucial da obra, a afirmação de que aquilo que o leitor quer saber como se define – promessa do próprio autor – é algo que explicaria a coisa em si (Napoleão entre dois “regimes”, supostamente “de historicidade”, e que não nos é dado saber o que são) resulta em uma tautologia que, de muitos modos, segue por todo o livro. A princípio, a preferência por definir as categorias de análise de uma obra pode perfeitamente recair nos momentos de sua efetiva utilização heurística, preterindo-se definições a priori; mas, no caso em questão, o “instrumento” será doravante enunciado não como possibilidade a ser fundamentada diante de situações históricas específicas, mas como descrição-significação de realidades já mencionadas por meio da referência a ele.

Concebamos que cabe ao próprio autor manipular seu instrumento de perquirição da realidade, acreditando em sua serventia e, desse modo, procurando dela convencer o leitor; também valorizemos a quase-definição desse instrumento como algo que dê “atenção muito particular” a “momentos de crise do tempo, e às suas expressões” (p. 37). Mesmo assim, o leitor se perguntará por que, mal definindo o que seja um “regime de historicidade”, Hartog usa tão livremente outras expressões (também instrumentos?) como “regime de memória” (p. 242)“regimes de tempo”, “regimes de temporalidade” (p. 245, 257), “regime do acontecimento contemporâneo” (p. 259), “ordem do tempo”, “crise do tempo”, “tempo(s)”, “temporalidade(s)”, “historicidade(s)”. Aqui, o relativismo do historiador converte-se em imprecisão conceitual, quiçá mais grave a partir do momento em que o próprio Hartog nos esclarece que um “regime de historicidade” pode ser visto como “apenas a expressão de uma ordem dominante do tempo” (p. 139); afirmação que nos levaria a crer que, agora, ele estaria disposto a rever seu relativismo, o que seria de esperar pela concepção de que as muitas formas histórico-sociais de relação entre passado, presente e futuro analisadas no livro devem ser hierarquizadas (com o que, aliás, estou inteiramente de acordo).

Contudo, o único momento em que isso parece ocorrer é quando da tentativa de caracterização da segunda ideia central do livro: o “presentismo”. Hartog sustenta que o “regime moderno de historicidade” (por exemplo: p. 132, 136, 142) teria sido quebrado em torno de 1989 (p. 136), o que representaria se não o “fim da história” assinalado por Francis Fukuyama, “seguramente uma cesura do tempo (incialmente na Europa e depois, pouco a pouco, em uma grande parte do mundo)” (p. 188). Experiência e expectativa, tendencialmente afastados na modernidade (é a ideia de Koselleck), agora sequer existiriam: “esses são os principais traços desse presente multiforme e multívoco: um presente monstro. É ao mesmo tempo tudo (só há presente) e quase nada (a tirania do imediato)” (p. 259). Daí, um novo regime de historicidade, não mais moderno, mas que Hartog evita cautelosamente chamar de pós-moderno. Em trabalho ausente da bibliografia de Hartog, Elias Palti (Time, modernity and time irreversibility, 1997) viu como a reivindicação de uma superação da modernidade pela concepção do advento de um novo tipo de tempo se constituiu em uma das bases do pensamento pós-moderno das últimas três décadas do século XX; reflexão que aqui se vê renovada diante do já mencionado relativismo histórico de Hartog.

Pode-se perguntar, ademais, a partir dessa conversão da “modernidade” koselleckiana em um “regime moderno de historicidade” hartogiano, em que medida uma coisa se diferenciaria da outra. De momento, a resposta não é possível, já que Hartog não parece sustentar nenhuma crítica direta e contundente à proposta de Koselleck. Mais produtiva deverá ser a tentativa de compreensão desse “presentismo” atual e na medida em que ele supostamente resulta de uma quebra de formas de viver os tempos anteriores. Como advento de uma novidade histórica relacionada ao mundo pós-1989, esse presentismo já fora assinalado por Eric Hobsbawm (Age of extremes, 1994; Hartog usa outra obra desse autor apenas para ressaltar a queda do muro como marco histórico geral – p. 136). “Presentismo” e “modernidade” necessariamente seriam, então, etapas sucedâneas, como pretende Hartog?

Em poucas ocasiões, Hartog dá atenção a um componente da modernidade koselleckiana diretamente relacionado com o “presentismo”: a progressiva aceleração do tempo histórico, não apenas a apartar experiência e expectativa – eventualmente, passado e futuro – mas a criar uma forma de vivência no mundo e uma concepção dele, de sua “aparência”. Numa dessas ocasiões, afirma Hartog, perspicazmente, que “mais amplamente, essa mudança de aparência é constitutiva da ordem moderna do tempo. Reconhecê-la não implica, por outro lado, aceitar como reais todas as declarações do mundo moderno sobre a aceleração” (p. 162). Perfeito: nem todas as manifestações sociais aparentes dessa aceleração devem ser levadas a sério. No entanto, se a aceleração está no âmago da modernidade, é de se esperar que ela crie, desde sempre, uma compressão de tempos em um presente dominante. Conceber que, com a progressão da aceleração a ela inerente, a modernidade teria se dissolvido com a superação de supostos limites ao distanciamento entre experiência e expectativa implica uma concepção excessivamente determinista do fenômeno.

Nos anos 1950, Hans Meyerhoff (Time in literature, 1955) já concebia um “presentismo” do mundo contemporâneo em termos de fenômenos bastante convergentes aos observados por Hartog; quase quarenta anos antes da queda do muro, poder-se-ia falar de “presentismo moderno”, a conflitar com a pretensão de um “regime de historicidade” presentista? Retomando Elias Palti, o triunfo do presente como tempo histórico dominante pôde ser visto, por muitos autores, como característica essencial de uma modernidade que, agora, se vê colocada em xeque por Hartog com base nesse mesmo presentismo. Outra pergunta que surge, então, é: até que ponto Hartog conseguiu escapar a essa tendência dos nossos tempos (independentemente de quando estes tenham começado), aliás dele bem conhecida, de supervalorizar o presente diretamente observável, a ponto de supervalorizar o presentismo de um presente que talvez não seja tão distinto assim daquele criado pela modernidade há algum tempo, e ainda por ela recriado? Ademais de recolocar a questão das diferenças entre as propostas de Koselleck e Hartog, não suficientemente esclarecidas, continua-se aqui o debate – deveras ativado, mas não devidamente esgotado – em torno das condições de elaboração de diagnósticos acerca da contemporaneidade (= modernidade?) na própria contemporaneidade. Um debate pelo qual Regimes de historicidade é diretamente responsável, e ao qual vem oferecendo, desde sua primeira publicação em 2003, subsídios e marcos referenciais incontornáveis.

João Paulo Pimenta – Universidade de São Paulo. Professor do Departamento de História da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas. E-mail: jgarrido@usp.br.

A piedade dos outros – FRANCO (RH-USP)

FRANCO, Renato. A piedade dos outros: o abandono de recém-nascidos em uma vila colonial, século XVIII. Rio de Janeiro: FGV/FAPERJ, 2014. Resenha de: VENÂNCIO, Renato Pinto. Revista de História (São Paulo) n.172 São Paulo Jan./June 2015.

No Vocabulario portuguez e latino de Raphael Bluteau, publicado em 1712, há um verbete a respeito da compaixão – expressão, aliás, grafada como “compaxam”. Nele, o significado da palavra aparece como sendo “pena, que se sente da pena alheia”. Esta definição revela uma ambiguidade de significados: “pena” expressa “ter piedade”, mas também denota “vivenciar o sofrimento”. Ter compaixão, portanto, é ter piedade do sofrimento alheio. O livro do historiador Renato Franco, A piedade dos outros…,reconstitui a genealogia desses sentimentos, em relação a um aspecto crucial da vida familiar colonial: o abandono de recém-nascidos e bebês em ruas, caminhos, praças, adros de igrejas ou portas de casas de Vila Rica, atual cidade de Ouro Preto.

Nesse universo social, o abandono do filho, por razões morais ou econômicas, constituía um sofrimento, uma “pena”, que comprometia a salvação das almas dos pais e das crianças, uma vez que estas corriam o risco de falecer sem o batismo. No entanto, “ter pena” dessa situação também constituía um extraordinário gesto de misericórdia e de caridade, salvando a alma dos protegidos e dos protetores. Portanto, ao contrário de nosso tempo, o auxílio às crianças abandonadas coloniais não se relacionava às políticas sociais ou às noções de bem estar social como uma dimensão prática de cidadania.

O livro em questão também reafirma a vitalidade dos estudos de história social da família e das situações de desagregação familiar. Esta última dimensão deve muito às pesquisas pioneiras de Maria Luíza Marcílio que introduziu e difundiu no Brasil as técnicas e metodologias da demografia histórica. Renato Franco também se filia a importantes correntes internacionais da história social da família. Desde os anos 1960, esse campo historiográfico foi impactado pelo livro de Philippe Ariès, L’enfant et la vie familiale sous l’Ancien Régime, que traçou um quadro fascinante a respeito da condição da criança na Época Moderna, sugerindo que o sentimento e os valores de nossa época não se aplicam ao passado.

No Brasil, investigações semelhantes a essa começaram a ser registradas nos anos 1980, em grande parte influenciadas, conforme mencionamos, pelas sugestões de pesquisa da demografia histórica. Também cabe ressaltar casos isolados, como o de Gilberto Freyre que, no clássico Casa-grande & senzala (1936), traça um interessante painel da meninice senhorial e escrava, recorrendo a fontes documentais inéditas.

Somam-se a essa historiografia pesquisas oriundas dos estudos de representação, como o clássico The kindness of strangers: the abandonment of children in Western Europe from Late Antiquity to the Renaissance, de John Boswell. O exaustivo estudo de fontes literárias mostrou que o abandono de crianças, sobretudo de recém-nascidos, tem raízes antigas. Na Europa, tal prática foi abundantemente registrada na literatura clássica. No final da Idade Média, principalmente após a Peste Negra (1348), o problema se agravou, exigindo uma intervenção das instituições dos burgos e cidades medievais. Em Portugal, antes mesmo da colonização do Brasil, câmaras municipais e hospitais, como as Santas Casas de Misericórdia, começaram a criar formas de auxílio destinadas às crianças abandonadas.

No século XVII, o abandono de crianças também é registrado no ultramar português. Várias câmaras coloniais começam a pagar famílias para acolher os “enjeitados” ou “expostos”, conforme eram denominados na época. Os hospitais, por sua vez, como se registra na Santa Casa de Salvador (1726) e na do Rio de Janeiro (1738), importaram as portuguesas rodas dos expostos – tonéis de madeira giratórios, presos no meio da parede, unindo a rua ao interior do imóvel e preparados para acolher recém-nascidos abandonados.

A capitania de Minas Gerais não contou com rodas dos expostos, mantendo a tradição do auxílio via câmara ou senado da câmara. Renato Franco apresenta um quadro detalhado da atuação dessa instituição para o caso específico de Vila Rica. No livro A piedade dos outros…, a prática do abandono de crianças é estudada em suas várias dimensões. De fato, o problema era grave. Conforme o próprio autor afirma: “Em Vila Rica, no fim do século [XVIII], cerca de 20% das crianças nascidas livres eram enjeitadas pelos pais” (p. 27).

A leitura do livro também revela que a primeira capital mineira legounos uma das mais ricas coleções de documentos a respeito do abandono de crianças. Uma parte dessa documentação foi produzida pela câmara local, como no caso dos livros de matrícula de expostos. Outras séries fundamentais são provenientes dos arquivos eclesiásticos. As atas batismais das paróquias de Antonio Dias e Nossa Senhora do Pilar contêm, além dos nomes das crianças, os das pessoas que as recolhiam e dos padrinhos, pequenas anotações e reproduções de bilhetes que acompanhavam os bebês. Ao anotarem isso, os padres tornaram-se cronistas da vida cotidiana colonial, conforme pode ser observado no exemplo abaixo:

José, filho de pais incógnitos, que aos vinte e cinco dias do mês de agosto foi achado por José Caetano Pereira e por Caetano da Silva, exposto na rua defronte da porta do Doutor Tomé Inácio da Costa Mascarenhas, com um timamzinho [pequena camisola] usado de baeta [tecido felpudo de lã] vermelha, forrado de tafetá (Paróquia de Nossa Senhora do Pilar, Vila Rica, 08/09/1756).1

O livro A piedade dos outros… traça o que poderia ser definido como uma história da compaixão como razão do auxílio à infância. Essa experiência, por sua vez, era filtrada pela sociedade escravista que constantemente ameaçava reduzir meninas e meninos enjeitados à condição de escravos.

A atualidade desta pesquisa consiste na visão substancialista do passado, superando o anacronismo através da contextualização precisa de um tipo de auxílio familiar. Enfim, revela-se, assim, que cada época cria suas próprias configurações de proteção à infância. Compreender essa evolução é o melhor caminho para avaliar e refletir a respeito das opções que, no tempo atual, a sociedade brasileira escolhe e implementa.

1VENÂNCIO, Renato Pinto. Mensagens de abandono. Revista de História da Biblioteca Nacional, ano 1, n. 4, out. 2005, p. 33.

Renato Pinto Venâncio – Pós-doutor pelo Departamento de História da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo e professor no Departamento de Organização e Tratamento da Informação da Escola de Ciência da Informação. Pesquisador no Conselho Nacional de Desenvolvimento Científco e Tecnológico – CNPq.

A Revolução Americana – WOOD (RH-USP)

WOOD, Gordon S. A Revolução Americana. Rio de Janeiro: Objetiva, 2013. Resenha de: PANDOLFI, Fernanda Cláudia. Revista de História (São Paulo) n.172 São Paulo Jan./June 2015.

O livro A Revolução Americana de Gordon Wood é um exemplo da importância dos livros de divulgação científica para difusão do conhecimento histórico. Publicado originalmente em inglês em 2002, o livro refina e aplica interpretações desenvolvidas pelo autor em trabalhos anteriores, por exemplo, Wood (1991), que lhe deu o prêmio Pulitzer de 1991, e Wood (1969). Com linguagem acessível ao público não especializado e capítulos dispostos cronologicamente, o autor analisa os efeitos que a Revolução Americana produziu na vida cotidiana daquela sociedade. Sua principal contribuição neste e em outros trabalhos tem sido a de criticar ou, em alguns casos, qualificar tanto análises que tendem a criar uma aura de divindade sobre a geração dos líderes revolucionários como os estudos produzidos principalmente na primeira metade do século XX, que tendem a privilegiar os aspectos de conflitos de classes na revolução. Autor de reconhecida produção acadêmica, Gordon Wood concluiu o doutorado em Harvard e leciona atualmente na Universidade Brown.

Organizado em sete capítulos, o livro aqui resenhado inicia-se com a abordagem das origens da revolução e finaliza com a sua institucionalização. O crescimento populacional e a expansão da riqueza no período prévio são considerados os principais fatores para a eclosão da revolução por propiciarem o surgimento de poderes políticos locais independentes nas regiões mais distantes da colônia, o que dificultou significativamente sua governabilidade pelos ingleses. A implantação de regulamentações e leis como a Lei do Selo e a Lei do Chá nesse contexto catalisaram as insatisfações, mobilizando e unificando a resistência contra os ingleses. Uma inovação teórica importante introduzida pelo autor, já no início do livro, é a adoção de uma perspectiva relacional, em que as mudanças nas formas pelas quais as pessoas se conectavam socialmente redefiniram progressivamente as relações de poder. Particularmente interessante a esse respeito é a sugestão de que a intensa mobilidade populacional no período teria favorecido a formação de vínculos mais fluídos entre as pessoas, dificultando a permanência das relações de dependência que caracterizavam a sociedade colonial.

Líderes revolucionários importantes como George Washington e Thomas Jefferson são brevemente citados, provavelmente devido a limitações editoriais. Aos pesquisadores interessados em uma descrição mais detalhada do papel desses líderes na revolução, sugere-se outro texto do autor (Wood, 2007), que explica que eles, apesar de não serem democratas no sentido moderno do termo, criaram uma aristocracia diferente da nobreza hereditária que governou até o século XVIII.

Nos capítulos seguintes, o autor reconstitui a gradativa mudança na forma de fazer política no período, analisando, por exemplo, o surgimento das associações locais, dos governos informais e de um novo tipo de política popular, em que os chamados “incendiários” competiam pela liderança política trazendo escândalos morais para o centro do debate político. O mais influente desses incendiários, segundo o livro, foi Thomas Paine, que se notabilizou por substituir em seus panfletos políticos o latim e as referências eruditas pelas citações bíblicas, alcançando, com isso, um público muito mais amplo.

Sobre a guerra de independência propriamente dita, o autor discorre a respeito dos diversos fatores que levaram à derrota da Grã-Bretanha como, por exemplo, os obstáculos decorrentes da grande extensão territorial e da natureza selvagem das colônias, o apoio dos franceses e a liderança militar de George Washington. A parte mais esclarecedora dessa discussão, entretanto, é a conclusão de que a Declaração de Independência, por representar um compromisso entre as treze colônias, significava que o termo Estados Unidos tinha um sentido literal naquele momento em que o conceito de nação estava relacionado às identidades regionais.

O republicanismo que se institucionalizou com a revolução é analisado pelo autor não somente como uma forma de governo, mas como uma forma de vida, de ideais e de valores, que se baseavam em uma moral mais rígida, se comparada a da monarquia que tolerava altos graus de interesses privados e corrupção entre seus membros. Ao afirmar que o republicanismo era uma ideologia “tão radical para o século XVIII quanto o marxismo seria para o século XIX” (p. 119), o autor enfatiza exatamente esse ponto, argumentando que a revolução desafiou princípios fundamentais da monarquia como a hierarquia, a devoção aos laços de sangue, o patriarcalismo e as relações de dependência. O republicanismo americano, entretanto, não era logicamente inconsistente com a monarquia, tendo sido seus princípios adotados por intelectuais que procuravam reformar e revitalizar as sociedades monárquicas em outros países.

As mudanças na vida cotidiana trazidas com a revolução são analisadas a seguir. No âmbito religioso, por exemplo, proliferaram igrejas mais atraentes aos homens sem raízes de uma sociedade em que as antigas relações paternalistas declinavam. Uma conclusão instigante do autor é que, embora não tenham produzido uma distribuição da riqueza mais equânime, essas mudanças na vida cotidiana fizeram os americanos se sentirem mais iguais. O homem comum passou a exigir o direito de envergar títulos – o sr. e sra. – e muitos homens ricos referiam-se orgulhosamente à sua origem humilde, tendo a publicação da autobiografia de Benjamin Franklin iniciado a tradição de celebração do homem que “fez a si próprio”.

A ênfase do autor na análise das transformações advindas da revolução, contudo, não implica a adoção de uma abordagem dicotômica entre ruptura e continuidade; ao contrário, o autor prefere explicar essas mudanças sem dispensar totalmente as antigas estruturas políticas e de pensamento. A igualdade republicana, por exemplo, apesar de não ter por objetivo eliminar todas as diferenças entre os cidadãos, embutia, mesmo que em geral de forma implícita, a “ideia explosiva” de que somente a educação e o refinamento diferenciavam os homens. Da mesma maneira, argumenta o autor, embora não tenha produzido muitos efeitos imediatos, a ideia de igualdade republicana levou ao início do questionamento do ambiente intelectual que apoiava a escravidão.

Os capítulos finais analisam o período mais crítico da revolução, caracterizado pelo quase caótico ato de legislar em nível estadual com o crescimento dos interesses localistas. A dificuldade de arrecadar impostos e a ameaça da integridade territorial, além disso, constituíam uma ameaça real à viabilidade da revolução. Nesse contexto, não é surpreendente que tenha havido uma guinada para a moderação, com a reorganização da estrutura político-administrativa para conter o que chamavam de “despotismo democrático”, levada a cabo sobretudo pelos federalistas, que se viam salvando a revolução de seus excessos. Essa “desradicalização”, contudo, não impediu que inovações políticas abrissem espaço para a emergência da “política popular” adotada pela geração seguinte, principalmente no norte do país, em que homens com pouca instrução e riqueza adentraram na política como representantes de grupos étnicos e religiosos, enfraquecendo o ideal republicano anterior que imaginava (utopicamente) que os legisladores deveriam ser árbitros imparciais das disputas entre os indivíduos.

O grande mérito deste livro, em nossa opinião, é o de retratar o debate de questões intelectuais e políticas em um processo que teve, e ainda tem, amplas repercussões no debate político contemporâneo. Para o público acadêmico, especificamente, é particularmente valiosa a seção de “notas bibliográficas”, em que o autor resenha extensivamente a literatura sobre a Revolução Americana em sete páginas, ressaltando temáticas e enfoques teóricos dos autores. Trata-se, portanto, de leitura introdutória importante para compreensão não apenas da sociedade americana da época da independência, mas também da emergência das estruturas políticas, administrativas e mentais contemporâneas.

Referências

WOOD, Gordon S. Revolutionary characters: what made the founders different. Londres: Penguin Books, 2007. E-book: Kindle edition. [ Links ]

WOOD, Gordon S. The creation of the American Republic, 1776-1787. Chapel Hill: University of North Caroline Press, 1969. [ Links ]

WOOD, Gordon S. The radicalism of the American Revolution. Nova York: Vintage eBooks, 1991, Kindle Edition. [ Links ]

Fernanda Cláudia Pandolfi – Doutora em História pela Universidade Estadual Paulista. Pós-doutoranda em História pela Universidade Federal de Minas Gerais. E-mail: ferpandolfi@hotmail.com.

The economic consequences of the Atlantic slave trade – SOLOW (RH-USP)

SOLOW, Barbara L. The economic consequences of the Atlantic slave trade. Nova York: Lexington Books, 2014. Resenha de: ALFONSO, Felipe Rodrigues. Revista de História (São Paulo) n.172 São Paulo Jan./June 2015.

I

A nova publicação de Barbara Solow, The economic consequences of the Atlantic slave trade, reúne sete ensaios escritos pela autora ao longo de 25 anos. Sua preocupação central é, a partir de uma perspectiva fundamentada nas categorias da história econômica, examinar “o papel da escravidão no desenvolvimento histórico do capitalismo moderno” (Prefácio de Dale W. Tomich, p. ix,) compreendendo a maneira pela qual a instituição “trouxe o Novo Mundo para a economia internacional” (p. xiii). Não é, contudo, nesta correlação entre capitalismo e escravidão que o leitor deverá notar a verdadeira contribuição do livro. Afinal, como a própria autora admite, coube a Eric Williams o mérito de tê-la pioneiramente apontado. A relevância desta coletânea está no tratamento metodológico que Solow garante à questão, do qual decorrem duas consequências principais: (i) a partir da barreira erguida pelo academicismo mais tradicional entre história e economia, faz-se uma ponte que permite conciliar a preocupação com o particular da primeira e a tendência universalizante da segunda; (ii) ao invés da escravidão como variável isolada, reafirma-se a importância da combinação histórica entre mão de obra escrava, produção açucareira e sistema de plantation, denominados pela autora de “complexo escravo/açúcar/plantation“.

A partir do tratamento descrito e de sua confluência com dados históricos mais recentes, Solow reafirma a importância historiográfica das ideias de Williams perante alguns de seus críticos mais contundentes.

II

Em 1944, Eric Williams publica Capitalism & slavery, um verdadeiro divisor de águas na historiografia sobre a escravidão moderna. O livro é, nas palavras do próprio autor, “um estudo econômico do papel da escravidão negra e do tráfico de escravos em prover o capital que financiaria a Revolução Industrial na Inglaterra, e do capitalismo industrial maduro em destruir o sistema escravista”.1

A correlação estabelecida por Williams entre o desenvolvimento do capitalismo industrial e a exploração do braço escravo romperia com um velho paradigma segundo o qual as preocupações humanitárias do movimento abolicionista britânico teriam sido as verdadeiras responsáveis pelo enfraquecimento da escravatura perante a opinião pública. Este paradigma negligenciava a própria história, na medida em que tratava o movimento abolicionista como uma espécie de “figura à frente de seu tempo”, sem a qual o status quo teria permanecido inalterado. O que a tese de Williams faz é, por meio de uma inversão de termos, retomar para a história seu poder de agência. Contrariamente ao discurso dos ideólogos do Império, Williams afirma que os britânicos tinham plena consciência de que a escravidão já havia cumprido seu papel, não sendo mais necessária para que as engrenagens do capitalismo industrial seguissem a pleno vapor. Os verdadeiros motivos por trás do abolicionismo teriam sido, portanto, de natureza econômica, relacionados, mais precisamente, ao declínio irreversível das colônias escravistas britânicas. É o que se consagrou chamar de “tese do declínio”.

No entanto, a intenção de Williams não era simplesmente promover um revisionismo historiográfico, mas fundar politicamente o nacionalismo entre os caribenhos, ainda controlados pela Grã-Bretanha. Muito embora seu verdadeiro público-alvo não fossem os acadêmicos britânicos, o silêncio destes não denota indiferença, senão um verdadeiro temor em relação ao potencial revolucionário de suas ideias. Esta parece ser a explicação mais plausível para a primeira edição britânica ter vindo a público somente em 1964.

Findados os 20 anos de ocultamento, seria preciso, agora, refutar os pilares fundamentais da tese. A partir do final da década de 1968, Roger Anstey, Robert Thomas, Philip Coelho e Stanley L. Engerman iniciam uma importante bateria de críticas. Todavia, será o livro Econocide, de Seymour Drescher, que, em 1977, encabeçará a investida mais importante contra as ideias de Williams, seguido de nomes como David Brion Davis e David Eltis. O ataque desses autores será desferido em dois flancos estratégicos: (i) negando que o complexo escravo/açúcar/plantationtenha contribuído significativamente para a Revolução Industrial na Inglaterra; (ii) afirmando que a abolição fora prejudicial às finanças britânicas, um verdadeiro “econocídio”.

Solow pondera que, juntamente com a imprecisão histórica, há um equívoco lógico na argumentação dos críticos. Afinal, se o complexo escravo/açúcar/plantation foi tão insignificante quanto se alega, não há motivos para crer que a abolição do tráfico de escravo tenha sido sequer danosa.

As alegações desses críticos, somadas às contra-argumentações dos seguidores de Williams, edificaram um dos debates mais importantes em torno da escravidão moderna no século XX, somente dentro do qual o livro de Solow poderá ser verdadeiramente apreciado. E, muito embora o posicionamento da autora seja favorável às ideias de Williams, cada um dos sete ensaios de sua coletânea atua na direção de “atualizá-las” com dados históricos mais recentes, que se beneficiaram de décadas de revisão historiográfica. Passados 70 anos de Capitalism & slavery, esses dados apenas comprovam a riqueza de suas proposições. Afinal, como a própria Solow admite, “As contribuições de Williams não devem ser avaliadas por um exame minucioso dos argumentos que embasam seus insights, mas pela validade dos próprios insights” (p. 48).

III

Como dito anteriormente, o livro é dividido em sete capítulos. No primeiro, “Capitalism and slavery in the exceedingly long run“, Solow traça o caminho percorrido pelo complexo escravo/açucar/plantation, mesmo antes da chegada de Colombo, até consolidar-se no Atlântico.

O capítulo seguinte, “Slavery and colonization“, discute as origens econômicas da escravidão no Novo Mundo, contrapondo as opções por mão de obra cativa e livre.

O terceiro capítulo, “Eric Williams and his critics“, é talvez aquele que melhor sintetiza a intenção do livro como um todo. Além de reafirmar a dívida intelectual de Solow para com as ideias de Williams, toca em questões centrais abordadas ao longo da coletânea. Dentre elas estão: (a) a importância do complexo para o despertar da Revolução Industrial na Inglaterra; (b) o declínio das ilhas britânicas como desencadeador do movimento de abolição; (c) e o racismo como consequência, não causa, da escravidão.

No capítulo 4, “Why Columbus failed: The New World without slavery“, Solow reconhece que a Europa beneficiou-se sobremaneira da descoberta da América, mas não sem os milhões de escravos que trabalharam nas plantações do Novo Mundo. Foram eles os verdadeiros responsáveis pela rentabilidade das terras recém-descobertas.

O capítulo seguinte, “Caribbean slavery and British growth“, retoma a importância da escravidão como fator fundamental no desencadear da Revolução Industrial na Inglaterra.

O capítulo 6, “Marx, slavery, and American economic growth“, estabelece uma analogia entre a escravidão e o movimento dos cercamentos na Inglaterra em promover capital para a industrialização, com o fator comum sendo o estabelecimento de direitos de propriedade privada até então inexistentes.

Finalmente, “The transition to plantation slavery: the case of the British West Indies“, examina a difusão da escravidão de Barbados, passando pelas ilhas Leeward e chegando à Jamaica, em termos da demanda por produtos e condições de custo variáveis nas ilhas.

Os ensaios deste livro acompanham o complexo escravo/açúcar/plantationao longo de um intervalo de espaço e tempo extenso que vai do Mediterrâneo ao Atlântico, do século XI ao XIX. Em seu esforço, Solow busca sempre aliar as teses de Williams a categorias mais recentes atuais, cuidadosamente emprestadas tanto da história quanto da economia.

IV

Uma das principais contribuições do livro de Solow foi reconhecer o complexo escravo/açúcar/plantation como o maior responsável por inserir o hemisfério ocidental nos quadros da economia-mundo. No primeiro capítulo, a autora enxerga o complexo sob a perspectiva da longa duração, traçando um percurso que vai de suas origens mediterrâneas até sua chegada ao Atlântico. Segundo explica, tanto a conquista cristã de terras muçulmanas no século XI quanto aquela realizada por Colombo em terras americanas no século XV pertencem, em forma e conteúdo, a um movimento contínuo de expansão europeia, dentro do qual esteve sempre presente o complexo escravo/açúcar/plantation. Mais importante, “seus métodos eram”, desde o início, “inteiramente capitalistas” (p. 4). As plantações eram conduzidas por trabalhadores vindos do Oriente, servos locais e escravos de origem árabe e síria; engenhos hidráulicos eram usados para processar a cana; caldeiras de cobre eram importadas da Itália; e boa parte do açúcar era exportado.

É por isso que, às abordagens nacionalistas mais superficiais, escapa a importância da escravidão para o desenvolvimento do mundo moderno, em específico do processo de industrialização britânico. Celso Furtado, por exemplo, é acusado pela autora de não perceber que as colônias italianas do Mediterrâneo, não o Brasil, foram o primeiro empreendimento colonial agrícola em grande escala do hemisfério ocidental. Ao final do capítulo, percebemos que, de fato, a aparentemente despretensiosa menção a Furtado não foi desmedida:

Para onde a escravidão não foi, menos trocas fluíram da Europa para o resto do mundo. Contos fantásticos de que o crescimento europeu deveu-se à exploração da “periferia” pela “metrópole” não resistem a exames acadêmicos. A exploração que realmente importou ao longo de 300 anos foi a exploração de escravos africanos (p. 21).

A centralidade desses “300 anos” de escravidão africana, instituição sem precedentes na história da humanidade, está clara nas obras de Williams e Solow. Muito mais do que apenas transportar 12 milhões de cativos para o hemisfério ocidental e explorar sua força de trabalho, ela criou um verdadeiro sistema internacional de trocas, responsável por catalisar o processo de industrialização na Inglaterra. No quarto capítulo, Solow chega a dizer:

A Europa beneficiou-se significativamente da descoberta da América, mas não sem o trabalho de milhões de escravos em sua maioria negros africanos: não tivesse esse trabalho estado disponível, o desenvolvimento econômico teria sido travado e seu crescimento retardado (p. 62).

No entanto, por que a opção pelo escravo em detrimento do trabalhador livre? Da mesma maneira, pode-se questionar a escolha pelo açúcar. A resposta dessa última questão é mais simples. As plantações em grande escala reduziam os custos de coerção, pois um único capataz poderia monitorar centenas de negros. Além disso, a demanda por açúcar era grande e elástica, e as técnicas de processamento já vinham sendo desenvolvidas desde a época medieval.

No que tange à opção pelo escravo, os economistas clássicos responderiam que a opção generalizada pelo africano deveu-se a (a) diferenças relativas no fator preço: quanto mais gastos com a coerção do cativo, menos interessante torna-se mantê-lo; e (b) disponibilidade de terras livres: num cenário de abundância, somente a coerção manteria o trabalhador em propriedade alheia, impedindo que ele almejasse desbravar novos territórios.

A resposta à afirmação (a) aparece, sobretudo, no sétimo capítulo, em que Solow estuda a transição para o trabalho escravo enquanto sistema industrial nas Índias Ocidentais britânicas. Seu argumento central defende que, juntamente com o fator preço, a lucratividade do braço escravo em relação ao livre varia de acordo com o tipo de produção, sendo o mais vantajoso possível no caso do açúcar. Isso se explica pela: (i) maior produtividade do cativo em grandes unidades, tendo em vista a facilidade com que trabalha em grandes equipes; (ii) aversão do trabalhador livre ao rigor e à disciplina envolvidos neste tipo de produção.

Não se pode, portanto, preocupar-se tão-somente com os preços relativos e negligenciar a importância do tipo de produção. No caso, o açúcar. Nesse sentido, além de contrariar aqueles que priorizam os preços relativos da mão de obra como única variável, as considerações de Solow ressaltam, uma vez mais, a estreita relação entre escravidão, açúcar e sistema de plantation. Nas palavras da própria autora, “Não é possível dizer o que teria sido da história da escravidão moderna sem o açúcar, mas é perfeitamente possível especular a respeito” (p. 119). Afinal, grande parte dos africanos embarcados para o Novo Mundo teve como destino regiões de produção açucareira, como Brasil, Caribe e Cuba.

A resposta à afirmação (b) aparece, sobretudo, no segundo capítulo. “A escravidão não foi causada pela terra livre.” Onde há disponibilidade de terras, o escravo pode ou não ser mais rentável que o trabalhador livre. Isso depende dos custos e da produtividade de cada um e irá variar, como dito anteriormente, de acordo com o tipo de produção. Se comprovadamente mais rentável, ela pode ou não ser adotada; se adotada, ela pode ou não ser abolida. Essas escolhas dependem de vicissitudes políticas, sociais, ideológicas e econômicas.

Dito isso, Solow entende que um erro comum aos críticos de Williams é dissociar escravidão e abolicionismo dos eventos da economia e da sociedade. “Isso é especialmente verdadeiro no caso de Seymour Drescher, que, em Econocide, parece ver a explicação causal da abolição como uma batalha entre ideologia e determinismo econômico, aquela vencendo por knockout” (p. 56). Do ponto de vista de Williams, abolição e emancipação só podem ser entendidas como a interação entre ideologia, condições econômicas e mudanças na estrutura social inglesa.

V

Aos olhos de Solow, a escravidão foi, portanto, uma instituição intimamente ligada ao açúcar e ao sistema de plantation. É por isso que a escolha pelo trabalhador africano deve ser explicada por motivos econômicos, não raciais, e suas consequências – como a inserção do hemisfério ocidental nos quadros da economia-mundo e o próprio racismo -, analisadas sob o mesmo prisma. Negligenciar a correlação entre escravo, açúcar e plantation seria ignorar os reais motivos que trouxeram 12 milhões de africanos para o Novo Mundo, migração esta que alterou definitivamente os rumos da industrialização britânica em específico e do capitalismo moderno em geral. O próprio processo de abolição só ganha sentido histórico na medida em que se reconhece o esgotamento de um modelo que perdurou por 300 anos.

Com efeito, a defesa dos argumentos de Williams realizada ao longo dos sete capítulos é extremamente legítima, tanto por comprovar a atualidade de teses que completam 70 anos quanto por prová-las ainda pertinentes ao debate historiográfico atual. Faço minhas as palavras de Rafael Marquese: “Capitalismo & escravidão, não obstante estar datado em certos aspectos, permanece como uma obra capaz de suscitar novas e surpreendentes leituras – e, assim, de nos ajudar a melhor compreendermos o nosso passado escravista”.2 É, sobretudo, nesse sentido que a coletânea de Solow justifica sua importância.

Referências

MARQUESE, Rafael de Bivar. Capitalismo & escravidão e a historiografia sobre a escravidão nas Américas. Estudos Avançados 26 (75), 2012, p. 341-354. [ Links ]

TOMICH, Dale W. Preface. In: SOLOW, Barbara L. The economic consequences of the Atlantic slave trade. Lanham; Boulder; Nova York; Toronto; Plymouth, UK: Lexington Books, 2014. [ Links ]

WILLIAMS, Eric. Capitalism & slavery. Chapel Hill: The University of North Carolina Press, 1944. [ Links ]

1WILLIAMS, Eric. Capitalism & slavery. Chapel Hill: The University of North Carolina Press, 1944, p. vii.

2MARQUESE, Rafael de Bivar. Capitalismo & escravidão e a historiografia sobre a escravidão nas Américas. Estudos Avançados 26 (75), 2012, p. 341-354, p. 354.

Felipe Rodrigues Alfonso – Universidade de São Paulo. Bacharel em História e mestrando no Programa de Pós-Graduação em História Social do Departamento de História da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas. E-mail: feliperalfonso@gmail.com.

História da Enfermagem. Brasília, v.6, n.1, 2015.

POSTED BY: HERE 1 DE JANEIRO DE 2015

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